2 Dedos de Conversa
... sobre o que nos desaquieta
26 setembro 2026
125 !
11 setembro 2026
vinte e cinco anos depois
Corremos para a televisão, horrorizados, hipnotizados.
Telefonámos para a escola dos nossos filhos, e a directora, Ursula Trush, atendeu. Esta mulher admirável nasceu na Hungria, atravessou a infância em plena tragédia da Segunda Guerra Mundial e, depois de uma formação pedagógica com o filho de Maria Montessori, decidiu abrir uma escola Montessori em San Francisco, ao serviço da construção da paz. Nessa manhã, pediu a todos os pais que levassem os filhos à escola, porque queria falar com eles sobre o que estava a acontecer.
Quando os nossos filhos chegaram à escola, encontraram outros alunos – dos três aos dez anos de idade – reunidos numa sala, a conversar com a directora e as professoras.
– O que devemos fazer perante estas pessoas que nos odeiam? – perguntou-lhes Mrs. Trush.
– Não sei... – disseram uns.
– Temos de nos defender! Temos de os matar! – disseram outros.
– Temos de lhes dar presentes – disse um menino.
– Dar presentes a quem nos quer matar?! – protestaram todos, a rir.
A directora interveio:
– Não se riam, porque ele tem muita razão. Não podemos responder ao ódio com o ódio. Temos de encontrar outra solução.
Nesse dia não fui trabalhar. Fiquei em frente à televisão o dia todo, a assistir em directo àquele horror em bruto, agravado pela repetição frequente de uma sequência odiosa de imagens: mostravam as pessoas a cair das torres e, a seguir, um pequeno grupo de palestinianos em Jerusalém a aplaudir alegremente. Ao longo do dia, vi essa sequência dezenas de vezes.
Quando fui buscar os meus filhos à escola, a meio da tarde, no «livro de bordo» havia um recado de Ursula Trush para os pais:
«Em nome do futuro e da paz, contem às vossas crianças como é a vida dos palestinianos. É preciso andar uma milha nos mocassins dos outros para os entender.»
Na altura, já me dera conta da intenção das televisões ao repetirem aquela sequência de imagens: identificar rapidamente um inimigo. De um pequeno grupo em Jerusalém extrapolou-se para todos os muçulmanos, e não demorou muito até vermos as primeiras consequências: ataques a mesquitas e centros muçulmanos em todo o país. E, também aí, houve respostas de paz: grupos de voluntários cristãos formaram escudos humanos nesses locais.
O medo tomou conta da sociedade: os ataques de antraz, o atirador de Washington DC, os boatos («O próximo alvo é a Golden Gate Bridge! Roubaram os planos de abastecimento de água da Bay Area! Em Stanford há bactérias em quantidade suficiente para matar todos os californianos!»). Um medo generalizado, servido em doses cavalares nos jornais e nas televisões.
No dia em que, no metro, me senti apreensiva por causa de um saco de desporto que um passageiro com aspecto árabe levava consigo, apercebi-me de que estava a ser completamente manipulada e já não conseguia pensar bem. Arrumámos a televisão na garagem, cancelámos a assinatura do jornal e, assim, recuperámos a antiga normalidade.
Pouco depois regressámos à Alemanha. Entretanto, veio o PATRIOT Act, Guantánamo, as invasões do Afeganistão e do Iraque. E Donald Rumsfeld banalizou a expressão «danos colaterais» para se referir aos inúmeros civis mortos pelo exército americano.
As primeiras bombas que anunciavam a «pax americana» no Iraque foram notícia de primeira página e abertura de telejornal. Pouco depois, deixaram de ser notícia. Só pelos refugiados iraquianos, que procuravam a Europa em número cada vez maior, ficámos a saber do estado quotidiano de catástrofe que se vivia no seu país.
Vinte e cinco anos mais tarde, o gráfico que aqui apresento, baseado num estudo da Brown University, mostra com clareza que, em nome da segurança e da autodefesa dos ocidentais, foram cometidos crimes terríveis contra outros povos. Não avançámos uma única milha nos mocassins de nenhum outro povo, e no sentido de construir a paz com todos. Para piorar, muita da relativa segurança e do conforto económico em que vivemos são conseguidos por meios que vão contra os valores que apregoamos como sendo aquilo que nos distingue no panorama mundial – nomeadamente, o atropelo dos direitos humanos e do direito dos povos, as concessões e a colaboração com regimes ditatoriais, a prática da tortura.
Será que algum dia nos pedirão contas deste tempo em que aceitámos com tanta naturalidade que as vidas dos ocidentais valem mais do que as dos outros?
23 julho 2026
rir para não chorar
"quarentena"
Ontem, a palavra mágica na Enciclopédia Ilustrada foi "quarentena". O que me lembrou esta história:
A invasão da Ucrânia começou numa altura em que a pandemia ainda fazia das suas. Na altura até pensei: "caramba, Putin, uma coisa de cada vez!" Mas o Putin encolheu os ombros e seguiu em frente com os tanques. O Putin a entrar por um lado, e os ucranianos a fugir por outro.
Foi um tempo de grande generosidade, lembram-se?
(Ainda hoje sinto inveja daquelas favas com chouriço que o nosso cozinheiro em Cracóvia fez para quem chegava.) (*)
Em Março de 2022, uma autarquia portuguesa enviou alguns autocarros para ir buscar pessoas à fronteira da Polónia. Lembro-me de estar na mesa eleitoral no consulado de Berlim, naquela cena da repetição dos votos dos emigrantes, porque tinham inutilizado indevidamente os votos por correspondência, e ver a cônsul muito aflita com um quebra-cabeças enorme: num dos autocarros vinha uma mulher com um bebé de um mês de idade, e ao entrar na Alemanha descobriram que ambos tinham covid. Ficaram num hospital em Frankfurt am Oder, mas entretanto já não havia motivo para os ter hospitalizados, e era preciso ir buscá-los, arranjar um sítio onde os deixar até lhes passar a covid, e mandá-los de avião para Portugal.
Vocês não sabem, mas eu, quando não tenho maneira de dizer que não, até pareço boa pessoa. A situação era tão aflitiva que, lá está, não consegui dizer não, e fui no nosso VW-camper, com uma grande tela de plástico entre o banco de trás e os da frente, buscar mãe e filho à fronteira da Polónia. Não me dava jeito nenhum apanhar covid, confesso. Mas pensava que ia num carro igual ao que a Angela Merkel mandou comprar para ficar longe do seu motorista, e coisas assim. No hospital de Frankfurt Oder, a amabilidade e a proximidade das enfermeiras, que não pareciam nada preocupadas por fazer festinhas a um bebé com covid e sem máscara, descansou-me bastante. "Se elas conseguem, eu também hei-de conseguir", pensei.
A viagem decorreu sem problemas, deixei os doentes no Hotel Pestana de Berlim, e nunca mais os vi.
E assim cheguei à #quarentena desta história: os directores do hotel mantiveram um corredor inteiro do edifício sem hóspedes, para deixarem mãe e filho descansadamente a curar-se e a recuperar enquanto foi preciso. Um deles levava-lhes um carrinho com comida, que deixava à porta, e ia depois buscar os pratos vazios.
Já me tinha esquecido deste episódio, mas hoje, ao pensar na palavra mágica do dia, lembrei-me da generosidade mágica daqueles dois directores de hotel.
(*) Nesses dias aflitivos, a comunidade da Enciclopédia Ilustrada juntou algum dinheiro para se associar ao gesto de um dos seus membros, um excelente cozinheiro, que foi para a casa da sua família em Cracóvia preparar refeições para oferecer aos refugiados na estação de caminho de ferro, e se esmerava para lhes dar o melhor possível. Favas com chouriço, por exemplo.
18 julho 2026
o exemplo que damos
09 julho 2026
o que é preciso para uma pessoa passar a ser "nojento sionista"?
"curiosidade"
Recordaram-me uma frase da professora do primeiro ciclo do meu filho, na Jenaplan de Weimar, ao mostrar-me o prazer com que os alunos de seis anos interrogavam o mundo: "Temos de manter viva a curiosidade destas crianças."
02 julho 2026
filosofices às quintas-feiras de manhã: temos
23 junho 2026
diz-me com quem andas...
22 junho 2026
manhã de sábado (2)
No facebook, uma amiga comentou o meu texto "manhã de sábado" (publicado aqui) propondo uma outra maneira de olhar para o que me aconteceu. Partilho, porque é impressionante: os factos são os mesmos, mas a maneira de os ler e de reagir a eles é quanto basta para ter uma manhã de sábado deliciosa ou muito irritante. [ Já agora: quem acham que corre mais risco de votar nos partidos que querem dar cabo disto tudo? A pessoa que interpreta com optimismo, ou a pessoa que vê agressões em tudo? ]
21 junho 2026
manhã de domingo
20 junho 2026
manhã de sábado
05 junho 2026
dançar com Siri Hustvedt
04 junho 2026
desaire
02 junho 2026
regresso ao futuro
01 junho 2026
o Remigration Summit num jornal berlinense
encontro internacional do ódio
31 maio 2026
estava bom?
30 maio 2026
a herança do cinema
Wim Wenders, há pouco, ao receber o seu prémio no Deutscher Filmpreis (em tradução bastante livre):
27 maio 2026
Passos Coelho e o "deslaçamento"
20 abril 2026
com que nome eu vou?
