12 abril 2019

sacos IKEA

Heathrow.
A última vez que aqui estive foi em 2000 - íamos a caminho dos EUA, com os miúdos pequeninos. Em vez de malas, eu levava sacos IKEA com todas as tralhas que achava que iam ser necessárias na nossa vida em San Francisco. Sacos IKEA nos aviões é uma das coisas mais geniais que inventei. A sério: não pesam nada, e cabe imensa coisa.
Só foi pena o Joachim sentir um bocadinho de vergonha.
Desta vez tenho malas normais. Tão normais que ainda me arrisco a confundi-las com as das outras pessoas. Passo a vida a abri-las para ver se o que está dentro é meu. E a suspeitar que o que está dentro é igual ao que os outros levam nas malas deles.

No avião, à chegada, naquele momento tenso em que todos querem sair muito depressa, olhei para as pessoas à minha volta e aconteceu uma coisa estranha: por causa do Brexit, vi "outros". Não o "nós" das pessoas que entraram num avião em Berlim, mas "eles", um corpo estranho na nossa comunidade europeia. Não senti qualquer espécie de despeito, ou rancor, ou desprezo. Apenas a surpresa de algo que é legítimo, mas diverge daquilo a que me habituei a ver como sendo a normalidade. Uma espécie de sacos IKEA no aeroporto...

Tenho um lugar à janela. Infelizmente, do lado direito do avião. Perguntei se não me arranjavam um do lado esquerdo. Ai, e tal, 49 libras.
49 libras?! Nada feito. Amanhã de manhã o sol vai ter de se desenrascar sozinho para amanhecer sobre África, porque eu irei sentada a poente. Espero que outros o saibam ver e apreciar.
Mas tenho as minhas dúvidas: da última vez, mal começou a espalhar as suas cores prodigiosas pela savana, o pessoal desatou a baixar a cortina para continuar a dormir.
(Se eu fosse esperta, vendia-lhes o meu lugar a poente por 49 libras, preço de amigo, para poderem dormir descansados.)
 

por um triz

Aqui a artista esteve até muito depois da hora que devia a acabar uma daquelas traduções tipo tudo ou nada, e saiu desaustinada para o aeroporto, nas não demasiado desaustinada porque Tegel é tranquilo, basta chegar um bocadinho antes. E só em Tegel se apercebeu da asneira: Tegel é tranquilo para quem só tem bagagem de mão! Para os outros: há que estar 3/4 hora antes da saída do voo. Ia ficando em terra, nas não: aceitaram-me a mala, deram-me o último lugar disponível, e cá vou eu. Eu, e mais o meu anjinho que anda em regime de horas extraordinárias.

11 abril 2019

"quinoa"

Roubei um post à Elisa Costa Pinto, na Enciclopédia Ilustrada, só por ser tão bom. A palavra do dia era Quinoa.

"A propósito da #quinoa
 
O PARADOXO DA ALIMENTAÇÃO DITA SAUDÁVEL

Apesar da minha irredutível condição de omnívora, tenho alguma admiração por amigos e familiares que, com as melhores das intenções, se tornaram vegetarianos ou, mais recentemente, veganos.

Há os que não comem carne por razões ambientais, há os que também não comem peixe por não quererem ingerir microplásticos, há os que consomem os chamados alimentos supersaudáveis para curar ou prevenir problemas de saúde, há os que, mais radicalmente, declaram recusar-se a cooperar no terrível massacre e tortura dos animais e que, por isso, optam pelo veganismo.

É uma escolha e é uma prática pessoal que alguns exercem tranquilamente e outros com o irritante e arrogante proselitismo dos que acreditam ter encontrado a luz num mundo às escuras. Esses tornam-se muito moralistas, às vezes sarcásticos, às vezes ofensivos.

Honestamente, nada disso me incomoda e confesso até que com todos eles vou aprendendo alguma coisa, porque todos os contributos são valiosos quando nos ajudam a melhorar a nossa relação com a urgência da protecção ambiental e o dever da protecção animal.

Mas eis que um novo problema se agiganta: o do progressivo recurso às monoculturas em regiões até agora preservadas, para satisfazer o brutal crescimento da procura de produtos promovidos pelas actuais modas alimentares. Na verdade, a alimentação saudável tornou-se, como tudo neste triste mundo, um negócio muito lucrativo, que está a enriquecer alguns e a empobrecer muitos e, pior ainda, a empobrecer também o planeta. No Perú, por exemplo, as plantações de quinoa ocuparam terrenos onde anteriormente se cultivavam diversos produtos para consumo familiar e local e o seu preço cresceu de tal forma, que para muitos peruanos, a condenação é o recurso à “fast food” (!!!).
Quinoa, chia, abacate, soja, etc., etc., enfim, um mundo de promessas de saúde e de boa consciência ambiental a que todos vamos sendo convertidos, conscientes de que as nossas práticas têm de mudar.
Agradeço a quantos – vegetarianos, veganos, ambientalistas – têm contribuído para o desenvolvimento dessa consciência. Só lamento que, quando tento discutir com a maioria deles os novos problemas que estão a ser criados, encontre uma parede opaca de rejeição e o sorriso irónico associado à resposta demolidora de que as minhas preocupações são fruto de campanhas de multinacionais. É que, meus amigos, as mesmas multinacionais estão já no paradoxal negócio dos alimentos supersaudáveis com todas as consequências que um negócio da moda traz consigo.
(Deixo, apenas como exemplo, o link de 2 artigos do The Guardian) "

https://www.theguardian.com/…/coconut-oil-teff-and-quinoa-i…
https://www.theguardian.com/…/chilean-villagers-claim-briti…

Varda par Agnès

Ontem foi dia de homenagem a Agnès Varda na Enciclopédia Ilustrada. Queria ir lá falar de um filme de que gostei imenso na Berlinale de 2019, o "Varda par Agnès" - uma fantástica aula sobre o cinema dos últimos 70 anos, dada por Agnès Varda a falar da sua obra -, e descobri que já está online em dois episódios.

Um pequeno detalhe: o filme que passou na Berlinale tinha os créditos no início, para poder terminar de forma muito doce. Quando chegarem ao fim do segundo episódio, imaginem que o filme termina sem créditos - e vão ver um último sinal da mestria e da sensibilidade de Agnès Varda.
 
Enjoy, amigos. É uma espécie de testamento, e deixa-nos muito mais ricos.







10 abril 2019

multitasking

Lembram-se daquela piada sobre o George W. Bush não ser capaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo, como por exemplo mascar chiclete e pensar?

Confere. Estou a rever um texto, e confere.

Estou mortinha para que o sabor desta chiclete acabe para a poder deitar fora para poder recomeçar a trabalhar.

(Também se dizia que não conseguia comer uma pretzel e pensar. Lembram-se quando ele ia morrendo engasgado com uma pretzel? Deixa-me é mazé concentrar-me bem nesta chicletezinha, não vá o diabo tecê-las...)

09 abril 2019

é suposto ser um projecto de paz

Confesso que nunca consegui entender a primeira guerra mundial. Que foi aquilo? Como é que os reais primos se zangaram todos e de repente havia milhões de rapazes a morrer vitimados por armas temíveis?

A mesma perplexidade em relação ao Brexit: apesar de acontecer aqui ao lado no nosso tempo de informação omnipresente, não consigo entender como se deixaram chegar a este beco sem saída. 

Confesso também que já me tenho rido bastante com muitos dos cartoons e memes a que a trágica performance do Reino Unido tem dado origem. Concordo que a Europa não pode dar ao Reino Unido condições mais vantajosas que as que dá à Noruega, e que não se pode sugerir a nenhum país da União a ideia de que pode sair para se pôr à margem do que não gosta e continuar a ter acesso a todas as benesses desta comunidade.

Mas não posso esquecer o essencial: a União Europeia é, antes de mais, um projecto para reforçar a paz na Europa. Os comentários mesquinhos sobre os ingleses, a schadenfreude, a assertividade da desforra que por aí ouço são uma traição ao mais fundamental do projecto europeu.


Sinto-me imensamente triste com os cidadãos do Reino Unido que queriam continuar na União Europeia. Quanto aos outros, os que queriam sair sabe-se lá por que motivos: nem pensar em lhes dar motivos para se sentirem confirmados na sua rejeição. O Reino Unido está a braços com um desafio brutal, mas nós também: temos de saber ser bons vizinhos. Não podemos ter uma deriva nacionalista, alargada ao espaço europeu, para rejeitar o corpo inglês que se vai tornando estranho. A paz na Europa é um trabalho de todos - árduo, exigente e quotidiano. Nada é garantido para sempre.

Pode ser que continue a partilhar piadinhas sobre o Brexit. Mas que o humor não nos turve o olhar, e não nos impeça de ver e sentir o sofrimento daquele povo. Isto não é uma anedota de mau gosto - é uma tragédia de assombrosa dimensão.

mais memórias


Lembra-me o facebook que publiquei esta foto (*) há dois anos. Deve andar a fazer as contas mal, porque me parece que foi há muitos mais.

Lembro-me frequentemente deste momento: entrar num centro comercial berlinense ali para os lados do fim do inverno, e mergulhar na cor desta instalação.

Devia ir mais vezes ao centro. Em Berlim há sempre uma surpresa algures à espera de se instalar nas nossas memórias.

--

(*) "Adieu Tristesse", uma instalação de Mademoiselle Maurice no Bikini Berlin
("em primavera feroz precipitada")



08 abril 2019

inesquecível





O facebook lembrou-me que há seis anos publiquei aqui este "amanhecer no reino da anaconda - pampa boliviana".

Não precisava de lembrar nada. Os quatro dias que passámos na pampa estão entre os mais inesquecíveis da minha vida. Beleza e tranquilidade em estado bruto. Puro.

(tanto mais que não encontrámos anaconda nenhuma, estava cheia de medo desse momento)

05 abril 2019

os meus problemas de primeiro mundo




Entre um mês de férias em Portugal e duas semanas e meia na África do Sul aceitei um trabalho de tradução infinito. Podem ter pena de mim, é caso para isso.

*

No fim de cada lavagem, a máquina de lavar a louça avisa-me que há uma fuga de água algures. Tenho de chamar o técnico, mas não tenho tempo. De cada vez que estou a lavar a louça à mão, lembro-me que chamar o técnico custa menos tempo que lavar a louça à mão. Mas mal tenho tudo lavado, dedico-me às urgências que não me deixam tempo para telefonar ao técnico.

*

Ao fim de quatro anos a esfregar torneiras como se não houvesse amanhã e a descalcificar as máquinas, instalámos um equipamento para tirar o calcário desta nossa água berlinense. Já não era sem tempo!
Mas deixámos uma torneira para poder ter alguma água não tratada. Para beber, por exemplo.
Fizemos o teste de olhos fechados, e ambos adivinhámos o copo certo: a água tratada é realmente mais salgada.
De cada vez que desço quatro andares com as minhas garrafas para as ir encher na cave, penso nas crianças africanas que têm de andar quilómetros para ir buscar a água.
(Se fosse esperta, já agora também punha na cave as bolachinhas, os chocolates e os refrigerantes. É o truque clássico para não engordar: armazenar as coisas que engordam o mais longe possível do sítio onde as costumamos comer.) (Assim, de cada vez que fosse buscar um quadradinho de chocolate, aproveitava e trazia água para cima.)

*

Tenho andado a tentar reduzir os víveres da despensa.
Nota mental 1: se uma coisa está há anos à espera de ser comida, é porque ninguém a come. Não vale a pena voltar a comprar. 
Nota mental 2: ir verificar quantas embalagens de cuscuz tenho antes de comprar mais.
Nota mental 3: prever atempadamente quando me vai passar aquela onda da comida de um país, e parar atempadamente de comprar ingredientes para esse tipo de pratos.
Por causa de andar a esvaziar a despensa, e de não ter tempo para ir repor o que entretanto deixou de haver, fiz finalmente aquela massa integral bleeerg bleeeerg bleeeerg com três farinhas diferentes. Fritei uns brócolos com alho para envolver, mas como estava muito seco juntei ainda umas colheradas de uma sopa creme de feijão e pimento que tinha descongelado para o jantar.
Ora bem, se quiserem emagrecer, usem esta receita. Andei 24 horas enjoadíssima e sem fome nenhuma.
(Bem sei que é a segunda vez que falo em emagrecer neste post, mas reparem que até tive o cuidado de escrever no título a avisar ao que vinha.)

*

Quase quase no limite de abrirem flor, o Joachim andou a podar as árvores de fruto do nosso jardim. Trouxe alguns dos ramos cortados para casa, e pu-los em água. As flores abriram que é uma maravilha, em meia dúzia de dias a Primavera instalou-se na nossa mesa. Tentei fazer uma fotografia que desse uma ideia do espanto que sinto ao olhar para aquelas simples flores brancas, e descobri que a câmara está com um problema qualquer. A cozinha cheia de luz, as flores todas oferecidas na sua beleza aberta, e a câmara tira-me umas fotos pálidas e de formas indistintas. Deve ser depressão.
(Depressão, apanho-a eu: a uma semana de partir para o Kruger na África do Sul, descubro que a câmara está avariada! Como é que eu vou conseguir estar lá se não tirar fotografias?...)
(Sobra-me o telemóvel, mas toda a gente diz que não se deve usar a função zoom do telemóvel. Vou ter de chegar bem perto dos leões para os poder fotografar. Espero que eles não tenham medo de mim, e não desatem a fugir a catorze pés.)

*

Comprei um desodorizante daqueles muito fantásticos e naturais, sem alumínio e sem nada, muito amigo da pele e do ambiente. Mais me valia ter poupado o dinheiro: é tão amigo da pele que a meio do dia tenho de me ir lavar de novo e mudar de roupa. Amigo do ambiente, uma ova! O ambiente é que paga a duplicação das lavagens de roupa.
Há muitos anos, ouvi num programa infantil uma miúda africana a dizer que os europeus têm vergonha do seu próprio corpo e não suportam o seu cheiro natural.
(Que diria se conhecesse os japoneses!..)
Mas deu-me que pensar: o desodorizante mais fantástico e mais amigo da pele e do ambiente era uma mudança da matriz epistemológica dos costumes, digamos assim, e passarmos a aceitar a transpiração do corpo como um odor natural.
Deixem lá, deixem lá, já cá não está quem falou.

Já nem sequer estou aqui, já estou outra vez na minha desgraçadíssima tradução.

(Agora fiquei a pensar se os leões do Kruger preferirão pessoas a cheirar bem ou pessoas a cheirar a pessoas. Às tantas, em apertando a fome, marcham tanto umas como as outras.)


31 março 2019

nós e eles


Vi esta semana num noticiário alemão: já não há barcos a salvar pessoas no Mediterrâneo.
Estão a chegar menos africanos à Europa - porque, sem a nossa ajuda, muitos deles morrem no mar.

Isto está a acontecer no nosso tempo, na nossa Europa.
Diz que somos uma comunidade de valores, e que somos muito civilizados, e que damos muito valor aos Direitos Humanos.
É tudo mentira.
 

(A pensar na população de Weimar, que no fim da guerra disse aos americanos que não sabia o que se passava no campo de Buchenwald. Nós sabemos muito bem o que se passa no Mediterrâneo, e também olhamos para o lado.)

30 março 2019

Escócia

Num dia leio sobre uma universidade alemã que criou um fundo especial muitíssimo bem dotado para ajudar laboratórios de investigação do Reino Unido a mudarem-se em peso para cá, caso o Brexit inviabilize o seu trabalho no local onde estão.

No dia seguinte, esta manhã, cruzo-me com este filme.

Tudo isto me faz sentir uma enorme tristeza.





25 março 2019

#fixcopyright, #SaveYourInternet, Artigo11, Artigo13

Amanhã o Parlamento Europeu vota a lei dos direitos de autor na União Europeia. A tal que inclui os fatídicos artigos 11 e 13 de que tanto falam alguns. O que me parece, sinceramente, é que amanhã o Parlamento Europeu vai votar uma espécie de Brexit para a internet: primeiro aprovam a lei, e só depois vão perceber realmente o que votaram e o caos que criaram.

Sasha Lobo, um especialista do Spiegel online para o tema Internet, que vive praticamente apenas das suas publicações (ou seja: deveria ser o primeiro interessado numa lei de protecção dos direitos de autor), tem feito imensas críticas a esta lei. Em variados artigos (que doravante não vou poder traduzir, ou sequer resumir) diz que:
- Esta lei foi desenhada para responder aos interesses dos que se dizem representantes dos autores, mas de facto pouco se preocupam com os direitos destes. Prova disso foi o facto de terem conseguido tirar do projecto da lei a proibição de práticas tão injustas como o "total buy out", e de terem alterado o texto no que diz respeito ao que deve ser o pagamento aos autores - de "proporcional" para "adequado";
- Os políticos prepararam um lei que não pode funcionar na prática, porque os programas informáticos de reconhecimento de conteúdos não são capazes de desempenhar essa tarefa adequadamente (lembram-se da burrice de alguns lápis azuis? é por aí, mas em muito maior escala). Os filtros automáticos não têm como reconhecer as excepções previstas na lei: a citação para crítica, comentário, caricatura, paródia, pastiche.
Ou seja: os políticos que prepararam esta lei não percebem grande coisa de internet, estão a ceder à pressão de certos lobbies e padecem de "pensamento mágico", patente nessa sua ilimitada confiança nas capacidades das máquinas. E: esta lei não acautela os interesses dos autores, mas das entidades que se dizem representantes daqueles. É uma lei criada para que as grandes empresas de gestão de direitos de autor tenham ainda mais poder e dinheiro. E que, na prática, forçará os artistas que no séc. XXI nascem e crescem fora do alcance das grandes máquinas de gestão de direitos a registar-se à força nesse modelo antiquado e desigual. O objectivo do artigo 11 e do artigo 13 não é proteger os criadores, mas o modelo empresarial que se alimenta do trabalho deles.

Isto não é novo. Já há tempos a Maria João Nogueira explicou - a propósito da lei da cópia privada (questão 10 neste link) - que, da taxa que pagamos para direitos de autor quando compramos smartphones e outros equipamentos electrónicos, só uma ínfima quantia chega aos autores. A parte de leão fica na máquina que administra os direitos.

E como o artigo 13 responsabiliza a plataforma - e não o utilizador - pelos conteúdos publicados, as plataformas vão ter tolerância zero. Se esta lei passar, ainda vamos ter muitas saudades das trapalhadas que já conhecemos ao facebook e que tanto nos irritam. Lembram-se da foto histórica da miúda vietnamita a fugir a um bombardeamento de napalm, que o facebook apagou alegando nudez? Ou da foto da Mata Hari na Enciclopédia Ilustrada, que levou ao bloqueio da pessoa que a partilhou? Isso não é nada, comparado com o que nos espera se esta lei passar amanhã.

O roubo das criações artísticas e intelectuais na internet é um problema, sem dúvida. Mas se é para fazer uma lei dos direitos de autor, convém que esta defenda realmente os interesses dos autores, e não os de certas empresas. E, já agora, que os mecanismos de autorização sejam exequíveis. É que (por exemplo) estou há três anos à espera de autorização do Spiegel para traduzir uma reportagem engraçada sobre uma cidadezinha alemã que se uniu para acolher refugiados. Em 2016 quis muito contar neste blogue sobre os adolescentes que começaram a dar aulas de skate aos seus novos amigos vindos da Síria e do Iraque, e sobre a alegria de uma pequena cidade que reforçou os seus laços comunitários e se sentiu enriquecida pela chegada dos refugiados. Pedi autorização para o fazer, e ainda estou à espera de resposta.


Aliás, já podemos vislumbrar o que nos espera se amanhã se lançarem nesse processo tipo "Brexit" da internet. Lembram-se da página de facebook "Os Truques da Imprensa Portuguesa"? Criticavam o modo como certas notícias eram dadas, e, obviamente, mostravam a notícia que criticavam. A TVI queixou-se de violação dos seus direitos e a página está em risco de desaparecer (*).

Se o Parlamento Europeu amanhã deixar passar os artigos 11 e 13, a internet que por aí vem vai ser muito isto: a impossibilidade de falar dos trabalhos dos outros, de aplaudir, criticar ou parodiar,  ou sequer de usar imagens ou frases que já fazem parte da cultura global. Se esta lei passar, terei de apagar o poema de Sophia junto ao cabeçalho do blogue (embora tenha comprado o livro onde a li). E não sei o que terei de fazer para conseguir autorização antes de escrever aqui "eu é mais bolos", "o perigo é uma cena que não me assiste" ou "no princípio era o Verbo".
Talvez o melhor seja arranjar um gatinho e encher o blogue com fotos dele. Tudo o resto será terreno minado.

---

(*) Vou copiar o texto publicado na página de "Truques da imprensa portuguesa" (aproveito, que a lei ainda não foi aprovada), aqui:

Hoje, 19 de março de 2019, fomos notificados pelo Facebook de que alguns vídeos que fomos colocando nesta página foram retirados após queixa da TVI por alegada violação dos seus direitos.
São vídeos, alguns, com quase 3 anos de idade. Publicações adormecidas, sem qualquer atividade atual.
Os vídeos são citações, pequenos excertos de notícias ou debates, que ilustravam erros ou omissões susceptíveis de serem divulgados e discutidos.
São vídeos utilizados apenas como contexto - não fazemos deles o conteúdo desta página, não os apresentamos como nossos, atribuímos-lhes sempre a origem, não temos qualquer vantagem ou contrapartida com a sua publicação -, utilizados sempre e apenas com o propósito de exercermos, nós e vocês, o livre direito à crítica, naqueles casos, à TVI.
São, sobretudo, vídeos velhos, fora do prazo e que tiveram o seu tempo de vida. E fica a pergunta: porquê hoje?
Não sabemos. Mas, por conta dessas queixas da TVI, realizadas em bloco, um dos administradores desta página tem o seu acesso bloqueado, podendo esse bloqueio, nos próximos dias, tornar-se definitivo e expandir-se à própria página. O caso encontra-se agora a ser apreciado pelo Facebook.
Tememos que seja uma questão de tempo até estarmos todos impedidos de aceder a esta página.
Prezamos muito os direitos de autor de terceiros. Já aqui condenámos muitas vezes o plágio em trabalhos jornalísticos.
Contudo, hoje, a TVI decidiu que os vídeos que temos publicado com imagens suas violavam os seus direitos de autor. Esse vídeos ilustravam críticas à própria TVI. Críticas essas que foram hoje definitivamente eliminadas da página dos Truques, bem como das milhares (sim, milhares) de partilhas de seguidores da página.
Toda a gente sabe o que acontece quando conteúdos de uma página são denunciados em massa. A TVI sabe-o. O objetivo é, portanto, fácil de perceber.
Veremos quanto tempo mais resta a esta página.
A solução é uma: a TVI comunicar ao Facebook o seu consentimento. Não contamos com isso, nem o pedimos.
Se a página acabar aqui, acabou. Ganha a TVI, perdemos todos.

NOTA: publiquei este post ontem à noite, e acrescentei algumas frases esta manhã. As frases incluídas recentemente são complementos que não alteram o sentido do texto.


17 março 2019

eu sou uma alface de Belgais!


Ontem quis ser uma alface de Belgais.
Ou uma galinha de Belgais, que têm uma bela vida.
Por umas horas, poucas, fui parte daquele mundo.
Chegámos quando o sol derramava rente à terra aquela luz tardia que tudo transfigura.
Junto a uma casa onde alguém tocava piano, sentei-me no chão quente em frente às alfazemas, no meio de um chilrear sem fim.
Ah, se eu fosse uma alface de Belgais e me deixassem crescer num canteiro junto àquela janela...

(Vou é tomar um cafezinho, que pressinto em mim um inesgotável manancial de pirosices) (mas era mesmo só para dizer que ontem, em Belgais, foi muito mais que perfeito)










14 março 2019

Manipulados pela informação ?

Aviso de muito amiga: reservem o dia 23 para isto. Os outros oradores são mesmo muito bons. E o tema é muito actual.
(Aviso para os não católicos: podem vir à confiança: nem mordemos, nem obrigamos ninguém a aprender o Salvé Rainha de cor, nem nada)

Mais informações: Metanoia.






26 fevereiro 2019

dias de piano



Na semana passada tive a sorte de ver Daniel Trifonov a dançar a sonata para piano nº 8 B-Dur op. 84 de Prokofiev. Ontem tive a sorte de ver Khatia Buniatishvili a meditar a sonata para piano B-Dur D 960 de Franz Schubert. E daqui a duas semanas terei a sorte de estar com Maria João Pires num  refúgio do mundo, Belgais.

Só vos digo isto: não trocava a minha vida com a de ninguém.

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Algumas das peças do concerto de ontem:





(Para ouvir acompanhando o poema de Goethe "Erlkönig")



25 fevereiro 2019

como é que uma mensagem tão importante me foi parar à caixa do spam?

Enviaram-me esta mensagem urgente no dia 19.02, e só me davam dois dias para pagar.
Agora é tarde - passaram, deixa cá ver, seis dias.
Por esta altura todos os meus amigos já devem estar deliciados a ver a minha cara quando vejo vídeos de gatinhos, cãezinhos, a paródia ao Conan Osiris e mais o Cavaco Silva.
A única coisa que me ocorre dizer é: enjoy. :)

--

Your account was recently hacked! Modify your pswd immediately!
You might not know anything about me and you may be most likely surprised for what reason you're receiving this particular email, right?
I'mhacker who exploitedyour email boxand devicesa few months ago.
You should not try to communicate with me or look for me, it is definitely not possible, because I directed you this message using YOUR account that I've hacked.
I've developed malware soft on the adult vids (porno) website and suppose that you enjoyed this site to have a good time (think you understand what I really mean).
While you were taking a look at films, your browser began to act as a RDP (Remote Control) that have a keylogger that granted me authority to access your monitor and network camera.
Afterward, my applicationaquiredall data.
You typed passcodes on the online resources you visited, and I sniffed all of them.
Surely, you'll be able to change each of them, or perhaps already changed them.
However it does not matter, my malware updates it every 5 minutes.
And what I have done?
I compiled a reserve copy of your device. Of all the files and contact lists.
I created a dual-screen movie. The 1 section shows the video you were watching (you've got the perfect preferences, wow...), the 2nd part demonstrates the tape from your own web camera.
What actually do you have to do?
Good, in my view, 1000 USD is a realistic amount of money for our very little riddle. You will make your payment by bitcoins (in case you don't recognize this, go searching “how to purchase bitcoin” in any search engine).
My bitcoin wallet address:
1C242L8qAXRxudv6KBAahi81GHS5wpc8cF
(It is cAsE sensitive, so just copy and paste it).
Important:
You will have 2 days to perform the payment. (I built in an exclusive pixel in this email, and at this time I understand that you've read through this email).
To monitorthe reading of a messageand the actionsin it, I installeda Facebook pixel. Thanks to them. (Anything thatis usedfor the authorities may helpus.)

In the event I fail to get bitcoins, I'll immediately offer your video to each of your contacts, including family members, colleagues, and so forth?

23 fevereiro 2019

Berlinale 2019 - sexto dia


 
 

O sexto dia começou lindíssimo. E ficou ainda melhor logo a seguir, por causa de um elogio no balcão dos bilhetes. O funcionário pegou na minha folha para ler os códigos de barras, e ficou pasmado a olhar. "Isto é que é uma folha organizada!", comentou, sem conseguir tirar os olhos dela: círculos, duas cruzes, uma cruz, plano B caso já não houvesse bilhetes para os filmes que queria ver. Ri-me, agradeci, agarrei nos bilhetes e fui à minha vida, perguntando-me como será a organização dos outros para ele ficar tão admirado com a minha.



Nesse dia resolvi conceder-me um intervalinho nos filmes sérios: fui à Haus der Kulturen der Welt ver as curtas para crianças. É sempre um prazer ver aquela casa cheia de miúdos de palmo e meio, sentir o alvoroço deles antes de começar o filme: passarinhos na Berlinale.

Mas antes disso fui espreitar a sessão para jornalistas de um dos filmes do concurso. Estava sem paciência para aquele tipo de filme, de modo que saí ao fim de meia hora. Azar o meu: foi o que ganhou o urso de prata para a realização. 



No segundo filme do dia encontrei uma colega do coro. Estava mesmo à minha frente. Lá está: uma cidade de quase quatro milhões de habitantes, um festival de cinema com 400 filmes, e eu passo a vida a tropeçar em conhecidos. No fim do filme fui almoçar com ela à Escola de Cinema - poucos sabem que há uma cafetaria no topo do Sony Center, onde se podem comer refeições tipo cantina por um preço relativamente aceitável - e mostrei-lhe também a Audi Lounge. Carregámos os telemóveis nos carregadores que eles lá têm, e assistimos à conversa que estava a decorrer com o realizador de "Brecht". Pareceu-me que havia um sem-abrigo no público. É por estas e por outras que gosto de Berlim: tem espaço para todos.

Quando estávamos a tomar café na Audi Lounge apareceu outra conhecida minha das filas da Filarmonia. Lá está: uma cidade com quatro milhões de habitantes...
Avisei-a - e aviso aqui também, a quem interessar possa - que no dia 16 de Março o Rattle volta à Filarmonia com a Paixão segundo São Mateus encenada pelo Peter Sellars. Aconselhei-a a telefonar uma semana antes para saber se vão vender lugares no palco, e a ir para a fila da caixa duas horas de os porem à venda. Assistir àquela encenação com aqueles músicos sentada no palco foi um dos momentos mais sublimes que me aconteceu na Filarmonia.

Os filmes do sexto dia:



Flatland, de Jenna Bass. Podia ser um grande filme, mas as personagens são demasiado unidimensionais, caricaturais ou inconsistentes.



Trailer 2' _WHEN TOMATOES MET WAGNER from Marianna Economou on Vimeo.


When tomatoes met Wagner, de Marianna Economou. Um documentário que passou na secção Cinema Culinário, sobre uma aldeia grega com uns trinta habitantes onde há grandes plantações de tomate biológico para preparar refeições gourmet em conserva, que serão depois exportadas para todo o mundo. O chefe da empresa é um poeta, podem crer: escolhe cuidadosamente a música que dá aos tomates (se bem me lembro, decidiu-se por uma peça de Vivaldi que ele dizia ser vermelha, mais indicada para eles ganharem boa cor), e serve-lhes Wagner em colunas potentes espalhadas pelo campo. Para a época da colheita prefere música tradicional grega, para os tomates sentirem a dor da partida e da ausência. Quando exporta para os EUA afirma que está a devolver os tomates à proveniência, fechando um ciclo de quinhentos anos. E quando, no debate após o filme, lhe perguntaram como equacionava o lucro, porque no filme não se ficava com a sensação de que fosse um negócio muito rentável, ele respondeu com estes versos de um poeta grego (cujo nome não entendi):
Se as minhas pálpebras fossem transparentes
De olhos abertos via a realidade
Fechando-os, via os meus sonhos.



Fordlandia Malaise - Trailer from Kintop on Vimeo.


Fordlandia Malaise, de Susana Sousa Dias. Documentário sobre uma cidade artificial projectada por Ford na Amazónia, sobre a força da Natureza e a resiliência dos humanos. Um trabalho bem articulado e com equilíbrio dos vários registos narrativos, juntando imagens históricas à realidade actual, tradição (ou invenção?) oral e testemunhos da população actual. Gostei em particular da maneira hábil de transformar fotografias históricas numa narrativa cheia de ritmo.

Mai i te kei o te waka ki te ihu o te waka, de eremy Leatinu'u.  
The Mermaids, or Aiden in Wonderland, de Karrabing Film Collective.  




Chão, de Camila Freitas. Documentário sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Filmado ao longo de quatro anos, documenta os sonhos, as alegrias, as necessidades e os reveses na luta destas pessoas. As cenas iniciais - que mostram dois amigos a fazer projectos sobre o que vão plantar quando tiverem um talhão deles - provocam em nós um sorriso de empatia. Mas à medida que o filme avança, o sentimento de opressão e injustiça torna-se sufocante. Sabemos o que Bolsonaro propõe para aquelas terras e para aquelas pessoas. O futuro deles está cada vez mais longe desse pequeno talhão de terra com diversas árvores de fruto, o milho aqui, as batatas acolá e tudo o mais que sonharam um dia.

22 fevereiro 2019

Berlinale 2019 - quinto dia



no meio do caminho havia uma árvore,
havia uma árvore no meio do caminho...

Durante a semana da Berlinale, é este o ritmo: sair de casa às sete e um quarto com o Joachim, e atravessar o Tiergarten de lés a lés ainda antes do sol nascer (tenho várias provas fotográficas, e até partilho aqui duas delas). Ir para a fila dos bilhetes, escolher os do dia seguinte, pequeno-almoçar a correr num sítio que não posso dizer porque os meus filhos são visceralmente contra ("mas é só durante a Berlinale..." - tento alegar em minha fraca defesa), e correr para a sessão das nove da manhã para a imprensa, normalmente um dos filmes do concurso.

Este quinto dia foi um pouco mais complicado: saí do carro na zona da Haus der Kulturen der Welt, atravessei o Tiergarten para ir buscar os bilhetes, voltei a atravessar para ir ver o primeiro filme na Haus der Kulturen der Welt, daí fui para a Friedrichstrasse, de lá para o Zoo, e de novo para a Haus der Kulturen der Welt - há-de ter sido meia maratona.
Berlinale, dois em um: cinema e desporto.

O último filme do dia foi com a família. A Christina perguntou-me pelos filmes que vi, e falei-lhe do "Of Fathers and Sons", do qual acabara de sair. Ia começar a recomendar-lho imenso, quando ela me interrompeu: "Mãe, esse é o filme do Talal! Já te falei dele, é o realizador sírio que está muito interessado no teu filme sobre os arménios!"
(Se calhar devia melhorar os meus skills de comunicação com a minha família...)

Os filmes do quinto dia:




Baracoa, de Pablo Briones, ou: uma infância em Cuba. O filme é uma mistura de documentário e ficção, com momentos cheios da poesia, da graça e das esperas infinitas da infância, mas também com alguns diálogos um pouco forçados.
O realizador contou que foi a Pueblo Textil em busca de um rapazinho para fazer uma curta-metragem. Quando já tinha uma boa dúzia de possibilidades, apareceram os dois amigos deste filme, tal e qual como se vêem no trailer: lado a lado, a mão do mais velho pousada no ombro do pequenito. Foram ter com ele, quiseram saber o que se passava ali, e ele explicou que estava a escolher um rapaz para fazer um filme.
- E sobre o que é o seu filme?
- É um gato que foge e um menino que vai à sua procura.
- Señor, - disse o mais pequenino - se tiver dois rapazes a procurar, encontra o gato mais depressa!
O realizador mudou ali mesmo os seus planos. Ficou com os dois miúdos, e encostou a sua história às histórias deles. O resultado foi Baracoa, sobre a infância universal num país único.





The operative, de Yuval Adler: Rachel, uma mulher com raízes em várias culturas e em nenhuma, torna-se agente da Mossad e é enviada para uma missão no Irão. À medida que se vai aproximando das pessoas desse país, questiona-se cada vez mais sobre o sentido do seu trabalho.
Um thriller bem feito, com bom ritmo, que louva a liberdade interior dos que não têm raízes nacionais e por isso podem destrinçar mais facilmente entre o correcto e o incorrecto, e nos questiona também sobre as redes de serviços secretos e as suas operações à margem da lei.


 


Of Fathers and Sons, de Talal Derki (secção Lola). Este documentário é um dos concorrentes ao Óscar deste ano, pelo que será possível vê-lo num cinema, ou na televisão. Muitíssimo duro, e absolutamente imperdível. Depois do "The Return to Homs", o refugiado sírio Talal Derki regressou ao seu país para filmar o quotidiano de uma família de combatentes da Frente al-Nusra, num trabalho que demorou dois anos.
O resultado deste acto de imensa coragem (e irresponsabilidade, diria eu) é um documento assombroso sobre a mentalidade e a vida daquelas pessoas: os miúdos tirados da escola porque "não aprendem nada" e levados ainda muito pequenos para os campos de treino, a doutrinação permanente, a entrega absoluta nas mãos de Alá. Uma pessoa vê, e enterra-se cada vez mais fundo na cadeira: em cada família há pelo menos meia dúzia de miúdos que serão treinados para lutar até ao fim, e que ouvem permanentemente a ladainha sobre tudo o que acontece ser a vontade de Alá, e termos de aceitar porque, sendo a vontade de Alá, está certo e é o que deve ser. Mesmo após ganhar a guerra contra o "califado", como será possível tirar este veneno de dentro das próximas gerações?
Talal Derki arriscou a vida neste filme, e sabia-o bem. Foi um trabalho esgotante, que o deixava catatónico e a dormir semanas seguidas nos meses em que interrompia as filmagens para regressar a casa. Passou todo aquele tempo a fingir ser quem não era, completamente à mercê dos homens da al-Nusra. Estes aceitaram-no por ser famoso, devido ao sucesso do seu "The Return to Homs", e naturalmente porque tinham interesse em ser filmados para divulgar no Ocidente imagens da sua força e determinação. Mas quando chegou um novo chefe àquela célula, e começou a fazer perguntas,
Derki viu-se obrigado a terminar abruptamente as filmagens.
Há uma passagem no filme ainda mais brutal que as restantes: imagens do pátio de uma prisão onde alinham prisioneiros de guerra. Rapazes novos, capturados pela al-Nusra e ali mantidos indefinidamente. Enquanto o seu operador de câmara gravava as cenas que os guerrilheiros queriam exibir ao Ocidente, Derki filmou discretamente grandes planos das caras daqueles jovens que acreditavam ter chegado o seu último momento. Insuportável. Naqueles rostos vi os amigos sírios dos meus filhos, e percebi melhor de que fugiram e porque é que se fizeram ao mar e à travessia de meia Europa em condições terríveis. Contaram-me eles que já estavam a ser perseguidos pelo regime de Assad, e se viram obrigados a fugir precipitadamente quando se deram conta de que havia grupos a raptar rapazes nas ruas do bairro onde viviam. Quem os raptava? Para quê?
No fim, falei com um dos elementos da equipa do filme, que revelou que a inclusão daquelas cenas foi a decisão mais difícil de tomar. Disse que no dia em que filmaram nenhum prisioneiro foi assassinado, mas na semana seguinte houve uma chacina naquela prisão. Não sabem quantos mataram, e quantos dos filmados estão ainda vivos. Também me disse que os guerrilheiros ficaram furiosos quando viram o filme, e que Talal Derki tem agora a cabeça a prémio na Síria.
- E fora da Síria, não?
- Não tanto. Não se conhece uma rede internacional à Frente al-Nusra.
Talal Derki. Se não fosse por mais nada, ter arriscado a vida e o seu futuro para fazer este filme seria já um bom motivo para o ver. Mas há mais motivos: o filme é um documento sobre o que se passa na Síria e os problemas que teremos de resolver nos anos que vêm.
Deixou-me a pensar sobre o pacifismo, o impulso de salvar a própria vida e o dever de lutar contra um mal tão terrível como o Daesh. Que é que eu faria se isto tivesse acontecido no meu país?
Deixou-me também a rogar pragas ao Bush e aos seus amigos Aznar, Blair e Barroso, que na cimeira dos Açores deram início à invasão do Iraque, essa guerra que alterou o precário equilíbrio da região e abriu o caminho ao daesh.

 

"37 Seconds" (2019, Drama, Japan) Teaser from HIKARI FILMS on Vimeo.


37 Seconds, de HIKARI. Yuma tem 23 anos, e a par dos problemas de mobilidade devido à sua paralisia cerebral sofre ainda às mãos de uma mãe superprotectora e de uma chefe que não a respeita. Quando decide começar um novo trabalho, desenhando manga erótico, a responsável da agência sugere-lhe que faça ela própria a experiência de uma relação sexual antes de começar a trabalhar naquela área. O resultado é um percurso acidentado que leva Yuma à descoberta de segredos familiares, à conquista de amigos pouco convencionais, e ao alargamento do seu mundo.

A realizadora contou que encontrou Mei Kayama - a actriz principal, com paralisia cerebral - já bastante tarde (11 meses antes da estreia do filme) e que a sua história pessoal inspirou algumas alterações à história. Talvez essas alterações de última hora e a realização demasiado apressada expliquem o excesso de temas no filme e a falta de um desenlace mais lógico. O filme abarca demasiados temas sem levar quase nenhum deles a bom porto, mas é salvo por uma Mei Kayama que lhe dá dignidade e o torna muito cativante. Não sendo um grande caso de cinema, é um filme que nos enriquece, diverte e dá que pensar.
Em conversa com o público, a realizadora falou da sexualidade das pessoas com certas deficiências, e alertou para a necessidade de mudarmos a perspectiva: essas pessoas não são disabled, são differently abled. Gostei muito da expressão: differently abled.
"Mesmo pessoas paralisadas podem ter relações sexuais e até orgasmos", disse a realizadora. E logo a seguir: "Oooops! Será que podia dizer orgasmo neste palco? Ah, que cabeça a minha! Claro que sim - estamos na Europa!" - e riu-se. Rimos todos. 
Alguém do público perguntou porque é que numa determinada cena a banheira estava cheia de água à noite, e a actriz Misuzu Kanno explicou que no Japão é normal a banheira ficar cheia para as pessoas da família tomarem banho umas após as outras. "Quando o marido chega a casa depois do trabalho", disse ela, "a mulher pergunta-lhe se quer jantar primeiro, ou tomar banho antes."
"Hehe", riu-se a realizadora, "quem me dera que me perguntassem isso quando chego a casa depois do trabalho: queres já o jantar, ou vais primeiro tomar banho?"
Algo me diz que cada vez se fazem menos japonesas como antigamente...

21 fevereiro 2019

Berlinale 2019 - quarto dia



E ao quarto dia fez-se um domingo de chuva. Subi ao Berlinale Rooftop Café para tomar o pequeno-almoço, e a cidade mostrava-se tristonha. Este Berlinale Rooftop Café era simplesmente o café que existe no topo do edifício de tijolo escuro na Potsdamer Platz. Para chegar lá usa-se o elevador mais rápido da Europa, que nos leva do rés-do-chão ao 24º andar em oito segundos. Qualquer pessoa pode ir ao café e às galerias no topo da torre, mas tem de pagar 7,5 euros. Durante a Berlinale, os inscritos no festival tinham a possibilidade de ir ao café sem pagar o transporte. Mas poucos aproveitaram: sempre que lá fui, estava relativamente vazio.

Ao fim da tarde desse domingo encontrei-me com o Joachim e fomos para a loucura: dois filmes seguidos! E ainda um saltinho ao pavilhão da Audi mesmo em frente ao Berlinale Palast. Chegamos mesmo a tempo de ver a Diane Kruger no tapete vermelho, ali a meia dúzia de metros. Íamos para jantar alguma das deliciosas ofertas que têm sempre no menu, e para beber um café antes do último filme do dia, mas logo à entrada encontrámos um velho conhecido nosso, que ia moderar um debate sobre o tema "alcance" - iam falar de cinemas itinerantes com energia solar e de naves espaciais.
Berlim (também) é isto: uma cidade com quase quatro milhões de habitantes, e passamos a vida a cruzar-nos com conhecidos. Por sorte o debate começava antes do nosso filme, pelo que acabámos a conversinha e fomos para o cinema sem correr o risco de chegar atrasados.
Berlinale (também) é isto: correr permanentemente de um filme para uma conversa e de um debate para outro filme.

O que se vê nas duas fotos seguintes deve ser um carro eléctrico da Audi, todo XPTO do futuro dos carros eléctricos, mas não percebo nada de carros. Fotografei a correr, e desandei.
Na terceira foto vê-se a Filarmonia, ali à esquina da Berlinale. Linda como sempre.





Os meus filmes do dia 10:





Gospod postoi,imeto i’ e Petrunija / GodExists, Her Name Is Petrunya da realizadora Teona Strugar Mitevska: um filme da Macedónia que, com uma simplicidade quase berrante, demonstra a necessidade e a urgência da emancipação feminina. Baseado num facto real, conta a história de uma mulher de 32 anos (Zorica Nusheva, excelente), desempregada e a viver com um pai doente e uma mãe sádica e dominadora. No impulso de um momento invade um domínio tradicional dos homens, e vê-se metida em apuros com a polícia, o padre, o procurador e um mob de machos feridos no seu orgulho. O quarto poder também está presente na história, através da jornalista que explica detalhadamente aos telespectadores o choque cultural em causa, nos intervalos das gravações discute ao telefone com o marido sobre quem deve ir buscar a filha à escola, e tem ainda de resistir ao desinteresse do seu chefe por aquele tema. O quadro institucional é completado pela figura do Estado de Direito, mais concretamente, pela sua precariedade patente no comentário que repetem quando Petrunya exige que os seus direitos sejam respeitados: "pensas que estás na televisão?"Teona Strugar Mitevska oferece com este filme uma radiografia actual das estruturas patriarcais da Macedónia e da situação das mulheres jovens, com estudos mas sem perspectivas, e a actriz Zorica Nusheva oferece uma Petrunya que se nos torna cada vez mais simpática.
Há, em particular, um momento que vai directo ao coração do espectador: quando o polícia, despeitado por ela não fazer o que ele quer, lhe diz:
- Tenho uma filha de dez anos que é uma criança amorosa e muito bem-educada. Amo-a mais do que tudo no mundo, mas se ela daqui a uns anos começar a portar-se como tu, parto-lhe todos os ossos do corpo.
E Petrunya responde:
- Em contrapartida, eu tenho um pai que me apoia.






Born in Evin de
Maryam Zaree: esta realizadora alemã só por acaso descobriu que nasceu em Evin, a pior prisão política do Irão, e nela viveu dois anos. O pesado silêncio familiar à volta desse tema foi uma constante que acompanhou o seu crescimento, e abriu feridas que Maryam tentou sarar recorrendo à psicanálise durante vários anos, escrevendo uma peça de teatro ("Denial"), e fazendo agora este documentário que corresponde a uma fase sua mais madura e estável. O documentário regista, de forma simultaneamente divertida e profunda, a pesquisa do que aconteceu às crianças que nasceram ou passaram por aquela prisão e do que aconteceu às suas mães, questiona os motivos do silêncio à volta desses factos e as suas consequências para as gerações seguintes.
Um documentário bem feito e equilibrado, que surge quando a revolução islâmica iraniana cumpre quarenta anos, e quando na Turquia as cadeias políticas se enchem de mulheres e crianças.
Neste link encontram um pequeno trecho em inglês.




Talking money
de
Sebastian Winkels (secção Lola): neste documentário, a câmara filma a perspectiva de um empregado bancário por cuja mesa desfilam os problemas e os sonhos dos clientes que vêm pedir um empréstimo ou condições especiais para o reembolso. Filmado em vários continentes, em todos eles a secretária do escritório bancário toma ares de confessionário e assume-se como lugar de poder.
A ideia é interessante, mas para fazer um bom documentário não basta gravar as conversas das pessoas escolhidas ao acaso, e somá-las em filme.




Malchik russkiy / A Russian Youth de Alexander Zolotukhin: um filme pacifista russo, com boa  fotografia e bons cenários. Surpreendeu-me a coragem de fazer uma alusão clara a Putin naquele contexto de crítica à loucura bélica. No fim, o realizador falou da actualidade deste filme: é assustador sentir que o ambiente que precedeu a primeira guerra mundial está a instalar-se de novo entre nós.

Aktfotografie, z.B. Gundula Schulze e Wer fürchtet sich vorm schwarzen Mann / Who’s Afraid of the Bogeyman, ambos de Helke Misselwitz. A secção Retrospectiva, que em 2019 era inteiramente dedicada a trabalhos de mulheres, incluiu estes dois documentários de uma realizadora da RDA. O "Who's Afraid of the Bogeyman" é um documentário delicioso sobre uma empresa de Berlim Leste que venda de carvão e entrega ao domicílio, gerida por uma mulher. Filmado pouco antes da queda do muro, mostra-nos as difíceis condições de vida na RDA (aquecimento a carvão dentro dos apartamentos, transporte em baldes enormes e carrinhas minúsculas) e ao mesmo tempo o papel de poder das mulheres da RDA nas relações laborais. Não encontrei nenhum vestígio do filme na internet, e é pena, porque é um documentário que vale realmente a pena ver.
No fim do filme, o moderador da conversa com a realizadora e o público sintetizou o trabalho de Helke Misselwitz com esta frase: "esta mulher tem muito amor ao que filma".
É isso que torna este seu documentário delicioso - e me deixa curiosa para conhecer outros trabalhos dela.


20 fevereiro 2019

Berlinale 2019 - terceiro dia


Ao terceiro dia, o gelo típico de Fevereiro começou a dar lugar a dias chuvosos e cinzentos, e a minha Berlinale começou a ganhar forma. Aventurei-me com mais segurança pelo programa, comecei a fazer escolhas com menos ansiedade: Temblores em vez de Öndög (disseram-me depois que este último é excelente, mas não me arrependi da troca), Erde em vez de Shooting the Mafia, e as três horas de Brecht em vez dos documentários What We Left Unfinished e Estou-me Guardando Para Quando o Carnaval chegar.

Por essa altura já me tinha dado conta de que não é boa ideia ir para a Berlinale uma semana depois de ter sido operada: corria de um cinema para o outro segurando a barriga, temendo que os pontos se abrissem. As mãos protectoras sobre a barriga: sou eu, e a Meghan Markle (mas ela não corre, tem mais juízo que eu).



Na Haus der Berliner Festspiele, onde iam estrear o Brecht, estava tudo atrasado porque se aguardava a chegada do presidente da República, do presidente de Berlim e da ministra da Cultura. Entre outros. Fiquei sentada no balcão lateral, com boa vista para os figurões. A miúda ao meu lado não cabia em si de excitação: "o Tom Shilling está ali! Está ali o Tom Shilling! Não acredito que isto me está a acontecer!", repetia ela, e espreitava, e de novo virava para mim um sorriso enorme. Mas nem reparava no presidente da República, sentado praticamente ao lado do actor.

As três horas de Brecht foram afinal quatro, e já não me deixaram entrar em Système K.
Tive pena, claro, mas também me soube bem ir para casa mais cedo, para tentar trocar as voltas à famosa gripe da Berlinale.

Os meus filmes do dia 9:

Temblores, de Jayro Bustamante: Pablo, casado e pai de dois filhos, apaixona-se por um homem. Quando a sua família descobre, aperta-lhe um cerco tal que ele não tem outro remédio senão sujeitar-se ao tratamento para "curar a perversão", de modo a recuperar uma aparente normalidade. O filme mostra o que há de sadismo, manipulação e sentido de posse nas relações familiares e sociais, e revela o enorme poder das Igrejas na sociedade guatemalteca.
Na sala de cinema havia muitos casais do mesmo sexo. Vi o filme com o coração apertado - pelas cenas, e por empatia em relação aos casais à minha volta. Quantas histórias desta opressão do rebanho não teriam eles para contar? Quando acabou, o casal ao meu lado soltou suspiros fundos. Um perguntou ao outro: "a propósito, ouviste sobre aquele deputado brasileiro que teve de fugir do país?"
O team de Temblores subiu ao palco, e falou bastante sobre a situação na Guatemala. Descreveram um país com 98% de crentes, e acusaram o papel do ditador Rios Montt no aproveitamento político dessa religiosidade. Cimentando o seu poder no exército e na religião ("combatir con la Biblia en una mano y con una ametralladora en la otra"), deu tal força às Igrejas que hoje em dia as pessoas anunciam a sua religião no currículo e no próprio cartão de visita. Um motorista Uber, por exemplo, escreverá no seu cartão "Fulano de Tal, evangélico". A par da opressão das Igrejas, o machismo da sociedade e a tendência para manter as aparências à custa da felicidade individual combinam-se para impor aos homossexuais situações desumanas.
Uma das actrizes (ambas tiveram o seu primeiro papel neste filme) disse que sentiu que participar neste filme era um dever, porque é fundamental lutar contra as situações surreais que são afinal a realidade dos homossexuais na Guatemala. E o realizador Jayro Bustamante acrescentou ainda que falou com muitos homens, de todos os níveis sociais, e ouviu histórias terríveis. Escolheu pôr no filme as histórias menos pesadas, porque se incluísse também o pior do que lhe contaram o público não conseguiria acreditar e pensaria que se tratava de ficção cinematográfica.
Seguindo este link
é possível ver um pequeno trecho do filme.




Earth, de Nikolaus Geyrhalter:  um documentário sobre a banalidade da destruição do planeta. Começa com uma informação assustadora: dia após dia, a actividade humana remove um volume de solo três vezes superior ao que resulta do efeito conjugado de todos os elementos da natureza. Isso mesmo: nós destruímos três vezes mais que o vento, os rios, os mares, os terramotos e os vulcões. 
O documentário mostra sete lugares onde batalhões de escavadoras gigantes, explosivos e serras esburacam o planeta. Transforma as dimensões matemáticas - x milhões de hectares, x campos de futebol - em imagens que permitem entender a dimensão do desastre. Nas entrevistas, os operários encontram metáforas estranhamente poéticas para falar do seu trabalho: "a Natureza é uma amante ingrata", diz um deles, "não dá nada a bem." Muitos falam da Natureza como amante, vêem o seu trabalho como a desfloração de uma virgem, falam do imenso prazer da adrenalina.
O realizador teve o cuidado de evitar o maniqueísmo. Esta gente aplana colinas para fazer as novas zonas urbanas onde queremos construir as nossas casas, faz explodir e remove as entranhas da terra para encontrar o minério necessário às nossas ligações eléctricas, esburaca florestas para capturar o petróleo que alimenta os nossos carros. Trabalham para nós, para o nosso conforto e o nosso estilo de vida. Nós somos os predadores, eles são apenas o nosso braço direito. "Someone has to get this job done...", diz um deles. E a loucura não acaba: um deles acredita que dentro de dois ou três séculos este trabalho será feito em Marte.




Brecht, de Heinrich Breloer: um documentário de três horas que mistura vários géneros - imagens de arquivo, entrevistas e docudrama - para compor uma imagem muito multifacetada de Bertolt Brecht. Brecht e as mulheres, Brecht e o teatro, Brecht e a política, Brecht na História.
Gostei muito do documentário, e em particular dos momentos de entrevista à sua primeira namorada: ela conta a sua versão, e depois lê os apontamentos de Brecht sobre a vida dos dois e comenta "grande mentiroso!" ou "isto tem aqui muitas liberdades poéticas". Delicioso.
Notáveis são também as reconstruções dos momentos de criação, e do trabalho de encenação no palco do teatro Berliner Ensemble. Um Brecht genial, palpável, seguro do que faz, cheio de energia e amor ao teatro. Um Brecht apanhado na engrenagem de dois totalitarismos. E também um Brecht predador emocional.
Adele Neuhauser excelente no seu papel de Helene Weigel entre 1947 e 1956. Tom Shilling e Burghart Klaußner, os dois Brecht, também muito bons.
Disseram-me que este filme vai passar na Arte e na ARD em Março. Fiquem atentos.


H de...


Encontrei esta foto no facebook, e nem queria acreditar.
O primeiro impulso: "malditas fake news!"

Mas fui ver no site da editora "Guerra & Paz", e é mesmo verdade: publicaram um livro sobre Hitler onde o Holocausto e a Hola! se encontram.

Diz a "Guerra & Paz": "Estas foram as ideias que levaram ao Holocausto. É melhor sabermos quais são, para não as repetirmos. Às citações, juntam-se ainda listas dos gostos e ódios de Hitler, as mulheres com quem viveu, mentores, ídolos, livros e filmes favoritos, datas marcantes e muitos outros factos."
Volta, revista Lux, estás perdoada: aquela capa com a família do Bolsonaro é um menino do coro, comparada com esta façanha da editora "Guerra & Paz".

Que vergonha.


"sois belle et tais-toi!" - Berlinale 2019










Tal como na indústria do cinema em geral, também a Berlinale tem vindo a dar um lugar cada vez mais central às mulheres. Em 2019, a acentuação dessa tendência revelou-se não apenas nos temas dos filmes mas também na secção Retrospectiva, que mostrou o trabalho das realizadoras, desde 1968 até 1999. Por sua vez, o programa de filmes de arquivo da secção Forum mostrou dois filmes de Delphine Seyrig sobre o papel que as inovações técnicas na área do vídeo tiveram na documentação do movimento feminista, e um exemplo das nossas possibilidades, concretizado no filme "Sois belle et tais-toi!". Trata-se de um documentário feito com meios muito simples (a câmara parada na cara da actriz entrevistada) e perguntas muito inteligentes ("terias escolhido ser actor se tivesses nascido homem?", "alguma vez fizeste uma cena com outra mulher, e, caso afirmativo, estavam numa posição de concorrência ou de confiança?", etc.).

O filme está no arquivo do Centre Audiovisuel Simone de Beauvoir, juntamente com milhares de outros documentos sobre a luta feminista. Nele, o que mais me surpreendeu foi dar-me conta de que já em 1976 se falava destes assuntos, mas foram necessárias décadas para a indústria do cinema começar a mudar.

Deixo três trechos de entrevistas, e acrescento uma ideia transmitida já não sei por qual actriz: nos anos quarenta do século passado o código Hays tinha regras muito rígidas para as cenas de cama nos filmes. As pessoas tinham de estar vestidas, e era obrigatório pelo menos uma delas ter um pé no chão. Essa foi uma época áurea para as actrizes: como não podiam fazer cenas de sexo, a indústria cinematográfica dava-lhes outros papéis e fazia-as aparecer nos filmes como sujeitos actuantes e com interesses próprios. A partir do momento em que a censura às cenas de sexo abrandou, as mulheres passaram a ter cada vez mais um papel subsidiário e de resposta às fantasias masculinas. 

"Sois belle et tais-toi!" foi o último que vi nesta Berlinale 2019. Uma bela maneira de terminar aquele festival.


17 fevereiro 2019

o preço do romantismo de calendário

O artigo que a Visão publicou sobre o custo ambiental do hábito de dar rosas vermelhas no dia de São Valentim (um exemplo: só por causa do São Valentim, há centenas de aviões a levar 15.000.000 kg de flores da América Latina para os EUA) lembrou-me uma história que já contei aqui, sobre uma mulher de Berlim Leste que no dia 10 de Novembro de 1989, algumas horas depois da queda do muro, atravessou a fronteira e foi para o Ku'damm ver as lojas de flores. Entrava, admirava, cheirava. "Posso ajudá-la?", perguntavam as vendedoras. "Não, obrigada, só quero ver".
Atravessou o muro para ver flores exóticas.

Na RDA não havia flores exóticas. Não havia rosas em Novembro, e muito menos em Fevereiro. Cometiam outras catástrofes ambientais, mas não tinham aviões a agravar o efeito de estufa só para inundar as lojas de rosas vermelhas em Fevereiro.

Falo do papel dos aviões no aquecimento climático,
como podia falar das doenças terríveis que as pessoas apanham por causa das condições em que são produzidas as flores maravilhosas que podemos comprar na Europa durante todo o ano. 

Flores não são um bem de primeira necessidade. É possível sobreviver mesmo tendo apenas acesso a flores sazonais e produzidas na região sem uso de químicos cancerígenos.



16 fevereiro 2019

Bruno Ganz



O Bruno Ganz!

Como homenagem, o seu colega Ulrich Matthes recomendou que ouvíssemos este poema de Hölderlin dito por Ganz. Está muito bem, mas prefiro lembrá-lo de outro modo: na pré-estreia do filme Vitus, no pequeno cinema da Câmara de Weimar. Nós estávamos na primeira fila, e o Bruno Ganz ali mesmo à nossa frente, com aquele seu sorriso tranquilo e luminoso a explicar que no filme tentou ser o avô que gostaria de ter tido, e a contar as dificuldades de filmar com dois miúdos prodígio.

O Bruno Ganz: o seu sorriso tranquilo e luminoso. 




09 fevereiro 2019

Berlinale 2019 - segundo dia




Systemsprenger / System Crasher, de Nora Fingscheidt - Sobre uma menina que é entregue ao sistema de protecção da infância porque a mãe não a consegue educar. Traumatizada e desesperada por amor, a miúda entra numa dinâmica de violência e leva o sistema de assistentes sociais e médicos aos limites das suas possibilidades.
A pequena Helena Zengel faz o seu papel impressionantemente bem.




Fortschritt im Tal der Ahnungslosen / Progress in the Valley of the People Who Don’t Know - Um documentário divertido e profundamente irónico sobre uma dinâmica de aproximação entre refugiados sírios e habitantes da região rural junto a Dresden.
Na RDA, chamava-se jocosamente a essa região "o vale dos que não fazem ideia" porque estava demasiado a Leste para conseguir ter acesso à rádio e à tv ocidentais. Estavam inteiramente sujeitos à propaganda do regime - e talvez isso explique em parte o facto de o movimento Pegida ter começado ali.
Depois da reunificação, a empresa de máquinas agrícolas Fortschritt ("progresso") foi fechada. Quando os refugiados começaram a chegar em grande número à Alemanha, alguns deles foram alojados nas instalações abandonadas e muito danificadas. Um grupo de antigos trabalhadores decidiu cuidar deles: nas instalações da antiga empresa ensinam-lhes alemão e contam-lhes como era a vida na RDA. Uma pessoa fica sem saber quem é mais náufrago: os sírios que falam das suas cidades destruídas ou os alemães que viveram uma vida num país que já não existe. 
O documentário tem vários momentos deliciosos. O meu favorito é o de uma aula de alemão, quando brincam em conjunto ao faz de conta numa cantina imaginária . Os alemães servem a comida e os sírios vão aprendendo frases simples, "arroz ou batatas fritas?", "estava muito bom, obrigado". No fim, o chefe dos alemães diz-lhes que se não têm dinheiro vão ter de cantar para pagar o almoço. Um dos sírios ri-se e diz aos outros que o melhor é pagar, mas acabam por se alinhar, e começam a cantar a capella um canção lindíssima que parece ser de amor mas acaba a revelar-se como lamento de saudade de um emigrante.
Os alemães também cantam: um coro de reformados entoa canções do tempo da RDA. Canções dolorosamente propagandísticas.


La arrancada, de Aldemar Matias  - um retrato em tons suaves de uma família cubana.





Grâce à Dieu, de François Ozon - Não é um grande filme, mas é um filme extremamente actual sobre o caso de um padre de Lyon que abusava de crianças, o silêncio da Igreja à volta do caso, as consequências sobre as vítimas e a terrível dificuldade de falar sobre o que lhes aconteceu. Esta história é muito recente: dentro de algumas semanas o tribunal dará o seu veredicto sobre a acusação ao cardeal Barbarin, arcebispo de Lyon.
Pessoalmente, foi-me muito penoso assistir à primeira parte do filme, quando uma das vítimas, que continuou na Igreja, tentou interpelar o arcebispo com toda a delicadeza. O modo como o bispo e a sua assistente o tentaram enrolar foi de um revoltante cinismo. A Igreja de Cristo não pode ser assim.
François Ozon escolheu um olhar neutro e sem disfarces sobre as fragilidades de todos. Também - et pour cause - as vítimas são pessoas com problemas graves, de um modo ou de outro. O filme não disfarça nem julga: ecce homo.



Berlinale 2019 - primeiro dia




Este ano a minha Berlinale começou da melhor maneira: ainda antes do filme de abertura, vi A Portuguesa, de Rita Azevedo Gomes, numa sessão para a imprensa. Excelente cinema de autor.
Excelente câmara de Acácio de Almeida. Um regalo para os olhos e a inteligência: a sucessão de quadros "renascentistas" atravessados pelos textos de Agustina.



A cerimónia de abertura no Berlinale Palast é só para convidados. Mas o povo - como eu, e como todos os que tiverem o cuidado de comprar o bilhete no primeiro minuto em que o festival abre as vendas - pode ir para o Friedrichstadt-Palast ver a transmissão em diferido. Anke Engelke começou a cerimónia em dueto com Max Raabe, cantando uma declaração de amor a um Dieter Kosslick visivelmente comovido (pode ver-se logo no início do filme). Depois continuou com as piadas e a apresentação dos elementos dos júris, naquela maneira muito berlinense, bastante aquém do profissionalismo de Hollywood mas com uma frescura e uma familiaridade que tudo compensam.

No fim da transmissão em diferido da cerimónia é costume o Dieter Kosslick aparecer a saudar o público do Friedrichstadt-Palast. Mas na quinta-feira passada fomos todos agradavelmente surpreendidos com a presença de Anke Engelke e do team do filme de abertura, The Kindness of Strangers, de Lone Scherfig.
Estava tudo a correr muito bem, mas depois o filme começou.



Devia ter desconfiado, quando a realizadora disse que tentou fazer um filme leve, apesar da seriedade do tema. Como é possível fazer um filme leve quando o tema é violência doméstica?
The Kindness of Strangers é um filme com alguns bons momentos, mas um iniludível sabor a fake.
Apear de tudo, diga-se em seu abono que consegue transmitir o desespero das famílias que vivem sob o domínio de alguém violento - ao menos isso.

De modo que o primeiro dia da Berlinale acabou empatado: um filme muito bom, um filme bastante fraquinho.