16 janeiro 2019

bauhaus 100 - concerto de abertura do festival em Berlim

Um dos acontecimentos mais importantes neste ano do centenário da bauhaus começa hoje em Berlim: um festival de uma semana, com música, dança, teatro, exposições, oficinas, e tudo o mais que tenho estado a descobrir no seu extenso programa (lá está: esta cidade é um stress...).

O concerto de abertura do festival vai ser transmitido em directo online e na Arte. Podem ver aqui.

Copio, do programa em inglês:

What does the Bauhaus sound like?
Beginning with this question, German jazz pianist Michael Wollny has conceived a piece of music for the festival opening that focuses on the manifold references between the protagonists of the Bauhaus and the sounds and compositions that surround them. In addition to the historical perspectives (“What did the Bauhaus sound like?”) of strict Baroque fascination and twelve-tone enthusiasm on one side and the exuberance of the Bauhaus nights on the other, a more basic question is also formulated here: How can the ideas of the Bauhaus be translated today by jazz improvisers and other sound artists into previously “unheard” music? Entirely in the spirit of Gropius, who demanded of the Bauhaus Theatre as early as 1923: “A clear new formulation of the entangled overall problem of the stage! Search for now possibilities!”
At the core of the performance is a counterposing of two fundamentally different viewpoints of the classic grand piano. The improvisational fantasy of a jazz pianist versus the mechanics of the “phonola”, a music machine from the twenties that operates a second grand piano with hand-punched punch cards. Intuition versus composition, organic versus structural.
Beginning with this field of tension between improvisation and composition the musicians research the most diverse sound spaces and scenarios, as they “play” both the materials of the Bauhaus – wood, glass, metal, clay, stone and fabric – and the wild dance music of the legendary Bauhaus Orchestra, still the best jazz band I have ever heard blow it away.” (Kole Kokk, Berliner 8-Uhr-Abendblatt, 18 February 1924).
Concept, piano & composition Michael Wollny (D)
Soprano saxophone Emile Parisien (F)
Phonola Wolfgang Heisig (D)
Electronics Leafcutter John (UK)
Drums Max Stadtfeld (D)


15 janeiro 2019

"diagnóstico: homossexual"


Repito, muito sumariamente, o post que ontem publiquei neste blogue e foi apagado. Trata-se de um artigo do Spiegel, de 4.1.19, sobre o atentado que dá pelo nome de "terapia de reorientação sexual".

O artigo revela a existência de pessoas que, na qualidade de psicólogos ou terapeutas se dizem capazes de "curar a homossexualidade". Embora não sejam reconhecidas pelas Igrejas católica e protestante alemãs, muitas dessas iniciativas crescem associadas às religiões cristãs e usam a Bíblia como referência. Um desses "terapeutas" é o fundador e presidente de uma "União de Médicos Católicos", que diz ter 200 membros.

Os "terapeutas", depois de conquistar a confiança das pessoas, propõem-lhes tratamentos de "conversão" que podem incluir, entre outros:
- os famosos glóbulos da homeopatia
- químicos para purificar o corpo e limpar heranças genéticas
- radiação de luzes rosa e vermelha para reduzir a energia homossexual
- hipnose
- tratamento de electrochoques para associar dor à imagem de pessoas do mesmo sexo
- oração e penitência

O artigo conta a tragédia de uma mulher cuja família rejeitava a sua homossexualidade, pediu ajuda a uma psicóloga para resolver o seu problema de medo de se envolver afectivamente, e acabou a receber desta o diagnóstico de "lésbica", como se fosse uma doença que tinha de ser curada. Abandonou a "terapia" ao fim de vários anos, sem qualquer resultado excepto o de sentir que tudo em si estava errado. E ainda hoje, apesar de já estar há cinco anos numa relação estável e feliz com outra mulher, ouve às vezes a voz da psicóloga a dizer-lhe: "tu és doente".

Em entrevista, uma psiquiatra do Charité, o hospital universitário de Berlim, acusa sem margem para dúvidas: as terapias para reorientação sexual não funcionam, e o único efeito que têm é piorarem a imagem que a pessoa tem de si própria. São práticas extremamente perigosas porque provocam ou aumentam ideias de suicídio nas pessoas. 

Os Verdes tentaram criar uma lei que proibisse estas práticas, mas não tiveram sucesso. De momento, esta questão não é um tema que interesse o governo alemão.

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Tirei a fotografia deste tweet. Também encontrei aí algumas informações interessantes:
- Os jornalistas da MDR Silvio Duwe e Markus Kowalski estão a preparar uma reportagem com entrevistas a pessoas que passaram por essas "terapias de conversão";
- Há uma petição organizada pelo movimento change.org para proibir as terapias de conversão na Alemanha - o texto pode ser lido aqui em inglês.

E mais alguns links interessantes:
- Catholichomeopaths claim to cure homosexuality (com comentários hilariantes)
-Surprise,surprise! Lesbianism is not ‘cured’ by homeopathy (onde se fala de um remédio para a homossexualidade que é feito com material de tecidos fetais...)

triplos mortais à retaguarda

Ontem publiquei neste blogue uma síntese de um artigo do Spiegel, que me pareceu interessante para em Portugal tomarem conhecimento da realidade alemã no que diz respeito a um tema que de momento se debate em Portugal. Ao fim do dia descobri que esse post tinha sido apagado.

Como o texto não está disponível gratuitamente online, admito que a empresa tenha usado um programa qualquer para "varrer" a internet e apagar automaticamente todos os textos que tornavam esses conteúdos acessíveis.

[NOTA POSTERIOR À PUBLICAÇÃO DESTE POST: a Rita Dantas afirma que não é possível ao Spiegel "varrer" a internet e apagar posts do tipo do meu. De modo que equaciono outras explicações: apaguei sem querer, ou o blogger apagou, por erros de formatação. Contudo, não vou alterar o texto deste post, porque o temor de um dia destes levar uma penalização exemplar se mantém.]

Confesso que já esperava algo deste género, e temo até algo pior: que me obriguem a pagar multas por usar conteúdos sem autorização. Conheço vários casos de pessoas que tiveram de pagar centenas de euros por terem partilhado uma fotografia que não era delas.

Pedir autorização para traduzir e publicar é fácil, e já o fiz há tempos. O problema é que até hoje não recebi resposta. 

De modo que junto a falta de resposta e a eliminação do meu post, e aprendo a lição: não voltarei a fazer traduções de artigos de revistas e jornais alemães. De hoje em diante, farei apenas menções muito sintéticas.

Se passar por aqui alguém que esteja em posição de mudar alguma coisa no modo como a Europa funciona, gostaria de chamar a sua atenção para este assunto: para que haja uma verdadeira União Europeia, é fundamental que saibamos uns dos outros. Percebo que os jornais e as revistas precisem de ganhar o suficiente para pagar aos seus jornalistas. Mas o trabalho destas pessoas que introduzem perspectivas de outros países no debate ou na informação que ocorrem no seu próprio país é um elemento muito positivo para aproximar os europeus uns dos outros, alargar horizontes e reduzir preconceitos.

(Há dias em que penso que os meios de comunicação social - e, já que estou com a mão na massa, as redes sociais - deviam ter financiamento público, mas independente dos governos. E não deviam poder receber financiamento de publicidade nem grandes donativos de uma pessoa ou entidade privada. A ver se os critérios do serviço público e da defesa da Democracia voltavam a ocupar o centro das atenções, em vez dos triplos mortais à retaguarda que são a guerra das audiências e a luta pela sobrevivência económica.)

(Dirão: ah, mas e como é que garantes a independência dos meios de comunicação social e das redes sociais? Responderei: qual independência? Que independência é possível quando não se sabe como pagar os salários no fim do mês, ou quando se quer aumentar o valor da acção da empresa?)

12 janeiro 2019

mal por mal, prefiro o pelourinho...


Do mesmo modo, e pelos mesmos motivos que critico o apelo feito por uma deputada brasileira logo após a vitória de Bolsonaro, para que os alunos filmem as aulas dos professores "marxistas" e os denunciem, tenho de criticar a reportagem da Ana Leal sobre "terapias de reorientação sexual".

Tudo isto me provoca profundo asco: filmar consultas de psicologia com câmara escondida. Usar, para fazer esta reportagem, um homem que durante o debate acabou por revelar que hesitou muito sobre se devia entrar ali como infiltrado, e que no decorrer da "terapia" sofreu imenso. Passar na televisão partes dessas consultas e partes de sessões de "reorientação sexual" filmadas sem conhecimento dos envolvidos. E, como se isto não fosse já suficientemente horrível, passar na televisão frases que não têm nada a ver com o assunto em si - a inclusão, na reportagem, de comentários sobre o perfil de uma jornalista famosa ou sobre o salário de um bastonário, comentários absolutamente irrelevantes para o tema, é muito reveladora do espírito mesquinho e reles com que esta reportagem foi feita.

A reportagem e o debate subsequente suscitaram-me algumas dúvidas:

- O Carlos estava inteiramente livre quando tomou a decisão de se infiltrar, ou foi pressionado pela Ana Leal para o fazer? A Ana Leal cuidou de lhe garantir um acompanhamento psicológico para aguentar a pressão desta "terapia"? Ou será que o "atirou às feras" sem se importar com o seu sofrimento, porque precisava daquele material filmado à traição? Concretamente: será que o Carlos foi uma dupla vítima, pressionado tanto pela jornalista interessada no material que ele poderia recolher, quanto pelos "terapeutas" que lhe queriam fazer uma lavagem ao cérebro para o "curar"?

- Também gostava muito de saber como é que o Carlos abordou a Maria José Vilaça. Disse-lhe que a procurou justamente por estar muito interessado na abordagem que ela faz da homossexualidade, na sua qualidade de "psicóloga católica", pediu-lhe ajuda para se "curar", deu-lhe a entender que estava interessado em acompanhamento espiritual e em participar na "terapia de grupo" feita na igreja? Ou disse simplesmente que estava com problemas, e foi a psicóloga que tomou a iniciativa de o convencer a "curar-se" e a recorrer a acompanhamento espiritual? 

Demasiadas dúvidas. O que podia ter sido um momento de denúncia e de esclarecimento, sobre um tema extremamente sério e que exige posições claras por parte dos responsáveis, tornou-se a feira que se viu.

Não, não vale tudo. Não, os fins não podem justificar os meios. Não se pode admitir que um jornalista produza material recorrendo a "cobaias" quando tem obrigação de saber que a experiência vai ser extremamente violenta do ponto de vista psicológico. E também é inadmissível esta devassa resultante da exibição de filmagens com câmara escondida.

Fico a pensar no mundo para o qual caminharemos se isto passar impune e se tornar um método aceitável na nossa sociedade: para se protegerem, todos os médicos, todos os psicólogos, todos os professores filmarão as consultas e as aulas. Se um lado publicar partes dessa interacção, o outro lado defende-se publicando outras partes igualmente embaraçosas contra o seu oponente. E, mesmo que não seja publicado, todo esse material fica guardado algures, à mercê sabe-se lá de que hacker ou gatuno.

Alguém quer viver num mundo assim?

Mal por mal, prefiro o pelourinho: as pessoas eram humilhadas, é certo, mas só depois de ter havido um julgamento, e a sessão de humilhação era circunscrita ao largo da aldeia e a um período limitado.

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E entretanto, gostava que algum jornalista se desse ao trabalho de investigar, estudar e responder com seriedade a estas perguntas, entre outras:
- Que história é essa de "o lobby gay ter obrigado a Sociedade de Psicologia a retirar a homossexualidade da lista de doenças"?
- O que é que um psi deve responder a quem se lhe dirigir dizendo que quer "ser curado" da homossexualidade?

10 janeiro 2019

bauhaus 100 - programa dos festejos do centenário

© Interactive Media Foundation (aqui)

Todo o ano, toda a Alemanha. A seguir, destaco alguns dos eventos em Berlim, Dessau e Weimar (e já percebi duas coisas: este ano vai ser um stress ainda maior que de costume, e foi um erro ter comprado o passe anual para os museus sem incluir as exposições especiais).

Festa de abertura do centenário: 13.1. Mies van der Rohe Haus em Berlim / Discursos, cocktails, dança e festa de lampiões à maneira dos pioneiros da bauhaus.

Semana de festejos em Berlim para abrir o centenário 16.1 a 24.1: Triadischen Ballett de Oskar Schlemmer / Teatro de marionetes com cópias das criações de Paul Klee / „Bau.Haus.Klang. Eine Harmonielehre“ - Michael Wollny e outros exploram as experiências musicais da Bauhaus / Luz. Sombra. Pistas - László Moholy-Nagys x artistas contemporâneos / Material-Tänze de Oskar Schlemmer / Das Totale Tanz Theater 360° / etc. / etc. / etc.

bauhaus-imaginista

Várias exposições em Berlim sobre o trabalho de alguns artistas da bauhaus.

Inauguração do novo museu bauhaus em Weimar: Abril 2019

Inauguração do novo museu bauhaus em Dessau: Setembro 2019

O programa em inglês está aqui.

o palerma do Fox


Está uma pessoa descansadinha a trabalhar e toca o telemóvel:
- Boa tarde, estou a falar da Tasso. Tenho boas notícias: o seu Fox já foi encontrado...
(O quê?! estava perdido?!)
- ...andava a vaguear junto a um supermercado na Müllerstrasse
(Na Müllerstrasse?! Isso é longíssimo!)
- ...mas já o encontraram, e já lhe deram de comer, parece que estava cheio de fome, comeu a lata inteira num instante.
- Oh, não sabia que ele estava perdido. Agora vive com o meu filho, vou já ligar-lhe.
- Aparentemente já andava há muito tempo por ali...
(Ai que vergonha! A fazer figura de cão abandonado! Será que apanhou a porta aberta e fugiu sem ninguém reparar? Quando é que isso terá acontecido?)
- ...e uma senhora recolheu-o, deu-lhe de comer, e telefonou-nos. Vou-lhe dar o número de telefone dela, para o poderem ir buscar.

Telefonei ao Matthias. Devia estar em aulas, não atendeu.
Telefonei à Christina, para o caso de estar por perto da cena. Também nada.
Telefonei a uma vizinha do Matthias, que adora o Fox e costuma ir passear com ele. Atendeu, a gaguejar, muito nervosa:
- Já encontrei o Fox! Ai, que grande susto!
- Estás com a senhora que o encontrou?
- Sim! Fui passear com ele para o parque, e ele fugiu-me.
- E como é que conseguiste encontrá-lo?
- Quando não o vi em canto nenhum do parque, fui pelas ruas a gritar o nome dele o mais alto que podia, e a chorar. A senhora ouviu, e veio ter comigo.

Oh pá, Fox, meu palerma! Andas por Berlim a fazer figura de sem-abrigo, quase provocas um ataque de coração à tua maior amiga, obriga-la a fazer cenas dignas de um dramalhão, e ainda pões olhinhos de quem não come há mais de três quinze dias para te abarbatares com uma caixa inteira de comida!

E aposto que foste para casa com um arzinho todo lampeiro e satisfeito.


bauhaus 100 - Prellerhaus


(fotos: Yvonne Tenschert, neste site)


(Deixa-me cá começar a cumprir as promessas que fiz no princípio do ano, antes de ser atropelada pela vida real...)

Prellerhaus é o nome do edifício para alojamento dos estudantes, que faz parte do complexo da Bauhaus construído em Dessau quando a escola se viu forçada a abandonar Weimar.

Os quartos originais estão agora disponíveis para viajantes que lá queiram pernoitar.

Neste link (em inglês) encontram descrição, preços e imagens. Se bem conheço estes fenómenos e os alemães, quem quiser reservar para 2019 devia decidir já hoje.

08 janeiro 2019

fact-checking: o comunicado da TVI sobre a entrevista ao Mário Machado (texto revisto)

NOTA: Depois da publicação deste post, deram-me um link para o programa. O que se segue é o texto original depois de sujeito à necessária revisão, tendo em conta o programa completo. As alterações estão assinaladas por rasura (afirmações minhas que se mostraram erradas) ou mudança de cor (texto acrescentado ao original). 

O comunicado da TVI sobre a entrevista ao Mário Machado no programa de Manuel Luís Goucha é um belo naco de prosa. Vão ler tudo, encantem-se com as declarações de princípios (só faltam mesmo os violinos).

O problema é que depois tentamos ver o que aconteceu realmente, e as coisas não condizem assim tão bem. Como este post vai ser longo, começo pelo final: a partir  ̶d̶a̶s̶ ̶t̶r̶ê̶s̶ ̶s̶e̶q̶u̶ê̶n̶c̶i̶a̶s̶  do programa que consegui encontrar online, é possível concluir que:

- Bruno Caetano, que se diz jornalista da TVI, concorda com algumas das ideias do movimento de Mário Machado e decidiu dar-lhe palco no programa da manhã da TVI;

- Manuel Luís Goucha e Maria Cerqueira Gomes, dois entertainers de programas da manhã, não se prepararam minimamente para a entrevista que iam fazer e não a souberam conduzir e orientar numa perspectiva de defesa da Democracia, apesar de Goucha ter afirmado várias vezes que lhe deu palco para poder rebater as ideias apresentadas, como se deve fazer num sistema democrático;

- a direcção da TVI, ao ver-se alvo de fortes críticas, fugiu à sua responsabilidade e à exigência de transparência: em vez de identificar e assumir as suas responsabilidades no que correu mal,  ̶d̶i̶s̶p̶o̶n̶i̶b̶i̶l̶i̶z̶a̶r̶ ̶o̶ ̶p̶r̶o̶g̶r̶a̶m̶a̶ ̶o̶n̶l̶i̶n̶e̶ ̶p̶a̶r̶a̶ ̶t̶o̶d̶o̶s̶ ̶s̶a̶b̶e̶r̶e̶m̶ ̶d̶o̶ ̶q̶u̶e̶ ̶s̶e̶ ̶e̶s̶t̶á̶ ̶a̶ ̶f̶a̶l̶a̶r̶, e tomar medidas adequadas e coerentes, escreve um comunicado cheio de declarações de princípio e de afirmações que não correspondem ao que aconteceu no programa, tentando justificar o que aconteceu e desvalorizar as críticas, e a seguir cancela a rubrica de Bruno Caetano no programa da manhã.

Vamos então à verificação dos factos. Por falta de espaço, limito-me a analisar o ponto 4 do comunicado da TVI, que assim reza:

 "As opiniões e a visão histórica expressas por Mário Machado nos referidos programas foram enquadradas por visões alternativas às por si sustentadas. As contradições entre a sua vida pretérita e os valores por si ora defendidos foram assinaladas. Foram igualmente abordados o seu histórico criminal, o contexto e os contornos do seu projeto político, tendo os riscos do extremismo político sido devidamente assinalados."

 ̶É̶ ̶p̶e̶n̶a̶ ̶a̶ ̶T̶V̶I̶ ̶n̶ã̶o̶ ̶t̶e̶r̶ ̶o̶n̶l̶i̶n̶e̶ ̶e̶s̶t̶a̶ ̶p̶a̶r̶t̶e̶ ̶d̶o̶ ̶p̶r̶o̶g̶r̶a̶m̶a̶ ̶q̶u̶e̶ ̶f̶o̶i̶ ̶p̶a̶r̶a̶ ̶o̶ ̶a̶r̶.̶ ̶T̶a̶n̶t̶o̶ ̶m̶a̶i̶s̶ ̶q̶u̶e̶ ̶G̶o̶u̶c̶h̶a̶ ̶s̶e̶ ̶d̶e̶f̶e̶n̶d̶e̶ ̶d̶i̶z̶e̶n̶d̶o̶ ̶q̶u̶e̶ ̶a̶s̶ ̶p̶e̶s̶s̶o̶a̶s̶ ̶c̶r̶i̶t̶i̶c̶a̶m̶ ̶s̶e̶m̶ ̶t̶e̶r̶e̶m̶ ̶v̶i̶s̶t̶o̶ ̶o̶ ̶p̶r̶o̶g̶r̶a̶m̶a̶.̶ ̶P̶o̶i̶s̶ ̶q̶u̶e̶ ̶o̶ ̶p̶o̶n̶h̶a̶m̶ ̶o̶n̶l̶i̶n̶e̶,̶ ̶p̶a̶r̶a̶ ̶o̶ ̶p̶o̶d̶e̶r̶m̶o̶s̶ ̶v̶e̶r̶!̶

 ̶F̶i̶z̶ ̶t̶u̶d̶o̶ ̶a̶o̶ ̶m̶e̶u̶ ̶a̶l̶c̶a̶n̶c̶e̶ ̶p̶a̶r̶a̶ ̶v̶e̶r̶ ̶a̶ ̶e̶n̶t̶r̶e̶v̶i̶s̶t̶a̶,̶ ̶m̶a̶s̶ ̶s̶ó̶ ̶e̶n̶c̶o̶n̶t̶r̶e̶i̶ ̶g̶r̶a̶v̶a̶ç̶õ̶e̶s̶ ̶p̶a̶r̶c̶i̶a̶i̶s̶. Muito agradeço que me informem caso me tenha escapado algum elemento essencial para a crítica que vou fazer, ou se nela cometer alguma injustiça.

 ̶S̶e̶g̶u̶n̶d̶o̶ ̶e̶n̶t̶e̶n̶d̶i̶,̶ ̶o̶ ̶p̶r̶o̶g̶r̶a̶m̶a̶  A rubrica "Diga de sua (in)justiça" começou com a entrevista feita por Bruno Caetano para apresentar Mário Machado:



Depois de Mário Machado ter falado da sua família e do seu percurso até se tornar um nacionalista convicto, Bruno Caetano pergunta-lhe: Fala dos erros que cometeu. Esteve preso, inicialmente em 1995 - porquê?

MM: Em 1995 aconteceu um confronto entre africanos e nacionalistas no Bairro Alto, em Lisboa, e durante esse confronto há um grupo de cerca de 10 indivíduos do grupo de nacionalistas de que eu fazia parte que se afasta do grupo inicial, e a cerca de 2 km de distância,  já no Chiado, ataca um indivíduo de etnia africana, ou de raça africana, que vem a falecer dois dias mais tarde. Infelizmente, devido ao falhanço total da nossa Justiça, estive dois anos e meio preso. Ao fim desse tempo todo, tinha apenas 18 anos de idade, era militar, estava na Força Aérea como voluntário, ao fim de dois anos e meio os meritíssimos juízes disseram que se tinham enganado, e fui absolvido. E ainda hoje é um fardo que carrego. Basta ir à internet e qualquer página refere "Mário Machado envolvido no homicídio de Alcindo Monteiro". É pesadíssimo para mim e para a minha família, e não corresponde à realidade.

[ Bruno Caetano vai assentindo com a cabeça. Deixa passar em branco esta versão do "os meritíssimos juízes disseram que se tinham enganado, e fui absolvido". A verdade é que nesse mesmo julgamento Mário Machado foi condenado a quatro anos e três meses de prisão - depois reduzido para dois anos e meio - não pelo homicídio, é certo, mas pelos crimes de agressões físicas que cometeu nessa noite. Em 2005, em entrevista ao Correio da Manhã, ainda não lhe tinha ocorrido a versão de ter sido vítima do "erro dos meritíssimos juízes". Na sua versão dessa altura, terá sido vítima dos negros que resolveram atacar o seu grupo de amigos, e também do politicamente correcto: "Estávamos a festejar o Dia de Portugal quando um grupo de negros se acercou de um grupo de ‘skins’. Eles tentaram atacar os ‘skins’ que foram de imediato pedir ajuda aos camaradas. Estalou uma batalha racial nas ruas do Bairro Alto, onde negros procuravam ‘skins’, e ‘skins’ negros para a confrontação. Foi um negro a morrer e não um ‘skin’. Se fosse ao contrário, um branco a morrer, era apenas mais um crime. Mas como foi uma “vítima da colonização e dos nossos antepassados que foram para África”, caiu o céu e a trindade. Foram condenados a 203 anos de cadeia por uma morte. Já morreram 355 portugueses na África do Sul, e nunca vi ninguém ser julgado por genocídio."


O entrevistador na TVI não o confronta com os factos, nem com a falta de congruência das duas versões, nem com a estranha ausência de skins feridos nas urgências dos hospitais na sequência do tal "ataque de gangues de negros", ausência essa que inviabiliza a versão de 2005. Talvez, aliás, Mário Machado tenha mais algumas versões sobre esse caso, mas para mim, que não sou paga para ser jornalista da TVI, nem tive a ideia de entrevistar o Mário Machado e por isso não tenho obrigação de me preparar extremamente bem para a entrevista, basta-me esta que encontrei entre as primeiras páginas que li sobre a personagem.

Pergunto ainda: porque é que o jornalista da TVI Bruno Caetano vai fazendo aqueles sinais de assentimento enquanto Mário Machado lhe conta histórias da carochinha sobre os crimes raciais pelos quais foi acusado? É a isto que a TVI chama "abordar o seu histórico criminal"? ]


Mário Machado continua: "Fui o primeiro português, em Portugal, depois do 25 de Abril, a ser condenado a uma pena de prisão por escrever um texto na internet. Não era um texto ofensivo, não era um texto a desejar morte a ninguém, não era um texto a desejar a morte a ninguém nem a injuriar ninguém, apenas um texto a pedir e a apelar aos nacionalistas para a mobilização, apenas isso - e por esse texto levei dois anos e meio de prisão. Portanto, quando falam do Estado Novo e da liberdade de expressão no tempo de Salazar, eu gostaria de saber quem é que esteve, no tempo do professor dr. Oliveira Salazar, dois anos e meio preso por escrever um texto. Gostaria de saber. Porque em Democracia isso já me aconteceu a mim".

[ Bruno Caetano continua a assentir com a cabeça. Já eu, que tenho a mania de desconfiar quando a esmola é demasiado grande, fui investigar um pouco: se bem entendi, o tal texto que "não era ofensivo nem desejava a morte de ninguém, que era apenas um apelo à mobilização", era sobre a procuradora Cândida Vilar, que propôs a prisão preventiva de Mário Machado num processo por discriminação racial, e que foi responsável pela acusação de 36 skins. Cito a notícia do Expresso sobre o conteúdo dessa carta aberta:
"As ideias são como os tratados: pouco vale firmá-los com a nossa tinta quando não somos capazes de confirmá-las com uma gota do nosso sangue". À citação de Ramalho Ortigão, acrescentou: "Eu estou a dar o meu sangue, espero que todos vós possam fazer o mesmo".
Na "carta aberta a todos os camaradas", Mário Machado apelava aos nacionalistas para não esquecerem o nome do rosto da "nova inquisição": a procuradora Cândida Vilar. O líder dos skinheads tinha acabado de receber a acusação assinada pela procuradora, estava convencido que ia ser libertado mas continuou preso e não aguentou a revolta. O Ministério Publico acusa-o de ameaça, coação e difamação.
A carta aberta foi publicada no Forum Nacional, espaço da Internet frequentado por skinheads, e a magistrada passou a ter protecção policial todos os dias.

Para que fique registado: na TVI, Mário Machado distorceu os factos para se vender como vítima da falta de liberdade de expressão - "dois anos e meio preso por escrever um texto", disse ele - e ninguém o desmentiu. Mais um exemplo realmente extraordinário do que a TVI entende por "abordar o seu histórico criminal".


Pior ainda: procurei este programa na página youtube da TVI, e o único filme que encontrei foi esta parte da entrevista. Sublinho: a TVI tem esta entrevista publicada no youtube com a seguinte legenda: "Nacionalista desde da adolescência, esteve preso por dois anos e meio por escrever um texto na internet a apelar à mobilização dos nacionalistas."

Talvez fosse boa ideia a direcção da TVI dar uma vista de olhos pelo que anda a ser publicado pela TVI no youtube. A sensação que dá, sinceramente, é que ou aquele comunicado é blablabla de circunstância, ou então a direcção não faz a menor ideia do que anda a acontecer na casa pela qual é responsável. ]


Mário Machado: A Nova Ordem Social é um movimento político. O nosso objectivo é em 2020 tornarmo-nos um partido político. Por toda a Europa e por todo o mundo, vimos no Brasil e nos EU, sopram ventos de mudança, e nós somos esse tornado que vai aparecer na sociedade portuguesa. Defendemos o nacionalismo e o patriotismo, e defendemos aquilo que mais ninguém defende, que é colocar os portugueses em primeiro lugar."

Voltamos ao estúdio.

[ Já vamos em três minutos e meio de programa, e até agora a TVI acolheu candidamente e transmitiu para o país todas as patranhas que o Mário Machado lhe quis contar sobre o seu passado. ]

No estúdio, Goucha informa que a ideia de entrevistar Mário Machado foi de Bruno Caetano, diz que só foi informado no dia 26 de Dezembro, e que aceitou porque "vivemos numa Democracia e todas as pessoas com os seus pontos de vista serão bem-vindos." Pergunta a Bruno Caetano porque é que convidou Mário Machado, e aquele responde que o convidou porque (vou transcrever de novo): "tive conhecimento do movimento Nova Ordem Social, nomeadamente também da manifestação que vai realizar já no início de Fevereiro, que vai celebrar Salazar, e isso suscitou-me muita curiosidade. Quando ele diz que é necessário um, ou dois, ou três Salazares, leva-nos a pensar que temos de ouvir as ideias deste homem."

Goucha interrompe: "E temos que ouvir, porquê? Porque achas também que faz falta um Salazar?"
Resposta de Bruno Caetano: "Em certas partes da vida de Salazar acho que faz falta, nomeadamente no que diz respeito a autoridade."

[ Ah, bom, finalmente entendo porque é que Bruno Caetano fazia tantos sinais de assentimento com a cabeça durante a entrevista que fez a Mário Machado: ele não estava a confrontá-lo, estava a ouvir as suas ideias, e até concorda com algumas delas. O trecho "As opiniões e a visão histórica expressas por Mário Machado (...) foram enquadradas por visões alternativas às por si sustentadas", do comunicado da TVI, não se aplica ao jornalista da TVI Bruno Caetano. Em momento algum das suas entrevistas - pelo menos das partes que consegui ver - ele cuidou de apresentar visões alternativas. Pelo contrário: até afirmou que concorda em parte com as ideias de Mário Machado, e, como se viu, usou o seu poder na TVI para as difundir.   

Goucha optou por não confrontar o colega responsável por aquela rubrica com o que tinha acabado de afirmar, e preferiu continuar a exibição da entrevista anteriormente gravada. De modo que também não compreendo muito bem as afirmações posteriores de Goucha, quando diz - cito da notícia do Observador - que “todas as ideias podem ser discutidas na televisão” desde que exista o devido contraponto. E, mais à frente: "É bom recordar que num programa recente da RTP os telespectadores elegeram a figura de Salazar como o maior português de sempre. Concordei? Claro que não. Mas é uma figura que faz parte da nossa História, uma figura incontornável do século XX. É bom que se fale dela com tudo aquilo que ela implica até para não voltarmos a ter outros Salazares."

Era bom, era. Mas, infelizmente, no momento em que alguém com responsabilidades dentro da TVI afirma no seu programa que em certas coisas Salazar faz falta, não ocorreu a Goucha falar "de tudo aquilo que isso implica, até para não voltarmos a ter outros Salazares". Simplesmente, passou adiante.

Lembro que há alguns anos aconteceu algo semelhante num programa de TV alemão. Uma pessoa com responsabilidades no programa disse que "nem tudo o que Hitler fez era mau. Algumas coisas eram boas. Por exemplo, os valores da família."  Perdeu o emprego logo ali, porque aquela empresa de TV não queria ter o seu nome associado a pessoas com tamanha falta de informação política. E não, não foi um delito de opinião. Foi mesmo lacunas na cultura geral que não se podem admitir em quem trabalha numa estação de televisão. ]

Em estúdio, Goucha nem sequer pestaneja, e retoma a entrevista de Bruno Caetano a Mário Machado:

Bruno Caetano: Mário, porque é que quer ser o novo Salazar?
Mário Machado: Primeiro, o professor dr. Oliveira Salazar era honesto. Terminou a sua vida exactamente com o mesmo dinheiro com que entrou para a política. Hoje em dia não existe nenhum político nessa condição. Depois, foi um homem que investiu e muito nas obras públicas. Foi um homem que livrou Portugal de uma II GM. Todos os dias nos cafés (...)

Infelizmente há uma interrupção na gravação que tenho. Espero que Bruno Caetano ou Goucha tenham alertado Mário Machado para a gravidade das acusações que fez ("hoje em dia nenhum político é honesto"), e que lhe tenham pedido provas do que afirma. Alguém confirma que isto foi feito?

[ Resposta, depois de ter visto o programa completo: não. Goucha deixou passar esta afirmação como se fosse indiscutível. ]

Retomo a transcrição da entrevista de Bruno Caetano a Mário Machado: Todos os dias nos cafés, na rua, nos ginásios, um pouco por todo o lado, nós ouvimos a frase "Salazar faz muita falta" ou "Salazar fazia muita falta" ou "Já não é com um Salazar, precisávamos de dois ou três". Nós ouvimos isso recorrentemente. Por outro lado, Salazar conseguiu que existisse o respeito pela autoridade. Nesse tempo ainda se respeitavam os mais antigos, os netos respeitavam os avós, respeitavam os pais, havia um respeito pela autoridade policial. Nada disso existe hoje em dia, nós vemos é uma criminalidade galopante.

Goucha retoma a palavra e dá início a uma verdadeira esgrima de argumentos sobre Salazar. Mas perde o primeiro round: Mário Machado equipara a censura ditatorial ao politicamente correcto, e mais uma vez fica sem resposta. Soma e segue.

Goucha: Diz que "ninguém era preso por dois anos e meio por ter escrito um texto. Então não? As pessoas eram exiladas porque tinham pensamentos que divergiam do pensamento único que ele tinha imposto a uma sociedade!
Mário Machado: Mas hoje em dia também existe esse estigma do pensamento único. Chama-se "politicamente correcto". Aliás: o Manuel e a Maria já foram trucidados nas redes sociais, e não só, por me terem convidado para estar aqui hoje. O que mostra que não é fácil ouvir opiniões discordantes. E nós temos que situar Salazar à época. Era outra época, outro tempo.
Goucha: Era um homem honesto, sim senhor, mas tacanho, com uma visão rural do país, que não prometia nem inovação nem mudança. Nem permitia opiniões dissidentes!
Mário Machado: Não sei se isso é bem assim...

Goucha: Sabe porque é que ninguém era preso por escrever um texto? Porque não podia escrever o texto, ninguém o publicava! Havia censura no teatro, censura nas artes, na imprensa...
Mário Machado: Vamos comparar Salazar com todos os líderes...
Goucha: ...era um ditador!
Mário Machado: Exactamente. Com todos os líderes à época, vamos pesá-los na balança e vamos ver quem é que foi mais correcto, menos correcto, quem é que foi mais tolerante... E se compararmos Salazar com Hitler, com Mussolini, com Estaline, com...
Goucha: Curiosamente, começam todos por uma ideia de nacionalismo e patriotismo, se bem que eu entenda que nacionalismo pode não ter a ver com patriotismo. São coisas distintas.
Mário Machado: Sim. O PCP considera-se patriota, mas não é nacionalista.

 
Goucha muda de tema. Concorda que já não há respeito por pessoas que nos merecem respeito, mas isso é uma crise de valores. E pergunta: precisamos de um Salazar para impor esses valores?!

 
Mário Machado: Sim, porque vivemos num regime e num sistema em que se dá mais valor ao dinheiro, ao materialismo e ao individualismo, e no tempo de Salazar dava-se mais valor às pessoas, à família. Esse conceito desapareceu. E tanto que desapareceu que temos hoje várias estatísticas que o comprovam. Por isso é que acho que nesse aspecto Salazar teve alguma influência nesse respeito pelos mais antigos, que hoje não temos. Hoje os mais velhinhos são as pessoas mais facilmente descartáveis da nossa sociedade. Foram empurrados para canto. Nesse tempo, isso não acontecia. Porquê? Devido ao materialismo e ao individualismo que grassa hoje em dia. Por exemplo [segundo a Pordata] no tempo de Salazar em cada 100 casamentos 0,6 terminavam em divórcio.
Maria Cerqueira Gomes: Mas as pessoas eram infelizes...
Mário Machado: Hoje em dia, 60 terminam em divórcio.
Goucha: A Pordata também diz que em 1970 - já estava Marcelo Caetano com a sua primavera marcelista, que também falhou - em cada 100 portugueses 25 eram analfabetos. Portanto: é um homem que promove também o analfabetismo, a falta de cultura - que não convém a nenhum governante deste género.
Mário Machado: E hoje em dia é igual. Hoje em dia é igual. Mas repare: isso não é correcto. Os dados são verídicos, mas repare que ele herdou um Portugal rural e um Portugal analfabeto.
Goucha: Ele promoveu um Portugal rural e analfabeto! Ele dizia: "não se preocupem, sejam honestos, vivam numa casinha pobrezinha e honrada, que nós vos governaremos". "Nós vos governaremos" - nós não queremos mais isso, nós queremos ter a palavra.
Mário Machado: Mas livrou-nos de uma guerra mundial...
Goucha: Livrou, fazendo um jogo ambíguo e vendendo volfrâmio aos alemães.
Mário Machado: Mas salvou-nos de uma guerra. Entre salvar os portugueses da morte, e vender o volfrâmio, acho que ele esteve muito bem.
Goucha: Condenou portugueses ao exílio...
Mário Machado: E quantos judeus salvou, por exemplo?
Goucha: ...e condenou portugueses que estavam em Goa, Damão e Diu, quando o território era administrado por Portugal - lembro-me bem dessa fase, tenho memória disso, porque sou mais velho que o Mário - ele foi para a televisão dizer "só os vejo vitoriosos ou mortos". Porque ele não tolerava a rendição. Portanto: eu não estou a tirar méritos a António de Oliveira Salazar, porque certamente ele foi importante em vinte anos da História deste país, e ninguém lhe tira o seu papel na História. Eu não quero um Salazar. Eu quero é esgrimir argumentos consigo, porque isto é o que nos permite a Democracia.

E retomo o segundo vídeo do post:



No segundo vídeo, a entrevista de Bruno Caetano a Mário Machado já terminou.



Goucha e Mário Machado estão a falar das colónias. Mário Machado queixa-se dos democratas que "espoliaram milhões de portugueses que tinham toda uma vida no nosso Ultramar e tiveram de voltar para cá sem nada".
Goucha: A culpa é de quem começou uma guerra colonial injusta durante décadas, quando se poderia ter encontrado, tal como no Reino Unido, soluções para uma transição com os nossos interesses acautelados.
Mário Machado não ouve - não está ali para ouvir - e fala ao mesmo tempo que Goucha: Então que é que Salazar tinha a ver com isso? Já nem existia!
Goucha: Mas é a herança de Salazar!
Mário Machado: Essa transição, essa descolonização brutal que nós sofremos, de que os portugueses foram vítimas, foi culpa desses democratas que hoje estão num pedestal, como por exemplo o dr. Mário Soares.  

[ Neste momento são interrompidos por Maria Cerqueira Gomes, que muda de assunto. Pergunto: onde está o apregoado confronto de ideias? Goucha vinha preparado para rebater o louvor a Salazar, mas Mário Machado conseguiu dizer o que lhe apeteceu, e quase não foi confrontado nem com os factos nem com os valores da nossa sociedade democrática. Mário compara Salazar com os líderes da sua época, citando apenas os ditadores, e Goucha não lhe pergunta porque é que só se lembra de mencionar ditadores, quando em tantos outros países ocidentais havia regimes democráticos; Mário Machado diz que no tempo de Salazar não havia divórcios e Goucha não lhe explica que, por causa da Concordata de 1940, na prática o divórcio estava vedado à maior parte dos casados; Mário Machado louvou Salazar por ter salvado portugueses da morte e desvalorizou a venda do volfrâmio, e Goucha não o confrontou com o cinismo da sua posição: para salvar a vida de portugueses, fornecer ao exército alemão ainda mais meios para matar os filhos dos outros, os dos países que combatiam pela Liberdade e pela Democracia; Mário Machado faz o choradinho "roubaram-nos as colónias!" e Goucha deixa passar isso sem comentário. ]

A propósito de Mário Machado defender que é importante voltar aos valores do tempo de Salazar, Maria Cerqueira Gomes pergunta: Como é que uma pessoa que defende regras, respeito e autoridade policial depois está envolvida em tantos momentos que levaram à prisão e que não são nada coerentes com essa visão de respeito e de autoridade?

[ Maria Cerqueira Gomes está a falar com alguém condenado por espancar barbaramente por motivos racistas, e por torturar com o maior dos sadismos. Está a falar com um homem cujo cadastro criminal revela uma personalidade apta a comandar o massacre de Wiriyamu e os piores torturadores da PIDE. Mas pergunta-lhe se não vê alguma incoerência entre os seus actos e os valores de Salazar.

Que incoerência podia haver, Maria Cerqueira Gomes?! Que imagem tão positiva ("fofinha"?) é essa que Maria Cerqueira Gomes tem de Salazar, que a leva a assumir que há incoerência entre os seus valores e o virulento racismo e sadismo de Mário Machado? Que imagem tão positiva ("fofinha"?) é essa que Maria Cerqueira Gomes tem de Mário Machado, que a leva a assumir que o seu respeito pelas regras, pela ordem e pela autoridade policial é um respeito genérico, e não o único respeito de que ele é, eventualmente, capaz: pelas regras racistas e nacionalistas, pela ordem racista e nacionalista e pela autoridade policial racista e nacionalista?

Entretanto, pergunto-me se era a esta passagem do programa que o comunicado da TVI se refere quando afirma que "as contradições entre a sua vida pretérita e os valores por si ora defendidos foram assinaladas". ]

Para mostrar que o passado não conta, Mário Machado conta outra vez a mesma versão: diz que vai começar logo por 1995, quando passou dois anos na cadeia por engano. Destruíram-lhe a vida, diz ele, e acrescenta: por um erro do sistema gravíssimo.

[ Maria Cerqueira Gomes está tão mal preparada que não o confronta com os factos. Pelos vistos, não viu previamente a entrevista do Bruno Caetano, não leu outras entrevistas do Mário Machado, não investigou os factos por trás das afirmações dele. Foi para a TVI entrevistar um personagem deste calibre sem ter lido nem investigado.

Os factos são: em 1997, no julgamento relativo aos crimes de 1995, não foi condenado pelo homicídio, mas levou uma pena de mais de quatro anos de prisão pelas agressões físicas que cometeu nessa noite. Não passou dois anos na cadeia "por engano". E em 2010 foi julgado por roubo, sequestro e tortura com os níveis de brutalidade descritos nesta notícia do DN. ]

Maria Cerqueira Gomes não sabe nada disto, e tenta confrontá-lo de outro modo: Acha que esse erro do sistema  [ "erro do sistema"!!! ] também foi influenciado por alguma postura sua, por palavras suas, textos seus?
Mário Machado bem podia beijar-lhe os pés nesse momento, em sinal de gratidão, mas limita-se a aceitar o presente que ela lhe oferece de bandeja, respondendo: Não, não. Simplesmente estava no sítio errado à hora errada com 18 anos de idade, com um grupo de amigos. E como é óbvio isso teve repercussões na minha vida, durante muito tempo fui alimentado por esse ódio. Era mais o ódio ao sistema que o amor. Hoje a minha filosofia de vida mudou, hoje não é o ódio ao outro que me alimenta, mas o amor ao meu povo, o amor à minha pátria, e parecendo que não, essa mudança também influenciou o meu modo de estar.

Depois diz que aproveitou o tempo na prisão para terminar a licenciatura em Direito.

Goucha entra em campo: Não acha que o discurso nacionalista é muito marcado pelo ódio?
Mário Machado: Sim, é um bocado.
Goucha: O seu não é?
Mário Machado: O meu já foi. Como disse, foi a gasolina que me alimentou durante muitos anos. Mas está errado. Hoje em dia, tento ensinar aos meus camaradas que não é isso que tem de nos mover. Não temos de odiar os outros, temos é que amar os nossos, estar ao lado dos nossos.

Maria Cerqueira Gomes ri-se:  Gostar de Salazar e dizer "camaradas" é curioso, não é? Hihihihi.

Goucha diz que quer pegar na questão do ódio, nomeadamente a pessoas de outras etnias e culturas, mas primeiro vai "confrontar um pouco a opinião dos portugueses".

[ O meu segundo vídeo acaba aqui. Neste, Mário Machado continuou a ter carta branca para dar livre curso ao discurso branqueador das suas actividades e da sua ideologia, sem que Goucha ou Maria Cerqueira Gomes lhes soubessem dar o devido contraponto. Mas no comunicado da TVI diz-se o contrário.  ̶S̶ó̶ ̶s̶e̶ ̶f̶o̶i̶ ̶n̶a̶s̶ ̶p̶a̶r̶t̶e̶s̶ ̶d̶o̶ ̶p̶r̶o̶g̶r̶a̶m̶a̶ ̶a̶ ̶q̶u̶e̶ ̶e̶u̶ ̶n̶ã̶o̶ ̶t̶e̶n̶h̶o̶ ̶a̶c̶e̶s̶s̶o̶.̶.̶.̶

A̶d̶m̶i̶t̶o̶ ̶q̶u̶e̶ ̶o̶  O anunciado confronto com a opinião dos portugueses foi ,̶ ̶n̶o̶ ̶m̶o̶m̶e̶n̶t̶o̶ ̶e̶m̶ ̶q̶u̶e̶ ̶o̶ ̶v̶í̶d̶e̶o̶ ̶a̶c̶a̶b̶a̶,̶ ̶t̶e̶n̶h̶a̶ ̶s̶i̶d̶o̶  sobre a necessidade de um novo Salazar. E pergunto à TVI se já chegamos ao ponto em que o regresso da ditadura, da ordem colonial, do racismo puro e duro, da economia na mão de meia dúzia de famílias e da polícia política são meras questões de opinião, e se um dia destes também vão fazer sondagens à população para saber dela se "será que em certos casos é preciso que o marido bata na mulher?", "será que precisamos da tortura?", "será que precisamos do direito da pernada?", "será que devíamos recuperar as nossas antigas praças no norte de África?", e por aí fora. 

Sugiro que ouçam esse momento - no vídeo do programa, é a partir de 1:15:30. A repórter da TVI no Cais do Sodré, Susana Gonçalves, perguntou a algumas pessoas "acha que o país precisa de um novo Salazar?" e relata que, curiosamente, os mais velhos concordam que um novo Salazar fazia falta, enquanto os mais novos o recusam liminarmente. Passa alguns excertos das entrevistas, nas quais, entre outros motivos, algumas pessoas se queixam da política e dos políticos. A determinado momento um entrevistado diz que "está bem assim, podia melhorar algumas coisas mas não é tão extremo". A entrevistadora pede-lhe que dê exemplos do que é preciso mudar, e ele começa por falar da responsabilidade dos cidadãos: "os cidadãos também deviam começar a mudar alguma coisa, há muita coisa que podia ser melhorada..." - e nesse momento (1:19:05) a entrevistadora sugere-lhe que fale dos políticos. O que me suscita uma questão: quando a TVI  mostra reportagens de rua está a mostrar o que o povo pensa ou o que um repórter da TVI quer que as pessoas digam, para mostrar na televisão? Quais são as intenções da TVI ao permitir este comportamento dos seus repórteres? A TVI tem consciência de que ao sugerir e transmitir discursos de acusações tão vagas quanto peremptórias aos políticos está a participar na estratégia populista de corrosão da Democracia?  ]



No terceiro vídeo fala-se de racismo. Mário Machado afirma que não é racista e que até tem muitos amigos africanos, e também não é xenófobo.

Diz ele: O que acontece em relação aos africanos (...) é que existe um problema dessa comunidade em relação ao crime, e nós queremos poder discutir abertamente sobre este assunto. A Nova Ordem Social é uma organização que se considera anti-racista, e consideramos que os maiores racistas neste momento em Portugal e os maiores ataques até vêm da própria comunidade negra, quando escolhem as suas vítimas - aqueles gangs que existem um pouco por toda a parte - unica e exclusivamente vítimas brancas. 

[  Isto foi dito na TVI, e passou sem qualquer comentário ou contraditório. Vale a pena voltar a ler a parte dos violinos celestiais no comunicado da TVI, nomeadamente a parte sobre o compromisso editorial "com o respeito pela dignidade da pessoa humana e com a condenação do racismo".

Goucha não se lembrou de pedir a Mário Machado se podia tirar o casaco para mostrar se ainda tem as suásticas tatuadas nos braços ou se já tatuou smileys por cima delas. Aparentemente, partirá do princípio que está perante uma pessoa de bem, e não é preciso confrontá-la realmente com os seus actos e as suas palavras no passado: se o cidadão Mário Machado diz que já não é racista, há que acreditar e andar para a frente. Tanto mais que agora vai começar uma fase nova, e quer criar um partido. Há que dar oportunidades a este rapaz que foi vítima de erros judiciais do sistema, coitado... ]

Maria Cerqueira Gomes avisa que o tempo chegou ao fim, e revela que a mãe do Mário mandou beijinhos ao Goucha.

Goucha ainda faz uma última pergunta: Uma curiosidade que tenho face a muitas coisas que li nos últimos anos, ainda não estava preso. Como sabe, eu vivo com um homem há vinte anos. Tem alguma coisa contra mim?

Mário Machado sorri, e de novo aceita de bom grado o presente que lhe é oferecido: Se tivesse, não estava aqui hoje, não é? Hahaha.

Goucha: Obrigado.

[ "Obrigado"?! Mais nada? Nem lhe pergunta qual é a sua opinião actual sobre os homossexuais, nem o que o levou a mudar de opinião, nem nada? ]

Foi isto.
Mas a direcção da TVI acredita que pode escrever um belo naco de prosa poética e que nós vamos cair nessa conversa como os seus colaboradores caíram na conversa de um dos fascistas mais violentos do país.


07 janeiro 2019

pequenos prejuízos pessoais no meio das grandes catástrofes


Estou aqui a olhar para umas coisas que encomendei na Boden (com 70% de desconto, ça va sans dire) e de repente ocorre-me que no dia 29 de Março o Reino Unido vai sair da UE.

Oh pá! Não! A Boden não!
(ah, e já agora, o Cadbury também não!)

(emboramente... um Cadbury mais caro ajudava bastante a consertar os espelhos do estúdio do zumba, o tal do post anterior)


zumba, zimbas

Voltei ao meu zumba dominical.
Com renovado empenhamento, por coisas que eu cá sei, de modo que ao fim de três ou quatro músicas já estava a suar em bica. Tirei a t-shirt larga de manga comprida, ficando apenas com o top justinho.

E - zimbas! - foi nesse momento que descobri que durante o período em que o estúdio esteve fechado, do Natal ao Ano Novo, os espelhos se estragaram todos...

Coitados dos donos do estúdio, vão ter de gastar um dinheirão a comprar espelhos que funcionem melhor.


06 janeiro 2019

"hidrogénio" (2)

Este post do Lutz Brückelmann na Enciclopédia Ilustrada é pura poesia:

O universo é composto em 90% por #hidrogénio e em 10% por hélio. Todos os restantes elementos juntos correspondem apenas a menos do que 0,1%. (Dentro destes 0,1% encontra-se a nossa terra, que por sua vez é composta em mais do que 99% por elementos outros do que hidrogénio e hélio. Não nos deixemos enganar pela aparente abundância do hidrogénio na superfície da terra: debaixo dos oceanos há muitos quilómetros cúbicos de silício e ferro.)

Hidrogénio é então o elemento predominante do universo e, como sabemos, o mais simples. É composto por apenas um protão como núcleo, orbitado por um eletrão. O segundo elemento mais leve e simples é pois o hélio, cujo núcleo corresponde a dois protões e dois neutrões, orbitado por dois eletrões. Estes dois elementos nasceram no Big Bang, 13,8 mil milhões anos atrás. Apenas depois da formação de estrelas, quando, sob a força da gravitação os gases de hidrogénio e hélio se coagularam em estrelas, aumentando a pressão e correspondentemente o calor de tal forma que se iniciou o processo de fusão nuclear, elementos mais pesados, como o oxigénio, o carbono e todos os outros, os ainda mais pesados de ferro e chumbo e ouro e urânio etc. podiam formar-se. Daí decorre que a primeira geração das estrelas não podia ter satélites com estes elementos, e também não podiam existir seres vivos como nós que somos em boa parte feitos destes elementos mais pesados.


Apenas depois da explosão de estrelas da primeira geração, e novae e suernovae, os elementos gerados no seu interior podiam espalhar-se no espaço e depois, na geração de estrelas da segunda geração, ou da terceira, quarta ou quinta, se podiam formar a volta destas bolas de gás e de material mais pesado, satélites que continham os elementos para formar planetas como a terra com a possibilidade de terem habitantes como nós. Somos então mesmo, como já dizia Joni Mitchell em Woodstock, feitos de Stardust. Todos os átomos (eventualmente com exceção de alguns de hidrogénio e de hélio), de que são feitos os nossos corpos, os nossos ossos, músculos, a pele ou o nosso cérebro, já se encontraram no núcleo duma estrela sob uma pressão imensa a temperaturas de milhões de graus Célsius.


"hidrogénio"




Amanhã faz um ror de anos que dois cavalheiros atravessaram o Canal da Mancha num balão a #hidrogénio: o engenhocas Jean-Pierre Blanchard e o seu amigo médico John Jeffries.
Blanchard dedicava-se há anos a melhorar os balões, e estava nessa altura no auge da sua fama.

Antes disso, já nos tinha plagiado a todos uns séculos antes de nascermos (ou há aí alguém que em criança não tenha pensado em usar um guarda-chuva como pára-quedas?). E depois disso, fez - em desespero de causa, reconheço - aquilo que poucos de nós se lembrariam de fazer: para escapar ao balão avariado, saltou usando um pára-quedas de linho.

A travessia que faz 234 anos
amanhã começou bem, mas a meio do Canal o balão começou a perder altura. Os dois aventureiros atiraram borda fora tudo o que levavam com eles, e o balão recuperou por algum tempo. Quando recomeçou a perder altura, eles, desesperados, foram-se libertando das roupas peça a peça. Chegaram a França em cuecas. 

Conta-se que noutro voo, em 1874, sobre a Normandia, os lavradores em terra se assustaram valentemente com a aparição do balão que descia sobre eles, e um deles gritou: "sois humanos ou deuses?"


Blanchard respondeu: "somos humanos!" - e atirou-lhes o seu casaco, para eles confirmarem.
Pois bem, se o desaustinado striptease sobre a Mancha tivesse incluído as cuecas, dessa vez ele poderia gritar: "somos deuses! somos deuses gregos!"


(Aos 32 anos quase todos os homens nus são deuses gregos.)





02 janeiro 2019

manipulações


 

   


A meio do dia o sol abriu sobre nuvens de chumbo. Mesmo sem cão, fui passear até ao lago em busca de fotos formidáveis. Havia vento: em vez de jogos de espelhos, experimentei jogos de luz.

Quatro cisnes passaram à minha frente, em voo raso à água. Disparei em alvoroço, e as fotos saíram uma perfeita porcaria.

Decisão para 2019: aprender a usar a máquina fotográfica.

e a sim vai o mundo



Christian Stöcker, um dos meus colunistas favoritos no Spiegel, deitou contas ao ano 2018: falou dos horrores que nos têm tirado o sono, mas também daquilo de que raramente nos lembramos:

- a taxa de mortalidade infantil está a descer em praticamente todos os países do mundo;
- o número de pessoas que vivem em pobreza extrema está a baixar;
- também os números relativos a doenças como a tuberculose e a malária estão a baixar;
- há cada vez mais pessoas que aprendem a ler - e ficam, portanto, em melhor posição para se informarem e tomarem decisões;
- há cada vez mais raparigas que vão à escola - pelo menos à escola primária;
- no encontro de Katowice um grande número de Estados concordou em empenhar-se para reduzir as emissões de gases que provocam o efeito de estufa, de modo a conter o aquecimento global, e acordaram-se formas de medir os resultados desses esforços.

Esta mudança de perspectiva lembrou-me uma frase que li algures, sobre os nossos passos seguirem o rumo que os olhos apontam.

Neste 2019 novinho em folha, há que pôr os olhos no rumo que queremos dar ao mundo: em vez de nos concentrarmos no repúdio pelos Trumps, Bolsonaros e Farages, sejamos capazes de olhar e de nos alegrar por cada passo dado em direcção à solidariedade, à justiça social e à paz. Acredito que, se nos congratularmos mais e mais abertamente pelo que conseguimos construir de positivo no nosso mundo, haverá menos medo e pessimismo (pumbas!, primeira lapalissada do ano!) - ou seja: menos razões para votar nos Trumps, nos Bolsonaros e nos Brexits.

A sim, 2019 será um ano bom.

Bom ano para todos.


31 dezembro 2018

projecto para 2019





2019 vai ser o ano do centenário da Bauhaus na Alemanha.

Hoje à noite, quando estiverem a fazer planos para o próximo ano e a comer as passas e a tomar decisões e a sim, pensem também na hipótese de fazerem uma visitinha às cidades que comemoram esse centenário: Weimar, Dessau e Berlim. Ou duas semanas, claro, ou mais ainda.


Pela minha parte, ou muito me engano, ou um dos meus projectos mais interessantes em 2019 vai ser a organização de visitas guiadas para portugueses: um roteiro do movimento Bauhaus nas suas três cidades. E por causa da melhor característica da internet - a generosidade de partilhar informações com todos -, talvez  até o publique aqui quando estiver pronto.

Stay tuned, como diz o outro e:

-- BOM ANO PARA TODOS OS SIMPÁTICOS CLIENTES DESTA CASA! --

Que sejamos capazes de fazer o melhor possível deste 2019 que temos pela frente.


30 dezembro 2018

colheita do dia


Os amigos vinham para o tradicional "Kaffee und Kuchen" (café e bolos), mas no momento em que ia tirar o primeiro café reparei nas cores do entardecer e sugeri irmos antes passear até ao lago.

Em boa hora.

(Pedi-lhes que voltassem sempre que os dias estiverem assim bonitos) (Sim, adivinharam: o Fox já não mora cá outra vez) (Nem quer morar: sempre que vêm cá de visita, deita-se em cima do casaco do Matthias para ter a certeza de que não ficará aqui esquecido) (Lá terei de ir passear pelos lagos sem ele...)

  
 

24 dezembro 2018

Natal 2018


Este ano combinámos que não há presentes. O Fox achou que o pinheirinho precisava de ficar mais composto, e tratou do assunto.


No mais: a travessia de meia Alemanha correu bem. 
A Turíngia continua lindíssima. Hoje já tivemos neve, sol, chuva e contrastes de luz fascinantes. Tirei as fotos possíveis quando se vai num carro a 160 à hora. Excepto a última: devagar, junto ao Reno. 
E agora: com licencinha. 
  



  



tranquilidade e recolhimento



Quando os miúdos eram pequeninos, era tradição nossa ir passear com eles antes da Consoada - na floresta, ou ao longo de um riacho sinuoso que passava junto à nossa casa. Antes do alvoroço dos festejos, queríamos respirar longamente o sossego da natureza adormecida pelo inverno e saborear a tranquilidade do momento.

Foi nisso que pensei ao ler este texto do Tolentino sobre o Natal. E sonho já com a tarde de amanhã: antes da Consoada passearemos com os cães ao longo do Reno. Saboreando a tranquilidade - e também a alegria de encontros feitos de bem querer.

A todos os que aqui passam, desejo alguns momentos de tranquilidade e recolhimento neste tempo de Natal.

---

O texto do Tolentino no Expresso:

Uma das mais belas correspondências de Natal que conheço é a que o poeta Rainer Maria Rilke manteve com a mãe, ao longo de vinte e cinco anos. Claramente as cartas de ambos deveriam ser escritas e recebidas antes da festa. A mãe, Sophia Rilke, residia estavelmente em Praga, mas Rainer Maria era uma espécie de apátrida espiritual, girovagando por refúgios de empréstimo. A distância geográfica ou as dificuldades de comunicação não os impediram, porém, de manter, por longo tempo, um ritual preciso, cheio de ressonâncias: às dezoito horas em ponto de cada dia 24 de Dezembro, quando as mil luzes natalícias brilham mais ainda como que intensificadas pela chegada do último crepúsculo antes da grande festividade, eles finalmente abriam, com viva e lentíssima emoção, a respetiva carta natalícia. O traço porventura mais surpreendente desta correspondência é que ela constitui um ensaio sobre aquela solidão que experimentamos no Natal, e que exploramos tão pouco. Há uma desaceleração interior que sentimos e que, por desconfortável que possa ser, constitui uma oportunidade para entrarmos dentro do nosso próprio coração. E o coração, mesmo no seu quebrantado pulsar, mesmo no seu doloroso esvaziamento, é, como escreve Rainer Maria Rilke, “uma ilha de Deus, uma filial do céu”. A solidão própria do Natal vem, por isso, descrita como uma irrevogável chamada ao recolhimento. É bom sentir que tudo em nosso redor, e que nós próprios, de repente, nos aquietamos. E que as horas se tornam entreabertas e misteriosas num modo que nos é inabitual, para não dizer desconhecido, porque “o infinito nos quer assim surpreender”. É bom sentir que o vazio que se sobrepõe a todos os embrulhos que trocamos, que o silêncio interno que fala mais alto que o vozear querido que nos circunda, tem, sem compreendermos como, a forma de um dom. Esse vazio, que resiste à avalanche de consolações que recebemos, é, de facto, o verdadeiro dom: a possibilidade não de desejar isto ou aquilo, mas de provar a explosão de um desejo em estado puro, em grau tal que só o podemos abandonar nas mãos de Deus. O resto, sim, são as nossas circunstâncias externas, provisórias e passageiras. O poeta insiste, e bem, em falar-nos das vantagens desse máximo recolhimento perante “o antigo, o santo esplendor da soleníssima vigília”. E escreve: “devemos permanecer silenciosos e solitários e pacientes para acolher em nós a graça de uma hora que a muitos não chega a revelar-se, porque neles há demasiado rumor... Tudo depende, afinal, de aprender a ligar-se àquilo que é grande, àquilo que vivemos apenas no coração e que nada pode turbar. Se nestes momentos de grande recolhimento e elevação compreendemos que a vida está naquilo que, palpitante e solene, se move em nós e nos deslumbra com lágrimas que brotam do profundo mais luminoso, então a modesta confusão que nos circunda ainda, o ordinário e o turbulento que corre não poderão já fazer-nos desanimar”. Talvez precisemos de aprender a abraçar a solidão de que facilmente fugimos, pois nela, e de uma maneira carregada de prodígio, acontece o Natal.


22 dezembro 2018

eterno retorno (2)


Então pronto, vou falar do tempo. Esta semana tivemos amanheceres como o desta imagem (os tais que fotografei em camisa de dormir, com os pés descalços no chão gelado).

Aliás, os amanheceres nas últimas semanas têm andado assim:


 



Ontem choveu o dia todo com desespero. O que é uma boa notícia, para compor os estragos da seca deste ano. Tive de sair para levar umas coisas a uma amiga, e no regresso fotografei as ruas, fascinada com os efeitos da luz dos carros nos passeios molhados. Esqueci-me que estava a fotografar com o flash, o que deve ter causado alguma irritação a alguns condutores, mas nenhum parou o carro para me exigir que parasse com aquilo, ufff. O flash involuntário deu imagens muito engraçadas, por iluminar os pingos grossos da chuva.

(Agora é só torcer para que o meu telemóvel não apanhe reumatismo por causa da humidade)




 

eterno retorno



O facebook trouxe-me hoje esta foto de volta, aqui publicada há 3 anos.

Logo agora: o amanhecer na nossa cozinha tem sido assim esta semana.

(o que não é assim tão maravilhoso: eu em camisa de dormir e descalça, a fotografar no terraço gelado) (podia ser uma metáfora qualquer, que metáforas dão sempre jeito, mas se calhar é mesmo só patetice)

a seriedade do Spiegel


Por estes dias tenho pena de todas as pessoas que não entendem alemão. É que o modo como a revista Spiegel está a reagir ao caso do jornalista que forjava as suas histórias é fascinante: em nome da transparência, e tentando recuperar a confiança das pessoas, estão a contar tudo e a penitenciar-se largamente em público. Ontem li no próprio Spiegel online a queixa do jornalista que descobriu o que se estava a passar, dizendo que foi extremamente difícil conseguir que lhe dessem ouvidos dentro da empresa, e que o pressionaram imenso para desistir de fazer acusações ao colega (este era de tal modo apreciado por todos, e tão perfeito manipulador, que a direcção do Spiegel acreditou que a acusação seria fruto da inveja). Hoje li no mesmo site cartas dos leitores - desde "nunca mais, Spiegel!" até "vou continuar a acreditar na vossa revista", passando por "cambada de arrogantes! em vez de acusarem o vosso jornalista deviam olhar-se ao espelho e pensar melhor na pressão que impõem aos jornalistas para eles apresentarem histórias cada vez melhores".

Este esforço de autenticidade e transparência vai para além de todos os limites. Por exemplo, um dos chefes da Redacção contava na newsletter de ontem que está (estão) a viver um momento terrível, e que dá consigo a pensar "tivesses ido antes para piloto da Marinha, como era teu desejo de criança!" - um apontamento tão pessoal como nunca pensei ler a um alemão com o estatuto deste.

O Spiegel orgulha-se de ter uma equipa de "fact checker" cujo lema é: "não acredites em nada". Serão talvez esses os mais chocados com o que aconteceu. Mas a verdade é que o repórter mentiroso chegou ao ponto de falsificar e-mails para rebater as acusações do colega que desconfiava da seriedade do seu trabalho. E quem se lembraria de alargar o lema "não acredites em nada" até ao carácter dos colegas, de todos os colegas, mesmo dos mais premiados internacionalmente?

É um escândalo e um choque terrível, mas estamos na Alemanha: a empresa já tem vários grupos a trabalhar na identificação dos pontos fracos do sistema, e na identificação das falsidades nas reportagens publicadas. Estou convencida que vai sair desta crise em breve, e com o seu capital de confiança reforçado.

(Por mim, continuo cliente. Agora mais que nunca: casa arrombada, trancas à porta. Os cuidados, que já eram muitos, vão redobrar. E a acusação sobre a pressão exercida sobre os jornalistas vai com certeza dar que pensar e levará a algumas mudanças para melhor.)


muji



O prémio "melhor embrulho de Natal" vai para a loja Muji do Hackesche Markt (se calhar as outras também fazem o mesmo, mas eu tento falar só do que vi com estes talicoisos): dão-nos um saco de papel pardo grosseiro para nós carimbarmos com os nossos motivos preferidos (e tem dezenas deles). Depois escolhemos o cartão dobrado (a dobra mais pequena tem espaço para escrever o nome) e depois a senhora mete o produto comprado no saco e fecha-o cosendo tudo numa máquina com fio branco grosso.

Uma pessoa anda a tentar reduzir ao máximo as compras de Natal, e depois aparece-lhe uma loja assim pela frente! Não há condições.

Para o caso de alguns dos meus leitores serem de Lisboa e se estarem agora a lamentar por não terem uma Muji, olhem: amanhã (sábado) é dia de Venda de Natal na Tinta da China. Talvez não tenham máquina de coser, mas têm bolinhos e autores a autografar o respectivo livro (e às tantas até os dos colegas, sabe-se lá) (pedindo com jeitinho...).


21 dezembro 2018

quem precisa de fake news quando os media fazem o trabalho do Bannon?


 (foto: Paul Zinken/dpa)
Escrevi o post "aviso aos navegantes: estão a marcar uma revolução para amanhã" há algumas semanas, comentando um vídeo que andava no youtube para convocar a revolução dos coletes amarelos na Alemanha.
(Será que se pode dizer "revolução" quando a agenda é retrógrada?)
Só vi esta convocação na internet. Os meios de comunicação social alemães que frequento ignoraram ostensivamente. E uma amiga portuguesa criticou-me por contribuir para dar visibilidade à convocação - no que estava muito certa.
No dia marcado não estava na Alemanha. Li nos media alemães online pequenos apontamentos do ridículo, do género: três homens com coletes amarelos parados numa passagem de peões a interromper o trânsito, o pessoal a perguntar "isso é que é a revolução?" e a polícia a multar os três gatos-pingados por estarem a provocar desordem na via pública. 
Se bem entendi, os meios de comunicação social portugueses fizeram a escolha de divulgar ao máximo a convocação para uma iniciativa semelhante em Portugal: sabotagens aleatórias ao serviço de exigências populistas. Preparo-me agora para um dia de notícias construídas numa lógica de autojustificação ("vêem como tínhamos razão para alertar o país para este perigo?").
O Bannon deve estar a morrer de riso. Ou então, chateado como os humoristas desde que o Trump chegou ao poder: "oh pá! façam o vosso trabalho e deixem-me fazer o meu! porque se fazem o meu, fico desempregado!"