26 setembro 2008

ainda o voto dos emigrantes

Dois apontamentos:

Vários blogues criticaram o facto de a Manuela Ferreira Leite ter interrompido o seu silêncio para falar justamente desta questão. Diziam eles que é uma questão menor. De tão obcecados que andam a criticar a Manuela Ferreira Leite, nem param para pensar se têm razão ou se já só batem por reflexo condicionado.

Até agora, eu achava que os portugueses estavam a dizer tão mal do PS devido à acção de agentes de má-língua ao serviço de estratégias várias, resultando numa epidemia nacional de negativismo lemingue.
Bem: agora que sofri na própria pele os efeitos da actuação deste governo, vou ter de dar o dito por não dito.
Mas garanto que não imaginava que fosse possível descer tão baixo.

24 setembro 2008

do desespero

Estes dois posts:

- o 112 distrital

(...) Dão-me outro número que responde ao primeiro toque: conto a história pela 3ª vez. Vão passar para outra extensão: conto a história pela 4ª vez e, finalmente, um oásis: sem burocracias e/ou pedidos de explicações, alguém se disponibilizou para ir até lá e verificar o que se passa.
Entre a minha chamada para o 112 distrital e a chegada daquela boa alminha da GNR à casa do meu irmão mediou bem mais de uma hora.
(...)


- o Cazaquistão

(...)Fui encontrá-lo sentado na cova de uma maca. Assim mesmo: uma maca em V e lá estava ele sentado no epicentro da cova. A sua era uma da dúzia de macas encostadas umas às outras no corredor de acesso ao serviço de urgências. Um corredor a servir de enfermaria, a servir de quarto de hospital, pejado de macas, cheias de novos e velhos, ligados ao oxigénio e ao soro, uns conscientes, outros em perfeito delírio. E os visitantes por ali, a assistirem àquilo tudo. Impotentes. Um homem, numa cadeira de rodas, algaliado, pedia uma maca para se deitar um bocadinho. Não havia. Não havia macas sobrantes. Teria de aguardar na cadeira de rodas.(...)

a gargalhada do dia

A Rita:

3. Ainda da Vogue (estou mais ou menos à procura de um penteado que me envelheça um bocadinho, que me dê um ar de senhora que pode mandar numa escola em Bruxelas e que se possa desfazer a seguir): o rabo de cavalo, enquanto penteado, é adequado a uma noite confortável a ver dvd's. Estou muito mais descansada. Nunca sei como arranjar o cabelo quando planeio uma noite confortável a ver dvd's.

22 setembro 2008

agarrem-me, que eu vou votar PSD!

Ou então: agarrem-me, que estou com vontade de trocar a nacionalidade portuguesa pela alemã.
Há dias assim.

Os alemães podem votar sem terem de comparecer a um local de voto. No dia das eleições podem estar a gozar um bom fim-de-semana ou férias, podem estar ausentes por churrasco no jardim ou estágio no estrangeiro, ou até envolvidos num projecto internacional sei lá o quê neste mundo cada vez mais globalizado. Podem votar com alguma antecedência numa assembleia eleitoral aberta previamente para o efeito, ou enviar o voto pelo correio.
Eu, cidadã portuguesa residente na Alemanha, posso votar por correspondência para as eleições da minha autarquia ou do parlamento europeu. Mas não posso votar por correspondência para eleições portuguesas - como se os emigrantes morassem todos à esquina do seu local de voto.

Parece que acabaram com essa possilidade devido às irregularidades. Mas, convenhamos, se é esse o problema, não seria mais fácil tratar de corrigir as irregularidades, em vez de impedir os emigrantes portugueses de exercerem o seu direito de voto?

É nestes momentos que me lembro daquela frase "daria a minha vida para que tu possas dizer o que quiseres, mesmo que não concorde com a tua opinião".
Pois: estou capaz de oferecer o meu apartamento a emigrantes eleitores do PSD que tenham de se deslocar a Berlim para votar.

(Nada, nada, passa-me já, é só contar até vinte e respirar profundamente, e retiro já o convite aos eleitores do PSD)

(Mas pergunto-me, muito sinceramente, se me vale a pena dar-me ao trabalho de ir ao consulado votar num partido que assim me complica o exercício do mais básico direito democrático. Não é que considere o PSD melhor, mas começo a desconfiar se é assim tão pior que o PS!)

***

Por sorte que o 10 de Junho ainda vem longe. Porque se fosse agora, e viessem com aquela cantilena habitual das comunidades portuguesas e os nosso queridos emigrantes e o $#%&"#$, se fosse agora, dizia, não seria capaz de impedir um chorrilho de malcriadices que até a mim própria fariam corar.
Mas sempre quero ver que belos discursos empulgados farão no próximo Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

"Empulgado" não é erro ortográfico, é fúria.

***

Emigrantes, que meios de protesto nos restam?
Encerrar imediatamente as nossas contas de emigrantes na Caixa Geral de Depósitos?
Cortar o mais possível nas remessas (já não é desta que mando uns mil euritos para pintar a minha casa em Portugal)?
Mudar de nacionalidade (já estive bem mais longe de o fazer)?

***

ADENDA
No ma-schamba há uma lista de links para blogues onde este assunto foi discutido. Gostei especialmente deste, no respirar o mesmo ar, e fartei-me de rir com o desabafo do Marco Oliveira.
Completo com este apontamento, da Snowgaze.

20 setembro 2008

ai o casamento

Miguel,

A tua resposta ajudou-me a ver com mais clareza.
Acho que andei a misturar duas coisas diferentes: contrato de casamento e relação afectiva.

Fui consultar o meu Código Civil (de 1982 - não sei o que entretanto terá mudado), onde se lê, no artigo 1577º: "casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código."
E depois vêm os deveres (artigo 1672º: "Os cônjuges estão reciprocamente vinculados pelos deveres de respeito, fidelidade, coabitação, cooperação e assistência"), seguidos de inúmeros artigos sobre filhos e bens.
Não encontrei lá o menor traço de afectividade.
Na celebração do casamento não se pergunta a cada um dos noivos "hoje tens-lhe um grande amor?", mas: "tens a certeza que sabes no que te estás a meter, e tens a certeza que queres comprometer-te a isso?"

Vendo a partir desta perspectiva, parece-me que a revisão da lei do divórcio pôs o carro à frente dos bois.
Era preciso discutir primeiro o casamento (e não vou falar da parte sobre "pessoas de sexo diferente").
De que falamos quando falamos de casamento?
Daquele romântico "que seja infinito enquanto dure" do Vinicius, ou de um conjunto de obrigações em que incorre quem assinar esse contrato, uma troca de garantias entre os contraentes?
Penso que o processo legal do divórcio é mais a rescisão de um contrato que o anúncio oficial do fim de uma relação sentimental.

Acho positivo que se torne mais fácil assumir para os efeitos legais que uma relação acabou.
Mas, por outro lado, o que se passa com as obrigações e o seu não cumprimento? Vamos alterar o artigo 1672º para: "os cônjuges estão reciprocamente vinculados pelos deveres desejáveis, mas facultativos, de respeito, fidelidade, coabitação, cooperação e assistência"?
(ai! acho que contraí telepatia com o Cavaco Silva: escrevi isto, para descobrir depois que ele diz o mesmo no ponto 5 do seu veto)
Quer dizer: ao desvincular o faltoso da sua culpa (de não cumprimento do estabelecido num contrato), mais vale nem sequer realizar o contrato.

E já que falei do veto presidencial, vejamos melhor o ponto 6.
Não compreendo aquela história da mulher a apanhar forte e feio e a querer continuar casada. A não ser que a intenção de quem escreveu o veto fosse dizer que uma pessoa (não é preciso achar que é sempre a mulher), se foi vítima de violência doméstica, quer que a repartição dos bens no decorrer de um processo de divórcio tenha em conta o comportamento do cônjuge, em vez de ter de recorrer a um processo judicial para receber uma indemnização.
No mesmo ponto, e logo a seguir, a parte em que se refere a nova redacção do nº 2 do artigo 1676º fez-me imaginar neste cenário: faz de conta que eu fazia questão em não arranjar emprego porque prefiro gastar o do meu marido a ganhá-lo eu, não dava o necessário apoio aos filhos, nunca punha o jantar na mesa a horas decentes para os ritmos familiares, e de caminho arranjava um namorado. Pedia o divórcio, e como tinha sido a parte prejudicada no casamento, já que me vira obrigada a não trabalhar para dar assistência à família (diria eu), o desgraçado do meu ex-marido tinha de me dar uma choruda recompensa.
(Também é verdade que, neste caso, ele pagaria isso e muito mais de bom grado só para se livrar de mim...)
Queremos uma lei que permita este tipo de situações?

A minha primeira pergunta no post anterior padece dessa confusão entre a vida afectiva de um casal e as obrigações contratuais do casamento civil.
Muitas das discussões realizadas andaram também à volta dessa confusão. Em especial a questão da culpa. Não se trata da culpa no fim da relação afectiva, mas no não cumprimento de um ou de vários deveres que foram aceites de livre vontade ao celebrar o contrato de casamento.

Na tua última frase também não se estabelece bem a diferença:
"De resto, dar as coisas por garantidas é um excelente caminho para sufocar lentamente (às vezes não tão lentamente como isso) a saúde de uma relação."
Completamente de acordo, se as "coisas dadas por garantidas" de que falas são os sentimentos e a disponibilidade do parceiro.

Contudo, no que diz respeito aos deveres, nunca corres o risco de os dar por garantidos, porque são uma exigência que fazes a ti próprio, e são resultado de consciencialização e conquista pessoais e quotidianas.
Quem diria que um texto legal tão pouco romântico fornece padrões tão importantes para a saúde de uma relação?


***

No entretanto, informei-me: as regras do jogo que vigoravam quando eu me casei na Alemanha já não são válidas.
Como eu sou um bocado maluca, provavelmente teria feito tudo da mesma maneira, e depois logo se vê.
Mas, por uma questão de princípio, não acho bem que mudem as regras a meio do jogo. Não podiam mudá-las para casamentos celebrados a partir da data de entrada em vigor da nova lei?

18 setembro 2008

ai o divórcio

Será que, ao facilitar os trâmites do divórcio, alguns casamentos vão melhorar?
Será que, por ser muito mais fácil assinalar o fim, as pessoas do casal não se deixarão acomodar na segurança do estabelecido, e estarão mais atentas a dar sentido e conteúdo ao que têm, sabendo-o agora tão institucionalmente frágil?

(O que levanta uma questão para debate - de preferência, antes de casar: uma vida de casal é ancorada na segurança institucional ou na vontade das partes?)

Será que vem por aí um novo impulso à emancipação das mulheres? Será que estas vão estar mais atentas à defesa dos seus interesses, por saberem que de um dia para o outro podem acordar divorciadas e no mais baixo nível da carreira profissional - o único que permitiu conciliar o trabalho com a assistência à família e os afazeres domésticos?

(isto não são bem ideias, isto sou eu a escrever mais rápido que o pensamento)

mais Estado, menos Estado

A TV alemã passa a vida a organizar debates sobre os acontecimentos da actualidade. Ontem foi a vez, como não podia deixar de ser, de discutir os mercados financeiros.
Entre o zapping e o sono, ouvi dois comentários interessantes:
- "Se o Estado actua como amortecedor das crises que os institutos financeiros provocam, estes vão habituar-se a jogar sem rede porque sabem que o Estado não os deixa cair. Para evitar a irresponsabilização galopante dos managers, é fundamental que o Estado regule drasticamente o funcionamento destes mercados."
- "Boa ideia", respondia outro, "mas como é que um Governo nacional pode actuar sobre este complexo mundo financeiro completamente internacionalizado?"

17 setembro 2008

"a globalização do toque"

No Contemplamento vem hoje uma descrição hilariante da vida de uma pessoa que gosta de manter as distâncias neste mundo cada vez mais beijoqueiro.

Como a compreendo!

Quando vim viver para a Alemanha, trazia os dois beijinhos na mala de cartão. Os amigos do Joachim cumprimentavam-me de abraço - com o qual eu não contava. O resultado era eu avançar para eles de beijinho em riste, enquanto eles chegavam perto demais num repente de abraço, e a combinação destes movimentos acabar com eu a dar-lhes um bruto beijo no pescoço. Deviam pensar que eu era maluca; eu só pensava com os meus botões que eles haviam de ir ser assim efusivos para a terra deles.

Este Verão apanhei pela proa com um emigrante em França, que por tudo e por nada dava quatro-beijinhos-quatro.
Para cúmulo, fazia-o a uma velocidade vertiginosa, sem afastar muito a cara naquele vaivém de uma bochecha para a outra. E eu ali a deixar, e a pensar que estava tem-te-não-caias para um beijinho de esquimó.

Também não gosto de ver a Angela Merkel aos beijinhos aos outros políticos.
(Ainda hei-de verificar se o Sarkozy lhe dá quatro-beijinhos-quatro, e a quantos milímetros lhe fica do nariz.)

Mas sejamos optimistas: apesar de tudo, na terra de onde ela vem as coisas já foram piores.

16 setembro 2008

turistas em Lisboa

A minha vizinha, aqui de Berlim, passou uns dias em Lisboa.
Disse-me que achou a cidade muito pior que há sete anos, quando lá esteve pela primeira vez.
A pobreza, o estado degradado das casas, dizia ela.
Tanta mudança em apenas sete anos?, admirei-me eu.
Parece que se perdeu a tentar subir para o castelo, e andou a subir e a descer escadas e ruelas numa encosta qualquer. Não me disse qual, mas pareceu-me que não seria Alfama, nem nenhum dos bairros que vêm nos guias turísticos.
Era um bairro com muitos muçulmanos, dizia ela.

***

A minha vizinha, lá de Portugal, passou uns dias em Lisboa.
Já aqui falei dela uma vez: é aquela mulher de 32 anos que já trabalha há 20, e não conseguiu ainda sair do salário mínimo. Apesar das Novas Oportunidades não pode continuar os estudos porque não tem carro nem boleia para as aulas nocturnas. Transportes públicos? A camioneta precisa de mais de uma hora para fazer os 12 km que a separam da cidade, e às sete da manhã já está a sair de novo para o trabalho.

Andou a poupar durante anos, e foi agora passar três dias a Lisboa. Pela primeira vez na vida.
Regressou feliz. Firmemente decidida a voltar, e a pôr de lado todos os meses algum dinheiro para poder entrar nos sítios onde não entrou desta vez por serem demasiado caros. O jardim zoológico, por exemplo.

Fiz-lhe um circuito para "Lisboa por pouco dinheiro". A Expo, a travessia no Cacilheiro, a autêntica fábrica de pastéis de Belém, os eléctricos. Coisas assim. Se tiverem mais sugestões, agradeço. Eu, e mais três mulheres do Portugal real, que vão atravessar onze meses de fábrica de confecções com a miragem de quatro dias de férias em Lisboa.

***

Se houver por aqui alguém ligado ao Governo, ou a algum lobby, deixo uma sugestão: acesso gratuito a museus e outras instituições culturais para estes portugueses cujo salário mal chega para pagar a alimentação, quanto mais a cultura.
Aliás (isto são os meus neurónios a entrar em autogestão), aí está um bom aproveitamento para o cartão do cidadão: se o cartão contém o número do contribuinte, talvez pudesse incluir uma informação suplementar das Finanças para as bilheteiras, para que o seu portador tenha acesso gratuito ou com desconto a certos equipamentos culturais.

a minha wish list na amazon está cada vez maior

Últimas entradas:


- Sigrun Eng



Podem ouvir Sigrun Eng aqui, por exemplo o "I'm Away" com Rachel Haden.
Obrigada ao Ruben, que ma revelou. Nas suas palavras: "uma prova
que boas idéias, sensibilidade e bom gosto produzem boa música mesmo fora da
Filarmonia."


- Kurt Weil Duo



Sigrun Eng (violoncelo) e Hilde Leite Gaupås (voz). Aqui.


- LONELY DRIFTER KAREN




Aqui, e obrigada à Maria João Pires, melhor dizendo, ao Nuno do Quase Famosos.

****

Se é para transformar os wishes em prenda de anos, pelas minhas contas, vou ter de chegar aos 100, e ter amigos muito generosos.

não esquecer...

...de ir dar uma espreitadela ao Imagens com Palavras.

15 setembro 2008

Sarah Palin & Hillary Clinton

Nota: de cada vez que faço uma nova ligação para um vídeo no youtube, ele é apagado.
A Gabriela disse-me que é possível ver no Truthdig, aqui.

***




Estou há duas horas a tentar lembrar-me onde é que descobri isto, e nada.
É o buraco negro de Genève, só pode ser.
Com tantos sítios no mundo, tinha de vir parar à minha cabeça?!!!

blog connections (2)

Com agradecimentos ao Marco Oliveira pelo seu post onde encontrei este belo texto de José Tolentino Mendonça.


Sempre que salto, salto para o infinito

Deste Verão português surdamente incompatível, com conflitualidades, embaraços e pessimismo, resgato uma frase que seria pena ficar perdida entre a cinza. Foi proferida pelo atleta Nelson Évora, e representa, creio, não apenas a descrição de uma técnica ou de um método, mas é uma espécie de razão onde a vida, a inteira vida, se pode decidir. "Sempre que salto, salto para o infinito", disse ele. No triplo salto dos Jogos Olímpicos de Pequim esse infinito correspondeu a 17,67 metros, e valeu-lhe a medalha de ouro. Mas o infinito é esse aberto que não acaba...

Nos programas biográficos que, em seguida, as televisões dedicaram ao atleta, comovi-me a olhar para as instalações desportivas mais do que precárias num centro escolar, para o ziguezague árido e incaracterístico das estradas suburbanas, para o exíguo futuro que se avista das florestas de apartamentos colados a apartamentos. Aquele cenário poderia servir para contar uma história completamente diferente. Por isso a frase de Nelson Évora é tão importante. Aos miúdos que hoje têm a idade que o campeão olímpico então teria, e que as televisões entrevistam naqueles mesmos lugares, como é fundamental testemunhar-lhes o que significa "saltar para o infinito". Transcender-se, ir além, ir mais longe, sabendo que isso implica que cada um se tenha encontrado humildemente com os seus limites e plenamente com as suas possibilidades. Num tempo de tectos baixos e de metas imediatas, como parecem ser os nossos, "saltar para o infinito" constitui talvez uma impopular aposta. Mas a esperança, a verdadeira esperança, pede de nós risco e coragem.

blog connections

io, obrigadinha por me ensinares o caminho das pedras até aos aromas de Pessoa.
Em troca, ofereço-te Mahler - obrigadinha, Rita!

12 setembro 2008

deitar acima

Está no Lida Insana, e não percam mais tempo por aqui, vão lá ler tudo:

O que eu espero é que ontem alguém que se sente impotente perante o seu município, a sua máquina administrativa, o seu governo, o seu assaltante, o seu bruto particular, alguém que sente a fragilidade da existência, alguém que sabe junto aos botões o que está certo e o que está errado, mas que sabe também que não tem a mínima chance de se sair bem se se dispuser a enfrentar as formas de prepotência, marginais ou instituídas, que habitualmente nos esmagam, o que eu realmente espero é que alguém assim tenha assistido, como eu, com espanto silencioso e reverente, à grande entrevista da Maria José Morgado.

Hegel, sobre certas maneiras de ser blogue

Enquanto o senso-comum recorre ao sentimento, - seu oráculo interior - descarta quem não está de acordo com ele. Tem de declarar que não tem mais nada a dizer a quem não encontra e não sente em si o mesmo; em outras palavras, calca aos pés a raiz da humanidade.

Pois a natureza da humanidade é tender ao consenso com outros, e sua existência reside apenas na comunidade instituída das consciências. O anti-humano, o animalesco, consiste em ficar no estágio do sentimento, e em só poder comunicar-se através do sentimento.


in Fenomenologia do Espírito

(«Indem jener sich auf das Gefühl, sein inwendiges Orakel, beruft, ist er gegen den, der nicht übereinstimmt, fertig; er muß erklären, daß er dem weiter nichts zu sagen habe, der nicht dasselbe in sich finde und fühle; - mit anderen Worte, er tritt die Wurzel der Humanität mit Füßen.
Denn die Natur dieser ist, auf die Übereinkunft mit anderen zu dringen, und ihre Existenz nur in der zustande gebrachten Gemeinsamkeit der Bewußtsein[e]. Das Widermenschliche, das Tierische besteht darin, im Gefühle stehenzubleiben und nur durch dieses sich mitteilen zu können.»)

e já que andam a falar tanto em divórcio...

Um pouco de metafísica para complementar a discussão:

11 setembro 2008

post privado



Estão abertas as inscrições para o calendário da família de 2009.
Pedidos para o meu e-mail privado, sabem, aquele:
helenaaquelaquehojejáescreveudemais-caramba-seráqueelanuncasecala@gmail.de

Este ano inventaram um novo melhoramento: os meses são de trás para a frente, de modo que em chegando a meio do mês pode-se passar para a folha do mês seguinte, dobrando-a e escondendo a sua metade inferior, de modo que se vê simultaneamente o que nos vai acontecer no que falta deste mês, e o que nos espera no princípio do mês seguinte.
(repararam nesta frase? é puro alemão, só as palavras é que são portuguesas...)

Ora bem: em Portugal ainda não começaram a produzir isto?! Estão à espera de quê?!



PS. Garantem que afinal o mundo não vai acabar tão cedo?
Que chatice, lá terei de ir acabar o trabalho que comecei ontem.

parece que o mundo era para acabar ontem

Parece que o mundo podia ter acabado ontem, e ninguém me avisou?!

O tempo que eu perdi a limpar a casa e a tratar da roupa, e afinal podia ter sido desnecessário!

(Amigos da onça, é o que vocês são todos.)

à atenção de quem produz noticiários em Portugal

Podiam, por favor, começar a fazer essas terríveis notícias sobre o terrível aumento da terrível criminalidade assim desta maneira?

evoluções

A propósito dos livros escolares, o Diogo nota, num comentário no post anterior, que esta será uma espécie em vias de extinção. Bem lembrado: conheço uma escola californiana onde os miúdos nem cadernos têm - vão para a escola com o seu portátil, e trabalham directamente no computador.

Uma vez, há quase uma década, no fim de um pequeno trabalho que fiz numa empresa da Silicon Valley, entreguei uma folha onde tinha escrito alguns apontamentos. A americana olhou para mim, perplexa: ninguém trabalha com papel, os meus apontamentos deviam ser inscritos directamente no sistema!
Elementar, meu caro Watson. Eu é que nasci tarde demais num mundo demasiado moderno...

É que ainda quase sou do tempo em que se dava às crianças da escola primária pequenos quadros de lousa, para poupar papel.

Embora, em boa verdade, não se possa falar do tempo, mas da distância. A gente afasta-se meia dúzia de quilómetros das grandes cidades e dá-se conta que andou umas dezenas de anos ópratrás.

10 setembro 2008

alguns apontamentos sobre a minha experiência internacional com livros escolares

(hehehe
isto saiu-me um título e peras!)

Vem este post a propósito da crítica do Rui Bebiano à actual situação que obriga famílias a endividarem-se para comprar os livros escolares.

A minha filha fez os dois primeiros anos numa escola privada, Montessori, em San Francisco. Não comprei um único livro.
A professora ia dando fotocópias e revistinhas aos miúdos, conforme o que lhes convinha no momento.
Verdade seja dita, naquela escola os currículos eram feitos à medida dos professores disponíveis. Por exemplo: no ano em que contrataram uma professora especializada em arte e espanhol, puseram todas as crianças a aprender espanhol e a fazer obras de arte fantásticas.
E custava 600 dólares por mês. O que uma pessoa não faz para evitar que os seus filhos vão parar àquelas escolas com detectores de metais à porta...

Na Alemanha, cada Land tem o seu próprio Ministério da Educação. Na Turíngia e em Berlim, as duas regiões que conheço bem, os livros escolares são emprestados pela escola.
Tem um inconveniente: se os professores de determinada área escolhem um manual, e se se verificar depois que afinal não era muito bom, vão ter de conviver com ele cinco anos seguidos.
E uma enorme vantagem: o material complementar (cadernos de exercícios, etc.) que os pais têm de comprar não ultrapassa o limite previamente definido pela escola. Para nós, tem sido entre 30 e 50 euros por ano.

Dado que a Turíngia está perto da bancarrota, houve um ano em que o Ministério decidiu exigir dos pais a comparticipação na compra dos livros escolares. Dependendo do número de crianças no agregado familiar e dos rendimentos da família, era pedido um pagamento anual de cerca de 30 euros. Os pais pagaram sob protesto, o caso foi para tribunal, e o Estado acabou a devolver esse dinheiro aos pais. Se bem entendi, esse procedimento tinha dois erros graves: o Estado demitia-se da sua função de garantir ensino gratuito para todos, e a empresa privada a quem a gestão do processo fora entregue tinha acesso a dados sobre o rendimento dos agregados familiares, dados esses que deviam estar protegidos.

Berlim, ao que dizem, já está na bancarrota há muito. Mas ainda vai arranjando maneira de comprar os livros escolares para emprestar aos alunos.
Na escola pública berlinense que conheço os professores, no fim do ano lectivo, põem em contacto os alunos de dois anos consecutivos, para aquisição dos cadernos de exercícios usados. Ou seja: se os livros comprados pelos pais forem usados com cuidado, é possível recuperar parte do seu custo, vendendo-os aos alunos que vão precisar deles.

***

Há tempos andei a pensar em ocupar um nicho de mercado em Portugal: uma empresa na internet para troca de livros escolares usados. Mas parei, ao considerar os custos dos correios.

Pensando bem, o mais fácil seria as escolas optarem por um livro para usar cinco anos, comprá-lo e emprestá-lo aos alunos. Podia até pedir-se aos pais uma comparticipação, que nunca seria mais do que um quinto do que agora são obrigados a gastar.
Ou, pelo menos, optarem por um livro para cinco anos, permitindo aos pais encontrar na sua escola compradores para os livros usados.

(Bem sei que estou a estragar o arranjinho aos professores que escrevem os manuais e aos editores que os colocam no mercado com uma pressão estonteante, mas, tenham lá paciência, é por uma boa causa...)

09 setembro 2008

há mar e mar, há banhistas e banhistas

O jj. amarante fala neste post da destruição paisagística da costa, e da dificuldade em compatibilizar as férias na praia para toda a classe média e a protecção da paisagem.

Este Verão descobri a praia no Wannsee, um grande lago a cerca de 15 km do centro de Berlim. Durante a Guerra Fria, era o local de veraneio mais importante para a população de Berlim Ocidental. Com linha de S-Bahn, para melhor servir os berlinenses, e com um monumental balneário construído nos anos 20.





A gente vê aquela praia cheia de gente (tem 1,2 km de comprimento e espaço para 12.000 banhistas) e não acredita que na margem do lago só se vejam árvores, aqui e ali interrompidas por uma mansãozita dos fins do séc. XIX.
Onde estão os prédios para o pessoal que faz questão de ter uma janela a dar para a água?
Onde está a pressão imobiliária, a criatividade de furar as directrizes do ordenamento do território, ou até de "dar um jeitinho" aos planos directores municipais?



Uma brilhante bloguista desta praça desfez o mistério: os ricos da Alemanha não gostam de viver em prédios de apartamentos.

08 setembro 2008

das alegrias de ter crianças por perto

1. Explicou-me a Klara, que tem 3 anos: "eu vim de Deus, que me emprestou ao meu pai."


2. Que fazer em Giessen num sábado de chuva, com crianças de 11 anos, 11 anos com deficiência mental, 3 anos?
Fácil: ir para o Mathematikum. E adorar.
E ainda não percebi a ligação entre a sequência de Fibonacci e as pinhas. Tenho de observar as pinhas com mais cuidado.
E apesar de mais uma vez me ter dado conta das minhas limitações. Até parecia mentira: o Matthias e o Joachim resolviam os desafios de construir figuras geométricas bi- e tridimensionais a toda a velocidade, e eu... nem conhecendo o truque chegava lá.
(Muuuh, como dizia o outro)

Isto para dizer que, se passarem por Giessen, deviam reservar duas horitas, ou mais, para um museu hands-on da matemática.

05 setembro 2008

ó pra nós aqui no charco

Há alguns anos, um adolescente contou-me que tinha feito uma visita escolar ao Parlamento, e que tinha gostado, e que tudo tinha corrido muito bem porque não havia perigo, o Paulo Pedroso não estava lá.
Algo me diz que agora acredita que o Paulo Pedroso só se safou porque tinha bons advogados, e que isto da Justiça é só truques, e agora, olha, vai pagar o pobre do contribuinte pela esperteza dele, Este país, já se sabe, é sempre a mesma coisa!
Um pormenor curioso: o pai desse rapaz é daqueles professores capazes de meter atestado médico para ir de férias com a família.

É isto que mais me assusta em Portugal: a profunda desconfiança no sistema, a par de um humor desesperado - essa necessidade compulsiva de fazer uma piada por mais indigna, injusta e corrosiva que seja. E assim se vai levando a vida.
Nem sei se isto é um ciclo vicioso, se é uma lapalissade: quanto mais vemos os acontecimentos pela sua pior versão, pior tudo nos parece.

Por outro lado, ao afirmar tão peremptoriamente que "isto é tudo uma corja" damo-nos uma boa desculpa para termos, à dimensão da nossa vidinha, alguns comportamentos enfim, digamos, pronto, pá, não muito correctos. Afinal de contas, se "eles" podem, porque é que eu não havia de poder? Eu é que não sou parvo!, como diz o outro.


A propósito do Paulo Pedroso, se não leram já, vejam também o que dizem o Lutz e o Miguel Silva (a ralé e a ralé (2) ).


Quanto a mim, sobre a tragédia de um homem que poderia ter dado tanto ao país e a quem nunca mais devolverão o seu bom nome, só me ocorre chamar as carpideiras para lamentarem o meu Portugal, e este poema de Sophia:

PRANTO PELO DIA DE HOJE

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas


Livro Sexto, 1962

emancipação feminina


À frente do ministério da família alemão está uma mulher, mãe de sete filhos.
Acho que já falei várias vezes dela, e do episódio redentor da sua vida.
Resumindo: acompanhou o marido aos EUA, onde ele estava a fazer um pós-doutoramento. Numa recepção na universidade, um dos chefes perguntou-lhe o que tencionava fazer, e ela respondeu que tinha três ou quatro filhos, já não sei bem. Ele terá respondido (estou mesmo a imaginar) "oh, how nice!" ou "oh, how gorgeous!" e repetiu a pergunta: "e que tenciona fazer nos EUA?", e ela fez também um pós-doutoramento, além de mais um par de filhos.

Foi o ministério dela que criou um "salário" para os progenitores que ficam em casa (80% do salário que essa pessoa recebia antes do nascimento da criança, até um máximo de, salvo erro, 1800 euros, durante 12 meses, ou 14 se o pai também ficar parte desse tempo em casa). Recentemente foi muito criticada por querer aumentar o número de lugares em creches e jardins de infância, permitindo assim às mâes um regresso mais fácil à vida profissional. Nem queiram saber o que por aqui foi de gritaria, com bispos (e não apenas católicos, que isto um dia é da caça e outro é do caçador) a afirmar que ela queria fazer das mulheres "máquinas de parir", e destruir completamente a instituição "família".

Há tempos uma revista (julgo que foi o Spiegel) publicou uma entrevista com ela, que não li. Mas adorei ler no número seguinte este comentário de um leitor:

"Emancipação seria duas jornalistas perguntarem a um ministro como é que ele compatibiliza o trabalho com a família!"

wonderwomen portuguesas

Falo de algumas que conheço, e dou-lhes nome: Paula, Laura, Teresa, Susana.
Muito inteligentes, extremamente competentes, profissionais formidáveis.
E simultaneamente óptimas mães, fantásticas cozinheiras.
Como é que conseguem criar tão bem os filhos, dar conta do trabalho com tanto brilho, e ao fim do dia pôr na mesa um jantar que já por si só mereceria um emprego a tempo inteiro? E continuar a rir, com um ar bem disposto e alegre?

Não há disto na Alemanha.
Nem vi disto nos EUA (onde, diz-se, as gerações mais novas nem sequer sabem os basics da cozinha).
Começo a acreditar na superioridade da minha raça.
De cuja eu, claramente, sou a ovelha negra. Não contem nada a ninguém.

***

Isto parece que está a ficar um mantra, mas o que tem que ser tem muita força:
espero que não aproveitem este post para argumentar que afinal o elo mais fraco de um casal não é a mulher.

04 setembro 2008

"ó chumos, eu agora estou aqui e isto é só convosco, vinde cá!"

Bem sei que me estou a meter em conversas alheias, e ninguém me convidou nem pediu opinião, mas é por uma boa causa: provocar um esgotamento nervoso ao sitemeter do blogame mucho.

Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, . Atão, .

Para quem estranhar tanta solicitude perante um blogue que nem sequer aparece na minha coluna dos links, a resposta é simples: não anoto o que sei de cor.

(Hehehe, esta saiu-me bem. Se ele não se lembrar de resmungar "engana-me que eu gosto", saiu-me bem.)
(Mau-mau-mau, agora perguntarão os outros, os linkados: "então, e eu?")
(Bolas, ainda agora comecei o dia e já estou a meter os pés pelas mãos.)

Ah, Besugo, não percebo nada de futebol. A culpa é do meu pai, que me levou a ver um jogo no estádio do Braga tinha eu cinco anos. Passei o tempo todo perplexa, a fazer perguntas como se o pessoal estivesse a gritar em estrangeiro, "vão-nos dar frango?!", "leite, o quê?", "o que é essa palavra que estão a chamar ao árbitro?".

A verdade, meu querido Portuga, é que a mim contaram as coisas muito cedo.
Mas anteontem vi o Oliver Kahn a abandonar o Allianz Arena ao som do "time to say goodbye", e comecei a intuir a poesia da coisa.

(Parece que neste blogue a silly season vai por Setembro adentro - mais um sintoma do aquecimento global)

turismo sexual

Uma alemãzita de 14 anos decidiu que ia perder a virgindade na semana de férias que estava a fazer com a família na Turquia. Escolheu na praia o objecto do seu desejo e, mal apanhou os pais distraídos, zimbas.

Contava depois às amigas, muito satisfeita, que o rapaz até se deve ter apaixonado por ela e tudo, porque lhe propôs logo casamento.

***

Imagino a cara do rapaz ao ver o sangue, o letreiro luminoso a fustigar-lhe o cérebro, "código de honra!" "código de honra!" "código de honra!"
Decididamente, a Turquia ainda não está pronta para entrar na UE...

***

Mas espero que não aproveitem este post para argumentar que afinal o elo mais fraco de um casal não é a mulher.

03 setembro 2008

violência doméstica

Matança do porco.

A dona tratara com os homens que na aldeia fazem esse trabalho, para o virem matar e desfazer.
Às tantas, um deles pergunta:
- E o teu homem, não vem? Está a fazer falta!
- Não me faz falta nenhuma, só me estrova!, respondeu ela, desabrida e alegre.
Pausa. E depois acrescentou:
- E às vezes, quando estrova demais, leva uma de esguelha que se põe fino.

Já tiveram que os separar mais que uma vez.
Como no dia em que ela avançou para ele brandindo uma sachola, "meu desgraçado que te escancho a cabeça em dois!"
Às vezes não há ninguém para os separar, e ele acaba a explicar que aquilo foi de ter caído nas escadas, ou de ter tropeçado contra uma porta.

A pessoa que me contou não estava chocada com a violência, mas com a vergonha de ela se vangloriar assim perante outros homens da aldeia.
Isto é um país que eu não percebo.

***

O aeroporto de Barajas está cheio de cartazes contra a violência doméstica. Uma mulher com a frase "nem se te ocorra levantar a mão para mim", uma criança "mamã, tens de agir, para meu bem!" e um homem "bater numa mulher não é de homem".
Falta a fotografia do homem lá da minha aldeia "bater num homem não é feminino", e das filhas dele "papá, tens de agir, para nosso bem". E, já agora, do futuro genro, "ó homem, faça alguma coisa, que isto está a ser mau exemplo para a minha futura mulher".

***

E depois, juro que não sei como é que as minhas ideias deram este salto, há aquela anedota do homem que ao regressar com a mulher de uma festa vai a correr buscar um copo de água e uma aspirina.
Ela: Mas porquê? Não tenho dores de cabeça...
Ele: Aha! Hoje não tens desculpa!

***

Mas espero que não aproveitem este post para argumentar que afinal o elo mais fraco de um casal não é a mulher.

barajas

Como tínhamos de esperar quase três horas pelo voo de ligação, ao chegar a Madrid não nos apressámos a sair do avião.
Quando começou aquele nervosismo da saída, continuámos sentadas, observando pela janela o trabalho de descarregar a bagagem. Uma lentidão. Por algum motivo que não entendi, a viatura do transporte estava a vinte metros do tapete rolante que trazia as malas. Víamos como os volumes iam baixando para a pista, chegavam ao fim do tapete, catrapum! para o chão. Vinha um dos funcionários, arrastava duas malas até ao carro, e no entretanto, catrapum! catrapum! mais malas caíam umas para cima das outras. E lá corria o funcionário como num filme cómico.
Chegou a vez de um saco, pequeno, todo cheio de autocolantes "FRAGILE".
Catrapum.
E logo a seguir uma caixa enorme.
Catrapum para cima dos autocolantes "FRAGILE", até parecia tiro ao alvo.

As minhas garrafinhas de Vallado moscatel branco chegaram bem, apesar de tudo.
Gracias a la vida!

02 setembro 2008

kill the gun



Roubado ao Entre as Brumas da Memória.

enquanto eu ia a banhos...

...a abrunho ficou por aí a escrever posts formidáveis.
Desculpem a sinceridade, mas não sei o que estão a fazer neste blogue, em vez de estarem a ler o Contemplamento.
Aqui, ou aqui, ou aqui, ou aqui, ou aqui, ou...

E de caminho viciei-me em Fiona Apple.

01 setembro 2008

rentrée

Atordoada. Cansada. Caótica. E feliz.

Gracias a la vida, depois conto detalhes.

17 julho 2008

uma pequena provocação

Traduzido (e abreviado, e rapidinho, como de costume) do Spiegel, em alemão aqui.



Maravihosa jibóia


Dirk Kurbjuweit


Não há dúvida que este é o maior ajuntamento de espertalhões que existe no mundo inteiro. São 27 - não, são mais. Não apenas os chefes de estado, mas também os ministros dos negócios estrangeiros. Parecem tão inofensivos, assim sentados àquela mesa descomunal, a conversar uns com os outros, mas estão outra vez a preparar alguma. Estão outra vez a preparar secretamente algo Grande nas costas do povo. Há muito que trabalham nisso, tal como os seus antecessores o fizeram já. À revelia do povo de cada país estão a construir a União Europeia, e cada vez mais.
Há 50 anos que é assim: a política faz política contra o povo, e as pessoas só se dão conta disso quando se pergunta a um povo a sua opinião. Aconteceu recentemente na Irlanda, e os irlandeses deram um rotundo não à política dos espertalhões. Recusaram o tratado de Lisboa, assim lançando a União Europeia numa das suas numerosas crises.
Esse foi o grande tema do Conselho Europeu em 19 e 20 de Junho, quando os chefes de estado e do governo debateram sobre o modo de continuarem a fazer política contra o povo sem que este se dê verdadeiramente conta disso.
Na realidade, falaram sobre truques, questões levantadas aos juristas para conseguir fazer avançar o tratado apesar dos irlandeses.
Isto nunca seria dito assim, porque tem um som horrível e não parece Democracia. Mas: e se a razão estivesse do lado dos políticos, com as suas estratégias manhosas, e não do lado do povo, com a sua pretensa sabedoria?
(...)
O que é estranho é que o tratado de Lisboa pretendia tornar as estruturas mais eficientes e democráticas. Por dois anos e meio haveria um Presidente de Conselho, ou seja, um chefe na confusão, a Comissão Europeia ficaria mais pequena, e os representantes dos países e o Parlamento Europeu ganhariam mais poder. Os irlandeses recusaram um tratado que tornaria a Europa um pouco melhor. E porque todos os membros têm de o aceitar, esta decisão põe em causa o todo.
Até agora, a União lembra uma jibóia que está a digerir um vitelo: disforme, inerte - e, no entanto, ameaçadora. Tudo demora imenso tempo. Há 7 anos que se trabalha na estrutura, há 20 anos que os turcos esperam para poderem entrar. Até nas cimeiras em Bruxelas a atividade principal dos observadores é esperar. Demora sempre mais tempo que o planeado. (...) A Europa é demasiado complexa para qualquer calendarização. Em nenhum outro lugar se sente tão claramente como em Bruxelas esse difícil escoar do tempo. Uma pessoa quase se sente no ventre de uma pesada jibóia em digestão.
Muitas vezes a espera não compensa. A Europa não cria momentos de beleza e entusiasmo. Nos países, é diferente. É verdade que raramente a política oferece motivos para nos alegrarmos, mas nos países acontecem de vez em quando aqueles momentos em que parece haver uma reconciliação geral, em que se formam "comunidades agitadas" (Erregungsgemeinschaften), como o filósofo Peter Slterdijk lhes chamou.
O dia 19 de Junho ofereceu à Alemanha um desses momentos de agitação, durante o jogo de quartos de final contra Portugal. (...)
Estes momentos, no quais a maior parte dos alemães se sente feliz por ser alemão, não acontecem com a Europa. Não existem fora do âmbito da política. Mesmo que houvesse volta e meia um jogo entre uma equipa nacional europeia com Ronaldo, Ballack e Sneijder, que batesse por exemplo os chineses por 5:0, a reacção europeia seria outra. Esses momentos não podem existir na Europa porque falta a emoção geral. As emoções são resultado de uma história comum, e a história da Europa só desde há 60 anos deixou de ser uma história de opostos que se resolviam em grandes guerras.
A tentativa do "uns com os outros" nunca é tão espectacular como o "uns contra os outros" - seja nas guerras do passado, seja no futebol dos nossos dias. Na sala de conferências de Bruxelas vemos homens e mulheres que se cumprimentam amigavelmente, e é o primeiro-ministro irlandês, aquele que não fez os trabalhos de casa, quem recebe os cumprimentos mais afectuosos. Mas na Europa, isso não faz de um político um pária - quando muito, a vítima de excessiva indulgência.
É esta a imagem que a Europa dá para o exterior: amigável, pacífica. O que é motivo para desprezo - o continente feminino, Vénus entre os actores da política mundial. E contudo, esse é um motivo para que os adeptos da Paz sintam muito orgulho nesta União Europeia.
É natural que os debates que decorrem à porta fechada de Bruxelas não sejam espectaculares. Mas uma pessoa sente-se bem ao pensar que os representantes de 27 países, com quase 500 milhões de habitantes, se querem entender. Porque o que está em causa é o aumento do preço da energia e das matérias primas, a globalização explosiva, como Angela Merkel lhe chamou. E será que a Alemanha, a Lituânia ou a Irlanda querem ganhar esse desafio sozinhas, contra a China, a Rússia e os EUA?
Há motivos para confiar nestes políticos. Embora na maioria das vezes a sua apresentação em Bruxelas nos faça desanimar do gosto na Europa.
Momentos europeus costumam ser assim: ainda durante o debate, Hans-Gert Pöterring, o presidente do Parlamento Europeu, é enviado para publicitar a causa comum. Pöterring tem o dom de, em menos de 10 minutos, mergulhar a assistência em coma vegetativo. Quem, recorrendo às últimas forças, consegue colocar uma questão, é desviado com virtuosa simpatia para a indefinição. Como não se recebem novidades, não há nada para escrever. Pöterring consegue fazer desaparecer a Europa.
Isto parece ser parte de uma estratégia. (...)
Mas às vezes acontece algo diferente. Às vezes, nestes dias de Bruxelas, acontece um momento de emoção. É rigorosamente proibido escrever sobre isso, porque aconteceu num encontro oficioso de Angela Merkel com jornalistas, à uma da manhã, quando ela regressava de um jantar com os colegas. Um raro momento, em que Angela Merkel se abriu e defendeu entusiasticamente o tratado de Lisboa, a União Europeia, a Democracia representativa. Dir-se-ia paixão.
Os jornalistas não aplaudem, nem sequer no estádio quando a Alemanha marca um golo, mas a seguir a este discurso bateram algumas palmas, por uns momentos, só o tempo de os jornalistas se darem conta que esse é um gesto absolutamente despropositado.
Mas, pssst, ninguém pode ter conhecimento deste belo arrebatamento. Para que não comece a pensar que a chanceler trabalha de todo o coração no aprofundamento da Europa, talvez até sabendo que o faz contra a vontade dos cidadãos.
Até à conferência de encerramento teve tempo de se acalmar. Ali está ela sentada, com aspecto cansado, a dizer "esta cimeira chegou a conclusões que, em minha opinião, nos permitem avançar". Imediatamente se instala o já familiar tédio de Bruxelas, tanto mais que Merkel não tem resultados concretos para anunciar. Os chefes de estado e governo divergiram numa ou noutra questão, conseguiram soluções de compromisso que permitem a todos não perder a cara, e oferecem aquilo que têm em abundância: tempo.
Dão tempo aos irlandeses para decidirem como continuar o processo. Dão tempo ao futuro presidente do Conselho, aos franceses e à Comissão Europeia para prepararem um programa contra os crescentes aumentos de preços da energia e dos produtos alimentares. A única coisa que se ouvirá da Europa, nos próximos meses, será o tiquetaquear de um relógio. Mas isto é, provavelmente, propositado.
"Tédio estratégico" poderia ser o conceito secreto da União Europeia. Sobretudo não atrair as atenções, e muito menos a agitação. Em vez disso, continuar, em silêncio e teimosamente, a despeito de se estar rodeado de desconfianças murmuradas.
Foi assim que os espertalhões criaram nas costas dos povos um mercado comum, o Euro, a extinção de muitos controles de fronteiras e, recentemente, uma política climática exemplar para todo o mundo. Tudo isto estava certo, e faz da Europa um continente onde é muito agradável viver. Oferece momentos monótonos e, no máximo, emoções negativas, mas - apesar da burocracia e outros déficits - é um balanço formidável.
Em referendos, a maior parte disto teria sido travado, ou até rejeitado. Democracia não significa confiança absoluta nos cidadãos. Às vezes o que é verdadeiramente Grande está melhor na mão dos políticos, e precisa de tempo.
Como com a jibóia. Após o longo processo de digestão, é sempre um ser muito mais animado, forte e belo.


****

Uma pessoa pergunta-se logo, como é lógico, porque é que a Angela Merkel não fala assim para todos. Eu também queria ouvir algum político a falar empolgadamente sobre a Europa!

Mas o artigo levanta algumas questões pertinentes.

Por exemplo, faz sentido deixar que as coisas da Europa sejam decididas a partir de uma lógica nacional/nacionalista/populista?
Estou em crer que, se os alargamentos fossem objecto de referendo nos países que já estão dentro, Portugal ainda agora estava à espera que os outros povos o deixassem entrar...

A expressão "coisas grandes" também dá que pensar.
Por um lado, parece que se está a passar um atestado de menoridade ao povo. Por outro lado, a gente vê o modo como os referendos são manipulados para todo o tipo de interesses alheios à própria questão do referendo, ouve o modo como o "zé povinho" (isto pode ser dito em qualquer outra língua) se pronuncia, e desconfia que os referendos seriam negativos, se estivesse em discussão, por exemplo:
- a Constituição alemã (sobretudo as partes relativas à tortura, à dignidade do ser humano inclusivamente a do estrangeiro inclusivamente a do muçulmano...)
- a reunificação alemã (por exemplo devido aos avisos do Lafontaine: olhem que vos vai custar muito dinheiro!)
- a integração na UE dos países de Leste ("deixamos de ter fronteiras que nos protejam daqueles ladrões?")

O meu avião sai daqui a duas horas, por isso fico-me por estes três exemplos.

A caixa de comentários está aberta, mas continua moderada. E como a moderadora está a sair para banhos, previno que pode demorar vários dias até que um comentário seja publicado. As minhas desculpas por isso, mas valores mais altos se alevantam! ;-)

Até Setembro - um bom Verão para todos!

15 julho 2008

gracinha privada

(para um blogue amigo, who shall remain nameless)

14 julho 2008

floresta mágica

Há um momento em que a floresta do Varekai escurece e se enche de pirilampos.

Num relance regressei a uma outra floresta mágica, em Ilhabela, onde passámos uma tarde a brincar na Cachoeira da Lage. No regresso, já a floresta se preparava para a noite, centenas de pirilampos gigantes vieram ao nosso encontro, procuraram a nossa pele, transformaram o nosso caminho num deslumbramento de pontos cintilantes.
Quase temo voltar a um lugar onde fui tão feliz. Nem sei se prefiro voltar sem surpresa à magia dos pirilampos, ou correr o risco de eles faltarem ao encontro.

varekai

Diz-se que não há amor como o primeiro, e não concordo.
Com uma excepção: o primeiro espectáculo do Cirque du Soleil que vi foi também o mais belo. La Nouba, em Orlando.
Depois desse, nunca mais nenhum circo me foi suficientemente bom. Os tradicionais deixam-me triste, e os mais elaborados (inclusivamente outras produções do Cirque du Soleil) não conseguem chegar ao nível do La Nouba.

Pois bem: desde ontem, tenho dois amores. Varekai.
Está em Berlim até fins de Agosto.

Uma floresta mágica, cheia de seres misteriosos, onde cai um pássaro ferido a quem roubam as asas.
E um artista que em criança teve poliomelite, e faz uma dança formidável nas suas muletas. Perfeito, belo, digno. Sem sombra de coitadinho.

12 julho 2008

este mundo complicado...

Uma conhecida minha é professora numa escola de ensino especial em Berlim.
Tem um aluno de 10 anos, filho de palestinianos, que já sabe o que quer ser na vida: mártir. Entrar para o Hamas, fazer-se explodir contra Israel.
A mãe dá-lhe todo o apoio.
No coração de Berlim.

Na semana passada, a Polícia foi mais uma vez à escola devido a um novo furto do rapazinho. A directora de turma foi a casa da família dele falar com os pais.
Os pais não estavam em casa. Só estavam os filhos mais velhos, que não sabiam de nada - nada de novo na relação daquela escola com aquela família.
Estavam acompanhados por um funcionário do serviço social, que pareceu à directora de turma estar numa atitude de demasiado companheirismo (não pedi detalhes).

Tudo isto levanta imensas questões.
Devemos ou não devemos dar o nome da mãe e do filho à polícia israelita, para que impeçam a sua entrada no país, já que se sabe quais são as suas intenções?
Devemos retirar aquela criança à mãe, para ser educada por uma família com princípios democráticos mais sólidos?

A dignidade humana é inviolável - já conhecemos o princípio fundamental.
O difícil é equacioná-lo na vida real.

11 julho 2008

apontamentos sobre a eutanásia (2)

Gosto do modo como a deputada que escreveu o texto do post anterior desloca a questão da eutanásia da liberdade individual para a nossa responsabilidade em fazer com que os idosos gostem de estar vivos.

Acrescento ainda alguns pontos de uma conversa entre um jornalista que escreveu um livro onde contava o modo como acompanhou o seu irmão até à eutanásia, e um filósofo. Foi publicada há cerca de um ano numa revista alemã (na altura quis traduzir, mas agora já nem sei onde está a revista...).

O jornalista dizia: o meu irmão, em plena consciência, queria morrer. Como poderia eu negar-lhe esse desejo?
E o filósofo respondia: tinha de lhe dizer, e repetir à exaustão, que não concorda com isso, e que a sua ajuda é feita completamente a contragosto. O problema é que, numa sociedade onde há cada vez mais idosos e os seus cuidados ficam cada vez mais caros, legalizar a eutanásia pode significar um subtil convite aos mais velhos e aos doentes para se verem como algo facultativo na nossa sociedade, como um problema que se resolve antecipando a morte.

***

Em conversa a propósito da Terri Schiavo, os meus sogros afirmaram que não queriam ficar em coma durante todos aqueles anos, e que nós deveríamos desligar as máquinas. Tudo parecia muito simples, até que a minha sogra disse "e mesmo que eu, por trás de um corpo sem reacções, esteja consciente, não quero continuar a viver vendo como dou trabalho a toda a gente". Aí é que estragou tudo: como é que eu posso desligar uma máquina, sabendo que respondo ao seu desejo de não ser um fardo? Que espécie de relações familiares são essas, se eu mato a avó só porque ela não nos quer dar trabalho? Há aqui um limiar que eu não posso ultrapassar: aceitar a morte de alguém por comodismo meu.

***

Contaram-me de um pai de família, nos EUA, que era diabético e a quem foi diagnosticado um cancro incurável. O tratamento prolongaria a sua vida mas não o curaria, e a família seria obrigada a vender a casa para pagar os cuidados hospitalares nos últimos meses de vida do pai. Para não deixar a família na miséria, ele optou por deixar de tomar os medicamentos das diabetes, e morreu.
"A wonderful person", dizia a psicóloga do hospital, que o acompanhou, "we all cried when he died".

Mais um motivo para gostar de morar na nossa Europa solidária. E uma boa história para nos interrogarmos sobre o alcance da nossa solidariedade: quanto é que a sociedade está disposta a investir na dignidade da vida humana, para que as pessoas não façam contas à sua vida como se fossem um mero "centro de custos"?

***

A mesma revista que perdi tinha uma série de entrevistas com pessoas que iriam a Zurique para terem uma morte assistida. Numa delas, uma mulher, muito revoltada com a recusa da mãe em chegar ao ponto em que a filha lhe mudaria fraldas, dizia: "Um dia destes terei de fazer a viagem de Berlim a Zurique, para levar a minha mãe a morrer com hora marcada. De que vamos falar no caminho?"

apontamentos sobre a eutanásia (1)

Uma deputada dos Verdes, e vice-presidente do Parlamento Federal alemão, Karin Göring-Eckardt, escreveu num jornal diário berlinense um artigo muito interessante (tradução resumida e rapidinha, como de costume).



VIVER E DEIXAR VIVER

Suicídio e morte assistida não podem ser a solução

(em alemão, aqui)



Até onde vai a minha vida,
e onde começa a noite?


perguntava Rainer Maria Rilke, que sobre a morte nos deixou muitas páginas sombrias, e outras reconfortantes. Por estes dias há na Alemanha um aceso debate sobre a dignidade humana no fim da vida. O que é positivo, porque temos de falar sobre a vida e a morte, em vez de fazermos de conta que não é nada connosco.

O motivo que deu origem ao debate é assustador: uma reformada suicidou-se por medo do lar de terceira idade. De facto, cada vez mais idosos estão sozinhos ou são abandonados. As suas depressões e o seu cansaço de viver não são reconhecidos, ou são ignorados. Poucos idosos recebem tratamento de antidepressivos ou psicoterapia, porque aparentemente se aceita que tristeza, falta de energia e de esperança são características típicas da terceira idade. Muitas das pessoas mais velhas não recebem cuidados adequados. Demasiados moribundos são ainda mandados para os cuidados intensivos, onde o seu sofrimento é prolongado desnecessariamente.

Nenhum destes casos deveria ocorrer. Contudo, é insuportável que o suicídio ou a ajuda para morrer sejam vistos como a solução. Nunca poderemos dizer: se a tua vida te é um fardo, mata-te!
Se alguém formula um desejo de morrer, a pergunta a fazer é: Porquê? O que temos de mudar? O que posso fazer por ti?
Não se trata de um abuso e de uma limitação dos direitos e da liberdade, mas de uma maneira de agir profundamente humana.

Temos de tirar fundamento ao medo de ficar sozinho no fim da vida, ser mandado para um sítio qualquer ou tornar-se um fardo para os outros.

O que há a fazer para que se possa dizer a cada pessoa: tu poderás morrer em casa, ou num lar onde tratarão e cuidarão bem de ti. As tuas dores serão tão poucas quanto a Medicina o permite, e vais poder morrer quando chegar o momento.

Centrar-se nas próprias pessoas, perguntar-lhes o que querem ou precisam - é essa a condição primordial para que a vida tenha dignidade humana até ao fim. Uma pessoa não pode tornar-se num objecto, depositado num lar de terceira idade ou agarrado a máquinas das quais tudo depende. Em cada fase, um ser humano é um "outro", um indivíduo cuja vida pode ser, apesar da doença, uma vida boa. Cuidados geriátricos não podem ser apenas a prestação de um serviço mas a pergunta sempre renovada sobre o que é desejado. Quem aperta os lábios com força está a pronunciar-se de forma clara. Não se lhe pode instalar uma sonda no estômago, só porque isso poupa tempo. Para os que acompanham pessoas gravemente doentes ou em fase terminal, a exigência de estar permanentemente atentos aos seus desejos, com paciência e dedicação, é um difícil desafio. Mas é isto que conta e que desfaz o medo: alguém vai estar lá e vai ter tempo para mim. Alguém com quem poderei rir e chorar, fazer queixas e ficar em silêncio.

Obviamente será necessário criar as condições para isso. A maior parte das pessoas gostaria de poder morrer em casa. Mesmo que isso fique mais caro, tem de ser possível organizar. Os familiares que cuidam dos seus idosos precisam de apoio; os cuidados geriátricos têm de ser conciliáveis com os horários de trabalho. Os profissionais precisam de mais tempo para acompanhar convenientemente os idosos, e precisam de formação adequada. Se necessário, tem de ser possível recorrer a uma estação de cuidados paliativos ou a um hospício. As possibilidades da medicina paliativa ainda não são suficientemente conhecidas por muitos doentes, familiares e médicos. Uma boa terapia da dor permite uma despedida da vida consciente mas, em grande parte, sem dor.

Começa a ser urgente. É agora que temos de definir o rumo no sistema de saúde, nos cuidados geriátricos, no modo como a sociedade se relaciona com a agonia e a morte. No actual contexto, em que há cada vez mais idosos e os membros das famílias vivem cada vez mais distantes uns dos outros, os desafios crescem. No entanto, uma sociedade solidária e humana tem de assumir esta tarefa. Estar presente junto dos outros, mesmo no momento em que a morte se aproxima, é o maior serviço que as pessoas se podem prestar umas às outras.

Até que a noite comece, é vida. Esta vida tem de ser, até ao fim, comunidade, dedicação e comunhão.

10 julho 2008

episódio

Ontem à noite houve um debate sobre eutanásia na ARD (canal público alemão).
A questão está a agitar o país neste momento devido a um político ter assumido e divulgado que ajudou uma idosa a suicidar-se.

Os participantes no debate iam dizendo da sua justiça, e o debate estava a ser bastante rico - até ao momento em que o moderador resolveu encurralar o político. Começou por mostrar num breve filme o seu percurso político, a sua deriva populista, a sua necessidade de protagonismo. E depois, começou a interrogar: "será que o senhor fez isto para ter publicidade?"
Um participante cortou-lhe a palavra: "estamos aqui para debater um assunto muito sério, e não para fazer julgamentos em praça pública!"
O moderador insistiu: "mas o senhor não acha que este político agiu assim por uma estratégia de propaganda?"
"Recuso-me a responder a essa questão", foi a resposta. "Não me compete julgar as motivações de terceiros, e o que possa pensar sobre isso guardo para mim. Estamos aqui para discutir a eutanásia, e não para rebaixar uma pessoa."

Por estas e por outras é que tenho uma grande confiança na Democracia alemã.

09 julho 2008

os intocáveis

Contou-me Reuven Moskowitz, um judeu muito activo para a Paz entre Israel e a Palestina, que o diálogo entre cidadãos dos dois povos é visto com maus olhos por parte de alguns grupos palestinianos. Chega-se a matar os colaboracionistas - sendo que não é preciso muito para ser considerado "colaboracionista".

Os únicos que estão acima dessa regra são os familiares dos mártires, que pela morte daquele se tornam intocáveis. Com eles é possível estabelecer contacto e tentar pequenos gestos de Paz na base das comunidades.

Facto que torna esta decisão de expulsar os familiares dos terroristas uma triste ironia, uma espécie de tiro no pé...

impressionante

Se o "Imagens com Texto" precisasse de um subtítulo, poderia ser: "entre o lazer e o prazer nos detalhes".
Impressionante a quantidade de informação que o j.j. amarante nos oferece a partir de uma simples nota de um yuan!

08 julho 2008

a frase do dia

"Eu era muito ligado ao seu pai, nos ficheiros da PIDE andávamos sempre juntos"


Disse-me um sacerdote idoso, com quem falei hoje.
E eu que nem sabia que o meu pai era conhecido para aqueles lados!
Sinto-me: "quase famosa"...

07 julho 2008

where the Hell is Matt?

"a silly dance in 42 countries that will make you grin like a fool" (encontrado aqui)


Where the Hell is Matt? (2008) from Matthew Harding on Vimeo.

É muito mais que grin like a fool: é comover-se ao ver gente do mundo inteiro unida numa dança pateta.

04 julho 2008

então ficamos assim:

O Eduardo Pitta faz críticas a restaurantes de luxo, e o João Gonçalves faz uma análise comparada dos pregos no prato servidos em Mem-Martins.

Neste mundo há lugar para todos, e assim ficamos todos muito bem servidos.

Por mim, dou já um contributo para os clientes das tascas, e, mais concretamente, dos restaurantes de frangos em Berlim.
Depois de algumas incursões pelos frangos de churrasco na vizinhança, na altura em que ainda não tinha cozinha, cheguei a uma triste conclusão: devem deitar algum produto químico nos frangos que lhes dá um aroma delicioso, apesar de ainda estarem meio crus. Sim, é um aviso: não comprem frangos grelhados em Berlim!
Em toda a Berlim? Não! Uma pequena loja resiste ao inimigo, e fica na Sonnenallee, numa zona que já tem bastante ar de gueto. É aí que servem um franguinho para muçulmano nenhum deitar defeito. O resto (as batatas fritas, a coca cola - acho que não vende cerveja) podem esquecer. Mas o franguinho, aaaah, o franguinho!

Tempos houve em que eu achava que, para saber qual era o melhor restaurante de uma terra, devia perguntar a um polícia. Não se riam: seria a minha intuição feminina a adivinhar a ASAE...
No entretanto já tive oportunidade de me dar conta que os meus gostos mudaram, mas os dos polícias não.
Tentei um novo segmento, perguntei a um palestiniano empregado de café, e o resultado foi aquela churrasquinha na Sonnenallee.
Também não era bem isso.

De momento estou nesta fase: gostos tão finos quanto o budget para restaurantes. Gosto de frequentar bons restaurantes, mas só dá para comer uma sopinha ou (nos dias de festa: e) uma sobremesa.
Por exemplo a 3000 m de altitude, em Piz Nair, uma sopa de pêra abacate com milho. De esquiar por mais.
Ou as sobremesas em Muottas Muragl. Nesse restaurante não aconselho o risotto, que me pareceu um bocado farinhento. Enfim, talvez o problema não fosse do risotto, mas meu, que estava a comer um menu de 80 euros e por isso esperava que tudo fosse fenomenal, pelo menos. É o que dá quando pessoas deste mundo fazem uma incursão no outro.

Às vezes vou para a Friedrichsstrasse apreciar as russas no Quartier 206. Vejo-as tão novas, tão bela figura, estilo tão caro, a entrar naquelas lojas que nem sequer põem os preços na montra, e dá-me para a inveja, "não foste tu quem ganhou esse dinheiro todo, minha grande lambisgóia", penso eu com os meus botões H&M.
Mas ultimamente ocorreu-me que podem ser supermodelos, sim, onde será que elas compram os trapinhos?, e que a minha inveja ainda é um sentimento mais feio que de costume.

Podia continuar a desconversar por aqui mais meia hora, mas tenho de fazer as malas e antes disso o almoço (beringelas com borrego às três pancadas, especialidade minha), e o comboio é já daqui a hora e meia, aimêdês.

Bom fim de semana!

02 julho 2008

Regina Spektor

Uma amiga apresentou-me esta cantora.
No youtube os vídeos dela já foram vistos por milhöes de pessoas - mais uma vez a interessada é a última a saber...
Para o caso de eu ser a penúltima a saber, aqui väo alguns vídeos:







01 julho 2008

Abrunho?

Estranho mundo este: tenho uma amiga que desapareceu repentinamente do seu blogue, e agora não sei onde a procurar para saber se está tudo bem.