09 julho 2020

"volta"

No dia em que a palavra mágica foi "volta", escrevi este texto a mostrar um pouco dos bastidores da aventura que é o grupo "Enciclopédia Ilustrada" do facebook:

Então? Então? Então? Na Enciclopédia Ilustrada a palavra do dia é #volta, e ninguém se lembra de falar das voltas ao alfabeto que andamos a dar vai fazer agora cinco anos?

Do Júlio Verne lembraram-se todos, mas das nossas voltas ao mundo... tsss tsss tsss, são tão século XIX, vocês!

Só escapa o colega Cristovam, que falou na Volta ao Dia em 80 Mundos: fantástica definição do que aqui fazemos.

E agora, muito rapidamente porque o tema #volta já passou o seu prazo de validade, partilho algumas recordações pessoais desta aventura:


Não sei quando é que o Vítor me passou a criança para as mãos, "ai, é só escolher uma palavrinha por dia, pronto". Lembro-me do fascínio do primeiro dia: propus uma palavra, e dezenas de pessoas escreveram posts muito bons sobre aquele tema. O fascínio, e a descoberta da minha responsabilidade. Lembro-me da paciência da Sónia a ensinar-me o b-a-ba disto (obrigada, Sónia!). Lembro-me - com muita vergonha - daquela vez em que decidi ser engraçadinha e num dia D propus "des-" (des-culpem! des-culpem!). Lembro-me da aflição repetida de encontrar uma palavra que começasse por determinada letra tendo simultaneamente algo a ver com a efeméride importante do dia (K no dia dos oceanos; krill?) - até ao momento glorioso em que decidimos que podíamos escapar ao totalitarismo do abecedário, e fazer "especiais". Ah, as efemérides: mais uns aninhos disto, e começo a saber de cor essa parte da wikipedia...

Com o tempo comecei a ganhar um certo calo: já consigo avaliar melhor as palavras que vão correr mal (por exemplo: que vão dar azo a posts escritos por impulso, sem pensar se é uma publicação que enriquece o grupo; ou que são demasiado complexas e não vão dar muitos posts), e as palavras que têm tudo para correr muito bem. Mesmo assim, ainda me surpreendo quando corre tudo ao contrário do que tinha previsto ou temido (como Wittgenstein ou Yardang, que foram dias excelentes). Lembro-me de a fase W X Y Z ser uma dor de cabeça já na altura em que entrei para o grupo dos que propunham a palavra do dia - e, espantosamente, depois de tantas voltas ao alfabeto ainda conseguimos propor palavras interessantes começadas por estas letras impossíveis.

Entretanto os antigos administradores foram-se afastando, e outros colegas ofereceram-se para ajudar a continuar as nossas voltas. Discretamente, um grupo "secreto" de colegas generosos encontra-se virtualmente quase todos os dias para fazer sugestões para o dia seguinte. Lembro alguns dos debates que temos tido, tais como polissemia versus tema único, ou sobre a melhor forma de propor os quinhentos anos da circum-navegação do Fernão de Magalhães. Lembro alguns momentos de muita risota, especialmente quando se aproxima sábado, dia de alguma brejeirice. Lembro em particular aquela semana em que nos permitimos um alinhamento malandro - Sexo / Trio / Ui - e quando chegou ao V ganhámos juízo e escolhemos Vagem em vez de Vulva. Enfim: aquele "ganhámos juízo" é uma maneira de dizer... Ainda dentro deste tema, lembro um Dildo que só não saiu num sábado porque tinham entrado recentemente muitos novos, e o tema podia dar barraca.

E assim vai a vida.

Desculpem repetir, mas o que tem de ser tem muita força: este grupo é um fenómeno. Um oásis de gratuidade, atenção aos outros e respeito mútuo para contrariar a época de egoísmo, utilitarismo, competição, e optimização do tempo. E a volta ao alfabeto parece o milagre da multiplicação dos peixes: quantas mais palavras servimos, mais palavras encontramos para servir. Mesmo as das malditas letras W X Y e Z.

(A última frase foi um arroubo poético, não liguem.)



08 julho 2020

água na boca



Uma vez comprei um bolo muito semelhante a este da imagem, e sentei-me em frente à loja (se querem saber tudo: foi no Whole Foods Market ao fundo da Haight Street em San Francisco) para lanchar.

O problema é que o bolo era para lá de delicioso. Era espantosamente bom. E foi por causa disso que passei uma grande vergonha: a cada vez que abria a boca para entrar bolo, saía água de forma incontrolável. Tentei disfarçar, mas era mais forte que eu. Aquele bolo provocava uma água na boca como nunca me tinha acontecido.

Hoje acordei - sabe-se lá porquê - com espírito científico: e se repetisse a experiência, a ver se se verifica o mesmo fenómeno de causa e efeito? Na impossibilidade de ir até à Haight-Ashbury, podia seguir esta receita.

(Sim, qualquer desculpa serve para recair no vício. Logo hoje, quando estava tão decidida a começar a desfazer os covidquilos que juntei nos últimos quatro meses...)


"imitação"

0. Para não escrever muitos disparates fui investigar a diferença entre #imitação e falsificação, e de extra deram-me também os conceitos de cópia, contrafacção e pirataria.

(Aqui)

1. Os três irmãos Posin, russos que moram em Berlim, são conhecidos como os melhores falsificadores do mundo. Mas não são falsificadores – fazem (geralmente por encomenda) excelentes cópias de quadros famosos cujos autores morreram há mais de 70 anos, e assinam o seu próprio nome por trás da tela. Falsificação ou cópia?

Penso que, no caso, se trata de imitação, já que no processo da pintura eles tentam entrar na pele do artista, servindo-se do muito que aprenderam na Academia das Artes de São Petersburgo sobre os pintores e a respectiva época. Um deles chegou a aprender a pintar com a mão esquerda para imitar um artista canhoto. Nas palavras de um deles: “cada uma das nossas cópias tem de ter uma alma. Não copiamos simplesmente a superfície e as cores. Queremos entrar no artista e trabalhamos ao mesmo ritmo que ele. Por isso, vemos nas nossas pinturas uma obra que nasceu de novo.”

O resultado (cópia? imitação?) é tão bom que já têm um museu com cerca de cem quadros em Großräschen, Brandeburgo. O dono do museu, grande apreciador dos irmãos Posin, detecta-lhes a “alma russa” nas dobras das pinceladas. Mas diz-se que mesmo os profissionais têm alguma dificuldade em distinguir certas cópias do respectivo original.

Em todo o caso: a fama é tanta que o museu chega a receber visitantes vindos de Dresden que estão interessados em comparar a Madonna Sistina dos Posin com a “sua”, a original de Rafael, que está na Galeria dos Mestres Antigos da Pintura.

(Agora estou aqui a pensar: em 2032 fará setenta anos sobre a morte do Yves Klein. O seu Azul dava um belo presente para o meu próprio 70º aniversário. Será que posso encomendar uma imitação, ou aquela história da patente é mesmo a sério? Estava capaz de trocar todos os quadros que tenho em casa pelo Azul do Yves Klein interpretado pelos Posin. E vocês?)

(Oooops! Joachim, aquele “estava capaz de trocar todos os quadros” é uma maneira de dizer, OK? Tu não me faças uma leitura literal do que aqui escrevo, que não me dava jeito nenhum passar o resto da vida a dormir no sofá.)

Neste link encontram um filme curto sobre os artistas imitadores.


2. Há tempos comprámos dois quadros que andaram no mercado da arte como originais, e afinal eram falsificações. Gosto dos quadros, que me lembram Kirchner, e gosto ainda mais do suplemento de rocambolesco: não é qualquer um que consegue entrar no mundo de um determinado artista a ponto de fazer quadros inéditos que passam por originais. Infelizmente não me consigo lembrar do nome do falsificador e do nome da artista que ele imitou. Um dia que volte a Berlim, e a palavra do dia seja Alzheimer, conto-vos o resto da história.

Na mesma altura hesitei em comprar um conjunto de peças de óleo e colagens que lembravam imenso os trabalhos do Amadeo de Souza-Cardoso. Hesitei, é como quem diz: h€$it€i... Quando ganhei corag€m e lá voltei, um mês mais tarde, já só encontrei o lugar vazio na parede.

Fiquei com pena: o que me interessava não era o nome, mas a beleza da composição – mesmo que tomada de empréstimo a um génio alheio.


3. Digam vocês: uma imitação bem conseguida já vos fazia felizes, ou só vos serve o original?

(Será que os Posin nos faziam preço de grossista se encomendássemos vários Azuis do Yves Klein? Ou seria melhor encomendar essas imitações na China?)

(Ai! Com licencinha: vou ler de novo a definição de “pirataria”.)

(E a de “palermice”, já agora.)



07 julho 2020

notícias da aldeia da roupa branca (2)



Parece que aqui em Brest não é costume - ou se calhar até é proibido - pendurar um estendal de roupa nas janelas viradas para a rua. Começo a suspeitar que o estendal maravilhoso que comprei no supermercado do meu bairro seja para o aquecedor ou para a banheira, e não para a janela onde assenta tão bem. 

Já devia ter desconfiado há mais tempo. Afinal de contas:

1. Nunca vi nenhum estendal assim na minha rua. 
2. Nem em nenhuma outra de Brest, excepto numa de traseiras. 
3. Nem em Brest, nem - pensando bem - em Berlim. Ou no Porto. 

De modo que estou com a auto-estima na subcave: tantos anos a pensar que sou gente fina, para me dar agora conta de que afinal sou aquele tipo de emigrante que não respeita as regras do país onde se instala. Logo eu, que pensei tantas coisas feias sobre os vizinhos que faziam muito barulho nas escadas, não fechavam a porta da rua, e coisas assim; acabei de descobrir que tenho uns pés de barro quase até aos joelhos. E é para não dizer até ao pescoço.

Pior ainda: reincidi. Hoje lavei a capa do edredão. No estendal à janela seca a tempo de o poder voltar a usar hoje à noite. Dentro de casa, precisa de uns dois ou três dias. Podia ir à lavandaria do fim da rua metê-lo no secador, mas custa-me gastar energia eléctrica para algo que o sol e o vento resolvem sem problemas. 

A única maneira de escapar disto com alguma dignidade e votar nos Verdes, e sugerir aos candidatos que os estendais à janela sejam um ponto importante do programa. Abaixo a proibição dos estendais por motivos estéticos!

Tanto mais que os estendais, além de permitirem poupar energia eléctrica, tornam as ruas bem bonitas. E informativas. 
(Mas eu, hehehe, arranjo sempre de usar toalhas de banho ou lençóis para esconder certas informações mais privadas, hehehe)


06 julho 2020

notícias da aldeia da roupa branca

Notícias da aldeia da roupa branca:


1. Esta manhã o Weather Brest anunciava chuva com 90% de probabilidade. Acreditei - porque o dia estava muito cinzento - e liguei o aquecedor, que remédio, para aquecer a roupa em casa. Ao fim de 30 minutos ainda não havia sinal de chuva. Arrisquei a secar a roupa no estendal fora da janela. Saiu-me um dia que foi uma lindeza.

Ao fim de 4 meses a viver na Bretanha já devia ter aprendido: a única previsão infalível quando vou ver o que diz a página da previsão do tempo é que é um tempo mal gasto. Não vale a pena. Eles dizem uma coisa, e os elementos decidem outra. Aliás: mudam de ideias frequentemente durante o dia.


2. A nossa janela é a única com estendal na rua toda. Será que é proibido estender a roupa fora da janela, e eu sou a única pessoa a quem não contaram?




"Douro" (4)



Na linha do Douro há uma estação chamada Alegria.
A verdade é que, para quem passa feito turista - como eu -, Alegria é o nome do meio de todas as estações da linha do #Douro.
O próximo almoço da Enciclopédia bem podia ser lá - que dizem? Saímos de Porto-São Bento, a estação com magníficos azulejos (íamos meia hora antes, para os doutos colegas tecerem considerações sobre aquelas cenas), e fazíamos a linha do Douro até à penúltima estação: Mós - Freixo de Numão. É a que fica a seguir à Quinta do Vesúvio (sim, a estação do Vesúvio é sobre a Quinta, junto ao rio - uma paisagem digna de um filme do Manoel de Oliveira...). Dávamos um mergulho no rio, que ali faz uma curva larga no meio da vinha, e depois almoçávamos no restaurante Bago d'Ouro: peixinhos do rio e naco de vitela (eu telefono sempre a pedir puré de batata - o puré de batata daquela cozinheira de Freixo de Numão é quase como o arroz de favas de Tormes).
Se tivermos sorte, no fim dão-nos um cesto de figos da terra.
Depois do almoço voltamos de comboio até ao Tua, e daí descemos em barco rabelo até ao Pinhão. Devagarinho, a saborear o rio.
Estão abertas as inscrições.

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Quando soubemos que iam fechar o último troço da linha do Douro, meti-me com os meus irmãos no comboio, num sábado de manhã, e fomos até à fronteira espanhola, em Barca de Alva. Almoçámos no restaurante da estação as inevitáveis febras com batatas fritas a escorrer óleo, e havia galinhas que entravam e saíam à vontade, depenicando o que encontravam no chão e deixando em troca o que lhes aprazia, passe o eufemismo.
Foi há trinta anos, ainda a ASAE não tinha começado a modernizar o país com mão de ferro.
Apanhámos o mesmo comboio de volta, eu de olhos escancarados e o cérebro a mil, sonhando para aquelas quatro ou cinco estações um aproveitamento turístico ligado por ciclovia, sei lá. Na altura era muito visionária. Hoje em dia, isto era bem capaz de se vender a bom preço às gentes que querem fazer férias para parar realmente. Passe a contradição de usar estações e linha de comboio para "parar realmente".
Ai, isto não é uma contradição, é uma triste metáfora do que aconteceu às ligações ferroviárias do interior do país...


03 julho 2020

"Douro" (3)

Sobre as três pontes que a Régua sobre o #Dourouma para cada época, vou contar a minha versão (se for errada, agradeço que me corrijam):

A primeira ponte, de pedra e ferro, com o chão em traves de madeira, foi feita na segunda metade do século XIX, e servia lindamente para os peões e os carros de bois.

Umas décadas mais tarde a Alemanha perdeu a Grande Guerra, e teve de pagar reparações aos países inimigos. Portugal também recebeu a sua parte, nomeadamente um ponte para fazer a ligação ferroviária da Régua a - salvo erro - Lamego. A ponte dos alemães fez-se logo, a linha de comboio pelos montes e vales é que ainda hoje continua por concluir. E como aquela bela ponte de alvenaria estivesse à espera do dia de São Nunca à Tarde, e a ponte de chão de madeira não apresentasse segurança para os novos veículos que precisavam de atravessar o rio, a CP emprestou a sua ponte à JAE. No entanto, por ser ponte de comboio, ficou sem iluminação eléctrica.

A terceira ponte é a da auto-estrada, já com uma boa década de existência. Uma obra lindíssima, apesar de ser um elemento muito estranho naquela paisagem da vinha.

Pessoalmente, a auto-estrada que mais me incomoda naquele sítio é a dos fios eléctricos, que passa os montes na zona de Parada do Bispo e Valdigem. As pessoas que trabalham na vinha queixam-se que às vezes até apanham choques. E convenhamos que não beneficia muito a imagem deste nosso património mundial.

Essas duas aldeias, Parada do Bispo e Valdigem, estão unidas por uma animosidade antiga. Histórias de casamentos que não foram do agrado de todos - se bem percebi, no caso foi o pai da noiva que não gostou do noivo, e passou a malquerença à aldeia toda. Aquilo eram uns tempos de muita solidariedade e empatia...
Eram, e são: ainda hoje se diz em Parada que "Valdige é a terra que Deus não quije".
Não sei o que dirão os de Valdigem em troca, porque, como já devem ter suspeitado, eu dou-me é com os de Parada do Bispo.

Em todo o caso: uma ponte entre as pessoas de Valdigem e as de Parada do Bispo é que parece estar mais difícil de fazer.
(Ou se calhar já fizeram, e esqueceram-se de me informar.)


"Douro" (2)

O texto de uma colega enciclopedista sobre os Meninos de Ouro da Agustina fez-me ir de passeio até aos meus tempos de universidade:

Uma colega de curso, a Eva, vinha de uma aldeia perto de Miranda do 
#Douro, vivia num quarto minúsculo numa residência de estudantes, e tinha de se organizar para não deixar nunca exames para Setembro, porque nessa altura estava retida num século anterior: a sua aldeia ainda vivia em regime comunitário, e na época das colheitas iam todos juntos fazer a colheita de um vizinho, depois a de outro, e assim sucessivamente.

Quando as aulas da faculdade recomeçavam, ela despedia-se da sua terra nos confins do mais lá longe de tudo, despedia-se dos penhascos de um Douro tão diferente daquele que chegava ao Porto (ou talvez lhe dissesse "até já!"), e aparecia-nos com as mão calejadas, os olhos verdes muito brilhantes, as exclamações mais abertas, o sotaque ligeiramente carregado de música mirandesa.

A Eva cantava-nos o "por bailar o pingacho", contava histórias hilariantes do irmão a pôr o capacete da mota para aprender as danças no seu grupo pauliteiros, falava com imenso orgulho das tradições da sua terra.

A determinada altura, começou a citar com entusiasmo frases de um livro que andava a ler: os Meninos de Ouro, da Agustina. Eu ouvia-a, fascinada por aquela imensa ponte que ela era: entre um Portugal duplamente longínquo - no espaço e no tempo - e uma das mais desafiantes leituras da literatura portuguesa contemporânea.


"Douro" (1)



Por este rio acima....

1. Em finais dos anos oitenta do século passado


(nota mental: da próxima vez, hei-de fazer por nascer no princípio do século, que é para não contar estas histórias da juventude como se fossem de outro século e até de outro milénio, porque é assim que uma pessoa se põe velha)


fiz com a minha família uma viagem inesquecível no #Douro internacional. Só mais tarde me apercebi de que aquilo que, para mim, era "apenas" uma viagem formidável, para o meu pai era trabalho. Na altura ele estava a preparar o Programa para o Aproveitamento Turístico do Vale do Douro, e aproveitou as férias para experimentar o potencial da região. Deve ter sido por isso que em cada município se arranjava o milagre de haver sempre um barquinho que nos levava a conhecer a natureza pouco explorada, rio abaixo e rio acima. A águias e os penhascos impressionantes em Miranda do Douro. Os abutres e os grifos. As cegonhas pretas do Mogadouro - especialmente duas, muito curiosas, que nos acompanharam durante toda a viagem, voando sobre as nossas cabeças para avaliar bem estes bichos estranhos que invadiam o território delas.


2. Também no âmbito desse programa, os técnicos da CCDRN, onde eu trabalhava, tiveram a oportunidade de fazer uma excursão de quase uma semana para conhecer melhor a região sobre a qual iriam tomar decisões. Em cada concelho éramos recebidos pelo presidente da Câmara, que nos apresentava a região e nos servia um almoço ou um jantar, conforme a hora. Como cada concelho nos queria servir o melhor que tinha, andámos aqueles dias todos a almoçar e a jantar cabrito assado no forno com batatas. Um melhor que o outro, ça va sans dire, mas o que é demais é exagero.


(Também inesquecível: o presidente da Câmara que, dentro do autocarro, nos ia apontando as aldeias das freguesias e dizia "esta tem 230 eleitores, esta tem 120 eleitores...")


3. Numa das viagens de trabalho que fiz num barco do rio Douro (sim, há vidas muito duras), deparei com um animador turístico da velha guarda, muito consciente da importância da sua missão. Em determinado momento mandou parar todas as conversas, insistiu quase ao ponto da má-criação com duas senhoras que continuavam animadamente a sua conversa ("Silêncio! Minhas senhoras! Estou farto de dizer que têm de fazer silêncio!"), e quando finalmente até essas se calaram, ele pôs a voz em tremolo e anunciou: "admirem, senhores e senhoras, o espectáculo da criação divina. Olhem para a beleza destas margens!"

E depois deixou-nos continuar as conversetas.

Aaaah, já não se fazem animadores como antigamente!


4. Se alguém passou em Julho de 2017 pela Ribeira do Porto e viu uma grande animação minhota num dos barcos que lá faz o circuito das seis pontes, era - desculpem! - eu e o Joachim a festejar com família e amigos as nossas bodas de prata. Tínhamos previsto um jantar e umas voltinhas no barco, mas os amigos da nossa aldeia trouxeram os bombos e a concertina, e já entraram no barco a fazer música de romaria minhota. De modo que esta foi a segunda festa da minha vida na qual já estávamos a dançar mesmo antes da primeira bebida...

(A primeira festa onde isso nos aconteceu foi o casamento: organizei o catering tudo fantástico, mas fiz mal as contas do horário. Ou então fomos nós que nos despachamos muito a casar e a dar os beijinhos ao pessoal. Chegámos com uma hora de adianto à casa onde íamos fazer a festa, e o pessoal recusou-se a servir as bebidas, porque só tinha ordens para começar uma hora mais tarde. Um tio do Joachim escapuliu-se para a taberna mais próxima para comprar cervejas (o que se tornou um running gag da família nos anos seguintes). Os outros foram para o belo terraço da casa da Cruz Vermelha, ali em Massarelos, por cima do Douro, e puseram-se a dançar a seco. Ou isso, ou conversar.)


5. Ao amigo enciclopedista que hoje, a propósito do Douro, disse que "ai não sei quê mas o Tejo é que", eu queria perguntar se alguma vez viu passar no Tejo um barco cheio de foliões a dançar ao som de bombos minhotos. Não viu? Então pronto, ficamos conversados. E mainada. 



02 julho 2020

Ken & Karen

A história conta-se em poucos parágrafos: a mayor de St. Louis, Lyda Krewson, divulgou em filme no facebook os nomes e os endereços de pessoas que lhe fizeram sugestões sobre como usar o dinheiro que sobraria de "defund the police". Mesmo que não tivesse a intenção deliberada de dar essas informações ao grupo de extrema-direita que anunciara fazer uma manifestação na cidade nessa altura, foi irresponsável: tinha obrigação de saber que divulgar online nomes e moradas de pessoas que tomam determinadas posições políticas é um acto que potencia enorme violência (lembro que um político alemão, Walter Lübke, foi assassinado no terraço da sua casa depois de neonazis terem divulgado o seu endereço na internet), e que o doxxing é uma arma de intimidação na luta contra a ordem democrática). 

Em sinal de protesto, um grupo de manifestantes ligados ao movimento "Black Lives Matter" dirigiu-se à casa da mayor para protestar contra o doxxing e exigir a sua demissão. Para chegar à casa dela, entrou numa rua privada. Segundo uma testemunha do bairro, os portões que delimitam a área costumam estar abertos e é normal as pessoas passarem por aquela rua para encurtar distâncias - ou até para passear no parque que lá existe.

Um casal de residentes estava em casa (ou talvez a comer hot dogs no jardim, a julgar pelas nódoas de mostarda na t-shirt dela), viu a manifestação a chegar, agarrou nas suas armas e veio para a entrada ameaçá-los. O homem exibia a arma e a gritava "fora daqui!", a mulher tinha o dedo no gatilho e apontava o revólver aos manifestantes (às vezes também ao marido, mas isso deve ter sido apenas um acto falhado).

O filme deste casal a apontar armas contra manifestantes que estavam a passar ordeiramente na rua em frente à sua casa deu origem a muitas críticas e a uma enorme vaga de gozo - que sempre é uma maneira mais pacífica de responder a um acto de tamanha violência. 

O casal disse depois que temeu pela própria vida, e se sentiu ameaçado por aquele grupo violento que destruíra o portão ("histórico", sublinham eles, para dar mais peso à vandalização) para invadir a propriedade privada. Para que não haja confusões, também fizeram saber pelo seu advogado que são apoiantes do movimento "Black Lives Matter".  

Para justificar a sua reacção desproporcionada, mostraram imagens do portão destruído. Só é pena que haja provas de que já estavam a exibir as suas armas quando o portão ainda estava intacto e os manifestantes passavam por ele sem a menor intenção de vandalizar. Ao ver este filme, por exemplo, é difícil perceber o que levou o morador a sentir que estava prestes a ser vítima da "tomada da Bastilha" (sim, ele usou essa expressão numa entrevista). No filme, o homem apenas se mostra furioso por ver passar na rua pessoas que ele considera indesejáveis. Sentir-se pessoalmente ameaçado por isso? Só se estiver uma relação profundamente fusional com a sua rua. 

A avaliar pela quantidade de memes, os dois entraram para a História contemporânea como Ken & Karen. 
Admito que "Ken" seja o namorado da Barbie (o boneco com um corpinho de provocar sonhos húmidos aos escultores dos totalitarismos nazi e estalinista); "Karen" é um caso muito interessante de utilização de um nome próprio para designar uma mulher branca com tendência a perder facilmente o autocontrolo, consciente do seu privilégio e sempre pronta a abusar dele. 
(Sobre "Karen", recomendo a leitura desta análise)

K & K - mais um K, e dava KKK. 
Exagero? Ainda no âmbito da especulação, pergunto-me o que podia ter acontecido se não houvesse tantos brancos naquela manifestação. 

Enquanto me ria com os memes que pipocaram por aí, lembrei-me de uma situação semelhante que aconteceu em Berlim. Falei neste blogue sobre essa manifestação no meu próprio bairro (aqui, aqui, aqui e aqui), na qual participei sentindo-me uma espécie de Mata Hari. Queria estar com os meus filhos naquela "invasão" que tinha como objectivo "mostrar solidariedade para com os desgraçados da alta burguesia de Grunewald que vivem tristes e isolados por trás dos seus muros altos".
Numa das mansões pelas quais passámos havia uma adolescente à janela, sentada de perfil, inteiramente absorta no telemóvel.
Parecia uma performance: a miúda sentada numa espécie de montra a exibir insolentemente a maior indiferença perante os manifestantes de esquerda que invadiam a sua rua com o único propósito de provocar os moradores. 


Ao ver o casal de St. Louis a ameaçar com armas aqueles manifestantes senti uma grande admiração pela adolescente berlinense: outra maturidade, outra consciência democrática.

E aqui vos deixo alguns memes do Ken e da Karen. Enjoy.















26 junho 2020

intramuros

Este fim-de-semana vou dormir em Saint-Malo e no Mont Saint Michel. 
Intramuros na melhor acepção da palavra.

Ainda não fui ver como é (disseram-me que no Mont Saint Michel é mágico) mas estou em crer que desta vez não trocava nem por uma casinha em frente à praia do Portinho da Arrábida... 


estuda!

"Estuda!", disseram-me. E deram-me este texto do Pedro Cardim, publicado no Expresso.
Fui estudar. E descobri que afinal andava muito enganada a respeito do Padre António Vieira e da sua defesa dos indígenas.

Cito:
"Depois de consolidarem o seu domínio sobre as primeiras parcelas de terra, as autoridades portuguesas, seculares e religiosas, definiram a forma como iriam lidar com os autóctones da América. Quanto aos indígenas que foram submetidos pelos portugueses, as autoridades coloniais trataram-nos como miserabile personae, como uma espécie de crianças ou de pessoas desprovidas de autonomia e de autossuficiência. Foram vistos como seres que careciam da tutela dos colonizadores, acabando por ser reduzidos a uma condição de menoridade, cívica, jurídica e política. No que respeita aos muitos povos indígenas que viviam nas vastas áreas que escapavam ao controlo dos conquistadores e que contra eles resistiam, foram encarados como "selvagens", "rebeldes" e inimigos."

"Não há dúvida de que, ao longo da sua vida, Vieira se destacou na defesa de certos povos indígenas e denunciou alguns abusos dos colonos. Contudo, é preciso notar que tais denúncias foram quase sempre uma boa ocasião – política – para Vieira reivindicar que, na relação entre colonos e indígenas, a tutora e a intermediária privilegiada, ou mesmo exclusiva, deveria ser a Companhia de Jesus, a ordem à qual ele pertencia.
A par disso, não se pode esquecer que, em vários momentos, o mesmo Vieira apelou às forças portuguesas para que atacassem e submetessem, por vezes com muita violência, os ameríndios que resistiam à invasão das suas terras, ou que recusavam o catolicismo. Aliás, e à semelhança dos seus contemporâneos, Vieira usou termos como "gentio bárbaro" ou "selvagem" para denominar os indígenas que continuavam a resistir contra os portugueses. Tais palavras, como se sabe, estavam carregadas de preconceitos a respeito dos seres humanos assim designados.
Tudo isto é factual, baseia-se na documentação existente e está plenamente demonstrado pelos estudos dos últimos trinta anos."


"Estuda!", disseram-me outra vez. E deram-me este texto de Pedro Calafate, publicado no DN, que dá uma perspectiva muito diferente da do artigo anterior. Sugiro que leiam aqui, porque vale muito a pena.

Mas há um ponto comum a ambos os textos: o boneco escolhido em 2017 para simbolizar o Padre António Vieira será ou uma mentira (a crer no primeiro texto, que refuta a sua fama de protector dos indígenas) ou uma escolha completamente à margem do que é importante naquela figura histórica (a crer no segundo texto).
O que me incomoda mais nesta história: já estivemos mais adiantados nesta coisa de homenagens. Repito-me: veja-se o D. Sebastião de Lagos, que já tem meio século. Este tipo de representação é um retrocesso grosseiro e empobrecedor. Da próxima vez, peçam ao Cabrita Reis - ele pespega meia dúzia de paralelipípedos de betão no meio da praça, e cada um interpreta como lhe apetecer, e até aonde a sua própria ignorância lho permitir.
Assim já ninguém se zanga, e o Padre António Vieira tem a sua homenagem numa praça de Lisboa.

(Agora alembrou-me que se podiam fazer os paralelipípedos definidos apenas pelas arestas em ferro, e com pontos de intersecção: intersecção de mundos, porque ninguém saiu o mesmo daquelas andanças.
Ora então: deixem-me ser eu a fazer a homenagem! Faço metade do preço do Cabrita Reis. Pronto, está bem, faço metade do preço do autor do boneco que levanta a cruz acima dos indígenas infantilizados. E não se fala mais nisso.)


23 junho 2020

ainda a estátua do Padre António Vieira


Pelo debate que suscitou no facebook, suspeito que não deixei bem claro que a minha crítica não se dirige à homenagem ao Padre António Vieira, mas à faceta dele que escolheram homenagear.

Do tanto que o Padre António Vieira deu ao país e ao mundo, e que podemos eleger como exemplo - inclusivamente para a nossa época -, foram escolher justamente o  papel de missionário, que é o que há de menos interessante nele, e de mais controverso no nosso tempo.

Imaginem que alguém de se lembrava de homenagear o Obama fazendo uma estátua dele a erguer um drone sobre crianças árabes: um drone no centro da homenagem, em vez do foco nos seus discursos, na sua atitude de diálogo internacional, na onda de esperança que trouxe ao mundo, ou no Obamacare. 
Homenagear o Padre António Vieira com uma estátua que o mostra a erguer uma cruz sobre miúdos indígenas é uma escolha tão pouco adequada como a de pôr o Obama a erguer um drone sobre miúdos árabes.  

Dirão: "uma cruz não é uma arma!"
E têm bastante razão. Mas:

(1) Hoje em dias temos muita informação sobre o que aconteceu aos povos indígenas durante o processo de evangelização, e da enorme destruição (de cultura, de organização social, de identidade, de vidas) - mesmo se involuntária - que resultou do sistema de missionação. Talvez as pessoas da época não soubessem e não conseguissem ver o que estavam a fazer, mas nós já o sabemos, e temos obrigação de pensar duas vezes antes de escolher os símbolos que queremos usar nos elogios que fazemos hoje a personagens históricas.

(2) Como muito acertadamente se diz, cada tempo tem os seus próprios valores, e não podemos criticar o que aconteceu há quatro séculos com base nos valores do nosso tempo. Por isso mesmo escolhi a imagem de Obama a erguer um drone: no nosso tempo, muitos vêem os drones dos EUA ("polícia do mundo", "baluarte do sistema democrático") como meios necessários para instalar a paz, a estabilidade e a democracia em regiões que andam necessitadas disso. Independentemente da sua época, o que a cruz do Padre António Vieira e o drone do Obama têm em comum é o sofrimento que uns países levam a outros, iludidos de que estão a agir para o bem do mundo.

Além disso, mesmo havendo muita boa gente que aceita como algo positivo o papel de polícia do mundo que os EUA têm, os actos de violência contra populações civis árabes não são propriamente aquilo que eleva Obama acima da sua época. Do mesmo modo que o seu papel de missionário não é o que tornou o Padre António Vieira uma figura excepcional no seu tempo.  

Só por cinismo alguém se lembraria de homenagear o Obama fazendo-o erguer um drone acima de crianças árabes. Pergunto: o que moveu as pessoas que em 2017 decidiram homenagear o Padre António Vieira mostrando-o a erguer uma cruz acima de crianças indígenas?

"E qual é o problema de levar aos povos a mensagem de Cristo?", perguntarão alguns. 
Responderia que o problema é o método usado. A única maneira que reconheço como válida para transmitir a mensagem de Cristo é o exemplo: "vede como eles se amam". O único testemunho de Cristo que os missionários devem dar é o amor. A divulgação da fé cristã virá por acréscimo, se o testemunho de amor for convincente. Há cristãos que o conseguem fazer de forma admirável. E há outros que não têm em si o amor generoso e incondicional de Cristo, pelo que se limitam a dar uma cruz aos outros. Também por isso é lamentável terem escolhido representar o Padre António Vieira daquela forma: a cruz em vez do olhar atento ao sofrimento dos indígenas e em vez do coração compassivo e cheio de amor. 

(Sim, bem sei que o Padre António Vieira cometeu erros. Mas se só homenagearmos pessoas 100% perfeitas no tempo delas e no nosso, o preço do bronze vai cair a pique. E a nossa auto-estima - tanto pessoal como colectiva - também.)  


Chico e Criolo



O vídeo não é novo, mas o lamento continua tristemente actual - e, ao mesmo tempo, encanta-me assistir ao diálogo artístico destes dois.


Didier Squiban



Descobri o "meu" músico bretão para acompanhar este período sabático na região de Brest.

(O Tri Yann e o Alain Stivell vão poder descansar um bocadinho.)


22 junho 2020

ran








se mexer, estraga

O sábado já me começou bem. Demorei um pouco mais na ida à padaria porque estava encantada com o que via (o caminho é o destino da viagem). Pequeno-almoço na varanda com vista para um destes magníficos postes de eletricidade ou de cabos telefónicos tão típicos da Bretanha. E com a música do mar aqui tão perto.

Depois gastámos imenso tempo a decidir se era para ir primeiro à praia apanhar bigorneaux ou se saíamos logo para Pont-Aven.

Diz-se: não mexa mais, que estraga.

Na Bretanha é mais assim: mexa quanto lhe apetecer, porque é sempre bom.






E a vista do duche:




travelling

Saiam da frente, que estou aqui a fazer um travelling!

(Sim, ameaça chuva)

(Não, não me importo nem um bocadinho)




Foi na sexta-feira passada, em Plomodiern. Há muito tempo que não via os meus amigos com os olhos tão brilhantes.
(E nós, vá, também.)


18 junho 2020

o caso da estátua do Padre António Vieira


No embalo da actual onda internacional de contestação ao racismo, o boneco do Padre António Vieira em Lisboa foi uma das estátuas vandalizadas. Li algumas das manifestação de repúdio deste acto, que me suscitam os seguintes comentários:


1. Dizem: "quem vandalizou aquela estátua não sabe quem era o Padre António Vieira". 
Eu diria que quem fez aquela estátua é que não sabe quem é o Padre António Vieira no século XXI, digamos assim. Não lembra ao diabo erigir em Lisboa, em 2017 - repito: em 2017 - uma estátua de um europeu erguendo uma cruz por cima da cabeça de criancinhas indígenas.
Como é possível que, das tantas opções para homenagear o melhor do Padre António Vieira, com uma leitura actual da importância da figura histórica e com uma linguagem estética contemporânea - só para ter uma ideia, veja-se o olhar desmedido e perplexo do D. Sebastião que o escultor João Cutileiro nos deu em 1973, ainda durante a ditadura -, como é possível, dizia, que tenham optado por fazer aquela espécie de bibelô de praça de aldeia?
Pergunto ainda: as pessoas que abriram o concurso para essa estátua e atribuíram o primeiro prémio não estavam informadas sobre um dos mais importantes debates contemporâneos? Não lhes passou pela cabeça que erguer na Lisboa do século XXI uma estátua como esta - e não me refiro à homenagem ao Padre António Vieira, mas literalmente ao boneco de um europeu rodeado de indiozinhos e erguendo uma cruz - podia ser entendido como um claro posicionamento no debate sobre o colonialismo português?

Tal como foi feita, a estátua não parece uma homenagem, mas o aproveitamento desse pretexto para fazer um braço-de-ferro com o século XXI. Ninguém merece, e muito menos o Padre António Vieira.


2. Criticam esta pichagem como um ataque à sociedade portuguesa 
Uma estátua numa praça pública é uma afirmação do que é importante para uma sociedade - mas este boneco concreto está longe de ser uma representação consensual da importância do Padre António Vieira para o Portugal: nem no seu próprio tempo, nem no nosso. Em primeiro lugar, porque "missionário dos índios" não é o que o eleva acima dos outros do seu tempo; em segundo lugar, porque o que o Portugal do século XXI mais aprecia no Padre António Vieira não é a sua faceta de missionário de índios; finalmente, porque erguer em 2017 numa praça da capital uma estátua que afirma o orgulho que Portugal tem por um missionário colonialista - e é isso que aquela estátua representa - é algo que envergonha o nosso país perante os olhos de visitantes menos rodados nos bancos da escola do Estado Novo. 
Não há um mínimo de consenso - muito pelo contrário: aquele boneco é a imposição à cidade de uma opinião retrógrada expressa em bronze. Pelo que se poderia considerar esta pichagem como a manifestação de uma opinião de sinal contrário. Ou seja: uma reacção ao gesto prepotente de quem há três anos impôs no espaço público português uma visão ultrapassada da História universal e da responsabilidade dos países colonizadores europeus no actual estado do mundo.


3. Falam em "ditaduras ideológicas" e chamam "fanáticos" a quem vandalizou a estátua. 
Pode ser. Mas tão fanático e ditador ideológico será quem pintou "descoloniza" naquela representação do Padre António Vieira, quanto quem impôs aquele boneco anacrónico à cidade de Lisboa e à imagem que Portugal quer dar de si próprio ao mundo. 


4. Dizem: "derrubar e pichar estátuas é ofender a História"
O que é um belo exercício sobre os limites da liberdade de expressão.
Para já, pergunto: pichar aquela estátua é ofender a História de quem?
Mais: se defendemos "o direito a ofender" no âmbito da defesa da liberdade de expressão, como podemos impor a proibição de ofender a nossa versão da História do mundo? 
Porque é que se pode dizer tudo o que apetece, ao abrigo da liberdade de expressão, mas não se pode pichar uma estátua? É apenas para não danificar o material, se custou bom dinheiro aos contribuintes? Ou é porque nos incomoda ser confrontados com a opinião que ofende os nossos símbolos?
Em suma: será que, afinal, há limites para o "direito a ofender"?


5. Dizem: "esta gente ainda vai acabar a dar Portugal aos árabes"

Quanto a isso, estou descansada: já cá estão. Já cá estamos. Ou alguém pensa que a nossa pele trigueira é herança dos visigodos e dos suevos?


6. Dizem: "vamos aceitar que nos destruam todas as estátuas?"

Se me é permitido brincar: todas, todas, não. Só as que for preciso...

Agora, a sério:

- É fundamental não deixar que se instale na nossa sociedade uma prática de facto consumado. Nem na realização das obras, nem na sua destruição. Serve para a bonecada colonialista que escolheram para representar o Padre António Vieira, serve para o conceito "Museu dos Descobrimentos", serve para um relicário do Salazar em Santa Comba, serve para esculturas de preço incompreensível encomendadas por um município qualquer. Em casos sensíveis como estes, enquanto não houver um mínimo de consenso não se faz (estou-me a lembrar do Memorial para os Sinti e Roma vítimas do nazismo, em Berlim, cuja obra se atrasou imenso porque não havia consenso sobre a inclusão da palavra "cigano" na placa explicativa).

- Esta querela da estátua não é mais que um campo de batalha por substituição, e está a distrair-nos do que é verdadeiramente importante. Entre outros: ouvir as pessoas, sensibilizar para as dificuldades da vida das minorias, encarar de frente a tralha ideológica que o Estado Novo nos deixou de herança.

- Mesmo reforçando e aprofundando o diálogo e o consenso democrático, haverá sempre algum extremista que decidirá afirmar a sua posição contra a da sociedade democrática, vandalizando uma estátua de algum famoso, uma obra de arte, um mural ou um Centro de Acolhimento de Refugiados. Que esses incidentes não nos desviem do nosso caminho, que é no sentido do fortalecimento do sistema  e do diálogo democráticos.


algumas provocações a propósito de estátuas - a luta contra o racismo



Santuários esventrados: nesta minha longa passagem pela Bretanha ainda não encontrei uma única igreja medieval cuja entrada não seja um testemunho trágico do desvario dos tempos. E pode dizer-se que, apesar de tudo, estas igrejas de santos apeados e flechas destruídas ainda tiveram sorte. Da Abadia de Saint-Mathieu, por exemplo, restam apenas algumas paredes. Mas o fenómeno não é apenas bretão. Na Borgonha, a Abadia de Cluny - importantíssimo centro religioso e cultural da Idade Média - teve a mesma má sorte que a de Saint-Mathieu: foi vendida a um particular que fez dela pedreira. Do imponente conjunto arquitectónico, praticamente só sobrou o seu lugar. Aconteceu no centro da Europa, há pouco mais de duzentos anos. 

Foi a Revolução Francesa, que se despenhou sobre a França com enorme violência, mas cujo resultado foi a implantação de um novo ideal de organização social, sintetizado no lema liberdade-igualdade-fraternidade.

Uma pessoa olha para aqueles nichos vazios, e pergunta-se em que é que os privilegiados do Antigo Regime estariam a pensar enquanto fruíam da sua douceur de vivre, alheios e insensíveis à situação incomportável em que o povo vivia. Não podiam ter chegado ao "liberté, égalité, fraternité" a bem?
Que ilusões e omissões permitiram a erupção de uma onda incontrolável de fanatismo que fez rolar tantas cabeças?

*

Pergunto-me se o derrube e a pichagem de estátuas que actualmente estão a ter lugar em vários países são sinal de que a História continua o seu curso, e de que nenhuma sociedade está ao abrigo de novos conflitos sociais e de revoluções - com todos os seus inevitáveis excessos.

Traçando um paralelo entre o movimento revolucionário actual e a Revolução Francesa, pergunto: será que o "comam brioches" do nosso século é a ignorância e o desprezo com que se responde aos que alertam para as "microagressões", o "privilégio branco", o "racismo estrutural"? Será que nos salões de Luís XVI também comentariam "ai que maçada, hoje em dia não se pode dizer coisa nenhuma, que há sempre algum servo a sentir-se ofendido - cambada de snowflakes..."?

Mas divago. Este não é seguramente o limiar de uma revolução com o ímpeto da Revolução Francesa. Os oprimidos não são em número suficiente para lhe dar essa dimensão. O lugar da maioria nos "salões de Versalhes" continua cinicamente assegurado.
(De muito maior alcance, contudo, serão os conflitos quando a crise climática se abater em cheio sobre nós. Infelizmente, já não teremos de esperar muito para ver.)

*

Lido algures:

Porque é que dizem "o racismo que matou George Floyd é terrível, mas é inadmissível que os manifestantes ataquem e destruam propriedade privada e monumentos, e temos de tomar medidas imediatas contra isso", em vez de dizer "o ataque e a destruição da propriedade privada e dos monumentos é terrível, mas o racismo que matou George Floyd é inadmissível, e temos de tomar medidas imediatas contra isso"?

*



(…) When they say « why do you burn your community, why do you burn down your own neighborhood? » It’s not ours! We don’t own anything! We don’t own anything! There is a social contract that we all have that if you steal or if I steal, then, the person who is authority comes in and they fix the situation, but the person who fixes the situation is KILLING US! So the social contract is broken! And if the social contract is broken why the fuck do I give a shit about burning your fucking football Hall of Fame, about burning a fucking Target. YOU BROKE THE CONTRACT! YOU’RE KILLING US ON THE STREETS AND DON’T GIVE A FUCK! You broke the contract, WE FOR 400 YEARS PLAYED YOUR GAMES AND BUILT YOUR WEALTH! YOU BROKE THE CONTRACT WHEN WE BUILT OUR WEALTH AGAIN ON OUR OWN BY OUR BOOTSTRAPS IN TULSA AND YOU DROPPED BOMBS ON US! WHEN WE BUILT IT AGAIN IN ROSEWOOD AND YOU CAME IN AND SLAUGHTERED US! YOU BROKE THE CONTRACT SO FUCK YOUR TARGET! FUCK YOUR HALL OF FAME! As far as I’m concerned they could burn this bitch to the ground and it still wouldn’t be enough and they are lucky that what black people are looking for is equality and not revenge!

(Repare-se nos últimos momentos do vídeo: quando uma Kimberley Jones emocionalmente exausta desaba nos braços de uma amiga)

*

Há exageros na actual luta para nos alertar para o racismo estrutural da nossa sociedade? Há. Muitos, e alguns bem graves, porque abalam valores básicos das sociedades modernas e democráticas - nomeadamente a liberdade de expressão e artística.

Compreendo a preocupação de quem fala em ataque à cultura, à liberdade de pensamento e de expressão. Compreendo quem teme que em breve se comece a queimar livros, e cita Heinrich Heine: «Não era senão um prelúdio; onde se queimam livros, terminar-se-á por queimar pessoas».

Compreendo tudo isso, mas: o problema é que já estão a queimar as pessoas. Nos EUA, a média anual dos últimos cinco anos é de cerca de mil assassínios de base racista perpetrados por polícias. Mil pessoas, anos após ano. As pessoas já estão a arder - de facto, estão a arder há mais de quatro séculos - mas a maioria de pele branca não repara, entretida que está a proteger os ilimites da sua liberdade de expressão. Não repara nem quer reparar que muitos dos seus livros, dos seus filmes, das suas obras de arte e das suas palavras são uma humilhação constante para um determinado grupo, reforçam os sentimentos de superioridade e os preconceitos da maioria contra uma minoria, e contribuem para perpetuar uma ordem racista na sociedade.

*

De um lado temos: o assassínio de George Floyd (um polícia a matar, três a ver e a manter a ordem pública). O assassínio de Philando Castile, em frente à sua filha de 4 anos. O assassínio de Ahmaud Arbery: um linchamento no ano da graça de 2021. O cinismo desta resposta de um branco a um trabalhador negro: "You know what? You’re probably right. You deserve more. But why would I ever give it to you, when I can get you for this?"

Do outro lado temos: os privilegiados da ordem social que pratica a opressão dos outros. A defender os seus livros e os seus filmes, as suas estátuas e a sua versão da História, os seus símbolos, as suas coisas, as suas liberdades, a sua douceur de vivre.

Em vez de começar hoje mesmo a reconhecer e a corrigir o imenso crime perpetrado dia após dia durante mais de quatro séculos contra os escravos africanos e os seus descendentes, agitam a bandeira dos seus direitos e das suas liberdades. Os seus direitos antes dos direitos dos outros.  
(Volta, Maria Antonieta, estás perdoada.)

*

Pergunto: o facto de sabermos
 que em 2020  Shola Richards só se atreve a passear no seu bairro na companhia das filhas e do cão, porque se passeasse sozinho os brancos daquela rua iam sentir-se ameaçados e isso bastaria para o assassinarem, não nos provoca uma imensa vergonha e não nos impele a tomar todas as medidas possíveis para corrigir essa situação?

Pessoalmente, sinto uma vergonha profunda - e é essa vergonha que me impede de chamar ridículas às acções contra o Tom Sawyer, o Mocking Bird e o Gone With the Wind.

No dia em que Shola Richards puder passear sossegadamente na sua própria rua sem que os vizinhos o vejam automaticamente como um desigual e como um vulto ameaçador, provavelmente também esses filmes e esses livros serão deixados em paz.

Até lá, teremos de ouvir, debater, alertar, educar, e fazer as concessões necessárias para tornar o mundo igualmente respirável para todos.

*
Provoco: se, por cada negro assassinado, a sociedade fosse castigada com a eliminação total de um livro ou um filme de fundo racista, quanto tempo levaria até acabarem os assassínios de pessoas motivados pela cor da pele?
(Não, não estou a propor que queimem todas as cópias de Gone With the Wind como retaliação pelo assassínio de George Floyd. Estou apenas a dizer: se doesse à maioria mesmo a sério, tão a sério como dói à minoria, o problema já tinha sido resolvido há muito.)

*

Quando Oskar Maria Graf se deu conta de que os seus livros não faziam parte da lista negra dos nazis, não tinham sido atirados às fogueiras, e, pelo contrário, eram recomendados pelo regime, escreveu: "O conjunto da minha vida e da minha obra dá-me o direito de exigir que entreguem os meus livros às imaculadas chamas da pira, em vez de caírem nas mãos sujas de sangue e nos cérebros pútridos do bando de assassinos de uniforme castanho."

"Queimem os meus livros!": um grito de decência e de defesa dos mais altos valores.

Nos tempos que correm, ninguém pediria tanto. Basta assinalar o conteúdo racista de um filme, trocar no livro uma palavra estigmatizante e insultuosa pela sua inicial com asterisco, escrever um prefácio crítico (sim, há muita gente de bem que precisa que lhe façam um desenho), mudar uns quantos nomes de ruas e deixar o registo da razão da troca, levar certas estátuas para o museu a que têm direito e onde serão devidamente contextualizadas.

*

É lamentável que se tenha chegado a este ponto de exagero e violência, mas não podemos, em consciência, dizer que não estávamos à espera disto. A História já nos deu muitas lições sobre este tema. Por exemplo, e fazendo a ponte para o início deste post: se Luís XVI tivesse estado muito mais atento e aberto ao clamor do tempo, provavelmente ainda hoje tinha o crânio em cima das omoplatas. 

Melhor seria mudar de vida, e começar hoje mesmo a reconhecer o mal que fizemos e fazemos às minorias, e a unir esforços para corrigir o que tem de ser corrigido urgentemente, em vez de nos enterrarmos em trincheiras de "nós" e "eles", que só nos conduzirão ainda mais depressa para tempos desvairados.


17 junho 2020

incontinências do carácter

Partilho um texto do Vasco Pimentel no facebook. Esta maravilha de síntese sobre a questão da ofensa:


Eu nunca me ofendi.

Com nada, rigorosamente nada.

Não fico ofendido, pronto.

Falta-me o chip, suponho (faltam-me outros, eu sei, ninguém os tem todos).

Por vezes, isso sim, fico com a vaga ideia de que alguém tentou ofender-me. Sim, tenho a certeza, já aconteceu. Isso eu noto. Já que leio & converso sobre o assunto, parece-me ser capaz de identificar o gesto.

A minha reacção, no entanto, é sempre a mesma - e é involuntária, insisto: o gesto da pessoa que tentou ofender-me leva-me imediatamente a classificá-la. A ela, à pessoa. Fico a saber (foi ela que me forneceu a informação) que é burra, ou má, ou que sofre de um problema qualquer que a aflige. As consequências do gesto sobre a minha pessoa são inexistentes, nulas.

"Não passas dum imbecil", por exemplo. Sabendo eu que sim, passo dum imbecil, que sou outras coisas (passo de...), e que, por acaso, essa até nem é uma delas, a frase anula-se a si própria, sem necessitar de desencadear primeiro um processamento que passe pela humilhação, a dúvida ou a tristeza. Eu não sou imbecil, tal como já não era antes, tal como não serei depois. Nada se alterou, portanto.

É como se alguém te mija para cima, e depois te acusa de teres mijo a escorrer pelas calças abaixo. Eu tenho, sim senhor, mas quem mijou na rua & para cima dos outros foste tu (tu agora já não és tu, é o parvalhão que mija). Isso permite-me concluir o que eu tiver de concluir sobre a TUA pessoa. É estúpido concluíres o que quer que seja sobre a MINHA, visto eu poder provar que o mijo não me escorre espontaneamente pelas calças abaixo. Já contigo é bem diferente, visto que eu posso concluir, sem esforço, que tu, sim, mijas para cima das pessoas. Fico a saber isso, e di-lo-ei a quem me apetecer. Conclusão, só há UMA pessoa que sai prejudicada. E essa pessoa não é, não PODE ser eu. O mijo pelas calças abaixo não me atormentará sem mais um segundo da minha vida. A tua, porém, fica marcada para todo o sempre.

Tenho que ler mais sobre isso de "ficar ofendido", porque visivelmente não percebo nada do assunto.

The End.

Vasco Pimentel, aqui.  

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Dois apontamentos à margem:

- Gostei muito da imagem do ofensor como um animal que marca o seu território às mijinhas: a ofensa como instrumento de delimitação de território e afirmação de poder.
(Que coisa tão ante-pré-histórica, que grande macaquice!)
(O que me lembra a expressão de uma amiga: "Isto não é o meu circo, isto não são os meus macacos.")

- Tenho a certeza absoluta que o Vasco Pimentel não escreveu a pensar nos chamados "snowflake", mas para o caso de alguém interpretar mal o texto, convém notar que a ausência desse "chip" só é possível em relações simétricas. Quando se trata de ofensas a pessoas que são quotidianamente sujeitas a humilhações e perseguições devido à sua condição de pertença a uma minoria, dizer-lhes que não se devem ofender e que a ofensa fica com quem a pratica seria insensibilidade e cinismo.