20 novembro 2019

on repeat



Aqui vou eu com o que sou
Com o que é meu, tal como sou
É neste chão que assento os pés
E é por seres quem és
Que eu assim me dou.


a culpa é do Ali...



O partido trabalhista a mostrar como é possível responder com simplicidade desarmante ao simplismo de certas estratégias eleitorais.


Zé Mário Branco (2)



Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi este disco. Tinha nove anos, e fui passar a tarde com a Marta, minha amiga dos verões do campismo no Cabedelo, cuja família tinha acabado de mudar para uma casa na Foz do Porto.

A Marta mostrou-me a casa nova, e a seguir decidiu escolher um disco para ouvirmos. Escolheu este, dizendo-me que não podia contar a ninguém, porque estava proibido em Portugal.
E depois: "gosto muito desta canção, olha!"

Fiquei cativada às primeiras notas. Ouvimos, repetimos, dançámos, cantámos.

Regressei a casa com esse "por terras de França" no ouvido, sem entender porque é que não se podia cantar uma canção tão boa e que mostrava tanta empatia pelo sofrimento dos nossos emigrantes.


Na altura não sabia quem era o #Zé_Mário - de facto, nem reparei no nome - mas é a ele que devo um primeiro despertar para a política e a tomada de consciência da estupidez do regime.
Uns meses mais tarde, quando o regime caiu, ocorreu-me com alegria que a partir daí podia cantar esta canção quando me apetecesse.



19 novembro 2019

Zé Mário Branco

A seguir à pergunta "onde estavas no 25 de Abril?" vem:

- De quem eram as canções que cantavas no 25 de Abril?

(E: de quem eram as canções que cantavas de cor nas rodas de viola do teu grupo de estudantes?)

Obrigada por tanto, Zé Mário Branco.

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A RTP disponibilizou a entrevista "Vejam Bem / José Mário Branco: Inquietação".
Está online aqui.

Sinopse: Compositor popular. Artista de variedades. Aprendiz de feiticeiro. José Mário Branco, 76 anos, do Porto. É assim mesmo que se apresenta um dos nomes maiores da música popular portuguesa. Uma história feita de canções, de lutas, de valores, contada pelo próprio, num percurso em que o presente das palavras encontra imagens que recordam meio século de canções.

15 novembro 2019

os Lusíadas (quase completos) num parágrafo



Eu às vezes não sei quê com o Hugo van der Ding, mas depois na cama penso é no RAP. É lá que leio os seus Mixórdias de Temáticas. Este é de 2012, e - como é costume dizer-se quando se fala de obras que já vão em sete anos ou assim - continua actual.

quando comecei a escrever este post, chamava-se "no paraíso", mas o lirismo, coitado, foi atropelado pelos parêntesis que se seguiram



A propósito do post anterior, sobre a colaboração entre a Uniqlo e a Marimekko, uma amiga comentou que eu sou mesmo a Eva com uma cesta de maçãs.
Ora, por falar em paraíso...

Neste cantinho do youtube, a peça que se segue a este "In Paradisum", de Fauré, é o Hino dos Querubins, de Tchaikovsky. Admiro a coragem destes compositores que se lançam à aventura de tentar traduzir a ideia de paraíso de maneira perceptível aos nossos sentidos, tendo para isso apenas os meios disponíveis aos mortais.

(E fico a pensar: se tivesse realmente de escolher entre a cesta das maçãs - o consumo desenfreado - e ficar o dia inteiro nesta música - chamemos isso à consciência tranquila por não contribuir tanto para a destruição do planeta -, o que escolhia?)

(O que me lembra uma história das férias na África do Sul: ao ver a paisagem devastada pela passagem dos  elefantes - os ramos quebrados, as árvores derrubadas - perguntei à nossa guia porque é que eles fazem aquilo. Ela respondeu: "porque podem". Nesse momento achei os elefantes uns bichos um bocado antipáticos. Mas depois caí em mim: eles são tal e qual como nós, que também destruímos o planeta apenas porque podemos.)


maldita sociedade de consumo


Maldita sociedade de consumo!

Quando estava mais que decidida a não comprar nem um pecinha de roupa nos próximos anos, enfim, meses, OK, semanas, eis que a Marimekko faz uma colaboração com a Uniqlo. Agarrem-me, agarrem-me com muita força, que por causa da maldita sociedade de consumo a Greta Thunberg ainda vai ficar decepcionada comigo!

14 novembro 2019

Hiromi Uehara



Descobri esta pianista num artigo recente do Spiegel, que falava das pessoas que vão à famosa Elphi de Hamburgo pelo facto de a sala andar nas bocas do mundo, e haver pacotes turísticos ou promocionais que incluem um concerto qualquer. De modo que muitos, depois de ver a sala, fotografar e pôr no instagram, saem a meio do concerto porque já fizeram tudo o que tinham a fazer naquele sítio.

Diz o Spiegel que não foi o caso deste concerto da pianista de jazz japonesa: ficaram todos, completamente agarrados à sua música. E acrescenta que ela "tem 40 anos, já anda nos palcos há 20, e não se consegue explicar porque é que continua a ser apenas um segredo bem guardado. Diz-se que tem uma "energia diabólica" e que é o "Jimi Hendrix do piano", ou uma "acrobata do teclado". O que é verdade: quando deu um concerto em Hamburgo, há alguns anos - com o seu trio, na Fabrik - alguém resmungou à saída: isto não foi um concerto, foi uma demonstração de poder."

Mas também há os momentos em que se trata de uma sublime manifestação de sensibilidade, como no caso do vídeo acima, de 2009, no qual ela toca uma composição sua numa altura em que andava a fazer o luto de uma pessoa que lhe fora muito próxima.





13 novembro 2019

o vosso próximo vício

https://www.instagram.com/p/B4xctkWF7lz/?utm_source=ig_web_button_share_sheet

Para as poucas pessoas que ainda não conhecem: aqui vos apresento o vosso próximo vício
- Pó d'Arroz, Broa de Mel, Dona Lurdes e o dono daquilo tudo. 

(carregar nas imagens)

https://www.instagram.com/p/B4nNnh5lQBO/?utm_source=ig_web_button_share_sheet

https://www.instagram.com/p/B1ohoUllxBT/


"tomate" (4)


O #tomate negro da Crimeia, que já foi hoje mencionado na Enciclopédia Ilustrada, lembrou-me um artigo que li há cerca de vinte anos numa revista americana. Parece que a subsistência de todas essas qualidades diferentes de tomate se deve à cortina de ferro. Na Europa e nos EUA as grandes empresas agro-industriais afunilaram a produção, pondo no mercado apenas os tipos de tomate que lhes pareciam adequados ao mercado. Quando a cortina de ferro se desmoronou, o mundo descobriu com surpresa que do lado de lá havia uma enorme variedade de tipos de tomate (e também de beringelas, courgettes, etc.) que os lavradores iam plantando ano após ano, segundo o saber antigo e as sementes que guardavam para o ano seguinte, em vez de comprarem à Monsanto ou a outra empresa do género.

Na altura em que vivi nos EUA chamavam "heirloom tomatoes" a esses cestinhos com tomates de todas as cores e tamanhos, que vendiam a preços proibitivos. Entendo a ideia de os ver como uma herança: o maior tesouro dos avós.

Ando há quase vinte anos para saber como será a tradução correcta de "heirloom tomatoes" para português.

E também gostava de saber se na América Latina não se guardaram uma ou duas sementinhas de variades à margem da Monsanto.

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Comentário de um colega:

"Aqui no Reino Unido usamos o termo Heritage Tomato, são tomates que têm que ser polinizados, seja pelo vento, insectos ou mesmo cotonete na falta de polinizadores naturais, ao contrário dos híbridos que são auto polinizantes e normalmente mais resistentes a doenças, mais adaptados ao clima pretendido e que têm maior tempo de armazenamento, ou seja, maior produção e mais tempo de vida nas prateleiras do supermercado. Em termos de sabor não há nada que chegue a estas variedades ancestrais e para quem planta para consumo interno e para oferecer aos amigos como é o meu caso muito mais interessante e gratificante."

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Ora aqui está uma boa ideia para traduzir "heirloom tomatoes" = "tomates de variedades ancestrais"

(ooooops, agarrem-me, que me sinto a resvalar para a brejeirice!)
(oooooops, é mais forte que eu: "heirloom tomatoes": "tomates da avó")

"tomate" (3)

Alguns apontamentos sobre #tomate:

1. Odeio a ideia da "Tomatina": desperdiçar mais de cem toneladas de tomate numa festa em que as pessoas se roçam umas nas outras a misturar aqueles mucos...
Arranjem uma cama, em vez de estragar comida desta maneira.

2. Um irmão meu, que estudou arquitectura na Faculdade do Porto, contou-me uma frase que um professor disse, e nunca mais esqueci, porque gosto mesmo muito da força da imagem: "ponham os tomates no estirador!"
(parabéns, acabaram de ganhar um novo critério para avaliar a qualidade arquitectónica de uma casa...)

3. Parece que os tomates gregos apreciam Wagner.



(é um documentário engraçado sobre a vida numa aldeia cada vez mais deserta, e as pessoas que trabalham a fazer conservas várias com os tomates daquela terra)

12 novembro 2019

foi preciso chegar a meio século bem medido para aprender estas coisas sobre criação de tomate, ou: "tomate" (2)

 (colheita diária em 2018)
 (colheita diária em 2019)

(2019 - ao menos a rúcula cresceu como erva daninha)

O que comecei a aprender sobre tomates em 2018:

1. Os roxos são mais resistentes.

2. Não devem ser tratados com paninhos quentes antes de se porem ao ar livre, para o choque térmico não ser demasiado grande.

3. Devem ser manuseados com luvas - ou então, convém limpar a pele a toalhas verdes ou escuras, para as nódoas não serem tão visíveis. As nódoas saem facilmente na lavagem.

4. Em Julho é melhor não os perder nunca de vista.

5. Tomates de estufa não fazem bons molhos (bem, esta aprendi há mais de trinta anos, quando passei o primeiro verão na Alemanha: quis fazer um belo de um arroz de tomate, e saiu-me uma coisa esbranquiçada e sem sabor. Avisei logo os amigos portugueses que os tomates alemães não funcionam. Riram-se muito, vá-se lá saber porquê...)

E assim ia a vida, plena de aprendizagens, quando chegou 2019 e o seu verão completamente louco, e me trocou todas as voltas. Se o aquecimento climático continua por este caminho, só sei que nada sei e que vou ter muito trabalho com a minha plantação de Março a Outubro.

Agora, muito a sério: este ano não correu muito bem no meu talhãozinho de terra por trás de casa: com a excepção dos figos, fantásticos, e dos marmelos, inúmeros - nem morangos, nem tomates, nem damascos, nem cerejas, nem maçãs, nem pimentos, nem feijão, nem pepinos, nem batatas. As framboesas começaram bem, mas secaram. Olhava para aquela tristeza de plantas e pensava no que poderá acontecer à escala nacional ou global, se por causa das alterações climáticas não soubermos tirar da terra os frutos que nos alimentam.


"tomate"

Hoje, a palavra mágica na Enciclopédia Ilustrada é "tomate".
Não sei, mas algo me diz que me vou desgraçar (de vez). Já me aconteceu um post, e provavelmente ainda virão outros.



Estou aqui a contar os posts até alguém ousar falar do plural de #tomate. :)
Se mais ninguém tiver coragem, pois lá terei de ser eu. Deixam sempre para mim os posts mais trabalhosos... ;)

Mas antes de me aventurar nas folias, deixem-me falar-vos daquele momento estranho em que na mercearia a freguesa pede "um molhinho de agriões, dois quilos de maçãs, um quilo de bananas, meio quilo de peras, 250 gramas de morangos e dois quilos de, ahem, tomate".
É o momento em que nos entra um elefante para dentro da loja. Porque é que não se diz logo "tomates", se é tão óbvio que, ao usar o singular ao contrário dos outros casos todos, justamente por evitar nomear essa outra coisa é que ela se torna tão mais presente?
 
É como os que escrevem P*** ou C***. Se toda a gente sabe o que estão a dizer, porque é que não dizem por extenso? No caso do C-asteriscos até tem a vantagem de nos poupar o trabalho de ir contar os asteriscos para saber se queriam dizer "cona", "caralho" ou "colhão". E consoante o caso ainda nos deixa na dúvida: se calhar era "colhões"? 
 
Já no caso da mercearia, não há dúvida: se a freguesa estiver na zona dos legumes e pedir um quilo de tomates, quer comprar um quilo daqueles frutos de cor vermelha e pele lisa. Se estiver no talho, quer túbaros. 
 
Vá, descompliquem.

("Mas antes de me aventurar nas folias", disse ela... Hihihihi.) 
 
 

"Em que estás a pensar, Helena?"

Estou aqui a pensar: daqui a cem anos, a Arte Contemporânea vai-se chamar Arte Contemporânea?

Estou aqui a pensar: será que vai acontecer ao "contemporâneo" o que o Portas fez ao "irrevogável"?

Estou a pensar: será que quem inventou o nome "Arte Contemporânea" era um fiel crédulo do calendário Maia?

(para a próxima, facebook, não perguntes o que estou a pensar)

(especialmente hoje: pressinto que é um daqueles dias em que podia arranjar de pensar meia dúzia de disparates por minuto, pelo menos)


11 novembro 2019

histórias do muro de Berlim no verão e no outono de 1989



(foto de autor desconhecido, fotografada numa das exposições comemorativas do 30º aniversário da queda do muro)


Este fim-de-semana o meu coro saiu de Berlim para preparar intensamente o concerto do Requiem de Mozart que vamos ter daqui a duas semanas. Estava fora de causa não participar nesta saída, mas aceitei contrariada. Logo na altura em que Berlim comemora os trinta anos da queda do muro!

Para não se perder tudo, sugeri que as pessoas se apresentassem dizendo não apenas o seu nome, mas também onde estavam no dia 9.11.1989. E depois regalei-me a ouvir as histórias deles: na fila para o jantar, no café, nos passeios, ao pequeno-almoço...

Tentando repetir de memória o que me contaram, começo pela cantora que na altura tinha cerca de cinquenta anos e vivia em Berlim Leste: um dos seus três filhos já estava na Alemanha ocidental, e a filha tentou também a sua sorte pela Hungria. Antes de partir, disse à mãe que não podia mexer nas poupanças que tinha no banco, para não levantar suspeitas, mas que mal desse sinal de estar em segurança a mãe devia ir buscar esse dinheiro e comprar aquele casaco muito caro com que sonhava há anos. E assim se fez. Passados uns tempos, a própria mãe começou a pensar ir juntar-se à filha. Mas sentia uma certa relutância, porque ainda tinha em Berlim Leste um filho e uma nora prestes a serem pais. Eles riram-se: "vai para o outro lado, até nos dá jeito ter uma avó que sabe bem aquilo de que precisamos, em vez de nos mandar farinha e outras palermices como fazem os outros parentes que lá temos". Ela pediu um visto para ir fazer férias na Hungria, combinou com a filha um ponto de encontro nesse país, e deu ao filho a televisão e outras coisas mais valiosas, porque sabia que o Estado ficaria com todo o recheio da casa. Na véspera de sair para as férias uma colega avisou-a em tom jovial que o chefe tinha comentado que ela ia à Hungria e não voltava. Soube ler nas entrelinhas - "eles estão de olho em ti!" - e meteu na mala apenas o indispensável para os dias de férias que estavam previstos na documentação. Conseguiu sair da Alemanha, encontrar-se com a filha que a viera buscar de carro, e pedir ajuda na Embaixada em Budapeste. Alguns dias mais tarde faziam parte de uma enorme coluna de autocarros que levava todas aquelas pessoas para a Áustria. Quando viram o helicóptero da imprensa por cima delas, a condutora acelerou quanto pôde para escapar ao grupo e às câmaras dos jornalistas. Como o seu carro era de marca ocidental e matrícula alemã, conseguiram passar sem serem filmadas nem entrevistadas. Não queriam nada disso.
Os primeiros tempos na Alemanha Ocidental foram muito duros. Ninguém lhe queria dar trabalho, e ela teve de aprender a jogar com regras novas. Quando finalmente arranjou um emprego - para o qual era claramente sobre qualificada - e um apartamento na casa de uma senhora de idade que queria ter por perto alguém de confiança com conhecimentos médicos, pensou que podia finalmente refazer a sua vida. Mas por pouco tempo. Os vizinhos começaram a comentar e criticar tudo o que ela fazia, e eram tão invasivos e verbalmente agressivos que ela rapidamente concluiu que tinha de sair dali o mais depressa possível.
Entretanto o muro caíra, mas ela não teve pressa de voltar a Berlim Leste. Sabia que os vizinhos e muitos dos seus conhecidos estavam ressentidos com ela por ter abandonado o barco de todos.
Entretanto, o seu apartamento em Berlim acabou por não ser esvaziado pelo Estado, mas pelo próprio filho. No verão de 1989 havia tantas dessas moradas abandonadas na RDA que o Estado não conseguia tratar de tudo. Ainda agora, trinta anos mais tarde, se calha de ela abrir um armário na casa do filho, depara com algumas das melhores louças que vieram da casa dela. "Mas nem pensar em pedir-lhes que mas devolvam!", rematou.

Umas semanas antes da sua fuga, outra colega do coro, na altura com 19 anos, decidiu acompanhar a mãe e o irmão na tentativa de passarem a fronteira da Hungria. Os pais eram divorciados, e a mãe proibiu-os de contarem ao pai. Na véspera da partida, este encontrou-se com os filhos para combinarem as férias que iam fazer uns dias mais tarde, e ela mentiu o melhor que pôde. Depois de se despedirem, passou a noite a chorar com vergonha daquela traição. Em Budapeste, pediram ajuda na Embaixada e foram enviados para um campo de acolhimento de pessoas em fuga, onde ficaram alguns dias. Uma manhã descobriram que em todos os carros da RDA havia um folheto no pára-brisas informando que ia haver junto à fronteira um piquenique para a paz. "Só pode ser uma armadilha da Stasi", pensaram eles, alarmados, e decidiram fugir quanto antes. Apenas com uma bússola e a roupa que tinham no corpo, atravessaram florestas e campos em busca da fronteira com a Áustria. Além de ser uma caminhada extenuante, temiam ser apanhados por polícias húngaros, feitos prisioneiros e repatriados. Finalmente conseguiram entrar na Áustria. A sensação de alívio deu rapidamente lugar à de indigência: "é horroroso estares num país estrangeiro e só teres de teu a roupa e os sapatos que levas". Telefonou ao pai, para contar onde estavam, mas ele já sabia: tinha-os visto na televisão.
Odiou a RFA. Um enorme choque cultural - e a sua sensação de estar no lado errado do mundo viria a reforçar-se quando foi passar umas semanas nos EUA, em Los Angeles. Sentia uma saudade enorme do pai e da vida que tinha sido a dela no Leste. Começou a meter os papéis para poder ir visitar o pai em Berlim Leste, mas recebia sempre resposta negativa. Até que - finalmente! - recebeu autorização para entrar na RDA, com data marcada para o dia 11 de Novembro.
No dia 9 de Novembro estava no seu apartamento em Berlim Ocidental, mas não foi para a rua. Ficou em casa, junto ao telefone, à espera que o pai lhe dissesse por onde ia entrar. Mas o pai ligou a um irmão seu, em vez de ligar aos filhos. De modo que ela passou a noite toda em casa, sempre à espera.
(Mas já lhe perdoou há muito.)

Mais algumas das histórias que me contaram:

O filho de uns amigos, que tinha 18 anos, e tentou atravessar sozinho a fronteira da Hungria. Conseguiu, mas quando chegou à Áustria ficou cheio de saudades dos amigos que deixara para trás, e - "coisas que se fazem aos 18 anos" - resolveu regressar. Foi aí que o apanharam, o prenderam e o repatriaram: para as longas garras da Stasi.

O marido de uma das minhas colegas de coro vivia em Kreuzberg e trabalhava em Wedding (ambos bairros de Berlim Ocidental). O muro obrigava-o a dar uma volta enorme pela cidade. Uns dias depois do 9 de Novembro, ele próprio rebentou uma porta no muro que ainda estava fechada, para poder ir trabalhar pelo caminho mais directo.

Duas pessoas do coro, da Alemanha Ocidental, não sabiam onde estavam nessa noite. Uma porque tinha um desgosto de amor tão grande que apagou todo o resto. Outra porque não captou o significado histórico do momento. Lembra-se bem onde estava quando começou o massacre de Tiannamen ou quando começou a primeira guerra do Golfo, mas não tem nenhuma ideia sobre o que estava a fazer no dia 9.11.1989.

Já outra, também de Berlim Ocidental, sabe muito bem: estava a dormir. No dia seguinte, ao acordar, o marido comentou que cheirava a Trabi. Ligaram o rádio, e foi assim que ficaram a saber.

Uma outra era estudante em Berlim Oriental. Soube da queda do muro, mas ficou em casa a estudar. "Primeiro, o dever!", comentou ela com um sorriso de auto-ironia. No dia seguinte estava na Universidade como habitualmente às oito da manhã, mas as salas estavam praticamente desertas. "Bem, sendo assim, vou também..." - e foi.

O testemunho mais inesperado e que mais me deu que pensar foi o de uma mulher de Berlim Leste que contou que no dia 9 de Novembro tinha a filhinha a dormir, e resolveu ficar em casa. No dia 10 de Novembro, que era sexta-feira, também não sentiu grande necessidade de ir espreitar o Ocidente. No dia 9, um casal conhecido dela deixara o filho de três anos em casa a dormir, e fora durante a noite ao outro lado. O miúdo acordou, viu-se sozinho, e saiu para a rua escura e deserta, para ir pedir ajuda a uma tia que morava umas casas à frente. Gagueja desde então. Ela e o marido só uns dias mais tarde atravessaram o muro. Foram recebidos por um grupo de pessoas de Berlim Ocidental que ofereciam bananas aos do Leste, e sentiu-se insultada. Como se eles não tivessem bananas do outro lado do muro, como se precisassem daquelas esmolas... "Como quem atira bananas aos macacos no zoo?", perguntei eu. "Ora, no zoo já eu me sentia há muito. Morava muito perto do muro, e sempre que ia com a minha mãe à padaria havia alguém do outro lado a espreitar-nos usando binóculos. A minha mãe comentava que faziam de nós macaquinhos no zoo."
Ouvia, e comecei a juntar peças: morava perto do muro - algo geralmente possível apenas para as pessoas mais fiéis ao regime -, não tinha vontade de ir espreitar o outro lado, e sentia como insulto o que os do Ocidente faziam...
Por outro lado, pensei no que eu própria fiz quando visitei Berlim na Páscoa de 1989: também eu observei despudoradamente as pessoas do outro lado. A imagem dos animais do zoo era muito certeira, e espelhava bem a minha atitude de então.

Algumas colegas de coro tentaram adivinhar quem era wessi e quem era ossi. Chegada a minha vez, decidiram: europeia!
Mas tive de as desenganar. Na Alemanha sou wessi. Tenho socialização de wessi, e tenho comportamento de wessi. Até sou uma daquelas pessoas que compraram na antiga RDA uma bela casa meio em ruínas, a arranjou e foi viver nela.

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Regressámos a Berlim ainda a tempo de passar pela Porta de Brandeburgo. O "céu sobre Berlim" estava muito mais baixo que quatro dias antes, e as pessoas andavam numa azáfama alegre a escrever a sua mensagem naquelas fitas.





9 de Novembro. O que há numa data? E num nome?


Este texto sobre os vários 9 de Novembro da Alemanha foi publicado no 7 Margens em Novembro de 2018. Para minha memória futura, publico-o aqui agora por extenso:


A queda do muro de Berlim (em 1989), que deu origem ao processo de reunificação da Alemanha dividida após a Segunda Guerra Mundial, seria a melhor das razões para fazer do dia 9 de Novembro o feriado nacional alemão. Mas o 9 de Novembro está também marcado pela terrível sombra do pogrom nazi de 1938, pelo que a data escolhida para o feriado nacional acabou por ser o 3 de Outubro, dia da entrada oficial dos cinco Estados da RDA na República Federal da Alemanha.


O que há numa data?
Para além do pogrom nazi e da queda do muro, esta data está marcada por outros acontecimentos históricos importantes:

– 9 de Novembro de 1848: a execução de Robert Blum em Viena marcou o início do fim da Revolução de Março nos Estados alemães (que exigia – entre outros – uma Constituição para limitar o poder monárquico, a extinção dos laços que mantinham os agricultores presos aos senhores das terras, e mais direitos para os trabalhadores);

– 9 de Novembro de 1918: proclamação da República em Berlim (levando ao fim da Primeira Guerra Mundial, que desembocou tragicamente no tratado de Versalhes e na criação do contexto dramático que permitiria a ascensão dos nazis);

– 9 de Novembro de 1923: golpe do Hitler, em Munique, com o objectivo de tomar o poder e instalar uma ditadura nacionalista; o golpe falhou, o partido NSDAP foi proibido, Hitler foi condenado a cinco anos na prisão, aproveitou esse tempo para começar a escrever Mein Kampf, e dez anos depois estava a tomar o poder por via democrática.

Pelo que retomo a questão de fazer do 9 de Novembro o feriado nacional alemão: haveria algo de extraordinariamente inovador num feriado nacional que lembrasse tanto os feitos gloriosos como as vergonhas e os passos em falso da História – porque os países são feitos de tudo isso: glória, fracasso e vergonha.

O que há num nome?

Há apenas oitenta anos (já as minhas avós eram adultas, já os meus pais começavam a frequentar a escola) os nazis organizaram um ataque contra os judeus em toda a Alemanha. Para dar a aparência de uma certa legalidade, mascararam o ataque de “fúria popular”. Os paramilitares iam vestidos à civil, e Goebbels fez saber que a polícia não impediria os populares de darem livre curso à sua fúria justificada pelo recente assassinato de Ernst von Rath, em Paris. Por seu lado, as ordens dadas às SA eram muito claras: deitar fogo às sinagogas apenas se não houvesse a possibilidade de alastrar a outras casas; destruir as lojas dos judeus mas não permitir que fossem pilhadas; cuidar da segurança das lojas dos não judeus.

O ataque foi realizado com toda a eficiência, e permitiu testar a população alemã: ao assistir sem nada fazer, mostrou que permitiria acções ainda mais violentas contra os seus vizinhos judeus. 
Durante décadas chamou-se a este ataque “Noite dos Cristais”. O nome resultou naturalmente dos montes de vidros espalhados pelos passeios das cidades (que no dia seguinte, em mais um sinal do cinismo do regime, as vítimas foram obrigadas a remover, porque “dava mau aspecto à rua”), e assim foi usado de forma acrítica até aos anos oitenta do século passado.

Só nessa altura surgiu o debate que alertava para o eufemismo e até a glorificação do feito subjacentes à expressão “Noite de Cristal” ou “Noite dos Cristais”. Ainda hoje não há acordo sobre o nome correcto a dar a este momento, e é lamentável, porque se trata de uma fenda na História da civilização europeia. Alguns nomes propostos: Noite do Pogrom do Reich, Noite do Pogrom de Novembro. 

Por mim, seria este: Noite do Pogrom Nazi. 

Erich Kästner, jornalista e escritor, testemunhou assim os acontecimentos da noite de 9 para 10 de Novembro de 1938 no Kurfürstendamm (a avenida mais importante da abastada parte ocidental da cidade):

Naquela noite apanhei um táxi para regressar a casa, que me levou pela Tauentzien e pelo Kurfürstendamm. Dos dois lados da rua havia homens que batiam com barras de metal nas montras das lojas. Por todos os lados o vidro quebrava e espalhava-se em estilhaços. Eram homens da SS, com calças de montar pretas e botas de cano alto, mas com chapéu e casaco à paisana. Faziam o seu trabalho calma e sistematicamente. Dava a impressão que cada um estava encarregado de quatro ou cinco casas. Levantavam a barra de ferro, batiam várias vezes e avançavam depois para a montra seguinte. Não se viam outras pessoas na rua. Só mais tarde, contaram-me no dia seguinte, terão aparecido serventes de bar, empregados de mesa nocturnos e prostitutas, para saquear as lojas.
Três vezes fiz parar o táxi. Três vezes quis sair do carro. Três vezes surgiram de trás de uma árvore agentes da polícia que me deram ordens peremptórias de voltar a entrar no táxi e continuar a viagem. Três vezes lhes retorqui que ainda posso sair de um carro quando me apetece, e particularmente num momento como este, quando em público se praticam – passe o eufemismo – actos impróprios. Três vezes disseram com maus modos “polícia judiciária!”. Três vezes bateram a porta do carro. Quando quis parar pela quarta vez, o condutor recusou-se. “Não adianta”, disse ele, “e além disso está a resistir à autoridade do Estado!” Só parou quando chegámos à minha casa.

(Erich Kästner: Notabene 45. Ein Tagebuch, Frankfurt/M 1983, Pg.140)


9 de Novembro de 1989

Pouco haverá a acrescentar para quem – como quase todos nós – assistiu à História em directo pela televisão. Pelo que me limito a dois relatos que ouvi a mulheres que conheci em Weimar, cidade da antiga RDA, no dia em que a pergunta foi “onde estavas no 9 de Novembro?”

– Naquela noite, estava num restaurante com a minha família. Era o jantar de despedida do meu irmão, que tinha conseguido um visto para abandonar o país. Estávamos todos muito tristes, porque não tínhamos a menor ideia do que seria a vida dele na Alemanha Ocidental e de quando nos poderíamos voltar a encontrar. Às tantas, um empregado chegou à nossa mesa cheio de pressa para pagarmos o jantar porque se queria ir embora, e anunciou “abriram a fronteira!”
Nós respondemos-lhe que a última coisa de que precisávamos era de gracinhas de mau gosto.

– Não me dei conta de nada nessa noite. No dia seguinte, na universidade, alguém contou que tinha andado a passear no Kurfürstendamm. Eu ouvia a história, à espera do momento em que viria a frase “e estendi a mão e bati na mesinha de cabeceira”, mas nunca mais vinha. Até que me dei conta que era verdade. Corri para uma rua que me tinham indicado, reparei pela primeira vez que nessa parte do muro havia uma porta, e que estava aberta. Juntei-me ao grupo enorme dos que queriam passar. Eram tantos, que os meus pés quase não tocavam o chão. Os guardas já nem se davam ao trabalho de olhar para os passaportes. Mas o tempo todo eu temia que fechassem a porta mesmo à minha frente. Algo tão fantástico não poderia tornar-se verdade. Finalmente consegui atravessar a fronteira, e passei o resto do dia a entrar em lojas de florista para ver e cheirar todas aquelas flores que não conhecia. 





30 anos de Alemanha: tão longe e tão perto

A propósito dos 30 anos da queda do muro, que coincide com os meus 30 anos na Alemanha, foi publicado um texto meu no 7 Margens. Conto lá praticamente toda a minha história na Alemanha. Enfim, de facto é só mais ou menos 1% da minha história toda. Os mais cuscos podem ler aqui.

07 novembro 2019

comemorações em Berlim nos trinta anos da queda do muro












Entre 4 e 10 de Novembro, Berlim comemora os trinta anos da queda do muro. Dias de festa e de louvor aos cidadãos da RDA que souberam levar a cabo uma revolução pacífica contra um dos Estados mais totalitários da época.
Podem encontrar mais informações aqui (em inglês).

Ontem demos uma grande volta por Berlim para ver algumas das instalações.
Infelizmente vou sair da cidade este fim-de-semana. Se pudesse, passava os próximos 3 dias na rua: a ver demoradamente as exposições, a ver os filmes, a assistir a alguns dos 200 eventos - desde conversas com testemunhas da época a concertos, de sessões de poesia a filmes, de debates a workshops para jovens.

Da colheita de ontem, aqui deixo imagens da Alexanderplatz:





Do museu da Stasi:
(chovia tanto que não fomos ver a exposição, vimos apenas uma parte dos filmes)



Da East Side Gallery:













Na parte de trás do novo palácio do Kaiser, onde dantes ficava o Palácio da República da RDA:
(as fotografias não estão boas, mas eu estava fascinada com o efeito daqueles espectadores, por acaso alinhados nas cores da bandeira alemã)




Da Porta de Brandeburgo:
(pediram às pessoas que escrevessem frases curtas - "Your vision in heaven over Berlin" - e o resultado são 100.000 tiras suspensas e esvoaçantes ao vento. Em frente à Porta de Brandeburgo projectam-se algumas dessas frases num globo luminoso.)







Para terminar, a confirmação do que já toda a gente sabe: Berlin rocks! ;)





06 novembro 2019

trinta anos


Há exactamente 30 anos vim viver para a Alemanha.

Pois lá fui, lá vim, e bem se pode dizer que fui bastante longe. Como a imagem comprova, até já faço sombra à própria Angela Merkel...

Escrevi para o Sete Margens um texto sobre o que vivi nestes 30 anos de Alemanha em processo de reunificação. Quando for publicado, partilho aqui.

E agora com licencinha, que vou passear por Berlim. Entre 4 e 10 de Novembro festeja-se por toda a cidade os 30 anos da queda do muro. Há filmes projectados sobre fachadas de edifícios nos locais mais importantes da Revolução Pacífica, há exposições, há instalações, há debates, há workshops. Mais de 200 eventos, uma pessoa não dá vazão, é só stress...




ó tempo, não voltes para trás!

Quando li a tristemente famosa carta do Manuel Bourbon Ribeiro ao país dele, estaquei logo no princípio, naquela saudade do tempo em que Portugal era grande.

O que é válido para nós também deve ser válido para os outros, certo?

Será que o autor deste texto, que se queixa a Portugal dizendo-lhe "o mundo já não fala a tua língua e já não tens qualquer influência nas políticas internacionais. Já não és o centro do comércio", reconhece igual direito a alguém em Damasco ter saudades do império que chegava até Al-Andaluz, de alguém em Roma ter saudades do tempo em que o seu país ia até à Lusitania, de alguém no meio das estepes sonhar com nova expansão do território dos hunos? E será que coloca a possibilidade de outros países - a China, por exemplo - dizerem "vocês já tiveram o vosso quinhão de imperalismo, agora é a nossa vez!".

Não tenho saudades do tempo em que Portugal "era grande", porque Portugal é grande.
Portugal é enorme.
Depois do 25 de Abril, o meu país fez um percurso extraordinário. O país paupérrimo que conheci em criança deu lugar a um dos países com mais qualidade de vida do mundo. O povo português tem muitos motivos para se orgulhar do país que tem sabido construir.

Não é perfeito, como nenhum país é perfeito, mas vamos fazendo o nosso caminho com dignidade.

Esperemos que no Médio Oriente, em Roma e nas estepes russas não haja muitos jovens saudosistas à maneira de Manuel Bourbon Ribeiro. E que os novos impérios não se criem à semelhança do "saudoso" império português.


trabalho infantil



Há algo de dolorosamente trágico nesta miúda que, aos catorze anos, atravessou uma cidade em polvorosa que lhe dá sinais iniludíveis de não a querer ali, e discursa em espanhol, inglês, árabe e catalão, fazendo tudo o que está ao seu alcance para ajudar o pai a salvar a monarquia.


30 outubro 2019

ai jajujótempo volta para traje...

Andava há que tempos para contar que o meu lado Calamity Jane atacou de novo: mal pusemos abelhas no nosso jardim, morreu o Karel Gott (sabem, o da canção da abelha Maia). Ia contar isso, mas ainda não organizei as fotos da colmeia e por isso adiei esta conversa. E ia contar também que quem carregou a colmeia pesadíssima para cima da garagem é uma pessoa de meia idade muito simpática, com aparência de homem mas vestindo sempre saias e vestidos de estilo confortável. Da última vez que veio ver se tudo estava bem com as abelhas veio de mini e eu senti-me feliz por viver numa cidade onde um homem pode vestir-se como lhe apetece.

Disse "homem", e não sei se é realmente um homem que gosta de vestir saias só porque sim, ou se usa saias por se sentir mulher apesar de ter uma aparência de homem.
Talvez um dia lhe pergunte. Perguntava hoje mesmo, se tivesse a certeza que ele gosta de conversar sobre isso. Tenho ficado calada para não o incomodar com a pergunta que - imagino - deve ouvir mais vezes que qualquer outra.
O problema do meu silêncio é que aquela pessoa não pode saber se nasce do respeito (é o caso) ou da indiferença.
Em todo o caso: acho que aquelas saias e aqueles vestidos que escolhe vestir lhe ficam lindamente, e tornam esta cidade um pouco mais bonita e ainda mais respirável. 



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Esta manhã li no facebook um post escrito pela Helena Ferro de Gouveia, que me fez logo pensar na minha mãe, que em 1970, em Braga, usou na fase final da gravidez do meu irmão mais novo um fato muito catita de calças e poncho. Sublinho: em Braga.

É certo que muitas décadas mais tarde um padre - daqueles tão progressistas que chegou a ser seguido pela Pide - viria a dizer-me que a minha mãe era "estouvada". E contudo: muitas vezes ao longo destas décadas que já levo de Alemanha dou-me conta de que Portugal tem, em muitos casos, uma mentalidade mais aberta e moderna. Mas depois atravessa-se-nos um assessor de saia no Parlamento, e ai jajujótempo volta para traje...

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O texto da Helena Ferro de Gouveia é este:

Helena Ferro de Gouveia
Durante uns segundos históricos, houve silêncio no Bundestag. Seguiu-se uma vaia e uma onda de comentários indignados. Estávamos na época do amor livre e das comunas, no pós Maio de 68. Nos cinemas passava filme de esclarecimento sexual “ Deine Frau, das unbekannte Wesen“ ( A tua mulher, o ser desconhecido ) de Oswalt Kolles.
A 14 de Outubro de 1970, Lenelotte von Bothmer, deputada do SPD (o PS alemão) , 53 anos e mãe de seis filhos, fez uma intervenção sobre política de ensino. Foi um escândalo. Não pelo que ela disse, mas por o ter feito de calças. “Die erste Hose am Pult!“, gritaram indignados alguns deputados. Carlo Schmid (SPD) evocou a honra e a dignidade parlamentar ferida, Richard Jaeger (CSU) argumentou que a deputada feria a dignidade feminina. “Sie sind keine Dame!“ ( você não é uma senhora), “Sie sind ein unanständiges, würdeloses Weib!“ ( é uma mulher indecorosa e sem honra). Também lhe perguntaram se da próxima vez iria discursar nua.
Quatro décadas depois a Alemanha tem uma chanceler que quase só veste calças, teve um ministro dos Negócios Estangeiros homossexual que levava o marido em viagens oficiais ( até à Arábia Saudita) e assessores de saias. Por cá o debate está a começar e confesso que me surpreende que pessoas que se dizem “de esquerda” ou “liberais” usem argumentário dos anos setenta para defender o iliberalismo. Causa-me profunda estranheza.
Não é uma mera questão de saias, nem do comprimento das mesmas. É uma questão de mentalidades.
Bom dia.


a caminho


 



Uma pessoa publica um post com imagens de uma bicicleta, põe-lhe o título "a caminho do correio", e no momento seguinte dá consigo a caminho do fim-de-semana do encontro anual da família, no país das bicicletas (na Holanda, lembro-me sempre do ar entusiasmado do Matthias há muitos anos, na nossa primeira viagem a Amesterdão: "as bicicletas têm sempre prioridade? Oh, mas isto é o país que me convém!").
De regresso a casa, descobre que tirou mais de 1000 fotografias. Um impossível, um milagre da multiplicação das imagens: como, se passou o tempo a conversar e a rir?




Começámos a fazer este encontro da família há quase um quarto de século. Nessa altura morávamos todos no sul da Alemanha, e o destino era a Borgonha. Em algum momento houve um interregno, e um recomeço em 2008. Em cada ano o encontro é preparado por um grupo diferente, e temos tido fins-de-semana lindíssimos - na Floresta Negra e na Holanda, na Alsácia ou em Berlim. Já descobrimos que o melhor é alugar uma casa com espaço para todos, numa região rural. As cidades dispersam-nos do mais importante: estarmos uns com os outros.

Este ano pôs-se a questão da abertura do grupo aos namorados da geração mais jovem. Eu disse logo que sim, claro, que são eles quem me vai empurrar a cadeira de rodas e pagar o lar de terceira idade. Mas havia familiares da minha geração que preferiam manter o grupo como ele está, sem abrir a "elementos de fora". Ainda não se deram conta de que esses novos elementos do grupo são aqueles que se tornarão progressivamente as pessoas mais importantes na vida dos nossos filhos, e nos empurrarão a nós, os pais, para uma posição de "elemento de fora".
Ou talvez por isso mesmo? Talvez seja um reflexo de alguns para preservar uma constelação que sentem estar ameaçada?

Quando o Matthias tinha meia dúzia de horas no nosso mundo, a Christina pegou nele ao colo, apontou para o Joachim e disse: este é o pai. Tinha dois anos e meio, e já então nos dava lições sobre a capacidade de se adaptar a situações novas e redesenhar constelações, assumindo-se ao leme do seu espaço e do seu destino.

Estamos todos a caminho, e nem vale a pena gastar energia com a ideia de "armar três tendas" e parar o tempo.



    
 
 
 


 
 




Secção Culinária: descobrimos o gosto das algas da salicórnia. Quase como ostras, só que em vegan. Delicioso.


Secção Foxxinho: odiou a viagem de carro. Na última etapa, sempre que o carro abrandava para uma rotunda, o Fox levantava-se ansioso, pensando que estávamos a chegar. Mas quando chegámos, foi uma festa: cavou a praia como se quisesse descobrir a passagem mais directa para a Austrália, cavou os diques como se quisesse sabotar o esforço dos holandeses acrescentarem a sua terra, encheu-se de caracoletas, encheu-se de areia, encheu-se de lama. Um cão feliz.





(não se esqueçam de reparar na folha estrategicamente colocada a tapar as partes,
para não incomodar o algorítmo)