06 dezembro 2019

se não fossem os amigos que nos visitam, às tantas ainda agora tinha as minhas coisas em caixotes

Hoje encontrei este apontamento antigo no facebook, e tive de me rir. É que por estes dias tenho tido cá amigos, e nos dias antes de eles chegarem fui três vezes à IKEA...
(Entretanto, fiquei a pensar: a que visita de que amigos devo a troca das lâmpadas nos casquilhos simples por candeeiros na casa toda, mais ou menos 4 anos depois de ter mudado para cá?)

Quando os meus filhos me viam a atravessar a casa de vassoura na mão e turbo ligado perguntavam: "quem é que vem cá hoje?!"
(a verdade é que essas visitas me davam muito jeito para vencer a crónica procrastinação da limpeza, da arrumação e até daquele arranjo sempre adiado - como comprar finalmente o tal candeeiro ou pendurar o tal quadro no tal lugar da parede)

01 dezembro 2019

"Jutlândia" (2)

Os meus problemas de primeiro mundo: estou na Dinamarca à espera da ligação do comboio. Já foram cancelados dois. O próximo sai praticamente duas horas depois da ligação que eu tinha previsto. O problema: estou à rasquinha para ir à casa de banho mas a da estação tem uma maquineta na porta que exige moedas dinamarquesas. E eu só tenho euros e cartão de crédito.
Os patetas dos dinamarqueses não podiam ter votado a favor do euro, caraças?
Humpf!

„Jutlândia„

Calhou de a palavra do dia na Enciclopédia Ilustrada ser "Jutlândia" logo no dia em que saí para a Dinamarca. O meu post do dia foi um diário de viagem:

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Esta vossa artista tem em casa uma pilha de livros ainda por ler que é maior que ela, mas conseguiu a proeza de sair para uma viagem de comboio pelo meio da #Jutlândia sem levar livro nenhum.
De modo que só lhe resta aproveitar o tempo com uma reportagem fotográfica manhosa.
Se forem passando por aqui, podem acompanhar em directo a (seca de) viagem que estou a ter.



Hamburgo contra o sol.
A vossa sorte é o Facebook não ter cheiros. Nem queiram saber o cheiro que o matjes deixou nos meus dedos!

Comprei
"A História da Água", de Maja Lunde (autora de "A História das Abelhas"). Uma distopia sobre a seca que vai assolar o nosso mundo. A Europa dividida entre países com água e países desertificados, e um campo francês de refugiados, onde se juntam pessoas do sul da França, da Espanha e de Portugal, que tentam - debalde, ou, literalmente: de balde - entrar nos países do norte.


Em Hamburgo entrei num comboio de dois andares e instalei -me num lugar sossegado no topo, a beber o meu café e a comer o pão com matjes, que é obrigatório quando se está tão perto do mar.
À minha frente sentou-se uma mãe jovem com o filho de três anos, e daí a nada os dois estavam a ler sossegadamente o novo livro do Astérix que eu comprei.
Quando foram à casa de banho aproveitei para lhes fotografar o farnel: caixinha de lata para o pão, garrafa para trazer a água de casa. Mais uma bola de Berlim, mais um livro.
Agora a mãe vai a ler, enquanto o miúdo ouve histórias no seu headphone.
Já estou há quase duas horas com eles, e está tudo tranquilo.
Estou a gostar imenso desta mãe que acompanha, conversa e orienta sem stress.




 
O caminho para a Jutlândia é feito de planícies verdes salpicadas de vaquinhas. Antes seria provavelmente floresta continental virgem. Ou pântanos.


Salpicada de geradores eólicos. 
Mas hoje pouco geram: não há vento.


Não sei que cidade será esta, à margem de uma auto-estrada de navios. 


Cruzamento de linhas de comboio. Nós já vamos numa via elevada, e por cima de nós passa aquela ponte altíssima. O chão de casas parece tristonho. Como será morar junto a um cruzamento de comboios que nem se dão à delicadeza de parar e convidar para ir dar uma voltinha?


Paragem de quase uma hora em Flensburg. As lojas estavam fechadas: dia da Reforma. No norte da Alemanha só os de Berlim, coitados, é que trabalham. E amanhã é feriado nos Estados católicos da RFA. Mas não em Berlim. Maldito Estado laico!

(Não tenham pena: como recompensa, o dia internacional da mulher é feriado em Berlim. Viva o feminismo!)


Ia perdendo o comboio. Primeiro fui para o cais errado. Depois fui a correr para o certo , mas à minha frente ia um senhor negro com imensa bagagem e ar de não ir para lado nenhum. Sem pressa, a ocupar o caminho todo. Entrei no comboio já depois da ordem de partida, e apanhei um raspanete em dinamarquês.
Isto começa bem!


(Fiquei a pensar se aquele senhor será um refugiado a tentar chegar à Dinamarca.)





Hey! Já cheguei à Jutlândia!

Controle de passaportes. Uffff! Felizmente lembrei-me de trazer documento de identificação. Esta história da União Europeia é enganadora: uma pessoa habitua-se a sentir-se em casa, mas é só até aparecerem os primeiros polícias a dizer “your passport please”.

 

Para já, a grande diferença entre o norte da Alemanha e a Jutlândia é terem trocado as vacas por ovelhas.

 

E é mais dourada.
 

Daqui a nada anoitece aqui na Jutlândia. Tenho de me apressar com a reportagem fotográfica.
 

Os geradores eólicos estão a trabalhar. Então como é? Será que só na Alemanha protestante é que é feriado?!Pelo altifalante avisam que estamos a chegar à próxima estação. Por enquanto dinamarquês parece-me assim: alemão falado com pronúncia francesa.
Infelizmente não saiu ninguém na estação, para eu me poder sentar do outro lado do corredor. Estou farta de fotografar a Jutlândia contra o sol poente.



Oooooh!
Colinas.Enchi-me de coragem e passei para o outro lado do corredor. Quer acreditem quer não: o sol também estava desse lado!
Não me digam que na Jutlândia há dois sóis, um à esquerda e outro à direita do meu comboio?
Vocês foram os primeiros a saber, aqui na Enciclopédia Ilustrada.



Ainda Jutlândia.

 

Mais do mesmo.

Em Fredericia mudei de comboio. E tenho o sol do lado certo. Quer dizer: do lado certo se estivesse a regressar à Alemanha. Algo me diz que os comboios na Jutlândia andam aos ziguezagues.
(Mais uma coisa que aprenderam aqui primeiro)




Não sei para onde vou, mas é bonito.
Infelizmente dinamarquês não é alemão com pronúncia francesa. Nada disso. É estranho estar num país onde não percebo patavina. Há muito tempo que isso não me acontecia.
A revisora olhou para o meu bilhete e falou-me em alemão. Simpáticos, estes jutlandianos.
Afinal a fotografia anterior era eu a sair da Jutlândia. Acabou-se-me a palavra mágica por hoje.
Boas tardinhas para todos, e até à próxima palavra!
Para a despedida, aqui vos deixo algumas imagens do sol a pousar sobre a Jutlândia.








tanto amor para dar

[ O facebook lembra-me hoje esta cena - que é recorrente, mas confesso que este simpático tinha ainda mais lábia que os outros, e por isso guardo aqui a memória desse trágico dia em que me recusei ao amor. ]

Esta manhã apareceu aí um rapaz que queria amizade.
("Mãe, dou ou não?")
Dei - a culpa é do Eugénio de Andrade.

Começou logo a mandar-me stickers com frases patetas, como se eu não tivesse mais nada que fazer senão ler coisas que de tão más nem sequer levam a chancela do Fernando Pessoa do facebook.
Pedi-lhe que se deixasse disso.
Resposta:
"OK miga não gostas
Não és romântica?
Tens medo de viver a vida ok"


Bloqueei-o, e fugi para baixo da cama, por causa deste meu medo horroroso de viver a vida.
E ele, coitadinho, tem tanto amor para dar, e levou pela frente com o meu coração de pedra.

30 novembro 2019

parece Natal


Alegria, alegria: o Ku'damm já tem a iluminação de Natal.
Se fosse numa terra mais a sul, não era tão importante. Mas aqui onde vivo, quase à esquina do Pólo Norte, começa a anoitecer pouco depois das três - e uma pessoa precisa de luzinhas para atravessar o túnel do inverno. 

Passei no Ku'damm há dias, e tirei algumas fotografias: no andar de cima do autocarro, na fila da frente - e com muita chuva, que é óptima para os efeitos especiais.  


 
 





27 novembro 2019

imagens imaginadas


«A arte não se ocupa da felicidade? Quem disse? A felicidade não é apenas a euforia, e a euforia ruidosa. Pierre Bonnard, que acreditava na pintura, na natureza e na mulher, passou a vida inteira a representar, ou antes, a imaginar de novo, a pequena felicidade do visível. Uma felicidade discreta mas exigente, quotidiana mas altíssima. Que passa mas que sobrevive nos quadros, visível e enigmática. Uma felicidade que se contenta com pouco porque esse pouco é muito. Que acredita naquilo que vê porque vê aquilo em que acredita.»
«Imagens Imaginadas» reúne as crónicas que Pedro Mexia escreveu na última década acerca de quadros, exposições, pintores, fotógrafos. Imagens que formaram o nosso imaginário e a nossa imaginação.
O lançamento é já no próximo dia 3 de Dezembro, às 18h30. A entrada é livre.

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Sabem aquela anedota "como é que se faz uma pequena fortuna?"
(É assim: Como é que se faz uma pequena fortuna? / Tem-se uma grande fortuna e abre-se uma editora.)

Pois, para mim a Tinta da China é mais isto: como é que se troca uma pequena fortuna por muitos tesouros?
De cada vez que recebo um convite deles para um novo lançamento, o dinheiro na minha carteira faz-me cenas de ciúmes, "Trocas-me pelo primeiro que te aparece à frente! Nem sabes como é que se escreve a palavra lealdade, quanto mais amor!"
E então eu ergo a cabeça, muito digna, e atiro: "Não é o primeiro que me aparece, e não é um qualquer. Isto é a Tinta da China e mais o Pedro Mexia. Quem resiste?"


(Escrevo estas coisas só porque me brotam assim do coração, que não me pagam para isto, e se me pagassem podem crer que os disparates não me saíam com esta naturalidade (por estas e por outras é que nunca hei-de fazer carreira como influencer), mas depois pensei que até dava jeito se me fizessem um desconto ainda mais simpático na meia palete de "às vezes são precisas rimas destas" que vou encomendar hoje. Só que logo a seguir caio em mim, lembro-me daquela anedota "como é que se faz uma pequena fortuna?", ganho vergonha, agradeço muito o desconto que já me fizeram, e adiante.)

(Querido Pai Natal, este ano portei-me muito bem, comi praticamente todas as sopas que cozinhei, e quase não arreliei nenhuns meninos, excepto os que mereceram mesmo.)

25 novembro 2019

o fascismo que se infiltra na maçã


"Zero" em linguagem gestual (fonte)



Símbolo do White Power (fonte)

Manifestação de polícias (fonte)


Trago da Rita Dantas:



O fascismo é uma minhoca, não é?
Ai isso é!
Que se infiltra na maçã, não é?
Ai isso é!
Ou vem com botas cardadas ou com pezinhos de lã.
Não é? Ai isso é!

Nesta questão da polícia, do movimento zero e da adopção de um gesto que nos últimos anos foi apropriado pela extrema-direita, há um grupo de pessoas a quem parece importante referir que o significado principal do gesto continua a ser "ok". Acham essas pessoas que o gesto foi adoptado porque o movimento zero acha que está tudo ok? Que a usam na manifestação para contrariar as (aliás, em muitos casos justíssimas) reivindicações dos polícias, sinalizando gestualmente que está tudo óptimo? Claro que não. Então porque referem que o gesto quer originalmente dizer "ok"? Só para desconversar, suponho.

De seguida essas pessoas argumentam que o gesto é usado para sinalizar "zero". E é aqui que a porca torce o rabo - existiu uma condenação histórica em Portugal, em que polícias foram condenados por violência racista. O movimento zero nasceu da revolta contra esta condenação - portanto de pessoas que leram aqueles autos e em vez de dizer "que comportamento vergonhoso, repudio-o com violência, não me identifico com estes colegas", sentiram necessidade de mostrar a sua solidariedade para com eles e as suas difíceis condições de trabalho. Então, vamos fazer as contas: solidariedade com acusados de violência racista, fazem movimento anónimo, chamam-lhe "zero", usam por coincidência chata gesto conotado com a extrema-direita. Coincidência?

Aqui chegados, cada um acredita no que quer.
Eu acredito nisto: a escolha do nome e do gesto correspondente não pode ser ingénua. Era muito azar ou, dependendo de como o quiserem ver, muita sorte. Há coincidências na vida, mas parece-me demais. Já que muitos dos fãs do movimento zero não façam ideia do outro significado do gesto, não me custa nada acreditar. Acho até provável.

O que temos aqui é um caso clássico de infiltração lenta da maçã com pézinhos de lã: junte-se um terreno fértil, uma classe numerosa descontente e frustrada e preconceitos estruturais transversais à sociedade portuguesa prontos a serem acionados. E uma vontade de fazer as coisas acontecer.
É por isso que não me espanta nada que o mesmo discurso e o mesmo apoio ao Zero (e ao Chega, o side-kick político-parlamentar) circule pelos grupos de professores, embora me deixe ainda mais triste. Tal como não me espanta a evolução do discurso "eu não sou de extrema-direita e não aceito ser acusado disso" -> "nada do que ele diz é mentira" -> "se isso é de extrema-direita, então que seja".

Não há lições aqui: convinha não fertilizar o terreno, é verdade, mas já vamos tarde. Agora é partir para o combate por coisas que tínhamos dado por adquiridas e continuar a chamar os bois pelos nomes, exigindo de quem faz questão de desconversar que explique ao que vem.

meu Requiem de Mozart

O ensaio geral correu tão mal que nos pôs em estado de alerta extremo. Foi o melhor que nos podia ter acontecido.

(Enfim, o segundo melhor. O primeiro melhor teria sido sabermos todos a partitura de cor, estarmos bem ligados a todas as vozes do nosso naipe, não tirar os olhos do maestro.) (Ah, e ter uma boa acústica, que uma boa acústica dá sempre jeito, e naquela igreja não conseguíamos ouvir as pessoas da fila da frente nem da fila de trás.)

Depois do ensaio desastroso, ficamos em modo alerta total.  À frente do nosso público, numa casa cheia a rebentar pelas costuras, demos tudo. Simultaneamente tensos e calmos. E foi assim que no dia 24 de Novembro de 2019 inventei uma nova lei da Física - a Lei da Relatividade Música-Tempo: quando a música corre bem, o concerto conclui-se muito mais depressa. Ontem, não me durou nem cinco minutos, e cheguei à última página em luto antecipado por termos chegado ao fim. Se me deixassem mandar, inventava concertos destes em repeat. Enquanto estivesse a correr bem, ninguém parava.

(Não liguem a esta proposta, esqueçam. Era falar por falar. Mesmo antes de pôr o ponto final parágrafo já me tinha ocorrido que seria uma espécie de priapismo, e dizem que é doloroso. Esqueçam.)

Resumindo e concluindo: às vezes vejo os filarmónicos de Berlim a sair de um concerto, e trazem um brilho diferente nos olhos. O melhor do meu requiem de Mozart de ontem foi descobrir em mim o que existe por trás e por dentro desse brilho.

23 novembro 2019

mudar de pele

Encontrei este post perdido nos rascunhos do blogue (ai de mim, são mais de cem!)
Aqui trago à luz do dia estes apontamentos de um diário que escrevi há um ano:

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Comecei a fazer experiências de mudar a língua no facebook, e é como se mudasse de pele.
Primeiro francês. Depois espanhol. E depois, que versão escolho?
A verdade é que já não me lembro em que língua andei todos estes anos. Ou se mudei alguma vez.


*


Esta manhã mudei a língua do facebook para alemão, para ajudar uma pessoa que queria resolver um problema. Depois ia mudar de novo para português, mas pensei que é sempre bom confundir o cérebro e trocar-lhe os hábitos, por causa do Alzheimer, e optei por francês.
A seguir esqueci-me, e deu-me uma espécie de curto-circuito - às tantas comecei a achar que o Jordan Peterson é canadiano, apesar de escrever em inglês. Ai, espera...
Entretanto estou a reparar nas coisas em que dantes nunca reparava ("254 éléments à examiner" - o quêêêêê?!).
E tudo isto me provoca imenso desconforto.
Alzheimer, a quanto obrigas!


*


Estou aqui a pensar se mudo a língua do meu facebook para espanhol, ou se continuo no francês.
Além de me tratar com respeito, em vez daquele "tu" sem me conhecer de lado nenhum (ai, espera, dizem que o facebook nos conhece melhor que os nossos próprios pais!) (adiante), este "exprimez-vous, Helena" na caixa que se oferece para o meu post dá-me a sensação de estar num mundo elegante, delicado e participativo.
E também tem aquele "contact indésirable", em vez de "spam", e tantas outras surpresas da tradução que me revelam a cultura francesa.
Está decidido: fico no francês mais uma semanita. E depois espanhol, e depois alemão, e depois inglês, e depois italiano, e depois catalão.
E depois chinês: como quem joga memory, e tem de se lembrar onde é que estão as cartas certas.
(Por essa altura, o meu Alzheimer já vai andar com sessões semanais no psicanalista, "senhor doutor, eu acho que ela tem alguma coisa contra mim!")



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Mudei o meu facebook para espanhol.
E confesso que a mesma realidade (em 2019 vou realizar um grande sonho) já não me parece tão elegante como em francês.
Uma dia destes podia lançar-me a um trabalho sobre língua, preconceitos, hábitos e sensações. Se calhar até arranjava de meter um capítulo sobre o modo como o corpo reage de forma diferente conforme ouça na língua materna ou noutra qualquer (sim, por causa disso a Christina ia ficando por nascer: é que a parteira dizia "Ziehen Sie!" e o meu corpo não sabia o que é isso. Bem queria obedecer, mas não sabia como. Tivesse ela dito "faça força!", e a Christina nascia 3 horas mais cedo...)
Mas o que eu queria mesmo dizer é que sou uma desgraçadinha: em 2019 vou realizar um grande sonho, e não tenho nenhum!

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O facebook em espanhol: "hoy tienes recuerdos con 7 personas más para rememorar".
Ai os falsos cognatos!

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"Publicarlo en tu biografía", diz o espanhol. Pensará o facebook que o que aqui publico é uma biografia? Quando muito, um mapa mental de atalhos, becos sem saída e passagens para realidades paralelas.

desculpa lá, ó Mozart


Amanhã vou cantar neste concerto, e já estou em feliz expectativa para ouvir a solista soprano, que sabe pôr a alma inteira - a sua alma delicada - na música que canta.

Também estou um bocado preocupada com aquela coisa de cantar a consoante do início da palavra antes do pulso ainda me baralha um bocado (o nosso maestro que não saiba disto!).

Hoje, no duche, descobri que já sei a fuga do Kyrie quase toda de cor. Quase toda. O problema é que me escapa a passagem para o movimento final, que é diferente, e pareço um disco riscado a repetir sempre e sempre a mesma frase. Desisti ao fim de inúmeras voltas, e agora estou a pensar quanto é que este Kyrie me vai custar na conta da luz no fim do mês.
Lux aeterna, aeterna, aeteeeeeerna...

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Agora, a sério: chegar mais perto de Mozart nota a nota e frase a frase, e sentir o seu génio a tentar traduzir-se pelas minhas cordas vocais, foi das melhores coisas que me aconteceram este ano. Ainda estou muito longe de tocar a verdade de Mozart, mas sinto-me grata por este encontro entre a beleza da sua música e a  minha incompletude. Apesar da minha incompletude. 

e então, Heleninha, que fizeste no teu aniversário?




Dei um saltinho a Portugal, ali no centro de Berlim. Havia magusto. E feijoada e pastéis de bacalhau, e Sagres e Super Bock para agradar a gregos e troianos. E uma concertina, e cantares brejeiros do Minho. E bombos.

Passei a tarde a conversar com amigos, a trocar informações sobre tudo e nada (inclusivamente esta, que vale ouro: um empreiteiro de confiança na zona de Ponte de Lima, Yeeeeey!), a rir em português. Ali no centro de Berlim.

(Foi uma sorte o Pacheco Pereira não morar numa daquelas casas em frente, e não escrever uma crónica a falar dos estrangeiros "que aos domingos invadem as nossas praças com os seus costumes diferentes" - como uma vez se referiu aos muçulmanos de Bruxelas. De cada vez que participo num magusto ou numa sardinhada de portugueses no centro de Berlim, lembro-me daquela crónica do Pacheco Pereira a rejeitar os estrangeiros no centro de Bruxelas.)


[ PS. Uma vez que falei dos bombos, aproveito para informar que a Associação 2314 dá aulas gratuitas de bombos às terças-feiras em Neuköln. Trata-se de um projecto financiado pelo MNE. ]



22 novembro 2019

"armário"

[No dia em que a palavra mágica na Enciclopédia era "armário"]

Já aqui falaram do #armário de "The Lion, the Witch and the Wardrobe" que dava entrada para um mundo de fantasia.
E que outros armários mágicos conhecem?

Na literatura, só conheço um caso semelhante: "O 35 de Maio", de Erich Kästner. Um livro para crianças, no estilo divertido e inteligente daquele escritor, que conta a história de um miúdo que tem de fazer uma redacção sobre os mares do sul, e recebe a ajuda inestimável do tio. Entram no armário do corredor, e desembocam em países fantásticos: o País das Maravilhas, onde se pode fazer tudo o que se quer; o "Burgo do Passado Grandioso", onde Carlos Magno é guarda-redes; o País do Mundo ao Contrário, no qual os adultos têm de ir à escola para aprenderem a portar-se bem (por exemplo: a não bater em crianças, apesar de isso ser o comportamento normal dos adultos nos anos 1920'). Este livro é mencionado no prefácio de "Emílio e os detectives".

[Aos visitantes de Berlim: recomendo vivamente uma visita aos Gärten der Welt, "jardins do mundo", onde, além dos jardins oferecidos à RDA e feitos por jardineiros chineses e japoneses que conheciam bem o seu ofício, além dos jardins de vários outros países e temas que foram feitos mais recentemente por ocasião da Exposição Internacional de Jardins, e além do miradouro "bosque das nuvens", encontram ainda um parque infantil inspirado nesse livro, que tem uma sensacional baleia em madeira.]

Isso é na literatura.
Da vida real, conheço os armários da minha infância: as portas, os cheiros, as texturas, os mistérios que continham, e por trás de tudo aquelas tábuas e frinchas que me faziam imaginar um mundo secreto do outro lado. Sou só eu que em criança tinha medo de que houvesse uma passagem secreta dentro do armário, da qual sairia sabe-se lá que assustador visitante?

(espero que não haja aí psis à escuta...)
(às tantas, havia nos livros dos Cinco um armário assim, que entretanto recalquei, e foi isso que me desgraçou a infância...)


20 novembro 2019

on repeat



Aqui vou eu com o que sou
Com o que é meu, tal como sou
É neste chão que assento os pés
E é por seres quem és
Que eu assim me dou.


a culpa é do Ali...



O partido trabalhista a mostrar como é possível responder com simplicidade desarmante ao simplismo de certas estratégias eleitorais.


Zé Mário Branco (2)



Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi este disco. Tinha nove anos, e fui passar a tarde com a Marta, minha amiga dos verões do campismo no Cabedelo, cuja família tinha acabado de mudar para uma casa na Foz do Porto.

A Marta mostrou-me a casa nova, e a seguir decidiu escolher um disco para ouvirmos. Escolheu este, dizendo-me que não podia contar a ninguém, porque estava proibido em Portugal.
E depois: "gosto muito desta canção, olha!"

Fiquei cativada às primeiras notas. Ouvimos, repetimos, dançámos, cantámos.

Regressei a casa com esse "por terras de França" no ouvido, sem entender porque é que não se podia cantar uma canção tão boa e que mostrava tanta empatia pelo sofrimento dos nossos emigrantes.


Na altura não sabia quem era o #Zé_Mário - de facto, nem reparei no nome - mas é a ele que devo um primeiro despertar para a política e a tomada de consciência da estupidez do regime.
Uns meses mais tarde, quando o regime caiu, ocorreu-me com alegria que a partir daí podia cantar esta canção quando me apetecesse.



19 novembro 2019

Zé Mário Branco

A seguir à pergunta "onde estavas no 25 de Abril?" vem:

- De quem eram as canções que cantavas no 25 de Abril?

(E: de quem eram as canções que cantavas de cor nas rodas de viola do teu grupo de estudantes?)

Obrigada por tanto, Zé Mário Branco.

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A RTP disponibilizou a entrevista "Vejam Bem / José Mário Branco: Inquietação".
Está online aqui.

Sinopse: Compositor popular. Artista de variedades. Aprendiz de feiticeiro. José Mário Branco, 76 anos, do Porto. É assim mesmo que se apresenta um dos nomes maiores da música popular portuguesa. Uma história feita de canções, de lutas, de valores, contada pelo próprio, num percurso em que o presente das palavras encontra imagens que recordam meio século de canções.

15 novembro 2019

os Lusíadas (quase completos) num parágrafo



Eu às vezes não sei quê com o Hugo van der Ding, mas depois na cama penso é no RAP. É lá que leio os seus Mixórdias de Temáticas. Este é de 2012, e - como é costume dizer-se quando se fala de obras que já vão em sete anos ou assim - continua actual.

quando comecei a escrever este post, chamava-se "no paraíso", mas o lirismo, coitado, foi atropelado pelos parêntesis que se seguiram



A propósito do post anterior, sobre a colaboração entre a Uniqlo e a Marimekko, uma amiga comentou que eu sou mesmo a Eva com uma cesta de maçãs.
Ora, por falar em paraíso...

Neste cantinho do youtube, a peça que se segue a este "In Paradisum", de Fauré, é o Hino dos Querubins, de Tchaikovsky. Admiro a coragem destes compositores que se lançam à aventura de tentar traduzir a ideia de paraíso de maneira perceptível aos nossos sentidos, tendo para isso apenas os meios disponíveis aos mortais.

(E fico a pensar: se tivesse realmente de escolher entre a cesta das maçãs - o consumo desenfreado - e ficar o dia inteiro nesta música - chamemos isso à consciência tranquila por não contribuir tanto para a destruição do planeta -, o que escolhia?)

(O que me lembra uma história das férias na África do Sul: ao ver a paisagem devastada pela passagem dos  elefantes - os ramos quebrados, as árvores derrubadas - perguntei à nossa guia porque é que eles fazem aquilo. Ela respondeu: "porque podem". Nesse momento achei os elefantes uns bichos um bocado antipáticos. Mas depois caí em mim: eles são tal e qual como nós, que também destruímos o planeta apenas porque podemos.)


maldita sociedade de consumo


Maldita sociedade de consumo!

Quando estava mais que decidida a não comprar nem um pecinha de roupa nos próximos anos, enfim, meses, OK, semanas, eis que a Marimekko faz uma colaboração com a Uniqlo. Agarrem-me, agarrem-me com muita força, que por causa da maldita sociedade de consumo a Greta Thunberg ainda vai ficar decepcionada comigo!

14 novembro 2019

Hiromi Uehara



Descobri esta pianista num artigo recente do Spiegel, que falava das pessoas que vão à famosa Elphi de Hamburgo pelo facto de a sala andar nas bocas do mundo, e haver pacotes turísticos ou promocionais que incluem um concerto qualquer. De modo que muitos, depois de ver a sala, fotografar e pôr no instagram, saem a meio do concerto porque já fizeram tudo o que tinham a fazer naquele sítio.

Diz o Spiegel que não foi o caso deste concerto da pianista de jazz japonesa: ficaram todos, completamente agarrados à sua música. E acrescenta que ela "tem 40 anos, já anda nos palcos há 20, e não se consegue explicar porque é que continua a ser apenas um segredo bem guardado. Diz-se que tem uma "energia diabólica" e que é o "Jimi Hendrix do piano", ou uma "acrobata do teclado". O que é verdade: quando deu um concerto em Hamburgo, há alguns anos - com o seu trio, na Fabrik - alguém resmungou à saída: isto não foi um concerto, foi uma demonstração de poder."

Mas também há os momentos em que se trata de uma sublime manifestação de sensibilidade, como no caso do vídeo acima, de 2009, no qual ela toca uma composição sua numa altura em que andava a fazer o luto de uma pessoa que lhe fora muito próxima.





13 novembro 2019

o vosso próximo vício

https://www.instagram.com/p/B4xctkWF7lz/?utm_source=ig_web_button_share_sheet

Para as poucas pessoas que ainda não conhecem: aqui vos apresento o vosso próximo vício
- Pó d'Arroz, Broa de Mel, Dona Lurdes e o dono daquilo tudo. 

(carregar nas imagens)

https://www.instagram.com/p/B4nNnh5lQBO/?utm_source=ig_web_button_share_sheet

https://www.instagram.com/p/B1ohoUllxBT/


"tomate" (4)


O #tomate negro da Crimeia, que já foi hoje mencionado na Enciclopédia Ilustrada, lembrou-me um artigo que li há cerca de vinte anos numa revista americana. Parece que a subsistência de todas essas qualidades diferentes de tomate se deve à cortina de ferro. Na Europa e nos EUA as grandes empresas agro-industriais afunilaram a produção, pondo no mercado apenas os tipos de tomate que lhes pareciam adequados ao mercado. Quando a cortina de ferro se desmoronou, o mundo descobriu com surpresa que do lado de lá havia uma enorme variedade de tipos de tomate (e também de beringelas, courgettes, etc.) que os lavradores iam plantando ano após ano, segundo o saber antigo e as sementes que guardavam para o ano seguinte, em vez de comprarem à Monsanto ou a outra empresa do género.

Na altura em que vivi nos EUA chamavam "heirloom tomatoes" a esses cestinhos com tomates de todas as cores e tamanhos, que vendiam a preços proibitivos. Entendo a ideia de os ver como uma herança: o maior tesouro dos avós.

Ando há quase vinte anos para saber como será a tradução correcta de "heirloom tomatoes" para português.

E também gostava de saber se na América Latina não se guardaram uma ou duas sementinhas de variades à margem da Monsanto.

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Comentário de um colega:

"Aqui no Reino Unido usamos o termo Heritage Tomato, são tomates que têm que ser polinizados, seja pelo vento, insectos ou mesmo cotonete na falta de polinizadores naturais, ao contrário dos híbridos que são auto polinizantes e normalmente mais resistentes a doenças, mais adaptados ao clima pretendido e que têm maior tempo de armazenamento, ou seja, maior produção e mais tempo de vida nas prateleiras do supermercado. Em termos de sabor não há nada que chegue a estas variedades ancestrais e para quem planta para consumo interno e para oferecer aos amigos como é o meu caso muito mais interessante e gratificante."

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Ora aqui está uma boa ideia para traduzir "heirloom tomatoes" = "tomates de variedades ancestrais"

(ooooops, agarrem-me, que me sinto a resvalar para a brejeirice!)
(oooooops, é mais forte que eu: "heirloom tomatoes": "tomates da avó")

"tomate" (3)

Alguns apontamentos sobre #tomate:

1. Odeio a ideia da "Tomatina": desperdiçar mais de cem toneladas de tomate numa festa em que as pessoas se roçam umas nas outras a misturar aqueles mucos...
Arranjem uma cama, em vez de estragar comida desta maneira.

2. Um irmão meu, que estudou arquitectura na Faculdade do Porto, contou-me uma frase que um professor disse, e nunca mais esqueci, porque gosto mesmo muito da força da imagem: "ponham os tomates no estirador!"
(parabéns, acabaram de ganhar um novo critério para avaliar a qualidade arquitectónica de uma casa...)

3. Parece que os tomates gregos apreciam Wagner.



(é um documentário engraçado sobre a vida numa aldeia cada vez mais deserta, e as pessoas que trabalham a fazer conservas várias com os tomates daquela terra)

12 novembro 2019

foi preciso chegar a meio século bem medido para aprender estas coisas sobre criação de tomate, ou: "tomate" (2)

 (colheita diária em 2018)
 (colheita diária em 2019)

(2019 - ao menos a rúcula cresceu como erva daninha)

O que comecei a aprender sobre tomates em 2018:

1. Os roxos são mais resistentes.

2. Não devem ser tratados com paninhos quentes antes de se porem ao ar livre, para o choque térmico não ser demasiado grande.

3. Devem ser manuseados com luvas - ou então, convém limpar a pele a toalhas verdes ou escuras, para as nódoas não serem tão visíveis. As nódoas saem facilmente na lavagem.

4. Em Julho é melhor não os perder nunca de vista.

5. Tomates de estufa não fazem bons molhos (bem, esta aprendi há mais de trinta anos, quando passei o primeiro verão na Alemanha: quis fazer um belo de um arroz de tomate, e saiu-me uma coisa esbranquiçada e sem sabor. Avisei logo os amigos portugueses que os tomates alemães não funcionam. Riram-se muito, vá-se lá saber porquê...)

E assim ia a vida, plena de aprendizagens, quando chegou 2019 e o seu verão completamente louco, e me trocou todas as voltas. Se o aquecimento climático continua por este caminho, só sei que nada sei e que vou ter muito trabalho com a minha plantação de Março a Outubro.

Agora, muito a sério: este ano não correu muito bem no meu talhãozinho de terra por trás de casa: com a excepção dos figos, fantásticos, e dos marmelos, inúmeros - nem morangos, nem tomates, nem damascos, nem cerejas, nem maçãs, nem pimentos, nem feijão, nem pepinos, nem batatas. As framboesas começaram bem, mas secaram. Olhava para aquela tristeza de plantas e pensava no que poderá acontecer à escala nacional ou global, se por causa das alterações climáticas não soubermos tirar da terra os frutos que nos alimentam.


"tomate"

Hoje, a palavra mágica na Enciclopédia Ilustrada é "tomate".
Não sei, mas algo me diz que me vou desgraçar (de vez). Já me aconteceu um post, e provavelmente ainda virão outros.



Estou aqui a contar os posts até alguém ousar falar do plural de #tomate. :)
Se mais ninguém tiver coragem, pois lá terei de ser eu. Deixam sempre para mim os posts mais trabalhosos... ;)

Mas antes de me aventurar nas folias, deixem-me falar-vos daquele momento estranho em que na mercearia a freguesa pede "um molhinho de agriões, dois quilos de maçãs, um quilo de bananas, meio quilo de peras, 250 gramas de morangos e dois quilos de, ahem, tomate".
É o momento em que nos entra um elefante para dentro da loja. Porque é que não se diz logo "tomates", se é tão óbvio que, ao usar o singular ao contrário dos outros casos todos, justamente por evitar nomear essa outra coisa é que ela se torna tão mais presente?
 
É como os que escrevem P*** ou C***. Se toda a gente sabe o que estão a dizer, porque é que não dizem por extenso? No caso do C-asteriscos até tem a vantagem de nos poupar o trabalho de ir contar os asteriscos para saber se queriam dizer "cona", "caralho" ou "colhão". E consoante o caso ainda nos deixa na dúvida: se calhar era "colhões"? 
 
Já no caso da mercearia, não há dúvida: se a freguesa estiver na zona dos legumes e pedir um quilo de tomates, quer comprar um quilo daqueles frutos de cor vermelha e pele lisa. Se estiver no talho, quer túbaros. 
 
Vá, descompliquem.

("Mas antes de me aventurar nas folias", disse ela... Hihihihi.) 
 
 

"Em que estás a pensar, Helena?"

Estou aqui a pensar: daqui a cem anos, a Arte Contemporânea vai-se chamar Arte Contemporânea?

Estou aqui a pensar: será que vai acontecer ao "contemporâneo" o que o Portas fez ao "irrevogável"?

Estou a pensar: será que quem inventou o nome "Arte Contemporânea" era um fiel crédulo do calendário Maia?

(para a próxima, facebook, não perguntes o que estou a pensar)

(especialmente hoje: pressinto que é um daqueles dias em que podia arranjar de pensar meia dúzia de disparates por minuto, pelo menos)


11 novembro 2019

histórias do muro de Berlim no verão e no outono de 1989



(foto de autor desconhecido, fotografada numa das exposições comemorativas do 30º aniversário da queda do muro)


Este fim-de-semana o meu coro saiu de Berlim para preparar intensamente o concerto do Requiem de Mozart que vamos ter daqui a duas semanas. Estava fora de causa não participar nesta saída, mas aceitei contrariada. Logo na altura em que Berlim comemora os trinta anos da queda do muro!

Para não se perder tudo, sugeri que as pessoas se apresentassem dizendo não apenas o seu nome, mas também onde estavam no dia 9.11.1989. E depois regalei-me a ouvir as histórias deles: na fila para o jantar, no café, nos passeios, ao pequeno-almoço...

Tentando repetir de memória o que me contaram, começo pela cantora que na altura tinha cerca de cinquenta anos e vivia em Berlim Leste: um dos seus três filhos já estava na Alemanha ocidental, e a filha tentou também a sua sorte pela Hungria. Antes de partir, disse à mãe que não podia mexer nas poupanças que tinha no banco, para não levantar suspeitas, mas que mal desse sinal de estar em segurança a mãe devia ir buscar esse dinheiro e comprar aquele casaco muito caro com que sonhava há anos. E assim se fez. Passados uns tempos, a própria mãe começou a pensar ir juntar-se à filha. Mas sentia uma certa relutância, porque ainda tinha em Berlim Leste um filho e uma nora prestes a serem pais. Eles riram-se: "vai para o outro lado, até nos dá jeito ter uma avó que sabe bem aquilo de que precisamos, em vez de nos mandar farinha e outras palermices como fazem os outros parentes que lá temos". Ela pediu um visto para ir fazer férias na Hungria, combinou com a filha um ponto de encontro nesse país, e deu ao filho a televisão e outras coisas mais valiosas, porque sabia que o Estado ficaria com todo o recheio da casa. Na véspera de sair para as férias uma colega avisou-a em tom jovial que o chefe tinha comentado que ela ia à Hungria e não voltava. Soube ler nas entrelinhas - "eles estão de olho em ti!" - e meteu na mala apenas o indispensável para os dias de férias que estavam previstos na documentação. Conseguiu sair da Alemanha, encontrar-se com a filha que a viera buscar de carro, e pedir ajuda na Embaixada em Budapeste. Alguns dias mais tarde faziam parte de uma enorme coluna de autocarros que levava todas aquelas pessoas para a Áustria. Quando viram o helicóptero da imprensa por cima delas, a condutora acelerou quanto pôde para escapar ao grupo e às câmaras dos jornalistas. Como o seu carro era de marca ocidental e matrícula alemã, conseguiram passar sem serem filmadas nem entrevistadas. Não queriam nada disso.
Os primeiros tempos na Alemanha Ocidental foram muito duros. Ninguém lhe queria dar trabalho, e ela teve de aprender a jogar com regras novas. Quando finalmente arranjou um emprego - para o qual era claramente sobre qualificada - e um apartamento na casa de uma senhora de idade que queria ter por perto alguém de confiança com conhecimentos médicos, pensou que podia finalmente refazer a sua vida. Mas por pouco tempo. Os vizinhos começaram a comentar e criticar tudo o que ela fazia, e eram tão invasivos e verbalmente agressivos que ela rapidamente concluiu que tinha de sair dali o mais depressa possível.
Entretanto o muro caíra, mas ela não teve pressa de voltar a Berlim Leste. Sabia que os vizinhos e muitos dos seus conhecidos estavam ressentidos com ela por ter abandonado o barco de todos.
Entretanto, o seu apartamento em Berlim acabou por não ser esvaziado pelo Estado, mas pelo próprio filho. No verão de 1989 havia tantas dessas moradas abandonadas na RDA que o Estado não conseguia tratar de tudo. Ainda agora, trinta anos mais tarde, se calha de ela abrir um armário na casa do filho, depara com algumas das melhores louças que vieram da casa dela. "Mas nem pensar em pedir-lhes que mas devolvam!", rematou.

Umas semanas antes da sua fuga, outra colega do coro, na altura com 19 anos, decidiu acompanhar a mãe e o irmão na tentativa de passarem a fronteira da Hungria. Os pais eram divorciados, e a mãe proibiu-os de contarem ao pai. Na véspera da partida, este encontrou-se com os filhos para combinarem as férias que iam fazer uns dias mais tarde, e ela mentiu o melhor que pôde. Depois de se despedirem, passou a noite a chorar com vergonha daquela traição. Em Budapeste, pediram ajuda na Embaixada e foram enviados para um campo de acolhimento de pessoas em fuga, onde ficaram alguns dias. Uma manhã descobriram que em todos os carros da RDA havia um folheto no pára-brisas informando que ia haver junto à fronteira um piquenique para a paz. "Só pode ser uma armadilha da Stasi", pensaram eles, alarmados, e decidiram fugir quanto antes. Apenas com uma bússola e a roupa que tinham no corpo, atravessaram florestas e campos em busca da fronteira com a Áustria. Além de ser uma caminhada extenuante, temiam ser apanhados por polícias húngaros, feitos prisioneiros e repatriados. Finalmente conseguiram entrar na Áustria. A sensação de alívio deu rapidamente lugar à de indigência: "é horroroso estares num país estrangeiro e só teres de teu a roupa e os sapatos que levas". Telefonou ao pai, para contar onde estavam, mas ele já sabia: tinha-os visto na televisão.
Odiou a RFA. Um enorme choque cultural - e a sua sensação de estar no lado errado do mundo viria a reforçar-se quando foi passar umas semanas nos EUA, em Los Angeles. Sentia uma saudade enorme do pai e da vida que tinha sido a dela no Leste. Começou a meter os papéis para poder ir visitar o pai em Berlim Leste, mas recebia sempre resposta negativa. Até que - finalmente! - recebeu autorização para entrar na RDA, com data marcada para o dia 11 de Novembro.
No dia 9 de Novembro estava no seu apartamento em Berlim Ocidental, mas não foi para a rua. Ficou em casa, junto ao telefone, à espera que o pai lhe dissesse por onde ia entrar. Mas o pai ligou a um irmão seu, em vez de ligar aos filhos. De modo que ela passou a noite toda em casa, sempre à espera.
(Mas já lhe perdoou há muito.)

Mais algumas das histórias que me contaram:

O filho de uns amigos, que tinha 18 anos, e tentou atravessar sozinho a fronteira da Hungria. Conseguiu, mas quando chegou à Áustria ficou cheio de saudades dos amigos que deixara para trás, e - "coisas que se fazem aos 18 anos" - resolveu regressar. Foi aí que o apanharam, o prenderam e o repatriaram: para as longas garras da Stasi.

O marido de uma das minhas colegas de coro vivia em Kreuzberg e trabalhava em Wedding (ambos bairros de Berlim Ocidental). O muro obrigava-o a dar uma volta enorme pela cidade. Uns dias depois do 9 de Novembro, ele próprio rebentou uma porta no muro que ainda estava fechada, para poder ir trabalhar pelo caminho mais directo.

Duas pessoas do coro, da Alemanha Ocidental, não sabiam onde estavam nessa noite. Uma porque tinha um desgosto de amor tão grande que apagou todo o resto. Outra porque não captou o significado histórico do momento. Lembra-se bem onde estava quando começou o massacre de Tiannamen ou quando começou a primeira guerra do Golfo, mas não tem nenhuma ideia sobre o que estava a fazer no dia 9.11.1989.

Já outra, também de Berlim Ocidental, sabe muito bem: estava a dormir. No dia seguinte, ao acordar, o marido comentou que cheirava a Trabi. Ligaram o rádio, e foi assim que ficaram a saber.

Uma outra era estudante em Berlim Oriental. Soube da queda do muro, mas ficou em casa a estudar. "Primeiro, o dever!", comentou ela com um sorriso de auto-ironia. No dia seguinte estava na Universidade como habitualmente às oito da manhã, mas as salas estavam praticamente desertas. "Bem, sendo assim, vou também..." - e foi.

O testemunho mais inesperado e que mais me deu que pensar foi o de uma mulher de Berlim Leste que contou que no dia 9 de Novembro tinha a filhinha a dormir, e resolveu ficar em casa. No dia 10 de Novembro, que era sexta-feira, também não sentiu grande necessidade de ir espreitar o Ocidente. No dia 9, um casal conhecido dela deixara o filho de três anos em casa a dormir, e fora durante a noite ao outro lado. O miúdo acordou, viu-se sozinho, e saiu para a rua escura e deserta, para ir pedir ajuda a uma tia que morava umas casas à frente. Gagueja desde então. Ela e o marido só uns dias mais tarde atravessaram o muro. Foram recebidos por um grupo de pessoas de Berlim Ocidental que ofereciam bananas aos do Leste, e sentiu-se insultada. Como se eles não tivessem bananas do outro lado do muro, como se precisassem daquelas esmolas... "Como quem atira bananas aos macacos no zoo?", perguntei eu. "Ora, no zoo já eu me sentia há muito. Morava muito perto do muro, e sempre que ia com a minha mãe à padaria havia alguém do outro lado a espreitar-nos usando binóculos. A minha mãe comentava que faziam de nós macaquinhos no zoo."
Ouvia, e comecei a juntar peças: morava perto do muro - algo geralmente possível apenas para as pessoas mais fiéis ao regime -, não tinha vontade de ir espreitar o outro lado, e sentia como insulto o que os do Ocidente faziam...
Por outro lado, pensei no que eu própria fiz quando visitei Berlim na Páscoa de 1989: também eu observei despudoradamente as pessoas do outro lado. A imagem dos animais do zoo era muito certeira, e espelhava bem a minha atitude de então.

Algumas colegas de coro tentaram adivinhar quem era wessi e quem era ossi. Chegada a minha vez, decidiram: europeia!
Mas tive de as desenganar. Na Alemanha sou wessi. Tenho socialização de wessi, e tenho comportamento de wessi. Até sou uma daquelas pessoas que compraram na antiga RDA uma bela casa meio em ruínas, a arranjou e foi viver nela.

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Regressámos a Berlim ainda a tempo de passar pela Porta de Brandeburgo. O "céu sobre Berlim" estava muito mais baixo que quatro dias antes, e as pessoas andavam numa azáfama alegre a escrever a sua mensagem naquelas fitas.