24 novembro 2020

"espinho"


O tema da Enciclopédia Ilustrada ontem era "espinho", e como é óbvio alguns dos participantes abordaram o tema "coroa de espinhos". Um dos textos falava num processo pessoal de aprendizagem para recusar o sofrimento que está no cerne da Igreja Católica: "com o seu cortejo de desgraças e ameaças (listas de pecados, de sacrifícios, de boas acções registadas num caderninho para mostrar na catequese) (...). E #espinhos, bastam os que nos saem ao caminho...("não ando aqui para sofrer", uma das minhas frases preferidas)".

A minha primeira reacção, ao ler os vários comentários concordantes, lembrou-me aquela anedota do aviso na rádio "atenção: há um condutor em contramão na auto-estrada" e do condutor que comenta "um?! centenas deles!"
Lá vou eu em contramão...

Na casa da minha avó havia um oratório com um Cristo profundamente sofredor. Aos seis, aos dez anos, a expressão de sofrimento no seu rosto e os sinais da tortura provocavam-me muito incómodo. O diácono Remédios que sempre viveu em mim repetia uma e outra vez, pasmado e mudo: "não havia necessidade".
Muitos anos depois, compreendi.

O livro "Óscar e a senhora cor-de-rosa", de Eric-Emmanuel Schmitt, explica bem o sentido desta coroa de espinhos. Sofrer não é um fim em si. O sofrimento de Cristo não é um exemplo de vida, é um símbolo de união com os humanos.
Quantos deuses há por essas religiões fora que sabem por experiência própria o que sofremos? Quantos deuses sofreram na própria carne as dores profundas que dilaceram o coração e o corpo dos humanos?
Se fosse para escolher um deus, preferiam um tipo Buda, com aquele sorriso seráfico de quem atravessa incólume as contradições do mundo, esse "sai dessa, meu, não compliques, na boa!" (ai!, se houver por aqui algum budista, vou levar uma ensaboadela em 3... 2... 1..., e era bem feito, para não falar do que não sei) ou um deus que se fez nascer na mais extrema pobreza, que conheceu o exílio para fugir à perseguição de um rei movido por ódio assassino, que criou inimigos entre os poderosos e os bem instalados porque estava sempre do lado dos excluídos e dos que sofrem, e que acabou por morrer depois de terríveis torturas? Em suma: preferiam um deus exterior e superior a nós, ou um deus que sabe bem o que custa a vida dos humanos, porque sofreu tudo isso na própria pele?

É justamente a coroa de espinhos que nos permite entender melhor o que significa "Emanuel - Deus connosco": é esse deus que, mesmo do alto da sua cruz - um pedestal, de certo modo -, se encontra ao nível do mais miserável dos humanos. O Emanuel não é uma visita de cerimónia que recebemos no salão, é o pobre que, com alguma sorte, encontra abrigo num canto da cozinha, como no conto da Sophia.

Olhando para a coroa de espinhos por outra perspectiva, a das representações da flagelação de Jesus, não é na coroa de espinhos que reparo, mas na maldade de quem a põe na cabeça do prisioneiro. Lucas Cranach, entre muitos outros, cria nesses quadros expressões de bruta perfídia, plenas de actualidade. São os rostos que me ocorrem quando vejo turbas de hienas a atacar alguém nas redes sociais. Também já o fiz algumas vezes - e com vergonha o confesso: conheço o prazer de (metaforicamente falando) espetar espinhos na cabeça de alguém. Nesta perspectiva, a coroa de espinhos na cabeça de Jesus não é uma apologia do sofrimento, mas um espelho que nos interpela: quantos destes espinhos foram postos por ti na cabeça dos pobres, dos doentes, dos famintos, dos sem-abrigo, dos sem pátria?
Hesito agora entre partilhar algumas imagens dos flageladores de Cristo, ou do Cristo do oratório da minha avó. Escolho o Cristo da minha avó, porque imagens da maldade da turba é algo que infelizmente conhecemos todos, em vários estilos e representações.
(E só agora me dou conta que a coroa de espinhos desapareceu daquela cabeça. Será que passou por ali um buda, e resolveu dar uma ajudinha?...)



22 novembro 2020

mas as crianças, Senhor...

O meu sogro contava que quando era pequenino e havia alarme aéreo na sua cidade, a família e os vizinhos corriam para a cave do prédio, e ali passavam boa parte das noites encostados uns aos outros a ouvir o ruído das bombas a cair e a explodir à sua volta. "A minha mãe dizia em tom decidido: a nós não vai acontecer nada!" - contava ele, com um sorriso - "e eu acreditava piamente, porque era a minha mãe, e o modo como o dizia não deixava margem para dúvidas."

Uma quase contemporânea dele, também na Alemanha, aprendeu aos cinco anos que se estivesse a caminhar em espaços abertos e ouvisse aviões no ar tinha de largar tudo, atirar-se para o chão, e ficar imóvel à espera que passassem.

Já no Porto, em finais do século passado, reparei que a filha de uns amigos às vezes demorava muito tempo a ir comprar o pão, porque tinha de escolher os caminhos em função dos "moedinhas" que estivessem de serviço. Alguns gostavam de a assediar. A miúda ainda andava na escola primária, e falava disto a rir, muito orgulhosa de si própria por se saber defender tão bem.

Vem tudo isto a propósito de um artigo de opinião que li recentemente sobre a resiliência das crianças, que são capazes de conviver perfeitamente com as máscaras e outras dificuldades deste tempo, se - sublinho: se - os adultos souberem ocupar o seu lugar de adultos para lhes transmitir sem drama o que está em causa. Infelizmente, há muitos adultos que preferem usar as crianças como suporte para a sua própria ansiedade, aumentando o sofrimento destas em vez de as proteger, para depois virem apregoar no espaço público que as crianças estão a sofrer. É possível reagir de outra forma às dificuldades que a pandemia traz à vida dos nossos filhos. Há um exemplo muito interessante neste podcast, a partir de 1:14:00 - a resposta de uma turma da escola primária ao facto de um dos colegas estar obrigado a usar permanentemente máscara, por ser de altíssimo risco. Aqueles 4 minutos da entrevista são um sinal do melhor Portugal de que somos capazes.

Outro exemplo vem da costureira de que falei aqui há dias. Em plena primeira vaga da crise da Covid, ela começou a fazer roupinhas para as bonecas das crianças da família. Conjuntos completos: vestido, cuecas, e máscara. Meio caminho andado para os miúdos começarem a aceitar o uso da máscara. O que é uma outra maneira de, no meio da incerteza e das dificuldades, dar alguma segurança às crianças: "a nós não vai acontecer nada!"







20 novembro 2020

a raposa no meio das galinhas

 



Notícias muito preocupantes sobre os ataques à Democracia na Alemanha: no dia em que se discutiu no Parlamento Federal a nova lei para enquadrar a actuação dos governos em caso de pandemia, que restringe o actual poder discricionário do governo e estabelece as suas possibilidades de actuação, 

(1) a AfD, por motivos de pura estratégia mediática, criou uma narrativa inversa, comparando a lei em debate ao golpe de Estado que permitiu a Hitler escapar às regras da Democracia e instalar-se no poder;

(2) no plenário do Parlamento, todos os deputados da AfD usaram as cadeiras livres ao seu lado para exibirem um cartaz patético mostrando uma faixa de luto por cima da Constituição (o presidente do Parlamento mandou-os tirar tudo aquilo imediatamente, dizendo que a troca de ideias naquela casa não é feita com recurso a cartazes);  

(3) alguns deputados da AfD levaram convidados para a parte de acesso reservado dos edifícios parlamentares (o que é permitido), mas deixaram-nos por lá à solta (o que não é permitido). Esses arruaceiros andaram a perseguir, a intimidar, a filmar e a insultar políticos que se dirigiam ao plenário, entre os quais o ministro da Economia como se vê neste filme. Alguns funcionários do Parlamento sentiram-se de tal modo ameaçados que se fecharam à chave dentro dos seus escritórios. Os filmes dos políticos ultrajados no interior do Parlamento foram postos online, para gáudio dos inimigos da Democracia; 

(4) ali perto, junto à Porta de Brandeburgo, uma manifestação contra as medidas de combate à pandemia e contra esta lei foi dispersada pela polícia, uma vez que não respeitavam as regras de saúde pública; a polícia usou os canhões de água com potência reduzida, de modo a fazer uma espécie de chuva sobre eles, uma vez que havia crianças entre os manifestantes (o que está muito bem - e seria muito desejável que tivessem a mesma delicadeza quando estão perante manifestantes que querem impedir uma marcha de neonazis, ou a destruição de um parque numa cidade, ou um transporte de lixo nuclear).

A lei foi aprovada pelo Parlamento e assinada pelo presidente nesse mesmo dia, para entrar em vigor o mais depressa possível. Estamos em plena pandemia, é importante que o quadro legal seja claro - nomeadamente para facilitar o trabalho dos tribunais que serão chamados a decidir sobre as decisões dos governos e o comportamento de agentes do Estado. Hoje, o Parlamento debateu sobre o comportamento da AfD e acusou o partido de se aproveitar cinicamente dos direitos dos seus deputados para atacar a Democracia.   

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À margem disto, uma nota pessoal: o chefe de uma amiga minha é um dos que pensa que a Covid é uma gripezinha e que a máscara é um atentado à sua liberdade pessoal. Por conseguinte, anda no escritório sem máscara, e vai de mesa em mesa falar com quem lhe apetece à (pouca) distância que lhe apetece. Há dias descobriu-se que tinha covid. A minha amiga - que tem 30 anos, e uma saúde relativamente frágil - descobriu hoje que foi contagiada por ele. 


a época delas




Está oficialmente aberta a época de me arriscar a apanhar uma gripezinha qualquer, por interromper o pequeno-almoço para ir tirar fotografias no terraço - descalça e em camisa de dormir.











os alemães isto e os alemães aquilo

Ontem ao fim da tarde escrevi uma mensagem online para uma instituição pública de Weimar, porque precisava de uma cópia do registo matricial da casinha que lá temos e queria fazer o pedido por email, em vez de enviar pelo correio.

Esta manhã, logo pelas oito, tocou o telefone. "- Guten Tag, quer dizer, guten Morgen!" - disse uma voz bem-disposta. "Ontem contactou-nos por internet, mas por motivos legais não podemos dar resposta por email, e como deixou na sua mensagem um lindíssimo número de telefone estou a ligar para informar que deve enviar pelo correio o formulário, ou então uma carta a dizer simplesmente "peço que me envie uma cópia do registo matricial do nº x". Em princípio não demora mais de três dias para receber o que pediu. Mas não caia na asneira de recorrer aos serviços de agências que encontra na internet, porque eles cobram três ou quatro vezes mais do que nós, e demoram três semanas a dar-lhe o papel!"

Agradeci, desejei-lhe um bom dia (do fundo do coração), ela retribuiu (e também me pareceu sincero).

Fica aqui registado, para o caso de aparecer alguém a dizer que os alemães isto e os alemães aquilo.


A de "adolescente", B de...

 


Podem tirar a rapariga do Porto, mas não tiram o Porto da rapariga: depois de “adolescente” para A, a primeira palavra que me ocorreu para B foi: “belho”. 

O que me lembra uma piadinha do Hugo van der Ding, sobre a dificuldade de no Norte se saber se as pessoas estão a falar da abelha ou da belha. 

Isso é ele, que apesar de ser van der Ding não percebe nada destas coisas. Quando se diz “a abelha”, é “abelha”. Quando se diz “a belha”, é óbebiamente “a belha”. A verdadeira dificuldade é entre “a bela” e “a bela”. A primeira ilumina-nos pela sua beleza tout court, e a segunda ilumina-nos pela beleza do seu pavio a arder. 

(é tão cansativo ter de explicar tudo aos de Lisboa, tsss tsss tsss)



"adolescente"


“Adolescentes são aborrescentes”, "idade do armário" e "fase da parvalheira" são algumas das expressões que se ouvem com frequência por parte de adultos incapazes de gerir a sua própria perplexidade perante o comportamento de um #adolescente. Não vou dizer que consigo gerir a minha perplexidade, ignorância e impotência melhor do que os outros, mas sempre achei essas expressões palermas e agressivas: sinais de falta de maturidade por parte dos adultos.
Gosto bem mais desta abordagem: "a adolescência é aquele período da vida em que os pais se tornam difíceis" - convida o adulto a descentrar-se.
Pessoalmente, o que mais me ajudou a fazer a difícil travessia da adolescência dos meus filhos foi um conselho num daqueles livros de ajuda para pais: explicava que nesta idade o cérebro dos miúdos está a sofrer transformações grandes e desordenadas, pelo que, ao olhar para eles, devíamos ver sempre na sua testa um letreiro a dizer
"CUIDADO: CÉREBRO EM OBRAS".
(Cérebro em obras, e mais as borbulhas, e mais a mudança de voz nos rapazes, e mais a necessidade de pertencer a uma clique, e mais o medo do bullying, e mais os horários escolares pesadíssimos, e mais o medo de não ser aceite, e mais isto e mais aquilo - a última coisa de que um adolescente precisa é que os pais ou outros familiares lhes venham com o paternalismo agressivo do "lá estás tu na fase da parvalheira!") 


19 novembro 2020

roupa para lavar e durar



No verão passado regressámos à costureira que já nos atura há mais de três décadas, e o Joachim fez a reclamação que lá nos levara: "uma camisa de linho que ainda só tem vinte anos, e o colarinho já está gasto! Espero que ainda esteja dentro da garantia."

Ela riu-se. E por graça pôs-lhe um colarinho novo sem cobrar nada.

Fomos ao outlet da Vianatece comprar linho para mais camisas, fez-se a encomenda e a prova, e um belo dia chegou-nos a Berlim um pacote com as camisas novas, e uma surpresa: colarinhos suplementares, para o caso de daqui a vinte anos se começar a notar a idade.

As camisas não ficam baratas, é certo. Mas se dividirmos o preço pelos anos de vida útil, o caso muda radicalmente de figura.

(Para quem mora entre Esposende e Viana do Castelo, e anda à procura de uma costureira de confiança: Carolina Pena Sampaio, em São Romão do Neiva.)

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A Christina gosta de comprar jeans Levi's, porque diz que têm o corte ideal para ela e são muito resistentes. Eu costumava protestar, por causa do preço, mas entretanto deixei-me disso. É que uma vez ela levou as suas Levi's a uma loja para serem consertadas, e deram-lhe umas novas, porque -segundo informaram - ainda estavam dentro da garantia. Recentemente, essas calças voltaram a romper no mesmo lugar, e ela voltou à loja. Disseram-lhe que aquele modelo tem esse problema (como se estivéssemos a falar de carros!), mas desta vez só lhe remendaram o rasgão. Gratuitamente.

Tal como as camisas de linho do exemplo anterior: as calças são caras, mas tendo em conta a durabilidade e o serviço, ficam bem mais baratas do que as compradas na feira.

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A OKAIDI, marca francesa de roupa de criança, oferece a possibilidade de revender na própria loja a roupa usada dessa marca quando deixou de servir. Os interessados levantam as etiquetas na loja, depois entregam a roupa etiquetada, e ao fim de um determinado período vão levantar o dinheiro e o que não se vendeu. Bem sei que é um bom truque de marketing, mas é também um risco que obriga a empresa a fazer roupa que tenha realmente boa qualidade, para não fazer má figura na revenda dentro da própria loja.

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Conheço muito boa gente que aproveita uma vinda a Berlim para ir comprar a sua roupa na loja da Humana da Adenauerplatz. Têm meios para comprar novo, mas preferem comprar usado para não esgotarem ainda mais o planeta. E, pelos vistos, Berlim é a cidade certa para comprar roupa usada: óptima qualidade, e roupa para todos os gostos.

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A avó do Joachim - que atravessou duas guerras, e por duas vezes perdeu tudo o que tinha, primeiro na hiperinflação e depois nos bombardeamentos - dizia: "não somos suficientemente ricos para desperdiçar o dinheiro em porcarias baratas".

A Greta Thunberg (que é como quem diz: os nossos filhos e os nossos netos) acrescentaria: "o nosso planeta não é suficientemente rico para se desperdiçar neste sistema de produção de porcarias baratas de usar meia dúzia de vezes e deitar fora."

E assim vai a vida, no que diz respeito aos nossos consumos de vestuário: tentando comprar apenas roupa de excelente qualidade, tanto nova como usada, e escolhendo modelos atemporais que continuarão a ser usados daqui a dez ou vinte ou quarenta anos. Por respeito pelo planeta, e em nome do futuro.


18 novembro 2020

em tempo de covid, que não nos falhem os lagos






Na semana das eleições norte-americanas regressámos à nossa tradição de terminar o domingo em frente ao pôr-do-sol no Wannsee. Como estava um dia lindo de Outono, e passear nas florestas é um dos prazeres que a crise da covid-19 não impede, havia demasiadas pessoas no mesmo lugar.

Encontrámos um cantinho longe delas, junto ao estaleiro de um castor.

O sossego do lugar levou-nos para um universo inteiramente alheio à barulheira eleitoral, às birras presidenciais, ao ruído da maldade do mundo. Às vezes basta um marulhar doce para nos lavar a alma.


No domingo passado fomos visitar amigos na sua casa de fim-de-semana na Suécia, digamos assim, a cinquenta quilómetros de Berlim. Ficámos a maior parte do tempo junto ao lago, ou sentados no terraço, bem longe uns dos outros. Até que o frio nos obrigou a acabar a refeição dentro de casa, onde comemos depressa e discutimos qual seria a melhor tradução para "Stoßlüftung" (ventilação forçada? ventilação relâmpago? ventilação brusca? arejamento intenso intermitente?) - enquanto a praticávamos.


Ontem fui passear na floresta com a Christina e o Matthias. O Fox corria alegremente, misturado com a paisagem de Outono. As suas feridas na pele estão quase inteiramente fechadas (e as psicológicas, aparentemente, também). Cruzámo-nos com vários grupos de crianças de infantários. Improvisámos um piquenique de bolo e café num tronco caído junto ao lago Teufelsee.



O terreno estava todo revolvido pelos javalis (e quem me dera que os javalis viessem revolver a parte do jardim onde quero semear flores para o próximo verão! cambada de incompetentes preguiçosos, que não querem trabalhar na minha rua).




Ao nosso lado esquerdo, duas mulheres mais velhas que eu tomavam banho nuas. E ao nosso lado direito um homem mironava-as descaradamente. Pedi aos miúdos para ficarmos de pé lado a lado, entre os olhos dele e os corpos delas. Eu olhava frequentemente para o homem, devolvendo-lhe sem vergonha a sua falta de pudor, até que ele se foi embora com ar zangado. O Fox aproveitou o tempo para tentar abrir um túnel até à Austrália, mas teve de interromper quando ainda só ia a meio do caminho, porque o piquenique chegara ao fim.

(Depois regressei a casa, e descobri que temos framboesas e rosas lindíssimas no jardim. Estando Dezembro à porta. Não sei como reagir a estes factos.) (Vou ver se na Primavera arranjo de o Fox me vir escavar túneis até à Austrália no jardim cá de casa. Se não posso contar com os javalis...)



16 novembro 2020

covid 19 - mensagem do presidente de Berlim para os berlinenses

Michael Müller, o presidente do Estado de Berlim, escreveu uma mensagem para todos os seus concidadãos, pôs o facebook a avisar directamente que essa mensagem existe (pelo menos é o que me parece, porque recebi uma notificação sem que me tenha inscrito no facebook para seguir as publicações desse governante), mandou traduzir para várias línguas (inglês, polaco, russo, turco, alemão simples - embora o texto original já seja muito fácil de entender) e pôs tudo online. 

(Já agora: tenho visto que em Portugal dizem que Michael 
Müller é o presidente da câmara, ou que é autarca, ou que é presidente da autarquia. Na realidade, é bem mais que presidente da câmara ou autarca. Berlim é um dos 16 Estados da Federação, e tem, como todos os outros Estados, um governo próprio. Michael Müller é o chefe desse governo.)

Partilho a versão em inglês:

Dear Berliners,

In recent months, you contributed to a significant decrease in the number of Covid-19 infections with your considerate behaviour and responsible actions. Most of you followed all the rules, and good hygiene concepts were developed and implemented in restaurants and at sport and cultural events. This meant we were able to regain some freedom and a bit of normality in the summer. For that I am very grateful to you.

But now the number of infections due to multiple contacts has risen again to an extent that worries us all: We can see this in particular in the occupancy rates in the hospitals and our intensive care beds.

Even though it was difficult for us to decide on restrictions again, we had to react quickly to prevent the situation from deteriorating further. All the federal states’ heads of government and the Chancellor have therefore agreed to restrict a large part of public life in order to at least stabilise the infection figures by the end of November.

In short, this means: Avoid contact as much as possible. After all, reducing contacts means preventing infections. In the spring, we showed that we can achieve a lot together. I’m sure we will be able to do that again.

However, we have learned a lot from the experiences of the spring for our measures in Berlin: Many shops, for example, will remain open, as will the zoo and libraries – even if some of them have stricter hygiene and distance rules.

But what was especially important to me: we will keep schools and daycare centres open. I want our children to continue learning, but above all, we must consider the social consequences. Our children need opportunities for development, they need their friends. In order to give them that, we have to limit ourselves more in other areas of life. I’m sure we will all be willing to do so. I would also like to take this opportunity to thank the many teachers and educators who are once again facing particular challenges in this difficult time.

Dear Berliners, respect, responsibility and solidarity should be a matter of course for us in the following autumn and winter months. Even though there is now a justified hope for a vaccine, it will likely take months until it is available for a large number of people. That is why we must continue to do everything we can to reduce the number of infections. After all, we are still talking about the lives of our loved ones, our friends and colleagues – it is about all of us!

Everyone should know by now: Masks, distance and hygiene rules save lives. Ignoring that puts us all at risk. Therefore, please help to observe these rules. Be a role model. And one more request: Always wear a mouth-and-nose covering if it is required or if you cannot keep the minimum distance. Use the Corona app, and keep a contact diary!

Your Berlin Senate will do everything possible to enable more safety and normality in everyday life wherever possible – for example by using rapid tests.

However, even these will only be available in limited numbers for the time being and we will use them first for our elderly citizens, for nursing and health care staff, or for the police and fire brigades, for example.

I can’t promise you anything. But, if we consistently avoid unnecessary contacts now, then we at least have a chance to have nice Christmas and New Year’s holidays together with our families and friends.

You, dear residents of Berlin, remain our most important allies. I know it’s a trial for all of us. It’s a tense time. November is the month of personal responsibility. We have it in our own hands to get through this crisis well.

I thank you for your solidarity and support.

Stay healthy!

With best regards,

Michael Müller
Governing Mayor of Berlin

13 novembro 2020

Berlinale 2021

"Documentário "Havarie", de Philip Scheffner


Esta semana anunciaram que - contra ventos e marés e sobretudo covids - a Berlinale se vai realizar de 11 a 21 de Fevereiro de 2021. Estão a acompanhar atentamente a evolução da pandemia, e a trabalhar com afinco na definição de uma estratégia de segurança sanitária. Nesta altura em que ainda estou a digerir a frustração de não poder festejar o Natal como era costume, e em que muitas regiões alemãs fazem o luto do seu Carnaval 2021, a notícia da realização da Berlinale em Fevereiro é uma surpresa enorme. Mas louvo os esforços da organização de lutar contra a corrente, de procurar soluções para responder à pandemia e - last but not least - de nos sacudir para arrancar à letargia onde nos vamos instalando.

--- Esta manhã o facebook recordou-me o que escrevi em tempos mais despreocupados, quando soube que o documentário Havarie tinha ganho um prémio em Duisburg:

Caramba, eu até quando me engano acerto...

Fui ver este filme na Berlinale, porque a descrição me despertara a curiosidade: "37º 28.6´N 0º3.8´E. An inflatable dinghy full of people, one of them waving. The camera pans slowly to the right and shows tourists on a cruise ship looking out to sea. The camera moves back, touches upon the boat again and then pans to the left, to the other side of the ship. The refracted sunlight bathes it in colour and a vertical ray of light separates the ship from the boat, to which the camera now returns. At times the image blurs; ghostly reflections appear in the water.
The following is heard at the same time: the rescue crew requesting via radio that one should wait until a helicopter arrives. A woman talking on the phone in France to her husband in Algeria. Later he speaks of a crossing. The Irish tourist holding the camera, ship employees, Russian and Ukrainian cargo workers talking of encounters with this refugee boat (or another). And of their world.
During the work on this film, images overtook reality. Havarie responds to this by condensing sound and disassociating it from the image to create a space of perception that allows the viewer to experience their own position without ever losing sight of the subject at hand: a cinematic coup of true radicalism."

O resultado: imagens frame a frame daquele barco suspenso no mar (o filme de dois ou três minutos é passado tão devagar que dura 93 minutos); as vozes das pessoas no barco grande a falar daqueles desgraçados e mais do que calha; eu na fila da frente, sem poder escapar discretamente, a ceder a um sono invencível.

Já me tinha acontecido com o "Exotica, Erotica, Etc.", que também ganhou uns bons prémios. Mas nesse tive mesmo pena de ter adormecido - volta e meia abria um olho, pensava "eh, pá, isto é mesmo bom!", e adormecia outra vez.

Se tivesse jeito para o empreendedorismo, abria uma empresa de prestação de serviços: se me pagarem para ir dormir no filme deles, têm prémio garantido.

(Também podiam inventar dias de 32 horas durante a Berlinale: 24 para ir à bilheteira, aos filmes, às festas e ao European Film Market, e 8 horas extra para dormir)


10 novembro 2020

armadilhas

 


Ontem, no facebook, caiu-me nos olhinhos um anúncio patrocinado. A empresa chamava-se Luluestore, e tinha saias lindas, iguais às que tenho andado a namorar no mercado de sábado na Kollwitzplatz - mas por menos de metade do preço.

Perdi a cabeça, e ia perdendo o dinheiro. Por sorte, no momento de pagar, caí em mim e fui investigar melhor: quase de certeza que é um site fake.

Regresso ao plano A: namorar saias aos sábados.

entretanto na Casa Branca...


Isto está a ser complicado...
Fui espreitar the real and the special one and (hopefully) the unrepeatable Donald Trump no twitter. Quando pensava que já tinha visto tudo, descubro que a reacção do Trump ao anúncio da vacina começa pela Bolsa: "STOCK MARKET UP BIG, VACCINE COMING SOON. REPORT 90% EFFECTIVE. SUCH GREAT NEWS!"
Depois volta ao choradinho "Fui roubado!" ("Fui roubado" é o novo "Na minha inauguration havia mais público que na do Obama"). Alguns tuítes mais tarde desconfia que atrasaram o anúncio da vacina para lhe sonegar essa vitória.
Não sei se é verdade ou não, mas se for verdade parece-me que estamos prestes a ouvir as trompetas do apocalipse: quando o resto do mundo recorre aos truques que o autor de "The art of the deal" ensinou...


08 novembro 2020

lembrar o básico


Não deveríamos perder de vista que a escolha dos EUA não era nem entre candidatos equivalentes, nem entre um candidato muito bom e um muito mau. Era "apenas" entre a anterior normalidade (capitalismo, imperialismo, you name it) e uma degradação brutal do sistema democrático, do respeito pela dignidade humana e dos precários equilíbrios internacionais.
O facto de se temer que um resultado adverso a Trump pudesse causar tumultos armados graves é um sintoma óbvio da mudança que estava em curso nos EUA.

Não há qualquer motivo para acreditar que a dupla Biden/Harris vai mudar o antigo rumo daquele país. Mas vai permitir retroceder nos caminhos fascizantes por onde os EUA se meteram nos últimos anos - e isso já é muito positivo.

Já começaram as vozes de protesto, porque o Biden é assim e a Harris é assado. Pois são - e qual é a dúvida? Porque é que estavam à espera de mais?

Mais preocupantes são as vozes de quem diz que o Trump fez algumas coisas positivas. Por muito positivas que pudessem ser, o preço pago foi demasiado alto: a Democracia vilipendiada.


07 novembro 2020

custou, mas foi

 


(vídeo roubado a um amigo, na festa que entretanto está a começar no facebook)

*

Ahem... desde terça-feira que tenho um monte de roupa para arrumar numa cadeira do quarto. Hoje decidi finalmente tratar disso. Mal comecei, o Joachim veio dar-me a novidade...
(Desculpem, não sabia! Não foi por mal.)

*

A gente brinca, mas convém não esquecer como é que se chegou a esta vitória, e porquê.
(
Hundreds of people wait in line for early voting on Monday, October 12 in Marietta, Georgia [Ron Harris/AP] - Aljazeera)



Me to my 8yo [after they called Michigan]: I want you to remember this. I want you to remember that the reason the mean President was defeated was because Black people like you and me went to vote. Even though the mean president made it so hard, never forget that black people voted and saved people.
SORRY I'M NOT SORRY FOR TELLING MY BOY THE GOD'S DAMN TRUTH.

*
Fui levar o lixo à rua (parece que hoje é dia disso, yey!!!! 🙂 )
O vizinho da frente estava a sair de casa nesse momento. Viu-me e começou a gritar "vimo-nos livres dele! já não temos de aturar esse bastardo!"
Estava visivelmente fora de si de alegria (talvez até com alguns cocktails a mais, mas quem como eu acabou de meter uma garrafa de bom champanhe no frigorífico cala-se e está calada).
Depois começou a fazer as contas a todos os processos que podem pôr ao Trump. Atirava para o meu lado da rua: violação! crimes fiscais! as crianças latino-americanas que foram tiradas aos pais e adoptadas por outras famílias! - e muitos mais.
(Venham eles!)
Algo me diz que hoje o índice de felicidade (ou vá, ao menos de alívio) está a atingir níveis altíssimos em muitas partes do mundo.
7 de Novembro: para lembrar.

*
Estou aqui a pensar: vou pró twitter ver a cara do Donald, ou lembro-me que sou cristã e continuo a arrumar a roupinha? (Dizem-se que o Donald foi jogar golfe. Ainda bem. Tudo é melhor que tê-lo a fazer birras no twitter, daquelas capazes de fazer os proud boys seus amigos tentarem fazer alguma coisa para o consolar.)


finalmente!

Finalmente aceitaram a evidência!
Os EUA podem voltar à normalidade. 



06 novembro 2020

enquanto esperamos (post em actualização frequente)










(cartoon by Chinese-Australian artist @badiucao)


















O motivo que ontem obrigou os jornalistas a interromper a transmissão live da comunicação do Trump: aqui

























Não se vê, mas a ideia é : 
- Stop counting votes and lose the election
- Continue counting votes and lose the election






A Greta Thunberg a repescar um tuíte que o Trump escreveu após o seu discurso na ONU.






































(Saudades do tempo em que o lema era "Hope" e não "Nope"...)










Já foi previsto há mais de três anos (todo o filme é excelente, mas, se quiserem ver apenas a parte que se refere ao momento actual, passem logo para o 4º minuto):