10 abril 2026

era para ser uma simples ida ao teatro, mas deu nisto...

 

Fui ao teatro Schaubühne ver O Avarento, da dupla Thomas Ostermeier & Lars Eidinger, e quase ia chocando com a Angela Merkel. O Joachim, que tem olho para detalhes, reparou no guarda-costas (melhor dizendo: no aparelho de escuta do guarda-costas) mas não viu quem era a pessoa que este estava a guardar.
Por um momento, olhamos uma para a outra. Mas lembrei-me logo que sou mais ou menos berlinense. Por isso, disfarcei, segui caminho, e nem a fotografei à socapa pelas costas nem nada.
De modo que, se alguma espécie de São Tomás estiver a ler isto, perdeu o seu tempo. Coitadinho.
(O que eu gostava de saber: se agora já reconheço os famosos, será que o fim está próximo?)
(E porque olhou ela para mim?, perguntarão vocês. Porque estou com o casaco mais lindo do teatro todo.) *** Há tempos fui ver a Sasha Waltz (que por acaso também me olhou fixamente) (a ver se arranjo tempo para contar aqui) e estava lá o Lars Eidinger. Bem sei que vocês, os do sul que gastam o vosso dinheiro em vinho e moças, não sabem quem é o Lars Eidinger, em quem eu gasto o meu dinheiro e também o meu tempo em esperas de várias horas na esperança de arranjar um bilhetinho. Adiante. Como ia dizendo: fui ver a Sasha Waltz, estava lá o Lars Eidinger. Fui ver o Lars Eidinger, estava lá a Angela Merkel. Só falta dizer que fui ver a Angela Merkel, estava lá o papa. Mas aqui, dei um jeitinho à verdade, que é esta: fui ver o papa, estava lá a Angela Merkel. A Angela Merkel é como deus e o Lars Eidinger: está em todo o lado! ***
Se querem saber tudo: no final da peça, quando vinha a sair, vi que um jovem da fila da Angela Merkel pediu para fazer uma selfie com ela. Então como é? Estes berlinenses já não são cool como dantes?
Ali ficaram tempos e tempos a tentar atinar com a situação, se fosse o nosso Marcelo já tinha agarrado no telemóvel do rapaz e já tinha tirado selfies com dez pessoas diferentes.
Saí calmamente, no corredor ela veio na minha direcção, saí para a rua, e lá estava ela outra vez a vir na minha direcção. Acho que estava hipnotizada pelo meu casaco, é a única explicação que tenho para tão estranho fenómeno.
Depois apareceram mais umas mocinhas a pedir selfies, e eu não pedi, porque quem já tem marselfies com o original não precisa de andar a pedir imitações.
Ah, quase me ia esquecendo! A peça foi boa, obrigada. Muito diferente do Hamlet da mesma dupla, mas divertida, e um belo espectáculo de teatro.
*** Para terminar,
Senhoras e senhores, meninas e meninos,
- rufar de tambores -
aqui apresento o casaco mailindo que ontem estava no teatro Schaubühne.
Atentem bem ao framing, e reajam como quiserem, em conformidade com o dito, com entusiasmo e espontaneidade.
- alguém ergue um cartaz onde se lê: "aplauso!" -

08 abril 2026

*o que faz falta*

Na semana passada, a semana de Páscoa, o tema no Largo (sabem? aquele grupinho que todas as semanas escreve sobre um tema) (como fico largas temporadas sem escrever, depois tenho de explicar tudo de novo a partir do início...) o tema no Largo, como ia dizendo, era: "o que faz falta". Passei toda a semana a pensar que o que faz falta é silêncio. E se não for possível o silêncio, pois que seja o diálogo. Mas o diálogo feito de pontes, e não a berraria entre as trincheiras deste nosso tempo. E se não for possível esse diálogo, pois que seja a tranquilidade.

À falta do silêncio, aqui deixo pequenas sementes de tranquilidade, interpretações de um tema só:





E agora, para algo diferente, e igualmente belo:




Deixei o Schubert para o fim, porque foi com ele que aprendi que a música salva: foi a minha tábua de salvação para não soçobrar com o filme "Amor", de Michael Haneke. O que faz falta.


acudam, que não percebo nada de Biologia!

 

Bom. Nem sei se vos diga, se vos conte. Fui meter dois pés de ruibarbo na terra
(eu não planto, eu meto para lá, e fico à espera que o divino faça a sua parte do milagre, que da minha parte já fiz o milagre de arranjar tempo para ir meter aquilo na terra)
e o chão estava cheio de abelhas aos pares. Ainda pensei que fosse um enxame tresmalhado, mas não. Andavam por ali, pelo meio das ervas e do musgo, muito animadas, aos pares. Deixei-as andar, que eu não sou de me meter nos assuntos dos outros, e além disso não estava a ver muito bem
(é cá um preconceito que tenho: não chegar demasiado perto das abelhas para as ver melhor)
fiz o que tinha que fazer, e voltei para casa. Ainda pensei fotografá-las, porque não tinha a certeza se seriam vespas ou abelhas. Eram mais redondas que vespas, mas um pouco diferentes das abelhas das nossas colmeias.
Depois de lavar as mãos, ajeitei o cabelo e... catrapum. Duas abelhas dessas enroladas caíram ao chão. Tinham-se metido no meu cabelo, as malandras! Caso para lhes dizer: arranjem um quarto.
Depois de acabarem o que estavam a fazer, separaram-se. Uma parecia mais cansadita que a outra. Ajudei-as a encontrar o caminho para a janela, e saíram ambas a voar.
Agora, o que gostava de perceber: da última vez que isto foi tema na minha cultura geral, era abelhinhas e florzinhas. Mas afinal há abelhas e abelhos? E andam assim enrolados uns com os outros na primavera? O bicho de baixo é sempre a abelha-rainha, ou quê, ou quê, ou quê?
Estava aqui tão bem, e de repente abro mais uma frente na guerra contra a minha imensa ignorância.

ADENDA: Deixo aqui um filme que torna o caso ainda mais estranho. É que... algo me diz que... enfim. Calateboca. Mas olhem para as antenas de uma e da outra e digam lá se vos ocorre alguma coisa que calateboca, mais uma palavrinha e ainda caímos todos no marxismo cultural, na ideologia de género, eu sei lá.

humor de cadafalso

 


Post (satírico) de Andy Borowitz:
TEHRAN—Responding to Donald J. Trump’s latest ultimatum, on Tuesday Iran permitted a container ship laden with copies of the Epstein files to pass through the Strait of Hormuz.
“In recent weeks, the closure of the Strait has cut off the world’s supply of Epstein files,” an Iranian government statement read. “Now, those files will flow freely to the four corners of the globe.”
“Mr. Trump wanted the Strait opened, so we hope this will please him,” they added.
The Iranians said they were taking Trump's threat to destroy its civilization in one night “very seriously,” noting, "We see what he's done to American civilization in a little over a year."
*** Rir à beira do abismo.
É o Borowitz, como neste post que partilhei acima, e são as embaixadas do Irão, a pipocar troça do Trump no mundo inteiro.
As embaixadas do Irão, em particular: por estes dias, têm oferecido casos práticos muito actuais de Galgenhumor [literalmente: humor de cadafalso].

(Bem sabia que o Irão tem uma máquina de propaganda para uso internacional extremamente bem afinada, o que está bastante evidente nos memes sobre Gaza, mas até agora desconhecia o seu humor. Justiça lhes seja feita: são profissionais muito competentes.)

taco a taco

 


Sempre que Trump recua, o mundo ri e diz: "TACO!"
Arrepio-me quando vejo alguém usar esse termo para troçar de Trump. A imagem que me ocorre é a de alguém a cutucar uma serpente encurralada. O tipo é poderosíssimo e perigosíssimo, e atacá-lo justamente da maneira que mais dói a um narcisista como ele é algo que nos pode dar satisfação a curto prazo e obrigar a pagar um preço altíssimo depois.


07 abril 2026

dêem-lhe o Nobel que ele quer!

 

Acabei de ter uma ideia genial (cof cof): e se a Academia do Nobel fizesse um deal com o idiota-em-chefe dos EUA?
Este deal: se ele parar a guerra agora mesmo, dão-lhe o Nobel da Paz.
Desse modo, ele saía do Irão de cabeça erguida e peito inchado.
(E no ano seguinte, a Academia do Nobel dava o Nobel da Paz a si própria, e era merecido.)
Alguém tem o número de telefone da Academia, para os acordar a todos e os pôr a trabalhar nisto depressinha? Nem é para uma amiga, é mesmo para mim: descobri que tenho um pé na base aérea das Lajes e outro na de Rammstein. Em termos da desgraça cada vez mais iminente, estou no autêntico eixo do mal. 🙁
(E sim: bem sei que o Irão tem um regime cruel, prepotente, e perigoso para o mundo ocidental. Mas - chamem-me ingénua - ainda acredito na diplomacia, no diálogo, nos acordos. Ainda acredito que os fins não justificam os meios, e que não podemos sair por aí a matar todos os civis que calha só para destruir os nossos inimigos.)

notícias da resistência

 


Enquanto esperamos do Irão as notícias mais terríveis, e nos agarramos a uma leve esperança de que não cheguem nunca, agarro-me a posts como este, da Teresa Costa, que escreve a partir de uma terra de gente boa. Nas suas histórias, até os ladrões são simpáticos - como aquele que assaltou uma farmácia, e quando a velhinha que estava para pagar lhes passou a carteira disse "ó minha senhora, eu não assalto idosos!" (A Teresa conta isto muito melhor.)

fim de ciclo


O perigosíssimo narcisista anunciou que "uma civilização inteira vai desaparecer esta noite".

Caso esteja a falar da civilização persa: não sei se tem armas suficientes para destruir uma civilização como a persa.

Caso esteja a falar dos EUA e os seus aliados: a chamada civilização ocidental já está bastante abalada com décadas de jogos de cintura do tipo "é um filho da puta, mas é o nosso filho da puta", os jogos de interesses, a real politik a caminhar umas vezes mais perto e tantas vezes mais longe do discurso moral e ético. Se Trump ousar cometer o indizível e o inimaginável contra o povo iraniano, o que resta desta ordem ocidental vai morrer com ele.

Antes de mais, penso no povo iraniano, e nos dias de terror em que se vê mergulhado, encurralado entre o seu próprio regime opressor e a prepotência dos inimigos.
Espero que, nas máquinas bélicas dos EUA e de Israel, alguém tenha a coragem de fazer frente aos desvarios do poder político, e impeça uma catástrofe ainda maior que a que já está em curso.

Depois, penso nos países ocidentais. Só me ocorre uma imagem bíblica: estamos a comer aquele fruto que nos abre os olhos, a descobrir que andávamos pornograficamente nus no paraíso, a perder o nosso estilo de vida em segurança e relativa abundância.

Fim de ciclo.

 

06 abril 2026

Deus como fantoche

 


Se houvesse dúvidas sobre a falta de fé desta gente, ficariam dissipadas com estas encenações.
Quem usa a religião para estas palhaçadas não teme um castigo divino. Para eles, Deus não passa de um fantoche útil. (Trouxe a imagem do mural de facebook da Isabel Sousa Lobo. Recomendo muito as suas publicações.)

03 abril 2026

pietà


Partilho, da página do Museu da Presidência da República:

Na capela do Palácio Nacional de Belém, há uma imagem que prende o olhar nesta Sexta-Feira Santa.

Na «Pietá» de Paula Rego, Maria segura Cristo nos braços — mas não como um corpo distante ou solene. Segura-o como quem embala um filho. E talvez seja isso que mais surpreenda: ali, naquele momento final, há um gesto que parece do início da vida, como se aos olhos de uma mãe um filho nunca deixe de ser criança. 🤍 Mesmo quando cresce. Mesmo quando parte. Mesmo quando é Deus.
Entre o silêncio do oratório e a força das imagens, há sempre espaço para novas leituras. E este sábado, as portas do Palácio voltam a abrir-se. Fica o convite para descobrir de perto este e outros testemunhos da arte e da história de um Palácio com quase 500 anos.

02 abril 2026

saudades de uma viagem que não fiz

 


O facebook lembra-me este post da Carla Rodrigues dos Santos, com mais de dez anos. Partilho-o mais abaixo, mas recomendo muito que - quem puder - o leia no facebook, por causa dos textos que acompanham cada imagem.
Tenho saudades da Carla e - espantosamente - também desta viagem dela. Como se tivesse andado a dar a volta ao mundo com eles. (Lembro-me particularmente de uma frase que ela largou quando estava no Laos: "Digam à minha mãe que não vou regressar.")

Perdi a minha capacidade de sintese em Sapa. Tudo me parece importante, tenho pena de tudo o que aqui não mostro.
O nevoeiro que não dos deixa ver a paisagem, o caminho em argila que nos faz deslizar e cair, os trajes dos H'omng pretos, os Dzais, os Dzaos, os flower h'mong, as crianças nuas a banharem-se no rio, a lama nos arrozais, os galos que começam a cantar às 6 da manhã, os cães que ladram a noite inteira nas aldeias, o sound systema a fundo, as brincadeiras viris das crianças, o pequeno almoço com arroz, carne e tofu, o vinho de arroz que me arde por todo o tubo digestivo, as conversas que não percebo, o bébé de dois anos que morreu afogado enquanto a mãe cavava a terra para plantar indigo, os dentes de ouro, os dentes tingidos de preto das mulheres velhas, ser velha aos 45 anos.
A minha vida imaginada aqui, a plantar milho para as galinhas, a ficar marreca com todo o trabalho da cultura de arroz, a aprender a falar inglês com os turistas, vender-lhes o que costurei ou mandei vir de uma fabrica chinesa, saber que mesmo que mande os meus filhos para a escola, não vai haver empregos para eles - que o futuro deles vai ser igual ao passado dos pais. Para os H'mongs vai haver sempre a terra, a subsistência, o dia a dia, o dinheiro que o turista guarda para ele.
E saber muito cedo, que o mundo não vai mudar como eu gostava. E a continuar, mesmo assim.
A Anabanana a bom tempo nos mandou aqui. Kam on !

era isto, todos os dias

 


Um presentinho de humanidade para este dia, que bem precisamos todos.
(Manoel de Oliveira morreu faz hoje 11 anos)

que lhe fizeram, da primeira vez que veio?

 


Este filme, aparentemente ingénuo, levanta questões interessantes. Primeira: atão, atão, atão... Jesus têm outras?... (Claro - porque não?) Segunda: atão, atão, atão... haveria outras maneira de interagir com Jesus, da primeira vez que nos visitou? A História podia ter sido diferente? (Sinto-me pessimista. Vejo como, apesar de sabermos perfeitamente o que aconteceu há cem anos na Europa, caminhamos a passos largos e decididos em direcção ao mesmo abismo.) Terceira: e se inventassem uma nave espacial que nos levasse ao planeta deste homenzinho verde, e se emigrássemos para lá - iríamos aprender com esse povo, ou iríamos contaminá-lo com o, digamos assim, nosso pecado?

31 março 2026

o que somos

 

Disse Saramago: "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
Fico a pensar que está muito bem dito.
Também eu tenho a sensação, ao ler o que certos anónimos escrevem na internet, que é o seu eu mais autêntico e sem máscaras que ali exibem...

30 março 2026

outra maneira de dizer Luiza


 

Quando pensava que não faltava inventar mais nada, ponho-me a ouvir a Carminho a cantar bossa nova, e descubro que este Luiza era, afinal, um fado.

Agarrem-me, que nem sei o que fazer a tanta beleza e novidade!

28 março 2026

dito de forma muito simples, é isto:

 


Por ter gostado muito desta sua síntese, partilho um post de Rui Guerreiro, publicado no seu mural de Facebook em 22.3.2026. "Nem que seja por respeito à minha experiência de vida,
já que inteligência, ao que parece, não tenho nenhuma,
porque, se tivesse luzes à frente,
não estava aqui no Luxemburgo, à míngua de emprego.
Sou a prova viva dos sucessivos desgovernos que nos assolaram,
que me atiraram para uma insolvência injusta
e demasiado pesada, um laço ao pescoço.
Mas não transformem uma massada de peixe
numa açorda espapaçada.
Continuo a ver muita gente na esplanada,
Mercedes e SUVs de todas as marcas douradas,
restaurantes que se dão ao luxo de escolher as marcações,
e avenidas congestionadas.
No inferno anda-se a pé
e come-se de vez em quando.
Confesso:
quando o Chega foi pela primeira vez a votos,
senti que o povo português ia aproveitar a sátira
para mostrar em sapateado, um cartão vermelho
a todos os poderes
e a todas as instituições.
Era fácil gostar de André Ventura,
como muitos, onde me incluo, gostam do eterno
“candidato Vieira”.
Porque o humor é uma forma de arte
e de resistência,
uma das mais antigas.
Discursos com sapatos de meio metro
e bola no nariz
são, para a maioria, uma alegoria antiga:
o circo que descia à cidade
para augúrio das crianças
e de alguns desistentes
que encontravam no riso e no espanto
uma janela para o sonho.
Até aqui, tudo bem.
O ser humano tem uma tendência escabrosa
para o excesso
e para o zelo.
E isso levou-me a pensar
que o senso comum,
por norma,
acaba por pôr estas coisas no sítio.
Mas hoje…
Depois de ver a Assembleia da República
transformada numa espécie de república das bananas,
e depois de ver a Europa
a ser atacada por todos os lados,
mas principalmente por dentro,
sou obrigado, por experiência própria, a afirmar:
já fomos longe de mais com a birra.
Chega.
O líder partidário, ou comediante azarado,
o palhaço triste do circo de outrora,
não pode continuar a ser confundido com um messias.
Sob pena de acordarem
num país onde já não querem estar,
mas onde têm de ficar,
por não terem outras opções.
Emigrar, meus amigos,
não é mudar de país.
É arrancar as raízes da terra.
Estão a confundir um menino mimado,
que perdeu no debate político interno para Pedro Passos Coelho,
com o vosso Messias.
Estamos a falar de alguém
que está para a ideologia política
como estamos todos para a física quântica:
alguém que faz política à vista,
como nas caravelas,
sem mapa
e sem astrolábio.
Confesso que sempre pensei
que em Portugal ainda havia sopa
e livros para ler,
que o desfasamento ainda não estava tão acentuado.
Desconhecia por isso o novo Portugal profundo, aquele que se esconde no buraco.
Enganei-me.
E por isso peço desculpa.
Mas talvez ainda vá a tempo
de mostrar, com o exemplo americano,
o que nos espera.
Trump, o vitalício candidato ao Nobel da Paz,
conseguiu, em dois anos,
começar uma espécie de terceira guerra mundial,
ao mesmo tempo que prepara a América
para a guerra civil.
Estão os dois para a política
como o diabo está para a cruz.
Lutar por justiça
ou por melhores condições
é muito diferente
de puxar fogo ao circo das instituições.
Nada muda da noite para o dia.
É preciso tempo.
Porque, tal como numa guerra,
podemos determinar quando começa a revolta,
mas nunca sabemos como vai acabar.
Vivemos um período de avanços tecnológicos
como não acontecia desde a Revolução Industrial.
E eu sou o primeiro a concordar:
o desconhecido assusta.
E muito.
Mas, perante o incerto,
o mais racional
seria permanecermos juntos.
Porque a confusão é amiga dos predadores.
E se cada um começar a correr para seu lado,
então a dança da morte desce à cidade.
E vocês nunca vão ser os lobos,
desculpem que vos diga,
serão sempre os cordeiros.
Um país não muda
às mãos de um milagreiro.
Muda por dentro primeiro.
E isso leva tempo.
Às vezes, gerações.
Se tentarmos quebrar o padrão à força,
abrimos a porta à anarquia.
E, no caos,
o ser humano entra em modo de sobrevivência,
perde a visão periférica,
deixa de conseguir raciocinar.
E, sem pensamento,
somos todos pedras de atirar.
Se este texto não vos fizer pensar,
pensem nos vossos filhos.
E em todas as gerações vindouras,
que precisam de ter condições mínimas
para poderem escolher o seu próprio futuro.
A política da terra queimada
não serve para mais nada
senão para eucaliptos.
Reparem:
sou o primeiro a dizer
que há muita coisa que precisa de mudar.
Vivemos uma crise profunda de ideologias
e, principalmente, de estadistas.
Mas isso não pode ser desculpa
para a histeria colectiva,
para a alucinação em massa.
Porque quem se mete com crianças…
acaba sempre… vocês sabem.
Insisto, por isso, na mesma receita
para as maleitas que já mencionei:
sopa ligeira
e muitos livros para ler.
Comecem pelos clássicos.
Estou cansado, demasiado cansado,
mas não pouso o raio da caneta."
Rui Guerreiro