21 julho 2018

"queixo" (2)


Diz que há uma regra que obriga as mulheres da família real britânica a ter o #queixo sempre paralelo ao chão.

Li isso na internet em duas páginas diferentes, e até em línguas diferentes. Portanto, só pode ser verdade. Mas então, pergunto: como é que a rainha Vitória - que não tinha queixo - fazia?

E se alguma delas tiver queixo duplo, qual deles é que conta para o ângulo de 90 graus?

"queixo"


O simpático cavalheiro desta imagem é - se a wikipedia não me engana - o queixoso rei Maximiliano I da Áustria, pai de Filipe I de Espanha e avô de Carlos V/I (respectivamente imperador romano-germânico e rei de Espanha). Queixoso, sim, porque tinha um #queixo que deusmelivre, um queixo proeminente à maneira da Paris Hilton - e com isto quero dizer: demasiado, e sem servir para nada.

Ele, e os seus príncipes herdeiros mostrados neste retrato - todos queixosos, como se pode ver -, sofriam de prognatismo, também conhecido por mandíbula de Habsburgo, mandíbula de Áustria, maxilar de Habsburgo, maxilar de Áustria, lábio de Habsburgo ou lábio de Áustria. Trata-se de (mais uma citação da wikipedia) uma desordem genética desfigurativa, que se caracteriza pela existência de uma mandíbula inferior extremamente pronunciada, deixando como tal o lábio inferior significativamente afastado do superior.
Ora, a desordem genética surgiu na casa dos Habsburgos em finais do séc. XIV, num avozinho chamado Ernesto, mas por causa da mania de casar com os primos para manter o sangue puro e assim, aquele queixo lançado para a frente foi ganhando tal dimensão ao longo das gerações que - segundo me constou na internet - quando o imperador Carlos V entrou em Espanha para ser o rei Carlos I desse país, um camponês malcriado lhe atirou: "Majestade, feche a boca, pois as moscas deste país são muito insolentes".

Não sei o que é que aconteceu a esse camponês, if any, como também não sei que aconteceria aos pintores da corte se se descaíssem nos retratos que faziam. Pobre Velásquez, entre outros. Como retratar fielmente e ao mesmo tempo ocultar o queixo no meio da sala?

E pobres Habsburgos, que não tinham culpa nenhuma das políticas de casamentos ó pra trás, e nasciam com a cara tão desfigurada que nem conseguiam unir os lábios, nem mastigar como deve ser, nem falar com boa pronúncia. E um deles, o último, por sinal, nem filhos conseguiu fazer (também, pudera: com tal boca, os beijos dele haviam de ser bons, haviam...) (ponha o dedo no ar quem agora mesmo puxou o maxilar para a frente e tentou imaginar como se dá um beijo com os lábios assim afastados).

De modo que acabou-se ali a casa dos Habsburgos no trono de Espanha, e os Bourbon tomaram conta do assunto. Mas por causa das coisas e das primas também levavam consigo a tara do queixo grande, à qual, segundo dizem, acrescentaram mais algumas. Ouvi falar em loucura e em elevado apetite sexual, mas se calhar é boato.

"Ovídio"

Post encontrado por acaso no arquivo da Enciclopédia:

Ovídio

Lembram-se do eng. Sousa Veloso que passava a vida a falar do Ovídio da videira?

(Muitos anos mais tarde descobri que era oídio e não ovídio. Mas queria aqui deixar registado que quando erro, erro para grande: por menos que os clássicos, nem me dou ao trabalho de errar.

Agora pago a cervejinha da multa e acrescento aquela vez que a minha mãe perguntou se alguém sabia das meias do bebé e eu, com 3 anos, respondi que sabia: estavam no castelo do D. Afonso Henriques.
Eram as ameias. 


No infantário brincávamos muito aos cristãos e os mouros. Mas acho que não brincávamos aos ovídios, que aquilo era um infantário católico, não havia lá nada dessas porcarias.)

20 julho 2018

o melhor lugar do mundo é aqui - e agora

Gilberto Gil & Amigos - Refavela 40, 19 de Julho de 2018 em Berlim. O gingar da Bahia mesmo ao lado da chancelaria alemã, o sol, o terraço da Haus der Kulturen der Welt com o seu espantoso edifício a fazer de cenário. E o Gilberto Gil no centro de tudo: "canta, Berlim".

O melhor lugar do mundo foi ali, durante aquele concerto.

(Excepto a barulheira do público - este pessoal não tem cafés para se encontrar e pôr a conversa em dia?)



O concerto completo:










"parque" (2)

(Isto sou eu a usar o blogue como repositório das gargalhadas que às vezes me acontecem na Enciclopédia Ilustrada)

Post de uma colega enciclopedista, a propósito de "parque":













“Lagoa tranquila no #parque de Schloss Kammer”,
pintura de GUSTAV KLIMT, 1899

Comentário de outro colega enciclopedista:
Este quadro deve ter sido inspirado nas fotos da nossa
#querida_lider. Da série: o fotógrafo que veio do frio.



(Sim, na Enciclopédia Ilustrada chamam-me "querida líder". Já não há respeitinho...)


"parque" (1)

I.



Por causa desta minha carburação lenta ainda me vou desgraçar em multas pagas em mines. Bem me digo que por causa dos fusos horários vou dormir quando os colegas estão mais activos, e depois escrevo quando todos os outros ainda estão a dormir, e portanto - tecnicamente, digamos - ainda estamos na palavra mágica do dia anterior, mas a verdade é que um dia destes me vou desgraçar em mines, e nem a alma se me aproveita.
A propósito de um post sobre um  #parque temático da Madeira lembrei-me de um parque temático em grande, feito entre Berlim e Potsdam por um Kaiser alemão que gostava de brincar às casinhas. Nada menos que uma pequena Europa: o palácio italiano de Glienicke, o palácio inglês de Babelsberg (com o seu magnífico parque à maneira inglesa, com ruínas e tudo) (aimeudeus, que acabei de me lembrar de idêntico parque feito por Goethe em Weimar, com ruínas construídas usando as pedras do palácio ducal que tinha ardido poucos anos antes, etc., e se vou por aí só acabo daqui a duas ou três palavras mágicas) e, obviamente, uma aldeia suíça entre a Itália e a Inglaterra. Esta aldeia, com os seus chalets de madeira, é Klein-Glienicke, que ficou famosa por ser um "exclave" da RDA em Berlim Ocidental. Vejam o mapa: a fronteira passava pelo meio do canal, e este separava a aldeia de Klein-Glienicke do resto da RDA. Para fugir para Berlim ocidental, bastava saltar para um dos barcos que passavam encostadinhos ao fundo do quintal.
Quem vem a Berlim não costuma ir passear para aqueles lados, mas vale bem a pena ir visitar este parque temático imperial e, em particular, a aldeia que conserva ainda alguns dos chalets suíços (outros foram arrasados porque estavam demasiado perto do muro, e bastava saltar da varanda para entrar em Berlim ocidental) mas da qual se apagou praticamente tudo o que era vestígio desse tempo de má memória que foi o do muro de Berlim.
A ponte de Glienicke, essa grande do lado esquerdo da imagem, é a famosa ponte onde se trocavam os espiões.
(Se isto fosse os EUA já tínhamos aqui um fantástico parque de diversões, com pipocas, hot dogs e entradas a 20 dólares...) (vá, aproveitem enquanto é de graça)



II.

 

Carburação lenta, take 2 - para falar das colónias berlinenses do fim do século XIX. Por exemplo: a Colonie Alsen, no Wannsee, criada na segunda metade do séc. XIX como zona de fim-de-semana e repouso das famílias mais ricas de Berlim (perto do parque temático de que falei no post anterior), ou a "Colónia dos milionários Grunewald" (https://bit.ly/2LC0mt6), criada à imagem da Alsen, mas como zona residencial bem mais próxima do centro da cidade.
Os planos que aqui partilho mostram bem que os projectos de ambas previam talhões imensos, com apenas um palacete (mais as casinhas do porteiro, do jardineiro, etc.). Ou seja: uma casa no meio de um #parque privado. O projecto de Grunewald incluiu ainda a criação de vários lagos artificiais (esses que eu agora fotografo nos passeios com o Fox).
Ao longo dos cem anos seguintes, os parques foram dando lugar a mais casas. Por um lado a pressão imobiliária, que era enorme, por outro a crise de 1929, que obrigou muitos dos proprietários a vender parte do parque para fazer frente às despesas, mais a guerra que destruiu algumas das casas, mais os herdeiros que não tinham como manter tudo e vendiam talhões do parque, tudo isso contribuiu para que a actual paisagem destas ruas pareça uma anedota urbanística de mau gosto: a um palacete de ricos burgueses segue-se uma casa dos anos 30, depois um cubículo minimalista dos anos 60, depois um horror dos anos 90, e logo a seguir outro palacete de ricos burgueses do séc. XIX, uma casa dos anos 30, e assim sucessivamente. Em alguns casos, todas essas construções de épocas diferentes aparecem unidas pelo muro original do parque privado.
Entrem no google street view, e passeiem por lá (endereços possíveis: "Am grossen Wannsee" ou as ruas que saem da estação de S-Grunewald) para ver o aspecto actual desses bairros.


III.
Carburação lenta, take 3 (e último, que eu não ganho para mines, e vocês ainda acabam todos no vício só por minha culpa): os #parques nacionais. Não sei bem em que século começou a haver essa preocupação de preservar a natureza e a paisagem natural, mas em tardia hora criaram todos esses parques que hoje procuramos em busca de uma beleza e um equilíbrio perdidos. Isto dava para muitos exemplos e parágrafos de conversa, mas deixo apenas uma pergunta: não teria sido mais inteligente definir todo o mundo como Parque Mundial, e impor necessidade de autorização e regras claras para poder ocupar e estragar? E será que ainda vamos a tempo de mudar o paradigma?
(Diz a artista que está calmamente à espera que as duas leiras que tem numa aldeia minhota passem a ser consideradas terreno de construção...) (olhem para o que eu digo, olhem para o que eu digo, porque se olham para o que faço não vamos a lado nenhum)


19 julho 2018

verde vinho

Há dias lembraram na Enciclopédia Ilustrada a canção "Verde Vinho", de Paulo Alexandre.
Agora, quando está a chegar "aquele querido mês de Agosto" com as suas vagas de portugueses da diáspora que voltam à terra para matar saudades, este quase hino do emigrante regressa à ordem do dia. A canção mostra tão bem essa saudade sentida por quem está longe da sua casa, que nunca tive dúvidas: é inteiramente portuguesa. Mas isso foi só até ter ido morar para a Alemanha, até a ouvir na rádio, cantada em alemão. A primeira reacção foi: "ai! roubaram-nos o nosso Verde Vinho!"

Nada disso. A canção original é alemã, e refere-se aos estrangeiros que nos anos sessenta e setenta chegaram à Alemanha como resultado dos acordos entre a Alemanha e outros países (
Itália em 1955, Espanha e Grécia em 1960, Turquia em 1961, Marrocos em 1963, Portugal em 1964, Tunísia em 1965 e Jugoslávia em 1967). Em 1974, data em que surgiu o álbum, havia na Alemanha Ocidental quatro milhões de emigrantes, cerca de 7% da população total. A maior parte desses estrangeiros era constituída por turcos, jugoslavos e gregos. Muitos deles tinham feito viagens de vários dias em comboios enviados pela Alemanha sem cuidar das suas necessidades mais básicas (bancos sem apoio de cabeça, sem espaço para se estenderem a dormir), e eram alojados em barracas ou prédios sem condições (e, até 1973, com os standards mínimos definidos em função do país de origem das pessoas ali alojadas). A Alemanha chamava-lhes Gastarbeiter, "trabalhadores convidados", e via-os antes de mais como factores de produção que seriam usados temporariamente e depois devolvidos ao país de origem. Não se previa que ficassem para sempre - de facto, nem sequer estava previsto que viessem com a família. O país só estava interessado em factores de produção, e naquelas pessoas via apenas mão-de-obra. Que em breve, assim se esperava, seria substituída pelas máquinas entretanto inventadas. Mas enquanto as máquinas não vinham, vinham aqueles homens de países pobres, que - tal como os jornais começaram a alertar - ganhavam menos que os alemães, faziam inúmeras horas extraordinárias para poder enviar mais dinheiro para a família, viviam em espeluncas onde mais ninguém queria viver (e também em caves, sótãos, garagens) e pagavam rendas de casa muito superiores ao que era habitual.  

É neste contexto que surge a canção "Vinho Grego", na qual um alemão conta a história do dia em que, para fugir ao frio, entrou por acaso num bar que estava cheio de "homens de olhos castanhos" e tinha uma jukebox a tocar "música do sul". Passa-se na região industrial do Ruhr, nos anos sessenta, com emigrantes gregos recém-chegados. Ao contrário da versão portuguesa, que conta na primeira pessoa apenas a perspectiva dos tais "homens de olhos castanhos", a original é sobre um encontro entre pessoas de culturas diferentes. A canção revela aos alemães que, sob a capa de "factores de produção", existem seres humanos com uma história, com sentimentos e com necessidades.
Em 1974, cerca de uma década depois de o país começar a ser confrontado com a entrada de estrangeiros do sul da Europa em grandes vagas, está lá tudo: a empatia, a capacidade de entrar na pele do outro e de se dar conta do sofrimento e das dificuldades da sua vida. 
O álbum foi um enorme sucesso.

O que me intriga é a mudança de foco na tradução para o português: porque é que Paulo Alexandre pôs de lado este extraordinário momento de encontro de culturas e de recusa da cegueira e do egoísmo nacional, e transformou a canção numa "saudadice" pegada, focando-se na identidade dos portugueses na diáspora? Não seria muito mais rico contar em português este momento em que um "deles" viu, ouviu e entendeu o sofrimento dos "nossos"?

O texto português é conhecido. Por falta de tempo para traduzir o texto alemão, passo uma tradução para inglês que encontrei na internet:
Greek Wine


It was already dark when I walked home through the streets of the suburb.

There was a pub where there was still light pouring out onto the boardwalk.
I had time and I was cold, so I stepped inside.

Men with brown eyes and black hair were sitting there
And the music coming out of the jukebox was strange and exotic.
When they saw me one of them got up and invited me.

Greek wine is like the blood of the earth,
Come, pour yourself a glass.
And when I get sad, then it is because
I always dream of home,
You've got to excuse me.

Greek wine and the well-known songs
Pour another one
Because I feel the yearning for home again, in this city
I will forever be a stranger and alone.

And then they told me about green hills, the sea and the wind.
About abandoned women and old houses.
And about the child that has never seen its father.

They kept telling themselves, one day we'll go back
And the money saved up will be enough for a small fortune at home.
And soon nobody will think about it anymore, how it has been over here.

Greek wine is like the blood of the earth,
Come, pour yourself a glass.
And when I get sad, then it is because
I always dream of home,
You've got to excuse me.

Greek wine and the well-known songs,
Pour another one
Because I feel the yearning for home again, in this city
I will forever be a stranger and alone.



https://lyricstranslate.com/de/griechischer-wein-greek-wine.html

Greek Wine

It was already dark when I walked home through the streets of the suburb.
There was a pub where there was still light pouring out onto the boardwalk.
I had time and I was cold, so I stepped inside.
Men with brown eyes and black hair were sitting there
And the music coming out of the jukebox was strange and exotic1.
When they saw me one of them got up and invited me.
Greek wine is like the blood of the earth,
Come, pour yourself a glass.
And when I get sad, then it is because
I always dream of home,
You've got to excuse me.
Greek wine and the songs known of old,
Pour another one
Because I feel the yearning for home again, in this city
I will forever be a stranger and alone.
And then they told me about green hills, the sea and the wind.
About old houses and young women who are on their own.
And about the child that has never seen its father.
They kept telling themselves, one day we'll go back
And the money saved up will be enough for a small fortune at home.
And soon nobody will think about it anymore, how it has been over here.
Greek wine is like the blood of the earth,
Come, pour yourself a glass.
And when I get sad, then it is because
I always dream of home,
You've got to excuse me.
Greek wine and the songs known of old,
Pour another one
Because I feel the yearning for home again, in this city
I will forever be a stranger and alone.







(fonte dos dados acima: https://www.boeckler.de/pdf/p_wsi_report_16_2014.pdf)

18 julho 2018

poderoso soporífero

Qual é o google-doodle que vos aparece hoje? O meu é este:


Kurt Masur faria 91 anos. Aparentemente, é este o doodle que hoje se vê nos EUA, na Islândia, na Alemanha, na Bielorrússia e no Japão.

No Paquistão, o Google assinala o 91º aniversário do músico Mehdi Assan:










E em alguns países do Sul da Europa, em Israel, Austrália e Nova Zelândia o Google doodle é sobre o 104º aniversário do ciclista Gino Bartali, que salvou vários judeus do Holocausto.



Acontece que hoje se comemora o centenário de Nelson Mandela. Será que alguém anda a dormir profundamente ali para os lados do Google?

(Mas calma: isto não é nem um apelo à revolta nas redes sociais, nem uma insinuação de uma conspiração qualquer, nem nada. É um mero apontamento.) (Já agora, se me dissessem qual é o soporífero que usam...)


"Nelson Mandela"

Hoje a Enciclopédia Ilustrada tem um especial "Nelson Mandela" - et pour cause.

Partilho o contributo do Lutz Brückelmann:



Hoje temos #Nelson_Mandela unanimamente por uma das maiores figuras do século XX, um exemplo moral.
Isto não foi sempre assim.
Para Ronald Reagan, Mandela era um terrorista, e o ANC só foi removido da lista de organizações terroristas dos EUA em 2008!
O partido conservador britânico de Margaret Thatcher, e a iron lady herself, chamaram-no o "Black Terrorist" e o ANC uma „típica organização terrorista“. Deputados defendiam que fosse fuzilado. Quem acreditava que esta organização pudesse uma vez governar, vivia em „cloud cuckoo land“, disse Thatcher. Durante muitos anos, ela bloqueou, junto com o seu amigo Reagan, sanções contra o regime de Apartheid.
Na Alemanha ocidental, este regime tinha um defensor incansável em Franz Josef Strauß, o poderoso Primeiro Ministro da Baviera. Não aceitava sequer o termo „Apartheid“. Na sua opinião, a postura de elevada responsabilidade religiosa e moral do governo da Africa do Sul era um modelo para o mundo. Assim disse nos anos 60. E no fim dos anos 80, quando a comunidade mundial finalmente aplicou sanções, disse que nunca, na sua carreira política de 40 anos, tinha visto um tratamento tão injusto dum país como a que a Africa do Sul recebeu.
O concerto na ocasião dos 70 anos de Mandela em 1988, ainda preso na altura, foi emitido em grande parte do mundo, exceto na Baviera. Aqui, por iniciativa do governo, as emissoras substituiram o programa com a reposição duma telenovela.

Estas histórias dão me vontade de dizer o que muitas vezes penso, mas normalmente não digo:
Que os conservadores, ao longo da história, têm escolhido em questões morais consistentemente o lado errado. Se tivessem sempre vencido, ainda teriamos a escravatura, a tortura, a pena da morte, a menoridade das mulheres, não teriamos democracia, nem tribunais independentes, nem liberdade de expressão, nem saúde pública, nem segurança no trabalho.

--

E depois, num comentário:

Nos casos referidos, e em inúmeros outros, pode equacionar-se a postura conservadora - aqui: a favor da conservação da discriminação racial - com um clara inferioridade moral. Mas, como aprendi com Pedro Mexia e outros, há, filosoficamente, uma defesa teórica do conservadorismo do ponto de vista moral. O argumento visa não o conteúdo, mas o procedimento. A tentativa de alterar um statu quo imperfeito pode levar, dizem, em vez de para o melhor, para uma situação muito pior. Ser conservador é, visto assim, apenas ser prudente, e isto pode ser um imperativo moral.
Salta a vista, claro, que os que empregam este argumento, sempre estão bem na vida o suficiente para que não necessitem de alteração da situação para eles. Se necessitassem, por passarem fome ou serem escravos, por exemplo, estariam certamente dispostos de tomar riscos maiores. E há ainda muitos conservadores de convicção, que acreditam piamente na desigualdade enquanto uma lei da natureza que não só é impossível de alterar mas nem sequer se deve procurar superar!
Perante estes, já não encontro terreno comum para um diálogo moral.

O tema, claro, não se esgota nisto...



n't


Podia ser uma sitcom, mas é o presidente do país mais poderoso do mundo: na presença de Putin disse que não tem motivos para acreditar na interferência da Rússia nas eleições dos EUA, uma vez que o Putin foi muito assertivo quando a negou; e de volta a casa, tenta corrigir os estragos com uma desculpa esfarrapada: onde estava "would" era para estar "wouldn't".
E corrige-se lendo atentamente o que está escrito num papel, para ter a certeza que diz o que lhe mandaram e não o que está a pensar (e mal tira os olhos do papel logo lhe cai a máscara).

Quem quer acreditar, acredita. Os outros ficam ainda mais perplexos, furiosos e tristes.

Trevor Noah, Jimmy Kimmel e Stephen Colbert alertam - mas, como numa sitcom, o mundo ri-se, e fica pronto para a cena seguinte.

Ultimamente tenho-me lembrado muito do papel fundamental do humor como válvula de escape para a tensão, que nos ajuda a aguentar por mais algum tempo situações que racionalmente temos por inaceitáveis. Será que, sem este tipo de programas, já teria deflagrado uma guerra civil nos EUA?

 








residência alternada

A propósito do excelente artigo de Luís Aguiar-Conraria, "she for he":

Uma vez - e já lá vão trinta anos - ouvi às filhas de um casal recém-divorciado esta notícia alegre: "agora temos duas casas!" 
Sem dramas. As miúdas sentiram o divórcio como um alargamento do mundo delas.

Também conheci um rapazinho que passava metade da semana na mãe e a outra metade no pai, e odiava.

E conheço um casal que teve uma ideia inovadora (e caríssima): os filhos ficavam na casa da família. Os pais tinham cada um o seu apartamento, e cada um deles passava metade da semana com os filhos, na casa da família. 
Mas depois reconciliaram-se, pelo que se perdeu uma magnífica experiência.

Embora nem tudo seja novo nesta ideia: conheço alguns casais que se divorciaram mas continuaram a usar a casa de férias alternadamente.



mostre-me um país



Dêem-me uma câmara, um objectivo (seja ele provar que o pessoal é todo muito burro, ou que o pessoal é todo muito esperto, ou que determinado grupo etário é ignorante, ou que as pessoas vestidas com uma certa cor são todas um génio), e o tempo suficiente para recolher as amostras necessárias.

Consigo provar tudo o que quiserem.
 
Primeiro truque: apanhar as pessoas na rua, desprevenidas, e pespegar-lhes um mapa diferente daquele a que estão habituadas (se bem me lembro, os mapas nos EUA são iguais aos europeus; só na China vi mapas com o Pacífico no centro, em vez do Atlântico). Gravar a primeira reacção. Ignorar o momento em que as pessoas percebem o mapa e começam a acertar.
 
 

17 julho 2018

a bola é minha, é uma bola maravilhosa, é a melhor bola do mundo, e é minha, e eu meto-a na baliza que muito bem me apetecer, todas as balizas são minhas, e são balizas maravilhosas, e sempre que meto a minha bola numa das minhas balizas marco um golo, e é um golo fantástico, acreditem em mim



Ontem um jornalista alemão perguntava-se qual será o motivo do fascínio de Trump por autocratas como Putin e Kim Jong Un. No ponto a que chegámos, é mera questão de retórica. Trump ofereceu de mão beijada a Kim Jong Un e a Putin cenas que lhes permitem reforçar o seu poder interno, sancionou o comportamento inaceitável de Putin no plano internacional e abriu brechas no bom entendimento com os antigos aliados baseado em valores democráticos comuns. Nos dias que antecederam o encontro com Putin andou feito elefante na loja de porcelana que é o projecto da União Europeia, hostilizando e humilhando os dirigentes do mundo democrático ocidental, falando da Alemanha e da Grã-Bretanha como se estes países não passassem de colónias dos EUA. E agora chegou ao ponto de atacar os seus próprios serviços de informação.

Thomas L. Friedman acusa, num artigo irado no NYT:

There is overwhelming evidence that our president, for the first time in our history, is deliberately or through gross negligence or because of his own twisted personality engaged in treasonous behavior — behavior that violates his oath of office to “preserve, protect and defend the Constitution of the United States.”
(...)

It started with the shocking tweet that Trump issued before he even sat down with Putin this morning: “Our relationship with Russia has NEVER been worse thanks to many years of U.S. foolishness and stupidity and now, the Rigged Witch Hunt!”
(...)
It only got worse when, in his joint news conference with Putin, Trump was asked explicitly if he believed the conclusion of his intelligence agencies that Russia hacked our elections. The president of the United States basically threw his entire intelligence establishment under a bus, while throwing out a cloud of dust about Hillary Clinton’s server to disguise what he was doing.
Trump actually said on the question of who hacked our election, “I don’t see any reason why it would be” Russia. And in a bit of shocking moral equivalence, Trump added of the United States and Russia: “We are all to blame … both made some mistakes.” Trump said that it was actually the American probe into the Russian hacking that has “kept us apart.”
(...)

In the past few years what has Putin done to deserve an American president sucking up to him for an “extraordinary” relationship? Putin has seized Crimea, covertly invaded Ukraine, provided the missiles that shot down a civilian Malaysian airliner over Ukraine, bombed tens of thousands of refugees out of Syria into Europe, destabilizing Europe, been involved in the death of a British woman who accidentally handled a Russian nerve agent deployed to kill ex-Russian agents in England and deployed misinformation to help tip the vote in Britain toward exiting and fracturing the European Union.
Most of all, Putin unleashed a cyberattack on America’s electoral process, aimed at both electing Trump — with or without Trump’s collusion — and sowing division among American citizens.
Our intelligence agencies have no doubt about this: Last week, America’s director of national intelligence, Dan Coats, described Putin’s cybercampaign as one designed “to exploit America’s openness in order to undermine our long-term competitive advantage.” Coats added that America’s digital infrastructure “is literally under attack,” adding that there was “no question” that Russia was the “most aggressive foreign actor.”

No Spiegel, Dirk Kurkweit explica o motivo pueril para a alta traição de Trump:

Trump tem um trauma, sobre isso não há dúvidas. Esse trauma mostrou-se mais uma vez ontem, na conferência de imprensa com Putin. Uma das consequências é ele mostrar publicamente que considera o presidente russo pelo menos tão digno de confiança como os seus serviços de informação. Estes dizem que os colegas russos intervieram na campanha eleitoral dos EUA em 2016. Putin nega essa acusação, e Trump está muito inclinado a acreditar nele.
Sendo Trump quem é, não é capaz de admitir que as eleições foram em parte manipuladas. Isso acrescentaria uma sombra à sua vitória eleitoral (teve menos votos que Hillary Clinton, e pessoas dos seus círculos próximos tiveram contactos com personagens russas obscuras). Por esse motivo, Trump sente-se permanentemente pressionado para se justificar - tal como aconteceu ontem: elogia a sua "fantástica" campanha eleitoral e faz questão de acreditar em Putin quando este diz que não houve intromissão russa.
Ao contrário do que Trump afirmou recentemente, não é a Alemanha que se deixou aprisionar por Putin. É o próprio Trump quem está preso: não tem liberdade para formar uma opinião sobre Putin, porque se sente obrigado a convencer todos de que o presidente russo é uma pessoa de confiança. Só assim mantém a imagem de grande vencedor das eleições na qual Trump quer acreditar. Para isso, Trump põe-se entre Putin e o seu próprio Estado. Bizarro


--

É um mero detalhe, mas diz muito sobre Trump: no final de um campeonato mundial que arrebatou a Rússia, Putin oferece a Trump uma bola de futebol e diz que agora está do lado dele. Trump não capta o símbolo e o momento, e responde que vai dar a bola ao seu filho de 12 anos. "Melania, toma!"


16 julho 2018

"Minho"







 O #Minho é tão meu que em criança acreditava ser este nome o resultado do tão minhoto costume de dar a tudo um diminutivo: "minho" seria o diminutivo de "meu".
Ele meu, e eu dele:
- És Minho.
- És Minha.
Poupo-vos os detalhes deste amor. Conto apenas o momento em que o descobri, já largamente entrada na adolescência: ia a descer uma vereda que conhecia de cor e salteado, e de repente reparei na beleza dos verdes, dos terraços, da luz. Fiquei parada, perplexa, em exaltação muda. E nunca mais olhei para aquela terra com a cegueira do hábito.
Anos mais tarde, ao calcorrear com uma amiga alemã o caminho entre os muros de pedra que leva à minha casa, quis partilhar com ela essa antiga exaltação:
- Adoro esta beleza!
- Qual?, perguntou ela.
- Então não vês? O chão de terra, os tufos de margaridas nas pedras dos muros, o verde dos pinheiros...
Ela encolheu os ombros:
- É apenas um caminho de terra batida, entre muros de pedra...
Deve ser isso a Heimat: onde outros vêem terra e pedras, nós pomos a beleza que nos dá sentido às raízes.

14 julho 2018

mundial de futebol, o penúltimo dia



MF 2018 o penúltimo dia

Trump believes he can fly, antes do encontro com o seu colega russo mostra-se com aspecto um pouco inchado, uma preocupação enorme para as forças de segurança. Na segunda-feira o espaço aéreo finlandês estará fechado, a cidade de Helsínquia será passada a pente fino em busca de objectos cortantes, e os finlandeses não devem soprar com muita força.



mundial de futebol, 1 dia antes da final






MF 2018 1 dia antes da final

Ele está de volta, o cavaleiro de pónei do Apocalipse, sem rugas e com o seu sorriso sedutor. De inveja, o esquilo do Donald vai-lhe cair da cabeça. O eixo do mal vai ser redefinido.

efeito das drogas


A imagem mostra o efeito de drogas diferentes nas teias de uma aranha, mas tem três erros graves:

- Tortura de animais (pobre da aranha - nem quero pensar como será o trabalho de fazer uma teia estando assim atordoada por drogas).

- Testa o efeito de drogas relativamente pouco usadas, mas deixa de fora a mais comum (caso para dar os parabéns ao álcool: apesar de ser a droga que mais estragos faz na nossa sociedade, conseguiu um lugarzinho ao sol no palco dos problemas com os quais convivemos lindamente. Andam por aí imagens do Juncker a cair de bêbedo, literalmente, na cimeira da NATO, como andaram imagens dele a comportar-se de forma indigna com os representantes dos países da UE, mas no pasa nada.)

- A legenda da figura em cima à esquerda está trocada com a legenda da figura em baixo à direita. Pelo menos, se eu fosse aranha, as minhas teias saíam assim: a do canto inferior direito sou eu sem café. Para fazer a teia certinha como a do canto superior esquerdo, precisava de uma bela dose de café descarregada directamente para a veia. E por falar nisso...
Volto já.


13 julho 2018

mais um bocadinho e ainda me arrisco a cantar o hino nacional logo pela manhã...


Esta manhã o Spiegel trazia uma série de fotos sobre as mais belas bibliotecas do mundo. Do grupo de dezasseis, três eram portuguesas (Coimbra, Mafra, e o Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro).

E assim se alegra um coraçãozinho português numa madrugada em Berlim: Heróis do mar, nobre povo, nação valente!

Mas a seguir dou-me conta de que este é um orgulho deslocado. Estas bibliotecas não são mérito meu. Limitei-me a nascer por acaso no país onde, em séculos passados, outros as fizeram. Aliás: sendo emigrante, nem sequer pago no meu país os impostos que permitem pagar os custos destes edifícios.

E então olho para mim, toda contente como se o Spiegel estivesse a falar de algum feito meu: estou a fazer figura de emplastro da História.


12 julho 2018

o futebol, os russos - e as mulheres a quem eles chamavam suas

 

Na série do Wladimir Kaminer sobre o mundial de futebol na Rússia, vários posts são sobre a interacção entre os estrangeiros e as mulheres russas. Pensava eu que era piada do escritor, mas um artigo do dia 5 de julho no jornal Süddeutsche Zeitung esclareceu-me. Muito resumidamente, o artigo de Julian Hans, a partir de Moscovo, diz isto:


O filme mostra as imagens habituais de uma festa internacional de desporto: pessoas que não se conhecem, de diferentes regiões do mundo, dançam em conjunto na rua, cantam e confraternizam. Mas o vídeo em questão só se tornou realmente famoso quando as pessoas se deram conta da letra da canção que os alegres brasileiros cantavam para a russa loira no meio deles: "Buceta rosa". Aos ouvidos russos, isto soa a "um ramo de rosas" - e este mal-entendido seria o motivo pelo qual a rapariga entrou naquela dinâmica de grupo. O verdadeiro significado da expressão em português explica, por seu lado, o riso alarve dos turistas. A primeira reacção veio das mulheres russas, furiosas. A seguir, os homens do filme foram reconhecidos pelos seus colegas no Brasil, perderam o emprego, e as associações de fãs brasileiras apresentaram pedidos de desculpa. 

"Buceta rosa" tornou-se um sinónimo

O caso podia estar encerrado, mas na Rússia a expressão "Buceta rosa" tornou-se um sinónimo da discussão sobre quanta proximidade se deve permitir a estes estranhos que vêm às centenas de milhares não apenas para Moscovo, mas também para outras cidades que raramente vêem turistas. A invasão de fãs na sua maioria homens jovens provocou insegurança sobretudo aos homens do país, e deu origem a um debate sobre a relação entre homens e mulheres na Rússia.
O primeiro entusiasmo em relação aos divertidos mexicanos com os seus sombreros, os brasileiros com os seus tambores e os argentinos com as suas danças deu lugar a uma onda de raiva descarregada na internet (e não só), que se instalou no ambiente deste mundial de futebol. Mulheres que punham nas redes sociais fotos suas com estrangeiros eram insultadas como "puta", "protecção de colchão" e "dollar-Nataschas" - por muito inócua que fosse a imagem do seu encontro fortuito com um estrangeiro. Se na foto se via um homem negro, chamavam "tinteiro" à mulher. O tablóide Moskowskij Komsomolez  publicou um texto com o título "A hora das libertinas: como as mulheres russas envergonham o seu país e a si próprias no mundial de futebol". E nos talkshows do canal televisivo estatal o tom não é muito diferente.
As feministas debatem se é realmente tão bom trocar o machismo dos seus próprios homens pelo dos estrangeiros.
A indignação devido aos contactos entre as mulheres russas e os estrangeiros é um caso clássico de frustração nas relações entre os sexos. Até ao mundial de futebol, não era habitual os russos terem contactos com estrangeiros, e a imagem destes era muito determinada pela propaganda da televisão estatal. "Gayropa" é o nome injurioso dado a essa Europa onde dizem que já não há homens verdadeiros. E de repente o país enche-se de jovens com muito bom aspecto que começam a flirtar com as russas!

Há muito que o número de mulheres é superior ao de homens

Na Rússia, há menos homens que mulheres, mesmo já nas gerações mais jovens. Alguns motivos: violência, alcoolismo, comportamentos de risco que têm mais incidência nos homens que nas mulheres - e mais ainda no caso dos russos. Além disso, o elevadíssimo número de homens vítimas da revolução, do terror de Estaline e da guerra contra Hitler fez com que a sociedade se habituasse à ideia de haver menos homens que mulheres.
As mulheres russas queixam-se de que os homens não se esforçam por agradar porque estão convencidos de que são um exemplar raro. E a propaganda patriótica contribui para agravar o problema, por louvar exageradamente os homens. Finalmente, há uma pressão excessiva sobre as mulheres jovens: "quando é que casas? quando é que começas a ter filhos?"
E é neste clima que as ruas se enchem com a alegria e a animação dos estrangeiros. O Tinder está cheio de fãs de futebol, e as russas estão com vontade de experimentar algo novo, nem que seja um simples flirt, que é algo muito raro no seu quotidiano. Entretanto, os homens russos comportam-se como se pensassem que as mulheres são sua propriedade. Com algumas excepções, como o chefe de redacção do portal Sports.ru, que sintetizou assim: "as mulheres russas podem ter sexo com qualquer um que lhes pareça suficientemente atraente para isso".


mundial de futebol, 4 dias antes da final


MF 2018 4 dias antes da final

Todos estavam à espera que a bela carruagem só retomasse a forma de abóbora à meia-noite do próximo domingo. Mas em alguns lugares a carruagem já começa a desfazer-se. Aqui vê-se Nischnij Novgorod 4 dias antes da final.