15 fevereiro 2026

qual seria a sua resposta?


Sobre o grande escândalo do Wim Wenders na Berlinale 2026 a dizer que "o cinema não é política, o cinema é o contrapeso da política", convido todos a ver essa parte da entrevista, que começa neste vídeo a 18'37''. Em síntese: Jornalista 1: Que espera da Berlinale 2026 num mundo rodeado de guerras? Os filmes podem mudar o mundo? Wim Wenders: Sim, os filmes podem mudar o mundo. Não de forma política, nenhum filme mudou as ideias dos políticos, mas podemos mudar as ideias das pessoas sobre como deviam viver. Neste planeta, há uma grande discrepância entre pessoas que querem viver a sua vida e governos que têm outras ideias. Penso que os filmes entram no espaço desta discrepância. Temos esperança que sim.

Jornalista 2: Como lhes parece que os filmes podem mudar nestes tempos negros que estamos a viver? Tricia Tuttle (resumo): O cinema permite-nos a empatia, permite-nos entrar na pele do outro, ver o mundo pelos olhos de outra pessoa. Os filmes mudam o nosso ponto de vista - o que é algo muito difícil de fazer apenas com diálogo. Wim Wenders: Não se aprende nada assistindo apenas aos noticiários. Aprende-se muito mais com um filme onde se viu uma pessoa na sua situação, o seu sofrimento, e como preferiria viver. O cinema tem um poder notável de compaixão e empatia. Os noticiários não têm empatia. A política não tem empatia. Mas o cinema tem. E esse é o nosso dever.

Jornalista 3: Mudar o mundo... Este festival não acontece num vácuo. A Berlinale como instituição tem mostrado solidariedade com as pessoas no Irão, na Ucrânia, mas nunca com a Palestina. Mesmo hoje em dia. Perante o apoio do governo alemão ao genocídio em Gaza e o seu papel como maior financiador da Berlinale, pergunto: os senhores, como membros do júri, apoiam este tratamento selectivo dos direitos humanos?

[ Passo a pergunta aos leitores deste post: que é que respondiam, se estivessem no lugar daquele júri? Não respondiam nada, porque nem sequer estavam ali sentados como membros do júri, uma vez que não querem ter nada a ver com "um governo cúmplice de genocídio"? Lavavam daí as vossas mãos? O festival decorria sem vocês (e portanto também sem filmes que mostram ao mundo como é a vida dos palestinianos)?

Ou respondiam: "Malditos sionistas! Genocídio! Fim ao regime de Netanyahu! From the river to the sea!" - sabendo muito bem que iam provocar o maior escândalo de sempre da Berlinale, e que provavelmente seria o fim deste festival? Ou respondiam o possível, algures entre o oito e o oitenta? Por exemplo: ] Tricia Tuttle: O júri quer responder? Penso que também gostaríamos de falar sobre os filmes no festival.
Jornalista 3: Como disse, os filmes também são política, como acabaram de dizer. Ewa Puszczyńska: Os filmes não são políticos naquilo que me parece que é a sua acepção. Os filmes são sobre empatia, tentar entender, formar as suas próprias ideias. Pôr-nos esta questão é um pouco unfair. Usámos a frase "mudar o mundo", mas estamos a tentar falar com as pessoas, com cada um dos espectadores, para os pôr a pensar. Mas não podemos ser responsáveis pelo que eles vão decidir. Deviam decidir apoiar Israel? Ou apoiar a Palestina? Podíamos falar sobre o Senegal e muitas outras questões, e você falou apenas da maior, mas há muitas outras guerras onde está a ser cometido genocídio, e não falamos sobre isso. Portanto: é uma questão muito complicada, e é um pouco unfair perguntar-nos a nós o que achamos ou não achamos, se apoiamos ou não, se falamos com os nossos governos ou não. Falando por mim: voto, uso os meus direitos como cidadã da Polónia, da Europa e do mundo, participo em marchas, apoio as causas que acho que devo suportar. Mas os outros elementos do júri podem tomar outras decisões. Penso que pôr-nos uma pergunta destas e esperar que demos a "resposta de tipo geral" não é fair. Wim Wenders: Não podemos ocupar o espaço da política. Temos de ficar fora da política, porque se fizéssemos filmes dedicadamente políticos, entrávamos no espaço da política. Mas nós somos o contrapeso da política. Nós somos o oposto da política. Temos de fazer o trabalho das pessoas e não o da política. [ Antes que comece a berraria, mais algumas ideias: - Aquela pergunta do jornalista não se destinava a ajudar o povo palestiniano. Destinava-se apenas a encurralar o júri e a directora da Berlinale, esfregar-lhes a hipocrisia na cara? Um herói... A Berlinale tem mostrado filmes importantíssimos sobre o sofrimento do povo palestiniano, e tem havido - tanto nos filmes que mostram como no discurso - gestos fortes de solidariedade com a população de Gaza. Mas enquanto os responsáveis não disserem no palco do festival "genocídio" e "apartheid!", os justiceiros não descansam. Mesmo que seja a última batalha que ganham, e mesmo que isso só piore ainda mais as perspectivas do povo palestiniano.
- Foi na Berlinale que vi praticamente todos os filmes - absolutamente dilacerantes - que conheço sobre a situação do povo palestiniano. Em 2024, No Other Land ganhou o primeiro prémio (e o discurso de um dos realizadores, o israelita, onde falou em genocídio e apartheid provocou um escândalo enorme; na altura, temeu-se a saída de alguns patrocinadores e o fim dos apoios estatais; de facto, a Berlinale está cada vez mais pobre). Em 2005, a própria Berlinale financiou a realização do filme Paradise Now - outro escândalo enorme. Este ano, traz Chronicles from the Siege, onde, apesar de não o dizerem, tudo grita "Gaza". - O massacre do Hamas em 2023 tinha um objectivo claro: virar o mundo contra Israel. E caímos como uns patinhos: dividimo-nos entre "e tu, és contra o Hamas?" e "e tu, és cúmplice do genocídio?" Pelo caminho, ficou a pergunta essencial: "e nós, o que podemos fazer para dar ao povo palestiniano a vida digna que lhe foi roubada, e continua a ser roubada todos os dias?" (Dou uma ajudinha: gritar "genocídio!" virado para o governo alemão não ajuda.) Como ficou pelo caminho a consciência de que fomos nós, os europeus, quem atirou os judeus para aquela terra - séculos e séculos de perseguições terríveis, aliada a um pensamento colonialista que reduzia judeus e árabes a meros peões de um jogo onde só os interesses dos europeus contam. Mas esquecemos tudo isso, e apontamos agora o dedo - oh, o nosso dedo tão limpo, tão íntegro, tão ético e tão cheio de boa consciência - aos "malditos sionistas". Como se eles tivessem aterrado na Palestina vindos de Marte. Como se a tragédia de Israel na terra dos palestinianos fosse um fenómeno inteiramente alheio à Europa. - Pergunto ao jornalista que atirou aquela pergunta: se, por causa da sua provocação, a Berlinale desaparecesse, ou se perdesse a diversidade, a tensão e a liberdade que, apesar de tudo, ainda tem, os palestinianos iam ficar melhor ou pior? - Já agora: perguntem à Leni Riefenstahl se a arte deve ser política. ]

13 fevereiro 2026

uma sociedade assim

 

Moro em Berlim há quase vinte anos, e ontem, pela primeira vez (que me lembre), um autocarro arrancou no momento em que eu estava a chegar à porta. Mas convenhamos: era a porta de trás, se calhar o condutor nem me viu.
Em todo o caso: jeito não deu, confesso, mas lembrei-me logo que era a primeira vez em vinte anos. Adiante.
Hoje, perdi o meu autocarro por muito. Entrei no seguinte, um expresso, que só apanhou o que me dava jeito na última paragem antes de irem cada um para o seu lado. Tentei a minha sorte: sair pela porta da frente, e correr para entrar pela porta de trás no autocarro da minha rua. O condutor parou o autocarro, viu-me ali ao lado dele, e disse que não podia sair por aquela porta. Expliquei-lhe o problema.
E ele - tãtãtãtãããããããã - carregou num botão e disse: "colega, espere aí um bocadinho, tenho aqui uma passageira para o seu autocarro". E depois abriu a porta da frente para eu sair.
Se querem saber tudo: acho que era um desses imigrantes turcos, ou sírios, ou sei lá o quê. Falava alemão com algum sotaque.
Um desses que vêm de países que "não têm a nossa cultura", ou lá como se diz.
Não pensem que os condutores alemães são mais antipáticos. Já tive um que me viu a correr para o autocarro e me fez sinais de luzes, como quem diz "calma, calma, eu espero por si".
Estão bem uns para os outros: no Natal, sempre que vejo um autocarro com um condutor "desses que não são da nossa cultura", sinto-me profundamente grata: os condutores de autocarro da cultura muçulmana trabalham muito mais no Natal, para os seus colegas da cultura cristã poderem passar esses dias com a família. E depois, quando o Ramadão chega ao fim, trocam.
Adoro viver numa sociedade assim.

12 fevereiro 2026

Berlinale 2026

 





Chove copiosamente. Bem sei que ninguém me pergunta nada, mas preferia neve.
Em todo o caso: o meu edredon com mangas aguentou como um valente.
Agora, é só ver se este novo ditado se confirma:
Chuva na abertura, filmes bons com fartura.





11 fevereiro 2026

será que ainda vamos a tempo?

 






No dia 7 de Outubro de 2023, ao ouvir as primeiras notícias do massacre do Hamas, lembrei-me desta cena do livro Jerusalém, de Joe Sacco.
Publicar estas imagens e esta pergunta logo a seguir àquela orgia de violência contra judeus teria sido obsceno. Mas hoje, depois de todo este tempo a assistir ao insuportável castigo colectivo que o governo radical de Israel está a perpetrar em Gaza, esta pergunta torna-se absolutamente crucial: o que vai na cabeça de uma criança que cresce nas condições em que as crianças palestinianas vivem, uma criança que vive agora, dia após dia, o terror de uma guerra contra a população civil?

Para construir a paz entre Israel e os palestinianos, é imperioso quebrar as lógicas que alimentam a espiral da violência. É imperioso ouvir os dois lados, e reafirmar o óbvio: a vida de um judeu vale tanto quanto a vida de um palestiniano. O direito à vida, o direito a viver com dignidade e em liberdade, é igual para ambos.

--- Escrevi este post no facebook em Fevereiro de 2024. Depois disso já houve eleições nos EUA, e à frente do país mais poderoso do mundo está agora um homem que nem sabe soletrar "dignidade humana". Tem cifrões nos olhos, prémios Nobel fake no coração, e a lei do mais forte na cabeça.

Mas será que a lei do mais forte permite construir uma paz duradoura?

10 fevereiro 2026

Danilo Nogueira

 

A passear pelo Facebook, esbarrei numa notícia triste:
"Aqui é o André, filho do Danilo. Estou escrevendo exatamente o que ele me pediu para escrever.
'Morri, como já era previsto. Foi bom enquanto durou, mas, como tudo na vida, acabou. Deixo a todos um dos meus abraços de urso. Sejam felizes.'
A pedido dele próprio, não haverá cerimônias religiosas públicas."
Nunca conheci o Danilo Nogueira em pessoa. Durante alguns anos, estive numa mailing list de tradutores de português onde ele brilhava, ensinava e fazia rir. Há quase trinta anos, se escrevia um post mais criativo, rematava com "que será que a Vera pôs naqueles cogumelos que comi ao almoço?" - e nós ríamos. Os cogumelos da Vera ficaram famosos.
Depois a Vera morreu, e todos nos sentimos muito tristes.
E agora foi o Danilo, que se despediu com o mesmo humor e a mesma humanidade de sempre.
Imagino que, algures, a Vera já está a cozinhar uns bons cogumelos para o receber.

09 fevereiro 2026

espelho



Se os emigrantes portugueses estivessem assim tão desesperados e desiludidos, e quisessem fazer um voto de protesto, votavam no candidato Vieira.
Um paradoxo: emigrantes portugueses a votar no arrivista que faz parte da Internacional do Ódio a imigrantes.
O que leva um português na Alemanha a achar que tem menos cara de árabe que um sírio? Esses bandos de violentos que perseguem imigrantes na rua, animados pela Internacional do Ódio, não pedem o bilhete de identidade antes de começar a bater.
Estou cada vez mais convencida que as pessoas não votam no Vintruja como forma de protesto.
Votam nele porque gostam da maldade que ele espalha no mundo.
De facto, gostam da maldade que ele espelha no mundo.

o que é o populismo?

 

Isabel Sousa Lobo, no Facebook

"O que é o populismo?
O candidato da direita radical, que andou a carregar garrafas de água com ar martirizado, não teve uma palavra para com as vítimas da intempérie no discurso da derrota. Até pretendeu, anteriormente, adiar as eleições. Já o candidato vencedor, o nosso próximo PR, foi logo por aí que começou e disse que se ia empenhar em soluções o mais eficazes e prontas que fosse possível.
Curiosamente, acabo de ler que nos concelhos onde foi decretado o estado de calamidade, o acréscimo de votos do candidato vencedor foi superior à média nacional; e o acréscimo de votos do candidato perdedor foi inferior à média nacional. As populações afectadas souberam bem distinguir entre um farsante que explora teatralmente a desgraça, de um candidato que cultivou a discrição para se inteirar no terreno da situação e que, certamente, seria genuíno no seu empenhamento.
O populismo é isto: teatro, mentira, oportunismo mas desinteresse real pelos problemas das pessoas. A desgraça alheia é apenas um meio para ampliarem poder e influência, nunca para melhorarem as condições de vida de quem mais sofre. Este foi um exemplo prático de populismo."

apontamentos sobre as eleições (3)

 


Agora que já partilhei dois textos importantes e sérios, deixo escapar a bojarda (isto aqui é como Portugal a votar: um em cada três...)

Ora então: estava aqui a pensar que, apesar do horror que se abateu sobre elas, as pessoas de Leiria foram votar, e, entre o três salazares e a Constituição, escolheram em massa a Constituição.

Imagino o que irá por dentro do alforreca...

"Ai vocês são assim? Devolvam já aquela meia dúzia de garrafas de água que vos fui levar com tanto sacrifício pessoal, tanto sofrimento físico, tantas lágrimas de sapo de louça, tantos jornalistas!"

apontamentos sobre as eleições (2)

 

João Sardo, no Facebook:

"A vitória de António José Seguro não trouxe sobressaltos. Trouxe um silêncio espesso. O silêncio que permanece quando tudo correu como devia mas não como gostaríamos. Não houve catarse, nem aquela sensação rara de que o futuro abriu uma fresta. Houve contenção e prudência. Houve um país a escolher não cair.
É pouco? Não. Mas também não é motivo para descanso.
Estas Presidenciais não foram um referendo a um homem. Foram um teste de resistência ao "sistema" para ver até onde é que aguenta antes de ceder por dentro. A Constituição não apareceu nos boletins mas esteve presente no gesto, naquele movimento quase automático de quem, perante o ruído, procura o eixo.
Seguro venceu porque representa o contorno reconhecível da República. Nada de promessas inflamadas nem rasgos visionários. Continuidade. Previsibilidade. Um certo aborrecimento institucional que, em tempos de gritaria, se transforma subitamente num bem precioso.
Mas seria um erro grosseiro ler estas eleições como um simples triunfo da estabilidade. Foram também (e talvez sobretudo) uma montra e uma experimentação. Um ensaio geral feito à vista de todos. Um laboratório eleitoral onde quem perdeu não saiu derrotado no essencial.
É evidente que André Ventura não concorreu para ganhar Belém. Concorreu para aparecer e para medir. Para testar a elasticidade do país. Para perceber até onde pode esticar o discurso sem rasgar o tecido democrático. As Presidenciais ofereceram-lhe exactamente isso: um ambiente controlado, onde o voto é moral antes de ser governativo; e simbólico antes de ser executivo. O espaço perfeito para experimentar tensão, agressividade, confronto institucional, sabendo que a rejeição presidencial não equivale, automaticamente, a rejeição governativa.
Ventura saiu destas eleições mais instruído do que entrou. Aprendeu onde a rejeição é sólida e onde começa a ser porosa. Percebeu que há um tecto mas também que esse tecto não é de betão armado. E, sobretudo, confirmou o verdadeiro alvo da sua estratégia: o PSD. O Chega já não disputa apenas margens; disputa hierarquias. Quer saber até que lugar pode subir no pódio da direita, empurrando os outros para baixo. Estas eleições deram-lhe dados.
É aqui que a omissão da direita democrática deixa de ser um detalhe táctico e passa a ser um problema político sério. PSD, IL e CDS atravessaram esta campanha como quem acredita que a democracia é um dado adquirido, uma paisagem fixa, garantida pela força da tradição. Preferiram a neutralidade bem-penteada à palavra incómoda. Apostaram que o eleitorado faria o trabalho sujo por eles.
Fez. Mas isso não os absolve.
Porque a Constituição não se defende por delegação. Defende-se quando se recusa normalizar quem a trata como entrave ocasional. Quando se diz, sem rodeios nem jogos semânticos, que há limites que não se relativizam, não por dogma mas por memória histórica. A democracia não se mantém viva por inércia. Mantém-se porque alguém, em algum momento, decide não olhar para o lado.
Há algo de profundamente inquietante no facto de esta eleição ter sido salva por um reflexo cívico enquanto tantos responsáveis políticos optaram por uma prudência que roça a abdicação. Como se a democracia fosse um mecanismo automático. Não é.
A Constituição da República Portuguesa nasceu de um medo concreto e de uma urgência real. Foi escrita para travar abusos, não para ser testada ciclicamente por quem mede até onde pode ir.
Estas eleições mostraram duas coisas importantes ao mesmo tempo: que essa resistência ainda existe e que já não é consensual nem confortável.
Seguro será, tudo indica, um Presidente de gestos pequenos, palavras medidas e fidelidade institucional quase monástica.
Mas talvez, neste momento e tendo em conta a conjuntura, seja exactamente esse o maior acto político: ficar onde é preciso ficar."

apontamentos sobre as eleições (1)

 

Isabel Sousa Lobo, no Facebook

"Sobre quem perdeu, mas ganhou mais um pouco.
Votos AD 1.971.558
Votos AV 1.687.116 (99% apuramento)
A aldrabice do "sistema". O actual "sistema" é o regime democrático. A alteração pretendida não é no sentido das liberdades e da democracia. Basta ver os líderes que são referências deste partido a começar pelo inenarrável DT.
O país mobilizou-se contra um indivíduo e um partido que faz da mentira, da intoxicação, do racismo e da xenofobia as suas bandeiras. E não, não são contra as elites. São grandes capitalistas, famílias com poder financeiro e influência social, alta burguesia e até alguns aristrocratas, boa parte escondidos atrás de cortinas de fumo e que deviam ser colocadas sobre os holofotes como apoiantes destes arrivistas. Arrivistas estes que durante anos se acoitaram noutros partidos fundadores do regime democrático e que, agora, sabendo perfeitamente o que andam a fazer, lançaram o ódio como combustível eleitoral e a mentira como forma de mobilizar legiões de ressentidos.
A luta continua! Contra o populismo, contra a extrema direita, contra neofascistas e neonazis aliados desta gente e contra a direita radical que mina os fundamentos das sociedades democráticas e livres, baseadas em valores de solidariedade, humanismo e tolerância.
O ódio e a intolerância, a discriminação e a mentira não podem minar os alicerces da coesão nacional.
Há muito que fazer."

08 fevereiro 2026

dia de festa

 


Hoje é dia de festa.
Amanhã recomeça a luta para
"construir a forma justa
De uma cidade humana que seja
Fiel à perfeição do universo".

Amanhã recomeça a luta interminável. (Imagem de Marta Nunes, no Facebook)

alívio

 

Um alívio enorme: Portugal não é os EUA!
O país não está dividido pela metade entre os que gostam da democracia e os que gostam do flautista de Hamelin.
(Conhecem a história? Era um encantador de ratos e criancinhas ingénuas)

Mesmo assim, a quantidade de portugueses que votam no alforreca é triste.

07 fevereiro 2026

este país precisava de três quê?

 


Gosto muito daquele "No dia 9, falamos do resto."
Uma espécie de: "pedimos desculpa pela interrupção, o debate democrático segue dentro de momentos".
A propósito: lembrem-se disto da próxima vez que alguém vier com a conversa da exprema esquerda e da extrema direita. Como se vê, não são iguais. Aqui está o PCP a defender a democracia.
(E, agora que penso nisso: alguém se lembra quando foi que um dirigente do PCP disse que "este país precisava era de 3 Estalines?")

o povo português que conta

 

Para memória futura: o candidato a quem os portugueses emigrantes deram tantos votos, o candidato em quem tantos portugueses emigrantes depositam tanta esperança de que vá melhorar as suas vidas, na hora em que resolve fazer mais um dos seus brilharetes de retórica(*), esquece-se completamente dos portugueses emigrantes.
Assim: completamente!
Para ele, o "povo português" é: exclusivamente os portugueses que vivem no território nacional.
Por sorte, o sistema - que ele tanto odeia e quer destruir - soube tomar uma decisão de adulto.

Se lhe tivessem dado ouvidos, ia ser bonito, ia: tantos emigrantes a comprar novos bilhetes de comboio e avião, a remarcar turnos de trabalho e hotéis...
Mas isso nem sequer lhe passou pela cabeça.

E nem é defeito, é feitio. Ou alguém sabe o que os deputados do Chaga eleitos pelos círculos da emigração têm andado a fazer para melhorar a nossa vida? Eu ainda não vi nada.


boletim meteorológico

 

Parece que amanhã de manhã o temporal vai dar tréguas, e à tarde piora. Portanto: quem quiser votar pelo seguro, vá de manhã.
Por outro lado, quem gostar mais de aventuras, vá à tarde.


(hihihi, sou tão engraçadinha...)

fazer o que posso

 


Esta manhã, dei um saltinho à rua, em chinelos, para ver se continuava tudo horrivelmente escorregadio ou se já começava a derreter um pouco. Percebi que estava horrivelmente escorregadio, mas por baixo do gelo a neve estava mais solta. Como já estava na rua e tive preguiça de ir a casa mudar de sapatos, andei a picar o gelo todo do passeio à pazada. Tac-tac-tac-tac-tac-tac, e o gelo quebrado a saltar para os meus pés.

Ao fim de meia dúzia de tacs já tinha as meias molhadas, e por isso mesmo decidi que não valia a pena ir a casa pôr sapatos decentes.

De modo que esta manhã foi assim: milhares de vezes "tac" a ecoar na rua toda, meias e calças encharcadas.

Mas a rua agora está mais segura, já não há risco de alguém escorregar no gelo em frente à minha casa, e se partir todo.

E amanhã vou votar. Nem que seja preciso abrir o caminho todo, daqui até à embaixada, à pazada.

Este é o meu fim-de-semana de fazer o que está ao meu alcance para tornar o nosso mundo um pouco mais seguro para todos.

06 fevereiro 2026

*sair da bolha*


Dizem-me: sai da bolha, vai ao encontro dos outros, abre os olhos para outras realidades...
Será que a minha bolha é assim tão reduzida e redutora? Encontro nela homens, mulheres, pessoas não-binárias. Pessoas dos zero aos cem anos. Heterossexuais, gays e nem sei que mais, porque o que as pessoas fazem na cama delas é o lado para onde durmo melhor. Pessoas de muitos países diferentes. Várias religiões, muitos agnósticos, muitos ateus. Pessoas com a quarta classe, e professores catedráticos. Desempregados e CEOs. Cientistas e artistas. Simpatizantes e membros de todos os partidos, menos um.
Porque é justamente aí que traço um limite para as fronteiras da minha bolha: não quero ter por perto pessoas que gostam de um líder político que põe ódio no mundo, que aplaude abertamente perseguições a emigrantes, que atira ao chão os mais vulneráveis e os espezinha para conquistar poder.
Dizem-me que não é assim que consigo conquistá-los para o espaço democrático. Que tenho de ouvir, que tenho de compreender...
Não, não tenho. Não tenho de compreender quem - repito - gosta de um líder político que põe ódio no mundo, que aplaude abertamente perseguições a emigrantes, que atira ao chão os mais vulneráveis e os espezinha para conquistar poder.
Pertencem a uma realidade paralela, com outros valores, outra definição de "decência" e "dignidade" e "direitos humanos". Não vejo o menor motivo para entrar em contacto com esta realidade.
Alguns contemporizam: ai e tal, estão muito zangados com a situação actual, votam assim como sinal de protesto. E há aqui dois erros: um de lógica (se estão zangados com a situação actual, porque votam no partido que já deu provas de que vai pôr tudo ainda pior?) e outro de carácter (se queriam fazer um voto de protesto, tinham o candidato Vieira, ou votavam em branco — mas preferiram votar no sujeito que, para além de fazer de conta que está zangado com o sistema, conquista votos apelando ao ódio e servindo-se das minorias como inimigo instrumental).
Se é para dividir o mundo entre "nós" e os "outros", a minha divisão é esta. Porque aqueles que, segundo me dizem, deviam ser motivo para eu sair da minha bolha e para aprender a ver o mundo como ele é, são os mesmos que querem impor à sociedade a bolha deles, uma bolha feita de ódio e mentira, sem espaço para o pensamento e para a diversidade. Saiam antes eles da bolha em que se meteram, que é um lugar insalubre e está a envenar tudo, e muitos. --- Este texto responde a um desafio chamado "no Largo": um grupo que todas as semanas escreve sobre um tema diferente. "Sair da bolha" era o tema da semana passada, mas por motivos vários só agora publico. As outras bolhas:
A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
Gralha dixit 
O blog azul turquesa 
Quinta da Cruz de Pedra

um ódio que - também a nós - mata

 

Há poucos dias, num país europeu, um jovem português ia pacatamente a caminho do trabalho quando começou a ser perseguido por cinco tipos dentro de um carro. Primeiro tentaram atropelá-lo várias vezes, e depois invadiram o edifício comercial onde ele se refugiara. Só se safou porque um empregado da loja o escondeu no armazém.
Não revelo mais do que isto, porque - apesar da insistência da polícia para que apresente queixa - esse português, num país europeu, sabe bem o risco que corre se essa gente repleta de ódio souber quem ele é.
E que fez ele para merecer a perseguição?
Tinha "ar de árabe".
André Ventura é um dos que cultiva cinicamente o ódio ao "outro" para conquistar poder. O ódio que ele espalha em Portugal é o mesmíssimo ódio que se abateu com tanta brutalidade sobre aquele emigrante português num país perto de nós.
E o político aprova: foi a Espanha dizer que as violentas perseguições a imigrantes em Murcia o enchiam de orgulho.
Esta semana, parece que a sua gigantesca máquina de propaganda decidiu que a narrativa melhor para o momento é armar-se em vítima, e apelar à consciência democrática: "Ai, ditadores são vocês, só aceitam os políticos que dizem aquilo que vos agrada..."
Que não haja dúvidas: o ódio que este fantoche sedento de poder anda a servir em doses cavalares é um ódio que mata. Ninguém está a salvo do veneno que ele e a máfia internacional com quem anda enrolado estão a injectar no mundo.
Não normalizem o ódio contra estrangeiros.
Por uma questão de princípio, como é do mais elementar sentido de dignidade, e por uma questão de sobrevivência dos "nossos": cerca de dois milhões de portugueses vivem na condição de estrangeiros.
E, se ainda não repararam: muitos portugueses têm "ar de árabe".

05 fevereiro 2026

Joana Lopes

 


A Joana Lopes!
Conheci-a no tempo dos blogues, habituei-me à sua presença atenta e plena de seriedade, à sua inteligência, à sua acutilância.

De certo modo, era parte eterna da minha internet.

Nem me ocorreu que um dia destes pudesse ir fazer perguntas inteligentes para outro lado qualquer, e nos deixasse aqui tão mais pobres.

Obrigada por tanto, Joana. *** Aqui encontram uma entrevista de Joaquim Paulo Nogueira, em 2023. Publicou-a hoje no Facebook, juntamente com este texto: "A Joana Lopes.
Tinha feito 84 viagens nesta altura, a 16 de Fevereiro de 2023. As viagens davam-lhe alento, mundo, abriam-lhe horizontes. Não sabia se gostava muito de viver, respondeu quase no final a primeira vez que lhe perguntei, depois emendou, disse, "bem, toda a gente gosta muito de viver." E Portugal entediava-a. também disse. Conhecemo-nos no blogue da candidatura do Manuel Alegre, pela mão do Luís Novaes Tito, e depois reencontrámo-nos no Que se Lixe a Troika. Era uma das pessoas mais jovens do grupo. A mim chamava-me Quim e eu gostava tanto.
Partiu agora para a grande viagem, telefonou-me o Vítor Fernando Machado a dizer."


a Democracia como festa

 

A pensar nos pobres emigrantes portugueses, que têm de fazer centenas ou milhares de quilómetros para ir votar nas eleições presidenciais, porque o voto é presencial, tive uma ideia brilhante, cof cof: e se fizéssemos uma pequena festa à portuguesa lá na zona da mesa de voto? O pessoal ia chegando, e tinha ali uma barraquinha de bifanas e cervejas, outra de pastelaria e fritos. Comia, bebia, conversava, ria, votava, conversava mais um bocadinho, e até levava umas bolas de Berlim (daquelas como deve ser) para casa.
A Democracia como festa.
Depois, ocorreu-me que na Alemanha é preciso pedir autorização para vender comida na rua, e que fazer isso dentro do território da Embaixada nem pensar, por muitos motivos e também por causa das invejas "ah, deram-no a ganhar àquele em vez de mo darem a ganhar a mim", "estão feitos uns com os outros", "andam a subornar os eleitores com pastéis de nata", etc.
(suspiro)
Apesar dos apesares, teimo: era mesmo simpático transformar estes votos presenciais numa festa dos eleitores portugueses. E penso especialmente naqueles que fazem longas viagens para ir votar, e era bonito serem recebidos com um cheirinho a Portugal.
Vou continuar a pensar no caso.
Se este voto continuar a ser presencial, pode ser que daqui a cinco anos se organize uma coisinha simpática.
Mas, para já, votem Seguro. Para termos a certeza de que daqui a cinco anos há outra vez eleições livres. Que são as únicas que justificam fazer festa.

04 fevereiro 2026

alegria no trabalho

 

"Não voto Seguro porque ele não é de esquerda como devia ser"
é a tradução, para a realidade portuguesa, do nosso conhecido
"Não se deve votar na Kamala Harris porque ela se portou mal em Gaza".
(Às vezes desconfio que a equipa de manipulação das redes sociais do Bannon, ou do Putin, ou de sei lá quem, ou deles todos juntos, se ri muito de nós quando está a fazer o seu trabalho.)

03 fevereiro 2026

"lavar"


Caso alguma vez se tenham perguntado aonde ia a Agatha Christie buscar a inspiração para os seus livros, aqui vos deixo a resposta: a #lavar a louça. Pelo menos foi o que li numa edição de verão de um jornal qualquer. Estava escrito, deve ser verdade. Se bem me lembro, terá dito que lavar a louça é uma actividade tão entendiante, que tinha de entreter o cérebro de alguma maneira, e inventava aqueles enredos.
Ora bem: ficamos a saber que a Agatha Christie lavava a louça muito devagarinho e com gestos repetitivos e monótonos. Porque eu cá, quando estou a lavar a louça, tenho o cérebro ocupado a tentar gastar o mínimo de água e de esforço e a ter aquilo tudo despachado o mais depressa possível. Se calhar existe em mim uma escritora fantástica, mas nunca se saberá, e é porque lavo a louça da maneira errada.

vai-se a ver, e...



Por causa do que tem vindo a ser revelado sobre a correspondência de Epstein com muitos poderosos deste mundo (1) (2)
dei comigo a perguntar: será que aquele suicídio na cela foi um caso de Crime no Expresso do Oriente?
(1) para além de muito chocante e de muito informativo sobre como o pessoal "lá em cima" funciona
(2) e tenho andado a evitar ler os relatos das jovens, não consigo entrar nesse abismo