26 maio 2015

tudo como dantes na Filarmónica de Berlim

Voltei à Filarmonia, e foi na semana do famoso debate, quando os filarmónicos passaram doze horas fechados a debater um rumo para a orquestra. Aparentemente, o futuro depende do maestro que substituirá o Simon Rattle, e os músicos estavam divididos entre o regresso ao passado e a continuação da senda futurista do actual maestro. Três dias depois estavam de novo reunidos na sala grande, a fazer música sem costuras nem fracturas. Tudo como dantes, e nem outra coisa seria de esperar.

Neste concerto, o maestro era o Paavo Järvi, a solista era a Yuja Wang, que se estreava com a orquestra, e com uma peça muito exigente: o concerto nº 2 para piano, de Prokofiev. Ela conseguiu o facto extraordinário de fazer brotar música daquelas piruetas de dificílima técnica. Que é como quem diz: Prokofiev não será o maior amor da minha vida, musicalmente falando, mas a Yuja Wang está cada vez mais na minha lista de "a não perder".

Esta pianista tem uma timidez em palco que contrasta com a sua excelência musical e os vestidos vertiginosos que mostra (ah, os vestidos da Yuja Wang! Alguma coisa está a mudar nos palcos da música clássica). Uma timidez que quase dói: mal termina a peça, levanta-se de um salto, agradece velozmente, e foge do palco. Desta vez foi difícil fugir porque o público insistia em aplaudir entusiasticamente. Ela voltava, fazia uma vénia, e voava para os bastidores. Uma e outra vez. Até que entrou com ar decidido, sentou-se ao piano, o público acalmou, e ela tocou as primeiras notas da Marcha Turca, de Mozart. A sala largou a rir em surdina. Pior que isto, só mesmo os "martelinhos", terão pensado todos. Mas num instante deixámos de rir, porque até nos faltou o ar. A reinvenção da Marcha Turca:


 

Neste site pode-se ver um trailer com excertos das três peças do concerto (e o vestido...).

Do programa, a peça que mais me tocou foi a primeira sinfonia do Shostakovich. Como é que um rapaz de 19 anos, pobre e com fome, deprimido e perdido na enorme cidade de Moscovo, consegue fazer música de tal clareza e expressividade?



Do lugar onde fiquei, por trás da orquestra, podia ver o Paavo Järvi de frente, a sua tranquilidade, o seu charme. Em termos de expressão corporal, podia ser um bom substituto para o Simon Rattle. Nem sei porque é que os filarmónicos discutem tanto o futuro e o passado e se esquecem deste critério essencial para um maestro: a graciosidade da sua dança. Por outro lado, foi pena o solista do clarinete ser o Andreas Ottensamer, e eu, do sítio onde estava, só lhe ver as costas. Se me deixassem mandar, inventava uma sala de concertos com palco giratório, para o público poder ver tudo. Ou então (versão mais económica) punha câmaras a filmar os rostos de frente e a projectar para écrãs. Mas por enquanto não se pode ter tudo. Pelo que vi as costas dos solistas - o Ottensamer no clarinete, o Emmanuel Pahud na flauta, o Stefan Dohr na trompa, o Bruno Delepelaire no violoncelo, e o perfil do Noah Bendix-Balgley com o seu violino -, e assim talvez tenha até ouvido melhor a música deles, a perfeita beleza da música deles e do Shostakovich.

**

Tudo como dantes? Talvez não. As pessoas sentadas nos bancos do coro por trás da orquestra estavam demasiado bem-dispostas. Uma delas (não digo nomes, que não sou pateta a esse ponto) até se lembrou de sugerir que o senhor dos tímbales se chegasse um bocadinho para o lado, para podermos ver melhor a Yuja Wang. E havia um músico que tinha meias pretas, sim, mas com um sinal de trânsito, daqueles amarelos, a avisar que há cangurus a atravessar a estrada.
O público berlinense, esse, continua igual. Quando, no intervalo, um músico deixou cair um dos pratos, essa performance tão artística foi alegremente aplaudida. O pobre desastrado curvou-se numa vénia delicada, o público aplaudiu com mais entusiasmo ainda.

um bocadinho de alemão por dia, não sabe o bem que lhe fazia...

(...) "Não gostei nada de um conto alemão que a minha mãe me começou a ler em que uma rapariga se chama Frida. Não quis ouvir esse conto. Nunca o li. Uma rapariga não se pode chamar ferida."

Adília Lopes in Manhã


Ora aqui está um equívoco curioso. Não é "ferida", muito antes pelo contrário: o nome Frida pronuncia-se "Frrridá" e significa "paz" e "soberana" (como diminutivo de Friederike) ou "espírito da natureza" e "força" (como diminutivo de Elfriede).

Não sei qual é o conto que a Adília Lopes não leu, mas, se o nome da rapariga tem algum significado na história, parece-me que perdeu um belo conto. Um pouco de alemão por dia...

(E cá está uma questão curiosa para a tradução: devia ter-se traduzido o nome por Maria da Paz, Vitória ou Ondina, por exemplo?) (E outra questão também curiosa: qual devia ser o preço normal das traduções literárias para o  tradutor ter tempo de pensar também nestas coisas e procurar soluções óptimas, e conseguir pagar as contas ao fim do mês?)

**

ADENDA: chamaram-me a atenção para o facto de, neste meu texto, parecer que a Adília Lopes está a elaborar a partir de um erro. Obviamente, o texto da Adília vale pelo que diz, e muito. Eu limitei-me a aproveitar um detalhe para partir noutra direcção. (Sabem a história do tolo que olha o dedo que aponta as estrelas? Eu podia ser o tolo que olha o mancha na pedra do anel do dedo que aponta as estrelas...)


21 maio 2015

o homem da camisa xadrez



Reparem no homem da camisa xadrez: corre para enfrentar um grupo de polícias ensandecidos. É obrigado a recuar, mas não foge. Muito se tem falado do polícia que tentou acalmar o miúdo, e sentimo-nos tocados pela fotografia que forja a imagem e o herói do momento. Contei-os: eram três. Três polícias armados para acalmar um rapazinho, e um homem sozinho e de mãos nuas a tentar acalmar três (ou quatro, ou cinco) polícias.

Esse sim, é o herói.


"o Diogo largou um gato da varanda do seu quarto"




(Foto: Aventar, onde se informa este exercício é da autoria de António José Silva e Cláudia Simões, no novo manual de Físico-Química para o 9º ano, intitulado Zoom, publicado pela Areal Editores.)


6. O José fez uma espera à porta do bar onde se encontrava o professor que escreveu este exercício, para se vingar da má nota que recebeu por ter respondido a todas as perguntas com "Não sei, mas vou perguntar à Sociedade Protectora dos Animais". Sabendo que o professor todos os dias sai daquele bar com uma taxa de alcoolemia de cinco por mil, e que só bebe cervejas, à velocidade média de dois minutos por mini,

6.1. Faz um desenho da cara do professor enquanto escrevia a pergunta sobre atirar um gato de uma varanda a 5 m do solo.

6.2. Escreve uma redacção sobre o tema "Atirei o pau ao professor - a Ética na Educação"


20 maio 2015

a religião é que nos salva




Ontem fomos a Berlim Oriental para uma festa com russos, ucranianos e alguns alemães que nasceram desse lado do mundo.

Fiquei a saber que consta que na Rússia voltaram a criar unidades militares como as que na segunda guerra mundial tinham como missão abater os soldados que, na linha da frente, olhavam para trás. Pelos vistos, hoje em dia as saudades de casa também não são muito saudáveis para os soldados russos que calha de se encontrarem na Ucrânia. Também falaram de prisioneiros russos postos em liberdade desde que aceitem ir viver para esse país (lembrei-me logo da heróica tripulação das nossas caravelas...). A pedido veemente de uma das pessoas mudámos de assunto porque, apesar de serem todos muito amigos, não têm a mesma opinião e não querem sequer falar sobre o tema. Mas que coisa! Se nem entre pessoas que se querem bem é possível falar sobre isso, está tudo dito sobre a possibilidade de paz e entendimento entre os povos...

Falámos então da ideia de um mundo sem dinheiro, só com cartões. "Óptima ideia", disseram, "viva a transparência absoluta". Foi aí que me dei conta de que os alemães, que entraram tarde e a más horas no sistema de pagamento por cartão, não se atrasaram por serem especialmente avessos às novas tecnologias, mas porque são alérgicos à possibilidade de algum organismo os poder observar. Imagine-se, por exemplo, uma sociedade que obriga as pessoas a descontar mais para o sistema de saúde consoante o seu estilo de vida, imagine-se uma pessoa com cancro de pulmão a ter de prestar contas sobre uma lista de todos os maços de tabaco que comprou ao longo da sua vida. Mesmo que hoje isso não seja um problema, ninguém sabe como é que a sociedade vai evoluir e quem é que um dia vai ter acesso a todas as informações que já agora vão sendo armazenadas.

Optámos por mudar de assunto, passámos aos telemóveis modernos. Os fantásticos, com pilha incorporada, que não se desligam nunca, que estão sempre disponíveis e atentos. Um dos alemães que cresceu na RDA tirou o seu telemóvel do bolso junto ao coração e disse: "aqui está a minha Wanze" ("Wanze" é um "bug", um pequeníssimo aparelho de escuta e transmissão, que a Stasi espalhava como brinde oculto pelas casas das pessoas que lhe interessavam). Pelos vistos é possível ouvir tudo o que se passa junto do telemóvel, mesmo quando está desligado ou em modo de voo. Temos de manter o telemóvel bem longe de nós para não se ouvir o que contamos à mesa ou no carro, ou se não queremos que o mundo saiba que ressonamos. Já sabia que tudo o que escrevo na internet (nomeadamente as mensagens privadas) é tão confidencial como um postal de férias. Mas é ainda mais incómodo saber que não devo falar nunca na presença do meu telemóvel. Claro que quem não deve não teme. Mas isso é só até algum serviço secreto suspeitar que sou terrorista. Ou até uma empresa poderosa querer saber que ideias geniais ando a vender à sua concorrência. Ou um stalker, nem quero pensar até onde é que um stalker poderia ir se tivesse estes meios à sua disposição.

Outro assunto, outro assunto!, pedimos - e perguntámos ao jornalista que entrevistou há pouco o Putin como é que as coisas estão na Rússia. Ele ia contar, mas interrompeu a primeira frase para dizer um ditado em russo, algo como "o que não sei não me tira o sono". Oh, durmo muito mais descansada sabendo que há coisas que não sei e que se soubesse me tiravam o sono...

Passámos para as anedotas. As do bloco de Leste (*), as de trocadilhos subtis (**), as do Hitler (***). Piada puxa piada, fomos desembocar às anedotas de católicos - e foi essa a maior surpresa da noite: nós, dois católicos de países diferentes, no meio de gente que cresceu arredada do colo da Santa Madre, e que se espantava muito com as anedotas desbragadas que os católicos contam. A reacção deles, entre a gargalhada e o embaraço, perante a minha anedota de quando os soldados invadiram o convento e queriam violar todas as freiras mas estas pediram que ao menos poupassem a Madre Superiora, muito velhinha, que entretanto já vinha a descer as escadas o mais depressa que podia: "meninas, guerra é guerra!". Ou a hesitação de um deles em contar uma anedota que ouvira a católicos, os milhentos "olhem que é horrorosa, olhem que depois de a ouvirem não a esquecem, olhem que esta anedota cola-se a nós", e depois, quando contou, era apenas isto:

Um padre pediu ao pastor protestante que o substituísse durante uns dias na paróquia, porque tinha de se ausentar. Ensinou-lhe tudo o que era preciso fazer, deixou-lhe uma lista de pecados e penitências para as confissões, e partiu. O pastor lá foi fazendo o trabalho o melhor que soube. Um dia, no confessionário, apareceu um paroquiano que confessou ter feito sexo anal. O pastor procurou "sexo anal" na lista dos pecados, mas não constava. Pelo que pediu ao homem que esperasse um bocadinho e foi a correr pedir ajuda. Encontrou na sacristia o rapazinho que ajudava à missa, e perguntou-lhe:
- O que é que aqui é costume dar para sexo anal?
- Oh, depende. Umas vezes um gelado, outras vezes um chocolate...

Acabámos a noite em gargalhadas, completamente esquecidos dos temas e problemas do início do serão. É bem verdade que a religião salva.


(*)
Roosevelt, Churchill e Estaline vão num avião a caminho de Yalta e fazem apostas sobre a lealdade dos seus ajudantes. De Gaulle chama o seu, e pergunta-lhe:
- Serias capaz de fazer tudo pela tua pátria?
- Tudo!
- Então atira-te deste avião sem pára-quedas!
- Ai isso é que não. Tenho mulher, tenho filhos - tenho obrigações.
Churchill chama o seu, e pergunta:
- Serias capaz de fazer tudo pela tua pátria?
- Tudo!
- Então atira-te deste avião sem pára-quedas!
- Ai isso é que não. Tenho mulher, tenho filhos - tenho obrigações.
É a vez de Estaline:
- Serias capaz de fazer tudo pela tua pátria?
- Tudo!
- Então atira-te deste avião sem pára-quedas!
- Com certeza!
O ajudante russo vai a saltar, e no último momento os outros dois ajudantes agarram-no e impedem-no de saltar. O russo desata a gritar:
- Larguem-me! Larguem-me! Deixem-me saltar! Tenho mulher! Tenho filhos!

(**)
- Porque é que Bach teve tantos filhos e Kant não teve nenhum?
- Porque Bach era um especialista da fuga e Kant só conhecia a coisa em si.

(***)
EStaline morreu, foi parar ao inferno, foi metido num espeto, começou a ser assado, e ficou furioso ao ver que o Hitler estava confortavelmente instalado a um cantinho, rodeado de livros.
- Então como é?, perguntou ele ao chefe dos diabos. Aquele ali tem aqui tratamento de luxo?!
- Claro que não, respondeu o diabo. Pusemo-lo a traduzir O Capital para hebraico.

19 maio 2015

desfasamento



Esta fotografia faz-me pensar numa passagem do livro "Le Testament Français", quando um rapaz espreita um casal a fazer amor dentro de um barco. Ele vê a cena por duas vigias - numa vê as cabeças, e na outra vê, digamos, enfim, vá - e repara que a cena de uma das vigias não tem nada a ver com a da outra.

Esta mulher parece o resultado de um mágico incompetente que, depois de cortar duas mulheres ao meio, tenha unido as metades erradas. Pelo sim pelo não prafrentemente só terei em casa espelhos pendurados acima da linha do umbigo. O da casa de banho, aliás, além de estar bem altinho tem efeitos especiais: faz as pessoas mais magras. A sério que faz. Mas não está à venda.

**

O pobre do Andreï Makine não conseguia publicar o seu manuscrito francês em França, até que se lembrou de fazer de conta que era uma tradução sua de um escritor russo que queria permanecer no anonimato, e zimbas, ganhou logo os prémios Goncourt e Médicis. Um dia que queira publicar um livro meu acho que faço o mesmo (só me falta decidir a identidade do tal escritor obscuro) (e escrever o livro) (depois de escolher um tema) (podia ser, por exemplo: "como manipular espelhos para garantir uma elevada auto-estima") e depois zimbas, ganho logo um prémio de tradução, porque para o texto em português ser assim intragável o texto em alemão deve ser indigesto como tudo) (por acaso, era boa ideia alguém inventar o prémio "tradutorsofre") (e, já agora, o prémio "leitortambém" - com uma menção especial para os que são obrigados a ler os livros por motivos profissionais) (já estou aqui a disparatar há cinco parêntesis - sem contar os parágrafos anteriores - e ninguém me manda ir mazé para a produtividade?!)  


esta semana: palestras do escritor Afonso Cruz em várias cidades alemãs

Aviso aos portugueses que moram na Alemanha e se queixam da insularidade (como eu): o escritor Afonso Cruz anda em tournée pela Alemanha. Ontem vi o seu "show" na Freie Universität em Berlim, e garanto que vale a pena. 

Hamburgo: 20.05, 12:00-14:00 
Heidelberg: 21:05, 16:30-18:30
Colónia: 22.05, 10:00

Em Berlim não foi bem uma palestra, mas um encontro do escritor com alunos de português. Num ambiente que combinava grande concentração e descontracção, a conversa foi sendo orientada pelas perguntas que os alunos faziam. Fiquei impressionada com o nível de português de estudantes que começaram a aprender esta língua apenas em Outubro do ano passado. E a cultura deles? Por exemplo, o momento em que começam a falar de escritores sérvios, a fazer sugestões: "experimente ler o Petrović, tem um estilo muito semelhante a esse escritor que gosta de ler". Maravilha. Ontem o futuro pareceu-me muito bem. 









(carregando em cada foto entram nos sites que dão as respectivas informações; a terceira foto refere-se a Colónia)

18 maio 2015

"novo tempo sempre se inaugura / a cada instante que você viver"

(esta é a primeira segunda-feira do resto da tua vida...)

(eu a pensar que o Chico é que sabia tudo sobre mim, mas afinal é o Gilberto Gil quem entende a minha alegria...) (é muito triste chegar a esta idade e ter de repensar de quem quero mesmo mesmo ser a groupie)




Era nova



Gilberto Gil

Falam tanto numa nova era
Quase esquecem do eterno é
Só você poder me ouvir agora
Já significa que dá pé
Novo tempo sempre se inaugura
A cada instante que você viver
O que foi já era, e não há era
Por mais nova que possa trazer de volta
O tempo que você perdeu, perdeu, não volta
Embora o mundo, o mundo, dê tanta volta
Embora olhar o mundo cause tanto medo
Ou talvez tanta revolta
A verdade sempre está na hora
Embora você pense que não é
Como seu cabelo cresce agora
Sem que você possa perceber
Os cabelos da eternidade
São mais longos que os tempos de agora
São mais longos que os tempos de outrora
São mais longos que os tempos da era nova
Da nova, nova, nova, nova, nova era
Da era, era, era, era, era nova
Da nova, nova, nova, nova, nova era
Da era, era, era, era, era nova
Que sempre esteve e está pra nascer
Falam tanto


17 maio 2015

não é só isso, estúpido!



A propósito das afirmações de Hélder Trindade, presidente do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), defendendo que é necessário proibir os homossexuais de dar sangue (aqui, aqui e aqui), e do modo como João Miguel Tavares tem tentado defender essa posição, nomeadamente nos textos "sangue, gays e discriminação" e "é a ciência, estúpido", gostava de acrescentar algumas ideias.

Começo por uma sugestão para garantir que o sangue que as pessoas recebem seja seguro: depois de informar os dadores sobre as práticas sexuais de risco, é-lhes perguntado se não fizeram nada disso nos últimos x meses. Se a resposta for negativa, o sangue que doarem pode ser imediatamente analisado, tratado e posto no circuito das transfusões (não tem uma segurança de 100%, mas essa é praticamente impossível de conseguir). Se a resposta for de certa dúvida (a pessoa que não sabe o que o marido anda a fazer quando chega tarde a casa, a pessoa que tem um companheiro relativamente recente, etc.) o seu sangue vai para um lote temporariamente cativo, do qual se extrai o plasma (que pode ser conservado durante mais de dois anos), e pede-se ao dador que regresse ao centro umas semanas mais tarde (a tal "janela", o tempo necessário para aparecerem anticorpos, anda entre as 3 e as 12 semanas), para fazer análises que comprovem que não estava infectado. Perdem-se os outros produtos do sangue, mas ganha-se um plasma que, de outro modo, não chegaria a ser recolhido. Só depois dos resultados negativos das análises é que aquele lote de plasma fresco congelado pode ser usado (e este sim, apresenta uma garantia de 100%). Custa mais algum tempo e dinheiro, mas, tendo em conta que o objectivo é garantir o mais possível a qualidade dos produtos do sangue sem ofender ninguém (e sem contribuir generosamente para fortalecer, a partir de agentes do próprio Estado, sentimentos homofóbicos na sociedade), não me parece que o custo em tempo e dinheiro seja algo incomportável.

Hélder Trindade e João Miguel Tavares preferiram um outro tipo de abordagem que, além de rejeitar dadores saudáveis, também representa um gigantesco passo atrás na construção de um país no qual o respeito pela dignidade humana é um valor essencial. Vejamos alguns dos argumentos usados, e outros que faltaram neste triste debate:

Aproveitei o título do João Miguel Tavares (curiosamente, mesmo antes de o seu texto ter sido publicado, já estava a pensar escrever um post usando variações desse slogan) (e acrescento um apontamento sobre tradução: suspeito que "estúpido" não é bem o "stupid" americano. No nosso "estúpido" há uma carga suplementar de insulto que não existe em "stupid". Pelo que troquei o "estúpido" por "pateta".)


1. É a estatística, pateta!

É a estatística - essa espécie de biquíni que mostra quase tudo e esconde o essencial. Ou que encontra correlações entre a chegada das cegonhas e o aumento do número de nascimentos na Suécia. Ou que conclui que se um frango é comido numa sala onde há duas pessoas, cada pessoa comeu meio frango - esquecendo que um deles pode ser vegetariano...
As estatísticas que mostram que a taxa de infecção com HIV é muito superior nos homossexuais são a base para a decisão de proibir os homens gay de dar sangue (todos eles, excepto os que estão em abstinência sexual).
Pergunto:
- Quem é que se lembrou de, para efeitos de decidir quem pode dar sangue, estudar a taxa de infecção dividindo as pessoas por grupos de orientação sexual? Porque é que não procuraram antes estatísticas sobre a taxa de infecção por práticas sexuais e por protegidas/desprotegidas?
- Será que os homossexuais são todos iguais, praticam todos sexo anal, têm todos comportamentos de risco? Mesmo que praticassem todos sexo anal, convém notar que o problema não é o sexo anal em si, o problema é o sexo anal desprotegido com uma pessoa que tem HIV/sida.
- Quanto aos heterossexuais, que fazem muito boa figura naquelas estatísticas: comem todos a mesma quantidade de frango? Ou há entre eles pessoas que têm comportamentos de risco (por exemplo: homens que recorrem regularmente a sexo pago e são demasiado macho para usar camisinha)? A taxa de infecção para os que têm comportamentos de risco é igual à média de todos os heterossexuais, ou há diferenças flagrantes? Os critérios de exclusão de dadores têm essas diferenças em conta?

Anda cá, ó estatística: se fosses tu a chave da questão, era bom que te chegasses à frente e fizesses o trabalhinho até ao fim.


2. É a ciência, pateta!

A ciência é neutra e infalível. Que o digam os políticos que tentam tomar decisões para salvar o clima do nosso planeta, e se perdem entre teorias divergentes que emanam da comunidade científica (parece que o problema é haver mercenários na ciência) (quem diria...). Que o digam as pessoas que no séc. XX foram vítimas de políticos convictos das teorias raciais do séc. XIX. Lembram-se de quando os nazis recorreram à ciência para justificar a proibição de casamentos mistos, porque estes enfraqueciam o sangue ariano?


3. É a carga simbólica das palavras, pateta!

A propósito de enfraquecer o sangue alheio, já repararam que, no fundo, o que se tem andado a afirmar tranquilamente por aí é que o sangue dos homossexuais está estragado, e não se pode misturar com o nosso, porque o estraga? Setenta anos depois do fim do nazismo, andamos outra vez (ou ainda) a falar em grupos que têm mau sangue, e escudamo-nos na ciência.
(Sim, eu sei que ninguém aqui é nazi. Só queria chamar a atenção para estes pequenos passos iniciais num caminho cujo destino já conhecemos, e ao qual não queremos voltar.)
(Sim, eu sei que a taxa de infecção entre os homossexuais é muito mais alta que entre os heterossexuais - mas daí a concluir que todos os homossexuais são iguais, e que o sangue dos heterossexuais é que é bom, vão vários saltos mortais à retaguarda.)


4. É a saúde pública, pateta!

Se o que nos preocupa realmente é a saúde pública, e tendo em conta o estado actual das mentalidades em Portugal, as teses do presidente do IPST e do João Miguel Tavares falham, porque:
(a) Não bastam as estatísticas, e é um erro grave, do ponto de vista da saúde pública, criá-las e usá-las presas de preconceitos, porque nos dá a ideia ilusória de que basta rejeitar um grupo para resolver o problema, omitindo os problemas que há noutros grupos.
(b) Afastar todos os homossexuais resulta em perda de dadores (temos dadores em tão grande número que nos podemos dar ao luxo de rejeitar dadores saudáveis?)
(c) Sabendo que antes de se dar sangue é preciso responder a um inquérito, e que as pessoas que dão sangue o fazem movidas por uma enorme generosidade (ou seja: querem ajudar, e não infectar propositadamente os doentes que receberem as transfusões de sangue), há que pôr as questões sobre as suas práticas sexuais recentes, e não agredi-las com perguntas sobre a sua pertença a um grupo marcado pela rejeição.
(d) Sabendo o modo como em Portugal se respeitam certos segredos (medicina, justiça, etc.), é uma grande puerilidade acreditar que as pessoas vão revelar honestamente a sua orientação sexual ou as traições do cônjuge num questionário que pode ser visto sabe-se lá por quem.
(e) Ignoram o risco das pessoas monogâmicas que praticam sexo desprotegido com o cônjuge. Mesmo estando dispostas a dizer a verdade, podem elas assegurar com toda a certeza que o cônjuge não é bissexual, ou que não pratica sexo desprotegido com profissionais do sexo ou amantes ocasionais? Podem estar infectadas sem fazer a menor ideia, mas respondem ao questionário de muito boa-fé.  

Estar consciente do poder dos preconceitos, informar-se, informar com respeito - tudo isso dá muito mais trabalho que escolher grupos e dizer que essa gente não presta para dar sangue. E la nave va.


5. É a ética, pateta!

(Ora cá vamos nós a um pequeno exercício de redução ao absurdo.)
Receber sangue saudável é um direito indiscutível do doente. Mas os questionários têm uma fragilidade enorme, porque não é possível obrigar um homossexual, por exemplo, ou um casado que omite da mulher que é bissexual praticante ou cliente habitual de sexo pago e não protegido, a dizer a verdade. Também não é possível verificar a veracidade das respostas. Para garantir a segurança do doente, o melhor é criar uma base de dados onde se registe tudo o que se sabe sobre cada potencial dador. Abrir uma linha de denúncias, claro, mas também vigiar activamente, pôr câmaras junto aos pontos de prostituição (feminina ou masculina), filmar as matrículas dos carros, verificar se houve contacto não protegido com os profissionais do sexo. Para bem ser, e não haver o menor risco - afinal de contas, estamos a falar da saúde pública, que é um valor muitíssimo importante e que justifica atropelar todos os outros! - mais valia impor a essas pessoas um nome do meio suplementar que as identificasse logo como elemento de risco: Manuel Anal Silva, Manuel Promíscuo Silva, Maria do Promíscuo Silva, Maria Promíscua Silva, Maria Anal Silva, e por aí fora. Também se lhes podiam atribuir cores, cor-de-rosa para os homossexuais, verde para os heterossexuais do delito comum de promiscuidade...
"Ah, também não é preciso ir tão longe..." - porque não? Afinal, até onde se pode ir em nome da saúde pública? Pode-se insinuar tranquilamente que "Promíscuo" é o nome do meio de todos os homossexuais, mas não se podem apontar a dedo os homens que praticam sexo desprotegido com prostitutas? Porque não?


6. É o nosso futuro, pateta!

Não deve ser preciso lembrar os homossexuais nos campos de concentração (e foi há apenas 70 anos) marcados com um triângulo rosa que os tornava ainda mais expostos à maldade alheia, nem contar que na Alemanha a homossexualidade só deixou de ser considerada crime depois da reunificação (há menos de um quarto de século), ou falar da Gisberta, que no Porto foi brutalmente espancada até à morte, ou referir que há nos nossos dias jovens portugueses que se querem suicidar por serem vítimas de agressões homofóbicas na escola, ou falar dos quase 200 crimes de ódio contra LGBT cometidos em apenas um ano em Portugal. Nós sabemos tudo isso, mas muitas vezes esquecemos que é responsabilidade nossa lutar contra o preconceito e os comportamentos agressivos que ainda estão bem instalados na nossa sociedade, justificados pela própria lei e pelos costumes. E, pior, esquecemos que uma frase menos pensada destrói um trabalho de décadas.
Não podemos mudar o passado, mas podemos trabalhar para o futuro. Quando andamos por aí a falar sem pensar muito, desculpando-nos com a liberdade de expressão e uma pretensa ciência neutra e infalível, estamos conscientes da nossa responsabilidade perante o mundo?


15 maio 2015

nostalgia não combina muito bem com sexta-feira de manhã, mas as coisas são como são



A minha primeira casa era numa rua de vivendas no fim da cidade. No verão, depois do jantar, saíamos com os miúdos da vizinhança para caçar grilos no "redondo" que marcava os limites da nossa geografia. Foi quando eu quis ter uma pilinha, para poder acertar melhor nas tocas dos grilos. (O Freud é pateta, tem aquela cabeça cheia de porcarias.) A minha mãe sorriu e disse-me que não tinha meios para isso, e eu arranjei logo um plano B: "não faz mal, então peço-a ao Menino Jesus, ele consegue." No Natal pedi uma pilinha para caçar grilos, e farinha de pau para fazer comida para as minhas bonecas. Não me deram uma coisa nem outra - e um ano mais tarde (deve ter sido) o meu irmão mais velho extorquiu-nos alguns cinco tostões para nos revelar o que é que os pais nos tinham comprado numa feira de brinquedos. Lembro-me perfeitamente da cena, ele a saltitar num murete no quintal da avó, e a espezinhar as nossas ilusões mais queridas, a cinco tostões cada espezinhadela. E só agora me ocorre que podia estar a fazer bluff (às tantas, o Menino Jesus ainda existe?!).

No inverno, antes do jantar, víamos desenhos animados nas casas uns dos outros. Eu devia ter cinco ou seis anos, e queria muito saber se os desenhos animados chegavam ao mesmo tempo a todas as casas. À falta de melhor, dediquei-me ao método empírico: fixava a cena que estava a passar na televisão dos vizinhos, corria o mais depressa que podia até à minha casa, ligava a televisão, e verificava se a cena era a mesma. (O Joachim acha que eu chego atrasada a todo o lado porque não considero o tempo que demoro na viagem.) Não consegui chegar a nenhuma conclusão porque, invariavelmente, enquanto a televisão aquecia e as imagens iam procurando o lugar certo no ecrã, eu esquecia como era a cena que tinha visto na casa do vizinho.

Meses depois comecei a interessar-me por outra questão: qual é o tamanho de Deus? Para essa, encontrei facilmente uma resposta. Uma teoria maravilhosa na sua simplicidade.


13 maio 2015

momento nonsense do dia (2)





Na segunda-feira contei a brincar que não pude levar o Fox a um seu habitual Passeio das Necessidades porque estava lá um ministro israelita. Errado: não era ministro, era o presidente da República, mais o seu homólogo alemão, e respectivas comitivas e outros acompanhantes. No noticiário da noite vi que tinham recitado um kadish junto à linha de comboio por onde partiram  mais de 10.000 judeus berlinenses com destino aos campos de concentração.

Ontem passei pelo memorial, e vi as coroas de flores que lá foram pousadas pelos representantes máximos  dos dois países. Uma vizinha passou e quis saber o que se passara. Falei-lhe das notícias, contei do aparato policial no dia anterior, das ruas tão completamente barradas que nem ao supermercado me deixavam ir, falámos um pouco sobre esse memorial e as flores de homenagem, e ela às tantas teve uma ideia maluca: "e se levássemos as coroas para casa?"
Ri-me, ela acrescentou que ficavam lindamente penduradas na porta da rua, escolhemos quem ficava com a maior (queríamos ambas a mais pequena), decidimos que a alemã tinha cores demasiado berrantes e por isso não interessava...

...e de repente caí em mim, e senti-me embaraçada por estar a rir de humor nonsense junto ao sítio de onde saíram milhares de pessoas, muitas delas com destino directo às câmaras de gás.

(Que poesia, que riso é possível depois de Auschwitz?)
(Berlim treina-nos quotidianamente na difícil arte de lembrar sem se deixar derrotar pela memória.)


12 maio 2015

pela boca morre o peixe?


(foto: Paulo Almeida)

Já não se fazem conclaves como antigamente. 
Se fosse um conclave a sério, só saíam dali quando tivessem escolhido o maestro para substituir o Simon Rattle à frente da Filarmónica de Berlim. Mas não foi o caso: ao fim de doze horas de debate, foram cada um para sua casa e mandaram dizer que daqui a um ano voltam a pensar nisso. O que talvez seja muito boa ideia - falar durante 12 horas, ouvir os argumentos dos outros, e depois ir consultar (repetidamente) a almofada.

Pouco se sabe sobre o que foi discutido dentro daquela igreja. Há quem adiante, como o Spiegel Online, que a orquestra está profundamente dividida entre a vontade de voltar à tradição e de se redescobrir como uma orquestra inimitável no seu repertório clássico (nesse caso, o maestro quase ideal seria o Thielemann), e o desejo de inovar e inventar caminhos novos - o que fez Simon Rattle, apesar da resistência de alguns músicos, e o que faria um Andris Nelsons. Segundo os jornalistas, os músicos estariam divididos entre um caminho seguro e sem surpresas e uma enorme e desafiante experiência com resultados em aberto. Como se dizia numa coluna de opinião no jornal Die Zeit, "alguns maestros muito prometedores ainda trazem agarrados bocadinhos da sua casca de ovo".

Nas notícias leio um comentário curioso: muitos membros da orquestra pronunciaram-se contra Thielemann não devido às suas qualidades como músico, mas por ter mostrado compreensão em relação ao fenómeno Pegida. No texto que publicou no semanário Die Zeit, o maestro questiona a afirmação de Angela Merkel ("a religião muçulmana faz parte da Alemanha"), mostra compreensão pelo descontentamento das pessoas e diz que é preciso ouvi-las, critica o actual estado dos debates que mantém as pessoas presas entre os tabus e o politicamente correcto (isto não são citações, é uma síntese rápida e bastante livre). 

E afinal: somos todos Charlie? Pode um empregador castigar um músico devido à sua opinião política? Para quem tem assistido ao moroso e difícil trabalho de confronto que esta orquestra tem feito com a sua história no período nazi, é bastante fácil entender o repúdio dos músicos por posições políticas que possam representar um desvio, por mínimo que seja, dos valores democráticos, e a vontade de não trazerem para perto de si actores que possam denegrir de novo a imagem da orquestra. 

É fácil de entender. Desde logo porque o trabalho musical exige uma empatia profunda - e quantos de nós se imaginariam a trabalhar de forma íntima e empática com alguém que olha com tolerância para o fenómeno Pegida? Mas também ficamos com um ligeiro travo a livros queimados e a saneamentos ideológicos. Parece que, para onde quer que vamos, vamos numa direcção "been there, done that".

Precisamos urgentemente de encontrar maneiras de defender a Democracia que não passem elas próprias pelo ataque aos valores democráticos. 


11 maio 2015

conclave em Berlim (2)



Acabei de ler: os músicos estão fechados numa igreja. Se era preciso mais semelhanças com um conclave...

Parece que está a ser difícil. Já houve várias votações, mas a previsão de que o novo maestro seria anunciado às duas da tarde saiu furada. Talvez ao princípio da noite. O canal ZDF diz que na corrida estão Andris Nelsons, Gustavo Dudamel, Christian Thielemann e Daniel Barenboim, mas fala sobretudo de Nelsons e Thielemann. Vou ali pôr umas velinhas para que não seja o Thielemann, e já volto.

Spiegel sugere mais alguns candidatos: Mariss Jansons, Kirill Petrenko, Yannick Nézet-Séguin, Riccardo Chailly, Teodor Currentzis.  Hum...
De alguns deles nem o nome conheço. Se for um desses que ganhar, vou-me ver aflita para parecer muito bem informada no espaço de dois minutos. Como daquela vez que a Herta Müller ganhou o Nobel, ou quando no facebook desata toda a gente a ripar e a wikipedia se põe mais lenta justamente nesse verbete.
(Às tantas isto está a demorar tanto porque os músicos também não conhecem os maestros sugeridos pela Spiegel, e estão no youtube e na wikipedia a fazer contas de cabeça para não deixar ficar mal esta revista tão respeitada.)


(roubei a foto da Jesus-Christus-Kirche, em Dahlem, ao Paulo Almeida, que dantes costumava ilustrar-nos com o seu Valkirio, mas agora não sei que lhe deu - recuso-me a fazer um rip pelo Valkirio, ouviste, Paulo?)


momento nonsense do dia

Saí com o Fox para os seus afazeres do costume, mas ao chegar ao prado onde vamos muitas vezes demos com um enorme aparato policial e o caminho barrado. Uma polícia simpática disse-me que andava por ali um ministro israelita, e que nós tínhamos de esperar um bom bocado.

Maldita globalização. Onde é que vamos parar se o outsourcing internacional já chega ao ponto de porem ministros israelitas a inspeccionar o Passeio das Necessidades de um rafeirito português?...

(50 anos do início das relações diplomáticas entre a Alemanha e Israel. A cidade está em estado de sítio. E um dos passeios habituais do Fox passa ao lado de um memorial importante do Holocausto. Por estes dias vamos ter de procurar sítios com menos história.) (O que é difícil, em Berlim.)


conclave em Berlim



Os músicos da Filarmónica de Berlim estão hoje reunidos numa sala fechada, sem telefones nem telemóveis, a escolher o próximo maestro titular da orquestra. Provavelmente logo à tarde saberemos quem terá sido convidado a ocupar este lugar impossível.

Albrecht Mayer conta numa entrevista à revista conzerti como é que o "conclave" decorre:

Cada músico começa por sugerir três nomes. Somados os nomes, retiram-se todos os candidatos com menos de 30%. A seguir há um debate, após o qual se faz a votação, na qual cada músico só tem um voto. Isto é o habitual. Mas acrescento que, curiosamente, o nome de Claudio Abbado não estava na lista dos que tinham mais de 30%, e acabou por ser ele o escolhido. O seu nome só surgiu pouco antes da decisão final. As pessoas lembraram-se de concertos maravilhosos com ele, e depois de cinco ou seis horas de debate acabámos por decidir a seu favor.

O diário berlinense Tagesspiegel refere a dificuldade deste lugar:

Dantes as frentes estavam claras: de um lado Deus no seu pódio, dizendo o que é para fazer, e do outro os instrumentalistas que lhe obedeciam. Hoje em dia o trabalho da orquestra deve ser um trabalho de grupo. Colegial, entre iguais, uma democracia com hierarquia plana - compatível com a filosofia das empresas no séc. XXI. A curiosidade sobre as eleições nos Filarmónicos aproxima-se um pouco da discussão sobre modelos actuais de trabalho. Os alemães proficientes? Os alemães bons colegas - os Filarmónicos podem transmitir também essa imagem ao mundo. 

Para além disso, são individualistas com extrema autoconfiança, perante os quais qualquer maestro precisa de ter bons argumentos para defender as suas ideias artísticas. O maestro tem de ser um especialista do repertório nuclear desta orquestra, tem de saber dirigir com profundidade Bach, Beethoven e Brahms e ao mesmo tempo surpreender no dia seguinte com uma estreia mundial. Como "rosto da orquestra" espera-se que seja moderno, charmoso, poliglota, sempre capaz de fazer small talk com políticos, fotogénico por causa do Digital Concert Hall, simpático às crianças por causa dos Education-Programs, aberto para novos tipos de concerto desde o Lunchkonzert ao Late Night Lounge. Em suma: o maestro titular tem de aguentar toda a pressão de autojustificação que hoje em dia se exerce sobre a música clássica, sobre a qual se diz ser elitista.

Mas será que existe nesta área da música um homem para todos os ofícios como o aqui retratado? Claro que sim, mas Simon Rattle decidiu abandonar a orquestra em 2018 (...)

Simon Rattle. O maestro que, como diz o Zeit, "deu à orquestra a coolness a que se dá o nome de séc. XXI."

Daqui a umas horas saberemos quem foi escolhido. E daqui a uns anos veremos o que a escolha de hoje mudou no panorama mundial da música clássica.

(na foto, Simon Rattle sentado no chão do palco, aplaudindo o solo que o violinista grego Leonidas Kavakos ofereceu como encore)


10 maio 2015

70 anos depois














Setenta anos depois da derrota dos nazis, na praça que remata o Ku'damm, junto às ruínas de uma igreja que ali ficaram como cicatriz e memória, faz-se uma festa da Paz. Uma sobrevivente de Auschwitz canta com uma banda que une três religiões, perante um público variado que inclui mulheres de hijab e um grupo de crianças com deficiência mental que dançam animadamente ao som das melodias hebraicas, de Le Déserteur, Bella Ciao e Bandiera Rossa. Setenta anos depois estou numa festa no coração de Berlim, e parece que as ideias nazis estão profundamente derrotadas.

Parece. Mas não nos iludamos. O respeito pela dignidade humana - pela dignidade de todos os humanos - não é um combate ganho há setenta anos. É uma maneira de estar na vida, é enviar raízes para o futuro, é um permanente estado de alerta.

Esther Bejarano falou de tudo isso. Falou da sua convicção de "nunca mais" e do seu choque ao descobrir nos anos 60 que tantos nazis continuavam à solta e bem colocados na sociedade alemã, falou da farsa que é só agora julgar os poucos nazis que restam, enquanto os neonazis passeiam pelas ruas e fazem manifestações. Lembrou que a polícia faz questão de ignorar as pistas que apontam para terrorismo da extrema-direita. Disse que é um escândalo o dia 8 de Maio, o dia da libertação, não ser um feriado na Alemanha. Diz também que não gosta que falem dela como se a vida dela se resumisse a ser uma sobrevivente de Auschwitz. O mais importante na sua vida é o trabalho para a paz. Esta mulher, que foi perseguida pelos nazis apenas pelo seu sangue, é agora rejeitada pela comunidade judaica de Hamburgo, cidade onde vive desde 1960, devido às suas ideias demasiado críticas em relação à política de Israel contra os palestinianos.

Canta com a sua voz de noventa e tal anos, com uma energia de adolescente. Canta "quando se abrirá de novo o céu?", canta "Mir lebn ejbig" em iídiche.

Fiz alguns filmes, todos de péssima qualidade (ainda tenho de aprender muito antes de concorrer aos óscares). Mas deixo-os aqui, apenas como sinal do ambiente desta festa. Vejo agora que devia ter-me fixado menos na cantora e mais no grupo de crianças que dançavam - há setenta anos não havia lugar para eles nas ruas da cidade.

*

Canção de um rapazinho que queria ser pássaro para substituir os que desapareceram da árvore, mas a sua mãe não deixou, e ele conclui "a minha mãe não me deixou ser pássaro porque me amava muito":







"quando se abrirá de novo o céu?"




"vivemos eternamente":



"...apesar disso vivemos,
vamos viver e ver e sobreviver apesar dos apesares,
apesar disso vivemos - estamos aqui!"

"...wir leben trotzdem, wir werden leben und erleben und schlechte Zeiten überleben, wir leben trotzdem, wir sind da."

[ Adenda: eu devia dormir uma ou duas noites (anos?) sobre a tradução de um poema. Esta manhã ocorreu-me que não é adequado usar "apesar dos apesares" para "trotz" e "schlechte Zeiten", quando o que está em causa é o antisemitismo que levou ao Holocausto. Talvez jogar com as palavras "contra" e "ventos contrários"? Em suma: isto não é uma tradução, é um esboço de alinhavo. ]


08 maio 2015

dia da libertação - 70 anos depois, em Berlim





Às vezes a História precisa de um pequeno empurrão para andar para a frente. Como em 1985, quando o presidente von Weizsäcker cunhou o dia 8 de Março como o "dia da libertação", dando assim aos alemães a palavra que os ajudou a fazer contas limpas com um passado doloroso.

Nem tudo terá sido libertação. Que o digam as mulheres violadas (as mulheres com sífilis, as mulheres grávidas de sabe-se lá que soldado inimigo num país que proibia a interrupção voluntária da gravidez, as mulheres que se suicidaram por estarem desonradas - e foi apenas há 70 anos, num país desenvolvido no centro da Europa), que o digam as vítimas de bombardeamentos deliberadamente selvagens sobre cidades cheias de refugiados, que o digam os museus assaltados e o património cultural que era da Humanidade e foi destruído com o objectivo de descoroçoar os alemães, que o digam as empresas saqueadas pelo plano Morgenthau e pela União Soviética, que o digam os dois lados da Alemanha rasgada, ocupados durante mais de quatro décadas por potências inimigas. Nem tudo terá sido libertação, mas a ideia de exércitos libertadores, em vez de vencedores, tem uma grandeza que remete para lá das tragédias concretas dos dias. Às vezes a História precisa de palavras enormes para avançar.

Outras vezes, contudo, há palavras enormes que atiram a História para lugares terríveis. III Reich, Guerra Santa. Como destrinçar umas e outras? Pelos valores que lhes estão subjacentes, e pelos frutos que dão.

A palavra "libertação" tem dado frutos bons. Como o que acontece este fim-de-semana em Berlim. Na Breitscheidplatz, junto à "Igreja da Memória" (para não zarparem já em maravilhosas metáforas esclareço que o nome completo é "Igreja da Memória do Imperador Guilherme") há uma Festa da Paz com debates, workshops e concertos. O programa diz tudo sobre os valores que animam esta festa: lembrar as vítimas, ousar caminhos para a paz, festejar a diversidade.

Do site da Festa da Paz (e em tradução rapidíssima):

Ambos foram testemunhas do seu tempo, Adolf Hitler e Mohandas Karmachand Gandhi. Ambos se referiam a Deus, agiam sob o símbolo da suástica, e eram considerados o exemplo personificado da amplitude das qualidades humanas. Um deles na destructividade da sua megalomania, o outro na modéstia da sua sabedoria tranquila.

A análise destes dois actores da História devia ajudar os políticos de hoje a este entendimento essencial: só uma mudança de paradigma para uma cultura da não-violência pode permitir escapar à loucura da competição mundial dos megalómanos.  Só aqueles que agem com empatia e altruísmo serão capazes de pôr em prática, a favor das gerações futuras, o espírito das Nações Unidas e do Direito Internacional. É preciso  muita coragem para ultrapassar os mecanismos da pretensa "masculinidade" e para trazer a solidariedade, a cooperação, a honestidade e a sabedoria para o centro do nosso agir. 

 
Setenta anos depois daquele terrível período, é disto que se fala em Berlim.

Hoje, sexta-feira, às cinco da tarde, haverá um concerto com Esther Bejarano & Microphone Mafia. Já falei aqui sobre a Esther Bejarano e a sua banda. Da entrevista à mulher que tocou na orquestra de Auschwitz, que traduzi nesse post, retiro a sua apresentação da banda:

"Na Microphone Mafia encontram-se três gerações e três religiões num palco. Entre outros temos um muçulmano, um católico – e eu e o meu filho, que somos judeus. Queremos ser um exemplo para todos os que pensam que as pessoas que têm raízes diferentes não podem viver em harmonia umas com as outras. Nós entendemo-nos lindamente."

O programa da festa está aqui (em alemão). A quem estiver em Berlim por estes dias aconselho vivamente uma passagem pela Breitscheidplatz.


07 maio 2015

pura vida - pairando sobre o mundo



O que mais se vê na Costa Rica são cartazes onde se lê "canopy". Isso, e letreiros escritos por Deus, do género:

If you want to curse, please use your own name, 
God 

    ou 

we need to talk, 
God

(que pena não me ter lembrado de tirar fotografias, ia dar uma grande série para o facebook)

Recados de Deus, e anúncios de canopy: a felicidade de pairar sobre o mundo.
Às tantas é mais ou menos a mesma coisa.

Será mesmo felicidade? Nunca percebi porque é que as pessoas pagam para sofrer (a montanha russa, essas coisas) e pareceu-me que não precisava de pagar um dinheirão (ainda e sempre o trauma dos preços naquele país!) para ir morrer de medo sobre a selva costa-riquenha.
De modo que não fui. Eles foram, e regressaram felizes.


 

pura vida - o paraíso sempre alhures





Ao pequeno-almoço, no pavilhão aberto sobre o mar, o Matthias contou que na noite anterior tinha estado a falar com o chefe do hotel, e que ele lhe oferecera um emprego para as férias: alojamento + alimentação + 100 dólares por mês. O Matthias já se via a arranjar amigos que o levariam de graça a fazer snorkeling e a conhecer praias perfeitas, mas eu torci o nariz: o meu filho de luxo, que fala fluentemente quatro línguas, a ganhar 25 dólares por mês? E a ficar metido naquele fim-do-mundo em vez de ir passear pelo Brasil e pela Colômbia? Quase lhe contei a anedota do homem que estava no céu e quis ir ver como era o inferno, mas ele interrompeu-me, zangado, e dizendo que sou desmancha-prazeres.

Só lá para o fim das férias, depois de muitas imersões em pura vida, me dei conta do meu erro: porquê procurar mais longe, quando já se encontrou o paraíso?







06 maio 2015

pura vida - o bafo desta terra



Nestas férias lembro-me muito das descrições do García Márquez: a humidade, a pele viscosa do calor que nos entorpece a alma, a roupa da praia que deitamos a secar ao anoitecer e acorda impregnada pelo bafo desta terra.
Não é literatura, é a triste vida. A nossa roupa fede que tolhe.


pura vida - o barquinho



Na encosta sobre a baía de água turquesa, num hotel de cabinas com janelas de rede em vez de vidros, ouvindo os ruídos da floresta e o mar que nos embala o sono.
Podia ficar aqui o resto da minha vida, sem mais metafísica que o cérebro a cantar "o barquinho" em repeat.











pura vida - snorkeling na Isla Caño








6:30 da manhã: já de malas feitas, tomámos um pequeno-almoço delicioso na cozinha da dona Hermínia, levámos as nossas coisas ao hotel que o Matthias conseguiu arranjar na véspera, e partimos para a praia, onde zarpámos com rumo à Isla Caño. No mar da baía há golfinhos - e baleias, em certas épocas do ano, mas não agora. Os golfinhos apareceram, poucos e e de má vontade. A rir, comentámos que foi por não termos pago os 10 dólares extra para golfinhos. A verdade é que os preços na Costa Rica e a exigência de pagar cada extra nos estavam a traumatizar.

A Isla Caño é assim chamada - diz o nosso guia - porque tem muita água potável. Não sei se acredite. E se acreditar, não sei se ache bem. Uma ilha onde encontraram misteriosas pedras esféricas, algumas pesando várias toneladas, que para ali foram levadas em tempos pré-colombianos não se sabe como nem porquê, recebe agora um nome tão banal como esse? Que soberbo colonialismo, que tacanhice, pensei eu.

De momento não se pode passear na ilha, mas o snorkeling nas suas praias de água clara e transparente vale bem a pena. Para além dos peixinhos de estampados alegres e das raias, algumas das pessoas do grupo chegaram a ver tubarões. Eu cá, vi-me aflita: a ondulação enjoou-me de tal maneira que devolvi ao mar todo o pequeno-almoço - o arroz de feijão, os ovos mexidos, as bananas fritas, as frutas diversas. Talvez aquela história que os nossos pais nos contavam, e nos arruinava os dias na praia, seja verdade: convém fazer a digestão antes de entrar na água.

Voltei para terra, deitei-me à sombra de um coqueiro. Até que reparei nos cocos em cima de mim, me pus a imaginar o que seria um deles cair-me na cabeça, e resolvi ir fazer fotografias pela praia, em corridas repentinas entre a sombra e o mar para não queimar os pés nus na areia a arder. A minha vida em férias até parece os desenhos animados da minha infância...

No regresso almoçámos numa praia da península, junto a uma fazenda abandonada. Do lado de cá da sebe uma praia lindíssima, do lado de lá a ferida aberta a fogo, e a selva a tentar recuperar o que lhe foi roubado. Ao passear na Costa Rica reparei muito nessas cicatrizes na Natureza, que sentia como um atentado. Mas depois lembrei-me que a Europa é praticamente uma única cicatriz. Não posso atirar pedras ao telhado dos outros quando tenho um telhado de vidro do tamanho de um continente. E escuso de falar do colonialismo dos outros quando padeço do mesmo mal - este paternalismo bem-intencionado que é uma afronta à autodeterminação dos outros países.








(bem queria trazer para casa este bocadinho de coral que estava na praia, mas o tal "maldito inquilino" pôs-se a gritar-me ao ouvido "leave only footprints, take only pictures!" e...)




A praia onde almoçámos: