23 setembro 2020

mas afinal qual é, concretamente, o problema da disciplina de Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento?

Tento compreender os motivos que podem levar os encarregados de educação a alegar objecção de consciência para impedirem os menores a seu cargo de frequentar a disciplina obrigatória de Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento, mas está difícil, porque os argumentos permanecem demasiado vagos. Limitam-se a falar em "ideologia" e "temas que não são do âmbito da escola". Se pergunto um pouco mais, falam-me em "sexualidade" e "ideologia de género". Mas o que quer dizer isso, concretamente?

No final deste post partilho as linhas orientadoras desta disciplina, e apelo aos objectores de consciência para que informem sobre quais são as partes do programa dessa disciplina com as quais não concordam, e porquê. Agradeço também que apresentem casos reais de excessos cometidos em alguma escola, para podermos averiguar se se trata de um excesso ocasional a corrigir localmente, ou se é algo que abrange todo o sistema.

Quanto aos argumentos que já avançaram relativos a "sexualidade" e "ideologia de género", pergunto aos objectores de consciência: 

1. Porque é que, no que diz respeito à sexualidade, não querem que os menores a vosso cuidado recebam da escola "informações rigorosas relacionadas com a protecção da saúde e a prevenção do risco"? (v. as linhas orientadoras da disciplina, que partilho abaixo)
Ou será que conhecem casos de professores que se excederam, e trataram o tema "sexualidade" de uma forma nociva aos interesses dos alunos?

2. Porque é que não querem que a escola desconstrua "preconceitos e estereótipos de género, de forma a garantir as mesmas oportunidades educativas e opções profissionais tanto para rapazes como para raparigas"? Porque é que uma sociedade que tem a igualdade de oportunidades como princípio básico deve reconhecer a um encarregado de educação o direito de inculcar princípios contrários àquele, sem que ao menor seja oferecida a possibilidade de qualquer contraditório? 

3. Porque é que não querem que a escola informe os menores a vosso cuidado sobre a existência de orientações sexuais diversas, e lhes incuta o princípio do respeito por todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual?
Ou será que conhecem casos de professores que se excederam, e - por exemplo - fizeram a apologia dessas orientações sexuais como algo preferível à heterossexualidade?

4. Porque é que não querem que a escola informe os menores a vosso cuidado sobre a existência de pessoas que não identificam o seu género com o seu sexo biológico, sublinhando que essas pessoas merecem respeito? O que há de errado na informação sobre a existência de pessoas transexuais, e no alertar para as dificuldades da sua vida no contexto de uma sociedade maioritariamente binária?

Será que acreditam realmente que essas pessoas não existem? E, nesse caso, por que motivo deve a sociedade reconhecer a um encarregado de educação o direito de negar ao menor a seu cuidado informações fundamentais para a coexistência numa comunidade mais diversa do que aquilo que esse adulto está capaz de reconhecer e aceitar?

Agradeço sinceramente que me respondam a estas questões. 
 

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Educação paraa Cidadania - Linhas Orientadoras

A prática da cidadania constitui um processo participado, individual e coletivo, que apela à reflexão e à ação sobre os problemas sentidos por cada um e pela sociedade. O exercício da cidadania implica, por parte de cada indivíduo e daqueles com quem interage, uma tomada de consciência, cuja evolução acompanha as dinâmicas de intervenção e transformação social. A cidadania traduz-se numa atitude e num comportamento, num modo de estar em sociedade que tem como referência os direitos humanos, nomeadamente os valores da igualdade, da democracia e da justiça social.

 

Enquanto processo educativo, a educação para a cidadania visa contribuir para a formação de pessoas responsáveis, autónomas, solidárias, que conhecem e exercem os seus direitos e deveres em diálogo e no respeito pelos outros, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo.

 

A escola constitui um importante contexto para a aprendizagem e o exercício da cidadania e nela se refletem preocupações transversais à sociedade, que envolvem diferentes dimensões da educação para a cidadania, tais como: educação para os direitos humanos; educação ambiental/desenvolvimento sustentável; educação rodoviária; educação financeira; educação do consumidor; educação para o empreendedorismo; educação para a igualdade de género; educação intercultural; educação para o desenvolvimento; educação para a defesa e a segurança/educação para a paz; voluntariado; educação para os media; dimensão europeia da educação; educação para a saúde e a sexualidade.

 

Sendo estes temas transversais à sociedade, a sua inserção no currículo requer uma abordagem transversal, tanto nas áreas disciplinares e disciplinas como em atividades e projetos, desde a educação pré-escolar ao ensino secundário, de acordo com os princípios definidos no Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho, com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 91/2013 de 10 de julho. Subjacente a esta conceção educativa, está uma visão integradora das diversas áreas do saber que atravessa toda a prática educativa e que supõe, para além de uma dinâmica curricular, também uma vivência de escola, coerente e sistemática, alargada ao contexto em que esta se insere.

 

A abordagem curricular da educação para a cidadania pode assumir formas diversas, consoante as dinâmicas adotadas pelas escolas no âmbito da sua autonomia, nomeadamente através do desenvolvimento de projetos e atividades da sua iniciativa, em parceria com as famílias e entidades que intervêm neste âmbito, no quadro da relação entre a escola e a comunidade. Não sendo imposta como uma disciplina obrigatória, é dada às escolas a possibilidade de decidir da sua oferta como disciplina autónoma, nos 1.º, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico. Deste modo, a educação para a cidadania pode ser desenvolvida em função das necessidades e problemas específicos da comunidade educativa, em articulação e em resposta a objetivos definidos em cada projeto educativo de agrupamento de escola ou escola não agrupada.

 

Atendendo à importância que o Ministério da Educação e Ciência reconhece a esta área curricular, têm vindo a ser produzidos, em colaboração com outros organismos e instituições públicas e com diversos parceiros da sociedade civil, documentos que se poderão constituir como referenciais na abordagem das diferentes dimensões de cidadania. Os referenciais e outros documentos orientadores não constituem guias ou programas prescritivos, mas instrumentos de apoio que, no âmbito da autonomia de cada estabelecimento de ensino, podem ser utilizados e adaptados em função das opções a definir em cada contexto, enquadrando as práticas a desenvolver.

 

As diversas dimensões da educação para a cidadania são já objeto de trabalho em muitas escolas, quer transversalmente, quer através de ofertas curriculares específicas e de projetos. As dimensões para as quais já foram elaborados ou estão em elaboração documentos orientadores para as escolas são, nomeadamente:

 

A Educação Rodoviária, que se assume como um processo de formação ao longo da vida que envolve toda a sociedade com a finalidade de promover comportamentos cívicos e mudar hábitos sociais, de forma a reduzir a sinistralidade rodoviária e assim contribuir para a melhoria da qualidade de vida das populações.

 

A Educação para o Desenvolvimento, que visa a consciencialização e a compreensão das causas dos problemas do desenvolvimento e das desigualdades a nível local e mundial, num contexto de interdependência e globalização, com a finalidade de promover o direito e o dever de todas as pessoas e de todos os povos a participarem e contribuírem para um desenvolvimento integral e sustentável.

 

A Educação para a Igualdade de Género, que visa a promoção da igualdade de direitos e deveres das alunas e dos alunos, através de uma educação livre de preconceitos e de estereótipos de género, de forma a garantir as mesmas oportunidades educativas e opções profissionais e sociais. Este processo configura-se a partir de uma progressiva tomada de consciência da realidade vivida por alunas e alunos, tendo em conta a sua evolução histórica, na perspetiva de uma alteração de atitudes e comportamentos.

 

A Educação para os Direitos Humanos, que está intimamente ligada à educação para a cidadania democrática, incidindo especialmente sobre o espectro alargado dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, em todos os aspetos da vida das pessoas, enquanto a educação para a cidadania democrática se centra, essencialmente, nos direitos e nas responsabilidades democráticos e na participação ativa nas esferas cívica, política, social, económica, jurídica e cultural da sociedade.

 

A Educação Financeira, que permite aos jovens a aquisição e desenvolvimento de conhecimentos e capacidades fundamentais para as decisões que, no futuro, terão que tomar sobre as suas finanças pessoais, habilitando-os como consumidores, e concretamente como consumidores de produtos e serviços financeiros, a lidar com a crescente complexidade dos contextos e instrumentos financeiros, gerando um efeito multiplicador de informação e de formação junto das famílias.

 

A Educação para a Segurança e Defesa Nacional, que pretende evidenciar o contributo específico dos órgãos e estruturas de defesa para a afirmação e preservação dos direitos e liberdades civis, bem como a natureza e finalidades da sua atividade em tempo de paz, e ainda contribuir para a defesa da identidade nacional e para o reforço da matriz histórica de Portugal, nomeadamente como forma de consciencializar a importância do património cultural, no quadro da tradição universal de interdependência e solidariedade entre os povos do Mundo.

 

A promoção do Voluntariado, que visa o envolvimento das crianças e dos jovens em atividades desta natureza, permitindo, de uma forma ativa e tão cedo quanto possível, a compreensão que a defesa de valores fundamentais como o da solidariedade, da entreajuda e do trabalho, contribui para aumentar a qualidade de vida e para impulsionar o desenvolvimento harmonioso da sociedade. A criação de uma cultura educacional baseada na defesa destes mesmos valores reforça a importância do voluntariado como meio de promoção da coesão social.

 

A Educação Ambiental/Desenvolvimento Sustentável, que pretende promover um processo de consciencialização ambiental, de promoção de valores, de mudança de atitudes e de comportamentos face ao ambiente, de forma a preparar os alunos para o exercício de uma cidadania consciente, dinâmica e informada face às problemáticas ambientais atuais. Neste contexto, é importante que os alunos aprendam a utilizar o conhecimento para interpretar e avaliar a realidade envolvente, para formular e debater argumentos, para sustentar posições e opções, capacidades fundamentais para a participação ativa na tomada de decisões fundamentadas no mundo atual.

 

A Dimensão Europeia da Educação, que contribui para formação e envolvimento dos alunos no projeto de construção europeia, incrementando a sua participação, reforçando a proteção dos seus direitos e deveres, fortalecendo assim a identidade e os valores europeus. Pretende-se promover um melhor conhecimento da Europa e das suas instituições, nomeadamente da União Europeia e do Conselho da Europa, do património cultural e natural da Europa e dos problemas com que se defronta a Europa contemporânea.

 

A Educação para os Media, que pretende incentivar os alunos a utilizar e decifrar os meios de comunicação, nomeadamente o acesso e utilização das tecnologias de informação e comunicação, visando a adoção de comportamentos e atitudes adequados a uma utilização crítica e segura da Internet e das redes sociais.

 

A Educação para a Saúde e a Sexualidade, que pretende dotar as crianças e os jovens de conhecimentos, atitudes e valores que os ajudem a fazer opções e a tomar decisões adequadas à sua saúde e ao seu bem-estar físico, social e mental. A escola deve providenciar informações rigorosas relacionadas com a proteção da saúde e a prevenção do risco, nomeadamente na área da sexualidade, da violência, do comportamento alimentar, do consumo de substâncias, do sedentarismo e dos acidentes em contexto escolar e doméstico.

 

A Educação para o Empreendedorismo, que visa promover a aquisição de conhecimentos, capacidades e atitudes que incentivem e proporcionem o desenvolvimento de ideias, de iniciativas e de projetos, no sentido de criar, inovar ou proceder a mudanças na área de atuação de cada um perante os desafios que a sociedade coloca.

 

A Educação do Consumidor, que pretende disponibilizar informação que sustente opções individuais de escolha mais criteriosas, contribuindo para comportamentos solidários e responsáveis do aluno enquanto consumidor, no contexto do sistema socioeconómico e cultural onde se articulam os direitos do indivíduo e as suas responsabilidades face ao desenvolvimento sustentável e ao bem comum.

 

A Educação Intercultural, que pretende promover o reconhecimento e a valorização da diversidade como uma oportunidade e fonte de aprendizagem para todos, no respeito pela multiculturalidade das sociedades atuais. Pretende-se desenvolver a capacidade de comunicar e incentivar a interação social, criadora de identidades e de sentido de pertença comum à humanidade.

 

 

 

Tento compreender os motivos que levam encarregados de educação a alegar "objecção de consciência" para impedir que os seus filhos frequentem esta disciplina, mas debato-me sempre com a falta de informação. Os motivos apresesentados são vagos ("temas que competem às famílias", "ideologia"). Os casos concretos são inexistentes. Ou então, sou eu que estou mal informada.

 

Se bem entendi, o problema reside nos temas "sexualidade" e "

 

A Educação para a Igualdade de Género, que visa a promoção da igualdade de direitos e deveres das alunas e dos alunos, através de uma educação livre de preconceitos e de estereótipos de género, de forma a garantir as mesmas oportunidades educativas e opções profissionais e sociais. Este processo configura-se a partir de uma progressiva tomada de consciência da realidade vivida por alunas e alunos, tendo em conta a sua evolução histórica, na perspetiva de uma alteração de atitudes e comportamentos.

  

22 setembro 2020

a caminho (2)

Saí de Brest na sexta-feira passada. No domingo à noite parte de mim chegou a Berlim. Desde então, tenho passado os dias a desfazer malas e a arrumar coisas. E à espera que chegue também o resto de mim que ainda falta.

A ver se me recomponho em breve, para contar as novidades e outras histórias mais antigas.
Entretanto: o Fox vai fazendo o seu caminho de recuperação.


18 setembro 2020

a caminho

 


Notícias de Portugal: o Fox saiu ontem da clínica, e - cada vez mais igual a quem era antes de ser atacado - à noite já ladrou ao dono da casa onde era hóspede (ele gosta muito de proteger as propriedades contra os seus próprios donos...).

Passou há bocadinho o security check do aeroporto (apesar da quantidade de drogas que tem em cima do pelo) e está a caminho de Berlim. 

 

17 setembro 2020

os meus problemas de primeiro mundo

Regressámos à Bretanha de carro, passando por Chaves, mas sem tempo para visitar a cidade como ela merece. Passámos por Guérande, mas sem tempo para visitar a cidade como ela merece (sem tempo de ver com vagar e horror as cenas de tortura na igreja), porque tínhamos jantar combinado com a modiste do Joachim alguns quilómetros à frente (aprendi que modiste é o nome de uma pessoa que faz chapéus de senhora - mas a nossa modiste não se preocupa com esses detalhes de género). O jantar correu tão bem que saímos depois da meia-noite, e com a sensação de ter passado demasiado depressa. Só é pena as duas horas de viagem seguintes - a última etapa até Brest - terem passado demasiado devagar.

Fomos passar o fim-de-semana com amigos na sua casa de praia. Há décadas que queria dormir numa casa assim. Dormi com a janela aberta para ouvir o mar, mas por causa das ondas portuguesas tinha os ouvidos tapados e só ouvi um ronco que me pareceu vir da piscina.

Fui à igreja de Crozon ver o retábulo dos 10.000 mártires assassinados no monte Ararat, e estava a decorrer um ofício religioso, pelo que não pude ver com atenção e muito menos fotografar com o detalhe que queria. 

Trocaram o barco que estava estacionado por baixo da nossa janela por um bom naco de rio, e está lindíssimo. Agora que nos vamos embora, é? Humpfff!

Esta é a nossa última semana na Bretanha. Ontem fui a Prat-ar-Coum comprar as famosas ostras pela última vez desta estadia, e a ria estava cinzenta de nevoeiro. 

Ainda só estou a fazer as malas, mas já morro de saudades disto tudo.
Amanhã: Berlim!




















debate público versus clandestinidade ideológica

Retomando o texto que traduzi no post anterior, sobre o modo como o actual fenómeno de crescente entrincheiramento ideológico constitui um risco grave para a Democracia, volto ao abaixo-assinado que inclui os nomes de Cavaco Silva, Passos Coelho, Manuel Braga da Cruz e D. Manuel Clemente, e que pede o direito de objecção de consciência para a disciplina de Educação para a Cidadania e Desenvolvimento. 

Segundo Manuel Braga da Cruz, "não se trata de um grupo de reaccionários, mas de pessoas que defendem o pluralismo, contra o totalitarismo ideológico de matérias sensíveis e de cariz moral".
Será que entendi bem? Manuel Braga da Cruz acusa a escola pública portuguesa de ter uma agenda de totalitarismo ideológico? E está a referir um facto, ou a nomear uma espécie de monstro debaixo da cama dele? 

Para ficarmos no domínio do factual, gostaria que os subscritores daquele documento apresentassem exemplos concretos desse alegado totalitarismo. A que temas se referem dentro do currículo da disciplina de Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento? Onde traçam - concretamente - as linhas vermelhas dos conteúdos relativos a essas "matérias sensíveis"? Que casos têm para apresentar de professores/escolas que tenham ultrapassado essas linhas vermelhas? Trata-se de um problema alargado a toda a escola pública portuguesa, ou de incidentes ocasionais que se podem facilmente abordar e corrigir?

Admitindo o cenário de que esses subscritores estão em condições de trazer a público provas contundentes de que existe um totalitarismo ideológico na escola pública portuguesa, olhemos agora com mais atenção para o que fizeram.

Começo por lembrar o básico: para ser forte, a Democracia precisa de uma sociedade com sentido do comunidade e pertença, com regras e princípios aceites por todos. Este é o cenário dentro do qual se desenham as diferenças ideológicas. Numa sociedade democrática pluralista, o diálogo e o debate público são fundamentais para criar o tal consenso social alargado de que se fala no artigo que traduzi. Não significa isto que todos são obrigados a pensar o mesmo, mas que as diferenças se movem dentro de um conjunto de princípios válidos para todos. E, num tecido social que se está a rasgar em sectarismos vários, a escola pública tem um papel cada vez mais fundamental na formação de cidadãos conscientes do quadro de princípios dentro do qual exercerão as suas liberdades de sujeitos democráticos. 

Sendo assim, e tendo como objectivo último o reforço do sistema democrático português, perante o caso de uma escola pública que esteja a promover princípios "de totalitarismo ideológico", o que se exige a um antigo presidente da República, a um antigo primeiro-ministro, a um importante representante da Igreja Católica portuguesa e a um professor universitário de grande renome (entre muitos outros) é que usem o enorme peso da sua voz para promover o debate alargado, de modo a definir as linhas vermelhas dentro das quais se situa um consenso social básico sobre cada um daqueles temas.
Numa Democracia saudável não há outra hipótese senão esta: debater abertamente.

Mas não foi isso que fizeram os subscritores daquele abaixo-assinado. Em vez de lutarem para darem à escola pública os contornos de um consenso social básico aceitável para todos, preferiram usar o seu poder para criar espaços de clandestinidade ideológica, afirmando que certos assuntos são exclusivamente da esfera familiar. Pergunta-se: quais temas? E, concretamente: porquê? 

Mais: porque é que as pessoas que subscreveram aquela sugestão escolheram propor uma solução que, bem vistas as coisas, vai perigosamente na mesma direcção dos ataques que actualmente são desferidos contra as Democracias, em vez de decidirem contribuir para melhorar a Democracia portuguesa? O que as impede de dar início a um debate público para falar abertamente dos princípios básicos que devem ser transmitidos pela disciplina Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento?

É que, sinceramente, esta fuga ao debate sobre temas sensíveis, combinada com a proposta de os manter fora do espaço público, faz-me supor duas possibilidades igualmente más: ou querem proteger certas convicções pessoais que sabem estar para lá do defensável em público, ou sentem que o espaço de debate público português está dominado por um totalitarismo que impede um debate ideológico ao centro. 

Neste último caso, pergunto: quais são, concretamente, as ideias que não têm conseguido trazer ao espaço público, e de que modo foram impedidos de o fazer?
Era muito importante que respondessem a estas questões, para nos permitirem um confronto sério com o que possa estar a correr muito mal no debate democrático português. 


consenso social

Recentemente li no Spiegel um texto que desmonta os ataques actuais à base das sociedades democráticas, e que nos convida a mudar a perspectiva: deixemos os braços de ferro fratricidas (como o recente episódio do ataque à disciplina de Cidadania) e tenhamos todos consciência da obrigação de construir plataformas de entendimento dentro dos limites democráticos. Por me parecer um bom contributo para o debate actual, aqui deixo a (rapidíssima) tradução:
A desintegração da democracia O triunfo do chapéu de alumínio Uma coluna de Henrik Müller Na base das democracias estão a razão e o compromisso. Mas em muitos países ocidentais o consenso social básico está a desmoronar-se, a capacidade de se chegar a acordo está a diminuir. Uma tentativa de explicação do fenómeno.

06.09.2020, 19:17

O que se passa actualmente nos EUA mostra até onde a desintegração da esfera pública pode levar. E a situação pode piorar ainda mais: após as eleições presidenciais de 3 de Novembro, existe o risco de uma derrapagem nacional para a violência popular, e de uma crise constitucional que poderia pôr em perigo a existência do sistema estatal norte-americano. Exagerado?

Os que avançam estes receios não são lunáticos, mas sóbrios analistas da situação. A revista "Economist" prevê "eleições muito feias" e adverte: "um resultado controverso pode ser perigoso". Um comentador do New York Times delineou um cenário no qual Donald Trump não admite a derrota nas urnas - e simplesmente permanece no cargo. Se se chegar a esse ponto, será uma questão de organizar uma "resistência civil permanente", "como em Hong Kong ou na Bielorrússia".

Eis alguns dos pré-requisitos da Democracia: que aqueles que sofrem uma derrota eleitoral reconheçam o resultado. Que a maioria respeite os direitos e interesses da minoria derrotada. Que exista um consenso social fundamental com base no qual sejam possíveis compromissos amplamente aceites. Que as instituições estatais estejam vinculadas à Lei e à Constituição, para que os cidadãos possam confiar nelas.

Tudo isto começou a esboroar-se. Não só nos EUA - mas nesse país está a acontecer de forma particularmente visível. A sociedade americana polarizou-se a tal ponto que estas condições básicas já não podem ser consideradas como um dado adquirido. Talvez a situação possa ser estabilizada se houver uma vitória clara de um sobre o outro candidato. Mas a proximidade de resultados que as sondagens prevêem faz-nos temer que o lado perdedor decida montar barricadas.

As sondagens francesas também apontam para um perigo semelhante: Marine Le Pen encontra-se a poucos pontos percentuais de distância de Emmanuel Macron. É certo que as próximas eleições só terão lugar daqui a dois anos. Mas a proximidade de resultados nas eleições de 2017 e, posteriormente, os protestos furiosos dos Gilets Jaunes mostraram a fragilidade do consenso social básico.

Na Alemanha a situação é mais estável. As atitudes populistas parecem estar a recuar, tal como concluiu um estudo recente da Fundação Bertelsmann. Enquanto a AfD se enreda em lutas de poder internas, as suas pontuações nas sondagens estão a cair. O facto de, até agora, a Alemanha ter atravessado a crise da covid-19 com um desempenho comparativamente melhor conquistou algum respeito para a coligação de frieza tecnocrática de Merkel e Scholz.

Mas as narrativas de conspiração também se estão a espalhar neste país. Ainda não se extinguiu o eco da repulsa provocada pelas demonstrações de Berlim do fim-de-semana passado, que uniu adversários do sistema provenientes de lugares ideológicos muito diferentes. Depois do primeiro choque da pandemia, incluindo shut down e máscara, as medidas anti-corona parecem estar a tornar-se o ponto de cristalização de uma oposição ecléctica extraparlamentar, que as tenta converter em trunfo.

Mas que se passa aqui, afinal?

É óbvio que está em curso um processo no qual o consenso social básico corre o risco de se perder. A mudança no panorama mediático facilita a desintegração da esfera pública. As sociedades estão a dividir-se em câmaras de ressonância cada vez mais pequenas, cada uma com as suas próprias narrativas sobre o estado do mundo. Estas narrativas não precisam necessariamente de uma base factual sólida para parecerem credíveis aos seus respectivos seguidores. A validação mútua no interior do grupo substitui o conhecimento e os testes lógicos de plausibilidade.

Isto é extremamente problemático: sem uma base factual comum, dificilmente se consegue distinguir entre problemas reais e imaginários. Em populações profundamente divididas perde-se o sentimento de pertença mútua, o que provoca o desmoronamento do consenso básico democrático. Os opositores políticos transformam-se em inimigos; nações que - como os EUA - outrora se mantinham unidas por histórias comuns fortes desintegram-se em tribos hostis, cada uma com a sua própria ideologia interna.

A ascensão das redes sociais é o factor técnico que acciona este desenvolvimento. Mas esse fenómeno só por si não explica a fragmentação da esfera pública. Em última análise, é uma questão de identidade. E isso significa: narrativas.

As pessoas experienciam-se a si próprias e ao mundo através de histórias. A percepção de si e do mundo são moldadas por narrativas. Somos contadores e ouvintes de histórias. É por isso que as narrativas são omnipresentes: condensam a realidade, reduzem a complexidade, definem relações de causa e efeito, descrevem a relação dos actores uns com os outros - e as nossas próprias relações com eles. Em suma, as narrativas clarificam as contradições do mundo e da existência, e criam identidade. Isto torna-as atractivas, e por vezes até perigosas.

Os meios de comunicação desempenham um papel central na formação da identidade. Produzem e divulgam as narrativas que guiam a autopercepção da sociedade e dos seus indivíduos. No seu ensaio "The Strong Reason to Be Together", o filósofo Peter Sloterdijk viu a nação moderna como um "colectivo de pertença mútua", pertença essa mantida pelos temas definidos pelos meios de comunicação social, especialmente a televisão. Mas este texto data de 1998: há muitos anos.

Nesse tempo, eram sobretudo os meios de comunicação social que reflectiam a imagem da sociedade de massas. Actualmente, as redes sociais criam novas realidades mediáticas de menor escala, nas quais grupos de pessoas com os mesmos interesses se encontram para partilhar histórias - e para se confirmarem nas respectivas crenças. Mas: quando a esfera pública se desintegra a tal ponto que divide a sociedade em vez de a abarcar - separando-a em tribos, pequenos grupos, comunidades virtuais de agitação que se radicalizam em relação ao exterior, mesmo à revelia de bons argumentos - o que é que nos resta?

Para poder funcionar, a Democracia precisa da disponibilidade para o consenso e o compromisso. Nos novos universos da comunicação, porém, aquilo que nos divide está a ganhar primazia. As diferenças são enfatizadas, os fossos alargam-se. Vemos todos os dias muitos exemplos desse fenómeno.

As narrativas estão sempre em evolução. E continuamente surgem novas versões. As pessoas lutam para interpretar um mundo em mudança e confusamente complexo, e para se integrarem nele juntando-lhe um sentido. Sentimos como crise as fases em que uma narrativa estabelecida perde o seu poder de interpretação. Quando acontecimentos dramáticos da vida - desemprego, perda de familiares, doença - põem em causa a nossa história pessoal até então vigente, somos abalados no âmago da nossa identidade individual. Por sua vez, a identidade colectiva é ameaçada quando as viragens históricas dos acontecimentos perturbam a história nacional de um "nós".

Actualmente, muitas sociedades parecem estar neste ponto. As grandes ideologias e religiões perderam a sua força agregadora. Já não é fácil nomear os elementos que constituem cada nação. Para cada indivíduo, isto significa que está a tornar-se mais difícil inscrever a sua própria história num contexto social comum. Mas à medida que as histórias de "nós" se tornam mais ambíguas, as histórias pessoais tornam-se confusas. Tanto maior é a necessidade de preencher as lacunas que surgem. O que está em causa é a confirmação de si próprio e a atenção por parte dos outros. 

Esta é a porta de entrada para mitos conspiratórios e sectarismos de todo o tipo: criam ofertas de identidade através da formação de comunidades de pessoas que supostamente detêm um conhecimento. O pérfido é que, quanto mais absurdas e radicais estas narrativas são - e quanto mais repulsivas parecem, portanto, para os que estão fora delas -, maior é o seu potencial de criação de comunidade. No final, o chapéu de alumínio triunfa sobre a razão.

Trump tira partido destes fenómenos. Não se conhece nele um alicerce de convicções. Mas demoniza os opositores políticos, agita o ressentimento racista e semeia a desconfiança contra o sistema (ao qual ele próprio preside). Por exemplo: há meses que afirma que haverá fraude eleitoral em massa através do voto por correspondência. Uma vez que, devido à covid, a proporção de votos por correspondência será elevada - alguns estados só permitirão o voto por correspondência - ele está a lançar assim as bases para o cenário de conflito descrito no início.

Embora não haja provas de fraude postal em massa, metade dos eleitores registados nos EUA estão agora convencidos da sua existência; entre os republicanos, o número chega a 80%, segundo um inquérito. 74% dos inquiridos disseram temer "a fraude eleitoral organizada por actores políticos para influenciar os resultados eleitorais". 

Se repetidas um número suficiente de vezes, até as narrativas comprovadamente falsas se tornam certezas. É a vitória da percepção sobre a realidade mensurável - e possivelmente uma receita para o caos.

15 setembro 2020

o regresso do nosso velho maluco

Notícias de Portugal: o nosso pateta já por duas vezes se conseguiu desembaraçar do açaime e tentou morder a veterinária que lhe trata as feridas. Ingrata criatura!
Portanto: está cada vez mais vivo e igual ao nosso Fox do costume.

Os veterinários estão muito optimistas quanto à sua evolução. Se tudo continuar a correr bem, o Matthias vai buscá-lo à clínica na próxima quinta-feira, e regressam a Berlim na sexta-feira.   


12 setembro 2020

Fox fénix

É oficial: o pior já passou! Está escrito - nos resultados das análises ao sangue do Fox.
O veterinário diz que só lá para o Natal é que o problema das chagas na pele está resolvido - mas com a idade comecei a dar-me conta de que o Natal vem três ou quatro dias a seguir à Páscoa. Portanto: está quase. Uffff!

O Matthias, que continua no Porto e vai fazer companhia ao Fox duas vezes por dia, diz que ele já se enrola para dormir, e que recomeçou a gostar muito de receber festinhas. Quem o viu, e quem o vê!

E também: quem me viu, e quem me vê. Sinto-me um pouco embaraçada pelo que aqui escrevi há dez dias, mas, para ser sincera, penso que foi preciso tomar realmente consciência do estado de debilidade do Fox para perceber que o acompanhamento que estávamos a ter na primeira clínica veterinária ficava muito aquém das necessidades. O Fox estava realmente a apagar-se, envenenado pelo seu próprio corpo. 

O Joachim e eu chegámos ontem a Brest. Entramos na nossa última semana na Bretanha (e já sinto saudades antecipadas). O Matthias e o Fox devem regressar a Berlim no próximo fim-de-semana. 
E logo a seguir é Natal (tenho a certeza). 

Obrigada a todos os que sentiram connosco e nos ofereceram palavras de conforto nestes tempos de ansiedade. Aqui deixo uma dessas mensagens, só porque espero que vos faça rir como a mim:

"Que bom o Fox fénix! Eu faço o cachecol. Ele que escolha as cores."

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E agora, pondo as coisas em perspectiva: quando na primeira clínica nos disseram que o Fox ia ficar internado sem receber visitas, pensei imediatamente na pessoas que têm familiares internados nessas condições. Deixo um abraço enorme para todas elas: se a ideia me custou tanto, tratando-se de um cão, quanto mais não custará ter a mãe, o pai, a avó fora do alcance do olhar e dos gestos de amor? 


09 setembro 2020

boas notícias

Hoje ao fim da tarde o Matthias achou que o Fox já está a gostar de receber festinhas. E deixou de tremer tanto. Se bem conheço aquele maluco, daqui a dois ou três dias já estará a achar que o hospital veterinário é todo dele...

(Foi você que pensou várias vezes que ele ia desta para melhor?...
Vou já escrever mais cem vezes a frase da amiga: "sofrer por antecipação não faz bem a ninguém nem serve para nada.")

(Agora estou a pensar que a cicatriz vai dar uma carecada das grandes, e talvez seja boa ideia no Natal oferecer-lhe um cachecol bonitinho para não apanhar frio no pescoço. Pobre Fox: para esconder aquela espécie de Grand Canyon à volta do pescoço, se calhar vai passar o resto da vida a usar um lencinho de cão queque. Ou seja: um cão de Wedding a fazer figura de Prenzlauer Berg - um autêntico caso de "gentrificacão"...) 


"Vamos esperar. De esperança."

Aos amigos que têm acompanhado com empatia e preocupação a montanha russa do Fox, aqui deixo o relatório mais recente:

Fomos vê-lo ontem. Quando nos viu, levantou-se muito contente e tentou saltar para fora do seu compartimento. Estava mais animado do que nos dias anteriores - o que não admira: no princípio da semana estava com um edema pulmonar.

Comeu bastante (comida de lata - porque detesta a seca, e o pessoal dá-lhe o que ele quer. Sim: este nosso patetinha consegue impor-se até no hospital veterinário, até quando está a lutar entre a vida e a morte!). Também deu alguns passos, e não o fez de forma tão trôpega. Mas os passos que deu foram em busca de um canto, onde se refugiou a tremer.

Tem todo o pescoço em carne viva, além de várias chagas no corpo. A pele está a cicatrizar bastante bem, mas, segundo diz o veterinário, só lá para o Natal é que estará fechada. Nos próximos meses precisará de banhos diários e cuidados intensos nas feridas, porque a pele naquele estado é o viveiro ideal para bactérias.

Estamos a ver quando poderá regressar a Berlim. De momento, ainda não é possível levá-lo para casa. 
O Matthias vai continuar no Porto a fazer-lhe companhia e a aprender a tratar dos ferimentos de forma conveniente. Quando houver luz verde do veterinário, e o Matthias sentir que está capaz de tratar do Fox na sua casa em Berlim, leva-o de avião. Uma vez em casa, precisaremos de encontrar um veterinário competente para o acompanhar com bastante regularidade.  

Ainda não lhe fizeram novas análises ao sangue. O veterinário quer esperar um pouco mais, para não o torturar desnecessariamente.

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O título deste post é uma frase que me ofereceram no facebook: "vamos esperar. De esperança." 
Obrigada a todos pelo apoio. Isto não é fácil, mas com a vossa companhia custa um pouco menos. 


08 setembro 2020

moscas

Para os amigos que perguntam pelo Fox: está a melhorar muito lentamente, obrigada. 
O Matthias vai visitá-lo duas vezes por dia, leva-o para o pátio da clínica, tenta dar-lhe de comer.
De cada vez que nos diz que o Fox tentou comer uma mosca, largamos vivas.

"Mosca" é por estes dias a palavra mágica: o sinal de que o nosso Fox não desiste de ser quem é, apesar dos ferimentos e do trauma. Pela mosca é que vamos, comovidos e mudos...

Hoje à tarde vou falar com o veterinário. 
Enquanto espero, escrevo cem vezes a frase de uma amiga:

"Enquanto há vida, há esperança. Não embandeiremos em arco, mas não atiremos a toalha ao chão. 
Se for, será. Mas só nessa altura. Sofrer por antecipação não faz bem a ninguém nem serve para nada."


06 setembro 2020

bruscamente no verão passado...



No dia 15 de Agosto desci de Brest para Bordeaux para me encontrar com os miúdos e o Fox, e seguirmos de carro para Portugal. Já não via os meus filhos há cinco meses e meio, pelo que desta vez consegui abraçá-los antes de mergulhar na festa com que o Fox me acolhe sempre que me afasto mais de trinta minutos. Dormimos em Bordeaux, e atravessámos a Espanha parando apenas para o estritamente necessário: fazer um piquenique e deixar o Fox correr numa paisagem belíssima, meter gasolina, beber um café, fazer uma paragem escatológica e deixar o Fox correr noutra paisagem já mais perto de Portugal.  


Recolhemo-nos no Alentejo, tentando reduzir ao máximo o risco de sermos agentes transmissores de covid. Passamos de fugida por Lisboa, onde nos encontrámos com o Joachim que veio de avião, e seguimos para o nosso refúgio no Minho, continuando a manter o melhor possível as regras de distanciamento físico. 
(E como custa manter essas regras quando estamos com pessoas de quem gostamos tanto!)

As férias do Fox estavam a decorrer muito bem: feliz com a família toda reunida, feliz no carro a observar a estrada durante as viagens, feliz no Alentejo a correr em liberdade, feliz no entardecer das praias minhotas a cavar tuneis até à Austrália. Mas - maldito "mas"! - no domingo passado foi brutalmente atacado pelo cão de um vizinho. Foi operado de urgência nessa mesma noite, e pareceu-nos que ia recuperar. Na terça-feira começou a vomitar, e demo-nos conta de que o cãozinho se estava a apagar. De momento está internado num hospital veterinário no Porto, Não se sabe quando será possível sair, ou sequer se conseguirá sobreviver aos ferimentos. O Matthias também está no Porto, e vai-lhe fazer companhia sempre que possível. 

Talvez este seja o último (ou o penúltimo) post da rubrica "Fox News", que começou quando ele veio para nossa casa, há oito anos.  

Não tenho palavras para dizer como estamos tristes. Mas tenho imagens para contar como o Fox tem sido feliz na sua vida connosco. 







05 setembro 2020

umbiguismo insanável


Desculpem voltar a falar da Alemanha, mas não consigo evitar lembrar-me de quando, há dez anos, a Angela Merkel acusou o modelo de "multiculti" de ter falhado, e afirmou que os imigrantes tinham de aderir ao "modelo de referência" alemão. A afirmação foi muito criticada, desde logo pelos termos em que foi feita (generalizando situações de âmbito muito delimitado, e ostracizando minorias), mas lançou um debate sobre os diálogos de culturas, sobre a pretensa necessidade do "modelo de referência" e sobre os contornos deste. Um debate urgente e necessário para encontrar um rumo no meio de algumas dúvidas sobre como articular as diferenças no seio da sociedade. Nomeadamente: escolas que não sabiam como reagir perante famílias que não queriam que as suas filhas frequentassem as aulas de educação física ou natação, ou que saíssem em passeios da escola; tribunais que não sabiam como decidir em caso de pessoas que tinham matrizes de valores diferentes da alemã (nomeadamente o juiz que não defendeu uma mulher da violência do marido porque "na cultura do casal a violência doméstica é vista com outros olhos e ela sabia ao que ia quando casou").

Deixando de lado o modo como a Angela Merkel lançou em 2010 o debate sobre a diversidade social, parece-me que esta questão é muito actual. Dez anos mais tarde, damo-nos conta de que esses imigrantes provenientes de culturas muito diferentes da nossa são apenas um pequeno vector da questão. As sociedades estão cada vez mais divididas em grupos de umbiguismo insanável, e o problema maior não vem dos "outros" (os que vêm de fora, ou os que nós tradicionalmente excluímos) mas de nós próprios. De facto, em Portugal, o "multiculti" dos nossos dias, o tal que a Angela Merkel dizia que não é bom para uma sociedade, diz respeito não às minorias étnicas mas às minorias ideológicas que recusam a ideia de um "modelo de referência". Nestes tempos de "factos alternativos", de teorias da conspiração e de fake news, é alarmante assistir à recusa crescente de um mínimo de consenso social baseado em critérios e valores amplamente reconhecidos.
O caso mais recente, com altos representantes do sistema democrático a propor tornar opcional a disciplina de Educação para a Cidadania e Desenvolvimento, é uma escolha deliberada no sentido dessa "balcanização" da sociedade portuguesa. Em vez de promover na sociedade um debate alargado e continuado sobre o "modelo de referência" que deve servir de orientação a toda a comunidade, querem retirar à escola a possibilidade de exercer o seu dever de informar e debater segundo critérios claros.
Encerrar-se dentro das suas próprias convicções e recusar o debate é característica dos populismos - e das ditaduras. As sociedades democráticas têm de ser capazes de acomodar a diversidade de perspectivas (desde que se situem dentro do espectro democrático), em vez de escolherem deliberadamente um caminho de "balcanização" social, de fragmentação em grupos hostis fundados em valores e convicções estanques e inconciliáveis. Por isso mesmo me choca tanto ver algumas daquelas personalidades públicas a assinar tamanho ataque às boas práticas das sociedades democráticas. Eles terão sido sempre assim, ou resolveram encostar-se à extrema-direita populista por encontrarem ali terreno fértil para conquistar o poder, independentemente do custo para o país?
Não sabemos o que levou estas pessoas a atacar a escola pública e o seu papel na construção de uma certa coesão em torno de princípios básicos da nossa sociedade. Mas podemos defender-nos deste ataque: quem for a favor da escola pública como agente de construção de uma ética comunitária, contra a "balcanização" da sociedade portuguesa, que se está a fragmentar cada vez mais em grupos de valores e convicções estanques, pode subscrever este manifesto aqui:

"Cidadania e Desenvolvimento: a Cidadania não é uma opção!"

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Os temas da disciplina "Educação para a Cidadania e Desenvolvimento", que determinados interesses querem tornar facultativa, são os seguintes (copiei do DN):
"Direitos humanos, que incluem prevenção e combate ao discurso de ódio, prevenção e combate ao tráfico de seres humanos e direitos da criança; Igualdade de Género; Interculturalidade; Desenvolvimento Sustentável; Educação Ambiental; Saúde, que aborda saúde mental, educação alimentar, comportamentos aditivos e dependências, prevenção da violência em meio escolar e atividade física. São estes os domínios do primeiro grupo de Educação para a Cidadania, obrigatório para todos os níveis e ciclos de escolaridade.
Do segundo grupo, obrigatório em pelos menos dois ciclos do ensino básico, fazem parte a Sexualidade, em que são tratadas questões como a identidade e género, o desenvolvimento da sexualidade, os direitos sexuais e reprodutivos - prevenção de relações abusivas e a maternidade e paternidade - parentalidade responsável; os Media; as Instituições e Participação Democrática; a Literacia Financeira e Educação para o Consumo; a Segurança Rodoviária e o Risco.
Já no terceiro grupo, com aplicação opcional em qualquer ano de escolaridade, constam o Empreendedorismo; o Mundo do Trabalho, a Segurança, Defesa e Paz; o Bem Estar Animal e o Voluntariado."

15 agosto 2020

a ver se faço férias das férias

Pelas minhas contas, já passaram uns bons três quinze dias sem posts sobre esta estadia na Bretanha. ("Posts mete-nojo", dizem alguns, e eu respondo: "senhor juiz, a culpa não é minha - a vida é que me acontece assim")

O tempo passa, e os posts vão ficando pelo caminho: não consigo passear e descobrir e saborear, e contar simultaneamente. De modo que hoje deixo aqui um ou outro apontamento fotográfico das últimas semanas. 

Um dia destes hei-de fazer férias das férias, e nessa altura conto os detalhes. Mas sem garantia: sabe-se lá se nas férias das férias a vida não me continua a acontecer com tal intensidade que não tenho tempo de olhar para trás e contar?

O stress do costume...































 

13 agosto 2020

não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada

Partilho o poema "para os que virão", de Thiago de Mello, que me ofereceram numa caixa de comentários:


Para os que Virão

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.


Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente alguém
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.



(Obrigada, Lucy)


agora é que me vou desgraçar de vez: toda a gente vai ficar a saber que não percebo nada de Biologia



E agora para algo completamente diferente: há tempos passei com a roda do meu wind car por cima de uma medusa enorme que estava na praia. Pensava que seria gelatinosa, mas era duríssima. Alguém me sabe explicar este fenómeno?

(senhor juiz, a culpa não foi minha, foi do vento que me levou para ali; já sabe como é: o vento e os portugueses, são seis séculos de desvios - mas vá lá que a mim só me mandou para cima de uma medusa; ao Pedro Álvares Cabral mandou até ao Brasil, coitadinhos dos indígenas)


são poucos, mas são nazis

Depois de ter anunciado que no dia 8.8 (88 -> hh -> heil hitler) ia acontecer alguma coisa grande, depois de nesse dia dúzia e meia de mascarados terem levado a cabo uma acção de intimidação em frente à sede do SOS Racismo (numa encenação que mistura elementos do Ku Klux Klan e de uma campanha neonazi de um grupo alemão entretanto proibido), depois de avisarem que "isto é apenas o começo" (os vídeos - entre os quais este e este - entretanto foram marcados como privados), o movimento "resistência nacional" enviou agora a seguinte mensagem de intimidação e perseguição:


A ameaça para as pessoas desta lista é mais uma das encenações com que pretende aparecer, ganhar palco, e conquistar alguns seguidores. Mas é também, obviamente, para ser levada muito a sério pela Polícia Judiciária e pelo Ministério Público. Este grupo - que agrega algumas pessoas que já por várias vezes mostraram a sua capacidade para actos de brutal violência movida por ódio racista - está a cometer crimes para os quais o Código Penal estipula penas claras. Num chat, de que partilho a seguir algumas imagens, o grupo mostra sem margem para dúvidas o seu carácter racista e homofóbico. Também se fala em "assassinar alguém importante", e divulga-se as estratégias do momento: infiltração, e angariação de seguidores. Em suma: caso ainda houvesse dúvidas, este chat e as acções dos últimos dias provam que há nazis em Portugal. Não são muitos, e desentendem-se facilmente, mas estão a tentar unir-se em volta do ódio ao SOS Racismo e aos Antifas. E querem crescer em número. À semelhança do que aconteceu há cem anos com os judeus na Alemanha, o SOS Racismo e os Antifas são apenas um isco para atrair pessoas de índole racista e/ou anti-esquerdista, e um bode expiatório muito útil para unir forças desavindas. Esperamos que a Polícia e o Ministério Público façam bem o seu trabalho, mas isso não basta. Há muito mais para fazer: - a classe política tem de dar sinais inequívocos de que não há lugar para nazis na Democracia portuguesa; - os media têm de estar atentos para não promoverem o branqueamento destes movimentos (como o caso desastrado do programa do Manuel Luís Goucha, por exemplo), nem porem as suas caixas de comentários ao serviço da estratégia de crescimento de grupos nazis; - a sociedade civil tem de estar permanentemente atenta às tentativas de infiltração e de angariação de seguidores; - têm de ser criados canais expeditos para que as empresas gestoras das redes sociais tenham uma actuação responsável no sentido de impedirem que o seu espaço seja usado para atacar a ordem democrática. E agora, senhoras e senhores, convido para um pequeno passeio pela lixeira ideológica que se está a erguer no nosso país: