02 março 2024

Berlinale 2024 - entre a política e o cinema, com a guerra de Gaza no centro do palco



A Berlinale começou a 15 de Fevereiro, e acabou no domingo passado - depois de 90 km, 180 andares e três dúzias bem aviadas de filmes, no que me diz respeito. Desde que verifico no telemóvel os passos que dou e as escadas que subo, dou-me conta de que a Berlinale é meia preparação para uma maratona. 

Em 2024, o festival mostrou-se ainda mais político que o habitual. Na cerimónia de abertura começaram por aludir ao facto de terem desconvidado dois deputados da AfD, depois de se ter tornado pública a ligação deste partido a um movimento que pretende expulsar do país estrangeiros e até os seus filhos com nacionalidade alemã ("as tradições são importantes, mas às vezes é preciso serem revistas, e foi o que fizemos"). Condenaram a invasão da Ucrânia, o massacre do Hamas e o horror que neste momento se abate sobre a população civil de Gaza. No seu discurso, a ministra federal da Cultura referiu-se à guerra de Gaza num tom que já foi bem diferente do registo dos representantes políticos alemães em Outubro e Novembro. Por parte da Alemanha, o apoio a Israel mantém-se - mas não impede esta ministra do governo alemão de acusar a tragédia humanitária, e de afirmar que é imperativo caminhar urgentemente para uma solução de coexistência pacífica entre ambos os povos. 

Perante o ambiente muito tenso desta Alemanha polarizada entre o apoio incondicional a Israel e as duras críticas à catástrofe humanitária em Gaza, os directores da Berlinale falaram do festival como um espaço de diálogo, de troca de ideias e de escuta do outro, e apresentaram o projecto "tiny house", que é sobretudo simbólico: um pequeno pavilhão na Potsdamer Platz onde, no início do festival, durante três dias um judeu e um palestiniano se ofereciam como interlocutores para quem quisesse trocar ideias e verbalizar angústias.

O festival de cinema correu bem, como é habitual. Nota-se nos detalhes que já não tem os patrocinadores poderosos de outros tempos, mas os bilhetes para a maioria dos filmes continuaram a esgotar poucos minutos depois da abertura das bilheteiras online, e muitas praças de Berlim encheram-se com o bulício típico da Berlinale.

Na cerimónia de encerramento é que tudo se complicou: os prémios principais foram atribuídos segundo critérios mais políticos que artísticos - urso de ouro para um documentário sobre a restituição de peças de património cultural ao Benim, prémio do melhor documentário para "No Other Land", sobre a ocupação violenta de aldeias palestinianas e o roubo de terras na Cisjordânia. Os discursos foram - segundo as críticas que logo agitaram a sociedade - demasiado unilaterais. Falou-se em genocídio e apartheid, exigiu-se um cessar-fogo imediato, mas a ninguém ocorreu lembrar o massacre do Hamas, e o que revelou ao mundo inteiro sobre a insegurança de quem vive em Israel. Mais significativo ainda: quando duas pessoas da assistência se ergueram e gritaram "Paz para Israel e os palestinianos!", foram vaiadas. E os políticos presentes na sala - entre outros, o presidente de Berlim e a ministra federal da Cultura - não tiveram a presença de espírito de reagir de forma adequada. Como também não houve reacção por parte dos moderadores no palco, nem dos directores da Berlinale.

No noticiário do primeiro canal de televisão, o responsável pelo pelouro da cultura do Estado de Berlim acusou o anti-semitismo que grassa nesta sociedade e em particular no mundo da cultura, e que tem de ser encarado de frente, nomeadamente recusando financiar com fundos públicos projectos artísticos de pessoas que são anti-semitas ou têm um comportamento discriminatório. Como é, infelizmente, habitual nestes casos, o seu discurso não foi claro na distinção entre anti-semitismo e crítica aos actos cometidos pelo Estado de Israel.

A comentadora Monika Wagner foi mais clara e pedagógica: "O que aconteceu na Berlinale provocou um escândalo que não foi útil para ninguém e prejudicou muitos, desde logo os artistas que querem que o seu trabalho seja levado a sério. Sim, pode-se exigir um cessar-fogo, sim, pode-se criticar a política de colonatos de Israel, sim, com certeza que se pode criticar o modo como Israel aceita que em Gaza sejam mortas pessoas inocentes em massa. A nada disto se pode chamar "discurso anti-semita". O que levanta questões é o modo como alguns criticaram as operações militares de Israel em Gaza sem mencionarem o sofrimento das pessoas no dia 7 de Outubro. Porque estamos a falar de pessoas que foram torturadas e mortas com toda a bestialidade, pessoas que foram desumanizadas. Falamos de uma organização terrorista que quer implantar um Estado islâmico, quer varrer Israel do mapa e tem ainda em seu poder muitos reféns inocentes. Nos seus discursos, os artistas premiados não disseram uma única palavra sobre isto. Não será possível pôr fim a este conflito assustador se não se encarar e nomear o sofrimento de ambos os lados. Só uma verdadeira compaixão em relação a todas as vítimas pode ajudar a resolver este conflito e a restaurar a humanidade. O que não ajuda nada são afirmações unilaterais cheias de veemência. Pode-se ou deve-se proibir manifestações deste género no futuro? Como é óbvio: não. Deviam os moderadores ou a direcção do festival ter reagido de outra forma? Isso teria, ao menos, reduzido a dimensão dos danos. Porque os danos são imensos no caso de um festival internacional como este. A polarização unilateral raramente ajudou a resolver um conflito; na maior parte dos casos, tornaram-no ainda mais grave e mais duradouro."  

Perante a catástrofe de Gaza, o mundo dá consigo cada vez mais entrincheirado em retóricas de abominação do outro. Se queremos o fim deste conflito de tantas décadas, temos de saber pôr fim à espiral do ódio. Antes de mais, temos de ser capazes de transformar o nosso discurso num húmus para a paz: a matéria orgânica que transforma a podridão e o horror da morte em promessa de vida. Queremos que Israel e os grupos jihadistas parem de atacar as populações civis de um lado e do outro do muro, queremos a libertação imediata tanto dos reféns do Hamas como dos palestinianos que estão em prisões israelitas sem julgamento. E queremos que os governos dos nossos países se unam a uma comunidade internacional cada vez mais coesa, e muito determinada em estabelecer uma ordem nova que garanta para todos - judeus e árabes - a coexistência pacífica e uma vida com dignidade naquela terra.

 

29 fevereiro 2024

padaria

Fui à padaria à hora a que estava para fechar, e já não havia quase nada. A senhora à minha frente fez o pedido, e logo a seguir voltou-se para mim e perguntou "não queria isto, pois não?". Eu disse que não, e quando chegou a minha vez pedi tudo o que queria, mas antes perguntava sempre à pessoa atrás de mim se estava interessada. E até rimos um bocado, porque ela queria o outro pão parecido com o meu, mas com passas, e temia que eu o comprasse.

E de repente, ali pelas 17:50 da tarde, uma padaria berlinense tornou-se um local cheio de seres humanos, e foi bonito.

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Há 20 anos vi um filme onde se informava que o pão que se deitava fora todos os dias em Viena era suficiente para alimentar toda a cidade de Linz. Consequência dos hábitos dos consumidores que vão comprar 5 minutos antes do fecho da loja, e ainda querem ter todas as variedades de pão e de produtos frescos ao seu dispor.

Esta mentalidade está a mudar - e parece-me excelente.

26 fevereiro 2024

já Helena não sou

Durante a Berlinale, fiz gazeta à Enciclopédia Ilustrada. Nem podia ser de outra maneira: à hora a que devia publicar a palavra para os posts desse dia, já estava a ver o primeiro filme da minha lista.

Mas hoje voltei. Primeiro avisei que ia passear o cão, e talvez me atrasasse, algo a que os amigos daquele grupo já estão mais do que habituados.

Aliás: consta que gostam que me atrase, só por causa das desculpas que arranjo para explicar o atraso. Mas hoje - milgare? - não me atrasei. Pelo que tive de publicar  uma espécie de desculpas por ter fugido ao habitual:

Amigos, isto agora é oficial:
Pois já Helena não sou.
O Fox - será da idade? -
Nem fugiu, nem me atrasou.
Dei meia volta à cidade
Pus a roupa no varal
E nem assim, meus amigos,
Consegui um atrasinho
Nem sequer o mais banal.
Será este o bom caminho?
Será este o meu final?

14 fevereiro 2024

a propósito de dilemas


Há dias falei do dilema sobre escolher entre salvar um cão e salvar o Hitler, se só se pudesse salvar um deles de uma casa em chamas. Pessoalmente, resolvia este problema de princípios civilizacionais de forma simplória: salvava o que pesasse menos, porque as minhas forças são limitadas...

Dilema puxa dilema, parei num outro, esse realmente difícil: se uma tragédia mortal estivesse prestes a acontecer, digamos, dois carros avançam para um precipício, num vão oito pessoas e no outro vai um filho meu; tenho forma de evitar que um dos carros caia - que carro escolho? [ Que carro escolhiam vocês, se fosse um filho vosso? ]

Se fosse eu quem ia no carro, não teria a menor hesitação: salvem os outros. Porque não sei como conseguiria viver a minha vida, se soubesse que alguém tinha escolhido deixar morrer oito seres humanos para me salvar a mim.

Parece fácil, mas logo tropeço nas dificuldades da vida real: os dois reféns do Hamas que o exército israelita libertou em Gaza. O noticiário alemão (aqui, a partir de 14:09) mostrou imagens do resultado da "manobra de diversão" (terrível nome!): "Mas a felicidade de uns é a violência e a morte de outros", disseram. "Para desviar a atenção da manobra de libertação, o exército atacou outros alvos em Rafah, há inúmeros mortos e feridos". Entrevistam uma menina de nove anos, Mai al-Najjar, que tem o corpo cheio de feridas. O pai foi morto. "Estava numa tenda com a minha família quando começaram a atacar-nos. O meu pai foi lá fora, para ver o que se estava a passar. Disse que havia explosões, e ainda estava a falar quando ouvimos mais uma. Fugimos todos a correr." Os reféns libertados: como será viver o resto da vida sabendo que, para me salvar a mim, mesmo sendo eu vítima de uma injustiça tremenda, assassinaram dezenas de pessoas igualmente inocentes e igualmente vítimas de tremendas injustiças? As famílias dos restantes reféns do Hamas: como exigir "bring them back" ao seu governo, sabendo que o preço dos resgates é a vida de muitos inocentes? E será que exigir a Netanyahu que negoceie a libertação imediata em vez de operações como esta é uma hipótese plausível? A pessoa que informou o exército israelita sobre a localização dos reféns: como vai conseguir dormir, de hoje em diante? E Netanyahu: a sua popularidade está em alta porque conseguiu salvar dois reféns. Este massacre de civis não passou de uma operação de propaganda. Apesar dos ataques de uma violência para lá de obscena contra civis, e apesar de terem morrido nesta operação dois soldados israelitas, a popularidade de Netanyahu está em alta. Grande parte da população israelita: adere a este desvario, completamente alienada pelo trauma da orgia de violência do 7 de Outubro, pela tragédia dos reféns e pelo ambiente irracional de um país em guerra.

E o Hamas: a operação de resgate - com todo o horror que se viu - não teria acontecido se já tivessem libertado todos os reféns. Ou se já estivessem a negociar com seriedade a troca de cada um destes reféns pelos palestinianos indefinidamente retidos sem julgamento em prisões israelitas. Ou se já se tivessem rendido. O Hamas: que atirou os palestinianos para este vórtice de violência sem lhes perguntar se estavam disponíveis para morrer numa mais que previsível "guerra total". Que continua teimosamente a oferecer resistência a um inimigo muito mais forte, absolutamente impiedoso e que tem mostrado que não recua perante nada. Há meses que penso na história bíblica das duas mães que deram à luz na mesma altura. Durante a noite, o filho de uma delas morreu, e ela trocou os bebés. De manhã, a mãe da criança roubada deu pela troca. O caso acabou por ir ao rei Salomão, que decidiu partir a criança viva em duas, para dar meio filho a cada mãe. A mentirosa disse "pois então que seja", e a mãe verdadeira implorou que entregassem a criança inteira à outra mulher. Pôs a defesa da vida do filho que amava acima das suas razões e da sua sede de justiça. Penso nesta história especialmente desde o dia em que vi um cartoon da campanha "e tu? também condenas o Hamas?", um meme ardiloso que servia para ridicularizar quem acusava o Hamas. Naquele cartoon, mostrava-se um soldado israelita a fazer essa pergunta a um prematuro num hospital de Gaza. Que não haja dúvidas: não há desculpas nem perdão para quem corta os fornecimentos de água e electricidade a uma população encerrada dentro de muros. Sim, todos ficámos horrorizados perante as imagens da sala de bebés prematuros, onde as máquinas estavam prestes a deixar de funcionar porque não havia combustível para os geradores. Provavelmente todos sentimos a mesma impotência e uma enorme repulsa pelo governo de Netanyahu, o responsável por esta situação. Mas aquela pergunta feita a um bebé que está em risco de morrer num braço de força ignóbil - "e tu? condenas o Hamas?" - levanta uma questão pertinente: "e tu, Hamas? que fazes para salvar este bebé?" Israel cortou o fornecimento de energia, mas nos depósitos do Hamas havia reservas de combustível suficientes para alimentar o gerador que podia salvar aqueles prematuros. Diga alguém, se o souber: o Hamas disponibilizou algum do seu combustível para permitir que os hospitais continuassem a funcionar? Ou preferiu guardá-lo para continuar a lançar rockets simbólicos contra o iron dome de Israel? Este bebé prematuro desenhado no cartoon, tal como o bebé disputado no tribunal de Salomão, corria risco de vida. De um lado, tem um soldado do exército de Israel. Mas do outro lado não tem um Hamas no papel da mãe que ama o seu filho acima de tudo. O Hamas deseja a todo o custo ganhar a disputa, mas não tem amor à criança. "Vai morrer? Pois então que seja", diz o Hamas. "Até dá jeito, para a propaganda. Dá sempre imagens impecáveis para o tiktok."


a origem do apocalipse

 

"Será que o Wladimir Kaminer está a escrever sobre a guerra da Ucrânia?", perguntou-me o Carlos Vaz Marques em Março de 2022, se não me engano. "Quem me dera publicar um livro dele sobre esse tema!" "Sabes aquele português que publicou o Viagem a Tralalá?", perguntei eu umas semanas mais tarde ao Kaminer. "Disse que faz questão de publicar um livro teu sobre a guerra da Ucrânia." O Wladimir Kaminer limitou-se a fazer aquele seu sorriso de quem sabe muito mais do que revela. Passados uns meses: "Podes dizer ao teu amigo português que o livro dele está pronto." E foi assim que eu comecei a traduzir um livro meses antes de ele ser posto à venda na Alemanha (o que foi uma chatice, porque o ficheiro pdf era tão secreto tão secreto tão secreto que nem o consegui converter para word, que é como gosto de trabalhar). É esta a minha história sobre a origem deste livro. Provavelmente não é a história tooooda, mas - deslarguem-me! - quem a conta sou eu, conto-a como muito bem me apetece.
😉
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"Pequeno-almoço à beira do apocalipse" não é só sobre a guerra da Ucrânia (e os ucranianos que vieram parar a Berlim e a Brandenburgo, e a repentina urgência dos homens nos confins da Rússia de ir apanhar amoras nas montanhas, e ficarem por lá, etc.). É - como todos os livros do Kaminer - um conjunto de crónicas sobre o que acontece. Neste caso: escreve sobre o nosso tempo, cheio de espadas de Dâmocles, num registo que consegue ser (quase sempre) divertido, apesar da seriedade dos temas. Porque, como dizia ele há muitos anos, numa entrevista: " A nossa vida é uma tragédia, estamos permanentemente a ser confrontados com desafios maiores que nós. Mas só conseguimos avançar se identificarmos o lado divertido desta tragédia." Se quiserem ler o livro antes de chegar às livrarias, é aqui: www.zigurate.pt/apocalipse
E se são daquelas pessoas que gostam de ler as primeiras frases do livro antes de o comprar ("felizes os que acreditam sem ler"... ), pronto, lá terá de ser...

13 fevereiro 2024

"pequeno-almoço à beira do apocalipse"

 


Atenção! Pára tudo!
O acontecimento editorial do século!
Que digo eu? Do milénio! Pelo menos. Agora, muito a sério: há muito tempo que não tinha tanto gosto em traduzir um livro. Para quem traduz, cada frase do Wladimir Kaminer é um desafio e um prazer. E confesso que é impressionante, é realmente impressionante...
...como um livro tão pequeno demorou tanto tempo a traduzir. (hihihi) (não sei que me deu hoje, que estou muito engraçadinha) O que eu queria mesmo dizer era: a maneira como Wladimir Kaminer aborda algumas das maiores crises do nosso tempo é impressionante. Quantas vezes não parei, abananada, a pensar "opá opá opá, como é que ele consegue fazer, em tão poucas frases, um desenho tão divertido e simultaneamente tão certeiro?"
--- Vem isto a propósito do anúncio do Carlos Vaz Marques na sua página de facebook:
UM NOVO ZIGURATE JÁ EM PRÉ-VENDA
(NAS LIVRARIAS A PARTIR DE 22 DE FEVEREIRO)
Um best seller alemão para sobreviver com humor a tempos inquietantes. Kaminer, um reconhecido mestre da ironia e do sarcasmo, é capaz de transformar numa gargalhada as mais angustiadas inquietações que estamos a atravessar.
[Tradução de Helena Araújo.]

11 fevereiro 2024

mouvement perpetuel

 - Mãe, já estamos a caminho da vossa casa. - Ai! Ainda não comecei a fazer o almoço! - Então vou votar primeiro, e depois vou para aí. - OK. Mas deixam entrar o Fox? - Deixam. Já votei... [pausa breve, gargalhada] ...já votámos muitas vezes juntos.


Hoje, em certos bairros de Berlim, repetem as eleições de 2021.

(E não, a culpa não é do Costa, nem dos woke, nem dos queer, nem do politicamente correcto, nem nada.)

10 fevereiro 2024

humanamente impossível

 

Esta manhã, naquela fase do acordar em que ainda não se está deste lado, mas já não se está inteiramente do lado de lá, passou-me pela cabeça o velho dilema:

- Se uma casa estivesse a arder, e lá dentro estivesse um cão e o Hitler, e você só pudesse salvar um deles, qual deles salvava?

A resposta veio rápida e segura:

- O Hitler é muito pesado!

09 fevereiro 2024

a cozinheira assim-assado ataca de novo, mas desta vez acerta

 


Há dias meti os pés pelas mãos com aquela trapalhada do puré de batata, mas agora, senhores e senhores: voici une specialité de cuisine traditionnelle savoyarde, la fameuse tartiflette !

mnham mnham mnham








era uma vez na Alemanha

(Nota prévia: se não houver informação contrária, todos os links são para notícias em alemão) 


No sábado passado, no centro de Berlim, um estudante judeu foi atacado por outro estudante da sua universidade, que o reconheceu num bar, o seguiu na rua, e o agrediu violentamente - mesmo quando já estava caído no chão. A vítima teve de ser operada para evitar uma hemorragia cerebral, e está no hospital com fracturas em vários ossos do rosto. Chama-se Lahav Shapira. Depois do ataque, no twitter e no instagram multiplicaram-se publicações do género: "lol - é um provocador hardcore" e até "um famoso racista judeu (...) com alma satânica".

O avô materno do "provocador hardcore" emigrou para Israel em 1948. Sozinho. No gueto de Varsóvia, escapou à "solução final" friamente planeada porque, no dia em que os nomes de toda a família apareceram na lista do transporte para o gás em Treblinka, ele conseguiu esconder-se.

O avô paterno de Lahav, Amitzur Shapiraera treinador dos atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique, e foi uma das vítimas do massacre de terroristas palestinianos.

Em 2002, depois do divórcio, a mãe decidiu deixar a Cisjordânia, onde viviam, e mudar-se para a Alemanha com os dois filhos, para viver com o seu novo companheiro numa pequena cidade de Sachsen-Anhalt. Shahak, o filho mais velho, tinha então 14 anos. Não se importou de deixar a Cisjordânia, onde nunca se sentira bem e não tinha amigos. Na Alemanha, contudo, o ambiente era ainda pior, porque a região para onde foram viver é um bastião da extrema-direita mais radical. Uma das primeiras palavras alemãs que aprendeu foi "Judensau". Na escola, troçavam dele por ser estrangeiro e judeu.

Um dia, teria Lahav 16 anos, foi insultado ("porco judeu") e espancado por um adolescente com ideias da direita radical. O ataque só não foi além de algumas contusões e feridas superficiais porque um condutor que ia a passar parou, gritou ao atacante e levou dali a vítima no seu carro.

Descobriu-se depois que o agressor jogava no clube de futebol local, onde havia um treinador de futebol neonazi. Mas demorou algum tempo até se conseguir convencer a direcção do clube que não podiam deixar aquele tipo com bigodinho à Hitler treinar adolescentes.

O irmão mais velho, Shahak, foi viver para Berlim, onde finalmente encontrou o ambiente de liberdade que sempre almejara. Mas até em Berlim fez más experiências. No clube de futebol onde se inscreveu, alguns jogadores árabes chamaram-lhe "porco infiel". Mudou para outro clube. E depois, na passagem de ano para 2015, na carruagem de metro onde ia estavam sete jovens berlinenses de origem turca ou árabe a cantar "fuck Jude" e "fuck Israel". A carruagem estava cheia, mas só duas pessoas protestaram. Shahak foi ter com eles, disse "eu sou judeu - têm algum problema com isso?" Filmou-os. Cuspiram-lhe em cima. Quando saiu do comboio, os outros seguiram-no, exigiram-lhe que apagasse o filme e, tendo ele recusado, espancaram-no até que agentes de segurança da estação intervieram. Quando o caso se tornou público, Shahak quis a todo o custo impedir a sua instrumentalização para propaganda islamofóbica. "Porque aprendi muito cedo o que é o racismo, e sempre o achei uma estupidez", disse ele. A sua mensagem: é preciso pôr fim à espiral de ódio. O anti-semitismo não deve ser instrumentalizado para justificar discurso de ódio contra muçulmanos. "E claro que também teria dito alguma coisa se alguém estivesse a gritar 'fuck Palestina'."

Entre outras iniciativas de protesto, Shahak Shapira é o autor da série de fotomontagens Yolocaust (para quem não conhece: aqui, em português e aqui um exemplo) e de uma acção de crítica ao Twitter, quando, depois de denunciar mais de 300 tuítes de ódio e receber apenas 9 respostas, todas elas alegando que os tuítes não violavam as regras, decidiu pintar alguns deles em frente à sede da empresa em Hamburgo. Frases como: "Jewish scum", "n*rs are a plague to our society", "retweet if you hate muslims", "a Alemanha precisa novamente de uma Solução Final para o Islão".

Devido à sua participação em iniciativas contra a extrema-direita, a própria mãe de Shahak precisou de ficar sob protecção policial durante duas semanas.

É esta a história da família de Lahav Shapira, que está neste momento no hospital com vários ossos da cara partidos.

Depois do massacre do Hamas, os judeus começaram imediatamente a sentir-se ainda mais inseguros nas ruas europeias. Berlim não foi a excepção - bem pelo contrário. Afinal de contas, esta é a cidade onde, no dia 7 de Outubro, algumas dezenas de pessoas vieram para a rua festejar aquela orgia de violência contra judeus.

Na realidade, há vários anos que os actos de violência anti-semita, por parte de neo-nazis e de alguns muçulmanos, já são um tema que choca e preocupa a Alemanha. E essa violência aumentou imediatamente a seguir ao massacre, ainda antes de Israel começar a bombardear Gaza.

À semelhança do que aconteceu em toda a cidade, e particularmente nos bairros onde há mais árabes e turcos, também os alunos judeus da Freie Universität (Universidade Livre), onde Lahav estuda, começaram a deixar o quipá e o fio com a estrela de David em casa. Sentem medo. Ao longo destes meses, a direcção da Universidade não tem sabido responder de forma adequada a esta situação.

Em meados de Dezembro de 2023, estudantes dessa universidade, juntamente com grupos do exterior, organizaram ali uma acção de protesto contra os crimes que Israel está a cometer em Gaza. Ocuparam um anfiteatro, afixaram cartazes, disseram o que tinham a dizer, houve até quem pusesse em causa o direito de Israel a existir. Alguns estudantes judeus daquela universidade tentaram entrar na sala, mas o acesso estava vedado a quem tivesse uma posição crítica ou pró-Israel. Lahav conseguiu entrar juntamente com outros estudantes. Num ambiente de enorme tensão, prendeu à parede um cartaz com a fotografia de um dos reféns do Hamas. Houve cartazes (dos dois lados) arrancados e alguns empurrões. A cena foi filmada (aqui).

No filme, vê-se um homem que faz menção de arrancar o cartaz de Lahav e o tenta empurrar para fora do local. É Ramsis Kilani. Imediatamente a seguir ao massacre de 7 de Outubro, Ramsis Kilani publicou uma série de tuítes chocantes, como por exemplo: questionava se os cidadãos israelitas deviam ser realmente considerados civis, já que, afinal de contas, mais tarde ou mais cedo todos cumpriam serviço militar.

Ramsis Kilani é um berlinense filho de uma alemã e de um palestiniano. Após o divórcio do casal, o pai regressa a Gaza, onde casa novamente. Na guerra de 2014, uma bomba israelita cai no prédio onde a família com cinco filhos se refugiara, em obediência às ordens do exército israelita. Em busca de um lugar mais seguro que a sua casa no norte de Gaza, tiveram o azar de se abrigar no prédio de escritórios onde também um comandante do Hamas se escondera. A bomba destinada a este mata onze pessoas da família de Ramsis Kilani: o pai, a sua mulher e todos os filhos, e mais 4 parentes que também se tinham refugiado ali. Uma vez que o pai e os cinco filhos tinham nacionalidade alemã, na Alemanha diversas organizações deram início a processos por crime de guerra. Israel conseguiu arranjar forma de não ser dado seguimento a nenhum deles. A organização de defesa dos direitos humanos que apoiava Ramsis Kilani avisou-o que não valia a pena recorrer, exemplificando com um precedente: até no caso do assassinato de quatro menores numa praia de Gaza Israel tinha conseguido escapar ao julgamento.

Como consequência do confronto na Freie Universität, imagens de Lahav Shapira começaram a circular na internet juntamente com o apelo: "Fixem este rosto". Lahav é marcado como provocador sionista e racista de extrema-direita.

(fonte: twitter)

Numa troca de mensagens com Lahav, Ramsis Kilani responde-lhe enviando simplesmente o emoji do triângulo vermelho. Na Alemanha, a ninguém escapa a berrante coincidência: o sinal do Hamas para assinalar alvos inimigos, que agora está a tornar-se um símbolo da resistência palestiniana (link para uma descrição em inglês), é igual ao sinal que os nazis usavam nos campos de concentração para marcar os prisioneiros políticos. A escolha deste símbolo é certamente um acaso, mas o seu uso na Alemanha ganha todo um outro significado.


(fonte: twitter)

A universidade titubeia. Começa por dizer que o mundo universitário é um lugar de confronto de ideias e que por vezes há naturalmente excessos, não toma medidas para evitar o aumento da tensão entre alunos judeus e grupos pró-palestinianos, quando se exige a expulsão do agressor diz que não pode expulsar um estudante por motivos políticos (na realidade, a lei não permite que uma universidade berlinense expulse aluno nenhum, seja qual for o motivo; no máximo, pode impedi-lo de entrar nas instalações durante alguns meses). Perante a evidência da violência física, fala em divergência ideológica. A nível da política do Estado de Berlim, também há algumas hesitações. Ao fim de alguns dias após este ataque, a pressão aumentou a tal ponto que se deu finalmente uma inflexão. A responsável deste pelouro no governo do Estado de Berlim e a direcção da universidade assumiram uma posição mais firme contra actos de violência anti-semita. Ontem, 8.1.2024: - Na Universidade Humboldt um grupo pró-palestiniano interrompeu uma sessão onde juristas de vários países, entre os quais uma juíza do Supremo Tribunal de Israel, queriam debater sobre os desafios do julgamento no contexto das Democracias constitucionais. Imagens aqui. (Sinceramente, é preciso ter uma pontaria de luxo para acertar tão ao lado: boicotar justamente uma juíza do Supremo Tribunal de Israel, o último reduto institucional daquele Estado capaz de cercear as tentações totalitárias do governo de Netanyahu!) - Em frente à Freie Universität - que ainda não decidiu o que vai fazer com o aluno agressor, e em quatro meses ainda não definiu um plano sobre como responder à situação de insegurança dos alunos judeus - houve nova manifestação pró-palestiniana. A universidade afirma que foi instaurado um processo-crime "devido ao conteúdo dos cartazes que apelavam a esta manifestação".

Uma associação de estudantes exige que a direcção da FU se demita. Acusa-a de passividade perante incidentes de fundo anti-semita, por demasiadas vezes e durante demasiado tempo. Referem a ocupação da sala e a violenta agressão de um aluno, distribuição de panfletos e ameaças a estudantes, além da apresentação de queixas por agressões menores. "Há uma falta de acção concreta, uma falta de consequências por parte da direcção da universidade", acusa essa associação.

O ambiente na universidade está cada vez mais tenso. Ontem, uma aluna confessava a um jornalista: "Até eu sinto medo, e nem sou judia."

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Tudo isto é trágico. Aquela cena de confronto físico numa universidade - o lugar de troca de ideias por excelência - entre um descendente de uma vítima do "terror palestiniano" e um descendente de uma vítima do "terror israelita": se não fosse a terrível realidade, dava uma potente metáfora. O desespero dos que sofrem pelos milhares de palestinianos a morrer em Gaza. O desespero de um judeu que cresceu na insegurança de um ambiente profundamente anti-semita e vê, na sua universidade, pessoas a desprezar os direitos dos reféns do Hamas e a negar ao seu país o direito de existir.

No meio de tudo isto, o que mais me espanta é o modo como alguns grupos pró-palestinianos conseguem fazer tudo de forma tão contraproducente. No preciso momento em que o mundo inteiro está profundamente escandalizado com o horror de Gaza, no preciso momento em que os alemães saem à rua aos milhões para protestarem contra os planos islamofóbicos da extrema-direita e aplaudem os oradores que afirmam que na Alemanha todos são bem-vindos, em vez de aproveitarem este contexto único para melhorarem a situação do povo palestiniano, alguns grupos pró-palestinianos escolheram formas de luta que provocaram uma extrema polarização.

Queimar bandeiras de Israel, gritar "from the river to the sea", recusar liminarmente falar dos reféns do Hamas ou criticar essa organização, ocupar instalações universitárias e recusar o debate, boicotar iniciativas universitárias: tudo isto faz com que largas camadas da população se recusem a participar em protestos pró-palestinianos, para não serem automaticamente associadas a simpatizantes do Hamas e inimigos do Estado de Israel.

Não dá para acreditar, mas conseguiram realmente afastar das suas manifestações muitas pessoas que concordam inteiramente com os motivos do protesto (que são: a deliberada destruição de Gaza e a morte de dezenas de milhares de pessoas), e, pior ainda: estão a conseguir reforçar na sociedade alemã a imagem preconceituosa que a extrema-direita espalha sobre os muçulmanos, como pessoas que não respeitam as leis e a cultura do país, e ameaçam valores básicos e a coesão desta sociedade.

Os palestinianos - em Gaza, e no mundo inteiro - mereciam melhores defensores.


07 fevereiro 2024

bom apetite!


Por ter praí meio litro de leite há muito fora do prazo, resolvi fazer puré de batata para o almoço, com umas batatas que sobraram de ontem. Primeiro fervi o leite, a ver que tal. Estava bom. Em vez de usar só o leite de que precisava para as batatas que tinha, pensei rapidamente "vai correr tudo bem" e atirei as batatas para dentro da panela. Esmaguei as batatas. "Oh, diabo, vai correr tudo mal!", constatei, e larguei em fuga para a frente: "Não há-de ser nada. Ponho o fogo mais forte, evapora num instante".
Não evaporou.
Deitei farinha naquele caldo aleitado, e depois um ovo a ver se ficava com melhor cor. Por causa do fogo forte, o fundo da panela começou a ficar acastanhado (anda cá, Pollock, vais ver que tens algumas coisas a aprender comigo).
E como ainda não estava suficientemente desgraçada, enganei-me generosamente na quantidade do sal.

E vocês: também tiveram uma aventura culinária em vez de almoço?


06 fevereiro 2024

como lutar contra a extrema-direita



Perante os ataques à Democracia - pérfida e cuidadosamente preparados - a que assistimos de momento em tantos países, perante sondagens que apresentam valores assustadores para a intenção de voto na extrema-direita, a questão que está na ordem do dia é: que fazer?


1. 
Começo pelo mais simples de todos: votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. Votar. 

Votar, enquanto podemos. É gratuito e eficaz.
Se cada um de nós convencer um absentista a ir até à cabine de voto para votar num partido democrático, a extrema-direita perde imediatamente o impacto que tem neste momento. 

Votar, sim - mas cuidado com os votos de protesto:



2.

Um texto de Christian Stöcker recentemente publicado no Spiegel Online apresenta algumas sugestões sobre como lidar com a extrema-direita, partindo dos resultados de estudos científicos. Sumariamente, é isto:

Em primeiro lugar, todos os partidos democráticos têm de recusar liminarmente a redução da realidade a simplificações e dicotomias ilusórias. Quando o discurso dos partidos democráticos começa a imitar o populista, quem ganha são os populistas. O problema é que, em tempos conturbados como os nossos, os populistas têm sucesso porque oferecem respostas simplistas a problemas complexos: a culpa é dos outros. "Nós contra eles". "Populistas de direita imaginam que o mundo está dominado por uma ímpia aliança entre as elites e os grupos parasitas das classes de rendimento mais baixas, e nenhum desses grupos representam o verdadeiro povo." (Jan-Werner Müller, especialista deste tema) Portanto: um mundo reduzido a dicotomias, dividido em dois lados antagónicos. Que os oportunistas da extrema-direita vivem desse modelo de negócio, é algo que todos sabemos. A questão é: quanto pensamento dicotómico se infiltrou já no discurso dos partidos democráticos? O autor dá um exemplo dos partidos da direita alemã: começaram a chamar "economia planificada" (ou seja, a invocar o fantasma do sistema socialista de produção) para criticar qualquer tentativa de regulação estatal que não seja conforme aos interesses dos seus eleitores. Uma outra simplificação absurda é a da ilusão que sequestra a classe média para um dos campos ideológicos, como se esta não estivesse bem distribuída por todos os partidos. (Acrescento ainda outra ideia: quando um partido de direita critica os partidos à sua esquerda usando as palavras/ideias da extrema-direita, esta contaminação do discurso conduz à contaminação do eleitorado de direita. Que acabará por votar no original, sempre mais interessante que a cópia.)


Em segundo lugar, todos os partidos democráticos têm de denunciar e criticar posições e argumentos racistas como tal - e evitar usá-los, obviamente. Identificar minorias como o problema central do país, e fantasiar que o país fica melhor se as perseguir com determinação, não é apenas um atentado à dignidade humana - é também irracional. Nenhum país vai ficar melhor se expulsar os imigrantes (ou, acrescento eu, se identificar os movimentos LGBTQ+ como ameaça e "inimigo a abater").

Mais uma vez: ajustar o discurso dos partidos democráticos à narrativa da extrema-direita não reduz o apoio aos partidos radicais.


"a dignidade humana não é um conjuntivo"


Em terceiro lugar, todos os partidos democráticos têm de parar de trazer os temas da agenda da extrema-direita para o centro do debate público. Adoptar esses temas faz com que se tornem erradamente temas centrais da sociedade, quando são apenas instrumentais para a estratégia de conquista de poder da extrema-direita. Um erro gravíssimo, porque dar visibilidade mediática a um determinado tema faz crescer a base de apoio do "dono" desse tema. Claro que os partidos democráticos podem debater algumas das questões levantadas pela extrema-direita, mas nunca podem cair na tentação de rebaixar o seu discurso para o nível desta.

A propósito, dois trabalhos importantes: - "issue ownership" (John Petrocik): os partidos beneficiam directamente da frequência com que os seus temas aparecem no debate público; e os partidos da oposição beneficiam de forma desproporcional porque não têm nada a perder e têm muito a ganhar. Mais: quebrar tabus garante automaticamente publicidade mediática. - "blue-green study" (Serge Moscovici): mostraram tons de azul com diferente intensidade de luz a um grupo de pessoas, que tinham de dizer o nome da cor. Entre elas, havia algumas instruídas para dizer sempre "verde", o que acabou por convencer parte das outras, que começaram a dizer também "verde". No caso do estudo, bastou que 0,25% dos participantes repetissem obstinadamente uma mentira para levarem consigo 8,42% da maioria que até então identificava a cor como o azul que, de facto, era.

Aqui (acrescento eu), a ideia de cordão sanitário a todos os níveis é fundamental. Mais uma vez: quando os partidos democráticos se deixam contaminar de alguma forma pelos populistas, são sempre estes últimos que ficam a ganhar. Os políticos sérios têm de se distanciar da extrema-direita, do seu estilo de debate e dos seus temas. Têm de ser o adulto na sala, que mantém os temas realmente importantes para a sociedade no centro do debate público, em vez de permitir que este seja dominado pelas parangonas dos provocadores. Vale para os políticos, e também para os jornalistas e os cidadãos que se movem nas redes sociais.


"porque CDU e CSU não são barreiras corta-fogo"


Em quarto lugar, em vez de adoptar os temas dos populistas, os partidos democráticos devem desmascarar e tornar muito visível a falta de credibilidade, a hipocrisia, as mentiras e a charlatanice dos populistas.

Sobre este quarto ponto, acrescento apenas que os jornalistas também têm um papel muito importante a desempenhar.

Retratados: Alice Seidel e Bjorn Höcke, do partido populista da extrema-direita alemã. Na base: "pessoas que recusam integrar-se na nossa sociedade" (alusão a um dos motivos considerados pela extrema-direita para expulsar cidadãos alemães descendentes de estrangeiros) À esquerda: "mais dinheiro para os programas de apoio à saída de grupos radicais" À direita: "Pregador que incita ao ódio" (alusão a alguns pregadores radicais em mesquitas alemãs)


"lobo em pele de cordeiro"


Em quinto lugar, e esta é uma tarefa para toda a sociedade, e não apenas para os partidos: sempre que haja essa oportunidade, deixar bem claro que o apoio às posições dos populistas de extrema-direita é algo considerado recriminável pela sociedade.


"Make racism wrong again"




"Não temos nada contra estrangeiros, mas...
Nem mas, nem meio mas!"


3. E assim chegamos ao último ponto deste post: a importância da sociedade civil para travar a deriva populista de uma minoria que tem sabido dominar habilmente o espaço mediático. Na Alemanha, há cerca de um mês que as manifestações contra a extrema-direita não param. Já é, de longe, a maior onda de protestos de sempre na História deste país.

Por estes dias, penso com enorme admiração nos manifestantes dos Estados onde a extrema-direita está prestes a chegar ao poder. Coragem civil é isto: pessoas de cidades pequenas, onde se acaba por saber onde mora cada um, que vão para a rua participar em manifestações contra a extrema-direita, apesar de andarem por ali bandos de neonazis a rondar.

Em Berlim, pelo contrário, é uma festa. Há duas semanas, participei aqui na primeira destas manifestações. E no sábado passado também, porque a Democracia precisa de todos e também porque várias centenas de milhares de manifestantes com cartazes feitos à mão é algo lindo de se ver: uma pessoa já começa a comover-se no comboio bem mais cheio que de costume, já tem dificuldade em controlar a emoção na estação central, ao ver aquelas plataformas, aquelas escadas, aquelas ruas, aquelas pontes e aquelas praças invadidas por uma multidão "com ideias de todas as cores menos castanho", unida pelo amor à Democracia.


Berlim encheu-se de novo de cartazes com mensagens pessoais, que as pessoas pensaram e desenharam em casa, em placas de cartão. Já partilhei alguns acima, com a respectiva tradução.

Outros exemplos: - "Bisavós contra o fascismo!", empunhava uma senhora velhinha. - "Dou explicações de História", oferecia outra, sentada numa cadeira de rodas. - "AfD: Para se informar sobre os riscos e os efeitos secundários, leia um livro de História e pergunte aos seus avós" (este cartaz citava uma frase que se ouve sempre no fim da publicidade a medicamentos, "sobre os riscos e os efeitos secundários, leia a bula e pergunte ao seu médico ou ao seu farmacêutico") - "Branco puro devia ser apenas uma cor para pintar as paredes" - "Vive sempre de tal maneira que a AfD seja contra"


"a resistência está a crescer"





"ainda há luzes acesas na casa da família Hitler"



"a loucura tem método"
"será que vocês enlouqueceram todos?"
(penso que estes dois cartazes vierem do Teatro Schaubühne)


Aqui chegados, regresso ao essencial: nos tempos que correm, nenhum democrata pode ficar em casa em dia de eleições.


Post scriptum para as pessoas que dizem "ah e tal, eles chegam ao poder e ao fim de dois meses já toda a gente percebeu que são uns incapazes", transcrevo um discurso de Armin Laschet, da CDU:

"Alguns dizem 'Vá, a AfD não é o NSDAP. Não exagerem!' Pode haver quem diga 'Não há-de ser assim tão mau...' Foi o que pensaram as pessoas em 1933. Em Novembro de 1932, os nazis tinham perdido dois milhões de votos. Baixaram para 33%. (...) E então Hitler foi nomeado chanceler. Alguns disseram "bem, vamos nomeá-lo chanceler, em dois meses já estará a ganir, vai desmascarar-se, não tem hipótese". Hitler só tinha dois ministros: Frick, o do Interior; e Göring. Todos os outros ministros pertenciam a partidos democráticos.  E sabem o que aconteceu durante esses dois meses, até ao dia em que ele "estaria a ganir"? 
30 de Janeiro: nomeação de Hitler como chanceler
1 de Fevereiro: dissolução do Parlamento
3 de Fevereiro: Hitler afirma que quer "germanizar" a fundo, e conquistar "espaço vital" na Europa de Leste  
4 de Fevereiro: limitação da liberdade da imprensa e da liberdade de expressão
22 de Fevereiro: as forças paramilitares nazis SA e SS são consideradas polícias
27 de Fevereiro: incêndio do Reichstag 
5 de Março: eleições; os nazis continuam a não ter maioria absoluta
11 de Março: Goebbels nomeado ministro da Propaganda
22 de Março: início da construção do campo de concentração de Dachau
23 de Março: lei da Concessão de Plenos Poderes (que esvaziou o poder do Parlamento) - fim da Democracia na Alemanha. 
Em dois meses, destruíram tudo. É por isso que nenhum antidemocrata pode ocupar um lugar do Estado. Vão usar essa posição para se verem livres da Democracia. E nós não o vamos permitir!"



    

01 fevereiro 2024

atrasei-me outra vez a publicar o tema de hoje na Enciclopédia Ilustrada

Só vos digo que começo a desconfiar que sei onde fica o verdadeiro triângulo das Bermudas. É no meu relógio, assim tipo de 15 minutos antes da hora de publicar a palavra mágica do dia a 5 minutos depois.

São vinte minutos fatais: o tempo desaparece num perfeito buraco negro, quando dou por ela já estou atrasada outra vez.

(Se isto continua, prevejo para mim uma carreira fantástica num laboratório de física quântica. Como cobaia.)


31 janeiro 2024

atrasos


Esta manhã atrasei-me de novo a publicar o tema do dia na Enciclopédia Ilustrada. Um atraso de mais de vinte minutos! O que é indesculpável, mas tenho boas desculpas:

Primeiro, distraí-me no facebook, cá por causa de coisas que me fazem sempre rir de mim própria, porque me lembro de um cartoon em que a mulher, já deitada na cama, diz ao marido para vir finalmente dormir, e ele, em frente ao computador: "Agora não posso! Há aqui uma pessoa na internet que não tem razão."

Depois, já atrasadíssima, caí na asneira de ir ver as efemérides do dia, e descobri que hoje é o dia da revolta do 31 de janeiro. Isto é grave: precisei de ir ver as efemérides do dia 31 de Janeiro para me lembrar que hoje é dia de falar da revolta republicana do 31 de Janeiro no Porto.
Cuidado comigo: por este andar chego a 24.4.2024 e vou espreitar as efemérides do dia...

E logo eu, que até sabia perfeitamente que a rua 31 de Janeiro dantes se chamava rua de Santo António!

Mais atrasada que nunca, mergulhei pela descrição dessa revolta, em busca de uma palavra chave começada por D, que é a nossa letra hoje. Só encontrei "derrota". Desarrisca!

Mas fiquei a saber o que não sabia: os revoltosos não desceram a rua de Santo António. Subiram-na. Lá se foi o filme tão bonito que tenho desde sempre: eles a descerem a rua a partir daquela escadaria da igreja...
Afinal, do lado da igreja vieram os tiros que os puseram em debandada. Deve ter sido o momento em que alguém concluiu que a igreja é a fonte de todos os males.

Ainda me faltava perceber que contexto social terá levado a que uma mocinha nascida tanto tempo depois da implantação da República aprendesse a dizer "rua de Santo António" para se referir à rua que já mudara de nome seis décadas atrás.

Mas - num rasgo único de presença de espírito e bom senso! - publiquei a palavra mágica de hoje antes de ir esclarecer também esse mistério da minha vida. Pelo que só me atrasei 20 minutos. Ou um pouco mais. 

28 janeiro 2024

manhã de domingo

 



O Fox (yes! está cá outra vez!) acordou-me às oito da manhã. Ou então fui eu que acordei e descobri que ele estava mesmo ao meu lado na cama, de barriga para o ar, todo oferecido. O espertinho percebeu que eu estava bem disposta e começou logo a pressionar para o levar à rua. Foi o que fiz, sem tomar duche, nem ver na internet a temperatura lá fora, nem nada. Fomos ao pão. Estava um dia lindo, mas tão frio que até as pedras se encolhiam. Pus-me a tirar fotografias, até que o Fox perdeu a paciência e foi andando. Apanhei-o mais à frente, num baldio. Estava perto de um grupo de cães e respectivos donos, e veio ao meu encontro. Os outros perguntaram:

- Este cão é seu?

- Sim. Fugiu-me um bocadinho.

- “Um bocadinho”? Ele apareceu-nos vindo da direcção contrária à sua!

(Adoro pessoas que adoram armar-se em Poirot logo pela manhã, antes do meu primeiro café e tudo...)

Hesitei entre contar-lhes que o Fox é filho de cães de aldeia, e que naqueles genes tem muitas gerações de intrépidos avós a andar soltos por onde lhes apetece, ou fazer um sorrisinho simpático e continuar caminho. Continuei caminho, a fazer contas de cabeça: entre a 72ª e a 143ª fotografia, o Fox deve ter tido tempo suficiente para dar a volta completa ao descampado.

Regressámos a casa, tomei o pequeno-almoço, ele deitou-se ao meu lado cheio de esperança que caísse por ali um bocadinho de queijo. Caiu. 

Moral da história: começou-nos bem, este domingo. 

(Mas não contem ao Matthias que eu deixo cair queijo da mesa para o Fox, lá se me estragava o domingo todo.)