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06 junho 2020

"diáspora"

Trinta anos a viver em #diáspora, e é isto:


1. Não sei a que terra pertenço. Gosto das duas. Ando entre uma e outra, e em ambas me sinto em casa e, simultaneamente, fora de casa. Na Alemanha sou a portuguesa, em Portugal sou a "alemoa".


2. Na diáspora os portugueses mantém os bons e os maus hábitos de casa. Já me aconteceu de uma "tia" portuguesa que vive em Berlim me ter olhado de alto a baixo com todo o descaramento para decidir em que nível do sistema português de castas me arrumava. Arrumou-me numa casta bem mais baixa que a dela, e passou a tratar-me de acordo com isso. Ora, isto devia ser um perfeito disparate em qualquer lugar do mundo - e numa sociedade descomplexada e igualitária como a berlinense, é-o ainda mais. E dá nas vistas: bem me lembro do choque de um amigo meu, alemão, quando a viu a começar a falar com outra pessoa enquanto eu ainda estava a meio da resposta à pergunta que me fizera. "Mas que grande falta de chá!", comentou ele, perplexo. Coitada da tia, não imagina a péssima impressão que deixa nas pessoas quando não está no seu habitat da Linha.


3. Quando fui morar para a Alemanha, há trinta anos, telefonava para os amigos portugueses para "rir em português". Era o que mais falta me fazia - mais ainda que o mar, ou o bacalhau.


4. Quando já falava algum alemão fui viver em casa de uma amiga, que tinha um filho de 3 anos. O miúdo adorava-me, mas ao mesmo tempo tinha algumas reservas em relação a mim, porque eu não sabia coisas básicas. Por exemplo, não sabia o que era um melro.
- Mãe, ela é tão burra! Nem sabe o que é uma "Amsel"!
- Não é burra - disse a mãe. É portuguesa.


5. Não conhecer as palavras foi um problema enorme, a princípio. Uma pessoa fica prisioneira dentro de si própria, incapaz de comunicar com o mundo. Incapaz de dizer o que pensa. Com muito trabalho entendia o tema da conversa, compunha uma frase para participar, dizia-a - mas entretanto o tema já tinha mudado. Eles ficavam a olhar para mim como se fosse, digamos, um bocadinho limitada.


6. Desde há quase uma década que participo na organização da sardinhada do 10 de Junho (ou por volta dessa data) para os portugueses que vivem em Berlim. O pessoal gosta imenso de passar a tarde num parque a comer sardinhas assadas em cima de broa, a conversar com amigos e conhecidos em pequenos grupos à volta de mantas de piquenique. É sempre coisa para várias centenas de pessoas. E depois, há a animação: o workshop de bombos, o grupo de folclore, os fados e guitarradas...
É tudo muito bonito, mas: imaginem a paciência dos alemães que moram nas vizinhanças do parque. O cheiro a sardinha, a barulheira toda a tarde, o parque cheio de gente.
Este ano não há sardinhada portuguesa em Berlim por causa da covid. E para o ano tenho de rever isto. É que algumas pessoas da vizinhança já têm protestado. Se fôssemos árabes ou turcos, talvez já tivéssemos tido problemas com a polícia e com os jornais. Mas por enquanto vamos escapando pelo meio dos pingos da chuva. Vou ter de fazer a minha parte e arranjar um local diferente para a sardinhada, para não desgraçar a fama dos portugueses da diáspora.
(Era o que faltava começarem agora a dizer que não é por sermos portugueses, é mesmo por sermos burros...)



03 junho 2020

"biciclista"

Alguns apontamentos sobre #biciclista:


1. Muito gostava eu de perceber porque é que nos dicionários online infopedia e priberam aparecem tanto "biciclista" como "ciclista", com praticamente a mesma definição, mas sem serem sinónimos um do outro. Alguém consegue explicar?


2. Só cá para nós, que ninguém nos ouve: devia ser "ciclista", eu sei. Mas - que querem? - hoje é o dia mundial da bicicleta. E como essa palavrinha já saiu...
(Um dia destes perco este tacho, só por causa disto e daquilo, e não sei que vai ser a minha vida sem o stress quotidiano do princípio da manhã...  )
[Nota, para quem não sabe: na maior parte dos dias, quem propõe o tema do dia na Enciclopédia Ilustrada sou eu.]


3. Em Berlim, os biciclistas fazem há mais de quarenta anos uma "Fahrradsternfahrt" no primeiro domingo de Junho (sempre por volta do dia mundial do Ambiente) com dezenas de milhares de participantes. Atravessam a cidade toda, e andam inclusivamente na autoestrada AVUS. Este ano não fizeram, por causa da covid-19.


4. Em compensação, uma vizinha disse-me que nunca como nos últimos 2 meses se viram tantos biciclistas em Berlim. O medo de ser contagiado nos transportes públicos levou as pessoas a preferir deslocar-se de bicicleta. "A ver se a moda pega de vez", rematou a minha vizinha. No caso dela, já pegou há séculos: vai para o trabalho de bicicleta, faça o tempo que fizer. E trabalha a 10 km de casa.


5. Também vi disso na Holanda: uma mulher que até era quadro superior numa organização internacional, e ia para o trabalho de galochas, capa e calças da chuva. Quando chegava ao escritório trocava as galochas por sapatos finos.
Também vi disso numa empresa de software na qual trabalhei. Os meus colegas e os seus chefes - muitos deles milionários porque a empresa tratava mesmo bem as suas galinhas dos ovos de ouro - iam para o trabalho de bicicleta.


6. Não sei como foi em Portugal, mas vi que tanto em Brest como em Berlim aproveitaram o confinamento para reforçar a rede de vias para transportes públicos e bicicletas na cidade toda.

O pessoal saiu do confinamento, e - pufff - tinha as ruas transformadas, e muito menos espaço para carros.


7. O meu Tio Zé, que de facto era tio do meu pai, ia para todo o lado na sua bicicleta. Fazia aqueles montes minhotos ó pra cima e ó pra baixo como se fosse essa a maneira mais certa de andar no mundo. Mas não se pode dizer que fosse um biciclista - quando muito, era um xicolateirista, porque toda a gente chamava xicolateira à coisa que o levava de cá para lá. Lembro-me bem dele num dia de chuva, em cima da sua máquina, com o guarda-chuva pendurado no colarinho. A minha mãe enervou-se muito com a cena da gola esticada para trás, fazendo a chuva cair pelas costas. É estranho como me lembro tão bem de algo que aconteceu há quase cinquenta anos: o Tio Zé misturado com a paisagem verde e a chuva, e eu sem saber se era uma imagem de desamparo, de palermice ou de liberdade.


8. Por essa altura aprendi a andar de bicicleta. O início da minha carreira de biciclista, ora pois! Foi depois da escola: a caminho de casa dei com um grupo de miúdos a brincar no passeio largo, e havia por ali uma bicicleta sem rodinhas que me deixaram experimentar. Quando finalmente tomei o jeito à coisa apareceu a minha mãe de carro, assustadíssima por eu ainda não ter chegado para o almoço. Percebi a borrasca, e tentei remendar, anunciando feliz da vida: "já sei andar de bicicleta!" Mas nem isso a demoveu. Já tinha decidido que o meu atraso merecia uma dúzia de bolos com a colher de pau. Lá os levei (que remédio!...) mas ou ela não bateu com força ou eu estava anestesiada pela alegria maior de já ser como os grandes.


9. A minha mais recente peripécia de biciclista foi na segunda-feira passada: lembramo-nos de pedalar até uma ilha daquelas que se pode conquistar a pé enxuto quando a maré está baixa. O problema é que a maré já estava a encher. Para lá bem fomos - a água só passava uns 5 cm acima da estrada. Para cá, tive de arregaçar a saia e carregar a bicicleta aos ombros. Do lado de lá estava um homem no barco a olhar para nós os dois. Devia estar a tentar decidir se aquilo era uma imagem de desamparo, de palermice ou de liberdade.
Moral da história: no fundo, no fundo, ainda sou como os pequenos.



"aparência"


Havia na Casa da Conferência de Wannsee um cartaz de propaganda nazi que me deixava sempre perplexa. O cartaz estava dividido em duas áreas, uma com retratos de candidatos de esquerda, outra com retratos de candidatos nazis, e uma frase que dizia algo como “basta olhar para a cara deles para sabermos ao que vêm, e em quem podemos confiar”. 

O meu problema é que, mesmo com a informação sobre o partido a que pertenciam, eu não saberia decifrar na cara deles nem o carácter nem as intenções. Faltava-me, provavelmente, o treino do olhar que seria próprio daquela época. 

(Infelizmente não fotografei esse cartaz, para o partilhar agora aqui, e não sei se ainda consta da exposição na Casa da Conferência de Wannsee, que foi recentemente reformulada.) 

Pergunto: será que as aparências enganam, ou será que somos nós quem “engana” as aparências? Quer dizer: será que a #aparência é algo subjectivo, criado pelas informações ou pelos preconceitos que nos levam a distorcer inconscientemente o que vemos, focando-nos apenas nos traços que queremos ver? 

No registo oposto ao do cartaz nazi, a história de um rapazinho branco que quis fazer o mesmo corte de cabelo do seu melhor amigo para que no infantário não fosse possível distingui-los um do outro. Um caso extremo – e comovedor – da capacidade de construir a aparência dos outros a partir do que nos vai no coração.





26 maio 2020

"paciência"

A frase de um colega da Enciclopédia Ilustrada sobre a #paciência de Job, que foi "testado por Deus, que se aliou ao Diabo para confirmar a sua fé", é uma excelente síntese do que me incomoda no Livro de Job.

Bem sei que este texto marca uma evolução importante na intuição do divino, deixando para trás a ideia de um Deus da lógica simples ("se te acontece alguma coisa má, algum pecado grande hás-de ter feito", ou o seu inverso, nas palavras irónicas de um amigo: "o Deus no qual nem sequer acredito gosta muito de mim") e passando para um Deus de misteriosos desígnios que não podemos entender nem devemos ter a veleidade de tentar interpretar.
Ou seja: um Deus independente das mesquinhices dos humanos.

Mesmo sabendo isso, e mesmo sabendo que se trata de uma construção literária, o início do livro irrita-me: Deus a fazer apostas com o diabo?! Arre!

Descobri um valor mais profundo para esta paciência de Job ao ler o cartão que informava sobre a morte de um tio do meu marido. Quando soube que tinha um cancro fez ainda com a mulher todas as viagens que pôde, lutou contra a doença e ao mesmo tempo preparou-se para morrer. Foi ele quem preparou o seu próprio cartão, no qual se vê uma pintura de um artista alemão contemporâneo: Job, de costas, com a pele coberta de pústulas, erguendo os olhos e os braços para o alto. E a pergunta sobre o sentido do que lhe acontece: "porque me envias este sofrimento, meu Deus?"

Não sabes. E nunca saberás. É essa a mensagem do Livro de Job (esquecendo a parte da aposta): a vida é isso mesmo - em algum momento seremos apanhados por um sofrimento que sentimos não ter merecido nunca. Não é Deus a ajustar contas connosco, é simplesmente o imprevisível, o inexplicável e a parte mais cruel da nossa condição de vivos a acontecer.

Fazer o quê? Em certos casos, o único paliativo é a paciência.

E porque é que Deus criou um mundo onde há sofrimento inexplicável?, perguntarão. Ora bem: ninguém se lembrou ainda de escrever esse livro, que provavelmente é o mais difícil de todos.
Mas escreveram o segundo mais difícil, o que nos dá a regra para estar no mundo tal como ele é: "ama cada um dos outros, certo de que ele é, como tu, um filho de Deus"
(hã? que me dizem desta síntese?)
O terceiro livro mais difícil é este de Job: perante aquilo que não compreendes e não podes mudar, só te resta a paciência.

(Ultimamente, a paciência tem sido trocada pelas teorias da conspiração: perante aquilo que não compreendes e não podes mudar, aderes a uma teoria qualquer que identifica um culpado simples e te dá, por consequência, a sensação de que tens a chave para a resolução do problema. Mas isso seria tema para outro post.)


17 maio 2020

"gramofone"




O Joachim andava há que tempos a sonhar com um #gramofone. Viu uma loja deles em Dresden, e desde então tinha aquele sonho. Mas eram caríssimos. Ele fazia as contas: se juntasse o presente dos anos, mais o do Natal, mais o da Páscoa...

Andavamos nisto até que, no outono passado, fizemos uma viagem à Holanda para o encontro habitual da família. A passear numa cidadezinha amorosa chamada Zierikzee, entrámos por mera curiosidade numa loja de velharias. Em cima de um armário descobrimos um gramofone. Ou se calhar foi ele que nos descobriu a nós, porque estava ali a rir-se, muito simpático, todo oferecido. O dono da loja garantiu que funcionava sem problema. E uma das primas comentou que tinha visto uma loja de discos antigos duas ruas à frente.

Eu disse ao Joachim: faz de conta que é Natal. Enquanto ele ia em busca dos discos, eu comprei o gramofone e vim esperar para o meio da praça central de Zierikzee, onde de um momento para o outro me vi rodeada de pessoas fascinadas a sorrir imenso e a fazer perguntas.
(Nota mental: um dia que me sinta sozinha e triste, basta-me ir passear o gramofone um bocadinho.) 

De regresso a Berlim, o Joachim descobriu uma oficina de gramofones, onde comprou um saco de cem agulhas, porque é preciso mudar da agulha ao fim de cada disco ouvido. O dono da loja disse-lhe que o nosso gramofone é uma mistura de peças de vários aparelhos diferentes (aha! por isso foi tão mais barato que os de Dresden!), mas nós continuamos a gostar muito dele.

Está empoleirado ao cimo das escadas, e usamo-lo para pôr à prova a amizade de quem nos visita: quem aguentar aquele som estridente até ao fim - especialmente quando começa a perder o ritmo e fica ainda pior -, é amigo do peito e para a vida toda.


14 maio 2020

"dogma"

Durante muito tempo pensei que #dogmas eram pedaços da doutrina decididos há mil anos, quando ainda era preciso fazer ajustes ao edifício católico. Por isso fiquei muito surpreendida ao dar-me conta de que o dogma da Imaculada Conceição só foi estabelecido em 1854. Ora, isso é quase na altura em que os meus bisavós estavam para nascer, ou seja: ali à esquina da minha própria história.

Sim: em 1854 a teologia da Igreja Católica ainda andava a discutir se a mãe de Jesus tinha nascido sem mácula. E não pensem - como outras pessoas que eu cá sei... - que com isso quer dizer que também a mãe dela, aquela santa mulher, não andou a fazer malcriadices com o santo do seu marido. Não, senhores. Imaculada Conceição quer apenas dizer que Maria nasceu, ao contrário de todos nós, sem pecado original. Porque parecia mal o filho de Deus encarnar no corpo de uma mulher em pecado. Involuntário, pois claro, porque já vimos ao mundo com ele, mas pecado na mesma.

É uma pena decidirem estas coisas sem me perguntarem a opinião. Dizia-lhes logo: tirem daí a ideia, porque essa jogada é desmoralizadora: se tiram o pecado a Maria, dizendo que era tão pura que até foi concebida sem pecado original, afastam-na dos comuns mortais, transformam-na numa extraterrestre mais para lá que para cá. Deixa de ser uma de nós, deixa de ser como nós: não precisa de se debater quotidianamente - como nós - para se erguer acima da lama da qual nasceu. E criam um problema à figura de Jesus Cristo, que passa a ser humano só por parte dos avós maternos. 

Como se não bastasse, em 1870 o Vaticano ainda se saiu com o dogma da infalibilidade papal, que quer dizer: em caso de dúvida, o papa tem a última palavra.

Mas o que é realmente grave é isto: no século XIX, quando a classe operária - um grupo cada vez maior de pessoas a viver em terríveis condições decorrentes da revolução industrial - se estava a afastar a passos largos da Igreja, em Roma discutiam-se bizantinices como o pecado original da mãe de Jesus e os critérios para estabelecer as verdades da Fé naquelas partes mais complicadas que os mandamentos de Cristo.

Será que o Vaticano aprendeu com o estrondoso falhanço junto da classe operária do século XIX, e, já agora, com o falhanço junto da classe intelectual do século XVIII? Pois parece que não: em 1950, cinco anos depois de Auschwitz, e pouco antes de eu nascer, ainda se saíram com o dogma da ascensão de Maria ao céu não apenas em alma, mas também de corpinho bem feito.

Mas escusam de se rir: por causa disso têm um feriado em Agosto. Respeitinho, vá.

(De repente lembrei-me de um padre da minha comunidade, a da Serra do Pilar, a desancar o pessoal que enchia a igreja no dia 15 de Agosto: "Porque é que nunca vos vejo aqui ao domingo? Que religião é a vossa, que só vos traz à missa neste dia?")


09 maio 2020

"Ypres"


Otto Dix, Abensonne (Ypern) [Evening Sun (Ypres)], 1918


Ontem andei o dia todo a pensar que ainda havia alguma coisa para dizer sobre #Ypres. Sabia que vários artistas alemães passaram pelos horrores dessa guerra, sabia que havia pinturas inspiradas nos campos de batalha do centro da Europa, mas não conseguia lembrar-me de um em particular.

Até que me lembrei de Otto Dix, do seu extraordinário tríptico sobre a guerra, que está na Galerie Neue Meister, em Dresden,e do quadro "A Trincheira", que desapareceu no turbilhão nazi (pode ver-se aqui uma fotografia dessa obra, a preto e branco).

Otto Dix que se alistou voluntariamente no exército da primeira guerra mundial, e que numa carta a um amigo escrevia sobre "a sensação de espetar a baioneta no ventre de um homem". Otto Dix, que no fim da primeira guerra mundial pintou este "Sol do Entardecer (Ypres)".

Hoje, quando se festeja o #dia_da_libertação, traduzo uma parte da wikipedia em alemão sobre a perseguição de que este pintor foi vítima. Há elementos do discurso da época que infelizmente recomeçamos a ouvir hoje em dia em certos países - e até no Parlamento português. O dia 8 de Maio de 1945 não trouxe a libertação de um regime desumano para todo o sempre. Temos de estar atentos aos sinais dos tempos, e evitar atempadamente que a História comece a enveredar por trincheiras antigas.

Da wikipedia:

"Em 1933, Otto Dix foi um dos primeiros artistas a perder o seu trabalho como docente e a ser excluído da Academia. Bettina Feistel-Rohmeder, nazi, artista e crítica de arte, difamou-o afirmando que troçava dos heróis. Já em 1933 foi realizada no pátio da Câmara de Dresden uma "exposição da vergonha". Organizada por Richard Müller, viria a ser a precursora da exposição itinerante "Arte Degenerada". Entre as obras de Dix encontrava-se também "A Trincheira", proveniente do Museu de Dresden. Além de Goebbels e Göring, também Hitler visitou esta exposição, e comentou sobre Dix: "É pena não poder prender esta gente". Na brochura da exposição sobre a "arte degenerada", o quadro "A Trincheira" aparecia com o título: "Sabotagem da defesa em forma de pintura do artista Otto Dix". Um excerto do texto da brochura: "Aqui a "arte" entra ao serviço da propaganda marxista a favor da objecção de consciência. A intenção é clara: o espectador deve ver no soldado o assassino ou a vítima insensata de uma "ordem mundial capitalista", no sentido da luta de classes bolchevique. […] O facto de não apenas os judeus, mas também os "artistas" de sangue alemão criarem sem que ninguém lhes tivesse pedido obras de arte vis que reafirmam a posteriori a propaganda do inimigo sobre os horrores da guerra, e que já na altura foi desmascarada como sendo uma teia de mentiras, permanecerá para sempre uma mancha na história cultural alemã."


08 maio 2020

"dia da libertação" - 2

Partilho outro post publicado na Enciclopédia Ilustrada. Este é da autoria do Lutz Brückelmann, que é alemão:

No dia 8 de maio de 1985 o então presidente da República Federal de Alemanha, Richard von Weizsäcker, fez no parlamento um discurso histórico. Falou na cerimóna em que o Bundestag comemorava o 40º aniversário do fim da 2ª Guerra para a Alemanha, da derrota do regime nazi e da capitulação incondicional da Alemanha. Pela primeira vez um político alemão num alto cargo chamou o 8 de maio #dia_da_libertação. Mas não esqueceu referir que também era outra coisa, não só libertação. O discurso tinha um impacto enorme, quer no país quer fora dele. Havia vários aspetos que acrescentavam carga ao discurso que Weizsäcker tinha preparado durante 4 meses, falando com representantes de vários quadrantes da sociedade alemã, de organizações dos deslocados – vítimas da limpeza étnica nos antigos territórios alemãs no leste, até aos judeus ainda residentes na Alemanha. Acrescentou ainda um sentido especial ao discurso o facto de Weizsäcker era filho de um alto diplomata ao serviço do regime nazi, e que tinha defendido no julgamento de Nuremberga, como jovem advogado.

Hoje é fácil ver o 8 de maio como dia da libertação também para os alemães – demasiado fácil até – mas se olhamos para os alemães que viveram a 2ª Guerra e a derrota, percebemos porque isso não foi tão fácil para esta geração.

Para todos que sofriam sob o jugo da ocupação, sob o terror da Wehrmacht, da SS e da Gestapo fora da Alemanha, é uma data de indiscutível regozijo, em que se festeja a vitória, a perspetiva dum futuro melhor, em todo o caso muito menos mau.

Para os alemães foi diferente. Só para uma minoria, os relativamente poucos que se empenharam na oposição ao nazismo, isto era uma vitória, para os que ficaram no exílio ou que foram presos nos campos de concentração, os familiares dos assassinados, os que viveram na clandestinidade. Para os outros, a “maioria silenciosa” bem como os apoiantes assumidos do regime, o 8 de maio foi o dia da derrota, o dia da capitulação, o dia da total impotência e de começo dum futuro muito incerto, de um possível ou real castigo muito pesado. Onze milhões de soldados foram feitos prisioneiros de guerra, muitos, especialmente os que foram presos pelo Exército Vermelho, nunca regressaram dos campos.

Mas também para os civis o que se seguiu ao 8 de maio foi duro. Todas as estruturas, até as mais elementares que sustentaram a vida da população colapsaram e foram substituídas por um regime burocrático das potências de ocupação que durou 3 anos e durante qual morreram mais civis alemães do que com os bombardeamentos durante a guerra. A atividade económica contraiu até a um nível residual, praticamente só sobrava o que era a economia paralela. As senhas para a alimentação distribuídas pelas potências ocupantes permtiam a ingestão diária média por pessoa de menos de 1000 calorias, o que não chegava para sobreviver. Especialmente nas cidades morriam as pessoas que não tinham relações com o mundo rural ou uma horta ou um quintal. Os citadinos, como o meu pai de 13 anos, faziam viagens de “hamster” em telhados de comboio ou em vagões de mercadoria para o campo, onde trocaram as pratas da casa, carpetes persas, violinos e o mais que havia de “inútil” e não comestível por uma dúzia de ovos ou um quilo de manteiga. (Um ódio dos citadinos aos agricultores manteve-se durante décadas depois destes tempos.) O Cardeal de Colónia emitiu uma absolvição sumária para todos que assaltavam os comboios nas curvas, onde andavam suficientemente devagar para poderem ser abordados e lhes ser tirado carvão. O seu apelido “Frings”, deu origem a um novo verbo da língua alemã que descrevia essa atividade: “fringsen”.

Mesmo assim, só no “inverno da fome” 1946/47 morreram pelo menos 300.000 pessoas, de fome e de frio. Outros falam de 500.000. 

Já no último inverno da guerra, na frente do leste, tinha ocorrido a grande limpeza étnica que resultou na deslocação da Polónia duzentos quilómetros para oeste. Entre doze e catorze milhões de alemães que viveram a leste do rio Oder e nos territórios do Sudetenland foram obrigados a deixar as suas casas e terras. Um milhão não sobreviveu a caminhada. Um outro milhão de mulheres foi violado pro vingança, principalmente por soldados do Exército Vermelho (que fizeram o que os soldados da Wehrmacht tinham feito nos anos anterior às suas mulheres), muitas suicidaram depois.

Nos anos da “Besatzung”, entre 1945 e 1948, procedeu-se a desmontagem sistemática da indústria alemã. Fábricas inteiras foram desmanteladas e transportadas para longe, para a França e a União Soviética, para servir como – objetivamente ainda assim flagrantemente insuficiente – reparação dos danos causados pelos agressores.

Isto só terminou, por ironia do destino, graças ao surgimento da Guerra Fria. Os aliados ocidentais num lado, a URSS no outro, entenderam que precisavam de Alemanhas fortes, industrializadas e poucos anos depois também militarizadas, para servir de frente contra o novo inimigo.

Não conto isso para relativizar ou desculpar uma única das atrocidades cometidas por alemães e em nome da Alemanha Nazi, atrocidades no total ainda muito maior, e cometidas por centenas de milhares de Alemães, com o apoio e o conhecimento mais ou menos voluntário de outros milhões. 

Por isso ser assim, chamar o 8 de maio 1945 dia de libertação é problemático, porque pode fomentar a falsa ideia de os alemães foram tal como os libertados dos outros países, apenas vítimas de uma minoria de criminosos, e não também, muitos, colaboradores no crime mais ou menos comprometidos.

Von Weizsäcker sabia isso e abordou o tema no seu discurso. Recusou por um lado a noção da culpa coletiva. Um alemão, mesmo desta geração, nunca podia ter culpa dos crimes do nazismo só por ser alemão. A culpa é individual, e qualquer alemão terá uma culpa individual ou não, na medida em que colaborou com ou ficou a faltar oposição ao regime nazi. Mas por outro lado, realçou que nós alemães, devido a história, temos uma responsabilidade coletiva, um dever de memória e um dever de assumir o nosso passado coletivo.

Eu como alemão, tenho me debatido toda a minha vida com essa questão complicada, a tensão entre uma liberdade individual por um lado, o meu direito de, como indivíduo, ser identificado e julgado como indivíduo e não ser identificado com os assassinos que agiram em nome do meu país. Mas por outro, assumir a minha cidadania e pertença a esse país, e como seu membro e representante dar a cara pelos valores que o meu país não soube respeitar.


"dia da libertação"

 (Foto: imago images/Everett Collection, aqui)

(Foto: Imago/ITAR-TASS)


O tema de hoje na Enciclopédia Ilustrada foi o "dia da libertação":



Numa aula de U.S. Citizenship em San Francisco, o professor perguntou:
- Quando começou a segunda guerra mundial?
Os alunos, muitos deles russos e polacos, responderam em coro:
- 1 de Setembro de 1939!
O professor riu-se.
- Isso é a vossa guerra europeia. A mundial começou em 1941, quando os EUA entraram.
Os alunos europeus riram-se:
- Os americanos, sempre com a mania que são o centro do mundo.
- E quando terminou a segunda guerra mundial?, perguntou o professor.
- 8 de Maio de 1945!, responderam os alunos de novo em coro.
O professor riu-se:
- Estes europeus, com a mania que são o centro do mundo... A guerra terminou na Europa nesse dia, mas continuou no Japão. Só terminou em Setembro desse ano.

Em inglês, chamam ao dia 8 de Maio de 1945 o "dia da vitória na Europa". Na Alemanha oriental chamavam-lhe #dia_da_libertação, embora - parece-me - se devesse antes chamar "dia da troca" - a passagem do totalitarismo nazi para o totalitarismo de Estaline.

Na Alemanha ocidental foi preciso algum tempo para passar de "dia da capitulação" para "dia da libertação". Durante duas décadas a Política tentou ignorar este dia. Em 1970, quando se comemoravam 25 anos do fim da guerra, o governo socialista de Willy Brandt assinalou a data com uma cerimónia, tendo sido muito criticado por deputados da oposição (CDU/CSU) que argumentavam que "não se comemoram derrotas" e "não se presta homenagem à vergonha e à culpa".

Só no 40º aniversário do fim da guerra é que foi possível o então presidente da República, Richard von Weizsäcker, afirmar que naquela data se comemora o "dia da libertação do sistema desumano do despotismo nacional-socialista".

Que longo caminho foi o percorrido pela sociedade alemã nesses 40 anos, que permitiu passar da ideia de derrota para a de libertação!

Por estes dias, a morar na Bretanha, tenho-me dado conta de um detalhe curioso: nesta região de importância estratégica fundamental, que foi tão martirizada pelo exército alemão, nos vestígios que ficaram da guerra não se menciona nunca "alemães" ou "Alemanha", mas "inimigo". A placa na torre perto do porto lembra a vitória "sobre o inimigo", a placa na prisão da minha rua, de onde, pouco antes do fim da guerra, levaram os prisioneiros que eram membros da Resistência para serem executados, diz "partiram para o seu trágico destino", e até o meu "anti-guia bretão" fala de um menir de sete metros numa ilhota aqui perto, que foi dinamitado "por estranhas convicções nacionalistas".

Esta manhã hesitei um pouco sobre o nome a dar ao tema do dia. Escolhi "dia da libertação" porque as palavras contam. As palavras têm o poder de construir ou pelo menos cimentar os caminhos da paz.


07 maio 2020

"língua portuguesa"

Durante muitos anos aceitei a "nossa" versão da importância da #língua_portuguesa. A quinta língua mais falada do mundo, a primeira do hemisfério sul, os tantos povos unidos por uma língua comum, e, claro, aquele orgulhozinho de "somos os maiores".

O primeiro contacto com outra realidade ocorreu quando comecei a traduzir para "português neutro" - um idioma que devia ser compreensível em Portugal e no Brasil. Mais valia ter dito que estava a inventar o "desesperanto", de tal modo a tarefa era impossível. Foi nessa altura que ouvi frases como "os portugueses e os brasileiros estão separados pela mesma língua", ou "o brasileiro tem tantos falsos cognatos do português que, à primeira vista, até parece a mesma língua" - e me dei conta de que isto não é tão simples como até então tinha pensado.

O segundo contacto com outra realidade ocorreu quando li "memórias da plantação", da Grada Kilomba. Esse conjunto de povos que falam português equivale à perda da diversidade representada pelas suas próprias línguas e culturas.

É verdade que a língua portuguesa nos aproxima uns dos outros. Mas: a que custo? Nunca até então tinha pensado no sofrimento das pessoas obrigadas a pôr a sua própria cultura em segundo plano para pertencer ao novo contexto social, a ter de conquistar um lugar na sociedade exprimindo-se numa língua que não era a sua língua materna, e forçadas a aderir a valores e comportamentos que não são os da sua tradição cultural.

Curiosamente, a minha própria situação tem alguns paralelos com a dessas pessoas: vivo noutro país, noutra cultura e noutra língua. Bem sei o que custou e ainda custa - mesmo sendo o resultado de uma escolha livre, voluntária, consciente.

De modo que: sim, a língua portuguesa continua a ser linda, grande e enriquecida pelo contacto com outros povos. Mas pelo caminho perdi aquele sentimento de "somos os maiores".
Não fizemos isto sozinhos: fizemos com os outros povos - ou talvez devesse dizer: contra os outros povos.


26 abril 2020

"quiche"

A cena que vou contar passou-se em Weimar, no coração da Turíngia, uns 15 anos depois da reunificação. Nessa época, a maior parte das pessoas falava russo como segunda língua, e ia tentando fazer o seu caminho entre o sistema em que se socializara, e o sistema forasteiro que se viera impor às suas vidas.

O liceu da minha filha usava uma forte componente de francês para afirmar a sua diferença no panorama escolar da cidade, e por isso atraía muitas famílias vindas da parte ocidental da Alemanha. As reuniões de pais eram muitas vezes momentos de confronto de paradigma - que eu, portuguesa, observava como se não fosse nada comigo.

Numa dessas reuniões falava-se das propostas que vários pais tinham feito para as comidas a servir numa festa escolar. A directora de turma juntara as propostas numa lista, que íamos lendo e discutindo.

Perante a oferta de levar uma #quiche, feita por uma família de Frankfurt, uma mulher de Weimar perguntava completamente desorientada:

- Kvitxe? Que é isto?

Ela lera a palavra francesa segundo as regras do alemão: "u" a seguir a "q" lê-se como "v". E, obviamente, não fazia a menor ideia da língua original da palavra, e do seu significado.

Uns dias mais tarde a pessoa que fizera a proposta de levar uma quiche comentava comigo aquele momento. Ria-se imenso com o sucedido, especialmente porque "kvitxe" lembra "quietschen" (chiar).

A confusão tinha graça, mas eu não devia ter rido com ela. Muitas das dificuldades que existem actualmente na Alemanha nasceram de atitudes como essa, do sentimento de superioridade de alguns perante quem não conhecia algo normal na Alemanha Ocidental, sem se darem conta de que essas pessoas não eram ignorantes - simplesmente sabiam outras coisas, conheciam outros mundos.


09 abril 2020

"Dietrich Bonhoeffer" (4. Envolto em bons poderes, leais e calmos...)



Um dos cânticos que se ouve frequentemente nos serviços religiosos entre o Natal e o Ano Novo tem a letra de um poema que Dietrich Bonhoeffer escreveu na prisão pouco antes do Natal de 1944 - e uns meses antes de ser assassinado pelos nazis. Na imagem pode ver-se uma tradução para português que encontrei no livro "Dietrich Bonhoeffer: discípulo, testemunha, mártir - Meditações", de Harald Malschitzky". O original é bem mais belo ("Envolto em bons poderes, leais e calmos,") mas nem sei nem tenho tempo para traduzir isto como merecia.

Normalmente associa-se aqueles "bons poderes" ao poder divino. Mas há quem leia o início do poema como uma referência à sua família, que o envolve numa rede amorosa de cuidado e protecção.

Traduzo uma carta que o seu irmão mais velho escreveu aos seus próprios filhos pouco depois do fim da guerra, e que mostra bem como a família Bonhoeffer cuidou dos seus membros apanhados pela fúria nazi:

"... Gostaria de vos falar sobre tudo isto. Porquê? Porque os meus pensamentos estão lá neste momento, nas ruínas de onde não nos chegam notícias, na prisão onde visitei o tio Klaus (irmão), o condenado à morte, há apenas três meses. As prisões de Berlim! Que sabia eu sobre elas há apenas alguns anos atrás, e com que novos olhos as vejo agora! O edifício para prisões preventivas de Charlottenburg, onde a tia Christel (irmã) esteve presa durante algum tempo, a prisão militar de Tegel, onde o tio Dietrich (irmão) esteve preso durante ano e meio, a prisão militar de Moabit com o tio Hans (von Dohnanyi, casado com a irmã Christel), a prisão da SS na Prinz-Albrecht-Straße, onde o tio Dietrich foi mantido em cativeiro na cave durante meio ano, e a prisão na Lehrter Straße, onde o tio Klaus foi torturado e o tio Rüdiger (Schleicher, casado com a irmã Ursula) foi atormentado, onde ambos viveram durante dois meses após terem sido condenados à morte

Nos últimos anos, sempre que fui a Berlim esperei à frente das portas de ferro pesado de todas estas prisões. Ali acompanhei a tia Ursel e a tia Christel, a tia Emmi (de solteira Delbrück, casada com o irmão Klaus) e a Maria (von Wedemeyer, noiva do irmão Dietrich), que lá iam diariamente buscar ou trazer coisas. Muitas vezes fizeram o caminho em vão, muitas vezes se sujeitaram a ser insultadas por comissários vis, mas de vez em quando encontraram também um porteiro amigável com coração humano que transmitia uma saudação, que aceitava levar ao prisioneiro algo mesmo fora do período estabelecido, e até comida, apesar da proibição.
..... E agora! A última vez que estive em Berlim foi no final de Março; tive de regressar pouco antes do 77º aniversário do avô. O tio Klaus e o tio Rüdiger ainda estavam vivos; o tio Hans deu notícias através do médico que não pareciam totalmente desesperadas; do tio Dietrich, que tinha sido raptado de Berlim pelas SS no início de Fevereiro, não se sabia. Alguém falou com o tio Dietrich no dia 5 de Abril, na zona de Passau. De lá seria levado para o campo de concentração de Flossenbürg, perto de Weiden. Porque é que ainda não regressou? ..."

Os dois irmãos, Dietrich e Klaus, foram assassinados pelo regime nazi a 9 de Abril de 1944, menos de um mês antes do final da guerra, por ordem pessoal de Hitler. Com eles foram também assassinados os cunhados Hans von Dohnanyi e Rüdiger Schleicher. Um outro cunhado, Justus von Delbrück, seria libertado pouco antes do fim da guerra, e feito de novo prisioneiro pelo exército soviético duas semanas depois do armistício, vindo a morrer pouco depois num dos seus campos de concentração. E antes de todos eles fora já assassinado um tio da parte materna, o tenente-geral Paul von Hase, que logo após o atentado falhado a Hitler cercara a zona de ministérios de Berlim para prender os governantes.

Sobre o enorme sacrifício familiar, o pai de Dietrich Bonhoeffer escreveu a um antigo empregado em Boston:
"Pode com certeza imaginar como tudo isso nos afectou. Vivemos anos e anos com a preocupação dos que estavam presos, e dos que estavam ainda em liberdade mas em risco de serem também feitos prisioneiros. Mas como estávamos todos de acordo quanto à necessidade imperiosa de agir, e os nossos filhos sabiam o que os esperava caso o complot falhasse e estavam preparados para morrer, sentimo-nos muito tristes e ao mesmo tempo orgulhosos pela sua atitude digna. Recebemos dos nossos filhos boas recordações durante o seu tempo na prisão ... que nos comovem muito, bem como aos amigos deles ..."

O irmão mais velho, que só por milagre escapou ao radar dos nazis, viria a comentar mais tarde: "O que nos deu força foi a frente unida da família contra os nazis. Mas pagámos um preço altíssimo por isso."


"Dietrich Bonhoeffer" (3. Bonhoeffer e a Igreja Confessional)

Muito rapidamente, porque estou longe de ser especialista neste assunto: o regime nazi tentou apropriar-se das Igrejas, retirando-lhes importância e influência, e servindo-se delas para propagar a sua própria ideologia. A Igreja Confessional foi um movimento de resistência a estas políticas. Um dos seus primeiros líderes foi o pastor Martin Niemöller, que todos conhecem por causa do texto "quando vieram buscar os comunistas eu não disse nada, porque não era comunista..."

Este texto sintetiza brilhantemente o percurso algo errático da Igreja Confessional, que demorou muito tempo a entender que o seu dever de protecção se estendia a todo o povo, e não apenas a si própria. Naqueles tempos de terror e perplexidade não era fácil ver, e muito menos agir em conformidade com os valores atacados pela ideologia nazi. Pelo que a Igreja Confessional foi em simultaneamente perseguida pelo regime e frequentada por nazis e até SS. O próprio Niemöller fora desde 1924 adepto do partido de Hitler, e saudou a sua chegada ao poder em 1933.

Quando a perseguição aos judeus começou, em 1933, Dietrich Bonhoeffer e Martin Niemöller (que, sendo embora adepto do partido nazi, defendia ferozmente a independência da Igreja) fundaram uma Liga de Apoio aos Pastores de ascendência judaica, contra a nova imposição de os afastar dos púlpitos. Esta e outras iniciativas de defesa da independência eclesial viriam a evoluir para a Igreja Confessional, que se formou em Maio de 1934, com a declaração de Wuppertal-Barmen, que punha Cristo no centro da Fé da Igreja, livre de instâncias e critérios alheios, e recusava a apropriação do Evangelho para fins políticos totalitários. Era essa a matéria de discórdia entre a Igreja Confessional e os Cristãos Alemães (as Igrejas que se sujeitaram à Gleichschaltung).

Em Abril de 1935, depois de uma curta visita a Mahatma Gandhi, Bonhoeffer tornou-se professor no seminário de Finkenwalde, da Igreja Confessional. Foi aí que aprofundou a sua convicção de que a Igreja, mais do que uma comunidade de almas, é realmente o corpo de Cristo presente na terra.

Nas palavras de Wolfgang Huber (sublinhado meu): "O efeito de modelo de Bonhoeffer tem sem dúvida a ver com o facto de, no seu caso, a história de vida e a teologia estarem intimamente ligadas. No centro desta estreita ligação está o momento em que realmente descobre o Sermão da Montanha. Ainda antes da tomada do poder por Hitler, numa fase da sua vida em que a eficácia académica estava em primeiro plano, o Sermão da Montanha tocou-o de uma forma inédita. Esse encontro fez dele, como diria mais tarde em tom de autocrítica e demarcação de fases anteriores da sua vida, um verdadeiro cristão. E, ao mesmo tempo, deu à sua atitude ética a clareza que já vinha a fazer caminho dentro dele. O compromisso com a Justiça e a Paz tornou-se o motivo básico determinante, e com este a convicção de que o princípio orientador da ética cristã não é a pureza imaculada da própria consciência, mas a responsabilidade concreta pela vida e pelo futuro de outras pessoas."



"Dietrich Bonhoeffer" (2. biografia breve)

Traduzo um texto de Michael Grau, jornalista da EPD (Evangelischer Pressedienst), escrito por ocasião do centenário de #Bonhoeffer:

A sua estátua esculpida em pedra ergue-se sobre o pórtico principal da Abadia de Westminster, em Londres: entre os dez mártires do século XX aqui imortalizados, o único alemão é o teólogo e combatente da Resistência Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), assassinado pelos nazis. "Um exemplo para todos nós", foi o que lhe chamou o embaixador alemão em Londres. (...) Bonhoeffer nasceu em Breslau há 100 anos, no dia 4 de Fevereiro de 1906.

Morreu com apenas 39 anos de idade. Contudo, foi um dos teólogos evangélicos do século XX que mais profundamente influenciou a sua Igreja e a sociedade. Ruas e escolas, igrejas e centros comunitários têm o seu nome. Um filme conta a sua história. O seu protesto vigoroso contra os nazis, o seu papel activo na resistência contra Hitler, os seus livros e a sua morte como mártir são conhecidos mundialmente. O Presidente do Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha (EKD), o Bispo Wolfgang Huber, chama-lhe um modelo de fé e, neste sentido, um "santo protestante". 

Bonhoeffer era filho de um professor de Psiquiatria e cresceu com sete irmãos num bairro ocidental de Berlim. O seu percurso académico foi invulgarmente rápido: (...) aos 25 anos já era professor universitário. O seu aluno Wolf-Dieter Zimmermann, agora com 94 anos, lembra o seu carácter intelectual: "Expressava-se de uma forma clara e precisa. O seu contexto da alta burguesia marcou-o profundamente: "Só se permitia a familiaridade do tratamento por tu com pouquíssimas pessoas".

O teólogo tinha uma aparência forte e enérgica: "No ténis de mesa, ganhava-nos a todos". Quando estava tenso, fumava muitos cigarros. Durante uma estadia académica em Nova Iorque foi testemunha directa da segregação racial, quando um amigo negro se viu obrigado a ir numa carruagem de eléctrico diferente da dele. No início da década de 1930, movido pelo “sermão da montanha”, que o tocou muito, adopta ideias pacifistas.

Vê nos nazis um perigo para a Alemanha. Dois dias após a tomada de poder por Hitler, em 1933, discursa na rádio avisando que o "Führer" se pode tornar um "Verführer".
[ NT: Ah, a beleza da língua alemã! O prefixo „ver“ normalmente gera a ideia contrária da palavra central - rechnen/verrechnen é calcular/enganar-se nos cálculos; laufen/verlaufen é caminhar/perder-se no caminho. Como o „des“ português ou o „mis“ inglês. No caso, o trocadilho seria algo como “leading” e “misleading”. Mas a língua alemã faz mais que isso: Führer é o líder, o guia; Verführer - ver-Führer - também é o “sedutor”, ou aquele que alicia outros para fazerem algo. Mas não divagarei mais sobre esta curiosidade de o contrário de um líder ser um sedutor. ]
Em Abril de 1933, perante o início da perseguição aos judeus, afirma “Quando um bêbado vai ao volante, não basta pôr ligaduras à vítima sob as suas rodas, é preciso agarrar a própria roda". Mas naquela altura a sua opinião encontrou pouco eco.

Desgastado pelos conflitos na Alemanha, Bonhoeffer foi para Londres trabalhar como pastor no estrangeiro. Em 1935 regressou e assumiu um seminário de pregadores da "Igreja Confessional" na Pomerânia. O seu cunhado Hans von Dohnanyi (pai do que muitos anos mais tarde viria a ser presidente da câmara de Hamburgo, Klaus von Dohnanyi) informa-o sobre os planos de guerra de Hitler em 1938 e também sobre os planos para um golpe de Estado, que viria a acontecer em 20 de Julho de 1944.

Em 1939, Bonhoeffer dá algumas palestras nos EUA, país no qual os seus amigos tentam arranjar-lhe um cargo de professor. Mas em breve ele decide regressar à Alemanha: "Tenho que viver este período difícil da nossa história com os cristãos na Alemanha".

Para Bonhoeffer começa agora uma vida dupla plena de riscos: em 1940 deixa-se recrutar pelo serviço secreto militar alemão, onde o seu cunhado e outros trabalham secretamente para a Resistência. Oficialmente, é agora um agente da contra-espionagem. Na verdade, porém, informa pessoas de confiança nas Igrejas estrangeiras sobre os planos de golpe de Estado contra Hitler.

No início de 1943, em pleno caos da guerra, Bonhoeffer torna-se noivo de Maria von Wedemeyer, de 18 anos de idade. É detido pouco depois, a 5 de Abril. A sua noiva só o pode visitar na prisão com grandes intervalos. Na sua cela em Berlim-Tegel Bonhoeffer escreve à família e a um amigo as cartas que mais tarde se tornarão famosas sob o título "Resistência e Submissão".

O fracasso da tentativa de assassinato de Hitler, a 20 de Julho de 1944, revela toda a extensão da conspiração em que Bonhoeffer, o seu irmão Klaus e o seu cunhado von Dohnanyi estão envolvidos. Em Abril de 1945, com as tropas aliadas já a aproximarem-se, os nazis levam o pastor para o campo de concentração de Flossenbürg, perto de Regensburg. Em 9 de Abril de 1945, um tribunal sumário pronunciou uma sentença: morte por alta traição. Bonhoeffer faz uma pequena oração. Em seguida, despe-se e sobe para a forca. O médico do campo de concentração escreveu mais tarde: "Nunca vi um homem morrer em atitude tão piedosa".


"Dietrich Bonhoeffer" (1. "a origem do mundo")

Faz hoje 75 anos que o regime nazi executou Dietrich Bonhoeffer. Partilho o meu primeiro contributo de hoje para a Enciclopédia Ilustrada:

Daqui a pouco traduzo um resumo sobre a vida de #Bonhoeffer. Para já, conto uns detalhes da vida da mãe dele (a origem do mundo, como é sabido).

1. Um pequeno passeio de montanha russa pela cultura alemã: a mãe de Dietrich Bonhoeffer era neta do pintor Stanislaus Friedrich Ludwig Graf von Kalckreuth, que em 1858 foi viver para uma Weimar ainda vivamente marcada por Goethe. Nesta cidade, o pintor criou uma Escola de Artes e soube atrair alguns dos pintores mais modernos da época. Foi a partir desta escola que o movimento Bauhaus viria a nascer em Weimar em 1919.
O pintor Stanislau von Kalckreuth casou com Anna Cauer, da famosa família de escultores de Bad Kreuznach. Clara, a filha deles, teve aulas de piano com Clara Schumann e Liszt.
Esta Clara foi a avó de Bonhoeffer. Casou com um teólogo de outra família famosa, os Hase. O sogro era um professor de História da Igreja que Goethe trouxe para a universidade de Jena, e que em meados do século XIX tentava conciliar a tradição eclesial cristã com a Educação moderna. A sogra era filha de um dos mais importantes editores de Beethoven, com quem manteve uma forte troca de correspondência. Um dos cunhados de Clara era Victor Hase, a quem a Alemanha deve a conhecidíssima expressão Mein Name ist Hase, ich weiß von nichts“ (o meu nome é Hase, não sei de nada).
Devido a um conflito com o Kaiser, Clara e o marido mudaram-se para Breslau em 1894, onde criaram na sua própria casa um importante salão cultural. Tiveram seis filhos, três rapazes e três raparigas, e uma destas, Paula, professora de profissão, viria a casar com o psiquiatra e neurólogo Karl Bonhoeffer, com quem teve oito filhos.
Dietrich Bonhoeffer foi um deles.

2. Paula Bonhoeffer, que era professora, endendia que a escola da sua época deformava as crianças e atrasava o seu desenvolvimento, e por isso decidiu manter os seus filhos afastados dessa instituição, cuidando ela própria da respectiva instrução. O resultado foi uma espécie de geração ínclita: pessoas de inteligência brilhante, grande cultura, e sólidos valores.
Valores esses que custaram a vida a alguns deles, quando o regime nazi se deu conta do seu envolvimento na Resistência.


08 abril 2020

"zelador"

#Zelador: uma palavrinha tão boa, e eu sem internet praticamente o dia todo! Já me davam a medalhinha de Tântalo-Gold...

Queria falar das portuguesas nos prédios parisienses, esteio da casa, e dos zeladores de bloco na Alemanha nazi, pequeno esteio do regime de terror. E, dentro destes últimos, contar uma história de Berlim: a mulher de um Blockwart, que tomou conta de uma pequenita filha de judeus e a escondeu na cave até chegarem os russos. Do fundo da escuridão, a pequena nuance de humanidade.

Mas, em tempo de reclusão forçada, o desenvolvimento mais óbvio é este fenómeno de nos tornarmos todos zelador e acusador dos outros.
Eu própria, esta manhã, fiz comentários poucos simpáticos sobre os trabalhadores do estaleiro militar em frente à minha janela: remendar um barco de guerra é uma actividade tão urgente e fundamental que justifique este bando de homens em azáfama, demasiado próximos uns dos outros e sem máscara? Então o Estado francês não cumpre as suas próprias regras?
Também penso muito mal de certos vizinhos meus, que convivem alegremente com os seus amigos na entrada do prédio e no jardim.

Há despeito na minha crítica: eu que me privo de tanto, e eles que fazem o que querem.
E há medo: já tive várias vezes problemas de pulmões, não quero correr o risco de apanhar covid.
Devo ficar calada? Devo criticar abertamente? E que resposta me darão?
“Sou eu acaso o guarda do meu irmão?”, perguntava Caim cinicamente.

Seremos capazes de um esforço de solidariedade e responsabilidade liberto da armadilha do poder sobre o outro?

Estou a falar da covid, mas o que me preocupa é a verdadeira crise do nosso tempo: o aquecimento global. Seremos capazes de escolher um estilo de vida menos depredador, e ter a liberdade interior de conviver em silêncio com o comportamento depredador dos outros?

Mais: como aceitar o comportamento depredador dos outros? Será possível ser zelador do planeta sem ser simultaneamente zelador-acusador dos outros?

03 abril 2020

"tranquilidade"

Ontem, a palavra mágica da Enciclopédia Ilustrada foi "tranquilidade".

Claro que passaram lá o Gato Fedorento a brincar com o Paulo Bento.
A minha participação:


Bem sei que isto vai parecer um lugar-comum, e que devia era ficar caladinha, mas o momento de maior #tranquilidade que tenho para vos contar aconteceu-me há 18 anos, num observatório astronómico em Oakland. Naqueles meses loucos em que quisemos aproveitar tudo o que a Bay Area tinha para nos oferecer antes de regressarmos à Europa, lemos no jornal que o Chabot estaria aberto ao público durante algumas horas do princípio da noite, e fomos lá com os miúdos.

Vimos umas coisecas, ouvimos uma palestra, e quando já estávamos para encolher os ombros e regressar a casa a Christina reparou que havia pessoas a fazer uma fila. Ora bem (ia fazer uma gracinha sobre termos uma costela da RDA, mas adiante): onde há fila tem de haver um motivo forte (ia fazer outra gracinha sobre fenómenos de grupo, como por exemplo açambarcar papel higiénico, mas adiante). Pusemo-nos atrás dos outros sem saber para quê, e quando chegou a nossa vez descobrimos que era para ver a lua por um telescópio prodigioso.

A lua. A imensa tranquilidade das crateras lunares ali mesmo à minha frente. Tão perto, tão presente, tão inteiramente minha que cheguei a acreditar que poderia tocá-la. De repente toda eu era apenas os meus olhos hipnotizados, encantados pelo silêncio e a paz daquele lugar.

Até que uma vozinha disse "agora eu, mãe" - e passei a lua para os olhos dela.


26 fevereiro 2020

"Polaroid"

Gostei de ler este post que publiquei há 3 anos na Enciclopédia Ilustrada, quando a Polaroid festejava 70 anos, e por isso partilho aqui:

Uns meses depois de ter vindo morar para a Alemanha, fui viver em casa de amigos que tinham uma recém-nascida e um filho de 3 anos. A mãe era colega do Joachim na universidade, e o meu trabalho era tomar conta dos pequenitos enquanto ela ia às aulas. Numa dessas manhãs, enquanto a bebé dormia, fiz com o rapazinho uma Polaroid de Lego. A objectiva com uma janela, o compartimento para o rolo (melhor dizendo: para os quadradinhos de papel cuidadosamente arrumados) protegido por um portão de plástico, bendito Lego que tudo permite. Ficou uma Polaroid muito catita. 

Passámos a manhã a tirar fotografias. Ele escolhia o motivo, fazia a fotografia, tirava da máquina um dos quadradinhos de papel, e desenhava a cena que tinha fotografado. Depois eu fazia o mesmo - porque só tínhamos uma Polaroid, tínhamos de a usar à vez.
 

À noite, quando o Joachim chegou para jantar connosco, a mãe do miúdo mostrou-lhe a nossa máquina fotográfica e a exposição de fotografias (uma bela colecção) e disse:
 

- Joachim, tens de casar com esta mulher!
 

Seu dito, meu feito. E já lá vão quase 25 anos. Mas nunca mais fiz nenhuma Polaroid. Coitado do Joachim, casou ao engano.

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E para terem um post como deve ser sobre este tema, roubo o trabalho de uma colega:

"
#POLAROID, para mim, tem um nome: ANDREI TARKOVSKY.
Sublime."




08 fevereiro 2020

"jóia"

Jóias: como qualquer minhota que se preze, também eu herdei o meu quinhão de jóias das avós. O ouro da família: cordão e fio, alfinete de libras, brincos, contas de Viana.

A minha avó guardava as suas jóias numa gaveta da mesa da sala de jantar, fechadas à chave. Também herdei essa mesa, e surpreendi-me com a sua fragilidade. Qualquer martelada bem dada arrombaria a gaveta, libertaria as jóias guardadas. Tanta gente entrou e saiu pelas portas daquela casa, sempre abertas, e nunca ninguém se lembrou de rebentar a fechadura pueril. Não era a chave que protegia as jóias das minhas avós - era o respeito que a família merecia e que cada visitante se merecia a si próprio.

Muitos anos mais tarde, comprámos uma ruína em Weimar, fizemos obras, e mudámos para a casa nova quando ainda havia pintores a fazer os últimos trabalhos. Todas as tardes lhes servia um café e bolachinhas na melhor varanda, na melhor louça (a culpa é daquela história do Lavrador da Arada que vinha num livro da escola primária: condicionou-me). Um deles, no caminho entre a varanda e o trabalho, roubou-me a carteira. Achei que a teria posto noutro sítio, não desconfiei. Nem sequer me lembrei que o Joachim se tinha queixado que na véspera lhe tinha desaparecido o desodorizante e o perfume. O dia chegou ao fim, os homens foram para casa, eu tive um pressentimento e fui ver a caixa das jóias: vazia!

O primeiro instante foi de choque, o segundo foi de alívio. Pensei: agora já posso ir para férias descansada, nunca mais vou ter medo que me roubem o ouro.

Algumas semanas mais tarde, na Romaria da Senhora da Agonia, vi as minhas jóias mil vezes ao peito de outras mulheres, e senti que não tinha perdido nada. Continuavam no mundo, algures. Só não estavam na minha caixa.

[ Esta minha mania de não me deixar vencer pela adversidade ainda vai acabar mal. Estou mesmo a imaginar a cena: daqui a muitos anos, a Ceifeira a olhar-me com os seus olhos cruéis, e eu a rir:
- Calha bem que me leves o corpo, já me andava a estorvar um bocadinho.
Ela a rir-se, malvada:
- Ha ha ha! Eu levo tudo, corpo e espírito!
- Pensas tu!, direi eu escarninha. Não sabes o que está do outro lado, ainda não morreste!
Ressabiada, vira-me as costas, resmungando "então fica para aí e desenrasca-te sem mim!"
Rejeitada dentro do corpo há muito divorciado de mim, pensarei então que afinal há um tempo para tudo, um tempo para viver e um tempo para morrer, e que até nem é má ideia deixar-me ir completamente, esquecer enfim os erros que acumulei ao longo da vida e me continuam a incomodar. Uma libertação. Apresso-me a chamá-la, digo-lhe que estava a brincar, peço-lhe que não se amofine.
- Queres, então?
- Quero, pois!
- Amigas para sempre?
- Para sempre.
E lá vou eu desta para melhor, convencida que vou feliz. ]

07 fevereiro 2020

"querubim"

Dois posts sobre "querubim", no dia em que foi esse o tema na Enciclopédia Ilustrada:

1.
Na aldeia da minha avó havia uma família com mais de uma dúzia de filhos, e um deles era o Curbínhe.
Eu também dizia Curbínhe - como os irmãos dele com quem brincava na rua - mas depois, quando regressava à cidade, perguntava-me se o nome seria Curvim.
Só muitos anos mais tarde caiu a ficha: o nome era, claro, #Querubim.

2.
Quando eu era miúda não havia cá Bíblias para crianças, com figurinhas simpáticas e texto acessível. Deram-me o original: servido do púlpito aos domingos e dias santos, e também na catequese, num embrulho de medo e imposições. Já o meu marido, que foi criança na mesma época mas a alguns anos luz de mim, tinha uma Bíblia para crianças que era um luxo, com desenhos de Kees de Kort que me deixam verdinha de inveja das infâncias alemãs dos anos 60. Partilho uma das suas imagens, uma Anunciação, com o anjo Gabriel (infelizmente o Kees de Kort não desenhou nenhum #querubim).



Como ia dizendo: quando eu era miúda, a minha Bíblia era toda oralidade, e eu imaginava as cenas. Os querubins do Génesis, por exemplo, que Deus deixou a guardar a porta do Jardim do Éden depois de ter expulso Adão e Eva naquele estado de indigência e folhas de parra. Quantas vezes imaginei o casal, com uma mão à frente e outra atrás, a olhar para os querubins mal encarados que os impediam de regressar aonde tinha sido tão felizes: “pôs querubins a oriente do jardim, os quais com uma espada de fogo guardavam o caminho de acesso à árvore da vida.”
(agora ia falar do George Lucas, por causa daquela espada de fogo, mas adiante)

Para além dos securitas do paraíso, há outros querubins na Bíblia. Alguns são descritos de tal forma que rebentavam os fusíveis aos meus neurónios infantis: “e no meio do fogo havia quatro vultos que pareciam seres viventes. Na aparência tinham forma de homem, mas cada um deles tinha quatro rostos e quatro asas. Suas pernas eram retas; seus pés eram como os de um bezerro e reluziam como bronze polido. Debaixo de suas asas, nos quatro lados, tinham mãos humanas. Os quatro tinham rostos e asas, e as suas asas encostavam umas nas outras. Quando se moviam andavam para a frente, e não se viravam. Quanto à aparência dos seus rostos, os quatro tinham rosto de homem, rosto de leão no lado direito, rosto de boi no lado esquerdo, e rosto de águia. Assim eram os seus rostos. Suas asas estavam estendidas para cima; cada um deles tinha duas asas que se encostavam na de outro ser vivente, de um lado e do outro, e duas asas que cobriam os seus corpos.” Ezequiel 1:5-11 (ainda está aí alguém, ou já desistiram de continuar a ler?)


Mais à frente no livro de Ezequiel acontece a tragédia: um querubim mete-se na má vida e cai em desgraça (Ez., 28, 14 e seguintes). É Lúcifer, bem nosso conhecido (apenas de nome, claro, claro...).

Sendo isto o que a Bíblia revela sobre os querubins, alguém faça o favor de me explicar como é que os seres celestiais da primeira hierarquia, classificados logo abaixo dos serafins, acabaram a ser confundidos com os putti? Que confusão terá andado nas cabeças renascentistas e barrocas que fizeram a troca? Bem sei que nessa época o trabalho infantil ainda não era crime, mas é preciso ver que os querubins têm funções de muita responsabilidade, que não é para ser feito por crianças: guardar o paraíso, carregar o trono divino, ou (na tradição islâmica) interceder junto de Deus e proteger os justos.

Tivessem esses artistas renascentistas e barrocos frequentado a minha missinha, e continuariam a pintar querubins como deve ser e se fazia tão bem na Idade Média. Mas não – em vez de darem ouvidos a quem sabe (o padre da aldeia da minha avó!), puseram-se com liberdades criativas e poéticas...

Depois queixam-se que a Inquisição tal e coisa, mas, convenhamos, alguém tinha de pôr ordem na casa! Que pelo caminho que a coisa levava, está-se mesmo a ver que um dia a coisa descambava de vez, e algum artista ainda havia de se lembrar de confundir Jesus com um judeu. Era o que mais nos faltava...