28 março 2026

dito de forma muito simples, é isto:

 


Por ter gostado muito desta sua síntese, partilho um post de Rui Guerreiro, publicado no seu mural de Facebook em 22.3.2026. "Nem que seja por respeito à minha experiência de vida,
já que inteligência, ao que parece, não tenho nenhuma,
porque, se tivesse luzes à frente,
não estava aqui no Luxemburgo, à míngua de emprego.
Sou a prova viva dos sucessivos desgovernos que nos assolaram,
que me atiraram para uma insolvência injusta
e demasiado pesada, um laço ao pescoço.
Mas não transformem uma massada de peixe
numa açorda espapaçada.
Continuo a ver muita gente na esplanada,
Mercedes e SUVs de todas as marcas douradas,
restaurantes que se dão ao luxo de escolher as marcações,
e avenidas congestionadas.
No inferno anda-se a pé
e come-se de vez em quando.
Confesso:
quando o Chega foi pela primeira vez a votos,
senti que o povo português ia aproveitar a sátira
para mostrar em sapateado, um cartão vermelho
a todos os poderes
e a todas as instituições.
Era fácil gostar de André Ventura,
como muitos, onde me incluo, gostam do eterno
“candidato Vieira”.
Porque o humor é uma forma de arte
e de resistência,
uma das mais antigas.
Discursos com sapatos de meio metro
e bola no nariz
são, para a maioria, uma alegoria antiga:
o circo que descia à cidade
para augúrio das crianças
e de alguns desistentes
que encontravam no riso e no espanto
uma janela para o sonho.
Até aqui, tudo bem.
O ser humano tem uma tendência escabrosa
para o excesso
e para o zelo.
E isso levou-me a pensar
que o senso comum,
por norma,
acaba por pôr estas coisas no sítio.
Mas hoje…
Depois de ver a Assembleia da República
transformada numa espécie de república das bananas,
e depois de ver a Europa
a ser atacada por todos os lados,
mas principalmente por dentro,
sou obrigado, por experiência própria, a afirmar:
já fomos longe de mais com a birra.
Chega.
O líder partidário, ou comediante azarado,
o palhaço triste do circo de outrora,
não pode continuar a ser confundido com um messias.
Sob pena de acordarem
num país onde já não querem estar,
mas onde têm de ficar,
por não terem outras opções.
Emigrar, meus amigos,
não é mudar de país.
É arrancar as raízes da terra.
Estão a confundir um menino mimado,
que perdeu no debate político interno para Pedro Passos Coelho,
com o vosso Messias.
Estamos a falar de alguém
que está para a ideologia política
como estamos todos para a física quântica:
alguém que faz política à vista,
como nas caravelas,
sem mapa
e sem astrolábio.
Confesso que sempre pensei
que em Portugal ainda havia sopa
e livros para ler,
que o desfasamento ainda não estava tão acentuado.
Desconhecia por isso o novo Portugal profundo, aquele que se esconde no buraco.
Enganei-me.
E por isso peço desculpa.
Mas talvez ainda vá a tempo
de mostrar, com o exemplo americano,
o que nos espera.
Trump, o vitalício candidato ao Nobel da Paz,
conseguiu, em dois anos,
começar uma espécie de terceira guerra mundial,
ao mesmo tempo que prepara a América
para a guerra civil.
Estão os dois para a política
como o diabo está para a cruz.
Lutar por justiça
ou por melhores condições
é muito diferente
de puxar fogo ao circo das instituições.
Nada muda da noite para o dia.
É preciso tempo.
Porque, tal como numa guerra,
podemos determinar quando começa a revolta,
mas nunca sabemos como vai acabar.
Vivemos um período de avanços tecnológicos
como não acontecia desde a Revolução Industrial.
E eu sou o primeiro a concordar:
o desconhecido assusta.
E muito.
Mas, perante o incerto,
o mais racional
seria permanecermos juntos.
Porque a confusão é amiga dos predadores.
E se cada um começar a correr para seu lado,
então a dança da morte desce à cidade.
E vocês nunca vão ser os lobos,
desculpem que vos diga,
serão sempre os cordeiros.
Um país não muda
às mãos de um milagreiro.
Muda por dentro primeiro.
E isso leva tempo.
Às vezes, gerações.
Se tentarmos quebrar o padrão à força,
abrimos a porta à anarquia.
E, no caos,
o ser humano entra em modo de sobrevivência,
perde a visão periférica,
deixa de conseguir raciocinar.
E, sem pensamento,
somos todos pedras de atirar.
Se este texto não vos fizer pensar,
pensem nos vossos filhos.
E em todas as gerações vindouras,
que precisam de ter condições mínimas
para poderem escolher o seu próprio futuro.
A política da terra queimada
não serve para mais nada
senão para eucaliptos.
Reparem:
sou o primeiro a dizer
que há muita coisa que precisa de mudar.
Vivemos uma crise profunda de ideologias
e, principalmente, de estadistas.
Mas isso não pode ser desculpa
para a histeria colectiva,
para a alucinação em massa.
Porque quem se mete com crianças…
acaba sempre… vocês sabem.
Insisto, por isso, na mesma receita
para as maleitas que já mencionei:
sopa ligeira
e muitos livros para ler.
Comecem pelos clássicos.
Estou cansado, demasiado cansado,
mas não pouso o raio da caneta."
Rui Guerreiro

27 março 2026

ah, Epstein, a quanto obrigas...



Informa o New York Times que as notas de dólares dos EUA vão passar a ter a assinatura de Trump. Diz que é para assinalar os 250 anos do país. No espaço que, desde há mais de cem anos, era ocupado pela assinatura do tesoureiro (o responsável pela emissão física das notas), vai agora constar aquele lindo imaginário dos pelos púbicos de Trump.

(será que nas notas de yuan também há risco de haver chatos?...)

(mudando completamente de assunto: acabei de descobrir que uma "pessoa aborrecida, irritante ou inconveniente, que insiste em importunar" no Brasil é um pentelho e em Portugal é um chato; pelo que, mais uma vez, fica demonstrada a tolerância dos brasileiros: o que para eles é algo natural, que faz parte da vida, para nós é uma praga que é preciso combater)



26 março 2026

da Galiza aos Balcãs

 

No meu tempo, na Galiza não se fazia música como esta de Vaamonde, Lamas & Romero - têm um cheirinho de Balcãs que me agrada muito.
(e no meu tempo a música que se fazia na Galiza já era bem boa)
(passo boa parte das férias de Verão a 50 km da Galiza, e passo-lhe completamente ao lado - começa a ser tempo de mudar de vida!) Do meu tempo, são os Milladoiro:

E por falar em Balcãs...



condenar a escravatura

 



Encontrei esta imagem num post do Facebook onde se falava da proposta que o Gana fez na ONU, para considerar o comércio escravo no Atlântico o maior de todos os crimes contra a Humanidade. A autora informava ainda que a proposta prevê também indemnizações e devoluções, e criticava-a por deixar de fora as práticas de escravização no interior de África e na Ásia, que, em parte, perduraram até aos nossos dias.
A primeira ideia que me ocorre é que querer determinar qual é "o maior crime de sempre" é um exercício tão arriscado quanto desnecessário. Quem leva a medalha de ouro, a de prata e a de bronze nesta competição entre raptar pessoas e condená-las a ser propriedade de outrém, fazer listas com nomes de crianças para as meter em câmaras de gás, ou violar sistematicamente as mulheres de uma terra conquistada, para além de tantos outros crimes contra a Humanidade? Venha o diabo e escolha... O argumento "e sou só eu? cadê os outros?" também me suscita algumas dificuldades. É verdade que não foi a Europa quem inventou a escravatura, e esta já era prática corrente em muitos outros lugares. Mas, em primeiro lugar, o que outros fizeram não me isenta da minha responsabilidade pelo que fiz e pelas consequências do que fiz. Em segundo lugar, as práticas da escravatura não são iguais em todos os lados, e a praticada pelos europeus nas rotas do Atlântico foi particularmente brutal e desumanizante.
Na votação na ONU, os países europeus abstiveram-se. EUA, Argentina e Israel votaram contra. Reparei, em particular, no voto do Brasil, que foi muito corajoso: se é certo que pode deitar as responsabilidades para Portugal até à independência, a verdade é que o novo país manteve todo o sistema. Nem libertou os escravizados que já lá estavam, nem os libertou ao menos da hereditariedade da escravatura, nem mandou parar os navios negreiros. É um dos poucos que dá o passo de assumir abertamente o peso do seu passado.
Em suma: Penso que não podemos apontar o dedo a outros para escapar à nossa própria responsabilidade. O sistema esclavagista do Atlântico - com as suas características próprias: sistema massivo, profundamente racista, altamente violento e com passagem da condição de escravos de pais para filhos - é um crime contra a Humanidade, e temos de nos confrontar com o que os nossos países fizeram e as consequências que ainda hoje condicionam a vida dos descendentes das vítimas. Esse trabalho de confronto com a nossa História deve incluir também aqueles que, no continente africano, capturavam seres humanos para vender aos europeus. Também eles fizeram parte do sistema.
E penso que, depois de aprovar esta proposta, havia que apresentar, logo a seguir, uma outra proposta de condenação do sistema de escravatura que ocorreu e, em certos casos, ainda ocorre em África e na Ásia.

24 março 2026

fale com elas

 


Por estes dias, tenho-me lembrado muito daquela rábula do Ricardo Araújo Pereira na altura em que se andava a debater a descriminalização do aborto:
"Ah, que é que havemos de fazer hoje? Vamos ao cinema? Não, hoje acho que prefiro ir fazer um aborto."

Alguém com um mínimo de noção acha que uma pessoa vai ao registo mudar o nome e o sexo assim só porque não lhe ocorreu nada mais interessante para fazer nesse dia?

Qual é, especificamente, o problema com a lei anterior, que querem agora alterar? Estou a falar da lei concreta, e não do que pensam que a lei diz.

E recomendo muito, como o Paulo Azevedo recomendava no post que publiquei anteriormente, que falem com as pessoas, em vez de falarem delas. Como fez o João Costa (artigo no Expresso):

"Em 2018, fui chamado a legislar sobre os direitos das crianças e jovens trans. Fui apanhado no mais puro desconhecimento. Perante isto, tinha três hipóteses: sair do processo, legislar apenas guiado pelas minhas convicções, fossem elas preconceitos ou crenças, ou escolher a via mais trabalhosa. Fui por esta última. Quis ouvir e conhecer. Recebi pais e mães, falei com professores e educadores, falei com especialistas (clínicos e outros), conheci jovens e adultos trans. Ouvi as suas histórias de vida, sobretudo os pais que foram surpreendidos por, nalguns casos, terem filhos que, aos 2 anos de idade, choravam porque não eram quem lhes diziam ser. Ouvi a violência dos nomes apagados por não haver como os nomear, a punição associada, o medo da partilha de alguns espaços. Percebi que, como diz a OMS, não estávamos perante pessoas doentes e que, sobretudo, ninguém se atira para um caminho tão violento por estar a seguir uma moda ou uma ideologia. Pessoalmente, foi a maior lição sobre o exercício difícil da empatia. Tive de ver o mundo pelos olhos daqueles jovens e das suas famílias e nunca poderei agradecer-lhes suficientemente o quanto me fizeram crescer como pessoa.

Saiam da bancada da Assembleia da República, saiam do pedestal de superioridade em que se colocaram e deem-se ao trabalho de conhecer o outro. O ódio que cospem é apenas fruto da incapacidade de conhecer.

Não se pense que não conheço esse desconhecimento. Também eu já achei que as pessoas trans eram estranhas, doentes ou bizarras. Apenas porque nunca me tinha dado ao trabalho de estudar, de as conhecer, de com elas trabalhar, de através delas entender e sentir a dificuldade da sua vida."

---
Uma nota pessoal: aos seis anos, a minha filha tinha uma amiguinha que se vestia de rapaz, só fazia brincadeiras de rapaz, odiava tudo o que estava conotado com meninas, e tinha um ar profundamente zangado e infeliz. Não sei o que lhe aconteceu entretanto. Mas sei que teria uma enorme angústia se um filho meu estivesse a passar por isto. E vocês: que sociedade e que leis gostariam de ter, se uma filha vossa aos seis anos mostrasse que estava profundamente infeliz no sexo que lhe foi atribuído?


ouçam-nos, em vez de só falarem

 

Sobre a mais recente manobra dos partidos de direita que dizem defender os valores cristãos, juntamente com o alforreca faz-de-conta-que-é-beato, entretidos em jogadas políticas à custa de algumas das pessoas mais vulneráveis da nossa sociedade, partilho este texto de Paulo Azevedo (que enocntrei no seu mural do Facebook):
"Eu juro que achei que a lei que tinhamos sobre a possibilidade de transição de género abrangia crianças. A propaganda é lixada e não me informei sobre os exatos contornos (os casos que segui, profissionalmente, já estavam próximos dos 18). A única coisa que é possível, antes dos 16 anos, é a utilização de bloqueadores da puberdade; e mesmo isso passa por avaliação e acompanhamento da saúde mental e da endocrinologia. Não é a pedido, e eu sou a favor de acompanhamentos psicológicos robustos, sem a obsessão das escalas, sem patologização e com um conhecimento aprofundado da subjetividade de cada um. O risco da ‘moda’, ou da transição de género ser um sintoma-porta de saída para outros sofrimentos é, assim, diminuto. Não é zero, mas isso não existe.

A esmagadora maioria dessas pessoas não está bem com o género biológico em que nasceu e isso não é, garantidamente, um capricho. Para a maioria, é tão claro como eu saber que sou um homem. Se eu já o sabia na infância e adolescência, por que raios alguns não saberão que estão no género errado, com uma clareza equivalente? Daqui a 5 e 10 anos avaliar-se-ia, como fizemos com a liberalização das drogas, que os mesmos de sempre tanto criticaram e que correu muito bem.

Do meu ponto de vista, uma sociedade deve assumir alguns riscos, a favor do que está certo. E o que está certo é o respeito pela autodeterminação. Das pessoas, como dos povos. Tal como na eutanásia, em qualquer uma destas questões há o risco de algo correr mal. Mas também há autênticas epidemias de doenças físicas e mentais e suicídios e destruição de famílias, todos os dias, por causa deste sistema económico que consome e cospe o ser humano; e não me parece que ele esteja a ser muito posto em causa.

O que se passa, então, no lado da reação? Porque razão acham que o governo deve substituir-se à pessoa e à família, nessas decisões? Encontro três motivos principais: o medo (tão comum àquela ‘zona’ política), a incapacidade de compreender algo que revolucione a ‘ordem natural das coisas’ do seu mundo interno e uma gritante falta de empatia pelo diferente de si (na verdade são só 2, porque a falta de empatia é medo). Acrescentem-se tendências de dominação sobre os outros (medo) e textos com 2000 anos (autoridade delegada). Perda de poder sobre o desenho social.

A pessoa transgénero não vai desaparecer só porque alguns, ou até muitos, acham mal. Como os homossexuais não desapareceram. Resta saber se queremos, como sociedade, aliviar-lhes um pouco a existência ou se valorizamos mais o nosso senso comum. O senso comum não é sinónimo de verdade, é uma convenção anti-estremecimentos.

A única conclusão que me ocorre é: metam-se nas vossas vidas e façam coisas fixes com os vossos filhos. E ouçam-nos, em vez de só falarem."

23 março 2026

só cá por coisas

 


Lea Desandre. Só cá por coisas.

help

 

Ontem fui ao aeroporto tratar de umas coisas (agradeço que não perguntem porque fui eu tratar de coisas ao aeroporto a um belo domingo de manhã em vez de ir dar o primeiro passeio de sol na floresta depois do inverno berlinense, porque depois vou outra vez beber uma cervejinha para esquecer, e de pergunta em pergunta é que uma pessoa acaba nas esquinas do vício) e infelizmente esqueci-me de beber um litro de café antes de sair de casa, pelo que consegui a brilhante façanha de perder o cartão do parque de estacionamento entre o momento em que o recolhi e o momento em que saí do carro. (a sério: tenho mesmo de deixar o meu cérebro à ciência, para eles fazerem experiências de marinar em café por 10 minutos, 20 minutos, 30 minutos...)
Fui logo tocar à campainha "help" da cancela da entrada, e expliquei.
- Já está de saída?, perguntou a senhora.
- Não, acabei de entrar, mas quero resolver este sarilho antes de morrer do coração com medo do que me vai custar...
- Vá à caixa de pagamento, e toque no "help" que lá tem.
Obedeci. Daí a nada tinha a mesma voz a dizer "diga lá o número da sua matrícula, vou já imprimir-lhe um novo". E daí a outro nada, um belo cartãozinho começou a sair da máquina.
Ora bem: acho que a senhora passou o resto do dia a rir só por causa da forma esfuziante como lhe agradeci. Ou, se calhar, a sorrir.
E acho que não agradecemos suficientemente às pessoas que andam por aí a tornar a nossa vida mais fácil.

21 março 2026

podem tirar a cachopa do Minho...





Acho que vou fazer uma chapinha para usar na lapela, a dizer "maravilhosa anfitriã". Com sotaque carioca.
Esta linha do currículo já ninguém ma tira. 🙂
(O dia de ontem, também já cá canta, e cantará por muito tempo: memorável!)
(Se seguirem este link, encontram lá para o fim da série um filme onde uma certa pessoa que eu conheço deita as mãos à anca para falar do próximo teatro berlinense onde O Céu da Língua tem de acontecer.) (Olhem que, sinceramente! Podem tirar a cachopa do Minho, mas não tiram o Minho da cachopa.)


19 março 2026

beleza pura

 


Oh pá, oh pá, oh pá - agarrem-me, que fico o resto do dia a repetir oh pá, oh pá, oh pá. João Barradas forever! --- E também assim:




se eu fosse Deus...

 


(Stand da Chaga na Futurália)


Se eu fosse Deus, deixava-me de tretas de céu e inferno, e resolvia assim: antes de uma pessoa morrer, sofre tanto quanto fez sofrer os outros. Se não der tempo para sofrer os sofrimentos um de cada vez, pois lá terá de ser tudo ao mesmo tempo. Mas ninguém vai desta para melhor sem sofrer o mesmo e o tanto que fez sofrer.
Este palerma aqui, por exemplo: com o que já fez aos outros, começava hoje mesmo e não tinha um único segundo de alívio até a morte o libertar.
(Agora que penso nisso: isto dava um bom Antigo Testamento. Depois, Jesus podia vir com a sua bela mensagem de amor. Mas só depois de o básico estar garantido: ninguém fazia a ninguém algo que não quisesse que lhe acontecesse a ele próprio.) (Mas antes mandava os masoquistas todos para uma terra só deles...)

18 março 2026

"Cairo"

 

Há muitos, muitos anos, mais concretamente: no outono de 1993, planeámos uma viagem no transsiberiano, mas depois engravidei e achei que não me dava jeito vomitar várias vezes por dia para sanitas de comboios, e fomos antes ao Egipto.
Era isso, e era também o ambiente político muito tenso que por esses dias se vivia na URSS, e nos fez temer que a situação se descontrolasse de um momento para o outro, pelo que havia que rumar a um destino mais seguro. Egipto, pensámos nós na nossa candura, alheios às bombas que volta e meia rebentavam sem querer em lugares turísticos.
(Ainda nem disse ao que venho, e já me desgracei outra vez...)
E foi assim que um belo dia demos connosco no mercado doCairo, o famoso Khan El-Khalili. Pois ali estávamos nós num daqueles pátios compridos cheios de lojas, pois ali estava o Joachim a fotografar aqueles sacos enormes cheios de especiarias de cores lindas, quando um rapazinho veio ter comigo e me deu a entender que conhecia uma loja muito melhor que aquela. Disse-me para o seguir, e eu, que não consigo recusar nada a uma criança, e além disso estava curiosa, segui. Pensava que era uma loja a cinco metros daquela - ou, vá, na loucura: vinte. Mas não. Vira aqui, vira ali, visita guiada a um labirinto vibrante de gente, cores e aromas.
(E nem telemóvel havia!)

Quando ficou claro que depois da esquina seguinte não conseguiria encontrar o caminho de regresso, disse ao miúdo que já não queria.

E ando há mais de 32 anos com esta dúvida: perdi realmente a loja mais bonita de todo o Cairo, ou perdi a aventura da minha vida de dar comigo enrolada num tapete a caminho sabe-se lá de onde, ou no fundo no fundo não passo de uma xenófoba racista preconceituosa desconfiada?
(Eis como consegui desgraçar-me duas vezes num post só...)

17 março 2026

palavras como filmes

 


Talvez já tenha partilhado isto aqui - lembro-me bem que o vi num mural do facebook, e o achei fantástico. Não importa: continuo a achar isto fantástico. Dá vontade de começar a imaginar letras assim.
De modo que aqui fica para quem não viu da primeira vez, para quem viu e se esqueceu, e para quem viu e ainda se lembra e gosta sempre de voltar aos lugares onde se fascinou. 🙂

16 março 2026

Senhorinha


Mostraram-me esta canção (que seria de nós sem o brilho nos olhos dos amigos quando nos mostram canções?) e fiquei encantada. Desde então descobri que tem outras versões (Mônica Salmaso e Nana Caymmi, exemplares). Se não gostarem, devolvo o preço. 🙂
(quase me esquecia de avisar: este vídeo é uma homenagem cheia de ternura a uma avó - e fica aqui para todas as avós que criam um lugar de senhorinha para sempre no coração dos netos)

15 março 2026

para fechar o domingo


 

Para fechar o domingo com beleza. E um detalhe especial: o vídeo tem mais de oito anos - provavelmente não foi feito por inteligência artificial. (Um sossego cada vez mais raro: poder confiar que as coisas não são IA...)

14 março 2026

magia pura

 


O filme (aqui) em que Noah Bendiz-Balgley, concertmaster dos Filarmónicos de Berlim, conta como se apaixonou pelo seu violino lembrou-me aquela vez em que o Guy Braunstein
(esperem, tenho de dizer isto de outra forma)
aquela vez em que o Guy ❤ ❤ ❤ ❤ ❤ ❤ Braunstein me contou uma história semelhante:

Experimentou um violino, foi amor à primeira nota. Nunca mais o largou. O que foi chato, porque o violino não estava à venda, e a lei da oferta e da procura nesses casos tem uma curva bastante íngreme.
Estes violinistas a falar dos violinos lembram-me as descrições dos livros do Harry Potter sobre como comprar uma varinha mágica.





12 março 2026

cambia, todo cambia

 


A dona deste jardim costumava varrer as folhas de outono, ficava apenas o musgo verde de onde brotavam estes crocus. Milhares e milhares e milhares deles, uma festa.
Entretanto ficou com problemas de mobilidade, as folhas do outono passado ainda lá estão. Os crocus também, mas, no meio daquele castanho apodrecido, a festa não é a mesma.
Um dia, esta senhora há-de morrer, como morremos todos, e a casa será imediatamente vendida, para construírem no seu lugar, e por cima destas flores, um prédio sem graça nenhuma com apartamentos a vários milhões de euros cada um. E uma cerca de plástico para não deixar ver o jardim. "Todo cambia" na voz da Mercedes Sosa: vídeo.

11 março 2026

O velho, o rapaz, e o burro – variações sobre um vestido

 



Primeira variação: o preço
O vestido Valentino da Margarida Maldonado Freitas é uma ofensa a quem ganha o salário mínimo. Mas se ela tivesse ido à tomada de posse do marido com um vestido da Primark, ai e tal, que não tem noção e não sabe respeitar a Casa da Democracia. Pior: anda vestida com roupa feita por mão-de-obra escrava no Bangladesh, a bandida!
Podia ter mandado fazer um vestido parecido numa modista das Caldas. Nesse caso, ai e tal, que parola provinciana, que vergonha para o país, aparece nesta cerimónia vestida com uma imitação fraudulenta. Até parece que o marido não ganha o suficiente para lhe pagar um vestido que não seja contrafação. Ai, ela também não ganha mal?! Se tem dinheiro suficiente para comprar melhor, porque vem então vestida com um vestido daqueles tipo vírgula noventa e nove cêntimos? Quem é que ela quer enganar? Será que decidiu vir ao Parlamento “brincar aos pobrezinhos”, como a outra da Comporta? Isso é uma grande ofensa contra quem ganha salário mínimo!
(Sobre o preço do vestido ser uma afronta a quem ganha salário mínimo, pergunto: têm noção de quanto custa vestir o Parlamento de festa com cravos vermelhos no 25 de Abril? Seria talvez melhor pôr lá só uma jarrinha com meia dúzia de cravos, porque afinal o que conta é o símbolo, e não é preciso ofender as pessoas que ganham salário mínimo? E, afinal, os ministros devem ir trabalhar de mota, em vez de carro com motorista? E querem propor que o presidente da República passe a andar de Tuk-tuk, que sempre é mais compatível com o salário mínimo dos portugueses?)
Segunda variação: o design
Ai e tal, porque não levou um vestido de um estilista português? Se levasse um estilista português, “olhamesta, deve pensar que é a princesa de Gales, ou influencer, que grande convencida!” Ai e tal, como se atreve ela a incluir um elemento português numa criação do Valentino? Ai os direitos de autor!
E porquê este corte atemporal, tão formal e distante? Estamos no século XXI, será que ela não notou?
Terceira variação: o material
É português? Porque não é português? Tinha de ser tão grosso? Não podia ser mais fino? Que mau cair!
E porquê corações de Viana em vez de botões de cortiça alentejana? Ai os favoritismos regionais! Então o marido não disse que queria ser o presidente de todos os portugueses? Não estou a ver nada...
E porque não botões de um estilista português com materiais de ponta da ciência têxtil portuguesa? Porquê apontar para o folclore em vez de apontar para o futuro? Portugal é tão inovador nos têxteis, porque não aproveitou ela para ser uma montra do melhor que Portugal tem para dar ao mundo?
Quarta variação: o efeito no corpo
Cai mal. Assenta mal. Põe-na mais assim e mais assado. Parece uma isto, parece uma aquilo.
Não me alongo nesta variação, todos sabemos do que estou a falar.
Contraponto:
Alguém olhou para os sapatos dos homens, e verificou se eram da feira de Barcelos ou feitos à mão em Budapeste? Alguém verificou o cair dos fatos, a fazenda? A cor das gravatas, o corte, o material, o preço? Os óculos dos homens: alguém verificou? As meias? Os cortes de cabelo? As unhas? Alguém gastou tempo a discutir se o corte dos fatos era arrojado ou clássico? Se as cores eram modernas ou sensaboronas? Se já repetiram o fato noutra ocasião?
(Alguém comentou o facto de se verem tantos homens e tão poucas mulheres na sessão do Parlamento?)
Fuga:
“Joga pedra na Geni. Ela é feita para apanhar, ela é boa de cuspir.”
Já sabemos como vai ser o futuro de Margarida Maldonado Freitas: ela, que até recusou ser “primeira dama”, vai andar sempre mal vestida, seja o que for que vestir. Porque é feita para apanhar, e além disso dá-nos mesmo muito gozo cuspir.
Mais grave ainda: as vozes que mais alto cantam “joga pedra na Geni” são femininas.
Quando aprenderemos a deixar as mulheres, e o que vestem, em paz? A não esfaquear as nossas irmãs pelas costas?
Coda:
Vir a público criticar como nos apetece aquilo em que outros gastam o seu dinheiro vai tornar o nosso mundo um lugar ainda mais irrespirável.

06 março 2026

António Lobo Antunes

 


Na hora da sua morte, foi esta a primeira ideia: tenho tanto para agradecer!

"Eu sou o mais velho e, ao nascer, quase a matava de uma eclampsia. Depois de me tirarem a ferros quem ia indo desta para melhor era eu, porque toda a gente, ocupada com a moribunda, se esqueceu de mim. Segundo a lenda familiar foi uma tia velha, uma das primeiras senhoras a matricularem-se em Medicina, quem me descobriu sem respirar. E, não me lembro como, porque a memória dos meus primeiros minutos, ignoro porquê, não é lá muito boa, conseguiram reanimar o crianço. Mas antes disso, quando transportavam a minha mãe para a sala de partos, já com visão dupla e os outros sintomas todos, conta ela que a maca passou pelo meu pai, encostado à parede do corredor. A minha mãe
– Eu não te disse que ia morrer?
E o meu pai não encontrou melhor resposta do que
– E o que é que queres que eu faça?
e até ao dia de hoje ela não esqueceu esta frase. Ao falar nisto, muito mais tarde, o meu pai continuava sem lhe entender a indignação
– E o que é que tu querias que eu fizesse, realmente?" António Lobo Antunes, Visão, 19.5.2019

Na hora da sua morte, refaço esta cena do seu primeiro dia. Agora é ele quem diz "eu não te disse que ia morrer?", agora respondemos nós, impotentes: "e que queres tu que eu faça?"


Na hora da sua morte estava triste, a pensar na literatura, mas a minha bolha desatou a falar da beleza do António Lobo Antunes.
(Ai ele é isso? E eu que só tenho ido à Feira do Livro por causa dos livrinhos...)
(A interessada é sempre a última a saber, não há dúvida.)
Em todo o caso: numa inspiração, fui buscar uma foto do Brad Pitt em rapaz, bem barbeado e com o cabelo curto, para repetir aqueles obituários épicos de quando o Mandela morreu e o pessoal desatou a partilhar a fotografia do Morgan Freeman.
Mas depois apercebi-me que em nenhuma foto do jovem Brad Pitt - bem barbeado, com o cabelo curto, e ar de ter dois ou três neurónios na cabeça - ele aparece tão bonito como o Lobo Antunes na foto que partilhei acima.
Era mesmo bonito, caramba. 🙁