01 julho 2022

Melilla


Em memória dos mortos de Melilla, deviam passar este documentário em horário nobre em todas as televisões europeias. Para a Europa inteira perceber que as pessoas que tentam passar a cerca de Melilla são - vou citar o anúncio que publiquei aqui há dias - "garantidamente seres humanos". 




o carteiro passa sempre duas vezes

 

O senhor que distribui encomendas na nossa rua anda sempre com um saco de guloseimas para cães no bolso dos calções. O Fox adora-o (vá-se lá saber porquê...). Quando o vê por perto, fica histérico. É um cão muito apegado às pessoas, coitadinho.

Há tempos pedi ao senhor que não desse guloseimas ao Fox, por causa daqueles rins desgraçados que lhe aconteceram. Ele respeitou, mas a contragosto. O Fox é que devia estar distraído quando esta conversa aconteceu, porque continuou a acreditar naquela amizade bela e desinteressada. Até que eu tive pena, e disse ao senhor que se quisesse lhe podia dar uma bolachinha (mas só uma!), ele respondeu com uma breve interjeição alemã que quer dizer algo como 'raix parta as pessoas e as suas manias, se não tivessem tantas manias a vida era bem mais simples', e o mundo do Fox voltou a fazer sentido.

Ontem saímos à rua na altura em que a carrinha chegou. Depois de o Fox ir ao céu por dois segundos, continuámos a nossa caminhada. Fomos ultrapassados pela carrinha, que parou um pouco à frente para mais uma entrega. Mais dois segundos no céu. E assim sucessivamente.

Se deixassem o Fox mandar, ontem a nossa rua chamava-se Rua do Paraíso.


25 junho 2022

era para ser hoje

 

(imagem: Sebastian Greuner, aqui)

Anda uma pessoa há uma eternidade (sim, comprei os bilhetes na semana em que Putin invadiu a Ucrânia) a esperar o reencontro com o seu querido Trifonov, e vai ele e adoece, pelo que será substituído pelo Kirill Gerstein, que não conheço. 

Lembra-me aquela vez que um miúdo perguntou ao Lang Lang como é que se faz para ficar famoso e ele respondeu: "trabalha-se muito, e fica-se à espera que o pianista de um concerto apanhe uma gripe."

(Quantas novas estrelas serão efeitos colaterais da covid?)

Entretanto, informação para o dia em que alguém afirmar ai-aqui-d'el-rei que andam a cancelar os russos: maestro russo, compositores russos, pianista russo. 


24 junho 2022

um anúncio feito para chocar

 

A trabalhar numa tradução, deparei-me com isto:


No livro "Saving One's Own: Jewish Rescuers During the Holocaust", Mordecai Paldiel conta que em 1943 os romenos começaram a prever a queda de Hitler, e queriam ficar nas boas graças dos poderes vitoriosos. Ion Antonescu propôs deixar sair do país os 70.000 judeus que ainda ali viviam, pedindo apenas que lhe pagassem as despesas de transporte. O secretário de Estado do Tesouro Henry Morgenthau Jr. levou o assunto a Roosevelt. Cavendish Cannon, dos Assuntos Europeus, argumentou que aceitar a oferta romena criaria um precedente perigoso: outros países onde havia perseguição a judeus podiam lembrar-se de fazer a mesma oferta. Significaria um convite a "novas pressões para asilo no hemisfério ocidental... tanto quanto sei, não estamos preparados para enfrentar o problema judaico em toda a sua dimensão".

O sionista Ben Hecht teve a ideia de publicar um enorme anúncio no New York Times, com o objectivo de chocar, despertar consciências, e pôr os judeus dos EUA a pressionar para salvar aquelas pessoas:

PARA VENDA à Humanidade
70.000 judeus
Garantidamente seres humanos
50 dólares a peça

"A Roménia está cansada de matar judeus. Matou cem mil deles em dois anos. Agora está a oferecê-los por um preço irrisório... Esta soma cobre as despesas de transporte... Atenção, América! É uma oferta sem precedentes! Setenta mil almas a 50 dólares a peça! As portas da Roménia estão abertas! Façam alguma coisa imediatamente!" 

(Dúvida da tradutora: "a peça", ou "cada um"? Escrever "peça" lembra-nos do léxico da escravatura, onde se contabilizava os capturados como "peças".)

Os EUA hesitaram, Por fim, a Alemanha acabou por convencer a ainda aliada Roménia a desistir desse projecto. 

Abro um momento de silêncio por 70.000 pessoas que podiam ter sido salvas, e ninguém quis salvar.

[       ]

Agora trocamos "judeus" por "africanos em barcos, no Mediterrâneo", e são os mesmos argumentos: não estamos preparados para enfrentar o problema da pobreza, da guerra e do aquecimento climático em África em toda a sua dimensão. Eles que vão morrer longe, já temos problemas que chegue... 

Mais silêncio. 

[       ]

Agora reparamos na parte do texto relativa aos palestinianos. "Atenção, Humanidade! Os árabes palestinianos não vão ser incomodados com a chegada de 70.000 judeus. Os únicos árabes que vão ficar incomodados são os líderes árabes que estão em Berlim, e os seus espiões na Palestina." (Leio "os seus espiões na Palestina" e lembro-me do cartaz russo recente a "informar" que na Suécia há muitos nazis.) Momento de silêncio pelos palestinianos, apanhados no turbilhão da uma tragédia na qual não tinham a menor culpa.

[       ]

Agora lembramos os nazis assassinos de secretária, os que tomavam decisões e assinavam papéis, os burocratas que se limitavam a cumprir ordens que tinham como consequência a morte de milhares de pessoas. E comparamo-los com os personagens desta história na América livre e rica, que encolheram os ombros à tragédia de setenta mil seres humanos. Agora tentamos descobrir as diferenças de fundo entre uns e outros. Mais silêncio. 

[       ]

E agora pensamos em nós. 
Sempre que há notícias de algum barco de refugiados parado num porto, e Portugal oferece-se para acolher alguns deles, tenho um sobressalto feliz: afinal é possível fazer melhor. 

pesadas heranças

 



A pouco e pouco, a Alemanha vai-se dando conta da herança que 16 anos de Angela Merkel lhe deixaram.

A fatal dependência energética do tirano Putin é o elemento mais visível. Mas:
- atire a primeira pedra quem tiver a certeza de que, no depósito do seu carro, só tem combustível proveniente de sólidas democracias respeitadoras dos Direitos Humanos;
- deixando de lado os óbvios interesses económicos, reconheço nestes acordos de fornecimento de energia entre os dois países um esforço político para estender a mão à Rússia pós-URSS. Infelizmente correu mal - mas também podia ter corrido bem, podia ter sido, de certo modo, o princípio de uma aproximação como a da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço.

Outro elemento actualmente muito visível é o estado calamitoso das Forças Armadas. O Ministério da Defesa andou de mal para pior nas mãos de ministros que não tinham as competências necessárias para aquela hercúlea tarefa. É verdade que sabíamos há muito que os aviões não voavam, e que muitos dos tanques e camiões que ainda tinham peças para andar corriam o risco de as perder pelo caminho. Ouvíamos falar em problemas vários relativos à compra de armamento e de peças de substituição. E também na infiltração da extrema-direita. Mas estávamos em paz, não nos preocupávamos muito com isso. Tanto mais que vivíamos num mundo em que ninguém gostava da ideia de uma Alemanha bem armada e com um exército eficiente (enfim, preconceitos...).

Esses são os elementos que a guerra de Putin tornou mais visíveis. Mas havia outros:

A concentração crescente da riqueza num pequeno número de privados, e o aumento do número de pessoas a viver em situação próxima da pobreza. O número de pessoas que precisavam de receber apoios da segurança social apesar de trabalharem a tempo inteiro. Num país governado por partidos que têm "cristão" no nome, é obra. E não é preciso falar do potencial explosivo de uma situação destas.

O imperativo de reduzir a dívida pública (lembram-se do Schäuble a resmungar "têm de poupar! têm de poupar!"?) também deixou de herança as redes viária e ferroviária num estado inacreditável. Há - por exemplo - 4.000 pontes a precisar de ser urgentemente substituídas. Uma ponte de auto-estrada importantíssima está fechada há meses, outras pontes foram fechadas a camiões pesados, em breve mais pontes vão fechar - com prejuízos brutais para as empresas e situações insuportáveis para as populações ao longo das estradas locais por onde passam agora muitos milhares de carros e camiões todos os dias.

Em termos de digitalização, enfim... Há aldeias portuguesas mais bem servidas de rede de internet que Berlim. E há um atraso de décadas no que diz respeito ao aproveitamento generalizado das potencialidades da internet na economia, nas habitações e nas instituições públicas.

Até no evidente problema do aquecimento climático o falhanço foi rotundo. Em 16 anos não foi possível passar uma mensagem tão simples como esta: se lutar contra o aquecimento climático sai caro, não lutar contra ele custa muitíssimo mais. [ As regiões marítimas e junto aos rios que digam quanto andam a gastar em reforço de diques e barragens, e em reconstrução de cidades alagadas. Os agricultores que digam quanto andam a gastar em água, e a perder com as alterações bruscas de condições meteorológicas. Os bombeiros que falem das florestas a arder em áreas onde nunca ardiam antes. Ainda na semana passada houve dois incêndios a sul de Berlim tão grandes que o cheiro a queimado chegou a Dresden. Houve localidades evacuadas. Por sorte veio uma chuva repentina e forte que ajudou a apagar o fogo. Mas já recomeçou, já ronda Berlim de novo, e os bombeiros não sabem como dominá-lo. ]
E que dizer dos cuidados à terceira idade, da malha cada vez mais larga na rede de prestação de serviços de saúde? Dos enfermeiros e das enfermeiras a mudar de emprego porque têm demasiado trabalho e stress para aquilo que recebem? [ Conheço uma enfermeira de um serviço de cardiologia que me recomendou ir ter um ataque de coração - if any, claro - no Lidl, porque é lá que estão os melhores enfermeiros do serviço dela. ]

É esta a herança que Angela Merkel deixou à Alemanha. Pode bem ter sido o menos mau possível - quer dizer, outro chanceler podia ter falhado ainda mais estrondosamente os desafios estratégicos do país. Mas é aqui que estamos.

Está longe de ser a única herança que pesa ao país, e ao seu novo chanceler Olaf Scholz. Ainda na semana passada a Documenta de Kassel trouxe de novo à luz a cicatriz histórica que marca a Alemanha, ao retirar uma peça que tinha elementos antissemitas. O problema, segundo leio, não foi retirar a pintura, foi ter demorado tanto tempo a tomar a decisão de a retirar. E o assunto que de momento nos preocupa a todos: perante a invasão da Ucrânia, o chanceler alemão está a evitar o melhor que pode seguir o exemplo do seu antecessor, o Kaiser Wilhelm. Eis como eu, que nunca compreendi como foi possível a primeira guerra mundial ter deflagrado e tomado aquelas proporções, começo a perceber melhor que o difícil não é começar uma guerra. É mesmo ter a sabedoria de a evitar.


21 junho 2022

como Pilatos no credo

Partilho este apontamento de Lutz Brückelmann, do dia em que na Enciclopédia Ilustrada a "palavra mágica" foi VERDADE:



Não gosto de andar com a palavra #verdade na boca. Exactamente porque não há nada que valorizo mais. Nem amor. Não há amor sem verdade. Mas verdade não é algo que se tem, seguro, é um objetivo de procura. Uma procura nunca concluída.

No Evangelho de S. João há o famoso diálogo entre Pôncio Pilatos e Jesus sobre a verdade (João18,37-38):
"Pilatos disse-lhe: Afinal, és rei? Jesus respondeu: Tu dizes que eu sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.
Pilatos disse: O que é a verdade? E, dizendo isto, tornou a ir ter com os judeus e disse-lhes: Não encontro nele crime algum."

O Evangelista está do lado de Jesus, claro. É místico e profeta e para ele, Jesus é Deus e assim a própria encarnação da Verdade. Pilatos por sua vez é o homem mundano, descrente, céptico, cínico, que privilegia a razão sobre a fé. Tudo o que São João e os outros fervorosos crentes desprezam.

Nietzsche, por sua vez, coloca-se no lado de Pilatos. No seu Anticristo escreveu:
Devo dizer que há apenas uma figura em todo o Novo Testamento que merece apreço? Pilatos, o governador romano. [...] O elegante desdém de um romano, diante de quem se comete um ultrajante abuso da palavra 'verdade', enriqueceu o Novo Testamento com a única palavra que tem valor - que é a sua crítica, a sua própria destruição: ‘O que é a verdade!’
[Imagem: Nicholas Ge, What Is Truth? (Christ before Pilate), 1890; Source: Wikimedia Commons, PD-Old-100. ]


20 junho 2022

a "cancel culture" exercida pela maioria

Muito se fala da "cancel culture" que constitui um risco terrível para pessoas que "inadvertidamente" incorrem na fúria de grupos "que impõem o pensamento único" e fazem tudo o que podem para lhes destruir a existência.

Antes de falar dessa "cancel culture" das minorias, deixem-me mostrar o outro lado da questão: a maioria também tem "cancel culture", e exerce-a com o à-vontade que lhe é permitido pela "ordem natural das coisas". E o mais grave é que nem se dá conta disso.

Trago três exemplos:


1.
"Em setembro de 2000, (...) Manuel Serrão publicou um artigo no jornal "O Jogo" com o título "Calado que nem um melão" em que, para atacar e achincalhar o clube seu adversário (e também meu...), o Benfica, insinua que o seu capitão é gay e tem uma relação com um melão.

Dias depois, em 14 de setembro, o defunto pasquim "O Crime" publica uma "notícia" com o título "Um grego calado com cabeça de melão", em que, com base no artigo do Serrão, diz abertamente que José Calado, capitão do Benfica, tem uma relação homossexual com o cantor Melão, membro da então famosa boysband "Excesso".

Lançado o boato, nada mais o faz parar e a vida destes dois homens passa a ser um inferno.

Melão, que era um ídolo das teenagers amorangadas e iniciava uma carreira a solo, passa a ser gozado e insultado em todo o lado e, inclusive, num espetáculo para estudantes de Coimbra (!!), abandona o palco à terceira canção porque já não consegue aguentar a constante berraria daqueles futuros "doutores". Viu vários espetáculos cancelados e praticamente deixou de ser contratado.

José Calado, passou a ser conhecido por "Capitão Gay" e a sua vida um pesadelo, atacado por adeptos adversários quando as coisas lhe corriam bem e por benfiquistas quando lhe corriam mal.

No dia 2 de outubro de 2000, durante um jogo no estádio da Luz, em que o Benfica perdia por 1-0, os insultos e piadas a José Calado foram de tal dimensão que ele abandonou o campo ao intervalo, o que lhe valeu um processo disciplinar, a perda da braçadeira de capitão, a saída do Benfica e o início de uma rampa descendente na carreira.

Ambos, como é natural, tinham família, pais, irmãos, companheiras, amigos e todos esses foram também vítimas desse pesadelo perpetuado, sem nenhum peso na consciência, por centenas de milhar de pessoas que se pensam de bem.

Na verdade, quem destruiu a carreira e quase arruinou a vida destas duas pessoas, não foram o Serrão nem o pasquim "O Crime", foram todos aqueles que, sem pensar nas consequências, foram gozando com o boato, que para muitos deles era apenas uma brincadeira mas para pessoas concretas era um pesadelo.

Mas é melhor estar calado, porque é mais do que evidente que somos um país de brandos costumes, nada homofóbicos nem racistas..."

[Autor: António Moreira]



2.
"Doutor Freud, que memórias lhe poderei descrever? Voltar aos três anos e à queda do muro da eira, empurrado pela vizinha, mulher adulta? Ou prefere que lhe conte o apego a um brinquedo quando tinha quatro anos?

Doutor Freud, ao contrário de muitas crianças, como deve saber tão bem, nunca tive muitos brinquedos e todos os que havia lá em casa, uns de metal e outros já em plástico, eram herança das primas e dos primos que viviam na cidade grande. Lembro-me que descobri, num caixote de papelão pardo, uma boneca sem um braço, com um vestido todo rasgado e os lábios pintados com esferográfica vermelha; confesso que senti pena daquele brinquedo e adoptei-o.

Doutor Freud, tomei conta e brinquei com aquela boneca até aos oito anos; ao contrário de muitos meninos que corriam atrás de uma bola, eu embalava e contava estórias a uma boneca sem um braço - lá fora os miúdos chamavam-me 'mariquinhas' e 'menina'.

Inquietantes aquelas palavras que, de vez em quando, ainda entram nos meus sonhos e se transformam em monstros, capazes de devorar a vida."

[Autor: Joaquim Carreira]


3.
No Alentejo, há meia dúzia de anos, procurava um restaurante para almoçar com um grupo de amigos, entre os quais uma mulher com pele escura. Quando lhe propus entrarmos num restaurante para ver se tinham lugar, respondeu-me que era melhor ser o marido (de pele branca) a entrar comigo. Se fosse ela, o mais provável era dizerem que não tinham lugar.
"Já estou habituada" - rematou.
Podia acrescentar que esta minha amiga é mais inteligente, mais culta, mais educada e mais bonita que eu. E lembrar a história de quando o Nelson Évora, "a quem Portugal tanto deve", foi impedido de entrar num clube. Mas esse seria um discurso armadilhado, porque normaliza a ideia de que as pessoas dos grupos que a maioria cancela por sistema e sem se dar conta têm de ser mais do que nós para terem os mesmos direitos.


Se me parece bem o cancelamento de uns para alertar para o cancelamento de outros? Não.
Mas a mim é que não apanham a choramingar que "já não se pode dizer nada". Pelo menos, enquanto tiver noção do meu privilégio, e do ridículo em que incorro.

 




18 junho 2022

»Etiam si omnes – ego non!«

Joachim Fest nasceu em 1926 em Berlim. O pai era director de uma escola, mas perdeu o emprego - inclusivamente a autorização para ensinar em casa - por se ter recusado a ir com o seu tempo. Nomeadamente por ter recusado inscrever-se no partido nazi. Aos filhos explicou a sua atitude com uma frase fundamental, tirada do Evangelho de Mateus: »Etiam si omnes – ego non!« ("e mesmo que todos - eu não"). É essa frase que dá o nome à autobiografia de Joachim Fest: Ich nicht (eu não). Fest virá a ser um historiador muito importante na Alemanha, com vários trabalhos sobre o período nazi. Na sua autobiografia fala do ressentimento do pai em relação à maneira humilhante como a assinatura do tratado de Versalhes foi encenada: os representantes da Alemanha obrigados a entrar pela porta das traseiras, e a ver a imagem da sua derrota na sala dos espelhos. A humilhação de que o movimento nazi se viria a servir com gosto. A posição da família e dos seus amigos era muito crítica em relação à ascensão de Hitler ao poder (“Hitler mente tanto, que quase somos levados a pensar que até o contrário do que ele diz é mentira!”, comentavam eles – e eu, ao ler, a lembrar-me de um famoso político do nosso tempo ao qual esta frase se aplica). O filho Joachim é tão inteligente quanto rebelde e determinado. Num belo dia de 1941 grava com o seu canivete uma caricatura de Hitler no banco da escola. A primeira pessoa a ver a obra de arte é um amigo seu, que fica alarmado e tenta febrilmente apagar os traços, impondo o silêncio a todos os colegas que vão entrando na sala. Mas haverá um que entende ser seu dever denunciar - e Joachim Fest é expulso da escola, juntamente com os seus irmãos. Naquele tempo era muito habitual que toda a família arcasse com as mais pesadas consequências da escolha pessoal de um dos seus membros.

Tanto nesta autobiografia como noutras que li, de vidas atravessadas pelo período nazi naquele período do século XX, encontro o mesmo elemento perturbador: não se entende como é que o horror consegue instalar-se com tanta facilidade na sociedade. As pessoas assistem atónitas, sem conseguirem acreditar naquilo que acontece à sua frente. Os judeus, por exemplo: apesar das regras antisemitas que os vão encurralando cada vez mais, não acreditam que as coisas possam piorar, e argumentam: "afinal de contas, vivemos numa sociedade civilizada". O próprio pai de Joachim Fest ouve uns rumores sobre os campos de extermínio no Leste, mas tem dúvidas. "Afinal de contas, vivemos numa sociedade civilizada"...
Já os povos ciganos, esses, não teriam qualquer motivo para se deixarem iludir por aparências.

Agora dou um salto de oitenta anos e pergunto: temos a certeza que as sociedade europeias são civilizadas? O que dizer do modo como os países europeus estão a tratar os povos ciganos, os refugiados da Síria ou os africanos que tentam chegar à Europa?
Naquela época como hoje, há uma diferença grande entre o "ser" e o "pensar ser".

14 junho 2022

dúvida metódica

 

Aconteceu num comboio regional alemão. Diz o revisor:

- Não precisava de comprar um bilhete de 16 euros para fazer esta viagem. Não ouviu falar no passe mensal de 9 euros para toda a Alemanha?

Responde o passageiro:

- Ouvi, mas fiquei desconfiado. Primeiro a pandemia, agora este passe mensal de 9 euros... não sei, mas de certeza que aqui há gato!





no fundo, é simples

 


Ouvido ontem num debate na tv alemã: "a Ucrânia só pode escolher entre guerra e ocupação".
Tão simples como isso.






13 junho 2022

uma dedicatória que é um micro-conto

 

A fazer uma pesquisa, entro numa tese de doutoramento e dou com esta dedicatória:

"Para Arlete Pais, minha professora da Telescola,
Por me ter oferecido o meu primeiro livro."

Já ganhei o dia.

(Para a Arlete Pais, que não conheço: ❤ ❤ ❤ )

12 junho 2022

"amartagens"

Porque me fez rir, e também pensar, partilho este texto do Fernando Gomes na Enciclopédia Ilustrada:


AMARTAGENS
Há pouco mais de um ano, Marte recebeu a visita do 'rover' Perseverance, enviado pela NASA para estudar variados aspectos do planeta vermelho. Na altura, uma das coisas que mais confusão me fizeram foi a ideia passada por muita gente, incluindo alguma comunicação social, de que aquela era uma missão inédita. Acontece que já antes tinham aterrado em solo marciano veículos com capacidade de se deslocarem para analisar o planeta e fotografar a sua superfície. A saber:
Em 1976, as missões Viking 1 e Viking 2 poisaram dois módulos em diferentes pontos de Marte. Durante seis anos, ambos fizeram experiências biológicas, monitorizaram o clima e enviaram 4500 imagens da superfície.
Em 1997, a Mars Pathfinder poisou no planeta vermelho com os ‘rovers’ Sojourner. Estes analisaram quimicamente rochas e estudaram o clima durante os 83 dias que durou a missão. Foram enviadas mais de 16 000 imagens.
Os veículos Spirit (Mars Exploration Rover A) e Opportunity (Mars Exploration Rover B ) chegaram a solo marciano em Janeiro de 2004. O primeiro percorreu pouco mais de 7 km até 2010. O segundo percorreu mais de 45 km até 2018, sempre a recolher informações e a enviá-las à NASA.
O ‘rover’ Curiosity, semelhante aos Spirit e Opportunity, poisou em Marte em Agosto de 2012. A missão está activa e continua a estudar o clima, a investigar a possibilidade da existência de vida e a compilar dados para o envio de uma missão tripulada.
Quanto a isto estamos conversados. Agora vamos à língua. No primeiro parágrafo, usei o verbo 'aterrar’ referindo-me aos poisos em Marte. Ora, muitos acham que ‘aterrar’ só se usa na Terra: se na Lua é ‘alunar’, em Marte deverá ser ‘amartar’ (https://dicionario.priberam.org/amartar).
Quando a Lua for habitada, imagino que os defensores deste absurdo, parente do disparatado ‘alunar’, aceitem um texto como «Um lunáqueo morreu após cair de um lunaço, estatelando-se no piso lúneo. Foi enlunado num luneno próximo. Amigos afirmam que era um indivíduo muito lua-a-lua». Em Marte, será «Um martáqueo morreu após cair de um martaço, estatelando-se no piso márteo. Foi enmartado num marteno próximo. Amigos afirmam que era um indivíduo muito marte-a-marte».
Então não salta à vista que ‘aterrar’ se relaciona com o tipo de superfície e não com o nome do planeta, do mesmo modo que se ‘amara’ quando se poisa na água, independentemente de ser mar, oceano, rio ou lago? Nem quero pensar no que se proporá quando enviarem sondas para estudar Júpiter ou Neptuno.
O mais curioso é os defensores das ‘amartagens’ não ficarem chocados quando embarcam não apenas em barcos, mas também em comboios e aviões. O que esperam para exigir 'encomboiar' e 'enavionar'? E, já agora, porque não 'entontiçar' quando embarcam em tontices? Fica a dica.


10 junho 2022

somos todos Simão de Cirene

 

A lei da eutanásia voltou ao Parlamento português, e com ela um escândalo, um autêntico sobressalto social: a provocação ao princípio da inviolabilidade da vida humana, que nos interpela como sociedade e nos obrigará a tomar medidas concretas para evitar tragédias.

Sem esta lei, a defesa daquele princípio tem sido feita de maneira prática e barata: as pessoas estão "condenadas a viver", queiram ou não queiram. Estão em situação de sofrimento insuportável? Paciência. Cada um tem de carregar a sua cruz, é assim desde o princípio dos séculos, é a vida.

Mas, uma vez aprovada a lei da eutanásia, a defesa da vida humana implicará o trabalho quotidiano e exigente de fazer com que as pessoas em situação de grande sofrimento queiram continuar vivas, apesar de terem a possibilidade de receber ajuda para antecipar a sua própria morte. Esta alternativa, sendo muito mais digna e humana, é muito menos prática e barata que a simples proibição da eutanásia. Implica muito empenhamento e muito esforço. Implica o envolvimento da rede familiar e social, exige o investimento do Estado nos apoios necessários a cada doente e nos cuidados paliativos, impõe um estado de alerta colectivo para sensibilizar as pessoas (sim, o famoso politicamente correcto também passa por aqui: pelo repúdio de expressões como "peste grisalha", pela atenção aos termos em que se fazem as propostas de reduzir os "custos incomportáveis do SNS").

Se pensarmos no risco do "plano inclinado", a responsabilidade é ainda maior. Teremos de ser capazes de construir uma sociedade onde todas as pessoas se sintam bem-vindas e estimadas: desde logo, os velhos e as pessoas com graves problemas de saúde (que correm riscos sérios de se sentirem compelidos a pedir a eutanásia para não serem um "peso morto" na família e na sociedade), e também, entre outros, as pessoas com depressão profunda, ou as vítimas de bullying generalizado e quase inconsciente devido à sua orientação sexual ou identidade de género.

Traduzido em termos evangélicos: uma lei da eutanásia obriga-nos a tomar consciência da nossa responsabilidade como Simão de Cirene, da nossa obrigação de ajudar a carregar a cruz daqueles que o destino ou a insensibilidade social condenaram ao sofrimento. Numa sociedade que permita alijar a cruz, os defensores do princípio da inviolabilidade da vida humana terão de estar muito atentos aos que sofrem, dando-lhes a certeza de que nunca carregarão a sua cruz sozinhos, fazendo o que está ao seu alcance para reduzir o peso desta.

É fácil ir para a rua ou para os jornais protestar contra a aprovação desta lei. Muito mais difícil é ser Simão de Cirene todos os dias - a nível pessoal e a nível institucional. Mas é essa a prova dos nove que permite às pessoas e à sociedade no seu conjunto mostrarem que acreditam realmente no princípio da defesa da vida humana.


08 junho 2022

sexto sentido

 


Andei a passear pelo blogue do Wladiminir Kaminer, e este post provocou-me várias gargalhadas. Traduzo, e depois me dirão se também riram. 
(Infelizmente, os posts mais recentes estão bem longe de serem assim divertidos.)



29.11.2021

Sexto Sentido


A imprensa foca-se muito sobre o que pode acontecer às pessoas que não querem ser vacinadas, mas quase não se ouve nada sobre pessoas que levaram vacinas a mais. No entanto, elas existem. O meu amigo russo K. foi vacinado seis vezes, não por motivos de saúde, mas políticos. Precisava de ir com urgência a Moscovo visitar a sua mãe, que adoecera. Apesar de estar completamente vacinado, para fazer a viagem teve de se vacinar duas vezes com Sputnik porque as vacinas alemãs não são reconhecidas pela Rússia, são discriminadas porque os europeus desprezam as vacinas russas, embora estas sejam feitas com o mesmo vírus morto que as alemãs, um jogo sujo da política – como diz o meu amigo. Para regressar à Alemanha não podia usar os códigos QR russos, e antes da viagem não tinha digitalizado as suas velhas vacinas alemãs. De modo que, por uma questão de segurança, teve de repetir o processo com as vacinas alemãs. “Vacinas de todo o mundo, uni-vos!”, brincava K. a propósito da sua vacinação. Como alguém que tinha sido vacinado seis vezes, ou seja, estava bem atestado de vacinas de todos os países, fez um teste de anticorpos em Berlim, queria saber quantas proteínas protectoras nadavam no seu sangue. Os limites ainda não estão claramente definidos, mas presume-se que um valor entre 16 e 24 proporcionaria protecção suficiente, disse o médico. O teste de laboratório de K. mostrou 4000 e isso foi apenas porque os dispositivos só podem medir até esse limite, como o médico lhe explicou. Possivelmente o nosso amigo tem mais anticorpos do que uma cidade europeia de tamanho médio. É pena que o mito da chipização da população seja apenas um conto de fadas. Fosse isso verdade, o meu amigo poderia resolver os estrangulamentos na produção de chips e fornecer à indústria automóvel alemã os chips do seu corpo. Da última vez que nos vimos, ele relatou que todos os seus sentidos ficaram muito apurados após a sexta vez que foi vacinado, como se pudesse ouvir o que os vizinhos do andar debaixo estão a dizer, consegue cheirar um stand de kebab a cem metros de distância e já não precisa de óculospara ler. Além disso, desenvolveu-se nele uma espécie de sexto sentido, um instinto noticioso. Intuitivamente, sabe o que vem nas notícias. Já não preciso de ver o noticiário, diz K. Mesmo antes de pivot aparecer no ecrã, sei o que está para vir.

Jakub Józef Orliński

 


Sabem aqueles amores, quando temos perfeita consciência de onde vimos pela primeira vez o ente amado? Conheci Jakub Józef Orliński de calções, absolutamente inesquecível. Não apenas os calções e o seu ar descontraído, mas sobretudo a beleza do seu Vedro com Mio Diletto. Mas vá, confesso: os calções também. Foi aqui:


Ontem esteve em Berlim, na Kammermusiksaal. Cantou Händel, Purcell, Johann Joseph Fux, e três compositores polacos: Henryk Czyż, Mieczysław Karłowicz e Stanisław Moniuszko. Disse que ele e o pianista - Michał Biel, também polaco, e excelente acompanhador - gostam ambos muito desses compositores, e entendem que o resto do mundo também os devia conhecer. Caso a minha opinião interesse para alguma coisa: penso que têm toda a razão. Essas canções não foram compostas para a voz de contratenor de Orliński, pelo que "tudo isto é muito refrescante" - como ele disse, com um sorriso.

Muito refrescante e belo. Um concerto memorável. E um momento surpreendente: o movimento de break dance que fez, de fato, no palco daquela famosa casa, quando já soavam os primeiros acordes de Music for a While. Para logo a seguir entrar com toda a graciosidade na música.



À saída, uma amiga comentou comigo que quando morrer quer subir para o lado de lá ao som do seu "Amen, hallelujah" de Händel. Excelente ideia, roubei-lha logo ali. A ver se morremos juntas e no mesmo momento, assim ele só canta uma vez para as duas, fica mais barato.



07 junho 2022

"manequim" (2)

 


Primeiro, fui eu que encontrei dois manequins cobertos com uma massa antracite encostados a uma sebe num parque ao longo da avenida 17 de Junho, e contei ao Joachim sobre aquela instalação.
Depois, foi o Joachim que os foi espreitar, e achou que a instalação ficava ainda melhor em frente à fachada da nossa casa. De modo que durante uns tempos tivemos os dois bonecos a espreitar quem passava na rua (e vice-versa, o que me provocava algum desconforto, porque prefiro ser discretinha).
Depois foi um temporal horroroso, que bateu na massa antracite de tal maneira que ela começou a descolar-se do peito de uma das bonecas, deixando à mostra a mama branca. Parecia ainda mais arte, mas também estávamos a incorrer em nudez feminina num bairro residencial com crianças e pessoas de outras religiões e pequeno-burgueses e tal.
Quando, devido aos temporais que se seguiram, aquilo deixou de ser arte e passou a ser óbvio desleixo, tirámos as bonecas da fachada da rua e encostámo-las à parede da garagem.
Depois veio mais outro temporal, despiu-as ainda mais, e largaram tinta para a parede da garagem. De modo que as pousei no chão, junto a uma palete que tirei do caixote do lixo de um vizinho porque o Joachim a queria usar como base para a sua tenda de sauna no jardim, mas depois arranjou outra melhor.
E agora ali estão, despojadas e nuas, à espera do destino final, que é o centro de entregas de lixo de Berlim.
A não ser que haja por aí alguém, ainda mais criativo que o Joachim, que ache que um #manequim mais nu que nu é uma extraordinária obra de arte, e que esta nudez provocada pelos temporais cada vez mais frequentes é uma excelente alegoria para a Humanidade exposta à fúria do planeta que está a destruir, etc.
Nesse caso, podem vir buscar. Dou o endereço em mensagem privada.


"manequim" (1)

 



Na berlinense Kurfürstendamm há uma loja de vestidos de noiva que há uns dez anos me provocava sempre ataques de riso (mas dos leves, vá, fiquem descansados, que eu não ia fazer figura de maluquinha na avenida mais importante de Berlim ocidental).
Ria-me porque tinham escolhido manequins daqueles com ar muito frio e distante para fazer figura de noivos. Admito que não o tenham feito de propósito - embora isso fosse um bom gag à moda de Berlim. Mas penso que não foi de propósito porque a pouco e pouco foram substituindo aqueles manequins com cara de "não tô nem aí, viu?" ou até "tirem-me deste filme! mas discretamente, porque não quero dar vexame" por outros sem cabeça.
O que também é um bom gag, porque passados uns anos, quando as pessoas que envergaram aquelas roupinhas para casar se perguntarem onde é que tinham a cabeça quando talicoisa, se vão lembrar que usarem a roupinha que viram num boneco sem cabeça talvez não fosse grande auspício.
Mas se a ideia era essa, então também podiam deixar os mal-encarados e distantes. Vai dar ao mesmo...

(Tirei várias vezes fotografias à montra, mas agora não sei em que gaveta do meu computador as arrumei, por isso mostro uma da loja e outra dos manequins cool que encontrei na net)


06 junho 2022

nacionalismos exacerbados...

 

A ler um livro, tropeço no momento em que, durante a segunda guerra mundial, a personagem principal, uma mulher da primeira leva do Women's Army Corps, dá consigo a desejar ser russa. Porque as russas podem ir lutar para a frente enquanto as do WAC são mais para fazer bonito. Na frase seguinte, fala-se da franco-atiradora Ljudmila Michailowna Pawlitschenko. Esta era ucraniana.
Mas a americana queria ser "russa".
O autor do livro escreveu isto sem reparar. E se Putin não tivesse invadido a Ucrânia, eu também não reparava. Mas a invasão despertou a minha atenção para estes detalhes. A URSS esbateu as fronteiras dos países e criou os soviéticos. Quando terminou, os antigos soviéticos foram automaticamente confundidos com os russos. Parajanov: russo. Gogol: russo. Khatchaturian: russo. Ljudmila Michailowna Pawlitschenko: russa. Kasparov: russo. (Basta pensar no modo como a Espanha se apropriou do "nosso" Saramago para perceber como esses povos se devem sentir.)

Também comecei a olhar mais cuidadosamente para a acusação de os ucranianos serem ferozmente nacionalistas, e de estarem a perseguir a minoria russa, impondo-lhes a sua língua. Lembrou-me o que ouvi em tempos sobre a "arrogância" da Catalunha, por querer impor o catalão no quotidiano, e que, talicoisa, coitadinhos dos castelhanos que lá viviam.
A Europa está cheia de casos de línguas que foram violentamente reprimidas. E os povos têm todo o direito de quererem salvar o seu idioma.

Pergunto-me quanto do "nacionalismo exacerbado" de que acusam a Ucrânia são factos assim fáceis de explicar.








05 junho 2022

jubileu

 

Não sei como é convosco, mas o filme da queen com o Paddington, e a expressão deste a dizer "and thank you for everything" foi o melhor que vi neste jubileu. Pode-se ver aqui. (Li numa revista que alguém não sei onde até ficou com uma lagriminha ao canto do olho.)



03 junho 2022

colorido

 

Andava à procura de uma expressão para "aviso" ou "indirecta", descobri este "dicionário aberto de calão e expressões idiomáticas" (aqui) e fartei-me de rir. Portugal no seu mais colorido: parecia que andava a passear nas ruas do Porto.

"Abono de família", "andar a polir esquinas", "nas putas e vinho verde" (até me lembra o tal holandês de má memória), "ir para o jardim das tabuletas", "monta um porco e baza". Se a língua é a pátria, o calão deve ser as cores da bandeira nacional...

01 junho 2022

instantâneo alemão

 

Um bocadinho de Alemanha pela manhã...

Ainda não são oito da madrugada, e já me aconteceu isto: por causa de uma tradução, fui ao Google ver o que era aquela história de o Goebbels coxear. Encontrei um tipo a perguntar a mesma coisa para ajudar a filha, que tinha de fazer um trabalho para a escola, e li as duas respostas que recebeu. A primeira, dizia que (cito) o "Dr. Goebbels" tinha um pé mais pequeno que o outro, e blablabla o "Dr. Goebbels" teria afirmado que blablabla.

A segunda pessoa a responder revelou que o problema era que quando erguia o braço direito a perna direita também se levantava e batia-lhe no focinho, e que infelizmente isso não acontecia com a frequência que seria de desejar.


31 maio 2022

a paz perpétua

 


O projecto de 2022 do meu coro é - podem crer! - espectacular: vamos "dançar" o Requiem de Fauré, e ligá-lo à tradição mexicana do Dia de los Muertos. A doçura da abordagem de Fauré, que nos propõe a morte como passagem para o paraíso, e o reencontro festivo com aqueles que amamos e passaram para o lado de lá. E também a reapropriação dos sentidos do nosso corpo, bastante maltratados durante a crise da covid: um evento para ver, ouvir, cheirar, saborear e viver em proximidade.

Desde o princípio que penso que este projecto é muito actual, e um grande presente que fazemos à população de Berlim. Na ânsia de sobreviver à crise e de regressar depois à normalidade, restou pouco espaço para nos confrontarmos com o que nos aconteceu nestes dois anos: o stress do quotidiano transtornado, o medo da morte e da doença, a ameaça da falência, a dor de despedidas que não foram possíveis.

Sim, é um grande projecto, mas: como sempre, falta o dinheiro para o realizar. Temos andado a pensar nas várias possibilidades de financiamento, e uma delas foi pedir patrocínios às agências funerárias.

Uma delas deu um pequeno apoio, combinado com várias condições - a costumeira publicidade, mas também um ensaio do nosso coro nas suas instalações. Comecei por revirar os olhos, pensando que estavam a exagerar nas contrapartidas para um apoio tão minúsculo. Mas estivemos lá recentemente, e viemos de lá muito mais ricos.

Mostraram-nos a sala dos velórios, o armazém de caixões com todo o tipo de modelos (escolhi logo para mim o mais simples: a caixa de pinho não tratado, que eles usam para recolher ossadas) e a sala onde preparam os cadáveres para os expor no velório. Têm uma máquina parecida com as de diálise, para trocar líquidos e mudar a cor da pele ("Se o corpo estiver mais bonito na morte do que era em vida, é sinal que exageramos nos nossos esforços", disse o guia, e eu a pensar "bem, se o nicho de mercado pegar, as pessoas ainda vão começar a encomendar aparências post mortem, ai eu queria ficar tipo Brad Pitt, ai eu queria ficar tipo Brigitte Bardot...").

Falámos muito da morte, esse tema tão evitado. O pudor no trabalho com os corpos indefesos (as zonas genitais, obviamente, mas também o detalhe de, no exame para técnico de preparação do corpo, se chumbar caso se pouse por um momento a cabeça do cadáver na mesa, em vez de a pousar no suporte que ali existe para esse fim. A relação com o corpo como última homenagem à pessoa que vivia dentro dele - por exemplo, a história de uma família que entregou um lenço para pôr no corpo, e o tanto que eles pensaram sobre como usar o lenço (na mão? na cabeça, com um nó à frente, como quem vai para a apanha das batatas? na cabeça, com um nós atrás, como quem anda a limpar o pó?); repararam que aquela mulher tinha uma cicatriz na cabeça, e usaram o lenço para a cobrir, prolongando-o com um nó elegante num dos lados, entre o pescoço e o ombro: a homenagem que é também observação e reinvenção da pessoa. As decisões sobre o funeral: o que a própria pessoa quer, mas também o que é conveniente para os vivos - um enterro na floresta não é grande ideia no caso de o cônjuge sobrevivo ter dificuldades graves de mobilidade; ou a história da família que ia enterrar a mãe ao lado do pai, e foi apanhada de surpresa ao saber que a mãe deixara indicações para deitarem as suas cinzas ao mar ("conversem sobre isso antes de morrer, ponham-se de acordo quanto à melhor solução" - dizia ele).

No fim, alguém perguntou ao responsável da agência funerária, que trabalha todos os dias com mortos, se acreditava num além da vida. A resposta dele:

- Espero que não haja nada depois desta vida. A verdadeira paz perpétua é o fim absoluto.

Gostei da formulação: "espero que". E ocorreu-me que esse ponto absolutamente final pode ter um lado positivo: nada de viver na inquietação eterna de tudo o que se fez mal nesta vida, nada de voltar à terra para tentar melhorar. A nossa vida é aqui e agora, e todos os dias contam, todos os gestos contam. A nossa vida é um rascunho gravado na pedra.

A nossa vida eterna seria essa herança que aqui deixamos: o bem e o mal que espalhámos. E, nesse caso, não entraríamos no paraíso depois da morte, como em Fauré, mas estaria nas nossas mãos recomeçar todos os dias gestos de oferecer ao mundo o paraíso à medida das nossas possibilidades.

jubileu de platina

 



26 maio 2022

a guerra que vá para o cesto da gávea! (ou lá como é que se diz)

 


Oh pá, a sério: estão a rir-se do Milhazes por ter traduzido a palavra por extenso, em vez de dizer "aquela palavra começada por C"?
Somos todos meninas de colégio de freiras no século XIX, ou quê?
(Tanto mais que fui espreitar e palavras começadas por C, há milhares delas. Se sabemos todos qual é aquela a que alguém se refere quando fala assim, para quê tanta fita se ele a disse por extenso?) (E depois, a infantilidade: se eu dissesse "começada por c com duas letras, começada por c com quatro letras ou a outra mais comprida?" desatavam todos aos risinhos, não era?)