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11 fevereiro 2026

será que ainda vamos a tempo?

 






No dia 7 de Outubro de 2023, ao ouvir as primeiras notícias do massacre do Hamas, lembrei-me desta cena do livro Jerusalém, de Joe Sacco.
Publicar estas imagens e esta pergunta logo a seguir àquela orgia de violência contra judeus teria sido obsceno. Mas hoje, depois de todo este tempo a assistir ao insuportável castigo colectivo que o governo radical de Israel está a perpetrar em Gaza, esta pergunta torna-se absolutamente crucial: o que vai na cabeça de uma criança que cresce nas condições em que as crianças palestinianas vivem, uma criança que vive agora, dia após dia, o terror de uma guerra contra a população civil?

Para construir a paz entre Israel e os palestinianos, é imperioso quebrar as lógicas que alimentam a espiral da violência. É imperioso ouvir os dois lados, e reafirmar o óbvio: a vida de um judeu vale tanto quanto a vida de um palestiniano. O direito à vida, o direito a viver com dignidade e em liberdade, é igual para ambos.

--- Escrevi este post no facebook em Fevereiro de 2024. Depois disso já houve eleições nos EUA, e à frente do país mais poderoso do mundo está agora um homem que nem sabe soletrar "dignidade humana". Tem cifrões nos olhos, prémios Nobel fake no coração, e a lei do mais forte na cabeça.

Mas será que a lei do mais forte permite construir uma paz duradoura?

05 agosto 2025

hoje mesmo, no inferno de Gaza

 

Gaza hoje mesmo, pelos olhos e pelo coração de Raul Manarte.
Ele está a arriscar a vida para ajudar as vítimas daquele horror.
O mínimo que podemos fazer é ler e partilhar o seu testemunho. [ O texto e a foto de Raul Manarte podem ser encontrados aqui ]


Gaza, 5 de Agosto de 2025

Hoje acordamos com bombas (como sempre), mas com a notícia que Netanyahu vai invadir toda a faixa de Gaza. As pessoas estão com muito medo.

Quando as crianças vêm para ser amputadas ou para mudar as ligaduras das queimaduras também estão cheias de medo. Depois vejo os meus colegas: pessoas sem casa, a viver em tendas, com familiares mortos, com fome, sem certeza se vão estar cá amanhã - e vejo-os a serem os seres humanos mais gentis e pacientes que já vi com estas crianças…

A forma meiga como falam com elas, como as preparam, como usam os fantoches, como as deixam brincar com a gaze e o desinfetante para perderem o medo, como as distraem com bolhas de sabão ou vídeo enquanto gritam com a dor da pele queimada… e não entendo… começo a chorar sozinho. É sempre esta gentileza que me arrasa. A luz mexe mais comigo do que a escuridão. E quanto mais perdidos no escuro estamos, mais bonita é a luz deles.

Hoje fiz a estrada para Norte. Neste mundo estranho tenho de dizer que é uma estrada “Mad Max” para que outros possam ter uma ideia do que quero dizer. Não há um prédio inteiro, quase não há carros e os que existem estão adulterados, batidos e baleados.

Há pessoas a queimar pneus à beira da estrada para fazer combustível. Quando cheguei a Gaza city tive de tirar uma foto: vi uma árvore! Já não me lembrava de árvores… E eles? Será que se lembram do toque das flores? Do som das folhas? Do cheiro das marés seguras?

Vamos começar a dar apoio também aos condutores dos camiões de comida que entram. São parados durante até 36 horas na fronteira sem comer, obrigados a despir e a estarem de joelhos por horas, são ameaçados, humilhados e agredidos.
Quando finalmente saem da fronteira têm ordens para andar depressa, se abrandam recebem um tiro de aviso - são obrigados a atropelar as pessoas que tentam parar o camião.

Quando a multidão é imensa, têm de parar. São arrastados para fora e novamente espancados.
São os únicos que não podem levar nenhuma da comida que trazem porque se não são despedidos. São obrigados a levar os corpos cheios de sangue no próprio camião, alguns deles foram eles que atropelaram...
Precisamos de um psicólogo homem porque não vão dizer a uma mulher que defecaram nas calças.

Há gente que tenta convencer-nos que estamos divididos em duas equipas: uma que vê os reféns e outra que vê os palestinianos.

Malditos sejam. Conseguiram.

Se me conseguires ouvir: nós estamos todos do mesmo lado. O da humanidade.
Eles, os que criam esses grupos, eles que se fodam…

Hoje acordámos com a notícia de que Gaza será tomada.
Mas também com a de que 6 dos nossos pacientes vão ser evacuados deste inferno amanhã.

Decidi focar-me na última. 

27 maio 2025

o imobilismo alemão a abrir brechas


Felix Klein, comissário do governo federal alemão para a vida judaica na Alemanha e o combate ao anti-semitismo, passou de um recente "Em princípio, não me parece mal que haja ideias novas e radicais"(estava a falar de "Trump Gaza") para um "É preciso repensar a solidariedade e o significado de raison d'État na relação entre o Estado alemão e Israel. (...) Temos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para garantir a segurança de Israel e dos judeus em todo o mundo. Mas também temos de deixar claro que este compromisso não desculpa tudo." Vai mais longe: matar os palestinianos à fome e piorar deliberadamente a situação humanitária não tem nada a ver com a salvaguarda do direito de Israel à existência. E também não pode ser raison d'État da Alemanha. Israel tem o direito de se defender contra o ódio genocida do Hamas. Mas o objectivo do exército deve ser lutar contra os terroristas do Hamas que utilizam a população civil como escudo, e libertar os reféns israelitas. Perante o que está a acontecer em Gaza, é legítimo questionar se Israel está a respeitar o princípio da proporcionalidade. É certo que, na entrevista num noticiário da televisão pública, se fartou de gaguejar. Pelo que uma pessoa se pergunta de que espécie de cavalo terá caído para ter esta transformação radical. Mas adiante: tudo está bem, quando vai na direcção certa. Ontem, o chanceler Merz também apareceu com um discurso muito mais incisivo que aquele a que estamos habituados na política alemã. Criticou abertamente as acções de Israel em Gaza, afirmando que a extensão dos danos causados à população civil já não pode ser justificada como uma luta contra o terrorismo do Hamas. “Quando os limites são ultrapassados, quando o direito internacional humanitário está a ser violado, também a Alemanha, também o chanceler alemão, tem de dizer alguma coisa sobre isso”, disse em entrevista à WDR. No seu governo de coligação, já se ouvem vozes do SPD a apelar ao fim da exportação de armamento para Israel. Vem cinquenta mil mortos demasiado tarde. Mas se servir para a Alemanha repensar o seu apoio e novas maneiras de assumir a sua enorme parte de responsabilidade na criação de Israel, e se servir para evitar a deportação da população de Gaza para outra tragédia qualquer, e se servir para começar a tratar seriamente de uma solução de dois Estados nas fronteiras anteriores a 1967... mais vale tarde que nunca. (Para isto andar realmente para a frente, e para Israel deixar de ter desculpas perante a comunidade internacional para continuar a dizimar os civis palestinianos, era o Hamas - por uma vez na sua vida - pôr os interesses da população palestiniana à frente dos seus próprios, e propor trocar a sua existência por um bem maior: a criação do Estado Palestiniano.)

03 março 2025

No Other Land - discurso do Óscar

 

Há uma diferença enorme entre o que os dois realizadores de No Other Land disseram ao receber o Óscar em Hollywood (aqui), e o que disseram ao receber o prémio de melhor documentário da Berlinale, há exactamente um ano.
A luta deles continua igual, mas neste discurso escolheram palavras que unem as pessoas num consenso que dá muito mais força ao movimento para a paz entre os dois povos.

Já não era sem tempo!
(fartinha do Porto-Benfica em que transformaram a causa do direito dos palestinianos a viver em paz)

06 fevereiro 2025

reconstruir Gaza


Não é preciso pôr ninguém para fora de Gaza para reconstruir as casas.

Basta virem a Berlim perguntar aos que ainda viveram essa época: como foi possível continuar numa cidade brutalmente destruída?
Uma amiga contou-me que quando se mudou para Berlim, uma dúzia de anos depois da guerra, muitos edifícios do Ku'damm só tinham o rés-do-chão. O resto tinha caído nos bombardeamentos. Faziam um telhado provisório, e tinham lojas, cafés e restaurantes na mesma. Se já foi possível em Berlim, será certamente possível em Gaza. Mas se querem mesmo pôr os palestinianos fora de Gaza, a única solução aceitável é criar campos de refugiados em Israel, à responsabilidade da ONU. Assim, tem-se a certeza de que essas pessoas regressarão a Gaza, e o mais cedo possível, porque Israel não quererá ter refugiados palestinianos no seu território durante muito tempo
Pronto, era apenas uma ideia. De sofá para sofá, como tudo o que diz respeito à nossa opinião sobre israelitas e palestinianos.

20 junho 2024

House, de Amos Gitai



O meu terceiro post sobre os "Reflexos e Reflexões", que decorreram na semana passada no âmbito dos Berliner Festspiele, é sobre a peça de teatro "House", que vi no domingo. Ao longo de um quarto de século, o realizador israelita Amos Gitai filmou as pessoas de uma casa centenária em Jerusalém Ocidental, na rua Dor Dor ve Dorshav, que significa algo como "cada geração interpreta à sua maneira". Assim nasceu a sua trilogia Bait (Casa): um filme em 1980, outro em 1998, e o terceiro em 2005.

A companhia de teatro La Colline adaptou agora os três documentários, recriando em palco essa metáfora de uma terra ocupada. No centro, em relativa imobilidade, os operários palestinianos que servem os donos da casa. Por eles passam os moradores de cada época e os seus vizinhos, ao som de música palestiniana e judaica. Cada um fala da sua história e das razões que tem, e todos têm razão, muita razão. Até que no final, numa cena de enorme pungência e dignidade, um dos operários palestinianos se senta à boca do palco, e começa a fazer perguntas ao público. No tom calmo de quem sabe que já lhe roubaram tudo, mas que a verdade não se deixa roubar. É uma peça fortíssima, muito bem feita, com uma beleza própria, feita de inúmeras sobreposições. Os actores vêm da França, do Médio Oriente e do Irão, as personagens falam em árabe, inglês, francês, hebraico, iídiche, arménio e turco. Em Berlim, passou com legendas em inglês e alemão.

*** No final, Amos Gitai falou com o público. Começou por dizer que não podemos esperar da arte que mude a realidade. O máximo que faz é guardar a memória, de uma forma muito própria. Guernica, por exemplo: no final, quem venceu em Guernica?

Na sua metáfora da casa, mostra como as pessoas coexistem num ambiente tóxico. Cada um vê apenas a narrativa do seu lado. Mas já Isaac Rabin dissera, pouco antes de ser assassinado, que não é possível resolver o problema de forma unilateral. Como se viu, aliás, nas guerras mundiais: Hitler resultou da vitória de 1918. É fundamental aprender a entender o ponto de vista do outro, como lembra Mahmoud Darwish no seu belíssimo poema:


Insiste: sem ser capaz de sair das suas próprias razões e entender o lado do opositor, não haverá nunca um cessar das hostilidades. 

Alguns momentos do debate:

- Qual foi o maior desafio na passagem de "Bait" do cinema para o teatro?
- Foi um longo processo. Gosto de coisas híbridas. Passámos de uma narrativa cronológica para uma justaposição de fragmentos. 

- Em "House" já encontramos sementes do que estamos a viver hoje em dia?
- Quando fiz o filme, há 40 anos, o nível de negação dos meus compatriotas era muitíssimo mais alto que hoje em dia. Provavelmente pensava-se que, se ninguém falasse sobre os palestinianos, estes iriam acabar por se evaporar. Agora, depois de tantos episódios terríveis de violência, ambos os lados perceberam que nenhum deles vai desaparecer. Mas em 1980 incompatibilizei-me com a televisão israelita, porque me recusei a tirar do filme as partes dos palestinianos que trabalhavam na casa e a referência aos primeiros proprietários. E fui alvo de muita hostilidade por levar o filme à Berlinale.
Podemos dizer que avançámos um pouco, mas em termos políticos estamos a recuar imenso. 
Contudo, ao menos há finalmente a consciência de estarmos perante um conflito existencial ao qual não podemos fugir. 
Mesmo os políticos de esquerda: alguns deles pensaram que era possível fazer acordos com outros países, sem considerar os palestinianos. Agora já perceberam que é impossível. 
E os judeus deviam saber isso. Porque a sua própria experiência lhes mostra que não se consegue vencer um povo pela violência. 
Neste momento, estamos numa encruzilhada. E não sabemos por onde vamos seguir. 

- Nesta peça de teatro, senti a dor profunda da perda. Mas também alguma esperança. A esperança vai conseguir sobrepor-se à perda?
- A música que ouvimos ao longo da peça é palestiniana, feita por músicos palestinianos. Foi muito importante para mim fazermos isto juntos. A solução só pode passar por olhar nos olhos o ser humano que tenho à minha frente.
Sobre a esperança: em Nablus, fiz exactamente a mesma pergunta a um líder palestiniano, acusado de terrorismo. Respondeu-me: "Ser pessimista é um luxo que não nos podemos conceder."

A senhora do kibutz que já tomara a palavra no fim do debate sobre a Nakba e a Shoah (contei aqui) voltou a fazer o seu relato desesperado. Amos Gitai responde-lhe brevemente:
- O actual governo israelita não quer saber de vocês, não se interessa. Vocês são pessoas de esquerda. Mas penso que todos os israelitas, mais tarde ou mais cedo, terão de se confrontar com a questão que os palestinianos levantam: "porque não podemos ser donos da nossa casa?"

- O que diz sobre o boicote a Israel e aos artistas israelitas em curso?
- Pessoalmente, não me posso queixar. "House" tem convites para Londres, Roma, Madrid...
O que mostra que, em plena tsunami de ódio, há quem tenha uma atitude de abertura e vontade de dialogar. 

Uma pessoa que se apresentou como refugiada russa tomou o microfone para fazer várias acusações: 
- O sentimento de impotência é insuportável. O Estado alemão está completamente passivo, faz de conta, assobia para o lado. E o senhor: esteve aí a gabar-se de todos os lugares aonde vai levar a sua peça. Mas será que isso basta? Não vai fazer mais nada para resolver o problema?

O moderador tomou a palavra:
- Está a ficar cada vez mais normal dizer mal do Estado por tudo e por nada, haja ou não razão para isso. Esse hábito é perverso e perigoso. Certamente não ignora que estes quatro dias da iniciativa "Reflexos e Reflexões" foram largamente financiados pelo Estado alemão. 

E Amos Gitai, secamente:
- Quando falei das cidades que nos convidaram, estava a responder à pessoa que falou antes de si, e desejo muito boa noite a todos. 

Pousou o microfone, foi-se embora.

18 junho 2024

"o 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba"

Fonte: site de "Reflexos e Reflexões" . © Ali Ghandtschi 

O último dia de "Reflexos e Reflexões" prometia uma tarde bem preenchida: o debate sobre "o 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba", e a peça de teatro "House", de Amos Gitai, pelo teatro La Colline.

Aqui deixo uma síntese do debate, que tentei fazer com a maior fidedignidade possível, a partir dos apontamentos que fui tomando (era proibido tirar fotografias ou fazer gravações, para garantir que todos se sentiam mais livres para falar).

Participantes do painel: - Ahmed Fouad Alkhatib, analista político palestiniano que vive nos EUA desde que tinha 15 anos; - Muriel Asseburg, investigadora de ciências políticas alemã; - Uriel Kashi, alemão residente em Israel, pedagogo e guia de turismo cultural.

O jornalista Paul Middelhoff, do semanário Die Zeit, aceitou o desafio de moderar o debate.

Um dos organizadores da iniciativa falou dos seus objectivos em geral - sermos capazes de falar com sensatez sobre temas tão difíceis, sem cair na armadilha da polarização - e do tema específico: o papel dos traumas do passado, a Shoah e a Nakba, na presente tragédia.

Também informou que havia um awareness team na sala: quem se sentisse insultado, magoado, irritado pelo que ali se dizia, podia ir conversar com algum elemento dessa equipa.

Paul Middelhoff tomou o microfone, e dirigiu a primeira pergunta a Uriel Kashi: Como liga o 7 de Outubro à Shoah?

Uriel começou por contar que acompanhou recentemente um grupo de alemães em Israel, que quiseram falar com sobreviventes da Shoah, e acabaram a ouvir os lamentos destes: - Porquê tanto anti-semitismo? - Porque não nos deixam em paz? - Temos um país tão pequeno, e nem isto nos deixam ter! Uma velhinha quase centenária contou que no dia 7 de outubro se sentiu imediatamente de regresso à Shoah.

Acrescentou: em Israel há grupos muito diferentes. Os judeus da Europa têm a memória dos pogroms, os judeus árabes têm a memória do massacre de Hebron e das expulsões em massa. A refém mais velha dos que ainda estão em Gaza tem 86 anos e nasceu em Bagdad.

Há uma memória forte do tempo em que, como judeus, não se sentiam seguros em lugar nenhum do mundo. Mas desde o 7 de outubro, quebrou-se a crença num Estado forte, que as protege. Nos kibutz, ao contrário das expectativas, a polícia e o exército não apareceram em menos de dez minutos. Muitos habitantes esperaram um dia inteiro até serem libertados. Durante todo esse tempo temeram ser executados, torturados ou raptados, e sentiram que não havia ali ninguém que os protegesse. E mesmo em Jerusalém, onde Uriel mora, passaram esse dia em grande sobressalto, temendo serem também vítimas dos ataques. De momento, todos sofrem a angústia do extermínio, misturada com a desconfiança em relação ao governo.


A segunda pergunta foi para Achmed: O que foi a Nakba?

Significa "catástrofe", respondeu ele. Um trauma geracional, uma série de acontecimentos trágicos ligados à independência de Israel em 1948. As aldeias onde os seus antepassados nasceram deixaram de existir. Os campos iniciais de refugiados foram evoluindo para comunidades e localidades. 70% dos habitantes de Gaza são descendentes dos palestinianos de outras regiões que ali encontraram refúgio em 1948. Estas pessoas em fuga iam contando pelo caminho o que lhes acontecera e porque fugiam. Movidas pelo medo, muitas outras famílias fugiram voluntariamente. O que está a acontecer neste momento é uma espécie de reencarnação da Nakba, e torna qualquer hipótese de reconciliação muitíssimo mais improvável. O Hamas revela-se particularmente perigoso nesta antecipação da reacção e das suas consequências. Não foi por acaso que decidiram provocar o governo da direita mais radical que Israel alguma vez teve. É isso que torna esta tragédia ainda mais terrível.

O passado é importante, mas insistir na repetição de frases como "os palestinianos já estavam aqui há milhares de anos" inviabiliza qualquer tentativa de construção de um futuro.


A terceira pergunta foi para Muriel: Qual é o papel da memória na política?

A investigadora académica começou por agradecer a oportunidade de falarmos em conjunto sobre estas questões, porque espaços de diálogo como este são muito necessários e têm uma importância vital.

Continuou: estes acontecimentos despertaram os traumas colectivos nos dois lados. De um lado e do outro, as pessoas são revisitadas pelos sentimentos de humilhação, desamparo, desespero. E é este o prisma pelo qual olham para o que lhes está a acontecer. Uns esquecem que o 7 de outubro foi um massacre anti-semita, e os outros esquecem que a Nakba nunca parou de acontecer.

Temos assim duas populações que se vêem, ambas, ameaçadas de extinção, o que reforça a tendência para cada grupo se fechar sobre si próprio e nos seus próprios mecanismos, e a ninguém ocorre procurar uma solução em conjunto. Dos dois lados falta a empatia, a capacidade de ouvir os outros e as suas razões. E multiplica-se a diabolização e a desumanização do inimigo. No caso de Israel, isto refere-se não apenas aos terroristas, mas infelizmente alarga-se a toda a população, numa espiral de violência e de desculpabilização da violência.


Como se fala da História às crianças?

Ahmed: A Nakba tem duas componentes: os episódios que os nossos avós nos contavam, os detalhes muito vivos, por um lado; mas o aspecto mais importante da Nakba é algo que todos vivem todos os dias, pelo que não é preciso falar sobre isso ou contar histórias: a inexistência de um Estado palestiniano, o excesso de população num território tão diminuto. Por exemplo: as salas de aula, onde há muitas mais crianças que as originalmente previstas para aquele espaço. Não é preciso que ninguém nos conte aquilo que nos entra permanentemente pelos olhos adentro. Esta é também uma das causas da radicalização. Para a evitar, temos de ser capazes de ir ao encontro uns dos outros.

Uriel: No que diz respeito às crianças judaicas, em Israel, o modo de lidar com a Shoah mudou inteiramente ao longo destes 80 anos. Começou pelo silêncio, entre outros motivos porque todos andavam ocupados com problemas mais urgentes. Os sionistas, que em parte tinham ideias de esquerda, eram movidos pelo objectivo de tomar o destino dos judeus nas suas próprias mãos, e queriam contrariar os preconceitos que o mundo árabe tinha sobre a preguiça dos judeus, tentavam construir um país moderno e eficiente. O que se revelou extremamente difícil, numa terra sem água, com temperaturas de 40 graus à sombra, e com ondas sucessivas dos refugiados que fugiam da Europa ou eram expulsos dos países árabes. Até aos anos 60s e 70s, imperou o silêncio. Tentavam andar para a frente, e esquecer o passado. No máximo, contavam histórias heróicas de resistência e fuga durante a Shoah. Em 1962, com o julgamento de Eichmann e a apresentação de testemunhos no tribunal, muitos israelitas ouviram pela primeira vez o que tinha acontecido. Só depois das vitórias militares tiveram coragem de olhar realmente para o passado. Hoje em dia, isso está integrado na sociedade: desde os dois minutos de silêncio no Yom HaShoah, que todos observam no país inteiro, à divulgação dos relatos das testemunhas da época. O trabalho de memória da Shoah começa já no infantário, e é feito com o objectivo de proteger as crianças, dando-lhes a conhecer essa realidade de uma forma adequada, de forma a prepará-las para a eventualidade de serem confrontadas com cenas ou histórias com as quais não saberiam lidar. A questão central não é "o que os nazis nos fizeram" mas: "qual foi a reacção dos judeus? Com que dilemas se debatiam, que decisões tomaram?" Estes transformam-se em heróis e modelos para a juventude.

Muriel: Nas escolas, não se contam as experiências do outro povo. Há organizações civis que tentam criar vasos comunicantes mas, de um modo geral, as vivências do outro lado são ignoradas, e portanto inexistentes. O sofrimento de cada um dos dois povos é exclusivo, não inclui o sofrimento do outro. Com Netanyahu, tem havido uma tendência crescente para apagar da consciência colectiva a existência do outro lado. No entanto, há excepções. O relatório da iniciativa "Holy Land Confederation", por exemplo, escrito em conjunto por pessoas de ambos os lados, dá um espaço importante à História comum e aos pontos de vista de cada povo (aqui, em inglês). Discordo de Achmed no que diz respeito ao papel da História. Para conseguir avançar, temos primeiro de olhar para o passado e assumir a responsabilidade do que aconteceu, reconhecer a assimetria de poderes que está em jogo, dar-se conta de que os palestinianos não são os autores da Shoah.


A falta de conhecimento da realidade do outro povo está na origem da falta de empatia?

Ahmed: Com certeza! Quando saí de Gaza, em 2005, não sabia praticamente nada sobre a Shoah. Ninguém sabia responder às perguntas que eu fazia. E se recebia alguma resposta, geralmente tinha um fundo anti-semita: "A culpa foi deles. Alguma coisa terão feito para merecer isso..." Mesmo entendendo a importância e o impacto da "resistência" (o que é um termo muito lato), as ideias de "globalizar a intifada", de reagir, de obrigar os israelitas a dar-se conta da nossa existência e do nosso sofrimento são incompatíveis com qualquer espécie de empatia em relação às vítimas inocentes dos atentados. E hoje mesmo, em Gaza: a maioria da população não sabe o que aconteceu no dia 7 de outubro, não viu imagens, não foi informada. Nos kibutzim viviam pessoas incríveis, que ajudavam a população de Gaza a ter acesso a bons cuidados de saúde e a arranjar trabalho em Israel. Essas perguntam-se também: "porque estamos a pagar o preço de um crime que não cometemos?"

Uriel: Nos anos 90s (Oslo, grupos de activistas para a paz) começou-se finalmente a falar do sofrimento dos palestinianos. Quando assassinaram Isaac Rabin, um silêncio perplexo abateu-se sobre o país: como era possível ser justamente um judeu o autor do atentado? Perguntaram-se então como é que o conflito de interesses era tematizado nas escolas, e deram-se conta de que nenhum professor o referia, porque não sabiam lidar com o ambiente de tensão provocado por um tema tão controverso. Foram escritos novos livros escolares para corrigir a situação. Quando começou a segunda intifada, com os ataques bombistas em autocarros, deixou de se falar deste tema. Voltou a ser tabu. Uma excepção é o Center for Humanistic Education, com o seu programa que junta ao longo de um ano alunos dos dois povos para aprenderem mais uns sobre os outros. Pessoas que sentem que o seu sofrimento é visto e reconhecido estão mais capazes de se abrir em busca de soluções. No entanto, nos últimos anos, a disponibilidade para ouvir e tentar compreender o outro recuou significativamente.

Muriel: Penso que temos de ser cuidadosos, não devíamos chamar "trauma" a tudo. Há traumas palestinianos anteriores à Shoah e à Nakba. Há o massacre de Hebron, em 1929, quando os judeus foram massacrados e expulsos da cidade onde muitos deles viviam há quase mil anos. O sionismo também é a resposta ao anti-semitismo e aos pogroms. Tem origens muito antigas, e é muito importante que a Europa se reconheça como a origem das causas desta situação, quer na vertente do seu anti-semitismo quer na do seu imperialismo. Não há consenso sobre o conceito de "trauma colectivo". Qual é a parte do "trauma colectivo" que é construída para dar profundidade a uma história nacional? É algo que as pessoas experienciaram elas próprias, ou os seus pais? Ou é um acontecimento que nos formata?

Ahmed: Neste preciso momento, Gaza está a viver literalmente um trauma colectivo. Gostei de ouvir o que disse sobre o trauma como instrumento de manipulação. Porque é exactamente o que o Hamas está a fazer: "este trauma vai impedir a paz definitivamente". Ao mesmo tempo, este trauma é acompanhado de uma reacção mais subtil em alguns indivíduos palestinianos. Dão-se conta de que já passaram por isto várias vezes. Na Nakba, na segunda intifada... E reparam que esta violência não está a levar os palestinianos para lado nenhum. É preciso encontrar outro caminho.

Uriel: Ao escolher o que contamos, estamos sempre a fazer uma escolha política. Em Yad Vashem também existe um espaço para os muçulmanos "justos entre as nações". Pode ver-se, por exemplo, o cidadão egípcio que salvou vários judeus em Berlim. [Nota: é uma escolha política, sem dúvida. Ao procurar mais informação sobre isto, encontrei um artigo do Times of Israel onde se critica que haja tão poucos árabes nessa lista de justos do Yad Vashem. Há muçulmanos europeus, sim, mas faltam os nomes de vários árabes que também correram risco de vida para ajudar os judeus a escapar. Nesse artigo, há uma explicação muito curiosa: "por um lado, há árabes que não querem ver ali o seu nome; por outro lado, o Yad Vashem não está a procurar com muito empenho"] Uriel continua: Em outubro de 2023, o embaixador de Israel na ONU discursou perante o Conselho de Segurança ostentando uma estrela amarela no casaco, como forma de apelar à empatia das Nações Unidas. Foi muito criticado em Israel porque com esse símbolo estava a fazer a ligação entre o Estado de Israel e o tempo em que os judeus não tinham um Estado que os protegesse. Se escolhermos ficar teimosamente no papel de vítima não seremos capazes de construir um futuro melhor.


Na Alemanha, fala-se muito na "razão de Estado". Qual é a ligação entre o sentimento de culpa dos alemães e a forma desastrosa como os debates estão a decorrer neste momento?

Muriel: Não é culpa, é sentido de responsabilidade. Eu não sou culpada da Shoah, mas sinto a responsabilidade de evitar que volte a acontecer. No início, dizia-se: "Nunca mais Shoah, nunca mais guerra". A este respeito, a política da RFA assentava em dois pilares: - Defesa dos Direitos Humanos, políticas para a paz - Atenção à segurança dos judeus no mundo inteiro. Entretanto, houve uma mudança radical: de "judeus" passámos para "Israel". A política faz-nos grandes discursos, cheios de grandes princípios. Afirma que o massacre do Hamas foi um crime de tal dimensão que exige da Alemanha um apoio incondicional. Mas omite o fundamental: não se trata apenas de lutar contra o terrorismo, para além disso há muitos interesses envolvidos. Interesses económicos, por exemplo.

Também há que criticar sem margem para dúvidas quando a liberdade científica é ferida, como aconteceu recentemente, e quando no diálogo só se aceitam posições pré-definidas.

Ahmed: A censura é sempre um tiro no pé. Parece-lhe que o governo tem meios para a gerir?

Muriel: Não é função do governo fazer o framing da discussão. O governo tem de ficar de fora destes debates, e simultaneamente garantir que haja espaços para debater livremente.

Uriel: Há três semanas ia falar numa palestra para a qual tinha sido convidado, e boicotaram-me aos gritos. Na Alemanha também há censura contra as pessoas que vêm de Israel. É quanto basta para serem impedidas de falar. Na Alemanha instalou-se um clima aberto de deslegitimação do Estado de Israel. O Estado também tem a função de proteger as pessoas, e neste momento há neste país muitas pessoas que não se atrevem a sair à rua com algum símbolo que as identifique como israelitas.


Debate com o público:

A primeira pessoa a falar é uma mulher já de certa idade. Diz que vem de um dos kibutzim que foram atacados. Descreve com palavras muito vivas o horror daquele dia. Chora. Diz: "o meu pai agora também é um refugiado, já não tem casa". A minha família era da esquerda radical, pessoalmente dediquei-me a estudar o passado da terra onde o meu kibutz se instalou. Mas agora penso que a questão mais importante para os judeus é o seu direito a viver. Tenho a sensação que a Alemanha dá com uma mão a Israel e com a outra aos seus inimigos. O que vocês dizem é propaganda emocional muito muito muito boa. Sinto que ninguém está a entender o sofrimento dos judeus provocado por este massacre, e só olham para o sofrimento dos palestinianos. Ahmed reage: A minha mãe também não tem casa para voltar. Os meus sobrinhos, de 3, 5, 7 e 10 anos, estão a viver agora mesmo a sua Nakba. E também sei da responsabilidade de Netanyahu, que deu força ao Hamas para dividir os palestinianos.


Outra participante do público fala do Congresso Palestina, repete que "foi convocado por organizações de judeus", e foi cancelado ao fim de duas horas. Diz: é uma vergonha que na Alemanha impeçam a realização de um debate que junta pessoas das três religiões.

Muriel: Pessoalmente, penso que foi errado mandar a polícia interromper os trabalhos. No caso, houve várias proibições - e é agora função dos tribunais decidir se havia fundamento para isso. As decisões que foram tomadas não me parecem inteligentes, mas também não compro a sua narrativa de que o Congresso Palestina tinha como objectivo a busca de soluções para o problema. Se queremos um país onde as pessoas sejam capazes de se entender, temos de criar espaços para um debate construtivo, em vez de multiplicar iniciativas onde apenas se repetem as acusações.

Uriel: Do que li sobre o Congresso Palestina, tudo indicava que a linha condutora era a extinção de Israel. Isso não é um contributo para ajudar a resolver a situação. Não me vou pronunciar sobre os 700.000 colonos na Cisjordânia. Mas atenção: isto não é um conflito entre Israel e o Hamas. Por trás do Hamas está o poderosíssimo eixo iraniano. Após o massacre de outubro, Israel lembra-me um tigre ferido, encurralado, a atacar tudo e todos. No início teve uma retórica muito agressiva, bélica, tentando dar uma imagem de força - e tem sido muito criticado por isso. Mas a verdade é que Israel se sente um país pequenino e muito frágil. Muito ao contrário daquilo que os outros países vêem nele.


Um terceiro participante traz o tema da UNRWA.

Ahmed: É preciso não diabolizar a UNRWA. Temos de separar as duas funções, a política e a de serviço social. É preciso reformulá-la, lutar contra a corrupção. Mas estamos conscientes de que, sem ela, esta catástrofe humanitária seria ainda pior.

Uriel: Israel conseguiu integrar os seus refugiados, mas os refugiados palestinianos continuam a passar essa condição como herança, de geração em geração. Nem tudo é culpa da UNRWA. É certo que em alguns pontos foram infiltrados pelo Hamas, mas é muito difícil para uma organização daquele tamanho ter o controle absoluto para impedir que isso aconteça.


Última pergunta: Estamos a assistir a acontecimentos muito dolorosos. Como é que o 7 de outubro vai ser visto pelas gerações futuras?

Muriel: Esta data vai ter significados diferentes nos dois lados. Pergunta-se: vai ser um ponto de mudança, ou um passo mais na espiral de violência e retaliação que arrasta todos para o abismo? As duas hipóteses são possíveis.

Ahmed: É um desastre de dimensões épicas para ambos os lados. De momento sinto-me muito pessimista, mas aposto num optimismo estratégico para o futuro. Este momento preciso é uma oportunidade rara para mudar o curso da História. Tal como em 1973 fomos capazes de fazer uma inflexão e construir a partir do trauma [penso que se refere à guerra de Yom Kippur]. É nisto que acredito: "From the river to the sea, only peace will set us free". Precisamos de um líder que diga às pessoas o que não querem ouvir. Temos de parar de desumanizar os outros. E já vejo algumas sementes a germinar, mesmo na comunidade palestiniana.

Uriel: Antes do 7 de outubro, também havia boas notícias. Estava em curso uma aproximação aos países árabes, que se davam conta das vantagens de trabalhar com Israel em vez de continuarem a oferecer resistência. A ideia de Netanyahu era garantir a paz na região e a partir daí envolver os palestinianos, que podiam ser o elo fundamental de ligação entre Israel e o mundo árabe. Se o 7 de outubro tem algo de positivo, é apenas isto: pode ser que a população israelita compreenda agora que um governo de direita não é sinónimo de segurança para o país. E pode ser que os estados árabes façam pressão junto dos palestinianos para controlarem melhor o seu terrorismo islâmico.


16 junho 2024

contra as trincheiras, o riso


Imagem: Abdul Kader Chahin und Shahak Shapira © Marvin Ruppert | Moritz Künster (aqui)


Por estes dias, decorre em Berlim a iniciativa "Reflexos e Reflexões", que Saba-Nur Cheema e Meron Mendel, dois autores e activistas do diálogo entre judeus e muçulmanos, começaram a programar já em janeiro de 2024, no âmbito dos Berliner Festspiele. O objectivo é proporcionar debates com espaço para nuances, como forma de resistir ao processo de entrincheiramento que o 7 de Outubro e a guerra de Gaza estão a provocar na sociedade alemã. Os autores contextualizam: entre o ruído de uns e o silêncio de muitos, desde o massacre do Hamas assiste-se na Alemanha a uma crescente violência verbal, psicológica e física tanto contra judeus como contra muçulmanos. Os antigos preconceitos estão a regressar com a insídia de sempre, e a eles se juntam preconceitos novos, igualmente destrutivos.

Para mais informações sobre esta iniciativa, em inglês, podem seguir este link: Reflexos e Reflexões. Ontem à noite, tive a sorte de assistir à sessão de stand-up comedy de Abdul Kader Chahin e Shahak Shapira, numa sala esgotada, com um público muito diversificado que ia desde a jovem checa com keffiyeh, na primeira fila, aos maduros burgueses de Charlottenburg - como eu.

Abdul Kader Chahin, que nasceu na Alemanha, numa família de refugiados palestinianos, é o primeiro a subir ao palco. Faz de conta que está aflito com as câmaras da ARTE, "temos trezentas câmaras nesta sala, é desta que vou ser cancelado".

Conta da primeira vez que foi a um talk show importante na TV alemã. No final, não ligou logo o telemóvel, porque temia a reacção dos pais. Quando finalmente conseguiu coragem para o ligar, recebeu um telefonema do irmão mais novo: "Abdul, fantástico! Falaste como um leão! Só não percebemos uma palavra que disseste muitas vezes, parecida com Pandora..." "Diáspora!", pensa Abdul, e conclui: "Estou tramado".

É provavelmente o fio condutor desse serão: ninguém me entende, nem sequer os "meus". E ali temos um palestiniano e um judeu israelita, que mantêm um público berlinense a rir durante hora e meia com comentários e relatos de incidentes sobre esta tragédia do nosso tempo: ninguém se ouve, ninguém se entende.

Abdul conta que nas redes sociais lhe exigem repetidamente: "libertem os reféns!" Telefona ao pai, em Duisburg: - Pai, tens alguns reféns para libertar? - De que nacionalidade? - Israelitas. - Deixa cá ver... não, israelitas não temos nenhum. Temos de esperar que os teus primos nos visitem de novo, nessa altura já te arranjava dois.

Por sorte, tem o Sahak ali na sala. E a organização até lhes arranjou um back stage na cave, dá imenso jeito para fazer os túneis do costume e esconder o judeu. Continua, fala da extrema-direita: "Dizem que não é possível falar com pessoas da extrema-direita. Eu acho que se deve falar, e amanhã até tenho um segundo encontro com aquele tipo com quem falei há dias. Vou visitá-lo ao hospital."

(Não sei se Shahak se riu nesta parte. Ele, a quem já cuspiram na cara. Ele, cujo irmão teve de ser operado de urgência, vítima de "diferenças de opinião" por causa do 7 de Outubro e da guerra de Gaza. Mas num debate com nuances também tem de haver espaço para encaixar contradições.)

Abdul chama Shahak para o palco. Procura-o com o olhar na parte da sala onde estavam ambos antes de começar a sessão, mas Shahak já está no lado oposto, junto ao bar. Sobe ao palco a rir:

- Caramba, Abdul, és o mais incompetente de vocês todos! Até nesta sala consegues perder um refém!

Se Abdul é quem guarda os reféns, Shahak é o assassino de bebés. É assim que lhe chamam nas redes sociais. E logo a ele, que vive na Alemanha desde os 14 anos, que se diz meio árabe (um avô iraquiano, uma avó palestiniana) mas é loiro e tem olhos azuis. "A minha cara é igual à dos que mataram o meu bisavô em Auschwitz". Como não há-de uma pessoa sofrer de problemas de identidade?

O humor de Shahak desinstala-nos. Fala de Israel, "uma jovem start-up, em permanente expansão", diz, e aponta para nós: "graças a vocês." Ri-se do embaraço do público.

Fala da dona de um alojamento local em Brooklin, que lhe pediu 200 dólares por noite. - Pelo apartamento todo? - Não. Por um quarto no meu apartamento. Fecharam negócio. Passados uns dias, ela escreve-lhe, ele lê-nos a mensagem: "Andei a ver o seu perfil, vi que é israelita. A sua start-up comedy é engraçada, mas quero deixar claro que critico veementemente a guerra de Gaza. Tinha de o informar sobre isso." Shahak está furioso: é preciso fazer muita questão de fechar os olhos para não reparar que ele também critica o que está a acontecer em Gaza. Diz-lhe isso, e acrescenta: - Sabe que mais? Entre nós os dois, o verdadeiro crime de guerra é 200 dólares por noite num quarto em Brooklin! - Eu estou à vontade para falar!, diz ela. - O meu avô era judeu! - Ah, agora percebo os 200 dólares!, responde Shahak.

Passa para um outro episódio, que aconteceu num dos seus espectáculos: cria-se grande confusão, porque uma mulher do público insiste que não tem espaço suficiente, e o homem ao seu lado tem de se afastar. O homem protesta: "já me afastei três vezes, e ainda não está satisfeita!" Ao descobrir que a mulher é de Telavive, Sahak faz uma piada do género "ah, está tudo explicado!", e a sala inteira desata a rir. Mais tarde, conta esse episódio no instagram, e os comentários enchem-se de gargalhadas. Até que, ao fim de alguns dias, o ambiente muda. Repentinamente, os comentários tornam-se cada vez mais odiosos, estão a chegar perigosamente ao "era preciso matá-los a todos!" Sahak pergunta-se: "devo metê-los na ordem, ou deixar que isto se torne viral?" - e depois olha para o público, sorri, diz: "sete milhões".

Conta que foi com um amigo comer um burrito, e quando se preparava para escolher entre carne de porco e carne de galinha, o amigo avisou que se escolhesse as duas ficava com 30% mais carne. O que lhe deu uma inspiração para resolver de vez os problemas entre israelitas e palestinianos: juntar todos, israelitas e palestinianos, o porco daqui e a galinha dali, e no fim vão conseguir ter mais 30%... do Egipto.

Os vinte minutos do seu show chegam rapidamente ao fim. Abdul Kader Chahin, Saba-Nur Cheema e Meron Mendel sobem ao palco para conversarem a sério. Shahak não consegue parar de dizer piadas, Abdul diz-lhe amigavelmente "chill down, bro".

Meron pede a Saba-Nur que seja a pessoa adulta na sala, ela pega no microfone e lança a pergunta: - Como é que vocês se sentem?

Elementar num diálogo para a paz: olhar nos olhos, e perguntar "e tu, como estás?"

Mas eles desatam a rir. Shahak responde: "Bem, obrigado. E tu?"

Está difícil. Meron tenta de novo: - Agora, a sério: vocês têm linhas de fronteira que decidiram não ultrapassar? - Eu tenho! - responde imediatamente Abdul. - As fronteiras são mesmo o problema maior que temos. Shahak responde à pergunta: - Eu tenho, mas são móveis. A palavra N* é a única sobre a qual me recuso a fazer piadas. Talvez algum dia abra uma excepção, mas tinha de haver um motivo realmente muito bom, e até agora ainda não encontrei nenhum.

A conversa flui. Shahak comenta que os dois alemães de nascimento ali presentes são a filha de refugiados paquistaneses e o filho de refugiados palestinianos. Os outros dois alemães vieram de Israel. O que é ser alemão? E que significado tem a frase "vai para a tua terra" no caso de cada um deles?

Falam dos primeiros dias após o massacre do Hamas. De como Abdul sentiu que tinha de dizer alguma coisa, e usou o seu instagram para se demarcar daquele horror. Ri: "Fui lá de propósito afirmar que queria ficar calado, e desde então não param de me pedir para dar entrevistas!"

Criticam o debate que se seguiu na Alemanha: horas intermináveis de discussão em painéis onde se falava de, em vez de falar com. Com uma única excepção: Omid Nouripour, o político dos Verdes que nasceu no Irão e veio para a Alemanha aos 14 anos.

Shahak alerta para a questão da representação: não é por se ser judeu que se é automaticamente um especialista. E muito menos um responsável pelo que está a acontecer em Israel. Fala da complexidade do que está a viver, reivindica para si o direito a ficar contente por haver quatro reféns que regressaram a casa, e ao mesmo tempo chocado pelo insuportável número de pessoas que foram mortas nessa operação.

No final, Abdul menciona a importância daquele momento na Haus der Berliner Festspiele:

- Podíamos odiar-nos uns aos outros, as probabilidades de isso acontecer são tão grandes, mas estivemos esta noite lado a lado, a rir em conjunto. Neste tempo em que uma esquerda radical faz imenso barulho e ocupa todo o palco, é fundamental perceber que há uma enorme massa de pessoas moderadas, que buscam soluções para resolver este problema. Uma parte do caminho passa por este sermos capazes de passar uma noite a rir uns com os outros.

Shahak remata: - Merecemos isso!


15 junho 2024

(re)aprender a dialogar

 

Este fim-de-semana decorre na Haus der Berliner Festspiele uma série de eventos sobre o 7 de Outubro, a guerra de Gaza, e o que a Alemanha tem a ver com tudo isso: "Reflexos e Reflexões".

Hoje à noite, às 22:00, vou a uma sessão de stand-up comedy com o palestiniano Abdul Kader Shahin, e o judeu Shahak Shapira. Não conheço o primeiro, que nasceu na Alemanha, numa família de refugiados palestinianos; sobre Shapira, já falei aqui.

Amanhã, vou a um debate com, entre outros, Ahmed Fouad Alkhatib - de quem partilhei um texto num post anterior, onde afirma que o modo como as manifs pró-palestinianos são conduzidas no ocidente, em vez de ajudarem os palestinianos pioram tudo. Não conheço os outros. De facto, comprei o bilhete para este debate sem ver quem ia falar, apenas porque o tema me interessa e queria ouvir diversas pessoas a trocar ideias sobre ele.

A seguir ao debate, assistirei à peça de teatro House, de Amos Gitai.

Por causa dos tempos que correm, a organização viu-se obrigada a fazer um longo texto explicando quais são as regras para um debate civilizado nestes eventos.

Volto ao texto de Ahmed Fouad Alkhatib que mencionei mais acima: quando numa sociedade como a alemã, onde a cultura do debate é muito apreciada, é preciso explicar o seu mais básico para evitar o chinfrim e o ódio que ultimamente têm invadido certos espaços públicos, há mais uma vez alguém a prestar péssimos serviços à causa dos palestinianos.
e também por extenso:
Code of Conduct for Freedom of Expression and Respectful Exchange at the Berliner Festspiele 4-day Focus “Reflexes & Reflections”
With the 4-day focus “Reflexes & Reflections. 7 October, the war in Gaza and the debate in Germany”, we invite the public to participate in an exchange of views on a complex topic that currrently concerns many people. It is our impression that in recent months the debate about Israel and Palestine has often been one conducted between hardened fronts. At many points, people have been called upon to assume one-sided positions, there have been rapid moves to blame and misrepresent others and many people are reluctant to speak at all out of fear of saying something that might be interpreted as wrong.
In these four days we would like to give experts and visitors the opportunity to explore the issues in a more nuanced fashion. You are warmly welcome to ask questions and join in the discussion. In order for the events to run respectfully and productively for everyone involved, we wish to remind you of our code of conduct for freedom of expression and respectful exchange:
Everyone may ask questions, voice political opinions, express their own identity and identify and sympathise with the suffering of innocent people – Israelis, Palestinians and others.
However, participation in the event is conditional on a willingness to listen to others, to engage with other, possibly disturbing or unpleasant sentiments and points of view, to tolerate dissent and to ask if something is or appears ambiguous.
In order to guarantee intellectual freedom for all and create an artistic environment, we must take care both individually and collectively that all visitors, artists, speakers, participants in the discussions and Berliner Festspiele staff members feel protected and safe. Every one of us has a responsibility to contribute to a solidary environment.
It is therefore essential to be constantly mindful of other persons who are present and to regard and anyone as an individual with a personal opinion and not primarily as the representative of a (national, ethnic, religious, cultural) group. Individual persons are not responsible for what other members or representatives of a group to which they may be correctly or incorrectly assumed to belong may or may not do or have done.
Visitors to the events must wait with their questions and comments until the moderators open panel discussions up to the public and are required not to interrupt artistic performances. So that as many people as possible may voice their opinion and ask their questions, visitors who request to speak are asked to be concise and to refrain from speech-making. We wish to receive open questions that do not attempt to suggest or prescribe a position or answer to those responding. Decisions by the moderators to end discussions in order to keep to the agreed timetable for the programme or due to a failure to adhere to these guidelines are to be respected.
This 4-day focus presents the opportunity for live face to face exchange within the same space. In order to prevent statements by speakers or attendees being made public out of context and to protect copyrights, photos, video and sound recordings of the events are not permitted.
Expressions of opinion are repeatedly radicalised and conflicts fuelled on social media. The anonymity of this form of communication makes it easy to forget that verbal attacks may be hurtful or dangerous to the people who are affected. We therefore request that all attendees conduct themselves respectfully and responsibly in the virtual space.
The 4-day focus “Reflexes & Reflections. 7 October, the war in Gaza and the debate in Germany” should be a space within which even contradictory positions are allowed to exist with and alongside each other and within which one may hold an argument. However, overstepping certain boundaries of respectful discourse can lead to exclusion from the events and being directed to leave the Haus der Berliner Festspiele, for example, for:
threats, abuse, shaming, verbal violence or violent behaviour,
calls for or incitement to violence, legitimising or trivialising acts of terror, the killing or wounding of civilians or support for terrorist organisations,
anti-Semitic, racist, Islamophobic or other derogatory expressions or symbols,
preventing others who adhere to this code of conduct from speaking.
As we wish to distance ourselves as far as possible from nationalistic references or categorisations at “Reflexes & Reflections”, we request that visitors do not bring flags or banners to the events.
There will be a security check at the entrance.
We wish everyone an exciting and enriching exchange during these four days and hope you will enjoy the performances!
Your Berliner Festspiele