19 fevereiro 2017

"Cidade Pequena" de Diogo Costa Amarante - Urso de Ouro na Berlinale 2017

Trago do site da Berlinale (podem ver um excerto do filme aqui):


AND THE GOLDEN BEAR FOR BEST SHORT FILM 2017 GOES TO DIOGO COSTA AMARANTE!

Congratulations! The Golden Bear for Best Short Film goes to Diogo Costa Amarante and his film «Cidade Pequena»!
Diogo Costa Amarante was born in Portugal where he graduated in law before making his directing debut with the short documentary «Jumate/Jumate» which screened at numerous international festivals and won several awards. In 2009, Diogo participated in the Berlinale Talent Campus and directed his second documentary film «In January, perhaps» which was also selected in many festivals. «The White Roses», his first fiction short film, premiered at the 64th Berlin International Film Festival in the Official Shorts Competition and was awarded with the European Grand Prix in the Best European Short Film Festival. In 2016, Diogo finished his Master of Fine Arts at the New York University/Tisch School of the Arts with his thesis film «Cidade Pequena».
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Copyright by Heinrich Völkel


What is your ambition in the film?
One day, my sister told me that Frederico, my 6-year-old nephew, learned about the human body at school from a teacher who explained to him that people die when their hearts stop. That evening, Frederico didn’t sleep. He woke my sister up several times throughout the night complaining he had a pain in his chest. Hearing this story, I immediately recalled being his age and receiving a collection of books for children that happened to include one titled «Why did grandfather die?». Although the book was very colorful, populated by warm characters and communicating its educational message for children with sweet metaphors, I found it absolutely terrifying. I would hide it in different places, but inevitably weeks later, thinking of something else, I would bump into that thing again and again, each time terrified anew. It made me feel like the most melancholic person on earth. My mother worried I had developed a minor psychological problem, since she would find me in those moments staring sadly into space. The emotional parallel I saw in my childhood memories and my nephew’s experience inspired me to make this film. My first attempt at depicting this was very literal – including a chronologically written script and footage shot with my nephew at his school. I then realized what I really wanted to represent in the film was not a recreation of events but an expression of the emotions I felt reading that book as a child and the tenderness I felt hearing the story of my nephew’s similar experience. Approaching the concept fresh, I began to shoot with a more spontaneous approach. I went with my sister and nephew back to places that belong to my childhood memories and filmed with a stream of consciousness objective, intended to allow more instinctive moments to emerge from the familiar spaces, landscapes, colors, and sounds. To use montage and image manipulation to convey that mix of horror and tenderness. To introduce the absurd and its inherent humor as a sort of resistance against the otherwise immobilizing fear that can affect us all. If there’s something that will always be universal, it’s the vulnerability inherent in the consciousness of our own mortality.
How did you get started in the film business?
I used to be a trainee lawyer in Lisbon working in an office located nearby the Portuguese Cinemateca. One day, on my way back to the office, I was given this random flyer promoting a filmmaking workshop that was being organized by a new film festival I had never heard of. I was curious and went online to read more about it. Apparently they were willing to select 10 people to produce a short film each in 4 days. Potential participants should email them explaining why they should be one of the final selected. I have no idea what I wrote or if there were not that much people applying but soon I received a phone call saying I was one of the ten finalists. It was weird but exciting at the same time. I took a week off in the office and just went for the adventure. I arrived to their office and quickly realized that all the other participants were film students but me. Most of them knew each other from school and were already scheduling in between them to be able to crew in each other’s project. I was too shy to ask for help and so I went out on my own and started to collect images with the mini DV camera the festival borrowed me. I had no idea how to edit the material and so I spent all night playing with the software a friend of mine installed on my computer. The biggest surprise arrived when the organization of the festival awarded my “short” with a grant to study documentary filmmaking in Barcelona. I had two weeks to make a decision. My family and friends were shocked. I don’t even remember to question what was happening. I just quitted my job, left everything behind and went to Spain. Once in Spain, my little documentaries took me to the USA and once in the USA I was accepted into a Master of Fine Arts program as a Fulbright student. After 10 years jumping around I’m finally back to Portugal where I’m not sure if we can talk about a film business/industry.
What are your future plans for 2017?
I was recently funded to develop a first feature script. At the same time I’m preparing to start a PDH.
kleine-stadt-2 
Film excerpt from »Cidade Pequena»


18 fevereiro 2017

apontamento

Sophia, em carta a Jorge de Sena (1969):

"Eu sou mais alucinada do que tu: creio que é possível que o nosso ser coincida com os seres. E se assim não acontece é por erro nosso porque não estávamos suficientemente atentos, e algumas vezes porque, por falta de fé dum momento, não ousámos acreditar no que reconhecíamos."


17 fevereiro 2017

apontamentos do lago





1. Cortaram uma árvore enorme junto ao lago, e deixaram tudo muito bem arrumado à espera do camião: o tronco decepado na encosta, os ramos grossos a um lado, os ramos finos ao outro, a folhagem no meio. A paisagem muito organizada, desolada.

2. Desolado: o Fox, a ver o Matthias partir.
Coitados dos cães: não têm relógio nem calendário. Para eles, cada momento é sempre.

3. Os dias vão deixando marcas sobrepostas no lago. Ao longo do caminho do nosso passeio há uma cicatriz no gelo que me intriga.

4.
Nevou levemente - o bastante para uma camada uniforme de neve solta cobrir o gelo. Depois o vento criou padrões de tigre sobre a placa gelada. "La tigre e la neve" - só o Roberto Benigni para me lembrar o Iraque ao olhar para um lago berlinense.
 
5. Os bagos caídos das árvores colaram-se ao gelo e oferecem resistência ao vento: cada um deles protege o seu quinhão de neve. Pensei: se até o bagos resistem, também nós podemos.
Quando a esperança nos faltar, tentaremos as metáforas.






 




 





13 fevereiro 2017

dia 5 da Berlinale 2017



O ritmo começou a acelerar: saí de madrugada com o Joachim, atravessei o Tiergarten, fui buscar os bilhetes para amanhã. Vi o filme Helle Nächte, de Thomas Arslan, que é fácil de resumir: road movie de pai e filho, e quem precisa de fazer o coming of age é o pai, mas não vai muito longe.

Queria ver The Party, da Sally Potter, mas já não havia lugares. De modo que apanhei a S-Bahn para ir tentar ver Viceroy's House, e dei boleia a dois rapazes ingleses, estudantes de cinema. No caminho apontei-lhes o teatro do Brecht, e eles não sabiam quem era Brecht. Estou aqui a pensar se deva desacreditar para sempre da Humanidade, ou se deva desacreditar de mim. Alguém sabe como é que se diz Bertolt Brecht em inglês? É que se calhar foi isso...

No Friedrichstadt Palast perguntei se deixavam entrar sem bilhete as pessoas que têm acreditação. Disseram que não, que já não fazem isso, e foram chamar a responsável. Que me deu uma explicação interminável sobre não ser possível, nem ali nem em nenhum dos outros cinemas, e que as regras tinham mudado, etc. etc. etc., maaaaas... alguém tinha um bilhete a mais e deu-lhe, com a incumbência de o oferecer a uma pessoa simpática que precisasse. Tripliquei logo ali o sorriso, devo ter ficado com cara de botox mesmo muito mal aplicado. Mas consegui o bilhete.

Viceroy's House é uma lição de História simplificada para o nível dos leitores de Correio da Manhã, ou assim, com escândalos políticos, traições, e o conflito da divisão da Índia e do Paquistão retratado por um casal de criados no palácio do vice-rei. Um filme vistoso e agradável, tipo Bollywood, mas sem as partes em que desatam todos a dançar. 

Também vi a primeira fornada de curtas, com o Coup de Grâce da Salomé Lamas, e uma tomada de posição forte no debate que se seguiu: o produtor anunciou que ia entrar em greve e não voltava a fazer filmes curtos, porque em Portugal não havia condições, e a Salomé falou da entrega total da equipa. "Este filme só foi possível porque as pessoas do grupo foram muito exploradas", concluíram. Exploração. Não me lembro de ter ouvido ali alguma vez palavras tão directas sobre as condições em que muitos destes trabalhos são feitos.

O dia acabou na Audi Lounge: a ver chegar os figurões para a estreia do filme da Sally Potter, e a ouvir um concerto de um grupo berlinense, os Die Höchste Eisenbahn, no pequeno palco do pavilhão.

Amanhã há mais (e pressinto a gripe da Berlinale a anunciar-se, ai!)




12 fevereiro 2017

cantorias e andanças

Canto em coros desde os 15 anos, e até agora ainda ninguém me tinha dito isto que é evidente: antes de começar uma frase, preparamos o corpo para o tom mais agudo, e só então largamos a cantar. Depois de saber, é mesmo um caso de elementar meu caro Watson. Mas andei quase quarenta anos para chegar aqui. A aprender a este ritmo, só lá para os 120 é que vou cantar como a Callas.

O fim-de-semana com o coro foi muito cansativo e muito proveitoso. Treinámos imensos detalhes: "inspirem em u e cantem i", o momento certo para terminar as palavras (malditos s, malditos t e dt...), a respiração como umas férias curtíssimas a meio das frases, para atacar a segunda metade com toda a energia, a proibição de "ir de elevador" entre as notas (gostei imenso da expressão).

Para nos obrigar a estar concentrados e a ganhar segurança, o maestro pôs-nos a andar desencontrados na sala, cantando ao mesmo tempo. Gostei imenso dessa combinação de enorme concentração na partitura e combinação aleatória e alternada com os outros naipes. E gostei ainda mais quando o nosso maestro, que é muito exigente e ambicioso, interrompeu uma cadência para anunciar com orgulho "este é o meu coro!"
(Sim, eu sei, síndrome de Estocolmo.)

No último bloco tentámos um ensaio geral do concerto, porque o próximo ensaio já é com os profissionais do Rundfunkchor. Correu mal: demo-nos conta de que é em voltas erráticas pela sala que cantamos melhor. De modo que agora temos um mês para aprender a cantar bem, arrumados disciplinadamente por naipes. Ou isso, ou o Rundfunkchor vai dar o concerto mais sui generis da sua vida. E talvez nós mudemos o nosso nome para "coro andanças".

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A viagem de regresso a Berlim não foi tão bonita como a de ida. O dia estava cinzento, e tornava tudo ainda mais triste. Passámos por algumas unidades de produção agrícola da RDA com os estábulos em ruínas e os prédios de habitação abandonados, atravessámos aldeias sem um único café ou loja.
Esta região pagou um preço altíssimo para a reunificação da Alemanha.


 


 



 

anoitecer em Brandenburg

Passei o fim-de-semana num centro de encontros algures no meio de nenhures, a norte de Berlim.
Dois dias de trabalho intenso com o meu coro. Daqui a um mês vamos ter um concerto em conjunto com o Rundfunkchor Berlin, e não nos podemos envergonhar.

O autocarro levou-nos pela paisagem abandonada de Brandenburg, adoçada pela luz do entardecer.
Depois a lua cheia fez a sua entrada triunfal sobre a neve.  Fiz o que pude com a máquina fotográfica de bolso - se conseguirem imaginar agora muito mais belo que isto, ficam perto da realidade.
 

  
 
 



10 fevereiro 2017

"the dinner" - Berlinale 2017



Há um par de anos, The Dinner (trailer aqui) teria a sua apoteose num discurso ético e redentor, que nos reconciliaria com o melhor de nós próprios e da sociedade. Em 2017, as figuras deste filme movem-se nas suas contradições, dificuldades e realidades paralelas, à margem da ética e da responsabilidade pessoal, num mundo em que os valores são apenas mais um elemento, descartável e sem peso.

A expressão "factos alternativos", recentemente cunhada por Kellyanne Conway, descreve brilhantemente o momento mais alto da discussão daquele jantar em que dois casais discutem o que fazer com um terrível segredo dos filhos. E nós assistimos, pasmados: este é o nosso mundo. Faltava apenas a expressão certa para o descrever.

Só por isso já valeu a pena ver o filme.

"on body and soul" - Berlinale 2017



O filme húngaro On Body and Soul conquistou-me logo nas primeiras imagens, de incrível beleza e doçura. O contraste destas com as cenas seguintes, num matadouro de Budapeste, é doloroso. Mas muito adequado a um filme que tem por tema a impossibilidade da empatia. A história vai crescendo com suavidade, alternando a limpidez do onírico com o jogo de reflexos que impede a câmara de tocar as pessoas na sua realidade. O ruído visual sublinha a distância entre as pessoas desencontradas, sem impedir a ternura e o humor com que o filme relata a dificuldade da aproximação.

Nas entrelinhas, o filme revela uma sociedade de mulheres emancipadas e sem grande demarcação de classes, na qual as pessoas não se definem pelo que fazem e pelo poder do seu cargo, mas pelo que são e têm para dar.

E revelou-me também uma cantora que não conhecia, e quero investigar. Laura Marling, com a canção que se pode ouvir neste link.


a volta ao mundo aos saltos para trás



Sabem aquela do pateta que olha para o dedo que aponta a lua? Sou eu: ponho-me a olhar para o Joren, e não vejo os cenários.
(Anda um homem a dar a volta ao mundo para isto...)


09 fevereiro 2017

"Django" - Berlinale 2017



Pensava que ia ver um filme sobre o guitarrista Django Reinhardt e que ia saborear mais uma vez a sua bela música, mas enganei-me. Não é um filme sobre o músico, é sobre um cigano e a sua família alargada apanhados no turbilhão do ódio nazi. Parte de uma história inventada à volta do famoso músico para tematizar o Porrajmos: o genocídio dos ciganos durante a segunda guerra mundial.
Mais de setenta anos depois do fim da guerra, começava a ser tempo de o cinema dar a este tema o realce que ele merece. A Berlinale 2017 começa muito bem.

Gostei muito do Django feito por Reda Kateb, e da mãe do músico feita por Bim Bam Merstein.
A história está bem construída, e resulta numa homenagem muito digna às vítimas do povo cigano.
Como seria de esperar a música do filme é muito boa, e termina com uma peça surpreendente e tocante.

(Não fui para a bilheteira às cinco da manhã, que eu sou maluca mas não sou tola, ou vice-versa, conforme o dia. Consegui vê-lo na sessão para a imprensa - e foi por um triz, e foi porque havia tanta gente para ver que abriram outra sala para conseguir acomodar todos. Mesmo assim, alguns ficaram à porta.) 


08 fevereiro 2017

Berlinale - a loucura do costume








Esta tarde fui buscar o meu cartão da Berlinale, e perguntei que hipóteses tinha de conseguir um bilhete para a cerimónia de abertura amanhã, com o filme Django, de Etienne Comar. Olharam para o meu cartão, e deram-me esperanças: "Com este tipo de acreditação tem sorte, para o seu grupo há bastantes bilhetes. Pode vir para a fila de espera às cinco da manhã, provavelmente já chega para conseguir o bilhete."


isto dava um filme

 (fonte)

Os EUA têm armas nucleares apontadas a 900 alvos na Rússia (dos quais, 100 em Moscovo), 500 na China, 60 na Coreia do Norte, 50 no Irão. O presidente dos EUA decide sozinho que alvos devem ser atingidos - alguns, em alguns países, ou todos ao mesmo tempo. Nem o próprio ministro da Defesa tem poder de veto. A partir do momento em que o presidente dá a ordem, tudo acontece muito depressa: a central reenvia-a para os centros militares secretos, que estão preparados para lançar as bombas em menos de um minuto. Com o presidente anda sempre um militar que carrega a "mala nuclear". Trata-se de uma maleta com documentos sobre a localização dos centros secretos de armas atómicas, a lista dos alvos previstos, e as várias opções que o presidente pode escolher em caso de emergência (a pedido de Jimmy Carter, foi feita uma folha tipo cartoon para explicar essas opções de forma simplificada - se fizessem este filme em desenhos animados, era: opção 1: BOOOOOM! / opção 2: KABOOOOOM! / opção 3: KATRABOOOOM!). Também tem - e isso é muito importante - os códigos pessoais para o Pentágono ter a certeza de que a pessoa que está ao telefone a dar a ordem urgente de activação das armas nucleares é mesmo o presidente dos EUA (se fosse um filme de humor negro, contava os casos em que os presidentes perderam a folhinha: Clinton guardou-a na carteira, junto aos cartões de crédito, de onde desapareceu misteriosamente; Carter esqueceu-se dela num fato que mandou para a lavandaria da Casa Branca; Reagan tinha-a no casaco que lhe tiraram quando foi atingido por um tiro, e o casaco andou uns tempos num saco plástico sem se saber de quem era). O processo, concebido para permitir uma reacção imediata e eficiente, tem como consequência que um homem só - o presidente dos EUA - pode decidir em pouquíssimos minutos sobre uma guerra nuclear absolutamente assustadora. Sem ter de prestar contas a ninguém, e sem haver nenhum mecanismo que o possa travar.  

Hollywood deve estar a dormir - que esperam eles para fazer o filme? Podia ser assim:

Nos EUA é eleito presidente um homem impulsivo, agressivo, avesso a informações e briefings, ignorante no que diz respeito a armas nucleares e relações internacionais. Um colérico incapaz de reflectir, e avesso a aprender. Um tipo que divide o mundo em vencedores e perdedores, em nós e eles. Um casca-fina, capaz de perder a cabeça por despeito. No Pentágono o ambiente torna-se muito tenso. Teme-se uma precipitação do presidente e uma guerra tão terrível quanto absurda. Um oficial (preto e muçulmano) que apela à não obediência e começa a juntar alguns adeptos é envenenado por um loiro ultraconservador do NSA. A bonitinha que simpatizava com a vítima começa a desinteressar-se das futilidades da sua vida e a politizar-se cada vez mais, e decide continuar esse trabalho, mas de forma discreta. Descobre que o colega homossexual que parece muito obediente lidera um grupo secreto de resistência. Contactam os engenheiros da VW para alterar os programas informáticos de activação dos mísseis. Entretanto o homossexual descobre que afinal é bi, e apaixona-se pela bonitinha, mas não lhe diz nada. Discutem por uma palermice, e zangam-se valentemente. Por sua vez o presidente dos EUA criou um trinta e um com a Coreia do Norte, esta dispara um míssil para a Coreia do Sul, que por sorte cai no mar. A China toma partido pela Coreia do Norte e o presidente dos EUA impõe que se virem todos os mísseis para as cidades chinesas. Enquanto o conselho de segurança discute o assunto e o presidente faz finca-pé e birra ("eu é que ganhei as eleições!"), os informáticos da VW metem-se numa directa de 4 dias a carburar com café Transfair, e enviam no último momento o programa à bonitinha. Quando esta pega na pen com o vírus destinado a alterar o programa de software e o vai meter no computador central, aparece o loiro nazi que já andava desconfiado. Lutam. O homossexual entra em cena. O presidente já está a pegar no telefone para ligar ao Pentágono. A luta fica cada vez mais aguerrida, o presidente já está a dizer "Hellooooo!", o nazi dá um tiro na pen e destrói-a, o oficial ao telefone pergunta ao presidente "que número vem a seguir a 1234?" e o presidente responde "5678". A bonitinha tira a pistola ao nazi e mata-o, mas sabe que já é tarde demais. O homossexual beija-a como se não houvesse amanhã, o que ambos sabem muito bem. O oficial, ao telefone, diz: "tem a certeza? por favor, veja bem". O presidente repete. O código continua errado. Tentam todos os códigos da lista. Todos errados.
Ao fundo da sala oval, uma estagiária sorri misteriosamente.

Enquanto Hollywood não faz o filme, deixem-me sonhar: que cada agente da cadeia de comando seja capaz de pensar qual é o grão de areia que pode meter na engrenagem. 

(As informações sobre o processo de accionamento do arsenal nuclear americano foram tiradas de uma entrevista a Bruce Blair, que nos anos setenta foi o responsável pelo seu funcionamento e depois se tornou um dos mais famosos críticos da política nuclear dos EUA. A maior parte daquela caracterização do presidente também é dele, nessa entrevista. O título da entrevista é: Trump e os códigos nucleares: "a ideia do seu dedo na mala nuclear provoca-me medo.")


psis de todo o mundo, uni-vos



Uma vez estava a dançar com o Joaquim de Almeida e perguntei-lhe de onde era (foi uma tentativa um bocadinho inábil de o identificar sem ele perceber que estava outra vez num dos meus ataques "conheço este gajo de algum lado, será o Antonio Banderas?..." - uma tentativa tão inábil que ele percebeu logo, "não sabes quem sou?!!!", coitado, e um dia destes ainda me manda a conta do psi).

Outra vez estava a jantar com o Ricardo Araújo Pereira, e perguntei-lhe como se chamava (espero que o psi dele seja baratinho).

Quando chegou a vez do Varoufakis, ele, mais avisado que os outros, dirigiu-se à mesa onde eu estava e apresentou-se logo, "Hello, I'm Yanis". Sem saber que nós não estávamos ali por causa dele, mas da Marisa Matias. E ninguém lhe disse - sabe-se lá quanto é que cobram os psis gregos...

(Foi o facebook que me informou: faz hoje um ano que foi apresentado o movimento DiEM25. Desde então, só me lembro de ter visto uma única referência às suas actividades. Será que perderam o alento, ou será que ando a ler os jornais errados?)


07 fevereiro 2017

25 anos do Tratado de Maastricht








(fonte

Quando em 1989 vim viver para a Alemanha, os pais do meu namorado escreveram à polícia de estrangeiros a pedir autorização para receberem em sua casa uma au-pair que vinha ajudar a tomar conta dos seus filhos (a funcionária que leu o pedido tinha andado com um dos filhos na escola, fartou-se de rir, mas deixou passar e concedeu-me a autorização temporária de residência). Quando arranjei trabalho, foi preciso provar que não havia nenhum alemão desempregado capaz de desempenhar aquelas funções. Quando ia a Portugal de carro, levava 4 porta-moedas: um para marcos, outro para francos, outro para pesetas, outro para escudos. A travessia da fronteira podia durar mais ou menos tempo, conforme a disposição dos polícias. Fazer uma transferência bancária internacional era complicado e caro. E basta de exemplos para mostrar como Maastricht simplificou a vida dos europeus.

No entanto, em minha opinião, a maior conquista deste Tratado não foi ao nível económico mas ao nível da cidadania. De tal modo que quando os nossos filhos nasceram apenas os registámos como alemães. Para quê darmo-nos ao trabalho de ir ao Consulado português, se somos todos europeus, e a nacionalidade é um mero detalhe pitoresco? Em meados dos anos noventa, era assim que sentíamos.

O mais tardar com a crise do Euro o edifício começou a mostrar as suas contradições e armadilhas, e começaram a multiplicar-se as críticas à moeda única. Pergunto-me, como tantos, se a criação tão acelerada da moeda única foi positiva ou negativa. Ou se devia ter vindo bem mais tarde, como queria a Alemanha. Ou se podia ter sido adiada sine die. Não sei.

Também me pergunto como se teria desenvolvido Portugal sem o euro. Onde estaríamos hoje se ainda tivéssemos o escudo, em vez de termos aderido ao euro? Será que os mercados teriam cumprido a sua função de controlo, impedindo o endividamento excessivo? Com menos crédito, o Estado teria gerido melhor o dinheiro, ou teria investido menos? E como estaria a economia e a população portuguesa num cenário de mais nacionalismo intra-europeu e gigantes económicos à porta?

25 anos depois de Maastricht, temos o que temos, e estamos aqui. Há quem proponha uma tabula rasa: voltar atrás e recomeçar noutros moldes. Tenho dúvidas sobre isso. Acredito muito mais numa Europa capaz de aprender com os erros e corrigi-los, cada vez mais unida e solidária, do que num continente esquartejado em países a debater-se com as convulsões de uma brutal mudança de rumo. No 25º aniversário do Tratado de Maastricht, penso que o grande desafio é unir o continente em solidariedade e respeito pelos valores comuns. Amadurecer a União - que já tem bem idade para isso.


uma questão de perspectiva

Agarrem-me, que um dia destes ainda começo a rir com gargalhadas histéricas e nunca mais paro...




"Parece que o Obama gostou do meu discurso de tomada de posse"





"Não sei se ele será capaz de o admitir, mas o Obama gosta de mim."

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Ouço Trump a dizer estas coisas, e penso naqueles homens que depois de violarem uma mulher afirmam que tinham a certeza que ela queria e até estava a gostar.
Só não entendo como é que me aconteceu esta associação de ideias - o Freud deve andar outra vez a confundir-me os fusíveis.


como resolver alguns problemas actuais em apenas dois passos

Primeiro passo: fazer e divulgar muitas piadas como esta, repetir sempre "presidente Bannon". Ferir profundamente o narciso e depois escarafunchar-lhe nas chagas.



(A propósito: no Verão passado, quando Trump trouxe Bannon para a sua campanha eleitoral, este disse em entrevista à Vanity Fair que Trump é um “blunt instrument for us”. Estava escrito...
Li o artigo da Vanity Fair sobre Bannon: tudo aquilo a que estamos a assistir foi anunciado (veja-se o filme que está nessa página), e a Democracia americana deixou acontecer. Do mesmo artigo, quando ainda ninguém acreditava numa vitória de Trump: "It is likely that Bannon’s political calculus here, if not Trump’s, will be less about winning an election that seems a bit out of hand and more about cementing an American nationalist movement.")


Segundo passo: depois de Trump se ver livre do seu dono (e parece que está para breve, pelo que me apresso a publicar este post antes de ser de novo ultrapassada pelos acontecimentos), provocar-lhe um burn out. Isso será bastante fácil - basta dirigir-lhe frases com mais de cinco palavras, e juntar duas ou três ideias diferentes na mesma alocução.


E agora, muito a sério: talvez Bannon seja afastado em breve. Talvez o sistema e a sociedade civil consigam obrigar Trump a ser mais comedido, talvez consigam mesmo afastá-lo. Mas há muito mal já feito. A sociedade - e não apenas a sociedade americana - já retrocedeu várias décadas em termos da decência no discurso público e do reconhecimento dos direitos civis. A derrapagem é de tal modo grande que muitos dos anúncios que passaram no Super Bowl 2017, anúncios que até há pouco tempo - na altura em que foram rodados - se baseavam nos valores de que a sociedade americana mais se orgulhava, ao fim de duas semanas de Trump parecem sinais corajosos de resistência e provocação ao poder político.


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06 fevereiro 2017

não perca a cabeça por causa do Trump

Mais um artigo de opinião do Spiegel, mais uma tradução rapidíssima (e com algumas abreviações). Desta vez é de Sasha Lobo.


Não perca a cabeça por causa de Trump

Como é que se aguenta uma política insana a par da proximidade radical dos social media? Algumas instruções para não enlouquecer.


01.02.2017. 16:55. Sasha Lobo 

Excepcionalmente, hoje escrevo um texto que não se destina a todos. Não se destina aos que são cool, aos esclarecidos, aos mais endurecidos. Este texto é para si, que de manhã pega no smartphone com uma sensação de angústia para ver que inacreditáveis coisas a pessoa mais poderosa do mundo esteve a preparar enquanto você dormia. Porque o atinge a si, ou podia atingir. Ou porque sente empatia, porque não se sente disposto a ignorar o que acontece.     

Este texto é um manual para não se deixar enlouquecer, num tempo em que acontecimentos mundiais absurdos, chocantes e ameaçadores surgem com uma proximidade radical devido aos social media. É uma proposta subjectiva sobre como gerir o social media em tempos de crise mundial. No caso, olhando para o colapso da Democracia americana.


Dar-se conta do choque
Nos social media observa-se um furor difuso, a ira expele-se facilmente. Notei em mim próprio que a indignação instantânea muitas vezes é uma reacção de defesa para esconder o meu choque. Porque não é fácil aceitar que um narcisista perverso viciado em twitter, juntamente com os seus amigos fascistas, pode ter um poder desagradavelmente grande sobre o meu próprio futuro. A raiva é sentida como algo activo e agradável, enquanto o choque é um sentimento passivo e indefeso.
O que me ajudou foi analisar-me e classificar: sim, estou em choque, e sim, temo as consequências.

Observar a minha própria posição
Depois de aceitar o choque, o segundo passo é observar a minha posição de partida. Também na Alemanha há pessoas directamente afectadas, nomeadamente as que deixaram de poder ir aos EUA por terem dupla nacionalidade. E, naturalmente, o cargo de presidente dos EUA é um daqueles que podem ter consequências directas na vida de pessoas do mundo inteiro. 
No entanto, é importante fazer a análise: eu ou a minha família fomos directamente atingidos? Amigos? Colegas? Nos social media facilmente se confunde "ser afectado" e "estar consternado". A partir de certo ponto, a empatia dá lugar a uma secreta autocompaixão - e esse ponto atinge-se rapidamente na efusão dos social media. O que me ajudou foi dar-me conta de que Trump não representa uma ameaça directa para mim, mas um símbolo de incerteza generalizada e apreensão pelo futuro.

Permanecer alerta
Os social media dão mais eco aos símbolos crus e panfletários que à discreta monstruosidade. É preciso desenvolver sensores para detectar o ruído que esconde o que é importante. O que não é fácil, e precisa de constantes ajustamentos.
Deixei-me impressionar tanto com aquele "sujeito que constitui ameaça para o Estado" de cinco anos e algemado, que quase me ia escapando que o ultraconservador Stephen Bannon, como membro permanente do Conselho Nacional de Segurança, é uma das pessoas que decidem sobre os nomes da "Kill List" - quem pode ser assassinado sem processo jurídico nem escrutínio público, mesmo em solo americano.


Indignação com objectivos
Se o ponto de partida é claro, é mais fácil escolher a indignação que vale a pena: a indignação com um objectivo. Espernear devido ao escândalo errado não ajuda ninguém excepto o Trump. Mas a indignação geral devido a algo que a merece é o sistema imunitário da Democracia. No entanto, é preciso saber doseá-la porque a indignação geral - ao contrário da zanga instantânea - pode tornar-se um bem escasso.
No caso de Trump, a estratégia parece ser esta: o ritmo e o número das provocações são de tal ordem que as medidas isoladas acabam abafadas sob o ruído, as medidas de inacreditável radicalidade escondem-se à boleia dos absurdos, e a opinião pública agita-se até ao esgotamento. 


Pesquisar
A minha indignação é um bom motivo para, além de partilhar informações nos social media, fazer as minhas próprias investigações. No caso Trump é possível fazer isso com relativa frequência. Infelizmente, nem sempre as suposições se desfazem - mas a pesquisa ajuda muitas vezes a entender os detalhes e a fazer uma nova análise.
Isso ajudou-me a entender melhor a inúmeras excitações que os social media trazem de enxurrada, e a decidir onde há motivos para a minha indignação - e onde não os há.
Esperar não é solução contra um estado de espírito emergente e apocalíptico. O que ajuda é comparar várias perspectivas sobre o mesmo tema: pluralismo é o antídoto para uma sociedade aberta, e ajuda-me a confrontar-me com o processo de me fechar sobre mim próprio.

Reconhecer e evitar o cansaço
E então, no centro da espiral mundial, caímos num buraco. A política mundial atravessa hoje o twitter e o facebook, onde até há muito pouco tempo se partilhavam fotos de bebés. O privado está contaminado pelo político. Mas ninguém aguenta os assuntos da actualidade em fogo cerrado, sobretudo nestes tempos tão turbulentos e imprevisíveis.
O preço pago por quem está alerta é uma tensão desgastante. Não admira que os millennials, muito sensíveis ao mundo digital, se estejam a refugiar em redes privadas como o whatsapp, snapchat e instagram. O facebook e o twitter podem ser demasiado esgotantes, e as pessoas vêem-se obrigadas a aprender a gerir a permanente disponibilidade de informações e de multiplicadores de emoções. Em particular quando não se pode ignorar a relevância dos acontecimentos.
O que funcionou bem no meu caso: abstinência dos social media depois das seis da tarde, complementada pelo corte total em caso de crises como ataques terroristas. O necessário protesto contra o Trump não vai sofrer danos irreparáveis se nos dermos ao luxo de um fim-de-semana sem pensar nele. Afinal de contas, não nos estamos a preparar para meia dúzia de semanas Trump, mas provavelmente para vários anos.

Transportar os debates
Vai ser preciso ter endurance. Porque se o seu choque e a sua indignação não têm consequências, acabam por se esbater. É preciso transportar esses debates para a Alemanha. Resmungue quando Kai Diekmann mostra uma certa cumplicidade em entrevistas a Trump. Contradiga quando alguém próximo de si mostra entusiasmo por Trump. Proteste contra políticos como Seehofer, quando ele elogia Trump.
Podem ser apenas bicadas, mas o espaço público digital é feito de milhões de bicadas como essas - e o protesto pode ter resultados. Em todo o caso, a falta de protesto tem resultados. Por exemplo, se deixarmos passar as Trump-tiradas do Seehofer com um encolher de ombros, isso pode ter consequências para o nosso país - porque, obviamente, a política está atenta à opinião pública. E a Alemanha, por sua vez, tem uma voz relevante no espaço internacional, com relativa influência no decorrer da história e dos danos da presidência Trump. É certo que não é muito, mas é mais que nada.

Agir
Finalmente: o mero debate não costuma ser capaz de produzir efeitos tangíveis. Também é preciso agir. E isso é possível, mesmo a partir da Alemanha. Faça uma assinatura de um jornal americano, para apoiar a função de controle do quarto poder. O New York Times ou o Washington Post, por exemplo. Faça donativos a organizações de direitos civis como a ACLU, que está a tentar moderar Trump pela via jurídica. Ou dê apoio a uma das muitas organizações que compõem a sociedade civil nos EUA. E aqui fecha-se o círculo porque - e eu fiz essa experiência - agir alivia o Weltschmerz social. Mesmo quando se está apenas a apoiar a acção de terceiros. 


to-love list


Preciso de fazer uma lista nova. Não uma to-do, mas uma lista onde anoto momentos luminosos. Uma to-love list. Nestes tempos ainda mais complicados e desafiantes do que a anormalidade a que já andávamos habituados, é importante saber parar e saborear o que há de bem no nosso mundo.

Começo com miúdas catalãs a cantar música brasileira, e o comentário do meu amigo Ruben quando partilhou o filme:

Every time I hear somebody with an accent, I see a bridge, a desire to visit different cultures, to go and see what is going on beyond the borders. These kids are not building walls, they are celebrating peace and diversity. Thumbs up for them, and also for Joan Monne, who wrote this arrangement for a school big band, preserving the original harmony and stile. 



Àguas de Março ( A.C.JOBIM ) Arreglo de Joan Monne
Palau de la Música de Barcelona, en el marco del Festival de jazz de Barcelona 2015
SANT ANDREU JAZZ BAND ( JOAN CHAMORRO direccion )
ALBA ARMENGOU voz
RITA PAYES voz

05 fevereiro 2017

o Titanic afundou ao som da sua orquestra, nós afundamos ao som das nossas gargalhadas

Rir é o melhor remédio? Perante a tragédia, não será um remédio dos que cura, mas pelo menos alivia a dor. Alguns exemplos:


1. Finalmente percebe-se que Trump não estava a mentir quando disse que tinha mais público que Obama.



2. O meu favorito, por ser um retrato certeiro do que está a acontecer e também por ser tão corrosivo para o narcisismo do Trump:



Pesquisei esta manhã no google pela expressão "President Bannon" - deu mais de 300.000 sites.



3. Quando Sean Spicer anunciou os números espantosos de público na tomada de posse de Trump, que mais tarde Kellyanne Conway viria a corroborar com o apoio dos entretanto famosos "factos alternativos", o twitter explodiu em gracinhas sob o hashtag :









4. Philip Roth diz queTrump "wield(s) a vocabulary of seventy-seven words that is better called Jerkish than English". Cá em casa não concordam com Roth. Não é 77, é 88.

[Adenda: o H é a 8ª letra do alfabeto. 88 -> HH -> "Heil Hitler"]



5. A ciência do futuro:


6.




7. John di Domenico tem tido muito sucesso a imitar Trump, mas lembra-me uma anedota contada por judeus. Vejam bem:



E agora a anedota:
Um comandante da SS disse a um judeu que tinha o nome dele na lista de deportação, mas como o judeu era simpático concedia-lhe uma última chance:
- Tenho um olho de vidro que é uma imitação perfeita. Se conseguires adivinhar qual dos meus olhos é o de vidro, deixo-te escapar.
O judeu olhou atentamente, e disse:
- É o esquerdo.
- Como é que adivinhaste?
- É o que tem um ar mais humano.


04 fevereiro 2017

o leve gemido da Democracia





Traduzo (em modo rapidíssimo) um texto de opinião de Jakob Augstein no Spiegel Online:


Duas semanas de Trump

O leve gemido da Democracia

02.02.2017. 12:38 - Jakob Augstein
This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.

T.S. Eliot


Donald Trump começou a transformar a Democracia americana numa ditadura. Já há exemplos deste processo noutros países: Hungria, Turquia, Rússia. Agora, os EUA. Um processo em avanço dissimulado.

 

A Democracia morre silenciosamente, não faz barulho. Um poema famoso de T.S. Eliot, com o título "The Hollow Men - Os Homens Ocos" termina com os famosos versos: "É assim que acaba o mundo / Não com um estrondo, mas com um gemido." É do nosso mundo que fala. É a nossa Democracia que está a desaparecer - não com um estrondo, mas com um gemido.

Os Estados Unidos da América eram o líder do mundo ocidental. Noutros tempos trouxeram aos alemães a Paz e a Democracia. Agora, foi detido nesse país um menino de cinco anos. Ou preso. Ou retido. Haverá com certeza um termo jurídico para descrever correctamente o que os serviços de segurança americanos fizeram a este menino. Durante cinco horas foi mantido longe dos pais num aeroporto. Um cidadão americano, que estava a regressar do Irão.

E o Irão está na lista dos países que, por uma simples penada do presidente americano, faz de qualquer visitante um indesejável. Uma penada de perfeita arbitrariedade. E crueldade. O porta-voz deste presidente veio depois dizer que seria um erro concluir, baseando-se apenas na sua idade e no seu sexo, que uma pessoa não constitui uma ameaça.

Arbitrariedade e crueldade - não são essas as características de uma ditadura?


A Democracia a abolir-se a si própria

Ditadura é uma palavra muito séria. Temos algumas ideias do que é. Passos pesados nas escadas à cinco da manhã. Detenções. Desaparecidos. Arbitrariedade. Ditaduras destas conhecemos nós - os alemães - bem. E os polícias armados até aos dentes, que nos aeroportos fazem cumprir as tresloucadas determinações do presidente para a entrada de pessoas no país, ainda se assemelham a essa imagem que temos da ditadura. Mas isto é apenas a superfície. Hoje em dia, o verdadeiro rosto da ditadura é diferente.

A Democracia não morre num dia só. Ela abole-se a si própria lentamente. Trump foi eleito. Orbán foi eleito. Erdogan também. O padrão é semelhante. Um populista conquista o poder à força da mentira. Instala os seus correligionários em lugares chave, particularmente na Justiça e no aparelho de Segurança. E neutraliza os media.

Num trabalho notável sobre a fragilidade das Democracias modernas, que foi recentemente apresentado na revista americana "Atlantic Monthly", diz-se: "A vantagem de controlar um Estado moderno reside menos em poder perseguir os inocentes que em poder poupar os culpados." Uma frase inteligente. Porque, embora existam ainda os mecanismos clássicos da ditadura - na Rússia e na Turquia -, está a desenvolver-se uma nova forma.


Torcer as regras, manipular as notícias

As eleições são livres. Ninguém pode ser morto em plena rua. E quem não está satisfeito, pode sair do país quando quiser. Mas a Justiça já não é independente. Os media perdem cada vez mais a integridade. Os contratos de projectos do Estado são concedidos aos amigos políticos. As Finanças verificam com mais frequência os críticos do sistema. A corrupção torna-se normalidade. As regras são torcidas, as notícias são manipuladas, e uma parte da elite vê-se apanhada em redes de cumplicidade.

Ao fim das duas primeiras semanas do seu mandato não pode haver mais dúvidas: Donald Trump quer instalar no seu país uma ditadura deste tipo. Começou um processo que é muito difícil de travar. A questão é: quem protege a Democracia? Não podemos confiar em nenhum partido. Para chegar ao poder, muitos são capazes de tudo. Trump mistura interesses privados e públicos? Pratica nepotismo abertamente? Chegou ao poder com a ajuda de hackers russos? Vangloria-se da sua forma indigna de tratar as mulheres? Os conservadores suportam tudo isso. Porquê? Por causa do poder.

E porque não conseguem imaginar tudo o que, a partir disto, ainda pode vir a germinar - neles, no país, no mundo.

Quando Adolf Hitler foi nomeado Reichskanzler, Theodor Wolff, que era o chefe de redacção do jornal "Berliner Tageblatt", escreveu: "Pode ser que se force uma obediência muda, e que neste país - que tanto se orgulhava da liberdade do pensamento e da expressão - se reprima qualquer impulso franco. Há um limite a partir do qual a violência não avança."

Mas que grande equívoco.

a preto e branco


















A manhã acordou tão enevoada que nem tive de embaciar o vidro da janela para fotografar a vaguidão.

No lago, começou o degelo.
Degelo e gelo, gelo e degelo. Não está fácil andar naqueles caminhos.
 

 
 














 





 

















03 fevereiro 2017

até parecia os Açores

Esta semana - já não me lembro bem quando - tivemos quatro estações do ano num dia só, até parecia os Açores. O dia começou radioso, depois aqueceu, depois choveu e ao anoitecer nevou.
Não fora o frio, a neve e a falta de verde, ia ser tal e qual como nos Açores.

















Abri a janela para fotografar o amanhecer na "África minha". Depois fechei-a, e usei o vidro embaciado para fazer esta série:


 


 Abri de novo. O sol já estava a tingir as nuvens.







Levei o Fox ao lago. Voltei a casa, descobri que as roseiras estavam cobertas de gotas geladas. Fui ao escritório buscar a máquina melhor. O Fox aproveitou para fugir. Voltei ao lago para o procurar. Já que tinha a máquina na mão...





 













 
 

Regressei a casa sem Fox. Encontrei-o à minha espera - só tinha ido espreitar a casa da vizinha. Um dia destes ainda o transformo em salsichas. A sorte dele é que não vale muito a pena, porque é pequeno e rende pouco, e além disso depois não tinha quem me levasse a passear todos os dias no lago.

Transida de frio, coberta de gelo, a roseira já está a preparar a primavera.
Assim saibamos nós, etc. (por estes dias, todas as metáforas vão dar ao mesmo)