16 agosto 2016

real história trágico-marítima

"Quer o cabelo mais curto?"
"Não. Mais comprido."
A anedota dos meus pesadelos aconteceu-me hoje. Depois da asneira feita, a cabeleireira desatou a gabar o meu cabelo, "que maravilha de cabelo que aqui tem!". Concordei: "tinha, tinha".
Tentou secar-me a careca com um dispersor, mas as peças estavam em autogestão, caía cada uma para o seu lado. Por isso, quando me perguntou se eu preferia um "look wet", eu disse logo que sim, ela espalhou uma gosma na minha cabeça, eu paguei-lhe os 12 euros da carta de alforria e fugi para a rua.
Se nos próximos dois meses virem por aí uma mocinha com a cabeça enfiada num saco, sou eu.
Como se não fosse já suficientemente horrível, tinha esperado imenso pela minha vez e não tinha nenhuma iHola! para ver. É certo que podia ter lido a Siri Hustvedt, acabada de comprar, mas nem sei que me pareceria estar no cabeleireiro sem ser a ler futilidades. De modo que é isto: fui ao cabeleireiro, e saí de lá sem nada - nem dentro nem fora da cabeça.
Se calhar não me devia ter informado sobre o melhor sítio para cortar o cabelo junto ao carrinho da peixeira a quem tinha acabado de perguntar se tinha piça de rei. Não era para mim, era para a minha vizinha que gosta muito desse peixe e ainda mais de imaginar a minha atrapalhação a pedi-lo em público. Pois lá me atrapalhei, lá tive a resposta de que tinham acabado (parece produto muito procurado), e depois perguntei pela cabeleireira, porque havia naquela rua uma que me cortou o cabelo no ano passado e eu tinha gostado muito, mas essa (disseram-me a peixeira e uma freguesa) mudou-se há tempos para a rua de trás ("atrás de onde?", ia perguntar eu, mas fiquei calada) e agora estava muito desleixada. "Muito desleixada", repetiram. "Desarrisca", pensei eu.
Por sorte a tabuleta do Zé Natário acenou-me, toda oferecida, e fui afogar misérias em bolas de Berlim acabadinhas de sair.
Se nos próximos dois meses virem uma mocinha de dimensões muito equilibradas (isto é: com tanto de altura como de largura) e com a cabeça metida num saco, sou eu.

(o "marítima", do título, é por causa da peixeira, e o "real" é por causa do raio do peixe)

(sim, estou em Viana do Castelo)


15 agosto 2016

como seriam os desportos se fossem fotografados como beach volleyball?

Ver aqui. E confesso que gostei tanto da pergunta como da resposta (sim, este mundo está roto, chove nele como na rua).

(A palavra mágica de hoje na Enciclopédia Ilustrada é "olímpico". Foi de lá que trouxe este link. Ainda não chegámos ao milésimo membro, mas está por pouco. A ver se é hoje que sabemos qual é o presente para o nº 1000.)


14 agosto 2016

enciclopédia ilustrada

Aviso aos amigos: a Enciclopédia Ilustrada nasceu no facebook há pouco mais de um ano, e em breve terá mil membros.
O milésimo membro vai receber um presente especial. Ainda não vi o que é, mas tenho a certeza que é realmente especial. E por isso deixo aqui este aviso aos amigos: vão lá inscrever-se. É que, além de receberem o tal presente (e olhem que estou a pensar sair do grupo e entrar de novo, só para tentar ficar com ele para mim...) entram no espaço do facebook mais interessante que conheço. Todos os dias é proposta uma "palavra mágica", e cada um escreve a propósito dela um post interessante, ou divertido, ou comovente, ou nada disso, ou tudo isso.


28 julho 2016

e diria mesmo mais...

Alguém no Independent anda a ler o que eu tenho escrito sobre a Alemanha e os refugiados. Hehehehe.

(Quer dizer, não será exactamente assim, mas não podia deixar escapar a oportunidade de anunciar que não estou sozinha nesta caminhada contra um medo que cria espaço para a cegueira e o ódio. Mais ainda tratando-se de pessoas que escrevem em estrangeiro que, como é sabido, é sempre mais interessante que o produto nacional. Mais ainda tratando-se de um homem, o que impede aquele paternalismo que às vezes se abate sobre as mulheres que se atrevem a sair ao espaço público para dizer o que pensam.)

Falando muito a sério, é isto: a atitude de Angela Merkel a favor dos refugiados pode ter salvo a Alemanha de ataques terroristas realmente grandes. Leiam, leiam, é uma análise muito interessante.

E diria mesmo mais: até pode ser que um dia (até pode ser que neste preciso momento) haja um desses ataques terroristas com dezenas de mortos na Alemanha. Não há segurança absoluta perante a loucura, o ódio, as estratégias de poder. Mas se é para morrer, prefiro morrer de pé e fiel aos valores em que acredito, a morrer em fuga como um rato que salta do navio.

Tanto mais que as propostas de fuga que tenho ouvido por aí são disparatadas e suicidas. O ódio não se combate com o ódio. Tentá-lo, é perder três vezes: perdemos, porque em termos de ódio, "eles" estão mais desesperados que nós (por exemplo, dispostos a dar a vida para destruir inimigos); perdemos porque desistimos dos valores com os quais queríamos construir um futuro para os nossos filhos; e perdemos porque confirmamos os motivos do ódio contra nós.


25 julho 2016

calma, é apenas um pouco tarde



Ontem, na viagem de regresso a Berlim, ao entrar na Baviera sintonizámos o rádio numa estação local, mesmo a tempo de ouvir o locutor dizer: "Continuamos todos em estado de choque devido aos acontecimentos dos últimos dias. O Estado está muito atento e a fazer todos os possíveis para evitar que tragédias como estas se repitam. E cada um de nós terá de fazer também tudo o que está ao seu alcance para as impedir. Temos de ser muito mais atentos uns aos outros, e aprender a ter gestos de simpatia e humanismo para com todos." Depois continuou normalmente o programa musical da tarde.

Um pouco mais tarde noticiaram que numa cidade do sul da Alemanha um homem matou uma mulher com um machete no meio da rua, e feriu mais uns quantos. Pela descrição que li hoje no Spiegel, era um refugiado sírio a quem não deram autorização para ficar na Alemanha, mas foi ficando porque não se pode repatriar pessoas para países em guerra. A vítima era sua colega de trabalho. Depois de matar essa sua conhecida, partiu o pára-brisas de um carro que passava, e entrou em dois estabelecimentos de restauração - num, esfaqueou um homem na cara; no outro, espetou várias vezes a sua faca numa mesa de madeira. Durante a sua fuga, duas mulheres feriram-se. Um condutor que testemunhou o ocorrido atropelou-o propositadamente para o imobilizar. O atacante está agora nos cuidados intensivos do hospital, sob vigilância policial.

Esta manhã, leio a notícia de um atentado suicida à entrada de um festival. Um refugiado sírio, que trazia na sua mochila uma bomba, juntamente com pregos e fragmentos de metal. Li duas notícias algo contraditórias: uma diz que não o deixaram entrar porque não tinha bilhete; outra afirma que deu meia volta quando descobriu que estavam a revistar todos os sacos. Em todo o caso, a única vítima mortal foi ele mesmo. Felizmente, nenhuma das pessoas feridas na explosão corre perigo de vida.

Ambos os sírios eram conhecidos da polícia, por pequena criminalidade.

Penso com tristeza nas vítimas, e nas suas famílias. Em poucos dias, tantas mortes horríveis, e tantos feridos e familiares cuja vida mudou radicalmente num único momento. Tantas pessoas em sofrimento e profundamente traumatizadas - talvez para sempre.

Parto do princípio que estes ataques se vão repetir, e não tenho dúvidas de que há algures alguém a preparar um atentado de dimensões bem diferentes. A próxima vítima posso ser eu, ou alguém que me é especialmente querido.

Muito mais que a minha vida ou a vida dos meus próximos (afinal de contas, a probabilidade de ter um acidente rodoviário é bem mais alta que a de ser vítima de um ataque destes), temo que a sucessão de cenas de violência e o medo crescente nos possam fazer perder a perspectiva e provoquem em nós reacções primárias e nada sábias. 

Há dias, a newsletter do Spiegel falava da nossa falta de memória. Já ninguém se lembra que há pouquíssimas décadas a Alemanha tinha sérios motivos para temer uma guerra nuclear no seu território, e estava a ser atacada pelos terroristas da RAF / Baader-Meinhof. É há muito mais que isso. Focando o olhar apenas na cidade de Berlim, é isto que vejo: a "ilha" ocidental cercada por um corredor da morte, o sofrimento das famílias divididas à força. A Guerra Fria que a qualquer momento podia rebentar a quente sobre uma população indefesa. A cidade destruída, a chegada dos russos, as violações das mulheres, a falta de medicamentos para tratar a sífilis, a fome. O totalitarismo nazi, a destruição premeditada e impiedosa da diversidade cultural e social. A revolução de Novembro e as explosões de violência nas ruas, o risco de uma guerra civil. Antes disso, não sei. Mas o século XX já basta para perceber que hoje, em termos de violência e horror, estamos e continuaremos a estar a uma enorme distância do que aconteceu às gerações alemãs que nos antecederam. Em Berlim, essas pessoas souberam evitar a guerra civil no princípio da República, curar os males e reconstruir a cidade após a loucura nazi, viver alegremente apesar da ameaça nuclear, recuperar a diversidade, derrubar o muro. Alargando o horizonte, olhemos para a Europa: os países souberam ultrapassar feridas profundas e ressentimentos, e construir um espaço comum que durante setenta anos garantiu a paz entre países inimigos. 

Lembro o Manuel António Pina:
"Ainda não é o fim nem o princípio do mundo
calma
é apenas um pouco tarde"

Não deixemos que a nossa inteligência se turve à vista do sangue que tem corrido. Não somos peões, somos sujeitos da nossa História. Agora é a nossa vez de encontrar soluções para os problemas actuais, soluções que nos permitam construir um futuro melhor. De momento, está a correr mal. Parecemos galinhas tontas à frente de um carro no meio da rua. Votamos deliberadamente em partidos perigosos para a democracia e para o futuro comum, só para dar uma ensinadela ao pessoal que está no poder. Fazemos o daesh muito maior do que é, e emitimos opiniões cheias de ódio e incompreensão, que atingem uma grande percentagem da população mundial. Cegos de medo, dizemos enormidades, fazemos acusações absurdas, exigimos medidas irrealistas e incendiárias. E alguns políticos, os piores de todos, os realmente perigosos, aproveitam a situação com oportunismo.

Agora é a nossa vez, e - inacreditavelmente! - apesar de sermos a geração com melhor acesso ao ensino, à informação, aos processos democráticos e às ferramentas de comunicação, estamos a fazer muito pior figura que os nossos pais e avós, que foram confrontados com problemas bem mais graves que os nossos e não tinham os nossos meios.



Mencionando apenas o problema do terrorismo islâmico: melhor seria que, daqui em frente, após cada atentado nos deixássemos de "je suis #localdoatentadomaisrecente" e usássemos um "je suis intelligent". Para não esquecer que a inteligência corre sempre o risco de ser a primeira vítima de qualquer atentado terrorista. 

O que se passou durante a operação policial em Munique foi sintomático: ainda a polícia não sabia o que se estava a passar, e os meios de comunicação social portugueses já estavam cheios de especialistas a falar do terrorismo islâmico. O daesh deve esfregar as mãos de contente: nem precisam de fazer nada para nos encher de terror!
(O gato do número 10 de Downing Street que se acautele, porque se calha de um dia destes atravessar a rua distraído e ser atropelado, e se calha de o condutor ser paquistanês, o mundo vai tremer por esta nova fase, ainda mais cruel, do terror islâmico, que nem os animais poupa...)

Já se afirma abertamente e sem qualquer espécie de análise crítica que o Islão é uma religião bélica e perigosíssima, e que a Europa tem o direito de se proteger e por isso deve fechar as portas aos muçulmanos. Muito se poderia responder a isto. Prefiro passar o link para um artigo excelente, que um amigo me fez chegar hoje. Leiam, leiam - informa imenso e dá resposta a muitas questões. O problema não é o Islão, é o aproveitamento oportunista de uma ideia propositadamente desfigurada dessa religião para justificar comportamentos que nasceram de uma ânsia prévia de radicalização.  



Do mesmo modo, escolher um discurso islamofóbico incendiário é deixar-se levar pela sede de radicalismo, e é a solução obviamente mais fácil - quando se é demasiado preguiçoso para ler... 


24 julho 2016

filho de um casal alemão e iraniano

Esta manhã, ao sermos informados que o atacante de Munique era filho de um casal iraniano e alemão pensámos imediatamente em conhecidos nossos, ele alemão, ela iraniana.
Casal de médicos, que se mudou do sul da Alemanha, onde a iraniana trabalhava na área de emergência médica, para uma cidade na região da antiga Alemanha de Leste. Contava-me que quando ia com o filho para um parque infantil era insultada pelas outras crianças, que lhe diziam que aquele espaço não era para turcos, e que ela devia voltar para a terra dela. Justamente a ela, que já tinha salvado tantas vidas na Alemanha!, dizia-me, furiosa.

O que se passará, o que crescerá no coração de uma criança que vê a sua mãe a ser assim sistematicamente desrespeitada e humilhada?


23 julho 2016

dois curtos apontamentos sobre o ataque em Munique

1. Notícias que acabei de ouvir na rádio: o atacante de Munique estava em tratamento psiquiátrico.

2. Para entrar no meu email passo por uma página de notícias da actualidade do meu provedor. É muito rasca: noticia lado a lado tragédias e palermices de famosos. Mas hoje a primeira notícia que tinha era um louvor ao chefe da polícia de Munique, porque fez um trabalho de comunicação calmo e ponderado, sem sensacionalismo e sem especulações.
Se até um site de notícias rasca dá valor a isso...


22 julho 2016

o tal "perigo árabe e muçulmano"

Sobre o tal "perigo árabe e muçulmano", digo o que sei: os meus filhos têm amigos que são refugiados sírios. Alguns deles vieram numa daquelas horrorosas travessias de barco, e depois sabe-se lá como atravessando meia Europa. O que se diz por aí sobre o perigo muçulmano não tem nada a ver com o que vejo cá em casa, quando eles nos visitam. Pode haver terroristas entre os refugiados, pode haver pessoas que se deixem levar pelo transtorno. Mas os refugiados que nós conhecemos são gente de bem, gente boa, alguns deles profundamente traumatizados, e todos a sofrer imenso com a falta de perspectivas e a saudade de um país que já não existe.

Metê-los no saco "perigo árabe e muçulmano" é uma injustiça atroz.


21 julho 2016

notícias de um ocidente humanista e cristão

Do ataque no comboio de Würzburg há duas cenas que não me saem da cabeça. A primeira, é o atacante ter reconhecido num dos passageiros uma mulher que trabalha no centro onde ele viveu quase um ano, e ter ido para outro compartimento. A segunda é uma voluntária desse centro a dizer na televisão, em horário nobre, que tinha muito boas recordações daquele rapaz, do tempo em que tinha trabalhado com ele, e que, não querendo de modo algum criticar a polícia, confessava que sentia tristeza pela sua morte.

A primeira cena vale o que vale, mas há aqui um homem tresloucado que, no momento em que está prestes a matar por ódio, consegue reconhecer quem lhe fez bem e poupar a vida dessa pessoa: o amor, ou a gratidão, podem ser maiores que a loucura e o ódio.
Este compartimento que foi poupado àquela violência louca porque ia nele uma mulher justa, digamos assim, lembra um pouco aquela discussão entre Deus e Abraão, quando Deus quer destruir Sodoma e Gomorra, e Abraão regateia com ele,  "se lá houver cinquenta justos, poupas a cidade? e se forem quarenta e cinco? e se forem trinta? e se forem dez, também a poupas?"
Naquele compartimento, bastou um.

A segunda cena é um daqueles momentos especiais da História: em vez de diabolizar o atacante, esta voluntária continua a ver nele uma pessoa, e a televisão escolhe passar em horário nobre palavras simples e plenas de humanismo, com grande poder pacificador. Imagino com que gratidão os muçulmanos e os refugiados que vivem neste país terão ouvido este testemunho. Em vez de fazer um discurso de medo que aumenta a desconfiança em relação a todos os muçulmanos, o que vimos nos dias seguintes ao atentado foi um esforço sério para compreender o que levou a este ataque e encontrar meios de evitar que outras pessoas em condições semelhantes se deixem levar pela loucura e pelo desespero. Os políticos não estão a iniciar uma linguagem bélica para combater o terrorismo - fala-se em melhorar o apoio a esses menores não acompanhados e informa-se sobre a sua extrema fragilidade, os traumas e a solidão.

A localidade onde o atacante viveu durante quase um ano reagiu com teimosia: agora vão ajudar ainda mais os refugiados, para que eles se possam realmente integrar, curar as feridas profundas que trazem da guerra e da travessia da Europa, e recomeçar a vida. Afinal de contas, dizem, nunca houve qualquer incidente com nenhum dos refugiados que lá vive (200, numa localidade de 11.000 habitantes), e não há motivo para desistir de ajudar quem precisa tanto, só porque aconteceu esta tragédia com um deles.

Em momentos destes vê-se que a Alemanha vive realmente a sua herança humanista e cristã.


a Maria João Marques, se tivesse nascido na zona de implantação do Daesh...

A Maria João Marques, se tivesse nascido na zona de implantação do Daesh e fosse doutrinada nesse ódio, tinha capacidades intelectuais mais que adequadas para se tornar o Goebbels deles.

É uma artista, um portento! Não conheço mais ninguém com aquele dom de manipular factos e inventar uma realidade como lhe dá jeito para servir o seu discurso do ódio. Duvido que o Daesh consiga fazer melhor.


"imaginação"

(mais um - prometo que é o último verbete repescado da Enciclopédia que publico aqui) (hoje)


Ontem não escrevi sobre imaginação porque se fosse escrever sobre isso ficava aqui o dia inteiro

- começava pelo tempo em que era capaz de ver mouros nos meninos do infantário que estavam na mesa que nós, cristãos, queríamos conquistar, o tempo em que via o Pai Natal a pôr os presentes junto ao pinheirinho e tinha a certeza que as fadas que moravam no jardim me ajudavam se eu pedisse da forma certa, mencionaria o caminho entre a mercearia do senhor Paulo e a nossa, que eu conseguia encurtar imaginando que estava a ser perseguida por lobos e desatando a correr para salvar a vida, sentindo já o bafo deles no meu pescoço (como é que nunca deixei cair o saco de leite, nessa correria desenfreada, é um dos primeiros enigmas da minha vida), falaria talvez do momento em que acreditei que conseguia ver átomos no ar (eram partículas de pó no quadro de luz de uma porta aberta contra um espaço escuro), não sei se contaria daquelas cenas em que me zangava com os meus pais e imaginava que me aconteciam coisas horríveis e eles se fartavam de chorar, arrependidos de terem sido maus, e quem chorava era eu, baba e ranho cheia de pena deles e de mim, e tantas outras histórias do género, e outras ainda do tipo leiteirinha que tinha uma bilha de leite e se punha a imaginar que com o leite comprava uma galinha e com a galinha uma cabra e com a cabra um porco, etc., e quando já estava a enriquecer deveras tropeçou e partiu a bilha do leite, depois falaria de aprender línguas tirando pelo sentido, esse pas-de-deux entre a imaginação e a lógica, e continuaria até à dúvida se é pelo sonho que vamos, ou pela imaginação, porque suspeito que a vida me corre bem porque é assim que a imagino -

e não tenho tempo para isso.



"des-"

(e já que estou com a mão na massa de copiar para aqui verbetes da Enciclopédia, aqui fica o do dia em que a letra era D e eu propus "des-", o que foi um bocado questionado porque "des-" não é uma palavra, mas isto sou eu que ando a ver se me despedem do cargo de administradora, para ir de férias descansada) (sim, que hoje a letra era P, e dou um doce a quem adivinhar que palavra propus)


Esta manhã escrevi a palavra mágica e saí ala que se faz tarde para ir a um mercado de velharias numa aldeia remota de Brandenburgo e conseguir estar de novo em Berlim antes das onze, a tempo de preparar a sardinhada dos Portugueses em Berlim, que correu tão bem que só agora voltei para casa.

Difícil cidade esta, onde acontece tudo ao mesmo tempo. Pelo menos tive sorte numa coisa: o workshop de fotografia feito por refugiados no Museu de Arte Islâmica já estava cheio, e assim só tive de fazer duas coisas ao mesmo tempo, em vez de três. Enfim, estou a fazer de conta que não fui ver o Barenboim e a Lisa Batiashvili na Bebelplatz a tocar o concerto para violino de Sibelius, porque também não é preciso contar tudo, e foi só hora e meia de gazeta à sardinhada.

Em todo o caso, ia eu esta manhã deslargada a toda a velocidade - diria mesmo mais, ia disparada (e estava capaz de apostar que ir disparado é o superlativo de ir desparado, esse ir mais lento, mera vitória sobre a inércia) - o carro voava por estradinhas estreitas entre árvores centenárias e de tronco possante, e então dei comigo a murmurar: vai devagar emigrante, vai devagar que ainda te espetas contra uma destas árvores, ainda vais desta para melhor que nem a alma se te aproveita, e a última palavra que escreveste foi "des-".


"oásis"

(A minha participação de hojontem para "oásis", na Enciclopédia Ilustrada.)

As melhores horas do meu dia de 36 horas são a 31ª e a 32ª. Pela fresquinha termino o que não consegui fazer por volta da 23ª hora, quando já me sentia demasiado cansada. De certo modo, o oásis do dia.

Por vezes uso a palavra "oásis" para explicar porque continuo na Igreja Católica: enquanto encontrar lá oásis nos quais me sinta bem, fico. É a verdade, mas também é uma espécie de consumismo. A pergunta vale para a religião como para tudo o resto: andamos aqui para atravessar a vida de oásis em oásis, ou para fazer novos oásis no deserto, ou para aceitar que o deserto é a ordem natural das coisas?


lua




Ontem vi a lua nascer debaixo das árvores do meu céu de "África" ("África" é quando fotografo acima dos telhados, apanhando um bocado das árvores e muitíssimo céu). Estava com uma cor fantástica, de luz intensa e avermelhada contra o azul fresco do entardecer, mas tinha demasiadas árvores à frente e ainda não dava uma foto muito boa. Decidi esperar cinco minutinhos para a deixar subir um pouco mais, mas ela, a parva, guinou para a direita e esteve que tempos por trás das ramagens densas. Quando reapareceu, finalmente, o céu já tinha escurecido e não pude fazer nenhuma fotografia de jeito para mostrar aqui.

Moral da história: mais uma vez fomos tramados por uma guinada à direita.



19 julho 2016

reacções ao ataque no comboio de Würzburg

Em dias como o de hoje vejo com muita clareza porque gosto tanto de viver na Alemanha: o país consegue manter a cabeça fria e o respeito pelos seus valores mesmo perante situações que provocam insegurança e medo como o ataque de ontem.

Os vários jornais que li esta manhã  relatavam o sucedido (um jovem afegão armado de faca e machado atacou um grupo de pessoas; das cinco vítimas, quatro estão hospitalizadas, duas delas em risco de vida; o atacante fugiu do comboio e foi encontrado pela polícia; durante a tentativa de captura a polícia matou-o), diziam que a polícia estava a investigar os seus motivos, e lembravam que há alguns anos houve uma tragédia muito semelhante num comboio - um alemão que durante o interrogatório policial posterior parecia ter problemas mentais.
Noutra notícia, o presidente da Câmara de Würzburg lamentava profundamente esta tragédia, mas recusava-se a fazer especulações sobre o caso, preferindo esperar pelos resultados da investigação policial.

De hora para hora vai-se sabendo um pouco mais - neste momento já se sabe que foi realmente um acto de ódio. Sabe-se que no sábado passado, o atacante soube da morte de um amigo no Afeganistão, e fez uma série de telefonemas para o seu país. Também se sabe que ao entrar no comboio evitou o compartimento onde viu uma mulher que conhecia do centro de acolhimento a refugiados onde viveu algum tempo. E deixou uma carta de despedida para o pai onde dizia "e agora reza por mim, para que me possa vingar nestes infiéis, e vá para o céu".

Grande parte dos comentários que li no facebook do SZ e do Spiegel são moderados e ponderados. De um modo geral as pessoas conseguem distinguir entre muçulmano e terrorista, e perguntam-se o que leva alguém a fazer isto. Também há quem critique a hesitação do Estado em classificar este tipo de actos de violência como terrorismo islâmico, e há quem responda a esta crítica lembrando que certos ataques a centros de refugiados não são imediatamente classificados como actos de terror nazi.

O panorama no facebook do jornal Bild é bem diferente. O post onde mostra o vídeo de anúncio do ataque está cheio de comentários de ódio contra "esses macacos" e a Frau Merkel que "provavelmente vai aproveitar para convidar mais alguns desses para se virem instalar aqui". Há alguns comentários a criticar o próprio Bild, por exibir materiais que alimentam o ódio e o medo, mas de um modo geral o nível é muito baixo.

No noticiário das oito da noite, o primeiro canal de televisão deu seis minutos (dos quinze) a estes acontecimentos, seguido de um noticiário extra, de dez minutos. Falaram muito da situação dos refugiados menores não acompanhados, de como são alvos fáceis para interesses sinistros, e falaram do modo como o Daesh recruta ou seduz jovens para a sua causa com vídeos disponíveis no youtube onde mostram imagens de uma vida agradável num futuro Estado Islâmico. A ministra da Família disse que não se pode poupar esforços nem dinheiro nesta área, e que é preciso dar toda a atenção a estes menores, para evitar que eles sejam alvo de más influências. Em vez de fazerem espectáculo (não mostraram sangue nem feridos, não entrevistaram as vítimas ou as suas famílias), deram imensas informações. Também falaram da fronteira entre amok e terrorismo, e lembraram que declarar automaticamente uma tragédia destas como terrorismo, antes de ter provas, é fazer o jogo do Daesh.

Entretanto já foram publicados vários artigos sobre a linha ténue entre o amok e o terrorismo. Traduzo (resumindo) parte de um deles, do jornal Süddeutsche Zeitung:

Porque é que nos dias de hoje é, por vezes, tão difícil distinguir entre terror e amok?

Em 2014 um homem de 40 anos atropelou grupos de pedestres em Dijon, ferindo 13 pessoas. Como gritava "Allahu Akbar", logo se pôs a hipótese de ser um ataque terrorista.

Quando, na semana passada, Mohamed Lahouajiej Bouhlel atropelou pessoas em Nice, matando 84, também se pensou imediatamente que seria um terrorista.

No entanto, em Dijon chegou-se relativamente depressa à conclusão de que não se tratava de um terrorista, mas de um amok com sérios problemas psíquicos.
[como se dirá esta palavra em português? O site da FNAC diz, a propósito do livro Amok, de Stefan Zweig: "Amok", o título desta novela, é retirado da cultura indonésia e significa «lançar-se furiosamente na batalha».As pessoas afetadas por este estado psíquico têm ataques de fúria cega e procuram aniquilar os que consideram seus inimigos e qualquer pessoa que se interponha no caminho, sem consideração pelo perigo que correm.]
No caso do atentado de Nice, adensam-se os indícios de que, de facto, se tratava de um terrorista.
O que levou a esta dificuldade em distinguir entre um amok e um terrorista foi o facto de o Daesh ter alargado a sua estratégia de luta contra os "infiéis": os seus dirigentes deram-se conta de que, mesmo à distância, é possível transformar os seus simpatizantes em atacantes.

Em 2014 Muhammad al-Adnani apelou aos simpatizantes no Ocidente para matarem "infiéis" por todos os meios à sua disposição. Qualquer pessoa deve "rebentar a cabeça do inimigo com uma pedra, matá-lo com uma faca, atropelá-lo com um carro, atirá-lo de um ponto alto, sufocá-lo ou envenená-lo".

Para além disso, a organização terrorista faz imensa propaganda nas redes sociais. E fá-lo com sucesso, como mostra o grande número de jovens que foram do Ocidente para a Síria, para lutar pelo IS. Para os seus chefes, não importa que a maior parte deles quase não saiba nada sobre o Islão e a ideologia do IS. Basta-lhes que sirvam os interesses do movimento como soldados e terroristas.

Já houve vários ataques terroristas perpetrados por pessoas que se radicalizaram no seu país ocidental e ali agiram em nome do "Estado Islâmico". O cidadão norte-americano Omar Mateen, por exemplo, que em Junho matou 49 pessoas num clube em Orlando, não tinha qualquer ligação directa ao IS. Só durante o próprio ataque fez uma declaração de apoio ao autoproclamado califa do IS. As investigações, depois da sua morte, revelaram que tinha problemas psíquicos, odiava minorias como homossexuais, judeus e latinos, e falava em matá-los.

Seria Mateen um homem doente, que acabou por ver na propaganda dos terroristas islâmicos uma legitimação para transformar o seu ódio em violência mortífera?

Há indícios de que, no Ocidente, há um risco especial de jovens frustrados e com problemas graves, nomeadamente de construção da sua identidade, serem mais receptivos à propaganda do Daesh e de outras organizações de terror. Ao contrário dos terroristas que agem por motivos realmente ideológicos, como até agora os conhecíamos, estes são bem mais semelhantes a amoks que se aproveitam de uma ideologia para justificar os seus actos.

Obviamente, a questão sobre o estado psíquico de um terrorista não se coloca apenas em relação a muçulmanos. O norueguês Anders Behring Breivik, que em  2011 matou 77 pessoas, justificou os seus actos fundamentalmente com motivos políticos. No entanto, tinha uma visão muito distorcida de si próprio e da situação na Europa, como provam as mil páginas do seu "Manifesto". Um primeiro exame revelou uma esquizofrenia paranóide, um segundo negou esse diagnóstico mas concluiu que sofria de perturbações de personalidade. O procurador considerou que havia debilidade mental, mas o tribunal condenou-o por assassínio.

Breivik perpetrou um ataque terrorista e justificou-o com motivos políticos. Mas será que uma pessoa sem problemas psíquicos teria feito o mesmo?



receita para aumentar os dias

Farta de correr atrás do atraso, decidi que os meus dias agora têm 36 horas, 12 das quais sobrepostas com o dia seguinte.

Agora com licencinha, que tenho muito trabalho para fazer nestas duas últimas horas do dia.

(Depois penso que nome dar a estas horas suplementares: hojontem? aindontem?)

(e também se neste período suplementar do dia anterior se deve dizer "bom dia" ou "boa noite" ou "bom beiros! chamem os bombeiros, que esta pirou de vez!")


17 julho 2016

to kiss the words and to speak the kisses

A sucessão vertiginosa de acontecimentos, da chacina de Nice para o golpe de Estado na Turquia, dá vontade de pedir que abrandem um bocadinho a História, para podermos descer...

Aproveito este fim de domingo que parece relativamente sossegado para lembrar um momento de beleza da semana passada: o Philippe Jaroussky deu finalmente um concerto - o único dos cinco eventos previstos para Junho na Konzerthaus. Desta vez, o programa era todo sobre as primeiras óperas italianas.

O cantor parecia um pouco fora de forma nos fortes e sobretudo nas coloraturas mas, em compensação, conseguiu momentos sublimes nas passagens mais líricas. Parece-me que chegou a uma nova etapa de maturidade, de controlo da voz e sobretudo de apropriação das peças.

As interpretações de "con che soavitá", de Monteverdi, e de "Berenice, ove sei?", de Pietro Antonio Cesti, foram extraordinariamente serenas e introspectivas.
"Gelosia, laciami in pace" foi interpretada de forma muito divertida, especialmente quando a repetiu no encore, mimando uma certa competição com Michele Claude, que deu um belo solo de percussão (e que bela mistura de jazz e barroco!)




"Berenice, ove sei?" está nesta gravação de um concerto semelhante ao de Berlim, que ele deu em Paris mal recuperou da doença do mês passado. Podem ouvir a partir de 1:05.30 (e devolvo o dinheiro a quem não ficar satisfeito).
"Gelosia, laciami in pace" começa a 1:09:24.




E porque é domingo, e porque apetece, o poema de ""con che soavitá" traduzido para inglês:

How softly, scented lips,
I kiss or listen to you:
but when I enjoy one pleasure,
I am deprived of the other.
How is it that your delights
can annul each other,
if my soul lives tenderly for both?
Such sweet harmony you would make,
oh dear kisses, oh delicate words,
if only you were equally
capable of procuring both delights:
to kiss the words and to speak the kisses.

(Con che soavità, labbra odorate
e vi bacio e v’ascolto:
ma se godo un piacer, l’altro m’è tolto.
Come i vostri diletti
s’ancidono fra lor, se dolcemente
vive per ambedue l’anima mia?
Che soave armonia
fareste, o dolci baci, o cari detti,
se foste unitamente
d’ambedue le dolcezze ambo capaci,
baciando i detti e ragionando i baci.)

---
Já agora, que estou a falar em beleza: há tempos o Daniil Trifonof esteve na Filarmonia a tocar o segundo concerto de Rachmaninov para piano, com a Pittsburgh Symphony Orchestra e o maestro Manfred Honeck. Não vou chover no molhado: é claro que foi excepcional.
Aqui está o concerto completo, inclusivamente a boa disposição final, quando o maestro falou para o público que via em directo, em Pittsburgh, e exibiu a "terrible towel" dos Pitthsburgh Steelers (2:20:15) e quando, pouco depois, parecia não se lembrar em que cidade estava. As gargalhadas descontraídas dos músicos lembraram-me - finalmente - que estava perante uma orquestra americana. O último encore, a partir de 2:22:22 também foi muito divertido: a partir do Gallop, de Aram Khatchaturian, juntaram alguns excertos de outras peças,entre as quais uma canção que os Filarmónicos de Berlim tocam sempre por brincadeira no fim do concerto no Waldbühne: o Berliner Luft.  





15 julho 2016

correlações

Entretanto, gostava que me explicassem porque é que o holandês Karst Tates (que se lançou de carro para cima de uma multidão), o alemão Andreas Lubitz (que atirou um avião cheio de pessoas contra uma montanha, em França), os norte-americanos Eric David Harris e Dylan Bennet Klebold (autores do massacre de Columbine) e o finlandês Matti Juhani Saari (que andou seis anos a preparar um ataque à sua escola), para referir apenas meia dúzia de exemplos entre milhares de outros, eram loosers, pessoas com depressão, vítimas de mobbing, e sei lá que mais, e o louco de Nice é obviamente um terrorista, só porque os pais eram da Tunísia.


do-do-doo (2)

Coisas do nosso mundo, de que gosto muito:


1. Esta maneira de fazer Democracia:


 



2. Ser capaz de brincar, e fazer brincadeiras com muita qualidade, apesar da confusão e da insegurança sobre o futuro. A história conta-se depressa: depois da comunicação da sua saída em breve, Cameron entrou no nº10 a cantarolar para si próprio. Em menos de nada surgiram composições inspiradas no tema cantarolado por ele.

(notícia e vídeos encontrados pela Rita Carreira aqui)


 








(no site tem ainda duas fugas: uma para órgão e outra interpretada por um coro)


Nice



Justamente quando sentia um grande alívio por termos chegado ao fim do campeonato europeu de futebol sem ataques terroristas, acontece esta tragédia em Nice.
Não sei se aquele homem foi movido por algum problema psiquiátrico (como, em 2009, o holandês Karst Tates, que atacou do mesmo modo durante uma festa popular), ou pelo ódio fundamentalista.
Em todo o caso, esta chacina mostra a nossa vulnerabilidade.

Fazer o quê? Fazer o que fazem os habitantes de Bagdad todos os dias: continuar a viver a nossa vida.


13 julho 2016

do-do-doo



Depois de comunicar a sua saída iminente, Cameron vira-se, regressa ao número 10, e... põe-se a cantarolar.

O facto não tem importância nenhuma. Já os comentários a este vídeo, alguns, vale a pena ler:

- He sings to himself. So What? Next the BBC will revealling that he likes toast.

- you need to sing the password or the doors wont open 

- What does it mean? British people, please? Is it a charm to open the door?
--- It's how we let our Butlers know we want to come back in and we want gin.
--- It's magic we've just been keeping all the real harry potter stuff to ourselves.
--- The "private schools" we have are actually schools for witchcraft and wizardry.
--- Don't question us muggle.

- This is the most English thing I have ever seen
--- A bit like the band playing on whilst the Titanic was sinking...

- Has anybody done a cover yet?

- I knew he would go out on a bad note.


Adenda: já há composições musicais inspiradas neste momento. Podem ver aqui (e vale muito a pena!) (Obrigada, Rita Carreira.)

12 julho 2016

o jogo das cores

Ainda a propósito da Torre Eiffel e das cores que lhe deram no final do campeonato europeu de futebol, a Jonas deu-se ao trabalho de verificar dia a dia os jogos realizados, os vencedores, e qual a bandeira exibida. Várias vezes a torre mostrou as cores de um derrotado.
Percorrendo esta lista, fica-se com a sensação de que isto não passava de um jogo.

Je Suis Ludique.

(Convém não esquecer: o verdadeiro escândalo é haver órgãos de comunicação social portugueses a alimentar o ódio e o ressentimento do nosso povo com notícias como esta, resultante da perigosa mistura entre ignorância e preconceitos contra os franceses. Vivem dos próprios escândalos que criam, e depois queixam-se que a vida lhes corre mal.)







As cores da Torre Eiffel

 #avidadosapo

por jonasnuts, em 12.07.16
Muito se tem dito e falado acerca do facto da Torre Eiffel não se ter acendido com as luzes portuguesas, na noite em que Portugal se sagrou campeão da Europa.

Diz a responsável pelo acendimento, a Orange, que, desde o início do campeonato, e ao contrário do que muita gente pensou (eu incluída), a escolha das cores tinha a ver com o buzz que um determinado país tinha nas redes sociais.  

No dia 10 de Junho, houve 1 jogo. França - Roménia. Que a França ganhou. As cores da Torre Eiffel foram estas:

eiffel1.jpg

No dia 11 de Junho houve 3 jogos. Albânia-Suíça (0-1), Inglaterra-Rússia (1-1) e Gales-Eslováquia (2-1). As cores da Torre Eiffel foram estas (País de Gales):

eiffel2.jpg

No dia 12 de Junho houve 3 jogos, Turquia-Croácia (0-1), Alemanha-Ucrânia (2-0), Polónia-Irlanda do Norte (1-0). As cores da Torre Eiffel foram estas (Turquia):

eiffel3.jpg

No dia 13 de Junho houve 3 jogos. Espanha-República Checa (1-0), Bélgica-Itália (0-2), Irlanda-Suécia (1-1). As cores da Torre Eiffel foram estas (Espanha):
eiffel4.jpg

No dia 14 de Junho houve 2 jogos. Áustria-Hungria (0-2) e Portugal-Islândia (1-1). As cores da Torre Eiffel foram estas (Portugal):
eiffel5-1.jpg

No dia 15 de Junho houve 3 jogos. Rússia-Eslováquia (1-2), França-Albânia (2-0) e Roménia-Suíça (1-1). As cores da Torre Eiffel foram estas (França):
Eiffel6.jpg

No dia 16 de Junho houve 3 jogos. Inglaterra-Gales (2-1), Alemanha-Polónia (0-0) e Ucrânia-Irlanda do Norte ( 0-2). As cores da Torre Eiffel foram estas (Inglaterra):

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No dia 17 de Junho houve 3 jogos. Itália-Suécia (1-0), Espanha-Turquia (3-0) e República Checa-Croácia (2-2). As cores da Torre Eiffel foram estas (Turquia):
eiffel8.jpg

No dia 18 de Junho houve 3 jogos. Bélgica-Irlanda (3-0), Portugal-Áustria (0-0) e Islândia-Hungria (1-1). As cores da Torre Eiffel foram estas (Bélgica):
Eiffel9.jpg

No dia 19 de Junho houve 2 jogos. Suíça-França (0-0) e Roménia-Albânia (0-1). As cores da Torre Eiffel foram (França):
eiffel10.jpg
No dia 20 de Junho houve 2 jogos. Rússia-Gales (0-3) e Eslováquia-Inglaterra (0-0). As cores da Torre Eiffel foram (Inglaterra):
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No dia 21 de Junho houve 4 jogos. Ucrânia-Polónia (0-1), República Checa-Turquia (0-2), Irlanda do Norte-Alemanha (0-1) e Croácia-Espanha (2-1). As cores da Torre Eiffel foram estas (Turquia):
eiffel12-1.jpg

No dia 22 de Junho houve 4 jogos. Islândia-Áustria (2-1), Itália-Irlanda (0-1), Hungria-Portugal (3-3) e Suécia-Bélgica (0-1). As cores da Torre Eiffel foram estas (Portugal):
eiffel13.jpg

No dia 25 de Junho houve 3 jogos. Suíça-Polónia (1-1), Croácia-Portugal (0-1) e Gales-Irlanda do Norte (1-0). As cores da Torre Eiffel foram estas (Polónia):
eiffel14.jpg

No dia 26 de Junho houve 3 jogos. França-Irlanda (2-1), Hungria-Bélgica (0-4) e Alemanha-Eslováquia (3-0). As cores da Torre Eiffel foram estas (Alemanha):
eiffel19.jpg

No dia 27 de Junho houve 2 jogos. Itália-Espanha (2-0) e Inglaterra-Islândia (1-2). As corres da Torre Eiffel foram estas (Itália):
eiffel20.jpg

No dia 30 de Junho houve 1 jogo. Polónia-Portugal. As cores da Torre Eiffel foram estas (Portugal):
eiffel21.jpg

No dia 1 de Julho houve 1 jogo, Gales-Bélgica (3-1). As cores da Torre Eiffel foram estas (Gales).
eiffel22.jpg

No dia 2 de Julho houve 1 jogo. Alemanha-Itália (1-1). As cores da Torre Eiffel foram estas (Itália):

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No dia 3 de Julho houve 1 jogo. França-Islândia (5-2) As cores da Torre Eiffel foram estas (França):

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No dia 6 de Julho houve 1 jogo. Portugal-Gales (2-0) . As cores da Torre Eiffel foram estas (Portugal):

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No dia 7 de Julho houve um jogo, Alemanha-França (0-2). As cores da Torre Eiffel foram estas (França):
eiffel26.jpg


No dia 10 de Julho houve 1 jogo. Portugal-França (1-0). As cores da Torre Eiffel foram estas (França):
eiffel27.jpg


Há iluminações para todos os gostos, e nem sempre foram de acordo com os vencedores dos vários jogos.

Parece-me estranho que o símbolo duma cidade fique à disposição duma marca, mas isso não é de hoje.

Parece-me palerma que a coisa não tenha sido divulgada desde o início.

No dia da final, para reflectirem as redes sociais teriam de ter acendido as luzes do #fuckpayet.

E pronto. Está justificado o facto da Torre Eiffel não ter mostrado as cores portuguesas, no dia em que esta conquistou o Campeonato Europeu.

Não tem de quê (que isto ainda deu algum trabalho :)

o estranho caso da Torre Eiffel com as cores francesas no fim do campeonato, ou: tenham juízo!



(fonte)

Por acordo entre a Orange e a Mairie de Paris, as cores na torre Eiffel eram diariamente ditadas pelo maior número de tweets a apoiar um país. Como quem diz que o poder é do povo, etc. (tretas do nosso mundo de interactividade internética).

As regras foram explicadas de forma clara e em várias línguas (por exemplo aquiaqui e aqui).

Acho estranho que uma empresa (a Orange) se possa apropriar do mais importante símbolo da França para uma campanha de publicidade. Mas foi assim decidido, e as pessoas estavam informadas sobre as regras.

Ao longo do campeonato, a Torre Eiffel mostrou por quatro vezes as cores portuguesas, o que prova que havia muitos portugueses que conheciam as regras e souberam jogar com elas.

Se na noite da vitória se esqueceram de ir para o twitter, isso é compreensível. O que não é compreensível é reagir à distracção dos portugueses dizendo mal dos franceses.

Os jornais publicaram "notícias" a falar do mau perder dos franceses, Os sites encheram-se de comentários vergonhosos, e que dão péssima imagem dos portugueses: sabíamos as regras, tínhamos o poder de cobrir a torre Eiffel com as nossas cores, falhámos nisso, e desatámos a acusar os franceses, exibindo sem qualquer pudor os nossos preconceitos contra eles. É pena mostrarmo-nos tão pequeninos no momento de uma vitória tão grande.



08 julho 2016

a boa acção do dia

Ora então, depois de ter ajudado o simpático senhor da Imprensa Falsa para ele ter a visibilidade que merece, agora vou dar aqui um empurrãozito ao Jovem Conservador de Direita, que o rapaz sem a minha ajuda não vai longe.


(Senhor da Porta dos Fundos: desculpe, mas vai ter de esperar até amanhã. Hoje já fiz a minha boa acção.)



Parece que já não vamos poder jogar contra a Alemanha. Que pena. Era uma excelente oportunidade de agradar ao Dr. Schauble e de lhe mostrar que somos um povo dócil, respeitador e com uma vontade genuína de agradar. Tendo em conta a importância e a popularidade que a Alemanha tem no nosso país, estou certo de que seria uma final muito pacífica em que quer portugueses, quer alemães torceriam pela vitória do mesmo país. Ganhávamos os dois. A Alemanha ganhava a taça do torneio, nós ganhávamos o respeito da Alemanha.
Infelizmente, parece que vamos ter de defrontar a França, um dos países mais perigosos do Mundo. O local da revolução que mais esquerdalhos tem inspirado desde 1789. É certo que, na altura, os franceses tinham algumas razões de queixa do absolutismo do Dr. D. Luís XVI, mas não havia necessidade nenhuma de algo tão drástico como uma revolução. Muito menos uma revolução tão sanguinária. Por causa disso, hoje em dia não há esquerdalho que não tenha fantasias em que decapita os políticos de direita que mais odeia. Em vez de abrirem as portas da Bastilha, os líderes da Revolução Francesa podiam ter marcado uma reunião com o Dr. D. Luís XVI, explicavam-lhe as questões que mais os preocupavam enquanto bebiam um refresco e estou certo de que o Rei poderia propor-lhes um compromisso do agrado de todos. É assim que as coisas mudam verdadeiramente, devagarinho, enquanto bebemos todos um refresco confortáveis num palácio e através de consensos. Em vez disso, desataram a libertar assassinos e violadores e começaram a cortar a cabeça de pessoas inocentes.
Foi este país que ousou derrotar a Alemanha, em vez de capitularem como é habitual. Que falta de respeito. Cabe-nos a nós, e quando digo nós refiro-me ao Dr. Cristiano Ronaldo e seus subalternos, vingar a Alemanha e mostrar-lhes que podem contar connosco para fazer justiça. No domingo vamos ser todos alemães. Podíamos perguntar aos organizadores do torneio se era possível passar o hino da Alemanha ao mesmo tempo que o nosso. Só para mostrar que estamos unidos nesta luta. Por maior que seja a nossa vitória, nunca será suficiente para reparar os estragos causados pela Revolução Francesa e pelo Maio de 68. Mas vai ser um primeiro passo. Vamos derrotar os esquerdalhos franceses na sua própria casa.

(daqui)


sou poderosa!

Eh, pá, sou mesmo poderosa!
Bastou ter partilhado esta notícia, e zimbas, foi vista por mais de um milhão de pessoas.

--

A notícia sobre o resultado do jogo Portugal - País de Gales:


Desilusão total em Lyon: Portugal falha empate e apura-se para a final com uma vitória 

Terminou a partida em Lyon. Portugal não conseguiu um empate e acaba por apurar-se para a Final do Euro2016 com uma vitória. É a desilusão total nesta fase final do campeonato.

Como é costume, os portugueses voltaram a deixar de acreditar e estão mesmo a ver que na Final vai ser a mesma história e provavelmente até com mais golos.


 O tempo agora é de procurar os culpados. Ronaldo e Nani estão à cabeça. Mas há mais.


07 julho 2016

"desilusão total em Lyon"

Oh pá, oh pá, quem foi o génio que escreveu esta notícia?

(Para minha memória futura, amanhã copiarei o texto para este post. Hoje não, que o autor merece todos os cliques no seu site. E registo o dia 7 de Julho de 2016 como aquele em que descobri que o Imprensa Falsa, site satírico de finíssimo sentido de humor, muito nível e inteligência, é feito apenas por uma pessoa: Zé Pedro Silva.)


06 julho 2016

"uma pergunta pateta, cínica, ofensiva"


(fonte: facebook - Vasco Gargalo)


Andava a ver na internet em alemão reacções ao microfone voador do Cristiano Ronaldo, e encontrei estes comentários num site de futebol:

A: O que é que ele perguntou ao Ronaldo?

-- B: Se ele estava preparado para o jogo com a Hungria.

-- A: A sério? Que pergunta pateta!

-- B: Também acho. Pateta, cínica, ofensiva. (...)

C: Gostava de ver mais cenas destas. Até podiam atirar ao lago o repórter irritante (mas sem pesos nos pés, que nós não somos monstros).

-- D: E a seguir perguntar: como é que se sentiu no momento em que o seu corpo tocou a água? o que lhe passou pela cabeça?

-- E: Mas só se ele souber nadar. Perguntar primeiro
.


Não vi em mais lado nenhum isto dito com esta clareza: perguntar a um jogador da selecção nacional se está preparado para o jogo desse dia é uma pergunta pateta, cínica, ofensiva.


era só para dizer

Era só para dizer que ontem tive uma aula privada de canto lá no meu coro, e a professora ia dizendo "muito bem... muito bem..." com uma cara estupefacta, quase como se estivesse com a respiração cortada, o que me deixava um bocado insegura. No fim disse que sou uma excelente contralto, e repetiu a frase para o tenor que entretanto tinha entrado porque era a hora dele, e disse-o ainda com o tal tom de surpresa que me fez desconfiar que se calhar tenho cara de ser só uma contralto medíocre, e o tenor, o simpático, disse que sim, que é verdade e que ele já tinha reparado.

Era só para dizer que ontem cresci 5 cm. Se isto continua assim, mais me vale comprar roupa elástica no comprimento, como os babygrows. E mais uma babete discreta, claro, para ninguém reparar que tenho aqui o ego a desfazer-se em baba.


Je suis Bagdad



Red dots represent every explosion in ‪Baghdad‬ since 2003. Imagine this being your city.

(Do mural de facebook de Naji S. Ali-Adeeb)

Era preciso um "Je suis Bagdad" que ficasse como foto de perfil nas redes sociais durante largos anos.

(E era bem pensado: para não esquecermos de quando os nossos grandes amigos resolveram que era óptima ideia atirar óleo para o fogo)

(Ia dizer "o ocidente", mas não: bem me lembro das anedotas que nos EUA contavam sobre os franceses e os alemães, por terem recusado fazer essa guerra)


04 julho 2016

fourth of July

Em San Francisco é muito divertido: largam o fogo de artifício para uma muralha de nevoeiro. Não se vê nada, mas largam na mesma.

Melhor que isso, só mesmo aquela anedota dos homens que iam um a abrir um buraco e outro a fechá-lo, e quando lhes perguntaram o que andavam a fazer responderam que estavam a plantar árvores mas o colega das árvores nesse dia estava doente.


"Xanadu"

A palavra de ontem na nossa Enciclopédia era "Xanadu". Uma colega enciclopedista contou que em 1797 Samuel Taylor Coleridge escreveu "Kubla Khan" após a leitura da descrição de XANADU (palácio de verão do imperador da China Kublai Kan). De acordo com a sua descrição, estando sob influência do ópio, acordou com um imenso poema na cabeça e começou a escrevê-lo, mas foi interrompido porque alguém de Porlock bateu à porta. Incapaz de se recordar dos 200 ou 300 versos iniciais, apenas restou um fragmento, publicado em 1816.

Essa história sobre um poeta que escreve um poema a partir de um belo sonho e uma boa dose de sabe-se lá o quê vinha num livro que havia lá em casa: O Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico. Li-o na adolescência, e - vai ser o nosso segredinho, OK? - sabia todas as histórias de cor. Ao fantástico do livro acrescentava o meu - que aqueles verões na casa da minha avó eram longos como o caraças -, de modo que registei aquele "alguém de Porlock" como se fosse um vendedor ambulante de enciclopédias ou aspiradores. "Alguém de Porlock" tornou-se "alguém da Vorwerk".

Às vezes penso que devia ter estudado História em vez de Economia, mas depois, em momentos como este, dou-me conta de que se calhar foi melhor assim. Foi menos mau assim, digamos. Nem quero pensar como seria um livro da História escrito com este meu jeitinho para imaginar histórias mirabolantes. Havia de ser tão tão mau que acabava por se tornar famoso. Como aquele actor que também constava do Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico, o Robert "Romeo" Coates, tão incrivelmente mau que vinha gente de muito longe para o ver e esgotava sempre a sala. Um dia a minha mãe emprestou o livro a um colega, e nunca mais os vimos: nem o livro, nem o colega. Talvez tenha sido melhor assim - se o lesse agora, provavelmente ia morrer de vergonha do lixo com que andei a encher a minha adolescência. E logo na altura em que uma prima minha, pouco mais velha que eu, andava a ler o Livro Verde e o Livro Vermelho e sei lá mais que livros de que cores, para decidir se ia ser ser maoista, ou trotskista ou outra ista qualquer. Naquele tempo eu era apenas navegação-à-vista.

("Naquele tempo", diz ela...)


01 julho 2016

The Two Fiddlers: ópera com cantores amadores na Filarmonia

(foto)

Este ano não pude participar no projecto da ópera na Filarmonia, com muita pena minha. Mas participou a minha filha. Podem vê-la aqui - é gratuito.

Assisti ao ensaio geral, e adorei a pequenita dos trolls que faz de mulher do músico. Vejam, vejam. É genial.

(Para quem não sabe quem é a minha filha: está no grupo dos adultos, e é a mais bonita de todos, ora essa.)
(Não percebi porque é que não lhe deram um solo, mas é o problema do costume: ninguém me deixa mandar.)
(Agora, a sério: deviam ter-lhe dado o solo. A miúda canta bem que se farta.)

Para o ano há mais.


30 junho 2016

separação amigável



As notícias dos últimos dias sobre a reacção da União Europeia ao Brexit e os comentários nas redes sociais enchem-me de vergonha e desânimo. Bem sei que é fundamental impedir que os nacionalismos e populismos ganhem ainda mais força, e a situação se torne de todo incontrolável, mas questiono o método usado pelos responsáveis políticos e sinto embaraço e susto pelo nível de indigência política e ética no modo como se fala do tema.

Primeiro: a Alemanha convida os seis fundadores da comunidade europeia para uma reunião de urgência no dia seguinte a saber-se o resultado. Não sei se a reunião estava assim combinada há muito ou se foi uma reacção do momento, mas reuniões a seis, num contexto de crise dos 28, têm um peso simbólico extremamente negativo. Entendo a ideia de, para os fundadores da comunidade, fazer todo o sentido conversarem uns com os outros sobre o modo como a ideia inicial descarrilou. Mas, a partir do momento em que integram novos países no grupo, perdem a possibilidade de continuar a falar entre si, fazendo dos que chegaram mais tarde membros de segunda classe. É certo que, de momento, as erupções nacionalistas mais prementes são na França e nos Países Baixos, que estiveram nessa reunião a seis, mas o descontentamento global gerado pelas circunstâncias deste encontro pode ser muito bem capitalizado por todos os interesses nacionalistas, em todos os países - inclusivamente nesses dois.
Se a ideia era não dar mais força aos extremismos de fundo nacionalista e anti-europeu, correu-lhes mal.

Segundo: o ressabiamento e a maldade que andam por aí à solta, e que são alimentados pelas declarações dos políticos habilmente propagadas pelos meios de comunicação social. O Donald Tusk anuncia as próximas cimeiras europeias já sem o RU; a imprensa alemã empola, do discurso da Angela Merkel no seu parlamento, a frase que mais alimenta o ressentimento e satisfaz a sede de vingança - "a UE não vai deixar o RU fazer cherry-picking nas negociações da saída". Angela Merkel tem razão quando insiste que o acesso ao mercado comum implica respeito por determinadas regras comuns, nomeadamente a liberdade de circulação de pessoas - que foi um dos elementos centrais que levou à vitória do Brexit -, mas o modo como o seu discurso é tratado nos meios de comunicação reforça reacções de "eles vão finalmente deixar de se rir de nós" ou "agora é sem dó nem piedade!"
A verdade é que até as piadinhas me causam uma sensação de incómodo. Todos - do mais alto nível da política europeia ao cidadão comum - fazem piadinhas com fundo de Schadenfreude sobre os ingleses. E a eliminação da equipa de futebol inglesa permitiu deitar ainda mais achas na fogueira. Bem sei do humor como uma válvula de escape que alivia a pressão, bem sei da liberdade de expressão, bem sei da importância do riso para esconjurar os medos ou perplexidades, mas não entendo: as notícias que me chegam são as de um país desconcertado, profundamente dividido e em risco de se desagregar, uma sociedade em estado de choque, as pessoas atordoadas e assustadas perante o que lhes está a acontecer - e nós aqui a fazer piadinhas atrás de piadinhas sobre eles. Como estamos em termos de solidariedade dos povos? Ao mesmo tempo que protestamos por a Europa não ser solidária e atenta aos povos, mostramos abertamente a nossa falta de empatia e até o desprezo pelas pessoas de um país?
Talvez esteja a exagerar, talvez esteja condicionada pelo meu profundo sentimento de perda e pela raiva que sinto perante o sucesso das mentiras e da xenofobia que instrumentalizaram este referendo, talvez seja um problema meu de falta de sentido de humor (apesar de ter sorrido com algumas das piadas). Mas arrisco na mesma a pergunta: devemos acrescentar ao rol de defeitos da UE (a macrocefalia antidemocrática de Bruxelas, a combinação dos egoísmos nacionais, a supremacia alemã, os países divididos em actores principais e figurantes, etc.) a falta de solidariedade e empatia entre os povos? Que podem os políticos fazer para uma Europa mais coesa se as populações continuam a alimentar desconfianças e ressentimentos umas contra as outras? Quer dizer: será que a culpa do fracasso deste projecto não é só dos políticos, mas também de cada um de nós?

Voltando ao momento concreto: se o que está em causa é evitar o alastramento das tensões populistas para abandonar a UE, o que eu faria (agarrem-me, que...) se fosse porta-voz da União Europeia seria afirmar a tristeza por este projecto deixar de contar com um povo tão importante na História e na actualidade da Europa, agradecer sinceramente o seu contributo para o que somos hoje, e manifestar a intenção de preparar esta saída de forma o mais suave possível para evitar ao máximo convulsões sociais e económicas.

Para além do respeito e do cuidado pelo povo do Reino Unido, o que me move é a necessidade de, neste momento crítico, mostrarmos grandeza em vez de mesquinhez, e de fazer com que a motivação de cada país para permanecer na UE seja a vontade de fazer parte de um projecto considerado muito positivo e com possibilidade de ser corrigido e melhorado, em vez do medo de um terrível castigo quando se decide abandonar.


29 junho 2016

perplexidade

Tive esta manhã dois simpáticos jardineiros de Dessau (Sachsen-Anhalt) a plantar árvores no meu jardim.

De caminho carregaram para o camião dois enormes montes de lixo de outras andanças no terreno que não têm nada a ver com o contrato com a firma deles, deixaram imensos sacos de terra que bem jeito me fazem, podaram-me quatro árvores de fruto e deram-me dicas importantes para algumas plantas que tenho por aí. Tiraram as botas antes de entrar em casa para ir ao quarto de banho. Não quiseram nem o café nem a água ou os sumos que várias vezes lhes ofereci. "Nós estamos aqui para trabalhar!", disseram, com uma gargalhada franca.

No fim também fizeram questão de não aceitar os 10 euros que queria dar a cada um. E bem sei que um jardineiro não ganha um salário propriamente alto.

Estou que não percebo o mundo.


24 junho 2016

Brexit

Brexit.
A primeira sensação é de perda. O meu mundo mudou radicalmente, e vai mudar ainda mais.
Espero que saibamos todos aproveitar este momento de ruptura para aprender com os erros, e melhorar o que resta da UE. ("O que resta da UE" é uma formulação demasiado dramática, mas é como sinto hoje.)
Espero que os eurocratas tenham a grandeza suficiente de não complicar demasiado a vida à Grã-Bretanha só para estatuir um exemplo severo que impeça outros Estados de ponderar uma saída.
Espero que consigamos sair todos mais sábios desta crise.

(Entretanto, vou aproveitar a queda da libra para açambarcar Cadbury - como dizia o Manelinho: "os pequenos ganhos das grandes perdas")


23 junho 2016

freudenfreude

A explosão de alegria do comentador islandês perante o golo que leva a equipa do seu país aos oitavos de final é contagiante.
Já se inventava a palavra "Freudenfreude": antónimo de "Schadenfreude".

(Às tantas, já alguém a inventou.) (Triste vida.) (A ver se da próxima vez arranjo de não nascer tão tarde no meu tempo.)







17 junho 2016

fracasso

De uma newsletter do Spiegel:

O fracasso tornou-se parte da realidade alemã contemporânea. Não se pode dizer que a queda de uma ponte de auto-estrada em Untenfranken representa uma nova revelação sobre nós. Já o sabemos há muito. A nossa perfeição perdeu-se. Seja a eternamente adiada abertura do novo aeroporto de Berlim, as trafulhices da Volkswagen, o piloto da Germanwings que tinha problemas mentais e conseguiu iludir todos os controles - nos últimos anos, muita coisa correu mal, e os alemães têm de corrigir a imagem que têm de si próprios. O que acontece nos outros países, também acontece no nosso.


15 junho 2016

"emigrante"

Devo à internet o fim da minha condição de emigrante-lá-longe. Durmo em Berlim, passo uma bela parte dos dias em Portugal, em português.
A princípio, há mais de um quarto de século, era o telefone. Por uns minutos voltava à minha terra, estava inteiramente do lado de lá. A voz - uma simples gargalhada - me bastava para o "beam me up".
Chamam-nos agora "expatriates". Tenho a sensação que é para ter um nome mais bonito, porque emigrante é muito bidonville. Mas a essência é a mesma, e a internet é a mesma para todos: essa larguíssima ponte que em segundos nos leva de regresso ao nosso país, à nossa cultura, aos nossos temas e à nossa língua.
Bidonville: que estranhos valores europeus nos fazem pensar que os emigrantes são aqueles que vêm para ocupar o lugar mais baixo da pirâmide social? E que são cidadãos de segunda? Quantas vezes não ouvi eu que tenho de estar grata por me terem recebido aqui, e que não devia criticar nada, porque isso é morder a mão que dá de comer! Quantas vezes não ouvi que os imigrantes são tolerados mas têm de saber merecer essas regalias (as migalhas que pingam da mesa dos ricos, a regalia de fazer o trabalho que mais ninguém quer)!
Eu própria caio no mesmo erro: ainda hoje, ao ler que há lobbies turcos na Alemanha que confundem integração com assimilação e a recusam, e que estão a pressionar os deputados alemães com raízes turcas para se porem do lado da Turquia de Erdogan contra os mais elementares princípios da sociedade alemã, ainda hoje, dizia, me apeteceu mandar essa cambada toda para a terra deles. Por sorte percebi logo o erro em que estava a cair (se vivesse em França, ainda corria o risco de votar Le Pen, para proteger a França dessa gente...).
Ser emigrante é fazer um caminho sem regresso para longe de todos os lugares. Nunca chegaremos à terra para onde fomos, e nunca voltaremos a ser um dos nossos. Eu sou "a alemoa".
Estou a embarcar para Portugal. Para o Porto. Hoje à noite vou dormir na minha casa, onde não há internet. Curiosamente, em Portugal fico mais longe deste meu quotidiano português que acontece no facebook e no blogue.
Daqui a uma semana regresso, e já sei como vai ser a tristeza do último passeio pela casa, pelas árvores do jardim. Pousar um último olhar nas flores e nas pedras, tentar reter.
Bem feita! Que me fique de lição, para ver se da próxima vez me lembro de não nascer assim portuguesa, com este tique de sofrer antecipadamente saudades para ir adiantando o trabalhinho.


14 junho 2016

"dance harder, fight harder, be more fearless than ever "


Pam Ann, no facebook: 

My heart is so heavy, my eyes filled with tears ... We've all lost so many of our brothers and sisters today who just wanted to dance. I will make sure I dance harder, fight harder, be more fearless than ever and I will wave the rainbow flag stronger, higher and prouder than I ever have in my life. My thoughts and love go out to all the families and friends of all those murdered and fighting for their lives in Orlando. LOVE Pam Ann ❤️

(Lembram-se daquele velho mal-entendido sobre "orgulho gay"? Esse orgulho é isto - a coragem de assumir a sua identidade, mal-grado a hostilidade do mundo.)


10 junho 2016

mas que violência!

Esta manhã tive de apagar spam que alguém deixou num evento que criei (se querem saber tudo: a sardinhada dos Portugueses em Berlim vai ser no domingo, dia 12, a partir da uma da tarde, no parque Monbijou). Apaguei o post, e então o facebook perguntou-me: "Tens a certeza que queres eliminar esta publicação e eliminar Sylvia Andrade*?"

Oh, pá! Eu não quero eliminar a Sylvia Andrade!
Que violência.

(Estou a brincar, mas tem o seu quê de sério: a violência no abuso do espaço alheio, a violência na linguagem das mensagens de sistema. A pergunta "queres eliminar" combina muito mal com o nome completo de uma pessoa. Se me deixassem mandar, mudava para "queres bloquear o acesso a esta personagem?")


* Apelido modificado.

08 junho 2016

mais um post onde se fala de refugiados (isto sou eu a escrever a palavrinha mágica para aumentar o número de leitores)

O dicionário informa que o equivalente português de "Vorfreude" é "antecipação".
Antecipação?! Isso não me serve para descrever a feliz expectativa enquanto avançava para este Junho, o mês berlinense do Philippe Jaroussky. Meio ano de Vorfreude a olhar para os tantos bilhetes que comprei para toda a família, imaginando a beleza que nos seria dada.

O problema é que, como bem diz o ditado, "o homem põe, e Deus dispõe":

Primeiro, foram os meus filhos que disseram que não podiam ir a esses concertos (algo me diz que são um caso de lost in translation: ainda tenho de lhes ensinar o significado de Vorfreude). Decidimos oferecer os bilhetes a alguns dos seus amigos sírios, e escusado será dizer que estes souberam traduzir muito bem Vorfreude para a sua língua materna. Em especial um deles, que tem andado a receber hate mail ("vai para a tua terra! ninguém te quer aqui!), além de uma carta oficial que o está a preocupar imenso, informando que, segundo o tratado de Dublin, tem de voltar ao país pelo qual entrou na Europa. Agora que conseguiu chegar tão longe, e até já trabalha em Berlim como informático, teme ser enviado para um campo de refugiados na Turquia.

Segundo, foram os concertos que tiveram de ser todos cancelados por motivos de saúde do Philippe Jaroussky.

O problema da Vorfreude é quando se desfaz em dolorosos sacões, como um balão bojudo com a saída de ar aberta, largado à solta.

O homem põe, Deus dispõe, mas eu remato "hahaha, não me doeu nada, hahaha, até estou a rir, hahaha, vês?" É que àqueles sírios já ninguém rouba a alegria de lhes terem sido oferecidos bilhetes para concertos do Jaroussky. Ao menos isso.