28 maio 2024

isto é só problemas...

 


Tenho dois problemas novos na minha vida, como se não bastassem os velhos! O mais recente começou assim: comprei um pacotinho de guloseimas para o Fox, o coitadinho, apesar de ele só poder comer dieta.

(olha, acabei de me dar conta de um problema suplementar: se a SPA sabe...)

Digo que ai e tal, é só em doses homeopáticas, que mal pode fazer?, e levo para os passeios que damos juntos. Sempre que se porta bem, dou-lhe um bocadinho minúsculo.

Um dos problemas é mesmo esse: o Fox agora porta-se muitíssimo bem na rua, sempre à espera de ser recompensado.

O outro é que o Fox agora passa a vida a pedir-me para ir à rua, para me mostrar mais uma vez como se sabe portar bem.

Em todo o caso: estou em crer que, se quiserem que os vossos filhos se portem bem, devem começar por lhes dar apenas comida de dieta.

(pimbas, mais um problema: agora tenho a Protecção de Menores à perna...)

roubar para alimentar o espírito


Memórias de outros tempos (a partir de uma conversa com com uma amiga, no facebook, sobre os bons velhos tempos em que íamos a Espanha comprar coisas que não havia em Portugal): A minha família era mais caramelos e chocolates em Tui. Às vezes uma boneca.

Quando tinha 7 anos iniciei uma curta carreira de criminalidade por causa dos caramelos e chocolates: assaltava o armário onde os guardavam, e vendia-os a uma amiguinha da escola.

Andava no crime, reconheço, mas era por uma boa causa: com as moedas ia comprar livros da colecção Formiguinha.

Só desconfiei que alguma coisa podia estar a correr mal porque o senhor da loja uma vez olhou demoradamente para a moeda e perguntou-me onde a tinha arranjado. Foi assim que descobri que andava a ser paga com as moedas da colecção do pai da minha amiga.

A minha carreira de larápia para fins intelectuais acabou no dia em que a nossa criada (posso usar o nome que se usava nessa época?) achou que eu lhe andava a emprestar demasiados livros da colecção Formiguinha, e avisou a minha mãe.

Moral da história: nunca emprestar livros a ninguém!


27 maio 2024

é Berlim, está tudo dito


Da newsletter "Checkpoint" do diário berlinense Tagesspiegel, 27.5.2024, partilho estes dois sinais da vitalidade de Berlim e do humor perante o caos:



Precisamente em simultâneo com o encerramento de todas as ruas entre a Coluna da Vitória e a Potsdamer Platz, à volta da zona onde se vai instalar o relvado, os stands e a baliza gigante do Campeonato Europeu de Futebol, soa o apito para os trabalhos nocturnos de manutenção no túnel do Tiergartentambém esta passagem será encerrada a partir de hoje, durante quinze dias, de segunda a sexta-feira, entre as 21h00 e as 5h00 da manhã. Os viajantes que vêm do sul e pretendem chegar à estação ferroviária central podem apanhar o comboio de levitação magnética ou um táxi aéreo. Percurso alternativo: em direcção ao Cabo da Boa Esperança e depois sempre em frente.


*** 

Por fim, uma notícia da série “Autocarro, mas feliz”: a nossa leitora Barbara Pickel tem encontro marcado com a Staatsoper às 19h00. Pouco antes das 18h00, na estação do Zoo, entra no autocarro com o seu andarilho - mas é o autocarro errado. O seu plano de mudar para um táxi na Potsdamer Platz corre o risco de falhar devido ao trânsito intenso e às muitas paragens. Pouco antes das 18h30, com muito esforço consegue chegar perto do motorista do autocarro, e pergunta-lhe se chegarão a tempo à Potsdamer Platz... “Nem pensar!”, responde ele com a crueza berlinense, e logo abre a janela lateral, fazendo sinal ao taxista perto dele para parar imediatamente. “Tenho aqui uma senhora idosa que quer ir à ópera às 19h00, dê-lhe boleia!”, grita na sua direcção. O taxista abre a porta e Barbara Pickel sai apressadamente pela porta da frente do autocarro com a “carroça”, como ela chama ao seu andarilho, e entra na parte de trás do táxi. Mas já lá está sentada outra senhora. Para onde é que ela quer ir? “ Ora bem, à Staatsoper, às 19h00!” E mais uma vez nos damos conta de que os melhores filmes de Berlim continuam a passar-se na vida real - mesmo com finais felizes.


26 maio 2024

trabalhar ao domingo

 



Esta manhã, bem cedinho, vi que a nossa produção de mel vai de vento em popa. Somos capitalistas à moda antiga: em troca de um tecto por cima da cabeça, um pouco de água no verão e algum conforto no inverno, o nosso povo trabalha de sol a sol, todos os dias da semana. Nós esfregamos as mãos de contentes e vez por outra elogiamos muito a sua moral do trabalho.

(Nota mental: distribuir uns frasquitos de mel aqui na rua para agradecer o uso dos recursos e da propriedade alheia. É certo que a lei é omissa quanto ao uso das rosas dos vizinhos, mas ao fim e ao cabo nem com uma dúzia de gripes e constipações consigo dar cabo dos nossos produtos em armazém.)

Caso perguntem porque andava eu própria a fazer figura de capataz de abelhas tão cedo a um domingo, sim, adivinharam: o Fox veio cá passar uns dias. O Matthias está de férias, e há dias o amigo que ficou a cuidar do Fox, lá no apartamento que partilham, avisou-me que o bichinho andava com diarreia, e nessa manhã tinho estado a tremer e a arquejar. Fui buscar o Fox, levei-o à veterinária, tive direito à cena habitual de "ai eu por esta porta é que não entro, deves estar tola, é que nem penses!", entrámos, e enquanto eu falava com a veterinária o Fox teve novo ataque lancinante de diarreia, desatou a arquejar e a tremer junto à porta, aflitíssimo.

- Dá-me licença de o levar à rua num instantinho?, perguntei eu à veterinária.
- Então?! Estamos em plena consulta, e quer sair?
- Mas não vê que ele está a ter um ataque de diarreia?
- Vamos terminar isto que estamos a fazer, e depois leva-o lá fora. O ataque lancinante de diarreia do Fox terminou tão depressa como tinha começado. De modo que vou anotar a frase "Vamos terminar isto que estamos a fazer, e depois leva-o lá fora", porque mais milagroso que isto só mesmo homeopatia... (E o Óscar de melhor actor vai para o Fox, esse grande artistolas a quem fiquei a dever o meu embaraço mais recente.)

Depois da trovoada de ontem, hoje fez-se um dia lindíssimo. Fomos ao lago, o Fox e eu, e encontrei um pássaro pousado na água, imóvel. Parecia uma pomba. "Então as pombas agora sabem nadar?", pensei eu. "Será um boneco de plástico? Será uma cena da inteligência artificial?"

Olhei melhor: as coisas brancas na água, junto ao pássaro imóvel, não eram pétalas de rosa. Eram penas. Terá acontecido ali uma das muitas tragédias da natureza que todos os dias acontecem naquele lago aparentemente tão plácido e paradisíaco, e a pomba, ou lá o que seria, estava ainda em estado de choque, em estado de luto.

Também vimos uma cadelinha muito mansa, sem coleira nem dono, que andava pela rua tranquilamente, como se fosse uma raposa. Perguntei-me se seria um caso de Rómulo e Remo dos cães, mas pouco depois apareceu um homem de bicicleta a olhar em todas as direcções, e disse-lhe por que rua a cadelinha tinha continuado o seu caminho.

Ainda nem tomei o pequeno-almoço, e já aconteceu isto tudo. Daqui para a frente, por azar, não me vai acontecer mais nada: tenho imenso trabalho para fazer, corro a cortina para deixar o sol lá fora, e tento esquecer que hoje em Berlim é dia de festa das portas abertas na Filarmonia (pode-se acompanhar aqui, online) e dia de festa na rua para comemorar os 75 anos da constituição alemã.

De agora em diante, podem ter pena de mim. Mas só até às 3 da tarde, que é a hora a que vou tomar um cafézinho a casa de amigos, e comer o bolo de limão que ainda tenho de fazer. (Ai! Quase ia esquecendo que ainda tenho de fazer um bolo de limão!)








25 maio 2024

"galinha"

 

Passo a vida a contar isto, e se calhar na minha idade já me é permitido repetir as histórias, portanto aqui vai: a minha avó prendia as flores e soltava as #galinhas. Mesmo. As flores só faziam falta para a jarra na mesa da sala de jantar e para o cemitério, bem podiam crescer por trás de uma rede, muito juntas umas às outras, para as galinhas se espalharem pelo resto do terreiro, a debicar aqui e ali.
Quando tinha azar, cabia-me o quarto por cima do galinheiro, que era o que cheirava pior. Também havia dois por cima da loja do vinho, e a cozinha era por cima das vacas. A sala do Senhor, assim chamada porque era onde se recebia o crucifixo na Páscoa e onde se despediam os mortos (de janela aberta durante a noite, para ao menos a alma ir a Santiago de Compostela antes de o corpo ser metido na terra), era por cima da loja das batatas. Também tinha o seu cheiro, especialmente no inverno, quando as batatas começavam a grelar. Mas nada batia o fedor do quarto por cima da divisão de terra batida onde as galinhas passavam a noite.

De manhã, a avó embrulhava um pouco de milho no avental e abria o portelho das galinhas, que dava directamente para o caminho pelo meio das flores em clausura. Lá vinham as matronas, vagarosamente, atravessando aquela profusão de cores. A avó vinha à frente, chamava "polhinha! polhinha!", atirava o milho para o outro lado da sebe, esperava que passasse a última e fechava o portão.

Naquele terreiro, todos os dias eram de Páscoa: procurávamos os ovos que elas iam pondo aqui e ali. Não eram de chocolate, mas davam belas gemadas.

Às vezes havia um sobressalto no paraíso, e a seguir arroz de cabidela.

24 maio 2024

além do mais: lutar contra o preconceito em relação aos turcos pode salvar vidas

Ando há que tempos para contar esta história, e vai ser hoje: era uma vez um rapazinho turco, chamado Uğur, que é um nome que nem sei pronunciar. Aos quatro anos, Uğur veio com a mãe para a Alemanha, para se juntarem ao pai que trabalhava numa fábrica da Ford em Colónia.

O miúdo gostava muito de futebol, e também lia com gosto os livros de divulgação científica que ia levando da biblioteca da igreja (não sei se ele era cristão, ou se aquela comunidade cristã decidiu dar espaço também aos filhos dos muçulmanos). Quando estava a chegar ao fim da escola primária, os professores decidiram que o lugar de um filho de turcos era no lugar habitual para os filhos dos turcos: uma escola da via profissionalizante. Portanto, a escola primária negou-lhe a recomendação para frequentar um liceu (ou seja: o ramo de ensino intelectualmente mais exigente, que dá acesso à universidade). Um vizinho da família, um alemão, soube do caso e foi à escola protestar. Graças a essa intervenção, a escola cedeu, e Uğur conseguiu matricular-se num liceu: foi o primeiro aluno dessa escola que vinha de uma família de imigrantes turcos. Escolheu matemática e química, e terminou o liceu com o título de melhor aluno do seu ano.

O resto, já todos sabemos: estudou, fez o doutoramento, e criou com a sua mulher, também de origem turca, uma pequena empresa de investigação na área de imunologia. No início de 2020, Uğur Şahin foi uma das primeiras pessoas a dar-se conta de que estávamos no início de uma pandemia global e mortal. Em 25 de janeiro de 2020, quando ainda havia menos de 1000 casos confirmados em todo o mundo, o casal decidiu produzir uma vacina contra a doença. No dia 26 de janeiro, um domingo, Uğur Şahin identificou as primeiras oito candidatas a vacinas, e esboçou os planos técnicos de construção das mesmas.

Onze meses mais tarde, começava o processo global de vacinação.

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Pergunto: se os professores daquela escola primária alemã tivessem ido em frente com a sua decisão baseada no preconceito generalizado em relação aos turcos, e se não tivesse havido um vizinho a tomar uma posição frontal contra esse preconceito, quantas pessoas teriam morrido de covid no início de 2021 por não haver ainda uma vacina? Sim, bem sei que também foram criadas outras vacinas. Estamos a falar de uma diferença de poucas semanas, e contudo: quantas pessoas não morreram devido a essas semanas de diferença?

Falo em morte, e também posso falar em empobrecimento: graças à vacina destes investigadores filhos de imigrantes turcos, a balança de pagamentos da Alemanha aguentou-se lindamente nos tempos de recessão económica provocada pela pandemia. E a cidade onde a empresa paga os seus impostos já não sabe o que fazer a tanto dinheiro. Da próxima vez que alguém se lembrar de dizer sabe-se lá o quê sobre os turcos, lembrem-se desta história. Porque as palavras que reforçam preconceitos e se multiplicam na sociedade como algo aceitável (e, fazendo agora a ligação para a actualidade, como algo perfeitamente legítimo ao abrigo da liberdade de expressão) podem ter consequências muito graves para a própria sociedade que convive pacatamente com esses preconceitos.

e se?


Ainda a propósito de Aguiar-Branco entender que, por respeito à liberdade de expressão dos deputados portugueses, não deve intervir quando algum deles insulta tudo e todos (à excepção dos presentes no hemiciclo): e se Dijsselbloem viesse dizer outra vez que os países do sul não podem andar a gastar o dinheiro em vinho e mulheres e depois ir pedir ajuda - protestávamos, como o Costa e o Santos Silva fizeram no tempo em que eram eles quem assumia a responsabilidade de proteger o bom nome de Portugal, ou também aceitávamos que não devemos impor ao presidente do Eurogrupo "a ditadura do politicamente correcto", e que temos de respeitar a sua liberdade de expressão?

E se de hoje para amanhã no Parlamento francês, no alemão, no suíço ou no luxemburguês, algum deputado deixar escapar, pelo meio do seu discurso, que "até os portugueses, que não são propriamente conhecidos pela sua honestidade..." - ninguém protesta, certo? Porque estamos obrigados a respeitar a sua liberdade de expressão...

(A resposta é: errado. Pelo menos no que diz respeito ao parlamento alemão, caía o Carmo e a Trindade. Aquele maldito artigo 1º da Constituição alemã, sobre a inviolabilidade da dignidade humana, aquelas baboseiras sobre a dignidade da instituição e sobre o papel de modelo para a sociedade que os deputados também têm de desempenhar, ai, uma canseira...)


23 maio 2024

debate imaginário no Parlamento português


Deputado de um certo partido: - Todas as portuguesas são umas vacas! Presidente Aguiar-Branco interrompe: - Lembro ao Senhor Deputado que não pode ofender as pessoas presentes nesta Assembleia. A sua liberdade de expressão, que respeito inteiramente, só prevê a possibilidade de ofender ou injuriar quem não participa neste debate. Deputado corrige: - Todas as portuguesas são umas vacas, excepto as digníssimas Senhoras Deputadas aqui presentes. Membros do partido desse deputado: - E a minha mãe! Membro desse mesmo partido, quase inaudível: - E a minha mulher! E a minha barregã!

[ Daqui: "O presidente da Assembleia da República, Aguiar-Branco, elaborou um parecer para não deixar margem para dúvidas sobre este assunto no futuro (...) De acordo com Jorge Paulo Oliveira [porta-voz da conferência de líderes], o documento defende que “uma ofensa dirigida a qualquer deputado, grupo parlamentar, partido político extravasa o que é a liberdade de expressão e deve merecer um reparo do senhor presidente da Assembleia da República", explicou. "Mas coisa diferente é quando essa ofensa ou injúria é dirigida aos não participantes no debate”, acrescentou.

Como se não fosse suficientemente mau, ainda assim, o presidente da Assembleia da República propõe a revisão do regimento para a criação de um voto de repúdio/rejeição. 'Criamos uma figura do chamado voto de repúdio perante qualquer injúria a terceiros não participantes no debate, que pode ser apresentado por qualquer grupo parlamentar', disse Jorge Paulo Oliveira."

Parece-me um sinal bastante evidente de que o Presidente da Assembleia da República não se sente à vontade para exercer a autoridade decorrente do cargo que ocupa, a autoridade que é condição indispensável para cumprir o seu dever de velar pela dignidade institucional. Para se esquivar, passa a batata quente aos deputados. Algo que devia ser óbvio - o respeito por um dos princípios básicos da Constituição, concretamente: nenhuma etnia pode ser considerada menos digna - é agora algo discutível e passível de ir a votos. Algo que devia ser básico e indiscutível torna-se um factor que cria ainda mais ruído no plenário, ainda mais tensões entre os partidos, ainda mais polémicas mediáticas, ainda mais desencanto com o sistema democrático. Parabéns, Aguiar-Branco! (Às tantas, já começavam a vender bilhetes para assistir àquele circo, sempre era uma maneira de arranjar fundos para pagar a terceira travessia do Tejo - ao menos isso.) A solução alemã parece-me preferível: o Presidente sabe estar à altura do lugar que ocupa, e chama a atenção ao deputado que no seu discurso está a ofender algum grupo social. Se o deputado não acatar o julgamento do Presidente, só então o Parlamento vota sobre o caso.

A cereja no topo do bolo (ainda na mesma notícia): "Uma vez que o texto de José Pedro Aguiar-Branco recolheu consenso da maioria dos partidos, o presidente da Assembleia já não vai ouvir os antigos presidentes do Tribunal Constitucional." Good job. Se calhar já aumentavam o salário dos deputados e reduziam os do Tribunal Constitucional, já que uns vão fazer o trabalho dos outros.



21 maio 2024

no parlamento federal alemão, não pode - nem por sombras





Para memória posterior, aqui fica registado que aconteceu no Parlamento português, em 17.5.2024:

Pergunta da deputada Alexandra Leitão: "Se uma determinada bancada disser que uma determinada raça, ou uma determinada etnia, é mais burra, mais preguiçosa ou menos digna - também pode?"

Resposta de Aguiar-Branco, Presidente da Assembleia da República: "No meu entender, pode." A seguir, justifica: "A liberdade de expressão está constitucionalmente consagrada. A avaliação do discurso político que seja feita aqui nesta casa será feita pelo povo, em eleições." E insiste: "Não serei eu nunca a cercear a liberdade de expressão de um senhor deputado."

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Passei pelas redes sociais, encontrei o circo instalado. De um lado, o gozo e os aplausos por parte dos adeptos do "quanto pior, melhor". No outro extremo, este desabafo dos professores tocou-me especialmente: "se o presidente da Assembleia da República diz que o discurso racista está protegido pela liberdade de expressão, retira aos professores a autoridade para impedir comportamentos ou discursos racistas na sala de aula, e está a torpedear o cumprimento de um dever da escola, que é a construção de uma sociedade democrática e coesa, assente no respeito pelos direitos garantidos pela Constituição."

Em vez de repetir neste blogue o que por aí se diz e lê em português, traduzo alguns textos da comunicação social alemã, apenas com o intuito de informar sobre como se fala sobre estas questões na Alemanha (lembram-se? É o país onde Hitler chegou ao poder por via democrática – e “gato escaldado”...)

Não sou especialista destes temas. Limitei-me a fazer uma pesquisa sumária com o auxílio do google, e a traduzir algumas das primeiras páginas que me apresentou. Aqui, por ordem cronológica:

 

 

17.5.2018
Excertos de um artigo sobre as ofensas às normas e à dignidade do Parlamento Federal alemão (Bundestag), alguns meses depois de nele existir uma facção da AfD:

 

Quem preside a uma sessão parlamentar tem à sua disposição várias possibilidades para manter o respeito pela ordem e pela dignidade do Parlamento. Entre elas: repreensão, chamada à ordem, expulsão da sala (pode ir até 30 dias).

Na primeira legislatura (1949 a 1953) e na décima (1983 a 1987) foi preciso recorrer inúmeras vezes a esses instrumentos. A décima legislatura coincidiu com a entrada no Parlamento de um jovem partido: os Verdes. Famosa ficou a sessão em que Joschka Fischer disse ao presidente: "Com todo o respeito, o senhor é um cabrão". Foi expulso da sessão, e no dia seguinte pediu desculpa. As legislaturas seguintes tornaram-se muito calmas no que diz respeito ao tom do debate parlamentar. Com a entrada da AfD, no Outono de 2017, recomeçou a necessidade de velar para manter a ordem e o nível nas sessões parlamentares. Várias vezes os deputados da AfD foram interrompidos pelo presidente da sessão por se expressarem de forma "inapropriada para o Parlamento", ou "em moldes que não são habituais entre nós". Em Maio de 2018, a líder do grupo parlamentar da AfD, Alice Weidel, afirma no seu discurso: "Burkas, raparigas de lenço na cabeça, assassinos de faca a viver de subsídios e outra gente sem préstimo não vão garantir a nossa prosperidade, o crescimento económico e, acima de tudo, o Estado social". O presidente do Bundestag, Wolfgang Schäuble, interrompe-a: " A senhora deputada está a discriminar todas as mulheres que usam um lenço na cabeça. Por isso, chamo-a à ordem". Weidel apresentou uma objecção, que foi a votação e rejeitada pela maioria dos deputados.

  

14.6.2018
Um deputado da AfD usa o seu tempo de intervenção para fazer um minuto de silêncio em memória de uma jovem de 14 anos que fora encontrada dias antes sem vida, alegadamente assassinada por um refugiado.

A vice-presidente do Parlamento insiste para que o deputado fale sobre o tema do debate, e acaba por expulsá-lo do pódio, uma vez que não acata as suas ordens. Na semana seguinte, ao dar início aos trabalhos do plenário, o presidente da Assembleia fez algumas declarações sobre o assunto e admoestou a facção da AfD. Queixou-se de que o grupo parlamentar do AfD tinha publicado um vídeo da cena numa rede social, pouco depois do incidente, criticando a vice-presidente do Parlamento. Consequentemente, a deputada foi difamada, insultada e ameaçada em inúmeros comentários, e-mails e telefonemas - de tal forma que se pesou a necessidade de lhe dar protecção policial.

Afirmou que não é permitido "criar uma espécie de minuto de silêncio por meio de um silêncio demonstrativo", que o tempo de uso da palavra de um deputado está limitado a intervenções, e que o Presidente do Bundestag é o único que decide sobre os minutos de silêncio e as cerimónias de homenagem no Parlamento. A "encenação" do AfD não só resultou em violações dos direitos de personalidade, como também afectou o Bundestag enquanto órgão constitucional: "A mera aparência de instrumentalização das vítimas de crimes não é compatível com a dignidade do Parlamento Federal". Continuou, dizendo que as disputas no parlamento devem seguir regras, e que o que acontece no Bundestag tem consequências para o debate público: "Pode ser o modelo para um debate civilizado. Mas também pode ser uma causa para o ódio e a agitação, para o embrutecimento e até para as piores formas de violência. (...) Faz parte da nossa responsabilidade aprender com a experiência da nossa história a facilidade com que disputas irresponsáveis podem levar ao ódio e a uma escalada de violência. (...) Temos de manter a moderação para não envenenar o nosso clima político e social."

 

5.9.2023
Artigo no jornal Welt:

Na abertura da sessão parlamentar, a presidente do Bundestag, Bärbel Bas (SPD), apelou aos deputados para que se tratem com respeito. O número de medidas disciplinares aplicadas está "muito acima do nível" das legislaturas anteriores. (...) Criticou a forma como os deputados se comportam em plenário e apelou a que dêem o exemplo. "Caros colegas, todos sabemos que o discurso e a resposta são determinantes para um debate argumentativo e pacífico. Quem se serve do discurso para emitir provocações, generalizações e banalidades, quem insulta e agride, fica à margem do discurso argumentativo." Muitas sondagens mostram que a confiança nas instituições políticas está a diminuir. Por isso, apelou aos membros do Bundestag para que levem a sério a sua responsabilidade de dar o exemplo.

  

6.9.2023

Um deputado da AfD comparou de forma indirecta Angela Merkel a Hitler

 

Disse ele: "Exceptuando um 'cabo da Boémia', nenhum político trouxe tanta desgraça à Alemanha como esta ex-chanceler." A vice-presidente do Parlamento Federal repreendeu-o nestes termos: "No Bundestag, pode exprimir-se qualquer opinião, mas o que não se pode fazer é insultos pessoais. E o que também não é aceitável é equiparar as pessoas que trabalham na política deste país àquelas que ocuparam o poder durante o nacional-socialismo. (...) Não é apropriado para o Parlamento. E não vamos tolerar isso nesta Assembleia."


21.1.2024
Artigo no jornal SZ (não directamente sobre discurso racista ou xenófobo no Parlamento, mas sobre o modo de debater e exprimir discordância)

O ambiente no país está a ficar mais irritável - e os debates no Bundestag estão cada vez mais agitados. Por isso, o número de vezes que os deputados foram chamados à ordem aumentou consideravelmente. Só no ano passado, a presidência do Parlamento recorreu a este instrumento 51 vezes para penalizar deslizes verbais e outros comportamentos incorrectos. Este número foi superior ao registado em toda a legislatura anterior, de 2017 a 2021, na qual, de acordo com um resumo do Bundestag alemão, foram emitidas 49 chamadas à ordem. Daquelas 51, 30 foram para a AfD. Dois deputados (Beatrix von Storch, da AfD, e Michael Schrodi, do SPD) chegaram a ser penalizados com uma coima de 1000 Euros cada um. As estatísticas sobre as medidas disciplinares impostas em cada legislatura por violação das normas ou da dignidade do Parlamento mostram claramente que o ambiente se tornou muito mais áspero com a entrada da AfD, nas eleições de 2017. Em toda a 18ª legislatura (2013 a 2017), apenas tinham sido emitidas duas chamadas à ordem, e apenas uma na 17ª legislatura.


28.2.2024
Artigo sobre o modo como a AfD sabe usar as redes sociais e, inclusivamente, delineia os discursos no Parlamento para terem o maior impacto possível em plataformas como o Tiktok:

"Ao contrário de outros partidos, a AfD utiliza sistematicamente o Tiktok; os políticos da AfD são treinados para fazer discursos adequados a esta plataforma, com palavras no local certo para suscitar indignação e frases curtas e nítidas (mensagem central ou punch line)."

 

21.4.2024 
O Parlamento bávaro discute uma lei dos deputados nova, que pune de forma bem mais severa os comportamentos de desrespeito ao Parlamento

Os partidos CSU, Eleitores Livres, SPD e Verdes concordaram que, no futuro, os deputados poderão ser multados até 4000 euros se tiverem um comportamento inadequado no Parlamento - no hemiciclo, mas também noutras ocasiões, possivelmente de carácter social. Poderão também ser excluídos dos debates durante semanas. "Precisamos desta lei com muita urgência", disse o deputado que apresentou a proposta.


17.5.2024
Entrevista a Yvonne Magwas, vice-presidente do Bundestag, no jornal "Das Parlament"


Excertos:


A propósito do ataque ao deputado do SPD Matthias Ecke, que no princípio de Maio de 2024 foi barbaramente atacado em Dresden quando andava a colar cartazes, e teve de ser operado porque tinha vários ossos da face partidos (*), a vice-presidente do Parlamento Federal alemão diz: "É assustador que seja necessária uma tomada de posição condenando a violência física durante as campanhas eleitorais. O que está a correr mal? Até certo ponto, também podemos ver no Bundestag alemão que o clima do debate mudou. Endureceu. As chamadas à ordem são vistas pelos deputados da AfD como troféus. A difamação é usada para desafiar os limites do que pode ser dito. O que tem muito a ver com o facto de a AfD fazer isto em grande escala e de, com demasiada frequência, outros se juntarem a ela. O que leva a um clima exaltado no debate. E, infelizmente, as palavras são seguidas de actos."

Sobre o endurecimento na cultura de debate no Parlamento, cuja responsabilidade é atribuída ao grupo parlamentar da AfD: "As medidas disciplinares do regulamento do Parlamento ainda têm um certo efeito. No entanto, também nos apercebemos de que é necessário tornar este regulamento mais rigoroso. Penso, por exemplo, que temos de trabalhar muito mais com o instrumento das coimas em vez das repreensões. A alteração está atualmente em curso. Os partidos da coligação e da oposição democrática estão a dialogar sobre o assunto e nós, enquanto Comissão Executiva, apresentámos propostas. As conversações chegaram agora a uma fase muito concreta."


(*) Matthias Ecke na Spiegel, após o ataque de que foi vítima: "A AfD envenenou o clima social nos últimos anos. Estamos perante uma desinibição planeada e um embrutecimento organizado, que são acções deliberadas da AfD, em conjunto com outras estruturas de extrema-direita."

16 maio 2024

anda comigo ver os aviões...

 

A ver a discussão que por aqui vai sobre o nome do novo-aeroporto-que-há-de-vir, e a pensar que se podia fazer um concurso nacional para toda a gente votar. Era um bom exercício até ao 10 de Junho: que português ou portuguesa se ergue acima do seu tempo e levanta o nosso olhar?

Mas logo a seguir caio na real: os nomes ligados à Cultura, à Democracia e/ou à História iam concorrer uns com os outros, anulavam-se mutuamente e no fim ganhava outra vez Salazar!

Ou então, ganhava a Rita Matias, que tem muito jeito para o tiktok.

Vá, todos caladinhos!
Luixe de Kamoixe está muito bem.


13 maio 2024

"quiromancia" (2)

 

Quantos riscos haveria nas palmas das mãos da senhora Aurora, a vizinha da minha avó, que teve 10 filhos, morreram 3? Quantos sulcos profundos tinha ela?

Nas mãos da mãe: como seria o risco do Querubim, que andei tantos anos a pensar que se chamava Curbinhe? E o do Paulo, que morreu num acidente de carro quando voltava da tropa? E o da Fernanda, que aos cinco anos já era responsável pelo bebé, o Bito? O risco do Bito estava gravado na mão da Fernanda, ou na da mãe?

E quem desenha os riscos nas nossas mãos, quem decide "tu, Fernanda"? Quem decide "tu, Helena"?

"quiromancia"


Não me falem de #quiromancia, maldita quiromancia!
Dá-se o caso de uma grande amiga da minha sogra dizer que lê as linhas da mão, e num dos aniversários da senhora se ter posto a ler o destino de toda a gente que estava à mesa. A mim, encontrou-me dois filhos na palma da mão. Essa é fácil de adivinhar, porque ela bem sabe da Christina e do Matthias. Espertinha...
Depois chegou a vez do meu marido, mas ela olhou e olhou e olhou e só lhe viu um filho.
Tudo isto à frente da minha sogra.

11 maio 2024

quase ia sendo uma notícia fantástica (para mim)

 




Quando fiz 50 anos, o Joachim prometeu-me uma viagem ali para os lados do Pólo Norte, para ver a aurora boreal. Só que nós percebemos tanto de aurora boreal como sei lá do quê. Na internet mostram alojamentos espectaculares com vidro por cima da cama para podermos assistir ao milagre no quentinho e tal, tudo caríssimo, mas ponho-me a pensar que se calhar gastamos o dinheiro e não vemos nada porque calha de irmos nos dias em que a aurora boreal deixa um recado na montra a dizer „volto já“, e nós ali. Além do mais nunca dá jeito tirar férias nessa altura, e mais isto e mais aquilo. Ainda não fomos.

O que se segue é um caso de „tenho uma notícia boa e uma notícia má, qual querem primeiro?“
De facto, é um caso de „tenho uma notícia boa, quase ia tendo uma notícia fantástica e tenho uma notícia má, qual querem primeiro?“
A boa: ontem viu-se a aurora boreal em Berlim.
A que quase ia sendo uma notícia fantástica: ontem fomos com amigos ver o pôr do sol no céu sobre Berlim, no Klunkerkranich.
A má: vimos o pôr do sol no céu sobre Berlim, acabámos a garrafa de vinho, decidimos que era hora de ir para casa... e quando chegámos a casa ficámos a saber que durante a viagem o céu sobre Berlim se enchera de magia.

Suspeito que seja o universo a dizer „Ó moça, já fui tantas vezes simpático contigo, vieram-me dizer que andava a exagerar e que até parece que tenho filhos e enteados...“
E eu: „Pronto, está bem. De facto já tive muita sorte até agora.“

(Mas hoje à noite - não contem ao universo - vou para o terraço no topo da casa e fico lá de atalaia.)

(E espero que hoje venha em verdes e azuis, porque os rosa que vi nas imagens de ontem não são assim tão interessantes. 😉 )

07 maio 2024

"polvo"

 


Ontem foi dia de se falar do polvo na Enciclopédia Ilustrada. Um tema fracturante, porque sendo um bicho tão inteligente e patati patata, e mais aquele documentário que ganhou o óscar, e assim, fica um bocadinho difícil continuar a comê-lo em boa consciência. De modo que é isto: continuo a comer, mas sinto remorsos.
Bem...
Diz Bill François, neste livrinho de histórias de encantar, que o #polvo é o ser mais inteligente do nosso mundo, e que só não é a espécie que o domina porque cada geração tem de aprender tudo do princípio, uma vez que a mãe morre mal os polvinhos saem do ovo, e portanto os órfãos não têm ninguém que faça a transmissão. De certo modo são sempre os primeiros no mundo, como Adão e Eva, mas sem acesso à árvore da sabedoria, digamos assim, porque essa já está morta e enterrada. Já está morta e enmarada. Já está morta e demolhada.
Ora bem: se fossem assim tão tão tão inteligentes, inventavam a figura da polva que fica para tia e ensina tudo aos sobrinhos. Ou que vai para freira e passa aos sobrinhos a receita para os doces conventuais e tudo o resto.
Portanto: os polvos podem ser muito inteligentes e tudo o mais que já foi dito, mas inteligente, o que se chama verdadeiramente inteligente, é a espécie que inventou as tias.
(Embrulha, polvo!)


24 abril 2024

Grândola em Berlim

 


E você, o que fez para comemorar o cinquentenário do 25 de Abril?

Eu estive nesta flashmob. Senti a alegria e a solenidade daqueles 40 portugueses que quiseram dar a Berlim um sinal da nossa festa grande.

Comovi-me com as crianças que levaram cravos pintados em cartazes, para terem a certeza de que não faltaria ali o símbolo da nossa revolução. A nossa revolução, que com esta flasmob se tornou também um pouco mais delas.

Enquanto o grupo se preparava, falei com a polícia que vinha saber o que estávamos ali a fazer, e perguntou o significado dos cravos vermelhos que todos trazíamos na mão.

("Vêm na mão, porque os que trazemos no coração não se vêem", pensei.)

Ela ficou encantada com a história de um golpe militar que ao fim de umas horas ganhou tamanha adesão popular, do derrube da ditadura (quase) sem derramamento de sangue. Contei-lhe das imagens de alegria e inocência: os cravos vermelhos na cidade, as crianças sentadas no passeio a observar com interesse o soldado estendido no chão à frente delas.

Então, começámos a cantar. E o cravo que trazemos no coração ficou ainda mais vermelho e alegre.

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A flashmob foi no domingo passado. A gravação vai para o ar às 00h20m do dia 25 de Abril. Poderão ver aqui: https://youtu.be/fEm4qirtbf8

por um triz

 


Por estes dias tenho andado a pensar que estou na cidade certa para festejar o cinquentenário do 25 de Abril: a capital do país onde quase 90% dos eleitores portugueses souberam resistir à estratégia de mentiras e ódio de um partido que bem sabemos.

É a cidade certa, mas nada de euforias, porque estes são tempos difíceis: segundo um inquérito recente, 22% dos jovens alemães querem votar na extrema-direita, porque não vêem perspectivas para si. Votam AfD, o partido daquele dirigente que choraminga por estarmos a ser demasiado severos com Hitler, o partido do deputado que recebeu dinheiro de uma fonte de propaganda russa (e queixou-se num telefonema que não devia ter vindo em notas de 200 euros, é uma maçada, muitas lojas não aceitam notas tão grandes...) e cujo cabeça de lista às eleições europeias tinha um assistente que passava à China informações sobre opositores ao regime chinês e documentos confidenciais do Parlamento Europeu. Tudo alemães de bem...

Estes jovens que têm uma vida difícil e por isso votam num partido de mentiras e ódio, de traição aos valores humanistas e de traição à pátria, lembram-me a frase conhecida dos pais de antigamente: "Estás a chorar? Espera aí que daqui a pouco vais ter motivos para chorar a sério!"


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Mas, para já, vamos festejar o nosso "25 de Abril sempre!" com toda a alegria.

Porque, como avisa o poeta: "para sempre é sempre por um triz".

06 abril 2024

o regresso de Wladimir Kaminer


Como todos os outros, também o texto no meu post anterior tem uma história. Começou num lago em Brandeburgo, num dia primaveril. Estávamos num barquito com Wladimir Kaminer, o escritor alemão de origem russa que vive há mais de trinta anos em Berlim, e queríamos espreitar os castores no seu afã de construção. “Desde que tenho este motor eléctrico no barco, o lago tornou-se muito mais interessante, porque vou a todo o lado sem fazer barulho, os animais não se assustam”, comentou.  Os animais deviam estar a fazer a sesta, porque não vimos nenhum. Ficámos por ali a saborear o sol e a paz, e a conversar amenamente. Wladimir Kaminer tinha de escrever um texto sobre a Páscoa, a pedido de uma organização das Igrejas Evangélicas alemãs que distribui textos para publicação nos jornais das comunidades locais, e faltavam-lhe ideias. 

Num impulso, disse-lhe que me ocorriam duas ou três frases sobre o assunto, e que depois lhe enviaria. De regresso a casa, escrevi o texto do post anterior, e enviei-lho. Só muito depois me dei conta do desplante e da ousadia: que escritor aceita sem melindre que alguém lhe sugira o que escrever sobre um tema? 

Wladimir Kaminer leu, e respondeu logo, elogiando imenso o meu texto, e que merecia ser publicado em todos aqueles jornais e revistas, e que o ia enviar à organização evangélica. Estou convencida que nem lhe passou pela cabeça, ou pelo coração, sentir-se ameaçado no seu orgulho de criador e de escritor famoso. E eu, que já gostava muito do que ele escreve, fiquei a admirar ainda mais o ser humano que existe por trás dos seus livros. 

De facto, não era novidade. Já me tinha dado conta da sua humanidade dez anos antes, quando assisti a três entrevistas consecutivas que lhe fizeram por ocasião do lançamento do “Viagem a Tralalá”. Cada jornalista fazia praticamente as mesmas perguntas, mas, de cada vez, Wladimir Kaminer abria um sorriso enorme, como se tivesse estado toda a vida à espera daquele momento e por fim aparecia alguém para falar sobre o tão almejado assunto. E, de cada vez, a resposta era diferente.   

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Conheci Wladimir Kaminer em 2011, quando estava a traduzir o “Viagem a Tralalá”. Tinha dúvidas em relação a algumas passagens do livro, que queria esclarecer com ele. Picuinhices do género “quando usa a palavra ‘bode’ como insulto num diálogo, está a pensar em russo ou em alemão? Que animal devo usar para um insulto correspondente em português?” De férias numa ilha do Mar Báltico, descobri que ele ia ter uma sessão de leitura no teatro local. Comprei bilhete, falei com a organizadora, que era também a jornalista da terra e ficou muito satisfeita por poder acrescentar mais uma frase empolgante ao seu artigo sobre o evento (“a tradutora portuguesa de Wladimir Kaminer também estava presente na sessão”), e foi assim que nos conhecemos, fizemos uma fotografia para o jornal, e eu pude esclarecer todas as dúvidas. O lançamento do “Viagem a Tralalá” foi assinalado com uma “Russendisko” épica na Pensão Amor, em Lisboa, que obrigou a fechar as portas porque o chão estava em risco de ceder com tantas pessoas a dançar ao ritmo daquelas músicas russas e ucranianas. E foi também ocasião de dar a conhecer ao casal Kaminer alguns lugares especiais de Portugal: Óbidos, onde já em 2012 brindámos com tristeza à memória dos tantos que Putin enviava para a morte; a biblioteca de Mafra e um concerto extraordinário com os quatro órgãos; Marvão e Estremoz, onde estávamos a passear quando a filha telefonou e, ao ouvir a descrição da mãe (“Dormimos numa pousada onde há uma torre toda feita de mármore, numa cidade onde até os passeios são de mármore branco!”), perguntou se os pais tinham ido parar sem querer ao País das Maravilhas. 

Mais tarde, tiveram oportunidade de conhecer outros lugares encantados de Portugal. Alguns deles fizeram o seu caminho até um livro. A feira de Barcelos, por exemplo: “um mercado do outro lado dos montes”, que aparece em “Duas ou três coisas que sei sobre a minha mulher”, onde Wladimir Kaminer conta a história dos guardanapos bordados que Olga comprou (“e foi nesse dia que uma família portuguesa se tornou milionária”), que no final de Dezembro são tirados do armário para pôr na mesa da festa de passagem de ano, olhados longa e amorosamente, e de novo guardados no armário porque são demasiado bonitos para se sujarem naquela festa cheia de excessos. Moral dessa história sobre o sentido da existência: “todos precisamos de alguém que nos dê amor.”

Da feira de Barcelos passámos à famosa Russendisko berlinense de Wladimir Kaminer, onde o meu marido e eu trabalhávamos com o prazer de voluntários: ele chegou a dar os primeiros passos como DJ, eu ficava na caixa e recebia centenas de sorrisos por noite. O ambiente era alegre e descontraído. Ao contrário de todos os outros clubes de Berlim, onde os seguranças usam e abusam do seu lugar de poder, a função dos seguranças à porta do Kaffee Burger, junto à Rosenthaler Platz, era apenas verificar se as pessoas não estavam demasiado embriagadas, a ponto de provocarem distúrbios. Os outros, todos os outros, eram bem-vindos naquele lugar profundamente democrático e livre. 

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Doze anos mais tarde, traduzo novo livro de Wladimir Kaminer: “Pequeno-almoço à Beira do Apocalipse”, editado pela Zigurate. Um livro que olha com humor e amor para nós e para as respostas que vamos encontrando perante as múltiplas crises e perplexidades do tempo em que vivemos. 

Foi um prazer enorme traduzir cada uma daquelas frases. Também foi um trabalho intenso, porque as frases de Wladimir Kaminer só aparentemente são simples. Ele serve-se da língua alemã com uma mestria que torna particularmente difícil recriar noutra língua frases igualmente curtas e tão plenas de sentidos. Um trabalho desafiante. 

As linhas que se seguem vão parecer publicidade, mas eu entendo-as como serviço público. Depois me dirão. 

O lançamento de “Pequeno-almoço à Beira do Apocalipse” vai ser em Lisboa, no dia 9 de Abril, às 18:30, na Escola Alemã. Ricardo Araújo Pereira apresenta o livro. No final, para a alegria ser completa, Wladimir Kaminer vai mostrar o seu lado DJ para nos oferecer ali mesmo um pouco da famosa Russendisko do Kaffee Burger. Devido à invasão da Ucrânia, a Russendisko anda à procura de outro nome. Em Portugal, no dia 9 de Abril de 2024, será, como não podia deixar de ser, a nossa Aprildisko. 

No dia 10 de Abril, às 19:00, haverá no Goethe Institut, também em Lisboa, uma conversa de Wladimir Kaminer com Aurora Rodrigues, Irene Pimentel e Leonor Rosas sobre “O charme discreto da ditadura – o que leva as pessoas a glorificar ditadores?”
Joana Manuel será a moderadora.

É a resposta a um interesse manifestado pelo escritor, que quer aprender mais sobre a ditadura portuguesa e tentar responder à questão do misterioso poder apelativo das ditaduras e dos ditadores. Todos conhecemos o fenómeno em Portugal (“ah, se Salazar aqui estivesse...”), e Wladimir Kaminer conhece-o bem na Rússia: desde Estaline quase ter sido eleito “o melhor de nós” num concurso televisivo (que foi interrompido para impedir o facto consumado), até jovens russas que todos os anos posam para calendários eróticos que oferecem a Putin, sem que alguém as obrigue a isso, apenas porque gostam realmente do seu ditador.
  
Dada a importância deste tema, mais pertinente ainda no ano em que comemoramos o cinquentenário do 25 de Abril, e no momento político que atravessamos em toda a Europa, foi organizado um streaming com tradução simultânea, que permite assistir em todo o mundo à sessão do Goethe Institut. Mais informações aqui (em português) e aqui (em alemão).   

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Para terminar, e a propósito da viragem à extrema-direita a que temos assistido no mundo, passo a palavra a Wladimir Kaminer: “Não podemos soçobrar no mar da loucura. Temos de manter a razão e o humor, continuar confiantes. Estamos perante „obras do diabo“, que se destruirão a si próprias. Não devemos demonizar os confusos. O Bem acaba por prevalecer, por formas que não sabemos explicar.”

 
Por formas que não sabemos explicar, diz ele. Talvez seja, afinal, a acção do tal Ser desconhecido de que falava no final do meu texto sobre aPáscoa: que apela ao melhor que há em nós, e nos convida a ir para além da nossa imperfeição humana, com vista à construção de um mundo melhor para todos.