10 agosto 2022

envelhecer

 

Então o Caetano fez 80 anos?! Caramba, é assim que uma pessoa se põe velha...

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Pois, pois, os oitenta são os novos sessenta, e os sessenta (para lá caminho) são os novos quarenta, mas ninguém se lembrou de avisar o meu corpinho, que anda com manias de que isto ainda é como dantes, e me anda com uma dorzinha de cinquenta anos dos antigos acolá, um não-sei-quê de sessenta anos dos antigos acoli... Agora é um joelho a dizer "eu estou aqui!", e eu, surpreendida, "ai, estavas aí o tempo todo? nunca tinha reparado" e ele, zimbas, a cada passo meu vai repetindo amuado
"cá estou eu - cá estou eu - cá estou eu".

De modo que hoje fui ao correio, e esse meu joelho lá foi comigo a mandar-me lembretes repetidos. Não é que doa, realmente, nem sequer mói. É só uma presença.

Eis senão quando comecei a ouvir chiar a cada passo que dava. Assustei-me. Depois percebi que era uma bicicleta enferrujada que me ultrapassara. Continuei a andar e, estranhamente, continuava a ouvir chiar a cada passo que dava. Afinal não era a bicicleta. Seria mesmo o joelho?

Não. Era uma fivela na minha mala.

Portanto: o meu joelho não está tão mal como eu pensava.
Já a cabeça...

09 agosto 2022

perdido por saias


Adolf Eichmann com o seu coelhinho (fonte)


Por causa de um livro que tenho andado a traduzir, hoje fui parar a um artigo do Spiegel escrito em 1961, pouco antes de começar o processo de Eichmann em Israel, sobre o livro "The Hunter", que é a autobiografia de Tuviah Friedman, o sobrevivente do Holocausto que passou 15 anos da sua vida a procurar Eichmann.

Diz o artigo que Eichmann não teria grande confiança no futuro do regime nazi, e por isso era extremamente cuidadoso com a publicação de fotografias suas. Ou seja: segundo o Spiegel, não havia nenhuma. Eichmann não dava a cara. [ O que me faz pensar no "Mancha Negra" dos livros do Mickey, lembram-se? Mas o Phantom Blot foi criado em 1939, ainda não podia ser inspirado nesta particularidade de Eichmann. ]

Tuviah Friedman sabia que Eichmann era um perdido por saias, tinha uma mulher em cada cidade por onde passava - e tratou de as encontrar. Começou por enviar o seu colega "Manos" no encalço da mulher de Eichmann, que vivia nessa altura em Linz. Devia aproximar-se dela, deixar pintar um clima, tornar-se íntimo ao ponto de esta lhe mostrar os seus... álbuns de fotografias de família. "Manos" não achou graça nenhuma à ideia: "Queres que beije a boca que o Eichmann beijou?! Ca nojo!!!"

A operação "Frau Eichmann" não teve sucesso. "Manos" via-a todos os dias, até as criancinhas Eichmann viu, mas fotografias, que era o que importava, isso é que nada.

"Manos" foi então enviado em nova missão, desta vez a Munique, onde deveria aproximar-se de Margit Kutschera, uma das duas mulheres que tinham animado as noites de Eichmann em Budapeste. Mas Margit era agora casada com um conde alemão, e não tinha o menor desejo que lhe lembrassem os tempos que passara com Eichmann.

Por fim (quando se chega ao fim de uma busca, é sempre "por fim"), encontraram, também perto de Linz, uma Frau Missenbach que tinha quarenta anos e se sentiu atraída por "Manos" - esse jovem de 24 anos, muito bem-parecido e com um sorriso de anjo.

A um primeiro encontro seguiram-se muitos outros, até que a Frau Missenbach abriu para "Manos" o seu álbum de fotografias, onde uma fotografia chamou a atenção deste. Era um amigo que morrera na guerra, disse ela. Mais tarde, um detective entrou na casa e capturou a foto, que foi levada para Viena, onde o "caído na guerra" foi identificado, e copiada para distribuir a caçadores de cabeças no mundo inteiro.

O resto é história: Eichmann foi descoberto na Argentina (porque a filha de um judeu alemão, Lothar Hermann, estranhara o profundo anti-semitismo de um rapaz que conhecera recentemente, e que afinal se descobriu ser o filho mais velho do criminoso nazi; o pai informou o seu amigo Fritz Bauer, procurador-geral na Alemanha, também judeu, e este informou Israel, porque temia que, se informasse a Alemanha, Eichmann viria a saber e poderia escapar de novo. Mesmo depois de a Argentina e Israel terem dado por encerrado o seu conflito diplomático resultante da captura de Eichmann naquele país por agentes estrangeiros, Lothar Hermann, que dera a primeira pista para o paradeiro do criminoso, foi preso e torturado na Argentina. Aquilo eram uns tempinhos que só visto...) e levado para Israel à revelia do direito internacional. Foi julgado e condenado, e de caminho serviu de modelo a Hannah Arendt para explicar a sua expressão "banalidade do mal".

Eichamnn foi, literalmente, perdido por saias.

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E é isto a minha vida: por querer saber o que significa realmente a palavra "Gesellschafterin" aplicada a uma tal de Maria Kutschera, descubro que foi o seu amor a saias que tramou Eichmann e que a Maria se calhar se chamava Margit; escrevo ao autor do livro a avisar sobre esse eventual erro (é ele próprio quem pede isso aos leitores no fim do livro, não me venham agora cá com coisas), depois escrevo este post, e eis como gastei duas horas com a palavrinha "Gesellschafterin". Se dividisse o que ganho com traduções pelas horas que gasto nelas, mais me valia trabalhar no McDonald's. Mas as traduções não me deixam o cabelo a cheira a fritos, ao menos isso.

PS. O livro deve sair por altura do Natal. Por decência, não tem "Auschwitz" no nome para vender mais, e de facto não é sobre Auschwitz, mas sobre o modo como os EUA decidiram integrar no sistema democrático alemão criminosos nazis directamente envolvidos no Holocausto, porque o novo inimigo eram os comunistas, e os nazis eram quem mais sabia sobre eles. Uma pessoa fica com os cabelos em pé, e percebe porque é que se diz que a Alemanha "é cega do olho direito". Entre muitas outras coisas. PPS. O autor do livro acabou de me escrever uma simpática mensagem, dizendo que tenho razão, que o erro vai ser corrigido na próxima edição, e que agradece imenso que o avise sobre tudo o que encontrar, e que adora tradutores que fazem isso.

Mora em Berlim, onde tudo é possível: um dia destes ainda acabamos a tomar um cafezinho para falar sobre o livro. Espero que pague ele, que é o autor de bestsellers, ao passo que eu ganho menos que a servir batatas fritas num McDonald's. (Ah, e escusam de perguntar o nome do livro. Lá para o Natal, pode ser que diga.) --- Fontes: - Spiegel, Tuvia auf der Pirsch, 28.02.1961 - Wikipedia, Adolf Eichmann


07 agosto 2022

Rolling Stones em Berlim (2)





Já disse que foi um concerto bombástico?

(a floresta de Grunewald que o diga, que até eu ouvi as bombas a rebentar, contei quinze estouros num minuto - mas se calhar não eram bombas, eram os foguetes de fogo de artifício apreendidos pela polícia e guardados em "lugar seguro", uma floresta de árvores ressequidas) (a minha vizinha ouviu os estrondos no início do incêndio, durante a noite, e ficou cheia de medo de a guerra ter chegado a Berlim)

Foi um concerto bombástico. A princípio ainda me ri de riso malsão quando vi a ambulância perto da zona dos músicos e comentei que já podiam começar, porque o mais importante já estava a postos. Mas depois dos primeiros passos do Mick Jagger no palco engoli o riso e fiquei simplesmente rendida.

Mais tarde, tentei imitar aqueles movimentos em casa, e fiquei cansada só de pensar nisso. (pode ser culpa da covid, agora posso sempre usar essa desculpa)

Mas vamos ao que interessa: comovente, o filme do início para homenagear Charlie Watts. Espantosa, a energia daqueles músicos, duas horas e meia no palco, sem interrupção. Impressionante, a resposta do público - vinte mil pessoas completamente agarradas àquele palco durante duas horas e meia (excepto um senhor na fila da frente, a quem por causa do calor deu a macacoa e teve de se deitar no banco; era engraçado ver o amigo dele a dançar enquanto lhe abanava um chapéu junto à cara). Excelentes, todos os músicos da banda. Fabulosa, a produção. Surpreendente, o Mick Jagger a dizer piadinhas em bom alemão (disse que fica ainda melhor depois da quinta cerveja). Tocante, a homenagem à Ucrânia com imagens de prédios destruídos, no écran por trás do dueto com Sasha Allen em "Gimme Shelter". Ou a harmónica, e o dueto com Ron Wood.

Memorável.

Muitos pensam que pode ter sido o último concerto deles, mas agora, depois de terem mostrado como estão em boa forma, suspeito que ainda hão-de voltar algumas vezes a Berlim - e que ainda hei-de ir vê-los de andarilho. De andarilho eu, eles nunca.

Deixo alguns momentos desta tournée pela Europa. O "Gimme Shelter" em Amesterdão (mas o vestido da Sasha Allen em Berlim era muito mais bonito, como podem ver aqui), e o "Midnight Rambler" de Gelsenkirchen. 



Quanto ao terceiro vídeo: esta vossa servidora começou a gravar quando o filme de homenagem a Charlie Watts já ia a meio. E quando o filme chegou ao fim, esta vossa servidora - zero a técnicas de realização! - parou de gravar, porque o filme já tinha chegado ao fim, não é verdade?, e só depois se deu conta que perdeu a entrada triunfante dos rapazes.

Mas, pensando bem, até foi melhor assim, porque se tivesse continuado a gravar ia ter no telemóvel mais um dos filmes com mais de 500 MB que fiz neste concerto, porque começava a filmar e nunca era o momento certo para terminar (já disse que sou um caso de zero a técnicas de realização?), e agora são demasiado grandes para passar para o PC, e não sei que lhes faça.


Dia quentíssimo, mesmo ao fim da tarde fazia 35 graus. Às vezes tinha a sensação que andavam insectos a passear nas minhas costas, mas eram apenas grossas gotas do meu próprio suor. E o Mick Jagger entra-me em palco de t-shirt de manga comprida, e sobre a t-shirt uma camisa, e sobre a camisa um blusão. Não admira que passasse o tempo a andar da esquerda para a direita e da direita para a esquerda: era onde estavam os ventiladores XXL.

No fim do concerto, quando íamos a caminho do S-Bahn, um músico amador tocava uma canção dos Beatles. Engraçadinho. Deve ter-se enchido de moedinhas, deve...

Outro cantava o Satisfaction, muito - mas mesmo muito - mal.

A esses músicos que, no final dos concertos, nos fazem cair da nuvem onde ainda vamos, dava eu uma moedinha mas era para ficarem calados. A começar pelo que toca balalaica no final dos concertos na Filarmonia.

(Não sei que me parecia fazer um post sobre música em Berlim e deixar a Filarmonia de fora...)

saudades da chuva

 

Lembra-me o facebook que há cinco anos a famosa câmara Baratex atacou de novo com efeitos especiais. Foi uma foto tirada a muita distância, num momento de muita chuva, no Rosengarten de Forst - uma cidade alemã na fronteira com a Polónia.


A chuva era mesmo a sério, como se pode ver na imagem seguinte. E - quase me sinto tentada a dizer "não é por Alzheimer, infelizmente" - já me esqueci de quando choveu assim aqui da última vez.

Sempre que vou ao jardim e gasto litros e mais litros de água para acudir às árvores mortinhas de sede, penso nos tempos em que resmungava para que chovesse apenas de noite, e me ria por ir de férias para Portugal sabendo que o verão da Alemanha cuidaria de me regar as plantas com todo o desvelo, e coisas assim.

Onde isso já vai...



04 agosto 2022

Rolling Stones em Berlim (1)




Regressei das férias em Portugal a tempo de ir ao último concerto dos Rolling Stones desta tournée europeia, e temia que alguma coisa se me atravessasse no caminho. Nem era pelo concerto em si, era pelo preço do bilhete, que nunca na vida pensei que seria capaz de pagar. Mas nem apanhei covid, nem fui atropelada, nem mais nenhuma desgraça do género, nem de outro género qualquer. Ufa!

Três horas antes do concerto dos Rolling Stones, os comboios já iam apinhados de velhotes com t-shirts a rigor. Eu ia de branco. A princípio pensei que era por causa do calor que fazia em Berlim, mas no comboio percebi que era muito mais que isso: era a minha grande oportunidade! Vi logo ali o filme todo: no palco, o Mick olharia para aquela profusão de línguas de fora, e os seus olhos iriam repousar na Wally, esta vestida de branco e - vocês desculpem lá, mas o que tem de ser tem muita força - nunca mais teria motivos para cantar I can’t get no satisfaction.

Velhotes, claro: porque os bilhetes custavam entre 200 e 500 euros, e a juventude de hoje não tem esse dinheiro para gastar num concerto.

A caminho da Waldbühne deparei com os primeiros caídos, que não aguentaram a longa espera ao sol e ao calor. Perguntei-me se algum dos que estavam por ali com papéis a dizer “procuro bilhete” teria a ousadia de lhes ir pedir o deles.

Ao meu lado, um berlinense contava, a rir, como foi da primeira vez que os Rolling Stones vieram a Berlim, quando o público destruiu o anfiteatro. Só lhe faltava dizer “ah, eram bons tempos!”

As cancelas abriram com atraso. De cada vez que a multidão à espera rumorejava de zanga, eu estremecia.

Na imensa fila de espera, quando estava a escrever o relatório da situação para o facebook, ocorreu-me verificar se tinha o telemóvel no bolso. Um susto: "ai! roubaram-mo!" Depois apercebi-me que o tinha na mão, porque estava a escrever para o facebook. O sol já estava a fazer efeito, e eu podia ser a próxima pessoa a cair ali redonda.

(E se caísse: vendia o bilhete pelo preço que paguei, ou pelo dobro?)

Um casal perto de mim: - Alguém viu o meu bilhete? - Está aqui! - Oh, obrigada! Não sei como, caiu-me da mão. - Ia entregar na entrada, mas assim já se resolveu. - Dava-lhe algum dinheiro de recompensa, mas não tenho comigo. - Deixe estar, no Natal vamos à sua casa. Berlinenses...

A quantidade impressionante de bengalas e andarilhos neste concerto chegava a comover-me: sinal de que, até ao último dos nossos dias, estamos vivos.
O Joachim dizia: graceful aging. Lembrou-me algo que li algures na internet, dirigido aos mais novos: A tua avó queimou soutiens, usou minissaia, fez topless, dormiu com quem quis e experimentou drogas. Para seres cool como ela vais ter de trabalhar muito.

Na primeira vez que os Rolling Stones vieram a Berlim, em 1965, o público destruiu a Waldbühne - estavam furiosos por o concerto ter sido demasiado curto. Na última vez, ontem, a floresta pegou fogo.
Não sei se os deixarão regressar...
O que se passou: na floresta Grunewald há um local para guardar e detonar as bombas da II GM que continuam a ser encontradas na cidade, para além de munições várias e fogo de artifício que o pessoal costuma usar na passagem de ano, e é confiscado por não respeitar os regulamentos. Esta noite, pouco depois das três da manhã, algo rebentou inesperadamente nesse depósito, e deitou fogo às árvores em volta. O incêndio está a fazer rebentar muito do que por lá está guardado - e são vinte e cinco toneladas de material explosivo.

Se me fosse permitida uma piadinha seca, diria que foi um concerto bombástico.


já o convidavam para ser o chanceler alemão...

Em 2012, quando começámos a decidir como seria a casa que íamos construir em Berlim, o arquitecto sugeriu-nos aquecimento a gás. O Joachim foi peremptório: não queria ficar dependente do gás do Putin. E, note-se, este ainda nem sequer tinha invadido a Crimeia. 

Ontem, anunciaram que o preço do gás vai duplicar na Alemanha. Duplicar! 

Já podiam pensar no Joachim para chanceler da Alemanha. Em certas coisas, acertava mais que o Schröder e a Merkel juntos.



 

22 julho 2022

como Job

Esta manhã, ao passar os olhos pelas efemérides do dia para escolher um tema para a Enciclopédia Ilustrada, vi que, em 2003, "Membros de uma divisão de assalto aéreo do Exército dos Estados Unidos, auxiliados por Forças Especiais, atacam um complexo no Iraque, matando os filhos de Saddam Hussein: Uday e Qusay, juntamente com Mustapha Hussein, filho de 14 anos de Qusay, e um guarda-costas" (da wikipedia).

Parece uma passagem do livro de Job, com palavras do século XXI.

De repente pensei em Saddam Hussein com outro sentir: os Estados Unidos decidem fazer guerra contra ele, destroem as cidades do seu país, matam-lhe os filhos e um neto. No dia 22 de Julho de 2003 deve ter-se sentido abismado como Job. 

E acima dele: que deus e que diabo faziam apostas? Com que direito? Para provar o quê?


 

de saia


 
Brad Pitt apareceu de saia em Berlim, e toda a gente desata a discutir: se sim, se não, se sopas. Se podia ter escolhido uma saia mais bonita. Se a ele qualquer trapinho cai bem. Se aos outros ficaria melhor ou pior. 

Pessoalmente, só tenho a dizer algo sobre o motivo apontado por ele: "com este calor, é impossível usar calças." 
Aprende, Brad: com este calor, levavas um vestidinho leve, e deixavas o casaco em casa. 

Mas - repararam? - a chamada roupa de mulher dá sempre que falar. Tivesse ele levado um fatinho de gravata, ninguém lhe perguntava porque escolheu aquela cor, e qual a marca, e quantas vezes já o usou, e como combina a carreira (e a roupa) com o seu papel de pai. 




20 julho 2022

férias na terrinha

Depois de Óbidos, o Minho. Ir à praia de manhã, secar os fatos de banho no verde da eira, gozar o fresquinho das grossas paredes de granito, passear pelas cidades vizinhas.

Ir à boca do mar comprar o peixe para o almoço.

Como se fôssemos malucos, quando os dias arrefeceram por aqui, fomos para o Douro.

(Não percam o próximo post. ;) )

 






"A nossa geração era tolerante. E nós não sabíamos."

Sobre um texto que tem sido muito partilhado nas redes sociais, e que partilho no final deste post, queria dizer o seguinte:

A afirmação "A nossa geração era tolerante. E nós não sabíamos." é auto-indulgência, pura e dura.
"Não nos importávamos com nada e, na verdade, éramos muito felizes com Elton John, Freddy Mercury, George Michael e tantos outros."
Interessante era perguntar a Elton John, Freddy Mercury, George Michael e tantos outros se eram muito felizes connosco. E o que sentiam quando "uma piada vinha à tona".
Também podem perguntar o mesmo a alguns jogadores de futebol deste nosso tempo, que até se casam com mulheres para esconder a sua homossexualidade. Muitas "piadas vêm à tona" a propósito dessa realidade. Eles devem adorar...
Quanto à formulação "agora inventaram tantos géneros", lembra-me uma passagem no documentário "Bones of Contention", de Andrea Weiss. Particularmente uma conversa entre uma lésbica e um homossexual, trocando ideias sobre o que é mais doloroso: a perseguição, a prisão, a tortura e os choques eléctricos para curar a homossexualidade (o que o regime franquista fazia aos homens) ou a condição de inexistência absoluta (reservada às lésbicas - que "não existiam"). A mulher dizia que mais doloroso ainda que choques eléctricos nos genitais, é ser absolutamente ignorado pela sociedade.
Parece-nos impossível, não é? Mas ela sabe muito bem o que está a dizer, ao passo que eu não faço a menor ideia do que será sentir-me diferente dos outros, e todos fazerem questão de não ver a minha realidade.
O texto que deu origem a este comentário: "A nossa geração era tolerante. E nós não sabíamos. Agora inventaram tantos géneros que, de alguma forma, provocam o oposto de aceitação. Eu sou da geração que ouvia e amava David Bowie e Lou Reed, e nunca tivemos o problema das suas preferências sexuais. Não nos importávamos com nada e, na verdade, éramos muito felizes com Elton John, Freddy Mercury, George Michael e tantos outros. Nós também somos a geração que amava Led Zeppelin, Deep Purple, Neil Young, Eagles... sem questionar os contextos que hoje seriam considerados machistas. Quando Boy George chegou, não nos perguntámos se ele gostava de homens, da mulheres ou de ambos. Nós apenas gostávamos da música dele. E quando Jimmy Somerville nos contou sua história quando ele era um garoto da aldeia, nós aceitámos e cantámos com ele. E não havia leis que nos obrigassem a apoiar ou a ter de participar. Nós apenas apreciávamos a sua arte e como eles eram magníficos, são ou serão. Não havia comissões ameaçadoras ou guardiões cuidadosos para nos censurar se uma piada viesse à tona. Eu só gostaria de perceber o que é que aconteceu durante este tempo, porque todos esses censores actuais têm o único efeito de criar o que censuram. Na minha opinião, avançamos mais sem impor, porque as imposições, muitas vezes levam ao efeito oposto. "
Lua Lau





14 julho 2022

roda-viva

 

Acabei de reparar que não publiquei aqui há mais de não sei quantos dias.
Desculpem, mas tenho andado numa roda-viva de ser feliz, não me sobra tempo para mais nada.














01 julho 2022

Melilla


Em memória dos mortos de Melilla, deviam passar este documentário em horário nobre em todas as televisões europeias. Para a Europa inteira perceber que as pessoas que tentam passar a cerca de Melilla são - vou citar o anúncio que publiquei aqui há dias - "garantidamente seres humanos". 




o carteiro passa sempre duas vezes

 

O senhor que distribui encomendas na nossa rua anda sempre com um saco de guloseimas para cães no bolso dos calções. O Fox adora-o (vá-se lá saber porquê...). Quando o vê por perto, fica histérico. É um cão muito apegado às pessoas, coitadinho.

Há tempos pedi ao senhor que não desse guloseimas ao Fox, por causa daqueles rins desgraçados que lhe aconteceram. Ele respeitou, mas a contragosto. O Fox é que devia estar distraído quando esta conversa aconteceu, porque continuou a acreditar naquela amizade bela e desinteressada. Até que eu tive pena, e disse ao senhor que se quisesse lhe podia dar uma bolachinha (mas só uma!), ele respondeu com uma breve interjeição alemã que quer dizer algo como 'raix parta as pessoas e as suas manias, se não tivessem tantas manias a vida era bem mais simples', e o mundo do Fox voltou a fazer sentido.

Ontem saímos à rua na altura em que a carrinha chegou. Depois de o Fox ir ao céu por dois segundos, continuámos a nossa caminhada. Fomos ultrapassados pela carrinha, que parou um pouco à frente para mais uma entrega. Mais dois segundos no céu. E assim sucessivamente.

Se deixassem o Fox mandar, ontem a nossa rua chamava-se Rua do Paraíso.


25 junho 2022

era para ser hoje

 

(imagem: Sebastian Greuner, aqui)

Anda uma pessoa há uma eternidade (sim, comprei os bilhetes na semana em que Putin invadiu a Ucrânia) a esperar o reencontro com o seu querido Trifonov, e vai ele e adoece, pelo que será substituído pelo Kirill Gerstein, que não conheço. 

Lembra-me aquela vez que um miúdo perguntou ao Lang Lang como é que se faz para ficar famoso e ele respondeu: "trabalha-se muito, e fica-se à espera que o pianista de um concerto apanhe uma gripe."

(Quantas novas estrelas serão efeitos colaterais da covid?)

Entretanto, informação para o dia em que alguém afirmar ai-aqui-d'el-rei que andam a cancelar os russos: maestro russo, compositores russos, pianista russo. 


24 junho 2022

um anúncio feito para chocar

 

A trabalhar numa tradução, deparei-me com isto:


No livro "Saving One's Own: Jewish Rescuers During the Holocaust", Mordecai Paldiel conta que em 1943 os romenos começaram a prever a queda de Hitler, e queriam ficar nas boas graças dos poderes vitoriosos. Ion Antonescu propôs deixar sair do país os 70.000 judeus que ainda ali viviam, pedindo apenas que lhe pagassem as despesas de transporte. O secretário de Estado do Tesouro Henry Morgenthau Jr. levou o assunto a Roosevelt. Cavendish Cannon, dos Assuntos Europeus, argumentou que aceitar a oferta romena criaria um precedente perigoso: outros países onde havia perseguição a judeus podiam lembrar-se de fazer a mesma oferta. Significaria um convite a "novas pressões para asilo no hemisfério ocidental... tanto quanto sei, não estamos preparados para enfrentar o problema judaico em toda a sua dimensão".

O sionista Ben Hecht teve a ideia de publicar um enorme anúncio no New York Times, com o objectivo de chocar, despertar consciências, e pôr os judeus dos EUA a pressionar para salvar aquelas pessoas:

PARA VENDA à Humanidade
70.000 judeus
Garantidamente seres humanos
50 dólares a peça

"A Roménia está cansada de matar judeus. Matou cem mil deles em dois anos. Agora está a oferecê-los por um preço irrisório... Esta soma cobre as despesas de transporte... Atenção, América! É uma oferta sem precedentes! Setenta mil almas a 50 dólares a peça! As portas da Roménia estão abertas! Façam alguma coisa imediatamente!" 

(Dúvida da tradutora: "a peça", ou "cada um"? Escrever "peça" lembra-nos do léxico da escravatura, onde se contabilizava os capturados como "peças".)

Os EUA hesitaram, Por fim, a Alemanha acabou por convencer a ainda aliada Roménia a desistir desse projecto. 

Abro um momento de silêncio por 70.000 pessoas que podiam ter sido salvas, e ninguém quis salvar.

[       ]

Agora trocamos "judeus" por "africanos em barcos, no Mediterrâneo", e são os mesmos argumentos: não estamos preparados para enfrentar o problema da pobreza, da guerra e do aquecimento climático em África em toda a sua dimensão. Eles que vão morrer longe, já temos problemas que chegue... 

Mais silêncio. 

[       ]

Agora reparamos na parte do texto relativa aos palestinianos. "Atenção, Humanidade! Os árabes palestinianos não vão ser incomodados com a chegada de 70.000 judeus. Os únicos árabes que vão ficar incomodados são os líderes árabes que estão em Berlim, e os seus espiões na Palestina." (Leio "os seus espiões na Palestina" e lembro-me do cartaz russo recente a "informar" que na Suécia há muitos nazis.) Momento de silêncio pelos palestinianos, apanhados no turbilhão da uma tragédia na qual não tinham a menor culpa.

[       ]

Agora lembramos os nazis assassinos de secretária, os que tomavam decisões e assinavam papéis, os burocratas que se limitavam a cumprir ordens que tinham como consequência a morte de milhares de pessoas. E comparamo-los com os personagens desta história na América livre e rica, que encolheram os ombros à tragédia de setenta mil seres humanos. Agora tentamos descobrir as diferenças de fundo entre uns e outros. Mais silêncio. 

[       ]

E agora pensamos em nós. 
Sempre que há notícias de algum barco de refugiados parado num porto, e Portugal oferece-se para acolher alguns deles, tenho um sobressalto feliz: afinal é possível fazer melhor. 

pesadas heranças

 



A pouco e pouco, a Alemanha vai-se dando conta da herança que 16 anos de Angela Merkel lhe deixaram.

A fatal dependência energética do tirano Putin é o elemento mais visível. Mas:
- atire a primeira pedra quem tiver a certeza de que, no depósito do seu carro, só tem combustível proveniente de sólidas democracias respeitadoras dos Direitos Humanos;
- deixando de lado os óbvios interesses económicos, reconheço nestes acordos de fornecimento de energia entre os dois países um esforço político para estender a mão à Rússia pós-URSS. Infelizmente correu mal - mas também podia ter corrido bem, podia ter sido, de certo modo, o princípio de uma aproximação como a da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço.

Outro elemento actualmente muito visível é o estado calamitoso das Forças Armadas. O Ministério da Defesa andou de mal para pior nas mãos de ministros que não tinham as competências necessárias para aquela hercúlea tarefa. É verdade que sabíamos há muito que os aviões não voavam, e que muitos dos tanques e camiões que ainda tinham peças para andar corriam o risco de as perder pelo caminho. Ouvíamos falar em problemas vários relativos à compra de armamento e de peças de substituição. E também na infiltração da extrema-direita. Mas estávamos em paz, não nos preocupávamos muito com isso. Tanto mais que vivíamos num mundo em que ninguém gostava da ideia de uma Alemanha bem armada e com um exército eficiente (enfim, preconceitos...).

Esses são os elementos que a guerra de Putin tornou mais visíveis. Mas havia outros:

A concentração crescente da riqueza num pequeno número de privados, e o aumento do número de pessoas a viver em situação próxima da pobreza. O número de pessoas que precisavam de receber apoios da segurança social apesar de trabalharem a tempo inteiro. Num país governado por partidos que têm "cristão" no nome, é obra. E não é preciso falar do potencial explosivo de uma situação destas.

O imperativo de reduzir a dívida pública (lembram-se do Schäuble a resmungar "têm de poupar! têm de poupar!"?) também deixou de herança as redes viária e ferroviária num estado inacreditável. Há - por exemplo - 4.000 pontes a precisar de ser urgentemente substituídas. Uma ponte de auto-estrada importantíssima está fechada há meses, outras pontes foram fechadas a camiões pesados, em breve mais pontes vão fechar - com prejuízos brutais para as empresas e situações insuportáveis para as populações ao longo das estradas locais por onde passam agora muitos milhares de carros e camiões todos os dias.

Em termos de digitalização, enfim... Há aldeias portuguesas mais bem servidas de rede de internet que Berlim. E há um atraso de décadas no que diz respeito ao aproveitamento generalizado das potencialidades da internet na economia, nas habitações e nas instituições públicas.

Até no evidente problema do aquecimento climático o falhanço foi rotundo. Em 16 anos não foi possível passar uma mensagem tão simples como esta: se lutar contra o aquecimento climático sai caro, não lutar contra ele custa muitíssimo mais. [ As regiões marítimas e junto aos rios que digam quanto andam a gastar em reforço de diques e barragens, e em reconstrução de cidades alagadas. Os agricultores que digam quanto andam a gastar em água, e a perder com as alterações bruscas de condições meteorológicas. Os bombeiros que falem das florestas a arder em áreas onde nunca ardiam antes. Ainda na semana passada houve dois incêndios a sul de Berlim tão grandes que o cheiro a queimado chegou a Dresden. Houve localidades evacuadas. Por sorte veio uma chuva repentina e forte que ajudou a apagar o fogo. Mas já recomeçou, já ronda Berlim de novo, e os bombeiros não sabem como dominá-lo. ]
E que dizer dos cuidados à terceira idade, da malha cada vez mais larga na rede de prestação de serviços de saúde? Dos enfermeiros e das enfermeiras a mudar de emprego porque têm demasiado trabalho e stress para aquilo que recebem? [ Conheço uma enfermeira de um serviço de cardiologia que me recomendou ir ter um ataque de coração - if any, claro - no Lidl, porque é lá que estão os melhores enfermeiros do serviço dela. ]

É esta a herança que Angela Merkel deixou à Alemanha. Pode bem ter sido o menos mau possível - quer dizer, outro chanceler podia ter falhado ainda mais estrondosamente os desafios estratégicos do país. Mas é aqui que estamos.

Está longe de ser a única herança que pesa ao país, e ao seu novo chanceler Olaf Scholz. Ainda na semana passada a Documenta de Kassel trouxe de novo à luz a cicatriz histórica que marca a Alemanha, ao retirar uma peça que tinha elementos antissemitas. O problema, segundo leio, não foi retirar a pintura, foi ter demorado tanto tempo a tomar a decisão de a retirar. E o assunto que de momento nos preocupa a todos: perante a invasão da Ucrânia, o chanceler alemão está a evitar o melhor que pode seguir o exemplo do seu antecessor, o Kaiser Wilhelm. Eis como eu, que nunca compreendi como foi possível a primeira guerra mundial ter deflagrado e tomado aquelas proporções, começo a perceber melhor que o difícil não é começar uma guerra. É mesmo ter a sabedoria de a evitar.


21 junho 2022

como Pilatos no credo

Partilho este apontamento de Lutz Brückelmann, do dia em que na Enciclopédia Ilustrada a "palavra mágica" foi VERDADE:



Não gosto de andar com a palavra #verdade na boca. Exactamente porque não há nada que valorizo mais. Nem amor. Não há amor sem verdade. Mas verdade não é algo que se tem, seguro, é um objetivo de procura. Uma procura nunca concluída.

No Evangelho de S. João há o famoso diálogo entre Pôncio Pilatos e Jesus sobre a verdade (João18,37-38):
"Pilatos disse-lhe: Afinal, és rei? Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.
Pilatos disse: O que é a verdade? E, dizendo isto, tornou a ir ter com os judeus e disse-lhes: Não encontro nele crime algum."

O Evangelista está do lado de Jesus, claro. É místico e profeta e para ele, Jesus é Deus e assim a própria encarnação da Verdade. Pilatos por sua vez é o homem mundano, descrente, céptico, cínico, que privilegia a razão sobre a fé. Tudo o que São João e os outros fervorosos crentes desprezam.

Nietzsche, por sua vez, coloca-se no lado de Pilatos. No seu Anticristo escreveu:
Devo dizer que há apenas uma figura em todo o Novo Testamento que merece apreço? Pilatos, o governador romano. [...] O elegante desdém de um romano, diante de quem se comete um ultrajante abuso da palavra 'verdade', enriqueceu o Novo Testamento com a única palavra que tem valor - que é a sua crítica, a sua própria destruição: ‘O que é a verdade!’
[Imagem: Nicholas Ge, What Is Truth? (Christ before Pilate), 1890; Source: Wikimedia Commons, PD-Old-100. ]


20 junho 2022

a "cancel culture" exercida pela maioria

Muito se fala da "cancel culture" que constitui um risco terrível para pessoas que "inadvertidamente" incorrem na fúria de grupos "que impõem o pensamento único" e fazem tudo o que podem para lhes destruir a existência.

Antes de falar dessa "cancel culture" das minorias, deixem-me mostrar o outro lado da questão: a maioria também tem "cancel culture", e exerce-a com o à-vontade que lhe é permitido pela "ordem natural das coisas". E o mais grave é que nem se dá conta disso.

Trago três exemplos:


1.
"Em setembro de 2000, (...) Manuel Serrão publicou um artigo no jornal "O Jogo" com o título "Calado que nem um melão" em que, para atacar e achincalhar o clube seu adversário (e também meu...), o Benfica, insinua que o seu capitão é gay e tem uma relação com um melão.

Dias depois, em 14 de setembro, o defunto pasquim "O Crime" publica uma "notícia" com o título "Um grego calado com cabeça de melão", em que, com base no artigo do Serrão, diz abertamente que José Calado, capitão do Benfica, tem uma relação homossexual com o cantor Melão, membro da então famosa boysband "Excesso".

Lançado o boato, nada mais o faz parar e a vida destes dois homens passa a ser um inferno.

Melão, que era um ídolo das teenagers amorangadas e iniciava uma carreira a solo, passa a ser gozado e insultado em todo o lado e, inclusive, num espetáculo para estudantes de Coimbra (!!), abandona o palco à terceira canção porque já não consegue aguentar a constante berraria daqueles futuros "doutores". Viu vários espetáculos cancelados e praticamente deixou de ser contratado.

José Calado, passou a ser conhecido por "Capitão Gay" e a sua vida um pesadelo, atacado por adeptos adversários quando as coisas lhe corriam bem e por benfiquistas quando lhe corriam mal.

No dia 2 de outubro de 2000, durante um jogo no estádio da Luz, em que o Benfica perdia por 1-0, os insultos e piadas a José Calado foram de tal dimensão que ele abandonou o campo ao intervalo, o que lhe valeu um processo disciplinar, a perda da braçadeira de capitão, a saída do Benfica e o início de uma rampa descendente na carreira.

Ambos, como é natural, tinham família, pais, irmãos, companheiras, amigos e todos esses foram também vítimas desse pesadelo perpetuado, sem nenhum peso na consciência, por centenas de milhar de pessoas que se pensam de bem.

Na verdade, quem destruiu a carreira e quase arruinou a vida destas duas pessoas, não foram o Serrão nem o pasquim "O Crime", foram todos aqueles que, sem pensar nas consequências, foram gozando com o boato, que para muitos deles era apenas uma brincadeira mas para pessoas concretas era um pesadelo.

Mas é melhor estar calado, porque é mais do que evidente que somos um país de brandos costumes, nada homofóbicos nem racistas..."

[Autor: António Moreira]



2.
"Doutor Freud, que memórias lhe poderei descrever? Voltar aos três anos e à queda do muro da eira, empurrado pela vizinha, mulher adulta? Ou prefere que lhe conte o apego a um brinquedo quando tinha quatro anos?

Doutor Freud, ao contrário de muitas crianças, como deve saber tão bem, nunca tive muitos brinquedos e todos os que havia lá em casa, uns de metal e outros já em plástico, eram herança das primas e dos primos que viviam na cidade grande. Lembro-me que descobri, num caixote de papelão pardo, uma boneca sem um braço, com um vestido todo rasgado e os lábios pintados com esferográfica vermelha; confesso que senti pena daquele brinquedo e adoptei-o.

Doutor Freud, tomei conta e brinquei com aquela boneca até aos oito anos; ao contrário de muitos meninos que corriam atrás de uma bola, eu embalava e contava estórias a uma boneca sem um braço - lá fora os miúdos chamavam-me 'mariquinhas' e 'menina'.

Inquietantes aquelas palavras que, de vez em quando, ainda entram nos meus sonhos e se transformam em monstros, capazes de devorar a vida."

[Autor: Joaquim Carreira]


3.
No Alentejo, há meia dúzia de anos, procurava um restaurante para almoçar com um grupo de amigos, entre os quais uma mulher com pele escura. Quando lhe propus entrarmos num restaurante para ver se tinham lugar, respondeu-me que era melhor ser o marido (de pele branca) a entrar comigo. Se fosse ela, o mais provável era dizerem que não tinham lugar.
"Já estou habituada" - rematou.
Podia acrescentar que esta minha amiga é mais inteligente, mais culta, mais educada e mais bonita que eu. E lembrar a história de quando o Nelson Évora, "a quem Portugal tanto deve", foi impedido de entrar num clube. Mas esse seria um discurso armadilhado, porque normaliza a ideia de que as pessoas dos grupos que a maioria cancela por sistema e sem se dar conta têm de ser mais do que nós para terem os mesmos direitos.


Se me parece bem o cancelamento de uns para alertar para o cancelamento de outros? Não.
Mas a mim é que não apanham a choramingar que "já não se pode dizer nada". Pelo menos, enquanto tiver noção do meu privilégio, e do ridículo em que incorro.