13 dezembro 2018

perdi o autocarro (2)

 
Recapitulando: perdi o autocarro por me ter posto a tirar fotografias, aproveitei a espera forçada para mais uns cliques às escuras e sem óculos, apanhei o autocarro seguinte, parei no Ku'damm para comprar óculos, perdi mais um autocarro, apanhei outro, e no caminho para o ensaio do coro fotografei ainda o arquivo da Bauhaus, que está fechado para obras. O projecto de alargamento é extraordinário, mas, infelizmente, não vai estar pronto em 2019 para o centenário da Bauhaus. Se for como o aeroporto de Berlim, às tantas nem para o bicentenário...

No regresso a casa não perdi mais nenhum autocarro. Aliás: apanhei o melhor de todos, porque ao meu lado sentaram-se algumas americanas bem-dispostas, e às tantas uma pôs-se a ler um poema para o grupo. Era de E.B. White, "Song of a bee" (escrito em 1945, uma paródia à informação dada pelo Ministério da Agricultura sobre a inseminação artificial das rainhas das abelhas ser difícil porque elas copulam no ar com qualquer zangão que lhes aparece à frente).

Esta cidade é um mimo.



 

 

E depois, mais para o fim do Ku'damm, vi que a loja de penhores para carros de colecção (que aluga os carros entregues como penhor) tinha um bólide realmente interessante. Mas um descapotável no inverno é má ideia, e além disso não deve ter pneus para a neve, e provavelmente estão verdes, não prestam, só os cães as podem tragar.


perdi o autocarro



Por causa desta foto, e de mais algumas como esta, perdi o autocarro.
Fazer o quê?
Aproveitei a espera para tirar mais algumas fotografias. Às escuras, e sem óculos (eu bem digo que nesta cidade se pode fotografar de olhos fechados).


















a mui incrível e sempre desejada Venda de Natal Tinta-da-china


Aviso urgente: este ano o natal foi antecipado para o dia 22 de Dezembro (e eu aqui na insularidade, snif snif snif) (isto de "snif snif snif" é choraminguice, não pensem que estou a snifar cola para esquecer a tristeza)

Ora bem: todo o catálogo Tinta-da-china (com descontos até 40%), os autores a dar autógrafos e embrulhos personalizados, café, chá e bolos. No sábado, dia 22.

(a língua portuguesa é muito traiçoeira: pergunto-me se os autores é que dão os embrulhos personalizados e os bolos) (ai, se eles vendessem também livros do Chico Buarque, ai, agarrem-me que... ) (quem lhe dava o embrulho personalizado era eu)

(descansem, já fechei o frasco da cola)

(espero que até os mais incautos percebam que estou a brincar com tudo, excepto com o mais importante: a Venda de Natal da Tinta da China é no sábado, dia 22)


12 dezembro 2018

o oportunista


Segundo ouvi hoje nos noticiários alemães, o suspeito do tiroteio em Estrasburgo já tem na sua história pessoal quase 30 delitos, e cinco anos de prisão, cumpridos uns em França e outros na Alemanha. Ter-se-á radicalizado na passagem pela prisão francesa. A polícia considerava-o um perigo potencial para a segurança, mas não tinha indicações de que estaria a preparar algo concreto.

Ontem, a polícia foi buscá-lo a casa por suspeita de estar envolvido numa tentativa de homicídio, não o encontrou, e à tarde ele desatou aos tiros no mercado de Natal de Estrasburgo, gritando em árabe que Deus é grande.

Ainda não se sabe se foi um acto de terrorismo.
Para mim, esta fuga para a frente tentando iludir o seu passado de delinquente com um acto de terror é outra coisa: oportunismo. 

O que mais me dá que pensar é este facto que já conhecemos de outros atentados: jovens delinquentes que se radicalizam na prisão. As prisões como escolas do crime e do terrorismo. Alguma coisa estamos a fazer muito mal. 


"Jesus é tão poderoso que conseguiu subir no pé de goiaba sem cair!"



Tempos difíceis, estes, quando ouvimos a escolhida por Bolsonaro para ficar à frente do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos a falar de momentos trágicos na sua infância, e só nos dá vontade de rir.

[Procurei em vários sites, e o nome é sempre o mesmo: Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Se Jesus se deixasse de subir às goiabeiras e viesse dar um jeitinho na gramática, isso é que era "proporcionar às crianças experiências extraordinárias" com ele! Já agora, podia dar uma mãozinha também em Portugal, onde há tanto um Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior como um Ministério do Planeamento e das Infraestruturas. A culpa deve ser do acordo ortográfico, que nos deixa fazer tudo de ouvido. Ou então, é o Jesus português que tem andado muito entretido a dar experiências extraordinárias às crianças em cima dos marmeleiros, e não trata do resto.]



até parece Natal



Esta manhã li o artigo do António Marujo no Religionline sobre o esforço de algumas Igrejas holandesas, que estão a manter uma celebração religiosa ininterruptamente há seis semanas para impedir que uma família arménia seja deportada (está aqui - vão lá ler o poema do miúdo), e agora este anúncio de uma cadeia de supermercados, que termina com "O Natal não precisa de muita coisa - basta o amor". 
Assim não há condições para o cinismo.

11 dezembro 2018

ainda faço aqui uma filial da ONU


Diz-me o airbnb que desde 2015 já recebi em minha casa 567 pessoas, provenientes de 36 países diferentes. E parece que a maior parte deles gostou muito, de tal modo que já nem sei há quantos trimestres seguidos continuo a manter o selo de superhost.

E diz-me este mapa que já cá tive alguns japoneses.
Japoneses?! Não me lembro nada. Será que vieram disfarçados de americanos? É que também não me lembro nada de ter tido tantos americanos.

Não desfazendo, o que eu gostava era de ter quase só mães de família do sul da Alemanha. Deixam tudo impecável, até puxam o lustro às torneiras da casa de banho e tudo. Uma delas deu uma volta ao armário da cozinha - e ficou tudo tão bem arrumado que adoptei o método dela. Tenho andado a pensar convidá-la para ficar gratuitamente um mês inteiro, para arrumar os restantes armários da casa.

Também não me importava de ter mais daqueles - ai! esqueci de que país! talvez fosse a Malásia, talvez fosse o Paquistão - dois homens jovens que não me deixaram limpar o quarto nem mudar a roupa da cama. Disseram que estava tudo impecável. Só depois de insistir consegui mudar as fronhas de almofada. Penso que já falei deles aqui, mas repito-me porque continuo muito impressionada com aquele exemplo.

É óbvio que mudo sempre as roupas de cama antes da chegada de novos hóspedes, embora às vezes, quando estou a fazer todas aquelas máquinas de roupa, me pergunte o que os nossos tiques de primeiro mundo andam a fazer ao meio ambiente. Mas depois lembro-me do risco da sarna, da boa educação, da ASAE e coisas assim, e decido poupar o meio ambiente de outras maneiras.

Trinta e seis países, dizem-me. Já devia ter aqui muita matéria para firmar conceitos e preconceitos, mas não: não me tem sido possível fazer uma estatística sobre hábitos, vantagens e desvantagens dos nacionais de cada país. Nestes três anos só me têm acontecido pessoas, em vez de nacionais.


08 dezembro 2018

Berlin by night

 
 

Em Berlim, no segundo fim-de-semana de Advento têm lugar dois dos meus mercados de Natal favoritos.

Embora - talvez - não seja boa ideia voltar aos lugares onde se foi feliz com neve, quando o inverno berlinense mal consegue fazer chover quanto mais nevar, hoje estive no mercado do Jagdschloss Grunewald. Pareceu-me ter menos graça - ou então sou eu que estou mal habituada.

Mas não se perdeu tudo: entrei no palacete para rever os quadros do Cranach, e arrepiei-me com a turista que na sala onde estão todas as cenas da Paixão olhou distraidamente para um dos quadros e disse "acho que este é Jesus". Voltei a arrepiar-me com as cenas de caça no rés-do-chão (aquilo é que eram umas belas tradições! nem sei porque é que acabaram com elas...).

E depois fotografei a floresta, o palácio e o lago de Grunewald no meio da escuridão. Berlin by night.


 




 





07 dezembro 2018

Kant e a czarina Isabel (ou: o regresso de Wladimir Kaminer a este blogue)

Traduzo do blogue de Wladimir Kaminer:

Agora é oficial, o aeroporto de Kaliningrado não vai ter o nome de Immanuel Kant. O filósofo perdeu o referendo popular a favor da czarina Isabel. Tradicionalmente, os aeroportos russos tomavam o nome da respectiva aldeia destruída para lhes dar lugar. Noutros países, os aeroportos recebem o nome dos presidentes e políticos mais importantes. Na Rússia, há vinte anos que só têm um presidente e político importante. Todos os seus antecessores foram desacreditados pelos media, e não estão previstos novos presidentes. Seguindo aquela lógica, todos os aeroportos russos deviam ter o nome de Putin, o que poderia dar origem a algum caos na aviação. Por esse motivo, as autoridades decidiram consultar o povo sobre o nome a dar ao aeroporto. O referendo resultou em acesa discussão. No caso particular de Kaliningrado o debate foi ao rubro a favor e contra Kant. O seu túmulo foi profanado, e atiraram sacos de tinta aos seus bustos. Membros do Parlamento e militares de alta patente foram à televisão dizer horrores do filósofo. O comandante da frota do Báltico, um almirante, viu em Kant um traidor: nem sequer um verdadeiro russo, antes um insidioso alemão que escrevia livros incompreensíveis que ninguém leu, afirmava o almirante. Antigamente, na União Soviética, Kant estava solidamente embutido na ideologia nacional, era tido como precursor do materialismo dialéctico. A União Soviética foi um fruto tardio do Iluminismo europeu, nome criado pelos filósofos alemães, Marx usou Kant como modelo para a sua ideologia, que na União Soviética era considerada "ciência". Impossível imaginar um almirante soviético a dizer mal de Kant.
No fim, Kant ficou atrás da czarina Isabel, a filha de Pedro o Grande, a mãe dela era de Mecklenburg.

05 dezembro 2018

conversa de elevador

Está um dia lindo. E tanto, que se fosse esperta ia agora às compras e só depois fazia o que tenho de fazer. Porque um "dia lindo", no Dezembro berlinense, é apenas meia dúzia de horas entre o nascer do sol e o anoitecer.

Como ontem, por exemplo: estava um dia lindo. Tirei algumas fotografias no autocarro, a caminho da Filarmonia. Tirei mais algumas fotografias na Filarmonia, porque estava encantada com a luz do sol nas folhas das árvores. Quando voltei para casa já escurecia. E quando, uma hora depois, saí de novo, já tinha o Ku'damm feérico de Natal.
(Se me deixassem mandar, tirava aquela tralha toda do meio da rua, e deixava apenas as luzes nas árvores.)

Na segunda-feira, quando saí de Portugal, chovia desalmadamente. Entretanto já avisaram que há aí um temporal a caminho do Norte da Alemanha, vindo do Oeste da Europa. Eu vim de avião, a chuva vem a pé, demora três dias. Diz que sexta e sábado vai ser terrível. Agora, digam vocês que estão em Portugal: a chuva já parou? É só para saber o que devo calçar em Berlim no domingo.

Ontem fui à Filarmonia, mas não devia ter ido. Nem estavam a vender bilhetes dos lugares do coro para os concertos do fim-de-semana, nem o Lunchkonzert foi muito bom. Parecia música de elevador, como esta conversa.








 


04 dezembro 2018

ir num pé e vir noutro (com o coração cheio)


"Vá para fora cá dentro", quem me dera: é estranho ter uma casa a 2650 km da cidade onde moro.
2650 é o que diz o mapa google, e que devo ir pela A10. O que me dá vontade de rir, porque a A10 acaba às portas de Berlim. Depois, há que seguir pela A2, A1, A4, E42, ... e - vinte e seis horas mais tarde - A7 para o seu destino em Viana do Castelo, Portugal.
Mas é como tudo na vida: uma pessoa põe-se a caminho, e depois vai fazendo uma estrada de cada vez.
Só tínhamos três dias, fomos de avião. Com a consciência um pouco pesada: estamos a desgraçar o único planeta que temos. E logo um planeta tão bonito, e tão extraordinariamente generoso, e tão cheio de gente boa!

Dois dias e meio: o suficiente para festejar o aniversário de amigos, para nos deslumbrarmos com o jardim de Dezembro (o exagero dos dióspiros, as romãs abertas para os pássaros, os citrinos quase no ponto, os botões de camélias a abrir), para ir ver o outono em Ponte de Lima, para tirar fotografias dos pés na praia, para comer ostras e castanhas à lareira. No dia do regresso choveu muito (o que foi óptimo: para não custar tanto vir embora) e no meio do caminho havia uma teia de aranha, havia uma teia de aranha no meio do caminho.

(Ao chegar ao aeroporto, uma surpresa má: o saco com os dois pares de botas que queria deixar a arranjar no sapateiro de Ponte de Lima estava ali esquecido, a rir-se de mim. O que não dá jeito nenhum quando se viaja apenas com bagagem de mão, e se tem a malinha cheia de limões, dióspiros e pastéis do Natário.)



 









 

Fotografar da cama, à preguiçosa: "a room with a view"
 

30 novembro 2018

do baú de recordações

O facebook lembrou-me que há três anos publiquei um post a dizer que não tinha tempo. Se fosse só naquele dia há três anos...

A verdade é que ando desde 2015 com vontade de contar sobre a colónia de artistas de uma aldeia pacata na fronteira da Polónia com a qual tenho a sorte de partilhar alguns dias de outro mundo. Enquando não faço um post decente sobre isso, guardo no blogue este momento que o facebook me lembrou:

Ando há meses para contar sobre uma colónia de artistas berlinenses que se reúne num lugar mágico perto da Polónia ("uma fortaleza medieval, com fosso de água, que foi modernizada no período barroco"), mas a vida real atrapalha-me muito esta aqui. Hei-de contar, e pôr fotos, não perdem pela demora. Para já, deixo estas:





Hippolyte et Aricie - e mais um vício



Ontem fui à Staatsoper Unter den Linden ver o Simon Rattle a conduzir a ópera de Rameau "Hippolyte et Aricie", e acabei fascinada a ver o trabalho do Ólafur Elíasson. Mais um vício, como se não tivesse já vícios em demasia...

Simplesmente hipnotizante: o modo como trabalha com a luz, os reflexos, os espelhos.
Assim não há condições para ficar uma ópera inteira a cuscar o Simon Rattle!

(E se fosse só o Ólafur Elíasson a impedir-me de ver o Rattle, bem íamos. Mas - maldita Staatsoper, maldito inventor das óperas redondas para as pessoas do público se cuscarem mutuamente, em vez de olharem para o palco! - sempre que a minha vizinha se chegava para a frente para ver melhor, eu tinha de me torcer toda para tentar ver por debaixo do sovaco dela, ou esticar-me por cima do seu assento para ver na clareira entre ela e a amiga. Claro que também me podia chegar para a frente, mas não queria fazer a mesma cena de egoísta. Claro que também lhe podia dar uma cotovelada, e apontar para todas as pessoas atrás dela que ficavam sem ver. Mas mais ninguém se queixava, e iam ser duas contra uma, e a gente nunca sabe do que é que alguém é capaz, se já se chega assim à frente sem contemplações nem remorsos.)

(O que me dava jeito era ser rica, e ficar num dos lugares em frente ao palco, onde o único problema que tenho é sentar-me semideitada na cadeira, para os de trás poderem ver. Mas como só me chega para comprar bilhetes a preços de povo, fico sujeita a estas situações boas para reconhecer metáforas sobre a arraia miúda a melhorar a sua situação à custa dos outros, tal e qual como os ricos.)

(Espero que o Marx não tenha lido a última frase.)


aviso aos navegantes: estão a marcar uma revolução para amanhã

O amigo que me avisou, e me perguntou se já tinha comprado as latas de sardinha e enchido o depósito do carro, suspeita que andem por aqui os dedinhos do Bannon e do Putin.

Nos jornais leio que tanto Sahra Wagenknecht, à esquerda, como a AfD, à direita, vêem com bons olhos o movimento dos "coletes amarelos" franceses, e desejariam que chegasse à Alemanha. Mas duvido que Sahra Wagenknecht concorde com algumas coisas do primeiro vídeo que aqui passo. É sempre assim: ainda a revolução não começou, e já há dissidências...

Os dois vídeos são claramente de extrema-direita. O que mais me irrita no primeiro é este discurso nacionalista, egoísta, fim-do-mundista e autovitimizador colado às imagens de uma Alemanha moderna e aberta ao mundo. Vão filmar o mundinho deles, e deixem o meu em paz!

Os dois vídeos estão legendados: há aqui alguém que quer que a mensagem alastre a países que não falam alemão. E vem com frases como as que se seguem, que traduzo apenas porque são um bom elemento de estudo sobre como agitar o pessoal na internet:

COLETES AMARELOS - FIM DA DITADURA DA RFA!
01.12.2018 REVOLUÇÃO ALEMANHA!
PARTILHEM! VISTAM OS COLETES AMARELOS! Para os cépticos: a primeira frase do vídeo é dirigida a vós.
PONTOS DE ENCONTRO: http://qlobal-change.square7.ch/galle...  [NT: quem diria: um site suíço...]

Façam DOWNLOAD & REUPLOAD deste vídeo as vezes que quiserem! PARTILHEM POR TODA A PARTE! (Não se confundam com o número de cliques - há cópias do vídeo por toda a parte. Mesmo assim, espalhem-no o mais que puderem!)
A partir de 1 de Dezembro são apenas dez dias até à assinatura da nossa sentença de morte: o Pacto de Migração! Agora é tudo ou nada! ESTA É A VOSSA ÚLTIMA OPORTUNIDADE! Não é possível negociar com ditadores que são doentes mentais. NO DEALS! O nosso trabalho gratuito deve estar acessível a todos gratuitamente. O youtube já nos apagou uma vez! A censura é cada vez mais radical, pelo que também nos encontram nestes links (...) e neste blogue:  https://qlobal-change.blogspot.com/







Ólafur Arnalds

Deixei o youtube em autogestão, e ele foi indo, foi indo, e desembocou aqui.
A melhor música para pacificar esta manhã cinzenta e cheia de trabalhos secantes para fazer.



(*) Trabalhos secantes: aqueles trabalhos que são uma boa seca e nos cortam o dia como uma secante.
(Depois também há a procrastinação, que aumenta para os limites máximos o segmento que a secante ocupa na circunferência.) (Olha, olha, que curioso: cá está ela outra vez, não sei como arranja de aparecer sempre que venho ao blogger...)


Brasil, um país do passado

Se não fosse da Deutsche Welle, ia pensar que são Fake News. E das de pior qualidade: coisas tão palermas que ninguém consegue acreditar.
Mas é da Deutsche Welle. Copio para aqui, para memória futura deste momento em que somos testemunhas impotentes da catástrofe.



Coluna Cartas do Rio

Brasil, um país do passado

No Brasil, está na moda um anti-intelectualismo que lembra a Inquisição. Seus representantes preferem Silas Malafaia a Immanuel Kant. Os ataques miram o próprio esclarecimento, escreve o colunista Philipp Lichterbeck. 

Partidários de Bolsonaro comemoram vitória eleitoral no fim de outubro, Rio de Janeiro
Partidários de Bolsonaro comemoram vitória eleitoral no fim de outubro, Rio de Janeiro
É sabido que viajar educa o indivíduo, fazendo com que alguém contemple algo de perspectivas diferentes. Quem deixa o Brasil nos dias de hoje deve se preocupar. O país está caminhando rumo ao passado.
No Brasil, pode ser que isso seja algo menos perceptível, porque as pessoas estão expostas ao moinho cotidiano de informações. Mas, de fora, estas formam um mosaico assustador. Atualmente, estou em viagem pelo Caribe – e o Brasil que se vê a partir daqui é de dar medo.
Na história, já houve momentos frequentes de regresso. Jared Diamond os descreve bem em seu livro Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Motivos que contribuem para o fracasso são, entre outros, destruição do meio ambiente, negação de fatos, fanatismo religioso. Assim como nos tempos da Inquisição, quando o conhecimento em si já era suficiente para tornar alguém suspeito de blasfêmia.
No Brasil atual, não se grita "herege!", mas "comunismo!". É a acusação com a qual se demoniza a ciência e o progresso social. A emancipação de minorias e grupos menos favorecidos: comunismo! A liberdade artística: comunismo! Direitos humanos: comunismo! Justiça social: comunismo! Educação sexual: comunismo! O pensamento crítico em si: comunismo!
Tudo isso são conquistas que não são questionadas em sociedades progressistas. O Brasil de hoje não as quer mais.
Porém, a própria acusação de comunismo é um anacronismo. Como se hoje houvesse um forte movimento comunista no Brasil. Mas não se trata disso. O novo brasileiro não deve mais questionar, ele precisa obedecer: "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".
Está na moda um anti-intelectualismo horrendo, "alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento", segundo dizia o escritor Isaac Asimov. Ouvi uma anedota de um pai brasileiro que tirou o filho da escola porque não queria que ele aprendesse sobre o cubismo. O pai alegou que o filho não precisa saber nada sobre Cuba, que isso era doutrinação marxista. Não sei se a historia é verdade. O pior é que bem que poderia ser.
A essência da ciência é o discernimento. Mas os novos inquisidores amam vídeos com títulos como "Feliciano destrói argumentos e bancada LGBT". Destruir, acabar, detonar, desmoralizar – são seus conceitos fundamentais. E, para que ninguém se engane, o ataque vale para o próprio esclarecimento.
Os inquisidores não querem mais Immanuel Kant, querem Silas Malafaia. Não querem mais Paulo Freire, querem Alexandre Frota. Não querem mais Jean-Jacques Rousseau, querem Olavo de Carvalho. Não querem Chico Mendes, querem a "musa do veneno" (imagino que seja para ingerir ainda mais agrotóxicos).
Dá para imaginar para onde vai uma sociedade que tem esse tipo de fanático como exemplo: para o nada. Os sinais de alerta estão acesos em toda parte.
O desmatamento da Floresta Amazônica teve neste ano o seu maior aumento em uma década: 8 mil quilômetros quadrados foram destruídos entre 2017 e 2018. Mas consórcios de mineradoras e o agronegócio pressionam por uma maior abertura da floresta.
Jair Bolsonaro quer realizar seus desejos. O próximo presidente não acredita que a seca crescente no Sudeste do Brasil poderia ter algo a ver com a ausência de formação de nuvens sobre as áreas desmatadas. E ele não acredita nas mudanças climáticas. Para ele, ambientalistas são subversivos.
Existe um consenso entre os cientistas conhecedores do assunto no mundo inteiro: dizem que a Terra está se aquecendo drasticamente por causa das emissões de dióxido de carbono do ser humano e que isso terá consequências catastróficas. Mas Bolsonaro, igual a Trump, prefere não ouvi-los. Prefere ignorar o problema.
Para o próximo ministro brasileiro do Exterior, Ernesto Araújo, o aquecimento global é até um complô marxista internacional. Ele age como se tivesse alguma noção de pesquisas sobre o clima. É exatamente esse o problema: a ignorância no Brasil de hoje conta mais do que o conhecimento. O Brasil prefere acreditar num diplomata de terceira categoria do que no Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático, que estuda seriamente o tema há trinta anos.
Araújo, aliás, também diz que o sexo entre heterossexuais ou comer carne vermelha são comportamentos que estão sendo "criminalizados". Ele fala sério. Ao mesmo tempo, o Tinder bomba no Brasil. E, segundo o IBGE, há 220 milhões de cabeças de gado nos pastos do país. Mas não importa. O extremista Araújo não se interessa por fatos, mas pela disseminação de crenças. Para Jared Diamond, isso é um comportamento caraterístico de sociedades que fracassam.
Obviamente, está claríssimo que a restrição do pensamento começa na escola. Por isso, os novos inquisidores se concentram especialmente nela. A "Escola Sem Partido" tenta fazer exatamente isso. Leandro Karnal, uma das cabeças mais inteligentes do Brasil, com razão descreve a ideia como "asneira sem tamanho".
A Escola Sem Partido foi idealizada por pessoas sem noção de pedagogia, formação e educação. Eles querem reprimir o conhecimento e a discussão.
Karl Marx é ensinado em qualquer faculdade de economia séria do mundo, porque ele foi um dos primeiros a descrever o funcionamento do capitalismo. E o fez de uma forma genial. Mas os novos inquisidores do Brasil não querem Marx. Acham que o contato com a obra dele transformaria qualquer estudante em marxista convicto. Acreditam que o próprio saber é nocivo – igual aos inquisidores. E, como bons inquisidores, exortam à denúncia de mestres e professores. A obra 1984, de George Orwell, está se tornando realidade no Brasil em 2018.
É possível estender longamente a lista com exemplos do regresso do país: a influência cada vez maior das igrejas evangélicas, que fazem negócios com a credulidade e a esperança de pessoas pobres. A demonização das artes (exposições nunca abrem por medo dos extremistas, e artistas como Wagner Schwartz são ameaçados de morte por uma performance que foi um sucesso na Europa). Há uma negação paranoica de modelos alternativos de família. Existe a tentativa de reescrever a história e transformar torturadores em heróis. Há a tentativa de introduzir o criacionismo. Tomás de Torquemada em vez de Charles Darwin.
E, como se fosse uma sátira, no Brasil de 2018 há a homenagem a um pseudocientista na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, que defende a teoria de que a Terra seria plana, ou "convexa", e não redonda. A moção de congratulação concedida ao pesquisador foi proposta pelo presidente da AL e aprovada por unanimidade pelos parlamentares.
Brasil, um país do passado.

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.
______________
A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.


29 novembro 2018

a verdadeira artista...

Não é que a gente se levante realmente cedo. O sol é que chega tarde ao nosso dia, aqui perto da Sibéria.

Pelo que esta manhã, ao pequeno-almoço, reparei que o amanhecer ia ser especial, fui buscar a máquina fotográfica, e comecei a ir de cinco em cinco minutos à varanda para tirar fotografias.
Em camisa de dormir (de Verão) e descalça.

Se me der uma coisa má, é porque sou a Madame Curie da fotografia. A verdadeira artista. :)