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08 abril 2026

*o que faz falta*

Na semana passada, a semana de Páscoa, o tema no Largo (sabem? aquele grupinho que todas as semanas escreve sobre um tema) (como fico largas temporadas sem escrever, depois tenho de explicar tudo de novo a partir do início...) o tema no Largo, como ia dizendo, era: "o que faz falta". Passei toda a semana a pensar que o que faz falta é silêncio. E se não for possível o silêncio, pois que seja o diálogo. Mas o diálogo feito de pontes, e não a berraria entre as trincheiras deste nosso tempo. E se não for possível esse diálogo, pois que seja a tranquilidade.

À falta do silêncio, aqui deixo pequenas sementes de tranquilidade, interpretações de um tema só:





E agora, para algo diferente, e igualmente belo:




Deixei o Schubert para o fim, porque foi com ele que aprendi que a música salva: foi a minha tábua de salvação para não soçobrar com o filme "Amor", de Michael Haneke. O que faz falta.


06 fevereiro 2026

*sair da bolha*


Dizem-me: sai da bolha, vai ao encontro dos outros, abre os olhos para outras realidades...
Será que a minha bolha é assim tão reduzida e redutora? Encontro nela homens, mulheres, pessoas não-binárias. Pessoas dos zero aos cem anos. Heterossexuais, gays e nem sei que mais, porque o que as pessoas fazem na cama delas é o lado para onde durmo melhor. Pessoas de muitos países diferentes. Várias religiões, muitos agnósticos, muitos ateus. Pessoas com a quarta classe, e professores catedráticos. Desempregados e CEOs. Cientistas e artistas. Simpatizantes e membros de todos os partidos, menos um.
Porque é justamente aí que traço um limite para as fronteiras da minha bolha: não quero ter por perto pessoas que gostam de um líder político que põe ódio no mundo, que aplaude abertamente perseguições a emigrantes, que atira ao chão os mais vulneráveis e os espezinha para conquistar poder.
Dizem-me que não é assim que consigo conquistá-los para o espaço democrático. Que tenho de ouvir, que tenho de compreender...
Não, não tenho. Não tenho de compreender quem - repito - gosta de um líder político que põe ódio no mundo, que aplaude abertamente perseguições a emigrantes, que atira ao chão os mais vulneráveis e os espezinha para conquistar poder.
Pertencem a uma realidade paralela, com outros valores, outra definição de "decência" e "dignidade" e "direitos humanos". Não vejo o menor motivo para entrar em contacto com esta realidade.
Alguns contemporizam: ai e tal, estão muito zangados com a situação actual, votam assim como sinal de protesto. E há aqui dois erros: um de lógica (se estão zangados com a situação actual, porque votam no partido que já deu provas de que vai pôr tudo ainda pior?) e outro de carácter (se queriam fazer um voto de protesto, tinham o candidato Vieira, ou votavam em branco — mas preferiram votar no sujeito que, para além de fazer de conta que está zangado com o sistema, conquista votos apelando ao ódio e servindo-se das minorias como inimigo instrumental).
Se é para dividir o mundo entre "nós" e os "outros", a minha divisão é esta. Porque aqueles que, segundo me dizem, deviam ser motivo para eu sair da minha bolha e para aprender a ver o mundo como ele é, são os mesmos que querem impor à sociedade a bolha deles, uma bolha feita de ódio e mentira, sem espaço para o pensamento e para a diversidade. Saiam antes eles da bolha em que se meteram, que é um lugar insalubre e está a envenar tudo, e muitos. --- Este texto responde a um desafio chamado "no Largo": um grupo que todas as semanas escreve sobre um tema diferente. "Sair da bolha" era o tema da semana passada, mas por motivos vários só agora publico. As outras bolhas:
A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
Gralha dixit 
O blog azul turquesa 
Quinta da Cruz de Pedra

15 janeiro 2026

*naperon*

 


Tenho um armário cheio de naperons herdados de outros tempos. Já não vou para nova: nasci na época dos naperons em cima da televisão e debaixo dos objectos que povoavam mesas, mesinhas e aparadores, e lembro-me bem do naperon 2.0 desses dias: o chapeu de crochet à volta do rolo de papel higiénico que se via em muitos carros, por trás do vidro traseiro.

Muitos dos naperons no meu armário, se já cá estavam quando nasci, são certamente centenários. Portanto, tenho um museu em casa, e nele guardo testemunhos de mulheres que sabiam criar o belo com as suas mãos. Do tempo em que criar o belo com as mãos era um acto natural de vida das mulheres.

Os naperons, concedo, eram um bocadinho inúteis. Mas nada era inútil na passagem de saberes (agora metes a agulha assim, agora dás uma volta, agora puxas), naquele prazer de se entregar à criação, no trabalho meditativo e no domínio da matemática, no brilhozinho dos olhos ao mostrar os trabalhos terminados e perfeitos: prodígios do saber fazer. Nada era inútil na minha própria aprendizagem, no decifrar dos esquemas das revistas, na imensa certeza de que também eu seria capaz de criar algo belo. Não sei quem fez esses naperons, que guardo quase religiosamente e não uso. Não sei que avó, tia, prima ou amiga. Que vida, que preocupações teriam. Em que momentos se aquietavam em paz, a bordar ou a fazer crochet.

Mas, de certo modo, todas elas estão juntas no meu armário - não como num cemitério, "aqui jaz", mas como num lugar de encontro: "aqui vive". [ Na imagem: um naperon de renda de bilros, feito por alguma mulher do sul da Alemanha, que encaixilhei (já que as televisões actuais não dão para pôr naperons em cima...) ] **** As outras mulheres que se encontram no Largo:
A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
Gralha dixit 
O blog azul turquesa 
Quinta da Cruz de Pedra

12 dezembro 2025

*dança*

Depois de longa ausência, voltei ao Largo. O tema desta semana é "dança", e "dança" lembra-me muitas vezes um poema de Santo Agostinho, que termina mais ou menos assim: 

Oh, gentes,
aprendei a dançar!
Caso contrário
no céu os anjos
não saberão
o que fazer convosco.

Obrigada, Santo Agostinho, pela imagem tão feliz para uma ideia da Eternidade: dançar com os anjos!
Mais ainda: dançar como preparação para a Eternidade é uma bela maneira de atravessar a vida. Porque, como diz o poema,
(e desde já peço desculpa pela tradução a partir de uma versão alemã)


Eu louvo a dança
que tudo exige e estimula
saúde, mente clara,
uma alma leve.

Dança é transformação
do espaço, do tempo, do ser humano
sempre em risco de se fragmentar:
cérebro só, ou vontade, ou emoção.

A dança, contudo,
chama o ser inteiro
ancorado no seu centro.
Esse que não está possuído
pelo desejo de seres e coisas
e pelos demónios
da solidão interior.

A dança pede o homem livre
vibrando no equilíbrio
de todas as forças.

Eu louvo a dança.

Oh, gentes,
aprendei a dançar!
Caso contrário
no céu os anjos
não saberão
o que fazer convosco.

E agora que falei da vida e do seu depois, acrescento também uma imagem dilacerante de luto que não me sai da cabeça desde que comecei a pensar no que gostaria de escrever sobre o tema "dança":
Eis o homem que se despede da sua amada, dançando de mão dada com a sua ausência. 



----

Mais dançarinas no Largo:

A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
Gralha dixit 
O blog azul turquesa 
Quinta da Cruz de Pedra

26 outubro 2025

*máscara*




"How are you today?"

A primeira vez que ouvi esta pergunta, na caixa de uma loja em Boston, pensei maravilhada que aquilo sim, era um país fantástico: com serviço de psicólogo em cada caixa. Hesitei sobre o que queria responder, e quanto iria custar, mas por sorte estava a sentir-me bem e optei por dar uma resposta curta. Ainda não foi nesse dia que a caixeira teve de ir ela própria ao psicólogo para se aliviar dos meus problemas.

Que seria de nós - que seria das conversas, que seria das relações - se respondêssemos sempre com seriedade à pergunta "olá, tudo bem?"

Não sei. Mas estou em crer que seria um mundo com mais empatia. Porque quem vê caras não vê corações, e muitas vezes reagimos à flor da pele da cara, completamente alheios ao que vai por dentro daquela pessoa.

--- As outras máscaras do Largo, na semana passada: - Carla - Mariana - Marisa - Rita



17 outubro 2025

*pulso*

Ontem fui à zona comercial do meu bairro comprar um rato novo para o computador, e ao sair da loja vi uma ambulância parada junto ao passeio, um homem deitado no chão, alguém a tentar reanimá-lo - e um semi-círculo de mirones.

O corpo no chão tinha uma barriga grande, que, a cada massagem cardíaca, estremecia e rolava como uma onda. Desviei o olhar. Estava ali um homem a morrer, e os esforços para o salvar expunham-no ainda mais na sua trágica vulnerabilidade.

Afastei-me. Fui comprar pão, e ervas, e legumes. A senhora da padaria não atinava com nada do que era preciso - nem o preço do kg, nem a largura das fatias -, mas ali ao lado estava um homem a morrer, e de repente nada era preciso excepto que conseguissem salvá-lo.

Ao sair da loja de produtos biológicos ouvi sirenes várias - polícia, mais ambulâncias, médico. Segui caminho na direcção oposta, resistindo à vontade de ir saber daquele homem deitado no passeio, tão perto de mim e talvez já irremediavelmente longe.

O nosso pulso a bater tranquilamente enquanto atravessamos o quotidiano: raramente temos consciência do privilégio e do risco.

--- "Pulso" era o tema desta semana no Largo. Se quiserem ler como elas pulsam:

- Gralha dixit

- A curva



10 outubro 2025

*como cão e gato*

No Largo, todas as semanas se escreve sobre um tema diferente. Criei o péssimo hábito de escrever sempre sobre o tema da semana anterior. Hoje (alguém faça o favorzinho de ir espreitar a ver se a torre de Pisa se endireitou) decidi mudar de vida: logo depois de ter escrito sobre o tema da semana passada, publico o post desta semana.

Em dez minutos passo de *quando até ao apocalipse* para *como cão e gato*, e ocorre-me que os dois temas se podem ligar numa sequência lógica de combate ao pessimismo: desde que a internet (e a nossa própria vida) se começou a encher de imagens de cães e gatos a conviver em boa paz, a expressão "como cão e gato", que imediatamente identificávamos como algo impossível de conciliar, esvaziou-se. Pufffff. Como cão e gato: abraçadinhos, a brincar um com o outro.

Talvez, afinal, não haja nada de irrevogável (outra expressão que se esvaziou, curiosamente) no nosso destino. Se foi possível que cães e gatos se entendessem, talvez nos seja possível também parar o relógio que tiquetiqueteia em direcção ao apocalipse.

Vamos?


***

As amigas que se encontram neste Largo: A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
Gralha dixit 
O blog azul turquesa 
Quinta da Cruz de Pedra

*quanto até ao apocalipse?*


Foi em Setembro de 2018, lembro-me perfeitamente. Estávamos a descer a Serra da Arrábida, minúsculos naquela imensidão de verde e de mar, e uma ideia tomou conta de mim com a simplicidade do muito óbvio:

A Natureza subtrai e segue sem sequer pestanejar. Os humanos podem desaparecer com a mesma simplicidade com que todos os dias desaparecem silenciosamente várias espécies.

E depois, uma angústia:

"Que vai ser de Bach sem nós?"

Bach, como quem diz:

Não somos apenas anões avançando sobre os ombros de gigantes, somos responsáveis pela herança que nos deixaram e temos o dever de a transmitir aos vindouros.

Mas não é no futuro de Bach que penso quando reservo mais uma passagem de avião, quando compro um bom bife ou vários queijos, quando vou de carro em vez de transportes públicos, quando compro coisas de usar e deitar fora. "Uma vez não são vezes", e, além disso, "por muito que renuncie a estes prazeres da vida, isso não tem qualquer peso no conjunto do planeta..."

O capitalismo corre-nos nos sangue: a busca do máximo ganho pessoal é uma forma legitimada de estar na vida. Esquecemos que aqui ao leme sou mais do que eu. Em vez de nos unirmos numa radical mudança de rumo, cada um de nós ajuda a conduzir o navio na direcção dos monstros que já se avistam no horizonte.


*** No nosso Largo, por incrível que me pareça, nem todas falaram do mesmo apocalipse:

Rita Maria 

Carla R.

02 outubro 2025

*alma minha*


"Alma minha" era aquele início de soneto que, na escola, nos fazia rir o riso parvo dos adolescentes. Ah, maminha...

É muito triste ser um adolescente de riso parvo. Porque o "ah maminha" estorva a beleza do soneto, e leva-nos para os antípodas do ambiente para conversar sobre afectividade na sala de aula.

Alma minha - como disse? Nem a alma que me habita é minha (quando muito, sou eu dela, vamo-nos fazendo juntas), quanto mais a alma de outra pessoa! Meu é aquilo de mim que ofereço ao outro, mas não quem se oferece a mim.

"Amor meu" era uma possibilidade. O amor que sinto em mim e me faz ajustar a bússola na direcção daquela alma.

(Mas: amigos como sempre, ó Camões. Não se pode acertar em todos os versos.)


---- "Alma minha" era o tema da semana passada no Largo. Mas meteu-se uma coisa e outra... A ver se acerto melhor o passo com as companheiras: A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
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Quinta da Cruz de Pedra

26 setembro 2025

*mentir com quantos dentes tem na boca*


Há muitos, muitos anos, no tempo em que os animais falavam, o meu irmão mais velho encontrou uma nota de vinte escudos quando estávamos, de mãos nuas, a escavar a praia furiosamente. Depois do almoço, no parque de campismo, foi com o pai à Polícia entregar o dinheiro. Podia ser que alguém lá fosse perguntar por eles, disse o pai.

Até eu, com seis ou sete anos, percebia que era uma hipótese altamente improvável. Mas eles foram, e entregaram aquela fortuna a um destino incerto. Vinte escudos: tantos gelados que podíamos ter comido nesse Verão, e ainda sobrava para comprar pás e baldinhos como os outros meninos tinham!

Voltaram com a cara de dever cumprido que mistura um ponto de exclamação satisfeito (notava-se mais no pai) com uma pontinha de reticências (notava-se mais no filho).

E foi assim que, pela - bem vistas as coisas - módica quantia de vinte escudos, os meus irmãos e eu recebemos uma lição que nos marcou para sempre: sentir orgulho na disciplina quotidiana de nos fazermos humanos, fazer o que devemos fazer independentemente do que ganhamos ou perdemos com isso. Fazer por andar na vida de costas direitas, ter critérios para distinguir o correcto do errado, orientar a nossa bússola pelo que é correcto. Saber que pôr os seus interesses à frente dos seus princípios, ser trafulha, e mentir com quantos dentes se tem na boca são coisas de animais que falam.

Entretanto os animais calaram-se, outros seres apoderaram-se do seu lugar de má fama mas fazem de conta que não, cada vez mais pessoas trocaram as voltas à sua bússola pessoal, e eu pergunto-me se, hoje em dia, a rectidão que o pai nos ensinava é coisa só de burros, de cordeirinhos e de bois mansos.



***

Infelizmente, só foram à Polícia depois do almoço. Tivessem ido imediatamente, e eu recebia uma lição suplementar: "não deixes para depois o que tens de fazer agora".

Mas não a recebi, e é por isso (sim, de certeza que é por isso...) que me atraso todas as semanas no Largo, e só publico o tema da semana anterior quando são mais que horas de publicar o da semana seguinte. Se quiserem saber qual é o tema desta semana, venham cá espreitar mais lá para o fim do mês... Ou então, vão ler nas páginas das companheiras do Largo:

A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
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Quinta da Cruz de Pedra


31 julho 2025

*Pandora*

Ao ler "Pandora" na lista de temas do nosso Largo da escrita, pensei imediatamente na famosa caixa. A terrível caixa de Pandora, o risco de a abrir, e os seus dois primos: o Rubicão e o Plano Inclinado.

Pensei também numa entrevista de Zizek em 2016, pouco antes das primeiras eleições que levaram Trump à Casa Branca. Nessa altura, Zizek pensava que uma vitória de Trump seria positiva, porque viria sacudir profundamente todo o sistema, obrigando-o a repensar-se e a limpar-se dos muitos vícios acumulados.

É uma questão interessante: que fazer quando tudo parece estar a desmoronar-se? Acelerar o processo para chegar o mais depressa possível a algum outro lado? Abrir a caixa de Pandora, atravessar o Rubicão, meter-se pelo Plano Inclinado a duzentos à hora? Atirar gasolina ao fogo, na esperança de que uma fénix renasça das cinzas, purificada e liberta?

Sinto-me nos antípodas dessa afirmação de Zizek em 2016, e 2025 confirma os meus temores: acelerar deliberadamente processos históricos de retrocesso civilizacional não nos leva a fénix alguma.

Porque, quando a caixa de Pandora se abre, não há consenso sobre o seu conteúdo: para uns, é o mal que se espalha pelo mundo; para outros, é o início de um tempo novo, em que sentem que são compreendidos, podem enfim dizer livremente o que lhes vai na alma, e recuperam tudo aquilo a que sempre tiveram direito. Atravessa-se o Rubicão para chegar à terra prometida, essa que é só para os nossos. Acentua-se o declive do Plano Inclinado para mais rapidamente separar o trigo do joio. Os outros? Que se lixem.

A fénix purificada pelo fogo é uma ilusão. Do outro lado do fogo, o que nos espera não é a fénix, mas as ruínas do bem que, com gestos frágeis e incertos, tentámos inscrever na História.

E teremos apenas as nossas mãos, feridas e nuas, para recomeçar penosamente o caminho rumo a mais humanidade. E trabalharemos nos escombros. E teremos por companhia aqueles que a caixa de Pandora envenenou. --- Outras companheiras deste Largo: A Curva
A Gata Christie
Boas Intenções
Gralha dixit
O blog azul turquesa
Panados e Arroz de Tomate
Quinta da Cruz de Pedra


17 julho 2025

*terapia*

Na semana passada, o tema do Largo, aquele tal grupo de escrita, era "Terapia". Ando há mais de muitos dias a pensar o que posso dizer sobre um tema tão vasto. Não me apetece fazer confissões, não me apetece fazer de conta que sei do que estou a falar.

E eis que veio a poesia, e me salvou. (Salva sempre.)




"A parte de mim que é infinita". Lindo.

Para chegar a esse infinito, é preciso primeiro despejar todo o conteúdo das gavetas, escolher, destralhar, tirar o pó, e arrumar de novo - mas apenas o que interessa.

(Quem diria que o trabalho doméstico também salva?) --- As terapias delas:


08 julho 2025

*salvação*


Salvação, para um católico, é a da sua alma. De um modo geral. Para uma católica da minha laia, é a do mundo. Nenhuma alma se salva sozinha. O processo de salvação - que é, no fundo, uma busca de sentido para a vida - é um caminhar de braços abertos para o mundo, e sobretudo para aqueles que mais sofrem.

Pouco me preocupa o juízo final, esse terrível momento em que virei a saber se me salvei ou não. Interessa-me mais o juízo de cada dia: hoje ajudei a tornar o mundo pior ou melhor do que estava?

(O que me lembra uma frase que li algures, sobre um pai que deixou de perguntar aos filhos como foi o dia deles na escola, e passou a perguntar "quem ajudaste hoje? a quem ofereceste um gesto de empatia e simpatia?")

De modo que ando na vida como o elefante da anedota atravessa o lago: tentando saltar suavemente de nenúfar em nenúfar.

Um dia virá, então, o Juízo Final - e por sorte quem o vai presidir é o Pai, e não o Filho. Sim: por sorte! Porque o amor deste Pai é generoso e benevolente, ao passo que, em certos dias, não há nada mais cortante e impiedoso que o julgamento dos filhos.

Aqui chegada, dou-me conta de que este pequeno passeio escrito ao correr do teclado me levou para uma questão existencial que até agora não tinha, e confesso que não me fazia falta nenhuma: se o Juízo Final fosse presidido pelos meus filhos, ou os meus vizinhos, ou os meus colegas de trabalho, ou os sem-abrigo com quem cruzo caminhos: será que me salvava?

---

Por erros meus, má fortuna e uma ou outra coisita mais, tenho feito gazeta ao colectivo de escrita que todas as semanas publica sobre um determinado tema. Deixei passar "caramelo", deixei passar "não bebo cerveja" (mas este, senhor juiz, deixei passar porque só me ocorriam brejeirices a propósito da delicadeza com que me introduziram à segunda cerveja da minha vida, e achei que já me desgracei q.b. por aqui, não precisava de acrescentar mais nada). Deixei passar muitos outros.

Um dia destes, ainda correm comigo do grupo. Pelo que me apressei a falar sobre salvação, que era o tema da semana passada.

Outras salvações:

Boas intenções 

A gata Christie 

Panados com arroz de tomate 

Gralha Dixit 

A curva 

O blogue azul turquesa