17 setembro 2019

"invasão soviética da Polónia"

Faz hoje oitenta anos que começou a invasão soviética da Polónia, ao abrigo de um acordo secreto no âmbito do Pacto Molotov-Ribbentrop de não-agressão entre a URSS de Estaline e a Alemanha de Hitler. É este o tema do dia na Enciclopédia Ilustrada.

O meu contributo:

Quando morava em Weimar tinha uma empregada que era polaca, casada com um alemão da antiga RDA. Ela era muito alegre e conversadora, e eu gostava muito de lhe ouvir as histórias e os comentários sobre um mundo ainda muito desconhecido para mim. Numa dessas conversas contou-me que durante décadas tinha trabalhado na casa de uma família famosa de Weimar, que morava umas casas acima da minha. Tinham um retrato de Estaline no escritório, revelou, e sempre que lhe ia limpar o pó o que tinha era vontade de lhe cuspir em cima.
- A minha mães costumava dizer que, comparados com os soldados russos durante a guerra, os soldados alemães eram uns cavalheiros. Ui! Nem é bom pensar nisso: o que eles faziam às mulheres, tantas atrocidades que cometeram!
- Chamar "cavalheiros" aos nazis é um bocado exagerado, não acha? E então aquela lista que os nazis fizeram, com quase cem mil nomes de intelectuais, médicos, juristas e artistas que deviam ser assassinados após a invasão, para decapitar a sociedade polaca?, perguntei eu.
- Ora, os alemães queriam matar os judeus, e calhou de os judeus serem essa elite...
Com esta é que me calou, que uma pessoa tem de saber reconhecer os sinais da inutilidade de um debate.
Mas hoje, uns bons quinze anos depois desta conversa, fui pela primeira vez ler mais sobre o que foi a #invasão_soviética_da_Polónia, e compreendi finalmente de que é que ela se queixava: massacres como os de Katyn (que a URSS negou até 1990) - deportações em massa para a Sibéria (em carruagens de gado, por vezes com 40 graus negativos) - troca de populações forçada, em grande escala e e em condições terríveis - proibição de os deportados poderem regressar às suas regiões de origem.
Sabemos tanto sobre os crimes nazis, e tão pouco sobre o sofrimentos dos povos/países ocupados pela URSS na mesma época.


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Partilho também um contributo do Cristovam Duarte (penso que retirado daqui):




Mathilde conhece uma jovem freira polonesa que escapou do convento para procurar ajuda médica para uma das noviças. Quando Mathilde, uma mulher sem fé, decide por fim acompanhá-la, encontra uma situação inimaginável. aquando a #invasão_sovietica_da_polonia, os soldados soviéticos invadiram um convento de clausura beneditino e violaram as freiras. E, como se isto não fosse causa suficiente de dor e vergonha, muitas delas engravidaram.
Agnus Dei” é um filme que devia ser visto por todos aqueles que ministram aconselhamentos aos outros.

15 setembro 2019

descolonizar genealogias


(Na imagem: como em todas as sessões que vi até agora na qual participa um palestrante brasileiro, é exibido um cartaz exigindo a libertação de Lula. No caso, é Luiz Ruffato quem ergue o cartaz.)


Ontem fui assistir à conversa entre Grada Kilomba, José Eduardo Agualusa e Luiz Ruffato sobre "descolonizar genealogias", no âmbito do 19º Festival Internacional de Literatura de Berlim.

O programa rezava assim: "Current genetic research shows that the traces of sexual crimes committed under European colonial rule are inscribed in DNA. Luiz Ruffato [BRAZIL] has often commented on these crimes. The writers Grada Kilomba [PT/ D] and José Eduardo Agualusa [ANGOLA/ MOZAMBIQUE/ PT] also engage with Portuguese colonial history. In his novel »The Book of Chameleons«, Agualusa tells the story of a genealogist who invents new family trees for his clients."

A conversa tomou outra direcção. Teria gostado de os ouvir falar sobre o tema proposto, mas não dei a tarde por perdida. Pelo contrário. Gostei especialmente das intervenções da Grada Kilomba, sobre a descolonização ainda por fazer: o trabalho de desinstalar, desmantelar, reinventar. Por exemplo na questão linguística: a língua portuguesa continua cheia de vestígios de um sistema de pensamento colonial que ainda não foi confrontado e muito menos deu lugar a um reajustamento fundado na dignidade do ser humano. O moderador da mesa, Michael Kegler, interrompeu-a para comentar que essa questão lhe dá muitas dores de cabeça no seu ofício de tradutor literário: como traduzir para a língua alemã os termos da língua portuguesa que ainda não passaram por um processo de descolonização linguística? 

[   E eu a pensar com os meus botões: palavras e frases como "semítico", "judiar", "pareces judeu!", "ciganadas", "que paneleirice!", "não sejas maricas!" seriam difíceis de traduzir para alemão. A tradução literal seria impensável. Ou não? Quer dizer: será que é obrigação do tradutor literário encobrir a realidade linguística da cultura do texto original? Ou deve exibir em todo o seu esplendor o racismo, o anti-semitismo, a homofobia presentes na linguagem?
Deve optar por exibir, mesmo sabendo que a exposição ganhará uma forma de certo modo enviesada, resultante da diferença de velocidades no debate sobre estas questões?
Uma tradução literal faz com que o texto de chegada não seja comparável ao texto de partida porque as respectivas sociedades se encontram em fases diferentes do trabalho de revisão do poder da língua como hábito de opressão. Um exemplo: se um alemão dissesse com palavras alemãs o equivalente literal de um "ciganagem" ou um "não sejas judeu!", estaria a pôr-se deliberadamente numa posição de provocação extrema, porque na sociedade alemã há consenso sobre a terrível carga negativa daquelas expressões. Mas o português que fale assim não está a provocar - está simplesmente a usar as palavras que aprendeu e se usam normalmente no seu país. Ou seja: na versão alemã, o carácter da personagem que tivesse este tipo de discurso seria muito diferente do carácter da mesma personagem no original português. Em alemão, algo como um neonazi; em português, boa pessoa.
Mas também a decisão oposta, a de não traduzir literalmente, tem consequências. Mesmo que os portugueses não se dêem conta da carga opressiva das palavras que usam, quer dizer, mesmo que "não façam por mal", essa carga opressiva e ofensiva está presente e actuante. Ao eliminar certas palavras, trocando-as simplesmente pela palavra alemã que transmite a ideia subjacente ao texto (traduzir "maricas" com se fosse "medricas", por exemplo), o tradutor está a colaborar no branqueamento das práticas linguísticas de banalização de um discurso opressor de certos grupos.
A questão, no fundo, não é o personagem de um romance dizer determinadas palavras. A questão é todo um país que não quer ver problema algum no uso daquelas palavras.
Por estas e por outras é que nunca hei-de ir longe como tradutora literária: a minha vontade era traduzir literalmente, e fazer uma curta introdução para explicar que naquele país é normal falar assim.
Um último apontamento: curiosamente, ao procurar exemplos, não pensei logo em expressões que ofendessem os negros. As primeiras que me ocorreram revelam o que mais me preocupa: anti-semitismo, anticiganismo, homofobia. O racismo contra os negros expresso nas palavras que usamos não parece estar no meu radar. O que é, mais uma vez, sinal de ignorância em relação a este tema. E escusam de se rir de mim, porque o problema não deve ser só meu. O que mais se ouve em Portugal é a convicção de não sermos um país racista. Pois não, não somos: enquanto não tivermos a vontade e a coragem de olhar de frente para o problema, podemos continuar a acreditar alegremente que somos os colonizadores mais fofinhos do mundo.  ]

Voltando à sessão de ontem: por sorte, Grada Kilomba deu exemplos que me revelaram essa realidade que, de tão naturalizada, já nem notamos. "Mestiço" é a palavra usada tanto para o cruzamento de pessoas de etnias diferentes como para o cruzamento de animais de raças diferentes. "Mestiço", "cabra" e "cabrito" provam que as palavras foram (e são) usadas para animalizar seres humanos em função da cor da sua pele. E é aqui que estamos hoje, ainda.

A Lusofonia também foi um tema importante de debate: quando usamos esta palavra - e quantas vezes a usamos com orgulho! - não temos qualquer consciência da carga de violência que ela encerra. Vários continentes que falam a mesma língua significa que em todas essas terras um poder colonizador aniquilou a cultura e a língua existentes. E para além da língua e da cultura, a própria identidade das pessoas, obrigadas a trocar o nome da sua família por um apelido português. Arrasar o passado das pessoas, arrasar a sua cultura, arrasar a sua língua. Pior ainda: dado que muitas das vítimas da colonização não puderam aprender o português em toda a sua plenitude, as suas possibilidades ficaram limitadas, reduzindo-lhes o lugar na sociedade ao parco conhecimento da língua que lhes foi imposta.

Luiz Ruffato deu um exemplo do mesmo fenómeno, embora de menor dimensão: quando o Brasil entrou na II GM do lado dos Aliados, os países de origem de grande parte da sua população passaram a ser o inimigo: alemães, italianos, japoneses. Os brasileiros desses grupos nacionais foram proibidos de falar a sua língua de origem. Os homens, que trabalhavam fora de casa, conseguiram adaptar-se facilmente. Mas as mulheres, circunscritas ao espaço familiar onde só se falava o idioma do país de origem, perderam a voz. A sua própria avó deixou de falar em público, porque só sabia falar italiano e corria o risco de ser presa.

A sessão acabou sem debate com o público, e foi pena. Gostaria muito de perguntar ao José Eduardo Agualusa como se concilia o discurso de descolonização com a posição do branco que se assume como produtor de cultura angolana.

14 setembro 2019

ainda temos a alegria



"O Brasil sob Bolsonaro" foi o tema de duas palestras a que assisti ontem no Instituto Cervantes, no âmbito do Festival Internacional de Literatura de Berlim.

[E para que ninguém me acuse de só avisar sobre estas coisas depois de elas acontecerem: hoje, às quatro da tarde na nova galeria na Ilha dos Museus, é a vez de José Eduardo Agualusa, Luiz Ruffato e Grada Kilomba falarem sobre os vestígios coloniais no ADN cultural e biológico.] 

Não tomei notas, pelo que faço um resumo de memória:

Na primeira sessão, Perry Anderson abordou o contexto brasileiro que tornou possível o fenómeno Bolsonaro (a crise económica, o aumento da corrupção dos políticos, a cínica perícia que conseguiu concentrar em Lula o ódio à corrupção que de facto grassa em todos os partidos, a falência do sistema jurídico, etc.). Luiz Ruffato trouxe números: em que grupos está a maioria dos apoiantes de Bolsonaro (são tantos, que mais vale dizer quais não são: a maioria dos negros, e a maioria dos jovens entre os 16 e os 24 anos), e o resultado dos primeiros oito meses de discurso fascista do sistema Bolsonaro: o aumento da violência (especialmente contra negros e contra mulheres), o aumento do número de assassinatos cometidos pela polícia e, mais assustador ainda, o aumento do número de suicídios entre os jovens e a assustadora quantidade de pessoas que querem fugir do seu próprio país. Djamila Ribeiro falou da incapacidade de reconhecer o genocídio contra negros que tem estado em curso, das lutas do feminismo negro e da urgência do agir.

A segunda sessão juntou Rafael Cardoso (historiador da arte, escritor - e anoto aqui o livro que quero ler: "O Remanescente"), Márcia Tiburi e Leonardo Tonus a conversar em modo de perguntas que lançavam uns aos outros.

Sabem aquela sensação de belo-horrível? Foi esta sessão: as frases e as ideias com que se referiam à ascensão do fascismo no Brasil eram simultaneamente um exercício brilhante de inteligência e um prazer estético. A conversa foi perccorrendo os temas da capacidade do fascismo se reinventar e regressar, da repetição de algo que há menos de meia dúzia de anos seria impensável imaginar, do modo como os cidadãos se vão habituando aos horrores noticiados dia após dia, do exílio e das formas de resistência. Falaram de Leibniz (o efeito corrosivo do medo e da tristeza) e de Adorno (a poesia depois de Auschwitz) e da dificuldade de ser quando se está marcado para o extermínio.

Uma intervenção tocou-me especialmente: a de Leonardo Tonus, sobre o que se pode fazer neste contexto de marasmo e caos. Continuando a citar de memória: disse que se pode aprender algo importante com os europeus, e deu o exemplo da reacção ao ataque ao Bataclan. O professor da Sorbonne, que dera consigo paralisado e chocado, a chorar desamparado no meio da cozinha, recebeu no domingo à noite uma mensagem da direcção da Universidade a exigir que todos os professores fossem dar as aulas no dia seguinte, como previsto. E ele foi. Às oito da manhã estava à frente da sua turma a falar de literatura do séc. XVIII, apesar de cinco dos seus alunos terem sido assassinados três dias antes. 

"Ainda temos a alegria", disse ele. "A questão não é sobre a possibilidade da poesia depois de Auschwitz. Havia poesia em Auschwitz! Mesmo que pareça uma ideia tonta, o céu continua azul e os pássaros continuam a chilrear. Não podemos desistir. Nestes tempos tão difíceis continuarei a escrever, nem que tenha de o fazer com o meu próprio sangue. E vocês também: escrevam nas paredes da vossa casa o poema "mãos dadas", de Carlos Drummond de Andrade. Espalhem a alegria."


MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças
Entre eles, considero a enorme realidade
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes
A vida presente

Carlos Drummond de Andrade


sou eu, e o Brad Pitt

No âmbito do Festival Internacional de Literatura de Berlim decorreram ontem no Instituto Cervantes algumas sessões dedicadas ao tema "O Brasil sob Bolsonaro". Pareceu-me que as pessoas que assistem a um evento destes gostariam de saber que o filme "Chuva é cantoria na aldeia dos mortos" vai passar em Berlim, e por isso fui para lá distribuir folhetos dos Dias do Cinema Português. Três em um: passava a informação, assistia à palestra do Luiz Ruffato, que era um dos participantes do painel, e ouvia falar sobre um tema que me preocupa muito.

Enquanto distribuía os folhetos um a um ("óptimos filmes portugueses, e em especial esta co-produção brasileira, sobre as dificuldades de indígenas na Amazónia...") lembrei-me que bom, bom mesmo, era se o Luiz Ruffato quisesse mencionar esse filme no final da sua palestra. Assim ficavam todos avisados de uma só vez. De modo que fiquei atenta à sua chegada.

O problema é que tenho uma péssima memória visual. Inacreditável, mas já me aconteceu não reconhecer a minha própria filha numa fotografia (espero que ela não leia isto). E, apesar de já ter estado sentada a conversar longamente com o Luiz Ruffato, esqueci-me da cara dele. Lembrava-me bem da conversa, do seu discurso inteligente e articulado, mas a cara...
(de onde se prova que eu, entre conteúdo e aparência, nem hesito)

Pouco antes da hora de início da sessão apareceu uma cara que me era muito familiar. Pensei "é este!" e avancei. Cumprimentei, disse de onde nos conhecíamos, mostrei o flyer e quando ia a pedir para falar do filme no fim da palestra...

- Mas não é o Ruffato, é o Agualusa!

Era, e riu-se. 

(Também em tempos tinha conversado longamente com o Agualusa, e ali mesmo confirmei a impressão muito favorável que já tinha dele. Pedi desculpa pelo equívoco, e ele pegou no meu folheto e prometeu que o ia passar ao Ruffato.)

Li algures que o Brad Pitt tem uma dificuldade enorme em recordar ou reconhecer o rosto das pessoas. Uma lesão no cérebro,  dizem, e que no caso dele se deve ao consumo de droga; no meu caso não sei, porque o mais perto que andei das drogas fortes foi em criança apreciar o sabor da cola quando punha selos numa carta, ou o aroma da gasolina quando o meu pai enchia o depósito.

Em todo o caso: gostava de saber como é que o Brad, meu companheiro de desgraça, faz para sair destas cenas sem grandes beliscaduras no amor-próprio. O que eu faço (o que eu fiz ontem): rir-me por dentro, e pensar "eh pá, que grande vergonha! isto vai dar uma bela história no blogue!"

(Escusado será dizer que o Brad Pitt não precisa de se dar ao trabalho de me passar pela frente, porque não o vou reconhecer. Excepto se vir um rapaz bem parecido a fazer figuras tristes e que me são muito familiares: pode ser que então, aí, se faça luz neste meu cérebro de batatinha.)



10 setembro 2019

fight like a man...


(fonte


(fonte)

Alguém se lembra de quantas vezes foi a Theresa May ao Parlamento explicar e debater cada um dos seus planos para o Brexit? Perdi-lhes a conta - lembro apenas as humilhações sucessivas, debate após debate, e a sua tenacidade para servir o país tentando cumprir, dentro das regras democráticas, a vontade do povo expressa no referendo.

Theresa May sai do palco, e entra Boris Johnson: o "alfa", o aluno do Eton-College-a-escola-mais-elitista-do-mundo, o famoso, o vencedor. E que faz ele?

Manda o Parlamento de férias.

Será tempo de rever o conceito "fight like a man"?

06 setembro 2019

o que há num nome

Na Alemanha, onde vivo há quase trinta anos, o nome “Araújo” é sobretudo um problema.
“Aaah... como disse?”

Mas nem pensar em ficar com o apelido do meu marido. Ia passar a responder pelo mesmo nome que a minha sogra. Mal por mal, Frau Araújo. Ou "Frau Aaaaah... como disse?"

Em Portugal as mulheres casam e continuam a chamar-se senhora/dona/dra. Nome Próprio.
Na Alemanha, casam e passam a chamar-se Frau Mãe do Marido.

Que espoliação de identidade, que perversão!
Como é que o Freud não se lembrou de fazer um trabalho sobre isto é algo que não entendo.

05 setembro 2019

"fotógrafo"


Em Weimar há uma loja de fotógrafo que me fascina por ter na montra fotos do Franz Liszt (sem verrugas e com verrugas) e do Walter Gropius.

A loja foi aberta a 1.4.1882 pelo #fotógrafo Louis Held (1851-1927), que saía muitas vezes do seu atelier e ia fotografar as pessoas no seu "habitat". Como o Walter Gropius, fundador da Bauhaus, em frente ao seu estirador.

Louis Held também fotografava cenas da vida quotidiana e acontecimentos importantes da cidade, e não era um fotógrafo realmente digno de menção. Mas o que me fascina é a quantidade de História que passou em frente à sua câmara fotográfica: os músicos famosos (o seu atelier era perto da casa de Liszt, por onde Wagner também andou a arrastar a asa à Cosima), perto da escola onde nasceu a Bauhaus, e a um par de centenas de metros do Teatro onde foi escrita a constituição da República de Weimar.
Ele e a sua câmara a registar tudo isso.

Estou a tentar entender porque é que este Louis Held é tão importante para mim - afinal de contas, o que mais há é fotógrafos que fotografaram gente famosa e registaram acontecimentos históricos. Parece-me que é a normalidade, a banalidade daquela montra de um atelier de fotógrafo que eu conheci em 2002, ainda com a falta de charme característica da RDA. As fotos expostas quase a monte junto à vitrine, como às vezes se vêem as de casamentos ou de bebés. Sim, deve ser isso: a exibição tão prosaica daqueles famosos. E também porque essas fotos tornam Liszt e Gropius mais palpáveis e mais próximos de mim. De facto, também eu me poderia fazer retratar no mesmo atelier fotográfico, por algum descendente do Held original.

Não fiz, claro. Mas acabou de me ocorrer mais um nicho de mercado: "fazemos o seu retrato com a mesma câmara que retratou Liszt e Gropius" - hã, que tal?

04 setembro 2019

para os nossos filhos


Um desafio para os valentes que no ano da graça de 2019 criticam a Greta Thunberg, ridicularizam as pessoas que alertam para a necessidade imperiosa de revermos os nossos hábitos de consumo, e apregoam a sua liberdade de comer quanta carne de vaca muito bem lhes apetecer e de fazer tantas viagens de avião quantas puderem comprar: têm a coragem de imprimir tudo o que têm andado a publicar nas redes sociais sobre este assunto, e guardar num envelope endereçado aos vossos filhos e aos vossos netos, para eles abrirem e lerem em 2029?

02 setembro 2019

querido diário...





Um amigo falava-me há dias do filme Blow Up, que vi há muitos anos, e que me deixou a ideia de um mundo de disfarce, ilusão, inconsequência, indiferença. Tudo se dilui e perde. Não interessa procurar a verdade com muito afinco – quanto mais se foca, mais desfocado fica.
Lembro-me muitas vezes da cena final. A sintonia do faz-de-conta, que lembra a rábula de O Rei Vai Nu. Talvez me lembre tanto dessa cena pela sua carga ameaçadora: somos capazes de aderir a ilusões colectivas e acreditar realmente no que pensamos estar a ver.

Fez ontem oitenta anos que começou a segunda guerra mundial (os EUA têm outra opinião quanto à data de início da guerra mundial, mas adiante). Li o discurso que Hitler proferiu perante o Parlamento alemão, e vi alguns filmes privados, feitos pelas famílias alemãs durante esse período (1 e 2). Hitler atira para o campo bolas de ténis inexistentes e o pessoal põe braçadeiras com o símbolo nazi e levanta o braço direito em uníssono.

Há um Rolls-Royce no Blow Up. Volta e meia vejo um carro desses parado na minha rua. Perguntei a um vizinho se era dele, e respondeu: “não é o meu tipo de carro”. Pois não, ele é mais Ferrari...
Há dias, a passear o cão, parei para cumprimentar duas vizinhas que estavam à conversa. Uma delas é casada com um empresário que, devido a algumas falcatruas, foi condenado a dois anos de prisão com pena suspensa. A mulher não sabia de nada, coitada. Por sorte não perderam a casa, porque estava no nome dela - mas ela não sabia de nada, coitada.
Estavam a falar de outro vizinho da mesma rua, que agora está preso. Oito anos. Era o chefe da máfia dos cuidados domiciliários a idosos. A que não sabia de nada, coitada, dizia: “ele fez uma grande asneira. Só por causa desse erro é que foi preso”. “E que fez ele?”, perguntamos nós. “Arranjou uma colaboradora que não era de confiança, e que foi fazer queixinhas à polícia”.
Custa-me muito aceitar sequer a possibilidade de haver gente assim tão descaradamente fora da lei. Nem é viver fora da lei - é mesmo não saber que a Lei existe, e muito menos para que serve.

Fui ao Konzerthaus ouvir a nona de Dvořák sob a batuta de Christoph Eschenbach. Não foi o melhor concerto da minha vida, mas comovi-me no fim do segundo andamento.
O público que lá estava era muito diferente do da Filarmonia. Será ainda sinal da diferença entre a Alemanha ocidental e a oriental que, 30 anos depois, continua a notar-se até nestas salas de concerto que não distam mais de 3 km uma da outra? Enquanto esperava para entrar na sala conversei com a senhora à minha frente. Ela estava fascinada com tudo o que já tinha visto nesse dia de apresentação do novo maestro à cidade. Desfazia-se em elogios. Eu, que sou mais Filarmonia, deixei-a falar. Teria sido cruel falar da acústica, por exemplo. Entre impor-lhe a minha verdade e fazer-me eco da sua felicidade, nem hesitei. Afinal de contas, a quem interessa saber que o rei vai nu?...

O presidente da República alemã esteve ontem na Polónia e pediu desculpa pelos crimes cometidos pelos alemães contra os polacos. Fez o discurso óbvio do “nunca mais” – nunca mais se erga um país acima de outro país, umas pessoas acima de outras pessoas, uma raça acima de outra raça.
Como disse? "Raça"? Pensei que isso não existia já há algumas décadas...
E fartou-se de mandar recados à Polónia. Que a Europa é a garantia bla bla bla, e coisas assim. Não sei que me parece ir à Polónia pedir desculpa pelos crimes cometidos há oitenta anos, e aproveitar para deixar recados. Hoje não era o momento para fazer isso.

Coisas boas: andei a fazer de taxista dos bombos da Associação 2314 para dar um workshop para miúdos num bairro longínquo e mais pobre de Berlim. Marzahn. Também estavam lá crianças de um centro de refugiados. Foi giro vê-los – “bandos de pardais à solta” – e conhecê-los um a um. A miúda que me avisou cheia de segurança que não queria ser fotografada, os que se juntaram a fazer festinhas ao meu cão, o pequenito que tocava bombos com tamanha energia que bem podia participar num desfile na Senhora da Agonia em Viana. Também falei com uma menina alemã negra. A amiga dela, uma pequenita muito loira, disse-me “ela nasceu do chocolate!”. Respondi: “se nasceu mesmo do chocolate, só pode ter sido o melhor chocolate do mundo!” – e então a menina negra, que já estava a sair, virou-se para trás e ofereceu-me um sorriso de imensa doçura. Já ganhei a semana.


"belicismo" (3)

Todas as famílias desta região da Europa têm as suas histórias sobre a guerra. Mas poucas sabem contar a sua história tão bem como o MC Somsen. Partilho aqui este texto que ele publicou no facebook (se quiserem ver as fotos, vão ao post original):

O meu pai Arie Somsen tinha quatro anos quando a Alemanha invadiu a Polónia a 1 de Setembro de 1939, faz hoje 80 anos.

Vivia em Amesterdão com os pais, Klazina van Drimmelen, então com 39 anos (tinha nascido em 1900), e Govert Willem Somsen, 5 anos mais novo que a sua mulher. Foram os meus avós paternos.
Dois dias depois da invasão da Polónia, a França e o Reino Unido declaram guerra à Alemanha. A Finlândia é invadida pela URSS em Novembro de 1939. Em Abril de 1940, a Alemanha invade a Dinamarca e a Noruega, para isolar a Suécia. Em Maio 1940, o Reino Unido invade a Islândia.
A 10 de Maio de 1940, dia em que meu pai fazia 5 anos, a Alemanha avança sobre a França, o Luxemburgo, a Bélgica e os Países Baixos.

O meu pai lembra-se desse dia como hoje. “Nesse dia levei rebuçados para a escola para partilhar com os meus colegas, como fazíamos sempre nos aniversários, mas a escola estava fechada e voltei para casa cheio de rebuçados no bolso. Foi então que perguntei à minha mãe:
- O que vou fazer com estes rebuçados todos, mãe?
- Vamos comê-los todos. Afinal de contas, não é todos os dias que temos uma guerra.

O meu avô, professor em Amesterdão, fazia parte de um jornal intelectual de esquerda, o Vrij Nederland (que ainda existe), e foi preso pelos alemães a 17 Maio de 1940, por suspeita de resistência e sedição.

Permaneceu primeiro na Holanda ocupada, levado depois de julgamento em 1941 para uma prisão nos arredores de Bona, e finalmente deixado numa outra prisão nos arredores de Berlim, até ser finalmente libertado pelos russos em Abril de 1945.
Regressou a casa a 5 de Julho de 1945 para voltar a comer alguns rebuçados com os seus três filhos, incluindo o meu pai, que já tinha 10 anos.


MC Somsen

"amizade"



Há muito quem se ria daquilo a que chamamos #amizade do facebook. Virtual, dizem eles. Como se por trás da maior parte dos nomes não houvesse gente de alma e osso.

O blogue e o facebook ofereceram-me alguns dos melhores amigos que ganhei nos últimos quinze anos. E, para além desses, todos os dias aqui me rio, comovo, aprendo e converso com pessoas que nem sei bem quem são. Serão amigos? São pelo menos companheiros de caminho durante o tempo em que aqui nos cruzamos a conversar.

Por isso acho este cartoon um bocado pateta: caso um dia morra, não preciso que os tantos com quem aqui me encontro todos os dias venham ao meu velório.

O que realmente conta são estes momentos - aqui, agora, tantos e tão bons que talvez se lhes pudesse dar o nome de amizade.


(cartoon: Dan Piraro)

"belicismo" (2)

Partilho um post da Ana Martins, publicado na Enciclopédia Ilustrada a propósito da palavra do dia 1.9.2019:


#Belicismo é hoje a palavra do dia. Permitam desviar um pouco do rumo sugerido, a invasão da Polónia pelas tropas nazis e em vez disso falar dessas coisas chatas que são os números.
  • Quem vende mais armamento?
  • "O último relatório do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês) aponta que Estados Unidos, a Rússia, França, Alemanha e China responderam, nesta ordem, por 75% das exportações de armas no período entre 2014 e 2018.

  • Em que percentagem?
  • "Os Estados Unidos 36%, a França 6,8%, a Alemanha 6,4% e a China com 5,2%. Americanos, franceses e alemães aumentaram suas vendas se comparados os períodos 2009-2013 e 2014-2018. A Rússia, por sua vez, viu suas exportações descerem 17%."

  • Quem mais compra?
  • "O relatório do Sipri indica que países da Ásia e da Oceania (entre eles Índia, Austrália, China, Coreia do Sul e Vietnam como os principais compradores regionais) receberam 40% do total das importações mundiais de armas entre 2014 e 2018. Os países do Oriente Médio representaram 35% do total global nesse período. A Arábia Saudita é o principal comprador global de armas. Comprou 12% do total de armas vendidas entre 2014 e 2018, ante 4,4% no quinquénio anterior. Os Estados Unidos são o principal fornecedor de armas para os sauditas."

  • Valores estimados, que o segredo é a alma do negocio
  • A WIKI diz, e para o caso é irrelevante pois o nr. é uma abstracção estratosferica, 1.756. 000.000.000. 000,00 USD - mil setecentos e cinquenta e seis triliões de dolares por ano. 3º negocio mais lucrativo do mundo, só tendo à frente a Prostituição (1º) e a Banca (2º) .

  • Nota ternurenta pelo serviço pós-venda
  • Os EUA são quem mais vende, não por os seus preços serem mais baixos mas por "uma estratégia complexa de vendas, que inclui capacitação, treinamento e garantia de segurança, além de apoio em caso de conflitos."

Por tudo isto, "I didn’t raise my boy to be a soldier,
I brought him up to be my pride and joy,
Who dares to put a musket on his shoulder,
To shoot some other mother’s darling boy?"





01 setembro 2019

"belicismo"



Do discurso de Hitler perante o parlamento alemão no dia 1.9.1939 (no vídeo, a 1:48):

"Ontem à noite, a Polónia começou a usar também soldados regulares para atacar o nosso próprio território. Desde as cinco horas e quarenta e cinco minutos que estamos a responder aos ataques!
Doravante, responderemos às bombas com bombas. Quem lutar com gás será combatido com gás venenoso. Quem desrespeitar as regras humanitárias da guerra não pode esperar de nós outro procedimento. Permanecerei neste combate, não importa contra quem, o tempo que for preciso até conseguir garantir a segurança do Reich e dos seus direitos."
Há muito que Hitler planeava a invasão da Polónia, e sabotava todos os esforços de mediação por parte dos outros países ocidentais. Uma semana antes deste discurso, e da invasão da Polónia, os ministros do exterior alemão (Ribbentrop) e soviético (Molotov) assinaram um pacto de não-agressão entre os dois países, que incluía um tratado secreto que dividia o Leste da Europa pelas duas potências.

O exército alemão entrou na Polónia com uma lista de 61.000 nomes de pessoas que deviam ser assassinadas. A lista já estava a ser preparada desde Maio desse ano pelos serviços secretos alemães, em colaboração com alemães residentes na Polónia. O assassinato premeditado daqueles professores, médicos, juristas, académicos, padres e bispos católicos, representantes dos partidos e dos sindicatos, entre outros, tinha como objectivo decapitar o país e deixar a população inteiramente desorientada.

Pensava que nunca mais o mundo veria nada de semelhante. Mas leio o discurso de Hitler (de que passo a seguir uma tradução sofrível) e sinto como o seu eco ressoa em tantos fenómenos e discursos que ouvimos hoje em dia: a auto vitimização, a invenção de ameaças externas para justificar a necessidade de nos unirmos contra esse inimigo, o apelo ao heroísmo, a justificação do #belicismo argumentando que os esforços diplomáticos foram gorados e que o país tem de se defender.

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Discurso de Hitler em 1.9.1939, publicado no Portal da História:


Delegados, homens do Reichtag alemão!
Durante meses, temos sido atormentados por um problema que nos foi forçado pela imposição (diktat) de Versalhes e que, devido à escalada e à deterioração da situação, se tornou, agora, absolutamente intolerável.
Danzig [Gdansk] foi e é uma cidade alemã! O corredor era e é alemão! Todos estes territórios devem o seu desenvolvimento cultural exclusivamente ao povo alemão, sem os quais a barbárie absoluta reinaria naqueles territórios orientais. Danzig foi separada de nós! O corredor foi anexado pela Polónia! As minorias alemãs que lá vivem foram maltratadas da maneira mais cruel. Já nos anos de 1919-1920 mais de um milhão de pessoas de sangue alemão foram expulsas de suas casas. Como de costume, tentei alterar esta situação intolerável através de propostas de mudança pacíficas. É mentira, se em todo o mundo se disser que nós conseguimos as nossas propostas de mudança exercendo unicamente pressão. Houve muitas oportunidades, quinze anos antes de o Nacional-Socialismo assumir o poder, de se realizarem modificações por via pacífica.
Isso não foi feito. Em cada caso específico, tomei na altura devida a iniciativa, não uma mas muitas vezes, de apresentar propostas de mudança de condições absolutamente intoleráveis... Uma coisa, porém, é impossível: a exigência de que uma mudança pacífica possa ser feita a partir de uma situação intolerável, e depois recusar-se obstinadamente a tal revisão pacífica. É igualmente impossível afirmar que, em tal situação, actuar de acordo com a nossa iniciativa de fazer a mudança é violar a lei.

Para nós, alemães, o diktat de Versalhes não é uma lei. Não se pode aceitar que alguém seja forçado, com uma pistola apontada e ameaçando matar à fome milhões de pessoas, a assinar um documento e depois proclamar que o documento com sua assinatura forçada seja uma lei solene...
Embora estivesse profundamente convencido de que o governo polaco - possivelmente devido à sua dependência de um grupo de militares descontrolados e traiçoeiros - não estava seriamente interessado em realizar um verdadeiro acordo, eu, no entanto, aceitei a proposta do governo britânico de mediação.
Estes afirmaram que não seriam eles próprios a continuar as negociações, mas garantiram-me que iriam estabelecer contactos directos com a Polónia e a Alemanha, para conseguirem que as negociações retomassem de novo. Devo declarar o seguinte: aceitei esta proposta. Para estas conversas elaborei os princípios que são conhecidos por todos! Então, eu e o meu governo esperámos dois dias completos à espera que o governo polaco se decidisse finalmente a enviar ou não um plenipotenciário! Até à noite passada não enviou nenhum plenipotenciário, mas informou-nos, através do seu embaixador que, naquele momento, estava a considerar a questão de saber se e em que medida poderia aceitar as propostas britânicas. E que informaria a Inglaterra da sua decisão.
Membros do Reichstag! Se este tratamento pode ser dispensado ao Reich alemão e ao
seu chefe de Estado, e o Reich alemão e o seu chefe de Estado se submetessem a este tratamento, então o povo alemão não merecia mais do que desaparecer da cena política! As minhas propostas de paz e a minha infinita paciência não devem ser confundidas com fraqueza, muito menos com cobardia! Portanto, informei a noite passada o governo britânico de que, estando as coisas como estão, não me tinha apercebido de qualquer interesse do governo polaco em entrar em  conversações sérias connosco.

Tendo estas propostas de mediação fracassado, as respostas a estas propostas foram, entretanto, em primeiro lugar, a ordem de mobilização geral dos polacos e, em segundo lugar, novas e graves atrocidades. Estes incidentes voltaram novamente esta noite. Depois de terem ocorrido recentemente vinte um incidentes de fronteira houve mais catorze a noite passada, três deles muito graves. Por esta razão, decidi utilizar com a Polónia o mesmo tipo de linguagem que a Polónia tem vindo a utilizar connosco há meses.
Se houver governantes no Ocidente que declararem que os seus interesses estão envolvidos, só posso lamentar essa declaração, no entanto, isso não me conseguirá convencer a desviar-me um minuto que seja do cumprimento das minhas obrigações...
Estou feliz por puder informá-los aqui de um acontecimento de especial importância. Estais ciente de que a Rússia e a Alemanha são governadas por duas doutrinas diferentes. Havia apenas uma pergunta que tinha que ser esclarecida: a Alemanha não tem nenhuma intenção de exportar a sua doutrina e, a partir do momento que a Rússia não tiver intenção de exportar a sua para a Alemanha, não vejo nenhuma razão pela qual devemos ser de novo adversários! Estamos ambos de acordo sobre este ponto: a luta entre os nossos dois povos só seria útil a outros. Por isso, resolvemos estabelecer um acordo que exclui, no futuro, qualquer utilização da força entre nós, que nos obriga a consultarmo-nos mutuamente sobre certas questões europeias, torna possível a cooperação económica e, sobretudo, garante que estas duas grandes potências não esgotarão as suas energias na luta uma contra a outra. Qualquer tentativa por parte das potências ocidentais em alterar estes factos falhará, e, neste contexto, gostaria de dar as seguintes garantias: esta decisão política significa uma enorme mudança para o futuro e é absolutamente final!

Acredito que todo o povo alemão saudará esta atitude política! Na Guerra Mundial, a Rússia e a Alemanha lutaram entre si e, em última análise, os dois países foram os únicos a sofrer. Isso não deve acontecer uma segunda vez! O pacto de não-agressão e de consulta, que já entrou em vigor após a sua assinatura, foi ontem ratificada em Moscovo e Berlim. Em Moscovo, o pacto foi saudado como o foi aqui. Concordo com cada palavra do discurso feito pelo Sr. Molotov, o comissário russo dos Negócios Estrangeiros.
Os nossos objectivos: 
Estou determinado - em primeiro lugar, em resolver a questão de Danzig, em segundo lugar, a questão do Corredor; e terceiro, a ver se ocorre uma mudança nas relações da Alemanha com a Polónia, que assegure uma coexistência pacífica entre os dois países. Estou determinado a lutar até que o actual governo polaco esteja disposto a realizar esta mudança ou que qualquer outro governo polaco o esteja disposto a fazer. Quero remover da fronteira alemã o elemento de insegurança, o clima permanente que se assemelha a uma guerra civil. Vou fazer com que a paz na fronteira oriental seja a mesma que existe nas nossas outras fronteiras. Quero realizar as acções necessárias de modo a que elas não contradigam, membros do Reichstag, as propostas que vos dei a conhecer aqui, assim como as minhas propostas para o resto do mundo. Isso quer dizer que eu não quero travar uma guerra contra mulheres e crianças. Instruí a minha força aérea para limitar os seus ataques a objectivos militares. No entanto, se o inimigo concluir que pode fazer a guerra de maneira diferente, terá uma resposta que o vai por fora de sim!
Ontem à noite, pela primeira vez soldados regulares do Exército Polaco dispararam em direcção ao nosso território. Desde as cinco horas e quarenta e cinco minutos que respondemos ao fogo! De agora em diante cada bomba será respondida com outra bomba! Quem luta com gás venenoso será combatido com gás venenoso. Quem desrespeita as regras da guerra humana, pode estar seguro que faremos o mesmo. Vou continuar essa luta, não importa contra quem, até ao momento em que a segurança do Reich e os seus direitos estejam garantidos!
Há mais de seis anos que tenho estado envolvido na criação das Forças Armadas Alemãs.
Durante este período, mais de 90.000 milhões de Reichsmark foram gastos na criação da Wehrmacht. Hoje as nossas forças armadas são as melhor equipadas do mundo, e são muito superiores às de 1914. A minha confiança nelas não será abalada nunca.
Se mobilizo a Wehrmacht e peço sacrifícios ao povo alemão, e, se for necessário, sacrifícios ilimitados, é porque tenho o direito de o fazer, porque eu estou tão pronto hoje como estive no passado a realizar os os sacrifício pessoais que for necessário fazer. Não peço nada aos alemães que eu próprio não estivesse preparado para fazer a qualquer momento, durante mais de quatro anos. Não haverá privações para os alemães que eu não partilhe imediatamente. A partir deste momento toda a minha vida pertence mais do que nunca ao meu povo. Agora, não quero ser mais nada, do que o primeiro soldado do Reich alemão.
Assim, enverguei mais uma vez o uniforme que sempre foi para mim o mais querido e sagrado. Só o porei de lado com a vitória - ou não viverei para ver o fim!
Se nesta guerra alguma coisa me acontecer, o meu primeiro sucessor será o membro do Partido Goering. Se algo acontecer ao membro do Partido Goering, o seu sucessor será o membro do Partido Hess. A estes homens, enquanto vossos dirigentes, deverão a mesma lealdade e obediência absoluta que me devem a mim. No caso de algo poder acontecer também ao membro do Partido Hess, tomarei providências legais para a convocação de um senado que elegerá, então, o mais digno, isto é, o mais valente, do seu seio!
Como nacional-socialista e soldado alemão entro nesta luta com um coração forte! Toda a minha vida foi uma luta permanente pela minha nação, para a sua ressurreição, para a Alemanha, e toda esta luta foi inspirada por uma única convicção: a fé neste povo! Uma palavra eu nunca conheci: capitulação. E se alguém pensa que vem aí tempos difíceis gostaria de recordar-lhe o facto de que há tempos um rei da Prússia com um Estado ridiculamente pequeno, enfrentou uma das maiores alianças que alguma vez existiu e saiu vitorioso após três campanhas, porque possuía uma fé forte e firme que nós nestes tempos, também temos necessidade de ter . Quanto ao resto do mundo,  quero assegurar: Novembro de 1918 não acontecerá novamente na história alemã. Assim como eu estou preparado para arriscar, a qualquer momento, a vida pelo meu povo e pela Alemanha, exijo o mesmo de todo a gente!
Quem acreditar que tem uma hipótese de fugir, directa ou indirectamente, a este dever patriótico morrerá.

Não queremos traidores. Estamos a agir unicamente de acordo com o nosso velho princípio: a nossa própria vida nada importa, o que importa é que o nosso povo, que a Alemanha viva...
Concluo com as palavras com as quais comecei a minha luta pelo poder no Reich.
Naquela época afirmei: 
"Se a nossa vontade for tão forte que não consiga ser quebrada por qualquer sofrimento, então a nossa vontade e o nosso aço alemão também serão capazes de dominar e conquistar o sofrimento". 
Alemanha - Sieg Heil!

Fonte:
Roderik Stackelberg e Sally A. Winkle, The Nazi Germany Sourcebook - An Anthology of Texts, Londres e Nova Iorque, Routledge, 2002, págs. 254-257.
Tradução:
Manuel Amaral