04 junho 2020

é o comunismo...

Para manter a proximidade social apesar do afastamento imposto pela crise da covid-19, o meu marido começou a jogar às cartas online com dois amigos. Um em Munique, o outro em Washington - e nós os dois em Brest, num apartamento minúsculo. De modo que eu vou ouvindo as conversas: o amigo que está nos EUA a anunciar há dois meses, preocupadíssimo, que a covid-19 ia ser um "banho de sangue" no seu país; ou, no mês passado, a perguntar porque é que na Alemanha morrem muito menos pessoas que nos outros países; e a gargalhada velhaca dos alemães de cá:
- Diz aí aos teus americanos que isto é o comunismo...

Nos EUA, qualquer proposta com preocupações mais sociais é "comunismo". Pois que seja - e aqui deixo alguns exemplos da forma como o "comunismo" do sistema alemão permitiu a crise da covid-19:

- Quando o problema ainda era apenas chinês, um laboratório de investigação estatal alemão criou um teste de diagnóstico. Em Janeiro, quando o vírus ainda nem sequer tinha chegado à Alemanha, o teste do laboratório estatal alemão foi posto gratuitamente à disposição do mundo inteiro;

- O chefe desta equipa, Christian Drosten, começou a dar entrevistas diárias para informar em primeira mão sobre o ponto da situação do ponto de vista científico. Várias pessoas contaram-me que todos os dias, antes de adormecer, ouviam o seu podcast de cerca de meia hora, porque a voz dele tinha um efeito apaziguador. E não era apenas a voz - era sobretudo a autenticidade: o cientista tinha a coragem e a humildade de falar da situação sem omissões nem dramas, de forma ponderada e autocorrectiva, assumindo aquilo que ainda não sabia e também o que entretanto aprendera e corrigira depois de uma entrevista anterior;

- Quando o vírus chegou à Alemanha, já havia testes em grande quantidade disponíveis em laboratórios de todo o país, para testar sem demoras os casos de risco, e pôr em isolamento todos os que dessem resultado positivo;

- Quando o governo impôs o confinamento, deu imediatamente e sem complicações burocráticas cinco mil euros a quem perdeu os seus rendimentos (vários amigos meus de Berlim - músicos, fotógrafos, etc. - receberam esse dinheiro num prazo de dois dias), permitindo a essas pessoas atravessar esta crise com um mínimo de tranquilidade, e ficar em casa em vez de se sujeitarem a fazer qualquer coisa para ganharem algum dinheiro;

- O governo alterou uma das regras do Sistema de Apoios Sociais, para que as pessoas que ficaram impedidas de trabalhar devido às regras de distanciamento social (como as dos sectores da cultura, das restauração, da prostituição, etc.) pudessem receber os apoios sem terem primeiro de gastar todas as suas poupanças, vender o apartamento ou mudar para um alojamento de dimensão menor; 

- Há mais de dez milhões de alemães a trabalhar em regime de horário e salário reduzido. São dez milhões a menos no desemprego, e são dez milhões que podem recomeçar a qualquer momento a trabalhar a pleno. Quando vier a retoma, empresas e trabalhadores estão prontos a avançar - ao contrário de outros países, nos quais a retoma será atrasada pelo facto de ser necessário procurar pessoas e treiná-las. 

É certo que também foram cometidos erros, também houve muita navegação à vista, também foi complicado gerir o conflito entre as informações em constante mutação por parte da ciência e a pressão das pessoas e dos agentes económicos para se voltar à normalidade. Ninguém disse que o "comunismo" é perfeito. Mas gostava de saber a escolha dos habitantes dos EUA (e já agora dos adeptos da AfD e do Chega): numa crise como a da covid-19, preferiam morar nos EUA do Trump ou na Alemanha de coligação de partidos do centro democrático?


03 junho 2020

"biciclista"

Alguns apontamentos sobre #biciclista:


1. Muito gostava eu de perceber porque é que nos dicionários online infopedia e priberam aparecem tanto "biciclista" como "ciclista", com praticamente a mesma definição, mas sem serem sinónimos um do outro. Alguém consegue explicar?


2. Só cá para nós, que ninguém nos ouve: devia ser "ciclista", eu sei. Mas - que querem? - hoje é o dia mundial da bicicleta. E como essa palavrinha já saiu...
(Um dia destes perco este tacho, só por causa disto e daquilo, e não sei que vai ser a minha vida sem o stress quotidiano do princípio da manhã...  )
[Nota, para quem não sabe: na maior parte dos dias, quem propõe o tema do dia na Enciclopédia Ilustrada sou eu.]


3. Em Berlim, os biciclistas fazem há mais de quarenta anos uma "Fahrradsternfahrt" no primeiro domingo de Junho (sempre por volta do dia mundial do Ambiente) com dezenas de milhares de participantes. Atravessam a cidade toda, e andam inclusivamente na autoestrada AVUS. Este ano não fizeram, por causa da covid-19.


4. Em compensação, uma vizinha disse-me que nunca como nos últimos 2 meses se viram tantos biciclistas em Berlim. O medo de ser contagiado nos transportes públicos levou as pessoas a preferir deslocar-se de bicicleta. "A ver se a moda pega de vez", rematou a minha vizinha. No caso dela, já pegou há séculos: vai para o trabalho de bicicleta, faça o tempo que fizer. E trabalha a 10 km de casa.


5. Também vi disso na Holanda: uma mulher que até era quadro superior numa organização internacional, e ia para o trabalho de galochas, capa e calças da chuva. Quando chegava ao escritório trocava as galochas por sapatos finos.
Também vi disso numa empresa de software na qual trabalhei. Os meus colegas e os seus chefes - muitos deles milionários porque a empresa tratava mesmo bem as suas galinhas dos ovos de ouro - iam para o trabalho de bicicleta.


6. Não sei como foi em Portugal, mas vi que tanto em Brest como em Berlim aproveitaram o confinamento para reforçar a rede de vias para transportes públicos e bicicletas na cidade toda.

O pessoal saiu do confinamento, e - pufff - tinha as ruas transformadas, e muito menos espaço para carros.


7. O meu Tio Zé, que de facto era tio do meu pai, ia para todo o lado na sua bicicleta. Fazia aqueles montes minhotos ó pra cima e ó pra baixo como se fosse essa a maneira mais certa de andar no mundo. Mas não se pode dizer que fosse um biciclista - quando muito, era um xicolateirista, porque toda a gente chamava xicolateira à coisa que o levava de cá para lá. Lembro-me bem dele num dia de chuva, em cima da sua máquina, com o guarda-chuva pendurado no colarinho. A minha mãe enervou-se muito com a cena da gola esticada para trás, fazendo a chuva cair pelas costas. É estranho como me lembro tão bem de algo que aconteceu há quase cinquenta anos: o Tio Zé misturado com a paisagem verde e a chuva, e eu sem saber se era uma imagem de desamparo, de palermice ou de liberdade.


8. Por essa altura aprendi a andar de bicicleta. O início da minha carreira de biciclista, ora pois! Foi depois da escola: a caminho de casa dei com um grupo de miúdos a brincar no passeio largo, e havia por ali uma bicicleta sem rodinhas que me deixaram experimentar. Quando finalmente tomei o jeito à coisa apareceu a minha mãe de carro, assustadíssima por eu ainda não ter chegado para o almoço. Percebi a borrasca, e tentei remendar, anunciando feliz da vida: "já sei andar de bicicleta!" Mas nem isso a demoveu. Já tinha decidido que o meu atraso merecia uma dúzia de bolos com a colher de pau. Lá os levei (que remédio!...) mas ou ela não bateu com força ou eu estava anestesiada pela alegria maior de já ser como os grandes.


9. A minha mais recente peripécia de biciclista foi na segunda-feira passada: lembramo-nos de pedalar até uma ilha daquelas que se pode conquistar a pé enxuto quando a maré está baixa. O problema é que a maré já estava a encher. Para lá bem fomos - a água só passava uns 5 cm acima da estrada. Para cá, tive de arregaçar a saia e carregar a bicicleta aos ombros. Do lado de lá estava um homem no barco a olhar para nós os dois. Devia estar a tentar decidir se aquilo era uma imagem de desamparo, de palermice ou de liberdade.
Moral da história: no fundo, no fundo, ainda sou como os pequenos.



"aparência"


Havia na Casa da Conferência de Wannsee um cartaz de propaganda nazi que me deixava sempre perplexa. O cartaz estava dividido em duas áreas, uma com retratos de candidatos de esquerda, outra com retratos de candidatos nazis, e uma frase que dizia algo como “basta olhar para a cara deles para sabermos ao que vêm, e em quem podemos confiar”. 

O meu problema é que, mesmo com a informação sobre o partido a que pertenciam, eu não saberia decifrar na cara deles nem o carácter nem as intenções. Faltava-me, provavelmente, o treino do olhar que seria próprio daquela época. 

(Infelizmente não fotografei esse cartaz, para o partilhar agora aqui, e não sei se ainda consta da exposição na Casa da Conferência de Wannsee, que foi recentemente reformulada.) 

Pergunto: será que as aparências enganam, ou será que somos nós quem “engana” as aparências? Quer dizer: será que a #aparência é algo subjectivo, criado pelas informações ou pelos preconceitos que nos levam a distorcer inconscientemente o que vemos, focando-nos apenas nos traços que queremos ver? 

No registo oposto ao do cartaz nazi, a história de um rapazinho branco que quis fazer o mesmo corte de cabelo do seu melhor amigo para que no infantário não fosse possível distingui-los um do outro. Um caso extremo – e comovedor – da capacidade de construir a aparência dos outros a partir do que nos vai no coração.





02 junho 2020

um ano de dias bons

Há muito, muito tempo comprei na Gulbenkian uma bela agenda que tinha um bloco com várias linhas para cada dia do ano, mas não explicitava nem o ano nem os dias da semana. Não sei porque a fizeram assim, mas deu-me imenso jeito: sempre que tinha um dia bom, apontava. Por exemplo: no dia 30 de Março, o primeiro sorriso que o meu sobrinho Guilherme me ofereceu. Ou no dia 2 de Fevereiro - os gritos de alegria da Christina, com dois anos, a deslizar comigo sobre um trenó na encosta pequenina junto ao jardim infantil dela.
Se tivesse perseverado a apontar momentos destes, ao fim de alguns anos teria um livro com um ano inteiro de dias bons. Mas - infelizmente! - em algum momento descontinuei o projecto. 

A minha sorte é que existe o facebook, que todos os dias me mostra o que publiquei nesse dia nos anos anteriores. E que belas colecções lá tenho! Ao contrário da agenda, tem menos momentos pessoais dignos de nota, mas é uma alegria ainda maior voltar a esses momentos: sinais de um mundo rico e variado, cheio de seres humanos bons e de bons amigos. 

Hoje, por exemplo, estava assim:

1. 2 de Junho de 2019
Humans of New York 
“Usually people only keep the job for one year. Either it’s a calling or you quit. The pay is not good. Less than $1000 a month. And it’s very physical. I’m supposed to dress, shower, and feed twelve seniors in 2.5 hours. The schedule is so tight because it’s a business. It can seem like the residents are boxes to be moved around. But they’re not boxes. They’re people. I don’t think their families think about them. They put them in a home and assume they’re safe, and well fed, and taken care of. But they’re all sad. They’re numb. Every day is the same thing. When I first started working there, they wouldn’t really cooperate. They just let me grab them without any participation. But I’d always talk to them. Ask them questions. Joke with them. Then one morning I had a fight at home, and was in a bad mood, so I worked in silence. And all the seniors who had been so quiet-- began to ask me what was wrong. That’s when I first realized how much they valued the attention I was giving them. It’s been fifteen years now. I have a lot of friends there. But I’m forty-three already. Recently I had surgery. I’m not sure how many more years I’ll be able to do it. But I try not to think about what will happen when I leave.” 
(Madrid, Spain) 


2. 2 de Junho de 2018
Uma foto com a legenda "o país real", oferecida a mim e a outra amiga com quem volta e meia troco cromos de estendais da roupa. Este era um daqueles momentos que cabiam bem na minha agenda da Gulbenkian: sentir, neste gesto da amiga que tira a foto e a publica com dedicatória, que sou "olhada amada e conhecida". 



3. 2 de Junho de 2018
Um anúncio para a comunidade portuguesa em Berlim: "A grande sardinhada do 10 de Junho em Berlim esta ano vai ser no 18 de Junho. Um pouco mais tarde: para dar tempo às sardinhas de ficarem mais gordas."


4. 2 de Junho de 2017 - com um apontamento meu: "estou dividida entre querer adoptar esta miúda, ou querer que ela me adopte a mim."

Humans of New York 
“I don’t think I’m going to miss eighth grade. It’s been a tough year. A lot of my friends are struggling with depression and self-harm, and it’s hard for me to watch. I just care about them so much. Growing up is so hard for some people. It’s such a big thing. It’s your foundation, I guess. You’re becoming you. It’s such a big thing and we’re going through it right now. Some of my friends are struggling with loving themselves and loving life. I think they forget that we’re still learning. They think that they’re already who they’re going to be. They think they know the future. And it’s going to be horrible. And they’ll never be able to fix it. But that’s not true because we’re still changing. And we’ll always be changing. Even when we’re old, we’ll be changing.”


5. 2 de Junho de 2013



6. 2 de Junho de 2013


"Todos somos génios. Mas se avalias um peixe em função da sua capacidade para subir a uma árvore, vai passar toda a vida a pensar que é estúpido." Albert Einstein



7. 2 de Junho de 2012




Inventem-se novas regras do jogo...


8. Um momento de outra data, mas vinha na colecção de hoje, e ficaria mesmo bem na minha agenda:  
31 de Maio de 2016
Este domingo os meus filhos mudaram de casa: o Matthias saiu, a Christina regressou. 
Aos 19 e 21 anos, ninguém precisa dos pais para quase nada. Trataram sozinhos de tudo, inclusivamente de alugar uma carrinha de mudanças. Eu fiz uma salada de cuscuz suficiente para um regimento inteiro e o bolo de aniversário para a Christina, que fez anos ontem, e fui levar umas coisas do Matthias à casa dele. No caminho cruzámo-nos com a carrinha das mudanças, abrimos as janelas, olá! olá! até já! Quando regressámos, uma hora mais tarde, a carrinha já estava vazia, os móveis espalhados pelos lugares que lhes competiam, e o pessoal estendido no terraço a comer cuscuz e restos do frigorífico, e a beber cerveja. Depois arrumaram tudo, agarraram nas coisas deles, disseram onde estava o que o pai tinha de levar no carro, e foram para aquela sauna louca no centro da cidade grelhar salsichas e festejar até entrarem no aniversário da Christina. Eu fui para a recepção na Embaixada. 

Nunca vi nada disto: duas mudanças no mesmo dia, sem o menor alarde, sem qualquer nervosismo. Tudo pronto a horas, com toda a calma. Não sei como é que os meus filhos conseguem. Das duas, uma: ou são os genes alemães, ou então passaram a infância toda a observar-me atentamente e a decidir como não querem ser.


29 maio 2020

não há condições



Isto é um stress que nem vos digo nem vos conto!

Bem tentei, garanto que sim, mas não consegui desbastar as quase duas mil fotografias que tirei no fim-de-semana passado. De modo que não consegui ainda fazer uns posts mais ou menos sintéticos dos sítios que vi durante essas miniférias. E daqui a uma hora saio para as miniférias desta semana. Maio, com todas as suas pontes, tem sido um mês terrível...

Ontem pensei que conseguiria dar um bom adianto, mas o tempo estava tão bom que a meio da tarde tivemos de ir para a praia. E como metade das praias da zona estão encerradas ao público, gastamos muito tempo às voltas à procura da praia certa. Da próxima vez levamos um drone para subir acima das falésias: onde estiverem concentrados tooooooooooodos os banhistas da região de Brest, é essa a praia que está aberta. 
Bem sei que ninguém estava preparado para a crise da Covid-19, e por isso não quero rir muito alto destas situações caricatas, mas neste caso é difícil: não seria muito mais razoável abrir as praias todas, para o pessoal se espalhar em vez de concentrar na única que autorizaram?  

Com essas e com outras chegámos a casa demasiado tarde, e já não houve tempo para desbastar e escrever. De modo que estou a ver que vou passar Junho a desbastar fotos de Maio para escrever posts de viagens que entretanto já quase aconteceram na Antiguidade. 

Escrevo "Antiguidade" a brincar, mas o caso é sério: o confinamento e as várias fases de desconfinamento transformam a contagem do tempo numa matemática muito subjectiva. O tempo pré-confinamento foi há séculos, o confinamento demorou eternidades, e a perspectiva de poder viajar mais do que apenas num raio de 100 km, a partir da próxima terça-feira, dá-me uma espécie de agorafobia: o mundo tornou-se demasiado grande, e temo não saber orientar-me em toda a sua vastidão.

Portanto: este fim-de-semana permaneço na minha zona de conforto - Carantec, a uns 50 km de Brest. O tempo vai estar muito bom, e os lugares mais especiais vão estar sem turistas. A partir do dia 2 muda tudo, e provavelmente vou passar a tirar muito menos fotografias, porque a paisagem vai-se encher de emplastros. 
(Emplastros como eu, claro, que nestas coisas somos todos muito uns para os outros.)


28 maio 2020

maldito comunismo...

Estava eu aqui toda contentinha, a pensar que este verão ia ter a Bretanha toda só para mim, sem mais nenhum turista, e vai o Macron e passa para a segunda fase do desconfinamento: a partir da próxima terça-feira, liberdade de movimentos na França - e até a ousadia sem nome da abertura das fronteiras, como se os estrangeiros também tivessem direitos...

Raixparta o comunismo!


o humor e a cultura como espaço de reflexão sobre esta crise

Será que a História contraiu hiperactividade, ou somos nós que andamos mais informados? Ainda só vou a meio da vida (espero) e já assisti ao 25 de Abril, à descolonização, ao início da tomada de consciência do problema do aquecimento climático (lembram-se, no princípio dos anos oitenta, dos artigos sobre o "efeito de estufa"?), à queda do muro de Berlim, à criação da União Europeia, ao 11 de Setembro, à invasão do Iraque, ao Verão de 2015 na Alemanha (quando o país se mobilizou com toda a generosidade para acolher refugiados), ao regresso de tendências políticas fascizantes e agora à crise da Covid-19. Isto sem pensar muito, e entre outros.

Mas não me lembro de nenhum caso como o actual, no qual os artistas e os humoristas estiveram tão presentes desde o primeiro momento. Será que sou eu, que tenho mais tempo para me dar conta do que está a acontecer? Ou será que o facto de termos ficado todos imobilizados em casa, sem outro recurso senão a comunicação nas avenidas largas das redes sociais, tenha permitido estes encontros imediatos em tempo real da História com os agentes de cultura e com o público? 

Se arranjar tempo, gostava de passear pela página Mamouz do Instagram para uma pequena antologia do humor durante a crise da Covid, organizada cronologicamente por semanas. Haverá com certeza outras páginas, mas esta, com dezenas de piadas por dia, revelou-se para mim um grande barómetro do pulsar da sociedade.

Quanto à Literatura, gostava de falar de dois escritores que têm trabalhado muito, reflectindo o que nos está a acontecer. 

Um é o Wladimir Kaminer, que lê os seus textos sobre esta crise no facebook, às oito da noite todas as quintas-feiras, e nos intervalos faz canções sobre o mesmo tema com o seu amigo Yuriy Gurzhy: o riso em tempos de covid. A primeira canção, por exemplo, chamava-se "fica em casa, mamã!", e a avó Kaminer era a special guest star do vídeo.
Para quem fala alemão: está tudo no mural de facebook dele. 

Outro, que descobri recentemente, é Wajdi Mouawad. Quando lhe fecharam o teatro, abriu uma filial para a sua voz: um diário lido por ele, dia após dia, e divulgado na internet. 
Tenho estado a ouvir, e gosto imenso. Recomendo. 
Não sei se o podcast pode ser ouvido fora da França. Aqui deixo alguns links possíveis: 
- Théâtre de la Colline
Spotify 
SoundCloud

Para me poupar o latim, partilho um texto de Corinne Denailles, em francês, que me tirou as palavras da boca:


Nous avions parlé de l’initiative du théâtre de la Colline mise en place dès les premiers jours du confinement et depuis largement saluée par les médias. Au bout de trois semaines, le Journal de confinement offert par Wajdi Mouawad sur le site du théâtre pourrait faire figure d’œuvre à part entière, un témoignage humain, artistique de haute volée dans laquelle Mouawad s’engage en tant qu’individu pour exprimer ce que lui inspire cette situation inédite. Parfois, il part de situations anecdotiques pour, invariablement, au fil du petit quart d’heure journalier, s’élever, prendre de l’altitude, s’ouvrir à des souvenirs de l’enfance au Liban et de la guerre, de la vie à Montréal ou des nuits passées à rêver sous un secret bec de gaz à Nogent-sur-Marne. Sa pensée, ses réflexions amples, douées de ce souffle qu’on aime tant dans ces meilleures mises en scène, sont nourries (et nous nourrissent) de détours par la mythologie grecque, le cinéma, la peinture, la poésie, convoquant les artistes qui lui sont chers. Il met en oeuvre son art singulier de la digression, du retour en arrière, des récits parallèles ou enchâssés les uns dans les autres, il brasse les thèmes obsessionnels qui traversent ses pièces (le sacrifice, la parole donnée, la promesse non tenue, etc, (cf le Jour 18, vendredi 3 avril) et, alors qu’on croit qu’il a perdu le fil, il rassemble tous ses motifs pour revenir à la situation actuelle, et parler du confinement. 

Dans cette période étrange où l’on se sent un peu sidérés, hébétés, incapables de penser à autre chose qu’à maîtriser sa peur, s’approvisionner ou à se protéger, ces petites pastilles poétiques nous aident à faire tomber nos confinements intérieurs ; les mots de Mouawad, et sa voix si douce, créent un appel d’air salvateur. Il pense le monde à travers ses propres expériences et a le talent de savoir les transmettre. Certes, les propositions sont inégales — et comment ne le seraient-elles pas ? — mais toutes sont belles, certaines exceptionnelles. L’exercice exigeant compte déjà 18 opus (combien encore à venir pour arriver au bout de nos peines ?), autant de viatiques pour tenir bon dans la tourmente de cette Odyssée involontaire, de vade mecum à consulter sans restriction pour ne pas perdre le nord dans cette traversée tempétueuse. 

On peut espérer une large diffusion (publique et scolaire) de l’ensemble (audio, papier, les deux), parce que c’est le témoignage d’un événement inédit dans notre histoire, mais aussi, pour ses qualités intrinsèques, littéraire et philosophique. 

Journal de confinement de Wajdi Mouawad, théâtre de la Colline. 

26 maio 2020

mais que motivo para ter inveja de mim própria



Pensamento do dia: é uma pena não saber a hora em que nasci, para tentar clonar esse alinhamento dos astros e oferecer a quem quiser. Porque é um alinhamento muito recomendável, podem crer.

A última que me arranjou foi esta: no ano da desgraça de 2020, quando poucos sabem se vão poder fazer as férias de Verão nos destinos que tinham previsto, eu dou comigo a viver já no meu destino de férias.

Sim: tenho a Bretanha toda para mim, e sem turistas!
Mais, para que acreditem que o tal alinhamento era de luxo: tem estado um tempo fantástico.

No fim de semana passado (que era de ponte) foi isto: Plomodiern sem turistas (e casa numa praia praticamente deserta, e mar com água quentinha), Douarnenez sem turistas, Quimper sem turistas, Pointe du Raz e Pointe du Van sem turistas, Locronan sem turistas, Pont-Croix sem turistas.

Acredito que, se jogasse no Euromilhões, com este meu alinhamento dos astros ganhava de certeza. (Mas não jogo, porque não é bonito ser fuçangueira.)















E um pôr-do-sol kitsch até dizer chega, sem turistas.







"paciência"

A frase de um colega da Enciclopédia Ilustrada sobre a #paciência de Job, que foi "testado por Deus, que se aliou ao Diabo para confirmar a sua fé", é uma excelente síntese do que me incomoda no Livro de Job.

Bem sei que este texto marca uma evolução importante na intuição do divino, deixando para trás a ideia de um Deus da lógica simples ("se te acontece alguma coisa má, algum pecado grande hás-de ter feito", ou o seu inverso, nas palavras irónicas de um amigo: "o Deus no qual nem sequer acredito gosta muito de mim") e passando para um Deus de misteriosos desígnios que não podemos entender nem devemos ter a veleidade de tentar interpretar.
Ou seja: um Deus independente das mesquinhices dos humanos.

Mesmo sabendo isso, e mesmo sabendo que se trata de uma construção literária, o início do livro irrita-me: Deus a fazer apostas com o diabo?! Arre!

Descobri um valor mais profundo para esta paciência de Job ao ler o cartão que informava sobre a morte de um tio do meu marido. Quando soube que tinha um cancro fez ainda com a mulher todas as viagens que pôde, lutou contra a doença e ao mesmo tempo preparou-se para morrer. Foi ele quem preparou o seu próprio cartão, no qual se vê uma pintura de um artista alemão contemporâneo: Job, de costas, com a pele coberta de pústulas, erguendo os olhos e os braços para o alto. E a pergunta sobre o sentido do que lhe acontece: "porque me envias este sofrimento, meu Deus?"

Não sabes. E nunca saberás. É essa a mensagem do Livro de Job (esquecendo a parte da aposta): a vida é isso mesmo - em algum momento seremos apanhados por um sofrimento que sentimos não ter merecido nunca. Não é Deus a ajustar contas connosco, é simplesmente o imprevisível, o inexplicável e a parte mais cruel da nossa condição de vivos a acontecer.

Fazer o quê? Em certos casos, o único paliativo é a paciência.

E porque é que Deus criou um mundo onde há sofrimento inexplicável?, perguntarão. Ora bem: ninguém se lembrou ainda de escrever esse livro, que provavelmente é o mais difícil de todos.
Mas escreveram o segundo mais difícil, o que nos dá a regra para estar no mundo tal como ele é: "ama cada um dos outros, certo de que ele é, como tu, um filho de Deus"
(hã? que me dizem desta síntese?)
O terceiro livro mais difícil é este de Job: perante aquilo que não compreendes e não podes mudar, só te resta a paciência.

(Ultimamente, a paciência tem sido trocada pelas teorias da conspiração: perante aquilo que não compreendes e não podes mudar, aderes a uma teoria qualquer que identifica um culpado simples e te dá, por consequência, a sensação de que tens a chave para a resolução do problema. Mas isso seria tema para outro post.)


21 maio 2020

regresso a Le Conquet


O primeiro passeio que demos quando chegámos à Bretanha foi até Le Conquet. Mas na primeira semana de Março ainda éramos muito novos: limitámo-nos a passear pelas ruas da cidadezinha, e a comer crepes deliciosos numa casa com quinhentos anos. Só no dia seguinte nos informaram que o programa mais interessante de Le Conquet são as caminhadas do lado de lá da baía.

Na realidade, na nossa ignorância fomos bem espertos: como se tivéssemos adivinhado que o tempo de comer crepes sentados numa sala agradável ia acabar em breve, e que na primeira fase do desconfinamento a única alegria que nos seria devolvida ia ser a das caminhadas.

No sábado passado voltámos a Le Conquet, para fazer a tal caminhada na península em frente: Kermorvan.
Impressionantemente linda.
(Mas tenho de ter cuidado: já percebi que nos próximos quatro meses me vai ser difícil não repetir adjectivos de deslumbramento.)





(Enquanto durar esta Primavera, vão ter de me aturar as fotografias com florzinhas. E esperem só até publicar as fotos do dia seguinte, as da Île de Batz.)

A península de Kermorvan termina em frente a uma ilhota que se pode alcançar a pé seco na maré baixa. Como não podia deixar de ser, numa costa de corsários e inimigos vários e poderosos, também aqui existe um forte construído segundo planos de Vauban.

"No meio do caminho havia uma pedra". Inúmeras, aliás. E entre elas pocinhas de água a fervilhar de caramujos. Apanhámos alguns, para comparar com os de viveiro que tínhamos comprado de manhã. Tinham mais areia, e um sabor muito mais intenso.






Quem sai da ilhota e vira à direita avança na direcção do famoso farol do Astérix e da Volta à Gália. E do inevitável bunker alemão que lhe faz sombra desde há cerca de oitenta anos.


Mas antes de chegar ao farol passa pela praia Porz Pabu, que foi o local de entrada de São Tugdual/Tudwal/Tuzval/Tudal/T(h)ugal/Tual/Tutuarn/Pabu, um dos sete santos fundadores da Bretanha. Com tantos nomes diferentes, quase se diria o Fernando Pessoa dos sete. Muito fácil de reconhecer nos altares: é o que tem a pomba branca pousada sobre um ombro. Conta a lenda que foi em peregrinação a Roma, e calhou de o papa morrer justamente nessa altura. Durante as exéquias uma pomba branca pousou-lhe sobre o ombro, o que foi entendido como sinal divino para a escolha do novo papa (mas eu, que já ando aqui há umas semanas, estava capaz de desconfiar que ele teria uns bocaditos de gâteau breton escondidos no manto, para ir comendo enquanto esperava o fim do latinório, e a espertalhona da pomba...). Seja como for, a sessão na Capela Sistina foi rápida, porque o caso já estava decidido, e além disso a capela só viria a ser construída mil anos depois. Tugdual foi eleito papa, e assim ganhou um novo nome na Bretanha: Pabu, papa. Mas ao fim de alguns meses apareceu-lhe um cavalo branco que o levou pelos ares de volta à sua sé bretã em Tréguier. A cada época o seu beam me up, Scotty.

A praia de Porz Pabu estava fechada por causa da covid. Mas dava para ver que o santo dos sete nomes tinha bom gosto. O inimigo alemão, também: não faltava o bunker, com uma bela vista para a enseada de águas esmeralda.



Um pouco mais à frente espreitamos o tal farol do Astérix. E mais bunkers, mas esses não fotografei. As pedras na praia junto ao farol tinham formas fascinantes.



O meu telemóvel desatou a tirar fotografias em autogestão, com o horizonte na diagonal.
É um autêntico smartphone... 


Continuámos a caminhada rumo a Le Conquet. O mar estava calmo, e os barcos dormitavam tranquilamente no porto. Outros estavam pousados no lodo, à espera da maré alta.
A princípio, estes barcos fora da água faziam-me pensar na nossa própria situação em tempos de covid. Mas com o tempo habituei-me à sua situação desconfortável: uma lição de paciência. 







De Le Conquet seguimos para Saint Matthieu, lá perto, onde há uma estranha mistura de ruínas e faróis. Tal como perante os barcos fora da água, também aqui somos tomados por uma sensação de estranheza: como se tudo estivesse fora do lugar, do tempo, do contexto, do sentido.









Diz-se que já no século VI havia um mosteiro neste extremo da Finisterra, e nele se guardavam relíquias do evangelista S. Mateus, que marinheiros bretões teriam trazido do Egipto. Em 1206 receberam partes do crânio do santo, que contribuíram para fazer da abadia - construída no século XII, primeiro em estilo românico e depois em gótico - um importante lugar de peregrinação. É essa a igreja que agora se vê em ruínas, entre faróis e torres de vigia.





À volta do mosteiro e das suas regalias, nomeadamente o direito de fazer feiras e mercados, desenvolveu-se uma intensa actividade económica, A cidade chegou a ter dois mil habitantes no século XV, mas hoje tem apenas meia dúzia de casas. Da antiga igreja paroquial, do século XIV, só sobrou o portal. Igreja, localidade e população foram vítimas de uma razia inglesa em 1558. No século XIX reconstruíram uma capela no lugar da antiga igreja paroquial, deixando o portal da igreja original esquecido ali ao lado. 





Em frente a essa capela há uma praça enorme: um descampado com piso de pedra ao longo do terreno murado onde ficava a horta dos frades. Do lado oposto vê-se ainda o que resta de um poço.
E tudo aquilo tem um ar desolado.

Desolado também é o monumento que fizeram em frente ao mar para lembrar os marinheiros mortos pela França. O autêntico "faz-me um desenho": com um busto de mulher triste a fitar o mar, a inscrição "aux marins 1914-1918", e a imagem de um marinheiro. Como se não bastasse, ainda têm uma placa a dizer às pessoas que aquele é um lugar triste, e que devem respeitar o silêncio. 

Por ser tão claro - quase humilhante - o que se esperava de mim neste lugar, lembrei-me de um comentário que ouvi a uma francesa que organiza visitas guiadas de arte contemporânea. Dizia ela que Berlim sabe fazer memoriais não impositivos, permitindo às pessoas que os deixem ecoar livremente no seu espaço subjectivo de ressonância. Por isso, dizia ela, Berlim é uma cidade com tanta energia positiva. 

 

Gostei de ver Saint Matthieu e as falésias deslumbrantes que rodeiam aquele cabo. Mas voltei para casa um pouco cabisbaixa - e não terá sido apenas do cansaço das caminhadas.