2 Dedos de Conversa
... sobre o que nos desaquieta
01 março 2026
o mundo em que vivemos
dêem-lhe o prémio Nobel da Paz
27 fevereiro 2026
a procura da verdade
manter o foco
26 fevereiro 2026
nota mental
Trago do meu mural de facebook:
"Argumenta que os chocolates fazem bem à saúde mental e deviam ser comparticipados pelo SNS pois poupavam-se gastos em medicamentos para a dita saúde . Ela que passe uma receita a ver se resulta..."
"Leva-lhe um Tony's, ela vai perceber-te"
"O cacau é um fruto. Estou de dieta."
19 fevereiro 2026
"foi apenas um acidente" e o cinema político
O momento mais especial deste ano na Berlinale foi, para mim, a sessão especial que aconteceu hoje com o realizador Jafar Panahi, sobre o seu filme mais recente e, como dizia o programa, “The Power of Storytelling”.
O entrevistador apresentou-o e seguiu logo para a primeira pergunta, mas Jafar Panahi protestou e exigiu algum tempo para fazer uma introdução. Falou da situação no Irão e do sofrimento do povo iraniano. Contou que as pessoas vão dançar e cantar nos cemitérios em memória dos que foram mortos, e pediu uma salva de palmas em homenagem às vítimas do regime. Cito de memória o que disse nessa sessão: Começou por esclarecer que não faz cinema politicamente empenhado, faz cinema socialmente empenhado (politically engaged / socially engaged). O cinema politicamente empenhado vive da divisão entre bons e maus. E os regimes ditatoriais impõem quem são uns e outros. A diferença que Panahi encontra entre os dois tipos de cinema está bem explicada na segunda parte desta entrevista (em inglês). Respondendo à questão sobre o humor no filme “Foi apenas um acidente”: não se tratou de uma escolha dele, foi o humor que se impôs no filme. No Irão, ninguém riria, porque a vida quotidiana das pessoas é mesmo assim. O anormal tornou-se normal. O inacreditável — o irracional — tornou-se racional. Fora do Irão, parece humor. Mas não o é para os iranianos. Por exemplo, nos EUA e no Canadá o público riu imenso durante todo o filme. Na Ásia, as pessoas riram muito na cena em que levam a mulher ao hospital. O realizador não entendeu porque riam nesse momento, porque no Irão ninguém riria de cenas destas, uma vez que é algo com que todos se confrontam. Deu um exemplo: na guerra dos 12 dias (Irão–Israel, 2025), um míssil israelita deitou abaixo uma parede numa área prisional onde estavam presos políticos, e estes aproveitaram para fugir. À saída, viram que o edifício ao lado também tinha sido atingido, mas os prisioneiros não podiam fugir porque as celas estavam fechadas. Em vez de se porem imediatamente a milhas, foram ajudar os outros a fugir também. O entrevistador perguntou-lhe sobre a sua motivação para fazer um filme tão explícito, desta vez. Resposta: o realizador tem de avançar com a sociedade. Quando a sociedade muda, o cinema tem de mudar também. Por exemplo: a recusa das mulheres em cobrir a cabeça marcou um antes e um depois para o regime iraniano, e este filme tinha de reflectir isso. Outro fenómeno impensável até há pouco: mulheres a praguejar. Um filme socialmente empenhado tem de acompanhar estas mudanças na sociedade. Aquela mulher com a cabeça descoberta pode parecer um panfleto mas, de facto, é o cinema a mostrar a realidade actual. Quanto aos palavrões: há mais de quarenta anos que o regime dita às pessoas as ideias e os valores que devem ter. As pessoas estão fartas disto, e as mulheres começaram a dizer palavrões como acto de resistência. Os filmes dele têm de reflectir esse fenómeno, quer ele goste quer não goste. Nova pergunta: no final do filme, a perspectiva muda e o carrasco toma o lugar central durante mais de quinze minutos. Porquê? Resposta: durante mais de uma hora, o homem está fechado numa caixa. Falam sobre ele, mas não se vê. O cinema socialmente empenhado é sobre humanidade, sobre ver as pessoas como seres humanos. O cinema politicamente empenhado divide as pessoas em bons e maus. Os da minha ideologia são bons e os outros são todos maus. É um cinema que quer eliminar os maus. O problema é que remover esta peça, o “mau”, nos distrai do essencial: faz-nos esquecer o problema maior. Esta pessoa também tem o direito de falar — é uma questão de justiça social no cinema socialmente empenhado. Portanto, o realizador queria deixá-lo falar, ter a sua parte no filme. O problema são os detalhes, a justiça visual. Foi difícil criar um perfil do carrasco que fosse convincente. Como ele próprio só tinha estado dois ou três meses na prisão com torturadores, para conseguir mais verdade naquela cena foi pedir informações e conselhos aos seus conhecidos que tinham sido presos políticos durante muito mais tempo. De facto, muito daquele filme são coisas que aconteceram realmente a pessoas com quem ele falou. Mais adiante: Há dois tipos de realizadores no mundo: os que vão atrás da audiência e fazem o que esta quer, e os que fazem o que entendem, segundo o seu próprio gosto, confiando que a audiência irá atrás. Sem querer dizer qual é a forma correcta de ser realizador, diz apenas que cada um escolhe, e a partir daí sabe o que tem de fazer. Ele próprio, quando era estudante, fez um filme para a televisão iraniana, com uma equipa excelente e equipamento muito bom. Mas, quando estava a editar, percebeu que o filme era mau. Tudo muito bem do ponto de vista técnico, mas o filme não era “dele”. Apesar de ninguém o conhecer ainda, não queria ter o seu nome associado àquele trabalho. Um dia, foi ao laboratório e roubou os negativos. Foi nesse momento que descobriu a que grupo de realizadores pertencia. Última pergunta: vai regressar ao Irão, apesar de saber que corre o risco de ser preso? Resposta: quando soube que tinha uma sentença de prisão, a sua vontade foi voltar nesse preciso momento. Não o fez, porque está a fazer a promoção do filme, e sente que deve continuar por respeito à equipa que o fez. Mas o lugar dele é no Irão. “As a socially engaged director, I stand with my people. My work and my cinema are for the people of Iran — and I will return, true to myself and to my beliefs.”
17 fevereiro 2026
mais um simpático condutor de autocarro
15 fevereiro 2026
qual seria a sua resposta?
Sobre o grande escândalo do Wim Wenders na Berlinale 2026 a dizer que "o cinema não é política, o cinema é o contrapeso da política", convido todos a ver essa parte da entrevista, que começa neste vídeo a 18'37''. Em síntese: Jornalista 1: Que espera da Berlinale 2026 num mundo rodeado de guerras? Os filmes podem mudar o mundo? Wim Wenders: Sim, os filmes podem mudar o mundo. Não de forma política, nenhum filme mudou as ideias dos políticos, mas podemos mudar as ideias das pessoas sobre como deviam viver. Neste planeta, há uma grande discrepância entre pessoas que querem viver a sua vida e governos que têm outras ideias. Penso que os filmes entram no espaço desta discrepância. Temos esperança que sim.
Jornalista 2: Como lhes parece que os filmes podem mudar nestes tempos negros que estamos a viver? Tricia Tuttle (resumo): O cinema permite-nos a empatia, permite-nos entrar na pele do outro, ver o mundo pelos olhos de outra pessoa. Os filmes mudam o nosso ponto de vista - o que é algo muito difícil de fazer apenas com diálogo. Wim Wenders: Não se aprende nada assistindo apenas aos noticiários. Aprende-se muito mais com um filme onde se viu uma pessoa na sua situação, o seu sofrimento, e como preferiria viver. O cinema tem um poder notável de compaixão e empatia. Os noticiários não têm empatia. A política não tem empatia. Mas o cinema tem. E esse é o nosso dever.
Jornalista 3: Mudar o mundo... Este festival não acontece num vácuo. A Berlinale como instituição tem mostrado solidariedade com as pessoas no Irão, na Ucrânia, mas nunca com a Palestina. Mesmo hoje em dia. Perante o apoio do governo alemão ao genocídio em Gaza e o seu papel como maior financiador da Berlinale, pergunto: os senhores, como membros do júri, apoiam este tratamento selectivo dos direitos humanos?
[ Passo a pergunta aos leitores deste post: que é que respondiam, se estivessem no lugar daquele júri? Não respondiam nada, porque nem sequer estavam ali sentados como membros do júri, uma vez que não querem ter nada a ver com "um governo cúmplice de genocídio"? Lavavam daí as vossas mãos? O festival decorria sem vocês (e portanto também sem filmes que mostram ao mundo como é a vida dos palestinianos)?
Ou respondiam: "Malditos sionistas! Genocídio! Fim ao regime de Netanyahu! From the river to the sea!" - sabendo muito bem que iam provocar o maior escândalo de sempre da Berlinale, e que provavelmente seria o fim deste festival?
Ou respondiam o possível, algures entre o oito e o oitenta? Por exemplo: ]
Tricia Tuttle: O júri quer responder? Penso que também gostaríamos de falar sobre os filmes no festival.
Jornalista 3: Como disse, os filmes também são política, como acabaram de dizer.
Ewa Puszczyńska: Os filmes não são políticos naquilo que me parece que é a sua acepção. Os filmes são sobre empatia, tentar entender, formar as suas próprias ideias. Pôr-nos esta questão é um pouco unfair. Usámos a frase "mudar o mundo", mas estamos a tentar falar com as pessoas, com cada um dos espectadores, para os pôr a pensar. Mas não podemos ser responsáveis pelo que eles vão decidir. Deviam decidir apoiar Israel? Ou apoiar a Palestina? Podíamos falar sobre o Senegal e muitas outras questões, e você falou apenas da maior, mas há muitas outras guerras onde está a ser cometido genocídio, e não falamos sobre isso. Portanto: é uma questão muito complicada, e é um pouco unfair perguntar-nos a nós o que achamos ou não achamos, se apoiamos ou não, se falamos com os nossos governos ou não. Falando por mim: voto, uso os meus direitos como cidadã da Polónia, da Europa e do mundo, participo em marchas, apoio as causas que acho que devo suportar. Mas os outros elementos do júri podem tomar outras decisões. Penso que pôr-nos uma pergunta destas e esperar que demos a "resposta de tipo geral" não é fair.
Wim Wenders: Não podemos ocupar o espaço da política. Temos de ficar fora da política, porque se fizéssemos filmes dedicadamente políticos, entrávamos no espaço da política. Mas nós somos o contrapeso da política. Nós somos o oposto da política. Temos de fazer o trabalho das pessoas e não o da política.
[ Antes que comece a berraria, mais algumas ideias:
- Aquela pergunta do jornalista não se destinava a ajudar o povo palestiniano. Destinava-se apenas a encurralar o júri e a directora da Berlinale, esfregar-lhes a hipocrisia na cara? Um herói...
A Berlinale tem mostrado filmes importantíssimos sobre o sofrimento do povo palestiniano, e tem havido - tanto nos filmes que mostram como no discurso - gestos fortes de solidariedade com a população de Gaza. Mas enquanto os responsáveis não disserem no palco do festival "genocídio" e "apartheid!", os justiceiros não descansam. Mesmo que seja a última batalha que ganham, e mesmo que isso só piore ainda mais as perspectivas do povo palestiniano.
- Foi na Berlinale que vi praticamente todos os filmes - absolutamente dilacerantes - que conheço sobre a situação do povo palestiniano. Em 2024, No Other Land ganhou o primeiro prémio (e o discurso de um dos realizadores, o israelita, onde falou em genocídio e apartheid provocou um escândalo enorme; na altura, temeu-se a saída de alguns patrocinadores e o fim dos apoios estatais; de facto, a Berlinale está cada vez mais pobre). Em 2005, a própria Berlinale financiou a realização do filme Paradise Now - outro escândalo enorme. Este ano, traz Chronicles from the Siege, onde, apesar de não o dizerem, tudo grita "Gaza".
- O massacre do Hamas em 2023 tinha um objectivo claro: virar o mundo contra Israel. E caímos como uns patinhos: dividimo-nos entre "e tu, és contra o Hamas?" e "e tu, és cúmplice do genocídio?"
Pelo caminho, ficou a pergunta essencial: "e nós, o que podemos fazer para dar ao povo palestiniano a vida digna que lhe foi roubada, e continua a ser roubada todos os dias?" (Dou uma ajudinha: gritar "genocídio!" virado para o governo alemão não ajuda.)
Como ficou pelo caminho a consciência de que fomos nós, os europeus, quem atirou os judeus para aquela terra - séculos e séculos de perseguições terríveis, aliada a um pensamento colonialista que reduzia judeus e árabes a meros peões de um jogo onde só os interesses dos europeus contam. Mas esquecemos tudo isso, e apontamos agora o dedo - oh, o nosso dedo tão limpo, tão íntegro, tão ético e tão cheio de boa consciência - aos "malditos sionistas". Como se eles tivessem aterrado na Palestina vindos de Marte. Como se a tragédia de Israel na terra dos palestinianos fosse um fenómeno inteiramente alheio à Europa.
- Pergunto ao jornalista que atirou aquela pergunta: se, por causa da sua provocação, a Berlinale desaparecesse, ou se perdesse a diversidade, a tensão e a liberdade que, apesar de tudo, ainda tem, os palestinianos iam ficar melhor ou pior?
- Já agora: perguntem à Leni Riefenstahl se a arte deve ser política. ]
13 fevereiro 2026
uma sociedade assim
12 fevereiro 2026
Berlinale 2026
11 fevereiro 2026
será que ainda vamos a tempo?
10 fevereiro 2026
Danilo Nogueira
09 fevereiro 2026
espelho
o que é o populismo?
Isabel Sousa Lobo, no Facebook
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Isabel Sousa Lobo, no Facebook:
08 fevereiro 2026
dia de festa
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07 fevereiro 2026
este país precisava de três quê?
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06 fevereiro 2026
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um ódio que - também a nós - mata




