29 abril 2016

estudantes sírios

Ontem os meus filhos aproveitaram a minha ida à Filarmonia, e encheram a casa de refugiados sírios.

Quando voltei, encontrei uma dúzia de rapazes e raparigas muito sossegados a fazer um jogo e a contar histórias, com música cubana a arredondar a cena.

Comi os restos da comida deles, e deixei-os em paz. Bem sei que tenho por aí muitos leitores cuscos mortinhos por saber como foi, e como são os "refugiados sírios", e tal, mas preferi deixá-los ser o que são: amigos dos meus filhos que vieram jantar com eles.


26 abril 2016

"galo ou galinha"

[Notícias frescas da enciclopédia mais engraçada do mundo]

Sabem aquela coisa de "levantar-se com as galinhas"?
Para fusos horários próximos é um truque fácil de explicar. Por exemplo, e o Vítor e eu não nos levantamos com as galinhas (ele, dinamarquesas, e eu, alemãs) (ou berlinenses, que não é a mesma coisa), o sol é que se levanta com as galinhas russas, e nos acorda antes de acordar os outros enciclopedistas, que estão em Portugal ou no Brasil.
Uiiii, os do Brasil! Só aparecem aqui à hora a que estamos a sonhar com galinha de cabidela para o almoço, e depois ficam com fama de mandriões, quando afinal a culpa é das galinhas russas que sacodem o sol para fora da cama à hora a que as galinhas brasileiras estão a sonhar com minhocas e assim.
Para fusos horários longínquos é mais complicado explicar. Como daquela vez que trabalhava em San Francisco e estava à espera de uma tradução que me fora prometida para as nove da manhã de segunda-feira na Coreia do Sul, e até sabia que horas era isso na Califórnia, só não sabia se era de domingo, segunda ou terça. Má organização das galinhas.
(Hoje fiz um risotto fantástico de espargos verdes, acompanhado com um belo branco alentejano, provavelmente nota-se um bocadinho.)
E por falar em arroz de galinha de cabidela: o neto da minha vizinha chama-lhe "arroz de chocolate".
Na casa dos meus pais havia um Livro do Pantagruel, e dentro dele uma receita de arroz de cabidela que começava assim: "vá ao galinheiro buscar uma galinha de tamanho médio". No quintal havia galinhas. Quando estava mau tempo metiam-se na cave. Isso era no tempo em que as pessoas iam do campo para a cidade sem passarem antes por um curso de integração.
Adiante.
A minha melhor história com galinhas conta-se depressa: a minha avó deixava as galinhas à solta no terreiro, e prendia as flores.
A minha segunda melhor história com galinhas contou-ma uma amiga: na casa dela todas as crianças tinham uma galinha de estimação. Em dias de fazer canja, cada irmão fugia com a sua galinha, com ela bem presa ao peito, gritando "a minha não! a minha não!"
A minha terceira melhor história é com pintainhos, promessa de galos e galinhas: fomos à feira de Barcelos, e estavam a vender pintainhos amorosos. Os meus filhos compraram alguns, e puseram-lhes nomes que eram mesmo a cara deles (Elza, Herbert Bonaparte, Fritz the emperor. Mas eles ainda eram muito novinhos, e começaram a morrer, um após outro. Convencido que o nome é que lhes era fatal, o Matthial ainda tentou rebaptizá-los. Debalde. De próxima vez temos de comprar pintainhos mais velhos, e eu, por muito bom que seja o risotto do almoço, bebo é água.


mais uma causa fracturante: casas de banho unissexo

Quando parecia que já não havia mais causas fracturantes para nos fazer perder o nosso rico tempo, vem a Margarete Stokowski (no Spiegel online) falar das casas de banho públicas. Ora vejam:
(em versão sintetizada e traduzida à pressa, como de costume, com links para artigos em alemão e, na parte relativa ao risco de suicídio, em inglês)

Segundo uma nova lei, no North Carolina as pessoas são obrigadas a usar a casa de banho pública correspondente ao sexo que consta na sua certidão de nascimento. Para os transexuais, isso significa que, mesmo vivendo há anos ou décadas como mulher, se deve usar a casa de banho dos homens - e vice-versa. E aceitar sujeitar-se ao sentimento de desconforto, aos insultos, às agressões físicas ou à expulsão desse local, que é o que costuma acontecer nesses casos. A alternativa é ir aguentando até encontrar uma casa de banho privada.

As casas de banho públicas são o exemplo preferido para mostrar como tudo fica incrivelmente complicado quando se trata de acomodar os interesses de todas as minorias trans-, inter- ou qualquer coisa com gender queer: essa gente é tão complicada, não é? Até nas casas de banho nos complicam a vida.

No entanto, há muito que frequentamos casas de banho públicas unissexo nos aviões e nos comboios, e nem reparamos.

Podia ser tão fácil: casas de banho para todos. Pode-se e deve-se discutir sobre muitas coisas, mas não devia ser preciso discutir sobre a necessidade de escolher tranquilamente a casa de banho que se quer usar.

E nem sequer é preciso fazer obras. Basta mudar as placas, para "em pé / sentado" ou "com urinol / sem urinol".

Mal se diz "casa de banho unissexo" ou "para todos os géneros" aparece logo um Martenstein a sugerir que as pessoas mintam. "O melhor que os transexuais e intersexuais alemães podem fazer pelo seu país  resume-se na seguinte frase: a outra casa de banho está avariada." Que a um jornalista premiado não ocorra que é muito fácil ir verificar se essa afirmação é verdadeira, e que as mentiras podem ser punidas com tareias, ilustra bem a ignorância das pessoas nestas questões de género.

A propósito de músicos famosos que cancelaram os seus concertos nesse Estado, como protesto contra esta lei, alguém comentava no facebook do Spiegel: "talvez as pessoas estejam farta de ser OBRIGADAS a seguir todas as modas idiotas? Tanto o politicamente correcto como estas manias de género surgiram nos EUA." Como este facebook, aliás. Outro escrevia: "Desculpem, mas afinal para que é preciso uma lei? Com pénis = casa de banho dos homens, sem pénis = casa de banho das mulheres."

A mensagem é a mesma - seja do Martenstein, ou dos comentadores: "se eu não tenho problemas, porque é que querem mudar?"

Como é possível pensar assim? Será que estas pessoas querem tirar das prateleiras dos supermercados os produtos que elas próprias não consomem? Querem tirar as legendas aos filmes na sua língua, porque elas entendem tudo? Querem que se poupe o dinheiro da iluminação pública nas noites em que não saem?

Em qualquer embalagem de Snickers vem escrito em grandes letras que contém amendoins. Quantas pessoas são alérgicas a amendoins? Diz-se que 0,5% a 1% das crianças alemãs. Se não nos incomoda marcar as embalagens de chocolate em função dos interesses de minorias, o que nos impede de fazer o mesmo com as casas de banho?

Será que as pessoas que se irritam com as casas de banho unissexo sabem que as pessoas transexuais são alvo muito mais frequente de ataques, e têm um risco maior de depressão e suicídio? E não é por predeterminação natural. Quanto maior o número de experiências de rejeição no seu contexto social, maior o risco de suicídio.

Sinceramente: não entendo como é que as pessoas que sabem isto, e continuam a afirmar que exigir casas de banho públicas unissexo é uma perda de tempo e uma patetice, conseguem ver-se ao espelho quando estão a lavar as mãos depois de terem usado com toda a tranquilidade a casa de banho pública.



[Nota 1: A última frase resolveu-me uma dúvida existencial antiga: porque é que há pessoas que não lavam as mãos quando usam a casa de banho? Agora sei: por algum motivo grave, não têm coragem de se ver ao espelho...]

[Nota 2: O artigo do Martenstein diz que em Kreuzberg, Berlim, vão pôr caixas à volta dos urinóis, para impedir que os outros utentes vejam o que ali se está a mostrar. O Martenstein fala nos custos desta medida, e que em vez de exigir essa despesa aos cofres do Estado era muito mais patriótico o transexual ir à casa de banho feminina desculpando-se com uma pequena mentira. Ora, essa das caixas interessa-me muito. Já ouvi muitas vezes rapazes, ou até homens mais velhos, queixarem-se de de se sentirem incomodados pelo interesse que o vizinho de urinol demonstra pelo que ali se mostra. Ora, enquanto não conseguirmos educar todo o povo para respeitar a intimidade alheia mesmo quando é exposta, talvez fosse boa ideia pensar nessas caixinhas para todos...] [Esta última sugestão  é só para provocar, claro.]


25 abril 2016

o Colégio Militar e a sua cultura de inclusão

Se eu soubesse quem manda no Colégio Militar, escrevia a essa pessoa a sugerir que proibisse toda a gente ligada à instituição de falar sobre ela. Ultimamente, de cada vez que alguém abre a boca, parece que está a fazer crash testing com a imagem da escola. Amolgadelas em cima de amolgadelas.
(Bem sei que isto de impor mordaças vai um bocadinho contra a Constituição, mas uma das amolgadelas recentes foi justamente sugerirem a possibilidade de dar um jeito quando a Constituição não dá jeito, e portanto...)

Amolgadelas:

- Aquela mãe entrevistada no Observador que teme que, "numa escola em que o mais novo deve respeito ao mais velho", o mais velho possa violar o mais novo. Se isto não é uma facada nas costas do Colégio Militar! A frase dá a ideia de se tratar de uma instituição na qual os adultos investem os alunos mais velhos de poderes arbitrários sem - aparentemente - haver garantia da aptidão para o seu exercício.
Concretamente, no que diz respeito ao medo da violação: se, no nosso tempo, qualquer miúdo tem consciência da sua dignidade e da inviolabilidade do seu corpo, que espécie de "respeito pelos mais velhos" vigora no Colégio Militar, que profunda alienação dos direitos de personalidade acontece ali, que leva uma mãe a temer que o seu filho não faria imediatamente queixa de um mais velho ao menor sinal de este querer abusar dele? Mais: se essa imposição de um respeito total realmente existe e é desejada pela instituição, como é que se garante que não há abuso? É que é muito fácil identificar um comportamento sexual invasivo e predador, mas o mesmo não se pode dizer da prepotência e do abuso sádico do poder. Como é que o Colégio Militar protege os seus alunos mais frágeis de algum eventual desequilíbrio psicológico e de carácter de um aluno mais velho?
Mais valia essa mãe não dizer nada, para evitar dar tão má imagem da escola.

- No mesmo artigo do Observador, exprimia-se uma outra preocupação, a de "ter um filho violado por causa da Constituição", que dá a quem está de fora a ideia de que dentro do Colégio Militar  (1) se entende que a lei fundamental do Estado português pode ser suspensa quando o medo fala mais alto e (2) apesar de ser uma escola que se orgulha de treinar os alunos para a obediência e a disciplina, não consegue afinal impedir que nas camaratas os alunos façam o que muito bem lhes apetece (à revelia das regras claramente expressas, tais como a proibição de namoros e, por maioria de razão, de contactos sexuais). Bem sei que a liberdade de expressão, e isto e aquilo, mas peçam a essa pessoa que se cale, porque a imagem que transmite é a de uma escola sem rei nem roque.

- O subdirector da escola contou, numa entrevista ao Observador, que os casos de roubo e de drogas são tratados pela direcção (transferência imediata para outra escola), enquanto os casos de homossexualidade acabam por ser resolvidos, aparentemente, com uma vaga de bullying tolerada que envolve todos os alunos: “Passados 30 segundos, toda a gente sabia. O colégio parece um Big Brother. Tudo se sabe. A informação passa. Agora repare o que é um aluno numa situação crítica e complicada, e que deveria ter alguma salvaguarda de identidade… Passado uma hora, 600 sabem e 600 estão a comentar. É complicado“. O aluno acabou por sair da escola.

Uma pessoa bem tenta, mas é difícil não imaginar um cenário no qual, sendo impossível expulsar o aluno por homossexualidade, se permite que os outros alunos lhe dificultem de tal maneira a vida que ele acaba por sair. E nem sei o que me assusta mais: se a imagem de um grupo de alunos tacitamente autorizado a comportar-se como mob contra um colega que se suspeita ser homossexual, se a direcção de uma escola que parece demitir-se de resolver um problema com a sabedoria e a autoridade de pessoas adultas. Ora, eu não percebo nada de escolas militares, mas percebo bastante de escolas civis, onde já vi directores e professores a agir em defesa de um aluno e dos princípios indiscutíveis da nação, interpondo-se entre o aluno e o mob e cortando cerce o fenómeno de bullying. Entre outras medidas, vi alunos de seis anos a escrever cem vezes a mesma frase simples que descrevia uma norma fundamental da escola, e vi alunos finalistas a receber um castigo colectivo - uns pelo seu comportamento aviltante e os outros por terem visto e não terem tomado claramente partido contra o que estava a acontecer.

Felizmente, e ao contrário do que aquelas pessoas andaram a dizer, no Colégio Militar vigoram outras regras. Segundo li no DN, um porta-voz do Exército assegurou que a direção do Colégio Militar "não promove nem compactua" com práticas discriminatórias e atua pedagogicamente junto da comunidade escolar visando preservar o bem-estar dos alunos e criar uma "cultura de inclusão".
Compete à direção do Colégio Militar "garantir as melhores condições a todos os alunos, preservando todo e qualquer aluno que tenha sido sinalizado como alvo de discriminação, agindo de forma educativa junto da comunidade escolar, de forma a ser criada uma cultura de inclusão e não de exclusão".
"A postura da direção do Colégio Militar (CM) é de não promover ou compactuar com comportamentos ou práticas discriminatórias, seja qual for a sua natureza, e atua pedagogicamente, com o intuito de preservar o bem-estar dos seus alunos ou alunas, junto do encarregado de educação e da comunidade escolar", declarou o porta-voz do Exército, tenente-coronel Góis Pires, em resposta a questões da Agência Lusa. Colocados perante uma situação que "configure um comportamento discriminatório seja de que ordem for", a direção do CM "envolve, compreensivelmente, os encarregados de educação, aos quais caberá tomada de decisão" sobre a melhor solução para o aluno ou aluna. 

Isto é que é falar! Se bem entendi, a escola assume uma posição muito clara de inclusão, e fala com os encarregados de educação dos alunos com práticas discriminatórias, para os envolver na resolução desse problema comportamental.

"Mas então castigam as vítimas e protegem os homossexuais?!", perguntarão alguns. À primeira vista, a reacção até pode fazer algum sentido. Em defesa das linhas de orientação que o Colégio Militar afirma com tanta clareza, vejamos de perto os argumentos apresentados a favor da exclusão dos alunos homossexuais:

1. "Queremos os nossos filhos em segurança"
Penso num episódio da minha própria adolescência: no recreio da escola, uma colega acusou-me de ser lésbica, por gostar de andar de braço dado com a minha melhor amiga. Foi desagradável, mas ninguém lhe deu ouvidos, nem houve cochichos, nem me chatearam. O que teria sido a minha vida, ou aquela fase da minha vida, se na escola se tivesse formado um movimento generalizado de rejeição por suposta homossexualidade?
Alguém quer o seu filho numa escola onde uma insinuação (tenha ou não um fundo de verdade) resulta numa perseguição por parte de todos os alunos da escola? Alguém tem dúvidas de que o risco de o seu filho ser vítima de uma brutalidade destas é muitíssimo maior que o risco de ser violado numa camarata? (Já agora: alguém deseja para o seu filho que, ao sair do armário, se torne vítima de bullying por parte de 600 colegas?)

2. "Eles andam nus nas camaratas e nas instalações sanitárias, o que se pode prestar a situações muito desagradáveis de voyeurismo e de proximidade física não desejada."
Compreende-se inteiramente. E pergunta-se: num cenário em que pura e simplesmente não se pode expulsar o aluno por suspeita de homossexualidade, nem se permite que ele seja rejeitado pelos seus pares, o que se pode fazer então para evitar situações dúbias? A solução mais simples é ter vestiários e sanitários individuais para os alunos que querem ocultar a sua nudez. A solução mais trabalhosa, mas também mais profícua, é um trabalho de educação para o respeito mútuo. Sei que é possível ensinar os alunos a conversar de forma aberta e justa sobre o que os incomoda (no infantário dos meus filhos havia crianças de 3 anos que já o conseguiam fazer - quem quiser saber mais, pode procurar "Ursula Thrush" e "peace table") e sei, por experiência própria como frequentadora de praias de nudistas e de saunas mistas que, se quiserem, as pessoas sabem estar num contexto de nudez sem usarem um olhar de devassa.

3. "Eles vão violar os nossos filhos". Este argumento é mais difícil de compreender. Por algum motivo que não entendo, há pessoas que acreditam que os homossexuais, todos os homossexuais, são abusadores. Espero que em algum momento abram os olhos para a realidade: homossexualidade e abuso não são sinónimos, e, por outro lado, há homens casados e com filhos que gostam de ter sexo com rapazinhos. Não há qualquer certeza nem sobre quem pode ser um abusador nem sobre quem está acima de qualquer dúvida, pelo que manter longe dessa escola os alunos homossexuais não resolve o problema da segurança - além de ser anticonstitucional, e uma injustiça e uma ofensa inaceitáveis. Mais vale preparar os nossos filhos para a eventualidade de serem vítimas de abuso, e para se saberem defender.

4. "Eles vão levar os nossos filhos para maus caminhos". Ouço muito este argumento, e não consigo entender o medo do efeito "maçã podre que vai estragar os outros".
Vejamos: eu podia ter a Ellen DeGeneres super apaixonada por mim a dormir na cama ao lado, e nem por isso sentiria a mínima vontade de, digamos, dar o corpo ao manifesto. Gostaria muito de conversar com ela, mas não sentiria desejo físico e não lhe alimentaria falsas esperanças. Por isso, não compreendo esse medo do "contágio".
O que leva as pessoas a temer que os seus filhos heterossexuais se possam sentir atraídos pelo caminho da homossexualidade? Que imagem têm da heterossexualidade - tão penosa, tão pouco convicta - que qualquer promessa de algo diferente a pode ameaçar?


"festa"

Hoje, na nossa enciclopédia, é dia de F de Festa.

Escrevi um apontamento (a seguir) que suscitou uma magnífica resposta da Guiomar Belo Marques. Já ouvi todo o programa, sentindo uma pena cheia de retroactivos por não ter estado no Coliseu nesse dia. Mas tinha 10 anos, e morava no Porto.

O meu apontamento:

"Festa" é uma bela palavra para este dia. Melhor seria ainda se fosse no 1º de Maio.
Ainda ontem ouvi alguém dizer, no filme "48" da Susana Sousa Dias: "O 25 de abril começou no 1º de Maio". Nesse dia, no Porto, assisti à maior festa da minha vida: um povo inteiro unido em abraços, sorrisos e lágrimas de alegria, já sem medo e ainda sem divisões. Muitos anos mais tarde, estava no sul da Alemanha no primeiro 3 de Outubro, quando se assinou o tratado da reunificação. Saí para o centro da cidade antecipando o segundo 1 º de Maio da minha vida, os alemães todos unidos numa imensa alegria comum e eu entre eles, a reviver o meu passado num presente feliz - e nada. O pessoal aproveitou o feriado para ir tratar da sua vidinha.
Deixem cá que vos diga: a comissão de festas em Portugal trabalha melhor. Muito melhor!


A resposta da Guiomar (para os assinantes do Público: podem consultar no arquivo do jornal um texto de página inteira sobre este espectáculo, na edição de 29 de Março de 2004):

Antes de mais, um Viva à Festa que é, dentro de nós, o dia de hoje.
A Helena Araújo diz, no seu post, que o “25 de Abril começou no 1º de Maio” e em parte tem razão, mas, de certo modo, ele começou foi a 29 de Março de 1974, quando se realizou no Coliseu dos Recreios o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da Imprensa. Não por ter tido qualquer influência na data em si ou na operacionalidade dos Capitães de Abril, que já tinham tudo mais do que preparado, mas porque dele saiu a canção do Zeca que ficaria para a história como o hino do 25 de Abril.
Estive lá e jamais esquecerei aquela noite em que ninguém teve medo. Um momento de resistência e luta em relação ao qual a pide nada pôde fazer ( http://ruadojardim7.blogspot.de/2014/04/i-encontro-da-cancao-portuguesa.html).
Lá fora, eram dezenas de carrinhas da polícia de choque a circundar todo o perímetro do Coliseu, enquanto lá dentro os pides tentavam infestar a sala, sem sucesso. Atrás do palco, todos os cantores tiveram de soletrar uma a uma as letras que iam cantar. A pide ia-as proibindo na íntegra ou cortava versos. No palco, cada um ia explicando de formas indirectas que tinha esquecido ou perdido versos e o público cantava-os. Só o Zeca ficou sem soluções. O mais esperado por todos nós, o pai da canção de protesto em Portugal e o mais terrivelmente perseguido, viu uma a uma serem-lhe proibidas todas as suas músicas. Por fim, avançou com duas, que aos pides pareceram inócuas: Grândola e Milho Verde. Foi assim que Grândola, cantado duas vezes pela sala apinhada e de pé, e por todos os músicos no palco, determinou a escolha dos Capitães de Abril. Se não tivesse havido este concerto, a senha teria sido outra.
Ontem, encontrei, por acaso, o registo de um programa que os meus amigos António Macedo e Viriato Teles fizeram há dois anos para a rádio sobre este espectáculo. Desconhecia-o, porque não estava cá na altura, e foi com surpresa que revivi aquele inesquecível dia 29 de Março de 1974. Nem sabia, sequer, que aquilo tinha sido gravado. Foi emocionante ouvi-lo. Fica aqui, para o ouvirem se quiserem, hoje ou noutro dia qualquer, porque vale a pena.
Bom 25 de Abril para todos!


madrugada incompleta

Dia de festa: Abril é o nosso mês maior.
Marca o início de um caminho, do tanto caminho que ainda temos para andar.
Que não nos faltem a força, a alegria e o sentido.


Nas palavras da Inês Cardoso:

Celebrar Abril é recordar que a liberdade é uma conquista permanente. Uma inquietação que não nos larga. Não uma data, uma cor política ou uma história. Mas uma responsabilidade tremenda que a todos, a cada um, nos foi aberta. E nos é diariamente entregue.


20 abril 2016

lançamento do livro "Domadora de Camaleões" em Berlim




À atenção de quem mora em Berlim, e vou explicar em japonês, a ver se nos entendemos:

quem quiser ver uma demonstração da minha maior especialidade - fazer harakiri em público - apareça amanhã na apresentação do livro da Helena Ferro de Gouveia. Ela convidou-me para ser a oradora, e eu aceitei. Com o sentido de dever de um kamikaze. Cá vou eu de cabeça, aimêdês.

(Como é que se diz "alea jacta est" em japonês? só me ocorre "kampai", mas estou em crer que não é bem a mesma coisa)

Enquanto me preparo para o grande dia, gasto o tempo sem critério. Primeiro, escondo os chocolates de mim própria. Depois, vou à procura deles. Finalmente encontro um, e quando estou prestes a comê-lo lembro-me que amanhã vou apresentar um livro e convinha-me perder 10 kg. Escondo os chocolates outra vez. Depois ocorre-me que não precisam de ser 10 kg, 8 já fica mais que bem. Vou procurar de novo os chocolates. E assim vai a vida.

(É amanhã, 21 de Abril, às 17:30, no Espaço Cultural do Camões I.P., Zimmerstr. 55)


16 abril 2016

sábado. maravilha.




São onze e meia da manhã, acabámos de tomar o pequeno-almoço devagarinho, estamos por aqui em pijama, há bocadinho vi de relance o Fox em saltos alegres na direcção do lago, e o rapaz está agora a estudar uma valsa de Chopin ao piano.

Sábado. Maravilha.


15 abril 2016

"Para os meus filhos", Konstantin Wecker




Para uma amiga que gostou muito do que referi da canção do Konstantin Wecker para os seus filhos, aqui deixo uma tradução - rapidíssima! - da letra (mas não da poesia).

Em breve vocês estarão crescidos e sairão de casa,
a infância passou muito depressa.
Para os pais não se acaba tudo:
ainda têm outros interesses.

Embora tivesse gostado muito
de reter um ou outro momento,
é impossível moldar à nossa vontade
a volatilidade do tempo.

Que vos posso dar para esse caminho
que começam a fazer sozinhos?
A esperança de que o meu amor acompanhe
cada um dos vossos passos.

Nunca liguei muito à moral.
Quando há bem numa criança, quando há mal?
As crianças são inocentes, não as atormentem
com as vossas tretas de moral.

Vocês são um milagre. Como todas as pessoas,
nascidos do belo absoluto.
E o mundo seria tão mais pacífico
se acreditássemos nisso.

Nunca fui perfeito. Nem poderia ser.
Vocês conhecem o meu jeito para falhar.
Os pais perfeitos, esses, no máximo
conseguem divertir-nos.

Que fiz mal, que fiz bem?
Vocês foram-me apenas emprestados.
Não consigo falar com rodeios:
nunca vos quis educar.

Educar para quê? Para a ambição, para a cobiça?
Para ser chefe no campo certo?
Vocês sabem como eu amo
os sonhadores e os falhados.

Mas tenho um desejo, único e grande,
é só isto que vos peço:
seja o que for que vos prometerem,
não usem nunca um uniforme.

Não vai ser fácil. Os tempos estão difíceis.
Há rangidos fortes na engrenagem.
Tenho esperança que o meu amor incondicional
vos transporte também na travessia das dificuldades e das dores.

É só isto o que tenho para vos dar,
não tenho contas bancárias cheias.
O amor, e também momentos de beleza
nos quais aquecemos juntos o coração.

Não se preocupem com o vosso pai,
agora começa a vossa própria vida.
Eu aprendi - e agradeço-vos isso -
a dar sem exigir em troca.


[Adenda: No vídeo, ele explica que é no sossego da sua casa na Itália que os poemas vêm ter com ele. "Tenho de esperar até me acontecer um poema", diz. Praticamente todos os poemas que escreveu nos últimos trinta anos aconteceram-lhe lá. As férias em Itália eram marcadas pelo calendário escolar da Bavária, onde a família mora. Mas os filhos, que à data deste concerto tinham 15 e 18 anos, começaram a deixar de achar graça a passar as suas férias na tranquilidade da Toscana. Repentinamente, o pai deu-se conta de que o tempo estava a passar e que os filhos em breve sairiam de casa.]


primavera!

Neste filme, gosto de tudo. De tudo.




14 abril 2016

não desiste



O Konstantin Wecker deu na semana passada um concerto em Berlim. Está quase a fazer setenta anos, e não desiste: nem da poesia, nem da revolução, nem do amor, nem de acreditar na bondade das pessoas e num mundo que saberemos fazer melhor.

Canta "tenho um sonho / vamos abrir as fronteiras / e deixamos entrar todos / todos os que fogem da fome e da morte /sem deixar ninguém entregue à sua má-sorte"
E fala de partilharmos com eles a casa e o pão, e da tristeza dos ricos que nos vêem sem saber o que se ganha quando se dá. Acredita que a força doce deste sonho pode mudar o mundo, e nós, que o ouvimos, por um momento acreditamos com ele.
Critica o CSU e o seu discurso populista. Critica a Pegida, esse grupo que atrai pessoas desconfiadas da política e por ela esquecidas, que agora correm para os braços destes flautistas de Hamelin, retrógrados e fanáticos.



Canta "sem ter porquê", inspirado no poema de Angelus Silesius: A rosa não tem porquê. / Floresce porque floresce. / Não cuida de si mesma. / Nem pergunta se alguém a vê.
Vai mais longe, ao Mestre Eckhart: Se se perguntar à vida porque vive, ela responderá: vivo para viver.



Deita contas à vida com a canção mais comovedora da noite: para os seus filhos, que tão depressa cresceram. Pergunta-se o que terá feito bem, o que terá feito mal, diz-lhes que nunca os quis educar (para quê? para serem ambiciosos, para serem gananciosos?). Diz o que lhes deixa: recordações de momentos de beleza. Diz o que quer que levem sempre com eles: o seu amor de pai.



Depois atira-se de olhos fechados para o futuro. Está apaixonado, o poeta de setenta anos, e não soube tirar lições do que viveu e tropeçou no passado. Continua a acreditar que o amor lhe vai dar a viver a eternidade hoje.



Conta de novo sobre aqueles que discutiam os prós e os contras de fazer uma revolução, e do velhote bávaro que os interrompeu "façam a vossa revolução de uma vez, a ver se temos sossego."
Todos lhe conhecemos já esta história, e gostamos sempre de lha ouvir. Na sua voz, tudo faz sentido - porque é uma voz da decência que acusa vergonhas do nosso tempo: os ataques do exército alemão no Afeganistão, as exportações de armas, o nosso egoísmo de ricos, o pensamento cada vez menos livre.

Exige a revolução, exige dos que o rodeiam a partilha do amor à revolução. Elogia o papa Francisco que também quer uma revolução cultural para impedir que continuemos a transformar o nosso mundo numa lixeira - a revolução com a benção de Deus, ri-se ele, e canta:



Arrebata-nos com a sua "dança sagrada", e fala da dança divina na criação do mundo. Está cada vez mais espiritual, o nosso poeta da revolução. Talvez os caminhos paralelos se encontrem realmente no infinito.



E depois ri-se de nós, ri-se connosco. Passou três horas a dar-nos poesia, e nós nem notámos.

Claro que notámos, mas não lhe dizemos que foi para isso que lá fomos, para nos embalarmos na beleza da poesia que lhe acontece, como ele diz.


em primeira mão

(foto)

Onde está a televisão portuguesa, que eu estou aqui mortinha por contar o que senti quando passei ao fundo do Ku'damm e vi o início do que, vim a saber depois, era uma monumental razia que fizeram no bordel Artemis (falei dele neste post, quando festejava 10 anos), e ninguém me pergunta?

Então aqui vai o testemunho, em primeira mão: saímos de casa atrasados, por causa de coisas importantes mas que não interessa relatar, e quando chegámos à rotunda ao fundo do Ku'damm para entrar na auto-estrada vimos que havia sarilho. Tinham acabado de fechar o acesso àquela zona, e havia inúmeros carros de polícia ao longo da rua paralela à auto-estrada. Claro que pensámos logo numa ameaça de atentado terrorista, e fomos à nossa vida. Ao ver o engarrafamento brutal que já se formava, e dentro dele vários autocarros que fazem o serviço de quatro estações do anel de S-Bahn enquanto a linha está em obras, desatei a criticar a polícia. Que é preciso planear estas coisas, que é preciso avisar as empresas dos transportes públicos, coitados dos clientes da S-Bahn parados em Westkreuz, a tentar ver passar os autocarros e só vêem passar polícias, quantos deles iriam perder o avião em Tegel?, etc. (tendo em conta que supúnhamos um ataque terrorista, estas minhas reacções são quase ao nível da mulher que foi ao moinho pesar-se e encontrou um morto, eu bem digo que a televisão devia ter vindo falar comigo). Depois fomos ao que íamos, e quando regressámos aquela parte da auto-estrada ainda estava fechada, e havia uma fila de meio quilómetro de carrinhas da polícia.

Por uma vez sem exemplo encontrei notícias na internet sobre o que se passava em Berlim: 900 pessoas (dos quais 680 polícias) a fazer uma razia ao bordel, por suspeita de fuga aos impostos e às contribuições para a Segurança Social, tráfico humano, ligação aos Hell Angels (que terão forçado mulheres a prostituir-se nesse bordel). As suspeitas vinham escritas por esta ordem em todas as notícias que li: primeiro a fuga aos impostos e à Segurança Social, depois a prostituição forçada. Mas esta manhã o nosso diário berlinense já punha os crimes na ordem certa: primeiro a prostituição forçada, depois a fuga às contribuições para a Segurança Social (faziam de conta que as prostitutas trabalhavam por conta própria) e a fuga aos impostos, num total que se estima chegar aos 23 milhões de euros. Meu rico Tagesspiegel, se não tivesse já uma assinatura anual, era agora que a fazia.
A polícia prendeu seis pessoas (os dois proprietários e as quatro encarregadas do sector produtivo, digamos assim) e levou 212 pessoas (entre prostitutas, empregados e clientes) para prestarem declarações. Coitados dos homens que foram lá só para dar um pulinho entre o trabalho e o jantar, tiveram de telefonar para casa a dizer que tinham uma reunião inesperada que ia durar a noite toda.

Se quiserem ver imagens da dimensão da coisa, espreitem este site.

"E como é que se sente?"
Com vontade de dizer disparates, do género: parece que vão fechar o bordel, que era uma das poucas empresas produtivas desta cidade, e depois admiram-se que Berlim tenha uma dívida de sessenta mil milhões de euros. Deixem-nos trabalhar!, como dizia o Cavaco. Etc.


13 abril 2016

"templo"

Da primeira epístola aos Coríntios, 6:18-20:

"Fugi da fornicação. Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo. Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus."

Aquela coisa do corpo como templo do Espírito Santo atormentou-me a infância e a adolescência. Já não me lembro bem, mas parece-me que foi na catequese (ou no livro com uma lista de pecados, que havia na casa da minha avó, e me dava muito jeito para a check list antes de ir à confissão) (o problema era se perdia a minha check list, e os meus irmãos a apanhavam e liam) (é tão triste ser criança! como é possível ficar embaraçada por alguém ler aquela lista de pecadilhos "bati nos meus irmãos / desobedeci aos meus pais / não devolvi um livro que me emprestaram / deixei-me conduzir pela soberba numa discussão com a minha melhor amiga"?) (isto de uma pessoa se sentir embaraçada por tão pouco era tema para ontem, para "segredo": não importa o conteúdo do segredo em si, mas o facto de o seu dono não o querer devassado) foi na catequese, dizia, que me incutiram a ideia deste corpo exterior a mim, que era mais e melhor que eu. A princípio, bem foi: os meus pais que nem se atrevessem a bater no templo do Espírito Santo, até havia uma anedota para essa cena. Mas depois vieram os pecados contra a castidade ("sozinha ou acompanhada?", perguntava o cusco do padre), e aquele sentimento de haver algo errado na obrigação de escolher entre o ser e o dever ser. Na adolescência, os jovens católicos aprendem uma de duas coisas: ou a afastar-se da Igreja, ou a viver em hipocrisia.

E agora não sei quem mais se alegra: se o Espírito Santo, a dar um suspiro de alívio e a dizer ao São Paulo "eu bem te disse que andavas a precisar de umas valentes sessões de psicanálise" (o Sigmund Freud esfregará as mãos de contente, e o Nathan Ackerman virá juntar-se à conversa - a vantagem da vida depois da vida é que se pode fazer uma terapia familiar muito catita, juntando todas as gerações, para descobrir afinal que é Eva quem tem a culpa de tudo), se o diabo, que vai encomendar mais uns bons nacos de banha para fazer de mim rojões à moda do Minho, quando chegar a minha hora.


12 abril 2016

"segredo"

A palavra do dia, na melhor enciclopédia que conheço, é "segredo".


Já alguém sabe ao certo qual é o terceiro segredo de Fátima?
Eu, nem o segundo sei. Fiquei-me pelo primeiro: a Rússia vai espalhar os seus males pelo mundo, mas depois, se rezarmos todos o rosário, acabará por se converter.
A propósito, há dias estive num jantar com um dos últimos fãs do partido único da RDA. Se bem entendi, saiu do SED em 1992. O que é um bocado difícil, porque o SED deixou de ser SED em 1990, mas adiante. Estou a ver que lá terei de revelar o segredo que queria guardar: aquilo não era um jantar, era uma "wine-battle". Cada pessoa traz uma garrafa de vinho, provam-se todos sem ver as etiquetas, e decide-se qual é o vencedor; o perdedor, esse, está definido à partida: sou eu, que ao fim do terceiro vinho provado perco um bocadinho a compostura. A conversa sobre o comunismo apareceu já na penúltima garrafa, de modo que pode muito bem ter acontecido de eu ter confundido datas. Mas a ideia principal, e era o que eu queria contar aqui, é que em 2016 encontrei numa casa na antiga Berlim-Leste, num grupo de russos e de alemães dos dois lados da cortina de ferro, uma pessoa da antiga RDA que ainda sonhava com o comunismo que há-de vir. Os da RFA ouviam caladinhos, os da RDA e da Rússia caíram-lhe em cima: se nem na RDA, que era o Rolls-Royce do comunismo, funcionou, como há-de funcionar algum dia? Se foi experimentado em cada segundo país do mundo e não funcionou, o que o leva a pensar que no futuro funcionaria?
Ele insistia, teimoso. Agora sabemos o que falhou, sabemos como evitar erros.
Quer-me parecer que alguém não rezou o rosário como deve ser e como a Nossa Senhora pediu: ainda falta converter um resistente...
(Tivemos de sair nessa altura, e foi pena. Gostava muito de ter continuado a ouvir esse debate entre amigos com experiências tão próximas e conclusões tão diferentes.)


11 abril 2016

um novo hino nacional




Trago do Carlito Azevedo, o maravilhoso, no seu mural de facebook:

Um sonho: este passa a ser o hino nacional brasileiro, e em todos os jogos de futebol, eventos esportivos, e no dia 7 de setembro, e nos quartéis, e nas escolas primárias, velhos, jovens e crianças cantariam, de pé, emocionados: "O seu amor: ame-o e deixe-o livre para amar... / O seu amor: ame-o e deixe-o ir aonde quiser... / O seu amor: ame-o e deixe-o brincar / ame-o e deixe-o correr / ame-o e deixe-o cansar / ame-o e deixe-o dormir em paz / O seu amor: ame-o e deixe-o ser o que ele é / ser o que ele é / ser o que ele é".

--

O hino nacional brasileiro. Lindo!
E nós, Portugal? Qual seria o nosso novo hino nacional?
(Deixando de fora o Grândola, que é o mais óbvio.)


10 abril 2016

"um bocadinho de trabalho de integração"

"Ontem fiz um bocadinho de trabalho de integração", contou a minha filha.

Se querem saber tudo: no centro de refugiados onde vai trabalhar várias vezes por semana conheceu um rapazinho iraquiano de cinco anos, amoroso. A família mudou agora para outro centro, e ela foi visitá-los.

Se querem saber mesmo tudo: foi comprar um ramo de flores para levar à mãe, que está grávida, e desabafou com a florista que a sua colega do apartamento tinha levado o chocolate que ela queria dar ao miúdo. A florista ofereceu-lhe as flores, e disse-lhe que assim já podia comprar outro chocolate.

Lá foi ela para o novo centro, onde a família conseguiu um quarto inteiro só para si, e depois foram passear num parque. Às tantas viram um casal gay a passar, e a mãe comentou algo do género "ai que nojo". Com toda a calma, com um sorriso, e sem julgar, a minha filha explicou que na Alemanha é normalíssimo haver casais gay.

Trabalho de integração pode ser tão simples como isso: com calma, com um sorriso, e sem julgar.


viagem de autocarro (2)

 

   




 
 


no oksijan


Nesta semana de notícias terríveis sobre o que a Europa anda a fazer com os refugiados, um pequeno milagre: uma criança afegã de sete anos envia um SMS que salva a vida de 15 pessoas

Conto a história como li no jornal Süddeutsche Zeitung
Ahmed, o miúdo afegão, enviou este SMS a uma voluntária no trabalho com refugiados: 

     I ned halp darivar 
     no stap car no 
     oksijan in the car 

     no signal iam 
     in the cantenar. 
     Iam no jokan valla

[espaço para tentarem perceber o que ele queria dizer]

Meses antes, voluntários tinham dado a crianças da selva de Calais telemóveis com um número gravado, para elas usarem em caso de absoluta necessidade. O miúdo de sete anos conseguiu entrar na Inglaterra com mais 14 pessoas, dentro de um contentor. Quando o ar lhes começou a faltar, enviou a mensagem. 

Queria dizer: "I need help. The driver won't stop the car. No oxygen in the car. No signal. I'm in a container. I am not joking. I swear to God." 

Liz Clegg, a voluntária que recebeu a mensagem, estava num congresso em Nova Iorque. Telefonou imediatamente a Tanya Freedman, da fundação Help Refugees, em Londres, e esta avisou a polícia de Kent, que reagiu imediatamente, mal se apercebeu que era um caso de vida ou de morte. Arranjaram um tradutor para falar com o miúdo, localizaram o telemóvel em Leicestershire (180 km a noroeste de Londres). Ligaram à polícia local, que encontrou o camião parado numa bomba de gasolina junto à auto-estrada. Arrombaram o contentor, e encontraram as pessoas desesperadas com falta de ar. Os ocupantes foram detidos por suspeita de tentativa de imigração ilegal, e o miúdo está sob custódia. Apesar das detenções, Tanya Freedman sente-se aliviada pelas vidas salvas.


09 abril 2016

plágio - o riso e o risco

Esta manhã descobri que alguém tinha feito no facebook um texto a criticar o filme da Joana Vasconcelos a brincar aos refugiadozinhos, e pelo meio das suas linhas achou por bem meter um post que eu tinha escrito sobre o assunto, mas esqueceu-se das aspas.

Seguiu-se um momento de muito boa disposição no meu mural e no do plagiador, com o pessoal a fazer comentários que iam do divertido ao hilariante (vou deixar de lado os sérios, sobre a desonestidade de quem plagia, porque hoje é sábado e está um lindo dia de sol).

Concordámos quase todos, na galhofa, que um plágio é um reconhecimento de valor, diria mesmo: um elogio. Eu falava num novo indicador de sucesso, o "quote quotation", alguém dizia que ele não teria "material testicular" para pedir desculpa. O comentário mais hilariante foi um que apareceu no mural dele, dizendo algo como: "no seu caso, não precisava de levar nada na mochila - ia roubando aos outros pelo caminho".

Infelizmente, o meu fã tímido apagou o post e bloqueou-me. Que pena: já não posso voltar ao lugar onde passei uma manhã de sábado a rir com alguns amigos.

Além disso, o meu mundo internético ficou mais pequeno. Nunca mais vou poder ler as frases tão inspiradas que saíam do copy+paste do meu fã. Que ele será fã de outros melhores que eu, tenho a certeza!
Isto é uma triste vida...

--

Não foi a primeira vez. Já me dei conta de que gente realmente famosa na nossa praça se inspira no que escrevo, digamos assim, e esquece-se de mencionar o facto. Uma vez quase ia morrendo de vergonha: publiquei um apontamento rápido no facebook, com uma tradução ainda mais rápida que de costume, e de repente comecei a ver expressão que, na pressa, escolhera mal, a ser repetida por aí. A culpa foi de um figurão, que ainda por cima escreve bem. Não podia ao menos ter feito um pequeno serviço de edição de texto?!
Outra vez citei mal as conclusões de um estudo, e vi que outro figurão da nossa praça citava o mesmo estudo e as mesmas (por mim mal citadas) conclusões.

Portanto, aqui fica um aviso para os meus fãs: antes de me plagiarem, pensem.
Pensem que podem estar a repetir imprecisões porque eu, ao contrário de alguns de vocês, não sou jornalista e nem sempre trabalho com o esmero que é exigido à classe.
E pensem se querem oferecer uma barrigada de riso a mim e a quem quiser aproveitar para rir.

a armadilha da câmara

Quanto mais penso na triste figura que alguns dos nossos famosos fizeram no filme sobre o que levariam na mochila se fossem refugiados (#esefosseu, comentei aqui), mais me parece que o problema foi o reflexo condicionado de "vender a sua marca" quando estão perante uma câmara.

Em vez de pensarem realmente na situação dos refugiados, usaram essa oportunidade para reforçar uma determinada imagem de si próprios.

Que nos sirva de aviso: quantos de nós são capazes da presença de espírito e do distanciamento interior necessários para não cair na armadilha da câmara?


08 abril 2016

#esefosseeu

(foto)

Que se pergunte a uma criança de oito ou dez anos o que levaria numa mochila se tivesse de fugir da guerra, compreende-se. É um exercício que permite à criança pôr-se na pele do outro e entender um pouco melhor o que se está a passar no nosso mundo.

Que se pergunte o mesmo a um adulto, é um disparate. Os adultos deviam ter a capacidade de abstracção suficiente para perceberem o que isso significa sem precisarem de fazer bonequinhos.

Que se mostrem os filmes com as respostas mais ridículas, pior ainda. Em vez de falarmos da tragédia dos refugiados, entretemo-nos com o que alguns dos nossos famosos levariam. Fica ao nível banal e fútil da rubrica "o que leva Fulano na sua bagagem de mão?" das revistas dos aviões.

Muitos deles fazem pior figura que as crianças: parece que estão a falar de um fim-de-semana no Alentejo. Nem levam água, nem comida, nem o dinheiro todo que têm, nem medicamentos, nem pensos para as bolhas nos pés, nem sabão para se lavarem. E pensam que vão ter muito tempo para ler e fazer trabalhos manuais. Na travessia do Mediterrâneo, talvez, ou então quando se estiverem a enterrar na lama junto a uma fronteira fechada.

Uma sugestão à TV: mudem a questão, e entrevistem os mesmos. Perguntem-lhes: e se fosse eu a querer ajudar um refugiado concreto, um dos africanos à porta de Melilla, uma das pessoas que está em Idomeni, o que fazia?


a vida depois da vida














Adenda: como provavelmente se tornará habitual, aqui fica o comentário do nosso estimado leitor jj.amarante.

"Em primeiro lugar queria chamar a atenção da Helena para a sorte que teve em só ter ido morar para o pé do seu lago berlinense depois de haver máquinas fotográficas digitais, caso contrário teria que trabalhar muitas horas extraordinárias para pagar os rolos de película.

Desta vez guardei as fotos todas para ver se consigo descobrir outras sequências de apresentação das imagens, parece-me que o problema não tem solução única. Vê-se que algumas foram tiradas quando havia mais neve enquanto noutras a neve já derreteu. Fui ver (, a neve caía do azul cinzento do céu..., ) o nome dos ficheiros das imagens e constata-se que enquanto os com neve têm números de 3300 a 3500 os de neve derretida estão nos 8600.

A árvore a entrar pelo lago adentro faz impressão a pessoas como eu que têm atracção para cair na água, felizmente existem uns ramos no fim mostrando que o caminho não tem saída.

A neve ao fundo faz-me pensar na areia rosada duma praia mas o resto da paisagem mostra que não deverá ser isso. A transição do 3 para o 4 parece ser a que mostra melhor a chegada da Primavera. Gostei de todas e talvez um pouco mais da última, onde já se vêem umas coisinhas pequeninas a flutuar na água."

07 abril 2016

estão a brincar?



NOTA: depois de publicar este post, avisaram-me que confundi duas peças diferentes. O que está a ser analisado pelo Ministério Público é um poema lido noutro programa. E esse poema é muito mais ofensivo que esta canção. (Do género afirmar que o Erdogan gosta de ter sexo com cabras, e felattio com ovelhas, e que é perverso, gay, piolhoso...)

Não apago o post publicado, mas fica o aviso que de está errado. Peço desculpa pela confusão.
Independentemente deste episódio, mantenho a última parte do texto, a partir de "mas agarrem-me, que".

--

Na semana passada, um programa satírico alemão apresentou a canção sobre o Erdogan que está neste vídeo (com legendas em inglês). Já lhes vi piadas bem mais fortes do que esta, que praticamente se limita a repetir o que lemos frequentemente nos jornais. Mas chegaram protestos da Turquia, e de dezenas de pessoas residentes na Alemanha.
A Angela Merkel viu-se obrigada a declarar que se trata de uma "ofensa propositada" (nem quero pensar nas palavras que encontraria para descrever o "Heute Show"...) (e talvez fosse boa ideia enviar à chanceler um dicionário marcado na palavra "sátira").
O vídeo foi retirado da mediateca do canal (não sei quanto tempo ficará esta cópia no youtube - aproveitem enquanto existe), e o Ministério Público está a analisar as queixas que têm chegado, para decidir se pode ser considerado caso de "ofensa a órgãos ou representantes de Estados estrangeiros". O autor do programa incorre numa pena que pode ir até 3 anos de prisão.

Devem estar a brincar. Agora o primeiro de Abril dura uma semana inteira, deve ser isso.

(E eu nem sou muito Charlie, nem achei graça nenhuma à provocação das caricaturas do Maomé. Mas agarrem-me, que se me deixassem estava capaz de mandar que não saia mais nenhuma exportação de armas alemãs, e que se pague bem à Grécia para dar boas condições de alojamento aos refugiados enquanto não se decide se voltam para casa ou se vão para outro país da Europa, e vamos embora para a frente por caminhos de decência, que isto de fazer acordos com gente que não respeita princípios básicos da Democracia é como andar no meio de gente com gripe: arriscamo-nos a apanhar a doença.)


inteiramente dentro do momento


Leio comentários num post da Filarmonia de Berlim no facebook, e fico com cara de já sabem o quê a olhar para já sabem onde. Esta gente sabe tanto, e tantas coisas que não sei!

Mas depois ouço este pedacinho de concerto, e penso que não é preciso saber tudo. Basta estar tão inteiramente dentro do momento que nem me dou conta de que parei de respirar.


(Os comentários que me provocaram um ataque de só-sei-que-nada-sei:

- Karajan, 100% technique and 0% emotion. That's the problem of the teuthonic school. I love his performance as a chief conductor and genius, but I feel that something is missing like breathless feeling. 

- There is (nor ever was) no such thing as a specific "teutonic school" of orchestral playing and conducting. It's a very wide spectrum, and Karajan's style was just part of the spectrum. Nor is it "100% technique and 0% emotion". Many of the "teutonic" conductors like Furtwängler or Jochum were particularly known for their spontaneous and emotionally charged conducting which emphasized expression over technical perfection. Karajan combined elements of that fluent, breathing style with a great sense of sound. Technical perfection was never his primary goal either - one can hear many little flaws and moments of slightly imprecise ensemble in his recordings (including the above). He cared more for the long line, the big picture. The emphasis on technical perfection for its own sake was more something that came from Toscanini and that was cultivated in the US by many European conductors who emigrated to there, like Reiner, Szell, Rodzinski, and others. It was never a primary element of any part of the wide spectrum of the "teutonic" style of conducting and orchestral playing.)


T0 em Berlim, muito arejado e com obras recentes para aumento da área útil

Acabei de vir do dentista. Remoção da placa bacteriana talicoisa. Tenho a sensação que o espaço interior da minha boca aumentou uns 20%.


06 abril 2016

estava uma bela luz para ir ver passar comboios


Estava uma bela luz para ir ver passar comboios, mas dei comigo a ver passar carros.





Em Berlim a beleza e o horror revezam-se. Às vezes encontram-se no mesmo sítio. 
Um passeio num descampado, a ver passar comboios, desemboca no memorial Gleis 17, de onde os judeus berlinenses foram levados para os campos de concentração. 




boicotar a Dolce & Gabbana




Se bem entendi o que escreveu no Observador, é isto: a Maria João Marques apela ao boicote da Dolce & Gabbana como reacção ao surgimento de uma linha especial de vestidos de freira para as lojas da Via dei Cestari, em Roma. Esta decisão da empresa junta-a "ao lado negro da força que impõe indumentárias simbólicas da opressão e do desrespeito dos direitos humanos das mulheres. O que convoca, claro, um boicote à empresa por todas as mulheres de boa vontade".

No seu artigo, Maria João Marques cita a ministra francesa Laurence Roussignol, Que acusa certas marcas ocidentais de "colaborarem no controlo social dos corpos das mulheres, estarem a vender os princípios ao lucro" e "comparou até as mulheres que viam com bons olhos estas indumentárias como os ‘negros que apoiavam a escravatura’".
As Escravas do Sagrado Coração de Jesus mandaram dizer que não conseguiram acompanhar muito bem a lógica deste argumento.

Cita ainda Pierre Bergé, da Yves Saint Laurent: ‘Estou escandalizado. Os designers existem para tornarem as mulheres mais bonitas, para lhes darem liberdade, não para colaborarem com esta ditadura que impõe esta coisa abominável que esconde as mulheres e as faz viver uma vida escondida. Estes criadores estão a participar no aprisionamento das mulheres e deviam perguntar-se a si próprios várias questões’. Mais: ‘Desistam da massa. Tenham convicções. Defendam as convicções’.

Do lado oposto, mais concretamente, do Vaticano e suas ramificações, esbracejaram-se argumentos. Uma responsável das Filhas da Bem-aventurada Virgem Maria opinou ser uma questão de liberdade vender e vestir roupa que siga os preceitos católicos. As Servas do Sagrado Coração de Jesus tiveram "a sonsice de aconselhar mais atenção ao que as religiosas são como pessoas em vez de ao que vestem". 

A Maria João Marques critica, e muito bem: "Como se a forma de nos vestirmos não fosse uma maneira extraordinariamente eficaz de nos exprimirmos e de revelarmos a nossa personalidade."
E acrescenta: "Garanto a toda a gente que as cores das minhas carteiras, ou o abundante roxo ou azul-turquesa na roupa, brincos, anéis e sapatos, são inteiramente eu."
Ora aqui está uma informação preciosa! Há anos que olho para as fotos da Maria João Marques e penso "eu conheço esta cara, tenho a certeza que a conheço de algum lado". Finalmente caiu a ficha: é a Maga Patalógica.


Adiante, que a crítica impiedosa à Igreja Católica não termina aqui.
A autora continua: "como se o modo como nos apresentamos vestidos não condicionasse a nossa relação com os outros, seja porque uma mulher toda coberta convida a criar distância (que é, lá está, o objectivo dos panos pretos), seja porque a cara tapada e linguagem corporal mitigada por roupa larga e comprida exterminam parte da comunicação."
Mais um mistério que se explica: porque é que ninguém aguenta a proximidade das irmãs de caridade (ele é - milagre! milagre! - paralíticos que de repente começam a correr para saltar pelas janelas do hospital confessional, ele é idosos nos lares das freiras a morrer antes do tempo porque não aguentam viver num contexto de distância e recusa de comunicação, ele é crianças nos infantários das paróquias incapazes de dormir porque têm pesadelos com pinguins gigantes).

Outro ponto muito pertinente da crítica: a obrigação de as mulheres cobrirem certas partes do corpo quando entram nas igrejas. Mesmo que as visitem por motivos profissionais, os costumes impostos pela moral do Vaticano são intransigentes: nada de braços à mostra ou decote fundo. Pelo que os sindicatos estão muito bem quando exigem que, dada a imposição dos preceitos morais totalmente desadequados ao nosso tempo, as mulheres possam recusar trabalhar nesses locais.

A autora remata lapidarmente: "marcas como a Dolce & Gabbana ou a DKNY, que tentam dar glamour a indumentárias que são símbolo de opressão, merecem agravos. As mulheres – e os homens – também podem exercer a sua liberdade e comprar noutro lado. As escolhas de consumo são com frequência escolhas políticas e morais."

Toma, Vaticano! Embrulha.

--



Como provavelmente já repararam, a Maria João Marques estava a criticar as empresas de alta-costura que resolveram criar uma linha especial para certas exigências da moda em países islâmicos onde há clientes com muito, mas mesmo muito dinheiro. Eu limitei-me a usar as suas frases para uma situação que nos é mais familiar.

O presente post serve para partilhar convosco a alegria de finalmente ter esclarecido esta dúvida que me atormentava há anos, a "de onde é que conheço esta cara?", e para lembrar que em todas as sociedades há tradições estranhas e até ofensivas para os próprios valores dessa sociedade. A Igreja Católica é um manancial de exemplos, mas há mais: a humilhação e a subjugação aos instintos sádicos de uma autoproclamada autoridade na praxe universitária; as práticas empresariais de exploração sistemática dos jovens à procura de um emprego estável; o assédio verbal na rua, que muitas mulheres defendem (como é que era mesmo aquela história de os negros acharem bem a escravatura?).

Não é que as nossas práticas desumanas e humilhantes desculpem as dos outros, mas convém olhar em volta cuidadosamente antes de desatar a atirar pedras ao calhas como o cão do Pavlov, que entretanto ficou cego, coitadinho do bicho.

A grande diferença entre a roupa das congregações religiosas femininas perfeitamente aceites na nossa própria sociedade e as peças que a Dolce & Gabbana criou para aqueles mercados é que estas são muito mais sexy. (Podem ver aqui).
E não, Maria João Marques, não fizeram nenhum niqab e não taparam a cara a mulher nenhuma. Isso de ler "hijab e abaya" e fazer um texto com "niqab" no título parece um reflexo condicionado por uma cegueira obsessiva.


05 abril 2016

how to hide a billion dollars




Para que se veja como o mundo está: uma vez na vida um artista é pago pelo preço que merece, e toda a gente desconfia que o dinheiro não é dele e que há aí um enriquecimento ilícito...
Como se a única coisa lícita na vida de um músico fosse o empobrecimento.

E agora, a sério: muito bom, este vídeo.

(Entretanto, uma amiga alerta-me para uma questão curiosa: porque é que não há norte-americanos envolvidos neste escândalo?)


O Novíssimo Testamento



Tinham-me dito que era um filme muito divertido, e elogiaram a maneira como baralha (ou reforça) as nossas ideias do Deus bíblico.

Esqueceram-se de falar da poesia (o sonho da mulher que não tem braço é das coisas mais comoventes e doces que vi nos últimos tempos), da ternura, e desse sentimento que atravessa todo o filme: o amor que não julga e que tem o poder fecundo de convidar a uma vida renovada.

Esqueceram-se de falar da música que se torna sujeito catalisador da história. Também não contaram que é um filme feito com pouco dinheiro (o realizador não queria ter de fazer concessões a ninguém) e que as soluções baratíssimas a que recorre, por falta de meios, surpreendem e aumentam ainda mais o gosto de ver.

E deixa, como é óbvio, a questão: é esta a história que quero levar de mim quando morrer?

Cinema excelente. Podem ir ver, à confiança.
(Não devolvo o preço do bilhete a quem não gostar, mas pode-me desamigar no facebook.)


04 abril 2016

"ah, e tal, os EUA integram tão bem os imigrantes que estes até se tornam políticos de alto gabarito, enquanto na Europa a integração corre tão mal que eles vai e viram terroristas"


A propósito do recente atentado terrorista em Bruxelas, perante o facto de os suicidas serem belgas, ocorreu a alguém a extraordinária teoria de que, ao contrário da Europa, os EUA são tão bons a integrar os estrangeiros que os filhos dos imigrantes, em vez de se meterem na violência, tratam de aspirar a uma fantástica carreira na política, chegando a candidatar-se à presidência. Houve até quem tentasse explicar o êxito na integração do lado de lá do Atlântico pela ausência de um Estado Social. Entretanto esta teoria alastra por aí, e ainda não lhe vi contraditório.
Ora bem: parece que rebentou uma epidemia de Alzheimer, e ninguém me avisou.

Nos EUA já houve dezenas de ataques motivados por extremismo islâmico, e o 11 de Setembro está longe de ter sido o primeiro. Podem consultar uma lista aqui. Fazendo uma lista sumária dos ataques mais recentes:

- San Bernardino, California, 2.12.2015 [A 'very religious' Muslim shoots up a Christmas party with his wife, leaving fourteen dead.] Syed Rizwan Farook, o  'very religious' Muslim, nasceu em Chicago, filho de paquistaneses, e era cidadão dos EUA.

- Chattanooga, Tennessee, 16.07.2015 [A 'devout Muslim' stages a suicide attack on a recruiting center at a strip mall and a naval center which leaves five dead.] Muhammad Youssef Abdulazeez tinha seis anos quando emigrou com a família para os EUA. Em 2003 naturalizou-se cidadão dos EUA.

- Boston, Massachusetts, 15.4.2013 [Foreign-born Muslims describing themselves as 'very religious' detonate two bombs packed with ball bearings at the Boston Marathon, killing three people and causing several more to lose limbs.] Dzhokhar Tsarnaev e Tamerlan Tsarnaev tinham 11 e 18 anos quando a família emigrou para os EUA, em 2002.

- Fort Hood, Texas, 5.11.2009 [A Muslim psychiatrist guns down thirteen unarmed soldiers while yelling praises to Allah.] Nidal Hasan nasceu na Virgínia, filho de palestinianos.

- Seattle, Washington, 28.7.2006 [An 'angry' Muslim-American uses a young girl as hostage to enter a local Jewish center, where he shoots six women, one of whom dies.] Naveed Afzal Haq era filho de paquistaneses.


Quanto à segunda parte da afirmação, "nos EUA os filhos dos imigrantes podem aspirar a uma carreira política, na Europa não podem":

- O pai de Nikolas Sarkozy era um emigrante húngaro.

- No Parlamento alemão, 5% dos deputados são descendentes de imigrantes, e um terço destes vêm de famílias turcas. Cem Özdemir, filho de turcos, é o chefe dos Verdes. Aygül Özkan, proveniente de uma família turca, desempenhou um cargo de ministro na Alemanha. Há vários muçulmanos em lugares importantes da política alemã. O que eu não sei, e gostava de saber: quantos políticos muçulmanos chegam a lugares de topo nos EUA?

- António Costa é filho de um goês "descendente direto por varonia de Marada Poi, Brâmane Gaud Saraswat do século XVI" (li na wikipedia)


Alguém quer continuar a lista?


"indústria" (2)

A propósito do post anterior, conversei com um amigo que me deu o seu ponto de vista sobre os motivos da destruição do antigo sector industrial da RDA.

No processo da reunificação alemã houve dois erros muito graves:

1. A RDA não devia ter aderido tão precipitadamente à moeda da RFA. De um momento para o outro as exportações ficaram excessivamente caras nos seus mercados tradicionais, e as indústrias perderam os clientes. A indústria gráfica, por exemplo, era excelente mas perdeu a competitividade no mercado internacional e desapareceu.

2. A privatização das empresas devia ter dado prioridade às iniciativas regionais. Apesar de haver problemas difíceis de ultrapassar - a passagem de um sistema de economia planificada para um de economia de mercado, a necessidade de aprender a posicionar-se em mercados novos e com novas regras do jogo (desde logo expressas em inglês, quando a língua franca da RDA era o russo), a dificuldade de gerir o excesso de pessoal resultante da política de pleno emprego -, tinha a vantagem de haver um interesse muito maior em manter a empresa a funcionar. Para investidores situados no mesmo ramo, mas de países estrangeiros ou da antiga Alemanha Federal, o resultado da compra daquelas empresas era um ganho, independentemente do destino da empresa concreta: se desse lucro, óptimo; caso contrário, fechava-se e acabava-se com um concorrente. Além disso, em caso de crise, um grupo que tenha várias empresas no mesmo ramo vai ter tendência para fechar a empresa mais distante, adquirida mais recentemente e que carrega dificuldades estruturais.


03 abril 2016

"indústria"

Quem vai de Berlim para Breslau (Wroklaw), encontra uma cidadezinha simpática junto à fronteira com a Polónia: Forst. Nos anos 20 do século passado, Forst era um dos centros da indústria têxtil mais importantes da Europa. No coração da Prússia, no centro da Europa, numa encruzilhada de rotas, dali saíam todos os dias mais de mil toneladas de tecidos para os mercados nacional e internacional. Com as suas 450 fábricas, que empregavam um número de pessoas equivalente a 40% da população da cidade, chamavam-lhe a Manchester alemã. Foi muito destruída na guerra, e do centro da Europa passou para o bloco de Leste, na nova fronteira da Polónia. Décadas mais tarde, os edifícios e as máquinas que a guerra poupou acabaram desmantelados pelo processo da reunificação. Hoje em dia sobra um museu da indústria têxtil, e uma paisagem urbana ferida de edifícios industriais e palacetes abandonados.










Estive em Forst num sábado de festa, comemoravam os 750 anos da cidade. No Museu da Indústria Têxtil havia um mercado de velharias. Vendiam panos de cozinha da RDA, lindíssimos e sólidos, a 1 euro cada um. Trouxe dois, relíquias de um mundo que já não existe. A Atlântida aqui tão perto. Olhando a beleza e a qualidade daquele trabalho, até eu - que cheguei à Alemanha Ocidental 3 dias antes da queda do muro - sinto ostalgia com um desespero de dor fantasma.

Um rapazinho contou-me, muito orgulhoso, que tinha um desenho seu na exposição que iam inaugurar às cinco da tarde: "Forst - passado e futuro". O vencedor, confidenciou-me, ia ser o desenho de um amigo, que mostrava marcianos a chegar a Forst. Do antigo centro da Europa para o futuro centro do nosso universo. No entretanto, uma cidadezinha pacata e triste, com o seu esqueleto a desmembrar-se à vista de todos.



















No museu mostravam as máquinas, contavam as glórias do passado, expunham amostras dos tecidos. Comentei com uma amiga: "o que não faria um Armani com isto!" e o nosso guia sorriu. Mais à frente, mostrou-nos uma máquina que fazia entretela com crina de cavalo. "Patente nossa!", anunciou orgulhoso, e "nossa" era a cidade e eram os operários de Forst. "O Armani bem precisava da nossa entretela", comentou na minha direcção, "sempre que vejo os fatos dos políticos todos repuxados nos ombros, o Obama, o Hollande, esses todos, penso que os alfaiates deles precisavam da entretela feita pela nossa máquina!"
A máquina está parada há décadas. Já não se faz entretela em Forst.







"E porque não?", perguntei eu. Há um fenómeno que já vi também noutras cidades industriais da RDA, e não entendo: a destruição sistemática de uma capacidade produtiva instalada que funcionava, produzia objectos de qualidade excepcional, e que tinha mercado mundial se houvesse vontade para isso. Refiro-me, por exemplo, aos objectos de uso doméstico de vidro fino e resistente a altas temperaturas, da Jenaglass, com design da Bauhaus de Weimar. De um tempo áureo da indústria alemã, quando os cientistas se tornavam industriais e os operários tinham brio de artistas.
A minha pergunta despoletou um coro de lamentos. Tivesse eu visto as poucas-vergonhas que ali se passaram! As fábricas vendidas por um marco a investidores estrangeiros que levavam o que lhes interessava e desmantelavam o resto, as pessoas da terra unidas, a juntar todas as poupanças para poderem comprar a sua fábrica, e a Treuhand a recusar vender. Parecia que só estavam interessados nos grandes investidores, esses predadores que destruíram tudo.

Conheci um caso desses na Turíngia. O chefe do projecto veio dos EUA com o objectivo de tornar viáveis as empresas do pacote que a sua firma comprara, para as vender a seguir com lucro. Vivia numa das melhores casas da cidade, tinha um carro de luxo. Contou-me, a rir, uma disputa que teve com a responsável dos recursos humanos, que não concordava com a lista de despedimentos que ele fizera. Ela dizia que não podiam despedir aquela mulher que criava sozinha dois filhos, nem o outro que tinha cinquenta anos e uma família ao seu cargo, e ele respondera "você trabalha para mim, ou para os sindicatos?" Ria-se, muito satisfeito da sua piada. E eu pensava na solidão daquela mulher sem pátria, que não trabalhava nem para um nem para os outros, trabalhava para não deixar morrer uma moral empresarial fundada na decência e na atenção aos seres humanos. O americano contava-me isto enquanto trabalhava na cozinha, com a água da torneira a correr sem fim. Chamei-lhe a atenção para o desperdício de água, mas ele não fez caso. "Gosto do som da água a correr, é tranquilizante." Predador.
Por essa altura Müntefering, um responsável dos socialistas, usou a expressão "praga de gafanhotos" para descrever o actual fenómeno de um capitalismo radical, que procura o máximo lucro sem a menor atenção aos custos sociais. Falava sobretudo dos investidores anónimos na bolsa, mas o panorama desolado das indústrias destruídas da antiga RDA e os bandos de neonazis nas ruas revelam dolorosamente as consequências da passagem de empresários com mentalidade de gafanhotos.

A nossa visita ao museu continuou. Puseram algumas máquinas a trabalhar, um ruído ordenado e mecânico, ensurdecedor. Visitantes começaram a contar uma versão diferente do que até então me parecia ser o paraíso perdido. Disseram que quase todos os habitantes da região sofrem de surdez, porque tinham passado a vida dentro daquelas fábricas, no meio daquele ruído. Recusavam-se a usar protecção dos ouvidos, porque queriam estar atentos à menor mudança de ritmo, sinal de que havia um problema com a máquina. "A minha avó trabalhava aqui, com a ajuda dela consegui um lugar de estágio, como era obrigatório para todos os estudantes do secundário", disse uma senhora. "Foram dias horríveis."
Estava a voltar ao lugar onde foi infeliz.

Saímos do museu e fomos para o moinho, onde também havia festa. O caminho estava engalanado com guirlandas garridas feitas com trapos de tecidos antigos. A alegria dos pobres que tentam fazer a festa com o pouco que lhes sobrou.