02 julho 2021

"Diana Spencer"

 




Durante alguns anos, apreciei o espectáculo e a pompa das touradas. Era uma coisa diferente, especial, toda uma arte, toda uma cultura, todo um mundo. Até ao dia em que não consegui mais ignorar o sofrimento do bicho.
A realeza é para mim como a tourada era: aprecio o espectáculo e a pompa. Toda uma arte, toda uma cultura, todo um mundo.
Mas a coisa complicou-se com a #Diana_Spencer, que mostrou o sofrimento que existe por trás do show: o touro profundamente ferido. Já não dá para ignorar.
Ainda não rejeito o show das monarquias como rejeito as touradas. Gosto muito de ver a encenação dos casamentos (e deslarguem-me, que aquilo passa-se tudo entre pessoas maiores de idade e eu não prometi a ninguém viver uma vida sem futilidades).
Já as crianças que nascem nessas famílias me lembram bastante os touros de lida: nenhuma delas escolheu estar ali. Pergunto-me até se não será um caso para a protecção de menores.
Adiante. A Diana Spencer trouxe sangue inglês àquela família de alemães, e alguma proximidade com os seres humanos àquela família de representantes. Era muita novidade junta numa pessoa só, e correu mal.
Foi aí, no mais fundo da crise, que a fibra de que Diana Spencer era feita se revelou em todo o seu esplendor: acossada, isolada, sozinha, doente, conseguiu ainda assim encontrar forças para levar a sua luz a quem precisava dela. Menciono apenas duas das áreas nas quais soube usar o seu lugar de privilégio e fama para mudar o mundo: o combate à estigmatização dos doentes com sida, e a tragédia dos territórios minados em África.
A naturalidade com que se aproximava dos mais carenciados marcou a casa real inglesa. O "touro ferido" conseguiu mudar algumas regras do show.


01 julho 2021

30 junho 2021

retrato de um homem

 

Partilho este post do Paulo Santos, no facebook, porque trata de um tema que me é muito caro: o poder que cada um de nós tem para mudar alguma coisa. Recentemente reli Se Isto é Um Homem, de Primo Levi, o livro onde o célebre escritor italiano descreve a sua passagem por Auschwitz. Tinha sublinhado uma passagem que me emocionou muito na primeira leitura que fiz do livro e que continua a tocar-me profundamente. Um italiano não-judeu trabalhava para os alemães num projeto industrial que recorria ao trabalho dos prisioneiros e Levi recorda-o desta forma:
“(…) um operário civil italiano trouxe-me um bocado de pão e os restos do seu rancho, todos os dias, durante seis meses; ofereceu-me uma camisola sua cheia de remendos; escreveu por mim um postal para a Itália e fez-me chegar a sua resposta. Por tudo isto, não pediu nem aceitou alguma compensação, porque era bom e simples, e não achava que o bem devesse fazer-se para obter compensações.
(…) creio que devo justamente a Lorenzo o facto de estar vivo hoje; não tanto pela ajuda material, quanto por me ter constantemente lembrado com a sua presença, com a sua maneira tão linear e fácil de ser bom, que ainda existia um mundo justo para além do nosso, algo e alguém ainda puro e incontaminado, não corrupto e não selvagem, alheio ao ódio e ao medo; algo que mal se pode definir, uma remota possibilidade de bem, pela qual, porém, valia a pena conservar-se.
(…) Lorenzo era um homem; a sua humanidade era pura e incontaminada (…). Graças a Lorenzo, aconteceu-me não esquecer que também eu era um homem.”

Falta acrescentar a este post e ao texto do Primo Levi uma informação essencial para completar o retrato desse operário: os nazis proibiam que se ajudasse os prisioneiros. Dar um pedaço de pão a um prisioneiro era algo muito arriscado.
Neste filme (aqui) uma testemunha conta que em 1945, quando tinha 12 anos, o caminho para a escola passava ao lado de um campo de concentração. Movida pela curiosidade, espreitou por um buraco na vedação, e deu-se conta da fome das pessoas que estavam do outro lado. Cheia de compaixão, atirou-lhes por cima da cerca o pão que levava para comer na escola, e no momento seguinte estava a ser agarrada por um guarda do campo, que lhe ralhava por ter deitado comida fora. "Não deitei fora, dei-a a estas pessoas que têm fome", respondeu ela. O guarda telefonou ao director da escola e mandou chamar a mãe. Os nazis costumavam castigar famílias inteiras pelos actos de um dos seus membros. Chegavam a tirar as crianças aos pais, para serem criadas por famílias nazis. Esta mãe escapou a um pesado castigo porque tiveram pena dela, que entretanto era viúva (presumo que o pai tenha morrido na guerra).
Tantos anos depois, esta mulher ainda se lembra bem do sarilho em que se meteu, tanto com o director da escola como com a própria mãe, por ter dado a sua merenda aos famintos do campo de concentração.


8 ou 80

 

Se calhar chateei o São Pedro demais com aqueles meus pedidos para me regar o jardim e a horta. Começou ontem, à hora a que a Alemanha perdeu, e não há maneira de parar.
Mas vou é ficar caladinha, que se lhe peço agora que ganhe juízo é bem capaz de amandar para aí com a seca do século.
Desconfio que o verdadeiro nome dele é São 8 ou 80 Pedro. --- Os factos, que acabei de ouvir no noticiário: em Berlim, o mês de Junho foi quase 5 graus mais quente do que o habitual, choveu 11% do que normalmente chove neste mês, mas agora a cidade está a contar com dois ou três dias nos quais vai chover tanto como noutros tempos chovia no mês inteiro.

(Coitadinho do Fox: durante estes dias, tem a sanita no chuveiro.)


meio metro quadrado

 





Lobélias, rúcula, courgettes, diversas abóboras, uma ou outra erva que tive pena de lançar cruelmente à morte, alfazema, cravos (vermelhos!) e rosas (rosa). Pequeno extra: formigas. 

Estou muito satisfeita com a decisão que tomei de trocar a relva por uma mistura de flores e plantas comestíveis. 


Mas só fotografei o meio metro quadrado de jardim que está bonito. O restante: a ver vamos. Se ficar estonteantemente belo, partilho aqui. Se não, ficamos assim, que estamos na internet, e não num grupo de jardineiros aselhas anónimos. 


29 junho 2021

nudistas









Por estes dias o Fox tem estado connosco, para o Matthias poder ter mais tempo para se preparar para os exames. Fez-me imensa festa no dia em que o fui buscar. Mais festa fez quando percebeu que íamos passear ao longo do canal. Mas quando se deu conta de que eu estava a ir na direcção da S-Bahn que liga a casa dele à nossa... Coitadinho do bicho.
Faço o que posso para o animar. Todas as manhãs vamos passear até ao lago, e ele mete-se na água - primeiro para beber, depois para nadar. Curiosamente, recusa-se a entrar num dos lados do lago. Entrou uma vez, provou a água, e nunca mais. Imagino que tenha descoberto que aquela parte do lago está mais poluída do que é bom para a saúde dele.

Os nudistas é que não sabem, nem se interessam. Lá estão postos em sossego, já às oito da manhã, a gozar o calor berlinense. Passo por eles concentrada para não ver (citando a expressão do Matthias quando era pequenino, a propósito da sauna) mas mesmo assim fico com uma ideia de relance sobre as modas actuais em termos de depilação total.

Há dias vi duas mulheres, bastante afastadas uma da outra, a ler o jornal em pé. Era uma cena engraçada: duas figuras do Botero, nuas e de chapéu, a ler o jornal ao sol.

Hoje, no sítio onde o Fox gosta de entrar na água, havia um carro parado (carros são proibidíssimos nesse parque) e um homem inteiramente nu estava a descarregar baldes de areia para deitar na água, de modo a tornar a entrada mais agradável.
Não fiquei muito tempo porque entretanto saiu da água mais um nudista, e era um vizinho meu, com quem em tempos discuti sobre a imoralidade de usar casas como objecto de especulação, e de as ter vazias durante anos a fio. Ele achava que cada um pode fazer o que quiser com o que é seu. Ora, isso é quanto me basta saber sobre ele, de modo que mal lhe reconheci a cara virei logo costas e fui-me embora, para não acrescentar à minha cultura geral mais algumas intimidades lá dele.

Deixo-vos fotografias do Fox, que - como é óbvio - é o único nudista que fotografo naquele lugar. O Fox a recusar-se a entrar na água para ir buscar o pau que eu lhe atirei, o Fox tipo vai-vem na parte do lago onde gosta de nadar.


27 junho 2021

rapsódia sem chuva


A pouco e pouco - e já o sabemos: por apenas algumas semanas de alívio - a vida berlinense volta ao normal. Os restaurantes já reabriram (sobretudo na parte das esplanadas), os cinemas estão quase a reabrir (estão fechados desde Novembro), e ontem foi o concerto de fim de temporada dos Filarmónicos na Waldbühne.

Apesar de ser ao ar livre, as regras eram apertadas: bilhete com nome e lugar marcado, teste do dia negativo, espaço de dois lugares entre cada par, e sem o piquenique habitual que transformava este concerto numa imensa festa comunitária.

O concerto de ontem levou-nos aos EUA, pelas pautas de Bernstein, John Williams e Gershwin. Wayne Marshall foi o maestro - e também pianista no Rhapsody in Blue. Já lá vamos.

Um bom terço do palco estava ocupado pelos instrumentos de percussão de Martin Grubinger para tocar "John Williams: The Special Edition" em arranjo especial de Martin Grubinger senior. A peça percorre vários temas importantes de filmes, nomeadamente Star Wars, e é do género da que se ouve aqui. Gostava de ter visto Martin Grubinger de muito mais perto, mas já se sabe como é aquele anfiteatro: ou se leva um telescópio de ver as pedrinhas nas crateras na lua, ou se vai preparado para ouvir apenas. Ouvi, e já não foi mau.

Depois do pot-pourrit que voltava e uma outra vez à marcha imperial do Star Wars, foi a vez de Rhapsody in Blue. Talvez por causa da crise na cultura, não houve dinheiro para pagar um pianista, pelo que o maestro teve de fazer os dois trabalhos. E fez muito bem, excepto nas partes em que improvisava e levava o tema para a marcha imperial do Star Wars. Parecia aquele aluno a quem o professor pediu a tabuada do sete, e respondeu que preferia dizer a do seis, que conhecia muito melhor. Coitadito do pianista: não deve ter tido tempo para estudar tudo...

Ou então, leu o título da peça literalmente: "ai isto é uma rapsódia? então, cá vamos nós!"

Estou a brincar, claro. Tocada assim, a Rhapsody in Blue foi muito divertida. Fez-me sorrir de cada vez que passava dos temas que conhecemos ao Gerschwin para o de Williams que tinha tocado na peça anterior. Para terem uma ideia do que ali aconteceu:


Em suma: foi um bom concerto. Muito bom.

Mas sem o Rattle, e sem todo aquele espaço apinhado de gente feliz, e sem o temporal que já começava a ser tradição, não foi a mesma coisa.

Tenciono voltar lá no próximo ano, e espero que esteja apinhado e chova muito, para termos a certeza que a normalidade regressou finalmente a Berlim.


viver e escrever

 







A vantagem de partilhar momentos felizes no facebook é que ele mos lembra depois, ano após ano. Esta manhã, por exemplo, já me lembrou que a fronteira entre a França e a Alemanha reabriu faz agora um ano, e amigos nossos vieram passar alguns dias connosco: casa com vista para o mar perto de Douarnenez (e char à voile numa praia linda e deserta, e Quimper sem turistas), casa com vista para o mar em Carantec, pernoitar em Saint Malo e Mont Saint-Michel (num Mont Saint-Michel sem turistas!) intra muros.
(Nas imagens: o lado menos conhecido do Mont Saint Michel, nós no cemitério a lavar os pés porque para ir ver o lado norte do Mont Saint Michel acabámos atolados nas areias movediças que ali há, mais o anoitecer, mais o amanhecer.) E há quatro anos estava assim:
Post mete-nojo:
Está uma pessoa ao computador descansadinha da vida, a arrancar os cabelos enquanto luta contra o atraso (esta semana vai ser assim) e recebe uma mensagem a dizer isto:
Hi guys,
I hear from my brother that you are planning a visit. Don't forget to include a few days at our coastal apartment. We are looking forward to seeing you both.
O "coastal apartment" é em Santa Cruz, em frente ao Pacífico. Já estou outra vez com stress de tempo livre: eclipse solar em Oregon, Avenue of the Giants, San Francisco, acampar junto à Highway nr. 1, e agora Santa Cruz.
Há que ser forte, e manter o sangue-frio.

Tenho dezenas de milhares de fotografias dessa viagem à Califórnia, da estadia de sete meses na Bretanha, e de todos os outros dias felizes que o facebook me vai relembrando. O que me dava mesmo jeito era que me obrigassem a ficar em casa vários meses seguidos, para desbastar o arquivo de imagens e aproveitar algumas para contar neste blogue.

Ai, espera...




24 junho 2021

e o vosso serão: também foi bom?


Ontem, à hora a que a Alemanha parou para ver o jogo Alemanha-Hungria, fui com uma amiga fazer um piquenique no Wannsee. Burguesas: de mesa e toalha e tudo.

Andava por lá uma família de patos com meia dúzia de adolescentes. Bem comportados, ajuizados, sempre atentos à mãe. Enfim, uns patos.

Em algum momento vieram pôr-se a dormir perto de nós. Pensámos que toda aquela confiança era uma grande honra (ou uma patice de todo o tamanho, disse a minha amiga, que tinha almoçado pato), mas depois ocorreu-nos que eles poderiam saber que onde há humanos provavelmente não há raposas.

Ao que nós chegámos: patos do Wannsee a fazer de mim escudo humano!

(Grande pata sou eu: fui jantar naquele cenário e deixei a máquina fotográfica em casa.)








23 junho 2021

arco-íris

 





Desde os desenhos animados do aprendiz de feiticeiro, quando a vassoura começa a meter cada vez mais água em casa, que não via um efeito assim: depois de a UEFA ter proibido que o estádio Allianz Arena seja iluminado com as cores do arco-íris, a Alemanha inteira encheu-se de cor. Logótipos de canais de televisão, títulos de jornais, sites da polícia, vários estádios no país inteiro, monumentos, tudo, tudo. Uma festa de cor.
E no estádio? Num tuíte que se tornou viral sugerem trocar as voltas à UEFA deste modo:
"Filas 1-5 por favor venham em lilás
Filas 6-10 em azul
Filas 11-15 em verde
Filas 16-20 em amarelo
Filas 21-25 em cor de laranja Filas 26-30 em vermelho."

Outra sugestão: "Agora é preciso 11 jogadores decididos e um bom cabeleireiro para lhes pintar o cabelo com essas cores".

Alguém lembra que às vezes se carrega no botão errado sem querer, outros põem a hipótese de as empresas que gerem a publicidade nos painéis digitais do estádio passarem também as cores do arco-íris.

Se a UEFA não tivesse feito nada, o estádio aparecia iluminado, e o assunto morria aí. Como tentou impedir, transformou isto num caso de brio nacional. Como disse antes: uma festa. O jogo não me interessa muito. Mas estou extremamente curiosa para ver o que se vai passar no estádio.


autonomia

Esta semana lembrei-me do poço ao fundo do quintal da minha avó, aonde se ia buscar água várias vezes por dia. Tinha uma tampa de madeira que se levantava com facilidade para fazer descer o balde suspenso numa roldana presa a um arco de ferro sobre a abertura. Lembro-me bem dos dois medos enormes que tinha: o de cair lá dentro, ou o de não segurar a corrente que prendia o balde e ela cair atrás dele, deixando-nos para sempre sem acesso àquela água. Não sei como é que a minha avó e os meus pais fizeram, mas nunca nenhum de nós os cinco caiu ao poço, ou deixou cair a corrente. Apesar de nos deixarem andar pelo terreiro, à solta, o tempo que nos apetecesse.

Também me lembrei da minha determinação a pegar na mão do meu irmão no primeiro dia em que fomos a pé para o infantário: "anda, nós vamos conseguir!" Ele teria quatro anos e meio, e eu estaria a dois ou três meses de fazer três anos. Já tinha largado as fraldas, mas ainda me distraía volta e meia. O caminho para o infantário tinha mais de um quilómetro, havia várias ruas para atravessar, e uma delas era a rodovia com 4 faixas de rodagem. Nessa discutíamos sempre muito, porque eu me recusava a atravessar se visse algum carro, por muito longe que ele viesse.

Foi a propósito do "bebé Noah" que pensei em tudo isso, e particularmente na idade desses dois miúdos que iam sozinhos para o infantário - eu era apenas uns meses mais velha do que ele é.

Também tenho pensado num diálogo que ouvi entre mãe e filho: - Mãe, posso subir a esta árvore? - Se te parece que consegues, podes.

Criar filhos não é protegê-los permanentemente contra todos os riscos do mundo. É ajudá-los a ganhar uma autonomia bem ancorada na consciência de si próprios, das suas possibilidades e das suas responsabilidades.


22 junho 2021

bolo de chocolate


 

A pedido de várias famílias, aqui deixo a receita do bolo de chocolate que está prestes a ir a tribunal, acusado de terrorismo contra o IMC médio da população. Ele invoca circunstâncias atenuantes ("bom antídoto contra o covid-blues", "excelente para kuchisabishii", "alegria das crianças"). A ver vamos o que decide o tribunal, mas já dei com o bolo a fazer olhinhos aos membros do júri... Para a base:
350 g de bolachas digestivas ou Maria (eu uso Leibniz de chocolate)
100 g de margarina (eu uso manteiga, e um pouco mais que 100 g)
Derreter a margarina no microondas e misturar com as bolachas grosseiramente trituradas.
Amassar bem e forrar a base duma forma de fundo falso.
Levar ao congelador por 30 minutos.
Para o recheio:
400 g de queijo creme
300 g de chocolate em barra
220 g de açúcar em pó
2,5 dl de natas
5 colheres (sopa) de licor de ginja (não uso, por causa das crianças)
1 colher (sopa) de cacau em pó (ponho bastante mais, mas a olho)
Derreter o chocolate no microondas, deixar arrefecer ligeiramente e depois envolver o licor de ginja e o cacau.
Bater as natas até formarem um género de picos moles e misturar com o chocolate.
Bater o queijo-creme, juntar o açúcar em pó aos poucos, até a mistura ganhar volume.
Envolver no preparado de chocolate, deitar sobre a base de bolacha e levar ao congelador durante uma hora.
Passar depois para o frigorífico, e aguardar mais 1 hora antes de comer. (Receita de Maria do Carmo Carola, partilhada no facebook)


Por azelhice minha (provavelmente) quando corto uma fatia a base esfarela um pouco. Ora, na natureza nada se perde: pego nessas migalhas e deito em cima da fatia, como se vê na imagem. Fica ainda melhor.


21 junho 2021

donos da fé dos outros


A notícia sobre a proposta de recusar o sacramento da comunhão a políticos que se recusem a impor à sociedade, em forma de lei, certos ensinamentos da Igreja Católica (pode ser lido aqui) encheu-me de perplexidade e asco. Nunca esperaria que no século XXI os bispos católicos norte-americanos debatessem a possibilidade de castigar o detentor de um alto cargo político pelo facto de a sua política defender algo que vai contra a doutrina da Igreja (como os direitos dos LGBT+ ou o direito ao aborto).
(Tanto mais que, curiosamente, se esqueceram de outras políticas que também atentam contra a mesma doutrina, tais como a pena de morte ou a indiferença do Estado perante os pobres. Mas, mesmo que tivessem pensado em todos os casos: seria igualmente inadmissível.) 

Sinto-me chocada com a crueldade de punir de forma tão dolorosamente pessoal os católicos que se recusarem a abusar do seu poder político para impor ao país os seus valores religiosos. De facto, a decisão de os punir pessoalmente, recusando-lhes o sacramento da comunhão, é uma tentativa de transformar os políticos católicos em reféns da ortodoxia da Igreja Católica.
Pensarão esses bispos que podem aproveitar o facto de o presidente dos EUA ser católico para instalar uma espécie de sharia cristã na sociedade? É inadmissível. 

É certo que houve bispos que votaram contra esta proposta, há padres que garantem que não recusarão a comunhão ao presidente dos EUA, e a proposta foi firmemente criticada pelo Vaticano. 
Mas o que me surpreende - e, mais do que isso, assusta e provoca um profundo sentimento de rejeição em relação àqueles bispos e à Igreja que os pariu (desculpem, mas é mesmo o termo) - é que lhes tenha sequer ocorrido que isto era uma possibilidade.

Decididamente: a Igreja deles não é a minha. Em primeiro lugar, porque estão a usar o seu poder religioso para atacar valores democráticos fundamentais - esta gente é perigosa para o Estado Democrático. Além disso, também atacam o ideal cristão de comunhão.

É importante ter presente que ninguém é dono de Jesus Cristo ("noli me tangere"), e que a hierarquia da Igreja é muito mais serviço que poder. Estes bispos estão a fazer a figura do porteiro que, sem o saber, tenta barrar o caminho a um  grande amigo do patrão. 

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Alguns dirão: "ah, mas se recusassem a comunhão ao Hitler já achavas bem, não é?"
É. Se recusassem a comunhão a um "anticristo", achava bem. Mas um político que respeita o princípio da separação entre a sua própria religião e o Estado/país que serve não é um anticristo. 


21 de junho


Primeiro dia do Verão, e sinto-me numa montanha russa: a partir de hoje os dias começam a ficar mais curtos. Aaaai, lá vamos nós outra vez em direcção ao inverno! (ai, estas pessoas que arranjam sempre motivo para se queixar...)



19 junho 2021

alegria matinal nas rosas

 








Tem feito imenso calor em Berlim, de modo que vou regar o jardim todos os dias de madrugada. Na parte da horta e do morangal, é de certo modo como fazer ski: uma pessoa concentra-se inteiramente naquilo que está a fazer - o que liberta a cabeça. 

No roseiral, é uma festa: pelas cores, pelos perfumes, pela alegria das abelhas.  

(Escrevo estas coisas - "horta", "morangal", "roseiral" - para vocês pensarem que tenho um pequeno latifúndio. Nada disso. O que tenho é uma taxa de ocupação demográfica vegetal de fazer inveja à Holanda.)


17 junho 2021

prioridades

 




Esta manhã, bem cedinho, fui ao Aldi em busca de uma tábua de cozinha toda xpto para uma amiga. 
Aproveitei para ir visitar os cisnes que nasceram há pouco no lago, mas não estavam por lá. 

Não importa - foi bonito na mesma. Com caminhos para o supermercado como são os do meu bairro, é um milagre não ser muito mais consumista. 



Quando cheguei ao Aldi, a tábua de cozinha já estava esgotada. Devia ter ido às sete da manhã, talvez até um pouco mais cedo. Triste vida. 

Voltei para casa. Preparei um bolo para uma miúda que faz amanhã quatro anos, mais um pudim para a mãe dela, que faz anos depois de amanhã, mais dois pés das capuchinha que tenho estado a fazer germinar e crescer, para dar à pequenita e ao irmão, e pus-me a caminho. Os dois apareceram à porta com os olhos muito brilhantes, muito felizes. Há duas semanas que falam cheios de expectativa do bolo que lhes vou dar. 

Tudo começou nas férias de inverno deste ano: cheia de admiração pelo esforço inaudito que o maestro do meu coro faz para nos manter animados nos ensaios por zoom, decidi fazer para ele o que é de momento o meu bolo de chocolate favorito, com gordura até dizer chega, e fui-lho levar. Estavam a sair para férias, de modo que só depois de instalados num chalet nos confins de uma floresta nevada é que se sentaram a saborear. O bolo já é muito bom - mas provado pela primeira vez num início das férias na neve, depois de uma viagem de várias horas, torna-se realmente especial. E assim nasceu uma tradição cá nossa: quando faço um bolo para mim faço também para eles. Adoram a surpresa - e os miúdos começaram a sonhar com o bolo de chocolate para o seu dia de aniversário. Que eu prometi fazer, como é óbvio: é uma maneira muito fácil de os fazer sentir importantes e únicos. 

No caminho de regresso parei no Aldi do bairro deles para tentar o milagre de encontrar a bendita tábua. Uma empregada muito simpática descobriu onde estava a última que ainda existia na loja. Voltei para casa de coração cheio: alimenta-se da alegria dos outros. 

Tenho duas declarações de impostos, uma tradução e uns mails importantes para fazer, e não fiz nada.
Mas enchi o meu dia de beleza e de sorrisos.

Na vida, há que saber definir prioridades. 


15 junho 2021

a humanidade no seu melhor

 


Ouçam isto. 

Descobri-o esta manhã no "não mudes nunca" (*) e senti-me tocada pela alegria, pelo amor e pela compaixão pelo mundo que habita esta canção.
Um exemplo comovedor e terno da humanidade no seu melhor. 

Se me pedissem uma banda sonora para a pandemia que se abateu sobre nós em 2020: era esta. 

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(*) O "não mudes nunca" é um dos mais excelentes blogues que ainda vivem entre nós (podem ir à confiança) (devolvo o preço a quem não gostar) (mas se calhar depois a nossa amizade nunca mais será a mesma ;) )


14 junho 2021

o fim do túnel



Hoje estou a sentir-me muito sexy...
 


(segunda da AstraZeneca - já posso ir fazer férias a Portugal com documento digital, e nunca mais me escarafuncham pelo nariz adentro praticamente até aos meus pensamentos mais esconsos)


08 junho 2021

o meu coro a ver a luz ao fundo da travessia do deserto

 


Por causa deste vírus que se transmite por aerossóis, cantar em grupo é uma actividade de altíssimo risco e os coros foram proibidos de ter ensaios presenciais. Muitos coros perderam o hábito de si próprios logo na primeira vaga da covid-19. O nosso continuou a preparar a Misatango de Palmeri em sessões zoom. No verão de 2020 aligeiraram as regras: permitiram ensaios ao ar livre, com as pessoas a cantar a 2 m de distância umas das outras. O meu coro encontrou-se na esplanada do espaço cultural onde costuma ensaiar, para cantar conviver - com as pessoas sentadas longe umas das outras. A presidente da associação pagou os comes e bebes de todos porque, como ela disse, por causa da pandemia não pôde fazer a viagem que tinha previsto para as férias, e tinha todo o gosto em pagar essa festinha com o dinheiro que lhe ficara a sobrar.

Os ensaios ao ar livre prolongaram-se até finais de Outubro. Nós a cantar no escuro com lanternas presas às folhas da pauta ou na testa, nós a cantar à chuva, nós a cantar cheios de frio. Ainda tivemos um encontro de fim-de-semana para interpretar em conjunto a Misatango (com testes, com imensa distância entre todos, com excelente ventilação), mas logo a seguir o país entrou de novo em lockdown, e nós voltámos ao zoom.

Até à semana passada. O primeiro ensaio ao vivo desde há sete meses foi na terça-feira, e parecia aqueles reencontros com bons amigos que não se vêem há eternidades mas com quem a conversa brota imediatamente com toda a naturalidade. Eu, desabituada de falar e cantar (é que já nem sequer no duche!), redescobri a minha voz. Comentei essas descobertas com a cantora ao meu lado, que disse ter ouvido alguém afirmar na rádio que quando a pandemia passar vamos regressar rapidamente à normalidade e esquecer os tempos difíceis. Desde terça-feira da semana passada que estou capaz de acreditar que sim.

O nosso maestro é que nem por isso: depois de tantos meses a dirigir um coro sem o ouvir, estava - como comentou depois - com problemas de sinapses.

No fim-de-semana passado tivemos novo encontro para cantar e conviver. Reservámos a Haus am Waldsee - que tem um café, espaço de exposições e um relvado em declive até um lago, cheio de esculturas impressionantes - para cantar e conversar no jardim.

Já era normal os ensaios deste coro decorrerem recheados de sorrisos e sinais de bom entendimento, com animadas conversas nos intervalos. O que é novo é que agora comecei a dar-me conta disso, e do enorme valor do que tínhamos e estamos a recuperar. E reparo muito mais nas expressões faciais. Só não sei dizer se não reparava antes, ou se todos nós ficámos muito mais expressivos depois de tantos meses em isolamento e a comunicar com o rosto tapado por uma máscara.

Em todo o caso: venha o futuro! Tinha muitas saudades dele.

--- O futuro do nosso coro já tem roteiro: o nosso projecto para Outubro de 2022 chama-se "Fiesta Requiem - um abraço". Quem puder estar em Berlim nessa altura, marque no calendário e arranje de reservar os bilhetes. (Quem avisa, amiga é.)

--- Deixo algumas imagens dos jardins da Haus am Waldsee:





E das casas do outro lado do lago: