20 janeiro 2022

o Murphy hoje acordou assim

 

Esta manhã comi três fatias de pão com manteiga, e não me caiu nenhuma nem ao chão nem no colo.
Mas isso foi depois de me ter apercebido de que o Joachim tinha saído de casa sem o telemóvel, e de ter corrido atrás do carro dele pela rua fora, em camisa de dormir e de pés descalços na neve a gritar "hey! hey!" como se na rua não houvesse vizinhos.
Não me ouviu.

Portanto: não sei o que pensar hoje sobre o Murphy.

PS. O dia, esse, acordou lindo.
(Na Olympus)



19 janeiro 2022

andar na vida

 

O ano de 2021 despediu-se assim no meu telemóvel (que já há muitos anos era o telemóvel antigo do Joachim):





E despediu-se assim na Olympus:




Agora estou aqui a sem saber com que olhos quero andar na vida: os tons pastel do telemóvel velho do Joachim, ou a profundidade e o drama da Olympus? 

Também posso continuar a andar com as duas perspectivas lado a lado, numa de pluralismo democrático, mas esse processo atrasa muito o passo aos companheiros dos passeios. 

(Começa uma pessoa um post pensando que arranjou uma maneira airosa de pespegar fotos do ano passado, e sem querer acontece-lhe uma metáfora.)


nem um bocadinho, mas...

 

Esta manhã a fatia de pão que eu estava a comer caiu. E com o lado da manteiga para baixo, em cima das minhas calças lavadas de fresco - como não podia deixar de ser.

Não me incomodou nem um bocadinho, mas, se amanhã voltar a acontecer: alguém conhece um neurologista que faça preço de amigo?

(Oh, pouco barulho, Murphy! Ninguém te perguntou a opinião.)


18 janeiro 2022

outros Natais

No segundo feriado de Natal (na Alemanha, o 26 de Dezembro também é feriado), visitámos a minha sogra, e celebrámos o Natal à antiga: com a carne assada que ficou a marinar em vinho durante vários dias, com um pinheirinho verdadeiro e com velas, com a leitura que São Lucas nos oferece sobre o nascimento de Jesus, com música feita por nós.

O pinheiro verdadeiro e as velas de cera de abelhas são algo cada vez mais raro nas casas alemãs. As velas estão a ser trocadas por guirlandas eléctricas, e os pinheiros de Natal estão a ser reinventados com muita criatividade. Na casa dos amigos com quem passámos os últimos dias do ano havia um pinheiro de natal feito com ramos devolvidos à terra pelo lago Constança. No ano passado, na nossa casa em Berlim, usámos ramos encontrados no chão da floresta.

Num programa de rádio ouvimos um apontamento sobre as diferenças na celebração do Natal, que variam de país para país. Eu ouvia, à espera do momento em que explicariam que grande parte dessas diferenças se deve à importância maior que em certas regiões ainda se dá à festa da Epifania. Mas não. Limitaram-se a informar que há diferenças. Pode ser de ter vivido quase 40 anos no milénio passado, ou então é mesmo algo que tem acontecido a todas as pessoas que vão envelhecendo, desde o princípio dos tempos: esta perplexidade perante o desaparecimento de saberes que em tempos eram intrínsecos à sociedade.

E também a surpresa perante a novidade. Por exemplo, um amigo nosso que este Natal ofereceu aos filhos o regresso da pegada ecológica de cada um deles à casa de partida. Sim, também fiquei de boca aberta, mas ele explicou: fez as contas à emissão de dióxido de carbono de cada um dos filhos, desde que nasceram até hoje, e pagou a uma ONG o necessário para contrabalançar essas emissões. A ONG de que me falou vai muito além da plantação de árvores. Entre outros projectos, distribui fogões solares em regiões onde ainda é normal cozinhar com fogueiras.

Outra surpresa: os filhos gostaram do presente. O que me lembrou uma festa de Natal há alguns anos, quando, para evitar a habitual avalanche de presentes de todos a todos, combinámos que cada pessoa daria apenas um, e que estes seriam sorteados num jogo de dados. Quem tivesse dois seis escolhia o presente embrulhado, e depois de todos os presentes estarem distribuídos desembrulhava-se e fazia-se nova rodada. Quem tivesse dois seis podia roubar o presente a outrem. Pode criticar-se que este roubalhanço não é muito próprio do espírito de Natal, mas, pensando bem, também aqui podemos tentar alguma diferença. Por exemplo, "roubando" o presente que ninguém quer. Nessa noite, os presentes que ninguém queria foram - surpresa! surpresa! - dois donativos para ONGs que lutam para tornar o mundo melhor. Vá-se lá saber porquê, todos preferiam ter a french press ou o jogo "Azul" (com pedras lindíssimas a imitar azulejos portugueses).

O Azul acabou por ficar para mim (sim: nesse dia o meu espírito natalício não esteve brilhante) mas depois de jogar uma vez dei-o a um dos perdedores. E não foi por altruísmo. Odeio jogos que vivem da maldade do adversário. (Disse maldade, não disse a inteligência ou sorte.) E assim termino esta publicação de extraordinária actualidade: há quem comece a encher as lojas de produtos de Natal logo em Outubro, eu cá escrevo um post de Natal quando o Carnaval já está à porta...









nem um bocadinho

Esta manhã a fatia de pão que eu estava a barrar caiu. E com o lado da manteiga para baixo, como não podia deixar de ser.

Mas não me incomodou nem um bocadinho. 

Embrulha, Murphy. 

09 janeiro 2022

os 5 melhores momentos pop de Stephen Hawking

A propósito dos 80 anos de #Stephen_Hawking, a Rolling Stone alemã publicou uma lista dos seus cinco melhores momentos na cultura pop.

Aqui estão eles (em tradução apressada, como habitualmente):


1. Simpsons Stephen Hawking aparece tantas vezes nos Simpsons que se poderia pensar tratar-se de mais uma invenção de Matt Groening e dos seus parceiros. E alguns fãs da série pensam que é. Como guest star do episódio "They saved Lisa's Brain", Stephen Hawking voou para Los Angeles para participar nas gravações. Que, no seu caso, consistiram em escrever todas as frases do seu personagem no seu próprio computador, que as emitia com a voz que nos habituámos a ouvir como sendo a dele. (Porque é que não mandaram um assistente com o gravador a Inglaterra, para gravar na casa dele, é o que eu - sovina como de costume - gostava de entender... Depois admiram-se que as produções de Hollywood custam fortunas.)



2. Big Bang Theory

Era natural que uma sitcom de nerds cujo personagem principal é um físico sem qualquer jeito para a vida prática tivesse um episódio com Stephen Hawking.


3. Star Trek: The Next Generation

Em 1993, Stephen Hawking joga poker contra Einstein, Isaac Newton e Data. E parece estar a divertir-se imenso.



4. Monty Phyton

Em 2015, Stephen Hawking grava com os Monty Phyton uma nova versão do "Galaxy Song".



5. Pink Floyd

A peça Talkin' Hawkin' do álbum The Endless River conta com a voz de Stephen Hawking. Este já tinha participado no álbum The Division Bell. (Enfim: a "voz". Não conheço o suficiente da evolução da doença de Hawking para saber em que altura a sua voz passou a ser a de um computador. Admite-se que a voz de Talkin' Hawkin' provenha de material gravado muitos anos antes.)



05 janeiro 2022

mais Natal que nunca

 


No dia 23 de Dezembro, a caminho da casa da nossa comadre, com quem costumamos passar o Natal, os filhos dela deram-nos a notícia de que a tinham encontrado morta em casa. 

Mais Natal que nunca: fazermo-nos presentes. A chorar e a rir com os filhos da nossa amiga, a velar o corpo na sua sala (à maneira antiga, quando a morte fazia parte da vida e não acontecia apenas por erro médico). A despedirmo-nos dela cantando de mãos dadas canções da sua vida: "the river is flowing back to the sea", um cântico de Taizé que nos levou a um Natal numa igreja medieval de Perugia, o Hallelujah do Leonard Cohen que ela tinha estado a preparar para a consoada connosco.

Há cinco anos, ao som do tranquilo marulhar do Trasimeno, perguntámos uns aos outros o que tinha sido o melhor do ano que terminava. A sua filha, afilhada do Joachim, disse "o melhor deste ano é a minha mãe estar viva" - e eu emudeci de pasmo: muitas vezes esqueço-me do mais importante. 


 
The river is flowing,
flowing and growing.
The river is flowing back to the sea. 

Mother earth carry me
the child I will always be.
Mother earth carry me 
back to the sea. 



31 dezembro 2021

tão engraçadinho

Ó pra ele tão esperto, o nosso 2021 - pelo menos o meu, no sul da Alemanha: despediu-se com um entardecer glorioso (depois ponho aqui a foto), na esperança de que a gente esqueça as tratantadas que nos fez. 


Ora bem: recomecemos de novo.


E que seja um bom 2022. 

(Oubistes, ó?!)





 

22 dezembro 2021

Médicos sem Fronteiras

 


No âmbito de uma reportagem sobre alterações climáticas e movimentos de refugiados, um casal de amigos nossos, jornalistas de imagem, fizeram filmagens em centros de refugiados em Lesbos. Viram coisas horrorosas: o modo como a polícia grega maltrata os refugiados, a insuficiência do trabalho dos representantes da UNHCR (ele assistiu a casos em que mais valia estarem quietos, sempre estragavam menos do que já estava), a situação de terrível abandono em que aquelas pessoas vivem.

Perguntámos: e não há ninguém que acuda?

A resposta foi imediata: os Médicos sem Fronteiras. Os refugiados daqueles campos sentem que podem confiar nessa organização, e que os seus membros farão os possíveis e os impossíveis para os ajudar.

De modo que há dias, quando estava a conversar com o Joachim sobre as ONGs que queremos apoiar, os MSF foram o primeiro nome que me ocorreu.

Voltando aos nossos amigos jornalistas: foram levados para uma esquadra da polícia de Lesbos, e retidos durante mais de um dia. Como não estavam presos, não tinham os direitos habituais (chamar um advogado, etc.). Mas também não os deixavam sair. Para além da privação da liberdade, intimidaram-nos e humilharam-nos de várias maneiras. Nomeadamente uma revista minuciosa ao corpo nu. Enquanto eles me contavam isto, eu só pensava que se aqueles polícias se sentem à vontade para tratar assim jornalistas alemães, o que não farão eles aos refugiados.

Para os mais curiosos: provavelmente a polícia desconfiava que eles tivessem sido testemunhas de uma operação de "pushback" - manobras perigosas de intimidação de barcos de refugiados para que não entrem em águas europeias. Podia dizer "gregas", mas prefiro dizer "europeias": estamos todos metidos nisto até ao pescoço.
Para os ainda mais curiosos, o fim da história: eles tinham conseguido manter os telemóveis. Quando os polícias saíram da sala onde estavam, enviaram apelos urgentes a algumas ONGs, à organização que encomendara o projecto, e para o facebook. Nunca mais o telefone parou de tocar naquela esquadra. Alguém enviou um advogado que em tempos tivera um consultório importante em Atenas e decidiu ir descansar para Lesbos, mas agora não tem mãos a medir porque todos os refugiados em apuros com a polícia lhe pedem ajuda. Ironias da vida. O telefone a tocar ininterruptamente já lhes foi um grande consolo.
E ao fim de umas horas deixaram-nos finalmente sair. Regressaram à Alemanha profundamente traumatizados e deprimidos. O que me leva de novo à questão anterior: se isto acontece a jornalistas alemães, em que estado estarão os refugiados que ali vegetam à mercê da prepotência de agentes de autoridade de um país da União Europeia?

Não posso mudar tudo. Mas posso contribuir para uma organização que está no terreno, que os ajuda, e - mais ainda - que aquelas pessoas sentem como sendo a ONG que vê em cada uma delas um ser humano único e irrepetível: os Médicos sem Fronteiras.

(A imagem é do site grego dos MSF.)


21 dezembro 2021

Gabriel Boric - o "Scholz do Chile"

 

(Foto: Martin Bernetti/AFP - aqui)


Amigos portugueses dizem-me que a comunicação social portuguesa está a tratar a eleição de #Gabriel_Boric como se se tratasse de um perigosíssimo radical de esquerda - o que me lembrou imediatamente um título do Süddeutsche Zeitung que me chamou a atenção: "Boric é tão radical como Scholz" (o novo chanceler alemão).
Traduzo esse artigo (muito à pressa) porque põe as coisas em perspectiva_

Tão radical como Scholz

20 de Dezembro de 2021, 16:37

O novo presidente Gabriel Boric não é o extremista que fizeram crer na campanha eleitoral – é antes uma esperança para os seus compatriotas que sofrem devido ao neoliberalismo.

Comentário de Benedikt Peters

Houve muita gritaria antes das eleições. Este jovem era um radical, um comunista, um extremista; não podia tornar-se presidente. No entanto, nem com estas campanhas de difamação conseguiram impedir que tal acontecesse. Gabriel Boric, 35 anos, barba, tatuagens nos braços, entrará no palácio presidencial do Chile na próxima Primavera. Será o chefe de Estado mais jovem da história do país - e o primeiro decididamente de esquerda a ocupar o cargo desde Salvador Allende.
O mundo não precisa de temer que o Chile esteja a deslizar para uma ditadura comunista. Em termos de conteúdo político, Gabriel Boric é quase tão radical como Olaf Scholz. Escolas e universidades gratuitas, reformas adequadas, bons cuidados de saúde para todos - o Chanceler assinaria tudo isto, como é óbvio. E se não estivesse no governo com o FDP, Scholz, de acordo com as suas promessas da campanha eleitoral, teria aumentado moderadamente os impostos para os mais ricos; Boric quer sobrecarregar um pouco mais os 1,5% de chilenos de topo e as empresas mineiras.
O programa de Boric é radical apenas no sentido literal: ele quer chegar à raiz do sistema chileno. O neoliberalismo que o ditador Augusto Pinochet outrora impôs ao país deve ceder - e com ele a gritante desigualdade social que ainda hoje agita o Chile.
O que esta eleição também significa: o campo Pinochet perdeu
Gabriel Boric tem vindo a trabalhar na mudança há mais de dez anos. Como porta-voz dos estudantes, liderou os protestos de 2011, quando centenas de milhares saíram para as ruas em busca de mais justiça. Esteve novamente entre os líderes nas grandes manifestações de 2019. Nessa altura, o governo abriu o caminho para uma nova constituição mais justa, que está actualmente a ser elaborada. A eleição de Boric confirma agora o que se tinha tornado evidente em 2019: as exigências dos jovens chilenos passaram da rua para a política.
A eleição de Boric é motivo de celebração, quanto mais não seja porque significa que José Antonio Kast não se tornará presidente. O candidato derrotado é profundamente conservador. Kast glorifica a ditadura de Pinochet, queria proibir em grande medida os abortos, facilitar o direito de porte de armas e mandar cavar uma enorme vala na fronteira norte do país para barrar o caminho aos migrantes venezuelanos. No entanto, 44% dos eleitores votaram no domingo a favor do "Bolsonaro chileno", como alguns meios de comunicação social lhe chamaram apropriadamente.
Estes 44% são o maior desafio para o novo presidente. Entre eles estão não só os xenófobos e os super-ricos, mas também muitos chilenos que anseiam por segurança. Estão preocupados com os problemas crescentes com os bandos de droga, devido ao conflito não resolvido com os povos indígenas Mapuche no Sul, ou também porque o processo constitucional de 2019 está simplesmente a avançar demasiado depressa para eles. Um processo marcado por jovens esquerdistas que falam sem dificuldade várias línguas e têm preocupações de género.
Boric deve agora mostrar que também pode oferecer algo aos seus críticos. Deve reduzir a criminalidade e implementar as reformas sociais anunciadas sem asfixiar a economia. Os seus ombros de 35 anos estão sobrecarregados com tarefas pesadas - e as esperanças da sua geração.


20 dezembro 2021

um homem banal

 

Aconteceu este fim-de-semana na Alemanha: um jogo de futebol foi primeiro suspenso durante 30 minutos, e depois terminado sem jogarem até ao fim, porque um espectador fez ruídos de macaco quando um jogador de pele escura ia marcar um canto.

O árbitro reagiu imediatamente, o público começou a gritar "nazis raus!" (nazis fora!), a regie passou a música dos Ärzte "Schrei nach Liebe" (partilho o vídeo com - péssima - tradução para inglês). Ao fim de meia hora, e dado que o jogador insultado não estava capaz de jogar e a restante equipa estava chocadíssima, concluíram que não havia condições para continuar o jogo e mandaram toda a gente para casa.

Algumas testemunhas identificaram o autor da graçola, e a polícia está agora a tratar do caso. É um homem de 55 anos, que até agora não tinha dado nas vistas. Digamos: um homem banal...




17 dezembro 2021

ia uma pessoa descansadinha da vida fazer o jantar

 




Ia uma pessoa descansadinha da vida fazer o jantar, eis senão quando baixou sobre ela o espírito da Lourdes Castro. 

Enfim: um bocadinho do espírito. Um tudo-nada. Mas foi quanto bastou para me atrasar a janta. 

(A Lourdes Castro nunca conseguia fazer uma sopa até ao fim, pois não? Pegava nas couvinhas para as lavar, e...)



Aqui algumas paisagens alentejanas (diurnas / nocturnas ):





E aqui o que há-de ser o nosso jantar hoje:




"nothing generates more engagement than lies, fear and outrage"

 

Este discurso já tem dois anos, mas continua a ser uma excelente abordagem da questão do poder das empresas que exploram as plataformas das redes sociais. Seis minutos que valem muito a pena.


16 dezembro 2021

"umbigo"

 (Mais um daqueles posts de quando vou dar água sem caneco na Enciclopédia Ilustrada)

Eu hoje era para ficar calada, que a palavra é perigosa, e temia que alguém comentasse "lá vem esta com as suas histórias - seja qual for a palavra mágica do dia, para ela é sempre Umbigo", aliás, até tenho uma amiga que volta e meia me pergunta "Hellooooo, já ouviste falar na revolução copernicana, helloooo?" e eu digo-lhe logo "já sim senhora, foi aquela revolução horrível que custou a cabeça ao neto do rei-sol!"
Pois ia ficar caladinha, mas apareceram aí uns colegas a falar de umbigada e eu lembrei-me que quando dançava no NEFAP (o núcleo de etnografia e folclore da academia do Porto) tínhamos uma dança que era uma pouca-vergonhice. Passei a manhã à procura do nome e da descrição da dança, mas não encontrei, nem na internet nem na minha cabeça. Isto está mau: se já nem me lembro do que aconteceu há trinta anos, é sinal de que o Alzheimer vai em adiantadíssimo grau.
Só me lembro, vagamente, de ser uma dança da região do Porto, de ter influências das danças palacianas que os franceses trouxeram na altura das respectivas invasões (muito gostava eu de saber quem terão sido as galdérias que foram dançar com os franceses depois da tragédia da ponte das barcas!) e que aquela parte de se achegarem os homens às mulheres e darem uma marradinha com a barriga já é influência do Brasil. Também me lembro que os homens do nosso grupo tinham a mania de ser pequenos, de modo que não me acontecia bem uma umbigada, era mais o meu umbigo no peito deles, ou assim, o que em termos de sugestão de erotismo é, digamos, um segundo óptimo. Por causa destas e doutras é que se calhar a taxa de natalidade em Portugal anda como anda.
Em todo o caso, se alguém souber o nome da dança, muito agradeço que mo diga.
Mudando de assunto, para ficar no mesmo: às vezes pergunto-me como seria a nossa barriga sem umbigo. Menos bonita, parece-me. Uma barriga cega.

14 dezembro 2021

#violino

 

O Einstein e eu começámos a aprender a tocar #violino aos seis anos. Mas os nossos caminhos separaram-se aí. Eu nunca cheguei a atinar com a maldita posição dos braços e do arco, e ele fez carreira como músico. Em compensação, as minhas notas a matemática eram melhores que as dele.

Só que, depois, o malandro mudou as regras do universo para me passar à frente na corrida para o Nobel. E, uma vez lá chegado, deitou-me a língua de fora.

Agora que já consegui a vossa atenção, aproveito para desejar a todos boas noitinhas. Amanhã cá nos vemos de novo.




13 dezembro 2021

mas Deus castiga


Era uma mãe tão má tão má tão má que abriu a pasta de chocolate que estava a guardar para dar ao filho no Natal, e comeu.

(Já vai na segunda carreirinha de quadrados)


ADENDA, 20 minutos depois: Agora sinto-me enjoada. É bem certo que Deus castiga.





11 dezembro 2021

saudades da Bay Area


Foto: Point Bonita Light - Battery Mendell - 2011 - by SJL


Post encontrado no baú, sobre um passeio de fim-de-semana que terminou com uma "Sunset & Full Moon Walk to Point Bonita Lighthouse" (recomendo muito):

Fevereiro de 2002 De Calistoga voltámos para San Francisco, atravessando as vinhas de Napa e Sonoma. A mostarda está em flor, pelo meio das vinhas há carreiros amarelos que se perdem lá ao fundo nas colinas adoçadas em terraços. Algures depois de Sonoma há um momento em que os montes se separam para deixar entrever um pouco da baía e a silhueta da baixa de San Francisco lá longe, bem depois de as vinhas ficarem azuis e perderem os contornos.

Encontrámos a Golden Gate Bridge banhada de luz rasa à água, com o vermelho muito vivo. Virámos para Point Bonita e chegámos mesmo a tempo de ver a lua pálida a nascer sobre Berkeley. Caminhámos até ao farol ao longo dos montes íngremes, parámos para ver todos os outros faróis (Point Reyes, Farallon Islands, Alcatraz) e para saborear as estrelas e a lua cada vez mais viva no céu que escurecia.

Voltámos pelo caminho iluminado apenas pelo mítico luar de Janeiro, tornado famoso pelo Estado Novo no meu livro da escola primária. Quantas gerações de portugueses não terão sido obrigadas a ler esse texto e a admirar a figurinha da família que caminhava ao luar.

Muda a figura, mantém-se a magia: caminhávamos ao lado do vulto escuro dos montes, vendo entre as duas margens as linhas elegantes da ponte desenhadas pelo luar, do outro lado a cidade polvilhada de luzes e pelo meio a lua inundando a baía de luz prateada.

"Foi muito bonito", disse a minha amiga na sua voz doce.
Foi.


10 dezembro 2021

the day after

Hoje não nevou, e a neve de ontem começou a derreter. 
Num esforço sobre-humano de autodisciplina, só saí para fotografar depois de ter o trabalho de tradução bem adiantado. Já não havia flocos de neve com as estrelinhas muito nítidas, nem neve nos figos. 
Fico de novo à espera de dias melhores.
Mais concretamente: de uma boa neve com flocos fofos - a cair de um céu azul e muito limpo. 

(Sim, que tem? Quem teve a oportunidade de fotografar figos cobertos de neve pode querer ainda mais! O céu - azul! - é o limite...)








neve

 








Ontem nevou uma neve bonita em Berlim.
Saí para o jardim com a máquina fotográfica. A neve sobre as últimas flores do outono - que ali  queremos disponíveis para as abelhas até ao último dia de calor -, sobre as bagas de gogi, sobre as capuchinhas que ainda há pouco tempo comemos na salada, 
sobre a alfazema e sobre os figos.

Sim: os figos que não amadureceram no verão, e só começaram a ficar comestíveis em novembro,  quando eu já tinha desistido deles, e hoje lá me apareceram de novo, cobertos de neve. 

Figos na neve: até me lembrou aquela cena de Nostalgia, de Tarkowskij, quando o homem tentava atravessar a água com fogo na mão. 

(E agora me lembro que ainda não publiquei a fotos mais bonitas da neve do inverno passado.)
(A sério: como é que me aturo a mim própria?)












05 dezembro 2021

tudo está bem quando acaba bem



Hoje, por ser domingo e eu também ser gente como a outra gente, fiz um intervalo na maratona de tradução em que me meti, para dar um saltinho com uns amigos ao Flohmarkt da avenida 17 de Junho. O Joachim andava à procura da senhora que faz écharpes lindíssimas, e eu andava por lá com o ar do costume (que é assim: varrer as tendas com olhos de scanner para identificar a toda a velocidade alguma coisa que me interesse, e depois, quando encontro alguma coisa que me interessa, começar a eterna ladainha de mim para comigo, "não precisas", "onde vais pôr?", "deixa ficar", "fica para a próxima") - quando de repente os meus olhos ficaram hipnotizados por um quadro com uma luz lindíssima. (E agora não me chateiem com a luz de Lisboa, e do Alentejo, e assim, também há coisas lindíssimas ó pra cá da serra da Estrela.)

Já andava de olho naquela luz desde que vi um quadro de um finlandês na casa de um amigo que usa a sua própria residência como galeria de exposições. Expõe os trabalhos dos artistas, e em troca recebe uma das peças. Ora bem, assim também eu! Da próxima vez que fizer uma casa, faço-a com menos vidro, para sobrarem algumas paredes para expor. Ai, espera! As paredes de vidro são óptimas para expor esculturas, se calhar podia começar uma colecção de esculturas em vez de pintura... (Já me estou a afastar do tema, e ainda agora comecei o post.)

Custava 30 euros. Pareceu-me demasiado barato para aquela luz, e desconfiei que seria cópia, reprodução... O vendedor dizia "eu sei lá o que isso vale", e fiquei sem saber se me estava a enganar, ou se era eu que o estava a enganar a ele. Comprei, e continuei o passeio pelo mercado toda orgulhosa daquele bocadinho de luz nórdica que levava pela mão. (Que levava pela mão a iluminar-me o cinzentíssimo dia que hoje aconteceu em Berlim.)

Mais à frente encontrámos uma peça muito especial - um "gira-discos" do final do século XIX com discos de metal, semelhante ao do filme que partilho a seguir. Mas desta vez a ladainha ("não precisas", "onde vais pôr?", "deixa ficar", "fica para a próxima") funcionou. Deixámos ficar. Talvez por custar um bocadinho mais do que 30 euros, ou talvez porque o disco que puseram a tocar tinha uma música tristonha e sem brilho, que não nos convenceu. Mas se calhar, no próximo fim-de-semana...
(Ai, agarrem-me!)


Perto das últimas barracas encontrámos os amigos, que olharam para o meu quadro lindíssimo e fizeram cara de "bem... enfim...". Vacilei um bocadinho, reconheço. (A sorte deles é que lhes estou muito grata por em tempos nos terem ensinado a apanhar marisco numa super maré baixa da Bretanha, de modo que me limitei a voltar para mim o quadro que até então levara orgulhosamente virado para o mundo, e mudei de assunto.)

Em casa, fui à internet pesquisar o Th. Graae da assinatura. Ora bem: Thomas Graae é um pintor nascido em Fjerritslev - tão ao norte da Dinamarca que mais um bocadinho e nascia na Noruega (daí aquela luz, claro!).
E o extraordinário detalhe: nasceu a 5 de Dezembro de 1897 - fazia hoje 124 anos! (Ele há coisas!) (Se calhar comprava um bilhete da lotaria hoje.) (E voltava à 17 de Junho na próxima semana, por causa do tal gira-discos) (Ai, agarrem-me!) ("Não precisas", "onde vais pôr?", "deixa ficar", "fica para a próxima")

Li aos meus amigos bretões a biografia do artista, num francês cheio de entrelinhas que diziam "et maintenant, prenez et embrulhez!"
Eles reconheceram imediatamente que tinham visto uma luz especial naquele quadro desde o princípio. De modo que, no fim, quem se vai lixar vai ser o marisco bretão, porque já nos estou a ver de novo de calças arregaçadas, ponchos da chuva e olhos de scanner a varrer a areia sob a água rasa de uma baía perto de Roscoff.

Tudo está bem quando acaba bem. (Excepto para o marisco bretão.)