26 agosto 2018

incêndios perto de Berlim

Na quinta-feira passada deflagrou um incêndio numa área florestal de Brandeburgo. Primeiro 3 hectares, depois 30, depois - por causa do vento forte - 300.
O maior problema que se coloca ao combate a estes incêndios nas florestas alemãs são os restos de material explosivo que lá existem desde a segunda guerra mundial. Os bombeiros deram notícia de várias explosões.

Duas aldeias foram evacuadas. Com tanques do exército abriram caminhos por entre as árvores ardidas para os bombeiros poderem fazer o trabalho de rescaldo. A esta hora o fogo parece estar inteiramente dominado.

A população de alguns bairros de Berlim foi avisada para manter as janelas fechadas, por causa do fumo. Também se falou na possibilidade de haver chuva de cinza.

Os meios de comunicação social informam que até agora não se encontraram indícios de ter sido fogo posto.

Este incêndio teve ontem honras de meio minuto no noticiário nacional da noite (que dura 15 minutos). Aqui podem ver a reportagem no noticiário nacional às 9 da manhã de sábado, e aqui às oito da noite, quando já estava quase dominado.

Um jornal berlinense, o Tagesspiegel, contou o seguinte sobre a evacuação da população:

"Nem na guerra vi alguma vez uma coisa destas!", comentou Anita Biedermann, de 76 anos, quando abandonou a sua casa em Frohnsdorf com um pequeno saco na mão. Medicamentos, documentos de identificação e um casaco deve ser o suficiente, acrescentou. Não tinha medo. "Estão aqui tantos homens fantásticos", e apontava para os bombeiros e os assistentes dos Serviços Técnicos. Ia passar a noite no centro camarário de Treuenbrietzen. Ao anoitecer, as pessoas que se encontravam nesse local sujeitavam-se a uma dura espera. No ginásio havia colchões, mas ninguém queria dormir. Apenas 21 dos evacuados foram ali alojados. Todos os outros encontraram abrigo na casa de conhecidos seus.
Inúmeros cidadãos contactaram a Câmara para oferecer a quem precisasse alojamento nas suas casas. Também Anita Biedermann recebeu uma oferta dessas, mas recusou: "nós não vamos dormir, vamos fazer uma festarola", brincou ela, e ergueu o seu copo de água mineral para brindar com os vizinhos. 
Estava com esperança de poder regressar a casa por volta das seis da manhã.


O artigo do jornal termina com a seguinte síntese:

Brandeburgo vive um dos mais terríveis anos de incêndios florestais. Até agora já houve mais de 400 incêndios. Desde o início do milénio que não se via nada disto. Este ano arderam 691 hectares - incluindo os 300 do incêndio mais recente. Em particular a monocultura dos pinhais é facilmente inflamável.

Se bem conheço os alemães, muito em breve darão início a um programa intenso de reflorestação para acabar com a monocultura, e não vai haver protestos. O que tem de ser tem muita força, dirão eles. A começar pela tal Anita Biedermann.




23 agosto 2018

tomates (1)

 
[Não, isto não é uma provocação - é mesmo só um prato de tomates da minha hortinha berlinense.]

De cada vez que vou ao quintal buscar o necessário para o jantar lembro-me daquele dia em que estava na nossa casa no Minho, e por me ter dado a preguiça de ir ao supermercado comprar alguma coisa para o almoço, fiz com o que a terra tinha para dar nesse dia: sopa de beldroegas, arroz de tomate e pimento, ovos estrelados.
 

A Christina, que teria uns oito anos, perguntou:
- Fizeste o nosso almoço sem ir comprar nada?
- Fiz.
Olhou para o prato, olhou para mim, e exclamou com os olhos enormes de surpresa:
- Mãe! Nós somos ricos!!!


Todos os dias ao fim da tarde, quando ponho na mesa um jantar feito quase só com produtos da hortinha, é nisso que penso: nós somos ricos!


17 agosto 2018

Boo!-bs!


O facebook atacou de novo: bloqueou a Helena Ferro de Gouveia por ter publicado esta foto numa homenagem à Madonna, que fez ontem 60 anos.

Hoje às 3 da tarde vamos publicar esta imagem no nosso mural do facebook, exigindo que o facebook desbloqueie imediatamente a Helena Ferro de Gouveia, e que repense a sua política ignorante e prepotente de bloqueios.

Because it's 2018.

ADENDA: o facebook está [grande surpresa] a bloquear a imagem. Se não puderem publicar essa, sugiro que publiquem a seguinte, que é um caso de duas Madonnas em um.






16 agosto 2018

quando as palavras se tornam arma

Enquanto pesquisava para escrever o post anterior fiz um breve busca por "Verrohung", que é uma palavra cada vez mais repetida para criticar o tom dos debates na Alemanha. Significa "brutalização": a brutalização da sociedade, a brutalização do discurso no espaço público.
A brutalização.



Um dos artigos que encontrei, de Georg Diez, já tem dois anos, mas está cada vez mais actual. Foi escrito a seguir ao massacre de Orlando (e tantos massacres aconteceram já depois desse!). Ainda não se imaginava sequer que Trump seria o próximo presidente dos Estados Unidos, e os princípios democráticos mais básicos ainda eram o fundamento dos discursos na Casa Branca. A gente lê o que na altura se escrevia (os links são para textos em inglês), olha para o descalabro em que nos encontramos, e conclui lapalissadamente: estava escrito.

 

Quando as palavras se tornam arma
Quem usa um discurso de exclusão cria as condições para que as pessoas se entreguem ao ódio. Os assassínios em Orlando e Leeds são a consequência de uma retórica bélica.

O que acontece quando racistas chegam ao poder?
Morrem pessoas.
O que acontece quando os noticiários nos repetem todas as noites palavras de ódio, desconfiança e desprezo, como se isso fosse o mais normal que há no mundo?
Morrem pessoas.
O que acontece quando quotidianamente se derruba a fronteira da civilidade? Quando políticos apelam ao ódio? Quando as palavras se tornam arma?
Morrem pessoas.
Ou, como Barack Obama disse recentemente: "Where does this stop?"
Obama criticava Donald Trump, que se aproveitou do massacre de Orlando para propagar mais uma vez a sua agenda islamofóbica.  
Para Trump, o facto de o assassino de Orlando ser americano não contava. Exigia na mesma, e de novo, "a complete and total shutdown" - o impedimento de muçulmanos entrarem no país.
Antes disso, Trump já ameaçara um juiz por ter um nome que soava mexicano, o que foi, para além de um desrespeito pela Constituição, a exibição de um "racismo como vem definido nos livros" (citando um dos seus colegas de partido).
Mas para onde nos leva tudo isto?
O que acontece quando as próprias pessoas que querem governar em Democracia não acreditam nos fundamentos e nos limites democráticos?
Aonde é que isto leva?
O que acontece quando alguém como Nigel Farage, líder do UKIP, usa a discussão sobre o Brexit para semear o ódio contra os refugiados sírios?
Aonde é que isto leva?
Leva-nos para Leeds, quando um homem com evidentes problemas mentais dispara contra uma política e grita "Britain first", mata essa pessoa e ao mesmo tempo ataca tudo o que a Democracia representa.
Começa a ser tempo de percebermos isto: as palavras têm consequências.
Isto é válido para o tresloucado que algures no Médio Oriente grita "morte aos infiéis!", é válido para o tresloucado que em Orlando assassina homossexuais numa pista de dança.
Isto é válido quando uma sociedade permite que o ódio contra as minorias seja aparentemente OK - e as pessoas que tomam partido por essas minorias, como Jo Cox, se tornam o alvo desse ódio.
O que aconteceu em Orlando foi um acto de terrorismo?
Foi.
O que aconteceu em Leeds foi um acto de terrorismo?
Foi.
É o que acontece quando as pessoas são sistematicamente encorajadas a dar rédea solta ao ódio que trazem no coração.
É o que acontece quando a envolvente política, social e cultural se transformou de tal maneira que o ódio parece ser uma atitude aceitável.
É o que acontece quando demasiadas pessoas permitem que os limites do aceitável no debate público sejam arredados para cada vez mais longe.
Aqui pode ver-se as consequências de longo prazo que resultam da dureza com que tem sido conduzido o debate sobre a questão dos refugiados.
É um veneno que se instala em muitas ramificações da sociedade e condiciona o pensamento e o discurso das pessoas, muito mais do que elas se dão conta.
Pelo que, para além do horror que nos provoca o assassínio de Jo Cox, temos também de tirar conclusões.
Quem usa um discurso do medo e da exclusão cria as condições para que as pessoas dêem livre curso ao seu ódio.
No caso dos refugiados que chegam à Europa, trata-se de um erro exemplar, porque era justamente aqui que a Política tinha a oportunidade de se reinterpretar de um modo diferente e inspirador.
"Não é possível que o fracasso da 'cultura de acolhimento' seja festejado como uma vitória", disse recentemente Hans Maier, o antigo ministro bávaro do Ensino e da Cultura, criticando o seu partido CSU.
Esta atitude destrói todas as conquistas "positivas e felizes", como Maier lhes chamou, substituindo-as pelo negativismo e pela manipulação direccionada. 
É assim que os racistas governam. Como escreveu Mark Danner, "Trump é a personificação nacional de todos os nossos medos" - e o medo produz novos medos.
O medo precisa do medo - eis a descrição do que aconteceu em Leeds e também em Orlando.
O psicólogo Dan P. McAdams afirmou que Donald Trump alimenta uma "warrior narrative" - a narrativa bélica como
lenda heróica cruelmente narcisista.
Mas onde há guerra, há vítimas.
E o contrário também é verdade: é necessário haver vítimas para que a guerra se instale.


15 agosto 2018

é sempre bom lembrar (a propósito de a Web Summit ter convidado a Le Pen)

Pelo que li sobre a agitação do momento, o convite que a Web Summit fez à Le Pen para vir falar em Lisboa, os campos dividem-se entre os que dizem que a sua presença é inaceitável, e os que dizem que não se pode impedir ninguém de falar (a liberdade de expressão, a Democracia, o confronto, o poder da Razão, etc.).

Estou com o primeiro grupo, e diria mesmo mais umas coisinhas:

1. Das duas, cinco: ou os responsáveis da Web Summit são oportunistas e cínicos calculistas, ou os responsáveis do marketing da Web Summit são oportunistas e cínicos calculistas, ou os responsáveis do evento e os do marketing são oportunistas e cínicos calculistas. Ou então são todos demasiado ingénuos e sofrem todos de um nível assustador de ignorância política. Finalmente, também se pode dar o caso de simpatizarem com o fascismo. Em qualquer dos casos (seja oportunismo e cínico calculismo, seja ignorância, seja simpatia política) é bom que recebam a publicidade que estão a pedir. Esta assim:


2. Dizer que retirarão Le Pen da lista dos oradores se o governo português pedir é uma armadilha traiçoeira, passe o pleonasmo. Se me deixassem mandar, diria ao governo português para ficar quietinho, e pedia às pessoas de bem que tratassem do assunto. Por exemplo, partilhando aos milhares imagens como a que está aí em cima. Não é preciso discutir muito. Basta - ao abrigo da tal liberdade de expressão que eles tanto prezam - participarmos na construção de uma determinada imagem da Web Summit. Se não querem ter esta imagem, pois que façam por não a merecer.  

3. Passo um diálogo que encontrei num mural de facebook. Como está fechado, copio apenas as ideias, sem revelar o nome dos autores (sublinhados meus):

- Tratá-la como se fosse um Mário Machado não ajuda. Ela está no “sistema”, ela vai a votos e pelos vistos 34% da população de um dos países mais cultos e sofisticados do mundo votam nela. Eu não tenho receio do debate com esta gente, acredito mesmo que é a melhor maneira de os expor.

- É a melhor maneira de lhes abrir caminhos. Diversos caminhos, por todo o lado. Li o teu post e fiquei mesmo incomodada com o que li. A obrigação dos democratas é defender as democracias, lembrar a história, prevenir que se repitam erros do passado recente. Foi há muito pouco tempo e parece que nos esquecemos tão depressa de tudo o que aconteceu. Dar palco não expõe nada, apenas legitima um discurso, apenas normaliza um modo de pensar que há poucas décadas o mundo percebeu que deveria combater. Agora já não há combate, há aceitação, normalização, vontade de "ouvir para compreender o fenómeno". O fenómeno é sobejamente compreendido é estudado. Estamos apenas a dar-lhe asas para voar. É dramático, é assustador.

- Concordo contigo. Os países onde estes movimentos estão a ter mais apoio são precisamente os países que mais sofreram com o fascismo, isso ainda me intriga mais. Onde divergimos é na estratégia de combate, não a ouvir, não a contradizer, perder a oportunidade de a confrontar com a história não me parece a melhor opção. Afirmo mesmo que ela tem muito mais a perder do que a ganhar em participar num evento destes numa cidade destas.

- Quando se convida um orador é porque, à partida, consideramos que ele possa ter coisas interessantes para dizer. Ora essa premissa parece não existir. Para além disso, o palco da websummit não será o palco do contraditório. Será o palco para por microfones de lapela e ouvir. Mas mesmo que fosse o palco do contraditório, há discursos que, por si só, não devem ter direito a contraditório, porque isso pressupõe que primeiro tenham palco e depois contraditório. Não há galinha sem ovo. Quanto à tua conclusão, discordo em absoluto. Ela não tem nada a perder, só tem a ganhar. Mesmo que leve com um protesto monumental em cima e todo o contraditório possível, só tem a ganhar.

3. É sempre bom lembrar:



4. Quanto aos que dizem que isto se resolve com debate, informação e educação, gostava de partilhar algumas perplexidades:

Educação: concordo que é fundamental apostar na Educação, mas esse investimento só começa a dar frutos décadas mais tarde, e nós debatemo-nos com o problema hoje. Além disso, tenho algumas dúvidas sobre os seus frutos. Penso na Alemanha, que foi um país pioneiro na escolarização - e foi o que se viu. E penso muitas vezes no caso de Weimar, a cidade de Goethe e de Schiller, a cidade onde houve o cuidado de dar ao povo algumas luzes artísticas e intelectuais, a cidade que apostou na educação e nas artes para fazer as pessoas aderir voluntariamente a valores humanistas e tolerantes. Quando o nazismo começou a alastrar, esta cidade e a sua região, a Turíngia, catapultaram-se voluntariamente para a linha da frente. Weimar adorava Hitler, e permitiu que Hitler violasse e instrumentalizasse o seu famoso espírito humanista.

Informação: num mundo onde alastram as teorias de conspiração, onde se inventam propositadamente notícias para servir determinadas estratégias e onde as pessoas só lêem aquilo que lhes agrada e só acreditam naquilo que confirma as suas convicções, num mundo em que há gente que vive de espalhar falsidades nas redes sociais e os jornais se fazem cada vez mais vítimas das leis do mercado, como é que alguém pode ainda imaginar que a informação pode ser a solução?
 

São, como disse, perplexidades. Havia muita gente informada e culta entre os apoiantes da primeira hora do partido nazi. Há muita gente informada e culta entre os apoiantes de Trump. E olhe-se para a Polónia, para a Hungria...
Penso que há ideias que se propagam facilmente porque apelam ao pior do que há em nós. Temos o dever de nos defender da sua carga maligna. Não lhes podemos dar palco, e não podemos aceitar que se transformem em algo normal, uma simples questão de opinião.
Não precisamos de reinventar a roda. Não devia ser preciso uma terceira guerra mundial para reaprender as lições que a primeira e a segunda guerra mundiais nos ensinaram de forma tão dolorosa.

5. Já aqui contei esta anedota, mas vale a pena lembrá-la a propósito do risco de perdermos referências básicas:

Diz o neonazi: "Morte a todos os judeus!"

Diz o contramanifestante: "Não!"
Diz o observador: "Estamos então perante posições extremadas e antagónicas, agora temos de encontrar um compromisso."

09 agosto 2018

é oficial: a terra é redonda!



Está na internet, portanto só pode ser verdade: a terra é redonda.

Pelo menos é assim que o google maps a mostra agora, e até nos permite virar o globo em todas as direcções. Esta minha alma portuguesa andou a passear por aquele mundo novo e em meia dúzia de minutos fez vários descobrimentos. Por exemplo: a Gronelândia não é uma região descomunal, praticamente tão grande como metade de África (como mostra o mapa da primeira imagem). É grande, mas não maior que a Argélia. E bem mais pequena que o Canadá.

E descobri que a Europa, vire por onde virar, é minúscula.
(Por sorte estamos cá nós para a fazermos grande.) (Um bocadinho de wishful thinking por dia, não sabe o bem que lhe fazia...) 

Claro que não é a primeira vez que vejo um globo. Aliás: na casa dos meus pais havia um globo luminoso por onde fiz longas viagens e descpbertas. Mas a permanente exposição a mapas planos com a Europa no centro cria e reforça subtilmente a ideia de uma determinada ordem e dimensão. Temos informação sobre a realidade, mas deixamo-nos enganar por esta representação omnipresente. Pelo que gostei muito deste novo mapa do google, que tão facilmente se deixa girar, e troca os lugares do centro e da periferia como se fossem iguais. Um pequeno contributo para que nas nossas cabeças se comece a desinstalar a ideia de centro e periferia, e comecemos a pensar em termos de igualdade e de responsabilidade por esta redonda casa de todos. 


08 agosto 2018

concurso de Verão - adivinhem em que país são estas Finanças

Para não serem só os jornais a passar estes concursos parvos de Verão vou contar aqui umas historiazinhas verídicas e vocês tentam adivinhar em que país (Portugal ou Alemanha) isto se passou.

1. Uma contribuinte preenche a declaração trimestral online de impostos, paga o imposto devido, e envia como de costume a mensagem com a declaração dos impostos. Infelizmente envia a mensagem com a declaração em branco (não tentem fazer isto em casa). Passadas algumas semanas recebe uma carta dizendo que tem de pagar uma multa de 10 euros por não ter entregado a declaração de impostos. A contribuinte protesta, entrega a declaração correcta e diz que já tinha pago dentro do prazo, pelo que não é devida multa. A resposta: "Não basta pagar, também tem de entregar a declaração dentro do prazo. Mas como é uma contribuinte cumpridora e que nunca dá problemas, vamos anular essa multa."

2. Uma contribuinte tem uma perguntinha sobre se deve pagar um imposto ou não, e escreve um email às Finanças às 11:44. Às 12:37 recebe uma mensagem com a resposta à sua pergunta. 

3. Uma contribuinte não percebe nada do que anda a fazer, de modo que paga um montante excessivo de IMI. Passados uns tempos recebe uma carta em papel a informar que pagou a mais, e que esse montante vai ser descontado da próxima prestação. Mas como a pateta da contribuinte tem uma transferência automática para esse imposto, e não a mudou, a cada novo pagamento recebe a mesma carta. Até que um dia telefona para o número que vem na carta, atendem-lhe logo o telefone, e o pobre do funcionário explica com toda a paciência o que deve ser feito para ele deixar de enviar cartinhas.

4. Uma contribuinte paga o IMI. Passadas umas semanas recebe uma carta das Finanças, dizendo que tem de pagar uma multa de 23 euros por não ter pago o IMI. Dirige-se às Finanças mais próximas com o comprovativo do pagamento, onde lhe dizem que o assunto só pode ser tratado numa determinada morada (única para todo o país). Dirige-se a essa morada, prova que fez o pagamento, e que o motivo para o problema foi o erro num dos dígitos da referência para pagamento, mas que acrescentou o seu nome completo, pelo que seria fácil os serviços perceberem de que se tratava. Respondem-lhe que não podem fazer nada. O melhor é pagar o IMI e a multa, e protestar depois. Protesta, porque não quer pagar o IMI duas vezes. Dizem-lhe que não há nada a fazer porque "esse pagamento está perdido no sistema", e que o melhor é pagar imediatamente, caso contrário vai receber uma multa ainda maior. Paga, e a funcionária tenta dar-lhe uma luzinha ao fundo do túnel: "pode ser que um dia destes eles descubram que têm ali uma soma que não deviam, e devolvem para a sua conta bancária". Até hoje.

5. Uma contribuinte paga o imposto do cão todos os meses, quando devia pagar apenas trimestralmente. As Finanças devolvem o montante excessivo automaticamente para a conta bancária da contribuinte.

6. Uma contribuinte passa um recibo com IVA, e apercebe-se depois que não devia ter pago o IVA. Telefona às Finanças. A funcionária diz que isso é um problema, porque já está registada como contribuinte com IVA no sistema informático, e a funcionária não tem como alterar isso. Mas acrescenta que vai falar com o gestor do sistema informático, para tentar corrigir o erro. Passado pouco tempo telefona a informar que o problema está resolvido.

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Caso seja demasiado difícil, dou uma pequena ajuda: o modo como sou tratada pelas Finanças é um motivo muito forte para continuar a viver na Alemanha, e para ter medo (a sério: medo) de me mudar para Portugal.


07 agosto 2018

fossem todos os hóspedes airbnb assim!


Esta semana calhou-nos em sorte uma família italiana amorosa. Pai, mamma, dois filhos, assim:

Primeiro dia: entraram-nos em casa com um salame da terra deles (e muitos sorrisos, e: "não ponham no frigorífico!"). Dei-lhes uma garrafa de Casa das Buganvílias fresquinho para o jantar. O salame, não sei que é que tinha, mal o abri começou a mingar de uma forma espantosa. Nunca vi nada disto. Talvez seja por causa do calor (o vinho verde também se lhes evaporou depressa).
Segundo dia: respeitosamente, perguntaram se podiam convidar um amigo para jantar. Claro que sim. Ao fim da tarde precisámos de ajuda para mudar uma mesa de lugar, e eles - que já estavam preparados para começar a jantar no terraço, com o Fox instalado no que entretanto se tornou o seu lugar cativo debaixo da mesa - vieram: o pai, o filho e o amigo. Ofereci-lhes um prato de pêssegos que a mãe de uma vizinha me tinha dado do seu jardim ("vocês são boas pessoas, merecem!", disse ela ao passar-me para as mãos uma caixa cheia de pêssegos, maçãs e peras) (sim, reconheço que vivo numa realidade paralela e que nada disto é normal).
Terceiro dia: a Christina foi conversar com eles, e disseram-lhe que tinha sotaque romano, o que a deixou muito contente. Depois contaram-lhe que tinham ido ao lago dar um mergulho, mas não sabiam que havia lá gente nua, e voltaram para trás. (Ooooops! Esqueci-me de os avisar!)
Quarto dia: a mamma viu-me a passar com tomates e menta da horta e disse-me para voltar daí a 15 minutos. Era para me dar meio empadão de legumes, que estava a sair do forno para o almoço deles. Foi também o nosso almoço. Acrescentei ao deles (e ao nosso) tomates cereja de várias cores que tinha já maduros, prontos a colher.
Quinto dia: fez uns bolinhos de nutella, deu-nos alguns para provar.
Sexto dia: ao pequeno-almoço o Joachim comentou que estes podiam ficar para sempre aqui. Mas não - daí a uma hora já se estavam a despedir. O Fox ficou nas escadas a vê-los chegar à rua e entrar no carro, e quando os perdeu de vista deu meia volta, entrou em casa, e deitou-se na cama dele - que é o que faz quando está realmente triste.
Eu fui preparar os quartos para a família seguinte, pensando que ia ter muito trabalho porque quem cozinha todos os dias primo & secondo & dolce suja bastante mais do que quem nem sequer toma o pequeno-almoço em casa. Mas não: estava tudo impecavelmente arrumado e limpo!

A ideia inicial do airbnb era esta: partilhar a habitação e a vida. E às vezes, como na semana que acabou ontem, é uma óptima ideia. 

05 agosto 2018

lei do menor esforço



Estou aqui indecisa entre ir passear com o Fox na floresta ou fazer esta bomba de chocolate.

A lei do menor esforço dir-me-ia agora que ir passear na floresta é o mais adequado, porque não dá trabalho nenhum nem agora a fazer nem depois, quando se tratar de derreter as calorias que acumulei por causa da escolha que fiz.

Mas se havia algo em que os meus pais insistiram na educação que me deram foi a recusa da lei do menor esforço. De modo que vou ter de fazer o bolo: o caminho para o êxito exige espírito de sacrifício.

A receita está aqui, e diz que é para fazer em dois dias (a base e o bolo de queijo num dia, a mousse e a ganache no dia seguinte):

Layer 1: Oreo Cookie Crust
30-32 Oreo cookies (or chocolate sandwich cookies) for a high crust
4 Tbsp unsalted butter (1/2 stick), melted
1-2 tsp espresso powder (optional)
Crush cookies in a food processor or in a ziploc bag with a rolling pin or mallet. In a bowl or food processor, pour melted butter on top of the crushed cookies and add the espresso powder (optional), and mix or pulse well. Place the oreo mixture at the bottom of a springform pan. Smooth out the mixture with the bottom of a measuring cup or glass. Wrap the bottom of the pan in a double layer of aluminum foil. Place the crust in the freezer while you make the cheesecake.

Layer 2: Tall & Creamy Cheesecake

For the cheesecake:

é só fazer as contas...





Tenho andado a pensar numa questão que levantaram a propósito do caso Ricardo Robles ("então a Segurança Social anda a vender património ao desbarato?"), e tentei fazer as contas. Se houvesse por aí algum economista que desse uma mãozinha...

Antes de mais, pergunta-se:
- Deve a Segurança Social ser um agente de especulação imobiliária e gentrificação? Deve usar o património do Estado para criar ou permitir criar apartamentos de luxo nos bairros populares do centro? Sobre isso, não tenho certezas. Mas sei uma coisa: o Estado não pode vender o seu património ao desbarato, deixando que outros se aproveitem das mais-valias. Pelo que, antes de vender, tem de definir para que uso vende o prédio. Se ficar vinculado por várias décadas à função de habitação para famílias sem recursos deve ter um preço, se ficar livre para o melhor uso que o mercado lhe quiser atribuir deve ter um preço bem superior.
E tenho a certeza que o La Palisse não diria melhor que isto.

- Quanto é que a venda daquele prédio podia ter rendido à Segurança Social? Porque é que não fez ela as obras e o pôs no mercado para arrendamento ou venda, seja a preços sociais por ser esse o seu principal objectivo, seja a preços de uso para alojamento local, para conseguir o máximo valor possível para os cofres do Estado?

Tentando fazer as contas:

Os factos: o prédio estava num estado deplorável, e condicionado por cinco contratos de arrendamento, embora três desses cinco inquilinos não usassem os espaços devido ao grau de degradação do edifício. Só um dos apartamentos arrendados estava habitado, e uma das lojas era usada como restaurante. Área total do prédio: 728 m²; área útil somada dos apartamentos: 355 m²; as três lojas na rua têm as seguintes áreas: 123 m², 54 m², 38 m².

1. Arrendamento a preços sociais:
Segundo as condições do programa "renda acessível" da Câmara Municipal de Lisboa, o prédio tinha capacidade para oito apartamentos T1 com 45 m² e rendas de 200 euros, perfazendo 19.200 euros por ano. Quanto às lojas: dado que é importante manter no bairro os antigos exploradores, e sabendo que Ricardo Robles propôs ao arrendatário da loja maior uma renda de 400 (que este não aceitou), admito que, com muita sorte, a Segurança Social pudesse receber das três lojas 12.000 euros por ano. Juntando os 19.200 dos apartamentos, teria um rendimento anual de 31.200 euros. Partindo da ilusão de que a Segurança Social tinha os 650.000 euros em caixa e não precisava de pagar juros de crédito, e tinha meios para fazer as negociações com os inquilinos, o acompanhamento das obras e a gestão do imóvel, ao fim de vinte anos recuperava o custo investido (e acabei de me desgraçar: nem contei a inflação nem o ganho da aplicação alternativa daqueles 650.000 euros) - mesmo a tempo de fazer novas obras de reforma...
Por sorte estamos a falar da Segurança Social, que existe para responder às necessidades das pessoas com mais dificuldades.

Mas - e isto seria tema para outro post - não se pode contar com privados para investir nestas condições. Suspeito que, mesmo sem qualquer lucro, as rendas de habitação deste prédio teriam de ser muito mais altas. As contas que faço em cima do joelho são estas: um empréstimo de 800 mil euros custaria 4.000 euros por mês; só para cobrir o custo do empréstimo, as três lojas juntas tinham de render 1.000 euros e cada um dos oito apartamentos de 45 m² 375 euros por mês.

2. Venda ou arrendamento pelo melhor preço possível.
O melhor preço possível seria o resultante de conseguir vender o prédio à Madonna, ou de o usar para alojamento local. Se pusessem os 11 apartamentos em alojamento local, a um valor médio de 100 euros por dia, e com uma taxa de ocupação de 300 dias por ano (tudo isto são valores extremamente optimistas - diria mesmo: irrealistas), mais os 12.000 anuais resultantes do arrendamento das lojas, teriam um rendimento anual de 342.000 euros. Deduzindo os custos ligados ao alojamento (taxa de 30% para a empresa que gere os apartamentos, despesas de água, electricidade, etc., reparações, reposição de material desgastado, o IMI e o imposto sobre os rendimentos no escalão mais alto), provavelmente não restariam mais do que 100.000 euros de lucro anual líquido.

Chegamos assim à base de cálculo para o valor de venda a um privado: qual deve ser o preço de um edifício que rende 100.000 euros anuais?
O que se diz na Alemanha é que só vale a pena comprar um edifício para rendimento se o seu custo for equivalente a 20 vezes a renda anual (ultimamente, devido à especulação, 30 vezes). Ou seja: o preço de mercado do prédio, se fosse usado para alojamento local, devia andar entre os 2 e os 3 milhões, segundo os cálculos para aquele cenário extremamente optimista.
[Nota à margem do tema: mesmo no mais optimista dos cenários, o lucro de Ricardo Robles não chegaria a meio milhão de euros, depois de descontado o imposto sobre a mais-valia. Ora, isso é muito diferente dos 5,7 milhões que andam nas parangonas dos jornais. A certos jornais, pelos vistos, não basta o epíteto "esquerda caviar" - precisam de torcer os títulos até chegar à categoria "esquerda caviar de fêmeas albinas de esturjão iraniano" ]

E assim chegamos a uma questão curiosa: quem no seu perfeito juízo pagaria 5,7 milhões de euros para ter um retorno de 100.000 euros por ano? Pelos vistos os investidores ainda estão no seu perfeito juízo, porque o edifício esteve à venda durante seis meses e ninguém o comprou.

Pergunto-me se aquela loucura de preço não é uma estratégia do agente avaliador para aquecer o mercado. Quer dizer: perante anúncios desses, os investidores vão pensar que o outro prédio que a mesma empresa tem à venda por "apenas" três milhões é uma pechincha, e compram sem discutir muito. Ou então, alguém terá resolvido montar uma armadilha a um vereador do Bloco, e ele caiu como um patinho. Mas isto sou eu, que hoje acordei virada para teorias da conspiração.

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ADENDA (6.8.2018): Explicaram-me no facebook que "o raciocínio está incorrecto porque num mercado especulativo a rentabilidade por via do arrendamento é apenas uma pequena parte da fotografia. Pode ter algum peso na decisão de investimento, mas não muito. Os especuladores em geral jogam no curto prazo e se acreditarem que existe uma bolha, se comprarem, digamos, por 4 milhoes e venderem 6 meses depois por 4,5, têm um lucro anualizado de mais de 20%. Isto para não falar do facto de que lisboa neste momento é uma lavandaria para mafiosos e muitos investidores são russos, chineses e brasileiros com capitais de proveniência duvidosa. quem quer branquear umas massas não se importa de perder uns cobres..."

Moral da história: fiz figura de "pensa muito e vê pouco", que vergonha, vou já arranjar um buraco onde me esconder (triste vida).
Das contas que faço, sobra apenas esta constatação: não se pode contar com os privados para garantir habitação a preço acessível. Mesmo sem o efeito especulação, os custos de (boa) construção são incompatíveis com rendas baixas. E sobra esta pergunta: a quem é que a Segurança Social devia ter vendido, e por que preço? 
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post que começa com uma dúvida ética e evolui para uma oportunidade de negócio


A dúvida ética do dia: quem é contra o alojamento local, o esvaziamento dos bairros históricos, a redução da cidade às suas fachadas, devia evitar os apartamentos airbnb?

É que estava aqui a fazer uma pesquisa e umas continhas para o post que se segue, e inadvertidamente abri esta página. Agarrem-me, que... ;)

Entrem neste apartamento: https://it.airbnb.ch/rooms/12478934 - e digam-me se não é uma tentação.
O que me fascina mais é o bom gosto do arquitecto, a criatividade, o cuidado nos detalhes, a capacidade de transformar um sótão (ou menos ainda) num apartamento lindíssimo. Se tivesse tempo, estava bem capaz de andar a passear no airbnb de Portugal para fazer um livro de arquitectura portuguesa para alojamento local.

(Ainda agora começou a manhã de domingo, e já descobri mais um nicho de mercado...)

o belo horrível


Tinha onze anos quando o petroleiro dinamarquês Jakob Maersk esteve a arder três dias em frente ao Castelo do Queijo. Depois do jantar metemo-nos no carro para ir à Foz ver aquela cena desconcertante: o mar em fogo.

No dia seguinte foi esse o tema principal na escola, e a professora de português aproveitou para nos introduzir a um conceito novo: o belo horrível.

Foi nisso que pensei ao ver esta imagem de "nuvens sobre os fogos da Califórnia", e ia escrever uma tirada fantástica, um "caminhamos para o fim, mas em glorioso!", ou algo do género. Por sorte lembrei-me de investigar um bocado mais, e descobri que isto não são fogos em lado nenhum. É apenas o lado de cima daquelas nuvens que nos encantam com os seus tons de fogo à hora do sol-pôr.

Ufff! Por pouco escapei a envergonhar-me outra vez na internet, repassando de forma acrítica o que encontro por aí. "Desconfiar" devia ser o nome do meio dos internautas.

Durante a pesquisa encontrei a imagem que se segue. Esta sim, um belo horrível: fascinante e assustadora.


The fire that devastated much of Fort McMurray, seen here on the evening of May 4th, 2016, was so massive that it created its own weather in the form of towering “pyrocumulonimbus” clouds capable of generating lightning. (Photo: Chris Schwarz/Government of Alberta, Flickr CC BY-ND 2.0)

Poupo-vos a tiradas fantásticas. Isto não está para retóricas.


04 agosto 2018

a Pousada vencedora é...

Lembram-se do post de ontem, perguntando que Pousada me aconselhariam para passar dois dias?

Aqui vai uma síntese das respostas:

Qualquer uma das que ficam em castelos: Estremoz, Óbidos, Palmela, Alvito, Alcácer do Sal, ...

Caniçada (Gerês) - várias referências à paisagem maravilhosa



Santa Maria de Bouro, Amares - mosteiro medieval, projecto do Souto de Moura. "A mesa de doces regionais é qualquer coisa!" / "Adoro a do Bouro, dentro e fora" / "Linda mas em mau estado de conservação, humidade nas paredes. As camas são desconfortáveis e o pacote de cenas não tem amaciador de cabelo (isto é uma cena do Pestana). Mas gostei da área em si e os funcionários são simpáticos."/ "Muito bom, com aspectos negativos . Vinte anos depois a Pousada continua impressionante. A recuperação arquitetónica, o mobiliário resistiram e os espaços exteriores resistiram notavelmente. A opção 4 estrelas e os preços praticados permitem uma boa afluência de visitantes, presumo, embora, no dia da visita só houvesse estrangeiros. A região, sob o ponto de vista da oferta turística está péssima, sem qualidade. O restaurante do hotel, incluindo o pequeno almoço, é muito inferior ao que a dignidade do espaço exigiria."Ria de Aveiro - por causa da Ria, de São Jacinto, e das camarinhas.



Flor da Rosa, Crato - "Disse-me um casal amoroso e veterano nestas coisas que a do Crato é espectacular." / "Com a boa cozinha alentejana!" / "surge como um espaço encantado no meio do alentejo. é inacreditável, e tb é souto de moura, se não me falha a memória (a recuperação). come-se é muito mal, e com este calor, não sei não..."
Marvão - por tudo, e também pelo Festival de Música Clássica.

Lóios, Évora - "uma das pousadas que mais amei é a dos Loios, em Évora. mas o Verão e tal e tal."

"Beja! Bochechas de Porco! Biscina!"Monsaraz - "a de monsaraz é um must menos no pino do Verão."

Palácio de Estói, Faro - "é fantástica!"

Sagres - "porque para além de ser sofisticadamente confortável, situada num local tranquilíssimo, oferece uma paisagem lindíssima e fica na proximidade de um conjunto de praias semi selvagens e desinfestadas de turistas."


Foram ainda mencionadas: Vila Viçosa, Arraiolos, Forte de Santa Cruz (Horta), Convento do Desagravo (Vila Pouca da Beira).

Quando já tínhamos chegado a uma conclusão sobre o que devíamos fazer (
pedir aos amigos que façam vaquinhas sucessivas para nós podermos ir experimentar essas pousadas todas) lembrámo-nos do amigo Fox: as pousadas aceitam cães?

Informação do site das Pousadas:
“Em algumas Pousadas a politica “Dog Friendly” permite acesso de animais até 15kg – Pousada de Lisboa, Pousada de Marvão, Pousada Convento de Arraiolos, Pousada Palácio de Estoi, Pousada Convento de Tavira, Pousada de Sagres, Pousada Mosteiro de Guimarães, Pousada Mosteiro de Amares, Pousada Convento de Vila Pouca da Beira, Pousada da Serra da Estrela, Pousada da Ria, Pousada de Viseu, Pousada Castelo de Palmela, Pousada Convento de Vila Viçosa, Pousada Castelo de Alcácer do Sal, Pousada de Valença.
A reserva nestas unidades tem o custo adicional de 25€ por noite, incluindo kit para o animal (cama, comedouro/bebedouro, base de chão, saco higiénicos e embalagem de alimentação). O pagamento é efetuado no Hotel/Pousada e deverá ser deixada uma referência nos comentários de reserva.”
Depois de tudo isto, a vencedora é:




PALMELA !

Por vários motivos: é num castelo, tem aquela vista para o mar, aceita cães, fica na rota do nosso rally Portugal e perto de alguns sítios especiais que quero mostrar ao Joachim (a praia de Galapos, a Escola Superior de Educação de Setúbal - com projecto do Siza Vieira -, o moinho de maré da Mourisca). E depois há o convento da Arrábida, que é muito gabado e ainda não conhecemos.

Muito obrigada a todos os amigos que ajudaram a escolher, e ainda mais obrigada aos que resolverem fazer as tais vaquinhas sucessivas... ;)

03 agosto 2018

a preparar as férias de Setembro

Deixa cá ver se os amigos me ajudam como de costume (não, não vou perguntar o que têm vestido hoje, que com o calor infernal que vai por aí arriscava-me a passar vergonhas). As perguntas de hoje são:

1. Se tivessem a possibilidade de passar dois dias numa Pousada em Portugal continental, qual delas escolhiam, e porquê?
(Estava a pensar na de Santa Maria de Bouro, por ser um projecto do Souto de Moura e por causa da mesa de doces conventuais; e também na de Cascais, por causa daquela maravilha de mar ali ao lado. Mas pode ser que me esteja a escapar a non plus ultra, e por isso pergunto.)

2. Se uma simpática irmã vossa vos tivesse oferecido uma noite num refúgio com jantar, daqueles do lifecooler, qual é que vocês escolhiam?

A gerência das minhas férias agradece. :)


a dieta que quase começou a fazer efeito

Recebi um pacote da Boden - trazia as calças que queria experimentar e, estranhamente, um lindo vestido que não me lembrava de ter encomendado. Vesti-o, cor e corte impecáveis, mas estava um bocado folgadinho. Fiquei toda contente: "ena, ena! isto de ter cuidado com o que como ao jantar já está a fazer o seu efeito! tem valido a pena e até nem tem custado muito! por este andar, o melhor é equilibrar com algum chocolate, caso contrário ainda fico esquelética ao fim de uma semana, etc."

Depois fui olhar a factura, e dei-me conta de que o vestido tinha vindo por engano num saco com etiqueta de calças, e...
...o tamanho era um número acima do meu.

Plano B: começar ir a pé comprar o chocolate numa loja do outro lado de Berlim. Cinquenta gramas de cada vez.


a dieta começa no supermercado



Sabem aquela frase "a dieta começa no supermercado"?

Quem a inventou bem podia ir dar banho ao cão! Acabei de chegar do supermercado, onde fiz um grande desvio para passar longe da secção de guloseimas, enchi o saco de legumes e fruta e ala que se faz tarde, e agora, já em casa, sinto uma espécie de desespero por um bocadinho de chocolate.

Ritter. Com cereais. Ou então de menta, ou então de leite alpino.

Deito contas a esta triste vida: se voltasse ao supermercado gastava umas quantas calorias que depois me podia permitir recuperar em forma de chocolate. E se o comprasse em quantidades valentes e regressasse a casa com o saco ora numa mão ora na outra era assim a modos que trabalhar com pesos. O que também conta como desporto.

Portanto: adeuzinho, vou à minha sessão de fitness, volto já.




02 agosto 2018

oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz? my friends all drive Porsches...

Há tempos correu um rumor de que as casas do nosso bairro andavam a ser vendidas por muito mais do dobro do preço inicial, e de repente dei comigo a sonhar com o aumento de qualidade de vida que podíamos ter se ganhássemos dois milhões, e a pensar que os lagos aqui perto e a horta atrás de casa não são assim tããããooooooo importantes, e que também podia ser feliz num apartamento de topo de prédio em Wedding, com um grande terraço no céu sobre Berlim, cheio de canteiros elevados.

Isto de viver paredes meias com o euromilhões é complicado. Uma pessoa dá-se logo conta dos limites dos princípios que julgava ter: para nós ganharmos este dinheiro, a nossa rua ia ficar mais tristonha, com um milionário qualquer a morar na nossa linda casinha que passaria a esconder-se atrás de câmaras e altíssimos muros, e nós iríamos ter parte activa na gentrificação de um bairro mais económico.

Vender ou não vender? Digam-me vocês: porque havia eu de me privar de algo em nome dos meus princípios, se não há um acordo geral para todos fazerem o mesmo? Se não vendermos nós, vendem os vizinhos da esquerda e da direita, e ficamos nós aqui cercados de milionários antipáticos e sem o dinheiro. Se mais ninguém está disposto a fazer sacrifícios em nome de princípios tão vagos como "boa vizinhança", parvos somos nós se não aproveitarmos a onda...
Quanto à gentrificação: não somos todos um pouco agentes dela? Quantos de nós escolhem propositadamente não ir para o centro das cidades para não destruir o delicado equilíbrio das comunidades de moradores desses bairros?
Em suma: quando se trata do nosso bem-estar pessoal e de dinheiro que podemos ganhar legalmente, num instante ficamos a saber se somos pessoas de ética abalável ou, pelo contrário, de princípios muito firmes mesmo sabendo que isso faz de nós os maiores palermas de que há memória.  

Por sorte, uma coisa é o preço que se põe na internet, e outra coisa, muito diferente, é o preço pelo qual a casa é vendida. Os preços exorbitantes do meu bairro não foram confirmados por nenhum negócio, e a questão de vender ou não vender deixou de se colocar. Um alívio, podem crer.

Vem isto a propósito de políticos que, na sua vida privada, têm de dar o exemplo dos princípios que defendem como válidos para toda a sociedade. O Ricardo Robles, por exemplo. Se é contra a transformação do centro da cidade num imenso aparthotel, em vez de fazer o que todos fazem (e por muito legal que seja), devia manter-se fiel aos princípios que defende e assumir sem discussão nem alarido o tal papel de maior palerma de que há memória. 

Que não haja dúvidas: parece-me evidente que o Ricardo Robles não devia ter entrado nesse negócio, porque é incompatível com o que defende para a cidade que o elegeu. Mas - agora que sei como é difícil recusar fazer um lucro de dois milhões aproveitando o funcionamento do mercado - pergunto-me se a maior parte do pessoal que o critica e ridiculariza se apercebe da figura que está a fazer. Só deveria zombar da incoerência de Robles quem tem um comportamento ético irrepreensível. Ponha o dedo no ar (bem alto, para vermos todos) quem é capaz de afirmar que nunca trairia algum dos seus princípios só para ganhar dois milhões de euros, mesmo sabendo que é legal e todos os outros o fazem. Ponha o dedo (bem alto) no ar quem nunca fez um pagamento sem factura ou quem nunca fez de conta que não reparou no erro de um empregado contra a loja ou o restaurante. Estes podem zombar à vontade. Quanto aos outros: concordam que, por princípio, não se deve consumir ou levar para casa nada sem pagar o preço e os respectivos impostos, mas aquela blusinha da Zara ou aquele livrinho na FNAC que a máquina não registou, aquela garrafinha de vinho que o empregado do restaurante se esqueceu de meter na factura, aquele biscatezinho do pintor... é apenas meia dúzia de euros, uma ninharia, não é? Por uma ninharia, por uma simples ninharia, por muito menos de dois milhões, já estão disponíveis para fazer ouvidos moucos à vossa consciência - mas riem-se muito do Robles...

Quanto à questão da hipocrisia dos políticos, lembro Thomas Jefferson, que cunhou o magnífico "all men are created equal" e tinha mais de cem escravos. Pelos vistos, se fosse hoje em Portugal, o pessoal rebolava a rir, "hahaha, all men are equal, vai tu, ó pantomineiro moralista de pés de barro!" - e ficava tudo na mesma.

Que atitude nos leva mais longe? Aproveitar o status quo e tentar cinicamente manter tudo como está, ou ousar sonhar um mundo melhor? Respondam, vocês que se riem de Ricardo Robles, acusando-o de nem ele conseguir resistir à possibilidade de lucro fácil, e aproveitando o caso para justificar o actual processo de esvaziamento do centro das cidades: querem realmente ver os bairros mais antigos transformados em mera fachada de aparthotel, ou parece-vos que é urgente tomar medidas para evitar que as cidades se tornem uma grotesca caricatura de si próprias?
Que vos parece mais correcto: aproveitar a incongruência de um político para desculpar as nossas próprias escolhas de ganhos egoístas em detrimento do interesse de todos, ou aceitar que, mal-grado os erros em que possa ter incorrido na sua vida privada, a sua mensagem política aponta um rumo que fará do nosso mundo um lugar melhor?
Sim, estou a falar do "moralismo acusador" que tantos vêem no Bloco de Esquerda: preferem um mundo em que vale tudo, e em que tudo se fará para que o vale tudo continue a ser legal?

Uma outra questão importante: temos consciência do que estamos a exigir aos nossos políticos? Temos consciência do que ficamos a dever a todos aqueles que, podendo fazer um negócio dentro da legalidade, escolhem não o fazer para não agirem contra os princípios que defendem no interesse de todos?

A todos esses políticos que aceitaram servir o país, mesmo em prejuízo dos seus interesses económicos privados, e que não sabemos quem são porque os jornais só falam daqueles que fogem à norma: muito obrigada.

Finalmente, e a todos os que troçam de um político de Esquerda por ceder ao impulso de fazer um negócio imobiliário com tanto lucro: o cinismo fica-vos mal. Lembra-me aquela anedota dos dois homens no restaurante, em frente a uma travessa onde havia um bife enorme e um bife minúsculo. O primeiro a servir-se tirou o bife maior, e o outro protestou, dizendo que era má educação.
- Se fosse você a servir-se primeiro, que bife tirava?
- O mais pequeno, claro!
- Então aí o tem - de que se queixa?

Fiquem com o bife grande, deixem o pequeno para os outros, e bom apetite.
Mas tenham cuidado com esse riso trocista, porque ainda se podem engasgar.


31 julho 2018

a dieta que vou começar depois de amanhã...


A famosa dieta que eu ia começar amanhã sem falta vai ter de esperar mais um bocadinho. É que puseram online o acervo completo da Maria de Lurdes Modesto, e não sei que me parece eu começar agora uma relação platónica com aqueles petiscos, quando o que me apetecia mesmo era comê-los todos.

"avião"

Esta pergunta é só para os (as?) maiores de 50 anos (pronto, já me desgracei): quem se lembra daquela história da Fagulha (pronto, já me desgracei outra vez) do miúdo que fez a sua primeira viagem de #avião, mas levava a irmã bebé, que se fartou de berrar, e ele foi o tempo todo a tentar acalmá-la e o raio da miúda só adormeceu quando o avião aterrou?

 (lembro-me de cada coisa! )
(escusam de responder - assim como assim, ninguém deste grupo lia a Fagulha)

Depois a hospedeira deu um grande elogio ao miúdo, e ele percebeu que cumprir o seu dever é mais importante que saborear a primeira viagem de avião.

Li a Fagulha, mas não aprendi nada daquelas histórias tão edificantes. E foi justamente num avião que se passou uma das histórias de que mais me envergonho na vida. Estava a fazer a minha primeira viagem em business, no tempo em que a minha empresa dava esses luxos até a simples tradutores, e vi entrar no avião um senhor muito debilitado, que praticamente era carregado em braços por duas familiares. Estas pediram à hospedeira se ele podia sentar-se logo ali, porque não tinha forças para ir até atrás, e a hospedeira, no meio da secção business com muitas cadeiras vazias, respondeu: "comprou económica, é lá que se vai sentar".

"Oferece-lhe o teu lugar!", ordenou-me o tal maldito inquilino (estou a citar não sei quem da Mafadinha). Mas eu, ai e tal, tenho vergonha de armar aqui uma cena destas, só de pensar nisso já corei, e depois estava tão contentinha por experimentar como é em business, e entretanto o senhor já estava quase a chegar ao seu lugar e era demasiado tarde.

O tal maldito inquilino está de mal comigo desde então.

30 julho 2018

já é mania de se armar em especial... (2)

(fonte)

Há dias contei que os bombeiros da área de Berlim se depararam com uma dificuldade inesperada ao tentar controlar o incêndio de uma floresta: explosivos que ali estavam esquecidos desde a segunda guerra mundial começaram a rebentar.

Hoje a newsletter do Spiegel voltou ao tema:

O horror das alterações climáticas

Para além dos furacões, das inundações e da actual onda de calor, os cientistas identificaram mais uma consequência ameaçadora das alterações climáticas: as fases de calor tropical no verão  provocam um tal aumento da temperatura que as munições militares esquecidas nas florestas desde a segunda guerra mundial podem explodir de forma espontânea. O calor que também hoje se fará sentir implica um altíssimo risco de incêndios florestais e explosões. Que perspectiva assustadora: as alterações climáticas que estão a derreter os glaciares e a provocar a subida do nível do mar trazem também de volta alguns horrores da segunda guerra mundial.

28 julho 2018

o interrogatório que fizeram ao Matthias à chegada aos EUA

"Já tinha passado o custom control e estava a chegar à última porta quando dois agentes de segurança repararam em mim e disseram "oh yeaaah lets check this one".
Primeiro tive de abrir a mala e a mochila e mostrar tudo o que lá estava - comentaram cada uma das coisas que viram. O tamanho das minhas camisas, porque é que tinha vinho do Porto, porque é que tinha Haribo, porque é que tinha tabaco e filtros (no pacote dos filtros lia-se "slim filter" e eles: "slim filter, slim guy?! Hahah"). A seguir, quiseram saber o que é que eu tinha comido nas últimas 16 horas.
- Respondi: airplane food.
- What exactly?
 

- Chicken and rice.
- Where did the chicken come from? You know, it can come from dangerous places and be intoxicated.
Eu a pensar: estão a gozar comigo, ou quê? É a porcaria da comida do avião, sei lá eu onde é que foi comprada!
Só perguntas parvas, umas atrás das outras sem parar, lançadas de forma agressiva para eu não ter tempo de pensar.
"How old are you? 26? What did he say? 25?"
Não consigo descrever bem - só sei que se tratava de pessoas que tinham realmente prazer em fazer terror psicológico. Depois perguntaram quais são as minhas origens, e qual dos meus progenitores não era alemão. Ridicularizam o meu nome português e riram-se muito.
Sentes-te exposto e embaraçado, apesar de não teres feito nada, e não podes fazer nada contra eles.
A mulher que escolheram a seguir a mim fez-me ainda mais pena: só a escolheram por a acharem muito atraente.

(...)
Eu sozinho contra dois agentes que se revezavam a fazer perguntas, a um ritmo extremamente rápido e sem me dar tempo para responder. Um sem-número de perguntas, a maior parte delas sem importância, para ver como eu reagia sob pressão. Podia mostrar-te o que havia na minha mala e dizer-te o que perguntaram sobre cada uma daquelas coisas, tão invasivas foram as perguntas que me fizeram."


++

O Matthias tem 21 anos, é branco, alemão, mora em Berlim, e viajava com visto e documentação para trabalhar durante dois meses em Harvard.
Se é assim que tratam uma pessoa que pertence ao grupo de privilegiados absolutos do planeta, como será com os mais frágeis?

++

Há quase trinta anos, ao regressar de Cuba, o Joachim assistiu a uma cena semelhante com uma jovem estrangeira. Os guardas alemães em Frankfurt tiveram um gozo danado em inspeccionar-lhe a lingerie. O Joachim interpelou-os, disse-lhes abertamente que não podiam abusar assim da sua autoridade, anotou os nomes, e fez uma queixa por escrito. Passadas algumas semanas recebeu uma carta onde o informavam de que tinha sido aberto um processo contra esses dois agentes.

É uma grande vantagem ser cidadão de um país cuja Constituição começa com a frase "A dignidade humana é inviolável". E é sobretudo uma responsabilidade.

viva! está a chover!

 

 
Há semanas que não chove. Nos últimos dias a temperatura tem andado acima dos 30 graus.
A relva do jardim - que resolvi deixar de regar, porque não aguento ver tanta água a ir pela areia berlinense abaixo - já está para lá de palha. E eu com isso? O meu jardim é uma experiência darwinística em versão terceiro milénio: ando a ver quais são as espécies mais aptas à sobrevivência no clima do futuro.

Mas há pouco começou uma ventania das fortes, e agora mesmo rebentou a trovoada: relâmpagos e trovões praticamente em simultâneo, e eu aqui: toda contente com o vento, o fresquinho, a chuva, e este show estrondoso da Natureza.


hoje o dia já me começou impecável


Hoje o dia já me começou impecável:

1. Mensagem do Matthias a dizer que já chegou (e que a poucos metros da saída foi tirado para o lado para interrogatório por dois homens especialistas em intimidação psicológica, que acabaram por autorizar a sua entrada no país) (se fazem isto a um tipo com visto e documentos de Harvard, como será com os outros?) (ia dizer: mais um motivo para não querer voltar aos EUA, mas depois ocorreu-me que, por pertencer ao espaço Schengen, não sei o que custará entrar na Europa - e a história trágica do Aquarius, do Lifeline e de todos os que se seguiram e seguirão não me autoriza qualquer sentimento de superioridade europeu em relação aos EUA)

2. Um pedido para entrar na Enciclopédia Ilustrada, com respostas adequadas às perguntas que são feitas a todos os interessados. Geralmente recebo pedidos de pessoas que não se dão ao trabalho ode responder a essas perguntas, ou então dão respostas tão patetas que me obrigam a decidir se recuso liminarmente ou se gasto o meu rico tempo a ir investigar quem será o engraçadinho, e se terá perfil para fazer parte deste grupo. Uma resposta directa e concisa como a que recebi hoje é um caso tão raro que o meu coraçãozinho de gestora da casa se alegra: afinal há vida inteligente e educada do lado de lá desta coisa dos grupos no facebook!

3. Isto: Maria João Pires + Carlos do Carmo + Vasco Graça Moura + António Vitorino d'Almeida



Vou sempre a jogo quando me convidas
E apenas sei que perco sempre a mão
Há no baralho amor e solidão
E atraiçoa-me o tempo às escondidas

As coisas sendo assim são o que são:
Com gaivotas de sombra repetidas
E as cartas já todas distribuídas
Eu apostei a alma e o coração

As ilusões passaram das medidas
E em noites tresloucadas de paixão
Trazes um cheiro a fado e a perdição
E dás cabo de mim e não duvidas

Nessas linhas que tens na tua mão
Há estrelas cadentes esquecidas
E é na sina febril das nossas vidas
Que eu vou morrer da tua ingratidão

27 julho 2018

e lá foi ele outra vez



Mais uma despedida no aeroporto: o Matthias vai fazer um estágio numa universidade dos EUA.
Mais um jantar de despedida: ontem, na casa dele. Convidou os amigos, eu fiz carradas de comida vegetariana e levei para comermos juntos. Uma das coisas que me dá prazer em ser mãe destes filhos é a naturalidade com que juntam relações e gerações diferentes.

O Fox voltou para a nossa casa. Coitadinho.

E como de costume quando o Matthias voa, há problemas na sua rota. O avião saiu de Berlim com mais de uma hora de atraso devido a um temporal algures. Espero que ainda dê tempo para mudar em Londres (e comprar uma garrafinha de vinho do Porto para a família onde vai morar - sim, que o rapaz está a sair para dois meses, mas leva apenas bagagem de mão). E que não se esqueça de olhar pela janela à hora da eclipse da lua.

E que corra tudo bem.

já é mania de se armar em especial...



Os bombeiros continuam a lutar contra um incêndio que deflagrou ontem perto de Berlim, e atingiu cerca de noventa hectares de floresta. Durante algumas horas as auto-estradas estiveram fechadas, e pensaram até evacuar toda a população de uma localidade. De momento a situação parece estar controlada.

Até aqui nada de muito especial - excepto a absoluta anormalidade deste mapa de risco de incêndios florestais na Alemanha:


Apesar de 30% do território deste país ser floresta, o clima até agora garantia níveis de humidade que impediam fogos de grande vulto.

O que foi diferente neste incêndio às portas de Berlim: os bombeiros tiveram de interromper durante algum tempo o trabalho porque começaram a ouvir explosões na floresta. Suspeita-se que sejam bombas da Segunda Guerra Mundial.



26 julho 2018

"vinho"

Um dos mitos fundadores dos arménios reza que, depois de a arca de Noé ter pousado no monte Ararat, os filhos deste desceram ao vale e começaram a plantar videiras na encosta da montanha. Foi assim que surgiu o primeiro #vinho do mundo. Infelizmente os georgianos não podem ver um pobre de camisa lavada, e desataram a espalhar por aí que o primeiro vinho do mundo foram eles que o fizeram. Um dia destes o Juncker terá de ir lá conversar com uns e outros a ver se fazem as pazes no que diz respeito a este assunto. Dir-lhes-á: "meus amigos, que interessa o passado? Olhemos antes para o futuro: o que interessa é que os vinhos da Arménia e os da Geórgia não deixem de correr para o meu copo!" Isto é uma metáfora, claro (ou o que é que vocês pensaram, hã?), e os arménios hão-de perceber que o que ele está realmente a sugerir é que a Arménia escape à esfera de influência da Rússia e se aproxime mais da União Europeia, e por isso lhe responderão: "Está tudo muito bem, amigo, mas antes arranje de passar para o lado de cá as nossas vinhas que crescem há muitos mil anos na encosta do Ararat". É que nos cortes e recortes do fim do império otomano alguém com poder esqueceu-se de fazer o trabalhinho de casa e deixou o monte Ararat (mais o que sobrou da arca de Noé, das primeiras vinhas do mundo, e das milenares igrejas arménias) (estas últimas não são uma questão simbólica) do lado da Turquia.

Na Arménia, quem vai de Yerevan para Nagorno-Karabakh, a meio do caminho, virando à direita, há uma estradinha sinuosa ao longo de escarpas rochosas com grutas onde encontraram vasilhas de barro com vinho velho de vários milénios (e logo a seguir uma cidadezinha que tem um restaurante onde servem umas batatas com carne iguaizinhas às que se comiam na casa da minha avó) (estou com muita vontade de voltar a esse restaurante, mas não sei se é boa ideia regressar a um lugar onde já fui tão feliz).

Entretanto, não sei que terá acontecido à tradição milenar do vinho arménio, que só me gabaram muito o seu Ararat: um vinho de uvas brancas semelhante ao cognac.

Na Geórgia, por seu lado, ainda há quem produza o vinho segundo as tradições mais arcaicas e carregadas de simbolismo: os kvevri (enormes ânforas onde se faz a fermentação, em locais subterrâneos) demoram sete dias a fazer, "tantos quantos Deus usou para criar o mundo". Muitas das vinhas espalham-se livremente pelas árvores (como as de enforcado, no Norte de Portugal), por arbustos ou simplesmente pelo chão dos campos. Para quem está habituado à matemática regularidade dos vinhedos europeus, aquelas paisagens de videiras todas desmazeladas são um espectáculo estranho e que faz desconfiar da qualidade do vinho.

Mas não, os vinhos da Geórgia têm cada vez mais fama - de tal modo, que um dos filmes que passaram no Culinary Cinema da Berlinale de 2018 (trata-se de sessões especiais, ligadas a um jantar preparado pelos melhores cozinheiros de Berlim) foi o documentário "Our blood is wine". Trata-se de um filme feito com i-phone, para permitir mais proximidade e naturalidade, descrevendo a viagem de um sommelier dos EUA ao encontro dos produtores de vinho na Geórgia.



Mais informações sobre o filme (e um teaser): Berlinale 2018.

25 julho 2018

quem o mandou andar por aí com o pescoço à mostra?...

A primeira imagem desta série é a notícia de uma tragédia enorme (caso estejam interessados em saber mais, este vídeo conta a história de forma mais completa; atenção: tem cenas muito pesadas).

As imagens seguintes são um conjunto de reacções à notícia, hilariante desforra dos comentários a que tantas mulheres são sujeitadas quando denunciam a violência de que são vítimas.






segurança pública


Há alguns meses, os bombeiros de uma cidade alemã alertaram para a sua incapacidade de fazer face à força da Natureza. No caso, falavam das inundações numa área de tal modo vasta que eles não conseguiam acudir a todas as necessidades. Semanas mais tarde, comecei a ouvir falar no risco altíssimo de incêndio nas florestas à volta de Berlim, vi imagens de campos de cereais a arder e li notícias sobre a dificuldade de controlar esses incêndios - não me lembro de alguma vez isto ter sido tema na Alemanha. Nas últimas semanas temos visto imagens das florestas suecas a arder (a Suécia costumava ser aquele país onde se fazia férias de Verão em galochas e impermeável) - e agora a tragédia de tantas vítimas mortais na Grécia.

Os bombeiros não estão - nem podem estar - preparados para isto. As alterações climáticas colocam-nos perante situações em que
um gesto inadvertido pode ter consequências mortais para muitas pessoas, e os Estados não se estão a mostrar capazes de garantir a segurança dos cidadãos.

A um nível micro, vamos sentindo os esforços de adaptação a esta mudança. Por exemplo, este fim-de-semana há um festival regional da rede Burning Man na Dinamarca (outro dos países onde galochas faziam parte do guarda-roupa de Verão), e as regras são tão estritas que nem permitem pequenos fogões a gás, só eléctricos (ou os tais fogões a gás em locais especialmente designados e controlados). Os próprios organizadores fiscalizam o cumprimento das regras, em regime de tolerância zero e com duras penalizações (conheço uma pessoa que está impedida de participar em qualquer festival dessa rede por ter desrespeitado a proibição absoluta de fazer fogueiras no Nowhere espanhol, numa época em que o risco de incêndio era demasiado alto).

Não sei se ainda vamos a tempo de inverter a tendência à escala planetária. Mas sei que temos de estar todos muitíssimo mais atentos às consequências dos nossos actos, e também dos dos outros. Temo que venha por aí uma espécie de clima de faroeste: perante Estados incapazes de garantir a segurança, cada cidadão tornar-se-á agente de segurança pública, controlando não apenas o seu comportamento mas também o dos outros. Está longe de ser o ideal, mas é provavelmente o cenário que se vai impor. E não será apenas no que diz respeito à protecção contra incêndios. O #metoo é outro exemplo de apropriação das funções do Estado quando se sente que este não as desempenha adequadamente.

Tempos estranhos para o ideal de Estado Democrático de Direito.

24 julho 2018

identidade e nacionalidade

Aquela conversa do Trevor Noah sobre os africanos se orgulharem dos feitos de outros africanos continua a dar-me que pensar. Deixando de lado o problema original que suscitou a resposta do embaixador (a ideia de que ser francês é uma questão de melanina), e passando para a questão das identidades e da cidadania, trago um comentário e dois artigos que partilharam no meu mural de facebook, a propósito do meu post anterior sobre este tema:

Só acrescento que tenho uma conhecida americana que odeia ser chamada african-american. A família que ela conhece (ou seja, provavelmente até aos avós) era americana, e ela não tinha desejo nenhum de se identificar como africana, quando a família era americana há algumas gerações. 
E um comentário que li por outra rede: não há uma caixinha para "caribean-american", se calhar porque no fundo o que se está a classificar é a cor da pele e não a origem/cultura/nacionalidade.


VOX:
Trevor Noah’s feud with France over race, identity, and Africa, explained
This history means that traditional French liberals — the camp in which Araud is best situated — have a very particular approach to race and racism.


They believe that the best way to convince French citizens to accept diversity is to convince French whites that Muslims and people of African descent are every bit as French as they are. Playing up their ethnoreligious differences, they believe, only serves to distance them from their essential Frenchness. What’s worse, they argue, it fuels a narrative on the French far right that people who aren’t European by blood can never truly become “French.”
(...)
Trevor Noah is, of course, coming from a different perspective. A black South African man working in the United States, he’s steeped in the culture of two countries whose entire existences were defined by race and racial oppression. Both nations have, in different and distinct ways, developed official cultures of multiculturalism — a celebration and accommodation of racial differences, rather than an erasure of them — as a means of trying to reconcile racial tensions.

Noah’s response video is essentially an extended defense of this model and a head-on critique of traditional French assimilationism. For one thing, Noah argues, the French model erases the positive pride that Africans, both on the continent and in the diaspora, feel in their common heritage.

É aqui que a questão do Brasil se torna muito interessante: tanto quanto sei, o sucesso deste país ao nível da política de integração das diferentes nacionalidades e culturas não lhe merece críticas por parte de outros países. 


The Guardian: How America's identity politics went from inclusion to division - não copio para aqui um excerto. Este artigo é para ser todo lido, atentamente.


23 julho 2018

campeonato mundial de futebol: quem ganhou, afinal?



Provavelmente já todos sabem a história (e até já estarão dois ou três escândalos mais à frente) mas faço um resumo para a meia dúzia de leitores deste blogue que não têm facebook: Trevor Noah, o actual apresentador do programa The Daily Show, fez uma piadinha a propósito da vitória da França, dizendo que o campeonato mundial de futebol foi ganho por África. E acrescentou: "I get it, they have to say it’s the French team. But look at those guys. You don’t get that tan by hanging out in the South of France, my friends". O embaixador da França enviou-lhe uma carta de protesto, e Trevor respondeu-lhe no seu programa. A resposta foi muito aplaudida nas redes sociais, especialmente nos meios de esquerda e anti-racismo. O que me surpreendeu, porque várias coisas me desagradam nesta resposta, e muitas outras me deixam intrigada. Seguindo a ordem da resposta de Trevor Noah:

0. A piadinha inicial não era muito boa - especialmente a parte em que explica porque é que eles não podem ser franceses. A Marine Le Pen não teria conseguido sintetizar melhor. Sai uma colher de sopa para Trevor Noah, "esta por dar argumentos ao inimigo". Além disso, aqueles jogadores não ganharam sozinhos. Há toda uma máquina envolvente: o treinador, os médicos e fisioterapeutas e os meios financeiros, por exemplo. Se entramos numa lógica de dividir segundo a cor da pele, acabaremos a perguntar se estes jogadores teriam o mesmo sucesso numa equipa e máquina exclusivamente de africanos. E logo aí se nota o efeito perverso desta conversa: ainda agora começámos, e já estamos a dividir entre "eles" e "nós". Obrigadinha, Trevor.

1. Admito que Trevor Noah tenha feito uma piada para o público dos EUA sem pensar no modo como seria entendida em França, onde as questões e tensões da identidade e da nacionalidade são tratadas de modo diferente. O embaixador reagiu como era seu dever de representante do Estado francês: afirmou que a nacionalidade francesa não é uma questão de melanina e recusou o racismo subjacente ao discurso de Trevor. Este podia ter dito "ó excelência, era só uma piadinha para o meu pessoal, cá na minha terra a gente ri-se muito" ou "tem razão, excelência, de facto a gracinha é um golo na minha própria baliza, porque estou a repetir os argumentos dos franceses racistas que infernizam a vida dos negros em França". Mas não. Resolveu dar uma lição ao embaixador, omitindo propositadamente a parte mais grave do seu próprio discurso e hostilizando quem, no cumprimento do seu dever, estava a lutar pelos direitos dos negros franceses.

2. Ler a carta do embaixador com sotaque francês é uma artimanha de ridicularização do oponente. Não é a melhor atitude para estar num debate sério.

3. Diz o embaixador: "The rich and background of these players is a reflection of France's diversity" - e Trevor corrige: "não é diversidade, é colonialismo". Não entendeu que o embaixador estava a lutar contra os vícios da herança colonial defendendo uma ideia de sociedade onde há lugar para todos em situação de absoluta igualdade, e optou por atacar jogando a carta da culpabilização. Um luta pela condição de iguais, o outro prefere sublinhar a condição de vítimas - não porque ela seja importante naquele contexto, mas porque lhe permite vexar aquele que escolheu ver como opositor. Qual dos dois serve melhor os interesses dos cidadãos franceses negros?

4. E chegamos a uma questão muito importante: segundo o embaixador, "France is indeed a cosmopolitan country, but every citizen is part of the French identity and together they belong to the nation of France. Unlike in the United States of America, France does not refer to its citizens based on their race, religion, or origin. To us, there is no hyphenated identity, roots are an individual reality". Trevor Noah pergunta: "porque é que não podem ter as duas identidades?"
A pergunta é muito boa, e a resposta dá e dará muito trabalho à Europa. Mas Trevor já tinha dado a resposta errada na piada inicial: não foi a França que ganhou, foi a África, tanto mais que aqueles jogadores não podem ser franceses, porque nem no Sul da França se apanha tal bronzeado. Se esses jogadores fossem simultaneamente franceses e africanos, a piadinha adequada seria semelhante à que fez um jornal espanhol quando Saramago ganhou o Nobel ("Nobel da Literatura - primeiro para Portugal e quinto para a Espanha"). Algo como: "França campeã pela segunda vez, África pela primeira!"
Voltando à questão essencial do hífen: talvez eu esteja condicionada pelo contexto europeu, mas aquele hífen causa-me confusão. Sinto-o não como enriquecimento, mas como estigma. É verdade que os descendentes de africanos não precisam de abrir a boca para se ter uma ideia da origem geográfica dos seus antepassados, mas - em minha opinião - uma sociedade igualitária deve dar a todos o mesmo nome de pertença, e a cada um a possibilidade de aderir aos contextos culturais que entender. Chamar a alguém "African-American" apenas devido à cor da sua pele é roubar-lhe de antemão a liberdade de ser quem quer, porque se parte do princípio que a cor da pele traz automaticamente consigo uma determinada cultura.   

5. Trevor diz que uma das coisas de que mais gosta nos EUA é a possibilidade de as pessoas poderem manter as várias identidades, e dá o exemplo de os irlandeses americanos celebrarem o seu St. Patrick's Day. Confesso que não conheço a sociedade francesa assim tão bem, mas já estive num bar irlandês em Paris a celebrar o St. Pactrick's Day. E não tenho ideia que os franceses filhos de emigrantes portugueses sejam obrigados a abdicar do bacalhau com batatas, e a celebrar o 25 de Abril ou o 10 de Junho na clandestinidade. Parece-me que Trevor está a exagerar diferenças entre os dois países para poder acusar a França de promover assimilação dos outros povos.
Independentemente disso, a questão de fundo é importante: a igualdade da cidadania obriga ao apagamento total de outras identidades? Dizemos que não, mas de facto continuamos - consciente ou inconscientemente - a exigir dos descendentes de estrangeiros um comportamento exemplar a 200%. Na frase seguinte Trevor menciona esta questão, mas de forma bastante infeliz.

6. Trevor explica o que o irrita mais: "quando os emigrantes africanos cometem um crime, são africanos. Mas quando ganham o campeonato mundial, são franceses. O refugiado africano que subiu pela fachada de um prédio para salvar a criança tornou-se francês ao chegar lá acima. Se tivesse deixado cair a criança, era outra vez africano".
Bom, se isso o irrita tanto, porque é que fez o mesmo, só que no extremo oposto? "Ganharam o campeonato mundial? Ah, então não são franceses, são africanos."
Primeiro erro: confunde o discurso nacionalista racista com o Estado francês (calma, a Le Pen ainda não ganhou as eleições). E mais uma vez não percebeu que o embaixador estava do lado dele, e a lutar contra a mentalidade que discrimina e exige mais dos cidadãos descendentes dos estrangeiros que dos outros.
Segundo erro: em nenhum país do mundo se tem automaticamente direito à nacionalidade apenas por se ter entrado nesse território. Enquanto estava no passeio, aquele africano estava sujeito às regras gerais de asilo ou emigração. Mas o gesto de pôr a sua própria vida em risco para salvar uma criança justificou que se aplicassem regras de excepção ao seu caso. E sim, se tivesse deixado cair a criança propositadamente em vez de a salvar de forma tão altruísta, nunca teria conseguido a nacionalidade francesa. Por outro lado, há maneiras menos perigosas de conseguir a nacionalidade francesa - a esmagadora maioria dos negros franceses conseguiu a nacionalidade sem precisar de ser um extraordinário desportista ou de salvar crianças penduradas de uma varanda.
Nem sei porque é que é preciso explicar algo tão simples. 

7. Trevor continua: "I believe context is everything. There are certain things that you can say — like, when I say to my friends, “What’s going on, my ni**a?” And if a white person came and said the same thing, yeah, there’s a big difference."
OK, OK. Entendi quase tudo. Excepto duas coisas:
- O contexto inclui o emissor da mensagem e o seu receptor. Se ele estivesse a fazer uma gracinha para um grupo de amigos, à porta fechada, tudo bem. Mas ele fez a gracinha para o mundo inteiro. Há públicos que vivem em contextos diferentes do dele e podem apropriar-se da sua piada para reforçar um discurso racista. O mínimo que tinha a fazer era aceitar a crítica que o alertava para o problema de outros contextos para além do dele, em vez de fazer a triste figura da outra que achava que, por ter uma avó judia, já podia dar ao seu livro sobre dietas o título "A Dieta de Auschwitz".
- Têm-me ensinado que há um racismo subliminar na simplificação "África" (a África não é um país, é um continente com milhentos povos e culturas) e na associação "pele escura => a terra dele/a é África". Também me impedem de dizer "a palavra que começa com N" por respeito aos negros profundamente traumatizados por este insulto. Trevor afirma que ele pode falar assim, mas eu não posso. Percebo que ele possa falar assim à porta fechada, para uma audiência escolhida a dedo e que ele conheça bem. Mas quando fala nesses termos para uma audiência mais alargada, está a minar o esforço geral - e louvável - para erradicar do espaço público simplificações e palavras que reavivam o trauma das vítimas do racismo.
Mais grave ainda: haverá com certeza coisas que uma pessoa negra pode dizer, e uma branca não pode. Mas a frase que recusa aos jogadores o estatuto de franceses devido à cor da sua pele é racista - independentemente da cor da pele de quem a diz.

8. "When I’m saying they’re African, I’m not trying to exclude them from their Frenchness but include them in my Africanness." - Esta frase é muito boa. Muito boa mesmo. Só é pena aquela maldita frase sobre o bronzeado que não se apanha nas praias francesas.

9. Duas questões finais, ligadas à identidade africana:
- Sabendo que os descendentes de escravos terão mais dificuldade em localizar a sua origem regional mas os filhos dos emigrantes africanos em França não têm dúvidas sobre o país e a herança cultural dos seus pais, parece-me estranho olhar para um negro francês e dizer que é africano - ele provavelmente dir-se-á francês, e talvez também senegalês (ou do Congo, ou do Mali, ou de Madagáscar, ou de qualquer outro país concreto) muito antes de se identificar como africano. Ou estou completamente errada?
- Essa "identidade africana" dos negros que vivem em países de maioria branca: quanto dela é realmente herança cultural da qual naturalmente se orgulham, e quanto dela é reacção a um ambiente hostil que ofende, humilha e rejeita com base na cor da pele?
Esta segunda hipótese põe a nu um sofrimento de séculos, que nos deve envergonhar e impor respeito mesmo - e especialmente - perante aquilo que nos parece uma atitude errada por parte de algum negro. Resta-nos trabalhar para que o mundo encontre um novo equilíbrio, e no futuro nenhum Trevor Noah precise de brincar a propósito de um troféu para se desforrar de um antiquíssimo e continuado sofrimento. 

Ou seja: esteve mal, o nosso Trevor Noah. Mas o mundo está muito pior que ele. E é esse mundo que temos de criticar e melhorar.
Obama, o visionário, aponta a direcção: