17 janeiro 2026

diagnósticos

 

Coisas que uma pessoa aprende quando anda à procura do método científico que levou à classificação da homossexualidade como doença...

Sabem o que é a "drapetomania"?

Era uma doença diagnosticada pela Psiquiatria no séc. XIX, que se define do seguinte modo: "disorder of slaves who have a tendency to run away from their owner due to an inborn propensity for wanderlust”.

(E também há o curioso caso da masturbação, que passou de doença, no séc. XIX, para cura no séc. XX...)

acudam, que até parece que estamos cercados...

 

Mais coisas curiosas que uma pessoa encontra quando anda à procura do método científico que levou à consideração da homossexualidade como doença: desta vez, uma teoria da conspiração publicada numa organização alemã que se diz evangélica (e da qual a Igreja Evangélica se demarca), onde se diz o seguinte:
"Adolf Hitler understood the cleansing power that comes with the ability to place all of one’s ills on a scapegoat. It is especially medicinal to move infirmities outside the self because then “one can battle an external enemy [rather than the] enemy within.”240 In Hitler’s Germany, by the use of public discourse, people were convinced to take horrible action to solve a Jewish problem where none existed. Today, homophobes and heterosexists are proclaimed to be the problem. Hate crimes and gay rights legislation are proposed as the solution."

Traduzindo: do mesmo modo que Hitler soube inventar um problema com os judeus para os aniquilar, o pessoal da agenda gay tem sabido inventar um inexistente problema de homofobia para poder perseguir os heterossexuais.

(Não há dúvida que o interessado é sempre o último a saber: sou uma grande vítima, e ainda não me tinha apercebido disso!)

Se calhar a psicologia podia começar a equacionar alguma patologia para explicar este sentimento de estar cercado e ameaçado todos: pelos negros, que querem ser reconhecidos como iguais em dignidade e direitos; pelas mulheres, que querem ser reconhecidas como iguais em dignidade e direitos; pelos nacionais filhos dos estrangeiros, que querem ser reconhecidos como iguais em dignidade e direitos; e agora até pelos homossexuais!

16 janeiro 2026

reflexão

 

Estava aqui a pensar: tendo em conta que as eleições custam muitos milhões de euros ao país, e implicam um esforço enorme para muitas pessoas (pensem, por exemplo, nos portugueses emigrantes, obrigados a fazer 400 e 600 e 1500 km para irem votar!), não seria boa ideia tratarmos de eleger o Seguro já na primeira volta?
Ficava o assunto resolvido logo de uma penada, pronto.

E sempre sobravam alguns milhões para comprar umas ambulâncias (com guia de partos e tudo!), ou um avião de combate aos incêndios, ou assim.

se é para haver moralidade...

 

Antes de irmos todos para casa reflectir profundamente, queria voltar a um tema que voltou à berlinda esta semana: o que acham os homens sobre o aborto.
Será que os tempos já estão maduros para assumir que nenhuma criança é gerada sem a participação do pai biológico (excepto uma, vá, mas foi por uma vez sem exemplo) e que o preço de uma gravidez não desejada, mas imposta pela sociedade, tem de ser pago pelos dois?
Significa isso que a sociedade que quer obrigar a mulher a levar uma gravidez não desejada até ao fim tem de ser também a sociedade que, mal a criança nasce, obriga o pai biológico a assumir todas as responsabilidades: de criar, de educar, de acompanhar, de ir levar e ir buscar aonde for preciso, e de pagar.
Sublinho: o pai biológico - não é a mãe dele, nem a criada, nem a mãe adoptiva. Se a mulher aguentou 9 meses violentos e um parto (que, note-se: não queria!), o homem também há-de ser capaz de aguentar umas noites mal dormidas, umas faltas ao trabalho por doença da criança, uma gestão apertada dos seus horários, queira ou não queira. Se não queria, paciência: tivesse tento na gaita. Pensasse antes de fazer.
Portanto, tão bem-falante candidato Cotrim: se quer mudar as regras, mude-as a sério. Roubar liberdade de escolha à mulher sem a roubar em medida equivalente ao pai biológico é violência misógina. Se roubar a ambos em igual medida, também é violência, mas pelo menos não é só contra a mulher.
Claro que sei o que vão comentar: "ai, que horror, coitadinha da criança a ser criada por um homem que não a queria/não tem jeito/não tem vocação/não estava na fase certa da vida, mas foi a isso obrigado pela sociedade! Que ideia cruel! Nenhuma criança merece!"
E têm toda a razão. Porque o primeiro direito de uma criança é ser desejada e acolhida por pais que se sentem felizes por tê-la. E por isso mesmo me parece uma violência a sociedade obrigar uma criança a nascer de uma mulher que não a quer.

um muito de beleza por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

 

João Barradas a tocar a Sonata em Si menor K. 87 de D. Scarlatti na Antiga Sé de Idanha-a-Velha.


Conheci o trabalho do João Barradas no "Requiem pour L."
Um dos autores desse concerto comentava connosco no final: "o João Barradas é excepcional, mas não lhe digam".
Digam, digam! Ele merece.

---

O concerto, produzido pela Arte das musas, foi englobado no 9º Festival Fora do Lugar, Festival Internacional de Músicas Antigas.
Video by Filipe Faria with Rita Santos and Mário Alves. Recorded and Mastered by Filipe Faria. Produced by Arte das Musas. 9 Fora do Lugar 2020. Festival Internacional de Músicas Antigas. Idanha-a-Nova. UNESCO Creative City of Music.


15 janeiro 2026

decisões, só decisões

 



Esta mocinha vem a Berlim em Março. Ela, e Brahms. Outro sobre azul sobre ouro sobre azul sobre ouro sobre azul. E ainda têm bilhetes com vista para, digamos, o teclado. Contudo, uma pessoa parece que nunca está satisfeita: estou aqui a pensar se compro já o bilhete, ou se fico à espera que vendam bilhetes nos lugares do coro, bem mais perto da pianista. Mas: e se desta vez não venderem, e entretanto os outros já estiverem esgotados? (Uma vez perguntaram-lhe uma palermice qualquer sobre a roupa que usa em concerto, e ela perguntou em troca algo como "você em que século vive? ou em que país? não me diga que estamos no Irão e eu não reparei?")
(estou agora mesmo deliciada com o Chopin, a partir de 24:05)

sopa

Tinha de fazer uma sopa, e decidi prepará-la na Bimby, que toda a gente diz que é o ideal para fazer sopas. Escolhi uma receita com muito boa classificação, "sopa de cenoura e feijão verde", e comecei. Pediam batata doce, mas só tinha das normais. E courgette - como não tinha, deitei mais uma batata. Depois diziam "40 g de beterraba". Mas como tenho um saco inteiro delas, despachei logo ali mais meio quilo. Ala!

Pus a cozinhar, com o feijão verde e a cenoura cortados aos bocadinhos a cozer no vapor, e tudo bem.

O pior foi no fim, quando começámos a comer, aijajus. Era uma sopa bipolar! Uma parte dela ia na direcção de creme de cenoura e feijão verde, a outra era claramente sopa de beterraba. Nunca pensei que estes dois sabores se separassem tão bem no palato, e me dessem uma sensação tão clara de haver alguma coisa muito errada na minha comida.

Falei com uma amiga, que me sugeriu acrescentar sementes de girassol torradas. Mas essas, misturadas com os bocadinhos de cenoura, só aumentaram a impressão de bipolaridade.

Entretanto, a minha amiga falou-me de fazer sopas com ingredientes todos da mesma cor. Pensei: boa, tomate e beterraba! Ela sugeriu que lhe acrescentasse, em vez disso, um refogado de cebola e alho. E juntasse salsa (não fiz perguntas sobre a teoria das cores, que a minha vida já estava suficientemente desesperada, não precisava de arranjar lenha para me queimar uma amiga).

Fiz o refogado de cebola e alho e deitei muito tomate. E salsa. Fiquei com um lindo molho de tomate, e hesitei: faço um esparguete e almoço feliz, ou tento salvar a sopa bipolar, escondendo o excesso de beterraba com o excesso de tomate?

Como a minha amiga não estava a ver, deitei metade da sopa que tinha no novo molho de tomate. Ficou tão deliciosa que - catrapum! - decidi juntar a sopa restante.

Ficou tripolar: creme de cenoura e feijão verde numa direcção, creme de beterraba na outra, molho de tomate entre elas.

Mas por essa altura já tinha tanta fome, que comi uma bela pratada. Agora, amanhã, é aguentar a fome até mais não poder, e marcha o resto.

*naperon*

 


Tenho um armário cheio de naperons herdados de outros tempos. Já não vou para nova: nasci na época dos naperons em cima da televisão e debaixo dos objectos que povoavam mesas, mesinhas e aparadores, e lembro-me bem do naperon 2.0 desses dias: o chapeu de crochet à volta do rolo de papel higiénico que se via em muitos carros, por trás do vidro traseiro.

Muitos dos naperons no meu armário, se já cá estavam quando nasci, são certamente centenários. Portanto, tenho um museu em casa, e nele guardo testemunhos de mulheres que sabiam criar o belo com as suas mãos. Do tempo em que criar o belo com as mãos era um acto natural de vida das mulheres.

Os naperons, concedo, eram um bocadinho inúteis. Mas nada era inútil na passagem de saberes (agora metes a agulha assim, agora dás uma volta, agora puxas), naquele prazer de se entregar à criação, no trabalho meditativo e no domínio da matemática, no brilhozinho dos olhos ao mostrar os trabalhos terminados e perfeitos: prodígios do saber fazer. Nada era inútil na minha própria aprendizagem, no decifrar dos esquemas das revistas, na imensa certeza de que também eu seria capaz de criar algo belo. Não sei quem fez esses naperons, que guardo quase religiosamente e não uso. Não sei que avó, tia, prima ou amiga. Que vida, que preocupações teriam. Em que momentos se aquietavam em paz, a bordar ou a fazer crochet.

Mas, de certo modo, todas elas estão juntas no meu armário - não como num cemitério, "aqui jaz", mas como num lugar de encontro: "aqui vive". [ Na imagem: um naperon de renda de bilros, feito por alguma mulher do sul da Alemanha, que encaixilhei (já que as televisões actuais não dão para pôr naperons em cima...) ] **** As outras mulheres que se encontram no Largo:
A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
Gralha dixit 
O blog azul turquesa 
Quinta da Cruz de Pedra

14 janeiro 2026

joga pedra na Geni

 


Estava aqui a pensar que se um gajo tivesse sido indecente comigo num contexto profissional em que eu tinha de comer e calar, porque se piasse lixava a minha vida profissional, provavelmente iria sofrer esse abuso em silêncio. Mas talvez não conseguisse continuar calada se visse aquele que me fez tanto mal a ser permanentemente aplaudido no espaço público.
Seria certamente movida pela emoção, porque ninguém no perfeito uso da sua racionalidade, toda a sua racionalidade e nada mais do que a sua racionalidade cometeria o harakiri de erguer a voz contra um homem poderoso na nossa (ainda) coutada do macho latino.
Estava também a pensar que muita gente desconfiará que essa mulher foi paga para publicar uma mentira. O que me leva a perguntar: quantos milhões teriam de me pagar para deitar a minha vida e a minha tranquilidade a perder, passando a ter colado a mim, para sempre, o carimbo da gaja que fez queixinhas, sabe-se lá porquê, provavelmente até aceitou tudo enquanto foi subindo na horizontal, e quando já não precisava, a ingrata...
(não preciso de dizer mais, pois não? Todos sabem o que acontece às mulheres que ousam incomodar os homens.)
Não sei o que aconteceu. Ninguém sabe, excepto - provavelmente - os envolvidos.
Mas sinto-me pessoalmente ultrajada pela maneira como atacam a queixosa. É sempre o mesmo esquema de apedrejar a mulher. Hoje é ela, amanhã serei eu ou será a minha filha.
(Ah, e para os que dizem que ela só tinha de arranjar outro emprego, em vez de se sujeitar em silêncio, respondo: "a vergonha tem de mudar de lado". De um modo geral: no local de trabalho, quem está mal é a pessoa que abusa do poder que o seu cargo lhe dá. O "direito de pernada" tem de ser erradicado do perfil de um cargo de chefia. De facto, o envolvimento com um subordinado devia representar um risco real de perder o emprego de chefia. Desculpa, Michelle Obama.)

intrigas internacionais

 

Estava aqui a pensar que não percebo nada de intrigas internacionais. Estava de coração apertado, a pensar nos iranianos que têm a coragem desmedida de se manifestarem contra o seu regime, e aparece o filho do antigo xá, confortavelmente instalado num sofá norte-americano, a pedir boleia armando-se em condutor. Pelo menos foi o que senti.

Trump também apareceu em cena, e fiquei interdita - entre a recusa liminar, a recordação do que disse um habitante de Sarajevo a propósito da guerra ("quando ouvimos os aviões americanos, sentimos uma esperança enorme"), e o exemplo muito recente de retirar um ditador, manter o regime e apoderar-se do petróleo.

Netanyahu não se fez esperar: também apoia muito o esforço heróico do povo iraniano, e Israel tudo fará para ajudar no que lhe for possível.

Então como é?
Já um povo não pode sair à rua correndo um terrível risco de vida, e logo aparecem os interessados em aproveitar a situação?
Pobres iranianos, cercados por dentro e por fora!

(Por outro lado, confesso, também pensei: e se o regime iraniano fosse deposto, e se as organizações que lutam pela extinção de Israel deixassem de receber apoio financeiro e logístico - será que os palestinianos conseguiriam finalmente ter o seu próprio Estado e uma vida digna?)

12 janeiro 2026

do not go gentle into that good night

 


Rage! Rage against the dying of the light!

11 janeiro 2026

Grimaud!

 


Ia deixar este vídeo só assim, para um entardecer sereno, mas lembrei-me do comentário de um amigo, "há pianos cheios de sorte!" e do comentário seguinte, depois de lhe ter falado do documentário sobre a pianista e os lobos: "fui ver!!!! Aaaaaah! Os sacanas dos vira-latas!!!! Só me apetece sair a uivar!!!!"


De modo que deixo este vídeo, e mais um sorriso bem disposto, com votos de um bom entardecer de domingo para quem passa por aqui. 

10 janeiro 2026

09 janeiro 2026

uma pequena humana de Mumbai




“I have a big book about tiger conservation, and I always knew that the ocean was in trouble. But I didn’t really become an environmentalist until I got to grade one. That’s when I thought of many interesting ways to help. Some things you can do are reduce waste, carpool more often, spread awareness, plant trees, not cut trees, cut carbon emissions, and reduce nuclear disposal. I’m too young to start nuclear disposal because it’s dangerous and I don’t have the proper gloves. But I do recycle and keep plants on my balcony.”

(Mumbai, India) 

***

"But I didn’t really become an environmentalist until I got to grade one." 😍)
Como será esta miúda agora?


08 janeiro 2026

até as pedras...


 Se calhar já se arranjavam aí uns lenços para dar às pedras, que isto é de elas chorarem baba e ranho.


23 dezembro 2025

a caminho

 


A caminho: esse Jesus ainda por nascer, ou o espírito de Natal, ou o espírito de amor e bem-querer - como preferirem.

Cabe a cada um de nós abrir os olhos para destrinçar o essencial no meio da confusão, abrir o coração, e fazer.

Que estes dias sejam de bom Natal para todos os caminhantes que por aqui param um pouco. E para os outros também, vá! 🙂


Imagem: O Recenseamento em Belém, de Pieter Bruegel, o velho.

22 dezembro 2025

para nos sossegar estes dias

Uma playlist para nos sossegar os dias de quem por aqui passa. Que seja para todos um Natal daqueles de encher o coração de tranquilidade e confiança - como bem precisamos, para continuar na luta quotidiana por melhores mundos para todos.









20 dezembro 2025

caso alguém aí queira parar quinze segundos...

 É fascinante. (Mas se calhar vão parar mais de 15 segundos. Porque depois vão tentar outra vez, e depois vão mostrar a mais alguém...) (Portanto: caso alguém aí queira passar um tempinho bom, a maravilhar-se e a sorrir com outros...)



desconstruir rituais


Quando os nossos filhos eram pequenos, um dos nossos rituais de Natal era ir ver o bailado Quebra-Nozes.
Malditos rituais de Natal! Ganhei alergia a esta música, mas ninguém quer saber da minha saúde. Chega o advento, o rádio parece que risca o disco no Quebra-Nozes.
Por sorte aparecem coisas como esta, e eu quase me reconcilio com a peça.

(Uma pessoa aprende. Devagar, mas aprende: chega o advento, desligo o rádio, e assim atravesso esse tempo sem pensamentos pouco apropriados ao espírito da época - pelo menos no que diz respeito a mandar o Quebra-Nozes desta para melhor.)

19 dezembro 2025

music for a while

Para terminar o dia da melhor maneira possível.
De muitas maneiras possíveis, todas melhores.

 






17 dezembro 2025

é isto a matemática

 

Coisas da vida: só depois de ler esta piadinha:

"É isto a matemática: se houver cinco pessoas num autocarro e saírem sete, então duas têm de entrar outra vez para o autocarro ficar vazio."

...é que consegui entender esta:

"Um biólogo, um físico e um matemático estão em frente a um elevador. Um homem e uma mulher entram no elevador e as portas fecham. Pouco depois, as portas abrem de novo e do elevador saem dois homens e uma mulher.
- É o fenómeno da procriação, diz o biólogo.
- Há aqui um erro de medição, diz o físico.
- E se agora entrar uma pessoa, o elevador fica vazio, diz o matemático."

16 dezembro 2025

embarcadouro

 

Pensamento avulso do dia: tendo em conta as alterações climáticas, e o modo como simples ribeirinhos se podem tornar de repente em torrentes destruidoras, que sentido faz continuarem a vender casas junto à água como se fossem um bom investimento?
Ainda agora vi uma casa, "objecto raro, com embarcadouro em frente à sala", por dois milhões. Ainda se tivesse a Arca de Noé atracada em frente à sala, pelo sim pelo não...

15 dezembro 2025

olhar para o passado para entender o presente: o caso da Síria

 


Agora que assinalámos um ano da Síria sem guerra civil, partilho um vídeo muito informativo sobre como se chegou àquela tragédia.


para reequilibrar a percepção do mundo

 


Em Portugal, se não me engano, foi a SIC que transformou uma experiência de uma pequena escola de cães de uma cidadezinha alemã numa "nova tendência na Alemanha: passear cães... invisíveis".
A mentira está a espalhar-se como fogo em palha seca, acompanhada de um coro de "está tudo maluco?!", "este mundo está roto, chove nele como na rua".
(Onde está a ERC quando faz falta?)
Os factos: uma treinadora de cães quis experimentar algo novo nas suas aulas. Antes de deixar os respectivos cães entrar em campo, faz alguns exercícios apenas com os donos, para que estes se concentrem bem no que ela lhes está a tentar ensinar.
Tão simples como isso. Depois, a treinadora publicou alguns filmes desses treinos no seu instagram, e teve muitas reacções, ou seja: nasceu um novo trend na internet.

A seguir, um repórter resolveu falar do assunto, e para isso fez uma paródia: foi passear uma trela sem cão no centro de uma cidade alemã, e filmou a reacção das pessoas. No meio da paródia, incluiu algumas imagens da treinadora de cães a dar a primeira parte da sua aula, na fase ainda sem cães. A SIC faz uma notícia onde troca a ordem dos acontecimentos (primeiro veio o curso, depois veio a sátira do jornalista), confunde um caso de trending na internet com "nova tendência na Alemanha", torna plural o que é um caso único ("a moda já tem workshops") e inventa motivações dos "praticantes desta actividade".

Irrita-me muito que no jornalismo português aconteça um desastre destes, absolutamente escusado. E irrita-me ainda mais assistir à reacção que este erro grave de jornalismo provoca nas pessoas, porque lhes alimenta uma percepção enviesada do nosso tempo.
O mundo, no triste estado em que se encontra, não precisa que andemos a espalhar mentiras que aumentam o pessimismo e o descrédito na humanidade. De modo que deixo aqui um repto a todos os que partilharam esta pseudo-notícias, e aos que comentaram com um "ai que horror!": para reequilibrar a percepção do mundo, quem comentou partilha agora três notícias positivas verdadeiras. E quem partilhou a notícia partilha dez, porque teve maior responsabilidade na propagação do mal.

14 dezembro 2025

sobre o poder de escolher (aviso já: estou a brincar!)

 

Neste belo domingo tomei uma decisão radical: vou tornar-me senhora do meu destino, mudar eu própria as agulhas e os rumos que dou à minha vida. E vou até mais longe: escolho eu própria as ofertas que a vida me dá!

(Embrulha, universo!)

Estou a falar do Facebook, e o truque tem a simplicidade de um ovo de Colombo: basta entrar várias vezes em páginas de publicidade de um tema que nos alegre o dia sem nos tentar a carteira, e o algoritmo passa a oferecer-nos apenas publicidade disso. O meu tema é meias nórdicas. Não compro, porque já as tenho em número suficiente, mas agora o meu facebook enche-se, de tantos em tantos posts, com as cores garridas dessa publicidade, e deixou de me oferecer homens de meia idade, sapatos manhosos que faz de conta que são portugueses, tralha vária de empresas que "infelizmente" têm de fechar e estão a saldar tudo, medicamentos para cães que comem ervas, etc.

Para o caso de algum passante querer também agir radicalmente sobre o seu destino, aqui deixo um link aleatório.

12 dezembro 2025

*dança*

Depois de longa ausência, voltei ao Largo. O tema desta semana é "dança", e "dança" lembra-me muitas vezes um poema de Santo Agostinho, que termina mais ou menos assim: 

Oh, gentes,
aprendei a dançar!
Caso contrário
no céu os anjos
não saberão
o que fazer convosco.

Obrigada, Santo Agostinho, pela imagem tão feliz para uma ideia da Eternidade: dançar com os anjos!
Mais ainda: dançar como preparação para a Eternidade é uma bela maneira de atravessar a vida. Porque, como diz o poema,
(e desde já peço desculpa pela tradução a partir de uma versão alemã)


Eu louvo a dança
que tudo exige e estimula
saúde, mente clara,
uma alma leve.

Dança é transformação
do espaço, do tempo, do ser humano
sempre em risco de se fragmentar:
cérebro só, ou vontade, ou emoção.

A dança, contudo,
chama o ser inteiro
ancorado no seu centro.
Esse que não está possuído
pelo desejo de seres e coisas
e pelos demónios
da solidão interior.

A dança pede o homem livre
vibrando no equilíbrio
de todas as forças.

Eu louvo a dança.

Oh, gentes,
aprendei a dançar!
Caso contrário
no céu os anjos
não saberão
o que fazer convosco.

E agora que falei da vida e do seu depois, acrescento também uma imagem dilacerante de luto que não me sai da cabeça desde que comecei a pensar no que gostaria de escrever sobre o tema "dança":
Eis o homem que se despede da sua amada, dançando de mão dada com a sua ausência. 



----

Mais dançarinas no Largo:

A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
Gralha dixit 
O blog azul turquesa 
Quinta da Cruz de Pedra