15 junho 2019

"escada"

Do dia em que "escada" foi a palavra mágica na Enciclopédia Ilustrada:






Quando Goethe foi morar para Weimar (aviso já que vos vou levar de passeio por uma espécie de revista Hola do passado) começou por viver aqui e ali (pelo menos a acreditar nas placas que se vêem por todo o lado, porta sim, porta não), e às tantas recebeu do grão-duque uma casinha no meio do parque fora da cidade. A casa até nem era má, mas já se sabe como é que são as mães, e a do Goethe devia ser fresca, porque escreveu ao grão-duque a dizer que até parecia mal, um rapaz de tão boas famílias, a viver naquela espelunca...

Foi assim que Goethe recebeu a sua segunda casa em Weimar, numa praça importante da cidade (enfim, hoje é importante porque tem lá a casa-museu de Goethe, e também porque ficou muito maior depois das bombas de Fevereiro de 1945, destinadas a destruir a casa do escritor mas que acertaram em cheio nos prédios do outro lado da rua). Esta casa tem uma particularidade interessante: são duas. Da rua vê-se a - literalmente - casa de fachada, que servia para receber, mostrar a arte trazida de Itália e outras peças de colecção, e também servia para esconder o edifício de trás, que dava para o jardim com um muro alto, onde Goethe trabalhava e escondia a Christiane Vulpius, sua - digamos - barregã (como se murmurava ruidosamente na cidade).

Na casa de fachada existe (ena, ena, consegui chegar ao assunto em menos de 30 linhas!...) uma #escada muito estranha. Tudo nela parece falso e fora de proporção: a dimensão exagerada para o espaço, a largura do corrimão, as portas e os patamares demasiado pequenos para aqueles degraus tão largos e profundos. O próprio acto de subir as escadas parece estranho: não é bem subir degraus, é mais "passear até ao primeiro andar".

Conta-se que Goethe quis substituir a antiga escada curva barroca por uma à maneira da Itália antiga, que tanto lhe agradava. Fez ele próprio o desenho, inspirado nuns modelitos clássicos que tinha visto durante a sua viagem àquele país, e pediu a um amigo que tratasse das obras enquanto ele ia com o patrão à guerra contra a França. O amigo mandou desfazer as escadas originais e deitar umas paredes abaixo para ter o espaço necessário àquela escadaria, e cuidou de realizar o sonho de Goethe. Que, segundo dizem, ao voltar da guerra entrou em casa, foi direito à dita escada e... nunca mais disse uma palavra sobre o assunto. Mas admito que tenha pensado no Rei Midas, e naquele dito dos antigos gregos: "quando os deuses se querem rir das pessoas, tornam os sonhos delas realidade".

A última fotografia que partilho não é da casa de Goethe - é do palácio do grão-duque, a quem eu chamava "o meu vizinho da frente". É verdade que o palácio ficava numa ponta da rua e a minha casa na outra, mas à noite, quando acendiam as luzes do candeeiro histórico na escadaria, eu acendia também as da minha sala, e até parecia Goethe na sua casa do parque a deixar uma vela à janela para fazer par com a que a Frau von Stein deixava na janela dela.
(Eu avisei que isto era a Hola)

A guerra na França correu mal, depois umas guerras engataram-se noutras e às tantas Napoleão entrou em Weimar e andou pelas escadas do meu vizinho da frente como se fosse o dono da casa. Mas nas escadas de Goethe é que não passeou. Que a casa era de fachada, mas o dono tinha conteúdos. No entanto, algo mudou em Goethe devido à invasão francesa e ao susto de ver a sua casa cercada pelo exército inimigo. Em meia dúzia de dias meteu os papéis e casou com a Christiane Vulpius, com quem vivia há mais de vinte anos.
Acho que se chama a isto "esprit d'escalier": quando a resposta certa vem com demasiado atraso...






14 junho 2019

empatia e ética



Já tinha visto um excerto desta intervenção de Jon Stewart no Congresso. Hoje vi o seu discurso completo. Foram os melhores 8 minutos e 52 segundos desta semana (talvez do mês, talvez de 2019 inteiro).

ADENDA: aqui está a sessão completa - https://youtu.be/FXtFUfobbNc
Se puderem, vejam o polícia que fala antes de Jon Stewart, a 1:23’ 12”.


12 junho 2019

oh pá, estou capaz de rebentar de alegria - se calhar o melhor é ir plantar finalmente as minhas dálias, a ver se acalmo

O caso é o seguinte: ontem à noite avisaram-me que é proibido fazer churrascos no parque Monbijou, onde queremos fazer no próximo domingo a tradicional sardinhada dos portugueses que moram em Berlim.

Telefonei agora aos serviços municipais responsáveis pelos espaços verdes. Atenderam logo. Perguntei se já é permitido grelhar, ou não.
- Está proibido, por causa do calor.
- Mas esta noite choveu tanto, será que podem considerar levantar a proibição?
- Espere um momento, por favor.
- Com certeza.
(passa um momento)
- Espere mais um bocadinho, por favor.
- Sim, sim.
(passa mais um momento, e eu aproveito para espreitar a previsão do tempo: hoje acima de 30 graus, mas até domingo vai baixar para os 21 graus)
- Está? Ouça, hoje e amanhã ainda continua proibido, mas no fim-de-semana podem fazer.
- Oh, obrigada! Pode enviar-me isso por escrito?
- Não. Estamos a preparar uma comunicação para a imprensa, isso basta.
- Óptimo, óptimo. Desejo-lhe um bom dia, nem sabe a alegria que me deu! 
Ela riu-se, e desligou.

O caso é o seguinte: tenho aí algumas centenas de portugueses a preparar-se para o enorme piquenique da comunidade do próximo domingo, e estava a ficar realmente aflita com a possibilidade de ter de cancelar tudo. Mas não: tudo se resolveu com um telefonema breve. Ao enorme alívio junta-se a satisfação de viver num país onde se resolvem coisas destas tão facilmente ao telefone.


(Vou plantar as dálias: sempre é melhor que ficar aqui sentada com a sensação de rebentar de alegria.)
(Não vou nada: já me disfarcei mais ou menos de senhora para ir ali ao lado a uma sessão oficial do Dia da Língua Portuguesa, e já estou atrasada, e lá vou eu, e lá terei de ir com esta minha cara muito alegre.)


já que na "minha bolha" andam todos a falar do discurso do João Miguel Tavares no 10 de Junho...

A Helena Ferro de Gouveia andou a perguntar às pessoas com quem se cruzou na vida real o que pensam do discurso do João Miguel Tavares, e ninguém sabia do que é que ela estava a falar. Pelo que concluiu que estas coisas só acontecem na "bolha". Conclusão que me parece precipitada, porque ainda é preciso saber o que responderiam as mesmas pessoas à pergunta "e que lhe parece o discurso do presidente da República?". Estava capaz de apostar que a resposta delas seria: "que discurso?"
Talvez a conclusão certa seja: as pessoas que se interessam e se informam sobre o que acontece no país encontraram na "bolha" - na minha, pelo menos - um espaço de debate que vai bastante além da conversa de café.

Conversa de café foi, em minha opinião, o que o João Miguel Tavares fez no 10 de Junho. Um café melhorado, com pau de canela para misturar o açúcar, mas o café do costume: uma visão pessimista e ressentida, estrategicamente enviesada para permitir justificar o populismo.

Vejamos:

I.
"Os portugueses lutaram pela liberdade em 1974. Lutaram pela democracia em 1975. Lutaram pela integração na Comunidade Europeia nos anos 80. Lutaram pela entrada na moeda única durante a década de 90.
Não é fácil saber porque é que estamos a lutar hoje em dia."
Conversa de café, chavão 1 - dantes é que era bom, agora está tudo uma desgraça.

Sinceramente, não me dei conta de os portugueses terem lutado pela integração na CEE, nem pela entrada na moeda única. Os políticos decidiram, a coisa fez-se, e nos primeiros tempos foi o festim do costume na nossa longa tradição de enriquecimentos tão pontuais quanto exógenos: depois de ciclos como o das especiarias, do comércio de escravos, do ouro e da prata do Brasil ou, já no século XX, das remessas de emigrantes, vieram primeiro os dinheiros do FEDER e dos outros fundos europeus, e a seguir os empréstimos obtidos facilmente por estarmos na moeda comum. As lutas que o João Miguel Tavares considera positivas e esteios da esperança dos portugueses foram uma fase de decisões políticas (1), digamos, precipitadas, com as consequências desastrosas que hoje sofremos, e foram um regabofe épico para quem pôde (lembram-se de quando chamávamos IFADAP aos Jeep caros?).

Não compreendo porque é que João Miguel Tavares diz que falta agora aos portugueses "um objectivo claro para as suas vidas e um caminho para trilhar na sociedade portuguesa", e que "não é fácil saber porque é que estamos a lutar hoje em dia". Só um olhar profundamente enviesado consegue ignorar os nossos filhos a fazer manifestações para exigir - implorar! - que ponhamos fim à destruição do planeta. Os desafios estão aí, mais prementes que nunca: reconversão energética, reestruturação económica tendo em conta que a proximidade geográfica é de novo um factor importante,  aproveitamento dos potenciais da nossa extensa costa marítima, redução da poluição, redução do risco de incêndio nas áreas florestais num contexto de condições climáticas cada vez mais extremas, aposta nas ligações ferroviárias. Mais ainda: o desafio da digitalização, para o qual os portugueses têm reconhecidas competências. Muito importante também: o desafio de continuar a defender os Direitos Humanos no actual contexto de aproveitamento oportunista e generalizado dos impulsos xenófobos para conquistar poder político - e no qual Portugal tem conseguido manter um lugar de honrosa excepção, o que muito nos deve orgulhar.  

(Pequeno aparte: energias alternativas, aposta na ligação ferroviária internacional e digitalização eram as visões de Sócrates para o país, e tempos houve em que muitos portugueses acreditaram que essas eram lutas que mereciam ser travadas. Mas João Miguel Tavares adora reduzir esse político aos seus piores defeitos (que os tem, sem dúvida), usando largamente o palco que tem e o respectivo poder para condicionar o olhar dos portugueses para o ressentimento e o derrotismo, em vez de os ajudar a separar sabiamente o trigo do joio.)

II.

"Boa parte de nós, talvez julgue mesmo que a política é somente um cenário longínquo, distante da vida que nos importa, que é aquela que está mais próxima de nós. Daí o chamado “desinteresse pela política”. Mas creio que este sentimento é já uma consequência dos nossos próprios fracassos."

Que fracassos são esses?


"Ficámos a um passo da bancarrota. Três vezes – três vezes já – tivemos de pedir auxílio externo em 45 anos de democracia. É demasiado."
Convinha reler o ponto I do discurso, na parte sobre a vida dos portugueses ter melhorado imenso no espaço de uma geração, e consultar alguns dados do Pordata sobre mortalidade infantil, escolaridade, acesso ao ensino superior, esperança média de vida, etc., para concluir o óbvio: a extraordinária mudança para melhor em tantos indicadores da qualidade de vida dos portugueses custou dinheiro - muito dinheiro. Além disso, um desses três pedidos foi em grande parte consequência daquele "maravilhoso" desafio da moeda única (ver ponto I), pelo qual alegadamente tanto lutamos naquele tempo mítico em que sabíamos o que queríamos e por que lutávamos...

Logo a seguir, dá-se um curto-circuito no discurso: parece que os três pedidos de auxílio externo foram directamente canalizados para a corrupção. Já as estradas, os hospitais  e o SNS, o alargamento da escolaridade obrigatória, as universidades e até os concertos nas regiões do interior devem ter caído do céu sem passar pelo erário público...

Ou seja: conversa de café, chavão 2 - eles não fazem nada, e são todos uns corruptos.

Da corrupção passamos à questão do mérito versus cunha:
"O sonho de amanhã ser-se mais do que se é hoje vai-se desvanecendo, porque cada família, cada pai, cada adolescente, convence-se de que o jogo está viciado. Que não é pelo talento e pelo trabalho que se ascende na vida. Que o mérito não chega. Que é preciso conhecer as pessoas certas. Que é preciso ter os amigos certos. Que é preciso nascer na família certa. (...) No nosso país instalou-se esta convicção perigosa: um jovem talentoso que queira singrar na carreira exclusivamente através do seu mérito, a melhor solução que tem ao seu alcance é emigrar. Isto é uma tragédia portuguesa."
João Miguel Tavares fala deste fenómeno como se fosse um problema apenas de hoje, e como se fosse apenas uma questão portuguesa. Nada disso: o movimento de êxodo rural que levou a geração dos meus pais do interior para o litoral deu agora lugar à internacionalização num contexto de liberdade de movimentos no espaço europeu. O novo "litoral" dos portugueses são as regiões mais dinâmicas e apelativas da União Europeia. E nem sequer vão para mais longe do que foram os nossos pais: eu demoro menos tempo a ir de Berlim a Lisboa do que muitas vezes demorava aos meus pais a ir de Braga ao Porto. 
Esta situação não é propriamente uma tragédia, e muito menos uma tragédia portuguesa. O mérito, hoje em dia, tem uma forte componente de internacionalização. As melhores carreiras, ou as carreiras dos jovens com mais capacidades - sejam eles portugueses, alemães ou húngaros - passam quase sempre por experiências profissionais no estrangeiro. E nunca foi tão fácil para os portugueses conseguir singrar fora dessa anomalia serôdia que são as cunhas e as "boas famílias".  

"A falta de esperança e a desigualdade de oportunidades podem dar origem a uma geração de adultos desencantados, incapazes de acreditar num país meritocrático."
Provavelmente João Miguel Tavares não se deu conta de que as consequências terríveis da crise do euro começam a ser revertidas, e que a desigualdade social se tem vindo a reduzir nos últimos três anos. Também não deve ter reparado que a Europa começa a olhar para o Euro como um problema com consequências fatais para as economias mais frágeis, problema esse que tem de ser resolvido. Afinal de contas, numa conversa de café nada disso importa realmente. O que interessa é arranjar uma desculpa qualquer para meter o chavão 3 das conversas de café (e até já estava a demorar): "nós", o bom povo, e "eles", os políticos que são uns estes e uns aqueles.

João Miguel Tavares remata, lapidar:
"Entre o “nós” e o “eles” há uma distância atlântica, com raríssimas pontes pelo meio.
“Eles” não têm nada a ver connosco. “Nós” não temos nada a ver com eles."

Assim sem pensar muito, ocorre-me a proximidade do omnipresente presidente da República, ou a lei para impedir despejos da habitação familiar por dívidas ao fisco que já salvou tantas famílias da desgraça, ou os esforços para preparar a polícia para saber lidar melhor com as queixas de violência doméstica, ou a enorme dificuldade do governo em fazer uma política eficiente de segurança florestal sem ofender os donos dos terrenos que estão ao abandono, ou as manifestações de tantos alunos contra o aquecimento climático, ou a preocupação do ministério da Educação com o bullying contra os alunos queer (preocupação essa que tantos portugueses criticam, acusando o ministério de ter uma "agenda gay"). A lista é interminável, e reflecte políticos que estão a dar o seu melhor para melhorar a vida dos portugueses, e que são diariamente confrontados com críticas por parte de pessoas que se sentem atingidas nos seus interesses ou ideologias. "Distância atlântica"?! Os jornais e as redes sociais mostram diariamente os pontos de contacto e fricção entre uns e outros.

Das duas, uma: ou João Miguel Tavares é um populista, e conduziu o seu discurso de modo a poder justificar o que pensa, ou escolheu descrever o país pelo olhar enviesado do populismo de modo a poder explicá-lo, mas esqueceu-se de sublinhar o aspecto patológico do fenómeno. Seja como for, este discurso banaliza a lógica populista e coloca-a no centro do Dia de Portugal. O que é lamentável.



III.

O discurso chega agora a uma questão central num discurso do Dia de Portugal: quem somos, de onde vimos?

Começa pelo lugar-comum ("Partilhamos uma língua, um país com uma estabilidade de séculos, sem divisões") e depois descarrila: "e é uma pena que por vezes pareçamos cansados de nós próprios. Tivemos História a mais; agora temos História a menos. Passámos da exaltação heróica e primária do nosso passado, no tempo do Estado Novo, para acabarmos com receio de usar a palavra “Descobrimentos”. Simplificamos a História de forma infantil." Cansados de nós próprios?! História a menos?! Onde está o cansaço e a fuga à História quando tentamos passar "da exaltação heróica e primária do nosso passado, no tempo do Estado Novo," para um trabalho sério de confronto com os termos que usamos e a carga ideológica que transportam? O trabalho do historiador da História de Portugal liberta-se das amarras nacionalistas e torna-se muito mais complexo. A pouco e pouco a herança ideológica salazarista vai saindo das nossas cabeças, e olhamos para a História com um olhar que está a ser desinstalado pelas exigências do século XXI. O que é, já agora, mais um interessante desafio para os portugueses (os tais que, a acreditar no que se diz no princípio deste discurso, de momento não sabem de nada por que valha a pena lutar). 

IV.

E para onde vamos?

Começo pelo que é realmente positivo, e escapa à lógica da conversa de café: um país com espaço para todos, que tem de dar a todos um forte sentimento de pertença, e que se enriquece pelo contributo de cada um de nós. Muito bem.

Só é pena que pelo meio o pé lhe escorregue para a infantilização dos portugueses: "A política não falha apenas quando conduz o país à bancarrota. A política falha quando deixa o país sem rumo e permite que se quebre a aliança entre o indivíduo e o cidadão.
Aquilo que melhor distingue as pessoas não é serem de esquerda ou de direita, mas a firmeza do seu carácter e a força dos seus princípios. Aquilo que se pede aos políticos, sejam eles de esquerda ou de direita, é que nos dêem alguma coisa em que acreditar. Que alimentem um sentimento comum de pertença. Que ofereçam um objectivo claro à comunidade que lideram.
Nós precisamos de sentir que contamos para alguma coisa. (Além de pagar impostos.)"

O João Miguel Tavares que me perdoe, mas já muito fazem os políticos. "Dar alguma coisa em que acreditar" é tarefa de padres. "Alimentar um sentimento comum de pertença" quando as sociedades estão cada vez mais entrincheiradas é pedir o impossível a um político - a não ser que queiramos ter um ditador, juntamente com a sua máquina de propaganda e perseguição policial que têm o milagroso dom de homogeneizar a sociedade.

Este é o tempo em que os cidadãos europeus se podem unir e dirigir directamente ao Parlamento da União para exigir mudanças. Este é o tempo da Greta Thunberg, este é o tempo de um jornalista suíço que se cansou de alertar para o problema do aquecimento climático e do desaparecimento acelerado dos glaciares alpinos e está a juntar assinaturas para obrigar a Suíça a acabar com as emissões de dióxido de carbono até 2050. Este é o tempo dos jovens berlinenses que compraram um barco para salvar refugiados no Mediterrâneo. Este é o tempo dos activistas que há dias tentaram impedir um cruzeiro turístico de partir em viagem.

Este é o tempo da cidadania. Uma Democracia madura faz-se com o contributo de todos, com o entusiasmo de todos. E quem, como João Miguel Tavares, ganha a sua vida a dar opiniões no espaço público, tem a responsabilidade acrescida de sugerir caminhos, em vez de ir pagando as suas contas com textos que insistem obsessivamente no copo meio vazio e contribuem para a ascensão do populismo em Portugal.
Em vez de fazer um discurso que transforma Portugal num enorme infantário e exige aos políticos que assumam o papel de paizinhos.

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ADENDA:
(1) Refiro-me em particular às decisões relativas aos sectores da Agricultura e das Pescas, e aos termos em que foi feita a adesão à moeda única.


10 junho 2019

o temido rosto da ceifeira



Este gráfico não é surpresa. Mas é bom ver isto assim azul, amarelo, cinzento, laranja, verde e rosa no branco.

(E explica, por exemplo, porque é que, em nome da luta contra o terrorismo, aceitamos regressões graves - desde os Direitos Humanos à reserva da privacidade dos cidadãos -, e somos tão tolerantes com os nossos amigos e familiares que conduzem depois de terem bebido muito ou têm hábitos de condução que põem em risco a segurança de todos.)


09 junho 2019

entretanto no facebook...

Posts que publiquei há pouco no facebook (e trago para aqui, por causa dos dois ou três amigos que ainda não emigraram para esse outro espaço):

Começo a pensar que a minha bolha do facebook deve ser uma realidade paralela. Já cá estou há uma hora, e ainda ninguém informou quem ganhou o jogo!
Tive de ir ao site de um jornal para me informar.
Continuem a fazer dessas, ó amigos da bolha, e troco-vos por uma assinatura do nónio.
(é só para avisar)

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Depois de me ter vindo aqui queixar, o facebook desatou a mostrar-me posts de amigos a comentar o jogo.
Assim também eu, ó Cambridge Analytica!
"Ai, e tal, conhecemos-te melhor que os teus próprios pais".
Pois, pois. Da próxima vez vê se acertas melhor a adivinhar quais são os meus interesses.


07 junho 2019

Maria João Pires, Barenboim, Beethoven

Por estes dias o maestro Barenboim comemora o cinquentenário do seu trabalho com a orquestra filarmónica de Berlim, e repete o programa do seu primeiro concerto com esta orquestra, que teve lugar no dia 15.6.1969. O pianista convidado para tocar o concerto nº4 para piano de Beethoven era Radu Lupu, mas a sua participação foi cancelada por motivos de doença (desta vez a culpa não é minha, que só comprei o bilhete depois de saber que a nossa Maria João Pires aceitou substituí-lo!). Já houve dois concertos, e a interpretação da pianista - "subtil e cheia de nuances" (como dizia a crítica numa revista da especialidade) - tem sido muito aplaudida.

Para o caso de estarem agora a maldizer a vossa insularidade, e também para que saibam quem é amiga e pensa sempre em vós: o terceiro e último destes concertos vai ser transmitido em directo pelo Digital Concert Hall amanhã, sábado, às 18:00 em Portugal, e aqui têm o voucher para o ver:

LK1819XG
É válido durante 48 horas consecutivas (quer dizer: podem ir já para o Digital Concert Hall afiar o dente, amanhã vêem o concerto, e pouco depois, pufff, até vai parecer a carruagem da Cinderela à meia-noite).
E se tiverem tempo, aproveitem as 48 horas para espreitar também o arquivo do DCH. Está cheio de preciosidades. 
(Caso não saibam o que espreitar naquele arquivo interminável, são estes os meus favoritos de todos os tempos: a Paixão segundo S. Mateus de Bach, com encenação de Peter Sellars; o filme "Violins of Hope" e o concerto com esses violinos pertencentes a judeus, que regressaram à Alemanha no 70º aniversário da libertação de Buchenwald)
Se esta mensagem parecer publicidade (e é) ficam a saber que esta vossa amiga é a influencer mais incompetente de Portugal: bem me desunho a falar das coisas e a dar presentes, mas ainda não arranjei maneira de pôr a Filarmonia a pagar-me para isto. 
(Quer dizer: se calhar já me podia considerar bem paga com os Lunchkonzert gratuitos, e mais os voucher que lá dão, e já ter cantado duas óperas e mais uma missa naquela sala, e mais isto e mais aquilo) (ingrata criatura) (já cá não está quem falou)


04 junho 2019

"num Ferrari não entra poeira"

Só por achar pena este texto de Paulo Carvalho desaparecer na voragem do facebook, guardo-o aqui:


NUM FERRARI NÃO ENTRA POEIRA

«…como quando vamos a uma velocidade de cem à hora e vemos na berma da estrada um moralista empoeirado a protestar.»
O homem sem qualidades, Musil

É uma questão que qualquer pessoa criticamente insatisfeita com o curso das coisas, mais tarde ou mais cedo, tem de enfrentar: como evitar o moralismo sem cair no cinismo?
A insatisfação do moralista é acrítica, porque se funda num ideal herdado, muitas vezes divorciado da realidade. A satisfação do cínico, aos olhos do moralista, é perversa, mas radica, aos olhos do interessado, numa adaptação pragmática: «este pode não ser o melhor dos mundos, mas é nele que tenho que sobreviver».
– Num Ferrari não entra poeira, não é? – grita o moralista da berma.
– A culpa não é do pó, mas de quem se mete a jeito – pensa o cínico lá dentro.

Por isso, quando se encontram, a troca de palavras ocorre em dois circuitos fechados: o das convicções de um lado, o do status quo do outro.
O que assiste de fora, sendo insatisfeito, se não quer cair na dupla armadilha, terá de socorrer-se da serenidade.
Mas a serenidade de quem sorri soberanamente aos esquemas do pragmático não será cúmplice desses esquemas e, no fim de contas, fraqueza de um conservador consumado? Para que tal não aconteça, não é forçoso que tome posição? Ou poderá significar tal silêncio outra coisa: o estudo atento das estratégias do realismo cínico, para o desmontar ao nível da argumentação e, sobretudo, da acção. Mas como actuar com eficácia nesses campos, atingindo um ponto nevrálgico da máquina, sem cair precisamente na sua forma de funcionar?... que é nada mais, nada menos, do que a eficácia! Como introduzir uma falha a partir de fora em algo que está blindado a partir de dentro?
Esta era a questão de Kafka e de Bernardo Soares (ambos conhecedores íntimos da burocracia que oleia a máquina), esta foi também a razão de terem optado pela inacção. (Mas serão as «obras falhadas» de Kafka e Pessoa inacções ou, antes, sendo ruínas do monumental, as vias secretas de transformação, ou seja, vias da única verdadeira acção?) Mais recentemente, a análise aguda das engrenagens da Sociedade do Espectáculo ao serviço da máquina da Sociedade do Consumo levou Guy Debord a chegar à conclusão de que, uma vez que toda a voz se afoga no oceano de vozes e de imagens, já não vale a pena lutar contra a máquina: e suicidou-se. E como contestar o seu sinal? Não servem os interesses dos poderes instituídos mesmo os que radicalmente se fazem explodir ou põem bombas?
Quem escreve no Facebook estas coisas, deveria ter consciência da nulidade do que escreve, e calar-se. Escreve NO FACEBOOK, caramba!
E, contudo, talvez seja necessário manter a má consciência de um dizer inútil. Talvez não seja garantido que nos mantenhamos equidistantes entre a boa consciência do moralista e a boa consciência do cínico, pois também a má consciência resvala facilmente para a auto-satisfação. Mas sempre é possível saltar fora… ou esperar que, de fora, alguém ainda mais insatisfeito no-lo recorde. E mostre a fragilidade inerente a toda a boa intenção e linguagem...
Imagem: Obra de Anselm Kiefer


a minha vida dava um filme

Passei o domingo inteiro a tratar do jardim (pouco se nota, snif snif), tentando acabar o trabalho depressa para ir levar rosas a uma amiga que fazia anos nesse dia. Ora bem: um jardim é como uma tradução, nunca está terminado. Já passava das sete da tarde quando finalmente tomei o duche, cortei as rosas e me pus a caminho da casa dela. A ideia era dar as rosas, dar um beijinho, e pôr-me a andar. Mas o marido, que veio à porta, fez questão de me encher um copo de vinho e me mandar ter com o grupo de amigas sentadas na mesa ao fundo do jardim, junto ao lago.

(Ainda me arrisco a escrever uma autobiografia chamada "o emplastro acidental".)

Foi mais um daqueles momentos "a minha vida dava um filme": daí a nada estava a ouvir histórias incríveis àquelas mulheres. A que trabalha na televisão e ainda tem o George Clooney e o Brad Pitt na sua bucket list de maquilhagem, mas já fez a máscara do Obama (que no fim lhe deu um aperto de mão e agradeceu o trabalho). A que vejo muitas vezes com carros de colecção (tantos, que às vezes nem se lembra em que carro veio nem onde o estacionou) começou a contar que um pouco antes do Verão de 1989 tentou fugir da RDA, com o então marido e o filho bebé, pela Embaixada da RFA em Praga. Ao fim de alguns dias, os funcionários da Embaixada disseram-lhe que teria de regressar a casa, e daí a levariam para fora do país. Regressaram, reencontraram os pais que - para defesa deles - não tinham sido informados das intenções de fuga e de repente depararam com a ausência na casa muito bem arrumada e com os cestos dos papéis vazios (um clássico dos que fugiam: a casa impecável, por bem saberem que seria passada a pente fino). Passou as semanas seguintes aterrorizada, sempre à espera do momento em que a Stasi viria tirar-lhe o filho para ser educado por uma família leal ao regime. Finalmente, informaram-nos que tinham 24 horas para deixar o país, e que não podiam levar nada com eles. As poupanças, o carro, os objectos pessoais: ficou tudo. Mas puderam sair com o filho. 

(Eu a ouvir, e a pensar que a RDA os tratou como os nazis trataram os judeus que conseguiram escapar do país, e a olhar para o lago lindíssimo, os cisnes que passavam, o grou na outra margem, as copas das árvores centenárias, algumas delas plantadas por famílias de judeus que não sei se conseguiram fugir a tempo: quantas realidades paralelas se juntam a uma mesa de jardim?)

Outra amiga da roda contou que o muro a separou da avó, que vivia na RFA. Os pais dela meteram os papéis para sair do país, dizendo que se queriam juntar à família no ocidente. Dois anos depois, ela e o marido fizeram o mesmo pedido, e começou um martírio: várias vezes por mês eram convocados para ir prestar declarações à Stasi. Ela bem queria ir com o marido, por temer que a mais pequena contradição lhes fosse fatal, mas estava fora de causa. Várias vezes por mês iam separadamente ao interrogatório, sem saber se conseguiam regressar a casa, ou se se iriam juntar aos outros presos políticos. Ao fim de três anos, conseguiram autorização para sair. Um alívio, e também uma preocupação: que seria dos pais dela, que esperavam já há cinco anos? A autorização para estes veio umas horas depois, um último sinal do prazer sádico que o regime saboreava até ao limite. Saíram em Agosto de 1989. Três meses depois, quando o muro caiu, a primeira sensação foi de despeito: "então sofremos nós tanto para conseguir isto que eles agora recebem de mão beijada?!"

E depois a conversa mudou. Falaram de uma academia para cabeleireiros onde se consegue pintar o cabelo de graça e "mesmo quando sai um pouco mais cor-de-rosa ou laranja não tem mal, porque a cor se esbate ao fim de algumas semanas", além de que "nunca calhou de ficar verde". E da TºKºMax de Alexanderplatz que "tem as coisas mais interessantes, porque a clientela habitual tem gostos muito conservadores e só compra o que não interessa".

Alexanderplatz foi o palco da histórica manifestação de (segundo dizem) um milhão de cidadãos da RDA, no dia 4 de Novembro de 1989. Convocada por vários teatros de Berlim Leste, foi a primeira  manifestação autorizada pelo regime sem ter sido por este organizada. Exigia-se o fim da violência, a respeito pelos direitos constitucionais, a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão e a liberdade de reunião. Mais Democracia, em suma. Cinco dias depois, o muro caía. Trinta anos depois, pessoas que sofreram horrores para conseguir escapar ao regime de Berlim Leste vão a Alexanderplatz comprar sapatilhas de lantejoulas de uma marca cara, vendidas a preço de pechincha. Se a minha vida dava um filme, a delas dava um bom par de livros.

01 junho 2019

oficial, e às tantas também cavalheiro...


A tentar decidir que palavra mágica propor hoje na Enciclopédia Ilustrada, fui à Wikipedia, procurei "1 de junho", e descobri que o Eichmann está assim descrito:
- 1962 — Adolf Eichmann, oficial alemão (n. 1906)
"Oficial alemão". O organizador do Holocausto é um mero "oficial alemão".

É certo que as outras personagens também só são referidas pela actividade que as celebrizou e a nacionalidade (jogador de futebol argentino / navegador português / etc.), mas "oficial" não é a actividade que melhor descreve Eichmann, e nos outros idiomas a Wikipedia não faz este branqueamento da História:

Inglês: 1962 – Adolf Eichmann is hanged in Israel.
Francês: 1962 - Adolf Eichmann, criminel nazi, est exécuté peu après minuit dans la cour de la prison de Ramla, en Israël.

Espanhol: 1962 - Adolf Eichmann, líder nazi alemán (n. 1906).
Alemão: 1962 - Adolf Eichmann, deutscher SS-Obersturmbannführer

Como comentavam há pouco no facebook: "Wiki em português é um gigantesco fracasso coletivo."


30 maio 2019

"parlamento europeu" (2/3 - duas provocações)

Mais um post que trago da Enciclopédia Ilustrada, com algumas alterações resultantes dos comentários que suscitou:

E agora duas brutas provocações (eu avisei, OK?) a propósito das eleições para o #Parlamento_Europeu e da abstenção:

1. Os 751 lugares de deputados são divididos proporcionalmente pelos vários países, segundo o peso demográfico de cada um deles na União. Assim, a Alemanha tem 96 destes 750, e Portugal tem 21.
O que eu sugiro (é a tal bruta provocação) é que esses números sejam vistos como número máximo de lugares que um país pode ocupar. Se só votarem metade dos eleitores, Portugal elege 11 representantes em vez de 21; e a Alemanha elege 48 em vez de 96.
Talvez assim os eleitores de cada país se enchessem de brios, e fossem votar por ser tão claro que a sua abstenção tinha consequências directas para o seu país.
E se quisesse ser mesmo mesmo mesmo brutalmente provocadora, diria que os lugares deixados vagos pelos eleitores de alguns países fossem entregues aos países com taxas de participação acima de 90%. Que tal, heinhe?

2. A segunda bruta provocação: as pessoas só deviam poder votar depois de terem respondido aos questionários que ajudam a decidir que partido responde melhor às escolhas de cada um (EUandI, por exemplo).


"parlamento europeu" (1/3 - "Ah, e tal, não se sabe o que andam lá a fazer...")

Recentemente, e como não poderia deixar de ser, o tema na Enciclopédia Ilustrada foi o Parlamento Europeu. Participei com três posts. Dir-se-ia que me é um tema caro...
Aqui deixo o primeiro desses três. Os outros seguirão em breve.





Hoje estou mesmo a ter azar com os amigos! Não concordo nada nem com o que diz aqui o Luís Aguiar-Conraria sobre o #Parlamento_Europeu, nem concordo com o que disse o Carlos Moreira num post anterior.

Por partes, seguindo o artigo do Luís Aguiar-Conraria: o Parlamento Europeu não tem culpa que a televisão portuguesa prefira abrir os noticiários com um autocarro que vai buscar jogadores de futebol não sei quê ao hotel deles. Na Alemanha, o Parlamento Europeu já foi muitas vezes assunto bem importante nos noticiários - tanto televisivos como outros.
O caso mais recente foi o artigo 13. Pessoalmente, tinha enormes esperanças que o Parlamento o chumbasse. Infelizmente, ainda vacilou - porque ouviu realmente o protesto do povo - mas acabou por não chumbar. Daqui a uns tempos, quando se irritarem muito com as consequências do artigo que foi aprovado, vão perceber um dos motivos pelos quais era muito importante ter votado no domingo passado, e em quem.
Mas há muito mais, e tudo isso tem sido notícia de primeira página na Alemanha.
Repararam que agora já não se paga roaming nas viagens dentro da Europa? Foi o Parlamento Europeu.
Lembram-se daquela altura em que tudo o que era newsletter nos perguntava se queríamos continuar a receber notícias? Foi o Parlamento Europeu.
Notaram que as viagens de avião estão muito mais baratas? Foi o Parlamento Europeu.
Sabem que a qualidade da água das redes de cada país da UE tem de respeitar determinados mínimos? Foram estabelecidos pelo Parlamento Europeu.
Viram o que aconteceu ao TTIP? Ia ser assinado, mas houve uma sublevação geral entre os povos europeus, e o Parlamento recuou. As notícias que li em Março apontam para o fim das negociações, decidido no - lá está - Parlamento Europeu. Este é um dos exemplos mais importantes para mostrar que a nossa opinião conta, e é ouvida no Parlamento Europeu.

Ah, e já me esquecia: é o Parlamento Europeu que elege o presidente da Comissão Europeia. O que deve fazer pensar um pouco no sentido e na importância do nosso voto: queremos que o presidente seja eleito por uma maioria de esquerda ou de direita, queremos evitar que a extrema-direita xenófoba (cada vez mais forte na Europa) tenha uma palavra a dizer nessa escolha?

Sigo a Marisa Matias no facebook, o que me permite ter uma ideia do trabalho que ela faz, e de alguns temas importantes para o Parlamento. Não sigo os outros deputados, mas o que vejo do trabalho da Marisa Matias basta-me para afirmar aqui que é uma tremenda injustiça reduzir os deputados europeus a "pessoas que vão receber salários principescos durante os próximos cinco anos", como dizia o Luís Aguiar-Conraria no seu artigo.

Um artigo do meu jornal berlinense favorito chama ao Parlamento Europeu "o gigante subestimado". O gigante está lá, tem um papel fundamental em muitas das leis que são criadas em Portugal (e nos outros países europeus, obviamente), e até tem grandes preocupações de transparência. Mas: os deputados não podem fazer por nós o trabalho de ir ao site do Parlamento ou dos deputados e ler o que têm andado a fazer. E, como disse no princípio, também não têm culpa das opções dos órgãos de comunicação social de cada país.


29 maio 2019

bailero




Amanhã é feriado na Alemanha, e na sexta faço ponte.
Sinto-me como se fosse fim-de-semana, e começo-o com este "bailero".
Em sossego.


procura-se: pais adoptivos para uma espécie de Tântalo de Berlim

Sabem aquilo de os filhos dos meus amigos terem muito sucesso na vida, de que falava há dias?

Pois, estava aqui a pensar que se calhar algum dos meus amigos me podia adoptar, a ver se a vida me começa a correr melhor. Concretamente, dava-me jeito que melhorasse ali para os lados do preço dos bilhetes para concertos em Berlim. É que já para conseguir um bilhete para o Caetano tive de o comprar às escondidas de mim mesma, e hoje liguei para ver se se arranjava um milagre para o concerto da Grimaud, mas parece que não. O mais barato custa 48 euros.

Assim não dá, que mais pareço o Tântalo: numa cidade cheia de concertos fantásticos, e não tenho como os comprar!

(Também aceito ser adoptada por divorciados - ouvi dizer que os filhos dos divorciados recebem mais dinheiro e presentes dos pais.)

para quem pensa que a reunificação alemã já está concluída (2)


(fonte: Spiegel)


O post anterior suscitou duas perguntas no facebook:

- O que é a AfD?
- "O homem novo do socialismo é neo nazi? A forma como foi feita a reunificação explica tudo? Quer dizer, a revolta contra o capital sem ética leva à AfD?"
Não sou jornalista nem especialista de análises sociais. Limito-me a relatar o que tenho observado nestes anos que tenho vivido na Alemanha, para onde vim viver em 1989, três dias antes da queda do muro.

1. A AfD é a "Alternativa para a Alemanha", o partido populista de extrema-direita que nasceu na internet, começou por ser contra o euro, depois optou por ser contra os refugiados porque viu que o tema euro não lhe dava votos. Alguns dos seus dirigentes fazem afirmações que provocam sempre enorme comoção no país (ideias como: se for preciso, defenderemos as fronteiras da Europa a tiro; ou: os alemães têm o direito de se orgulharem da sua gloriosa História - o período nazi foi apenas uma cagadela de pássaro que não deve ofuscar o resto). Uma vez ditas, estas frases instalam-se no debate público e muitas pessoas sentem-se autorizadas a baixar ainda mais o limiar da decência.
Os refugiados, que não chegam a 2% da população,
não são propriamente um problema para a Alemanha, mas a AfD soube incutir medos e capitalizar invejas para conquistar eleitorado, e conseguiu transformar um não-problema numa questão central para quase todos os partidos. A coligação CDU/CSU foi profundamente abalada e castigada por isso, enquanto a opção dos Verdes de se manterem à margem dessa discussão foi muito premiada por parte do eleitorado nas últimas legislativas. 


2. O mapa mostra como a AfD se instala na região da antiga RDA, e faz-me imediatamente pensar
no nome que se dava ao pessoal da zona de Dresden: Tal der Ahnungslosen (Vale dos "Que Estão a Leste"). As ondas de rádio e televisão da Alemanha ocidental não chegavam lá. Trinta anos depois, ainda se nota bastante bem neste mapa quais eram as regiões inteiramente à mercê da propaganda do regime comunista.
Para além da propaganda comunista como impedimento para a maturidade democrática, há o problema da reunificação em si: muitos desses eleitores são pessoas que
perderam  o seu país, e em troca receberam desemprego e falta de perspectivas. A reunificação foi uma "anexação": demasiado rápida, pouco transparente, economica e simbolicamente muito violenta e arrogante. As pessoas da RDA perderam o país, o trabalho, as creches ("o lugar da mãe é em casa"), e a ideia de que eram respeitadas.
Em Forst, antiga cidade têxtil, contaram-me que a Treuhand (o organismo que privatizou essa economia) fez questão de ignorar as iniciativas de operários para comprar as empresas, vendendo-as por tuta e meia a investidores internacionais que levaram as melhores máquinas e fecharam o resto. Em Weimar, vi como um desses investidores arrasava as pessoas e a moral empresarial (aquela coisa da responsabilidade social do capital, etc.) para poder vender as empresas com lucro. Em Jena vi fecharem a secção de peças de vidro com design da Bauhaus (Wagenfeld, etc.), que teria imenso mercado internacional se quisessem apostar nela, para começarem a fazer apenas placas cerâmicas para fogões. Em Berlim, dando a desculpa de ser preciso tirar o amianto, arrasaram o Palast der Republik (o Parlamento da RDA, que tinha espaços públicos para iniciativas culturais e eventos vários, onde os cidadãos podiam fazer as suas festas privadas e portanto estava ligado a recordações felizes de inúmeros cidadãos da RDA). E como se não bastasse, em substituição do Parlamento da RDA construíram de novo o palácio do Kaiser.

Para completar o quadro, alguns factos, por ordem cronológica:
- A RDA não foi confrontada com a herança nazi. Os nazis ficaram na Alemanha ocidental, e na RDA só havia o homem novo do socia
lismo. Por definição, claro. A verdade é que houve muitos nazis que fugiram da parte ocidental para a oriental, porque lá se sentiam mais seguros.
- Na RDA não havia muitos estrangeiros - o que contribui para aumentar a xenofobia e a desconfiança.
- A reunificação - e depois o alargamento da UE a Leste - destruiu a já de si muito frágil economia da região da antiga RDA. Ninguém investe em fábricas na Saxónia, por exemplo, se tem mesmo ao lado trabalhadores polacos e checos igualmente excelentes e muito mais baratos. Em Berlim, que fica a 80 km da Polónia, há muitas empreitadas entregues a polacos, com custos bem inferiores aos dos alemães.
- Muitas regiões da antiga RDA estão em processo de desertificação. As pessoas que restam têm condições de vida cada vez mais difíceis. Por exemplo: os médico s especialistas cobrem uma área cada vez maior, o que significa que as pessoas têm de fazer longas viagens para ir ao médico.
- Muitos pais de família vão trabalhar durante a semana na parte ocidental do país, e vêm a casa ao fim-de-semana (onde a mulher fica a tomar conta dos filhos e dos avós da família): nas gerações mais jovens, geralmente são as raparigas que saem em busca de emprego, deixando para trás homens jovens frustrados, zangados e sem uma companheira que lhes dê algum equilíbrio emocional.
- Desertificação rápida significa que há muitos edifícios vazios. Em 2015, quando entravam milhares de refugiados no país todos os dias, esses edifícios foram uma boa solução de recurso para os alojar. O problema é que em alguns casos havia demasiados estrangeiros para as poucas pessoas da localidade.
- A inveja: "para os refugiados há dinheiro, e para nós não há?"
- Começou-se a falar agora no fenómeno dos filhos dos deserdados da RDA, que mesmo tendo nascido já na Alemanha reunificada sentem a perda com mais intensidade que os próprios pais.

Penso que o problema não é bem a revolta contra o capital sem ética. O problema é sentirem-se abandonados pelo Estado, que na RDA garantia a satisfação de todas as necessidades básicas (excepto a liberdade...) e na Alemanha unificada deixa as pessoas num limbo de insegurança e falta de perspectivas. 

 
No verão passado apareceu um vídeo que exemplificava muito bem o fenómeno. Em Chemnitz, uma manifestação de neonazis e AfDs com as palavras de ordem habituais ("esta terra é nossa" e "nós somos o povo") descarrilou completamente quando bandos de homens desataram a correr atrás dos estrangeiros que encontrassem na rua, para os intimidar e agredir.
A televisão foi a Chemnitz, entrevistou alguns dos participantes, e um deles disse: "eu trabalhei quarenta anos!"
É preciso resolver o problema destas pessoas que trabalharam quarenta anos e agora se vêem em risco de ter uma reforma miserável, e daqueles que não encontram emprego na região à qual se sentem ligados (e não querem ser tratados como "estrangeiros" noutro Estado da Federação).


Os partidos democráticos têm de saber manter uma posição firme em relação a discursos xenófobos e nacionalistas, e simultaneamente dar às pessoas perspectivas de resolução dos seus problemas  concretos. Que, na região da antiga RDA, estão longe de ser a ameaça da "islamização do ocidente", mas são sobretudo resultado de uma reunificação feita a toda a velocidade, mal concebida e mal resolvida. A par dos outros problemas que afectam o país como um todo: a distribuição cada vez mais desigual da riqueza e a destruição do planeta e do futuro dos nossos filhos.


28 maio 2019

para quem pensa que a reunificação alemã já está concluída


Para quem pensa que a reunificação alemã já está concluída, deixo aqui um mapa que trouxe do Spiegel (este artigo). A preto estão as regiões que votaram maioritariamente na CDU, a vermelho no SPD, a verde nos Verdes, a azul na CSU (simplificando: a CDU da Baviera).

E a cinzento/azulado são as regiões que votaram maioritariamente na AfD - que ficou em primeiro lugar em mais de metade do antigo território da RDA.


a preço de amigo

Aviso à navegação: as olimpíadas musicais 2019 foram ganhas pelo filho de amigos meus, e a filha de outro amigo meu ganhou a supertmatik de matemática.

Portanto: quem quiser que os seus filhos vão muito longe, deve começar por se tornar meu amigo.

Estou a pensar numa tabela de preços de amigo para:
- amizade gold - primeiros prémios
- amizade normal - participação e menção honrosa
- amizade da onça (gratuita) - o primeiro prémio vai para os filhos dos amigos do costume, ou então para os meus sobrinhos, que fazem um figurão no EUCYS
 
Agora com licencinha, vou preparar um formulário para os interessados se inscreverem, e já cá volto. 
 
 

27 maio 2019

eleições europeias: duplas nacionalidades, residentes no estrangeiro, abstenção

Este fim-de-semana falei com um amigo que é espanhol e alemão, e - segundo me disse - está inscrito como eleitor nos dois países, e ontem teria podido votar duas vezes. Já eu, que resido na Alemanha mas tenho apenas uma nacionalidade, a portuguesa, tive de escolher: para o Parlamento Europeu, ou voto no sistema alemão, ou no português. Segundo me informaram no Consulado, apesar de continuar inscrita nos cadernos eleitorais portugueses, a Alemanha deu indicações para me bloquearem nestas eleições, uma vez que estava inscrita no sistema alemão. 

O que me levanta uma primeira questão sobre as eleições para o Parlamento Europeu:
- Uma nacionalidade europeia = um voto (ou nos candidatos do país de residência, ou nos do país da nacionalidade)
- Dupla nacionalidade europeia = dois votos (um em cada país)
- Tripla nacionalidade europeia = três votos
É mesmo assim?

Caso seja mesmo assim, segunda questão: não tenho opinião sobre a possibilidade de pessoas com mais do que uma nacionalidade poderem votar nas eleições nacionais de cada um dos seus países; em compensação, parece-me a todos os títulos inaceitável que um cidadão europeu com mais de uma nacionalidade possa ter mais do que um voto nas eleições europeias. Que resposta é que a União Europeia e os governos nacionais estão a dar a esta situação?

Terceira questão: quanto dos valores da abstenção em cada país estão distorcidos pelo facto de pessoas com dupla nacionalidade europeia terem votado apenas num dos países, apesar de contarem como eleitores em ambos? É que acredito que em cada país haja um entendimento com os Consulados, para evitar que as pessoas votem em duas mesas diferentes na mesma eleição, mas duvido (corrijam-se se estou errada) que haja um controle para verificar a situação das pessoas com dupla nacionalidade.


Quarta questão: será que em Berlim a taxa de abstenção dos portugueses foi mesmo 92,6%?
Segundo o site do MAI, havia 4.379 portugueses inscritos no Consulado de Berlim e só 324 (7,4%) votaram nestas eleições para o Parlamento Europeu. Nas eleições presidenciais de 2016 havia 488 inscritos e 196 foram votar (40,16%). Em termos absolutos, entre 2016 e 2018 houve um grande aumento no número de pessoas que se deslocou ao Consulado para votar. Mais ainda: dos 196 votantes de 2016, alguns (como foi o meu caso) desta vez não podiam votar no Consulado, porque escolheram votar no sistema alemão. Acredito que muitos dos portugueses desta área consular, mas que vivem longe de Berlim, tenham também optado por votar no sistema alemão e, no seu próprio interesse, tenham ido votar num partido europeísta qualquer.

Ou seja: tenho sérias dúvidas sobre aquela taxa de abstenção de 92,6% no Consulado de Berlim. Gostava que me esclarecessem se o total de 4.279 corresponde aos portugueses autorizados a votar no Consulado nestas eleições, ou se corresponde a todos os portugueses inscritos nos cadernos eleitorais do Consulado (e, nesse caso, quantos deles estavam autorizados a votar no Consulado nestas eleições).
É que, se houve realmente 4.279 portugueses que, podendo votar ao pé de casa, escolheram votar no Consulado, e desses só 7% é que se deram ao trabalho de ir votar nas eleições que mais decisivas são para o bem estar dos europeus residentes em países da União Europeia que não o seu (ou seja, para o seu próprio bem-estar), nesse caso, então... nem sei que diga. 
 


25 maio 2019

minha rica Europa!

http://dotheyknowitseurope.eu/

Se nestas eleições votasse em Portugal, saberia quem escolher com confiança e alegria.
Mas voto na Alemanha, onde não há uma Marisa Matias, nem um Rui Tavares, nem uma Júlia Reda para eleger.
Em contrapartida, na Alemanha trava-se uma batalha decisiva para a Democracia: não podemos deixar que a extrema-direita alemã ganhe força. Sinto-me contente por votar neste país e poder juntar a minha voz à dos que lutam contra o cancro que ameaça esta democracia.

Um comediante alemão preparou um filme simpático sobre as eleições, com uma participação portuguesa que nos deixa ficar bem na fotografia. Podem ver aqui:
they know it's Europe". É a nossa Europa, imperfeita, caótica. Pode tornar-se bem diferente - para melhor, ou para muito pior. Amanhã é dia de decidir que rumo lhe damos. Nestas eleições está em causa, antes de mais, escolher entre continuar a viver em democracia, construindo um futuro comum, pacífico e - last but not at all least! - sustentável, ou caminhar para  a fragmentação dos nacionalismos.

Ainda é possível lutar contra a destruição da Europa.
Amanhã, vamos todos votar num partido democrático. Mesmo que não seja perfeito, qualquer partido democrático é melhor que o nacionalismo, o populismo e o totalitarismo que se lhes pode seguir.


Os meus parafusos

Alguém conhece um psi competente e baratinho que me dê uma apertadela aos parafusos?
É o seguinte: costumo sair para viagens sempre à última da hora. Da última vez, cheguei ao aeroporto depois de o check-in ter fechado. Resolvi mudar de vida. Desta vez cheguei à estação de caminho de ferro mais de meia hora antes. Muito orgulhosa de mim própria pespeguei-me no cais certo quinze minutos antes da partida prevista. O comboio tinha um ligeiro atraso. Olhei para o mostrador, depois olhei para os polícias que andavam por ali em grande número por causa dos adeptos de um clube de futebol, olhei de novo para o mostrador e o meu comboio já não constava. Olhei para o cais ao lado: estava a sair dali nesse preciso momento.
Pequena informação à margem: em Berlim é possível passar ao lado de dezenas de polícias de choque a resmungar „Bosta! Oh, bosta! Bosta! Bosta!“ e não se vai preso.
Voltando anos meus parafusos: isto é coisa para quantos anos de divã?

23 maio 2019

se non è vero...

Diz que o Banksy esteve na Bienal de Veneza:




22 maio 2019

Chico e Camões


Às vezes penso que as palavras da língua portuguesa foram inventadas de propósito para se alinharem certeiras nos versos do Chico Buarque. Depois lembro-me que podia dizer o mesmo dos sonetos de Camões, mas - deslarguem-me! - o Chico tem o joker daqueles olhos verdes, enquanto o Camões tinha apenas um olho - e nem sequer me é verde, que só o sei a preto e branco.

(Ai! Já me desgracei! Isto era para ser um post sobre literatura, não tinha intenção de vir aqui para falar dos olhos de ninguém.) (Maldito Freud, que nunca dorme.)

Segunda tentativa: hoje, ao ver o facebook cheio de poemas - e estava capaz de apostar que muitos deles foram escritos de cor -, lembrei-me de Marcel Reich-Ranicki. Era um famosíssimo crítico literário que teve de 1988 a 2001 um programa de literatura na televisão alemã com enorme sucesso apesar de ter imposto um formato de rádio, e aos noventa anos se recusou a receber um importante prémio de televisão, em sinal de protesto pela falta de qualidade que impera naquele meio. Em conversa posterior argumentaram que o grande público pede essa mediocridade, e ele refutou, afirmando peremptório que um Shakespeare do nosso tempo também seria capaz de atrair multidões.

O Chico é um caso desses: consegue alojar a literatura no coração das pessoas, e fá-lo como se fosse fácil. Mais ainda: os seus poemas extravasam da literatura, andam enrolados connosco, fraseiam-nos a vida. Preparam-nos para o que nos pode acontecer - e de tal modo nos preparam bem que chego a pensar que somos plasmados pelos seus versos. Exagero meu, bem sei. Mas - deslarguem-me! - isto são muitos discos aprendidos inteiros de cor, são muitos encontros felizes com amigos a falar do que escreve, é o meu horizonte muito enriquecido pelas palavras e os temas de um Brasil de todas as cores, são muitos duetos com ele em inúmeras viagens solitárias entre a casa e o trabalho, são os meus filhos a cantar em português (ah, "Os Saltimbancos"!), são as milhentas frases que se erguem das músicas para me explicar nuns dias o mundo e noutros o meu sentir.

O Chico eleva-nos, maravilha-nos, alarga-nos o olhar. Que mais se pode pedir à literatura?


21 maio 2019

tão polivalente que até é o barbeiro de Sevilha



Ontem fui ver o Barbeiro de Sevilha na Deutsche Oper, com a música de Rossini um bocadinho atropelada pelo exagero da encenação de Katharina Thalbach: ele é um burro, ele é um tractor, ele é um grupinho de freiras a chocar umas nas outras, ele é crianças na praia durante a noite, ele é fatos de banho do séc. XXI, ele é roupinhas barrocas, ele é um Figaro armado em artista de circo, ele é uma profusão de cenas de sexo bastante explícitas (podia dar-se o caso de o público não perceber nas entrelinhas da música ao que é que aquela gente toda vem).

A ópera bufa foi bastante mais bufa que ópera, e portanto rimo-nos muito - lá disso não nos podemos queixar. De facto, já nos estávamos a rir ao fim de meia dúzia de compassos da abertura.

Mas o mais interessante de tudo foi o cantor que fazia o Figaro. Passei a ópera inteira convencida que era o... tã tã tarãããã... Hugo van der Ding!
Se não era ele, então era o Mathew Newlin por ele. Mas eu jurarei a pés juntos que ontem foi o Hugo van der Ding quem cantou na Deutsche Oper em Berlim.



"gamela"

Na casa do Minho da minha infância a cozinha era o centro de tudo, e metade dela era a chaminé, com o chão feito de enormes lajes de pedra. Sob a chaminé havia: à esquerda o forno do pão, ao lado deste a lareira que se reacendia de manhã bufando às brasas que tinham sobrado da véspera, e o eterno pote com água quente; à direita ficava a dala de granito. Ao lado da dala, e já fora da chaminé, era o lugar do balde da lavadura, por baixo da cantareira onde havia sempre água do poço guardada em cântaros de barro.
Havia duas gamelas na dala, e serviam para lavar a louça. Tinham um toque aveludado e húmido de tanta água engordurada que por elas tinha passado, e eu achava-as nojentas.
Depois das refeições, a Bina (que em rapariguinha fora trabalhar para casa da minha avó, e lá ficou até morrer, acumulando discretamente as condições de serva da casa e de membro oficioso da família) e a SeMaria (que era jornaleira, e trabalhava enquanto havia trabalho, às vezes perguntava-me quem lhe criaria a ela as filhas) enchiam as gamelas com água quente do pote, usando o caneco de lata da cantareira. Uma lavava e ia passando as peças directamente para as mãos da outra, que as enxugava num pano de linho e pousava na mesa ou na masseira, num vaivém tranquilo de tamancos no sobrado.
No Natal, e noutras festas grandes, iam buscar os pratos da Vista Alegre e os copos de cristal do baptizado do meu pai para pôr a mesa. Enquanto decorria a nossa consoada, a dala de granito enchia-se de pilhas de louça valiosa e frágil, e eu enchia-me de medo de que alguma coisa se partisse. Elas, não. Um a um, os cálices – o da água, o do vinho, o do champanhe, o do vinho do Porto e o minúsculo, que era da aguardente, mais os pratos de risquinhas azuis e douradas, mais a “terrina de trezentos anos” – passavam pela água das gamelas escuras e pelo pano branco, e voltavam para a cristaleira. Depois a SeMaria punha as gamelas a escorrer, embrulhava-se numa manta de lã, e saía para a noite e para o Natal das suas próprias filhas.
Não contem a ninguém, mas eu nasci no fim da Idade Média.