A mistura de medo, preconceito e arrogância cultural que
a Maria João Marques exibe neste texto de opinião faz dela uma candidata ideal a chefe de propaganda do Pegida. Se quisesse, tinha carreira garantida entre os nacionalistas alemães, lá isso tinha. É certo que corria o risco de começar a ser discretamente vigiada pelo BND, mas convenhamos que até era uma linha positiva no currículo que ela gostaria de exibir: "sob vigilância da polícia de um Estado que está a dar cabo de si próprio com essas manias esquerdistas de ser politicamente correcto e mais amigo dos outros que do seu próprio povo".
Só não convinha defender com tanto afinco a banalização do piropo. Por aqui, o pessoal (mesmo no seu potencial empregador, o Pegida) está muito chocado com os ataques a mulheres indefesas na rua, e o papel que um dos atacantes de Colónia tinha consigo, com a tradução do árabe para alemão de galanteios como "mamas grandes" e "quero-te foder", não ajudou muito à causa do piropo. Nem mesmo se for um piropo proferido por um português, o qual - como os entusiásticos apoiantes deste tipo de texto da Maria João Marques sabem muito bem - pertence a uma raça de qualidade superior.
Às vezes dá jeito sair do plano ideológico e fazer uma pequena incursão na realidade. Para quem se interessar sobre a vida real, há
aqui um relato do que acontece num centro católico berlinense que oferece formação a mulheres refugiadas.
Há dias contaram-me uma história muito curiosa, que se passou em Berlim: uma portuguesa loira ia a passar em frente a umas obras, quando ouviu um piropo dito em português. Pensaria o homem que podia dizer o que lhe apetece, já que a loira seria com certeza alemã e não entenderia nada, mas a vida correu-lhe mal. Em vez de avançar, por não ter percebido nada, ou de se encolher e atravessar para o outro lado da rua, por ter percebido bem demais, a portuguesa estacou, olhou para ele, e disse: "Olhem-me este trolhinha a mandar piropos! Cresce e amadurece, homem, que neste país isso não se usa."
Eis uma boa razão para os países nos quais o respeito pela mulher é um valor fundamental abrirem as portas a pessoas de culturas que oprimem a mulher: na Alemanha, uma portuguesa sentiu-se suficientemente forte para meter um piropeiro na ordem. Já em Portugal, alguém que levante a voz contra o assédio verbal de rua é atacada, até por outras mulheres.
Ataques por parte de outras mulheres, como faz na sua crónica a Maria João Marques que, curiosamente, padece do problema que tão bem explica: está formatada por uma cultura que tolera comportamentos de desrespeito da mulher, mas pensa que é assim mesmo que deve ser. Contudo, talvez haja esperança para o seu caso: se a Alemanha não se deixar influenciar por opiniões da linha ideológica do seu texto, ou seja, se não fechar as fronteiras a estrangeiros alegadamente pré-condicionados pela sua cultura de energúmenos, e se ela, ao vir para cá, em vez de se juntar ao Pegida estiver aberta para aprender neste país alguns valores básicos do Ocidente Cristão, talvez possa algum dia perceber tudo o que há de profundamente errado no texto que escreveu.
Para ser justa, convém notar que em Portugal também haveria muito quem lhe explicasse isso. De facto, sinto-me feliz por poder afirmar que há muito mundo em Portugal para além da Maria João Marques, e que os portugueses não são todos iguais a ela e ao seu luso Pegida. Pelo que seria realmente trágico se o centro da Europa tomasse a parte pelo todo, e fechasse as fronteiras a todos os portugueses, só porque entre eles há um grupo de considerável dimensão que não tem o menor pudor em trazer para o espaço público um discurso de xenofobia, de intolerância religiosa e de bagatelização do assédio verbal na rua.
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Quatro detalhes à margem:
1. Gostei muito desta passagem:
"E a propósito, esta forma que os muçulmanos têm de olhar para as mulheres como gado, mesmo quando não dizem nada, é muito mais agressiva do que qualquer piropo, ordinários incluídos, que tenha ouvido por cá."
Até parece que nas ruas portuguesas não há homens a olhar para as mulheres como se elas fossem gado. Até parece que esse olhar de devassa não está directamente ligado aos piropos, nem é o que geralmente os precede. E o que mais espanta é a ingenuidade da afirmação de que o olhar de um português permanece puro e respeitoso mesmo quando o seu piropo é ordinário.
Mais uma vez, concluo que a mim só me saem é duques. Como aquele desconhecido que em Lisboa, no verão passado, me fitou de rosto congestionado e olhos quase fora das órbitas, enquanto lambia lascivamente os beiços. Na altura tive pena de não lhe ter perguntado a religião, mas a Maria João Marques já me esclareceu: só pode ser muçulmano.
2. A parte da crónica sobre as feministas silenciarem os ataques de Colónia para protegerem os estrangeiros é pura desonestidade intelectual. Ninguém pode fazer uma afirmação dessas em relação às feministas alemãs depois de ter lido os textos que eu traduzi. E eu sei que a Maria João Marques os leu, porque até os criticou em público. Entretanto também se podia informar um pouco sobre a campanha #ausnahmslos. (Significa: sem excepções, e critica toda a violência sexual, venha de onde vier. O que só prova que as feministas alemãs estão cada vez mais loucas: agora até têm o desplante de não responder ao retrato que a Maria João Marques quer fazer delas.)
3. A frase "Só agora se viu a necessidade de informar refugiados das regras de conduta europeias entre os sexos ou alargar possibilidade de deportação de criminosos" denota tal ignorância que nem sei por onde começar a informar sobre a realidade trágica deste êxodo (só na Alemanha foi mais de um milhão em menos de um ano), do esgotamento dos serviços responsáveis por identificar e registar quem chega e dar meios para subsistirem enquanto esperam, da impossibilidade de deportar seja quem for por muito grande que seja o crime, do intenso e generoso trabalho de integração levado a cabo por inúmeros grupos de voluntários. Mas talvez não valha a pena dar informações sobre a realidade a quem precisa muito de acreditar que o mundo é tal e qual como o vê, para poder continuar a escrever textos inflamados.
4. Finalmente, sugiro um momento de silêncio para apreciar esta frase em todo o seu esplendor: "Claro que nem todos os muçulmanos são energúmenos."