17 outubro 2019

até ao pescoço (2)


Estes que morrem no mar pagaram fortunas à máfia que os mete num barco a caminho da Europa. Alguns dos que conseguirem chegar à Europa continuarão a dar muito a ganhar à redes criminais organizadas: se não receberem o estatuto de refugiado, a máfia ajuda-os a ficar ilegalmente na Europa, empregando-os - por exemplo - em explorações agrícolas, desempenhando tarefas que são necessárias mas poucos europeus querem fazer. Muitos deles pagam metade do seu salário à organização que os esconde.

Como se as condições de vida e de trabalho destas pessoas não fossem suficientemente horríveis, há casos de mulheres obrigadas a ter relações sexuais com o detentor de algum cargo de poder - por pequeno que seja - para garantir o alojamento e o posto de trabalho. Elas sujeitam-se: há dívidas para pagar, há uma família lá longe que precisa desesperadamente do dinheiro que lhe conseguem mandar regularmente.

E porque é que eles querem vir para a Europa, sabendo o destino cruel que provavelmente será o seu? De que fogem eles?
Fogem dos horrores que resultaram da desestabilização do Iraque devido àquela guerra de invasão que foi iniciada com a cumplicidade de Portugal. Fogem de regiões em processo de desertificação resultante do desequilíbrio da Natureza provocado pelos standards de consumo e poluição dos países ricos. Fogem de países africanos a sofrer ainda as terríveis convulsões resultantes da sua herança colonialista.

Estamos metidos nisto até ao pescoço. Mas não vemos, porque somos peritos na arte de não ver.

Algum dia, contudo, teremos de abrir os olhos, teremos de ver e decidir. Talvez quando o fluxo de pessoas que procuram na Europa um porto de abrigo se tornar incontrolável, talvez quando o poder das máfias que vivem deste negócio (de momento, são cerca de seis mil milhões de euros por ano) se virar com toda a força contra nós.

Como evitar dar ainda mais dinheiro e poder às máfias, um poder que haveremos de pagar muito caro? Elementar: secar-lhes a fonte do rendimento, tornar o seu trabalho supérfluo. Mudar as regras do jogo de modo a que as pessoas possam viver em paz e prosperidade no seu próprio país, e garantir um transporte seguro àqueles que precisam realmente de se refugiar na Europa.

Talvez tenha chegado o momento de experimentar um pouco de decência.
Porque as experiências de indecência que temos feito - o pacto com o Erdogan ou com países do Norte de África para manter os refugiados longe da Europa - além de representarem uma traição dos valores que dizemos serem os europeus,
também nos custam muito dinheiro. Com resultados que ficam muito aquém da despesa e da vergonha em que incorremos.

the Trump Era


Quando uma pessoa lê uma carta assinada pelo Trump e não sabe - não sabe mesmo! - se se trata de um documento real ou de uma sátira: isso é "the Trump Era".

Ou, como alguém dizia algures nas redes sociais: the Trump Error.


15 outubro 2019

ar fresco

Esta semana tenho no apartamento do rés-do-chão uma família com filhos adolescentes.
Ao contrário da esmagadora maioria dos miúdos desta idade, estes, quando falam comigo, olham-me nos olhos e abrem a cara toda num sorriso genuíno.
O bem que faz! Quase me dá vontade de inventar pretextos para falar com eles, e saborear mais uma vez o milagre daqueles sorrisos.

Há dois anos tive uma família suíça com duas meninas de 7 e 9 anos, que ficaram um mês inteiro a aprender alemão. Sempre que entravam no jardim olhavam para cima, para a janela do meu escritório. Se me viam, e eu a elas, acenavam. Encantadoras.

Temos recebido outras famílias com crianças que também cumprimentam, mas apenas por boa educação. Boa educação já é melhor que nada, claro, mas não é aquela espécie de ar fresco nas relações sociais que torna certas pessoas especiais e inesquecíveis.

Estas diferenças que vou observando no trato das crianças e dos jovens que nos visitam levam-me a olhar para as nossas experiências como família: penso na satisfação do Matthias, aí pelos sete anos, na festa do 70º aniversário de uma vizinha: sentado à mesa, a conversar naturalmente com o bando de irmãos da aniversariante, e a sair da festa muito feliz e orgulhoso por causa da longa troca de ideias que tivera com todos aqueles adultos. Penso na Christina também por essa altura, sempre atenta aos colegas de nível social mais desfavorecido - não para lutar contra a injustiça da marginalização mas por se interessar realmente por eles. E lembro-me de um chefe da UCSF que adorava os nossos filhos porque gostavam muito de conversar com ele. Um dia que um deles queira experimentar a UCSF, encontra lá um aliado conquistado por mérito próprio na altura em que andava na escola primária, ou antes ainda.

Parece-me que a simpatia e a empatia não se ensinam, e não será com certeza falha dos pais se os miúdos adolescentes forem demasiado tímidos para suportar o olhar de estranhos. Mas aqueles que abrem a cara em sorrisos luminosos, aqueles que oferecem um olhar atento à pessoa que está à sua frente - esses terão com certeza um caminho muito mais fácil, porque ainda antes de dizer a primeira palavra já conquistaram o interlocutor.

Todos nós preferimos ar fresco.

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Sobre os miúdos que nem sequer têm a boa educação de cumprimentar, pergunto apenas: será que os pais têm ideia das portas que se fecham no futuro dos seus filhos pelo simples facto de não terem tido a perseverança e a firmeza de lhes ensinar o básico das relações sociais?

Acredito que as regras de cortesia são a melhor estratégia para fintar a timidez: saber o que é esperado de nós em cada situação livra-nos do embaraço de tentar inventar um comportamento adequado perante estranhos.


12 outubro 2019

ah, é apenas a minha opinião, e tenho direito a ela...

Amanhã vai haver uma marcha em Berlim contra o anti-semitismo e o racismo.
Muito simbolicamente começa na Bebelplatz: a praça no centro de Berlim - entre a universidade, a biblioteca, a ópera e a catedral católica - onde os nazis queimaram os livros em 1933.

Alguns dirão: pois, lá está - queixam-se da fogueira de livros dos nazis, mas querem fazer o mesmo. Querem impedir os outros de dizer o que pensam.

Quem assim fala ainda não percebeu que não se trata de uma questão de simetria. "Racismo" e "respeito pelo ser humano" não são opiniões de valor igual e que merecem igual respeito. Não é uma questão de concordar em discordar, e muito menos de tentar encontrar um consenso - trata-se de respeitar valores básicos para a coexistência pacífica entre todos.

Lembram-se do Walter Lübcke, o político que foi assassinado este ano?
Eis a história completa (pode-se ler mais aqui e aqui, em alemão): em 2015, na altura em que os refugiados sírios entravam no país aos milhares por dia, foi necessário criar rapidamente centros de acolhimento para todas essas pessoas. Em cada região foram identificados edifícios devolutos que pudessem ser usados para esse fim, e fizeram-se sessões de esclarecimento com os cidadãos. Numa dessas sessões, no dia 14.10.2015, Walter Lübcke tentava explicar às pessoas o que ia ser feito, mas o seu trabalho estava a ser muito dificultado por agitadores de extrema-direita que se tinham espalhado por toda a sala, que o interrompiam gritando "Estado de merda" e "governo de merda" e atiravam perguntas provocatórias e polémicas. A certo momento, Walter Lübcke louvou o trabalho das escolas, do voluntariado e das instituições que trabalham em conjunto para transmitir os valores essenciais desta sociedade, disse que dá gosto viver num país que se identifica com eles, e - irritado com os gritos e as provocações - rematou: "e quem não defende estes valores, está à vontade para se ir embora do país se não concordar".
O vídeo deu a volta pela internet com títulos como "ser alemão não é crime".
Quatro dias depois festejava-se em Dresden o primeiro aniversário da Pegida, e um dos oradores comentou, a propósito deste incidente, que haveria com certeza outras maneiras de tratar os alemães que não concordam com a política de integração, mas infelizmente os campos de concentração estavam momentaneamente fora de serviço. Mais tarde foi obrigado a pagar uma multa por discurso de ódio.
Entretanto, um vídeo manipulado (onde se ouve esta frase sem o contexto provocatório em que ocorreu) multiplicava-se pela internet, acompanhado por inúmeros comentários violentos. O blogue  "Politicaly Incorrect" publicou a morada, o número de telefone e o endereço de e-mail de Walter Lübcke. Ao longo dos anos seguintes, políticos de extrema-direita divulgaram este vídeo repetidamente numa estratégia de auto vitimização. Até que no dia 2 de Junho de 2019 um homem se dirigiu à casa de Walter Lübcke e o matou com um tiro. Era o homem que no fim deste vídeo se ouve a gritar "Verschwinde!) ("desaparece!")
A notícia do assassinato do político foi acolhida em certas partes da internet com comentários de júbilo: "uma ratazana nojenta a menos!", "agora só faltam os outros todos", "a guerra ainda mal começou".




Aqui está o comunicado do convite para a manifestação de amanhã em Berlim, em inglês. Sublinhados meus.



#KeinFussbreit (= não ceder)

Antisemitism and racism kill. Right wing terrorism is threatening our society.

The right-wing terrorist attack in Halle leaves us stunned and makes us angry. We commemorate the victims. Our thoughts turn to all members of the Jewish community, all affected people, relatives of the victims in and around the snack bar and at the further targets of the attack, as well as to all those who have long since ceased to feel safe.

Two people were killed in the terrorist attack. The members of the Jewish community have only just escaped a massacre. By now it is evident, that the perpetrator acted based on antisemitic and racist motives. He may have committed the crime alone, he is therefore not a lone perpetrator - the crime stands in the following context:

Jews, Muslims, People of Colour and all those who don’t fit into the inhuman conception of the world of the (extreme) Right, can no longer feel safe and secure
• More than 200 people have been killed by right-wing violence since 1990 in Germany
• Consolidated militant Nazi structures, the NSU network and right-wing networks in German security agencies
• Lack of willingness to elucidate and bring about justice, as recently experienced in the NSU Complex and in other radical right acts of violence
An unceasing trivialisation of the right-wing danger and a defamation and obstruction of democratic, civil society and antifascist engagement
and an advancing normalisation of antisemitic, racist and inhuman mindset in parliaments, media and the general public

We view this act as an attack on our society! A society in which we are committed to defend social and human rights and in which all people should be able to live a self-determined life free of fear.

Antisemitism, racism and any form of group-based discrimination are not mere opinions that a democratic society must endure. They lead to inhumanity, humiliation, discrimination and violent crime. We stand united and oppose this resolutely.

In this difficult hour, we stand together in solidarity and above all: indivisible!
We demand a consistent and complete resolution of all right-wing criminal acts of violence!
We call on everyone to show solidarity!
We will not allow ourselves to be played off against each other.
Together we express our grief, anger and compassion. On Sunday, October 13th we will walk from the Bebelplatz in Berlin-Mitte to the New Synagogue in the Oranienburger Straße.

This call was initiated by people, activists and organisations from the #Unteilbar alliance. We invite all people, groups and alliances who are committed to the demands and principles of the call to join us. The demonstration was registered together by #unteilbar and the Jewish Forum for democracy and against antisemitism – JFDA.

11 outubro 2019

até ao pescoço



A Turquia invade território curdo, e Erdogan ameaça a Europa (0:53):

"Ó União Europeia, se tentarem classificar a nossa operação como uma invasão, a resposta será muito simples: vamos abrir as fronteiras, e enviar 3,6 milhões de refugiados na vossa direcção."

Dá vontade de responder: não mandem, nós vamos buscar.
3,6 milhões em 500 milhões não chega nem a 1%.

Mas não: metemos o rabo entre as pernas, e assistimos caladinhos à invasão da Turquia.
Estamos metidos neste crime até ao pescoço.

o poder das palavras e a violência de extrema-direita (1)

Traduzo e partilho aqui algumas frases importantes do debate que neste momento decorre na Alemanha sobre o poder das palavras e a violência de extrema-direita, no contexto da tentativa de massacre numa sinagoga alemã a 9.10.2019.

Destaco uma delas, que é um elemento fundamental neste debate:

"Em Halle houve um atentado realizado por um homem só, mas que não estava sozinho. O simples facto de ter um capacete com uma câmara revela que estava a comunicar com um público real na internet."

Um atirador a filmar um massacre em directo para a internet mostra que esta é muito mais que apenas um espaço de opinião. O lugar de verbalização é simultaneamente o lugar de formação de comunidades de tal modo sólidas que há quem decida criar factos (massacres!) para servir o sangue de que essa comunidade se mostra sedenta.

Se isto não é um convite - melhor dizendo: um ultimato! - a repensarmos todas as nossas teorias sobre a liberdade de expressão, não sei que mais será necessário para finalmente abrirmos os olhos.

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Dirk Kurbjuweit: Há espaços do pensamento e da fala que estão ou abertos ou fechados. É melhor que alguns fiquem fechados, porque entrar neles é indecente ou, por vezes, perigoso. Nos últimos anos políticos da AfD têm feito muito para abrir dois destes espaços e atrair outros para entrarem neles.
Esses dois espaços de pensamento estão ligados a este atentado. O primeiro é o desprezo e a falta de consideração por quem é entendido como "outro". (...) O segundo é a banalização do nacional-socialismo. (...) Abriu-se de novo um espaço no qual já não é tabu dirigir um olhar suave ou aprovador ao período mais terrível da História alemã, um período de assassínios em massa.
O atacante de Halle movia-se nestes dois espaços, que estão ligados: há algumas coisas boas no nazismo, acredita que o Holocausto é um boato, os judeus são para ele "os outros", que ele odeia. E então, fez algumas armas e começou a disparar.
Estes espaços já existiam antes da AfD. Umas vezes as portas estavam mais bem fechadas, outras vezes pior. De momento estão escancaradas, e tem muito a ver com a AfD.
É esta a responsabilidade deste partido no atentado de Halle.

Marina Weisband: Nós começamos por falhar na tarefa de impedir a violência verbal. Na internet, no parlamento, em debates na televisão. (...) Há que lutar contra a teimosia de afirmar que o anti-semitismo é sobretudo muçulmano - não aceito que as minorias sejam jogadas umas contra as outras. (...) O nosso inimigo é o ódio. Não lhe podemos dar palco."

Max Czollek: A seguir ao ataque, Annegret Kramp-Karrebauer falou em "sinal de alarme". Mas isto não é um caso de alarme, isto é uma catástrofe. "Sinais de alarme" era quando deixavam metades de porco em frente a sinagogas, quando ofendiam pessoas nas ruas, e quando um político disse que o III Reich não passou de uma caganita de pássaro na História alemã. Aquilo a que agora assistimos é a tempestade sobre a qual temos andado a avisar. Nós, os que andámos há anos a chamar a atenção para o perigo do terrorismo de direita: os sinais que recebemos da célula neonazi NSU, do assassinato de Walter Lübcke, dos êxitos da AfD, da caça ao homem em Chemnitz e dos centros de refugiados em chamas. (...) Em Halle houve um atentado realizado por um homem só, mas que não estava sozinho. O simples facto de ter um capacete com uma câmara revela que estava a comunicar com um público real na internet.  O nazismo e o ódio, que passam facilmente da cruz eleitoral para a aniquilação do "outro" são parte deste país. (...) Os judeus também estão no radar destes novos-antigos racistas. Quem quer uma Alemanha sem muçulmanos também a quer sem judeus. (...) A nossa direita, da qual a AfD é um sintoma, representa uma ameaça para todas as pessoas que não forem entendidas como "alemãs". (...) A ideia de que o antifascismo e o antiracismo são elementos básicos do interesse nacional da Alemanha após 1945, ou seja, que a esquerda e a direita não estão à mesma distância do centro político pós-nacional-socialismo, não corresponde à atitude política actualmente dominante. Mas devia.
Porque se, em 2019, este país não se baseia num consenso antifascista - então, não sei em que se pode basear.



dar a palavra aos cientistas

Há muitos, muitos anos, levei os miúdos à sala nobre da Universidade para assistirem à dissertação do pai no final das suas provas de doutoramento. Ia a dissertação nos primeiros minutos quando o Matthias, de seis anos, encostou a boca ao meu ouvido e sussurrou: "mãe, há algumas coisas que não entendo. Por exemplo: o que é pH?"

Penso nessa cena quando vejo pessoas a fazer afirmações peremptórias sobre o aquecimento climático, baseando-se em frases de algum famoso ou em filmes que encontraram no youtube para provar por a+b que isto não é bem como "os do lobby do aquecimento climático" dizem. Parecem miúdos de seis anos que ainda não se deram conta de que há assuntos de tal forma complexos que ficam fora do alcance da sua compreensão. É que nem sequer põem a hipótese de haver algumas coisas que não entendem: um filme de 15 minutos no youtube, combinado com uma boa demão de teorias da conspiração, e eis o pessoal a acreditar que sabe mais do que praticamente todos os investigadores científicos juntos.

Em que momento perdemos a noção do "só sei que nada sei"? Em que momento perdemos o sentido do ridículo que nos deveria impedir de tentar rebater o discurso científico com argumentos encontrados numa página qualquer da internet?

Não tenho a menor vergonha de afirmar que não percebo nada de aquecimento climático. Se quisesse entender o suficiente para poder rebater de forma séria o discurso científico produzido sobre estes fenómenos, tinha de largar tudo o que faço e entregar-me inteiramente ao seu estudo.

E penso também muito naquele letreiro à porta de um consultório médico: "Se veio aqui em busca de uma confirmação das informações do Dr. Google, sugerimos que se dirija antes ao Dr. Yahoo". Que é como quem diz: há níveis diferentes, e cada macaco no seu galho. Não há debate possível entre um cientista e alguém que, por causa de umas coisas que encontrou na internet, pensa que já compreendeu tudo até ao fim.


100 minutos de terror

Para o caso de haver por aí alguém interessado em saber o que aconteceu anteontem em Halle, traduzo partes deste artigo do Spiegel (onde encontrei também a imagem):

Stephan Balliet é acusado de homicídio em dois casos e tentativa de homicídio em nove casos. O Procurador-Geral fala abertamente em "terrorismo" e a ministra da Justiça fala em "ataque terrorista de extrema-direita". 

O que aconteceu:

 
11:54 - SB estaciona o carro perto da sinagoga e prepara o livestream na internet. No carro há quatro armas de fogo e vários quilos de explosivos. Balliet fala para a câmara do smartphone e larga algumas tiradas contra os judeus, os migrantes e o feminismo.
11:59 - SB põe o capacete ao qual prendeu o telemóvel, e conduz até à sinagoga onde se encontram 51 pessoas.
12.01 - Sai do carro e durante vários minutos tenta entrar na sinagoga, mas encontra todas as portas e janelas fechadas. O representante da comunidade judaica assiste a tudo o que é mostrado por uma câmara: "disparou várias vezes contra a porta e atirou vários explosivos, mas a porta não abriu - Deus protegeu-nos!", disse mais tarde ao Spiegel.
12.03 -  Uma mulher que passa na rua dirige-se a SB para criticar o uso que explosivos, que confundiu com bombas de Carnaval, e é morta por ele.
12.05 - Um condutor de entregas domiciliárias quer saber o que se passa com a mulher caída na rua. SB tenta matá-lo, mas a arma não dispara. O homem entra no carro e foge.
12.07 - SB desiste de entrar na sinagoga. Afasta-se no seu carro e descobre mais à frente o "Kiez Döner". Decide que será este o novo alvo, e pára o carro.
12.10 - Ataca o restaurante com explosivos e armas feitas por ele próprio. Dispara à queima-roupa para pessoas na rua, e mata um técnico dentro do restaurante.
12.16 - Quando quer fugir no carro, é confrontado pela primeira vez com a polícia, que atravessou um carro na rua. Dispara vários tiros contra a polícia e atinge o carro. É atingido no pescoço por um tiro da polícia, mas consegue entrar no carro e fugir.

12.18 - SB passa de carro em frente à sinagoga, mas não pára. Não se ouvem sirenes da polícia.
12.22 - Perto da estação dos comboios, SB atira o telemóvel pela janela, e continua na direcção de Leipzig. A polícia perde-lhe o rasto.
Pouco depois das 13.00 - Aparece 38 minutos mais tarde em Wiedersdorf, uma aldeia a 14 Km de Halle. Tem de mudar de carro, provavelmente porque terá dado um tiro no seu próprio pneu. Nessa aldeia tenta arranjar um carro e atira sobre duas pessoas. Rouba um táxi que encontra numa oficina, e continua a fuga.
13.38 - SB vai para a A9 (Berlim-Munique) e depois continua em direcção ao sul numa estrada nacional. Provoca um acidente sem feridos. Às 13.38 a polícia consegue apanhá-lo perto de Werschen, 40 Km a sul de Halle.

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Uma nota à margem - as ruas onde ele andou tinham alguns dos melhores nomes da cultura e do Humanismo alemães: Schiller, Humboldt, Lessing, Goethe, Herder, Wieland. Há obviamente quem resista muito a avançar sobre os ombros de gigantes. 

10 outubro 2019

ataque terrorista em Halle - vídeo com legendas em português



Hoje ensinaram-me a descarregar vídeos, experimentei alguns programas e depois passei mais umas boas horas a pôr as legendas em português.
Estou a ter muito trabalho com esta peça, mas ela merece-o: eis o jornalismo que assume o seu papel de esteio fundamental da Democracia e de uma sociedade com sentido de decência.

 (Se as legendas não aparecerem automaticamente, basta carregar na respectiva caixa, na base do filme.)

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Entretanto, se quiserem saber mais detalhes do que aconteceu ontem (sintetizando e traduzindo rapidamente do Spiegel):

O atacante gravou tudo num vídeo de cerca de meia hora. Inclusivamente os tiros e as pessoas a morrer. Ou as tentativas de arrombar a sinagoga, as exclamações "fuck!" e o nome "loser" que chamou a si próprio. Carregou um Golf alugado com armas e explosivos, matou um homem e uma mulher, feriu outras pessoas, foi ferido pela polícia mas conseguiu fugir. Passou do seu carro para um taxi, e foi apanhado na sequência de um acidente provocado por ele.

Na internet foi encontrado um manifesto com o plano detalhado do ataque, que se acredita ser autêntico. Estava num fórum da extrema-direita. O manifesto anuncia que ele pretende matar "de preferência" judeus. 

Stephan B. vive com a mãe em Benndorf, os vizinhos dizem que é muito reservado e nunca cumprimenta, e que estuda em Halle.

A polícia recebeu as primeiras chamadas a pedir ajuda pouco depois do meio-dia. Nas primeiras imagens do vídeo, num parque de estacionamento, ouve-se a sua voz irritada por as máquinas não estarem a funcionar como ele quer. Quer que o vídeo seja visto no mundo inteiro, e por isso de vez em quando fala em inglês. Faz um discurso de negação do Holocausto, põe o capacete e começa a conduzir. Ouve-se música rap.


Em frente à sinagoga agarra numa das muitas armas que estão no carro e parecem ser artesanais. A seguir tenta arrombar a sinagoga, lança alguns explosivos e mata pelas costas uma mulher que está a passar. 

Desiste ao fim de alguns minutos. Regressa ao seu carro, e cruza-se com um homem. Trocam algumas palavras, e o atacante dispara a sua arma, mas não sai nenhum tiro. O homem consegue entrar no seu carro e fugir.

Mais à frente, o atacante atira um explosivo para dentro de uma tasca de döner, mata um homem que está lá dentro, e atira sobre pessoas que tentam fugir na rua. Depois esconde-se atrás do seu carro e dispara contra os polícias.




ataque terrorista em Halle

Para terem uma ideia de como o atentado terrorista neonazi a uma sinagoga foi hoje tratado na televisão alemã, traduzi (muito a correr) o noticiário Heute Journal de 9.10.2019, que podem ver aqui.

ADENDA: dado que este post continua a ser partilhado, incluo aqui o vídeo já com legendas em português




[0:18 - Reportagem, voz off]
Leipzig, esta noite. Trinta anos depois da noite em que tudo podia ter acontecido, quando 70.000 pessoas temeram que as forças armadas estatais atirassem sobre os manifestantes - o que não aconteceu. A revolução pacífica tornou-se imparável.

[0:43 - Claus Kleber]
Boa noite. No dia que devia ser para celebrar o melhor da Alemanha, foi o pior da Alemanha que dominou as notícias: dois mortos, e pelo menos dois feridos em Halle an der Saale. O plano do autor do atentado era muito pior: o seu alvo era a comunidade judaica de Halle, na sua sinagoga, na festa mais importante do ano judaico, desprotegida e à mercê do assassino e da sua arma automática.

[01:13 - Imagens do ataque, voz off]
A meio do dia ouvem-se tiros em Halle. No bairro St. Pauli, que normalmente é muito tranquilo, uma mulher é morta a tiro perto da sinagoga. Dentro do edifício encontram-se entre setenta e oitenta pessoas. Os judeus comemoram hoje a sua festa maior, Yom Kipur, a festa da reconciliação.

[01:34 - Testemunha]
Atirou primeiro com a caçadeira, depois pegou na outra, que tem um som diferente. (...) Parecia equipado como um polícia, com o equipamento completo de combate, capacete, roupa de protecção, caçadeira, arma automática, granadas que atirou contra as paredes...
- Também ouviu explosões?
- Sim.

[01.56 - Imagem aérea]
A sinagoga é o alvo do ataque. O atacante, um alemão de 27 anos, tenta penetrar no edifício, e filma os seus actos. No vídeo, que decidimos não exibir, nega o Holocausto, fala com desprezo sobre estrangeiros e mulheres. Depois do fracasso deste ataque, mudou de alvo, dirigindo-se a uma loja de döner kebab a cerca de 600 m da sinagoga. Aqui, um homem é morto a tiro.

[02:22 - Porta-voz da polícia de Halle]
O atacante fugiu de carro, saiu de Halle. A polícia conseguiu detectar o carro e prender o homem.

[02:32 - Reportagem, voz off]
Também há disparos numa localidade vizinha, Landsberg. A polícia não confirma uma ligação aos acontecimentos em Halle, mas durante toda a tarde fala de uma "situação de amok". A polícia faz várias buscas domiciliárias em Landsberg. Entretanto o caso já está nas mãos do Procurador-Geral Federal, e a ministra do Interior publica um comunicado: "o que sabemos neste momento aponta para, pelo menos, um atentado de carácter antisemita. Segundo a avaliação do Procurador-Geral Federal, há indícios suficientes de uma possível motivação de extrema-direita."
O presidente de Sachsen-Anhalt interrompeu uma viagem ao estrangeiro e aterrou em Berlim ao anoitecer.

[3:14 - Reiner Haseloff, CDU]
Duas pessoas foram assassinadas, e o objectivo era matar muitas mais. É horrível ter de descrever um acto destes. Para mim é horrível ver esta motivação anti-semita que já se revela, saber que uma comunidade religiosa, concidadãos nossos, não se sentem em segurança, e que alguém os queria matar.

[3:41 - Reportagem, voz off]
A polícia fala de um único atacante, com motivação de extrema-direita, que queria entrar na sinagoga para provocar um banho de sangue.

[3:51 - Claus Kleber]
Já aqui se referiu a existência de um vídeo do ataque. O atacante - supõe-se que à semelhança de quem lhe serviu de modelo - transmitiu os ataques live na internet. Na redacção vimos este vídeo e  analisámos os factos que contém, mas decidimos não mostrar absolutamente nada dele. A vontade de se encenar a si próprio e de auto glorificação é também um dos motivos para estes actos de violência, e não queremos contribuir para isso. Está fora de causa!

[4:22 - Jornalista no exterior ]
- Annegret, ao longo do dia não era certo se se tratava apenas de um ou mais atacantes. Agora já se sabe?
- Ainda não há confirmação oficial, mas tudo indica que se trata de um homem isolado. Pode ter acompanhantes, pessoas que estavam ao corrente do seu plano, mas sobre isso ainda não sabemos nada. O vídeo que ele fez e está agora a ser analisado pela polícia mostra que não tinha mais ninguém com ele, ninguém a usar armas e a atacar a sinagoga. É um alemão de 27 anos, de Sachsen-Anhalt, que vive em Halle.
- Hoje vimos imagens de Halle. A comunidade judaica dá nas vistas? E a sinagoga?
- A sinagoga fica perto do centro antigo de Halle, e é bastante visível. É uma rua aberta, a sinagoga não está escondida. Uma habitante do bairro contou-nos há pouco que passa por lá frequentemente de bicicleta e nunca viu polícia a proteger o edifício. Pergunta-se porque é que justamente hoje, o dia mais importante da comunidade judaica, não havia ali polícia - de momento, esta ausência é objecto de grande crítica.

[6:25 - Claus Kleber]
Ontem à noite teve lugar em Berlim uma conferência dos serviços de segurança e do ministério da Justiça sobre os riscos da extrema-direita e do anti-semitismo, com o título "Justiça e sociedade contra a violência de extrema-direita". H. Funke fez a palestra principal.
- Boa noite, prof. Funke. A partir do que sabemos neste momento, que conclusões pode tirar sobre o contexto e as motivações do atacante?
- Antes de mais, um anti-semitismo assassino. No seu cerne está a ideologia da extrema-direita e dos neonazis na Alemanha e no mundo inteiro, como há um ano em Pittsburgh com um terrível resultado, vinte pessoas de religião judaica assassinadas, ou em Christchurch, onde atacaram uma mesquita e mataram a tiro cerca de cinquenta pessoas. É este o cerne.
- Este atacante, depois de não conseguir entrar na sinagoga, foi para outro lugar, para uma loja de döner, e matou um homem que em princípio não seria judeu. O que parece errático e tresloucado.
- Aparentemente, sim. Mas o cerne é monstruoso: é a misantropia que se revela em ideologias como o anti-semitismo, ou na raiva contra refugiados, ou na raiva à loja de döner e aos árabes.
- Como é que uma sociedade se pode proteger de um delírio que começa por ser praticamente invisível mas acaba por desembocar nesta violência assassina?
- De duas formas: os serviços de segurança - e ontem falou-se muito sobre isso - têm de estar mais conscientes da existência de novos riscos, redes que estão profundamente ramificadas, e em parte são terroristas, ou, como é provavelmente este caso, que trabalham com desvios de comunicação, influência e actos de imitação. Essa é uma questão. Mas a outra questão é que temos de acabar com o discurso de ódio, por exemplo o de um Björn Höcke, que no seu livro programático afirma que quer expulsar milhões de pessoas deste país para fora, e o quer fazer com - cito - "uma crueldade bem doseada, bem afinada". Ou seja: com sadismo. Isto não pode ser, não se pode admitir no espaço público, nos media. Isto destrói não apenas o sentido da moral, mas também a sociedade.
- Se bem entendi, coloca esta acção de um homem isolado em Halle an der Saale, ou seja, na província alemã, no mesmo nível de ataques que vão da Austrália à Noruega.
- É o lado negativo da internet. Uma pessoa vê, e encontra elementos que quer imitar. Este caso lembra Christchurch, mas lembra também Pittsburgh.
- A sociedade vai conseguir resolver o problema desta Hidra e das suas muitas cabeças?
- Ainda não é uma Hidra. Mas está a crescer. Temos o caso do 1 de Setembro de 2018 em Chemnitz, quando houve um encontro partidário nacional que juntou militantes da extrema-direita e hooligans, onde alguns gritaram "Hitler", temos o grupo Revolution Chemnitz, e temos o assassinato de um político, o primeiro cometido pela extrema-direita na História da República Federal Alemã. São tempos perigosos, e temos de lutar contra isso. Ambos: os serviços de segurança, e a sociedade. Só assim conseguiremos controlar o problema, e espero que isso aconteça.

[10:37 - Claus Kleber]
Em situações de perplexidade como estas, os símbolos e os gestos têm um grande significado. A chanceler esteve hoje com a comunidade da Grande Sinagoga de Berlim.

[11:00 - Entrevista com Josef Schuster,  representante do Conselho Central Judaico da Alemanha]
- Herr Schuster, devíamos ter previsto que isto iria acontecer?
- É certo que temos vindo a alertar para um certo temor dos desenvolvimentos e desvios na direcção da extrema-direita, e de um extremismo com potencial de violência. No entanto, não contava com um ataque concreto a uma sinagoga como o que hoje aconteceu.
- Será que nós, a sociedade alemã, o governo alemão, subestimámos alguma coisa, ou falhámos algo nos últimos tempos?
- Já chamei a atenção para o que tem acontecido ultimamente: há linhas vermelhas que estão a ser ultrapassadas, ideias que as pessoas tinham mas não se atreviam a dizer em público começaram a ser aceitáveis. E às palavras seguem-se actos - isto é um facto conhecido, que hoje, infelizmente, se verificou mais uma vez. 
- Frases dessas têm sido alvo de protestos claros por parte do governo, dos media, da maior parte da sociedade, mas aparentemente não está a ser suficiente.
- Não está a ser suficiente, e a isso junta-se um elemento novo em Halle, que foi o que mais me chocou: o atacante não conseguiu entrar na sinagoga graças a uma porta resistente, mas em dias como estes deve haver forças da polícia a proteger as comunidades judaicas. O que é algo que lamento, mas se tivesse estado ali um carro da polícia podia ter-se evitado pelo menos a segunda morte.
- Perguntas que os media e a opinião pública com certeza se farão nos próximos dias. Para além disso: o que é que a sociedade terá de fazer no dia seguinte a este atentado?
- A sociedade tem de fazer algo que é independente deste atentado, e que é fácil - mas se calhar muito difícil. É o conceito de coragem civil. Começa no nível mais simples: quando num café alguém fizer afirmações anti-semitas, racistas, xenófobas, alguém tem de se erguer e dizer "reparaste no que acabaste de dizer? pensas mesmo isso que disseste? parece-te que o que disseste é aceitável?" - é a isto que chamo coragem civil. E se for claro que estas afirmações, que estas opiniões são rejeitadas, é um passo muito importante.

[14:36 ]
O noticiário passa de novo para Leipzig, onde as pessoas celebram os 30 anos do início da revolução pacífica que levou à queda do muro um mês depois. Informam que o horror de Halle esteve no centro dessas celebrações. Mas não vou traduzir, porque isto já vai muito longo.

09 outubro 2019

se Cristo cá viesse...



Se Cristo cá viesse, provavelmente subia a este palco e dava um abraço à Ellen DeGeneres, que soube redizer tão bem, à maneira dela, o essencial da mensagem cristã.


08 outubro 2019

esta semana há circo

Há tempos li um romance sobre as manipulações na comunidade científica que resultam na entrega do prémio #Nobel a um investigador em vez de outro. Mas - cabeça de alho chocho! - já não me lembro do nome do livro, nem do autor, nem sequer do idioma em que o li.

Tenho muitas reservas em relação ao prémio Nobel. Pode ser dor de cotovelo, claro. Se mo tivessem dado a mim...
(sim: já que a tendência tem sido para reduzir o tamanho das peças literárias, depois do teatro, do jornalismo, do conto e dos poemas musicais, bem podiam pensar em mim como expoente máximo dos blogues, justamente agora que praticamente já só sobra o meu; ou então bem podiam pensar nas crónicas - ao menos as crónicas, caramba! - para dar ao Lobo Antunes; e é para não mencionar a originalidade da nudez atroz e involuntária do arquitecto Saraiva, esse estilo único criado por ele e por ele desenvolvido com enorme sucesso e perseverança.) (Algo me diz que acabei de cometer um terrível erro ao juntar o Lobo Antunes, o pateta do arquitecto e esta vossa servidora na mesma frase, mas o mal está feito. Adeus, mundo cruel, senhor juiz compreenda que foi alguma coisa que me deitaram naquele café.) (E depois: porque não alargar os estilos literários aos contextos contemporâneos? Um dia destes ainda haviam de dar o Nobel da literatura a um autor de tuítes...) (Hoje pareço um kamikaze com mola: a largar-se uma e outra e outra vez sobre o alvo.)

Tenho muitas reservas, dizia. Se já é difícil escolher com justiça (a propósito: o que é isso?) o primeiro prémio em literatura nacional, que dizer de um prémio de alcance mundial? Que sabem os senhores suecos da literatura - sei lá - portuguesa, nigeriana, tailandesa? E como decidir qual foi a conquista da medicina (da química, da física, da economia) mais digna de nota?

No final, fica a ideia de uma espécie de Óscares das Academias, da Literatura e da Paz: um espectáculo para alguns se celebrarem, e para animar as conversas de café.
Em suma: esta semana há circo.
Palminhas!

(Mas este ano podiam dar quase todos os prémios Nobel à Greta. A miúda que em 14 meses conseguiu fazer ouvir a sua voz no mundo inteiro, apelando a que os políticos dêem finalmente ouvidos aos cientistas, a miúda que conseguiu fazer-se ouvir, apesar do poderosíssimo lobby dos que querem transformar factos científicos em matéria de opinião: merece todos os Nobel da Ciência. E depois, dêem-lhe também o da Paz. Dêem-lhe o Nobel da Paz todos os anos da próxima década: porque, ao alertar as gerações mais novas para a catástrofe em curso, conseguiu levar este tema para o centro das famílias, criando em muitas uma predisposição para a renúncia voluntária em nome do futuro dos seus filhos, que é fundamental para reduzir as agitações sociais que a luta contra o aquecimento climático pode provocar.)

(Sobra o da Literatura. Se teimarem em não o dar ao Lobo Antunes, olha, dêem-mo a mim. Que não é qualquer um que consegue juntar tantos parêntesis num texto só, para mais escondendo neles o mais importante do que tem a dizer. Que me dizem deste estilo fusion, onde dadaísmo e falsa modéstia se cruzam, heinhe? Sou tão século 21 que já quase se podia dizer 22.)

(Se calhar acabava aqui este post, apesar de a veia do disparate estar a jorrar copiosamente.) (Ou talvez por isso mesmo)

03 outubro 2019

"Ruth" nos Portuguese Cinema Days in Berlin 2019


A mostra Portuguese Cinema Days in Berlin 2019 arrancou com a estreia na Alemanha do filme Ruth e a presença do realizador António Pinhão Botelho.

Podia falar de tudo o que correu bem - a casa cheia, o longo debate com o público no final, as perguntas muito boas que foram feitas ao realizador, as respostas muito boas que ele deu, e mais o seu pedido a uma senhora da assistência "dá-me licença de anotar estas suas palavras para as usar de futuro?", a conversa que se prolongou animada no foyer do Moviemento - mas prefiro focar-me no que para mim vai ficar inesquecível:

- a cara do Tiago Cutileiro quando, depois de apresentar o filme, desenrolou um cachecol do Sporting e o pôs à volta do pescoço;

- o abraço amigo entre este sportinguista e este benfiquista (um benfiquista de pai e mãe!)

Na abertura da nossa mostra de cinema português em Berlim, foi um nunca acabar de golos: Ruth marcou golos, o António Pinhão Botelho marcou golos, a Fátima Lacerda marcou golos, o Tiago Cutileiro marcou golos, o público marcou golos, as Embaixadas de Portugal e de Moçambique marcaram golos, o cinema Moviemento marcou golos, e até o vinho do Porto mandou alguns à trave. Eu marquei um franguito ou dois, mas não interessa: o resultado final foi francamente positivo, e ganhámos todos, pois claro!

No dia 7 é a vez de Raiva, de Sérgio Tréfaut. Um filme que é um nunca acabar de prémios.


27 setembro 2019

à atenção dos portugueses da diáspora

Atenção, portugueses da diáspora:

Se ainda não votaram, tratem disso agora e metam logo o envelope na caixa do correio. Tem de sair do vosso país amanhã sem falta.

As experiências que tenho ouvido:
- É preciso empurrar o boletim de voto para um dos lados do envelope, para poder dobrar a outra extremidade;
- NÃO SE ESQUEÇAM DA FOTOCÓPIA do documento de identificação
- É preciso paciência e cola para fechar o envelope (que é a folha onde se lêem as instruções)


Ah, já agora: o Estado português gastou uns bons milhões a enviar as cartas a cada um de nós, para que possamos participar na vida democrática do nosso país. Esses milhões são dinheiro dos contribuintes portugueses. Eles - contribuintes e Estado - fizeram a parte deles. Temos agora umas horitas para fazer a nossa parte.

Era isto.

the Greta Thunberg Helpline



Às vezes precisamos do humor para conseguir aguentar a fealdade do mundo.




"Drake"

Ontem, a palavra mágica na Enciclopédia Ilustrada era Drake. Mas qual deles/delas?
Nick Drake, Molly Drake, Francis Drake estavam no pelotão da frente.

Escolhi o pirata. Ou melhor: o momento em que descobri que isto de ser ou não ser pirata também é questão de opinião...

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Em Point Reyes, umas milhas a norte de San Francisco, há uma #Drake Bay, e uma placa a informar que Sir Francis Drake ali ficou durante algum tempo quando andava a fazer a sua viagem de circum-navegação. O que me espantou foi o tom comedido e - ouso dizê-lo - elogioso do texto. Não é maneira de falar de um pirata que espalhava o terror por todos os mares do mundo!
No estrangeiro há muitas placas informativas assim: dão cabo dos alicerces das narrativas nacionais.
Para mais, não encontrei na zona nenhuma placa a informar que o nosso fantástico Sebastião Rodrigues Soromenho também por lá passou uns anos depois, quando andava a mapear o mundo. Mas, coitado, foi apanhado por uma terrível tempestade, perdeu toda a sua carga de seda e porcelana, e teve de escapar para sul tão rapidamente que nem reparou na Bay Area para a pôr no seu mapa (mas se calhar passou por lá numa hora de nevoeiro, e por isso é que não viu nada).

Uma década depois de ter recuperado do choque de descobrir que há muito quem não chame pirata ao Francis Drake, fiz umas férias felizes na Costa Rica. O Matthias estava lá a fazer um ano de voluntariado, e nós fomos ter com ele. Um dos momentos mais especiais da viagem foi na Bahía Drake (pronunciar: dráqué). Mas não encontrei lá nenhuma placa sobre o homem, para me informar se ali era pirata ou não.

Caso não tenham mais nada que fazer hoje, e estejam curiosos, podem ler aqui: pura vida.

26 setembro 2019

à atenção dos emigrantes portugueses

Atenção, portugueses no estrangeiro: não se esqueçam de enviar o vosso envelopezinho com o voto e a fotocópia do cartão de cidadão ou do bilhete de identidade!

Já agora, aproveito para deixar uma sugestão àqueles que não querem votar, ahem, no Bloco de Esquerda, e/ou que acham que de qualquer modo não vale a pena votar porque no fim já se sabe que são eleitos dois deputados do PS e dois do PSD: pensem na possibilidade de voto útil. Se votarem num partido mais pequeno (sei lá, por exemplo, ahem, o Livre) contribuem para esse partido atingir os 50.000 votos que lhe permitem o acesso aos fundos de apoio à actividade partidária.

(Agora: pensem na nossa fama, e não dêem o tal voto útil aos nacionalistas, OK? Até o diabo se ria se visse emigrantes a votar em partidos cujo lema principal é "vai prá tua terra!")

(Sobre o Bloco de Esquerda: os seus actos falam por si, e de tal modo que têm alguma probabilidade de eleger um deputado no círculo europeu. Resultado também da tão falada "fuga de cérebros", hehehe, haja ao menos alguma vantagem nas tragédias enormes que nos acontecem)

(Sobre o Livre, e roubando o texto de uma amiga de facebook: o Livre é um partido de esquerda, verdadeiramente ecologista e europeísta. Não há outro com estas características no país. Qualquer dúvida, podem informar-se visitando a página do partido e lendo o programa, bem como o código de ética e os princípios orientadores do partido: www.partidolivre.pt )

"café"

Por terem falado do Majestic, no Porto, é que me lembrei da tragédia dessa casa: só têm #café de saco. Cimbálino que é bom, bai no Batalha (que por sinal fica uns blocos mais à frente).

O pessoal de Lisboa ri-se muito do cimbálino do Porto. Como se a bica deles (será vica? raixparta o acordo ortográfico: se havia de acabar com a distinção entre os vv e os bb, foi meter-se com as nossas ricas consoantes mudas!) tivesse origem mais nobre.

Cimbálino, derivado do nome da máquina que o Majestic escolheu não ter (devem ter muitos amigos, devem, mas hão-de ser todos turistas).

Mudando ligeiramente de foco (e delirando um bom bocado, previno já): antes da globalização dos sabores, bastava o sabor do café para sabermos em que país estávamos. Se o café soubesse a água de lavar a chávena do expresso, era alemão. Se soubesse a água de lavar a chávena do expresso com açúcar, era das pampas dos EUA. Mas depois apareceram as La Cimbali, apareceu o Starbucks, as pessoas puderam tornar-se mais exigentes, e ir por aquelas ousadias do "duplo curto com chávena escaldada se faz favor". Sim, sim, vai pedir isso no Majestic, e já vês o que te respondem.

Cujo Majestic é capaz de voltar a ter ainda mais sucesso justamento por causa do seu café de saco. Sabem aquela coisa do relógio parado que está certo duas vezes por dia? Pois é: anda por aí um movimento revivalista que afirma a pés juntos que o melhor café é o mais simples.

E mais não digo. Desculpem qualquer coisinha, mas é que hoje ainda só bebi uma chávena de palavra mágica.

22 setembro 2019

...e então veio a Greta




Greve pelo clima em Berlim, 20 de Setembro de 2019. Enquanto o governo trabalhava febrilmente para apresentar o "pacote do clima", o centro da cidade enchia-se de manifestantes e muitas ruas eram bloqueadas. A organização diz que havia cerca de 270.000 pessoas. 
Cerca de 270.001, diria eu, que também lá estive. E como custou a chegar! Os transportes públicos estavam a abarrotar de gente com cartazes, foi preciso deixar passar vários comboios até conseguir lugar num.

Tentei chegar à Porta de Brandeburgo, vindo da Potsdamer Platz, mas só consegui chegar ao fim do memorial do Holocausto. Desci pelo meio do Tiergarten, e só na terceira entrada consegui ir para o meio da 17 de Junho.

Um ambiente extraordinário, pessoas de todas as idades (desde os bebés em carrinhos ou ao colo dos pais até ao grupo de idosos muito bem instalado nas suas cadeiras). Havia grupos de infantários, que avançavam dentro de um espaço delimitado por cordas seguradas pelos educadores. Havia miúdos das escolas, havia jovens profissionais a fazer greve nesse dia, havia reformados com os netos. 

A criatividade dos cartazes impressionou-me. Para onde quer que olhasse, havia sempre algum realmente especial. Aqui deixo uma pequena amostra.

"Uma pessoa sozinha não pode mudar nada", dizia metade da Humanidade. E então veio a Greta!"



Grupo de alunos em frente à chancelaria.

 
Uma pequena parte dos manifestantes a avançar na direcção da Friedrichstrasse.





"O caso é realmente grave: o meu chefe mandou-me para a manifestação!"







































"Já era giro ter futuro"
"O que é que devo dizer aos meus filhos?"



"Passem para cá o nosso futuro! Salvem a terra!"








"O nosso futuro está a derreter!"


21 setembro 2019

"volkswagen" ou: o que há num nome

Os meus sogros casaram no princípio dos anos sessenta, e o primeiro carro que tiveram foi um #Volkswagen que, bem vistas as coisas, começou a ser comprado pelos pais de um deles em finais dos anos trinta. Aliás, a ideia já vinha de 1934, quando Hitler disse que era preciso criar um “carro do povo”, um “Volkswagen”. O que há num nome: sempre que dizemos “Volkswagen”, estamos a usar uma palavra muito cara ao regime nazi.

Era importante para o regime manter o povo em estado de boa disposição e confiança no futuro, alegre e contente. Uma medida estratégica para aumentar o grau de entusiasmo pelo regime era criar a possibilidade de as famílias comprarem um carro a preço relativamente acessível, e que conseguisse ir aos 100 km/h nas auto-estradas que começavam a atravessar todo o país. Ferdinand Porsche foi encarregado de preparar um protótipo.

A ideia de fazer um “carro do povo” já tinha ocorrido antes à indústria automóvel alemã, mas os custos de produção tornavam o projecto irrealista. Ora, o regime nazi interessava-se pouco pelos factos. Se Hitler queria, a obra fazia-se. Para isso, encarregaram a organização KdF ("Kraft durch Freude", "força pela alegria" - um dia hei-de investigar os paralelos entre esta "Força pela Alegria" e a FNAT portuguesa) de criar um carro para o povo, a que na altura deram o nome de “carro-KdF”.
E foi assim que em finais dos anos 30 os avós do meu marido fizeram um contrato com a KdF, pelo qual todas as semanas depositavam pelo menos 5 marcos numa conta-poupança especial; quando a poupança atingisse os 750 marcos o nome deles seria inscrito numa lista de espera para receberem o carro.

A fábrica dos carros_KdF começou a ser construída a 26 de Maio de 1938, e pouco depois, a 1 de Julho, deram início à construção da cidade para albergar os operários e as suas famílias, à qual chamaram "cidade do carro-KdF perto de Fallersleben". A guerra começou um ano depois, e as instalações fabris foram usadas para produzir não os carros-KdF, mas outros veículos mais úteis na guerra (os meus sogros dizem que não apenas as instalações foram desviadas para a guerra, mas também o dinheiro poupado).

Em 1945, os títulos de aforro para comprar este carro foram anulados. Em 1948 foi criada uma associação de antigos aforradores do carro-KdF, que agora se chamava “Volkswagen”, com o fim de reaver as poupanças. As hipóteses de sucesso eram muito reduzidas, uma vez que a produtora de automóveis nunca chegou a receber esse capital, porque as poupanças tinham sido depositadas no Banco do Trabalho, que entretanto fora extinto pela administração militar soviética. Apesar de tudo, os esforços da associação tiveram algum sucesso: a Volkswagen fez um acordo com os seus vendedores para estes não cobrarem a percentagem do stand aos compradores que fossem detentores dos títulos de poupança da KdF, o que significava um desconto de cerca de 15%. Os avós do meu marido passaram os seus direitos ao jovem casal, e foi assim que os meus sogros conseguiram comprar o seu carocha (melhor dizendo: o seu primeiro – e único – carro inspirado num design de Porsche). Eles, e mais 63.408 compradores, dos 325.444 aforradores registados em 1942.

No fim da guerra, a cidade que nascera em finais dos anos 30 à volta da empresa “Carro do Povo” trocou o nome: de “cidade do carro-KdF perto de Fallersleben” para “Burgo do Lobo” (Wolfsburg). Ora, “lobo” era um nome que Hitler gostava de dar a si mesmo. Muitos dirão que ali havia um burgo chamado Wolfsburg desde a Idade Média, e é verdade. Mas: ou em finais da guerra não havia tempo nem energia nem cabeça para pensar no embaraço dessa confusão, ou então talvez tenha ocorrido a alguém essa possibilidade, e talvez o antigo nome tenha sido recuperado justamente por alguém ter reconhecido o seu enorme potencial.

17 setembro 2019

"invasão soviética da Polónia"

Faz hoje oitenta anos que começou a invasão soviética da Polónia, ao abrigo de um acordo secreto no âmbito do Pacto Molotov-Ribbentrop de não-agressão entre a URSS de Estaline e a Alemanha de Hitler. É este o tema do dia na Enciclopédia Ilustrada.

O meu contributo:

Quando morava em Weimar tinha uma empregada que era polaca, casada com um alemão da antiga RDA. Ela era muito alegre e conversadora, e eu gostava muito de lhe ouvir as histórias e os comentários sobre um mundo ainda muito desconhecido para mim. Numa dessas conversas contou-me que durante décadas tinha trabalhado na casa de uma família famosa de Weimar, que morava umas casas acima da minha. Tinham um retrato de Estaline no escritório, revelou, e sempre que lhe ia limpar o pó o que tinha era vontade de lhe cuspir em cima.
- A minha mães costumava dizer que, comparados com os soldados russos durante a guerra, os soldados alemães eram uns cavalheiros. Ui! Nem é bom pensar nisso: o que eles faziam às mulheres, tantas atrocidades que cometeram!
- Chamar "cavalheiros" aos nazis é um bocado exagerado, não acha? E então aquela lista que os nazis fizeram, com quase cem mil nomes de intelectuais, médicos, juristas e artistas que deviam ser assassinados após a invasão, para decapitar a sociedade polaca?, perguntei eu.
- Ora, os alemães queriam matar os judeus, e calhou de os judeus serem essa elite...
Com esta é que me calou, que uma pessoa tem de saber reconhecer os sinais da inutilidade de um debate.
Mas hoje, uns bons quinze anos depois desta conversa, fui pela primeira vez ler mais sobre o que foi a #invasão_soviética_da_Polónia, e compreendi finalmente de que é que ela se queixava: massacres como os de Katyn (que a URSS negou até 1990) - deportações em massa para a Sibéria (em carruagens de gado, por vezes com 40 graus negativos) - troca de populações forçada, em grande escala e e em condições terríveis - proibição de os deportados poderem regressar às suas regiões de origem.
Sabemos tanto sobre os crimes nazis, e tão pouco sobre o sofrimentos dos povos/países ocupados pela URSS na mesma época.


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Partilho também um contributo do Cristovam Duarte (penso que retirado daqui):




Mathilde conhece uma jovem freira polonesa que escapou do convento para procurar ajuda médica para uma das noviças. Quando Mathilde, uma mulher sem fé, decide por fim acompanhá-la, encontra uma situação inimaginável. aquando a #invasão_sovietica_da_polonia, os soldados soviéticos invadiram um convento de clausura beneditino e violaram as freiras. E, como se isto não fosse causa suficiente de dor e vergonha, muitas delas engravidaram.
Agnus Dei” é um filme que devia ser visto por todos aqueles que ministram aconselhamentos aos outros.