16 fevereiro 2019

Bruno Ganz



O Bruno Ganz!

Como homenagem, o seu colega Ulrich Matthes recomendou que ouvíssemos este poema de Hölderlin dito por Ganz. Está muito bem, mas prefiro lembrá-lo de outro modo: na pré-estreia do filme Vitus, no pequeno cinema da Câmara de Weimar. Nós estávamos na primeira fila, e o Bruno Ganz ali mesmo à nossa frente, com aquele seu sorriso tranquilo e luminoso a explicar que no filme tentou ser o avô que gostaria de ter tido, e a contar as dificuldades de filmar com dois miúdos prodígio.

O Bruno Ganz: o seu sorriso tranquilo e luminoso. 




09 fevereiro 2019

Berlinale 2019 - segundo dia




Systemsprenger / System Crasher, de Nora Fingscheidt - Sobre uma menina que é entregue ao sistema de protecção da infância porque a mãe não a consegue educar. Traumatizada e desesperada por amor, a miúda entra numa dinâmica de violência e leva o sistema de assistentes sociais e médicos aos limites das suas possibilidades.
A pequena Helena Zengel faz o seu papel impressionantemente bem.




Fortschritt im Tal der Ahnungslosen / Progress in the Valley of the People Who Don’t Know - Um documentário divertido e profundamente irónico sobre uma dinâmica de aproximação entre refugiados sírios e habitantes da região rural junto a Dresden.
Na RDA, chamava-se jocosamente a essa região "o vale dos que não fazem ideia" porque estava demasiado a Leste para conseguir ter acesso à rádio e à tv ocidentais. Estavam inteiramente sujeitos à propaganda do regime - e talvez isso explique em parte o facto de o movimento Pegida ter começado ali.
Depois da reunificação, a empresa de máquinas agrícolas Fortschritt ("progresso") foi fechada. Quando os refugiados começaram a chegar em grande número à Alemanha, alguns deles foram alojados nas instalações abandonadas e muito danificadas. Um grupo de antigos trabalhadores decidiu cuidar deles: nas instalações da antiga empresa ensinam-lhes alemão e contam-lhes como era a vida na RDA. Uma pessoa fica sem saber quem é mais náufrago: os sírios que falam das suas cidades destruídas ou os alemães que viveram uma vida num país que já não existe. 
O documentário tem vários momentos deliciosos. O meu favorito é o de uma aula de alemão, quando brincam em conjunto ao faz de conta numa cantina imaginária . Os alemães servem a comida e os sírios vão aprendendo frases simples, "arroz ou batatas fritas?", "estava muito bom, obrigado". No fim, o chefe dos alemães diz-lhes que se não têm dinheiro vão ter de cantar para pagar o almoço. Um dos sírios ri-se e diz aos outros que o melhor é pagar, mas acabam por se alinhar, e começam a cantar a capella um canção lindíssima que parece ser de amor mas acaba a revelar-se como lamento de saudade de um emigrante.
Os alemães também cantam: um coro de reformados entoa canções do tempo da RDA. Canções dolorosamente propagandísticas.


La arrancada, de Aldemar Matias  - um retrato em tons suaves de uma família cubana.





Grâce à Dieu, de François Ozon - Não é um grande filme, mas é um filme extremamente actual sobre o caso de um padre de Lyon que abusava de crianças, o silêncio da Igreja à volta do caso, as consequências sobre as vítimas e a terrível dificuldade de falar sobre o que lhes aconteceu. Esta história é muito recente: dentro de algumas semanas o tribunal dará o seu veredicto sobre a acusação ao cardeal Barbarin, arcebispo de Lyon.
Pessoalmente, foi-me muito penoso assistir à primeira parte do filme, quando uma das vítimas, que continuou na Igreja, tentou interpelar o arcebispo com toda a delicadeza. O modo como o bispo e a sua assistente o tentaram enrolar foi de um revoltante cinismo. A Igreja de Cristo não pode ser assim.
François Ozon escolheu um olhar neutro e sem disfarces sobre as fragilidades de todos. Também - et pour cause - as vítimas são pessoas com problemas graves, de um modo ou de outro. O filme não disfarça nem julga: ecce homo.



Berlinale 2019 - primeiro dia




Este ano a minha Berlinale começou da melhor maneira: ainda antes do filme de abertura, vi A Portuguesa, de Rita Azevedo Gomes, numa sessão para a imprensa. Excelente cinema de autor.
Excelente câmara de Acácio de Almeida. Um regalo para os olhos e a inteligência: a sucessão de quadros "renascentistas" atravessados pelos textos de Agustina.



A cerimónia de abertura no Berlinale Palast é só para convidados. Mas o povo - como eu, e como todos os que tiverem o cuidado de comprar o bilhete no primeiro minuto em que o festival abre as vendas - pode ir para o Friedrichstadt-Palast ver a transmissão em diferido. Anke Engelke começou a cerimónia em dueto com Max Raabe, cantando uma declaração de amor a um Dieter Kosslick visivelmente comovido (pode ver-se logo no início do filme). Depois continuou com as piadas e a apresentação dos elementos dos júris, naquela maneira muito berlinense, bastante aquém do profissionalismo de Hollywood mas com uma frescura e uma familiaridade que tudo compensam.

No fim da transmissão em diferido da cerimónia é costume o Dieter Kosslick aparecer a saudar o público do Friedrichstadt-Palast. Mas na quinta-feira passada fomos todos agradavelmente surpreendidos com a presença de Anke Engelke e do team do filme de abertura, The Kindness of Strangers, de Lone Scherfig.
Estava tudo a correr muito bem, mas depois o filme começou.



Devia ter desconfiado, quando a realizadora disse que tentou fazer um filme leve, apesar da seriedade do tema. Como é possível fazer um filme leve quando o tema é violência doméstica?
The Kindness of Strangers é um filme com alguns bons momentos, mas um iniludível sabor a fake.
Apear de tudo, diga-se em seu abono que consegue transmitir o desespero das famílias que vivem sob o domínio de alguém violento - ao menos isso.

De modo que o primeiro dia da Berlinale acabou empatado: um filme muito bom, um filme bastante fraquinho.

Berlinale 2018 - o último post carro vassoura (com bonecos)

 
 
Algumas histórias da Berlinale de 2018, agora com bonecos:

1.
Nem sei se lhe chame sovinice ou sentido prático, mas as decorações de Natal ficam lindamente na Berlinale. Durante quase três meses, a "little Manhattan" permanece emoldurada pela floresta de árvores  fantasma da Leipziger Platz.
 
2.
Um dos meus lugares favoritos da Berlinale, para além dos cinemas propriamente ditos, claro claro, é a lounge da Audi em frente ao Berlinale Palast. Agora é que me vou desgraçar, porque quando isto for do conhecimento de todos deixa de haver lugar para mim, mas pronto: no piso térreo tem um bar onde oferecem o Nespresso. Isso mesmo: oferecem. E no andar de cima tem uma sala com uma vista fantástica para o tapete vermelho, com comida muito boa (infelizmente essa não é oferecida), e volta e meia com concertos ou debates. Passam-se lá boas horinhas enquanto se espera o filme seguinte.
Foi lá que vi este par engraçado: ela a passar um frio dos diabos para ter uma foto daquelas de encher o olho à frente daquele cenário, ele a tirar pacientemente todas as fotos que ela quis, e depois ambos a apreciar o resultado. O amor é lindo.

Foi também em frente ao balcão Nespresso da lounge Audi que passei uma vergonha. Estava ali sossegadinha a bebericar o cappuccino, quando a senhora ao meu lado se virou para mim e atirou:
- Eu conheço-a!
- Hã...
- Vi-a na televisão, há alguns dias!
Ai! Tinha sido entrevistada pouco antes de entrar para o autocarro. Tentei esquivar-me com desculpas parvas, mas os jornalistas foram simpáticos e conseguiram suplantar a parvoíce das minhas desculpas, de modo que estávamos todos a rir quando começaram a fazer perguntas. Queriam saber por qual das portas do autocarro é que eu preferia entrar, e eu disse "pela de trás!" sem hesitação. "E porquê?", perguntaram eles. O meu autocarro já tinha chegado, não tinha tempo para pensar, e: "Porque tenho preguiça de mostrar o meu passe. Tenho-o na carteira, mas não me apetece tirá-lo para mostrar." Daí a nada estava a aparecer na televisão, muito sorridente, a anunciar à Alemanha que sou uma estrangeira preguiçosa.
A senhora no bar do Nespresso sorriu:
- Fiquei tão grata por ter dito aquilo! É que é exactamente o que eu penso. Não dá jeito nenhum tirar o passe para mostrar.

3.
Foi um prazer ver o público do filme Wang Zha de yuxue - Wangdrak's Rain Boots (falei dele aqui). A sala estava cheia de miúdos dos seus 10 ou 12 anos que tinham imensas perguntas a fazer ao rapazinho chinês. No fim, juntaram-se à volta dele a pedir autógrafos. Um enxame simpático.






4.
Na Berlinale 2018 foi anunciado que o seu estimadíssimo director, Dieter Kosslick, ia deixar de estar à frente do festival. Num desses dias parei durante uns momentos a ver a gente que se juntara à espera que ele saísse de uma conferência de imprensa, mostrando cartazes onde se lia "Dieter para (voltar a ser) Presidente". À saída ele foi ter com as pessoas e ficou a conversar com elas um bocadinho.
Isto é Berlim: quando as pessoas sentem que o director do festival de cinema é como se fosse da família.




4.
Numa das últimas manhãs da Berlinale, já dentro do autocarro, reparei que o sol estava a nascer. Saí do autocarro, voltei para trás, esperei pelo sol, e retomei caminho.
Madrugo muito durante os dias do festival, mas vale a pena. Por tudo, e também pelo sol a nascer ao fundo de uma rua.




5.
A Berlinale 2018 foi uma semana de muito frio, e belo céu azul. Entre um filme e outro, pude tirar algumas fotografias engraçadas.



08 fevereiro 2019

Berlinale 2018 - o post carro vassoura



Agora que a Berlinale 2019 começou, dou-me conta de que ou fecho rapidamente as contas da de 2018, ou mais vale esquecer. O problema é que este blogue é o meu auxiliar de memória, de modo que se não escrever esqueço mesmo, e por isso aqui ficam alguns comentários sobre filmes que vi no festival do ano passado.
Não precisam de ler, isto é mesmo só para eu ficar com o meu arquivo mental mais arrumadinho.

Primeiro dia:

- Grass

- Isle of Dogs

Segundo dia:

- Las Herederas

- Damsel - Um western dos irmãos Zellner que não deixou recordações - excepto a novidade de uma jovem noiva de cowboy a contrariar todos os clichés de fragilidade feminina.

- Berlinale Shorts IV

- E ainda: Banda "von Eden" na Audi Lounge, enquanto o pessoal de Damsel não começava a desfilar pelo tapete vermelho.

Terceiro dia:

- Dovlatov - Um dos filmes que mais me impressionou na Berlinale 2019, por transmitir tão bem a asfixia ideológica na URSS e o ambiente de criatividade malgré tout dos anos 70. Recomendo vivamente.  

- Allons enfants - A história de duas crianças perdidas em Paris, filmada sem sobressaltos. O realizador, que trabalhou com os próprios filhos, no fim da exibição contou sobre as dificuldades de filmar com crianças daquela idade. Por exemplo, quando as filmagens já iam bastante avançadas, e a filha percebeu que tinha todos os adultos na mão...

- Human Flow (na secção Lola) - Um filme que me levanta de novo a questão habitual: podemos fazer exercícios de beleza com a miséria das pessoas? 

Quarto dia:

- La prière - Um jovem toxicodependente vai viver no centro de tratamento de uma comunidade cristã. Seita ou fé? A oração como mantra, mas também como instrumento imposto para diluir o individual.

- Apatride - Em 1975, milhares de marroquinos foram expulsos da Algéria, onde viviam. Hénia e o pai estão entre eles, enquanto a mãe dela, argelina, fica no país. Hénia não desiste da esperança de regressar a casa, apesar de todas as dificuldades. O filme desenvolve-se à volta dessa mulher sem voz, com uma força e uma liberdade interior extraordinárias, retrato das mulheres sem poder, à mercê do destino. A perversão do conselho: "Não queiras fugir ao teu destino, ele há-de encontrar-te". A realizadora, cheia de força e sem papas na língua, agradeceu a oportunidade que a Berlinale lhe deu para ter mais visibilidade: "agora, vai ser mais difícil calarem-me no meu país!"

- Waldheims Walzer - Excelente documentário. Revela uma Áustria oportunista, que escapou entre os pingos da chuva, se armou em vítima, e não teve oportunidade de se confrontar com os seus próprios erros. Mostra o discurso abertamente anti-semita e de ideologia nazi nas ruas. Ajuda a entender os mecanismos que permitiram que o nazismo continue vivo.





- Kinshasa Makambo - Um documentário sobre a resistência política no Congo, as dúvidas sobre as acções e os riscos a assumir, a persistência na luta contra o golpe de Joseph Kabila. E o realizador, Dieudo Hamadi: um herói. Quando, no final, lhe perguntaram se não temia que aquele filme pudesse ter consequências graves para si e para as pessoas filmadas, respondeu: "Falei com todos, e todos quiseram assumir as consequências. Entenderam que valia a pena correr o risco, para que o mundo soubesse como arriscam a vida, a liberdade, a saúde, para lutar por mais democracia no seu país. Quanto a mim: quero lá saber dos riscos! Era meu dever fazer este filme!"

- Trinta Lumes - recordo em particular o ambiente da natureza da Galiza, mas confesso que o filme perdeu 1:0 contra o conforto dos cadeirões do Zoo Palast, e contra o meu cansaço nesse dia.


Quinto dia:

- Toppen av ingenting / The real estate - Um filme dentro dos parâmetros, sobre a especulação imobiliária e a perda de respeito pela vida das pessoas. De destacar, pela novidade: a cena de sexo entre uma septagenária e um homem bem mais jovem.

- The Green Lie - Um bom documentário sobre as ilusões do consumo sustentável e do poder do consumidor. (fiz um post aqui)

- Zentralflughafen THF - recomendo vivamente.

- Ex-pajé - muito bom! Falei dele aqui.

- Era para ver ainda o Chef Flynn, mas desisti desse filme para poder ficar a ouvir até ao fim os indígenas da Amazónia e o antropólogo.

Sexto dia:

- Por parvoíce, um simples erro ao verificar as horas, falhei o Don't worry, he won't get far on foot.
em compensação, pude ver:

- I had nowhere to go (secção Lola) - ahem...

- Premières Solitudes - um documentário fascinante sobre jovens de 17 anos, dito na primeira pessoa com uma abertura desarmante.

- Danmark


Sétimo dia:

- Das schweigende Klassenzimmer / The silent revolution (secção Lola) - mais um filme alemão sobre o passado recente. Neste caso, um episódio verídico passado na RDA, quando uma turma decidiu espontaneamente fazer uns minutos de protesto contra a repressão soviética na Hungria. O caso provocou ondas que chegaram ao topo do regime, e naturalmente à Stasi. Um bom retrato da camisa de força do regime da RDA. 

- Ang panahon ng halimaw - Ora bem, ora mal: um filme épico, uma "ópera rock filipina", de Lav Diaz, sobre a repressão no tempo da ditadura. Quatro horas de um filme pesado, brutal, cheio de sadismo e situações sem saída. Para piorar, os textos das canções eram repetidos pelos menos três vezes, e a as cadeiras do Friedrichstadt Palais não são nada confortáveis...


- Our blood is wine - Um filme sobre o vinho da Geórgia, as suas vinhas selvagens, a produção artesanal e arcaica, filmado com iPhone 6. Mencionei-o aqui.

- E ainda uma sessão muito divertida na Audi Lounge: Thorsten Havener revelou alguns segredos da linguagem corporal. Infelizmente já só me lembro de um: quando estamos a mentir, temos tendência a exagerar nos movimentos que fazemos para tentar dar mais força à mentira que estamos a contar.


Oitavo dia:

- Eldorado - Durante alguns dias acreditei que este seria o vencedor da competição. Falei dele aqui.

- Curtas 1 Kplus - As curtas para crianças são sempre um oásis no meio dos temas muitas vezes pesados deste festival. Um intervalinho para sonhar. Notável: Vdol’ ipoperyok / Betweenthe Lines
Engraçado: a reacção dos miúdos quando algumas daquelas linhas se tornaram um par de animais que se começaram a beijar. Hehehe. Aqui deixo um pedacinho, para oferecer uma pausa neste post:


Between the lines Trailer ENG - Вдоль и поперёк (Трейлер, англ) from Maria Koneva on Vimeo.


- Unga Astrid / Becoming Astrid - Um filme sobre a Astrid Lindgren, que consegue recriar o ambiente de alegria e inteira confiança na vida que - não por acaso, como descobri neste filme - habita os seus livros.

- E no fim de tudo isto: Simon Rattle. (É que não posso deixar a Filarmonia muito tempo abandonada, ainda apanhava uma depressão e sei lá se há psicofármacos para Filarmonias...)

Nono dia:
- Wang Zha de yuxue - Wangdrak's Rain Boots - Um filme delicioso sobre um rapazinho que não tem galochas e é gozado pelos outros por andar sempre com os sapatos de pano molhados. Depois de muito insistir, convence a mãe a comprar-lhe as galochas em vez de uma foucinha para trabalhar no campo. E quando, finalmente, vai para a escola feliz da vida com as suas galochas, a chuva pára, e ele é de novo gozado pelos outros. (spoiler) Então, para fazer com que a chuva volte, rouba os objectos mágicos do feiticeiro da aldeia que está a esforçar-se em trazer sol para as colheitas. O realizador disse no fim que inventou esta história para poder filmar a sua aldeia natal e os costumes daquela comunidade.

- What Walaa Wants - Documentário sobre uma jovem palestiniana que cresceu num campo de refugiados e quer ser polícia. O filme acompanha a sua luta e o seu amadurecimento ao longo de cinco anos.

- Shakedown - Mais um documentário, desta vez sobre um clube erótico para lésbicas, filmado por uma mulher da comunidade - ou seja, a partir de dentro. Um documento raro sobre um lugar único e uma história que poucos conhecem.

- Impreza / Das Fest - Uma jovem polaca que cresceu na Alemanha regressa ao seu país para participar nas bodas de ouro dos tios. O documentário fixa as conversas com os seus familiares, exibe frases e frases e frases de discurso de orgulho nacionalista. A berlinense ouve-os, estupefacta e e cada vez mais muda. O filme pode ser uma boa base de trabalho sobre a impossibilidade do diálogo e do entendimento - mesmo entre pessoas da mesma família que moram em países vizinhos.

- Kein sicherer Ort / Kineski Zid / Ra (Três filmes curtos, sob o tema "heroínas")

Décimo dia:

- Als Paul über das Meer kam / When Paul came over the sea - Mais um filme da nova fase cinematográfica sobre refugiados: "ele e eu". Gostei de ver, e tive muita pena de não ficar para a conversa com Paul. Mas queria muito ver o filme que tinha agendado a seguir. Saí do cinema a correr, atravessei no vermelho mesmo à frente de um carro da polícia, e estes usaram o altifalante para me darem um raspanete com um exagero de décibeis para o cruzamento todo. Sem parar de correr fiz-lhes sinal de que tinham toda a razão e pedi desculpa. Ainda não foi desta que me prenderam.

- The silence of others - Documentário sobre o terror na Espanha de Franco e o silêncio imposto que ainda hoje sufoca.

- Weit (secção Lola) - Comentei aqui.

- Drvo, de André Gil Mata.

- La enfermedad del domingo

Décimo primeiro dia:

- Djamilia

- Fortuna - Um filme excelente da secção de temas juvenis. Sobre uma criança refugiada que aparece grávida. Belíssimo e delicado.

- Güvercin - Outro filme excelente da secção de temas juvenis. Uma história bela e triste sobre um orfão que cria pombos, como o pai costumava fazer, e é apanhado numa teia de brutalidade.

- The Bookshop

- In den Gängen / In the Aisles

Tschüß, Berlinale.

06 fevereiro 2019

Eldorado - Berlinale 2018


Eldorado Trailer (Englische  UT // english SUBs) from Markus Imhoof on Vimeo.


Eldorado: Durante alguns dias acreditei que este seria o vencedor da competição. É um documentário cheio de humanidade sobre refugiados no tempo da II GM e sobre os de hoje, numa perspectiva de pertença mútua e sentimento de responsabilidade pelas pessoas que procuram a nossa ajuda.

Uma das coisas que aprendi neste filme: muitos dos que não recebem do Estado italiano o estatuto de refugiado não regressam ao seu país. Em vez disso, escondem-se, pondo-se nas mãos da máfia, que lhes dá alojamento e arranja emprego na agricultura. Metade do que ganham é entregue à máfia, e a outra metade tem de chegar para os seus custos e ainda para enviar dinheiro para ajudar a família. Parte dos produtos agrícolas assim conseguidos são exportados para o país de origem destes refugiados, a preços inferiores aos de produção nesse país.

Outro detalhe: repatriar à força cada um destes refugiados custa cerca de 15.000 euros, em despesas de viagem dele, dos dois polícias que o acompanham e do membro de uma organização contra a tortura. Alguns Estados optam por pagar ao refugiado para ele regressar voluntariamente. Um dos que aceitou os, salvo erro, 2.500 euros, contou perante a câmara que estava muito satisfeito com esse dinheiro, porque lhe permitia comprar algumas vacas e começar um pequeno negócio de lacticínios para sustentar a família. Por azar, a data em que regressou ao seu país coincidiu com a assinatura de um acordo entre esse país e a UE para a exportação de lacticínios europeus a baixo preço.

Ex-Pajé - Berlinale 2018



Ex-pajé foi sem dúvida um dos melhores filmes que vi em 2018, e também um que me provocou enorme embaraço e vergonha.

O filme é sobre uma comunidade de indígenas descoberta em 1969 na Amazónia. Quatro décadas mais tarde, o antropólogo Luíz Bolognesi filma uma aldeia onde as pessoas andam já vestidas à maneira dos ocidentais, têm uma igreja cristã e até internet. O documentário foca em particular a situação do antigo pajé, que foi afastado pelo novo poder religioso, um pastor protestante, e recria um episódio em que o pajé foi chamado, em desespero de causa, para curar uma mulher que tinha sido mordida por uma cobra venenosa. Um momento particularmente forte do filme é aquele em que a discretíssima câmara capta o pajé junto ao rio, longe da aldeia, quando os espíritos da água vêm ao encontro dele e lhe inspiram a música que entoa numa espécie de transe. 

No fim da exibição, algumas pessoas da tribo subiram ao palco juntamente com o realizador. Este avisou que, "apesar de os antropólogos não gostarem de padres", naquele filme tomou o papel de realizador e deixou o de antropólogo, e que filmou e montou numa atitude de respeito. À pergunta de alguém do público sobre como explicar a facilidade com que a nova religião se instalou, contou que ali se repetiu de novo a tragédia de 500 anos de História do Brasil: após o contacto com os brancos, em cerca de dois anos morreram 400 pessoas das 700 que viviam naquela comunidade. Nessa situação de crise profunda, a pior de toda a história da aldeia, os missionários vieram dizer que só Cristo salva, e que os pajés são gente do diabo. Simultaneamente, a mulher do pastor dava aos índios os medicamentos que curavam as doenças trazidas pelos brancos. O antropólogo explicou ainda que o afastamento do pajé representa a destruição da herança cultural, uma vez que esta é de tradição oral, transmitida pelos pajés.

A senhora que foi mordida, e cuja vida foi salva pelo pajé, terminou a conversa dizendo que quando saiu do hospital continuou a ir à igreja, porque tem medo.

(Eu a enfiar-me ainda mais fundo na cadeira, morrendo de vergonha.)

The green lie - Berlinale 2018



The green lie é um documentário de Werner Boote e Kathrin Hartmann sobre a destruição do planeta e a ilusão do poder do consumidor, construído como um diálogo entre dois personagens: ele arma-se no parvo engraçadinho que tem boas intenções, ela é a sabichona que para tudo tem resposta. À parte as limitações desta construção, o conteúdo é muito informativo.

Mostra, por exemplo, como as empresas conseguem manipular os selos de sustentabilidade ecológica para assinalarem que o produtor faz não "o ideal" mas "o possível". Um "possível" definido por elas próprias. Mostra também como a profusão de selos de garantia só serve para aumentar a confusão do consumidor. Mostra o sofrimento das populações e a catástrofe ecológica que permitem a produção do óleo de palma que, por mais barato, é a gordura favorita das indústrias alimentares.

Muitas vezes tenho pensado numa pequena passagem desse filme. Os dois estão num supermercado a olhar para as embalagens de café. E então Werner Boote diz:
- Aqui está um café "fair". Se este é "fair", o outro é o quê? Como é que aceitamos que num supermercado europeu seja vendido café produzido em condições unfair? Não é uma questão de pôr o selo "fair" numa embalagem e deixar que o consumidor decida. Café produzido e comercializado em condições desumanas pura e simplesmente não devia chegar aos supermercados europeus!

Penso também no sorriso sereno de Noam Chomsky a dizer: "todas as grandes mudanças - a revolução franceesa, a abolição da escravatura, por exemplo - pareciam impossíveis antes de terem acontecido".


Central Airport THF - Berlinale 2018



O realizador brasileiro Karim Aïnouz mora perto do antigo aeroporto Tempelhof, o mais central de Berlim e desactivado há um par de anos. Quando soube que a cidade ia alojar refugiados naquele imenso edifício, decidiu ir conhecê-los e filmá-los. O resultado é este "Zentralflughafen THF" - um documentário sóbrio e humano, que mostra a solidariedade e as histórias das pessoas.

Tocante a calma do assistente médico iraquiano no meio daquele ambiente confuso, tocante a resposta que um miúdo lhe dá: "não me lembro da minha terra na Síria, só me lembro da casa da minha avó no Verão".
Quando lhe perguntaram por que motivo só filmou os homens, o realizador contou que, de um modo geral, era um pouco mais difícil filmar as mulheres, por motivos culturais. Teria sido possível entrevistar uma paquistanesa, mas esta vinha a fugir à sua família e não era conveniente informar sobre o seu paradeiro. Além disso, sentiu a necessidade de fazer algo contra o processo de diabolização dos homens árabes que estavam a entrar na Alemanha como refugiados. A "cobertura histérica" feita pelos meios de comunicação social estava a multiplicar imagens de enorme carga ameaçadora: enormes bandos de homens a saltar vedações, a saltar de comboios, a invadir as cidades.
Essa necessidade de lutar contra o processo de diabolização tornou-se ainda mais premente após o ataque terrorista de 19 de Dezembro em Berlim.

"São seres humanos", sublinha Karim Aïnouz. "Seres humanos."
Não devia ser necessário dizê-lo.




a ilusão dos referendos

O Luís Aguiar-Conraria escreveu no Público um texto com o título "Brexit, uma excentricidade da democracia directa?", no qual se manifesta defensor de referendos como uma maneira de melhorar a Democracia e a tomada de decisões políticas.

Não concordo com quase nada na sua argumentação, e aproveito o seu texto para escrever o que há muito queria dizer contra os referendos. A saber:

1. "Não sou dos que contestam a legitimidade de um segundo referendo. Neste momento, são bem mais claras as implicações de uma saída da União. Eleitores com mais informação poderão querer alterar o seu voto. (...) A ideia de que tem de se estar agarrado ao resultado de um referendo para sempre é absurda. Em cada legislatura, o que não faltam são leis a reverter decisões anteriores. Num dado momento, qualquer maioria é conjuntural e não é democrático eternizá-la."

Um segundo referendo viria confirmar o dichote de que na UE se vão fazendo referendos até o povo decidir como Bruxelas quer. E quem diz Bruxelas poderia muito em breve começar a dizer Bannon ou Putin. Queremos realmente dar mais passos na direcção de repetir referendos até estar instalado o caos que os inimigos das Democracias ocidentais desejam? Que regularidade democrática é possível num sistema que aceita que se faça um segundo referendo quando houver um nível crítico de protestos contra o resultado do primeiro? E quais são as implicações da assunção "eleitores com mais informação"? Significará isso que da primeira vez os eleitores não estavam capazmente informados? Quer dizer: é possível que decisões importantíssimas para um país sejam tomadas com base nos votos de eleitores mal informados? Mais: devemos aceitar a possibilidade de questões vitais de um país serem decididas em referendos que decorrem num contexto de mentira e ilusão?

[Esta última questão resolvia-se facilmente: mal fosse revelado que algum dos argumentos usados pela posição vitoriosa era mentira ou ilusão, o referendo perdia a sua validade.]

2. "Os políticos são pessoas e, naturalmente, têm os seus interesses. Isso tem consequências. Por exemplo, será difícil esperar que um parlamento pejado de advogados, muitos dos quais associados a grandes sociedades, legisle contra os seus interesses. Enquanto assim se mantiver, nenhuma reforma da justiça será feita em nome do interesse do povo. A não ser, claro, que o interesse do povo coincida com o das sociedades de advogados. Ao longo de décadas, também pudemos ver como muitos vão directamente de grandes empresas, de bancos e de seguradoras para os governos. Salvo algumas excepções, não actuarão contra os seus interesses. É humanamente inevitável.
A ideia de que se faz política de acordo com os interesses do povo é uma ficção apenas contrariada pela necessidade de conseguir votos para ganhar eleições. É por isso que a democracia directa deve ser uma aliada da democracia representativa."

Isto seria o autêntico "deitar fora o bebé e ficar com a água do banho". Se os políticos decidem em função dos seus próprios interesses, têm de ser julgados por isso. Se sabemos que há tendência para isso acontecer, temos de criar instrumentos para o evitar. O problema da porta giratória entre o governo ou o parlamento e as direcções das empresas não se resolve com a substituição crescente da decisão dos políticos pela decisão do povo em referendos, mas com o controle da acção de cada político e a punição dos abusos. Um exemplo recente, na Alemanha: quando se deram conta de que o FDP estava a fazer política para a sua clientela, os eleitores castigaram-no duramente. Durante uma legislatura, o FDP - que é o partido alemão com mais tempo de participação em governos - esteve ausente do Parlamento federal. É assim que se corrige o comportamento dos partidos, mais que pela via dos referendos.

3. "estudos que mostram que, nos Estados com menos entraves à democracia directa, as políticas públicas estão mais alinhadas com as preferências dos cidadãos."

Mesmo que no passado, e em determinadas condições, os referendos possam ter sido um meio de aproximar política e eleitores, hoje sabemos que o risco de os eleitores serem manipulados por interesses obscuros é cada vez maior, e constitui uma enorme ameaça ao funcionamento das Democracias. Depois do que já foi revelado sobre o Facebook e a Cambridge Analytica, ou sobre o papel do WhatsApp na eleição do Bolsonaro, como é possível acreditar na bondade dos referendos para tomar decisões políticas?

4. "Outro argumento é o de que há assuntos demasiado complexos para o cidadão comum. Este argumento falha o alvo. A experiência mostra que os deputados é que não têm capacidade para legislar mesmo sobre as coisas mais simples. Ainda que admita que, individualmente, há deputados excelentes, as decisões do colectivo são, muitas vezes, irracionais."

O exemplo é pouco adequado, porque não há qualquer possibilidade de um referendo se substituir ao trabalho do legislador em questões que se resolvem, como o próprio Luís reconhece, ou com a solução X, ou com a solução Y, ou com uma combinação de X e Y, e que têm, "dentro de cada uma destas formas, uma miríade de políticas possíveis". Além disso, nada indica que pessoas que têm a sua vida, os seus afazeres e os seus condicionamentos intelectuais e de informação estariam em melhor posição que os políticos para resolver questões que, pelos vistos, até para estes (com todos os seus assessores e estudos) são demasiado complexas.
Convém ainda considerar que, perante uma questão altamente complexa, o mais certo seria cada eleitor escolher aquilo que mais lhe convém pessoalmente (caso fosse capaz de tanto discernimento). Ora, só os liberais mais fundamentalistas acreditam ainda que o somatório das decisões de agentes movidos pelo seu interesse egoísta permite a optimização da situação global.
Concretizando um pouco mais as dificuldades, e usando o mesmo exemplo: qual devia ser a pergunta feita em referendo (de resposta: sim ou não) para ouvir a opinião do povo sobre o que fazer para travar a subida das rendas? Mais: que garantia temos de que a resposta dada (caso alguém conseguisse imaginar a pergunta certa a fazer) seria a mais adequada para resolver o problema?
Estas questões lembram-me uma conversa que tive há dias com uma mulher atacada por um cancro extremamente agressivo. Ela queixava-se que os médicos não lhe diziam qual era a melhor decisão a tomar. Ora bem: se uma pessoa - apesar de falar com vários especialistas e ler imenso sobre o assunto - não está em condições de decidir sobre uma questão que é literalmente de vida ou de morte para ela, porque haveria de estar em melhores condições para decidir atiladamente sobre questões muito complexas para o país?

5. "Evidentemente que uma decisão tomada em referendo que a tantos parece louca, como a decisão de sair da União Europeia, não deixaria de ser aproveitada pelos detractores dos referendos."

O que parece louco não é a decisão de sair da União Europeia, mas o modo como o referendo foi criado e conduzido. Pouco teria a criticar, se:
- O referendo só fosse vinculativo com a participação de pelo menos 75% dos eleitores e a uma margem de mais de 60%, e se os cidadãos residentes há mais de 15 anos no restante território da UE pudessem votar;
- Estivesse assegurada a protecção efectiva contra os efeitos perniciosos da manipulação das redes sociais, bem como contra a demagogia e a mentira nos argumentos políticos;
- A pergunta do referendo esclarecesse sem margem para dúvidas sobre o que estava em causa:
"Quer permanecer na UE e para isso está disposto/a a abdicar cada vez mais da independência da política nacional, a contribuir com quantias exorbitantes para as despesas da União, a entrar no Euro, a aceitar que qualquer cidadão da UE se possa instalar no território do Reino Unido, etc.?
Ou prefere sair da UE e para isso está disposto/a a aceitar a reinstalação de uma fronteira na Irlanda e o risco de regresso à situação de guerra civil, a reabertura do contencioso de Gibraltar, o regresso forçado imediato dos seus concidadãos que estão a estudar ou trabalhar nos outros países da UE, a expulsão imediata de todos os cidadãos da UE que aqui residem e trabalham, os valores de aumento previstos para o desemprego (x%) e a inflação (y%), a saída em massa de empresas, a saída em massa de profissionais estrangeiros altamente qualificados, em especial no sistema de saúde, a exclusão de um dos espaços de livre comércio maiores e mais ricos do mundo, a dificuldade em importar produtos frescos do sul em tempo útil, a retirada das nossas empresas das cadeias de produção multinacional do espaço europeu, etc.?"

Antes de terminar, quero sublinhar mais uma vez que é impossível falar em referendos, ou sequer eleições, sem ter em conta as mudanças brutais do nosso tempo: Cambridge Analytica, Steve Bannon, fake news, redes sociais. Qualquer proposta para melhorar o funcionamento das sociedades democráticas no futuro tem de equacionar estes novos condicionamentos.

Quanto à conclusão final do texto do Luís, que afirma "tratar este resultado, o “Brexit”, como uma excentricidade apenas possível por referendo é pouco avisado": inteiramente de acordo. Há muito que o Reino Unido ia fazendo a sua terceira via entre o "não" e o "sim", e começava a ser tempo de tomar uma decisão para um dos lados. O que é inadmissível são as circunstâncias em que essa decisão foi tomada.

ADENDA: Recomendo a leitura deste artigo de George Schöpflin: Referendum - populism versus democracy.



05 fevereiro 2019

Weit - Far



Há tempos um amigo meu comentou que já ninguém anda à boleia.

"Já ninguém", vírgula: sei de dois rapazes portugueses que há poucos anos atravessaram a Europa à boleia. Chegados a Berlim, ficaram em minha casa. Levei-os à Filarmonia, e iam com umas t-shirts todas amarrotadas. Disseram-me que as bem dobradas tinham buracos...

Suspeito que agora já não se anda à boleia por dois motivos: os transportes ficaram muito mais baratos e a malta tem muito mais dinheiro; temos todos muito medo do "homem do saco" que nos pode atacar em qualquer momento.

Na Berlinale de 2018 mostraram um documentário feito por um jovem casal alemão que andou 3,5 anos pelo mundo à boleia - 50.000 km à boleia. Saíram para Leste, e regressaram pelo Oeste (mas já a três, com a filhinha que lhes nasceu no México).

Se querem saber tudo, o filme pareceu-me um bocadinho seca, porque das regiões e dos povos que eles atravessam só mostra praticamente o condutor que lhes dá boleia. Ou eles à chuva, à espera de boleia. Ou eles perdidos na imensa paisagem, já a desesperar por não apanharem boleia.

Mas deixa uma ideia bonita: não há tantos "homens do saco" como os nossos medos nos dizem. O nosso planeta está cheio de condutores simpáticos, que dão boleia sem saberem a quem.


 

Berlinale 2019 - primeiras impressões



Já estou há mais de duas horas a estudar o programa da Berlinale, e ainda não me apareceu nenhum filme sobre refugiados. Em 2017, os refugiados foram o tema central do festival, numa abordagem "Ecce homo". Em 2018 continuaram a ter um papel muito importante, mas a perspectiva mudou do "eles" para "podia ter-me acontecido a mim"/"tal como já aconteceu no meu país".
De modo que estava curiosa para saber como é que o cinema olharia para os refugiados em 2019. Aparentemente, deixaram de ser tema.

Também estou a sentir a falta de outros temas muito actuais, tais como: fake news, manipulação das redes sociais, o regresso dos nacionalismos, Brexit, Trump, Bolsonaro, #MeToo. Será que os cineastas estão tão perplexos como todos nós?

À primeira vista, o programa desta 69ª Berlinale podia bem ser o da 60ª. Ou o da 50ª. Filmes sobre questões de há muito: famílias, identidades, pobreza, exploração infantil, LGBT, ecologia. Mas há um detalhe que coloca esta edição no centro do nosso tempo: os temas são conjugados em grande parte no feminino. E a categoria Retrospectiva é dedicada inteiramente a realizadoras mulheres entre 1968 e 1999.

Dieter Kosslick escreve no editorial do programa que o festival deste ano retoma um lema do movimento feminista de 68: "o privado é político". Pois seja. Mas custa-me ver este programa tão à margem das questões que mais ocupam o nosso tempo.
Pode ser que uma segunda abordagem, com mais profundidade, me corrija esta primeira impressão.

A 69ª Berlinale é a última sob a direcção de Dieter Kosslick. Ainda o festival não começou e já sinto saudades deste seu director.


03 fevereiro 2019

update

Mais notícias: desconfio que estou a melhorar muito rapidamente.
Está-me a dar uma
vontadinha de comer chocolate que só visto.
Agarrem-me, que... 
 
(ai, pá: agarrem-me mesmo, que eu vou-me a ele!)


02 fevereiro 2019

quatro vezes



Notícias frescas para os amigos: já regressei a casa, ando por aqui com cara de desgraçadinha para fazer render o peixe, não sei o que fazer aos dois pedregulhos que me deram dentro de um frasco, e já tomei um duche. Quando me estava a enxugar olhei para a barriga no espelho - e foi quando me lembrei deste cell block tango: já pareço o outro, o que correu contra a faca dez vezes.

Mas eu foi só quatro.

30 janeiro 2019

"órgão"

Pela manhã, antes de sair a palavra do dia, venho em grande pressa, ufa ufa ufa, falar-vos de um #órgão sobre o qual tenho aprendido muito nos últimos dias: a vesícula. À minha vesícula devo o grande favor de não me ter deixado engordar neste Natal (nem em vários dos anteriores, se bem me lembro). A vidinha até não ia mal de todo - se não fossem os médicos à minha volta, o aiaiai-tens-de-tirar-isso, e eu a argumentar com a inviolabilidade do meu corpo, e eles que ai-e-pode-acontecer-isto-e-aquilo, e eu a dizer que já vivemos juntas há tantos anos que me afeiçoei a ela, sei lá o que será a minha vida depois desta abrupta separação, coisas assim. Só cá para nós: o argumento da inviolabilidade do meu corpo, no caso concreto deste órgão, é treta. A verdade é que temo as restrições alimentares que me sejam impostas mal me apanhem sem a vesiculazinha, e por isso teimo em manter o status quo. 

Mas este Natal não foi fácil, e por isso na semana passada fui ao hospital, o chefe do serviço explicou-me tudo, e marcou a operação: último dia deste mês. Disse-me que muitas pessoas têm pedras na vesícula e normalmente isso não é problema, mas a partir do momento em que têm dores é melhor tirar, antes que saiam e se instalem onde não devem, ou que provoquem uma infecção ou até uma ruptura que obriguem a uma operação de urgência. Depois passou-me para um colega bem mais jovem, um assistente que me explicou como é que a laparascopia vai decorrer (vão-me encher o ventre de dióxido de carbono, vou parecer um Trabi!), referiu tudo o que pode correr mal e como é que esses problemas se resolvem, e respondeu ainda às minhas perguntas:
- Mas o meu corpo não precisa desse órgão?

- Não. A vesícula era necessária no tempo em que éramos caçadores e alternávamos períodos mais longos sem comer muito com grandes refeições cheias de gordura, quando abatíamos um animal. Aí, dava jeito ter uma reserva de "diluente de gordura". Mas hoje em dia, com a alimentação regular que fazemos, a vesícula tornou-se um órgão obsoleto no nosso organismo.
- Ah, bom. E o regime alimentar que terei de fazer depois da operação?
- Oh, não se preocupe com isso! Pode continuar a comer tudo, como comia antes.

Ora bem: este foi o primeiro médico a dizer-me que a ausência da vesícula não implica restrições alimentares. O meu primeiro impulso foi desconfiar. Mas depois reparei melhor na sua idade, e decidi que na nossa sociedade é importante dar uma chance aos mais jovens.

Portanto: amanhã cá vou eu: mudar alguma coisa, para que tudo fique na mesma.


28 janeiro 2019

nevoeiro em Agosto



Ontem, dia internacional da Memória do Holocausto, o segundo canal público alemão passou o filme "Nevoeiro em Agosto", baseado numa história verídica, de um ciganito que é separado do pai e internado num hospício por ter "problemas de rebeldia". De registar: a ZDF escolheu alargar a temática do Holocausto a outros grupos que também foram vítimas da loucura nazi.

O filme expõe o contexto no qual ocorreram os assassinatos de 200.000 pessoas com doenças mentais, durante o período nazi. Se tiverem oportunidade de ver, não percam. De entre os aspectos mais bem conseguidos, destaco a referência à posição de parte da Igreja Católica, e a figura do director do hospício: um médico simpático e muito dedicado aos seus doentes, que num momento brinca com as crianças da enfermaria, e no momento seguinte está a decidir que nomes vai riscar da lista dos vivos.

Já conhecia alguns factos sobre a perseguição aos ciganos e o programa de eutanásia nazi. Mas nunca tinha ouvido a justificação da eutanásia em palavras tão simples, e numa lógica tão fácil de acompanhar, como acontece num discurso nesse filme. E choquei-me com os factos revelados no final:
- O programa de assassinato de doentes continuou várias semanas após a capitulação da Alemanha.
- O director do hospital foi condenado a um par de anos de prisão, mas não chegou a ser preso por se considerar que não estava em condições físicas de cumprir essa pena.
- A enfermeira que envenenava as crianças foi condenada a quatro anos de prisão. Após cumprir a pena, retomou o seu lugar de enfermeira num hospital de crianças.


25 janeiro 2019

reais catástrofes



Programa para hoje: além do restante trabalho, aprender de cor os textos de cinco das canções que vou cantar com o meu coro no concerto de hoje. Os bilhetes já estão todos vendidos, os figurinos experimentados, o pianista (que é o português Rui Rodrigues, yay!) a postos - a única coisa que falta é eu fazer a minha parte e aprender a cantar tudo muito bem.
("Cinco para a meia-noite" é o meu nome do meio, triste vida.)

O coro foi criado em 2016 e já tem um belo histórico de façanhas. De todas, a que mais me impressiona é a capacidade de delegar do nosso maestro: praticamente todos os membros do coro assumiram a responsabilidade por uma tarefa concreta - partituras (cópias, distribuição, direitos), gestão da página na internet, listas de mailing por temas e naipes, informações várias, abrir e fechar as salas onde ensaiamos, instalar os pianos electrónicos e arrumá-los no fim, etc.
(A mim calhou-me: aprender a cantar bem as peças cinco minutos antes do concerto...)




O nome do programa do concerto de hoje e do próximo domingo é "reais catástrofes". Todas as peças são sobre reis ou rainhas - desde "All Creatures Now", de Bennet, até "König von Deutschland", de Rio Reiser - em grande diversidade de épocas e estilos musicais. Os apresentadores prepararam textos tão divertidos quanto profundos. Por exemplo, quando chamam a atenção para a atemporalidade do desespero do rei de Ungewitter, de Schumann: "no alto deste castelo / não sou rei com espada e coroa / sou o filho impotente e apreensivo / destes tempos de cólera".
(Ou pensaram que o nome "reais catástrofes" era em minha homenagem? heinhe?) (bom, reconheço que seria merecida)



A encenação deste programa esteve a cargo de uma dramaturga de teatro musical que já conhecemos de alguns projectos da Filarmonia, e de uma das cantoras do coro, também dramaturga, mas da área do cinema. De modo que chegámos ao ponto de treinar a expressão do rosto e a direcção do olhar em determinadas passagens de uma canção. Além de concerto, é um show.
(Cantar afinadinho, alinhados à frente do maestro, é muito século XX.)  

Os figurinos, por sua vez,  são um espectáculo. Do meio dos cantores, vestidos de preto, sobressaem dois soberanos por naipe, profusamente produzidos. A minha favorita é uma das rainhas das soprano, que vem de chapéu real e blusa, mas traz sobre as calças pretas apenas uma armação de arames para saia. Sempre que olho para ela dá-me vontade de rir.
(Convém que não olhe para ela durante a parte do Ungewitter, do Schumann). 

De modo que agora cá vou eu ao trabalho: aprender de cor o texto do Bassa Selim e do König von Deutschland (logo eu, que sempre detestei a rapidez do rap!), o da Glor'würdge Königin, partes do Ungewitter e da Traurige Krönung. Ah, e treinar bem a tensão de "All creatures now", porque em certas passagens - aquelas em que me sinto mais segura - esqueço que se trata de música renascentista e espraio-me como se estivesse a cantar Schumann.
(Aprender textos alemães de cor, enquanto vou despachando as outras urgências do dia: "quadraturas do círculo" é o meu nome do meio.) (Com tantos nomes do meio, um dia destes o meu passaporte terá de vir com folhas desdobráveis.)

E além disso está a nevar. Se calhar também vai ser preciso ir limpar o passeio.
(Seria a primeira vez que alguém limpa um passeio a cantar a melodia do contralto no Bassa Selim.)



23 janeiro 2019

coisas da vida (no inverno)

Tarde e a más horas fui à varanda buscar a sopa de feijão que lá guardei (no inverno, a varanda é a minha extensão do frigorífico) e...
...estava congelada.
Tive de partir a sopa à faca.

Agora não sei se jante tarde, ou se tome o pequeno-almoço cedo.

Bach no supermercado, Bach no frigorífico


Tiro e queda: sempre que vou comprar leite, ou então já em casa, sempre que abro o frigorífico e agarro no pacote do leite onde está escrito "Weide Milch", os meus olhos param na palavra "Weide" e Bach brota em mim: "Schafe können sicher weiden".

Não o Bach da Schwarzkopf, da Kožená, mas esta interpretação tranquila da Buniatishvili, com floresta, galochas, tudo:



Aconteceu de novo há bocadinho. Fui comprar leite, e voltei para casa - pela rua escura e com seis graus negativos, que me importa? - na companhia doce de Bach e Buniatishvili.
  

(*) Weide Milch = leite de pasto (o costume: as vaquinhas tambêm têm direito à vida, e poderem pastar ao ar livre é o mínimo exigível, e assim vai a minha vida de consumista mais ou menos atenta.)


isto (também) é Berlim

Encontrei o que se segue na página "Free Advice Berlin" - um grupo berlinense de trocas de informações no facebook:

Gareth: Alrighty 55 year old mother dearest is coming for the weekend and I wanna scare the living shit out of her by taking her to party here after doing all the nice SFW family time restaurant and walks in the park stuff.
Best ideas on a postcard where she might actually also get in? Bonus points for gay parties.
I was thinking Ficken3000, my friendly neighbourhood cruising bar.
(Not Berghain obviously - c'mon you can be more creative than that fucks sake)

Algumas respostas:

A: There is a riot on Saturday.

 
B: Take her to the ausländerbehörde [serviço de estrangeiros]

C: KitKat Saturday night 'Craneball Bizzare' for full family fun!!

D: Come on.. I am 46 and do enjoy kit kat ...what if she won’t leave till 6 am. Gareth, can you cope with?
 
E: Come to Staub after KitKat if she wants to afterhour!
 
F:  You should also take into consideration the queues, waiting for 2h in the cold might not be the best for her. Schwuz is also in the hood. Not that Berlinish techno oriented, but bigger than Ficken3000.
 
Gareth: yeah exactly. I want to go to Klappe but they're much more serious about door policy and its too small and cramped for her i think

G:
Golden gate is always freaky as f(I've only been Sunday mornings though), and you could bring a dead person with you in there. You can also go to a club in the morning to avoid queues.
 
H: If Gareth takes his mother to Golden Gate on a Sunday, I will be there and witness this!
Ontopic: Try with Sameheads. Good music, ideal for warming up and adjacent to your place.
 
I: There is a new queer party starting at Sounds called Strap On. Might be a cute but sexy option for ma?
 
J:  Take her for a quiet evening at Tom's
 
K: Juwelias Galerie StSt on Sanderstr. 26 in Kreuzkölln. A wunderful and unique tranny-trashy-arty parallel-universe, where every person's always welcome. Every Fri & Sat eve from 20-24h. Just don't forget to put a couple of Eur into the pot. Die Lady ist sexy, aber arm! ["sexy, aber arm": expressão cunhada por Wowereit, sobre Berlim, que significa "sexy, mas pobre"]
  
 

L:
After Juwelia's you could drag your Mom to Roses on Oranienstrasse. She will be blinded at the end of the night.

M:
hi, I think it's a great idea! However, I beg you, don't go to places juts because of the people inside of the club or what they will be doing there. Remember it's their (our, yours) place for free expression, not for being exhibit like in a zoo.
Take your mom out, take her everywhere, but please don't do it to show "the weird" "the creep" (or simply and honestly put : the different from you or your parents) because here in Berlin how ever these people might look like to you or your mom, they are going to these places avoiding to be treated like such and gathering with people that don't judge them, just like any of us don't actually want to be judged anywhere.
Thanks and have fun with your mom
(otherwise, tell her to come back during CSD, 1rst of May, KDK, Nolendorfstrassenfest, or any other PUBLIC act where people deliberately are manifesting the fact that they want and are proud to be seeing, plus the vibes are simply great!! I have been doing that for 3 years now with mine when they visit and the shock is guaranteed ;) but they love it!!)

Gareth:
Nah I hate that exhibit shit too. I am taking her to party in all the places I go anyways. I was looking for recommendations for which place would be good this weekend, not likely to kick up a fuss that she's never been anywhere here and not too overboard for a more timid lady in her 50s and me, the offspring of that fling she must have had with Satan.
Anyways, you say that everyone's into free expression but, seriously, i'm half worried for her because of potential judgemental looks from people going to these places just to be seen. It happens, we've all done it and we all know it happens. Hell if I stand in line for Berghain it's like the fashion police giving me the twice over.
Just sayin'
Don't worry about it. She'ssafe with me and Berlin will survive this weekend of having an old lady around.  

N: The fact that she is older than you shouldn't be a problem in places where they have their regulars from the old 80-90s berlin (kit Kat, Berghain, Paranoid...)
Have fun!

O: 
*talks about not judging others, judges by preference*

Gareth:
who was judging by preference? if you mean me because I said bonus points for gay parties - that's because i am a gay man and due to personal reasons she has no interest to be hit on by randoms right now. less likely to happen at a gay party as i'm sure you'll understand

O:
not you. Im talking about the other guy who quickly jumped into concluding that you are taking your mom to those parties just to laugh and make fun of the people there, where in reality youre obviously looking for a fun place to enjoy your time with your mom. No worries i got what you mean.
 
M: .I really don't think you read the same as Gareth, since I don't even remotely think he thought I was judging him. A sing saying "please keep the toilets as you found them before using them" is not implying you cannot keep them clean, is actually just asking for a certain social standard behaviour... I still don't see the judgment in my comment or the aim it has...

P para M:
yes, I feel you. That's one of the reasons why Berlin clubs have tough, selective doormen: to "protect" the space inside, keep out the Lonely Planet tourists, and only admit people who will *contribute* to the party.

Q:
If it's the last Saturday of the month, take her to Gayhane, too, habibi !

R:
Please Lol. His mom ist only 55. And having a son like Gareth, I m sure she s cooler as much of the young tourists visiting the city.
 
S:
KitKat will work!

T:
Berghain would be great though. Specially on Sunday

U:
Skip the party and go to an after-party

V:
Silver future bar!

W:
What an ass ... is your mother show her some respect ...

X:
I was wondering last two weeks about the same. To go and dance with mom, preferably gay party and disco but to avoid showing her amounts of drugs that people do. Is it even possible?
What about Schwuz? I've never been there (I'm boring going to Berghain or other techno shit).

Y:
I brought mine in berghain. She probably will get everywhere you also can. I borrowed my mom some clothes ahah

Z:
Well I like my schmutziges Hobby in Friedrichshain, is not too big but the environment is great

--
 
Acabaram-se-me as letras do alfabeto. Mas na página do facebook continuam os contributos que reflectem bem a diversidade de Berlim. 

(Agora vou-me retirar, para digerir em sossego a parte dos comentários em que partem do princípio que uma mulher de 55 anos é uma velhinha.)