Manhã de sábado: fui comprar espargos e morangos à roulotte que os vende à entrada da floresta. Uns frascos de compota de morango puseram-se a rir para mim todos oferecidos, e o senhor "têm 75% de fruta", e eu "então levo dois, mas se não for bom venho cá na próxima semana pedir o dinheiro de volta" e ele "vem na próxima semana, vem, mas é para comprar mais dois!"
A senhora atrás de mim riu-se.
Paguei com o cartão, fui para o carro, esperei calmamente que o marido da senhora recuasse um bocadinho com o carro dele para eu poder tirar o meu, ele depois avisou-me que podia sair porque não estava a passar ninguém, agradeci duas vezes, e fui ao resto da minha vida nesta manhã: devolver garrafas, comprar duas ou três coisitas para comer.
Não sei como, mas quando vou dos espargos para o supermercado arranjo sempre de entrar na rua errada, e ter de ir dar uma volta enorme. Diz-se que quem se engana sempre é porque sabe muito bem o que é certo, mas permito-me discordar. É feitiço, só pode ser. Acertei à segunda, devolvi as garrafas, fiz as minhas compras, e quando estava a chegar a minha vez na caixa apareceu a senhora que estivera atrás de mim nos espargos, e avisou-me que o meu cartão não tinha sido aceite. "Se quiser", disse ela, "pode lá voltar e pagar". ("Se quiser" - tão simpática!)
Disse-lhe que sim, claro que ia, e ao ver o marido dela atrás do carrinho apeteceu-me agradecer uma terceira vez, e por isso comentei: "vou, apesar de desta vez não ter ninguém para me ajudar a tirar o carro!"
Eles riram.
Fui salvar o dia ao senhor dos espargos, que ficou muito agradecido. E voltei para casa a saborear ainda mais o verdíssimo verde do meu bairro. Dei lugar ao autocarro para reentrar na rua, depois da paragem, e o condutor agradeceu-me com os piscas.
Mas que bela manhã! Para onde quer que olhasse: gente boa.
Agora: não sei se é Deus, se é o universo, se é lá o quê, mas tenho de reconhecer que existe e dá sinais. Como é possível numa cidade tão grande, depois de todas as voltas que dei, acabar por me encontrar na caixa do supermercado com a senhora que estava a comprar espargos na roulotte à entrada da floresta?