15 outubro 2017

mais histórias da RDA



Hoje esteve um belíssimo dia de outono em Berlim. Quase diria: melhor que o verão.
Andei na "minha quintinha", o talhão de meia dezena de metros quadrados por trás da casa, a fazer os preparativos para o tempo frio (calha bem que hoje é o dia mundial da mulher rural), depois fritei umas flores de abóbora em polme e fomos jantar com os vizinhos no terraço deles, que dá para a rua.
Acenámos à mãe do vizinho da frente, e convidámo-la para vir petiscar connosco. Ela veio, "só um minutinho", e daí a nada estava a suspirar, que vizinhos assim é que é, bem diferentes do que ela tem na pequena localidade onde mora, nos confins leste de Berlim.

"O meu vizinho deve ser uma boa peste, daqueles que dantes ouviam e viam tudo. Faça chuva ou faça sol está no jardim a controlar o que se passa na rua. Nem dá gosto ir para casa, sabendo que ele está lá feito espião. Já não estamos em tempo disso! Ui, que tempos aqueles! Sabem, o meu marido trabalhava numa fábrica enorme, e escreveu para lá uns cartazes. Eu decidi ficar caladinha e quieta, por amor ao meu filho. Se também eu começasse a fazer barulho, ainda mo levavam, para ser adoptado e educado por alguma família próxima do regime. Era o que eles faziam: metiam os pais na cadeia, e entregavam os filhos a famílias que os educavam conforme a ideologia do Estado. Os riscos que nós corríamos! Mas eu não queria fugir. Não queria que os meus pais sofressem, e sentia-me muito ligada à minha terra. Preferi ficar, e lutar para ir mudando as coisas. Mas também tinha de ter muito cuidado, para não me tirarem o meu filho.
Uma vez deram-lhe uma nota muito má em comportamento (para além das disciplinas, também davam notas de comportamento, aplicação, organização e participação), por ter faltado às comemorações do 1º de Maio. Inventámos logo uma mentira, que uma tia velhinha estava acamada e precisava de ajuda, e que tínhamos ido prestar o auxílio necessário. A tia estava cheia de saúde, mas nós é que não podíamos deixar que o rapaz fosse castigado por não andar no rebanho a cumprir ordens. Demos-lhe todo o apoio!"

- E não prenderam o seu marido?, perguntei eu.
- Não, teve sorte. O muro caiu antes de o virem buscar.

Falei de quando vivíamos em Weimar, e daquela vez em que o Matthias, de 6 anos, começou a contar à professora uma história familiar um bocadinho embaraçosa. Eu disse-lhe "Matthias, não é preciso contar tudo na escola" e a professora cortou: "ai isso é que é! à professora conta-se tudo!"
Por aquela altura a Christina ia fazer a primeira comunhão, e não pude impedir-me de imaginar como seria a nossa vida se isto se estivesse a passar 13 anos antes, num país que punia as pessoas que escolhiam permanecer na Igreja, e o Matthias se sentisse que era seu dever a contar à professora da escola primária tudo o que se passava em casa.

Ela continuou:

"Havia quatro raparigas católicas na minha sala da escola primária. Nos feriados religiosos elas podiam faltar à escola, mas no dia seguinte a professora humilhava-as em frente de todos. Eu ficava revoltada, até comentava em casa com a minha mãe. Depois da queda do muro encontrei essa professora numa estação de caminho-de-ferro. Disse-me:
- Eu conheço-te - és a Maria! Que bom ver-te!
- Eu também a conheço, e de ginjeira, respondi. Ponha-se a andar, nunca mais a quero ver!"

12 outubro 2017

fujam todos! o Robespierre hoje baixou no João Miguel Tavares, mas veio zarolho

Hoje o João Miguel Tavares acordou Robespierre. À boleia da acusação do Ministério Público a Sócrates sugere uma limpeza geral: para além dos 28 arguidos da operação Marquês, acusa todos os que apoiaram Sócrates - e até menciona os 1 568 168 portugueses que votaram nele em 2011, quando já deviam estar avisados (avisados daquilo que uma investigação com os meios da Operação Marquês levou todos estes anos para mostrar, mas adiante).  

Esperemos que amanhã acorde mais calmo. Pode ser que consiga então dar-se conta de que em política (e até na vida) as coisas não são 1 ou 0, que votar PS em 2011 (ou em 2005 ou em 2009) não é equivalente a ser groupie do Sócrates, que fazer parte de uma equipa política ou governativa de Sócrates não é sinónimo de fazer parte ou sequer ter conhecimento de algum esquema de corrupção, e que não é sério aproveitar-se do momento em que a teia manipuladora do capital sobre o poder político se torna visível para atacar apenas as pessoas à volta de Sócrates. Se é para ser Robespierre, então vá até às últimas consequências. Não vale ser um Robespierre que vê de um olho só.

E também pode ser que um dia destes, quando acordar um pouco mais calmo, possa explicar por que motivo decidiu incluir nesta sua crónica a questão do pedido de desculpas que o nosso país deve aos povos que explorou e desgraçou. É que uma pessoa com a experiência de João Miguel Tavares não pode ignorar que ao associar um dos lados de um debate - sobre algo que não tem nada a ver com o tema desta crónica - às pessoas que acusa de burrice ou desonestidade e que quer ver "cair com Sócrates" está automaticamente a desprestigiar aquela posição no debate.


***

Alguns excertos da crónica:

"Neste momento marcante da História de Portugal, em que um ex-primeiro-ministro é acusado de 31 crimes de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais e falsificação de documento, convém recordar que José Sócrates não caiu da tripeça por causa dos portugueses, que finalmente perceberam quem ele era. Caiu por causa da crise internacional, da falência do país e da vinda da troika. Sócrates obteve 36,6% dos votos em 2009 (mais de dois milhões de pessoas), já depois da revelação da licenciatura fraudulenta e das manobras para impedir a publicação de notícias; já depois da exibição do DVD do caso Freeport onde Charles Smith declarava que ele era corrupto; já depois de correr com Manuela Moura Guedes do programa de informação mais visto da TVI por não apreciar o estilo e as reportagens."

"Sócrates foi um extraordinário caso de popularidade, não só entre o povo, mas sobretudo entre as elites. E são estas elites que hoje em dia me preocupam, porque os ex-apoiantes de Sócrates continuam por aí como se nada fosse, nos blogues, nos jornais, nas empresas, no PS, no governo. Muitos dos que acham que os portugueses têm o dever moral de pedir desculpa por acontecimentos do século XVII, não vêem qualquer necessidade de pedir desculpa por acontecimentos de 2017. Não há qualquer acto de contrição por terem apoiado incansavelmente um homem que a cada três meses era suspeito de fraude, corrupção e atentado ao Estado de Direito, e que nunca, jamais, apresentou qualquer justificação decente para aquilo de que era acusado."

"É sobre Sócrates, sobre Salgado, sobre Vara, sobre Bava, sobre Bataglia, e sobre um regime construído por inúmeros ex-socratistas, que agora saem de cena na esperança de que esqueçamos o papel que desempenharem ao longo dos anos. Eu não esqueço. Aqui estarei para lembrar que Sócrates não ascendeu sozinho, não governou sozinho e, acima de tudo, não merece cair sozinho."


11 outubro 2017

lutar contra o ódio no quotidiano (3)

Dou-me conta - com alegria - de que os exemplos de pessoas que sabem desmontar os mecanismos do ódio são como as cerejas, e que uma história chama outra. Do Amos Oz ao Reuven Moskowitz.
Recupero um post que escrevi neste blogue em 2005:

Conheci o Reuven Moskowitz no ano passado, porque a minha vizinha se fartava de o louvar, muito feliz com a perspectiva de receber em sua casa este homem tão cheio de alegria e frescura, que recebeu o Aachener Friedenspreis por uma vida dedicada à construção de uma paz justa entre palestinianos e israelitas. Fomos ouvi-lo, e tivemos depois óptimas conversas bem acompanhadas de anedotas de humor habraico e vinho do Porto. Contou um pouco da sua vida na schtetl romena onde nasceu, evitou contar detalhes sobre o Holocausto, convidou-nos para ir a Israel conhecer alguns projectos e comunidades onde tem sido possível construir a paz (mas o Joachim recusou amavelmente, alegando alergia ao elevado teor de chumbo no ar).

Ontem [16.11.2005] esteve de novo em Weimar, e fui buscá-lo ao comboio. A caminho de casa, a conversa fluiu logo, como se fôssemos velhos amigos. Gracias a la vida, que tantas vezes me dá momentos destes! Contei-lhe sobre os meus primeiros tempos em Weimar e a pergunta automática que me fazia sempre que via uma pessoa de idade: "há 60 anos, de que lado estavas?". Ele riu-se, "ah! tive a mesma reacção quando vim pela primeira vez à Alemanha!", e acrescentou: "não podemos ser assim, porque esse é o tipo de mecanismo que dá mais força ao anti-semitismo."

Fiquei a pensar nesta imensa sabedoria de saber perdoar ou esquecer, para poder recomeçar o jogo com cartas não marcadas. Vê-lo assim - ele, que escapou ao Holocausto -, tão disposto a aceitar a Alemanha e os alemães, faz-me pensar no cântico dos anjos junto ao presépio: "e Paz aos homens de boa vontade".

No colóquio falou sobre os mecanismos que impedem a paz em Israel: a diabolização premeditada do inimigo, as assimetrias na distribuição de forças e nas negociações. Foi muito claro em relação aos alemães: "É um erro gravíssimo atribuir uma culpa colectiva a todo um povo - os judeus viveram dois milénios com a culpa colectiva da morte de Cristo, e agora são os alemães que vivem com a culpa colectiva do Holocausto. Isto está errado! Não se deixem amordaçar por esses que vos impõem um sentimento de culpa colectiva. Vocês têm uma palavra a dizer sobre o que se passa em Israel, e têm obrigação de se pronunciar!"

Criticou Israel com desassombro e conhecimento de causa. Que os conflitos militares foram provocados por Israel para aumentar o seu espaço territorial, que Gaza não passa de uma enorme prisão, que há uma estratégia deliberada por parte de alguns políticos israelitas de desumanizar os palestinianos para melhor permitir a sua exploração sistemática, que os palestinianos têm sido vítimas de pogroms, e que o seu ódio tem crescido devido ao estado de permanente humilhação em que vivem. E que o único caminho para a paz é desistir das tantas mentiras criados por motivos estratégicos e assumir a verdade, aceitar sentar-se à mesa com o opositor como um igual e não como um demónio (ou um "animal de duas patas", como um político israelita chamava aos palestinianos).

Um dos palestinianos presentes pediu a palavra, para falar sobre a sua cidade: 45.000 habitantes com um único check-point onde um soldado israelita de 19 anos dá livre curso ao seu sadismo, onde morrem pessoas porque a ambulância é obrigada a esperar várias horas, onde mulheres dão à luz em plena fila de espera no meio da rua. A cada nova frase o ódio tornava-se mais palpável - e compreensível. Não tenho experiência de debates assim, e senti pena do Reuven, que, ao tentar abrir caminhos para a Paz, se expõe desta maneira. As suas palavras, que ainda há pouco soavam tão libertadoras, perdiam a força e tornavam-se quase ocas, impotentes perante os horrores a que os palestinianos são sistematicamente sujeitos. Ele não se deixou intimidar pelo ódio. Falou do perigo de generalizar ("os judeus" ou "os palestianos" ou "os alemães" são conceitos que servem a lógica do ódio e da violência), e apelou para a necessidade de desarmar a região e criar uma confederação entre Israel, a Jordânia e talvez a Síria, com a possibilidade de livre movimentação para todos: qualquer palestiniano tem o direito de regressar à Palestina ("isso mesmo, apoiado!", dizia o palestiniano), qualquer judeu tem o direito de se estabelecer na Jordânia ("era o que faltava!", dizia o palestiniano).

E concluiu: temos que acreditar num futuro de paz. Olhem para mim: um judeu que escapou ao Holocausto e hoje tem alemães entre os seus melhores amigos. Isto não é um sinal de esperança?!

Para terminar, contou que no fim da guerra dos seis dias, onde foi soldado e se sentia o vencedor mais triste do mundo, estava encarregado de fazer respeitar a hora de recolha obrigatória num bairro. Algumas crianças começaram a espreitá-lo por trás de uma cerca, e ao vê-las ele percebeu o absurdo e o peso terrível das granadas, do capacete e das botas. Deu-lhes chocolates, e elas em troca ofereceram-lhe uma velha gaita-de-beiços, que ele aprendeu a tocar, em memória daquele momento.

Terminou a sessão tocando canções árabes, alemãs, e uma belíssima melodia para o seu salmo preferido:

"Qual o homem que deseja a vida e quer longevidade para ver o bem? Preserva a tua língua do mal e os teus lábios de falarem falsamente. Evita o mal e pratica o bem, procura a paz e segue-a."

--

O Reuven Moskovitz morreu a 4 de Agosto de 2017, uma semanas antes de fazer 90 anos. Estava a preparar mais uma viagem à Alemanha, onde tinha agendado várias palestras sobre a Paz.


lutar contra o ódio no quotidiano (2)

A propósito do post que escrevi com exemplos de como desmontar os mecanismos de ódio, uma amiga ofereceu-me este texto:

CONTRA O FANATISMO (conferências de 2012 - Alemanha)
AMOS OZ

Vou contar uma história em jeito de divagação: eu sou um conhecido divagador.
Um querido amigo e colega meu, o admirável romancista israelita Sammy Michael, passou uma vez pela experiência, por que todos nós passamos de vez em quando, de andar de táxi durante um bom tempo com um condutor que lhe ia dando a típica palestra sobre como é importante para nós, Judeus, matar todos os Árabes. Sammy ouvia-o e, em vez de lhe gritar. "Que homem horrível que você é! É nazi ou fascista?", decidiu ir por outro caminho e perguntou-lhe: "E quem acha que deveria matar todos os Árabes?"
O taxista disse: "O que é que quer dizer com isso? Nós! Os Judeus israelistas! Temos de o fazer! Não há escolha. Veja só o que nos fazem todos os dias!" "Mas quem, especificamente, é que deveria fazer o trabalho? A polícia? Ou o Exército, talvez? O corpo de bombeiros ou as equipas médicas? Quem deveria fazer o trabalho?" O taxista coçou a cabeça e disse: "Penso que devíamos dividi-lo em partes iguais entre cada um de nós, cada um de nós devia matar alguns."
E Sammy Michael, ainda no mesmo jogo, disse:"Pois bem, suponha que a si lhe toca um determinado bloco residencial da sua cidade natal, Haifa, e que bate às portas ou toca às campainhas, e pergunta: "Desculpe, senhor, ou desculpe senhora. Por acaso é árabe'" E se a resposta for afirmativa, você dispara. Quando acaba o seu bloco, dispõe-se a regressar a casa, mas ao fazê-lo," continua Sammy "ouve, algures no quarto andar do seu bloco, o choro de um bebé. Voltaria para matar o bebé? Sim ou não?"
Houve um momento de silêncio e, então, o taxista disse a Sammy:
"Sabe, o senhor é um homem muito cruel."

10 outubro 2017

cá por casa

Ontem o Matthias veio cá jantar e ficou para dormir. O Fox ficou feliz: estamos completos!
("O Fox", hehehehehe)

Esta manhã ouvi a Christina a protestar no quarto:

- Matthias! Não fizeste a cama! Usaste a minha toalha! Que nojo! Blablablabla!

O Matthias foi ter com ela:

- Que é que Jesus Cristo nos ensinou?

- Hã?

- "Cala a boca e não chateies, senão ainda acabas pregado a uma cruz."

(Não admira que o Fox goste tanto de os ter por cá...)


09 outubro 2017

era para ser um post tipo Hola, mas depois o texto foi noutra direcção e eu - que remédio! - fui atrás

http://www.rtp.pt/play/p2850/os-dias-da-historia




O Badinter! O marido da Badinter, a que escreveu O Amor Incerto e Um é o Outro.

Como é possível ela escrever livros que apontam para o o século XXI, enquanto ele defende medidas que tiram a França do século XIX?!

Isto é um caso flagrante de uma França a duas velocidades.

 

oportunidade

Estou aqui a pensar se aproveito esta semana para dar um arranjo aos parafusos.

(Há um congresso de psiquiatria em Berlim, tenho psiquiatras nos dois quartos airbnb.)


08 outubro 2017

puré de marmelo


Por causa de ter posto esta foto no facebook, deram-me uma receita de puré de marmelo. Só para que não digam que eu sou de sonegar informação, aqui vai ela, tal e qual como a recebi (com um grande muito obrigada à Maria José C.):

1. num alguidar com água espremer o sumo de um limão (se for pequeno cortar em quartos e deitar a casca);
2. lavar os marmelos com uma escova (eu uso o esfregão verde) para lhe tirar aquela penug
em;
3. cortar em quartos, com casca e deitar para dentro do alguidar que tem a água e o limão;
4. pôr no lume uma panela com água para ferver;
5. enquanto esperamos que a água entre em ebulição vamos retirar as sementes (podem aproveitar-se para fazer geleia) aos quartos de marmelo que colocamos na mesma água;
6. no fim de todas tiradas lavamos rapidamente e colocamos na panela;
7. juntamos uma maçã ou batata ou ambas pois irá depender da acidez dos marmelos, do tamanho, daquilo de que dispomos e do tamanho das peças, por exemplo hoje fiz com as duas que eram assim mais ou menos de um ovo tamanho xxl para 2kg, a olhómetro, de marmelos depois de arranjados.  

As receitas tradicionais falam em colocar açúcar mas como cá por casa deixou de se comer a opção encontrada foi essa para tirar a acidez;
8. juntar um dente de alho e uma pitada de sal;
9. tampar e quando levantar fervura baixar para o mínimo;
10. quando o garfo entrar sem problemas está pronto;
11. escorrer a água para o esgoto ou para uma sopa eu hoje optei por esta última pois tinha ali um restito que nem para um chegava pelo que ficou assim um caldo de beber quase tipo consommé
12. colocar natas frescas ou manteiga ou ambas e triturar com a varinha mágica ou com um garfo como por cá o leite foi banido ficamos assim mas para quem ainda o usar pode pôr em vez das natas.
13. retificar os temperos e pôr mais alguma coisa ao gosot do freguês que pode ir de açafrão, pimenta, noz-moscada...

Et voilá. Bon appétit.


PS: quando se tem muitos, que é o meu caso, utilizando a mesma técnica até ao ponto 6 só que em vez da panela é arca congeladora e vai-se fazendo o puré até à época seguinte.






07 outubro 2017

coisas do Xavier




Esta foto transforma o Xavier num furacão "fofinho", ideia também transmitida pelos comentários do 9gag onde a encontrei: "psiu, deixem as árvores dormir" e "na Alemanha até as árvores caem de maneira a não impedir os alemães de chegar pontualmente ao trabalho".

A brincar que o digam, mas a minha filha saiu à rua na altura de maior violência do vento porque tinha uma reunião com uma professora para preparar um exame. E a minha irmã, que estava na ilha dos museus, tentou ir de um museu para outro. Demorou imenso tempo, porque sempre que levantava um pé o vento a empurrava para trás.

Em Berlim morreu uma mulher que saiu do carro para desimpedir a estrada. Esta morte trágica (e houve mais seis vítimas mortais), e o susto que senti quando as minhas raparigas disseram que tinham saído à rua durante o furacão, faz-me pensar que a espécie humana está a perder o instinto de sobrevivência.

Algumas imagens do Xavier:






Perto da minha casa, foi assim:



E no Ku'damm, junto à Igreja da Memória, assim (fotos tiradas de dentro do carro, com chuva):





Num registo de humor, acrescento ainda os estragos que aconteceram aqui na minha quintinha berlinense: 40% da produção de marmelos atirada ao chão.
(A árvore deu cinco, e encontrei dois caídos no chão. Os outros três já eu os tinha tirado.)


o muro


O Spiegel tem hoje uma notícia (de onde tirei a foto) sobre Viktor Orbán ter apresentado uma conta de 400 milhões de euros à Europa, que representa metade dos custos do muro de protecção da fronteira europeia na Hungria. O artigo fala da falta de transparência nas contas apresentadas, e da suspeita de que o político tenha favorecido empresas que apoiam o seu partido, mas nem reparo.

Só vejo este muro - este muro, na fronteira da Europa! Vejo o muro, e vejo a nossa cara de hipócritas quando criticamos o muro do Trump.


bibelots

(diz-me o google que a foto é de Pedro Coimbra, no http://devaneiosaoriente.blogspot.pt/)

A propósito desta "escultura" que homenageia o fado de Coimbra, lembrei-me de um amigo que fala com desgosto da mania do presidente da Câmara de Ponte de Lima de espalhar "bibelots" pela cidade. Aquela bonecada junto ao rio Lima com os soldados romanos de um lado e o centurião do outro, aqueles bronzes meramente descritivos de um Portugal rural e de carinha lavada...

Imagino que o presidente da Câmara de Ponte de Lima tenha o menino da lágrima na sala da casa dele. E que o de Coimbra terá na sua sala os calendários que dantes se viam nas lojas dos sapateiros...

Perante este rabo que tanto revela sobre quem o fez e quem o pagou, pergunto-me como seria a escultura no Arco de Almedina se o instrumento do fado de Coimbra fosse a gaita-de-foles...

(fonte)


(Acabei de descobrir no pinterest uma colecção de escatologia à moda dos antigos. Por sorte são horas de levar o Fox à rua. Vade retro, tentação!)


05 outubro 2017

hoje em Berlim

Coisas da vida: quando estava a sair para levar o Fox ao seu passeio, chegou o Xavier. O Xavier é o temporal que está a passar pelo norte da Alemanha, e já matou uma pessoa em Hamburgo. 
O Fox está cada vez mais aflito, mas não sei que me parece levá-lo a passear no meio desta ventania. Ainda leva com não sei quê na cabeça. Ele, e eu. Estou a pensar levar um capacete de bicicleta. 

ADENDA: já fomos, já voltámos. Conseguimos passar entre as rajadas de vento...

 Mas a situação é séria - os bombeiros declararam estado de emergência. No centro da cidade há uma série de árvores caídas, a S-Bahn não anda. Daqui a bocado saio de carro para ir recolher os familiares que tenho espalhados pela cidade. E depois vamos à Filarmonia - espero que seja uma construção sólida...

Ilhas Feroé



Não sei se me apetece fazer férias numa terra que tem quarenta palavras diferentes para nevoeiro, mas gostei do anúncio.

Publicidade excelente. O filme em si, e o que vem depois: carrega-se em "saber mais", e entra-se no "Faroe Islands translator". Escreve-se uma palavra qualquer, e aparece um pequeno filme com alguém de lá a dizer a tradução. Se a palavra ou frase ainda não estiver traduzida, é enviada para alguém que traduza. Enquanto esperamos, mostram-nos imagens maravilhosas da ilha. E daí a nada aparece o filme de alguém que traduz directamente para nós. No meu caso: uma senhora muito simpática, que disse a minha frase pateta em - hã? como é que se chama a língua deles? - e me sorriu.

Experimentem. Isto é mais que bom: isto dá vontade de ir lá agradecer pessoalmente àquela gente simpática. E para mais a terra é linda de morrer. Excepto aquela parte de ter tanto nevoeiro, e tão diverso, que o designam com quarenta palavras diferentes. 


o script era bom, o elenco é que...


A culpa de o Nobel não ter ido para o Lobo Antunes é do Ivo Ferreira. Tivesse ele posto o Anthony Hopkins a fazer de António e a Emma Thompson a fazer de Maria José, e a história seria outra.

É o problema das produções nacionais: não há dinheiro para nada, e dá nisto.

(Ponho-me com estas piadinhas, e depois acho estranho se o Miguel Nunes e a Margarida Vila-Nova passarem por mim na rua e fizerem como se não me conhecessem de lado nenhum...)

(Para quem não percebeu a gracinha: eles não me conhecem de lado nenhum.)

(Espero que os meus filhos não leiam isto. Iam comentar: "ui, hoje a mãe engoliu um palhaço ao pequeno-almoço.")


se isto não é um sinal, não sei o que possa ser um sinal!

Esta noite sonhei que estava a sonhar que tinha uma vida muito boa mas havia uma ansiedade de querer ainda mais. Dentro do sonho olhei para essa que sonhava, critiquei aquele exagero de ambição, e pensei que quando acordasse escrevia uma crónica sobre esta história.

Se isto não é um sinal, não sei o que possa ser um sinal!

Se houvesse ainda dúvidas, deixava agora de haver: hoje é o dia do Lobo Antunes. O Nobel é dele.


ADENDA:
Kazuo Ishiguro?!!!!
Eles estão é mazé todos malucos!


04 outubro 2017

Nobel da Literatura 2017 - é já amanhã!

Amanhã anunciam o Nobel da literatura de 2017.
Aposto com quem quiser que desta vez vai para Portugal.


(e não, não vai ser para o - como é que se chama aquele gajo que não sei quê jornalista e produz em catadupa, quase como eu quando ando com gastroenterite?) (nem para o arquitecto) (e nem para um blogue que eu cá sei, embora me pareça que depois do teatro, do jornalismo e da música, já começava a ser tempo de darem o passo seguinte)

a culpa começou por ser da Hola

A culpa começou por ser da Hola: habituou-me a ver este Filipe de Espanha como um simpático figurante.
A culpa começou por ser da Hola, mas agora é dele.

(E nem sequer tenho opiniões firmes sobre a independência da Catalunha. Apenas tenho opiniões firmes sobre um governo que usa a força bruta contra cidadãos que querem pacificamente exprimir a sua vontade. Uma crise destas não se resolve nem com força bruta nem com um discurso tipo paizinho a falar com os filhos de três anos - e muito menos com um discurso tipo paizinho a falar com os filhos de três anos depois da força bruta.
"Eu bato-te, mas é para teu bem"?!
Mais valia ter ficado sossegadinho dentro da Hola.)




02 outubro 2017

lutar contra o ódio no quotidiano

Sob o choque do massacre em Las Vegas, e sem saber ainda o que levou aquele tresloucado a cometer tamanho crime, volto à questão primordial dos mecanismos da nossa sociedade que semeiam e alimentam o ódio no quotidiano.

Um dos meus desafios é ser capaz de encontrar as palavras certas para tirar a carga de violência a uma situação. Muito mais importante que "meter as pessoas na ordem" é conseguir escapar à lógica do ódio. É difícil, e raramente consigo. Permanece um desafio. Algumas histórias, a propósito:

I. Já contei esta várias vezes: num retiro, durante uma refeição duas pessoas começaram a conversar sobre música clássica. Às tantas, uma delas exclamou em voz demasiado alta:
- O quê?! O senhor não conhece Brahms?!
O senhor que não conhecia Brahms ficou muito enfiado, a morrer de vergonha. A sala encheu-se de um silêncio desconfortável. E então, outra pessoa disse:
- Vejo que gosta muito de Brahms. Quer-nos contar algumas coisas sobre ele? Qual é a sua sinfonia favorita?

II. Há dias a Christina contava-me que vinha de noite num autocarro e reparou que havia um passageiro de pele escura, provavelmente embriagado, que estava a dormir. Estavam a chegar ao fim da linha, e ela decidiu ficar por perto para ver o que acontecia. Viu o motorista dirigir-se ao passageiro, viu que o chamava aos gritos, e que assobiava. Quando ouviu o barulho de uma pancada forte voltou para o autocarro e pôs-se a olhar, para impedir que o motorista fosse violento. Conversámos sobre isso, e concluímos que não basta olhar. Melhor teria sido ela dizer ao motorista: "tem aqui um passageiro adormecido - deixe estar, que eu acordo-o para ele sair".
"Dar o exemplo", rematou ela.


III. No metro, reparei em duas miúdas de hijab. Uma delas tinha dois balões de hélio - um 1 e um 8. Provavelmente faria 18 anos nesse dia. A outra mexeu na bolsa, e deixou cair ao chão dois lenços de papel usados. Olhei para o lixo no chão, pensei coisas feias que não repito aqui. Ela reparou nos lenços, apanhou-os do chão e pousou-os no banco. Voltei a pensar coisas feias, e senti-me mesquinha: não sabia se a miúda ia deixar o lixo ali ou o levava com ela no fim da viagem, mas já estava a pensar o pior possível dela. E o hijab ajudava a aumentar o fosso da desconfiança: "estes estrangeiros que não respeitam os costumes do país!"
Decidi mudar de atitude. Ao sair, sorri à miúda dos lenços, expliquei que ia deitar fora um saco de papel e se quisesse podia levar também o lixo dela. Ela meteu o lixo no meu saco, e eu dei os parabéns e desejei um belíssimo dia à miúda que fazia anos, que me sorriu com um ar feliz.

IV. Há vários anos, quando ainda morava em Weimar, vi três rapazes a gritar a uma mulher. Um deu-lhe uma bofetada. Atravessei a rua furiosa, ia ralhar, mas enchi-me de medo das consequências, e lembrei-me também de como os meus filhos me gozavam quando ralhava com eles em alemão. De modo que optei por uma frase minimalista: "que é que se está a passar aqui?"
Um dos rapazes veio ter comigo e explicou o que se tinha passado. Eles estavam a conversar em frente à loja, e a mulher quis mandá-los embora, dizendo que não podiam estar ali. A discussão descambou para a bofetada que eu vira. Dei-lhe razão, ela não tinha direito de os tratar assim, mas eles também não lhe podiam bater. Deu-me razão. Daí a nada, os três foram-se embora.
Por causa de não me sentir em casa no idioma deles, em vez de ralhar fiz perguntas. Foi por acaso, mas consegui desfazer uma situação de violência.

V. No sábado, a caminho do supermercado, reparei num homem que estava a mandar vir com dois sentados numa esplanada. "A minha vontade era partir isto tudo!", gritava ele. E um dos homens, sentado, dizia-lhe com voz grossa: "desapareça daqui! Eu quero tomar o meu pequeno-almoço em paz!"
O homem afastava-se, e daí a nada voltava outra vez: "Estou com uma fúria tal que era capaz de partir tudo! Era o que vocês mereciam todos!"
E o outro: "Vá-se embora! Deixe-nos em paz!"
Ando há dois dias a pensar que devia ter ido falar com o furioso: "O senhor está mesmo zangado! Acha que se eu lhe oferecer um cappuccino se vai sentir melhor? Prefere um chá? Uma água fresca?"


massacre em Las Vegas



Trago do Bildzeitung:

Um homem fecha-se num quarto num 32º andar de um hotel, aponta para um festival onde há trinta mil pessoas, e começa a disparar. 280 tiros em 31 segundos. Alguém contou que ouviu e pensou que era fogo de artifício, até que as pessoas ao seu lado começaram a cair.

Dentro do quarto de hotel o fumo é tanto que o alarme de incêndio dispara, revelando a localização do atirador. Quando a polícia entra no quarto encontra o homem morto.

Era Stephen Craig Paddock, um branco de 64 anos, que vivia em Mesquite (uma localidade a 120 km de Las Vegas), já conhecido da polícia. Entrou no hotel na quinta-feira, tinha 10 armas consigo. Tinha licença de porte de arma e de piloto de avião.
Não se conhecem ainda os seus motivos.

O desconserto do mundo: sempre houve loucos entre nós, e sempre houve ódio - religioso ou outro.
Mas nos nossos dias a loucura e o ódio têm à sua disposição armas muito mais letais do que tinham no passado. O progresso vira-se contra o seu criador.  

Desta vez foram mais de cinquenta vítimas mortais, pessoas que estavam a saborear pacificamente um concerto em Las Vegas. Daqui a algum tempo saberemos o que levou aquele homem a cometer este massacre. Para já, penso apenas no terrível sofrimento das suas famílias e dos amigos, penso no choque dos sobreviventes.




Oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz?


Não tem nada a ver, mas enquanto lia este texto lembrei-me dos nossos primeiros dias nos EUA. O Matthias tinha 3 anos, ensaiava os primeiros passos no inglês, e esta era a sua canção preferida. É certo que, para ele, era um texto relativamente fácil de aprender, porque tinha algumas palavras que qualquer alemãozinho do sul da Alemanha conhece bem - mas havia nesta canção algo que lhe fazia brilhar os olhos.

Nesta, e no Master of the House, de Les Misérables. Sim, uma das primeiras coisas que fiz naquela terra foi levar os miúdos, de 3 e 5 anos, a esse musical, e depois disso andámos a ouvir o CD em repeat.

(Avisem a polícia: há uma mulher a descer a Memory Lane em pijama, agora mesmo foi lá avistada)



01 outubro 2017

nós somos ricos



Uma vez há muitos anos, de férias na nossa "quintinha minhota", por preguiça de ir ao supermercado  resolvi desenrascar o almoço com o que tinha por ali: apanhei beldroegas, tomates e pimentos no campo, levei dos cobertos algumas batatas e cebolas da vizinha, ovos da capoeira.
Sopa, arroz de tomate e pimentos e ovos estrelados.

À mesa, a Christina perguntou:
- Fizeste isto tudo sem ir ao supermercado?!
- Fiz.
- Ooooh... então nós somos ricos, mãe!

Ontem fui à minha "quintinha berlinense", o talhão de jardim por trás da casa, e fiz esta colheita: tomates de oito tipos diferentes, feijão verde e amarelo, batatas azuis, menta e hortelã, pimentos vermelhos e laranja, marmelos, courgettes.

São uns oitenta metros quadrados de terra-areia, esta triste terra berlinense, e dão-me uma reconfortante sensação de abundância. Nós somos ricos!


30 setembro 2017

"tropical"

 (foto)

Na Enciclopédia Ilustrada:

Amigos, boas notícias: somos poderosos!
Por exemplo, ontem: no dia em que a palavra mágica era "tropical" fui à Filarmonia, abri o programa - e que vejo? Publicidade a uma exposição em Berlim sobre "Roberto Burle Marx: modernismo tropical". Eis portanto a contribuição da Filarmonia de Berlim para a palavrinha do dia (ahem, enquanto não põem a de hoje).

Roberto Burle Marx (1909–1994) é autor do famoso passeio de Copacabana. E de muito mais, mas comecemos pelo princípio: os artigos nos jornais alemães que li, a propósito desta exposição, dizem que era um homem da Renascença no séc. XX - arquitecto paisagista, pintor, escultor, cenógrafo, designer, ecologista e cantor. Nos seus 60 anos de actividade criou mais de dois mil jardins e descobriu em expedições quase 50 novas espécies botânicas. Filho de um judeu alemão e de uma brasileira, foi numa estadia na Berlim dos anos 20 que contactou pela primeira vez com o expressionismo alemão e descobriu o interesse pelas plantas tropicais, desprezadas num Brasil ainda sob o efeito de modelos colonialistas. Decidiu revolucionar a arte de fazer jardins no seu país, introduzindo as plantas autóctones.
Mais tarde começou a aplicar os princípios da pintura abstracta aos seus jardins. Telas abstractas enriquecidas com uma terceira dimensão (a altura) e várias outras (a luz, a textura, o passar do tempo, o crescimento e o ciclo de vida das plantas): o jardim como escultura abstracta viva.
Juntamente com os arquitectos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, criou os caminhos de modernidade que deram um rosto característico a cidades como Brasília e o Rio de Janeiro.


Um exemplo de uma inovação sua que agora se vê em inúmeros campos de futebol: ervas de cores diferentes no parque Burle Marx em São Paulo:

(foto)

Procurem no google imagens por "Roberto Burle Marx" - é um fartote de beleza e surpresa!

[Provavelmente já deu para reparar que até ontem à noite eu nem sabia que este homem existia... Shame on me, pronto, é uma triste vida. 

- Aprende-se muito na Filarmonia, é só o que vos digo ]


29 setembro 2017

depois do concerto

Depois do concerto de ontem na Filarmonia juntou-se um grupo enorme de pessoas na paragem do autocarro. Quando este chegou, apinhámo-nos lá dentro como pudemos. O condutor começou a falar pelo microfone:

- Boa noite a todos! Espero que tenham tido um belo serão. Agora vão aqui apertados - mas têm uma vantagem: não precisam de se preocupar com agarrar-se bem para não cair.

Gargalhada geral. O condutor continuou:

- Por favor, não se irritem com as condições desta viagem. Olhem à esquerda e à direita, pode ser que encontrem alguém com ar simpático que queiram vir a conhecer melhor. Aproveitem a oportunidade, sabe-se lá quando é que vão voltar a ter tanta proximidade humana...

Aplausos e risos.

- Mas estejam também atentos às carteiras. Às vezes há por aí carteiristas. 

À chegada ao zoo, avisou:

- Estamos a chegar ao nosso destino. Antes de saírem verifiquem se não esqueceram nada. Pode poupar-vos muitas correrias amanhã. Desejo a todos uma boa noite, e um bom caminho até casa, até ao hotel, ou até onde queiram ir.


Uma multidão a sair de um autocarro, e todos sorriam.


Hindemith e Brahms na Filarmonia (um post com brinde)

Ontem assisti a um concerto memorável na Filarmonia de Berlim, desculpem o pleonasmo.

E para não dizerem que sou mete-nojo, aqui deixo um brinde para quem o quiser ver em directo: a transmissão vai ser no Digital Concert Hall amanhã, sábado, às sete da tarde em Berlim (seis em Portugal). Entrem no site, inscrevam-se, e quando vos pedirem o código, escrevam BLG78X48. Assistem ao concerto e ficam com o DCH aberto durante 48 horas consecutivas.
Encontrei o voucher no programa do DCH para esta temporada. Espero que a empresa me pague a publicidade, em vez de me meter na cadeia por considerar que divulguei um segredo deles.

Vejam (e, se gostarem, considerem dar aos vossos amigos de presente de Natal um voucher para uma semana ou um mês) (isto sou eu a tentar compor mentalmente a minha defesa: "senhor juiz...") e depois digam-me se o Daniele Gatti não é um mimo. 

Na primeira parte tocaram a sinfonia "Mathis, o pintor", de Hindemith.
Aos anos que ando a dizer que não gosto de Hindemith, e zimbas: lá tive de dizer adeus a mais uma das minhas manias. O primeiro andamento desta sinfonia é sublime.
Os outros também.

Do programa do concerto: Hindemith compôs esta sinfonia a convite de Wilhelm Fürtwangler, o maestro dos Filarmónicos de Berlim, que a apresenta a 12 de Março de 1934. Ao entusiástico aplauso do público segue-se a perseguição dos nazis. Göhring transmite pessoalmente a Fürtwangler a proibição, decretada por Hitler, de tocar aquela peça. Fürtwangler protege Hindemith num artigo muito franco publicado num diário alemão, a que dá o título "O Caso Hindemith". Os argumentos são bizarros, mas eram os possíveis naqueles tempos de III Reich: o compositor de "puro sangue germânico" fez muito para impor a música alemã no mundo. Afirma que se trata de "uma questão geral de princípios. Mais ainda, e também não pode haver dúvidas a esse respeito: perante um panorama mundial de desgraçada pobreza no que diz respeito a músicos que produzem com esta qualidade, não podemos dar-nos ao luxo de renunciar a um homem como Hindemith". A resposta cínica do regime nazi não se faz esperar: proíbe a execução em público de qualquer peça de Hindemith. Este decide abandonar o ensino no conservatório berlinense, e emigra para a Suíça em Setembro de 1937.

O programa alude aos paralelos entre o contexto no qual decorrem os trabalhos criativos de Hindemith e de Mathis Gothart Nithart (que entrou na História como Matthias Grünewald), e que explicam parte do ódio dos nazis a esta obra. Da wikipedia em francês, sobre a ópera de Hindemith, com o mesmo nome e temas da sinfonia: peintre et ingénieur hydraulique allemand de la Renaissance, contemporain d'Albrecht Dürer et qui a inspiré certains peintres expressionnistes du début du XXe siècle. Le livret situe l'action durant la Révolte des Rustauds vers 1525. La lutte de Mathis pour l'expression artistique dans le climat répressif de son époque est clairement le reflet de la propre vie de Hindemith, qui a commencé à écrire le livret alors que les Nazis arrivaient au pouvoir. Ceux-ci ont qualifié Hindemith de « bolchevik musical » et Hindemith s'est alors exilé aux États-Unis d'Amérique.

Deixo-vos os três andamentos da peça, com Hindemith a dirigir os Filarmónicos de Berlim, e imagens das partes correspondentes do retábulo de Matthias Grünewald (o tal Mathis) em Isenheim. Vale a pena ouvir os andamentos contemplando as imagens - podem carregar nas fotos para ver melhor).
1. Concerto dos anjos








2.  Enterro

(foto)



3.  Tentação de S. Antão

 
 (foto)










Depois do intervalo foi a vez da segunda sinfonia de Brahms.
Como este post já vai longo, ficamos assim: cada vez gosto mais de Brahms.




de que é que te queixas? vá, calma, não exageres!



Uma vez os meus irmãos andavam a brincar aos Tarzan, e um deles caiu de uma árvore e partiu o braço. Começou a chorar com dores, mas o mais velho (tinha 11 anos nesse verão) disse-lhe "porque é que estás aí a chorar e a queixar-te? o teu braço não pode estar partido - se estivesse partido, de tantas dores que tinhas estavas aí a chorar!"
Contaram-me isto uns dias depois, e riam ambos sobre a parvoíce da frase. Mas a verdade é que o pobre do miúdo de 7 anos andou a tarde toda com o grupo, cheio de dores e tentando reprimir os gemidos e as lágrimas para não dar parte de fraco, porque alguém diagnosticara que não havia motivo para ele sentir o que sentia.

Lembrei-me deste episódio a propósito do modo como mandam calar as mulheres quando elas se queixam. Particularmente interessante quando são mulheres quem desvaloriza o que lhes acontece, quem obriga as outras a fazer de conta que nada disso é importante, quem escolhe proteger e desculpar o comportamento de certos homens, quer bagatelizando o comportamento em si, quer exagerando o carácter ameaçador da reacção: "estas feministas que odeiam homens e querem abrir uma guerra contra eles". 
Não, minhas senhoras, é muito mais simples que isso: é apenas como um miúdo de sete anos que caiu, partiu o braço, está com dores, e precisa de resolver o problema em vez de ser obrigado a fazer boa cara para corresponder àquilo que outros pensam ser a ordem natural das coisas.

--

Encontrei no facebook esta fotografia de uma acção que está a decorrer de momento em Nantes, e vinha com um desafio: se cada mulher marcasse da mesma forma os sítios do espaço público português onde tivesse sido assediada/agredida, este país vinha abaixo com o banho de realidade.
Acrescento uma sugestão: cores diferentes conforme o grupo etário das vítimas no momento da agressão.



28 setembro 2017

oh pá, oh pá, oh pá!



Esta miúda: 12 anos, excelente ventríloqua, excelente cantora, excelente humorista.
E a segurança dela em relação a Simon Cowell, o mais difícil membro daquele júri, o que mete medo a todos? A partida que lhe prega?
Impagável.


27 setembro 2017

segurança para as mulheres nos transportes públicos



Ontem, num S-Bahn de Berlim, ouvi dois miúdos de cerca de dez anos a conversar:
Ela: De que tipo de transportes públicos gostas mais?
Ele: S-Bahn, por ser o mais rápido. A seguir, Metro.
Ela: Eu prefiro autocarros.
Ele: Autocarros?! Odeio autocarros! São muito lentos.
Ela: Mas se precisares de ajuda tens o motorista por perto. Nos comboios, o motorista não te vê e não te pode ajudar. Sempre que é possível, prefiro ir de autocarro.

Está tudo aqui: aos 10 anos, ela já está condicionada para fazer escolhas em função da segurança, e aceita gastar cinco ou dez vezes mais tempo numa deslocação em transportes públicos; ele move-se com mais liberdade porque a sua segurança pessoal não é uma preocupação e um critério na escolha.

Essa miúda berlinense não é uma excepção. No outro lado da escala etária e do mundo, recebi no mês passado em San Francisco, de uma amiga de 65 anos, o conselho de usar o metro para ir ao centro, porque se fosse de autocarro podia ter experiências desagradáveis na zona da Market Street.

Não sei quanto deste sentimento de insegurança nos transportes públicos é subjectivo, quanto é condicionado pela educação das raparigas ou por estratégias de poder (como por exemplo o que ultimamente acontece na Alemanha: a disseminação propositada da ideia de que a insegurança aumentou devido aos refugiados), e quanto se baseia em factos e em ameaças reais. O primeiro passo para conduzir este debate com seriedade seria perguntar às mulheres que usam transportes públicos:
- se a segurança é um tema que as preocupa, e se se sentem seguras ou, pelo contrário, ameaçadas;
- que medidas tomam para se sentirem em segurança;
- quais são as horas e os locais em que sentem maior insegurança;
- quais os motivos para a sensação de insegurança;
- que casos concretos de violência ou assédio tiveram;
Não estou a inventar nada - limitei-me a copiar questões de um estudo realizado em Heidelberg em 1994, com um inquérito a 575 mulheres entre os 13 e os 86 anos sobre o seu sentimento de segurança no espaço público, que revelou que, entre as inquiridas, havia:
- 74% vítimas de assédio verbal
- 69% vítimas de olhares invasivos e desagradáveis
- 48% vítimas de perseguição na rua
- 44% que foram agarradas ou empurradas
- 39% vítimas de assédio sexual
- 23% que tiveram alguém a barrar-lhes o caminho
- 6% vítimas de violação
- 6% que foram assaltadas
- 3% que foram atacadas com uma arma

Não sei se estes números correspondem à realidade no espaço público e em particular nos transportes colectivos portugueses. Mas vejo que a PSP entende que  "as mulheres, só por o serem, correm riscos específicos", e dá uma série de conselhos às mulheres caso viajem sozinhas à noite nos transportes públicos. Admito portanto, com base nestas recomendações da PSP, que o problema da segurança das mulheres nos transportes públicos em Portugal não é apenas subjectivo e condicionado, nem invenção da extrema-direita para instalar uma agenda xenófoba. E se o problema existe, há que lhe dar resposta. 

Não li a proposta concreta da Joana Amaral Dias para a criação de espaços reservados para mulheres nos transportes públicos. Gostava de saber se propõe segregação (carruagens ou compartimentos separados), ou se se trata apenas de lugares prioritários, perto de funcionários dos transportes públicos, ou perto de um microfone com ligação para agentes de segurança. Também gostava de saber se inclui medidas para aumentar a segurança nas paragens, nos túneis do metro, e no caminho entre o transporte e a casa de destino (uma vez que muitas vezes os ataques ocorrem depois da saída do veículo).

Quanto às críticas que esta proposta suscitou, por parte de feministas, vejamos algumas das que li:

"Aonde vamos parar se são as mulheres que têm de mudar as suas rotinas?", perguntam.
Vamos parar aonde já estamos há muito tempo: aos dez anos, as miúdas já começam a escolher o transporte público em função da segurança; e aos 65 anos continuam a fazê-lo; as mulheres que têm meios para isso deslocam-se no seu próprio carro ou de táxi; durante a noite há muito menos mulheres a viajar sozinhas nos transportes públicos - no limite, preferem ficar em casa a correr o risco de serem importunadas.
As mulheres tomam decisões em função da sua segurança de forma tão rotineira que já nem reparam. E a muitas é aconselhado fazer um curso de autodefesa. Ora, haverá mudança de rotina mais violenta que essa de ter de aprender a dar um pontapé na região genital de um homem?

"Não à segregação!", protestam.
E não se dão conta de que, especialmente à noite, a segregação já existe no nosso quotidiano: quem tem meios para isso, em vez de ir nas "carruagens mistas" dos transportes públicos, vai de táxi ou no seu carro privado. Quem não tem meios fica em casa, ou então entra no pequeno grupo de mulheres que durante a noite andam nos transportes sem ser acompanhadas.

"Esta medida é um retrocesso - fere a igualdade, vitimiza as mulheres e dá delas a imagem de seres inferiores", dizem.  
Uma coisa é igualdade, outra coisa é equidade. Se há no espaço público um tipo de violência que se dirige especificamente contra as mulheres, e geralmente é exercido por homens ou grupos de homens mais fortes que elas, não faz sentido falar em igualdade. Esta só é atingida depois de dar às mulheres condições para se movimentarem no espaço público livres dos riscos que as atingem especificamente. 
Gostava muito de saber das mulheres que não têm meios para andar de táxi ou num carro seu, e que por isso se sujeitam a andar nos transportes públicos ou até a não sair à noite, o que pensam sobre haver lugares reservados para elas nos transportes junto de alguém ou de um equipamento que lhes possa proporcionar ajuda em caso de perigo: é um retrocesso ou uma melhoria importante na sua qualidade de vida?

"A solução é educar, educar, educar.", dizem também. Com certeza que sim (ou talvez não, mas não vou discutir isso neste post) - no entanto, enquanto a educação está a germinar para dar frutos, é preciso arranjar soluções exequíveis para os problemas que hoje afectam as mulheres.

"A Joana Amaral Dias lembrou-se de inventar um tema populista sem interesse nenhum a não ser conseguir publicidade.", acusam.
Não sei. A PSP considera que é um problema, eu tenho motivos concretos e pessoais para considerar que é um problema. O tal inquérito às utentes dos transportes públicos podia ajudar a fazer mais luz sobre o assunto.

"Como se não houvesse problemas mais importantes", lamentam-se.
Pois, enquanto houver fome em África não se faz mais nada...

Não tenho a menor dúvida de que uma mulher tem direito a andar no espaço público - seja numa rua escura seja num transporte público - sem ter de medir os riscos e sem ser importunada.
Não tenho a menor dúvida de que uma mulher que for vítima de violência de género ao andar numa rua escura ou entrar num veículo de transporte público sem ter medido os riscos não é culpada dessa violência. Também não tenho dúvidas sobre isso: a culpa é toda do agressor.
As mulheres não são culpadas, mas podem ser vítimas - e carregam tanto o peso de terem de estar permanentemente de sobreaviso como as consequências de terem tido o azar de apanhar um delinquente pela proa.

Finalmente: não podemos deixar que sejam as mulheres mais pobres - as tais que não têm meios para promoverem a sua segregação privada em carro privado ou táxi - quem paga o preço dos nossos princípios feministas. Sim, estou a introduzir no debate a questão das classes sociais. Estou até a insinuar que praticamente nenhuma das pessoas que critica o "retrocesso" e a "segregação" se lembraria de dizer hoje a uma filha sua de 18, 30 ou 40 anos que no fim da festa tem de regressar a casa de metro e autocarro porque não faz sentido ela, por ser mulher, querer viajar separada dos homens. 

Os termos deste debate lembram-me a canção de Brecht: "Vocês, que amam a própria pança e a nossa obediência/ Aprendam de uma vez por todas/ Como quer que virem e revirem/ Primeiro vem a barriga, depois vem a moral/ Primeiro é preciso que também os pobres/ Recebam a sua parte do pão."

Não é o pão, é a segurança: tem de ser igual para todas. E só depois vem a moral.

um motivo forte para continuar a viver na Alemanha

O telefone tocou às 7:15. Era a repartição das Finanças, a responder a um e-mail que mandei anteontem, protestando por me terem passado uma multa de 10 euros devido a um atraso no envio de um formulário. A senhora explicou-me porque é que eu não tinha razão no protesto, mas, uma vez que viu no meu historial que pago sempre sem atrasos nem complicações, sugeria que eu lhe enviasse uma mensagem a pedir para me perdoarem essa multa. A seguir escreveu-me um e-mail, para eu ter o endereço ao qual responder.


Resolvi o problema ainda em pijama, antes do primeiro café da manhã.

(Já uma vez recebi uma mensagem das Finanças às seis da manhã. Suspeito que aqueles funcionários trabalham tranquilamente de madrugada, depois atendem o público, e ao princípio da tarde vão à vida deles, tendo já terminado mais um dia inteiro de trabalho.)



é assim

Faz hoje dois anos (diz o facebook, portanto deve ser verdade) que me aconteceu esta fotografia: eu a querer fotograr o voo de um pássaro recortado contra a lua cheia, e o raio do bicho resolve fazer esta figura. 
(A minha vida é assim: eu a querer fazer uma coisa, e vem ela e faz-me outra, e muitas vezes é ainda melhor.) (Também é verdade que Deus dá as nozes a quem não as sabe comer, mas pronto, isso há-de ser depois esclarecido lá no andar de cima, e não tem pressa nenhuma.)

26 setembro 2017

a AfD e as lamúrias sobre "a ditadura do politicamente correcto"

Há tempos, Alice Weidel, uma das figuras mais importantes da AfD, disse que "o lugar do politicamente correcto é na lixeira da História", e foi muito aplaudida. (*)

Entretanto já sabemos a que é que ela se referia, e não era a lamúria já muito nossa conhecida, do género "hoje em dia já não se pode dizer nada, há sempre alguém que fique ofendido...". Ia muito mais longe: ao atacar o "politicamente correcto", o que a AfD pretende é poder alertar abertamente para "a conspiração judaica mundial", afirmar que o Holocausto é um mito resultante de uma manipulação, defender a protecção do povo alemão contra "a estratégia de miscigenação com o objectivo de o enfraquecer", e outras "banalidades" do género.

Sobre a AfD estamos conversados. A questão que me interessa agora dirige-se às pessoas que se lamuriam por causa do colete de forças da "politicamente correcto":

Que combate querem combater?
Querem mesmo retroceder nos esforços para uma comunicação consciente do poder de determinadas palavras para humilhar e reforçar preconceitos? Porquê?
E se querem lutar abertamente a favor desse retrocesso, como vão impedir a abertura dos diques que tornam um discurso de ódio como o da AfD de novo aceitável nas nossas sociedades?
Defendem que a liberdade de expressão inclui o direito de fazer discurso de ódio, do antisemitismo, de racismo?
As pessoas têm o direito de dizer tudo o que lhes apetecer, e não devem ser sequer criticadas por isso?

A propósito: nos EUA há um site que divulga fotos das pessoas que participaram na manif racista em Charlottesville, o que levou a que algumas delas perdessem o emprego. Tenho sentimentos contraditórios em relação a esta acção e às suas consequências - que me dizem vocês?

--

(*) A seguir um engraçadinho de um programa satírico mostrou a passagem do discurso em que Alice Weidel dizia "o lugar do politicamente correcto é na lixeira da História", e comentou: "acho que a badalhoca nazi tem toda a razão! (espero ter sido suficientemente politicamente incorrecto)" - e ela foi-se queixar a um tribunal, o que foi motivo para chacota geral.


25 setembro 2017

síntese dos programas dos partidos com assento no Parlamento alemão

No domingo das eleições, para ajudar os indecisos a escolher em que partido votar, o jornal Bild publicou online a síntese que traduzo a seguir. Aviso que se trata de uma tradução demasiado rápida, que não explica muitas das questões e pode até ter erros - mas não tenho tempo para mais, e penso que mesmo assim vale a pena ter uma ideia dos programas dos partidos com assento no Parlamento alemão. 


CDU/CSU
- Refugiados - gestão "inteligente", por meio de uma "lei de admissão para pessoas com formação profissional"; continuar a aceitar a entrada de refugiados (a CSU quer um limite de 200.000 refugiados por ano).
- Segurança interna/Polícia - Mais 15.000 polícias, mais controle por vídeo; mais cooperação entre as secretas e a polícia; treino antiterrorismo em conjunto para polícia e exército (CSU: pulseira electrónica para terroristas potenciais).
- Reforma - nada de novo, reforma aos 67 anos segundo o esquema tradicional, e um grupo de estudo para debater as perspectivas após 2030.
- Política de família - o abono de família (192 euros por criança/mês) deve ser aumentado 25 euros; isenção de impostos em função dos filhos deve subir até ao nível da isenção para adultos; direito a ter escola primária durante todo o dia [ou seja: criação de actividades nas escolas que permitam aos pais trabalhar a tempo inteiro]. 
- Impostos/Finanças - aliviar os impostos em 15 mil milhões de euros; sem qualquer subida de impostos; o imposto de solidariedade [imposto complementar criado para pagar a reunificação] vai ser desmontado por fases a partir de 2020; o rendimento ao qual se aplica a taxa de imposto máxima (42%) deve passar de 54.000 para 60.000 euros anuais.
- Trabalho/Política social - dias de trabalho flexíveis sem mudar o número de horas de trabalho semanais; direito a trabalhar a meio tempo por um período determinado; atrair empregos com futuro (digitalização, biotécnica, ambiente, saúde). Objectivo: pleno emprego em 2025.
- Educação/Escolas - mais lugares em infantários, direito a cuidados durante o dia inteiro por parte da escola primária; os liceus continuam independentes; mais possibilidades de passar de uma via de ensino para outra [via para ensino superior e via profissionalizante]; apoio a institutos de ensino superior que promovam a inovação digital. 
- Saúde - mantém-se o sistema de caixas públicas/seguros privados; fim das propinas para a formação na área da saúde; os filhos só são obrigados a pagar o lar de cuidados continuados dos pais a partir de um rendimento anual de 100.000 euros.
- Meio ambiente - defesa do clima; implementar as normas da UE sobre poluição nas cidades até 2020; saída do nuclear até 2023; a longo prazo, substituir carvão, petróleo e gás por energias menos nocivas ao ambiente.
- Europa - fortalecer o "motor de crescimento" da Europa; linha dura contra a Turquia e os que saem da UE, como a Grã-Bretanha; proteger melhor as fronteiras exteriores da Europa; melhor cooperação na protecção contra o terrorismo e na distribuição de refugiados.

SPD

- Refugiados - socorrer os refugiados que precisam de ajuda, atrair profissionais estrangeiros segundo as necessidades; os pedidos de asilo devem ser feitos antes da entrada na UE; as pessoas que pedem asilo devem ser distribuídas de forma justa na Europa.
- Segurança interna/Polícia - mais 15.000 polícias e mais controle por vídeo, como a CDU; maior coordenação entre os serviços da Federação e os dos Estados na luta contra terrorismo, criminalidade bancária e crimes na internet.
- Reforma - reforma aos 67 anos. Nível da reforma: pelo menos 48% do salário médio pessoal; Desconto para a reforma: nunca acima dos 22% (até 2030); os trabalhadores por conta própria também devem descontar para a reforma.
- Política de família - aumentar o abono de família e o rendimento livre de impostos para pessoas com filhos, tal como a CDU; um "salário de família" de 300 euros, até no máximo dois anos, para progenitores a trabalhar a tempo parcial; além disso: infantários gratuitos, escolas primárias com actividades durante todo o dia.
- Impostos/Finanças - bónus criança: reduzir ao total dos impostos 150 euros por filho/ano; imposto sobre o rendimento: 42% a partir de 60.000 euros anuais; novo máximo do imposto sobre o rendimento: 45% a partir de 76.200 euros/ano (ou 152.400 euros para pares).
- Trabalho/Política social - Salário mínimo sem excepções; proibição de contratos a prazo ("não ao contrato a prazo sem justificação"); salários iguais para empregados fixos e empregados temporários; subsídio de desemprego especial para quem expande a sua formação.
- Educação/Escolas - por fases: gratuidade, desde o infantário até ao fim do estudo universitário ou da formação técnica; Acabar com a proibição de cooperação (Federação/Estados/Comunas) de modo a alargar o investimento na Educação.
- Saúde - "seguro geral" (também para cuidados continuados) para todos (funcionários públicos, empregados, profissionais liberais); descontos iguais para empregados e empregadores; possibilidade de passar do seguro privado para o seguro público; pagamento de salário a pessoas que se dedicam a cuidar de familiares doentes ou idosos.
- Meio ambiente - melhorar a qualidade do ar nas cidades por meio do apoio a táxis e autocarros sem efeitos para o clima; até 2050 deixar de produzir energia com consequências para o efeito de estufa; reduzir drasticamente a produção de CO2 até 2020.
- Europa -combater as fugas aos impostos; "governo económico" comum para a Europa; união europeia de defesa; corpo de paz europeu; não à entrada da Turquia na UE.

Linke
- Refugiados - facilitar a entrada dos refugiados ("sociedade solidária de acolhimento"); concretamente: direito a trabalhar, cuidados de saúde e sociais para todos os que entram (e não apenas os perseguidos) o mais tardar ao fim de 3 meses.
- Segurança interna/Polícia - protecção contra o terrorismo só deve ser feita pela polícia; acabar com todas as secretas; crachat com o nome para todos os polícias; acabar com o acompanhamento policial de pequenos delitos (entrada ilegal no país, drogas, andar sem bilhete nos transportes públicos).
- Reforma - reforma aos 65 anos (ou aos 60 para quem trabalhou 40 anos); a reforma deve subir para 53% do rendimento; reforma mínima: 1050 euros/mês; todos - mesmo os funcionários públicos - devem fazer descontos para a caixa de reformas.
- Política de família - abono de família sobe para 328 euros; cada criança recebe um rendimento mínimo de segurança de 573 euros/mês (sujeito a impostos); as crianças têm direito a infantários e escolas gratuitos, a tempo inteiro, e com muita qualidade.
- Impostos/Finanças - rendimento anual até 12.600 euros livre de impostos; nova taxa máxima sobre o rendimento de 53% a partir de 260.000 euros. Os milionários pagam 5% da sua riqueza (o primeiro milhão é livre de impostos).
- Trabalho/Política social - salário mínimo sobe para 12 euros; os salários mais altos de uma empresa não podem ser superiores a 20 vezes o salário mais baixo da mesma empresa; combate aos contratos a prazo; direito a um horário de trabalho mínimo de 22 horas semanais.
- Educação/Escolas - Educação gratuita até ao fim do ensino universitário; cantinas gratuitas em todos os infantários e escolas; escolas unificadas em vez de concorrência; possibilidade de entrar no ensino universitário mesmo sem Abi (diploma do liceu, ramo mais exigente do ensino secundário); acabar com os trabalhos de casa, o numerus clausus e os testes de admissão.
- Saúde - seguro de saúde para todos; travar a privatização dos hospitais; acabar com os pagamentos suplementares; 100.000 novos postos de trabalho nos cuidados continuados; 14,5 euros é o salário mínimo nesta área; seguro de cuidados continuados para todos sem comparticipação do próprio.
- Meio ambiente - protecção drástica do clima: redução dos gases com efeito de estufa até 2050 para a medida mínima (5% relativamente aos valores de 1990); peso da energia ecológica na electricidade sobe para 70% até 2030, e para 100% até 2040.
- Europa -salários e direitos iguais em toda a Europa, em vez de dumping de salários; BCE empresta directamente aos Estados; reestruturação da dívida grega (reparações dos crimes dos nazis); acabar com o Frontex, abrir as fronteiras da Europa.

Verdes
- Refugiados - "caminhos seguros e legais" para chegar à Alemanha; melhorar os processos para reunir as famílias; rescisão do contrato com a Turquia; atrair profissionais estrangeiros com uma lei de imigração (sistema de pontos).
- Segurança interna/Polícia - "mais pessoal, bons equipamentos" para a polícia; contra o armazenamento de dados, o reconhecimento digital do rosto, as razias online, o exército nas questões internas, os agentes infiltrados das secretas; mais controle dos serviços secretos e dos terroristas potenciais. [sobre os agentes infiltrados: houve vários escândalos ligados a infiltrados na extrema-direita, desde serem os agentes secretos eles próprios chefes dos grupos de extrema-direita, até terem encoberto acções violentas daqueles - em suma: julgando que estava a espiar, o Estado andava a subsidiar esses grupos]
- Reforma - manter os 67 anos e o nível da reforma (48%); possibilidade de reduzir o horário de trabalho a partir dos 60 anos; a reforma estatal deve ser para todos (também para profissionais liberais, políticos, donos de pequenas empresas).
- Política de família - 12 mil milhões de euros mais para crianças e famílias; apoio aos pais que trabalham; substituição do abono de família e da isenção de impostos por "rendimento básico de criança" e "bónus de abono de família" (até 364 euros).
- Impostos/Finanças - aliviar o peso fiscal das pessoas com rendimentos baixos e médios, por meio do aumento do montante de rendimento isento de impostos; esta medida é contrabalançada pelo aumento da taxa máxima sobre rendimentos a partir de 100.000 euros anuais e também de um imposto patrimonial.
- Trabalho/Política social - acabar com os contratos de trabalho a prazo se não houver motivos importantes para essa delimitação; direito de passar de trabalho com horário reduzido a trabalho a tempo inteiro; salário igual para os trabalhadores temporários; aumento do salário mínimo; o salário mínimo deve ser definido conforme o ramo económico.
- Educação/Escolas - acabar com a proibição de cooperação entre os Estados e a Federação; preços dos infantários com tarifas sociais; unificação dos currículos escolares; apoio às escolas e ao acompanhamento dos alunos durante todo o dia, em particular nos bairros com problemas sociais.
- Saúde - acabar com as propinas nas formações na área da saúde; acabar com o pagamento suplementar de medicamentos; contribuições iguais para o empregado e o empregador; preços de serviços médicos iguais para as caixas estatais e os seguros privados; apoio a pessoas que têm emprego e prestam cuidados continuados a familiares.
- Meio ambiente - até 2030 apenas carros sem emissão de gases; saída da energia ganha à custa de carvão; 100% energia ecológica; "placa azul" para proibir a circulação; poupança de CO2 obrigatória até 2050 em todos os estados da UE: 95% em relação a 1990.
- Europa -"mais Europa" e "menos armamento"; uma UE ecológica, digital, desenhada com "fairness"; combater o desemprego, os acordos comerciais (CETA), a lavagem de dinheiro e o dumping de impostos.

FDP
- Refugiados - recusa de um limite para entrada de refugiados; escolher quem entra em função das necessidades do mercado de trabalho; o pedido de asilo deve ser feito antes de entrar no país; os interessados em asilo devem esperar em "hot spots"; os países da UE que não recebem refugiados devem comparticipar nos custos.
- Segurança interna/Polícia - mais polícias, e mais bem equipados; não aumentar o controlo por vídeo e o armazenamento de dados (inclusivamente dados de voos); terroristas potenciais devem ser mais observados e bem controlados.
- Reforma - idade da reforma flexível (entre os 60 e os 70, com o respectivo montante da reforma mais baixo ou mais alto); trabalhadores independentes também têm obrigação de contribuir para a reforma básica; alargamento do sistema de reforma com módulos privados e empresariais. 
- Política de família - mais educadores de infância, e mais bem pagos; aumento do valor da isenção de impostos por filhos; abono de família escalonado segundo os rendimentos da família; cheques para ensino; a par do casamento, deve haver uma "comunhão de responsabilidade" por exemplo para pessoas idosas.
- Impostos/Finanças - alívio de impostos no valor de 30 mil milhões de euros; fim do imposto de solidariedade até fins de 2019; redução dos impostos para todos os níveis de rendimento; manutenção do sistema fiscal especial para casais (inclusivamente casais homossexuais).
- Trabalho/Política social - o trabalho deve ser mais flexível, o trabalho temporário e os contratos a prazo não devem ser ainda mais limitados; o mini-job deve subir de 450 para 530,40 euros; contas-poupança-trabalho devem ser usadas para aumentar o poder concorrencial das empresas [é a possibilidade de os empregados poderem acumular horas - ou uma conta poupança de salário - para mais tarde gozarem longos períodos de férias com pagamento de salário].
- Educação/Escolas - digitalização da escola e do mundo do trabalho ("aprender toda a vida"): 1000 euros de suplemento técnico para cada aluno; cheques de educação para crianças/alunos, para pagarem o infantário ou a escola ("concorrência").
- Saúde - mudança livre dos seguros privados para os estatais, independentemente dos rendimentos; mais pessoas a trabalhar nos cuidados continuados; liberalização do envio por correio de medicamentos sujeitos a receita médica; os doentes devem ser informados do custo do seu tratamento. 
- Meio ambiente - travar a implantação de geradores eólicos; acabar com as subvenções da lei das energias renováveis ("subvenções intermináveis"); evitar atitudes voluntaristas de protecção do clima e mudança energética se não forem acompanhadas pelos outros países; objectivo: economicismo e segurança no fornecimento.
- Europa - caminhar para uma Federação ("Europa a várias velocidades"); assegurar as fronteiras exteriores da UE; reduzir a dimensão da Comissão Europeia; criação de uma Procuradoria Europeia e uma União de Defesa Europeia.

AfD
- Refugiados - fechar as fronteiras; acabar com as entradas e repatriamento rigoroso dos refugiados, restringir a saída de pessoas com boas capacidades profissionais; proibição de burka e minaretes; não conceder asilo a ninguém sem papéis de identificação; não conceder nacionalidade alemã a filhos de imigrantes.
- Segurança interna/Polícia - facilitar o acesso a armas; mais polícia; combater a criminalidade de estrangeiros; repatriamento rigoroso mesmo no caso de delitos menores; medidas específicas para muçulmanos ("terror islâmico"); tornar o serviço militar de novo obrigatório.
- Reforma - reforma sem cortes após 45 anos de trabalho; reformados não pagam contribuições sociais e podem ter rendimentos complementares sem limites; reforço da contagem do tempo dedicado a criar filhos para efeitos de reforma; poupar nas despesas de migração/integração para gastar em reformas.
- Política de família - a alegada "diminuição da nossa população tradicional" deve ser combatida com uma "política nacional de povoamento". Além disso: mais apoios às famílias e às crianças; créditos para início da vida de casal; adopção em vez de aborto. 
- Impostos/Finanças - redução do IVA de 19% para 12%; acabar com o imposto de heranças e evitar um imposto patrimonial; alargar à família o regime tributário especial para casais (incluir o número de filhos na divisão do rendimento).
- Trabalho/Política social - desempregados obrigados a fazer trabalhos cívicos (com pagamento); subsídio do desemprego deve considerar períodos de emprego mais longos; aumentar o valor patrimonial não deduzível no caso de recebimento de apoios da Segurança Social; máximo de 15% para número de trabalhadores temporários nas empresas. 
- Educação/Escolas - pagamento a quem fica em casa a cuidar dos filhos, igual ao dos infantários ou das amas; sistema escolar em vários ramos, conforme a competência dos alunos; acabar com aulas de religião muçulmana; fim do Bolonha.
- Saúde - apoiar mais o cuidado de idosos na família (equiparado à actividade profissional); os familiares de empregados turcos que vivam no estrangeiro não devem ser abrangidos pelo seguro de saúde destes [na Alemanha, o seguro de saúde de alguém que tem um emprego é extensivo ao cônjuge e aos filhos]; apoiar cuidados de saúde alternativos.
- Meio ambiente - a AfD duvida da responsabilidade humana nas alterações climáticas; quer acabar com a protecção do ar das cidades; quer manter a energia a partir do carvão; quer acabar com os apoios à energia eólica devido aos riscos para os pássaros e as pessoas (sombra e ruído).
- Europa - a AfD entende que a Europa é um projecto falhado; exige reformas e, caso não se verifiquem, a saída da UE; quer o fim do euro (regresso ao marco); além disso: fim das sanções contra a Rússia.

na noite das eleições


Assisti aos resultados das eleições na Representação de Baden-Württemberg (uma espécie de embaixada dessa Land aqui na capital da Federação). Cheguei pouco antes das seis da tarde, hora da abertura das urnas, e fiquei retida numa enorme fila de convidados. O Joachim já estava lá dentro, e telefonou-me a dizer os primeiros resultados. "Nem queiras saber a tragédia, o pessoal aqui dentro está todo com cara de enterro. 13% para a AfD!"

Comentei os resultados com as pessoas que esperavam na fila à minha volta. Desolação geral.

- Foi um erro ter dado tanto palco à AfD, disse uma senhora. Foi uma self-fulfilling prophecy.
- O que me deixa indignada - disse eu - foi terem deixado um partido destes ir a eleições.
- Bom, isso está na Constituição: se tiverem mais de 5% dos votos entram no Parlamento.
- Também está na Constituição - retorqui - que todas as pessoas são iguais. A AfD quer criar cidadãos de segunda classe, o que é anticonstitucional.
- Oh, isso é apenas para os refugiados...

Ali estava eu, no meio de pessoas cultas e bem vestidas, convidadas a dedo para uma recepção na Representação de Baden-Württemberg, e estavam-me a dizer que os refugiados podem ser tratados como pessoas de segunda classe - sem sequer se darem conta do que tinham dito. A conversa continuou a ser orientada por elevados valores democráticos:

- Penso que a partir do momento em que um partido mostra que não respeita valores constitucionais básicos, não deve poder concorrer às eleições - disse eu. Tanto uma AfD na Alemanha, como um Trump nos EUA. 
- Proibir?! Onde vamos parar?! A Democracia tem de saber gerir estes fenómenos, e mostrar que é suficientemente forte para os anular, mas de forma democrática. A AfD entrou no Parlamento, e agora vai mostrar ao que vem. Isso vai abrir os olhos aos seus eleitores, que nas próximas eleições já estarão avisados.
- Educação, educação!, disse outra senhora (a que tinha dito "isso é apenas para os refugiados"). Só se consegue fortalecer a Democracia educando e informando o povo.

Ainda considerei dar-me ao trabalho de a informar que a AfD tem propostas muito concretas para os imigrantes turcos (não "apenas para os refugiados"), e que me sinto pessoalmente ofendida e ameaçada sempre que ouço alguém da AfD falar de "miscigenação" e da "substituição da população", porque estão a falar dos meus filhos. Mas preferi desistir. Pareceu-me que aquelas pessoas tão bem postas e autoconfiantes não estavam em condições de se deixarem interpelar por uma estrangeira. Facto é que entre os eleitores da AfD se encontram também muitas pessoas com formação superior, e da classe média alta. E mesmo quem não vota AfD e tem um elevado nível de formação pode cair inadvertidamente nos esquemas ideológicos da extrema-direita.  

Pouco depois, sentados a uma mesa em frente junto à sala onde decorria a transmissão em directo da Representação para a televisão de Baden-Württemberg, o Joachim comentava com os vizinhos que era muito mais suportável assistir a este momento na companhia de tantas pessoas, em vez da solidão do sofá da nossa casa, e todos concordaram.

O público agitou-se novamente quando apareceram os gráficos das movimentações de uns partidos para os outros: um milhão da CDU para a AfD, caramba! E uma corrida em massa dos absentistas às urnas para votar AfD, caramba!

Daqueles números, o que mais me surpreendeu e chocou foi o do êxito da AfD nos dois Estados mais ricos da Alemanha: Baviera e Baden-Württemberg. Entendo, até certo ponto, que a AfD conquiste mais votos na região da antiga RDA, devido ao ressentimento em relação ao processo de reunificação, à insegurança e à ausência de perspectivas, e ao despeito ou à inveja em relação ao que possa parecer um tratamento privilegiado dos refugiados, e devido também às sequelas provocadas por cinquenta anos de partido único. Mas os Estados mais ricos da Alemanha, com um nível de vida invejável, com segurança, com taxas de desemprego mínimas: contra o quê protestam eles? que lhes falta? 

A passagem de tantos votos do CSU (conservadores bávaros) para a AfD esclareceu-me sobre a deriva populista dos seus chefes nos últimos anos: estavam a tentar não perder eleitores para a AfD. As recusas de Angela Merkel em embarcar nessa deriva populista - que apontava os refugiados quase como um inimigo a combater - tiveram também o seu preço, expresso nos baixos resultados do seu partido, quase os mais baixos de sempre.

Na nossa mesa as opiniões eram unânimes: o deslocamento da CDU para a esquerda e do SPD para a direita fez-lhes perder eleitores. É preciso vir agora uma coligação Jamaica (CDU, Verdes e Liberais) para agitar as águas políticas e desinstalar a CDU do seu conforto e da sua dormência. O SPD tem de ficar fora do governo, para ser a maior força da oposição. E nem pensar em deixar que a AfD seja a maior força da oposição no Parlamento!

Foi muito aplaudida a representante do SPD que falou num momento histórico em que os partidos democráticos têm de compreender a gravidade da situação e ser capazes de se entenderem para travar o avanço da extrema-direita.

Assim seja.

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Na Representação havia uma exposição trabalhos de Patricia Waller. Reparei especialmente na avestruz de cabeça enfiada na areia, e na ovelha tosquiada. Vá-se lá saber porquê...