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09 outubro 2026

sexta-feira



Trabalhei afincadamente de manhã, ao mesmo tempo que ouvia o trailer do Orlando Pantera em repeat
(e estou a ouvir agora mesmo de novo),
saí de casa pela uma e meia para ir distribuir flyers, posters e postais do festival de cinema e da festa Nem Tudo é Saudade
(a única vantagem de juntar os dois maiores projectos da associação no mesmo mês é que avio a distribuição de flyers e posters num dois em um; quanto ao mais: é melhor não repetir, que isto não faz bem à saúde)
num dos sítios aonde fui deram-me uma caixa cheia de bolos caseiros mnham mnham, noutro sítio
(por sinal uma cantina universitária)
decidi almoçar porque já eram quase horas de jantar e eu ali ainda só com o pequeno-almoço, e quando ia para pagar descobri que tinha feito mal as contas
(amigos, ficam sabendo: naquela cantina, tudo o que vem parar ao prato é pago separadamente, de modo que o meu filete de peixe, mais o puré, mais os legumes, ficou por 12,2 euros a preço de visitante. Mais me valia ter ido almoçar ao Dickmann ali perto...)
e faltavam 20 cêntimos no cartão para pagar aquele festim. O problema é que só tinha 50 euros para meter na máquina, e não me apetecia gastar 50 euros para pagar 20 cêntimos. Mas a verdade é que nem tive tempo de pensar: o estudante atrás de mim ofereceu-se logo para pagar os 20 cêntimos que faltavam.
(Às vezes, uns simples 20 cêntimos são uma ajuda enorme para uma pessoa ficar com vontade de dar beijinhos à humanidade inteira)
Continuei a espalhar cartazes pela cidade com todo o afinco por vários motivos e também por este: o saco estava pesado como tudo, de modo que tinha todo o interesse em esvaziá-lo. Num dos sítios disseram-me que estiveram a ver o programa, e que estava impecável, e que desta vez nos tínhamos esmerado
(e corrigiram logo: nos anos anteriores também!)
e eu: quem se esmeraram foram eles, em Portugal! Foi um sarilho escolher entre tantos tão bons!
(a verdade é que planeámos 8 sessões, e tivemos de aumentar para 12, porque era mesmo triste deixar alguns daqueles filmes para trás)
Fui à Anabela's Kitchen, nossa patrocinadora extremosa, e depois atravessei a rua e fui ao A-Trane deixar flyers do festival de cinema. Estava lá o David Haynes & Friends a preparar o concerto de hoje à noite, e o chefe da casa despachou-me rapidamente: "quer deixar flyers? é ali. Se for cartazes, é acolá!" E eu: "pode ser ambos?" Foi incrivelmente simpático
(mas de uma maneira tão seca que me passou a vontade de dar beijinhos à humanidade - já só estava capaz de lhe dar muitos passou-bem).
Continuei a minha peregrinação, e quando cheguei ao fim descobri que me faltavam os bolos. Voltei à Anabela's Kitchen a perguntar se os teria esquecido lá, e responderam-me que não, caso contrário já os tinham comido. Portanto: repeti o caminho todo
(ainda está aqui alguém a ler este post interminável? ah, valentes!)
e encontrei os bolos justamente no último sítio onde entrei
(também vos acontece de só encontrarem as coisas no último sítio onde procuram?)
e voltei à Anabela's Kitchen, para uma pequena pausa de chá com bolos. Sentei-me justamente no lugar onde há alguns anos o João Canijo esteve a jantar, falámos dele com saudades, e também da gargalhada dele quando calhou de se falar de dietas e do desafio de conquistar um furo no cinto, e eu:
"quando quero apertar o cinto num furo antes, ponho umas calças com o cós mais alto."
Em suma: mas que bela sexta-feira! Espero que a vossa também tenha sido assim cheia de gente boa.


04 março 2026

escolhas

 


Se pudessem escolher apenas dois, o que escolhiam?
Sem dúvida: 4 e 7. O resto, ou já tenho, ou não preciso. (O 4, mas assim: que não engorde, nem faça mal ao fígado, nem ao coração, nem aos vasos sanguíneos, nem ao sangue, nem a nada)
(E o 2 e o 9 quase me provocavam um ffffuâd... - faria tudo para não ter nem um nem o outro.)
Se só pudesse escolher um: 4. Ou 7, para pagar o sashimi, pronto.
Se não pudesse escolher nenhum, saía na mesma contente: sinto-me muito grata pelo tanto que encontrei nesta lista e verifiquei que já tenho ou não preciso.

29 novembro 2025

foi a neve

 

"O Baile", Paula Rego

Deixem-me contar-vos do momento em que descobri que a lua cheia tem o poder de fazer sombras: aconteceu na minha cozinha de Weimar, que era num jardim de inverno com enormes paredes de vidro sobre o quintal, e havia neve. 

Foi a neve: o luar brilhante desenhava as sombras das árvores nuas no branco do chão, e eu fiquei ali encantada, na casa às escuras, sem saber o que fazer com tanta beleza.




18 novembro 2025

preciso de um cardiologista


Ontem fiz anos. Outra vez! Caramba, é assim que uma pessoa se põe velha... Tivemos uma sessão muito especial nos Portuguese Cinema Days in Berlin: Mulheres do Meu País, de Raquel Freire. Sala cheia, Q&A com a realizadora, interessantíssimo e longo, até nos mandarem sair da sala porque ia começar a sessão seguinte. Bolo de limão e vinho do Porto na lounge do cinema, e muitas conversas animadas.
Em casa, tinha o computador cheio de comentários simpáticos que escreveram por ocasião do aniversário dessa notável façanha que foi ter nascido. 😉

Se alguém souber de um cardiologista que faça preço de amigo para tratar uma coisa assim tipo quentinho no coração, agradeço.

03 maio 2025

agora e na hora da nossa morte

Esta manhã, encontrei por acaso estes dois textos na Enciclopédia Ilustrada. Os escritores José Cardoso Pires e Maria Cecília Correia falam sobre a morte. Partilho-os apenas porque tenho a certeza de que vão acrescentar algo aos leitores deste blogue. (Mas não se preocupem comigo, está tudo bem! :) )


1.


Esta imagem, que partilho apesar da péssima qualidade da fotografia, é um apontamento que José Cardoso Pires escreveu a 2 de #Outubro de 1997. Viria a morrer em finais de Outubro do ano seguinte.
Encontrei-o na estante da sua filha Ana, e fui tocada pela naturalidade com que aceita o seu próprio Outono, e a força da alegria que se revela na última frase.
Enquanto há pargo, há esperança...

"2 Outubro 97
Fui até à varanda e nesta manhã de sol e de verão vejo a grande nespereira do quintal podada corajosamente para ganhar juventude para o ano que vem.
Para o ano que vem já cá não estarei - espero. E sonho com um acabar tranquilo e natural da folha que se desprende da nespereira e se faz estrume.
Entretanto, este outono está a ser admirável e eu continuo a viver por mim mesmo do nada que escrevo, sem ajudas dos ministérios nem dos lobbies dos mundanos da intelligentzia.
Feitas as contas, tudo bem. E amanhã, 6ª feira, espera-me uma boa posta de pargo cozido na Marítima de Xabregas."



2.

“Morrer deveria ser, pelo menos para mim, com este sentimento de ter feito as pazes com a Vida. Com a doçura de minutos serenos e contínuos, com um toque dessa doçura na minha pele interior como espécie de chuva-poeira que só pode ser ternura. Morrer deveria ser sem angústia, sem desespero, numa sequência de este usufruir de uma graça especial e gratuita que nos reveste às vezes sem que saibamos porquê. Não é a exultação, não é a posse plena dos bens que nos toca em certos dias. É isto que atrás disse: estar em paz com a Vida. Ela não magoa, não fere, não interroga (ou não interrogamos). Somos docemente amigas, ombro a ombro, mão a mão, caminhando em completo entendimento, em perfeita união, sem cantar ou antes: cantando baixo a mesma canção. E assim nos deveríamos despedir dela, sem saudade, sem remorsos de não termos sido isto ou aquilo.
E depois… Depois, o que mais desejava era entrar em Deus como entro na água verde de Galapos: liberta, calma, feliz, entregando-me totalmente sem que nada em mim se retraia, num abraço pleno a quem me abraça também.
A fusão consentida, procurada até! “
Maria Cecília Correia – “Presença Viva”, Edição do Secretariado Diocesano da Pastoral das Vocações.
Nota: este texto foi lido no seu velório e, posteriormente, em todos os de quem foi falecendo na família.

__
Enquanto escrevo, o youtube vai saltitando de peça em peça. Não sei se é inteligência artificial, ou o algoritmo, ou Deus, ou o universo, mas as suas escolhas aleatórias começaram com o Lamento de Dido e agora vão nos Impromptus de Schubert - a música a que me agarrei para não soçobrar no filme "Amor" de Haneke. Estará tudo ligado?







20 novembro 2024

coisas da minha vida

 

Coisas da minha vida:
Ontem à noite combinei com o meu cinema mais favorito do mundo que lhes tentava arranjar um filme com o respectivo realizador para uma sessão especial na primeira semana de Dezembro.
O director do cinema estava um bocadinho céptico, mas eu acho que a esperança é a última a morrer.
Esta manhã, telefonei para uma das produtoras, na França. Disse ao que ia, e que antes de mais era preciso saber se o realizador estava disponível.
- Bem, não precisamos de falar mais - foi a resposta. - O realizador já tem uma certa idade, e está muito ocupado com outro projecto. Não tem hipótese nenhuma!
- Bem, sendo assim... - disse eu, e desliguei.
Trinta segundos depois voltei a ligar.
- Estive a pensar no caso, e estou a ligar de novo porque se calhar ainda me conseguem fazer um milagre.
Risos do outro lado.
- O importante é não perder nunca a fé! - afirmaram com convicção divertida.
Ri-me com eles.
Daí a nada estavam a dar-me o contacto do realizador.
Liguei ao realizador. Não vou contar o que lhe disse, porque o segredo é a alma do negócio, mas também lhe pedi um milagre, além de lhe pedir para falar mais devagar "porque entendo melhor o meu francês que o seu", e coisas assim. Em todo o caso: desligou o telefone muito bem disposto, e a dizer que vai perguntar à companheira, e que me liga antes da hora do almoço.
Agora estou com um problema grave: hoje chegam duas encomendas do correio e ainda não me fui arranjar, e também não vou porque tenho de ficar sentadinha ao lado do meu telemóvel, à espera de um milagre que me deve chegar de França ainda antes do almoço.

27 junho 2024

ser feliz todos os dias

Esta manhã, o facebook lembrou-me algo que escrevi há uns anos (é o que faz todas as manhãs, na realidade). A vantagem de usar o facebook para fazer apontamentos do que nos corre bem é que depois, todas as manhãs, o facebook nos lembra que faz hoje um ano estava a ser feliz, faz hoje dois anos estava a ser feliz, faz hoje três anos estava a ser feliz...
Há sete anos, estava a ser feliz da maneira que se segue.

Post mete-nojo:

Está uma pessoa ao computador descansadinha da vida, a arrancar os cabelos enquanto luta contra o atraso (esta semana vai ser assim) e recebe uma mensagem a dizer isto:
Hi guys, I hear from my brother that you are planning a visit. Don't forget to include a few days at our coastal apartment. We are looking forward to seeing you both.
O "coastal apartment" é em Santa Cruz, em frente ao Pacífico. Já estou outra vez com stress de tempo livre: eclipse solar em Oregon, Avenue of the Giants, San Francisco, acampar junto à Highway nr. 1, e agora Santa Cruz.

Há que ser forte, e manter o sangue-frio.

05 maio 2023

ando muito caladinha por aqui

 

Peço desculpa aos dois leitores deste blogue pelas minhas reiteradas ausências. Ora por causa disto, ora por causa daquilo, ele é o concerto do meu coro daqui a poucas semanas, ele são os morangos a precisar de estrume, ele são as traduções que também não se fazem sozinhas (agora que falo nisso: se no caso de alguns textos dava jeito, no caso do livro actual quero ser mesmo eu a fazer - é tão bom que é realmente um prazer traduzir cada uma das suas frases). E ele são textos que vou escrevendo para a concorrência.

Por exemplo: a Fluir. Acabou de sair o novo número, de tema "Som". Convidaram-me para participar, imagino que estariam a pensar que eu falaria, sei lá, no som perfeito da Filarmonia de Berlim - mas é só porque não me conhecem. Coitados.

Temo que esta seja, portanto e provavelmente, a minha última contribuição para a Fluir. Que na primeira quem quer cai (Fluir nº 2), na segunda (Fluir nº 11) cai quem quer, mas na terceira - ai, parece que me esqueci da terceira frase desta piadinha...

Brincadeiras à parte: aqui deixo um abraço para o José Pacheco, pela sua imensa paciência.

Também tenho andado a escrever um diário bretão em forma de folhetim na Almanaque. As más-línguas do facebook dizem que já contei aquilo tudo, mas eu e o meu Alzheimer fincamos pé e anunciamos ao mundo que não, não senhores, nem pensar: é tudo tão novo que até parece acabadinho de inventar.

Está, como não podia deixar de ser, na secção "Boa Vida" da Almanaque. Para as secções de cultura, ciência, filosofia, literatura, desporto, política, sociedade e outros assuntos sérios: contrataram quem sabe. E há lá gente que sabe muito! É uma revista que dá gosto.

Como ia dizendo, só para verem o que eu sofro: ainda agora acabei o capítulo mais recente da Boa Vida, e tenho de me despachar para o jardim, para ir tratar das roseiras e dos morangos, regar a quintinha, fazer a mala a correr e partir para o fim-de-semana do coro, etc. Que é como quem diz: depois da Boa Vida, a boa vida. Parece-me que isto não é uma queixa...

Só que, por estas e por outras, acabo a fazer-me mais rara por aqui. É a (boa) vida!


21 abril 2023

uma Páscoa feliz (2)

 





A ilha recebeu-nos com uma lua baixa, enorme, brilhante, magnífica. 
Fotografei do carro, como pude, pensando que faltavam apenas 3 km para chegar e que teria então todo o tempo do mundo para captar aquela magia.

Só que, depois da chegada, foi descarregar o carro, foi jantar, foi conversar com os amigos... e esqueci-me da lua. 

Quando fomos dar a voltinha do Fox, nem me lembrei do telemóvel. 

Sabem o Tântalo? Sou eu: a caminhar ao longo da costa, a ver - encantada! - o caminho dourado daquela lua sobre o mar, o céu cheio de estrelas, tudo perfeito, e eu sem ter como fotografar. 

Mas não me preocupei muito. Disse-me que estas pequenas férias da Páscoa vinham com mais alguns passeios nocturnos do Fox, e que teria sempre comigo o telemóvel e a câmara fotográfica. 

Os passeios nocturnos dos dias seguintes foram todos lindos, excepto... 
... a lua ter faltado ao encontro.  







E no último passeio - essa teve graça! -, apagaram a iluminação pública às onze da noite. Poupanças.
O que me lembrou uma frase que se ouve muito na Alemanha: "quem quiser aprender a poupar, olhe para os ricos". 

Por sorte tinha o telemóvel (o tal que devia fotografar a lua) para me iluminar o regresso. 
E não perder o Fox pelo caminho.  


19 abril 2023

uma Páscoa feliz


Aproveitámos os dois feriados à volta do domingo de Páscoa para visitar amigos num pequeno paraíso ali para os lados do mar Báltico. A Dinamarca: aqui tão perto, mas por vários motivos fora das nossas rotas habituais (a Polónia é outro caso, ainda mais flagrante: começa a 80 km de Berlim, mas nunca lá vamos).

Como ia dizendo: agarrámos no Fox, metemos as tralhas na carripaninha, e abalámos em direcção ao Pólo Norte. Perto de Fredericia, virámos à direita e atravessámos uma ponte que liga o continente à Fiónia. Uns dias depois, teriam a delicadeza de me informar que na Dinamarca não há rios. Ou seja (concluí eu): quando se atravessa uma ponte sobre a água, é provável que se esteja a chegar a uma ilha. No nosso caminho havia duas pontes, o que me fez sentir que saltitámos de ilha em ilha, passe o exagero, até chegar ao destino.   

E que destino!
Começo pelo mais importante para os leitores deste blogue: o Fox adorou. E não era motivo para menos. 
Nós também tivemos dias especiais com aquelas pessoas, aquelas conversas, aquelas paisagens. 

Além disso, milagre dos milagres: na Dinamarca, não é preciso falar dinamarquês. Todos falam português. A sério! Pelo menos os dinamarqueses que lá encontrámos, falavam. Quase todos. 




Tivemos uma Páscoa feita de confiança: na aldeia onde estávamos, os vizinhos expõem junto à rua as coisas que querem vender. Trabalhos de olaria, coroas de Páscoa ou arranjos com comida para pássaros - ali estava tudo, disponível para quem passava. Pronto a levar - e a pagar. 

Fez-me pensar que é muito agradável viver num lugar onde as pessoas confiam umas nas outras, e que, para ser assim, é preciso que todas cumpram as regras; mas para ser exactamente o contrário, ou seja, para vivermos num sítio onde todos desconfiam do mundo, basta que meia dúzia de espertalhões abusem da confiança dos outros. 

A fragilidade do paraíso.  




Uma Páscoa feita de alegria: o céu azul, a luz, a festa das cores, os ovos pendurados em arbustos junto às casas, as coroas nas portas. O mar sempre por perto.






Uma Páscoa feita de regressos. E de pessoas a saborear, felizes, o despertar da natureza depois do longo inverno. 




Só uma coisa me deixou perplexa: do livro O Cavaleiro da Dinamarca, da Sophia, só me lembro das florestas cobertas de neve com abetos verdes. Ando há 50 anos a pensar que a Dinamarca é uma imensa floresta. E não é, não foi isso o que vi. Regressei ao livro, para tentar entender onde nascera essa minha impressão, e correu mal: logo no primeiro parágrafo, fala nos rios gelados da Dinamarca. Ooops...

(E agora, senhores editores? Nas próximas edições: omitem as referências aos rios, acrescentam uma errata ou nota de pé de página, ou continuam a enganar as criancinhas?) (Ou então: trocam o nome do livro, fica O Cavaleiro da Suíça, e pronto.) (Ai! O Carmo e a Trindade a virem abaixo em três... dois... um...)


ADENDA: Um leitor atento rebateu a teoria de não haver rios na Dinamarca. Parece que há - e a wikipedia até tem uma lista de rios dinamarqueses. Afinal, a culpa é - como de costume - do tradutor. Na Dinamarca, ninguém chama "rio" aos cursos de água que lá há. "Rio" é palavra que só aplicam para dimensões maiores. Como o rio Reno.  Mas fui ver fotografias do Gudenå - e é bem maior que muitos rios portugueses. 
Em suma: desarrisquem aquela história das pontes, é fake news. E podem deixar o Cavaleiro da Dinamarca como está, que escrito em português está muito bem. Só é preciso ter cuidado com a tradução para dinamarquês.


17 novembro 2022

já cá cantam

 


59 anos a inscrever-me fugazmente na luz da paisagem.





Deito contas à vida: já só faltam cinco para saber como será when I'm sixty four.

Quer-me parecer que com a velhice me vai acontecer como com a meia-idade: avançará sempre ao meu ritmo, sempre cinco ou dez anos à frente de mim. Até ao dia em que, em plena correria desenfreada, um travão dentro de mim me segredará: "não corras assim para o autocarro, porque na tua idade já parece mal. Que dirão os outros?"


[ Gosto tanto destas fotografias que pensei guardá-las para um aniversário redondo. Era só mais um anito, um instante. Mas sabemos lá o que nos espera, sabe-se lá se o PC tem um crash e leva as imagens todas com ele... Em suma: não deixes para amanhã. Cada vez menos. ]


18 agosto 2022

brinquedo novo


 

Pergunto-me para que tenho eu um blogue, se já estou com duas férias em atraso para contar (e é melhor nem falar na série EUA 2009, que parou antes dos fabulosos capítulos de Antelope Canyon, do passeio de raparigas a Las Vegas enquanto os rapazes atravessavam o Grand Canyon a pé, e de Bryce Canyon).

As férias de maio passado foram impecáveis, e as de julho melhor ainda. O problema - será que aos outros também acontece o mesmo? - é que quando volto de férias mergulho numa maratona de trabalho que me deixa exausta e pronta para as férias seguintes, a que por sua vez se segue uma maratona de trabalho que...

Pois bem: no fim-de-semana passado o Joachim conseguiu arrancar-me ao computador por umas horas, para me levar a arejar num dos lagos que há à volta de Berlim. Fizemos stand up paddle (o nosso brinquedo novo), fomos beber uma cervejinha na esplanada da terra, mesmo ao lado do rio Havel (era para ser só uma cervejinha, mas os bolos eram tão bons que vamos a isto, e depois mais a salsicha que não podia faltar, e era tudo delicioso e tudo fazia tanto sentido que até me lembrei daquela vez que, no fim das férias, fui devolver uma balança à IKEA porque só podia estar avariada).

De bem com a vida, voltámos para a água e ali ficámos enquanto o dia se entregava serenamente à noite. Mas depois começou a chover, a chover a sério, e fizemos como os três porquinhos: fomos abrigar-nos numa casa sólida, porque nunca se sabe. Voltámos para Berlim, em vez de dormir ali, entre o Havel e o lago Grabow, debaixo das árvores altíssimas.

Depois regressei à minha maratona. E só agora partilho aqui as fotografias. Tinha um filme fantástico, eu autêntica Vitória da Samotrácia, pelo menos, a deslizar com garbo pela paisagem, mas o problema é que descobri recentemente que tenho de aumentar 12 cm para o meu IMC bater certo. Como ainda não descobri um app que me aumente 12 cm nos filmes, pois bem, meus amigos, ficamos assim.








As duas fotos que se seguem eram do tipo "à sua esquerda vêem... e agora, se olharem para a direita..." - com a particularidade de nenhum de nós ter caído à água enquanto eu fazia estas acrobacias.



Finalmente: o repouso do guerreiro. Depois de ter nadado 2 km, dado umas voltinhas sozinho na prancha, e mais dois 2 km a fazer de gondoliere para esta vossa servidora fotografar no meio do lago.




17 novembro 2021

58

 

Esta manhã acordei e pensei:
"58 anos. Se calhar já começavas a ganhar juízo..."
E logo a seguir:
"Naaa... não saberia ser de outra forma, portanto continua como está, que é como sei ser."
Atão vá. Cá vamos nós.

É bom andar por aqui.


03 junho 2021

e o vosso dia: também começou assim bem?


Esta manhã, dia de letra J na Enciclopédia Ilustrada, descobri que a palavra "jacarandá" ainda não foi um tema proposto.
Jacarandá! Já ganhei o dia.

A seguir recebi uma mensagem da Filarmonia, a dizer que tinham decidido abrir uma excepção para mim, e trocar a data de uns bilhetes que tinha comprado há dias, para descobrir pouco depois que afinal nessa data não posso ir (os bilhetes agora são nominais, não há como os passar a algum amigo). Bem sei que esta decisão pode ter algo a ver com a minha espertalhice de fazer o pedido como resposta a um email antigo, onde desistia de ser reembolsada do preço dos bilhetes de concertos cancelados, mas essas questões do Karma com telecomando não interessam agora.

Espero que o vosso dia também tenha começado igualmente bem.


31 março 2021

a cidade a bem-querer



1.
Entrei no autocarro, descobri que não tinha bilhetes e fui comprar um ao condutor.
- Minha senhora, há mais de um ano que não vendemos bilhetes no autocarro.
- Ai! Então deixa-me ir sem bilhete até à próxima paragem com automático?
- Com certeza.
Saí na tal paragem. O ecrã da máquina apanhava o sol em cheio, não dava para ver nada. Comecei a tentar fazer sombra com a mão para escolher o bilhete que queria, e às tantas ouvi uma voz:
- Se eu me puser assim aqui, tem a sombra de que precisa?
Era uma senhora que viu a minha atrapalhação e veio logo ajudar.
Depois não se admirem por eu andar de cara alegre nesta minha vida.

2.
Mais adiante, o autocarro que me interessava passou por mim, mas a paragem era demasiado longe para tentar apanhá-lo. Contudo, o autocarro ficou tanto tempo parado que ganhei ousadia e apressei-me ligeiramente nos últimos dez metros. Quando estava a chegar à porta de trás, ele arrancou. Não me chateei. Afinal de contas, já estava parado há demasiado tempo.
Logo a seguir o autocarro parou porque o semáforo estava vermelho, e o condutor abriu a porta para eu entrar.
(Será que tenho algo escrito na testa?)

3. Cheguei ao Consulado à hora a que estava quase a fechar. Toquei à campainha, e o funcionário avisou-me logo que não sabia se me ia poder atender. Daí a bocado veio buscar a senhora que estava antes de mim, e avisou de novo: "está a ficar tarde". A que entretanto tinha saído deu-me uma piscadela de olho, "não se preocupe, ele vai atendê-la". Atendeu. Voltei para casa com o meu CC novinho em folha (e a fotografia ficou muito melhor que a de há 10 anos - é uma sorte o CC não ser vitalício, não queria nada andar com a foto de há 10 anos agarrada a mim até que a morte nos separe).

4. Quase a chegar a casa, e por já estar com a mão na massa (quer dizer: com os sapatos da rua calçados) resolvi fazer um desvio pelo lago. Estava cheio de nudistas a gozar o belo dia de sol que se pôs hoje. Passaredo, isso é que quase nenhum. Dois cisnes, um galeirão. Mas no tronco onde habitualmente há uma garça encontrei três tartarugas (há quantos anos não as via neste lago!) a aproveitar o sol como os nudistas. Perto de mim, duas crianças esperavam que a sua acompanhante acabasse o telefonema. Disse-lhes: "viram ali as tartarugas?" O rapazinho respondeu: "vimos. E tu hoje escolheste uma roupa muito bonita!" (garanto que não, mas pronto)

Conclusão. Um dia que precisem de sentir que toda a cidade vos quer bem, apanhem o autocarro e vão ao consulado de Portugal. Eu, para falar verdade, não precisava. Mas foi muito bom na mesma.
🙂