28 setembro 2022

água na boca

 

Estou aqui a olhar para o programa do Portuguese Cinema Days in Berlin 2022, e só vos digo isto (sem exagerar, nem nada): em novembro e princípios de dezembro, Berlim vai ser a capital do melhor cinema português dos últimos anos.

Olho para o programa, e: água na boca.

Depois conto mais.

 

24 setembro 2022

fim-de-semana

 

E o vosso fim-de-semana, como está a ser?

Ontem descobrimos um restaurante bastante louco em Charlottenburg: por trás de uma fachada de montra toda graffitada, um restaurante japonês bem bom. Não fotografei as pessoas a comer junto à janela, mas podem acreditar nisto que digo: de dentro para fora, o efeito do graffiti no vidro ficava muito engraçado. 




Esta manhã fomos comprar plantas para o jardim. É a não sei quantésima tentativa de lutar contra as evidências: não tenho jeito nenhum para isto. 

Para conseguir o melhor sortido de plantas vistosas que se dêem em terreno arenoso e sem água nem carinho, fomos à Königliche Gartenakademie em Dahlem. Um lugar mágico. Pelo menos para velhotes burgueses. Se houvesse algum psi por aí à solta, ainda era capaz de concluir que eu deixo morrer tudo no jardim só pelo prazer de voltar àquela loja. 

O corredor dos bolbos:



As estufas:



O café e restaurante (onde hesitámos entre os tantos bolos com excelente aspecto, e o juízo: eram horas de almoçar):


O simpático que me aturou - e aconselhou com toda a competência:


O prazer de passear por ali: 










No regresso a casa, tentei fotografar uma das avenidas do meu bairro, que me fascinam. Que me fascinam tanto, que nem reparei na manifestação em frente à Embaixada do Irão. Só quando o Joachim apitou para lhes dar um sinal de solidariedade é que acordei. Por este andar, ainda acabo sozinha num planeta qualquer, muito preocupada com uma raposa e uma rosa...


Amanhã é dia de maratona, e o Matthias vai correr. Nós também: para tentar apanhá-lo em vários pontos da cidade. Levamos uma bandeira da Bretanha para o rapaz nos identificar facilmente no meio das centenas de milhares de assistentes, e vamos estar com cara de velhotes burgueses que passam o sábado na Königliche Gartenakademie, e também um bocado afogueada por atravessarmos meia Berlim a pedalar. 

(Espero que ninguém repare que não tenho uma bandeira de Portugal para brandir quando é preciso.)



23 setembro 2022

a nossa Rainha Santa Isabel, essa autêntica sereia negra

 


A Disney "ousou" escolher uma actriz negra para o papel de Pequena Sereia, e eis que se ouvem críticas à deturpação do original, porque, dizem, ninguém tem o direito de se apropriar da história de Hans-Christian Andersen. 

O que me fez pensar imediatamente na Santa Isabel da Turíngia, que era muito amiga dos pobres e transformou pão em rosas. Soa familiar, não é? Pois claro que soa: a nossa rainha Santa Isabel, que nasceu quarenta anos depois de a sua parenta ter morrido, resolveu apropriar-se da lenda. E assim se passa de uma personagem principal de pele "tão clara e delicada como uma pétala de rosa, e olhos tão azuis como um lago profundo" (sim, dei-me ao trabalho de ir ler o Andersen) para uma de feições mais trigueirinhas, mais adaptada às nossas latitudes.

A culpa deve ter sido do SOS Racismo da Idade Média...

E se pensam que os exemplos chocantes acabavam com esta flagrante histórica de roubar aos loiros para dar aos morenos, enganam-se: antes de ser roubado para melhor acomodar os interesses portugueses, o milagre das rosas já tinha sido roubado para ser atribuído a um homem, o São Nicolau de Tolentino.  

A culpa será, deixa cá ver... do lobby gay? dos fanáticos da ideologia de género? dos machistas, que não suportam ver uma mulher a fazer boa figura?

Em todo o caso: Isabel, rainha santa, devolve o que não é teu! Arranja para ti um milagre original, em vez de te pores a roubar o que é tradicionalmente dos outros. Que coisa tão feia, e que grande vergonha para Portugal!...

(Sim, eu sei que é normal as lendas passarem de uns santos para outros, e também sei que quem conta um conto acrescenta um ponto. Mas os fanáticos da branquitude da pequena sereia parece que não sabem. Só me pergunto se estariam a dormir quando a Disney transformou a sereia albina do Andersen numa beldade ruiva, juntou mais algumas peripécias e permitiu um final feliz, bem ao contrário do do conto original. Vai-se a ver, e a única coisa que realmente não pode mudar é a cor da pele?...)

(Para quem diz que "não havia necessidade": lembro-me bem do que senti quando - eu, que nasci branca num mundo de brancos e numa família relativamente privilegiada - vi a primeira boneca com cabelos e olhos castanhos como os meus. Até então, eram todas loiras de olhos azuis, e eu sentia que entre elas e eu havia uma "não pertença", e que era eu quem não pertencia: não estava à altura das minhas bonecas.)

  


20 setembro 2022

ai, acudam, que já não se pode dizer nada...

 


Há tempos, fui verificar no dicionário alemão Duden os significados da palavra "Mischpoke", e deparei-me com isto:

"NOTA ESPECIAL - Na secção "significados" encontra uma nota especial sobre o uso desta palavra."


Na secção "significados", encontrei o seguinte:

"1. a família de alguém, parentes

Uso: normalmente pejorativo, e entendido como discriminatório


2. más companhias, grupo de pessoas desagradáveis

Uso: pejorativo

Exemplo: "mas que Mischpoke!"


NOTA ESPECIAL: O substantivo "Mischpoke" com os significados de "família, parentes" e "más companhias, grupo de pessoas desagradáveis" está historicamente muito associado a ideias anti-semitas. Geralmente é considerado discriminatório e por isso devia ser evitado a todo o custo no espaço público." 

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Podiam ter explicado um pouco mais, mas explico eu, citando directamente da wikipedia em alemão: 

Mischpoke é um termo iídiche baseado no hebraico מִשְׁפָּחָה ([miʃpa'χa] 'família'), que significa 'família, sociedade, parentesco'. O termo foi adoptado coloquialmente na língua alemã no início do século XIX com o significado pejorativo de " ralé, bando de ladrões".

Enquanto o termo é usado em iídiche de forma neutra em termos de valor, em alemão a palavra tem frequentemente um significado pejorativo.

Em suma: eis aqui uma obra do anti-semitismo no seu esplendor. Pega-se numa palavra que os judeus usam para designar a família ou grupos sociais, e introduz-se na língua alemã com um cunho pejorativo. 

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Parece-me muito bem que o dicionário não apague a palavra, mas acrescente informação sobre o anti-semitismo que está na base do significado que lhe é atribuído em alemão. 

E gostava que - para contribuir para um espaço público mais civilizado e respeitador da dignidade de todos - os dicionários do nosso tempo fizessem o mesmo com todas as palavras misóginas, racistas, xenófobas, anticiganistas, anti-semitas, homofóbicas, etc., que usamos sem nos apercebermos realmente do que estamos a dizer. Não "proibir" o seu uso, mas informar sobre a origem e o peso das palavras, para que cada um decida livremente que palavras quer usar e que imagem quer dar de si próprio em público. 


liberdade de leitura

 


Pensava eu que aquela coisa dos livros proibidos nos EUA era um problema horroroso provocado pelos wokes e outros fanáticos esquerdistas, e que o "maldito politicamente correcto" estava a atentar contra a liberdade de expressão, e vem o Sete Margens e informa que movimentos conservadores estão a banir das escolas inúmeros livros que associam ao "lobby gay" ou às lutas dos negros pelos seus direitos civis, entre outros.

Alguém faça o favor de avisar os choramingas da direita portuguesa que repetem cada vez mais alto aquela ladainha de "ai, estamos cercados, ai acudam, que isto é o fim do mundo", para eles reajustarem a narrativa.

Estamos cercados, sim, mas pelos vistos é de parte a parte. E parece que os wokes e os tais fanáticos do politicamente correcto nem sequer são os mais poderosos nesta triste história de censura.

 

Por mim, que hoje acordei liberal, era permitir os livros todos, com avisos na primeira página sobre as críticas que determinado grupo lhe faz: 

- "A associação SOS Racismo alerta para o conteúdo racista deste livro." (ou para os elementos estruturalmente humilhantes da língua, tais como exemplo a e exemplo b)

- "A FEM alerta para o contexto de machismo estrutural deste livro, e para a existência de passagens humilhantes para as mulheres."

- "O Conselho Judaico Y alerta para passagens deste livro que reforçam preconceitos antisemitas."

- "O Episcopado português considera que este livro desrespeita a religião."

- "A Faculdade de Ciências X informa que este livro, que pode parecer científico para os mais incautos, não o é. Quem estiver interessado em informações sérias sobre o assunto, pode consultar as obras x, y e z."

- "O grupo MGTOW xpto informa que este livro dá uma ideia positiva das mulheres." 

- "O Chega avisa que neste livro se promove a ideia de que as pessoas de etnia cigana são seres humanos de dignidade inviolável."

- "A Associação Terraplanista de Confins da Ponta considera que este livro promove leis da Física incompatíveis com as teorias daquela Associação."

- "O Movimento Menino Veste Azul e Menina Veste Rosa informa que este livro troca os conceitos todos e pode provocar confusão na mente das crianças, ou mesmo despertar nelas ideias contra natura."


(Só seria mais complicado com a Bíblia, que ia ter uma dúzia de páginas de avisos, por conter tudo, e de tudo também o seu contrário.)


19 setembro 2022

live-ticker funeral

 



Trago do meu mural de facebook o live-ticker que fiz sobre o funeral da rainha:


Só para chatear quem acha que na Alemanha não se embarca nestes seguidismos: os dois canais públicos alemães estão AMBOS a transmitir o funeral da "tal velhota", O DIA INTEIRO.

*

Hoje está a ser um dia fantástico para dar um adianto à roupa para dobrar e para passar.
Se calhar ainda aproveito para trocar a roupa de verão pela de inverno.
A música está uma maravilha.
E, convenhamos, a monarquia pode não servir para nada, mas em termos de espectáculo, são profissionais.

*

Durante o Pai Nosso, a câmara passou por algumas filas dos presentes. Se eu fosse à rainha, que a bem dizer era a papisa da Igreja Anglicana, saía do caixão e vinha ralhar com eles: estavam todos a ler o Pai-Nosso pelo livrinho.
Sinceramente: se todos estes figurões (quase todos homens brancos de certa idade) não sabem o Pai Nosso, não sei porque é que se diz que somos o Ocidente Cristão.
Agora, estão todos calados.
(calados, são uns artistas...)

*

Como é que os rapazes que carregam o caixão conseguem descer os degraus sem cair, apesar de estarem sempre a olhar fixamente para um ponto distante à frente deles?
Será que ao lado deles vem alguém a dizer "frio, morno, quente, a escaldar"?
E como é que conseguiram segurar aquilo tudo em cima do caixão, sem deixar tombar nada?
(Estou em crer que puseram uma placa com ímanes por baixo da bandeira. E vocês: qual é o vosso palpite?)

*

Pergunto-me que sapatos terão posto as princesas, duquesas e assim da família real. Espero que não estejam a fazer esta marcha atrás do caixão em cima de saltos altos vertiginosos.
Mas claro que o director da transmissão não tem atenção aos aspectos mais importantes. Muitos marujos, muitos marujos, mas ainda não lhe ocorreu fazer um grande plano aos sapatinhos.
ADENDA: parece que as senhoras não estão a marchar ao lado dos maridos.
SEGUNDA ADENDA: Ai caramba! Esqueci-me da princesa Ana. Vai com uniforme militar, e sapatos confortáveis.

*

Post novo, em vez de acrescentar mais uma adenda ao post anterior: as mulheres e as crianças vão em carros, atrás do cortejo. Não sei que me parece, ir de carro para fazer umas centenas de metros! Dizem que o Carlos III tem preocupações ecológicas, e portanto das duas, uma: ou são uma espécie de hobby, ou então nem na família o deixam mandar. Era só dizer às senhoras que pusessem um calçado confortável, e pronto.
Pfff.

*

Os dois filhos mais velhos do William: sete e nove anos. Comportamento exemplar. Não sei se lhes estou a fazer um elogio, ou a sentir pena deles.

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Não sei que me parece não terem feito bancadas ao longo das avenidas para o povo poder ver melhor e com mais conforto. Se não sabiam como é que isso se faz, fossem a Viana, à Senhora da Agonia, ver como é fácil de organizar. Depois era vender os bilhetes a 10 libras, ainda ganhavam uns trocos para pagar as despesas da cerimónia.

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Já são quase duas da tarde. Quase me esquecia de almoçar. Quanto tempo é que isto vai demorar?
E como é que aquela gente toda aguenta a fome?
(Ai, pequeno-almoço inglês, claro. Devem ficar a arrotar os feijões até ao chá das cinco.)

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Podiam ter treinado um bocadinho melhor os alinhamentos. Já vi ranchos do Alto Minho mais bem alinhados (e a dançar ao mesmo tempo, para que conste!).

*

O carro que leva o caixão para Windsor foi arranjado especialmente para a ocasião: tem um tejadilho de vidro, para o maior número possível de pessoas poder ver.
Se calhar foi por isso que demoraram tanto tempo para fazer o funeral. Atraso no fornecimento do material. (Visto de cima, o queen-mobile faz mesmo boa figura.)

*

Tenho estado aqui na galhofa, mas: há ali uma família que perdeu a mãe, a avó, a bisavó, a tia, etc. e tem de fazer boa figura porque pode estar a ser vista por quatro mil milhões de pessoas.
(Disse e repito: não trocava a minha vida pela gaiola de ouro deles nem por nada.)

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Ouvi agora na ARD: "Temos estado a assistir ao grande ballet britânico em toda a sua perfeição."
(Acrescento eu: e o vestido da Meghan é muito bonito.)
(Momento lagriminha: as rosas atiradas para para o "queen-mobile" quando ele passa. A homenagem das pessoas comove-me.) (Acho que vou finalmente almoçar, a ver se me passa.)

*

Momento "isto só em Portugal..."
Uma jornalista alemã está a entrevistar um tipo que fez 300 km com os filhinhos para o último adeus à rainha. E então, diz ela: "o carro está quase a chegar, vou entrevistá-lo agora."
Começam a falar, o desgraçado do homem educadamente a falar com ela, enquanto atrás todos se apressam para ver o carro passar.
(Havia de ser comigo... dizia-lhe "olhe, conte aí mais umas patacoadas, que eu volto já.")

*

Bom. Aguentem-me aí a viagem até Windsor, que agora tenho mesmo de ir almoçar.

*

Já cá estou outra vez. Mostram imagens dos preparativos em Windsor. Juro que acabei de ver duas colunas de guarda de honra (daqueles de capacetes dourados e fitinhas brancas em cima) (eis como acabei de mostrar que não percebo nada disto) a escoltar um homem e uma mulher que levam coisas para dentro do palácio. Ela tem uma caixa de plástico (parece um necessaire, mas em rasca) e ele leva duas caixas termos azuis, daquelas para piquenique.
As colunas de fitinhas brancas, entendo, porque hoje é o dia deles. As caixas termos, também, porque dão sempre jeito.
Mas as duas coisas juntas?!
(Não percebo nada de protocolos de funerais reais.)

*

Hehehe, vi os carros a avançar por cima dos riscos tracejados que separam as duas faixas da estrada.
Até parece que sou eu quem vai ao volante...
*

E viram como o tempo está bom por onde o cortejo passa?
Se isto não é um milagre, não sei o que é um milagre.
- Santa subito!

*

Windsor. Ai jajus! Tantas escadas para subir aquele caixão? Será que prenderam o corpo lá dentro, para ficar esticadinho, ou chega ao fim da escalada com o corpo assim como se estivesse com vontade de se aninhar?
ADENDA 1: Espero que a cabeça fosse na parte da frente.
ADENDA 2: Quem é o realizador desta transmissão? Quando a gente precisa de ver a inclinação do caixão, ele não mostra imagens de lado. Dorminhoco!

*

Oh, não! Em Windsor também precisaram da cábula para dizer o Pai-Nosso.
Estão todos com Alzheimer, ou quê?

*

Finalmente percebi os truques: o ceptro vinha preso a um suporte com molas, o orbe estava espetado num coiso e a coroa também tinha um suporte alto. Só espero (isto é uma preocupação recorrente) que também tenham prendido bem o corpo da defunta. Daqui a mil anos aparecem aí uns arqueólogos que abrem o caixão e descobrem umas ossadas todas descompostas. Não sei que me parece. *

Comovente: o momento em que o caixão começa a descer, e o músico da gaita de foles se vai afastando. Mais a luz. Mais a arquitectura.
Mais a cara do Carlos, que se está a despedir da mãe e a herdar um fardo bem mais pesado que o dela, porque a ela muito se tolerava, e a ele tudo se exige. Ela garantia a permanência da velha ordem, ele chega demasiado tarde a um mundo em profunda crise.

*

E lá foram eles. Daqui para a frente, a despedida é em privado.
Em privado, é como quem diz. A Kate não vai poder tirar os sapatos e queixar-se das dores nos pés, porque a Meghan vai estar a ouvir e pode pespegar tudo num jornal ou no seu podcast.
Se alguém fizer uma piadinha, idem.
Ou um desabafo. Ou sei lá o quê.
Não deve ser fácil estarem ali, finalmente "em privado", com a sensação que tudo o que disserem ou fizerem pode vir a público um dia destes.

*

Em termos de imagens, isto parece uma superprodução da BBC. Dois exemplos:
Os últimos dois corgis da rainha, à espera do cortejo com o corpo da dona.

O cavalo da rainha, em Windsor, a ver passar o seu caixão, com os relvados impecavelmente decorados com as flores que as pessoas deixaram ao longo destes dias.
*

E agora um pouco de análise comparativa: na ARD encontrei várias mulheres a comentar com competência. Na ZDF havia uma mulher competente e um homem a fazer simultaneamente figura de ignorante e mansplaining. Noutra altura seria divertido. Hoje senti apenas uma irritação tão grande que acabei por ver até ao fim na ARD.

*

Foi bonito ver tantas pessoas tocadas por um sentimento de comunhão, ao assistirem em conjunto a este momento histórico. O último serviço que a rainha prestou ao seu país.

*




respeito ou desrespeito

 

Manuel Carvalho escreve no Público: «A igualdade de tratamento entre uma rainha britânica e Presidentes que lutaram pela democracia e exerceram os mais altos cargos no serviço público não é apenas um sintoma de provincianismo: é um sinal de desrespeito do país para consigo próprio.»

Ora bem, sinceramente, e por partes:

1. A lei portuguesa prevê que o luto nacional "é ainda declarado pelo falecimento de personalidade, ou ocorrência de evento, de excecional relevância". Não tem de ser sempre um presidente da républica. E só com muito esforço se consegue fazer de conta que a rainha Isabel II não era uma personalidade de excepcional relevância. Claro que se pode perguntar "de excepcional relevância para quem?", mas era a representante mais alta de um país que nos é muito próximo. Além disso, é ver as televisões de todo o mundo, para perceber que era uma figura relevante , quer nos agrade quer não.

2. Serei a única a achar que esta afirmação sobre aquela rainha valer menos que um presidente da República encerra alguma arrogância em relação ao povo que ainda quer ter um sistema monárquico e chora esta sua rainha como nunca choraria um presidente? Há algo ligeiramente impositivo neste nosso dizer à Grã-Bretanha qual é o sistema político que eles devem ter, se quiserem ser levados a sério por Portugal.

3. Se calhar entendi mal, mas se há quem tenha "exercido os mais altos cargos no serviço público" é a Isabel II. Os eleitos democraticamente entregam anos da sua vida ao serviço público; esta rainha entregou a vida inteira para fazer o serviço público que o país esperava dela.
Não concordo com isso (passo a vida a dizer que era um caso para o tribunal dos direitos humanos), mas como não sou nenhuma das partes envolvidas (nem a rainha nem o povo que a quis ter), limito-me a aceitar as decisões deles.


12 setembro 2022

ler o oceano

 

Trago roubadinho da Enciclopédia Ilustrada um post que me deixou boquiaberta (e a pensar "ai, Fernão de Magalhães, já não és o que eras"). 
O post é do Fernando Gomes, as conclusões precipitadas sobre o Fernão de Magalhães são minhas.

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O povo rapanui, nativo da Ilha de Páscoa, é oriundo da Polinésia. Os polinésios eram navegadores muito hábeis, que conseguiam orientar-se na vastidão do Pacífico, sem astrolábios, sextantes, bússolas ou quaisquer instrumentos que os europeus consideravam indispensáveis à navegação.
Como a maioria dos navegadores, os polinésios usavam as estrelas como pontos de referência fixos e sabiam que as nuvens imóveis e que a presença de aves e de destroços indicavam proximidade de terra. Contudo, o mais extraordinário foi terem aprendido a interpretar e a fixar os padrões das ondas.

Os polinésios perceberam que algumas ondas, ao atingirem uma ilha, são reflectidas e retrocedem em sentido contrário, enquanto outras são desviadas em determinados ângulos, continuando o curso de modo diferente. A partilha destes conhecimentos era feita através de mapas de varetas construídos com fibras de coco e conchas. Havia três tipos de mapas: rebbelibmeddo e mattang.



Os rebbelib apresentam a distribuição aproximada de um arquipélago. As conchas, significando atóis e ilhas, são amarradas às estruturas de fibra de coco que representam as direcções das ondas e os movimentos de refracção, difracção e reflexão da ondulação. Os meddo são idênticos aos rebbelib, mas são menos pormenorizados.


Os mattang são mais abstractos: apresentam dinâmicas gerais da relação entre ondulação, vento e ilha/atol. São, por isso, geometricamente mais regulares. Era com estes mapas de padrões básicos que as ondas podem apresentar quando desviadas por terra firme que os jovens polinésios aprendiam a arte de ler os movimentos do oceano.
Não se pense, porém, que os navegadores se limitavam a olhar para a ondulação. A técnica consistia em se agacharem na proa da embarcação, o que lhes permitia sentir no corpo todos os movimentos da canoa.

(Este post foi publicado na Enciclopédia Ilustrada no dia em que o tema era "Ilha de Páscoa")

desabafo


Sim, claro que fiquei contente por a Ucrânia estar a conseguir recuperar partes importantes do seu próprio território. E sim, claro que é assim que tem de ser. Mas no fundo do meu coraçãozinho cobarde instalou-se um medo surdo sobre um tirano belicoso e imperialista não querer aceitar a humilhação, e poder vingar-se com um gesto terrível.

O medo é um aliado perverso dos tiranos. 



10 setembro 2022

procrastinação

 




A gente lê, ri, e aproveita para procrastinar mais um bocadinho. O problema é que a procrastinação torna o trabalho uma espécie de espada de Dâmocles: nem cai, nem sai de cima.

Depois, também há a oração de uma amiga minha, que é tradutora: "agradeço à N.S. dos Prazos Prorrogados pela graça concedida"

Ai, e por falar nisso... adeusinho.




dez da manhã

 

Aquela dieta intermitente que implica passar 16 horas sem comer até nem custa muito, e resulta. De manhã tomo um café, ou dois, ou três, e num instante chega a hora do almoço.

O único problema é esta obsessão por pão com manteiga que se instala a partir das dez. Ou com fiambre. Queijo, queijinho é que era bom.

A passagem "até nem custa muito" foi escrita às 9:55. Alguém me arranja uma máquina do tempo para chegar à uma da tarde o mais depressa possível?
(Com queijo. Pode ser limiano.)


08 setembro 2022

the queen

 

(Chris Levine, Lightness of Being, 2004)


Por nada deste mundo queria estar no lugar dela a partir do momento em que Eduardo VIII abdicou. Ela, provavelmente, também não. Mas aceitou a prisão dourada que lhe coube em sorte, e cumpriu o seu destino com dedicação, dignidade, responsabilidade. E sabe Deus com quanta angústia, quantas dúvidas, quanta dor. 

Ao saber da morte dela, foi nisto que pensei:



Os cães. Sempre. Até há alguns anos, quando decidiu que não teria mais nenhum. Para não os deixar órfãos, caso morresse. E depois o Harry e a Meghan foram para os EUA, e depois aquela  entrevista à Oprah, e então decidiu que afinal queria ter cães. Talvez se sentisse órfã, ela própria. 


O príncipe alemão, sobrinho de nazis. Por quem se apaixonou aos treze anos. Por quem enfrentou a máquina da monarquia: "ou este, ou nenhum". 


Um dos poucos momentos em que fugiu às regras, e tomou uma posição clara: contra Thatcher, contra o apartheid. Que mesmo uma rainha, por muito neutra que tenha de ser, não é de ferro. 


A delicadeza de retribuir o gesto de Michele Obama quando esta, contra todas as regras da etiqueta, lhe pôs afectuosamente a mão sobre os ombros.


Diz-me a tua opinião sem me dizeres a tua opinião: o chapéu de protesto contra o Brexit.

 


A imagem mais trágica que conheço da rainha. A mais terrível solidão. 



Das comemorações de 70 anos de reinado, lembro este momento de afecto: como se fossem uma família normal. 

E ainda:



Parece que esta cooperação com James Bond foi ideia da rainha, mantida em segredo até da própria família. 


"Thank you. For everything."


(E agora, se me permitem uma brincadeira: maldito liberalismo! Na Grã-Bretanha já chegou ao ponto de imporem um primeiro emprego a pessoas com mais de setenta anos! Mas pronto, o que tem de ser tem muita força: God save the King.) (Isto do primeiro emprego é mesmo piada, claro. A gaiola de Carlos é tão dourada XXL que nem a primeira mulher pôde escolher com liberdade. E tem feito um trabalho exemplar, nomeadamente a alertar o mundo para a necessidade de respeitar a natureza - desde há cerca de meio século.)


se calhar é vaidade


Hoje completaram a instalação dos nossos painéis solares.

Um luxo: 12 placas no telhado, mais um acumulador para encher de dia e gastar à noite, mais ligação à rede energética para vender o que produzimos a mais.

Tudo fantástico, excepto isto: sendo um facto que nunca houve na Alemanha tantas horas de sol como em 2022, 25% mais do que a média, semanas e semanas e semanas sem uma nuvem para amostra, no dia em que os nossos painéis começam finalmente a fazer pela vidinha vem uma chuva torrencial que parece não ter fim à vista.

Se calhar isto é vaidade da minha parte, mas: será que os deuses estão do lado de lá das nuvens agarrados à barriga, já quase com dores de tanto se rirem de mim?








07 setembro 2022

e assim vai a vida

 



Aposto que estão todos muito curiosos para saber se hoje houve cenas dos próximos capítulos. Pois bem: desconfio que o rapaz passou palavra aos outros, de modo que ninguém me "elogiou". (Toma, para aprenderes a não ser ingrata.)
Se querem saber tudo:
De manhã fui com o Fox para outro lago. À tarde ele cruzou-se com o seu melhor amigo, que tem sempre guloseimas nos bolsos dos calções. E à noite a lua andou a fazer-se de cara por cima dos telhados do bairro. Quanto mais cara, mais cheia de graça.
Diz que amanhã vai chover a potes. Óptimo, que o meu jardim bem precisa.