22 agosto 2019

Museu Salazar


 (fonte)


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A propósito do debate sobre a criação de um Museu Salazar em Santa Comba Dão tenho pensado numa frase que se ouvia muito na Alemanha de Hitler a vítimas de algozes nazis de baixa patente: "Se o Führer soubesse o que eles me fizeram, ai!, recebiam um castigo exemplar!"

Penso também num comentário do meu filho, há uns anos:  "Então o vosso ditador morreu em 1970, mas a ditadura continuou mais quatro anos?! Que incompetência!"

Em Portugal, curiosamente, consegue-se separar Salazar da sua ditadura.
Muitos portugueses acreditam que Salazar era boa pessoa e um grande estadista, e o regime é que era mau (ou: "enfim... o regime tinha lá as suas coisas..."). Esta incapacidade generalizada de associar o ditador à ditadura, e também - em menor escala - a incapacidade de tantos de ter uma posição clara de rejeição do fascismo português, revela-se em muitas das posições que tenho lido a favor da criação de um Museu Salazar: "que foi um grande Homem", dizem uns, com maiúscula e tudo, "que se eles têm direito aos seus museus da resistência antifascista, nós também temos direito ao nosso Museu Salazar", acrescentam outros, "que não se pode ignorar a História", rematam.

De que falarão eles quando dizem "História"?
A nível internacional há consenso sobre Salazar (era o ditador à frente do fascismo português), mas em Portugal muitas pessoas permanecem numa relação subjectiva, emocional e pouco informada sobre o ditador. Muitos continuam convencidos que foi o melhor estadista de Portugal e deram-lhe o primeiro lugar no concurso "Os Grandes Portugueses" (com 41% dos votos, à frente de, por exemplo, D. Afonso Henriques e Vasco da Gama!).
Aparentemente, quase meio século depois da morte do ditador, muitos portugueses continuam a ignorar a História.

A Câmara de Santa Comba Dão quer agora fazer um Museu Salazar (ao qual chama habilmente "Centro Interpretativo do Estado Novo"). Afirma que "de modo algum se pretende contribuir para a sacramentalização ou diabolização da figura do estadista. Pretende-se, apenas e só, fazer um levantamento científico e histórico de um regime político, enquanto acontecimento factual". 

Acontece que o concelho se identifica muito com o seu lugar de berço do "grande estadista" e retira ganhos materiais e simbólicos do apego à imagem adocicada de um Salazar-paizinho-da-pátria, humilde e austero. Ou seja, e para usar a expressão do comunicado camarário, no concelho pratica-se abertamente a "sacralização" do ditador, como mostram as referências ao "ilustre filho da terra", a exibição junto à sua campa de lápides elogiosas e branqueadoras (excelente cenário para homenagens com fins mediáticos de promoção da extrema-direita - vejam-se as fotos no fim do post), o nome dele na avenida onde querem instalar o museu, e a  publicidade de produtos da região que jogam com as emoções positivas que muitos associam a Salazar.

Perante tal situação, a proposta da Câmara de "apenas e só, fazer um levantamento científico e histórico de um regime político, enquanto acontecimento factual" exige a coragem de destruir o mito para analisar o personagem histórico, correndo o sério risco de escandalizar muitos dos locais e de perder o turismo saudosista de uns e de oportunismo político de outros.

No entanto, aquele "apenas e só" que precede a declaração de intenções mostra que a Câmara não se deu conta do alcance do desafio - e pergunto-me em que termos terão decorrido as conversações com o grupo de universitários escolhidos para assessorar o projecto. Além disso, o facto de o comunicado nomear em primeiro lugar António Rochette (Geografia e Turismo) e só depois os historiadores Paulo Avelãs Nunes e Reis Torgal não augura nada de bom sobre as motivações da Câmara e a sua consciencialização sobre os riscos do projecto. 

Pelo que, antes de mais, o país deve exigir a esta Câmara uma definição muito clara da sua posição: quer criar um museu para atrair turismo, explorando a incapacidade dos portugueses de ligar o ditador à sua ditadura? Ou quer criar um centro museológico que una finalmente o ditador à ditadura, pondo a nu o papel centralíssimo de Salazar no seu regime fascista - mesmo que essa decisão ofenda os sentimentos da população local e cerceie os rendimentos resultantes do actual turismo saudosista e de extrema-direita? Quer ganhar dinheiro com barraquinhas de souvenirs do ditador? Ou quer fazer um centro museológico sério que, em nome da coerência, obrigará a autarquia a mudar o nome da rua (sugiro: Avenida das Vítimas do Estado Novo) e a tirar as lápides branqueadoras do cemitério?

Enquanto a autarquia não tiver a coragem de se pronunciar sobre esta questão, tudo o resto que diga sobre o tema não será nem sério nem credível. E nós - o país que acredita na Democracia e nos valores básicos associados à defesa da dignidade humana - temos o dever de permanecer vigilantes e impedir que se instale em Santa Comba Dão um centro de branqueamento e romaria do fascismo português.




20 agosto 2019

já a greve da Ryan Air...

Será que o governo tinha mesmo de impor serviços mínimos na greve da Ryan Air?
Será que neste caso os cidadãos são apenas vítimas, e merecem ser protegidos?
Penso que não. No caso das empresas low cost, os cidadãos partilham com o empregador a responsabilidade de uma prática laboral iníqua. Quem compra um bilhete de avião 8,99 (ou 30, ou 50) euros não tem como ignorar que esse preço é uma aberração.

Da última vez que na Alemanha se falou das condições de trabalho das tripulações da Ryan Air, os jornais revelaram que os cursos de formação - 3000 euros - eram pagos pelos formandos, que o salário bruto começava nos 900 euros, que só recebiam por horas de voo (quer dizer: as horas em terra não são pagas, e se houver um atraso essas horas de presença "sem trabalho" também não são pagas), que os assistentes podem ser castigados se as vendas de comida e raspadinhas a bordo não forem satisfatórias, que a empresa muda a seu bel-prazer a base das pessoas (ou seja, o aeroporto onde começam e terminam o trabalho diário).

Em suma: as condições laborais na Ryan Air pararam algures no século XIX. Mas nós congratulamo-nos por conseguirmos a pechincha de viagens de avião a 8,99 euros - e chegamos a planear viagens apenas por causa do preço baixíssimo. Ao mesmo tempo que concordamos que estas condições laborais são inaceitáveis.
(É isto, e o aquecimento climático, sobre o qual também pensamos uma coisa e fazemos outra...)  

Quem viaja com companhias low cost sabe que aqueles preços "milagrosos" são conseguidos à custa da exploração dos trabalhadores, e por isso não tem autoridade moral para se queixar em caso de voos cancelados por uma greve. Não há como exigir serviços mínimos neste caso. Por esse andar, já só falta mesmo exigir serviços mínimos nas empresas estrangeiras que praticam salários de fome e exploram trabalho infantil, para não pôr em risco o nosso direito a comprar t-shirts a dois e três euros...

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Mas continuo a acreditar que uma greve de zelo - melhor ainda: um conjunto coordenado de actividades de zelo excessivo a que não se desse o nome de greve (sim, eu sei que é ilegal mas não me chateiem: ando há dois dias a pedir que repensem o enquadramento legal das greves!) - que atrasasse todos os aviões em mais de três horas era capaz de ter melhores resultados.

17 agosto 2019

a seriedade e o prestígio da greve

Ultimamente tenho pensado muito numa história que ouvi a um antigo prisioneiro de Robben Island. Fora levado para a ilha já numa fase final do apartheid, e participou nas últimas greves da fome que alguns prisioneiros jovens fizeram nessa época, para exigir a melhoria das condições de vida na prisão. Se bem me lembro, exigiam água quente no duche e outros confortos semelhantes. Os prisioneiros mais antigos discordavam dessas iniciativas, e criticavam-nos imenso por estarem a desprestigiar algo tão sério como uma greve da fome por motivos que lhes pareciam ridículos. Os mais velhos - que tinham lutado para ter água doce em vez de água do mar nos duches, para ter uma cama em vez da esteira de sisal no chão, para acabar com a lista de alimentos e calorias do menu prisional conforme a cor da pele - afirmavam que a greve é a última medida à qual se deve recorrer, e apenas por motivos realmente fortes. Caso contrário, diziam, retira-se seriedade e prestígio a esse instrumento de luta. 

Há cerca de quarenta anos, em Robben Island, debatia-se a essência e a função da greve. Em Portugal, pelo contrário, aceitámos há décadas a realização de greves por motivos abertamente políticos, muito além dos laborais, como sendo um facto normal e indiscutível da vida democrática. Prova recente disso é o argumento que mais vezes li nas redes sociais na semana passada: "quando a greve é contra um governo de Direita não dizem nada, mas quando é contra um governo de Esquerda..." 

Esta prática, que já é questionável na medida em que ameaça o princípio democrático da governação escolhida por sufrágio universal, torna-se ainda mais arriscada perante os dois fenómenos a que temos assistido nos últimos anos e não podemos ignorar: o surgimento de sindicatos independentes de contornos pouco claros, e a ameaça real de desestabilização da política europeia por parte da Rússia e de movimentos internacionais de extrema-direita como o de Bannon (veja-se a análise de Boaventura Sousa Santos). Chegados a este ponto, temos obrigação de reconhecer o enorme potencial de uma greve para atingir e destruir o funcionamento democrático de um país, e temos de saber agir em conformidade.

De que falamos quando falamos de greve, e quando defendemos o direito inalienável à greve, independentemente dos seus motivos? Referimo-nos apenas à justa luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho e de salários, ou entendemos que, mesmo numa Democracia, esse direito laboral deve poder ser usado para jogadas políticas? Não vemos qualquer problema no poder de um pequeno grupo de trabalhadores para se sobrepor à vontade do povo expressa nas urnas eleitorais? Defendemos também que numa greve vale tudo, inclusivamente dificultar gravemente a vida aos cidadãos, usando-os como reféns e peça-chave da estratégia para atacar o governo? Queremos fechar deliberadamente os olhos à eventualidade de um pequeno grupo de trabalhadores com o poder de paralisar um país ser manipulado por obscuros interesses internacionais com o objectivo de influenciar o processo eleitoral ou a governação? 

Eu, não.

Começando pelos motivos: há greves que não suscitam a menor dúvida quanto à justeza das reivindicações - como foi por exemplo a greve das tripulações da Ryan Air, em plena época do Natal, sem que alguém se lembrasse de lhe atribuir objectivos de ordem política. Essas greves merecem a nossa defesa incondicional.
Já no caso actual da greve dos condutores de matérias perigosas, alguma coisa correu muito mal: uma greve para obter um nível de remunerações mais que justificado, como parece ser esta, foi imediatamente entendida por muitos como uma tentativa de desestabilização política ("...quando a greve é contra um governo de Esquerda..."). Só um sindicato inacreditavelmente incompetente conseguiria deixar uma luta laboral tão justificada descarrilar para este ponto de descrédito. Não sei o suficiente sobre o conflito e o modo como o sindicato o conduziu (alguém sabe?) para poder fazer afirmações sobre a existência ou não de um objectivo político de desestabilização. Mas o simples facto de se falar abertamente dessa hipótese confere a esta greve uma qualidade - ou pelo menos uma potencialidade - que impede a defesa cega do direito à greve como se fosse uma questão simples de Direito do Trabalho.

Uma segunda questão prende-se com os meios usados. Limitando a análise às greves por motivos exclusivamente laborais, pergunto quando é que o alvo deste instrumento de pressão nos conflitos do trabalho se deslocou do empregador para os cidadãos, e por que motivos se considerou esta alteração aceitável. Tanto mais que se cria uma distorção grave entre os trabalhadores dos diferentes sectores, dado que o poder de negociação varia conforme o grau de sensibilidade do respectivo sector económico, e surgem tensões entre a sociedade em geral e os grevistas, tensões essas que a longo prazo não servem a causa dos direitos laborais.

Tenho a certeza que é possível fazer greves eficazes que atinjam o empregador em vez dos cidadãos, ou, melhor ainda, que transformem o prejuízo do empregador em ganho para os cidadãos. Algumas sugestões, sem pensar muito:
- as greves das companhias aéreas não têm de ser feitas na época de Natal: se as tripulações adoptarem comportamentos de zelo - obsessivo e excessivo, mas de algum modo justificável - que na sua soma provoquem atrasos de mais de 3 horas, a empresa vê-se obrigada a pagar centenas de euros a cada um dos passageiros, bem como a uma onerosa sobrecarga logística para dar resposta a inúmeros problemas sem importância;
- as greves dos transportes públicos podem ser feitas sem interromper os serviços, mas simplesmente deixando de cobrar o pagamento da viagem (e avisando sobre a greve com antecedência, para as pessoas planearem a compra dos passes mensais);
- as greves dos condutores de camiões podiam jogar-se ao nível da facturação: entregar a mercadoria mas criar mecanismos que impeçam a respectiva facturação até à resolução do conflito laboral.      

Em certos sectores será mais difícil encontrar soluções de greve que atinjam directamente os interesses do empregador em vez dos interesses dos cidadãos. Mas já seria uma grande conquista se houvesse ao menos vontade de repensar os alvos preferenciais, bem como de questionar criticamente os processos de negociação e os motivos últimos do recurso a este instrumento de luta.

Os mais antigos prisioneiros políticos de Robben Island, que passaram décadas naquela prisão, sentiam ser seu dever lutar contra o abuso da greve, para lhe proteger a seriedade e o prestígio. Deixaram um exemplo que nos obriga a questionar o uso, os objectivos e as consequências das greves que se realizam no nosso tempo.


16 agosto 2019

duas estrelas

Ontem fomos jantar ao Anabela's Kitchen (é a segunda vez em menos de uma semana que falo deste restaurante - se isto não é amor, não sei o que será amor) e ao fim de duas garfadas dos pratos de entrada e de meia dúzia de "aaah" e "ooooh" já estávamos na conversa do costume: porque é que este restaurante ainda não tem uma estrela Michelin? Inspirado pelo primeiro vinho da noite, o Joachim lembrou-se de criarmos a nossa própria estrela para a atribuirmos nos casos flagrantes de a Michelin andar a dormir, e foi isso mesmo que dissemos à Anabela quando nos fez uma visitinha rápida. Ela riu-se, disse "tenho duas na cozinha", e desapareceu.

Só quase no fim do jantar é que ficámos a saber toda a verdade: durante este mês de Agosto, quem está na cozinha do Anabela's Kitchen é o chef Daniel Achilles, que durante dez anos teve o restaurante berlinense Reinstoff com duas estrelas Michelin. Brincalhões ambos, ele chama "a minha chefe" à Anabela e ela riposta com "o meu aprendiz". 

Portanto, aqui deixo um desafio aos amigos em Berlim: façam de conta que é Natal, e vão lá nos próximos dias. Mas tenham o cuidado de reservar mesa, que o espaço é pequenino, não cabem todas as paletes de interessados.

(Ah, já me esquecia: é um bocado $$, mas vale cada ¢)

15 agosto 2019

onde iríamos parar?

Onde iríamos parar
se todos dissessem
onde iríamos parar
e ninguém partisse
para ao menos ir ver
onde iríamos parar
se partíssemos.


Wo kämen wir hin 
wenn alle sagten 
wo kämen wir hin 
und niemand ginge 
um einmal zu schauen 
wohin man käme 
wenn man ginge.


Kurti Marti, o pastor evangélico e escritor suíço que escreveu este poema, já morreu há dois anos. Uma das coisas piores quando alguém morre é ficarmos para sempre sem resposta a algumas das nossas perguntas. Como esta dúvida existencial minha: porque é que ele não terminou este poema com um ponto de interrogação?



a culpa é dos meus filhos

Ontem à noite, no metro de regresso a casa, vi um homem que ia de pessoa em pessoa dizendo uma lengalenga para pedir dinheiro. Uns responderam-lhe em inglês (eram alemães), outros fizeram de conta que não estavam ali, e às tantas chegou a minha vez. Sentou-se à minha frente, chegou-se tão perto que lhe sentia o bafo do álcool e o vazio dos olhos, e começou:

- Hoje faço 51 anos. É o meu aniversário, 51 anos. Percebes? Hoje faço 51 anos.
(e eu para os meus botões: dou-lhe os parabéns, ou faço de conta?)
(e a voz decepcionada dos meus filhos a ecoar dentro de mim: ó mãe!...)

Ele continuou:
- Então, como faço anos, será que tens cinquenta cêntimos para me dar?
(e os meus botões para mim: claro que tens, que é que te custa dar cinquenta cêntimos ao homem? mesmo que o vá gastar em cerveja, tu sabes bem como é quando queres comer chocolate e não há nenhum em casa, se tens direito às tuas dependências ele também tem direito às dele)
(e a imagem da minha filha que nunca tem dinheiro, mas anda sempre com moedas no bolso para dar a quem pede)

- São só cinquenta cêntimos, hoje faço 51 anos...
(quantas vezes terá dito ele isto hoje? quantas vezes terá falado para pessoas que fazem de conta que não estão ali? como será repetir uma lengalenga uma e outra e outra vez perante pessoas que te ignoram ostensivamente?)
(havia um punk no Ku'damm, a pedir junto a um semáforo, que sorria sempre - recebia dezenas de negas por minuto, e sorria sempre a todos, sempre muito simpático - isto já é muito mais que instinto de preservação, isto já exige um esforço sobre-humano, como é que ele aguenta?)

Levantei-me, porque precisava de distância daqueles olhos vazios, daquele bafo, daquela insistência. Estava a chegar à minha estação Comecei a procurar o porta-moedas. Ele reparou na intenção, e atirou com entusiasmo:
- Também pode ser um euro!

A primeira moeda que me veio aos dedos era um euro. Dei-lha. Levantou-se feliz, chegou mais perto, e perguntou:
- Posso dar-te um beijo?

- Oh, nãããããoooooooo!, ri-me eu, e saltei para a plataforma.

A caminho de casa ocorreu-me que bem lhe podia ter dado os parabéns com a moeda - mas já era tarde, claro. Pode ser que o encontre de novo um dia destes - e se ainda for o seu dia de aniversário, corrigirei a minha falha.

(é bem verdade que os filhos dão muito trabalho - pelo menos os meus: com aquelas suas manias de tratar todas as pessoas como se fossem seres humanos, com os raixparta dos exemplos que me dão, desinstalam-me e obrigam-me a rever os meus automatismos)

14 agosto 2019

será que alguém me pode explicar algumas coisas sobre a famosa greve?

Só mesmo a minha insularidade (ou talvez a bolha em que me movo) poderá explicar as minhas perplexidades perante a greve dos motoristas de camiões de matérias perigosas. Por favor, expliquem-me como se eu fosse uma estrangeirada de cinquenta anos:

1. É mesmo verdade que as pessoas que conduzem autênticas bombas pelas nossas estradas e pelo meio das nossas cidades têm um salário de base de 600 euros por mês?

2. É mesmo verdade que se aceita como prática normal que as pessoas que conduzem autênticas bombas nas nossas estradas e pelo meio das nossas cidades  trabalhem entre 15 e 18 horas por dia?

3. Como é que se contam as horas extraordinárias? Como é que se chega a um período de 15 a 18 horas de trabalho diário que parece ser normal na profissão? Também são contadas as horas em que um condutor dorme num hotel, ou na cabine do camião? E as horas em que fica parado junto à auto-estrada a fazer horas até poder conduzir de novo? Quantas horas diárias é que, no total, um condutor pode conduzir realmente o seu veículo? Como é que se assegura que tem condições para descansar e se restabelecer, de modo a continuar a conduzir com segurança?

4. Porque é que as empresas não contratam mais condutores e não pagam um salário de base decente a cada um deles? O que impede estes motoristas de trabalharem apenas 8 horas por dia?

5. Será que estas condições de trabalho são impostas para conter os custos da distribuição? Se for esse o caso, parece-me que a preocupação está a ficar ultrapassada: a tendência futura será aumentar o preço dos combustíveis até eles reflectirem realmente todos os custos explícitos e implícitos - em particular os ligados à destruição ambiental - de modo a obrigar todos os agentes do sistema a inflectir as lógicas de produção, de transporte, e de mobilidade individual e nos processos de produção.

6. Qual é a margem de manobra de um governo perante um conflito destes entre patrões e assalariados?
- Deve o governo impor aos patrões tarifas e regras que constituam melhor garantia da segurança pública? (Ui, já estou a imaginar o coro de "PS = Estalinistas!" que se ia ouvir...)
- Ou deve simplesmente impor o cumprimento das regras existentes? Se bem entendi, neste momento já todos os motoristas esgotaram as horas extraordinárias que podiam fazer em 2019, pelo que seria de esperar que de agora até ao fim deste ano os transportes não sejam suficientes, uma vez que os condutores já só podem trabalhar 8 horas por dia.
- Se o governo não se tivesse metido no assunto, deixasse que o combustível pura e simplesmente esgotasse nos postos de abastecimento e deixasse o país à espera que patrões e assalariados se entendessem, não seria também acusado de incumprimento dos seus deveres perante o povo português?
(Perante as críticas ao governo que têm surgido de todos os lados, só me ocorre a história "O Velho, o Rapaz e o Burro". Todos têm razões, todos se sentem com razão - mas gostava muito de saber o que faria cada um deles se estivesse no lugar do António Costa, e como estaria preparado para se responsabilizar pelas consequências da sua decisão.)

7. Porque é que os jornalistas não nos explicam estas coisas essenciais, e nos gastam o tempo e a paciência com ruído alarmista que só serve para criar e alimentar polémicas e discórdias?


13 agosto 2019

maldita polivalência!

Esta maldita polivalência já vem de longe. Por exemplo, há várias décadas, quando dançava num grupo de folclore que tinha poucos homens, aprendia sempre a parte das mulheres e a dos homens, para poder desenrascar caso fizesse falta completar um par durante os ensaios.

Há dias atacou de novo: o meu coro anda desesperado à procura de vozes masculinas, e a esta cabecinha genial ocorreu que se sente extremamente à vontade nos tons mais graves, pelo que talvez pudesse dar uma mãozinha - enfim, uma cordazinha vocal, no caso - aos rapazes. Teste feito, e sim senhora: temos tenor. Tenora?

Logo eu, que normalmente canto no primeiro contralto porque chego facilmente às notas mais agudas. "Facilmente", quer dizer: nos dias em que me sinto feliz.

O maestro mandou-me ontem uma mensagem a dizer "bem-vinda aos tenores!"
Não direi que fiquei com o coração despedaçado, mas abriu uma racha funda: adeus ao meu rico grupinho de contraltos. Adeus à maravilha de cantar ao lado da Christina, e senti-la a pôr a alma inteira em cada nota que canta. Por estes dias, escusam de me pedir para cantar agudos.  

Maldita generosidade. Maldita mania de resolver problemas que nem sequer são meus. Maldita polivalência!

Humpf.


PS. Simpáticos cavalheiros que vivam em Berlim, cantem bem e tenham desde sempre sonhado cantar num coro impecável: apareçam! O maestro é extraordinário (estou a falar a sério, mesmo), a professora de voz também, e se nenhum destes argumentos for suficiente, aqui deixo o non plus ultra: uma das cantoras traz sempre gomas para comermos no intervalo.


adenda à tal entrevista (eu bem dizia que a rtp ia ser obrigada a meter paletes de autocarros de futebolistas até eu terminar isto como deve ser)

Partilho e amplio aqui a resposta ao leitor que no meu post anterior perguntava:

Os alemães da ex-RDA (e descendentes) estão totalmente integrados, ou ainda se sentem desníveis? Em Portugal passou-se o mesmo com os portugueses regressados das ex-colónias - hoje, integradíssimos.

Para os que ficaram na região da RDA há inúmeros desníveis ainda, e a tendência é para se agravarem em alguns casos:
- Os salários e os apoios sociais ainda não são iguais aos da antiga Alemanha Ocidental. Cheguei a assistir a casos de salários diferentes para trabalhos iguais numa empresa, conforme o contrato de trabalho fosse para um "ocidental" ou um "oriental". Em parte explicava-se isso pela necessidade de pagar mais para conseguir trazer para uma empresa/instituição da antiga RDA alguém com um bom emprego na parte ocidental, mas obviamente que tal situação provoca tensões e ressentimentos.
- A região está em processo de desertificação. Por exemplo: a área coberta por um médico especialista é cada vez maior, a paisagem está cheia de casas e fábricas abandonadas, muitas escolas fecham. A propósito: há tempos li a notícia de uma aldeia da antiga RDA que ficou muito contente por receber famílias de refugiados, porque as crianças recém-chegadas permitiram aumentar o número de alunos de modo a impedir que a escola da aldeia fosse fechada.
- Excepto em alguns centros, como Leipzig, há pouco emprego para os residentes. Muitos pais de família trabalham na parte ocidental, e voltam ao fim-de-semana para estar com os seus. Outro problema de que já se tem falado bastante é que as mulheres jovens têm mais facilidade em partir para outros lugares em busca de emprego, mas muitos homens jovens ficam na terra onde nasceram - sem trabalho e sem companheira, muitos deles desenvolvem uma fúria surda que acaba por conduzi-los a contextos de extrema-direita.
- Os que vão viver ou trabalhar na parte ocidental ainda sentem uma certa necessidade de disfarçar o seu dialecto e a sua origem.
- Há um fenómeno estranho entre alguns dos nascidos depois da reunificação: estão a tomar para si as dores dos pais e sentem-se "roubados" desse país que deixou de existir antes de eles terem nascido.

Uma outra questão importante: os cidadãos da RDA que participaram nos protestos que deram origem à queda do muro não queriam trocar o comunismo pelo capitalismo - o que exigiam, antes de mais, era democracia e liberdade. As coisas aconteceram demasiado depressa, e no espaço de menos de um ano deram consigo a viver segundo as regras de outro país, com sistemas de valores e económico bastante diferentes, e num contexto de certa dependência e subalternidade.
Um exemplo da velocidade a que a transformação ocorreu: um amigo nosso, de Frankfurt an der Oder, contou que quando o marco alemão passou a ser a moeda da RDA (1.7.1990), nesse fim-de-semana os bancos ficaram abertos para fazer a troca do dinheiro; na segunda-feira, quando entraram nas lojas, as pessoas encontraram as prateleiras cheias de produtos da RFA. Foi como se no dia 2 de Julho de 1990 tivessem acordado num país diferente. É isto que está por trás daquela cena do "Goodbye Lenine" em que o rapaz vai procurar um frasco de conservas com etiqueta da RDA no caixote do lixo.  

Diferenças em relação ao caso português:
- Na Alemanha, a vida na parte ocidental continuou sem grandes alterações, enquanto o mundo dos que viviam na parte oriental sofreu uma derrocada profunda. Um só país, mas realidades muitíssimo diferentes. Em Portugal, as pessoas foram obrigadas a partilhar os espaços e a vida quotidiana.
- A antiga RDA foi "invadida" por "Wessis" com dinheiro que ficaram com o melhor do que havia. O bairro de Prenzlauer Berg em Berlim ou as casas apalaçadas de Potsdam são disso bom exemplo: os "Wessis" expulsaram os "Ossis" das suas próprias casas, dos seus bairros e, no caso de Potsdam, até do acesso a certas partes das margens dos lagos.
- Em Portugal pode dizer-se que os brancos estão integradíssimos, mas muitos negros ainda sofrem quotidianamente o efeito do racismo, de um modo como não acontece entre os alemães (uma vez que a diferença Ossi/Wessi não passa pela cor da pele).

12 agosto 2019

histórias que vêm ter comigo

No fim de uma festa nos arredores de Berlim, uma senhora que me vira a chegar de táxi ofereceu-me boleia (depois admiram-se de eu andar na vida com esta cara alegre). Palavra puxa palavra, daí a nada estava a contar-me que tinha fugido da Polónia em 1985. Era a manager de um grupo de desporto que participava num campeonato no Ocidente. Pedira o passaporte para acompanhar o grupo, mas só lho davam se ela assinasse um papel a dizer que aceitava espiar os outros. Ela recusou-se.
- Mas porque não? - perguntei eu, e acrescentei: assinava, e tratava de fugir antes de começar a dar informações.
- Era o meu bom nome! Nem pensar em deixar lá um registo que o conspurcasse!
Encontrou um funcionário da Polícia que a troco de bom dinheiro lhe tirou o passaporte da gaveta onde estava retido, dando-lhe seis horas para sair do Bloco de Leste. Fugiu para Berlim Ocidental o mais depressa que pôde, sem levar quase nada para não levantar suspeitas, e sem saber quando voltaria a ver a mãe, os familiares, os amigos.
Teve sorte: a mãe foi para a reforma passado um ano, e sendo reformada não era tão importante para o Estado - pelo contrário. Foi-lhe possível ir visitar a filha todas as vezes que quis.

Esta história é boa, mas ainda está muito longe da da velhinha que no supermercado me pediu ajuda para encontrar um produto, e a seguir agradeceu a ajuda e comentou que tinha muita sorte na vida, porque encontrava sempre quem a ajudasse, por exemplo no fim da guerra tinha conseguido arranjar um oficial russo que a protegia de ser violada pelos outros. Era só por ele...

As histórias vêm ter comigo de tal maneira que se calhar ainda pergunto ao Brandon Stanton se não quer abrir uma filial dos Humans of New York aqui em Berlim. Mas tenho de me organizar melhor, porque muitas vezes me esqueço dos detalhes mais importantes. Por exemplo: há tempos jantei com a filha do fotógrafo alemão que acompanhou o Mário Soares quando ele criou o Partido Socialista, e depois quando regressou a Portugal. Diz que a casa do pai está cheia de fotos históricas dessa época. E aqui a artista esqueceu-se do nome da rapariga, do sítio onde a encontrou, e de quem estava com ela.

[Ou seja: as histórias vêm ter comigo, mas às vezes dão com a porta fechada e ninguém em casa.]



11 agosto 2019

a entrevista que passou, mais a revista, corrigida, aumentada e imaginada

Já passaram vários dias, e as redes sociais já deram trinta voltas. O problema é que a minha vida real também, e uma pessoa não dá vazão, de modo que venho com enorme atraso deixar o link para a entrevista da RTP (caso ainda alguém se recorde do que é que estou a falar) complementada pelo que disse e não passaram na entrevista, pelo que devia ter dito de outra forma, e ainda pelo que não disse mas bem podia ter dito.

A entrevista que passou pode ser vista aqui.

Quanto ao mais:

Vim para a Alemanha há quase trinta anos, três dias antes da queda do muro. Mas foi para o sul da Alemanha, de modo que assisti à História sentada num sofá em frente à televisão, como praticamente todos os outros portugueses. Ao meu lado, os pais do meu namorado assistiam também - de mãos dadas, e a chorar.

Há trinta anos, ainda no tempo da CEE e antes de o acordo de Schengen ter sido alargado a Portugal, mudar-se para a Alemanha não era nada fácil. De facto, sem ter um emprego já apalavrado era quase impossível. Para conseguir autorização de residência, dissemos que eu vinha para a Alemanha na qualidade de au pair da família do meu namorado. O que provocou grande risota nas instalações da Polícia de Estrangeiros, porque a funcionária que tratou do meu processo tinha andado na escola com o filho mais novo da família. 

A Alemanha para onde vim morar era um país muito conservador, com o seu quê de machista e xenófobo, e fechado sobre si próprio. À economista portuguesa que eu era, com bons conhecimentos sobre os programas europeus de apoio a investimentos em Portugal, disseram peremptoriamente que o trabalho que me propunha fazer na Alemanha era algo para homens alemães e não para mulheres portuguesas. Que eu poderia, quando muito, arranjar um emprego de secretária de línguas estrangeiras.

Ou ainda pior: encontrei um trabalho que era praticamente de telefonista numa empresa que tinha passado parte da sua produção para Portugal, e não tinha entre os quadros superiores (e mesmo inferiores) ninguém que se sentisse confortável a comunicar em inglês, pelo que precisavam de quem os ajudasse a entender-se com os novos colegas do outro lado da Europa. Depois de esperar algumas semanas para verificarem se não havia nenhum alemão desempregado que pudesse desempenhar essas tarefas (há trinta anos, as empresas alemãs só podiam contratar um estrangeiro se houvesse a certeza absoluta de que este não tirava o emprego a nenhum alemão), assinei o contrato e comecei a trabalhar. Foi um ano duríssimo. Por um lado, sentia-me extremamente subaproveitada: o meu último projecto em Portugal fora a preparação do dossier que levou a que os solares da região de Basto fossem também abrangidos pelo programa de recuperação de casas antigas para Turismo de Habitação; uns meses mais tarde, na Alemanha, pouco mais fazia que telefonar para a terrinha a perguntar, por exemplo, quando é que os aparelhos X iam ser enviados para a Hungria, e receber de resposta que estavam à espera que lhes dissessem que livros de instruções deviam meter na caixa porque ainda não havia sinais da tradução húngara, e já agora porque é que os colegas alemães não devolviam as correias que seguravam as paletes. Por outro lado, eu era a única portuguesa no meio de todos aqueles alemães ressentidos contra os meus compatriotas que lhes roubavam a produção e o trabalho. Havia uma espécie de guerra surda, e calhara-me a mim estar na linha entre as frentes.

Trinta anos mais tarde, a Alemanha é um país muito diferente daquele que encontrei. Deram-se passos importantes para a igualdade de género (processo no qual a reunificação terá tido algum peso, uma vez que a RDA estava bastante mais avançada nessa área), a sociedade deu-se finalmente conta de que os trabalhadores estrangeiros são pessoas e não meros factores de produção. Alguns dos filhos destes imigrantes conseguiram conquistar lugares de destaque nesta sociedade - por exemplo no desporto, na política, na cultura, na ciência e no jornalismo. Mais recentemente, a onda generalizada de boa vontade no acolhimento às pessoas que fugiram da guerra na Síria e noutros países da região revelou uma Alemanha aberta e generosa; a coexistência com pessoas dessas culturas está a enriquecer a vida dos alemães, desde já na culinária e na música. Em três aspectos, contudo, as coisas correram bastante mal:
1. A reunificação foi decidida à pressa e atropelando - cilindrando - as pessoas da RDA, que perderam o seu país e ganharam um estatuto de alguma subalternidade na Alemanha reunificada, além de verem a sua economia a desmoronar-se, o desemprego a crescer, a desertificação crescente dos espaços. Se hoje tantos deles se viram para a AfD, é porque os partidos democráticos não souberam dar resposta adequada e atempada às angústias existenciais e ao compreensível ressentimento de grande parte dessas pessoas.
2. Não houve resposta adequada à crise do aquecimento global. A indústria automóvel continuou a produzir e a vender alegremente carros cada vez maiores e mais potentes, a produção de energia continuou a ser muito poluente, os políticos demoraram imenso tempo a ganhar coragem para se decidirem a acabar finalmente com as minas de carvão, faltaram as políticas e os apoios certos para as energias alternativas. O resultado é o que se vê - e as gerações mais jovens assustadíssimas com o futuro. Há jovens de 18 anos que não sabem o que estudar, e porque é que deviam fazer algum esforço para construir o seu futuro, porque temem que em menos de dez anos o mundo se transforme num caos completo no qual eles não saberão orientar-se para poder sobreviver, e menos ainda para poder viver. Um medo semelhante ao sentido pelos pais deles, quando tinham a mesma idade, em relação à ameaça nuclear durante a Guerra Fria. 
3. Apesar da abertura crescente a cidadãos europeus, dos EUA e de alguns países asiáticos, continua a haver demasiada desconfiança e um repúdio subliminar (ou aberto) de pessoas com origens noutros países e noutras culturas, em particular se associadas a rendimentos mais baixos - e estes sentimentos têm sido capitalizados e artificialmente aumentados por partidos oportunistas de extrema-direita.

A última pergunta que me fizeram: o que diria eu ao presidente da República se pudesse falar com ele?  

Sem nunca ter pensado nisso, respondi na entrevista que lhe agradeceria ter vindo à Alemanha dar mais visibilidade a Portugal, e lhe agradecia também - embora neste caso talvez me devesse dirigir antes ao governo - as ofertas repetidas para acolher refugiados dos barcos do Mediterrâneo. Sempre que há um barco impedido de atracar num porto europeu, Portugal disponibiliza-se para receber algumas dessas pessoas, e eu encho-me de alegria e orgulho por ver o meu país entre os muito poucos que ajudam a resolver o impasse. Gosto muito de ver Portugal a fazer boa figura na televisão ou nos jornais alemães. Finalmente, iria agradecer-lhe estar disponível para servir o país como político nestes tempos tão conturbados. Os problemas são enormes, urgentes e muito complexos, e os políticos estão cada vez mais desacreditados, triturados por uma máquina populista que promove os seus fantoches por meio de uma estratégia de respostas simplistas e soluções nacionalistas.

O que não disse, mas pensei: se pudesse falar com ele a sós, também lhe perguntava se estava arrependido de ter criado as condições para haver um discurso populista no centro das comemorações do 10 de Junho deste ano.

Só no dia seguinte me ocorreu a conversa que realmente gostaria de ter tido com ele: pedir-lhe que crie uma iniciativa de todos os presidentes europeus - ou até do mundo inteiro - para pressionar os governos, os agentes económicos e as populações para que sejamos todos capazes de agir com determinação e unidade na luta urgentíssima e extremamente complexa de inversão do processo de aquecimento global.

09 agosto 2019

querido diário, então foi assim:



Isto de ter diversos nomes artísticos ainda vai ser a morte da artista: um simpático cavalheiro que me conhece por Margarida achou boa ideia a RTP entrevistar-me, e a pobre jornalista andou na Embaixada a tentar conseguir o meu contacto, mas a única Margarida que por lá conheciam com um perfil semelhante ao descrito chamava-se Helena Araújo. De modo que me contactaram a mim.
(Querida Margarida, caso existas e sejas outra: desculpa! Foi sem querer.)

Andava eu a passear o Fox (sim! o bom neto à casa torna!) (mas é só até ao fim do festival que o Matthias está a preparar) quando me ligaram a perguntar se podíamos fazer a entrevista daí a bocadinho. Ainda pensei levar o bicho comigo, mas optei por deixá-lo em casa (e assim perdi a oportunidade de o mostrar ao mundo, e de juntar às imagens um pequeno anúncio, "cão de meia idade, simpático, com boa figura e trilingue procura cadelinha com bom feitio para vocês-sabem-bem-o-quê-seus-brejeiros). Conversei com a jornalista, contei-lhe a minha vida praticamente toda (wow! depois dos padres e dos psicólogos, agora é a vez de porem os jornalistas a ouvir o povo!), gravámos a entrevista, e depois pediram-me para andar ó pra cá e ó pra lá, para terem mais alguns planos. Fiz tudo como queriam, arranquei-lhes a promessa de que dariam um jeitinho com photoshop às sandálias e à pedicure, despedi-me e fui para casa. Só no metro é que me ocorreu: "ó mulher! tu deixaste-te filmar sem ter o cuidado de colar a barriga às costas!" - mas já era demasiado tarde para voltar atrás e pedir que fizessem tudo de novo, e além disso escuso de tentar enganar as pessoas, que quem tenta parecer quem não é arranja um stress para a vida toda. Tanto mais que o mais provável era esquecer-me outra vez a partir do quarto ou quinto passo, e ter de recomeçar a filmar uma e outra vez, e ainda hoje lá estávamos (o que ia ser chato para o telejornal, porque enquanto esperavam teriam de meter muitos autocarros de equipas de futebol até poder passar finalmente a reportagem com um assunto importante, e eles não gostam nada de fazer isso).

Regressei a casa a pensar muito num pequeno filme de publicidade para um curso de representação da Helen Mirren, no qual ela dá uns passos em direcção ao centro da sala, depois olha para a câmara e diz que o que acabou de fazer é um dos maiores desafios da actuação. Havia uma altura em que o facebook me mostrava repetidamente esse filme, e eu não ligava. Bem me arrependi! Doravante, estarei mais atenta a toda a publicidade do facebook, que pelos vistos é lá que se aprendem as coisas importantes da vida.

Fui passear outra vez o Fox, a seguir disfarcei-me de senhora e saímos para a recepção do presidente da República. Deparámo-nos com uma grande animação, e gostei muito de encontrar lá tantas pessoas da comunidade. O presidente havia de vir mais vezes a Berlim, porque ajuda-nos muito a estreitar os laços da diáspora. É verdade que na sardinhada e no magusto também nos encontramos, mas nesses eventos eu faço parte da organização, e não dá para estreitar laços nenhuns, para além de dizer "olá!" e "já estás inscrito na mailing list dos Portugueses em Berlim?"


Apesar de não haver jogo de futebol (hihihihi) cantámos o hino nacional (e o senhor à minha frente, que é alemão, cantou-o inteirinho sem se enganar em palavra nenhuma, o que foi quase comovedor) (ao contrário de certa pessoa que eu cá sei, que troca "guiar" por "levar", e se fosse só essa dúvida, menos mal, mas às vezes também diz "entre as brumas da vitória" - senhor juiz, a culpa não é minha, é do Freud). O embaixador fez um discurso de boas-vindas e o presidente fez um discurso que não sei, mas parece-me que os senhores da Geringonça lhe podiam dar um beijinho agradecido. Depois começaram a servir comes e bebes enquanto o pobre presidente dava entrevistas para a comunicação social. Quando acabou de responder ao último jornalista começou o seu impressionante trabalho de conversar com as pessoas uma a uma, ouvir cada uma delas com atenção, e tirar selfies. Umas horas mais tarde encontrei o meu facebook e vários sites de jornais cheios de imagens de pessoas muito sorridentes a conversar com o presidente da República: como se fosse - perdoem-me a imagem - uma mãe com uma multidão de filhos únicos. Como político, teremos as nossas divergências. Mas reconheço a Marcelo Rebelo de Sousa um dom de proximidade genuína que provavelmente vai criar dificuldades a quem o suceder naquele cargo (excepto se for a Marisa Matias, claro, claro).

Deixei-me ficar para trás, a ver de fora aquele curioso espectáculo de magnetismo. O ministro dos Negócios Estrangeiros também observava a cena. Estava a poucos metros do epicentro do fenómeno, e todos lhe voltavam as costas. Lembrou-me o segundo astronauta a chegar à lua, mas ele não parecia incomodado. Até gracejou dizendo de si próprio, a quem lhe pediu uma selfie, que era o prémio de consolação.


A Embaixada fez um trabalho excelente de networking: por todos os lados grupinhos de pessoas a conversar animadamente, a apresentar-se, a trocar cartões e a combinar projectos. Algumas pessoas muito activas na comunidade portuguesa, que ali estavam pela primeira vez, mostraram-se encantadas por poderem ter dado um abraço ao presidente. Só por causa dessa alegria nos seus olhos, esta visita presidencial já valeu a pena.

Para a Sofia Borges e para mim foi também uma bela oportunidade para conversar com o ministro dos Negócios Estrangeiros, que é o maior patrocinador da Associação 2314, e pô-lo ao corrente dos maiores projectos que temos de momento em curso - a mostra "dias do cinema português em Berlim", que será em Outubro, e a escola de bombos portugueses, que vai de vento em popa.

Também tivemos direito à conversa e às selfies com o presidente. Ele teve gestos de uma enorme ternura para a Sofia - como mostra a foto no princípio deste post. Da próxima vez que der com alguém a dizer que o #metoo perverteu a relação de confiança entre homens e mulheres, hei-de lembrar-me do exemplo deste presidente: sabe abraçar e beijar com tamanho respeito e inocência que a ninguém ocorre acusá-lo de ter um comportamento invasivo e desagradável.

(foto: Joana Almeida Matos)

Deixo algumas dessas imagens para os mais cuscos. E a quem se rir do meu punho fechado, informo que uma amiga minha já criou o movimento #freeHelenaAraujo. Para quem quer saber a verdade em vez de se rir, explico que quando ele me pegou nas mãos eu tinha-as cruzadas, e quando as cruzo fecho sempre o punho para não parecer que estou a defender um livre. 

Ao fim de quase duas horas o presidente foi-se embora e levou consigo a comitiva, diz que foram jantar a um restaurante alemão. O que é pena para eles, porque ficavam mais bem servidos se tivessem ido ao Anabela's Kitchen, que é culinária em excelente e sem nacionalidade (o futuro bem podia pôr aqui os olhinhos) (mas é sempre a mesma coisa: nunca ninguém me pergunta nada, nem para escolher restaurante nem para desenhar o futuro). As pessoas começaram a sair, os grupinhos foram ficando cada vez mais pequenos, e às tantas o simpático motorista da Embaixada passou a fazer de carro vassoura e nós trouxemos para nossa casa os últimos convivas. A noite acabou com um esparguete de tomate feito à pressa, algum vinho, muita conversa e ainda mais risota.

E um último passeio para o Fox - com o Joachim, a Helena, a Margarida, a Lena e todas essas peças do puzzle que sou.

  
(fotos: Manuela Schneider)

07 agosto 2019

aqui a estrela cadente da tv...

Depois de já ter sido entrevistada por televisões alemãs à saída de um filme na Berlinale, e à entrada de um autocarro (onde me desgracei, para não variar: perguntaram-me se gostava mais de entrar pela porta da frente ou pela de trás, e eu disse, muito despachada, "pela de trás, porque tenho preguiça de mostrar o passe ao condutor") (desgracei-me a mim e aos portugueses todos, porque o meu sotaque ao dizer "tenho preguiça" não engana ninguém) hoje foi a vez de ser entrevistada pela RTP. Deve passar no noticiário da noite.

Teme-se o pior, que isto são já muitos anos de experiência a meter água em frente às câmaras de televisão. Mas o simpático senhor da câmara, que nem sequer me poupou as sandalinhas, prometeu que ia fazer-me a pedicure com photoshop. Ao menos isso.

(Se vos perguntassem o que é que gostavam de pedir ao presidente da República, o que é que respondiam?) (é uma curiosidade minha, não tem importância nenhuma)
(eu portei-me bem: nem disse "uma medalhinha no dez de Junho" nem nada) (e contudomente...)


05 agosto 2019

isto é uma triste vida...

Toda a gente de férias, e eu aqui a trabalhar no duro, triste vida. É o que faz morar em Berlim: enquanto os do sul fazem férias, temos nós de andar na produtividade desenfreada!...
(Nem tempo tenho para contar as minhas férias de Julho, nem as de Abril, nem as de Março... )
 
Se querem saber tudo: em Berlim, esta é - em 2019 - a semana de início do ano lectivo. Os Estados alemães não fazem férias escolares todos ao mesmo tempo, porque se 80 milhões de alemães fossem de férias todos no mesmo dia, Maiorca e Tenerife iam ao fundo.

03 agosto 2019

incendiários

(foto: mural de facebook de Burkhard Jung)

Sabem aquela piada do homem que lançava os foguetes, fazia "pum!" e ia apanhar as canas?
É o jornal alemão Bild.

O caso mais recente: por motivos de simplificação logística e redução de custos, um infantário de Leipzig optou por não ter carne de porco na ementa semanal. Os infantários estatais costumam ter vários pratos diários à escolha, mas aquele infantário privado, que ao almoço tem um prato único para todas as crianças, optou pela solução mais simples: deixar a carne de porco de fora, para não ter de se preocupar com uma ementa alternativa para duas das crianças, que são de famílias muçulmanas. De qualquer modo, já só oferece carne em dois dias da semana - nos restantes, os miúdos comem pratos vegetarianos ou com peixe. Perante isto, que faz o jornali Bild? Agarra neste não-assunto e faz uma capa alarmista a incitar ao ódio contra os muçulmanos:
POR RESPEITO À "SALVAÇÃO DA ALMA"
Infantário proíbe todas as crianças de comer carne de porco

A versão online acrescentava ainda uma linha venenosa: "as gomas estão proibidas, com efeitos imediatos".

Note-se que este infantário é um dos muitos estabelecimentos alemães que tomaram essa decisão, sem que alguma vez tivesse havido protestos por parte dos pais ou da comunidade. Ninguém impede os miúdos de trazerem de casa o seu pãozinho com fiambre ou as suas gomas, e muito menos os impede de comerem em casa um belo lombo de porco assado. Mas depois desta capa do jornal Bild os políticos de extrema-direita agitaram quanto puderam ("proibir carne de porco nos infantários é capitular perante o Islão!" - Beatrix von Storch, AfD), as redes sociais foram ao rubro ("hoje é a carne de porco... / amanhã será a obrigação de cobrir a cabeça... / e depois de amanhã? / seremos obrigados a converter-nos ao Islão? a obedecer à sharia? a casar a nossa filha à força com um homem de 40 anos?") e o infantário viu-se alvo de inúmeras críticas e ameaças violentas. Naturalmente contactaram a polícia, e o Bild aproveitou para fazer nova capa, com a fotografia de um polícia a entrar no edifício:


Protecção policial para infantário sem carne de porco

Lançar os foguetes, fazer "pum" e ir apanhar as canas: pegar numa não-notícia para fazer uma capa incendiária, alimentar a falsa ideia de que os muçulmanos estão a invadir a Europa para destruir a cultura ocidental, instigar os ódios que dão força à extrema-direita e a seguir fazer outra capa a dar aos neonazis a sensação de que são poderosos e fazem tremer as instituições. Avisem o Putin que não precisa de se ocupar tanto a destruir as Democracias europeias - os nossos jornais já fazem o trabalhinho.

O socialista Burkhard Jung, presidente da Câmara de Leipzig, tomou uma posição muito clara sobre o assunto na sua página de facebook, que traduzo aqui rapidamente:

Não posso deixar de comentar os acontecimentos da semana passada.

O que se passou:
dois infantários de Leipzig decidiram alterar a ementa dos almoços das crianças. Não há nisso nada de anormal - muitos infantários e escolas mudam frequentemente o fornecedor de refeições. Há muitas razões para isso, e resultam antes de mais de decisões que os infantários tomam em conjunto com os pais, tendo em conta os interesses das crianças. Os motivos para que o infantário e os pais tomem uma decisão relativa à alimentação, seja a favor ou contra a carne de porco, a comida vegetariana ou até vegan, podem ser de vária ordem: culturais, fisiológico-alimentares, ou simplesmente porque os gostos são diferentes.

É irresponsável estilizar esta escolha de ementa de um infantário para o tornar num símbolo da destruição da nossa cultura, como pessoas da CDU, da AfD e de um modo geral de círculos conservadores fizeram nos últimos dias. Não, a decisão dos infantários de Leipzig não é uma derrota cultural, mas uma decisão livre num país livre. Quem não aceita isso, não aceita a liberdade e até a põe em risco.   

O que se seguiu é inacreditável:


"À forca, ou fuzilamento segundo a lei vigente" [texto na imagem acima]
"Senhora..., ou repõe imediatamente a carne de porco na ementa, até 30.7, ou o seu infantário vai arder, mesmo que isso prejudique as crianças. Não, isto não é uma piada. E mesmo que avise a polícia, o infantário vai arder. E vou-lhe dar uma tareia tamanha que a mando para o hospital e a deixo incapaz de voltar a trabalhar!!! Portanto: ou muda, ou fogo!"
"Não vou apenas espancá-la até precisar de ir para o hospital, vou matá-la com uma facada no coração." 

Trata-se de uma pequena selecção das ameaças que os infantários receberam, tanto por carta como em forma descaradamente verbal.

Estou sem palavras. Há três, quatro anos, quando tantas pessoas em terrível estado de necessidade buscaram a nossa ajuda, houve por toda a Alemanha ataques pessoais e alojamentos incendiados. Não fomos capazes de proteger todos os abrigos, e a nossa sociedade não foi agitada por um choque de indignação moral. Em vez disso, os Gaulands, Weidels e Höckes
[políticos da AfD] continuam a zurzir verbalmente os mais frágeis.

E as suas sementes estão a dar fruto: em 2019, há infantários que são ameaçados apenas por terem mudado a sua ementa semanal de uma forma que não se enquadra numa visão mesquinha do mundo.


A queda do Ocidente e o perigo para a nossa liberdade esclarecida não provêm daqueles que, por qualquer razão, têm uma cultura alimentar diferente da culinária tradicional alemã, mas daqueles que perderam todas as referências morais e o sentido de decência.

Não podemos ignorar, não podemos calar, não podemos ceder: no nosso país, a liberdade, a igualdade e a empatia estão em risco. O que aqui aconteceu e acontece é apenas uma amostra do que nos espera se nas próximas eleições o poder ficar nas mãos destes que já hoje preparam a terra com as suas sementes de ódio.

Permanecei vigilantes!



Dois meses após o assassinato de Walter Lübcke por um neonazi que não gostou de algo que esse político da CDU dissera sobre os valores da nossa sociedade e a obrigação moral de acolher os refugiados, esta tomada de posição parece-me um acto de enorme coragem.

Nos difíceis tempos que vivemos, há demasiados extremistas violentos predispostos a ameaçar qualquer político que defenda destemidamente os valores de uma sociedade pluralista e democrática.

Perante o clima de violência verbal e física contra políticos que hoje se vive na Alemanha, pergunto-me como é possível ainda alguém argumentar com o batido "não concordo com o que dizes, mas estaria disposto a dar a vida para que tu possas dizer o que pensas" - como se certos discursos não fossem o gatilho que accionam a violência latente e letal que já existe entre nós.

De facto, em 2019 aquele "dar a vida" pelos valores democráticos já não se formula no condicional.    
Burkhard Jung assume com frontalidade a defesa dos valores democráticos em que acredita, mesmo sabendo o risco que corre.

Pergunto aos que defendem a liberdade de expressão custe o que custar: querem mesmo - querem mesmo mesmo - dar a vida pela defesa da liberdade de expressão de quem já começou a matar aqueles com quem não concorda? Querem dar a vida pelo direito do jornal Bild torcer a realidade para fazer um discurso incendiário que dá origem a ameaças de destruição e morte num infantário?

O jogo já não é a feijões.


17 julho 2019

no comboio ascendente

Partilho um belo texto da Sara Monteiro que li no facebook.
A série "viagens de comboio" da Sara Monteiro devia ser publicada em livro. A série sobre as aulas que dá nas prisões, também.

Aqui fica então uma das viagens mais recentes da Sara:


Quem vai de comboio para o sul, quando chega a Santa Clara Sabóia, atravessa uma fronteira invisível: a temperatura, o cheiro, a consistência do ar ficam diferentes.
E em Tunes, aqueles que saem do Intercidades (ou Alfa) para apanhar o regional com destino a Lagos, descobrem um outro tempo.
Na carruagem onde eu seguia, talvez fôssemos 20. Ciganos, negros, ucranianos, alemães, japoneses, portugueses, brasileiros. No mínimo.
O casal cigano tem um carrinho de bebé a obstruir a passagem. Chega uma rapariga negra com outro carrinho. Quer passar, pede desculpa pelo incómodo. O rapaz levanta-se de um salto, pega no bebé, entrega-o à mãe, desmancha o carrinho e num instante liberta o espaço. A rapariga agradece, senta-se mais à frente.
O bebé do casal acorda e começa a chorar. Nova agitação. O pai pega-lhe ao colo enquanto a mãe prepara o biberão. Agarra em mil tralhas e vai até à casa de banho, mas está ocupada, tem de esperar.
Ouvimo-lo perguntar:
- Mas não trouxeste água?
Meu momento racista: “Não me digam que ela vai fazer o biberão com a água do comboio!”
Não devo ter sido a única a pensar o mesmo. Uma mulher loira precipita-se na sua direção com uma garrafa de litro e meio.
- Se precisar de água..
- Ah eu tenho aqui água quente. E mostra uma garrafa termo.
Ficámos sem saber o que ela queria da casa de banho.
O bebé está cada vez mais irritado. O pai passeia pela carruagem, devorando-o com beijos.
A carruagem está ansiosa, segue os gestos da mãe – ela é tão bonita, parece a Cleópatra – atentamente. A rapariga também está tensa. Diz que não tem jeito nenhum ele ter acordado no fim da viagem.
Finalmente, o biberão está pronto. O outro bebé não acordou. Tudo está bem.
Sorrimos uns para os outros (os japoneses também).
Daqui tiro duas possíveis conclusões:
Primeira – é óbvio que tanto os ciganos como a rapariga negra leram o artigo da Maria de Fátima Bonifácio e deram-nos um baile de boas maneiras só para nos desorientar.
Segunda – o comboio regional do ramal de Lagos traz ao de cima o que há de melhor nas pessoas.
Comentário extra – ao levar água à rapariga cigana, a senhora loira denunciou-se mais do que eu.

os zulus que não saibam disto


Aqui este fantástico espécime da "cultura superior" esteve no domingo passado num terraço em frente aos jardins da chancelaria alemã a admirar a lua quase cheia que se erguia sobre o concerto do Gilberto Gil. Apenas dois dias depois, ontem, ao sair do concerto dos Beach Boys, ficou um bocado admirada por ver a lua tão pequena e com uma forma tão estranha.
 
Apesar de saber ler, de ter um curso superior, morar praticamente no centro geográfico das "culturas superiores" e até ter lido na internet alguma coisa sobre eclipses lunares (e até ser amiga de facebook do Miguel Gonçalves!), não lhe passou pela cabeça que podia estar a assistir a um eclipse.
Os zulus que não saibam disto! Ainda morrem todos a rir, e depois acusam-me a mim de genocídio involuntário.

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Vou ver se o Miguel Gonçalves me arranja os episódios de A Última Fronteira em edição especial para descarregar directamente para as veias. Suspeito que pela via da inteligência não chego lá...

"ganda puta!"

Há uma dúzia de anos uma blogger da nossa praça contou que o filho de dois anos andava com a mania de chamar "ganda puta" às pessoas. Os pais tentaram tudo para lhe tirar o hábito, mas o miúdo insistia. Até que a mãe recorreu a métodos brutais. A maior parte dos comentários ao post onde isto era relatado foram de aprovação, variações de "quando for grande vai-te agradecer ter recebido essa boa educação".

Há dias comparei os valentes que "ousam assumir" um discurso politicamente incorrecto a uma criança de três anos que grita "cocó" no meio de uma sala cheia de visitas. Mas ao ler o artigo mais recente do João Miguel Tavares dei-me conta de que a imagem peca por defeito. Corrijo agora: o que esses valentões dizem não é "cocó", é: "ganda puta!"
E parece que não tiveram pais que os educassem, em criança.

Por algum motivo que gostava de entender, mas argumentando que estão a respeitar a liberdade de expressão, os jornais publicam a provocação. Dão palco a estes discursos que não fazem o menor esforço para esconder os tiques de supremacia branca, e até os exibem em letras grandes e gordas:

Ganda puta!


Desculpem que pergunte: em nome de quê publicam os jornais um "ganda puta!" (por exemplo: "Sim, há culturas que são superiores a outras") em letras gordas?

A posição de que as ideias se debatem com ideias, e que a vantagem da publicação de textos infelizes é dar ensejo à publicação de textos felizes para contrapor, parece-me um bocadinho ingénua. Qual é o poder e o valor do contraditório nestes tempos de fake news, quando já é do conhecimento de todos que as pessoas ouvem apenas aquilo que querem ouvir e acreditam apenas naquilo em que querem acreditar, quando a terra ser redonda ou plana, a chegada do Homem à lua ou a importância das vacinas são meras questões de opinião? Hoje em dia, o que acontece no espaço público não é um debate esclarecedor, mas uma enorme chinfrineira. Para muitos, o debate esgota-se de forma satisfatória no momento em que lêem o "ganda puta!" da sua convicção escrito em letras grandes e gordas nas páginas do Público. Tudo o resto que se possa dizer sobre o assunto será ignorado: mera canzoada a ladrar.
São estas as novas regras do jogo, e não as podemos ignorar.
Fazer o quê, então? Não sei. Mas o facto de não ter solução para este problema não inviabiliza a crítica e não nos pode impedir de reconhecer que chegamos a uma situação de impasse.

Para tornar tudo ainda mais complexo, a gravidade desta questão não se esgota na improficuidade do debate. Se as ideias apresentadas e debatidas se limitassem a discutir o sexo dos anjos, menos mal. Mas muitas vezes esses "ganda puta!" atirados para o espaço público de debate ferem impiedosamente a dignidade humana. O infantiloide que se julga muito valente por não respeitar "a ditadura do politicamente correcto", e grita insultos para o meio da sala, está realmente a cometer tortura psicológica contra as pessoas de alguns grupos marginalizados. Dizer-se neste caso que "quem não deve não teme" será sinal de ignorância e falta de empatia. É exigir demasiada nonchalance a pessoas que ao longo de toda a sua vida são humilhadas por atitudes - muitas vezes inconscientes e involuntárias - de ódio étnico e racial. Estou a pensar, por exemplo, no que me contou há dias um empresário alemão: em miúdo, fartou-se de apanhar tareias na escola e na rua, sem saber o que é que os outros miúdos tinham contra ele. Até que um dia percebeu: o seu cabelo castanho dava-lhe um ar de turco. Isso mesmo: perseguiam-no e batiam-lhe apenas por acharem que ele era turco. Ele - filho, neto e bisneto de alemães - tinha como escapar a esta dinâmica de violência. Mas os outros, os filhos de turcos, não. 
E estou a pensar neste filme, que mostra bem o que é crescer num ambiente hostil:



O meu filho está há meses a trabalhar com grande entusiasmo e generosidade na organização do festival in*Vision. Um dos objectivos do festival é trazer para o centro da sociedade pessoas que se sentem marginalizadas. Fazê-las acreditar que são cidadãs de pleno direito, e que esta Polis também é delas - nem mais nem menos que dos outros.

De cada vez que um jornal publica um destes "ganda puta!" de supremacia branca em letras gordas, destrói o trabalho dos organizadores do in*Vision e de tantas iniciativas do género, e obriga-os a recomeçar, uma e outra vez. Pergunto-me se o João Miguel Tavares, a Fátima Bonifácio e outros comentadores do género se sentem contentes e orgulhosos do importante papel que escolheram ter na sabotagem dos esforços para criar uma sociedade igualitária. 

E fico à espera dos próximos capítulos no Púlico: será que teremos em breve mais um artigo da Bárbara Reis a criticar os "snowflake" por afinarem logo mal lhes chamam "ganda puta!"? Será que na próxima semana João Miguel Tavares nos vai explicar porque é que os tipos que vivem nos guetos da "cultura inferior" não se devem revoltar contra os da "cultura superior" que os tratam com a rudeza de um miúdo de dois anos que quer provocar a autoridade dos adultos?

15 julho 2019

professora

Com a sorte que tenho habitualmente, lá calhou de este fim-de-semana ter sido convidada para um jantar, e de ter ficado sentada ao lado de uma mulher interessante e conversadora que passou a noite a contar histórias da RDA e das muitas diferenças entre as duas Alemanhas.

De facto, a conversa começou mal: pelo lado dos refugiados e dos filhos dos turcos e árabes, pela dificuldade de os integrar. Pois se nem alemão falam! E que os miúdos destas famílias deviam ser metidos compulsivamente nos infantários, para lhes dar a oportunidade de aprender alemão desde bem cedo, e para poder influenciar a sua educação, promovendo a sua integração neste país. Algo absolutamente necessário - dizia-se naquele canto da minha mesa - para evitar o que se passa depois nas salas de aula: alunos que não falam alemão e que não respeitam as professoras pelo simples facto de serem mulheres, e famílias que fazem ameaças de violência aos professores quando não estão satisfeitas com o desempenho deles. Eu a ouvir, e a pensar nas tantas vezes que já ouvi estes queixumes, como se fosse essa a situação generalizada (não é) e como se identificar o problema não fosse já meio caminho andado para o resolver (como mostrou o exemplo da Rütli-Schule). Pensei também nas tantas histórias semelhantes que já ouvi em Portugal. Pais que agridem professores, ou o caso de um amigo meu que recebeu uma carta anónima: "sei onde moras - se me chumbares vou violar a tua mulher e a tua filha". Mas fiquei muito caladinha, que não sou maluca para dizer a um público alemão que há portugueses que fazem o mesmo que se está a criticar nos turcos e nos árabes. Terreno minado. Por sorte, ao falar-se na obrigação de frequentar o infantário, a "Ossi" lembrou-se do país no qual cresceu, de ter ido para a creche ainda muito pequenina, e de ter sido obrigada a pôr a filha na creche também muito cedo, porque na RDA não se punha a hipótese de uma mãe querer ficar em casa a criar os filhos. Uma violência, dizia ela. A "Wessi" do grupo concordou: as crianças pequeninas precisam do conforto e da segurança do ambiente doméstico, em vez de serem formatadas num espaço colectivo. "A própria ama do meu neto, em Hamburgo", dizia uma delas, "não tem tempo para se ocupar bem de cada uma das crianças que lhe são confiadas. Uma vez vi uma refeição com eles, e percebi porque é que o miúdo anda sempre com fome: ela não dá a papa a cada um dos bebés, cada um tenta comer como pode, e acaba por cair muito mais papa no babete que dentro da boca".

Já não estávamos a falar dos refugiados, e foi pena, porque a questão é muito pertinente: qual deve ser a margem de liberdade dos pais para decidirem sobre a educação dos seus filhos? Que direito temos de impor regras semelhantes às do regime totalitarista da RDA a estes pais que vivem na Alemanha em situação de total dependência da nossa boa vontade?

A minha vizinha de mesa contou mais histórias do país em que nasceu. De como se decidiu o seu futuro profissional: o Estado escolheu o curso que ela iria tirar, e também a profissão. Sem ser tida nem achada, estudou engenharia e acabou professora. Era professora quando o muro caiu e entrou em contacto com outras realidades do ensino. Como daquela vez em que um grupo de professores de uma escola de um Estado no norte da Alemanha veio assistir às suas aulas. Ela entrou, disse "bom dia" aos alunos, estes levantaram-se, disseram "bom dia, Frau Fulana", e sentaram-se. Os professores ao fundo da sala não se mexeram, apenas fizeram cara de esfinge. A aula começou, as esfinges continuavam impassíveis. A aula inteira assim, e ela a sentir-se cada vez mais insegura perante aqueles professores que vinham da riquíssima Alemanha Ocidental para passar a sua aula a pente fino. No final, foi de coração pesado para a reunião de avaliação com o director. Os professores convidados estavam lá, e continuavam com um ar muito sério. "Como é possível acontecer tal coisa numa sala de aulas?", perguntou um deles, e ela ficou ainda mais aflita. Até que percebeu que eles estavam surpreendidos pela disciplina, atenção e concentração dos alunos, e se justificou: é a condição sine qua non para poder trabalhar com eles. Uns meses mais tarde, quando foi a sua vez de ir à escola deles, percebeu a surpresa: alunos a mascar chiclete, alunos com os pés em cima da mesa, alunos a conversar uns com os outros. O professor não era uma figura de autoridade, era apenas o adulto que tentava atravessar a aula sem soçobrar naquele mar agitado. Educação antiautoritária, remataram em coro a "Ossi" e a "Wessi". Essa foi a minha deixa para louvar as escolas dos meus filhos, a Montessori em San Francisco e a Jenaplan em Weimar: onde os miúdos trabalhavam com enorme concentração, agarrados não pelo colete-de-forças da disciplina imposta de forma autoritária, mas pelo prazer enorme que tinham em trabalhar para aprender.

E depois a professora começou a contar como fazia para conseguir que a turma funcionasse: identificava os alunos problema, e tentava ganhá-los para o seu lado. Uma vez metidos dentro do barco, o trabalho tornava-se muito mais fácil. Mas os primeiros tempos com cada turma nova exigiam dela um esforço redobrado de análise: que problemas teria aquela criança? Como seria possível ajudá-la, e mantê-la sob controlo durante a aula? O seu primeiro teste era levantar a mão para fazer uma festinha na cabeça do aluno. Se ele tivesse o reflexo imediato de se encolher, era sinal de que apanhava em casa, e que a professora não teria qualquer sucesso se tentasse dominá-lo pela força (na RDA ainda era relativamente aceitável agarrar num aluno insubordinado por uma orelha e sentá-lo num canto da sala) e não devia de forma alguma ir falar com os pais, porque essa conversa resultaria seguramente em ainda mais violência contra a criança.

O olhar dela iluminou-se ao contar do dia em que foi escolher o seu primeiro carro novinho em folha, e o chefe do stand de automóveis a atendeu com imensa simpatia. Tanta, que ela começou a desconfiar que aquele homem jovem teria alguma fixação em mulheres de meia-idade. Umas semanas mais tarde, quando foi buscar o carro encomendado, o chefe do stand ofereceu-lhe uma rosa. Ela louvou o serviço aos clientes, mas ele sorriu: "não faço isto a todos. Só a si, para lhe agradecer ter-me trazido para o caminho certo." Foi então que ela o reconheceu: o aluno mais difícil de toda a sua carreira de professora. Demorou meio ano até conseguir ganhá-lo. O miúdo vivia numa situação de violência doméstica tão brutal que nem conseguia ter bom rendimento escolar, apesar de ser inteligentíssimo. Ela conseguiu a pouco e pouco conquistar a confiança dele. Dava-lhe explicações depois das aulas, e garantia-lhe que poderia contar sempre com ela. Ao fim de meio ano o miúdo deixou de se retrair com medo quando ela levantava a mão na direcção da sua cabeça. E tornou-se um dos melhores alunos da turma.

No nosso cantinho do jantar de repente havia uma "Ossi", uma "Wessi" e uma "estrangeira" com os olhos cheios de lágrimas.

13 julho 2019

"gaita"

A palavra de hoje na Enciclopédia Ilustrada é "gaita" (às vezes aos sábados a palavra proposta escorrega para a possiblidade de brejeirice, "porque hoje é sábado"...).

Mas quando alguém falou em "gaita-de-beiços" lembrei-me de um post que escrevi há década e meia, no princípio do blogue, e trouxe-o de novo à luz do dia. Melhor dizendo: trouxe a este nosso presente sombrio a luz de Reuven Moskowitz. Que tanta falta faz.



Conheci o Reuven Moskowitz no princípio deste século, porque a minha vizinha em Weimar o louvava imenso, e andava toda feliz com a perspectiva de receber em sua casa este homem tão cheio de alegria e frescura, que recebera o Aachener Friedenspreis por uma vida dedicada à construção de uma paz justa entre palestinianos e israelitas. Fomos ouvi-lo, e tivemos depois óptimas conversas bem acompanhadas de anedotas de humor hebraico e vinho do Porto. Contou um pouco da sua vida na Schtetl romena onde nasceu, evitou contar detalhes sobre o Holocausto, convidou-nos para ir a Israel conhecer alguns projectos e comunidades onde tem sido possível construir a paz (mas o Joachim recusou amavelmente, alegando alergia ao elevado teor de chumbo no ar).

O Reuven trazia sempre no bolso uma #gaita-de-beiços que uma família de palestinianos lhe deu no fim da guerra dos seis dias. Nessa altura ele era soldado, e sentia-se o vencedor mais triste do mundo. Estava encarregado de fazer respeitar a hora de recolha obrigatória num bairro. Algumas crianças começaram a espreitá-lo por trás de uma cerca, e ao vê-las ele sentiu o terrível peso das suas granadas, do capacete e das botas. Sorriu-lhes, foi ter com elas, deu-lhes os chocolates que tinha no bolso. Elas fugiram, e daí a pouco regressaram. Tinham uma laranja para ele. Depois apareceu o avô, convidou-o para a casa da família, e ofereceu-lhe uma gaita-de-beiços. Essa que ele passou a levar sempre consigo.

Numa das vezes que veio a Weimar, por volta de 2005, pediram-me para o ir buscar à estação de caminho de ferro. A conversa fluiu como se fôssemos amigos de sempre. Contei-lhe sobre os meus primeiros tempos em Weimar e a pergunta automática que me fazia sempre que via uma pessoa de idade: "há 60 anos, de que lado estavas?". Ele riu-se, "ah! tive a mesma reacção quando vim pela primeira vez à Alemanha!", e acrescentou: "não podemos ser assim, porque esse é exactamente o tipo de mecanismo que dá mais força ao anti-semitismo."
Fiquei a pensar nesta imensa sabedoria de saber perdoar ou esquecer, para poder recomeçar o jogo com cartas não marcadas. Vê-lo assim - ele, que escapou ao Holocausto -, tão disposto a aceitar a Alemanha e os alemães, faz-me pensar que no cântico dos anjos, “Paz aos homens de boa-vontade".

Mais tarde fui ouvi-lo no colóquio, onde falou sobre os mecanismos que impedem a paz em Israel: a diabolização premeditada do inimigo, as assimetrias na distribuição de forças e nas negociações. Foi muito claro em relação aos alemães: "É um erro gravíssimo atribuir uma culpa colectiva a todo um povo - os judeus viveram dois milénios com a culpa colectiva da morte de Cristo, e agora são os alemães que vivem com a culpa colectiva do Holocausto. Isto está errado! Não se deixem amordaçar por esses que vos impõem um sentimento de culpa colectiva. Vocês têm uma palavra a dizer sobre o que se passa em Israel, e têm obrigação de se pronunciar!"

Criticou Israel com desassombro e conhecimento de causa. Que os conflitos militares foram provocados por Israel para aumentar o seu espaço territorial, que Gaza não passa de uma enorme prisão, que há uma estratégia deliberada por parte de alguns políticos israelitas de desumanizar os palestinianos para melhor permitir a sua exploração sistemática, que os palestinianos têm sido vítimas de pogroms, e que o seu ódio tem crescido devido ao estado de permanente humilhação em que vivem. E que o único caminho para a paz é desistir das tantas mentiras criadas por motivos estratégicos e assumir a verdade, aceitar sentar-se à mesa com o opositor como um igual e não como um demónio (ou um "animal de duas patas", como um político israelita chamava aos palestinianos).

Um dos palestinianos presentes pediu a palavra, para falar sobre a sua cidade: 45.000 habitantes com um único check-point onde um soldado israelita de 19 anos dá livre curso ao seu sadismo, onde morrem pessoas porque a ambulância é obrigada a esperar várias horas, onde mulheres dão à luz em plena fila de espera no meio da rua. A cada nova frase o ódio tornava-se mais palpável - e compreensível.

Não tenho experiência de debates assim, e senti pena do Reuven, que, ao tentar abrir caminhos para a Paz, se expunha desta maneira. As suas palavras, que ainda há pouco soavam tão libertadoras, perdiam a força e tornavam-se quase ocas, impotentes perante os horrores a que os palestinianos são sistematicamente sujeitos.

Ele não se deixou intimidar pelo ódio. Falou do perigo de generalizar ("os judeus" ou "os palestianos" ou "os alemães" são conceitos que servem a lógica do ódio e da violência), e apelou para a necessidade de desarmar a região e criar uma confederação entre Israel, a Jordânia e talvez a Síria, com a possibilidade de livre movimentação para todos - qualquer palestiniano tem o direito de regressar à Palestina ("isso mesmo, apoiado!", dizia o palestiniano), qualquer judeu tem o direito de se estabelecer na Jordânia ("era o que faltava!", dizia o palestiniano).

E concluiu: temos de acreditar num futuro de paz. Olhem para mim: um judeu que escapou ao Holocausto e hoje tem alemães entre os seus melhores amigos. Digam-me se isto não é um sinal de esperança!

Tirou do bolso a sua gaita-de-beiços, contou como lhe tinha chegado às mãos, e terminou a sessão tocando canções árabes, alemãs e uma belíssima melodia para o seu salmo preferido:

Qual o homem que deseja a vida

e quer longevidade para ver o bem?


Preserva a tua língua do mal

e os teus lábios de falarem falsamente.

Evita o mal e pratica o bem,

procura a paz e segue-a.

Mário Bonifácio

Fantástico RAP.




11 julho 2019

cocó! (hihihihi)

Há tempos li um artigo de opinião no Spiegel online (infelizmente esqueci o nome do autor) onde se comparava o politicamente correcto à condução cuidadosa numa zona urbana com muitas pessoas.  A ideia era muito simples: se sei que há muitos peões nesta zona, se sei que há crianças a brincar, se sei que qualquer descuido meu pode provocar um acidente, naquela zona conduzo com redobrados cuidados. E nem por isso me vou queixar de que a minha mobilidade está em risco.

Traduzido o discurso dos opositores do politicamente correcto para os termos desta imagem, fica:

- Quero lá saber se há crianças e velhinhos a atravessar a rua! Tenho um bólide novinho em folha, estou numa rua para carros, tenho direitos. Saiam da frente, aqui vou eu!

A imagem também se aplica maravilhosamente à lamúria "sou um desgraçadinho, diga o que disser, há sempre alguém que se sente ofendido...":

- Tenho direitos! Estou a cumprir a velocidade legal dentro das localidades! Não tenho culpa que a rua seja estreita, sem passeios e cheia de peões. A cada metro, pumba!, mais um que se queixa que foi atropelado! Não me deixam conduzir como me apetece! Sou um desgraçadinho.

Num outro artigo de opinião na mesma revista, Ferda Ataman compara estas pessoas que querem  falar como lhes apetece, e sem se sujeitaram às peias da boa educação e da inteligência, a um miúdo de três anos que grita para o meio da sala "cocó!" e depois fica na expectativa, a ver como é que os adultos vão reagir. Como explicava a Françoise Dolto já há muitos anos: uma criança que diz "cocó!" para uma audiência de adultos sente-se muito poderosa.

Enfim, criancices.

Mas isto dá-me uma ideia. Para conseguirmos uma plataforma de entendimento entre os adeptos e os opositores do politicamente correcto, e lembrando ainda aquela piada da família que numerou as anedotas para as contar mais depressa ("37!" "hahahaha" "51!" "hehehehe, muito boa!" "15!" "oh, essa não se conta à mesa!"), quem quiser dizer o que lhe apetece sobre uma minoria podia anunciar simplesmente:

- Estou a dizer um cocó sobre os ciganos/africanos/judeus/mulheres/gays/desempregados/deficientes/idosos/etc. !

Dizia "cocó!", ficava aliviado, até podia entrar para as estatísticas ("em Julho aumentou exponencialmente o número de cocós xenófobos nas redes sociais") e o grupo alvo não se sentia espezinhado como nos casos em que alguém diz por extenso o que lhe vai nas tripas.


o outro

Ando há que tempos para contar sobre isto, mas mete-se uma coisa e outra, e antes que se meta o Natal (já falta pouco, aposto com quem quiser) arranjo tempo para anunciar, finalmente, que o número 2 da revista literária Fluir é sobre "O Outro", e que vale bem um passeio pelas suas páginas online.

Tem alguns poemas de empatia pungente da Maria Rosário Pedreira, tem poemas belissimamente ditos por Paula Fonseca, tem contos, tem uma entrevista a uma escritora de biografias literárias. Com este ponto final prematuro acabei de me desgraçar, porque todos os não mencionados vão levar a mal, e nunca mais me falam. Especialmente o Ruy Belo, que também lá anda.
(Ai, e o Afonso Cruz, com quem ainda queria beber uma cervejinha! Adeus, adeus, meus lindos sonhos, não tenho sorte nenhuma.)

E tem um texto meu. Que levei muito tempo a escrever, porque tinha tanto para dizer sobre o tema "o outro" que o problema não era escrever, era não escrever tudo o que queria. Por exemplo: só contei uma anedota. De alentejanos.

Depois de pronto, passei-o aos meus filhos. O Matthias gostou tanto que o meteu no tradutor do google, para partilhar com os amigos alemães, mas ficou decepcionado porque o tradutor automático não apanhou bem as nuances. De modo que os amigos dele leram-me, mas permaneceram muito distantes de mim. E não são os únicos: por estes dias tenho pena de todos os meus amigos alemães que não falam português. Queria falar-lhes do João Gilberto, lembrar músicas, desenhar com calma as suas frases nas nossas conversas. Mas eles não percebem nada, coitados, tão inteiramente outros me são. Nem sequer sabem o que perdem, coitados. E se é assim comigo, imagino o que não será com todos os outros estrangeiros de Berlim. A quantidade de mundos que aqui coexistem sem que as pessoas os possam sequer vislumbrar. Parecemos todos o Ali Babá numa caverna cheia de tesouros, mas com as luzes apagadas.
As luzes apagadas dentro da cabeça. 

09 julho 2019

"Fátima Bonifácio e o soufflé"

A melhor reacção que li até agora ao texto racista da Fátima Bonifácio no Público é este texto do Hugo van der Ding.

(Se vocês tivessem de ir para uma ilha deserta e só pudessem levar um humorista, qual dos outros levavam?) (O Hugo van der Ding não podiam levar, que já está reservadinho.)


Leiam tudo. Deixo aqui apenas duas pequenas ideias:

"Não conto que me responda, mas adorava que esclarecesse uma dúvida que me ficou da leitura do seu texto: a Maria de Fátima, no direito à duplicidade de que todos gozamos, escreveu-o na sua qualidade de Maria-de-Fátima-Académica ou na sua condição de Maria-de-Fátima-Calhandreira? Isto parece-me fundamental para compreender o que a Maria de Fátima escreveu. Se foi na sua condição de académica, a Maria de Fátima há-de dizer-me onde é que dá aulas, para eu escrever aqui num papel para não me esquecer de nunca lá pôr os meus filhos. Se foi na sua condição de calhandreira, estão os meus parabéns, o texto está ótimo!"
(...)
"É curioso que a académica Maria de Fátima se queixe depois das portas escancaradas das Universidades, da entrada de analfabetos que resultaria do acesso irrestrito e incondicional ao ensino superior, quando a própria Maria de Fátima trata este tema — pelo menos neste artigo, a única coisa sua que li até hoje — como uma analfabeta."


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ADENDA - agora que já passaram alguns dias, transcrevo o texto completo:

Cara Maria de Fátima,
Permita-me que a trate assim, que estou sem pachorra para ir ao Google procurar o seu grau académico, que, li não sei onde, é de licenciada para cima. Pois que já deve adivinhar o que me traz aqui: o seu artigo de opinião «Podemos? Não, não podemos», publicado no jornal Público, que li, eu e o resto do país. E resolvi então escrever-lhe uma carta aberta, para juntar às muitas outras que lhe têm escrito por estes dias a propósito do mesmo tema. Olhe, sempre é mais uma para pôr em cima da lareira ou do piano no Natal, que, com esse feitio não deve receber muitos postais de Boas Festas. Digo eu.
Por ignorância minha ou por não frequentarmos os mesmo círculos (nunca a vi, por exemplo, num after, ou, pelo menos, não tenho ideia disso), confesso que nunca tinha ouvido falar da Maria de Fátima. Mas soube agora, a propósito do frisson que causou o seu artigo, que ando a perder bastante, pois garantem-me que a Maria de Fátima é uma respeitadíssima e publicadíssima académica. Faz muito bem, que o saber não ocupa lugar. E, como diz o povo, um burro carregado de livros é um doutor. O povo é mesmo torto, credo.
Não conto que me responda, mas adorava que esclarecesse uma dúvida que me ficou da leitura do seu texto: a Maria de Fátima, no direito à duplicidade de que todos gozamos, escreveu-o na sua qualidade de Maria-de-Fátima-Académica ou na sua condição de Maria-de-Fátima-Calhandreira? Isto parece-me fundamental para compreender o que a Maria de Fátima escreveu. Se foi na sua condição de académica, a Maria de Fátima há-de dizer-me onde é que dá aulas, para eu escrever aqui num papel para não me esquecer de nunca lá pôr os meus filhos. Se foi na sua condição de calhandreira, estão os meus parabéns, o texto está ótimo!
Mas quero acreditar que a pessoa cuja crónica saiu no Público foi a Maria-de-Fátima-Calhandreira. É que a Maria-de-Fátima-Académica não faria generalizações como «os ciganos», «os africanos», e muito menos usaria como amostragem académica uma conversa que teve no elevador com a mulher-a-dias da sua vizinha de cima.
Dirijo-me, portanto, à Maria-de-Fátima-Calhandreira, com um intuito pedagógico. Não vou comentar a sua posição em relação ao sistema de quotas que tanto a incomoda. Discuti-la-ia com gosto com a Maria-de-Fátima-Académica, se ela assim quisesse. Mas, como já vimos, não é dela a prosa do artigo.
Abeiro-me assim da janela de onde a Maria-de-Fátima-Calhandreira, de óculos na ponta do nariz, casaco de malha coçado, e naperon de crochet crescendo numas agulhas, tece as suas considerações para quem a quiser ouvir.
Vou saltar por cima dos clichés estafados sobre os ciganos, que já não há pachorra para essa conversa, de tão pouco original. E qualquer taxista expõe melhor os seus argumentos do que a Maria de Fátima. Mas, Maria de Fátima, os africanos? A Maria de Fátima escreveu mesmo «os africanos»?
O que me parece faltar à Maria-de-Fátima-Calhandreira, como sói acontecer às calhandreiras, é mundo. É viajar, é ler, é ir ao cinema, que são três boas soluções para a falta de mundo. Uma mais cara, outra média e outra barata, para não haver desculpas.
África, Maria de Fátima, é um continente. Que vai do deserto à selva, da savana às montanhas. Tem o norte e tem o sul, tem o interior e o litoral, tem a costa atlântica e a costa oriental. E cada uma destas partes tem tanto a ver com as outras como têm a ver o olho do rabo com a Feira de Montemor, como também diz o povo.
África tem 30 milhões de quilómetros quadrados, 20% do total da área terreste. Tem 54 países. Tem cerca de 2000 línguas, com 140 delas faladas por vários milhões de pessoas. E, por falar em milhões de pessoas, sabia, Maria de Fátima, que «os africanos» são (números de 2018) 1.287.920.518 de pessoas? Vou dizer por extenso, pois creio ter lido que a Maria de Fátima é de Letras: mil duzentos e oitenta e sete milhões novecentas e vinte mil quinhentas e dezoito pessoas. Ou seja, há mais 1.287.920.517 de africanos, para além da mulher-a-dias da sua vizinha de cima, que a Maria de Fátima usou para resumir «os africanos». Já agora, estima-se que haja em África 380 milhões de cristãos, ao contrário do que a Maria de Fátima parece pensar, quando escreve que os africanos não «fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade». É bom de ver que a Maria de Fátima nunca leu, nem sequer nas revistas das Selecções do Reader’s Digest, na privacidade da sua casa de banho, que algumas das comunidades cristãs mais antigas do mundo (dos séculos I e II) são em África.
Mesmo dando de barato que a Maria de Fátima se referia à África que fala português, ficamos com cinco países, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, que ficam geograficamente em regiões tão distintas culturalmente como o noroeste, o sul, o oriente ou o meio do mar. E são cerca de 52.000.000 de pessoas. Cinquenta e dois milhões de pessoas.
Penso que foi a ignorância destes números que fez com que generalizasse que todos os africanos (e afrodescendentes) se «autoexcluem, possivelmente de modo menos agressivo [que os ciganos], da comunidade nacional»,  que «odeiam ciganos», que «constituem etnias irreconciliáveis», que «são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios», que «detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou "nacionalidades" rivais». E é aqui que usa o seu vasto conhecimento dos africanos, através do exemplo da mulher-a-dias da sua vizinha de cima, que, conta a Maria de Fátima, lhe disse: «Senhora, eu não sou preta, sou atlântica, cabo-verdiana». Desta história que a Maria de Fátima parece usar como exemplo académico, fica uma dúvida: a Maria de Fátima chamou preta à mulher-a-dias da sua vizinha de cima? É que, pun not intended, fica pouco claro.
Mais à frente no seu texto, e a propósito da criação de um observatório do racismo e da discriminação, escreve a Maria de Fátima: «Mas como é que se observa o racismo e a discriminação a partir dos gabinetes almofadados onde se sentariam os observadores? A única maneira de observar uma matéria tão fugidia e evanescente é frequentar feiras e supermercados baratos, é entrar nos bairros em que nem a polícia se atreve a pôr os pés». Isto escrito pela mulher que, umas linhas antes, usa o exemplo da mulher-a-dias da vizinha de cima para concluir que todos os africanos são racistas. Ai, Maria de Fátima, Maria de Fátima...
África e os africanos têm bastantes problemas, sabemos todos, e um deles, que não é de somenos, são os brancos como a Maria de Fátima que, por ignorância, mas também por maldade, usam o seu estatuto «académico» para despejar o seu ódio racista. Um discurso racista disfarçado por vezes de humanitário, trazendo para a conversa temas de facto sérios e graves como a excisão feminina, oferecendo, como contributo, a exclusão.
É curioso que a académica Maria de Fátima se queixe depois das portas escancaradas das Universidades, da entrada de analfabetos que resultaria do acesso irrestrito e incondicional ao ensino superior, quando a própria Maria de Fátima trata este tema — pelo menos neste artigo, a única coisa sua que li até hoje — como uma analfabeta.
A propósito do por vezes complicado choque de culturas, lembrei-me de uma história de Kofi Annan — pedindo-lhe desde já, Maria de Fátima, desculpa por usar o exemplo de um africano cuja craveira intelectual faz de si, Maria de Fátima, por comparação, uma analfabeta, cuja imensa pinta e classe fazem de si, Maria de Fátima, por comparação, uma frequentadora de supermercados baratos, e cujo prestígio internacional faz de si, Maria de Fátima, por comparação, tenho de dizer-lhe, a mulher-a-dias da sua vizinha de cima.
Kofi Annan casou, como sua segunda mulher, com uma condessa sueca. Vinda de um país, nas palavras da própria, onde «quando combinamos um jantar para as oito da noite, chegamos às sete e meia e ficamos a dar voltas de carro pelo bairro até chegar a hora marcada de bater à porta». Para o primeiro jantar que deu aos seus novos parentes africanos, fez a condessa um soufflé. Ora os seus novos parentes não chegaram às oito, nem chegaram às nove, chegaram às dez da noite. Já há muito que tinha ido o soufflé (que, penso que sabe, é um prato que tem de ser servido assim que sai do forno) para o caraças. A condessa ficou pior que estragada, claro. Depois de os parentes se irem embora, Annan, sempre um diplomata, lá acalmou a condessa. E acabaram por concordar que, no futuro, os parentes chegariam atrasados só uma hora e não duas, e que a condessa não voltaria a fazer soufflé.
São duas maneiras de encarar o «outro»: tratá-lo genericamente como um bárbaro selvagem, ou abdicar, de vez em quando, de um soufflé.
E esta escolha dirá sempre mais sobre «nós» do que sobre o «outro».