08 maio 2021

descubra as diferenças

O caso já tem uma semana, mas continuo a pensar nele. Aconteceu no Governo Sombra de 30 de Abril (aqui, a partir de 15:08), nesta passagem:

João Miguel Tavares: Tu podes não querer [a direita radical no arco da governação] mas são coisas inevitáveis. (...)
Ricardo Araújo Pereira: Mas é mesmo inevitável? Eu acho que isso envolve uma capitulação da parte da direita, que é "nós sozinhos não conseguimos, vamos ter de recorrer ao energúmeno". 
João Miguel Tavares: É isso, envolve essa capitulação, até porque do outro lado o que tu tens é a perpetuação do PS no poder. (...) [Os partidos da esquerda radical] hoje em dia estão mais mansinhos. Mas essa mansidão é também aquilo que acontecerá ao Chega daqui a dez anos, desde que André Ventura chegue ao poder. 

Já vimos este filme. 
Aconteceu em Berlim, na passagem de 1932 para 1933: o político conservador Papen, que já tinha sido chanceler, viu em Hitler a sua oportunidade para regressar ele próprio ao centro do palco político e para afastar a esquerda. Papen tinha a certeza de que Hitler se deixaria "domar" quando chegasse ao poder, e usou toda a sua influência para lavar e normalizar a imagem de um político cujas ideias e acções suscitavam - muito justificadamente - enorme aversão e desconfiança aos defensores do sistema democrático. 

Longe de mim a ideia de pôr no mesmo plano Hitler e aquele senhor que fez no parlamento português as propostas de meter todos os ciganos em campos de concentração e de tirar a nacionalidade a pessoas que dizem algo contrário à ideologia do Estado Novo. Ao apontar as semelhanças entre a argumentação de João Miguel Tavares e a de Papen pretendo apenas lembrar esta página da História que nos alerta para não sermos ingénuos em relação a políticos cuja ascensão se baseia numa estratégia de atropelo deliberado das minorias.  

Quanto à afirmação de João Miguel Tavares sobre os partidos de esquerda terem um passado pouco recomendável, e entretanto terem amansado, o que - segundo ele - justifica que toleremos agora os desmandos do partido daquele senhor (o que quer meter ciganos em campos de concentração e tirar a nacionalidade a quem diz algo que o incomoda), porque também ele ficará mansinho daqui a dez anos: não são os partidos que "amansam" - é a Democracia e o Estado de Direito que ganham solidez. O que foi possível numa fase inicial da nossa Democracia é inaceitável hoje em dia. Mais ainda: infelizmente já temos na União Europeia vários casos de partidos que não "amansam" quando chegam ao poder (veja-se por exemplo o caso do FPÖ na Áustria)


Para quem goste do estilo "crónica de uma morte anunciada", traduzo de seguida algumas passagens de uma página da Bundeszentrale für Politische Bildung (Agência Federal para a Educação Cívica alemã) sobre o tema "Destruição da Democracia 1930-1933"



O crash da bolsa do "Black Friday" de 1929 atingiu a Alemanha de forma particularmente dura. O desemprego em massa e a pobreza levaram a uma radicalização política da população. Uma sucessão rápida de crises governamentais enfraqueceu ainda mais a República - e deslocou muitos votos para o partido nazi.


Entre 1928 e 1931 duplicou o número das falências anuais. No inverno de 1929/30 já havia mais de três milhões de desempregados. Criou-se um círculo vicioso: redução do poder de compra - menos procura - redução da produção - novos despedimentos. Diferenças políticas internas inultrapassáveis na coligação governamental (sobre aumentar as contribuições para o fundo de desemprego ou baixar o valor, já muito baixo, do subsídio de desemprego) levaram à queda do governo em fins de Março de 1930. O presidente Hindenburg nomeou imediatamente um novo chefe de governo, mais conservador, que não contava com a maioria parlamentar mas tinha o apoio do presidente e dos grandes industriais. Um novo pacote governamental de medidas de combate à crise que aumentavam as contribuições e reduziam os subsídios foi chumbado pelo parlamento, mas o presidente impô-lo na forma de decreto de emergência (o que era um procedimento anticonstitucional). O parlamento reagiu, e foi imediatamente dissolvido. Nas eleições que se seguiram, a 14.9.1930, o NSDAP subiu dos 2,6% de 1928 para 18,3%. Com 107 deputados, tornou-se o segundo partido mais importante no parlamento (a seguir aos socialistas do SPD, e antes dos comunistas do KPD). 

Estes resultados eleitorais espelhavam as consequências materiais e psicológicas da crise económica. A taxa de desemprego, já na ordem dos 14%, levou a uma polarização política. Muitos trabalhadores desempregados votaram pela primeira vez no partido comunista.  A classe média tradicional e a emergente viram-se também ameaçadas de pobreza, e reagiram radicalizando-se em direcção ao NSDAP. A escolha do partido de Hitler resultou do facto de este ser o único que não estava desgastado do ponto de vista político - ainda não fora sujeito a qualquer teste de credibilidade e competência. Além disso, o seu programa e a sua propaganda abordavam de forma muito mais hábil que as dos outros partidos questões importantes da classe média, preocupada em manter o seu estatuto e a propriedade privada. A mensagem continha elementos antimarxistas e anticapitalistas. O seu anticapitalismo era - ao contrário do marxista - limitado, e compatível com os interesses da classe média, uma vez que respeitava a propriedade privada. Não se dirigia contra o "capitalismo criador", mas contra o "capitalismo voraz", ou seja, contra bancos (taxas de juro demasiado altas para os créditos e demasiado baixas para os depósitos), a bolsa (falta de transparência nas oportunidades de ganho e nos riscos), e grandes superfícies comerciais (que ameaçavam a concorrência). Segundo o NSDAP, por trás do "capitalismo voraz" estavam as manobras de uma "rede judaica financeira internacional". Assim se integrava o anticapitalismo na ideologia racista nazi, transformando os judeus em bode expiatório. Para os nazis, também o "marxismo" (ou seja, as organizações e a política comunistas e socialistas) e a República de Weimar (consequência da alegada "facada nas costas" na primeira guerra mundial) eram o resultado das "nefastas manobras dos judeus". Em suma, a mensagem política do NSDAP era a seguinte: para combater as ameaças internas e externas ao Estado, à sociedade e à economia era preciso combater os judeus. Uma mensagem simples e apelativa num país com uma longa tradição de antijudaísmo e anti-semitismo, e a viver as consequências de uma derrota militar ainda não resolvida e de uma crise económica mundial.

A radicalização parlamentar que resultou destas eleições de 1928, dando aos nazis 107 deputados e aos comunistas 77, agravou a situação económica. Temendo a instabilidade política da República de Weimar, investidores estrangeiros - particularmente os bancos americanos e franceses que já estavam em dificuldades devido à crise - começaram a retirar os seus créditos a curto prazo. A crise económica tornou-se ainda maior, fazendo crescer a taxa de desemprego.  

Seguiram-se meses de negociações e de instabilidade. Brüning, o chanceler nomeado pelo presidente Hindenburg, tentou fazer um acordo de governação com os nazis, que Hitler não aceitou por não servir a sua estratégia de conquista do poder. Preferia esperar mais dois ou três ciclos eleitorais para conquistar a maioria e governar o país à sua vontade. Por seu lado, o SPD decidiu apoiar o governo de Brüning, apesar da sua política autoritária e anti-social, para evitar novas eleições que poderiam dar ainda mais preponderância ao NSDAP e obrigariam Hindenburg a nomear Hitler como chanceler. Olhando para o que se passava em Itália, previa-se facilmente o que um governo nazi traria à Alemanha: o fim da Democracia e do Estado de Direito, dos partidos de esquerda e dos sindicatos.

Em 1931 a situação complicou-se ainda mais: a desvalorização da moeda de outros países, resultante do abandono do padrão barra-ouro, encareceu as exportações alemãs e provocou uma redução dessa procura. A imposição governamental de descida geral dos preços internos, para compensar a subida de preços no mercado internacional, aumentou ainda mais a pobreza e a insegurança. Por outro lado, e sobretudo devido a exigências da França, foi impedida a criação de uma união aduaneira entre a Alemanha e a Áustria. Perante perspectivas económicas muito mais desfavoráveis que aquelas que o acordo aduaneiro teria trazido, os investidores internacionais recuaram, exigindo a restituição dos seus créditos em vez de os prolongar, o que agravou muito a crise bancária naqueles dois países, e teve obviamente consequências a nível empresarial, uma vez que as empresas ficaram impossibilitadas de receber os créditos necessários à continuação da actividade produtiva. Cumulativamente, a estratégia de Brüning para  obrigar os outros países a renegociar as condições do Tratado de Versalhes passava também por deixar a população e a economia alemã numa situação de tal forma miserável que não deixasse lugar para dúvidas de que o país não conseguia cumprir o que lhe fora imposto. 

Na Conferência de Lausana, em Junho e Julho de 1932, viria a ser decidido cancelar todas as exigências de pagamento de reparações por parte da Alemanha. Brüning já não era o chanceler - entretanto tinha sido substituído por Papen. O seu objectivo fora atingido, mas a um altíssimo preço: esvaziamento do sistema político parlamentar, agravamento da crise económica, aumento da miséria de milhões de famílias e uma radicalização política como nunca antes acontecera. A política de Brüning acelerou a passagem do partido nazi, reconhecidamente extremista e violento, para um movimento de massas que ameaçava o Estado. 

À medida que o desemprego e a pobreza alastravam, aumentavam as tensões entre os partido políticos, e sucediam-se os confrontos entre forças paramilitares dos grandes partidos da direita e da esquerda. Na polícia crescia a simpatia pelos grupos nazis. Intrigas entre os conselheiros e aliados de Hindenburg levaram a uma aproximação secreta a Hitler, que se viu cada vez mais perto do seu objectivo. 

Mesmo assim, 1932 foi um mau ano para os nazis. Hitler perdeu as eleições presidenciais contra Hindenburg, e o NSDAP, depois de uma enorme subida nas eleições federais de Julho, perdeu dois milhões de votos nas de Novembro, baixando de 37,8% para 33,6%. Perto do fim do ano, com a população a retirar apoio ao NSDAP, e as caixas do partido bastante vazias, Hitler chegou a pensar em suicídio. 

O SPD também foi muito castigado por ter decidido aceitar o mal menor, permitindo a governação de Brüning. Após as eleições de Novembro de 1932, a única maioria parlamentar possível seria uma aliança entre os nazis e os comunistas. Por não lhe ser concedido todo o poder que queria, Hitler recusou a proposta de Hindenburg para participar numa solução política. O governo de Papen encontrava-se num beco sem saída. Com grande pena sua, Hindenburg viu-se obrigado a demitir Papen, entregando o lugar deste a Schleicher, desde há vários anos conselheiro presidencial. Schleicher distanciou-se do capitalismo e do comunismo, para dar início a uma "frente transversal" com o objectivo prioritário de criar emprego. Esta nova orientação contou com o apoio de vários sectores sociais e políticos, mas algumas das medidas provocaram tamanho descontentamento popular que - depois de tentar secretamente manobras anticonstitucionais, que Hindenburg não permitiu - o seu governo caiu em fins de Janeiro de 1933. 

Hitler tinha aliados importantes entre os grandes industriais, em particular a partir de janeiro de 1932, quando lhes garantiu que o "socialismo" no programa do NSDAP de 1920 (partilha de lucros com os trabalhadores, reforma agrária, nacionalização das grandes superfícies comerciais [estas eram maioritariamente propriedade de judeus]) era apenas um engodo para atrair os votos dos trabalhadores e da baixa classe média, quando de facto não havia a menor intenção de alterar o estatuto dos empresários ou a propriedade dos meios de produção. Em Novembro de 1932, vinte e dois representantes de sectores importantes da economia (indústria pesada, comércio, navegação comercial, bancos, grandes proprietários rurais) enviaram a Hindenburg uma petição para que ele nomeasse finalmente "o dirigente do maior grupo nacional". Hindenburg escolheu antes Schleicher, cuja "frente transversal" assustou alguns círculos conservadores na economia, no exército e no aparelho de Estado, que temiam tratar-se de um "socialista disfarçado". Hitler parecia-lhes um dirigente mais adequado. Acreditavam que poderiam "enquadrar" e "domar" o NSDAP de tal forma que este teria de governar no sentido dos seus aliados conservadores, e nesse processo acabaria por se "desgastar" politicamente.    

Os apoiantes de Hitler não tinham acesso directo ao Presidente do Reich. Resolveram este problema com a ajuda de Papen, que era o único capaz de dissipar a desconfiança de Hindenburg em relação a Hitler. Apesar da sua má experiência com o líder do NSDAP, Papen aproximou-se dele porque o via como uma oportunidade de regressar ao governo. Por sua vez, Hitler ignorou a antipatia que sentia por Papen, porque tinha consciência da posição de fraqueza em que o NSDAP se encontrava em finais de 1932, e sabia que para conquistar o poder teria de fazer compromissos tácticos. 

A 4 de Janeiro de 1933 Papen e Hitler reúnem-se numa residência privada para negociar as pastas de um novo governo para substituir o de Schleicher. A 9 de Janeiro, e sem que Schleicher disso tivesse conhecimento, Hindenburg incumbiu Papen de preparar um governo do qual seria chefe, com o apoio do NSDAP. Enquanto as sondagens decorriam, várias pessoas próximas de Hindenburg declararam-se favoráveis a uma solução política com o NSDAP e aconselharam o presidente nesse sentido. Quando o governo de Schleicher caiu, em 28 de Janeiro de 1933, devido à crescente resistência popular, Hindenburg começou a considerar seriamente entregar o poder a Hitler. A sua única condição era a de dar a pasta da defesa a Blomberg - algo com que Hitler facilmente concordou porque, sem que o  presidente soubesse, já tinha em Blomberg um simpatizante. 

No dia seguinte desenhou-se apressadamente um novo governo, Papen cuidou de dissipar as últimas reservas de Hindenburg, rumores da ameaça de um golpe de Estado por parte de Schleicher forçaram os últimos renitentes a ceder, e o novo governo tomou posse jurando sobre a Constituição da República de Weimar. No governo havia apenas três nazis, mas estes detinham posições muito estratégicas: Hitler era o chanceler, no ministério do Interior estava Frick, que foi responsável, entre outras coisas, pela preparação e implementação de leis ou decretos de emergência sobre segurança interna (por exemplo, proibições de jornais, reuniões, e partidos políticos). Göring estava à frente do Ministério do Interior da Prússia como Reichskommissar - e consequentemente da maior força policial estatal alemã. Contavam ainda com a afinidade de Blomberg, ministro da Defesa. 

À crítica de um conservador, Papen respondeu: "O que é que quer? Tenho a confiança de Hindenburg. Em dois meses temos Hitler tão encurralado a um canto que até guincha". Ao contrário do que Papen previra, o NSDAP conseguiu perfurar o seu "cerco" logo no dia seguinte, quando Hitler sabotou deliberadamente as negociações que lhe tinham sido impostas com Kaas, o líder do centro. Pediu que se adiasse a reunião do parlamento por um ano - o que era um pedido obviamente inaceitável. Dirigiu-se então a Hindenburg com o pedido de dissolução do parlamento, dizendo que não podia governar naquelas condições, e garantindo ao presidente que não precisava de se preocupar, porque estas novas eleições seriam "as últimas". Hindenburg concordou e emitiu a ordem de dissolução a 1 de Fevereiro de 1933.

Os opositores do NSDAP ficaram consternados com a nomeação de Hitler como chanceler do Reich, mas não conseguiram levar a cabo uma acção conjunta. O partido comunista apelou a uma greve geral e propôs aos sociais-democratas a formação de uma "frente unida". Mas nem agora os sociais-democratas viam qualquer base de cooperação. Desconfiavam dos comunistas, que continuavam a lutar por uma "Alemanha soviética" e já anteriormente se tinham servido de acções conjuntas para conquistar os trabalhadores social-democratas para o seu campo. O SPD limitou-se a exortar os seus membros e apoiantes a preservar "sangue frio, determinação, disciplina e unidade" e a advertir o novo governo contra as violações constitucionais. Para os sindicatos, uma greve geral estava tão fora de questão como em Julho de 1932. Não era de esperar resistência do Partido do Centro, que certamente queria coligações com o NSDAP. Os partidos burgueses-liberais, devido à sua fraqueza, quase não desempenharam qualquer papel. 

Acima de tudo, as tácticas de legalidade de Hitler estavam a ser recompensadas. O NSDAP não tinha conquistado o poder político, tinha-o antes recebido em aparente conformidade com a constituição. O que tinha acontecido não era uma "tomada do poder", como mais tarde se vangloriou a propaganda nazi, mas uma transferência de poder com certas limitações: a entrega a Hitler da liderança de um governo parlamentar. Se o NSDAP conseguiu em ano e meio eliminar os seus opositores, desfazer-se dos parceiros de coligação, e estabelecer um "Führerstaat" ditatorial, foi principalmente porque encenou este processo como uma "revolução legal": nomeadamente, como uma "mudança profunda em todas as áreas", mas que teve lugar "no quadro do Direito e da Constituição" - reconhecidamente combinada com um terror mal disfarçado. Foi isto que "tornou qualquer resistência de natureza jurídica, política ou mesmo intelectual tão difícil, de facto - como muitos acreditam - praticamente impossível" (Karl Dietrich Bracher). Quem quisesse travar o desenvolvimento rumo à ditadura tinha de ir para a ilegalidade - o que era dissuasivo. Mas quando o "Terceiro Reich" se instalou, e a desumanidade dos seus objectivos e métodos de governar eclipsou tudo o que antes se tinha visto, era demasiado tarde para uma resistência ampla e bem-sucedida.


o palerma do algoritmo

 

Hihihihi, o palerma do algoritmo mostrou-me publicidade de roupa de cama que não está passada a ferro. Aos anos que aqui andamos, e ainda não percebeu que nas veias dos portugueses corre um ferro de passar...


06 maio 2021

prairie dog


Fox, o autêntico "cão da pradaria". :)

(as fotos que se seguem são só para quem estava com saudades do bicho; se pedirem com jeitinho, publico mais umas 50...)






e por falar em primavera...


O galeirão que parecia ter desistido de fazer um ninho depois de ter visto o seu espaço ocupado por um pato (denunciei esse crime neste post) mudou de ideias. Vi-o há dias a recomeçar a obra, e hoje encontrei o ninho ocupado. Vem por aí uma ninhada de "galeirinhos". 





Nos juncos do outro lado do lago também há novidades: um ninho de cisne. Mas um dos cisnes que vi hoje deixou-me preocupada - nadava com uma pata só, e tinha a outra no ar. Muito estranho. 


Das tartarugas é que não sei se vai haver prole ou não. Encontrei uma no tronco onde costumam apanhar sol - apesar de o céu estar bastante nublado. Coitadita, deve andar com falta de vitamina D como eu, e tenta compensar na medida do possível, já que o medicamento para o défice dessa vitamina não é comparticipado.


Os nenúfares, esses, recomeçaram agora a aparecer à tona da água. Um dia destes teremos flores.
Para já, é isto:




disfarçado de primavera

O Fox veio passar dois dias connosco.
Esta manhã fomos ao lago. Estava muito paciente comigo, não fugia para longe enquanto eu tirava as minhas fotografias, e regressou quase sempre quando lhe assobiei. 
Às tantas dei com ele a disfarçar-se de primavera. 



05 maio 2021

Colette e os sobreviventes

 


O documentário que venceu o Óscar na categoria das curtas-metragens levou-me a dois momentos de 2005, por ocasião das comemorações do 60º aniversário da libertação do campo. Tinham convidado os antigos prisioneiros que ainda estavam vivos e vieram mais de seiscentos, que ficaram alojados durante alguns dias em Weimar. 

O primeiro momento: ao fim da tarde de um desses dias fomos falar com um sobrevivente ucraniano, para o informar sobre a possibilidade de ser operado ao melanoma que tinha no nariz, gratuita e imediatamente. Mas ele recusou-se a falar connosco. Tinham acabado de regressar do Mittelbau Dora, e estavam emocionalmente exaustos. Na altura não percebi o que podia ser mais importante que a ameaça de um melanoma e a operação que lhe podia salvar a vida. Entretanto informei-me um pouco mais sobre o que era o Mittelbau Dora. A reacção de Colette, neste documentário, abriu-me os olhos do coração para o que acontecera nesse dia: voltar a esse lugar - o lugar mais infernal do inferno que era Buchenwald - desperta uma dor que se sobrepõe a tudo, inclusivamente à urgência de operar um cancro. 

O segundo momento: durante umas horas acompanhei André Weiss, psiquiatra residente em Bethesda e co-fundador do Memorial do Holocausto em Washington D.C., que tinha saído de Buchenwald com 15 anos, depois de ter estado em Auschwitz. Um homem jovial e inteligente, muito incisivo (já contei várias vezes: era aquele que adorava a música de Wagner, e conseguia perfeitamente separá-la do anti-semitismo do compositor). André Weiss criticou duramente o formato das comemorações: primeiro, os miúdos da escola de música tinham cantado o Buchenwaldlied muito afinadinhos, mas - afirmava ele, peremptório - não tinha nada a ver com aquilo que ele e os outros prisioneiros cantavam nas marchas para o trabalho. Em plena Marktplatz de Weimar (o que equivale a dizer: entre a casa de Lucas Cranach e a varanda onde Hitler se mostrava para ser aclamado pela população, paredes meias com a família Bach e a dois passos da biblioteca de Goethe), cantou bem alto para me mostrar como era - e vou guardar para sempre esse instante e a exaltação da sua voz. Depois - e foi nisso que pensei ao ver, no documentário, a reacção de Colette ao discurso do presidente da Câmara de Nordhausen - criticou também os discursos intermináveis no cimo do monte. Os velhinhos sentados todos juntos, embrulhados em cobertores e arrumados a um canto, e os políticos e intelectuais de vários países a fazer as suas longas declarações de frases óbvias, um após outro.  

Teria sido muito melhor - sugeriu André Weiss - que convidassem os sobreviventes a fazer de novo a formatura na parada do campo de concentração, repetindo o gesto que realizaram pela última vez todos juntos e voluntariamente após a libertação, antes de partirem cada um para o seu destino.
Isso sim: era um símbolo fortíssimo, e colocava aqueles sobreviventes no centro das comemorações e de novo no centro da sua própria história.


04 maio 2021

proposta para tratar o problema do assédio sem passar pela conspurcação geral do #metoo

Parece que o #metoo chegou finalmente a Portugal, e - como não podia deixar de ser - chegou com a transparência e delicadeza de um furacão. 

Se acusam sem nomes, ai e tal, digam os nomes. Se dizem os nomes, ai e tal, isto é manobra dela, e além disso não tem provas. E já a conhecemos de ginjeira: essa histérica, essa arrivista, essa oportunista.

Se contam o que aconteceu, ai e tal, quem a mandou permanecer quando o caso lhe começou a cheirar mal? Não tinha mãos para lhe dar uma bofetada, boca para o mandar abaixo de Braga?
(Esquecem esses brincalhões que as mulheres têm sido condicionadas, século após século, para não ter ouvidos, para não reagir, para não fazerem figuras de histéricas, para não serem desagradáveis nem inconvenientes, para não dar vexame e - sobretudo! - para não criarem situações em que os homens se possam sentir desconfortáveis.)

Se contam quando aconteceu, ai e tal, porque será que (essa histérica, essa arrivista, essa oportunista) só se lembrou de contar agora? 

Obrigadinha. Muito nos ajudam, e não vou chover mais nesse molhado. Mais vale gastar o tempo a tentar arranjar uma solução a contento de todos.

Por estes dias tenho pensado muito na coragem do director do liceu berlinense católico que, ao ouvir uns zunzuns sobre um antigo professor ter assediado alguns rapazes nos anos 70 e 80, em 2010 escreveu uma carta a todos os alunos que tinham frequentado a escola nessa altura, pedindo ajuda para esclarecer o que se passara há três ou quatro décadas (isto é uma indirecta para quem pergunta "e porquê só agora?"). As respostas foram analisadas por duas comissões independentes - uma delas chefiada por uma jurista, e a outra chefiada por uma antiga ministra da Saúde.  A atitude deste director da escola deu origem a revelações sucessivas de crimes de pedofilia na Igreja Católica alemã, a que se seguiram revelações sobre casos idênticos nas Igrejas Evangélicas, num internato da elite de esquerda (este chocou-me especialmente, porque os antigos alunos vieram em defesa dos professores e da escola, dizendo que "era um dar e receber"), em escolas de desporto, em coros infantis e em muitos internatos/orfanatos da RDA. 

O que foi importantíssimo para um desenrolar digno do processo de investigação foi o facto de se tratar de uma iniciativa da instituição sobre a qual havia rumores, oferecendo às vítimas uma plataforma de seriedade e confiança para revelarem o que lhes acontecera. 

E é justamente a dignidade e eficácia daquele processo que põe em evidência o que há de mais errado, perverso e desencorajante no processo #metoo: o carácter individual das denúncias, que nos conduz imediatamente para reacções impulsivas e cegas de ataque ou defesa das pessoas envolvidas. 

Muito melhor seria imitar aquele director do Kanisius Kolleg: se existem rumores, a instituição escreve a todas as pessoas que poderiam ser potenciais vítimas, e envia as respostas para uma comissão de investigação independente. 

Como já vamos avançadinhos no século XXI, sugiro até que, para facilitar, se crie uma app na qual cada pessoa pode descrever o assédio de que foi vítima, identificando o autor do assédio com o nome completo e a empresa/instituição onde ocorreu. Os dados são tratados mecanicamente, e ninguém pode ter acesso a eles. Quando determinado nome começar a aparecer repetidamente, a app envia os respectivos relatos a um grupo de investigação criado especialmente para estes casos. 

Desse modo, o processo iria directamente para a Justiça, sem passar previamente pelo pelourinho das redes sociais, e sem arrastar pela lama o nome de todos os envolvidos. 

Bem sei que esta app só identificaria os casos de "serial sexual harassment". Mas tinha, apesar disso, duas vantagens: em primeiro lugar, não era apenas a palavra de uma pessoa contra a palavra da outra, porque haveria mais do que uma testemunha para a acusação. Em segundo lugar, a existência desta app teria o papel de radares de velocidade bem visíveis numa estrada: o pessoal teria o cuidado de cumprir as regras, por não haver dúvidas sobre o registo de cada incumprimento. 

(- Ai, e tal: já não se pode fazer um elogio a uma pessoa?
 - Pode, pode. Se tiver a certeza que ela vai gostar, pode.) 

---

Optei por escrever "pessoas" em vez de "homens/mulheres" para evitar que alguns enfiem a conversa pelo beco retórico do "ai e é só as mulheres? Também há mulheres chefes que abusam do seu poder para assediar os subordinados..."
Para já, tratemos de resolver o problema do assédio de forma pragmática e digna.
O debate sobre a estrutura machista e patriarcal que nos condiciona é importante e urgente, e pode ser feito em paralelo. 


03 maio 2021

nova táctica na Alemanha: tudo a monte e fé em Deus

A obstinação em fazer tudo de forma extremamente correcta, sem furar prioridades nem cometer o menor desrespeito pelas regras, é um dos motivos para o baixo ritmo de vacinação que se verificou na Alemanha até há pouco tempo. Outro motivo é a mudança permanente de regras: de momento, ninguém sabe se deve ficar pacatamente à espera de uma carta, ou se deve começar a telefonar para tudo o que é consultório médico. Por estes dias, tenho ouvido dizer que é aconselhável tomar a iniciativa de perguntar ao médico, e soube até de alguém que conseguiu a vacina praticamente por acaso na ginecologista. Imagina-se a confusão que irá nos consultórios, se todas as pessoas começarem a telefonar para todos os médicos com quem falaram alguma vez no passado. O resultado também é fácil de imaginar: uma amiga minha ligou à sua médica e levou com uma gravação no atendedor de chamadas dizendo que não se atendem chamadas para falar sobre a vacina, e que os doentes serão contactados quando chegar a vez deles.

Em suma: um belo caos. E se isto já é complicado para qualquer cidadão, torna-se um sarilho enorme para grupos sociais de menores rendimentos, particularmente os imigrantes que mal falam alemão. 

Hoje, uma das notícias mais importantes do dia na Alemanha referia-se a Colónia. Nos bairros mais pobres desta cidade - cujos habitantes vivem em espaços exíguos e densamente ocupados, e trabalham em condições que implicam um risco maior de contágio - a taxa de incidência de covid é cerca de oito vezes superior à dos bairros mais ricos. Para corrigir este desequilíbrio, os responsáveis decidiram levar a vacina às pessoas das regiões mais afectadas da cidade. Mal correu a notícia de que em determinados locais haveria unidades móveis de vacinação para todos os interessados, formaram-se filas de pessoas que esperaram várias horas até receber a sua vacina Moderna.  

Como é que não nos lembrámos mais cedo desta solução? É óbvio que para reduzir o número de contágios há que vacinar primeiro as pessoas que vivem e trabalham em condições mais favoráveis à difusão do vírus. 

(Espero que esteja aí alguém a anotar isto tudo, para que na próxima pandemia já se possa planear mais à antiga maneira alemã.) 


30 abril 2021

um mantra para este tempo

 


A falta do acento em "está" mexe-me um bocadinho com os nervos, mas releio a frase e faço por seguir esse bom conselho.

Estamos todos a tentar escapar com o mínimo de danos a esta crise, e o esforço vai ao ponto de tentar esconder a nós próprios que não estamos bem. Mais vale assumir, e repetir como um mantra:

"Seja gentil e calmo com as pessoas. Quase ninguém está bem. Nem eu. Nem os outros." 


28 abril 2021

mais Chico!

 

Partilho, porque: ça va sans dire.

Além disso: o que tem de ser tem muita força.

E também: felizmente está de óculos escuros, assim posso-me concentrar melhor no que diz.

Tanto mais que: diz coisas engraçadas. (pffff! que novidade...)

Finalmente: não percam o diálogo final entre os passarinhos. 🙂


Chico!

 

Em estado de eufórico deslumbramento, uma amiga ofereceu-me um link para ver o documentário sobre o Chico, que passou no dia 25 de Abril na RTP. Ela estava tão deslumbrada que eu larguei tudo para ir logo ver, mas:

"sem direitos de transmissão".
Fiquei furiosa com os senhores da RTP. Isto não se faz aos desgraçadinhos da diáspora! Andamos nós cá fora a lutar pela vida, e afinal o melhor da vida (o Chico Buarque, obviamente!) está "sem direitos de transmissão". Um dia destes ainda faço queixa ao meu deputado, e vai tudo raso! Humpf!
No final, tudo acabou em bem. Por causa de umas amigas que são mais que mães para mim, e me avisaram que o documentário está no youtube.

Mas escusam de ir espreitar. Mais sobra para mim... :)



um feixe de meridianos


Estava aqui a pensar: se em determinado momento uma pessoa partir de Pyongyang e outra de Lisboa (são cidades à mesma latitude), se partirem ambas em direcção ao Pólo Norte, e se fizerem um caminho paralelo aos respectivos meridianos, e se chegarem ao destino exactamente ao mesmo tempo - não chegam à mesma hora, certo?
Os relógios dessas pessoas têm oito horas de diferença, e estão ambos certos.
(E o acertador automático de relógios digitais ia ficar maluquinho se eles se pusessem a andar para cá e para lá naquele autêntico feixe de meridianos) (hehehe, desta é que o Einstein não se lembrou!) (Bem me podiam ter dado o Nobel antes a mim.) 

(Variação simplista do gato de Schrödinger: um gato em cima do Pólo Norte, com um relógio em cada pata, está ao mesmo tempo em 4 horas diferentes.) (Marcha mais um Nobel!)

então?

 
Então o Mário Laginha fez 61 anos?

Mas como? Tenho-o metido na gaveta de "rapaz novo cheio de talento", e não consigo tirar o "rapaz novo" dessa classificação.


25 abril 2021

genocídio dos arménios

 


 

Um momento importantíssimo para o povo arménio: o presidente dos EUA reconheceu formalmente como genocídio os assassinatos em massa dos arménios, que foram perpetrados há mais de 100 anos na Turquia.

Dizê-lo com todas as letras: genocídio.

Se a 24 de abril de 1915 não tivessem começado por prender e matar as figuras mais destacadas do povo arménio, numa operação planeada e levada a cabo com grande precisão, poderia talvez haver lugar para a dúvida. Se não fossem as marchas da morte no deserto, se não fossem os barcos carregados de pessoas para fazer desaparecer afogadas no mar, talvez se pudesse dizer que “acontece a todos, do outro lado também morreram muitos”.

Mas tudo isso foi feito premeditadamente, e o resultado final foi exactamente aquele que se pretendia.

Ao contrário do império otomano, na Turquia moderna não havia espaço para outras línguas e outras religiões. Os milhões de arménios, que viviam há milhares de anos naquela que era a sua própria terra, “tinham” de desaparecer. E desapareceram: na Turquia de hoje praticamente não há arménios.







Nas imagens: cerimónia de homenagem às vítimas, que decorre todos os anos a 24 de Abril no memorial do genocídio, em Yerevan.

 

sempre


 25 de Abril.

Gratidão por quem lutou até esse dia. Gratidão por quem o fez em 1974. Gratidão por aqueles 10 anos que tinha já me permitirem sentir a festa desses dias.

A partir daí: responsabilidade. A liberdade é frágil e precisa do trabalho quotidiano de todos nós.


23 abril 2021

sem-abrigo

I.
Por estes dias há problemas graves de sem-abrigo na nossa rua. Milhares e milhares deles! 

Delas, melhor dizendo. Na quarta-feira passada um povinho de abelhas decidiu pôr-se a caminho, e veio pedir refúgio na colmeia que temos no nosso jardim. 

Só vos digo que o egoísmo também dá nas abelhas, e de que maneira! As da casa não deixaram entrar as de fora, que passaram a noite toda (e que fria esteve!) amontoadas umas nas outras. Lembravam-me os pinguins imperador a proteger as crias.

A apicultora nunca viu nada disto. Já perguntou entre os outros apicultores da região de Berlim, e nenhum consegue explicar este fenómeno. Suspeito que a culpa seja da AfD: desde que se tornaram a primeira força da oposição no parlamento federal o egoísmo na Alemanha vai de vento em popa.






(A primeira foto foi de quarta-feira de manhã, a segunda foi ao fim da tarde, a terceira na manhã da quinta-feira.) 


II.
Na nossa zona tem havido uma série de assaltos. E como a minha rua deve ter o maior número de câmaras de vídeo per capita no país inteiro, temos uma bela colecção de filmes de um gajo que vai de jardim em jardim descansadíssimo da vida, salta agilmente por cima de muros, e experimenta todas as portas. As luzes de alarme acendem, as câmaras filmam, mas ele continua impávido e sereno a fazer o que tem de fazer.

A polícia diz que deve ser "da cena dos sem-abrigo". 

Sem-abrigo, em sentido metafórico, sinto-me eu, ao saber que anda um homem de jardim em jardim a ver em que casa pode entrar e o que encontra para roubar, sem se preocupar com as imagens e os vestígios que deixa. Parece ser uma pessoa que já não tem nada a perder. E isso é assustador. 


22 abril 2021

querido diário


Querido diário,

Hoje vamos à Baviera buscar a nossa, digamos assim, estratégia de sobrevivência em tempos de covid: uma carripana simpática, com cozinha e cama e tudo, para ir passar fins-de-semana no mar báltico, ou num lago qualquer das redondezas. Assim o permitam as regras dos parques de campismo!

Regressaremos no domingo, 25 de Abril: a atravessar a Alemanha numa carripaninha vermelha. Uma espécie de liberdade.

De madrugada, levei o Joachim ao trabalho, e depois fui ao Lidl comprar uma louça de plástico para a nossa casinha sobre rodas. As cores são engraçadas, mas a qualidade, enfim... Comprei na mesma, porque já se sabe: no Lidl, pode-se devolver depois, mas comprar é mesmo só nas primeiras horas em que as ofertas especiais aparecem na loja. Depois veremos com calma, mas suspeito que já sei o que o Joachim vai dizer: é preferível comprar pouco, com mais qualidade e mais duradouro. Já me vejo a ir ao Lidl devolver isto tudo na próxima segunda-feira, e tanto melhor: sempre caminho umas boas milhas a pé, o que só me faz bem.

Do Lidl continuei para o Aldi, para comprar terra. Hoje estavam a oferecer uma terra superior-premium-de luxe-etc. ao preço da chuva. Carreguei dez sacos no carrinho. Ao passar por outra pilha, onde tinha uma terra diferente que anunciava "com pouca turfa", tive um sobressalto. E se...? Li a composição, e sim: tinha turfa. Devolvi os 10 sacos à pilha que nem sequer devia existir. Se sabemos que as áreas de turfa têm um papel fundamental na protecção do clima, porque é que ainda é permitido destruí-las para fazer terra superior-premium vendida em sacos para os jardins urbanos?

Enquanto esperava pela minha vez na caixa reparei no Bildzeitung que tinham à venda. A primeira página provocou-me uma fúria enorme. Normalmente não me irrito tanto com os jornais, mas esta edição do Bild é inacreditável. Estando nós em plena terceira vaga, com os trabalhadores da saúde absolutamente exaustos (muitos deles só não metem baixa porque sabem que isso iria sobrecarregar ainda mais os colegas) e a capacidade hospitalar a chegar a níveis de ocupação muito preocupantes, e tendo o governo federal finalmente tomado uma posição para haver mais uniformidade de regras em todo o país, este jornal faz parangonas assim:

DECIDIDO!
Merkel: Lei do Encarceramento

A partir de que horas não pode sair de casa - Como é que a polícia controla - Quais são as excepções

Einsperrgesetz (lei do encarceramento): a palavra nem existe no dicionário alemão. Inventaram-na agora, e é um instrumento descaradíssimo de manipulação das emoções do povo. Agarrem-me, que me dá vontade de sugerir coisas más, e avessas à ordem de um Estado de Direito, para que quem criou, quem divulga e quem usa esta expressão. Fui a casa de uns amigos levar um bolo de laranja que fiz ontem. Aquilo não é bem um bolo de laranja, é mais um haraquiri gigantesco na minha fama de doceira (que naquela família até era boa, porque só lhes tenho levado o bolo de chocolate que praticamente se faz sozinho e não tem por onde errar). Desta vez, não é caso para dizer que o bolo cresceu pouco. É muito pior: a massa conseguiu ficar mais baixa do que estava quando a meti no forno. Se houvesse um prémio igNobel para doçaria, não sei se o ganhava, mas conseguia provavelmente uma honrosa nomeação todos os anos. Eles riram-se, e prometeram que se o sabor estiver bom me dão uma segunda oportunidade.

Vim para casa. Passei por uma vizinha que andava a passear o cão e parei para um minutinho de conversa. Ultimamente, o tema é só um: já tens a vacina? quando vai ser? Ela disse-me que infelizmente é demasiado nova, ainda não tem. Já tentou tudo, mas sem sorte. Ontem lembrou-se de pedir prioridade por estar a tratar de uma pessoa de idade. Tem esperança que isso seja considerado um bom motivo para lhe dar já a vacina. Disse-lhe que dentro de dois meses estaremos todos vacinados, e ela respondeu com zanga que dois meses é demasiado tempo. Está rodeada de pessoas que não se querem vacinar, sente-se extremamente insegura. Já há pessoas a ir a outros países só para comprar vacina. Turismo-covid.

Segui para casa a toda a velocidade, porque eram horas de ir propor o tema do dia na Enciclopédia Ilustrada. Hoje a palavra devia começar por U, e é o Dia da Terra. Estive tentada a sugerir #único_planeta.

Dia da Terra: se não conseguimos ter um comportamento responsável e solidário para combater um vírus que vimos a dizimar os idosos e vemos agora a matar pessoas bem mais jovens (idade média nos cuidados intensivos, neste momento: 47 anos), como conseguiremos unir esforços e aceitar fazer sacrifícios para salvar o único planeta que temos?

Triste vida: ainda nem sequer é meio-dia, e já me aviei com meia dúzia de problemas existenciais...

21 abril 2021

saudades desta Berlim

Esta é a Berlim para onde vim morar em 2007. O barco da sauna já não existe, o Tacheles já não é o que era. Já não podemos subir livremente as escadas do Parlamento federal para visitar a cúpula. 


Esta é a Berlim que me fascina. "Código B": diversidade, criatividade, liberdade - uma cidade com espaço para todos. 



Sinto saudades da Berlim destas imagens, com parques cheios, com estranhos a interagir despreocupadamente. E também da Berlim dos cinemas de bairro, dos teatros, dos concertos. 

Esta cidade, em permanente processo de reinvenção: irá inventar-se diferente depois da pandemia, ou retomará o caminho da evolução ali onde o interrompeu, há mais de um ano? 

Entretanto: no dia 1 de Maio, vai haver em Berlim uma manifestação dos trabalhadores da Cultura. Basta o que basta, e não faz sentido ter cinemas, concertos e teatros fechados quando são algumas das actividades que - se forem respeitadas determinadas regras - envolvem menor risco de contágio. 

Para os interessados, há mais informações aqui: maidemo.de 


20 abril 2021

já estou há umas horitas sem falar na máquina de lavar a louça...

(foto)

Era só para dizer que na próxima cozinha vou fazer como uns amigos meus: puseram a máquina de lavar a louça num plano mais elevado que o habitual, para não terem de dobrar as costas quando a estão a carregar e descarregar. 

Que nós já não vamos para novos. 

(E o próximo jardim também havia de ser todo a 80 cm de altura, que esta manhã andei a apanhar ervas e estou com as costas que nem vos digo nem vos conto. Além dos braços todos arranhados por causa das roseiras, e das pernas cheias de nódoas negras por ter andado a carregar vasos pesados. Parece que sou vítima de violência, mas não: quando muito, sou vítima de mim própria.)

(E por falar em dores de costas: esses meus amigos também têm camas boxspring. Sempre as achei uma americanice bacoca qualquer - mas foi só até ter experimentado uma noite. Deve ser a isto que chamam the American dream...) 



19 abril 2021

não desistas dos teus sonhos!

 


"Não desistas dos teus sonhos!! Continua a dormir!"

Esta manhã o despertador tocou justamente no momento em que uma amiga estava a acabar de me fazer a sobrancelha esquerda. 

"Oh pá, não posso ir para a rua com uma sobrancelha arranjada e a outra por arranjar", pensei eu. Virei-me para o outro lado, e tratei de retomar o sonho no ponto em que estava, para ela poder acabar o trabalho. 

[ Debalde. Não consegui adormecer de novo, e assim fiquei com a cara em estado de "antes e depois". Ainda bem que estamos em confinamento: não saio à rua, não passo vergonhas... ;) ]

---

Agora, a sério: a piadinha que fotografei há dias no centro de Berlim dá muito que pensar. Quanto dos nossos sonhos são ilusão? Como saber distinguir no sonho o que é projecto com futuro e o que é alienação e armadilha? 


18 abril 2021

caso estejam ansiosos por ter notícias da minha máquina de lavar a loiça...

(Escrevi "loiça" porque hoje é domingo)

Ontem fiz muitos cozinhados: deu-me um ataque de mãezice aguda, e tratei de encher o congelador da minha filha com comidinha para ela ir descongelando e comendo ao longo da semana, porque anda com um ritmo de trabalho louco e chega a casa demasiado tarde e cansada para ir ainda fazer o jantar. 

Ao tentar meter as panelas na máquina tive - pela primeira vez - saudades da antiga. Conhecia-a tão bem que a louça quase se arrumava sozinha. Agora, tenho de reaprender tudo de novo, para optimizar o aproveitamento do espaço. Com o tempo que perdi a experimentar posições para as panelas, mais me valia tê-las lavado à mão. 

Além disso, a bela da gaveta dos talheres rouba - obviamente - espaço na altura. Tornou-se mais complicado pôr as panelas a 3/4 sem que a pá do tabuleiro superior bata nelas. 

A máquina lavou durante a noite, a porta abriu, e tal, mas esta manhã as caixas de plástico ainda estavam molhadas.

(Pensava eu que com a entrega e instalação da máquina se me acabava o tema, mas isto ainda vai dar uma novela da Globo.)

(Só me falta arranjar meia dúzia de casais para trocas e baldrocas enquanto discutem a melhor maneira de meter panelas na máquina, e dispor os talheres na respectiva gaveta.)

(Vai ser um sucesso de audiência. De certezinha.)



17 abril 2021

o folhetim continua

 


A minha fantástica e esplendorosa máquina de lavar a louça nova já andou uma vez!
Oh, que riquinha: funciona, e lava a louça, e tudo!

Foi no programa económico (horas e horas e horas, é um bocadinho difícil de entender como é que um electrodoméstico a trabalhar tanto tempo poupa energia, mas provavelmente terei faltado a uma aula importante). Quando chegou ao fim, a porta abriu-se sozinha para o vapor escapar e a louça secar melhor.

Alertada por um ruído diferente, fui à cozinha - e ali estava aquele prodígio da técnica: uma porta que se abre sozinha, presa ao corpo da máquina por uma peça de sólido plástico. 

Há tantos anos que uso as mais variadas máquinas de lavar a louça, e nunca me acontecera ficar a olhar para uma porta semiaberta sem saber como a abrir completamente. Com todo o cuidado, tentei soltar essa peça da porta, empurrá-la para os lados e para baixo, empurrar a porta para a fechar: não se mexia. 

"Será que me venderam uma máquina com defeito?", pensei eu, quase a entrar em pânico. 

Ia correr para o facebook para pedir conselhos aos amigos, mas ocorreu-me que eles são muito AEG, Bosch e marcas brancas. Provavelmente iam outra vez dizer "Helena, vende essa e compra uma AEG/Bosch/marca branca, porque eu gosto muito da minha". E com certeza alguém viria ainda acrescentar que bem me tinha avisado que era melhor lavar tudo à mão. 

De modo que fui antes para os fóruns de utilizadores da Miele, e num instante descobri que bastava abrir a porta normalmente, e a peça se recolhia com toda a discrição e elegância à sua posição habitual. Meu lido, meu feito. 

(Uma palavra de admiração e louvor para estas comunidades na internet: bem sei que o mundo está perdido, que chove nele como na rua, que estamos a viver em planos inclinados para milhentos abismos à nossa volta, e tudo isso. Mas enquanto houver - como há - milhões de pessoas dispostas a sacrificar o seu tempo para ajudar desconhecidos no imenso espaço internético, há esperança.)

Abri a porta, a peça recolheu-se com um ruído de high-tech dos anos oitenta (sim, parecia a nave do Espaço 1999), e pôs-me a pensar que talvez seja boa ideia pagar um extra para aumentar o prazo da garantia desta máquina para cinco ou até dez anos. Vejo aqui muita margem de manobra para avarias e consertos caros. 


15 abril 2021

seis novos direitos básicos europeus

O jurista e escritor alemão Ferdinand von Schirach propõe a inclusão de seis novos direitos básicos na Europa. Diz que as constituições europeias foram escritas para outras épocas, e não reflectem os desafios primordiais do tempo que nos é dado viver.

São esses direitos:


Artigo 1 - Ambiente
Todos os seres humanos têm o direito de viver num ambiente protegido e saudável.

Artigo 2 - Autodeterminação digital
Todos os seres humanos têm o direito à autodeterminação digital. A espionagem ou manipulação de pessoas é proibida.

Artigo 3 - Inteligência artificial
Todos os seres humanos têm o direito de exigir algoritmos transparentes, verificáveis e razoáveis. As decisões essenciais devem ser tomadas por um ser humano.

Artigo 4 - Verdade
Todos os seres humanos têm o direito à verdade nas declarações feitas por servidores do Estado.

Artigo 5 - Globalização
Todos os seres humanos têm o direito de receber apenas bens e serviços que sejam produzidos e fornecidos no respeito pelos direitos humanos universais.

Artigo 6 - Acção em matéria de direitos fundamentais
Todos os seres humanos têm o direito de recorrer aos tribunais europeus por violações sistemáticas da presente Carta.

Neste momento estão a juntar assinaturas na Alemanha (site: You Move Europe). Já conseguiram quase 107.000 das 125.000 que pretendem alcançar. ADENDA: também em inglês, nesta página: you.wemove.eu/campaigns/for-new-fundamental-rights-in-europe.

Parece-me que algo importante está a nascer aqui. A ver vamos.

"com que roupa eu vou?"

Lembra-me o facebook que há um ano andava a tentar adaptar-me ao clima da Bretanha e ao segundo mês de medidas drásticas de confinamento.

Tinha de ir à rua (fazer compras, e aproveitar a saída para a tal voltinha num raio de 1 km à volta de casa, para mexer um bocadinho o esqueleto) mas como o tempo na Bretanha muda a cada cinco minutos, estava sem saber se me devia vestir para inverno ou para verão.

(De facto, o que é espantoso é os bretões conseguirem escapar ao pijama de manhã: como saberão eles qual é a roupa mais adequada para o dia?)

Sugeriram-me que vestisse tudo, de modo a estar preparada para o que desse e viesse. Segui o conselho à risca - vestido de verão, casaco comprido de penas, cachecol e gorro na carteira, porque nunca se sabe - mas surgiu mais uma dúvida existencial: botas de cano alto ou sandálias?

Finalmente, já vestida e calçada, dei-me conta de que a vontade de ir à rua se tinha volatilizado: aquela coisa de ter de usar um lenço de papel para abrir as portas do prédio, e a seguir deitá-lo fora com muito cuidado, e mais isto e mais aquilo...

A verdade é que apenas um mês depois de ter começado a crise da covid, já estava habituadíssima a estar em casa. Não tinha paciência para todos os cuidados que era preciso ter nos espaços públicos.
Além disso, tinha algumas garrafas de vinho vazias para deitar no vidrão, e não sabia que é que os vizinhos iriam pensar de mim: de vestido de verão, casaco de inverno, sandálias, e várias garrafas de vinho na mão...

(Um amigo do facebook comentou: "quando os vizinhos virem as garrafas de vinho, vão compreender a indumentária..." - ainda hoje me lembro da gargalhada que me provocou.)



primavera!

 


Não sei se já partilhei este filme aqui. Mas não importa: continua excelente. 

Viva a primavera!
Em todas as espécies. 

ADENDA: no site Act of Love (animal courtship dictionary of 73 different species from all over the world) descrevem rituais de acasalamento com texto, fotos, filmes e animações muito interessantes.
Foi em alguns desses filmes que se basearam para fazer estes bailados. 
Recomendo muito. 

alimento essencial

Este post ia chamar-se "para começar bem o dia", e estava a nascer assim:


Trago da página de youtube da autora, Anne Magalhães:

"Música da artista e ativista Nina Simone, de 1965.
Não tá tudo bem. Não tá tudo bem. E a gente sabe que toda essa história de se sentir plena é impossível num momento como esse. Mas deixo aqui a maneira calorosa como me alimentei num dia de desesperança, vai que não serve para você também.
Seguimos."



Mariana Abrunheiro, Ruben Alves, Carlos Bica. 

Não sei se "a beleza salva". Mas, como dizia ali em cima a Anne Magalhães, alimenta.
Num momento como este, alimenta. 

---

Este era o post que queria escrever hoje.
Acontece que quando cheguei ao parágrafo anterior me ocorreu uma entrevista que fizemos em Yerevan, com o director do Cafesjian - Center for the Arts, durante a crise do euro, quando o governo português estava a cortar drasticamente todas as despesas. Perguntei-lhe porque gastavam tanto em cultura num país tão pobre e a precisar urgentemente desse capital para outras coisas. Ele sorriu, e respondeu: 

"Porque a Arte cura."

A Arte é um alimento essencial: para nos ajudar a crescer para além da escuridão do momento que nos tolhe o horizonte. 


14 abril 2021

máquinas de lavar a louça, e outros assuntos mais interessantes

 


A máquina de lavar a louça chegou hoje, à hora combinada: vieram, viram, instalaram a nova e levaram a velha. Viva! (E tem gaveta para os talheres, caso os mais cuscos queiram saber) (mas guardei o cesto dos talheres da máquina velha, para o caso de não me dar bem com estas modernices)

Eram dois simpáticos cavalheiros: educados e competentes. No fim tive de assinar uma folha duas vezes: pela recepção da máquina e do serviço, e a confirmar que tinham usado máscara durante todo o tempo.

No fim, um deles contou-me que já instalou mais de cem mil electrodomésticos. Começou em 1990, e nos primeiros anos tinha de fazer 25 entregas por dia. Agora já só faz os trabalhos mais complicados, que exigem mais tempo. Como esta máquina, para a qual estavam previstos 45 minutos.

Também me contou que já viu algumas casas como a minha: com a cozinha no último andar para ter mais céu. Eu a pensar que tinha sido muito original, mas afinal, parece que não fui a única pessoa a roubar a ideia àquele meu amigo que era professor na Bauhaus de Weimar...

A mulher dele teve covid e passou bastante mal, mas não contagiou ninguém da família. Apanhou no hospital onde trabalhava. Do pessoal na área dos doentes com covid nesse hospital, 80% foi contagiado. E mais uma vez me sinto surpreendida e grata pela imensa generosidade das pessoas que trabalham na área da Saúde, e arriscam a sua própria vida para ajudarem os outros.

"Não desejo a ninguém aquilo que ela viu naquelas enfermarias!", disse ele. Os doentes isolados, em estado cada vez mais desesperado, sem poder receber visitas. "Quando a minha mulher se dava conta de que era provável que o doente não sobrevivesse, arranjava maneira de deixar entrar os familiares às escondidas, para se despedirem. É preciso não esquecer o nosso dever de humanismo!"

Depois reparou que já ia em 50 minutos, e pôs-se rapidamente a caminho da casa do cliente seguinte.

Desde 1976, mais ano menos ano, que não me tinha acontecido um técnico de electrodomésticos tão interessante. O outro foi um que veio consertar a máquina de lavar a louça (eu e as máquinas de lavar a louça!...) e me pediu que tirasse dali a perna de presunto que tinha um aroma demasiado sedutor.

"Isto é o suplício de Tântalo!", queixou-se ele. Já lá vão cinquenta anos, mas não esqueci a surpresa de um técnico me vir com cenas da mitologia grega (Helena Araújo: há mais de meio século a levar tareias nos seus preconceitos). Só não me lembro se no fim ele aceitou umas fatias finas de presunto. Mas sei que ofereci.

E assim termina o folhetim da minha máquina de lavar a louça. Estou muito aliviada por desta vez terem vindo técnicos competentes e sérios. É que o último que cá esteve consertou a máquina seguindo tutoriais no youtube (o site da empresa, que tinha um ar muito profissional, dizia que só trabalhavam com mestres...), e os penúltimos que cá estiveram eram claramente um esquema de golpe (foi uma sorte não me terem assaltado).

Duvido que nos próximos anos haja nova temporada da série "a nossa máquina de lavar a louça em Berlim", mas se houver podem ter a certeza que serão informados.