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22 junho 2026

manhã de sábado (2)

 

No facebook, uma amiga comentou o meu texto "manhã de sábado" (publicado aqui) propondo uma outra maneira de olhar para o que me aconteceu. Partilho, porque é impressionante: os factos são os mesmos, mas a maneira de os ler e de reagir a eles é quanto basta para ter uma manhã de sábado deliciosa ou muito irritante. [ Já agora: quem acham que corre mais risco de votar nos partidos que querem dar cabo disto tudo? A pessoa que interpreta com optimismo, ou a pessoa que vê agressões em tudo? ]

Versão portuguesa ou pessimista:
Manhã de sábado: fui comprar espargos e morangos à roulotte que os vende à entrada da floresta. Uns frascos de compota de morango puseram-se a rir para mim todos oferecidos, e o senhor "têm 75% de fruta", e eu "então levo dois, mas se não for bom venho cá na próxima semana pedir o dinheiro de volta" e ele "vem na próxima semana, vem, mas é para comprar mais dois!"
A senhora atrás de mim riu-se.
Paguei com o cartão, fui para o carro, e o marido da senhora estava a bloquear o meu carro, o sacana, aparece sempre um sacana destes que não pensa nos outros, agora percebo riso da senhora, era de mim que ela estava a rir, buzinei e ele recuou um bocadinho com o carro dele para eu poder tirar o meu, ele depois ainda se pôs a dizer coisas como se eu não fosse capaz de tirar o carro sozinha, não querem ver, se calhar era toxico-dependente, agradeci duas vezes não fosse o sacana riscar-me o carro ou perseguir-me com o carro dele, e fui ao resto da minha vida nesta manhã: devolver garrafas, comprar duas ou três coisitas para comer.
Não sei como, mas quando vou dos espargos para o supermercado arranjo sempre de entrar na rua errada, e ter de ir dar uma volta enorme. Estes serviços camarários são muito incompetentes, nem a sinalização conseguem fazer bem, até parece que é preciso um curso superior para pôr uma tabuleta e aposto que agora até têm um curso superior, e são filhos da irmão da prima, cambada de nepotistas. Acertei à segunda, devolvi as garrafas, fiz as minhas compras, e quando estava a chegar a minha vez na caixa apareceu a senhora que estivera atrás de mim nos espargos, e avisou-me que o meu cartão não tinha sido aceite. Não querem lá ver que esta andou a seguir-me, não fosse eu deixar o vendedor de espargos sem a massa. "Se quiser", disse ela, "pode lá voltar e pagar". ("Se quiser" - tão simpática!, pensei para comigo sardonicamente, se eu disesse alguma coisa ainda ela chamava o marido, e se andam a seguir-me são capazes de tudo).
Disse-lhe que sim, claro que ia, e ao ver o marido dela atrás do carrinho pensei se não seria melhor agradecer uma terceira vez, não fosse o tipo bloquear-me aqui também, e por isso comentei: "vou, apesar de desta vez não ter ninguém para me ajudar a tirar o carro!" Eles riram. Eu suspirei de alívio: ufa, livrei-me destes loucos, desta vez correu bem.
Fui salvar o dia ao senhor dos espargos, que ficou muito agradecido, disse ele, mas bem lhe vi na cara aquela expressão de censura que dizia "a caloteira, o que ela queria era levar sem pagar, da próxima não lhe aceito o cartão. E voltei para casa a resmungar para comigo e aliviada ao ver o verdíssimo verde do meu bairro, e a pensar como queria chegar a casa e fechar a porta na cara daquela gente toda, os sacanas, isto sair de casa é um perigo., ou, pelo menos, uma chatice. Tive de dar lugar ao autocarro para reentrar na rua, depois da paragem, porque os incompetentes da câmara não sabem planear o trânsito e compram autocarros que têm dificuldade nas curvas em ruas tão estritas, deve ser mais um primo que tem uns autocarros para vender e as pessoas que se desenrasquem, querem lá saber se nos atrasamos; e o condutor ainda me fez sinais com os piscas, o idiota; só não levou duas buzinadelas porque estou com pressa e não quero que o tipo faça a manobra ainda mais devagar, ou pare o autocarro para me vir pedir satisfações. Mas que manhã! Para onde quer que olhasse: gente manhosa.
Agora: não sei como é que há quem pense que é Deus, é o universo, é lá o quê, que existe e dá sinais. Como é possível numa cidade tão grande, depois de todas as voltas que dei, acabar por me encontrar na caixa do supermercado com a senhora que estava a comprar espargos na roulotte à entrada da floresta só se explica porque ela me seguiu assim que percebeu que o meu cartão não tinha sido aceite e queria apanhar-me para me confrontar com o calote. Se eu não tivesse sido simpática e dito que ia já ao homem pagar, ainda tinha feito uma peixeirada logo ali na bicha do supermercado!

21 junho 2026

manhã de domingo

 

Começou a chover com toda a força. Cordas grossas de chuva, ora caem a pique, ora oblíquas com o vento. E que fizeram as filhas do vizinho? Vestiram o fato de banho e foram brincar para o jardim: já as vi a nadar de bruços na mesa do terraço, a fazer a roda, a tentar saltar no ar em espargata. Agora estão a treinar coreografias.
Viva a alegria!

20 junho 2026

manhã de sábado

 

Manhã de sábado: fui comprar espargos e morangos à roulotte que os vende à entrada da floresta. Uns frascos de compota de morango puseram-se a rir para mim todos oferecidos, e o senhor "têm 75% de fruta", e eu "então levo dois, mas se não for bom venho cá na próxima semana pedir o dinheiro de volta" e ele "vem na próxima semana, vem, mas é para comprar mais dois!"
A senhora atrás de mim riu-se.
Paguei com o cartão, fui para o carro, esperei calmamente que o marido da senhora recuasse um bocadinho com o carro dele para eu poder tirar o meu, ele depois avisou-me que podia sair porque não estava a passar ninguém, agradeci duas vezes, e fui ao resto da minha vida nesta manhã: devolver garrafas, comprar duas ou três coisitas para comer.
Não sei como, mas quando vou dos espargos para o supermercado arranjo sempre de entrar na rua errada, e ter de ir dar uma volta enorme. Diz-se que quem se engana sempre é porque sabe muito bem o que é certo, mas permito-me discordar. É feitiço, só pode ser. Acertei à segunda, devolvi as garrafas, fiz as minhas compras, e quando estava a chegar a minha vez na caixa apareceu a senhora que estivera atrás de mim nos espargos, e avisou-me que o meu cartão não tinha sido aceite. "Se quiser", disse ela, "pode lá voltar e pagar". ("Se quiser" - tão simpática!)
Disse-lhe que sim, claro que ia, e ao ver o marido dela atrás do carrinho apeteceu-me agradecer uma terceira vez, e por isso comentei: "vou, apesar de desta vez não ter ninguém para me ajudar a tirar o carro!"
Eles riram.
Fui salvar o dia ao senhor dos espargos, que ficou muito agradecido. E voltei para casa a saborear ainda mais o verdíssimo verde do meu bairro. Dei lugar ao autocarro para reentrar na rua, depois da paragem, e o condutor agradeceu-me com os piscas. Mas que bela manhã! Para onde quer que olhasse: gente boa.
Agora: não sei se é Deus, se é o universo, se é lá o quê, mas tenho de reconhecer que existe e dá sinais. Como é possível numa cidade tão grande, depois de todas as voltas que dei, acabar por me encontrar na caixa do supermercado com a senhora que estava a comprar espargos na roulotte à entrada da floresta?

10 abril 2026

era para ser uma simples ida ao teatro, mas deu nisto...

 

Fui ao teatro Schaubühne ver O Avarento, da dupla Thomas Ostermeier & Lars Eidinger, e quase ia chocando com a Angela Merkel. O Joachim, que tem olho para detalhes, reparou no guarda-costas (melhor dizendo: no aparelho de escuta do guarda-costas) mas não viu quem era a pessoa que este estava a guardar.
Por um momento, olhamos uma para a outra. Mas lembrei-me logo que sou mais ou menos berlinense. Por isso, disfarcei, segui caminho, e nem a fotografei à socapa pelas costas nem nada.
De modo que, se alguma espécie de São Tomás estiver a ler isto, perdeu o seu tempo. Coitadinho.
(O que eu gostava de saber: se agora já reconheço os famosos, será que o fim está próximo?)
(E porque olhou ela para mim?, perguntarão vocês. Porque estou com o casaco mais lindo do teatro todo.) *** Há tempos fui ver a Sasha Waltz (que por acaso também me olhou fixamente) (a ver se arranjo tempo para contar aqui) e estava lá o Lars Eidinger. Bem sei que vocês, os do sul que gastam o vosso dinheiro em vinho e moças, não sabem quem é o Lars Eidinger, em quem eu gasto o meu dinheiro e também o meu tempo em esperas de várias horas na esperança de arranjar um bilhetinho. Adiante. Como ia dizendo: fui ver a Sasha Waltz, estava lá o Lars Eidinger. Fui ver o Lars Eidinger, estava lá a Angela Merkel. Só falta dizer que fui ver a Angela Merkel, estava lá o papa. Mas aqui, dei um jeitinho à verdade, que é esta: fui ver o papa, estava lá a Angela Merkel. A Angela Merkel é como deus e o Lars Eidinger: está em todo o lado! ***
Se querem saber tudo: no final da peça, quando vinha a sair, vi que um jovem da fila da Angela Merkel pediu para fazer uma selfie com ela. Então como é? Estes berlinenses já não são cool como dantes?
Ali ficaram tempos e tempos a tentar atinar com a situação, se fosse o nosso Marcelo já tinha agarrado no telemóvel do rapaz e já tinha tirado selfies com dez pessoas diferentes.
Saí calmamente, no corredor ela veio na minha direcção, saí para a rua, e lá estava ela outra vez a vir na minha direcção. Acho que estava hipnotizada pelo meu casaco, é a única explicação que tenho para tão estranho fenómeno.
Depois apareceram mais umas mocinhas a pedir selfies, e eu não pedi, porque quem já tem marselfies com o original não precisa de andar a pedir imitações.
Ah, quase me ia esquecendo! A peça foi boa, obrigada. Muito diferente do Hamlet da mesma dupla, mas divertida, e um belo espectáculo de teatro.
*** Para terminar,
Senhoras e senhores, meninas e meninos,
- rufar de tambores -
aqui apresento o casaco mailindo que ontem estava no teatro Schaubühne.
Atentem bem ao framing, e reajam como quiserem, em conformidade com o dito, com entusiasmo e espontaneidade.
- alguém ergue um cartaz onde se lê: "aplauso!" -

27 janeiro 2026

"O Céu da Língua" em Berlim



Atenção, Berlim!
Souberam primeiro aqui.
Pensei que ia ser espertinha, primeiro comprava o meu bilhete na primeira fila e só depois é que dizia aos outros, mas afinal não tem lugares marcados. Será que vou para a porta do Colosseum três dias antes? Chegarão dois?

(Bilhetes: https://www.colosseumberlin.com/details.../o-ceu-da-lingua )

24 novembro 2025

pão nosso de cada dia

 


Fui ao pão.
No caminho, vi um homem a ter um rendez-vous com uma árvore. Abraçou-a, encostou-se a ela longamente...
Se não houvesse mirones (como eu), se calhar fazia o mesmo. Deve ser muito bom.
(Sim, nevou. Mas ainda não dá para descer encostas de trenó. E recuperei o meu andar de pinguim. E também recuperei os transportes públicos, porque o carro está com pneus de Verão. E Berlim está coberta por uma camada densa de nuvens.)
(Nada disto é uma queixa.)
(As fotografias estão uma bela porcaria, reconheço. Ainda pensei espetar-lhes um filtro em cima, mas depois lembrei-me das minhas teorias sobre o botox, e ficámos assim.)

07 novembro 2025

o que é preciso é ter saudinha...

 

Ontem de manhã fui à ginecologista para uma consulta de rotina. O consultório tem um ambiente muito cuidado, com móveis caros e obras de arte nas paredes, mas as assistentes irritam-me sempre, porque atendem as pessoas de forma mecânica, antipática e arrogante, dão ordens secas, não fazem um único sorriso. Fazem-nos sentir como se tivéssemos ousado entrar numa Chanel ou numa Valentino (as lojas ali ao lado) sem termos cara de jovem esposa de um oligarca russo.
Enquanto esperava, liguei para um otorrino na parte Oxfam da mesma rua (é a avenida Ku'damm, há muita diversidade ao longo dos seus 3,5 km) para saber de uma vacina covid, fui atendida de forma extremamente simpática, e disseram-me para aparecer a meio da tarde, mesmo sem marcação.
O consultório tinha paredes vazias, cadeiras sólidas e sem graça, alguns brinquedos. E duas senhoras extremamente simpáticas na recepção. Uma delas usava hijab. A terceira, que veio falar comigo para me explicar que sou uma velhinha muito jovem e portanto devia tomar a vacina mais leve da gripe, era ainda mais simpática e calorosa que as da recepção.
Não resisti a fazer um comentário:
- Há algo neste consultório que o torna muito diferente dos outros...
- É por termos muitas crianças?
- Bem, estava a pensar na maneira calorosa como tratam as pessoas.
Ela sorriu.
Daí a pouco chegou o médico. Vacinou-me, falou um pouco, contei-lhe que este mês não posso apanhar gripe nem covid porque está a decorrer o Portuguese Cinema Days in Berlin, ele explicou que estas vacinas não me livram de apanhar as doenças, mas limitam os estragos, e depois quis saber mais sobre a nossa mostra de cinema. Dei-lhe um flyer, ele folheou, chamou a mulher (era a terceira senhora que me tinha atendido), pediram-me recomendações dos filmes, e saí de lá feliz da vida a pensar:
- Será que também fazem ginecologia?

24 outubro 2025

e vocês, como foi o vosso lançamento do Astérix na Lusitânia?

 




E como foi o vosso lançamento de Astérix na Lusitânia?

O meu foi bom.
O Obélix é um doce (e não é nada tão gordo como dizem!) e o tradutor, que me autografou o livro, é outro doce. Andou vários meses a traduzir, depois o trabalho dele foi retraduzido para francês, para os autores reverem e aprovarem.
E tanto trabalho para quê?, perguntarão.
Bem… 1,8 milhões de exemplares chegaram hoje às livrarias alemãs.

Diz-se que há muito tempo não havia um Astérix tão bom. Diz-se que os autores quiseram pôr no livro o ambiente ensolarado de Portugal. Eu cá, a julgar pela amostra das pessoas com quem falei no lançamento, digo apenas isto: vão vir charters de turistas.




19 outubro 2025

entardecer

 

Lembra-me o facebook que neste dia, em 2013, parei encantada junto a um canal perto do antigo aeroporto de Tegel. Apesar de ter fotografado com o meu telemóvel jurássico, ainda agora consigo sentir a paz daquele momento.
Entardecer junto ao aeroporto de Tegel
(ou: das vantagens de fazer biscates de taxista)










10 outubro 2025

festival of lights



Tenho uma amiga que ontem à noite estava no centro de Berlim, até sabia que o Festival of Lights estava a começar, e não lhe ocorreu ir dar uma espreitadela.

Esta manhã descobriu que deixou distraidamente passar isto.
(Às vezes dá-me vontade de me divorciar de mim própria, mas depois não sei o que faria sem mim...)


05 agosto 2025

vá para fora cá dentro

 


Uma das coisas boas de receber amigos em Berlim é sair com eles a redescobrir a cidade. Como por estes dias: uma velha amiga veio visitar-nos, e andámos a dar na boa vida à grande e à francesa (e à alemã, e à cingalesa, e à australiana, e a todas as nacionalidades que calha, que a vida, quanto mais se mistura melhor fica).





Começámos por ir à exposição de Pissarro no Barberini. Excelente, como é habitual neste museu.

Apesar de já estarmos cansadas no fim da exposição temporária, não nos fomos embora sem ver também a colecção de impressionistas de Hasso Plattner. E ainda bem, por todos os motivos, e também porque nos cruzámos com um senhor sentado em frente ao "Chemin Montant", de Caillebotte, mortinho por ter alguém com quem se maravilhar. De modo que ficámos a conversar com ele e a ajudá-lo a matar saudades daquele quadro que andou em digressão dois anos e meio e só agora regressou a casa.


Depois fomos almoçar numa casa de madeira do princípio do século XIX, na colónia russa Alexandrovka (será que já contei a história do czar que ofereceu um coro cossaco ao seu novo cunhado, e simplesmente mandou essa gente toda para a Prússia?).
Antes de regressar a Berlim ainda fomos visitar o palácio do velho Fritz. Continua lindo.







Conhecemos dois novos restaurantes: o alemão Engelbecken e o de inspiração cingalesa Sathutu (muito bom, mas se forem tão pelintras como eu é melhor comerem um kebab ou uma salsicha antes de ir ao restaurante, porque se calha de entrarem lá com fome levam um rombozito nas finanças domésticas). Também nos deram uma lista de outros restaurantes a explorar, que aqui deixo a quem interessar possa: Otto e Wen Cheng.


Ao anoitecer, fomos ao Chamäleon ver A Simple Space, o primeiro show da companhia australiana Gravity and Other Myths, que já caminha para uns 20 anos de existência mas continua fresco e adorável. Gostei muito da abertura: o anúncio "I'm falling!", o deixar-se cair, o confiar que alguém vai parar a queda. Gostei muito do humor do show.




E ainda nos rimos imenso com a nossa amiga, lembrando o dia em que chegámos em cima da hora e nos mandaram ir pelas traseiras, Mal nós sabíamos que nos punham a entrar directamente para o palco: o show passava-se num apartamento, e nós chegámos pela porta do frigorífico. A ideia seria talvez envergonhar os que chegavam por último, mas a nossa amiga não se atrapalhou. É mãe de um artista desses circos, conhecia metade das pessoas que estavam em palco, tudo a postos para começar e ela ali parada a conversar com eles animadamente: "olá, como estás? que giro encontrar-te aqui!"




Depois voltámos para casa, pelo centro da Berlim nocturna, e tirei uma fotografia à torre da televisão à maneira de um quadro que vi no Barberini: com uma ponte a atravessar a imagem separando motivos completamente diferentes. Acho que era uma ideia de Pissarro, mas não tenho a certeza. De modo que agora vou esperar pacientemente por algum outro amigo que nos venha visitar, para voltar lá e confirmar quem é o autor que plagiei. É isto a minha vida... Note to self: nunca, nunca, nunca! sair de casa sem a câmara fotográfica. Estas fotos de telemóvel ficam muito aquém.

19 maio 2025

metamorfose

 


TV-Asahi Allee, em Teltow, Berlim.
Onde dantes era o corredor da morte, há agora centenas de cerejeiras japonesas. Por estes dias, estão em flor.

22 junho 2024

adeus, relva

 





O clima de Berlim está a mudar. Dantes, podia ir descansadamente de férias de verão para Portugal, porque o verão berlinense regava-me o jardim. Hoje em dia, Berlim parece aquela aldeia do mapa dos livros do Astérix: chove em toda a Europa! Em toda? Não! Berlim resiste heroicamente.

Portanto: fartei-me da conta da água para regar a relva, tirei a relva, fiz uma breve investigação sobre plantas que se dão bem em terreno arenoso e sem água, fui comprá-las a eito e atirei-as para a terra ao deus dará. Je suis Esparta.

Isto que aqui se vê são as plantas que sobreviveram a mim e ao clima berlinense. Também tem algumas daninhas pelo meio, mas quero lá saber! Desde que atraiam insectos, está tudo bem.



(Escusado será dizer que só fotografei o único meio metro quadrado do meu jardim que se pode mais ou menos mostrar sem morrer de vergonha.)
(Dizem-me que tenho um jardim de polinização, e eu faço de conta que foi de propósito mas de facto nem sequer sei o que isso é. Andava a especializar-me em permakultur.)
(Quando digo "andava a especializar-me" quer dizer: compro dois ou três livros, folheio distraidamente, e avanço. Meia bola e força.)
(Aquela de ter um jardim de polinização sem saber o que isso é até me lembra a outra que foi para uma entrevista de emprego,
- Então, o que é capaz de fazer?
- Olhe, falo português, inglês, francês e espanhol.
- Pode dizer alguma coisa em espanhol?
- Buon giorno!
- Isso é italiano...
- Ah, querem lá ver que também sei falar italiano?!)

27 maio 2024

é Berlim, está tudo dito


Da newsletter "Checkpoint" do diário berlinense Tagesspiegel, 27.5.2024, partilho estes dois sinais da vitalidade de Berlim e do humor perante o caos:



Precisamente em simultâneo com o encerramento de todas as ruas entre a Coluna da Vitória e a Potsdamer Platz, à volta da zona onde se vai instalar o relvado, os stands e a baliza gigante do Campeonato Europeu de Futebol, soa o apito para os trabalhos nocturnos de manutenção no túnel do Tiergarten - também esta passagem será encerrada a partir de hoje, durante quinze dias, de segunda a sexta-feira, entre as 21h00 e as 5h00 da manhã. Os viajantes que vêm do sul e pretendem chegar à estação ferroviária central podem apanhar o comboio de levitação magnética ou um táxi aéreo. Percurso alternativo: em direcção ao Cabo da Boa Esperança e depois sempre em frente.


*** 

Por fim, uma notícia da série “Autocarro, mas feliz”: a nossa leitora Barbara Pickel tem encontro marcado com a Staatsoper às 19h00. Pouco antes das 18h00, na estação do Zoo, entra no autocarro com o seu andarilho - mas é o autocarro errado. O seu plano de mudar para um táxi na Potsdamer Platz corre o risco de falhar devido ao trânsito intenso e às muitas paragens. Pouco antes das 18h30, com muito esforço consegue chegar perto do motorista do autocarro, e pergunta-lhe se chegarão a tempo à Potsdamer Platz... “Nem pensar!”, responde ele com a crueza berlinense, e logo abre a janela lateral, fazendo sinal ao taxista perto dele para parar imediatamente. “Tenho aqui uma senhora idosa que quer ir à ópera às 19h00, dê-lhe boleia!”, grita na sua direcção. O taxista abre a porta e Barbara Pickel sai apressadamente pela porta da frente do autocarro com a “carroça”, como ela chama ao seu andarilho, e entra na parte de trás do táxi. Mas já lá está sentada outra senhora. Para onde é que ela quer ir? “ Ora bem, à Staatsoper, às 19h00!” E mais uma vez nos damos conta de que os melhores filmes de Berlim continuam a passar-se na vida real - mesmo com finais felizes.


26 maio 2024

trabalhar ao domingo

 



Esta manhã, bem cedinho, vi que a nossa produção de mel vai de vento em popa. Somos capitalistas à moda antiga: em troca de um tecto por cima da cabeça, um pouco de água no verão e algum conforto no inverno, o nosso povo trabalha de sol a sol, todos os dias da semana. Nós esfregamos as mãos de contentes e vez por outra elogiamos muito a sua moral do trabalho.

(Nota mental: distribuir uns frasquitos de mel aqui na rua para agradecer o uso dos recursos e da propriedade alheia. É certo que a lei é omissa quanto ao uso das rosas dos vizinhos, mas ao fim e ao cabo nem com uma dúzia de gripes e constipações consigo dar cabo dos nossos produtos em armazém.)

Caso perguntem porque andava eu própria a fazer figura de capataz de abelhas tão cedo a um domingo, sim, adivinharam: o Fox veio cá passar uns dias. O Matthias está de férias, e há dias o amigo que ficou a cuidar do Fox, lá no apartamento que partilham, avisou-me que o bichinho andava com diarreia, e nessa manhã tinho estado a tremer e a arquejar. Fui buscar o Fox, levei-o à veterinária, tive direito à cena habitual de "ai eu por esta porta é que não entro, deves estar tola, é que nem penses!", entrámos, e enquanto eu falava com a veterinária o Fox teve novo ataque lancinante de diarreia, desatou a arquejar e a tremer junto à porta, aflitíssimo.

- Dá-me licença de o levar à rua num instantinho?, perguntei eu à veterinária.
- Então?! Estamos em plena consulta, e quer sair?
- Mas não vê que ele está a ter um ataque de diarreia?
- Vamos terminar isto que estamos a fazer, e depois leva-o lá fora. O ataque lancinante de diarreia do Fox terminou tão depressa como tinha começado. De modo que vou anotar a frase "Vamos terminar isto que estamos a fazer, e depois leva-o lá fora", porque mais milagroso que isto só mesmo homeopatia... (E o Óscar de melhor actor vai para o Fox, esse grande artistolas a quem fiquei a dever o meu embaraço mais recente.)

Depois da trovoada de ontem, hoje fez-se um dia lindíssimo. Fomos ao lago, o Fox e eu, e encontrei um pássaro pousado na água, imóvel. Parecia uma pomba. "Então as pombas agora sabem nadar?", pensei eu. "Será um boneco de plástico? Será uma cena da inteligência artificial?"

Olhei melhor: as coisas brancas na água, junto ao pássaro imóvel, não eram pétalas de rosa. Eram penas. Terá acontecido ali uma das muitas tragédias da natureza que todos os dias acontecem naquele lago aparentemente tão plácido e paradisíaco, e a pomba, ou lá o que seria, estava ainda em estado de choque, em estado de luto.

Também vimos uma cadelinha muito mansa, sem coleira nem dono, que andava pela rua tranquilamente, como se fosse uma raposa. Perguntei-me se seria um caso de Rómulo e Remo dos cães, mas pouco depois apareceu um homem de bicicleta a olhar em todas as direcções, e disse-lhe por que rua a cadelinha tinha continuado o seu caminho.

Ainda nem tomei o pequeno-almoço, e já aconteceu isto tudo. Daqui para a frente, por azar, não me vai acontecer mais nada: tenho imenso trabalho para fazer, corro a cortina para deixar o sol lá fora, e tento esquecer que hoje em Berlim é dia de festa das portas abertas na Filarmonia (pode-se acompanhar aqui, online) e dia de festa na rua para comemorar os 75 anos da constituição alemã.

De agora em diante, podem ter pena de mim. Mas só até às 3 da tarde, que é a hora a que vou tomar um cafézinho a casa de amigos, e comer o bolo de limão que ainda tenho de fazer. (Ai! Quase ia esquecendo que ainda tenho de fazer um bolo de limão!)