03 abril 2020

festival da Páscoa pelos meus filarmónicos do coração


Dia 4 de Abril, às 7 da tarde (6 em Portugal), começa o festival da Páscoa com os filarmónicos do meu coração. Vários concertos gratuitos, desde amanhã até à segunda-feira da pascoela. 

No Digital Concert Hall, como de costume. Que, aliás, tem um voucher de trinta dias para nos ajudar a passar estes dias de isolamento.

(Imagem)


e que tal isolar as pessoas dos grupos de risco, e deixar os saudáveis apanhar a gripezinha?

Num artigo do Spiegel Online, Julia Merlot faz as contas para avaliar os resultados da solução alternativa que alguns equacionam para fazer frente ao desafio da covid-19.

Uma síntese do artigo:

Há cada vez mais vozes que se erguem contra o fim do lockdown total, propondo que se isolem apenas as pessoas que pertencem aos grupos de risco. Mas será que esta alternativa é praticável?


Alguns factos: entre o contágio e a manifestação dos primeiros sintomas decorrem cinco dias. Entre o contágio e o (caso necessário) internamento nos cuidados intensivos decorrem cerca de duas semanas e meia. Na melhor das hipóteses, os hospitais recebem uma previsão das necessidades diárias futuras com cerca de nove dias de antecedência. O ideal, a longo prazo, é conseguir aumentar a pouco e pouco o número de pessoas imunes, sem que o sistema de saúde atinja o limite da sua capacidade.

Começam a surgir propostas de impor as medidas apenas aos grupos de risco em vez de as impor a toda a população. Pessoas de idade, ou com doenças problemáticas, deviam evitar contactos sociais, e a restante população poderia continuar a fazer a sua vida mais ou menos normalmente.

Problema: enquanto o vírus se está a espalhar descontroladamente, esta solução teria demasiados riscos, como se viu na Grã-Bretanha, que começou por apostar na imunidade do grupo e rapidamente percebeu os riscos dessa escolha. Por outro lado, um isolamento prolongado traria às pessoas idosas enormes custos psíquicos.

Para além disso:
- Não é possível proteger com segurança absoluta as pessoas dos grupos de risco;
- Teme-se que o número de infectados nos grupos de menor risco cresceria de tal forma que os hospitais não teriam a possibilidade de acolher todos os que precisassem de cuidados especiais;
- Pergunta-se quais seriam os critérios para identificar os grupos de risco.

Alguns cálculos básicos, usando o caso da Alemanha:

Se fossem isoladas todas as pessoas com mais de 70 anos, haveria mais de 13 milhões de cidadãos alemães em reclusão. Cerca de 70 milhões poderiam continuar a movimentar-se livremente, e em poucos meses 2/3 desses seriam infectados. Ninguém sabe quantos desses cerca de 50 milhões de infectados precisariam de cuidados hospitalares, e se haveria capacidade para tratar todos - o que torna desde já esta escolha extremamente arriscada.

Além disso, não bastaria isolar as pessoas com mais de 70 anos. O risco de haver complicações graves começa já a partir dos 50 anos, e cresce exponencialmente. Os fumadores também são um grupo de risco. Somando os fumadores com menos de 60 anos e todas as pessoas com mais de 60 anos, seria preciso isolar quase 40 milhões de alemães. E ainda não se incluíram as pessoas que sofrem de asma, de diabetes, de problemas cardíacos e de cancro.

Ou seja: a proposta de isolar apenas as pessoas dos grupos de risco implicaria que cerca de metade da população alemã teria de ser posta em isolamento absolutamente estanque (uma vez que "lá fora" o vírus alastraria desenfreadamente).

Contudo, as pessoas dos grupos de risco também têm de ir comprar comida e ir ao médico. Mesmo que ficassem fechadas em casa e lhes levassem comida e cuidados médicos ao domicílio, seria muito difícil impedir o contágio justamente por esses elementos vindos de fora - como se viu tragicamente no caso do lar de terceira idade em Wolfsburg, no qual já morreram 22 pessoas vítimas de covid. Além disso, mais de metade das pessoas idosas que precisam de cuidados continuados vivem com os seus familiares cuidadores. O isolamento dos idosos implicaria a mudança de casa para um ambiente completamente desconhecido. Finalmente: há que considerar os custos psicossociais desta solução. Em suma: esta solução alternativa seria realizada inteiramente à custa do bem-estar das pessoas mais frágeis da nossa sociedade.

Um dos especialistas consultados afirmou ter esperança de que seja possível, no fim deste período de confinamento, acompanhar as cadeias de contágio, isolar os infectados e pôr os seus contactos em quarentena. Desse modo seria possível controlar o alastramento do vírus. Quando o número diário de novos infectados na Alemanha descer para 200 será possível começar a aliviar as medidas de isolamento da população. A par disso, é fundamental apostar nas medidas de higiene: lavar/desinfectar as mãos e usar máscaras nos espaços públicos, manter o mais possível a distância em relação às outras pessoas, e relembrar constantemente o risco real de infecção.

Está a ser preparada a realização de testes em grande escala para ter melhores dados sobre a situação actual de imunidade. Quando houver resultados, os políticos terão de escolher entre a contenção do risco de contágio e a contenção dos danos resultantes da luta contra este vírus.

"tranquilidade"

Ontem, a palavra mágica da Enciclopédia Ilustrada foi "tranquilidade".

Claro que passaram lá o Gato Fedorento a brincar com o Paulo Bento.
A minha participação:


Bem sei que isto vai parecer um lugar-comum, e que devia era ficar caladinha, mas o momento de maior #tranquilidade que tenho para vos contar aconteceu-me há 18 anos, num observatório astronómico em Oakland. Naqueles meses loucos em que quisemos aproveitar tudo o que a Bay Area tinha para nos oferecer antes de regressarmos à Europa, lemos no jornal que o Chabot estaria aberto ao público durante algumas horas do princípio da noite, e fomos lá com os miúdos.

Vimos umas coisecas, ouvimos uma palestra, e quando já estávamos para encolher os ombros e regressar a casa a Christina reparou que havia pessoas a fazer uma fila. Ora bem (ia fazer uma gracinha sobre termos uma costela da RDA, mas adiante): onde há fila tem de haver um motivo forte (ia fazer outra gracinha sobre fenómenos de grupo, como por exemplo açambarcar papel higiénico, mas adiante). Pusemo-nos atrás dos outros sem saber para quê, e quando chegou a nossa vez descobrimos que era para ver a lua por um telescópio prodigioso.

A lua. A imensa tranquilidade das crateras lunares ali mesmo à minha frente. Tão perto, tão presente, tão inteiramente minha que cheguei a acreditar que poderia tocá-la. De repente toda eu era apenas os meus olhos hipnotizados, encantados pelo silêncio e a paz daquele lugar.

Até que uma vozinha disse "agora eu, mãe" - e passei a lua para os olhos dela.


dilema

Esta manhã, àquela hora em que já não se está a dormir mas ainda não se está bem acordado, ocorreu-me que um dia destes o Macron há-de decidir aliviar um pouco as regras do confinamento, e deixará sair à rua (e até entrar nos restaurantes) as pessoas que aceitarem que os dados de localização no seu telemóvel sejam permanentemente seguidos e registados.

Pode ser um delírio daqueles em que o meu cérebro é fértil nesse momento entre o sono e o despertar (enfim, nos outros momentos também...) mas fica a questão: para ganhar a liberdade de ir passear nas praias desta região, estaria disposta a abrir mão da minha liberdade de andar pelo mundo sem ter de dar contas ao Estado?

02 abril 2020

boa noite, e bons sonhos



O RIAS Kammerchor gravou uma famosa canção alemã no modo a que já nos vamos habituando: todos juntos mas cada um em sua casa.

Aqui tão longe, em Brest, senti-me especialmente tocada pela luz quente que dava vida àquelas janelas berlinenses. De repente senti saudades da sensação de conforto e tranquilidade que aquelas janelas berlinenses me dão.
(Parece-me que por estes dias tenho saudades de tudo e de nada...)

A seguir passo a letra, de Matthias Claudius, escrita em finais do séc. XVIII, e uma tradução para inglês que encontrei na wikipedia. Neste tempo de paragem solidária sinto especialmente próximos os últimos versos da canção:

Que Deus nos seja leve no castigo,
E que possamos dormir tranquilos,
Nós, e o nosso vizinho que está doente
.



--

Der Mond ist aufgegangen,
Die goldnen Sternlein prangen,
Am Himmel hell und klar.
Der Wald steht schwarz und schweiget
Und aus den Wiesen steiget,
Der weisse Nebel wunderbar.
Wie ist die Welt so stille
Und in der Dämm'rung Hülle,
So traulich und so hold,
Gleich einer stillen Kammer,
Wo ihr des Tages Jammer,
Verschlafen und vergessen sollt.
Seht ihr den Mond dort stehen,
Er ist nur halb zu sehen
Und ist doch rund und schön.
So sind wohl manche Sachen,
Die wir getrost belachen,
Weil unsre Augen sie nicht seh'n.
So legt euch denn ihr Brüder
In Gottes Namen nieder.
Kalt weht der Abendhauch.
Verschon' uns Gott mit Strafen
Und lass' uns ruhig schlafen
Und unsern kranken Nachbarn auch.

--The moon has been arising,
the stars in golden guising
adorn the heavens bright.
The woods stand still in shadows,
and from the meads and meadows
lift whitish mists into the night.

The world in stillness clouded
and soft in twilight shrouded,
so peaceful and so fair.
Just like a chamber waiting,
where you can rest abating
the daytime's mis'ry and despair.

Behold the moon – and wonder
why half of her stands yonder,
yet she is round and fair.
We are the ones who're fooling
'cause we are ridiculing
as our minds are unaware.

We vain and wretched sinners
presume to be the winners,
but we know nothing yet.
So many neat solutions
are nought but great delusions
that farther off the path us get.

God, grant us Thy salvation!
No worldly aspiration,
no vanity allow!
Like children simple-hearted,
and joyful like we started,
let us become and teach us how!

And lastly, grant us leaving
the world without much grieving,
let peaceful be our death.
When from the earth You take us,
let heaven's joy await us
stand by us, Lord, at our last breath.

So, brothers, in His keeping
prepare yourself for sleeping;
cold is the evening breeze.
Spare us, Oh Lord, Your ire,
let rest us by the fire,
and grant our ailing neighbour peace.

parar para reparar

A "An Imagined Letter from Covid-19 to Humans" que partilho no final deste post foi publicada há duas semanas.

Devia tê-la partilhado imediatamente, porque na altura parecia algo novo e importante para pensar, mas, à velocidade a que parámos nesta crise, já sabemos que este intervalo nos está a ser oportunidade para tudo - desde a depressão à violência doméstica, passando pela angústia existencial de muitos e também pelo impulso de rir para espantar o medo - mas não nos tem levado a parar para reparar no mundo e para reparar o que está mal.

Partilho-a agora: matéria para estudo da arqueologia covidiana.

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An Imagined Letter from Covid-19 to Humans

Stop.
Just stop.
It is no longer a request.
It is a mandate.
We will help you.
We will bring the supersonic, high speed merry-go-round to a halt.
We will stop the planes, the trains, the schools, the malls, the meetings, the frenetic, furied rush of illusions and “obligations” that keep you from hearing our single and shared beating heart, the way we breathe together, in unison.
Our obligation is to each other, as it has always been, even if, even though, you have forgotten.
We will interrupt this broadcast, the endless cacophonous broadcast of divisions and distractions, to bring you this long-breaking news: We are not well. None of us; all of us are suffering.
Last year, the firestorms that scorched the lungs of the earth did not give you pause. Nor the typhoons in Africa,China, Japan. Nor the fevered climates in Japan and India.
You have not been listening.
It is hard to listen when you are so busy all the time, hustling to uphold the comforts and conveniences that scaffold your lives. But the foundation is giving way, buckling under the weight of your needs and desires.
We will help you. We will bring the firestorms to your body. We will bring the fever to your body. We will bring the burning, searing, and flooding to your lungs that you might hear: We are not well. Despite what you might think or feel, we are not the enemy.
We are Messenger. We are Ally. We are a balancing force.
We are asking you: To stop, to be still, to listen; To move beyond your individual concerns and consider the concerns of all; To be with your ignorance, to find your humility, to relinquish your thinking minds and travel deep into the mind of the heart; To look up into the sky, streaked with fewer planes, and see it, to notice its condition: clear, smoky, smoggy, rainy?
How much do you need it to be healthy so that you may also be healthy? To look at a tree, and see it, to notice its condition: how does its health contribute to the health of the sky, to the air you need to be healthy? To visit a river, and see it, to notice its condition: clear, clean, murky, polluted? How much do you need it to be healthy so that you may also be healthy? How does its health contribute to the health of the tree, who contributes to the health of the sky, so that you may also be healthy?
Many are afraid now. Do not demonize your fear, and also, do not let it rule you. Instead, let it speak to you—in your stillness, listen for its wisdom. What might it be telling you about what is at work, at issue, at risk, beyond the threats of personal inconvenience and illness?
As the health of a tree, a river, the sky tells you about quality of your own health, what might the quality of your health tell you about the health of the rivers, the trees, the sky, and all of us who share this planet with you?
Stop.
Notice if you are resisting.
Notice what you are resisting. Ask why.
Stop.
Just stop.
Be still. Listen.
Ask us what we might teach you about illness and healing, about what might be required so that all may be well.We will help you, if you listen.


Written by Kristin Flyntz




29 março 2020

a importância dos artistas

Monika Grütters, ministra de Estado da Cultura da Alemanha, preparou um pacote de resgate para os sectores cultural, criativo e de media. São cinquenta mil milhões de euros para ajudar as pessoas destes sectores a sobreviver à crise da covid-19.

Traduzo da página do governo alemão:
Segundo a ministra: "neste momento histórico, que até há bem pouco tempo seríamos incapazes de imaginar, a nossa sociedade democrática precisa de manter a sua paisagem cultural e mediática única e diversificada. A audácia criadora dos artistas  pode ajudar a superar a crise. Devemos aproveitar todas as oportunidades para criar algo positivo para o futuro. É por isso que entendemos que os artistas são não apenas indispensáveis, mas também vitais, especialmente no momento actual."

A ajuda federal repousa sobre três grandes pilares para responder às condições específicas de vida e de trabalho dos criativos:

1) As pequenas empresas serão ajudadas a assegurar o seu funcionamento.
2) As condições pessoais de vida serão salvaguardadas.
3) Um grande número de medidas legais individuais tem como objectivo aliviar as dificuldades.

"Conhecemos as dificuldades, conhecemos o desespero", disse Grütters. "O sector cultural, em particular, caracteriza-se por uma elevada proporção de trabalhadores independentes que agora têm problemas existenciais. Tenho, portanto, o prazer de poder anunciar que a ajuda está a caminho - o mais rapidamente e sem burocracias que for possível! Gostaria de agradecer muito sinceramente aos ministros da Economia, Finanças e Trabalho por terem levado em conta as preocupações e os interesses dos artistas e o panorama criativo e mediático que apresentámos. Isso é prova de que o governo federal tem consciência do valor único da nossa paisagem cultural, criativa e mediática.

Mais informações aqui, em inglês.

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E agora um apontamento pessoal:


Uma vez a ministra da Cultura alemã virou-se para trás, viu-me, estendeu a mão e apresentou-se, muito simpática e humilde: “Monika Grütters”.

Achei tudo aquilo muito estranho, porque - no máximo - quem se devia apresentar era eu. Só depois percebi: estávamos ambas na festa de despedida do Simon Rattle, uma festa relativamente privada da Filarmonia, e a ministra deve ter pensado que eu era alguém importante dentro daquela casa da cultura.

Hoje lembrei-me dessa cena: da simpatia e da humildade desta ministra perante as gentes da cultura.

cada um em sua casa


Por estes dias multiplicam-se imagens de cartazes de cinema a mandar as pessoas ficar em casa até que a vida real deixe de parecer um filme.

Mas o Cinema Liberdade, em Brest, é muito à frente!
Tem na montra este cartaz:


Ainda estou para saber se era o filme que, por grande coincidência,  tinham em cartaz, ou se foi gracinha de algum empregado do cinema.

Na nossa primeira semana em Brest, numa fase da História actual que me parece ter sido há séculos, fomos ao cinema. A um outro cinema - Les Studios -, com um programa muito apelativo que me levou a exclamar (oh, há quinze dias éramos tão inocentes!) que ia passar a ser cliente habitual da casa. Duas vezes por semana, pelo menos!

Tinha a certeza.
Foi na semana em que já tinham proibido ajuntamentos de mil pessoas, mas autorizavam a abertura de salas de cinema com um máximo de 100 lugares, e eu ainda tinha certezas.

Agora estou mais assim: enquanto não nos obrigarem ao confinamento absoluto, menos mal.


tranquilidade



Há sete anos andava por aqui: a saborear o amanhecer no rio Yacuma, instalada num pequeníssimo aldeamento lacustre que fica ao fim de uma viagem de barco de cerca de duas horas a partir de Santa Rosa, que por sua vez fica a 3 horas de Rurrenabaque, em jipe por "estradas" horrorosas.

Três dias na perfeita tranquilidade da natureza na Pampa boliviana.

Quando regressámos a Rurrenabaque, uma cidadezinha de menos de vinte mil habitantes no meio da selva, junto ao rio Beni, dei comigo a reagir a tanta "agitação".

Pergunto-me como será quando as nossas cidades acordarem de novo para o bulício costumeiro. Será que vamos sentir uma espécie de saudades deste intermezzo?


27 março 2020

anormalidade

Acabei de ver um homem jovem vestido normalmente a correr na rua. Há séculos que não via uma coisa tão normal. De facto, na cidade parada, um tipo a correr como se tivesse pressa é a coisa mais anormal que vi nos últimos tempos.

covid-19 e fumadores

Traduzo de uma página de informação de saúde francesa:

A epidemia de Covid-19 levanta questões sobre as interacções entre a infecção e o uso de substâncias psicoactivas. Tem-se verificado que:
- o consumo regular de produtos inalados (tabaco, canábis, cocaína, crack, etc.) aumenta o risco de infecção e de casos graves de infecção;
- em algumas pessoas, esse consumo é responsável pela tosse, o que por si só favorece a transmissão do vírus aos que os rodeiam, nomeadamente no caso de infecção sem sintomas;
- o facto de partilhar um cigarro, um vaporizador ou qualquer outro produto ou material pode provocar a contaminação;
- o confinamento também pode aumentar a exposição passiva de terceiros ao tabaco ou ao fumo de outros produtos.

Neste período de epidemia, é importante :
- tomar cuidado para proteger seus pulmões e os das pessoas que vivem na mesma casa;
- não compartilhar cigarros ou qualquer outro produto/material;
- lavar as mãos antes e depois de qualquer consumo.

Além disso, recomenda-se que os fumadores que estão a ser submetidos a um tratamento de substituição de nicotina contactem o seu médico ou a farmácia para organizar a continuidade do acompanhamento e do tratamento.


simpáticos comilões



Bom dia, simpáticos comilões.

Ponham aqui os vossos olhinhos: é para isto que estamos a trabalhar com afinco, é esta a nossa meta no final da quarentena!

Ora então: preparados para a corrida? O último a chegar à cozinha é uma banana frita!

(Eu rio-me, rio-me, mas já tenho uma receita e já comprei uma forma para fazer gateau breton...)

(Eu rio-me, rio-me, mas a verdade é que estou com uma neura descomunal. E vocês, provavelmente, também. Vá: paciência - e cá vamos nós a mais um dia.)


25 março 2020

casa nova



Viemos para a Bretanha no dia 1 de Março, e a meio do mês arranjámos um apartamento provisório no qual podemos ficar até termos finalmente a "nossa casa em Brest". Depois de quase duas semanas no quarto na residência de estudantes, este apartamento pareceu-nos um palácio - apesar da extraordinária taxa de ocupação de móveis por centímetro quadrado.

O caso é que o tempo em Brest muda a cada cinco minutos. E esta combinação de sol e chuva dá efeitos de luz formidáveis. Não tenho sossego nenhum neste apartamento com três frentes, onde há sempre uma janela oooooooooh e outra janela aaaaaaaaah... 
 


 
 
As duas fotos que se seguem (ambas da mesma janela, e ambas a cores) são uma queixa: quem deixou construir aquelas casas e plantar aquelas árvores à frente das nossas janelas, roubando-nos a vista para a foz do rio, a fortaleza e a rade de Brest, heinhe?...

 

PS. A quem interessar possa: a Olympus.fr está a fazer promoções até 30 de Março. Comprei por 719 euros e sem despesas de envio a E-M10 Mark III prateada, mais a lente pancake, mais a de 45 mm mais a 40-150 mm. Já vi que a Olympus portuguesa não tem esta promoção - mas será que a francesa envia para Portugal?
(Ainda não me chegou às mãos - se tivesse chegado, podem crer que não estava aqui a escrever... - mas ontem recebi a mensagem a dizer que já tinha sido enviada.)

o meu coro em zoom



Ontem o meu coro teve um ensaio via zoom, e o melhor de tudo foi quando as pessoas começaram a entrar em linha: pipocavam muito alegres no meu ecrã. 
Passei uns bons quinze minutos a sorrir como uma apaixonada.
(Não sabia que gostava tanto deles.)

O ensaio começou com o maestro no centro, nós muito bem arrumados cada um na sua janelinha, e ele a explicar como é que o sistema funcionava. Confessou, a rir, que o que mais lhe agrada neste sistema é poder pôr-nos em silêncio - "quem me dera ter esta tecla durante todos os ensaios convosco!"

Fizemos os exercícios de aquecimento, e cantámos várias vezes:

Evening rise. Spirit come. 
Sun goes down when the day is done. 
Mother earth  awakens me
With the heartbeat of the sea.

(Para quem quer saber tudo: a versão que cantámos foi esta, com arranjos de Meinhard Ansohn. Mas optei partilhar o vídeo que está no princípio deste post porque me soube muito bem aquele passeio inicial pela floresta tropical.)

Depois cantámos em conjunto uma parte da peça que estamos a preparar para o concerto de Novembro. "Cantar em conjunto" é uma maneira de dizer: cada um cantava para si, olhando para o maestro que, de facto, estava a dirigir uma gravação no piano. As diferentes ligações de internet implicam velocidades diferentes para cada uma das vozes do coro, fazendo com que o conjunto seja, digamos, uma interessante cacofonia.

Ao ver o meu maestro a dirigir o vazio lembrei-me de uma cena contada por Konrad Latte, um músico judeu berlinense que conseguiu escapar ao Holocausto arrancando a estrela da roupa e usando um nome falso. O jovem Latte tinha aulas com um maestro que teve a delicadeza de não lhe fazer qualquer pergunta sobre a sua vida. Durante os terríveis anos da guerra e da perseguição ensaiavam apenas com a partitura da orquestra, e Latte contaria mais tarde no seu livro "E nem que ganhemos apenas uma hora" que os vizinhos deviam achar estranhíssimo ver pela janela os dois homens a gesticular com movimentos largos, fechados numa sala em silêncio.
(Para quem quer saber tudo: Konrad Latte foi o criador da
Berliner Barock-Orchester, que dirigiu de 1953 a 1997.)

No fim do ensaio falámos dos ajustamentos que teremos de fazer. Provavelmente haverá ensaios por naipes. E vamos usar o zoom também para ter aulas de canto individuais ou em pequenos grupos.

Outro ajustamento que temos de fazer é um controlo melhor da nossa imagem. As cenas que nós fazemos no coro, que vergonha! Os bocejos, os olhares, os esgares...
O maestro diz que para ele não foi nada de novo, porque vê disso em todos os ensaios.
Ou seja: mais uma vez se prova que este tempo estranho serve ao menos para nos revelar algo que que não sabíamos sobre nós mesmos. 

À despedida, uma das cantoras anunciou muito orgulhosa que os vizinhos dela estavam todos à janela a aplaudir.
(O que me lembrou uma gracinha que li há dias no instagram: a sugestão para ter sexo uns minutos antes da hora a que começa o aplauso aos profissionais da saúde.)

Quando desliguei, por volta das nove da noite, dei-me conta de que, pela primeira vez em muito tempo, tinha passado duas horas sem me lembrar de sentir fome. Jantei tristonha e nostálgica, ligeiramente atormentada pela dor de ter lembrado como era a minha vida antes.

Mas tenho esperança que lá para Julho as medidas de segurança vão abrandar, e sei que em fins de Setembro regresso à Alemanha e recupero o meu coro em carne e osso.
Isto não passa de um intermezzo.



24 março 2020

resistir às leis da física e da metafísica

E ao não-sei-quantésimo dia descobri que há uma correlação forte entre o facebook e o gateau breton que (neste preciso momento ainda) tenho na cozinha. Faltava-me identificar o modelo matemático, mas a regra pareceu-me clara: após n posts lidos e comentados desaparece mais uma fatia de bolo.

Também pus a hipótese de haver uma metafísica qualquer que explicasse o fenómeno de ser telecomandada: uma força superior que me levanta da cadeira e me põe a avançar na direcção da cozinha. A mesma força superior comanda a faca que corta fatias do bolo - todas muito fininhas, é certo, mas numa sucessão estonteante de fatias.

Para resistir a estas leis da física e da metafísica pensei criar uma espécie de corrida de obstáculos: entre mim e o bolo poria um copo de água, uma peça de fruta, outro copo de água, um tomate, um saquinho para fazer chá, meio pimento, uma peça de fruta e um copo de água. De cada vez que a força maligna atacasse, levantava-me, dirigia-me à cozinha, parava junto ao obstáculo mais perto de mim, consumia-o e voltava para a mesa. Só quando se acabassem todos os obstáculos é que podia comer uma fatia fina do bolo. Depois punha novos obstáculos no caminho, e recomeçava tudo.

A ideia pareceu-me muito boa. Comi três ou quatro fatias (não muito finas) de bolo enquanto a alinhavava, que os neurónios não se alimentam sozinhos.

Também pensei criar um clube no facebook chamado "heeeelp!". De cada vez que tivesse vontade de ir à cozinha vinha ao grupo, postava "heeeelp!" e quem estivesse por perto desatava a fazer conversa comigo para me proteger daquele impulso.

Mais cinco fatias de bolo que foram investidas nesta ideia.

De modo que tive de fazer uma pausa nestes meus projectos tão bons, para ir ao supermercado comprar mais um bolo.

notícias da minha tranquilíssima aldeia



Há tempos senti alguma curiosidade de saber qual seria o som de uma cidade sem o ruído de carros. Agora já sei - e é estranho. O cenário é o de sempre -  casas, carros, casas, carros - mas sobre tudo há um silêncio entrecortado apenas por gritos de gaivotas. Fechando os olhos podíamos imaginar que estamos de férias numa aldeia costeira tranquila.

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Ontem alegrei-me ao ver duas crianças de bicicleta e um pai na rua até então desertíssima. Que bela música: "Papá! Papá! Olha, papá!"

Onde estarão todas as crianças deste bairro? Deviam deixá-las sair para correr em frente da porta de casa. Das 10:05 às 10:25 a família do 1º Esq., das 10:35 às 10:55 a família do 1º Dir., e por aí sucessivamente. Nós todos a sorrir à janela: a ver os miúdos brincar, aprender a andar de bicicleta ou de patins. Até nos esquecíamos de ir à cozinha comer qualquer coisa outra vez.

Por acaso, agora que penso nisso: porque é que se pode ir passear o cão e não se pode passear os filhos? Tomando, obviamente, todas as precauções para não chegar perto de ninguém e para não tocar nada.

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O meu coro vai recomeçar hoje os ensaios. Com o sistema de conferência zoom, cada um na sua casa.
Acabei de descobrir que me esqueci das partituras em Berlim...

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Hoje não preciso de ir ao supermercado. Tanto melhor! Ainda não me habituei àquelas coreografias de fuga pelos corredores: como se os outros tivessem peçonha.


23 março 2020

opção: ficar em casa

Em conversa com um amigo alemão quase deixei escapar que penso com pena nas minhas amigas portuguesas que por estes dias estão em casa com crianças pequeninas. Mas - felizmente - calei-me a tempo. É que a sociedade alemã que eu conheço desde há 30 anos esperava (e espera) isso de todas as mães. Muitas das minhas amigas alemãs largaram tudo para ficarem dia e noite com as suas criancinhas até estas fazerem três  (ou seis, ou dezoito) anos. Aquilo que muitas famílias portuguesas se vêem obrigadas a fazer em tempos de covid-19, e tanto custa, é algo que muitas alemãs fazem pelo menos até o filho mais novo ter três anos.

Espero que esta revelação sobre o sofrimento das mães alemãs ajude os portugueses a criar uma espécie de empatia com aquele povo, no qual tantos tanto gostam de bater.

(Sim, bem sei que vão dizer que ninguém as obriga, e que ninguém as manda ser parvas, etc.
Pffff, calem-se, que não percebem nada de idiossincrasias sociais. Eu bem me lembro dos argumentos "a criança precisa da mãe em casa", "o meu filho há-de ser educado por mim e não por um estranho qualquer!" e "há que escolher entre fazer carreira ou ter família".)

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Fui comprar sabonete e - pronto, confesso: - gateau breton. No caminho para o supermercado vi dois homens jovens que iam pela rua como quem vai em passeio. Um carro parou e chamou-os. Era um polícia à paisana, a controlar a declaração que cada um de nós deve levar no bolso explicando o motivo para andar na rua.

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No supermercado Super U havia placas de plexiglas a proteger as pessoas na caixa registadora, e marcas no chão para os clientes não ficarem demasiado próximos uns dos outros. Enquanto punha as minhas coisas no tapete rolante pisei um desses riscos inadvertidamente, e a empregada chamou-me imediatamente a atenção. Pedi desculpa, claro, e pus-me literalmente na linha.

Os funcionários na caixa tinham todos luvas de látex e uma máscara de pano que parecia ter sido feita em casa. Cada uma com um tecido diferente. A da minha caixa, por exemplo, era aos quadradinhos azuis. Nem sei que dizer.


sem motivo para queixas

 
A pouco e pouco instalamo-nos na nova normalidade, e ganhamos outros hábitos. Por exemplo: levar um lenço de papel para proteger a mão que abre a porta da rua e o contentor do lixo. Ainda bem que quando toda a gente estava a exagerar no papel higiénico eu me lembrei de comprar antes um pacotão de lenços de papel. Têm dado muito jeito, nestes tempos de dar uma assoadela e deitar o lenço fora.  

Ontem - no que foi o sexto domingo consecutivo da semana passada - comemos espargos brancos frescos (que é época deles) com manteiga bretã. Podíamos estar tão pior...

Estou em casa, sim. Confinada. De resto, está tudo bem. Os miúdos estão em segurança relativa na nossa casa, num bairro de baixa densidade populacional em Berlim. Não temos preocupações de pagamento de dívidas, doenças crónicas, operações urgentes adiadas. É verdade que o Joachim está a trabalhar no hospital e tem um risco acrescido de ser contagiado, e que o Matthias quer trabalhar num supermercado ("os supermercados estão desesperados à procura de pessoal, e antes eu que uma pessoa de 60 anos, mãe") - mas vivemos um dia de cada vez.
Para muitos, esta crise é uma tragédia. Para nós, não passa de um pequeno conjunto de contratempos.
Se me apanharem aqui a queixar-me, mandem-me ter vergonha.

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De repente, do nada, o Joachim foi remexer o seu saco de survival kits para os festivais. Lá bem no fundo encontrou um pacote de 3 máscaras que comprara numa loja de bricolage. "FFP2!", anunciava ele, eufórico.

Já temos o que usar para entrar no supermercado - no caso de sermos portadores, as outras pessoas ficam um pouco mais protegidas. Mas temos de as poupar como se fossem ouro, para não se estragarem, e para não gastarmos todo o período de validade no primeiro dia.

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Ontem esteve um domingo cinzento. Pela janela vi duas crianças a atravessar a ponte. Seriam irmãos, teriam talvez quatro e seis anos, levavam máscaras e saltitavam pelo caminho. Dois passarinhos em liberdade, felizes, a alegrar as ruas desertas.

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Demos a volta habitual, mantendo a distância de segurança de todas as - poucas - pessoas com quem nos cruzámos. Desta vez fomos até ao porto, escolhendo os caminhos com mais escadas para fazermos exercício físico. Havia alguns iates, e parámos a apreciar os luxos que até agora nunca tínhamos visto de tão perto. O Katamaran, esse então, era de uma elegância extrema. Mas em tempos de covid-29 tudo isto parece deslocado e irreal. Temos outras preocupações, e o verdadeiro luxo é o comportamento solidário. Não me sai da cabeça a expressão usada por uma amiga para descrever a decisão voluntária de ficar em casa para proteger todos: um enorme abraço ao mundo.