10 fevereiro 2026

Danilo Nogueira

 

A passear pelo Facebook, esbarrei numa notícia triste:
"Aqui é o André, filho do Danilo. Estou escrevendo exatamente o que ele me pediu para escrever.
'Morri, como já era previsto. Foi bom enquanto durou, mas, como tudo na vida, acabou. Deixo a todos um dos meus abraços de urso. Sejam felizes.'
A pedido dele próprio, não haverá cerimônias religiosas públicas."
Nunca conheci o Danilo Nogueira em pessoa. Durante alguns anos, estive numa mailing list de tradutores de português onde ele brilhava, ensinava e fazia rir. Há quase trinta anos, se escrevia um post mais criativo, rematava com "que será que a Vera pôs naqueles cogumelos que comi ao almoço?" - e nós ríamos. Os cogumelos da Vera ficaram famosos.
Depois a Vera morreu, e todos nos sentimos muito tristes.
E agora foi o Danilo, que se despediu com o mesmo humor e a mesma humanidade de sempre.
Imagino que, algures, a Vera já está a cozinhar uns bons cogumelos para o receber.

09 fevereiro 2026

espelho



Se os emigrantes portugueses estivessem assim tão desesperados e desiludidos, e quisessem fazer um voto de protesto, votavam no candidato Vieira.
Um paradoxo: emigrantes portugueses a votar no arrivista que faz parte da Internacional do Ódio a imigrantes.
O que leva um português na Alemanha a achar que tem menos cara de árabe que um sírio? Esses bandos de violentos que perseguem imigrantes na rua, animados pela Internacional do Ódio, não pedem o bilhete de identidade antes de começar a bater.
Estou cada vez mais convencida que as pessoas não votam no Vintruja como forma de protesto.
Votam nele porque gostam da maldade que ele espalha no mundo.
De facto, gostam da maldade que ele espelha no mundo.

o que é o populismo?

 

Isabel Sousa Lobo, no Facebook

"O que é o populismo?
O candidato da direita radical, que andou a carregar garrafas de água com ar martirizado, não teve uma palavra para com as vítimas da intempérie no discurso da derrota. Até pretendeu, anteriormente, adiar as eleições. Já o candidato vencedor, o nosso próximo PR, foi logo por aí que começou e disse que se ia empenhar em soluções o mais eficazes e prontas que fosse possível.
Curiosamente, acabo de ler que nos concelhos onde foi decretado o estado de calamidade, o acréscimo de votos do candidato vencedor foi superior à média nacional; e o acréscimo de votos do candidato perdedor foi inferior à média nacional. As populações afectadas souberam bem distinguir entre um farsante que explora teatralmente a desgraça, de um candidato que cultivou a discrição para se inteirar no terreno da situação e que, certamente, seria genuíno no seu empenhamento.
O populismo é isto: teatro, mentira, oportunismo mas desinteresse real pelos problemas das pessoas. A desgraça alheia é apenas um meio para ampliarem poder e influência, nunca para melhorarem as condições de vida de quem mais sofre. Este foi um exemplo prático de populismo."

apontamentos sobre as eleições (3)

 


Agora que já partilhei dois textos importantes e sérios, deixo escapar a bojarda (isto aqui é como Portugal a votar: um em cada três...)

Ora então: estava aqui a pensar que, apesar do horror que se abateu sobre elas, as pessoas de Leiria foram votar, e, entre o três salazares e a Constituição, escolheram em massa a Constituição.

Imagino o que irá por dentro do alforreca...

"Ai vocês são assim? Devolvam já aquela meia dúzia de garrafas de água que vos fui levar com tanto sacrifício pessoal, tanto sofrimento físico, tantas lágrimas de sapo de louça, tantos jornalistas!"

apontamentos sobre as eleições (2)

 

João Sardo, no Facebook:

"A vitória de António José Seguro não trouxe sobressaltos. Trouxe um silêncio espesso. O silêncio que permanece quando tudo correu como devia mas não como gostaríamos. Não houve catarse, nem aquela sensação rara de que o futuro abriu uma fresta. Houve contenção e prudência. Houve um país a escolher não cair.
É pouco? Não. Mas também não é motivo para descanso.
Estas Presidenciais não foram um referendo a um homem. Foram um teste de resistência ao "sistema" para ver até onde é que aguenta antes de ceder por dentro. A Constituição não apareceu nos boletins mas esteve presente no gesto, naquele movimento quase automático de quem, perante o ruído, procura o eixo.
Seguro venceu porque representa o contorno reconhecível da República. Nada de promessas inflamadas nem rasgos visionários. Continuidade. Previsibilidade. Um certo aborrecimento institucional que, em tempos de gritaria, se transforma subitamente num bem precioso.
Mas seria um erro grosseiro ler estas eleições como um simples triunfo da estabilidade. Foram também (e talvez sobretudo) uma montra e uma experimentação. Um ensaio geral feito à vista de todos. Um laboratório eleitoral onde quem perdeu não saiu derrotado no essencial.
É evidente que André Ventura não concorreu para ganhar Belém. Concorreu para aparecer e para medir. Para testar a elasticidade do país. Para perceber até onde pode esticar o discurso sem rasgar o tecido democrático. As Presidenciais ofereceram-lhe exactamente isso: um ambiente controlado, onde o voto é moral antes de ser governativo; e simbólico antes de ser executivo. O espaço perfeito para experimentar tensão, agressividade, confronto institucional, sabendo que a rejeição presidencial não equivale, automaticamente, a rejeição governativa.
Ventura saiu destas eleições mais instruído do que entrou. Aprendeu onde a rejeição é sólida e onde começa a ser porosa. Percebeu que há um tecto mas também que esse tecto não é de betão armado. E, sobretudo, confirmou o verdadeiro alvo da sua estratégia: o PSD. O Chega já não disputa apenas margens; disputa hierarquias. Quer saber até que lugar pode subir no pódio da direita, empurrando os outros para baixo. Estas eleições deram-lhe dados.
É aqui que a omissão da direita democrática deixa de ser um detalhe táctico e passa a ser um problema político sério. PSD, IL e CDS atravessaram esta campanha como quem acredita que a democracia é um dado adquirido, uma paisagem fixa, garantida pela força da tradição. Preferiram a neutralidade bem-penteada à palavra incómoda. Apostaram que o eleitorado faria o trabalho sujo por eles.
Fez. Mas isso não os absolve.
Porque a Constituição não se defende por delegação. Defende-se quando se recusa normalizar quem a trata como entrave ocasional. Quando se diz, sem rodeios nem jogos semânticos, que há limites que não se relativizam, não por dogma mas por memória histórica. A democracia não se mantém viva por inércia. Mantém-se porque alguém, em algum momento, decide não olhar para o lado.
Há algo de profundamente inquietante no facto de esta eleição ter sido salva por um reflexo cívico enquanto tantos responsáveis políticos optaram por uma prudência que roça a abdicação. Como se a democracia fosse um mecanismo automático. Não é.
A Constituição da República Portuguesa nasceu de um medo concreto e de uma urgência real. Foi escrita para travar abusos, não para ser testada ciclicamente por quem mede até onde pode ir.
Estas eleições mostraram duas coisas importantes ao mesmo tempo: que essa resistência ainda existe e que já não é consensual nem confortável.
Seguro será, tudo indica, um Presidente de gestos pequenos, palavras medidas e fidelidade institucional quase monástica.
Mas talvez, neste momento e tendo em conta a conjuntura, seja exactamente esse o maior acto político: ficar onde é preciso ficar."

apontamentos sobre as eleições (1)

 

Isabel Sousa Lobo, no Facebook

"Sobre quem perdeu, mas ganhou mais um pouco.
Votos AD 1.971.558
Votos AV 1.687.116 (99% apuramento)
A aldrabice do "sistema". O actual "sistema" é o regime democrático. A alteração pretendida não é no sentido das liberdades e da democracia. Basta ver os líderes que são referências deste partido a começar pelo inenarrável DT.
O país mobilizou-se contra um indivíduo e um partido que faz da mentira, da intoxicação, do racismo e da xenofobia as suas bandeiras. E não, não são contra as elites. São grandes capitalistas, famílias com poder financeiro e influência social, alta burguesia e até alguns aristrocratas, boa parte escondidos atrás de cortinas de fumo e que deviam ser colocadas sobre os holofotes como apoiantes destes arrivistas. Arrivistas estes que durante anos se acoitaram noutros partidos fundadores do regime democrático e que, agora, sabendo perfeitamente o que andam a fazer, lançaram o ódio como combustível eleitoral e a mentira como forma de mobilizar legiões de ressentidos.
A luta continua! Contra o populismo, contra a extrema direita, contra neofascistas e neonazis aliados desta gente e contra a direita radical que mina os fundamentos das sociedades democráticas e livres, baseadas em valores de solidariedade, humanismo e tolerância.
O ódio e a intolerância, a discriminação e a mentira não podem minar os alicerces da coesão nacional.
Há muito que fazer."

08 fevereiro 2026

dia de festa

 


Hoje é dia de festa.
Amanhã recomeça a luta para
"construir a forma justa
De uma cidade humana que seja
Fiel à perfeição do universo".

Amanhã recomeça a luta interminável. (Imagem de Marta Nunes, no Facebook)

alívio

 

Um alívio enorme: Portugal não é os EUA!
O país não está dividido pela metade entre os que gostam da democracia e os que gostam do flautista de Hamelin.
(Conhecem a história? Era um encantador de ratos e criancinhas ingénuas)

Mesmo assim, a quantidade de portugueses que votam no alforreca é triste.

07 fevereiro 2026

este país precisava de três quê?

 


Gosto muito daquele "No dia 9, falamos do resto."
Uma espécie de: "pedimos desculpa pela interrupção, o debate democrático segue dentro de momentos".
A propósito: lembrem-se disto da próxima vez que alguém vier com a conversa da exprema esquerda e da extrema direita. Como se vê, não são iguais. Aqui está o PCP a defender a democracia.
(E, agora que penso nisso: alguém se lembra quando foi que um dirigente do PCP disse que "este país precisava era de 3 Estalines?")

o povo português que conta

 

Para memória futura: o candidato a quem os portugueses emigrantes deram tantos votos, o candidato em quem tantos portugueses emigrantes depositam tanta esperança de que vá melhorar as suas vidas, na hora em que resolve fazer mais um dos seus brilharetes de retórica(*), esquece-se completamente dos portugueses emigrantes.
Assim: completamente!
Para ele, o "povo português" é: exclusivamente os portugueses que vivem no território nacional.
Por sorte, o sistema - que ele tanto odeia e quer destruir - soube tomar uma decisão de adulto.

Se lhe tivessem dado ouvidos, ia ser bonito, ia: tantos emigrantes a comprar novos bilhetes de comboio e avião, a remarcar turnos de trabalho e hotéis...
Mas isso nem sequer lhe passou pela cabeça.

E nem é defeito, é feitio. Ou alguém sabe o que os deputados do Chaga eleitos pelos círculos da emigração têm andado a fazer para melhorar a nossa vida? Eu ainda não vi nada.


boletim meteorológico

 

Parece que amanhã de manhã o temporal vai dar tréguas, e à tarde piora. Portanto: quem quiser votar pelo seguro, vá de manhã.
Por outro lado, quem gostar mais de aventuras, vá à tarde.


(hihihi, sou tão engraçadinha...)

fazer o que posso

 


Esta manhã, dei um saltinho à rua, em chinelos, para ver se continuava tudo horrivelmente escorregadio ou se já começava a derreter um pouco. Percebi que estava horrivelmente escorregadio, mas por baixo do gelo a neve estava mais solta. Como já estava na rua e tive preguiça de ir a casa mudar de sapatos, andei a picar o gelo todo do passeio à pazada. Tac-tac-tac-tac-tac-tac, e o gelo quebrado a saltar para os meus pés.

Ao fim de meia dúzia de tacs já tinha as meias molhadas, e por isso mesmo decidi que não valia a pena ir a casa pôr sapatos decentes.

De modo que esta manhã foi assim: milhares de vezes "tac" a ecoar na rua toda, meias e calças encharcadas.

Mas a rua agora está mais segura, já não há risco de alguém escorregar no gelo em frente à minha casa, e se partir todo.

E amanhã vou votar. Nem que seja preciso abrir o caminho todo, daqui até à embaixada, à pazada.

Este é o meu fim-de-semana de fazer o que está ao meu alcance para tornar o nosso mundo um pouco mais seguro para todos.

06 fevereiro 2026

*sair da bolha*


Dizem-me: sai da bolha, vai ao encontro dos outros, abre os olhos para outras realidades...
Será que a minha bolha é assim tão reduzida e redutora? Encontro nela homens, mulheres, pessoas não-binárias. Pessoas dos zero aos cem anos. Heterossexuais, gays e nem sei que mais, porque o que as pessoas fazem na cama delas é o lado para onde durmo melhor. Pessoas de muitos países diferentes. Várias religiões, muitos agnósticos, muitos ateus. Pessoas com a quarta classe, e professores catedráticos. Desempregados e CEOs. Cientistas e artistas. Simpatizantes e membros de todos os partidos, menos um.
Porque é justamente aí que traço um limite para as fronteiras da minha bolha: não quero ter por perto pessoas que gostam de um líder político que põe ódio no mundo, que aplaude abertamente perseguições a emigrantes, que atira ao chão os mais vulneráveis e os espezinha para conquistar poder.
Dizem-me que não é assim que consigo conquistá-los para o espaço democrático. Que tenho de ouvir, que tenho de compreender...
Não, não tenho. Não tenho de compreender quem - repito - gosta de um líder político que põe ódio no mundo, que aplaude abertamente perseguições a emigrantes, que atira ao chão os mais vulneráveis e os espezinha para conquistar poder.
Pertencem a uma realidade paralela, com outros valores, outra definição de "decência" e "dignidade" e "direitos humanos". Não vejo o menor motivo para entrar em contacto com esta realidade.
Alguns contemporizam: ai e tal, estão muito zangados com a situação actual, votam assim como sinal de protesto. E há aqui dois erros: um de lógica (se estão zangados com a situação actual, porque votam no partido que já deu provas de que vai pôr tudo ainda pior?) e outro de carácter (se queriam fazer um voto de protesto, tinham o candidato Vieira, ou votavam em branco — mas preferiram votar no sujeito que, para além de fazer de conta que está zangado com o sistema, conquista votos apelando ao ódio e servindo-se das minorias como inimigo instrumental).
Se é para dividir o mundo entre "nós" e os "outros", a minha divisão é esta. Porque aqueles que, segundo me dizem, deviam ser motivo para eu sair da minha bolha e para aprender a ver o mundo como ele é, são os mesmos que querem impor à sociedade a bolha deles, uma bolha feita de ódio e mentira, sem espaço para o pensamento e para a diversidade. Saiam antes eles da bolha em que se meteram, que é um lugar insalubre e está a envenar tudo, e muitos. --- Este texto responde a um desafio chamado "no Largo": um grupo que todas as semanas escreve sobre um tema diferente. "Sair da bolha" era o tema da semana passada, mas por motivos vários só agora publico. As outras bolhas:
A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
Gralha dixit 
O blog azul turquesa 
Quinta da Cruz de Pedra

um ódio que - também a nós - mata

 

Há poucos dias, num país europeu, um jovem português ia pacatamente a caminho do trabalho quando começou a ser perseguido por cinco tipos dentro de um carro. Primeiro tentaram atropelá-lo várias vezes, e depois invadiram o edifício comercial onde ele se refugiara. Só se safou porque um empregado da loja o escondeu no armazém.
Não revelo mais do que isto, porque - apesar da insistência da polícia para que apresente queixa - esse português, num país europeu, sabe bem o risco que corre se essa gente repleta de ódio souber quem ele é.
E que fez ele para merecer a perseguição?
Tinha "ar de árabe".
André Ventura é um dos que cultiva cinicamente o ódio ao "outro" para conquistar poder. O ódio que ele espalha em Portugal é o mesmíssimo ódio que se abateu com tanta brutalidade sobre aquele emigrante português num país perto de nós.
E o político aprova: foi a Espanha dizer que as violentas perseguições a imigrantes em Murcia o enchiam de orgulho.
Esta semana, parece que a sua gigantesca máquina de propaganda decidiu que a narrativa melhor para o momento é armar-se em vítima, e apelar à consciência democrática: "Ai, ditadores são vocês, só aceitam os políticos que dizem aquilo que vos agrada..."
Que não haja dúvidas: o ódio que este fantoche sedento de poder anda a servir em doses cavalares é um ódio que mata. Ninguém está a salvo do veneno que ele e a máfia internacional com quem anda enrolado estão a injectar no mundo.
Não normalizem o ódio contra estrangeiros.
Por uma questão de princípio, como é do mais elementar sentido de dignidade, e por uma questão de sobrevivência dos "nossos": cerca de dois milhões de portugueses vivem na condição de estrangeiros.
E, se ainda não repararam: muitos portugueses têm "ar de árabe".

05 fevereiro 2026

Joana Lopes

 


A Joana Lopes!
Conheci-a no tempo dos blogues, habituei-me à sua presença atenta e plena de seriedade, à sua inteligência, à sua acutilância.

De certo modo, era parte eterna da minha internet.

Nem me ocorreu que um dia destes pudesse ir fazer perguntas inteligentes para outro lado qualquer, e nos deixasse aqui tão mais pobres.

Obrigada por tanto, Joana. *** Aqui encontram uma entrevista de Joaquim Paulo Nogueira, em 2023. Publicou-a hoje no Facebook, juntamente com este texto: "A Joana Lopes.
Tinha feito 84 viagens nesta altura, a 16 de Fevereiro de 2023. As viagens davam-lhe alento, mundo, abriam-lhe horizontes. Não sabia se gostava muito de viver, respondeu quase no final a primeira vez que lhe perguntei, depois emendou, disse, "bem, toda a gente gosta muito de viver." E Portugal entediava-a. também disse. Conhecemo-nos no blogue da candidatura do Manuel Alegre, pela mão do Luís Novaes Tito, e depois reencontrámo-nos no Que se Lixe a Troika. Era uma das pessoas mais jovens do grupo. A mim chamava-me Quim e eu gostava tanto.
Partiu agora para a grande viagem, telefonou-me o Vítor Fernando Machado a dizer."


a Democracia como festa

 

A pensar nos pobres emigrantes portugueses, que têm de fazer centenas ou milhares de quilómetros para ir votar nas eleições presidenciais, porque o voto é presencial, tive uma ideia brilhante, cof cof: e se fizéssemos uma pequena festa à portuguesa lá na zona da mesa de voto? O pessoal ia chegando, e tinha ali uma barraquinha de bifanas e cervejas, outra de pastelaria e fritos. Comia, bebia, conversava, ria, votava, conversava mais um bocadinho, e até levava umas bolas de Berlim (daquelas como deve ser) para casa.
A Democracia como festa.
Depois, ocorreu-me que na Alemanha é preciso pedir autorização para vender comida na rua, e que fazer isso dentro do território da Embaixada nem pensar, por muitos motivos e também por causa das invejas "ah, deram-no a ganhar àquele em vez de mo darem a ganhar a mim", "estão feitos uns com os outros", "andam a subornar os eleitores com pastéis de nata", etc.
(suspiro)
Apesar dos apesares, teimo: era mesmo simpático transformar estes votos presenciais numa festa dos eleitores portugueses. E penso especialmente naqueles que fazem longas viagens para ir votar, e era bonito serem recebidos com um cheirinho a Portugal.
Vou continuar a pensar no caso.
Se este voto continuar a ser presencial, pode ser que daqui a cinco anos se organize uma coisinha simpática.
Mas, para já, votem Seguro. Para termos a certeza de que daqui a cinco anos há outra vez eleições livres. Que são as únicas que justificam fazer festa.

04 fevereiro 2026

alegria no trabalho

 

"Não voto Seguro porque ele não é de esquerda como devia ser"
é a tradução, para a realidade portuguesa, do nosso conhecido
"Não se deve votar na Kamala Harris porque ela se portou mal em Gaza".
(Às vezes desconfio que a equipa de manipulação das redes sociais do Bannon, ou do Putin, ou de sei lá quem, ou deles todos juntos, se ri muito de nós quando está a fazer o seu trabalho.)

03 fevereiro 2026

"lavar"


Caso alguma vez se tenham perguntado aonde ia a Agatha Christie buscar a inspiração para os seus livros, aqui vos deixo a resposta: a #lavar a louça. Pelo menos foi o que li numa edição de verão de um jornal qualquer. Estava escrito, deve ser verdade. Se bem me lembro, terá dito que lavar a louça é uma actividade tão entendiante, que tinha de entreter o cérebro de alguma maneira, e inventava aqueles enredos.
Ora bem: ficamos a saber que a Agatha Christie lavava a louça muito devagarinho e com gestos repetitivos e monótonos. Porque eu cá, quando estou a lavar a louça, tenho o cérebro ocupado a tentar gastar o mínimo de água e de esforço e a ter aquilo tudo despachado o mais depressa possível. Se calhar existe em mim uma escritora fantástica, mas nunca se saberá, e é porque lavo a louça da maneira errada.

vai-se a ver, e...



Por causa do que tem vindo a ser revelado sobre a correspondência de Epstein com muitos poderosos deste mundo (1) (2)
dei comigo a perguntar: será que aquele suicídio na cela foi um caso de Crime no Expresso do Oriente?
(1) para além de muito chocante e de muito informativo sobre como o pessoal "lá em cima" funciona
(2) e tenho andado a evitar ler os relatos das jovens, não consigo entrar nesse abismo

para começar bem o dia

 


Yasmin Levy: "I am proud to combine the two cultures of Ladino and flamenco, while mixing in Middle Eastern influences. I am embarking on a 500-year-old musical journey, taking Ladino to Andalusia and mixing it with flamenco, the style that still bears the musical memories of the old Moorish and Jewish-Spanish world with the sound of the Arab world. In a way it is a ‘musical reconciliation’ of history."

02 fevereiro 2026

duas questões

 

Agora que entramos na última semana antes das eleições, estou aqui com duas curiosidades:
1. Em que dia é que o alforreca se irá sentir mal?
2. Será que, para compensar ter usado a máscara do sofrimento enquanto carregava umas garrafitas de água, depois, lá no hospital, vai compor a máscara "herói cheio de determinação para ajudar ao máximo quem precisa"?

fotografia


Por estes dias tenho-me lembrado de um desabafo do Michael Moore quando começaram a sair os resultados das eleições Biden/Trump.
Ele contava com uma derrota estrondosa de Trump, depois daquele primeiro mandato surrealista. Mas não. A coisa estava muito periclitante, e Michael Moore não compreendia os seus concidadãos. Sentia-se de rastos por haver tantos milhões de norte-americanos a votar Trump apesar de tudo o que ele revelou sobre si próprio nesse seu primeiro mandato, e do mal que fez ao país e à sua imagem no mundo.
No próximo domingo, não se trata apenas de a democracia se saber defender do três-salazares. Portugal vai ao fotógrafo para tirar um retrato histórico. A ver vamos como ficamos na fotografia.

good girls and pretti boys

 


Que lema espantoso: "Raise Good girls and Pretti boys" Em memória de Renée Good e Alex Pretti, mortos por elementos do ICE em Minneapolis, em Janeiro de 2026.

01 fevereiro 2026

para adormecer este domingo em paz

 


Boa noite.

lembrar também isto

 


Faz por estes dias 9 anos, Trump deu ordens para não deixar entrar nos EUA os árabes que viessem de determinados países. Todos terroristas, temia ele...

A ordem entrou em vigor quando muitas dessas pessoas já vinham num avião a sobrevoar o oceano.

Caos e desumanidade à moda de Trump. Crianças que regressavam a casa dos pais, pessoas que vinham fazer tratamentos médicos urgentes, funcionários importantes de empresas norte-americanas - a ordem era: "volta tudo para trás!"

A população correu para os aeroportos em sinal de protesto e solidariedade.
Houve cenas comoventes, como a polícia mandar vir pizzas para alimentar os manifestantes.
E sobretudo esta aqui: "Never again."


Brainwashed

 


Ando há que tempos para vos dizer para irem ver este filme.
É hoje.
Muito informativo, muito claro. Tão evidente que dói.
Por exemplo, o início de Lost in Translation (para mais, de uma realizadora): a apresentação do personagem principal masculino é feita com o seu rosto (com boa luz, bem desenhado, profundidade, mímica, movimento). E como apresentam a mulher da história? Um grande plano do seu rabo, numas cuecas transparentes.
Apresentação do filme no programa da Berlinale: aqui.


"jogar"

 


Não sou muito de #jogar, mas passava belas tardes com os miúdos a jogar "Zug um Zug" (tradução: comboio a comboio, ou jogada a jogada): cada um tem uma ligação ferroviária longa (Lisboa a Estocolmo, por exemplo) e vai tentando combinar essa com outras ligações mais curtas, que existam no seu caminho, para ter mais alguns pontos. Mas é preciso ter atenção também aos outros: a ligação deles precisa dos mesmos carris que a minha? Vão acabar antes de eu terminar a maior parte das minhas?
Como jogava com os filhos, dava um jeitinho para acomodar os interesses deles: "se quiseres, vais por Bruxelas e eu vou por Colónia".

É isto.
Quer dizer: era isto, até ao dia em que um amigo nosso começou a bloquear passagens fundamentais para todos. Só pelo gosto de estragar o nosso jogo.
Nunca me tinha ocorrido que também se podia jogar assim.

Outra descoberta: o Matthias foi viver para um apartamento partilhado, levou o jogo com ele, e um dia em que nos veio visitar e o trouxe para jogarmos, eu percebi que ele estava noutro nível. Jogava com enorme inteligência, sentido de estratégia, antecipação. Fazia contas de cabeça sobre probabilidades.
E eu que só queria sentar o meu cérebro no sofá para ir fazendo confortavelmente as ligações...

Se calhar é por isso que não pode haver paz neste nosso triste mundo: porque de um lado há os que só querem fazer a sua vidinha honesta, e do outro há os inteligentes, e do outro há os cínicos, e por cima desses todos há os cínicos inteligentes.

João Canijo - duas homenagens


Do tanto que se disse sobre João Canijo no momento em que a sua morte nos sacudiu, fiquei especialmente tocada pelas palavras do Vasco Pimentel e do Marco Martins. Por isso as partilho aqui.


Vasco Pimentel (no facebook)


O JOÃO CANIJO.......
Tínhamos exactamente a mesma idade. Houve uma data de anos em que, mais filme, menos filme, o João estava em todos os filmes onde eu também estava. Foram muitos, e quase todos muito bons. Quando começou a fazer os filmes dele levou-me atrás, e eu fui sem hesitar. Era uma pessoa muito intensa e atormentada, embora disfarçasse bastante bem. Auto-retratou-se em todos & cada um dos filmes que fez, embora também disfarçasse bastante bem. O conjunto dos filmes dele é as duas coisas ao mesmo tempo: a alma que ele carregava consigo e a máscara com que a encobria.
Muito obrigado, João. Marco Martins (no instagram):


Comecei a fazer cinema com o João e, com ele, tive o privilégio de assistir à descoberta, à intransigência, à obsessão que devem moldar um artista. A ética da estética ou a estética da ética. O trabalho incansável de um artista com uma alma profundamente negra e sem esperança de redenção. Trágico e existencialista, zangado com o seu país, com a sua condição. Comecei a trabalhar com o João no período mais difícil do seu percurso, perdido em séries de televisão, a preparar projectos sem saber se os ia algum dia filmar. Aprendi também isso, a persistência, continuar sempre, a utopia. O João acolheu-me e ensinou-me enquanto ele próprio explorava. Procurava um método, procurava, procurava, procurava. Trabalhava incansavelmente com os actores, o texto, a câmara e a matéria. Tive uma sorte tremenda. Obrigado João. Obrigado. O Cinema do João é sempre incômodo, tem sempre alguma coisa para dizer, que não queremos ver . Ele explorava, investigava actores, e partilhava essa exploração (que maravilhosos são os actores nos seus filmes). O trabalho incansável de um artista intransigente, com uma alma dilacerada, na criação de uma espécie de realismo híbrido, cru, que doía. Cinema. Cinema elevado a uma espécie de emoção crua e vibrante. Cinema torturado, como ele era, sempre com aqueles olhos brilhantes e sorriso. Cinema sem pose. Trabalho de câmara incansável, barroco e visceral. Por vezes era como sangue, como cuspo. Cinema que doía nos olhos, na alma. Uma intensidade visceral, um cinema sujo e imperfeito que pedia aos atores volume máximo. Cinema incompreendido, claro. Muitas vezes. Que bom. Que duro. Mas finalmente também o reconhecimento veio. Veio também o Urso, mas podia não ter vindo. O Cinema não é sobre isso. O cinema do João andava em contraciclo com o mundo. Que sorte nós tivemos.

Obrigado, mestre e amigo.