04 julho 2015

nova escola de impressionismo em Berlim



H. Araujo, Berlim, 2015
Les baigneuses 

Andava eu tão satisfeita com a minha máquina fotográfica de bolso, mas, por causa de um banho de café com leite que ela resolveu tomar (I e II), a minha vida mudou. A dela também: entrou em coma vegetativo. Não sei se lhe tire a bateria e lhe faça uma onda de ripanço no facebook (será que acabei de inventar esta expressão, ou terá ocorrido a alguém antes?) (ripanço: aquela repetição de "RIP" nos comentários aos posts que anunciam a morte de alguém; é estranho, mas pelo menos não é tão mau como pôr "like" num post de necrologia). Para já, vai descansando em paz sobre a minha mesa. Até que eu perca a esperança, e ganhe coragem para a ripar em público.

Enquanto espero, comprei outra. Com um zoom mais forte e cores mais vivas, disseram-me na loja. O zoom é mais forte, sim, agora as cores... As saudades que tenho da máquina anterior!

(Talvez fosse boa ideia enviar esta ao Nepal. A anterior foi passar um mês ao Nepal com a Christina, e voltou de lá muito catita - não sei se terá sido do yoga, da meditação budista, ou dos amanheceres nos altos do Annapurna)

Ontem passei por um lago de nudistas, e apontei às cegas e ao longe (ao muito longe, que eles não gostam), no meio daquele exagero de luz e calor, e saiu isto. Agora estou indecisa entre ir aprender a usar a máquina fotográfica, ou deixar a minha ignorância neste preciso ponto e criar uma nova escola de impressionismo em Berlim, o foto-impressionismo.

Provavelmente é como com o ripanço: já alguém terá tido esta ideia antes. Confesso que não me dá jeito nenhum estar constantemente a ser plagiada por pessoas que têm a mesma ideia que eu, mas por acaso a tiveram antes de mim. É o problema de viver num mundo redondo: há sempre alguém que acorda muito antes de eu começar a carburar. Fosse a terra plana, mudava-me para o país do sol nascente, passava a ser um génio.  

(E eis como, no decorrer do chorrilho de disparates do costume, acabo de inventar uma nova teoria para explicar o movimento dos descobrimentos portugueses. Quais pimenta, quais cristianismo, quais novas honras para a nobreza, quais burguesia emergente, quais quê - os portugueses foram até ao Japão para poderem ter as ideias antes de todos os outros, sem sequer terem de madrugar muito.)


03 julho 2015

"alistem-se, diziam eles..."




Lembram-se daquele concerto com o Lang Lang, quando parecia que eu estava a desfolhar um mal-o-quer/bem-o-quer? Está disponível gratuitamente até 5.7. no site da RBB, e também nos arquivos (não gratuitos) do Digital Concert Hall.

É oficial: fiz as pazes com o Lang Lang. Vejam o seu Grieg aqui (a partir do minuto  16:50).

Depois, ao ver o Emmanuel Pahud a tocar a música do Tom & Jerry (1:36:30), deu-me um ataque de snobeira e lembrei-me dos soldados romanos do Astérix a comentar "alistem-se, diziam eles..."
Mas parece que o Emmanuel Pahud - e todos os outros! - gostam desta espécie de tareia. E então o pessoal dos efeitos especiais, ao fundo do palco, do lado esquerdo...

Assisti ao concerto ao vivo, e foi um prazer vê-lo filmado perto da cara dos músicos. As expressões deles e do Simon Rattle enriquecem ainda mais alguns dos filmes da minha vida - como se fossem tocados por um sopro diferente.

Nos encores (1:55:00), a música do Indiana Jones foi, ao que parece, exigência dos filhos do Simon Rattle. Ele explica: os miúdos disseram que, se não houvesse Indiana Jones, não iam assistir ao concerto. E agradece-lhes, "porque é música muito boa". Depois vem o ET (continuo certa de ter visto vagamente uma bicicleta a voar sobre as árvores!) e o Star Wars (infelizmente o público não ia preparado, ninguém tinha espadas laser).

Para terminar, o tradicional Berliner Luft, e... para o ano há mais. 





I believe I can fly

O facebook está cada vez mais louco - depois de nos mostrar gatos que pensam que são cães e cães que pensam que são gatos, idem para ovelhas e cães, macacos e tigres, e sei lá que mais, aparece com raias que pensam que são golfinhos (no vídeo, a partir de 1:00).

(isto se calhar não é o facebook, se calhar é a Pixar, ou assim)
(ou então é o aquecimento climático - essas raias estão mesmo com ar de quem diz "caramba! que a água está a ferver!")





(e eu que gosto tanto de uma bela posta de raia no prato!)
(gostava...)


pragmatismo alemão

(não, este post também não é sobre a Grécia)


Durante as férias na Costa Rica, na Páscoa, ouvimos repetidamente esta canção. Eu andava em modo poupança de neurónios: saboreava-lhe o ritmo e já me bastava. Até que um dia em que estava mais desperta reparei na letra, e me surpreendi por um pragmatismo tão inesperado no nosso mundo sôfrego de superlativos.




Tradução rapidíssima da primeira estrofe:

Deixa-nos ficar na nuvem quatro
Porque na nuvem sete perdemos demasiadas coisas
Já lá estive uma vez, caí de muito alto
É melhor na nuvem quatro, contigo, do que em baixo e de novo só



Há muitos, muitos anos, o Lluis Llach já sabia que o caminho se faz pela nuvem 4, e não pelo sétimo céu:




(...)

Si vens amb mi

No demanis un camí planer
Ni estels d'argent
Ni un demà ple de promeses sols
Un poc de sort
I que la vida ens doni un camí
Ben llarg

I així pren, i així pren
Tot el fruit que et pugui donar
El camí que poc a poc escrius
Per demà
Que demà, que demà
Mancarà el fruit de cada pas
Per això malgrat la boira cal
Caminar


Aos vinte anos sabia de cor a canção do Lluis Llach. Aos cinquenta, sei que não tinha razão. O caminho continua a dar frutos novos, e o sétimo céu é um baixo contínuo que toca em surdina na nuvem quatro.

A Jetsunma Tenzin Palmo explica a origem da confusão:





**

O texto completo da "Wolke 4", em alemão:


Lass uns die Wolke vier bitte nie mehr verlassen
Weil wir auf Wolke sieben viel zu viel verpassen
Ich war da schon ein Mal, bin zu tief gefallen
Lieber Wolke vier mit Dir als unten wieder ganz allein

Ziemlich gut, wie wir das so gemeistert haben
Wie wir die großen Tage unter kleinen Dingen begraben
Der Moment der die Wirklichkeit maskiert
Es tut nur gut zu wissen, dass das wirklich funktioniert

Lass uns die Wolke vier bitte nie mehr verlassen
Weil wir auf Wolke sieben viel zu viel verpassen
Ich war da schon ein Mal, bin zu tief gefallen
Lieber Wolke vier mit Dir, als unten wieder ganz allein

Hab nicht gesehen, was da vielleicht noch kommt
Was am Ende dann mein Leben und mein kleines Herz zerbombt
Denn der Moment ist das, was es dann zeigt, dass die Tage ziemlich dunkel sind
Doch Dein Lächeln bleibt. Doch Dein Lächeln bleibt…

Lass uns die Wolke vier bitte nie mehr verlassen
Weil wir auf Wolke sieben, viel zu viel verpassen
Ich war da schon ein Mal, bin zu tief gefallen

Lieber Wolke vier mit Dir als unten wieder ganz allein
Lieber Wolke vier mit Dir als unten wieder ganz allein
Lieber Wolke vier mit Dir als unten wieder ganz allein


01 julho 2015

selfie familiar


Da esquerda para a direita: Christina, eu, Joachim.
Falta o Matthias (oh, se falta!) e o ó-sô-Fox não se vê porque está dentro de casa, por trás dos vasos, a brincar com uma garrafa de plástico.

(Ó sô Fox larga isso, que estás a fazer muito barulho!)


ARtMENIANS no Golden Apricot em Yerevan



O documentário ARtMENIANS está no Festival Internacional de Cinema Golden Apricot, em Yerevan. Entrei na página do festival, e tive uma bela surpresa: o ARtMENIANS aparece logo a seguir ao Ararat do Egoyan. Antes de me virem com a história da formiga que dizia ao elefante "ena, pá! olha a poeira que estamos a levantar!", deixem-me dizer-vos que começo a acreditar que deve haver um fundo científico nas coincidências. Por exemplo: a aventura do filme ARtMENIANS começou comigo sentada na Kammermusiksaal de Berlim, a assistir ao ensaio geral para a estreia mundial do requiem do Tigran Mansurian. De repente, do nada, o filme Ararat, do Egoyan, começou a rodar na minha cabeça ao som daquela música. E agora, em Yerevan, é esse filme que aparece imediatamente antes do ARtMENIANS.

Sabem aquela história da florzinha, da sementinha, da abelhinha?
(Coitado do Egoyan, não sabe que é o meu Espírito Santo, digamos assim.) (Na realidade, este filme tem dois Espíritos Santos - talvez fosse boa ideia sugerir ao Papa Francisco nova encíclica: "os Espíritos que nos animam") (vou é acabar aqui mesmo o post e pôr-me a trabalhar, que já percebi que hoje os disparates vêm em modo chouriço, agarrados uns aos outros em série interminável.)

***

O ARtMENIANS passou ontem na RTP2. Uma pessoa liga o computador, descansada da vida, e tem o facebook cheio de mensagens de pessoas que se dão ao trabalho e ao tempo de dizer como se sentiram tocadas pelo filme. Uma pessoa desliga o facebook e vai trabalhar, feliz da vida. 


30 junho 2015

Fusion -> Haircut -> Nowhere -> Haircut, ou: dentro e fora, fora e dentro

(este post não é sobre a Grécia)



Ontem juntou-se cá em casa um grupinho de foliões dos festivais: uns vinham do Fusion, outros estavam a partir para o Nowhere - o Burning Man europeu, se bem entendi. Um deles é o cabeleireiro favorito do Joachim. Nascido em NY, NY, punk por fora e doce por dentro (doce também por fora, e se calhar punk também por dentro), corta o cabelo como se cada cabeça fosse uma obra de arte. Enfim, cada cabeça é uma obra de arte - por dentro pelo menos.
Fomos para o terraço no topo da casa (é o nosso "vá para fora cá dentro") e ele foi cortando os cabelos enquanto eu cozinhava. O problema é que ele corta os cabelos um a um, de modo que à meia-noite ainda só tinha aviado 3 dos 5 que havia para aviar. Por sorte, depois de ir a Nowhere regressa a Berlim, e temos haircut: fica na nossa casa, disse que arranja tempo para a Christina e para mim. Pela minha parte, prometi-lhe que da próxima vez faço o spaghetti mais al dente. Porque todos têm direito a uma segunda oportunidade.

(E agora têm duas semanas para me ajudar a decidir se atravesso o verão com um frugal rabo de cavalo, ou se arrisco um corte tipo nova-iorquino) (não faço a menor ideia do que poderia sair dali)

(a fotografia está pouco nítida porque (1) não percebo nada disto de fotografar à noite e (2) não pedi autorização para usar as imagens deles)

(ter gente do Burning Man a jantar cá em casa tem a sua graça: no fim, em vez de "arrumar a cozinha", organizam uma "LNT-action") (LNT = leave no trace)


29 junho 2015

será que tenho poderes?



Agarrem-me que estou outra vez a sentir-me tentada pelo pensamento mágico.

Num dia lembrei-me da Yael Naim. De facto, lembrei-me apenas de imagens de um vídeo com uma música dela - nem sabia o nome dela, nem o da música. Uma amiga conseguiu adivinhar o vídeo que eu tinha em mente, e conseguiu encontrá-lo. Se não fosse ela, tinha de recorrer à minha extensão de memória para estas coisas, que está de momento a fazer um ano de voluntariado na Costa Rica. (Maldito ano de voluntariado na Costa Rica, que nunca mais acaba.)

Em todo o caso: num dia lembro-me da Yael Naim, depois de não ter pensado nela durante séculos, e no dia seguinte recebo uma mensagem a avisar que vem a Berlim em Setembro.

(Agora vou lembrar-me com muita força daquele cantor brasileiro, como é mesmo o nome dele?, um que tem olhos verdes e já não é muito novo - pode ser que resulte...)


o momento certo

(não, este post não é sobre a Grécia)

Anedota politicamente incorrecta:

Dois alentejanos estavam no meio do Alentejo quando passou uma sueca (é a parte politicamente incorrecta, daqui para a frente podem ler à vontadinha) (como vêem, esta anedota tem mais de quarenta anos, é do tempo em que se falava assim das suecas) (como é que se diria hoje? uma rapariga moderna? uma moça desinibida? uma feminista? pensando bem, provavelmente dizia-se apenas: uma mulher) que estava com problemas, porque o carro se tinha avariado, o reboque só vinha no dia seguinte, e ela precisava de um sítio onde dormir. Os alentejanos disseram que no monte deles só havia uma cama, mas que se ela não se importasse de dormir na cama deles... Ela não se importava, e assim fizeram. A meio da noite, aconteceu o que tinha de acontecer (porque isto é uma anedota) mas antes de acontecer, a sueca disse: "como eu não quero engravidar, vocês vão ter de pôr estas coisinhas". Eles puseram, depois já se sabe, e no dia seguinte veio o reboque e a moça foi-se embora.

Passados seis meses, estavam outra vez os dois alentejanos no meio do Alentejo, e pergunta um:
- Ó Zé, tu importas-te que a sueca engravide?
- Eu não, e tu?
- Eu também não.
 - Atão, que achas de tirarmos estas coisas?


(Vem isto a propósito do filtro com o arco-íris no meu perfil de facebook. Pergunto-me quando será altura de o tirar.)




28 junho 2015

afinal parece que gosto do Lang Lang...






Afinal não choveu. E estava tão longe do Lang Lang que não lhe vi os trejeitos, mas ouvi-lhe a música, o concerto para piano em lá menor de Grieg - e foi belíssima.

Antes disso, música de filme. Por exemplo, este tema do filme Laura, de David Raksin. Dei graças por não estar na Filarmonia, porque é música de filme, e eles sabem-na toda para nos iludir o sentimento. Esta em particular, no espaço uterino da sala grande, era capaz de me pôr a planar em asa delta, como daquela vez na segunda sinfonia de Sibelius, quando de repente a força de gravidade me falhou.



(A parte da segunda de Sibelius com poderes paranormais - em mim, pelo menos -, é esta:)




À excepção do Grieg, o concerto foi todo com música de filmes. A execução da música de Tom e Jerry foi muito divertida (só por isso já vale a pena ver a transmissão no Digital Concert Hall, que começa às 20:05 - 19:05 em Portugal) e quando tocaram o ET até demos um salto. O ET! Não tenho a certeza, mas acho que vi um miúdo a pedalar furiosamente no espaço azul sobre as árvores por trás do palco. 





27 junho 2015

assim como assim nem gosto muito do Lang Lang...

E eis que ando há semanas à espera do último concerto desta temporada da orquestra youknowwhatImean, no anfiteatro ao ar livre Waldbühne, com o Lang Lang ao piano, e ontem caí na asneira de ir ver o noticiário (enfim, havia muitos motivos para isso) e esqueci-me de desligar a televisão antes do boletim meteorológico. Diz que vem por aí o temporal do ano, e que é hoje ao fim da tarde, e que na Baviera até é capaz de haver um furacão.

Vou, claro que vou, com guarda-chuva, impermeável e bons sapatos. E se vier o dilúvio, bom, assim como assim nem gosto muito do Lang Lang, nem achava muita graça a terem um programa com músicas de filme...

...Mas espero que o temporal só venha depois do Grieg.







(O "Berliner Luft", o Ar de Berlim, com que se termina sempre este último concerto da época. A orquestra já toca isto de olhos fechados, pelo que até faz pena ver alguns maestros muito aplicados a tentar dirigir. Neste filme, o Simon Rattle, esse brincalhão, aparece ora na percussão, ora a tocar piccolo, ora misturado com o público. E o Placido Domingo sai-nos outro brincalhão, a dirigir e cantar ao mesmo tempo. Ar de Berlim.)


orgulho gay

(Esta minha vida dupla nas redes sociais é um stress. Ultimamente ando muito mais activa no facebook, e os amigos do blogue já se começaram a queixar. Há muito que ponho no facebook links para os posts do blogue, e a conversa acontece mais lá do que nos comentários ao próprio post. Agora vou começar a fazer também o contrário: trazer para o blogue conversas do facebook.)




A propósito da minha nova foto de perfil para assinalar a decisão do Tribunal Supremo de Justiça dos EUA sobre o casamento entre casais do mesmo sexo (este filtro é um pequeno gesto simpático do facebook, que disponibilizou a ferramenta: https://www.facebook.com/celebratepride?_rdr=p ) um amigo comentou o seguinte:

Falar de orgulho gay e de cultura gay tem o mesmo efeito para a normalização da vida dos homossexuais que o black power teve no direitos dos negros: nula. A aposta não deve ser na diferença e muito menos na superioridade. A aposta deve ser na integração no dia-a-dia. Mais lento, mas mais duradouro...

Passo a vida a repetir que "orgulho gay" não é "orgulho de ser gay" é "orgulho de ter a coragem de se afirmar perante uma sociedade que persegue e humilha quem é gay". A interacção no dia a dia está marcada por um opróbrio automático. A começar pela mãe bem-intencionada que diz que continua a amar o filho apesar de ele ser gay, a continuar pelos que dizem "isso cura-se", passando pela Igreja que lhes recomenda a castidade, continuando pelo Estado que quer proibir de dar sangue os homossexuais (todos, e como se sexo anal só fosse praticado por eles) e pelo futebol onde esses assuntos são pura e simplesmente tabu.

Quando a nossa sociedade olhar para os gay com a mesma indiferença com que olha para os canhotos, podemos falar sobre integração no dia-a-dia. Até lá, permito-me o prazer de festejar cada passo dado no sentido da afirmação da dignidade dessas pessoas.

Se me incomodam certos comportamentos de superioridade? Às vezes, ligeiramente. Mas penso no poema do Brecht: do rio que tudo arrasta...

Quem tem comportamentos de insuportável superioridade são pessoas e grupos do lado heterossexual - basta ver os exemplos que dei acima.


Obama!

Vivi a esperança de que Obama pudesse mudar o mundo. Vivi a desilusão de ele não o ter mudado tanto quanto sonhei (quanto ele próprio sonhou). Vi-lhe os cabelos a enbranquecer. Vi-o enredado em jogos de poder e contradições. Perguntei-me se é preciso tanto trabalho para eleger um presidente, se depois não manda quase nada. E depois há momentos assim, como aconteceu esta semana, que ficam para a História:







26 junho 2015

página do diário

9:00 Estou-me a arrancar uma tradução a ferros. Como é que os outros conseguem dar à luz os seus textos tão facilmente? Serei a única tradutora que vira cada palavra do avesso e do trevesso, lhe procura os mais remotos sentidos, e depois dá voltas à cabeça e aos dicionários para encontrar em português uma palavra que transporte a mesma riqueza e os mesmos mistérios? Sei que no McDonald's ganhava mais por hora de trabalho - e às vezes desconfio que até teria mais prazer...
Não liguem a este último desabafo. É mesmo só culpa dos ferros com que me estou a arrancar esta tradução.

10:00 Fui passear o Fox, e encontrei no lago uma vizinha que já não via há muito. Disse-me que estava chateada, porque com a mania que é republicana e não liga a essas coisas não foi ver a rainha de Inglaterra, que ontem passou por trás da casa dela. Decidi ali mesmo que havia de lhe dar as Holas que tenho escondidas debaixo do colchão - é tempo de acabar com esta ditadura dos bons costumes e da má consciência. Se soubesse que a rainha passava aqui ao lado também lá tinha ido, e até tirava uma fotografia para pôr no blogue, rir de mim própria por antecipação resulta quase sempre. A minha vizinha contou que passou em frente à residência britânica pouco antes da recepção, e as mulheres estavam impressionantemente elegantes de vestido de cocktail e chapéu. Ora bem: só o facto de ter conseguido que as berlinenses se ponham elegantes já é um caso de milagre, e de justificar a vontade de ir ver a milagreira e até de fazer selfies à frente do carro dela.

A propósito: há dias passaram aí um vídeo de uma rapariga de hijab a dizer que tapar assim a cabeça é uma maneira de combater a sociedade de consumo e a objectificação e excessiva sexualização do corpo feminino. Ela que me desculpe, mas a verdadeira batalha não se trava com hijab  - ela que venha às ruas de Berlim ver o que são mulheres que recusam a sexualização do seu corpo. Uma cidade cheia de corajosas resistentes.

15:00 Fui à padaria comprar uma baguete, mas estavam a vender um bolo chamado piña colada, com ananás e coco. Ananás e coco! Não é preciso muito mais para me fazer feliz. Trouxe-o todo, em vez da baguete - porque o pão branco engorda e além disso o ananás tem vitaminas importantes.

Depois recomecei a arrancar as últimas frases da minha tradução. Complicadíssimas: toneladas de ideias acavaladas umas nas outras.

16:00 Descobri que uma amiga minha morreu na noite passada. Fui procurá-la no seu mural de facebook, e estava cheio de bondade e beleza.

(um dia que eu morra, o que é que os meus amigos vão encontrar no meu mural de facebook?)







animais

Anda por aí um vídeo horroroso, que não quero ver. Já me conheço, e não quero que estas imagens se tornem estilhaços de vidros colados dentro de mim. 

O Nuno Markl descreve o caso e condena-o sem peias: numa festa popular prende-se um gato no topo de um poste e deita-se fogo à palha que o rodeia. O divertimento consiste em observar o pânico do gato. No vídeo que anda a correr por aí, o gato acaba por saltar, e foge com o corpo em chamas, perante os risos da população.

No facebook encontrei o comentário "que animais!" e ia corrigir: animal é o gato - estes humanos são é bestas. Mas bestas também são animais. Tento emendar, procuro outras palavras: isto aqui são pessoas burras, más como as cobras, brutas que nem um boi. Grandes cabras.

Porque é que usamos epítetos de animal para insultar? Mais: quem é que se lembrou de associar a animais este comportamento de crueldade e brutalidade absolutamente gratuitas? O contrário é que é verdade: quando os animais têm comportamentos de crueldade gratuita, estão a portar-se como humanos.

Inventem-se novos insultos, que os antigos correspondem a uma mentalidade já ultrapassada, ou de cujos enganos estamos a ganhar consciência. E olhemos para as nossas palavras de insulto, para o que significam e para o preço pago pelos portadores desse nome: animal, besta, bastardo, filho da puta, maricas, cigano, judeu, preto, etc.

Já agora, olhemos com mais demora para "humano", aprendamos a ver o que há nele de trigo e de joio. O que me lembra uma história que aqui contei há anos:

Um casal, a quem nascera um filho, desentendeu-se quanto ao nome a dar à criança, e foi falar com o rabino.
- Qual é o vosso problema?, perguntou o rabino.
- A minha mulher quer dar ao nosso filho o nome do pai dela, e eu quero que ele receba o nome do meu pai, respondeu o marido.
- Qual é o nome do seu pai?
- Abia.
- E o nome do seu sogro?
- Abia.
- Então qual é o vosso problema?, perguntou o rabino, surpreendido.
- Sabe, disse a mulher, o meu pai era um doutor, enquanto que o pai do meu marido era um ladrão de cavalos. E eu não quero que o meu filho tenha o nome de um ladrão de cavalos!
Desesperado, mas incapaz de os deixar sem uma resposta, o rabino disse-lhes:
- Dêem ao vosso filho o nome Abia. Depois deixem-no crescer, começar a andar e a falar. Ouçam os seus sonhos, vejam como luta pelo seu futuro, observem como se realiza. E assim verão se ele recebeu o nome do doutor ou o do ladrão de cavalos.


***

Para minha memória futura, deixo aqui o texto do Nuno Markl:




Não é tradição, é selvajaria


O que eu sei é que um vídeo da Queima do Gato de Mourão começou a circular pelas redes sociais. E o mais incrível é que não é um video de denúncia. É uma reportagem feita, creio eu, pela organização das festas mostrando, orgulhosamente, cenas de bailarico e terminando como um filme de terror: com a população a assistir, divertida, ao momento em que, no fim de contas, um gato real, não um peluche, é aterrorizado a uma altura tremenda, quando os foliões de Mourão deitam fogo a uma quantidade de palha que envolve a árvore ou o poste em cujo topo o animal foi colocado, e depois riem e comentam o que se passa a seguir: as chamas subindo a velocidade alucinante, o gato em pânico lá no cimo, a multidão divertindo-se com a dúvida: será que ele salta? Será que ele arde?
O gato, desesperado, acaba por saltar daquela altura gigantesca – gigantesca até mesmo para os dotes de salto de um gato – e, mais terrível ainda, salta de lá e foge em chamas. E o povo ri. E celebra. Numa pesquisa que fiz no Google sobre esta tradição, encontrei um depoimento de um idiota qualquer que dizia, sobre a tradição da Queima do Gato (que, no fim de contas, parece ter largado oficialmente o boneco para regressar à tortura de um animal real): “Calma, que não acontece nada ao gato – a não ser um grande susto!”
Permitam-me discordar desta frase imbecil a vários níveis. Só um “grande susto” (colocar um animal cercado a uma altura tremenda e obrigá-lo a saltar dali para escapar a uma morte pelo fogo) já é desumano. Pura e simplesmente desumano. Não tenho dúvidas quanto a isto: uma pessoa que se regozija com a ideia de celebrar uma festa pregando “um grande susto” a um gato é uma má pessoa. Não há volta a dar-lhe. Mas é pior ainda quando o “grande susto” termina como vemos neste vídeo: com um animal inocente, que não faz ideia do que é uma “tradição”, a fugir em chamas enquanto o povo ri e aplaude e festeja. Aí já não estamos a falar de meras más pessoas. Nenhum ser humano que acha divertida uma festa que termina com um ser vivo em chamas pode ser um ser humano decente. Qualquer ser humano que acha divertida uma festa que termina com um ser vivo em chamas é, lamento dizê-lo, uma besta psicótica.
Eu não quero acreditar que há só bestas psicóticas em Mourão. De certeza que há pessoas boas e decentes que compreendem o quão errado e indesculpável é este procedimento, por isso não vou fazer generalizações.
Vou só explicar aquilo que, quanto a mim, pode significar manter esta tradição sinistra e cruel.
Num primeiro nível, significa fazer mal a um ser vivo inocente, o que é errado. Mas pronto – isso é um argumento que pega pouco em Portugal, país que tem enraizada a ideia de que os bichos ou são para comer, ou são para matar – por desporto, espectáculo ou tradição. A um nível geral, somos um país que se está pouco borrifando para os animais, por isso condenar um mau trato, apesar de ser algo que vale sempre a pena fazer, é frequentemente inútil.
Mas pensem nisto: há crianças em Mourão a crescer com a ideia, bem impressa na sua mente, de que não só é possível – como é recomendável e muito apreciado pelos adultos – torturar física e psicologicamente um animal. Para as crianças de Mourão, isto valida qualquer brutalidade que se faça nos outros 364 dias do ano. Se um gato pode ser posto em chamas naquela noite, porque diacho não pode ser posto em chamas, picado, cortado, em qualquer altura do ano? E quem diz gatos diz cães. Ou outro animal qualquer. Celebrar a Queima do Gato com um gato real é dizer às crianças: “Este grau de violência é giro”.
Crescer com a ideia arrogante de que é divertido e socialmente aceitável fazer mal aos animais é grave. Porque não é só “fazer mal aos animais” (o que já é muito). É abrir as portas para que se faça mal a tudo – incluindo a seres humanos. Perde-se rapidamente o sentido do Bem e do Mal. Basta passar os olhos por algumas biografias de assassinos psicopatas para perceber que muitos deles têm em comum o gosto infantil e juvenil pela tortura de bichos. Não estou com isto a sugerir que anos e anos de tradição da Queima do Gato fez das pessoas de Vila Flor assassinos psicopatas; mas uma coisa é certa: depositou-lhes no coração uma semente do Mal, e é mesmo aquele Mal com artigo definido e letra maiúscula.
Lamento, mas quem faz uma festa assim não tem bondade nem decência dentro de si.
O vídeo está aqui.

25 junho 2015

a crase do Caetano



A crase, o retorno: a aula continua em #Amsterdam! No trajeto até o #Concertgebouw, que hoje recebe o show de estreia da turnê #DoisAmigosUmSeculoDeMusica, com Gilberto Gil, #Caetano explica a pronúncia que identifica o uso da crase em Portugal. E a turnê segue pela Europa! Logo mais tem as cidades francesas de #Vienne, #Paris, #Marselha e #Marciac. Ingressos em:03/7 - Vienne/França - http://bit.ly/1Kyf4KY06/7 - Paris/França - http://bit.ly/1Fm7r5I24/7 - Marselha/França - http://bit.ly/1JerOcu01/8 - Marciac/França - http://bit.ly/1HH95Az#CaetanoVeloso #GilbertoGil #CVGG100 #CraseCaetano
Posted by Caetano Veloso on Quinta-feira, 25 de Junho de 2015


Aaaah, o Caetano: tão bonitinho a explicar a crase.

(e o bilhete para o concerto em Lisboa já cá canta) (quer dizer: canta lá, mas isso são detalhes)

(agora, aquela coisa de dizer "a direito" para ir "em frente", só se for na terra dele, que na minha é mais assim: "xtáberaquela furgunete braunca ali ófundo? Bai purali, sempradereito, bê aquela árborinumfazcaso, continua sempre na sua mão, e ali adiaunte, onde bê aquela tabuleta bielha, ...")

(o vídeo estava no facebook)



23 junho 2015

sonhar alto

(foto)

Philippe Jaroussky e Patricia Petibon no festival de Aix-en-Provence - será que há Ryan Air para Aix-en-Provence em Julho?

(e indo por volta do 8 e 9 de Julho ainda se apanha de boleia "Le monstre du labyrinthe" em francês - vídeos: I, II e III)

(na minha próxima vida vou é aprender um instrumento musical, entrar para uma orquestra de música barroca, e esperar que estes dois tenham reencarnado na mesma época que eu, mas continuando com a vida anterior) (quer-me parecer que estou a pedir demais, se calhar pedia apenas para o São Pedro parar de chover, que tenho de levar o cão à rua)


Kirill Petrenko



Não sei se repararam: mal eu cantei uma ópera na Filarmonia, os filarmónicos reuniram-se em segredo e foram a correr buscar um maestro de ópera, famoso na colina de Bayreuth e de momento à frente da Bayerischen Staatsoper München. E nem esperaram pela minha repetição no domingo. 
Não é por nada, mas...

Na segunda-feira de manhã a Filarmonia de Berlim anunciou uma conferência de imprensa em directo no Digital Concert Hall. Vinham confirmar o que entretanto já se sabia: tinha havido nova reunião, sem alarde nenhum, e o maestro escolhido para substituir o Simon Rattle era o Kirill Petrenko. Poupo-vos o bluff: só o conhecia vagamente, de ver o seu nome em cartazes pela cidade.

Durante a conferência de imprensa, o director da Filarmonia e alguns representantes dos músicos, todos sem gravata (será o efeito dominó do novo governo grego, a chegar já à capital da Alemanha?), anunciaram a decisão com alegria e segurança: que os concertos com ele foram sempre um prazer tão grande que a pergunta, no fim do concerto, não era se o voltavam a convidar, mas quando voltavam a trabalhar com ele. Também leram a mensagem que ele enviou após ter aceitado o convite para esse posto:

Não há palavras para descrever o que sinto neste momento: tudo, desde euforia e uma alegria enorme, a temor e dúvida. Vou usar todas as minhas forças para ser um dirigente digno desta extraordinária orquestra, e tenho consciência da responsabilidade e das enormes expectativas que recaem sobre mim. 

Os jornalistas estavam irrequietos, queriam sangue. Perguntaram insistentemente sobre a reunião de Maio, lançavam iscos para armadilhas. As respostas foram firmes: "não queremos falar sobre isso".
(Vale muito a pena observar o que se está a passar na Filarmonia, a firmeza com que recusam alimentar esta sede de escândalo. Pode-se aprender muito com este caso. Tivesse o Clinton, a seu tempo, sabido responder assim, e o mundo tinha poupado um belo regurgitar da sarjeta mascarado de exigência moral.)

Sendo russo, imaginei que tinha passado pelo Bolshoi. E parece que sim, parece que vai ser uma delícia assistir aos seus concertos nos lugares por trás da orquestra:




Os jornais dizem que é um excelente maestro, exigente consigo próprio e com a orquestra, atento ao detalhe, incapaz de desistir antes de chegar àquilo que lhe parece ser a verdade da peça. As suas qualidades de bailarino também parecem claras neste vídeo. Estou satisfeita, em suma. Siga a música!

E há ainda um pormenor interessante: setenta anos depois do período nazi, durante o qual esta orquestra aceitou pagar um preço demasiado alto para poder sobreviver, o seu novo director artístico é filho de judeus. Que, por sua vez, é famoso pelas suas interpretações de Wagner. A História não se apaga nem se esquece, mas o futuro parece estar a ser desenhado com traços de uma saudável normalidade.


21 junho 2015

"opera prima" - hoje, às 4 da tarde (3 em Portugal), transmissão em directo e gratuita no Digital Concert Hall

A estreia, ontem, correu bem. Tentei lembrar-me de tudo: de usar "toda a língua alemã", como diz o Simon Halsey (ou seja: bater bem as consoantes), de meter uma folha de papel entre as palavras para se perceber cada uma delas sem o texto parecer uma sopa informe, de fazer os pianos e os fortes, de estar atenta à expressão do rosto e das mãos ("isto é tudo teatro", dizia a encenadora - tenho de me lembrar mais disso, porque às vezes esqueço-me, e os olhos enchem-se-me de água quando os jovens atenienses partem no barco), dos momentos em que é para cantar como se fosse um lamento interior e dos momentos em que há uma explosão de dor, do "you are not alone" (como cantarolou o Simon Rattle, para nos lembrar que o coro dos cretenses, sendo um trabalho de 100 solistas, tem de ser um trabalho em uníssono), da palavra luz iluminada (como o Tobias, o maestro que nos preparou, pediu desde o primeiro ensaio), do 1-2-3-4-"T", o 1-2-3-4-5-6-"G", dos cantabile, dos crescendo, do "nun" cantado como "lun" para não se ouvir apenas o "u". De levantar o braço ameaçadoramente logo em "já", e não em "labirinto", embora a entoação seja "já para o LABIRINTO".

Ao meu lado, um cantor fazia os gestos errados, e eu dava-lhe cotoveladas discretas. Enganei-me uma vez no coro dos cretenses, ai que vergonha, e nessa parte senti algum embaraço por estar misturada com o público a gritar coisas horrorosas em alemão, no meu alemão que não é perfeito, e as pessoas ao meu lado perceberem isso  (como quando ralhava com os meus filhos em alemão, e eles me corrigiam a pronúncia e a gramática).

No fim, o público aplaudiu longamente. O público: como trouxeram para o palco tantas pessoas com um nível cultural bastante diferente do habitual na Filarmonia, o público era bem diferente do habitual. Nem tossiam nem nada. O projecto Education Programm tem um efeito multiplicador que vai bem além das duzentas ou trezentas pessoas que nele participam.

No palco, nós sorríamos e aplaudíamos os nossos companheiros de aventura. Eu até me esquecia de parar de aplaudir quando me curvava com o coro dos adultos para agradecer o aplauso que nos era dirigido. Por trás de mim, o filho do Simon Rattle, um rapazinho amoroso que toca contrabaixo nesta orquestra que mistura crianças da escola primária e jovens com músicos da Filarmonia, escancarava os olhos de surpresa perante aquela explosão de aplausos.  

Saímos para a rua o aquele olhar feliz e realizado de quem conseguiu chegar muito perto da Beleza.

Hoje passa em directo, e gratuitamente, no Digital Concert Hall. Às três da tarde em Portugal.

Depois é apresentado por outros aventureiros em Londres, em inglês, e a seguir no festival internacional de Aix-en-Provence, em francês. A nossa aventura acaba aqui, hoje, e já sinto uma saudade enorme.

20 junho 2015

"opera prima" - uma ópera do nosso tempo





Jonathan Dove e Simon Halsey (fotos)


Os trompistas, que fazem o tema do Minotauro, são conduzidos por Ricardo Silva
um português bolseiro da Orchesterakademie.


É hoje a estreia da nova ópera do Jonathan Dove, "The Monster in the Maze", sobre a história de Teseu e o Minotauro. Estreia mundial, que responsabilidade a nossa! Embora, de facto, a verdadeira estreia mundial seja amanhã, com a transmissão em directo (e gratuitamente) pelo Digital Concert Hall. Domingo, 21 de Junho, às 4 da tarde (3 em Portugal), aqui. Hoje é apenas o aquecimento, perante 2400 pessoas...

Durante estes dois meses de preparação, fui-me apropriando desta ópera a pouco e pouco. Começámos pelo fim, pela mensagem de esperança "e assim a luz expulsa a noite" (e, logo no primeiro ensaio, o nosso maestro a pedir "iluminem bem a palavra luz"). Meu amor à primeira vista:

E assim a luz expulsa a noite, um dia claro nasce, e o seu riso é para sempre, para sempre, para sempre.

Depois fomos ao princípio, quando os atenienses comentam entre eles a crueldade do rei Minos, que exige que os filhos de Atenas sejam enviados de barco para serem entregues à morte. (Barcos da morte no Mediterrâneo? Onde é que já ouvi isto?...)

No primeiro ensaio com o Simon Halsey, a orquestra e os outros dois coros, fiquei fascinada com a beleza das melodias dos jovens, a doçura do coro infantil, e os desdobramentos de tensão na sobreposição dos vários grupos e solistas. Para além disso, comoveram-me os sinais da verdadeira riqueza deste Education Programm: o maestro que se dirige aos grupos do coro infantil chamando-os pelo nome do seu bairro, e são bairros que nos habituámos a associar a grupos sociais pobres e sem acesso à cultura erudita; no fim do ensaio, os gorjeios de língua à maneira do norte de África e da Turquia que ecoaram na sala quando os jovens aplaudiram; e o rapazinho que, sem saber como reagir ao nosso entusiástico aplauso ao coro infantil, endireitou o tronco, levantou os braços e mostrou orgulhosamente os músculos - no coração da Filarmonia de Berlim.

Uns dias mais tarde, durante o almoço na cantina dos artistas, falaria com uma cantora do Rundfunkchor que estava na Filarmonia a trabalhar com um dos coros das escolas primárias, e ela comentaria que é um trabalho muito exigente do ponto de vista emocional, porque muitas vezes aquelas crianças a comovem até às lágrimas. Como a compreendo! Também lhe confessei que tinha alguma inveja dos cantores do Rundfunkchor, que são pagos para trabalhar com o Simon Halsey. Ela sorriu, e concordou. Parece que não sou só eu a reparar no charme dele, do seu humor e da música do seu alemão com toque britânico, e no pormenor delicioso da camisa que no princípio do ensaio está elegantemente metida dentro das calças, e depois se vai esbanigando.

Voltando à nossa história: começa com o rei Minos a falar aos atenienses. "Ouve, Atenas! Foste vencida. Vencida, conquistada, destroçada. Enche todos os anos um barco com a tua Esperança, os jovens da tua cidade, e envia-o para o mar, para mim, o rei de Creta!" (Enviar para longe os jovens que são a Esperança de um povo? Onde é que eu já ouvi isto?...)
Os atenienses estão desesperados, os seus filhos estão em choque, e é então que surge Teseu. O Teseu desta ópera é um herói do nosso tempo: cool, cheio de swag. "Olá!", diz ele alegremente ao grupo de atenienses que estão à beira de um ataque de nervos. "Que choradeira é esta?"
Os jovens enchem-se de esperança: "Teseu!, o Teseu é o mais inteligente!, o Teseu é o mais forte!, é o mais valente!, é modesto!, consegue o que ninguém mais consegue!" e o Teseu faz charme, "ora essa, isto é só fun". Combinam que Teseu vai com eles para os ajudar a escapar ao Minotauro, preparam-se para partir, e eis que surge a mãe do Teseu, e parece saída de um livro do Freud. Pior, parece eu a falar com os meus filhos: "Nem penses! Isso é perigoso! Podes morrer! E eu, como é que fico? Não me deixes sozinha!"
O Teseu também parece meu filho: "Ó mããããeeee!" - impossível não rir com os tiques de adolescente que o Florian Hoffmann empresta ao seu personagem.
Depois os pequeninos juntam-se ao grupo, implorando aos irmãos mais velhos que não partam, que fiquem em Atenas. Mas eles põem-se a caminho. Teseu diz à mãe que deu a sua palavra àqueles jovens, reconhece que a comida dela tem um aroma muito sedutor, mas que a aventura ainda o seduz mais (ah, YOLO!).
Para trás ficam os atenienses, de coração destroçado.

Quando os jovens chegam a Creta, são recebidos pelo rei e por um mob sádico e sedento de sangue. Entram no labirinto, onde - tão jovens do séc. XXI! - os miúdos se queixam do fedor e da falta de conforto. Ao ouvir ruídos, os miúdos da frente fazem "chiu" e os de trás protestam: "já não se pode falar?!"
É Dédalo, o construtor daquela obra, que os leva até ao Minotauro. Durante a luta com o Minotauro (não vou revelar tudo, vejam no Digital Concert Hall) o coro dos jovens transforma-se em balões da banda desenhada: Batsch! Uffff! Peng! Knack!

O resto da história é o esperado: Teseu vence o Minotauro, saem do labirinto, e entram no barco rumo a Atenas, onde ninguém acredita no seu regresso. Os pais repetem "eles nunca mais vão voltar a casa" como uma canção de embalar - como se quisessem adormecer a sua dor. E chega o grande final, o momento da alegria e da esperança, com todos os solistas, os três coros em palco, a orquestra e dois maestros - o Simon Rattle  e o Simon Halsey - a aclamar o brilho daquele dia de riso claro para sempre, para sempre, para sempre.
Esta parte é muito difícil. Há demasiadas frases sobrepostas, as pessoas em palco têm dificuldade em ver o Simon Halsey, que dirige os três coros e ainda acompanha o que Simon Rattle faz na orquestra. Queremos todos entoar a esperança com enorme júbilo, mas sentimo-nos um bocado perdidos no meio da uma extrema diversidade. Alguns dos cantores nem conseguem ver o maestro, que se multiplica em gestos para oito músicas paralelas, tentando conduzir todos com segurança para um final de perfeita polifonia. Nestas condições, não basta esperar ter um dos melhores maestros da Europa e confiar nele. Para além de seguir as indicações do maestro, cada um de nós tem de saber muito bem o seu papel e o modo como se combina com o dos outros, tem de estar extremamente concentrado, tem de estar sempre atento para ouvir o seu grupo e todos os outros, tem de dar o melhor de si para garantir o melhor resultado do conjunto.

É, sem dúvida, uma ópera para o nosso tempo.


19 junho 2015

a Angela Merkel morre e chega às portas do céu, onde encontra o Cavaco Silva e o Passos Coelho sentados a um canto, do lado de fora...




O discurso que o Varoufakis fez em Berlim no dia 8 de Junho de 2015 (a partir de 12:40 no vídeo, e aqui, em inglês) explica de forma clara e simples como se chegou aqui, e como se pode sair desta crise rumo a uma Europa melhor. Vale a pena ler o comentário do Daniel Carrapa a esse discurso, no seu blogue blogue A Barriga de um Arquitecto.

Porque é que este discurso não foi o tema mais falado da última semana? A Europa está a desmoronar-se e, num mundo em que todos têm voz, não há espaço para esta voz lúcida e profética?

***

Há tempos contei aqui uma anedota do Estaline que chega ao inferno e vê o Hitler confortavelmente sentado de volta de um livro. Vai protestar com o chefe dos diabos, e este responde "ele está a traduzir O Capital para hebraico".

Aproveitando a ideia: a Angela Merkel morre e chega à porta do céu, onde encontra o Passos Coelho e o Cavaco Silva sentados a um canto, do lado de fora (junto a um sítio abrigado mas onde puseram ferros pontiagudos para evitar que os sem-abrigo se sintam demasiado confortáveis), a decorar este discurso do Varoufakis. Enquanto não o souberem dizer com convicção, o São Pedro não os deixa entrar.


18 junho 2015

"by heart" em Berlim




Ouvi rasgados elogios a esta peça em Portugal, queixei-me da insularidade do costume, e por uma vez alguém que move os cordelinhos lá em cima ouviu-me e trouxe a Berlim o Tiago Rodrigues.
(A montanha veio ao choramingas do Maomé.)
(Vou chorar ainda mais alto, pode ser que o Caetano Veloso e o Gilberto Gil...)
(E o Chico Buarque, o Chico Buaaaaaaarque! buaaaaaa, snif, snif!)

Uma coisa é preciso dizer: o Tiago Rodrigues tem-nos bem... bom, deixem lá.
Apresenta uma peça de teatro em inglês com as legendas para alemão previamente escritas (ou seja, não pode improvisar a meio), e ensina ao público alemão um soneto de Shakespeare. Em alemão, língua que ele não fala. A verdade é que era um alemão que o público também não falava - que tradução mais intragável aquela! E que trabalho de Hércules, ensinar alemães a recitar versos como se ensina um papagaio a dizer frases que não entende.

Apesar da dificuldade do poema, a peça resulta em grande. Nem podia ser de outro modo: é realmente muito boa. Mas não vou aqui falar das ideias, nem da inteligência do encadeamento, nem do humor, nem da sábia gestão das emoções. Vão ver a peça. Numa língua qualquer - estou capaz de acreditar que o Tiago Rodrigues até em chinês a fazia bem, e que o público chinês aplaudiria entusiasmado e comovido como o público berlinense, ontem.

Aqui ficam alguns bocadinhos da peça:

Trailer de BY HEART de Tiago Rodrigues from Mundo Perfeito on Vimeo.


E deixo também o poema traduzido pelo Vasco Graça Moura, que o Tiago teve a feliz ideia de dizer no fim - embalando a plateia na música tão mais doce que a do texto alemão, e deixando-me a mim de alma lavada.

Soneto 30, de William Shakespeare (tradução de Vasco Graça Moura)

"Quando em meu mudo e doce pensamento
chamo à lembrança as coisas que passaram
choro o que em vão busquei e me sustento
gastando o tempo em penas que ficaram.
E afogo os olhos (pouco afins ao pranto)
por amigos que a morte em treva esconde
e choro a dor de amar cerrada há tanto
e a visão que se foi e não responde.
E então me enlutam lutos já passados,
me falam desventura e desventura,
lamentos tristemente lamentados.
Pago o que já paguei e com usura.
Mas basta em ti pensar, amigo, e assim
têm cura as perdas e as tristezas fim."

(daqui)

E para quem está a precisar de um destrava-línguas:


William Shakespeare: Sonett XXX

(übersetzt von Terese Robinson, 1927)

Wenn ich zum stillen Rat in meiner Brust
Entbiete die Erinn’rung alter Tage,
Wein’ ich um manchen schmerzlichen Verlust
Und füg’ zu altem Leid die neue Klage.

Dann fließt mein Aug’, das selten Tränen trüben,
Um Freunde, die des Todes Nacht verschlang,
Es weint aufs neu um halb vergess’nes Lieben,
Um mancher frohen Hoffnung Untergang.

Und so, beschwert von alter Zeit Beschwerde,
Seh’ Leid um Leid im Buch ich aufgemalt,
Verwehtes Weh beugt tief mein Haupt zur Erde,

Ich zahle neu, als hätt’ ich nie gezahlt.
Doch denk ich dein, fühl ich das Leid entschweben
Und, Liebster, nichts verlor ich je im Leben.


jasmim






O jasmim abriu nos passeios do meu lago.
Agora somos dois: o Fox e eu de nariz no ar, encantados.


17 junho 2015

"opera prima" - bastidores



Nos bastidores, em Berlim:




Nos bastidores, em Aix-en-Provence:




Num ensaio em Berlim (eu sou aquela de branco, um pouco acima e à esquerda do Simon Rattle) (hihihi)




16 junho 2015

onde é que já se viu isto?

Adivinhe onde é que isto aconteceu:

1. Recebi uma carta da companhia de água pedindo para informar sobre a quantidade de água consumida. Não encontrei o contador da água, e enquanto procurava e não procurava veio uma factura para pagar mais 200 euros, informando que era resultado de um cálculo automático. Entretanto já tinha descoberto o paradeiro do contador. Telefonei para a companhia, atenderam imediatamente, e seguiu-se esta conversa:
- O contador não está dentro de casa, está dentro de um buraco à entrada da propriedade. Eu não posso ir lá abaixo porque me disseram que tem gases tóxicos, posso desmaiar e morrer ali mesmo.
- E não pode ir lá com o seu marido?
- Mas se nem temos ferramenta para levantar a tampa...
- Então está bem, mando lá os nossos técnicos. Quando é que podem ir?
- A qualquer hora, a tampa está acessível a partir da rua.
- Muito bem. Os técnicos vão, lêem o contador, e depois enviamos nova factura. Ignore essa que recebeu.
- Obrigada. Só mais uma pergunta: o que devo fazer para pôr um contador para a água de rega?
- Vamos enviar-lhe também uma declaração para ser preenchida pelo instalador que fizer isso. No nosso site encontra os instaladores autorizados. Telefone a vários, porque os preços deles variam muito.


2. Uma amiga minha abriu uma conta bancária há mais de vinte anos, e pediu-me para ser segundo titular da conta, caso lhe acontecesse alguma coisa. Agora quero deixar de ser titular dessa conta, e fui ao banco desinscrever-me. Deram-me um formulário que nunca mais acaba, onde tenho de dizer mais ou menos tudo desde que nasci até hoje, nomeadamente nome dos pais, habilitações, profissão, comprovativo de rendimentos, informações sobre o cônjuge, dados patrimoniais, etc.
E eu, parva, a pensar que bastava mostrar a cara e o bilhete de identidade, dizer o número da conta, e assinar.


3. Fiz um disparate num formulário das Finanças, de modo que fiquei obrigada a fazer uma declaração de IVA todos os meses, sem haver qualquer necessidade disso. Telefonei para as Finanças, atenderam logo, expliquei o problema ("é trabalho para mim e é trabalho para si, e bem podia ser evitado") e responderam-me que infelizmente não podiam mudar isso, porque já estava marcado como variável fixa no sistema informático. Mas que iam falar com o informático a ver se ele podia mudar. Pouco depois ligaram-me a dizer que sim, que o informático tinha corrigido o meu erro lá nos confins do sistema.


4. Ando atrapalhadíssima a acabar a declaração de impostos de 2013. Sim: 2013. Pedimos um prolongamento do prazo. Deram, e nem levámos multa, nem fomos presos, nem nos cativaram a conta bancária, nem nada.


5. Um grupo de vizinhos resolveu organizar uma festa para toda a rua. A parte mais fácil das reuniões é a distribuição de trabalhos. Mal a tarefa é enunciada, já alguém está a chegar-se à frente para a fazer. Na última reunião antes da festa, ao falar sobre o pequeno discurso inicial, no qual se diria que era giro a festa ser organizada todos os anos, sempre por um grupo diferente, um dos membros do grupo atalhou: "eu não sei se quero que sejam outros a fazer esta festa - gostava muito de continuar a participar na sua preparação, ano após ano!"

+++

1. Berlim
(Sem esperar horas ao telefone, sem fila, sem "a senhora responsável está de férias, volte na próxima semana", sem "pague agora proteste depois" - quanto da produtividade e do bem-estar de um país se pode aumentar com serviços públicos realmente interessados em servir?)

2. ahem...
(Decididamente, estou alemã: ao ver toda aquela lista de perguntas tenho reacções de defesa - para que querem eles saber isto? que lhes interessa? quem vai ter acesso a esta informação? que direito têm eles de me pedir esta informação? não digo!!!) (Na Alemanha, quase nunca me pedem mais do que o nome e a data de nascimento. Às vezes o número de um documento de identificação. Em casos que implicam mesmo confiança entre privados, como quando ando à procura de casa, o futuro senhorio pede uma confirmação de rendimentos e uma confirmação de que tenho um cadastro bancário limpo. Mas não é muito mais que isto.) (Aliás, estou convencida que o sistema multibanco chegou tardíssimo à Alemanha menos por este ser um povo avesso à tecnologia, e mais por desconfiança, por as pessoas não gostarem da ideia de alguém estar a juntar dados sobre elas a partir das operações bancárias que fazem.) (Penso que me recuso a dar aquelas informações, que ninguém me pode obrigar a isso, e lembro-me do refilão na Filarmonia, no domingo passado: "ter, não tenho de fazer nada!" Por algo semelhante - "eu posso estar onde me apetece, isto é um país livre!" - em Guimarães um benfiquista levou uma carga brutal de pancada, à frente dos filhos.)

3. Weimar

4. Berlim (mas se bem me lembro também já foi assim noutras cidades - acho que a única vez em que não entreguei a declaração com atraso foi no meu primeiro ano na Alemanha, porque ainda vinha condicionada de Portugal. Via "Repartição de Finanças" e até estremecia.)

5. Berlim, mas também podia ser a minha aldeia minhota.


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"Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida." 


Tenho de comprar a Granta "Falhar Melhor". Quanto mais não seja (e é muito mais), por este texto do Paulo Varela Gomes. Esta frase diz muito melhor do que eu consigo o que sinto perante a hipótese de um dia me eutanizar: sinto-me incapaz de decidir que será este o último abraço que dou a alguém que amo, este o último pôr-do-sol que vejo, este o último sorriso.


14 junho 2015

"opera prima" - ensaio com público



(fotos)
(eu sou a quarta bandeira da direita...)

Hoje a Filarmonia de Berlim abriu as portas ao público. O dia começou às 11, com um ensaio público de parte da ópera que vai ter estreia mundial no próximo sábado, dia 20. Antes disso, tivemos um ensaio sem público, pelo que o meu dia começou um bocadinho antes. Muito antes, aliás: antes de sair para o ensaio andei em casa numa correria a pô-la bonita para o Joachim que andou uma semana lá fora a lutar pela vida e regressa hoje, e a pôr-me bonita para um ensaio com público na sala grande da Filarmonia, e (aquela coisa do "já agora") a estender a roupa que foi lavada durante a noite, e - claro - a levar o Fox ao primeiro passeio do dia. Ao regressar a casa o Fox espetou os pés no caminho: não queria entrar em casa. O Joachim fora, eu a passar imensas horas fora de casa devido a trabalhos vários, ele sozinho demasiado tempo. Pobre Fox, deve sentir a casa como um castigo. Já estava atrasada, atrasadíssima, pelo que o trouxe para casa ao colo. Ele deitou-se logo no cesto, com um olhar de partir o coração.
Fui para a Filarmonia, entrei como um bólide na sala onde já estavam a fazer aquecimento de voz, e só tinha 30 segundos de atraso. Depois fizemos o nosso ensaio. No coro de Creta, um coro de sádicos, o Simon Rattle tentou tudo por tudo para nos conseguir fazer agressivos e assustadores, mas ainda temos muito de aprender. Ele bem dizia "demasiado, é muito bom!", e nós esforçávamo-nos por ser demasiado agressivos para ele ficar satisfeito. Debalde. A culpa deve ser do ensino público, que anda a dar cabo de nós.
Para repetirmos a cena dos "cretinos" (há quem lhes chame assim - a gente ri-se muito, lá na Filarmonia) saímos do bloco H, onde estávamos, e corremos pelo lado de fora da sala para o bloco A (quem conhece aquela casa imaginará o programa de fitness que esta ópera implica para os cantores). À porta do bloco A já havia pessoas à espera para entrarem na sala. A nossa guia disse "têm de nos deixar passar" e um refilão refilou "ter, não temos nada!" (imagino que isto seja muitos anos de educação para a Democracia - as pessoas ficaram hipersensíveis a tiques de autoridade, mesmo que sejam tão inócuos como este). Mas lá nos deixaram passar, e lá ficámos à espera, até que veio nova ordem: como já não havia tempo para repetir essa parte, devíamos voltar para o bloco H, para começar em breve o ensaio com público. Alguém dos que estavam à espera comentou "esta Filarmonia, que coisa mais mal organizada!" Até estremeci. Eles não sabem nada! Uma ópera novinha em folha, que começou a ser ensaiada há menos de dois meses, com 100 cantores adultos não profissionais, muitos deles sem sequer terem experiência de coro, mais dezenas de adolescentes e crianças (3 coros, portanto), três solistas, um narrador e um bailarino, uma orquestra com músicos amadores (e alguns deles são tão jovens que nem chegam com os pés ao chão quando estão sentados na sua cadeira), uma encenação extremamente complexa que nos faz andar a correr pela casa para voltar ao bloco inicial mas em lugares diferentes (sim, que cada um de nós pertence a 3 grupos diferentes; eu, por exemplo, sou dos grupos contralto, 2 e C). Do ponto de vista da capacidade de organização, o que esta equipa está a fazer é um trabalho brilhante.
O Simon Rattle cumprimentou o público, explicou que isto era apenas um ensaio, e que eles iam ver uma obra em construção. E que era uma aventura, ou uma viagem de carro - se houver um acidente, temos de parar, disse ele. Eu estava à espera que houvesse um acidente, porque o mais interessante é mesmo ver o processo de correcção de erros - sobretudo o modo bem-disposto como eles (tanto o Simon Rattle como o Simon Halsey) nos dizem o que querem receber de nós. Mas parece que não houve nenhum acidente enorme, e lá fomos nós pela peça fora. Ainda não está perfeita, mas já está bastante impressionante. Na parte do coro de Creta (quando estamos no meio do público e dizemos coisas horrorosas às crianças de Atenas que estão a chegar para irem servir de almoço ao Minotauro), uma menina ao meu lado começou a olhar para mim e a encolher-se toda de medo. Pisquei-lhe o olho para ela saber que isto era tudo teatro, e ela encolheu-se ainda mais. Deve ter pensado que eu era a bruxa que a queria atrair à casinha de chocolate.

O que tenho de aprender para o futuro (que é já no dia 20):
- não olhar para o público, especialmente para meninas pequeninas todas encolhidas de medo
- não dançar nem sequer baloiçar ao som da música, por muito bonita que seja
- não sorrir encantadíssima quando os outros dois coros estão a cantar
- não sorrir encantadíssima quando o Teseu aparece (e é difícil, porque ele é encantador)
- olhar mais para o Simon Rattle (sim!!! isto é inacreditável, mas está-me a acontecer! uma vez na vida tinha uma boa desculpa para não tirar os olhos do Simon Rattle, e esqueço-me de olhar para ele porque estou presa das crianças que têm melodias lindas, ou das fanfarronices do Teseu, ou da preocupação da mãe dele, ou dos pequenitos que estão na orquestra a tocar ao lado de alguns filarmónicos - o que não me falta nesta ópera são distracções, de modo que passo a vida a chegar com atraso aos lamentos de Atenas (este é o momento em que uma amiga minha vai dizer "pffff, andas há anos a chegar com atraso ao sofrimento dos gregos...") (olá, Rita! estás a ter um bom fim-de-semana?)
- preparar-me realmente bem, saber a ópera de cor - não apenas as minhas frases e os meus gestos, mas o momento exacto em que começo a cantar, e o momento exacto em que largo o "t" ou o "d" do fim da palavra

Ainda temos uma semana de trabalho intenso, ainda estamos a meio do processo - e eu já estou cheia de saudades destes dias. E a sonhar que, se tiver sorte, para o ano há mais.

Entretanto, hoje na Filarmonia há quatro ou cinco palcos onde acontece música excepcional, mas eu vim para casa, porque ainda tinha o coração na tristeza dos olhos do Fox quando o deixei de manhã. O dia continua: já plantei umas trepadeiras, já me zanguei com o Fox que correu para a rua a ladrar a uma senhora, o Joachim voltou, estou a pensar se regue o jardim para as nuvens finalmente se abrirem e largarem a água que têm estado a prometer o dia todo, e nada. A normalidade.  


12 junho 2015

o "orgulho" não é para meninos



Será que o José António Saraiva não tem um bom amigo que o agarre de cada vez que ele quer escrever sobre os homossexuais, alguém que lhe diga com muita amizade "deixa lá isso, homem, olha que te desgraças outra vez"?

Vem isto a propósito da sua crónica mais recente, "o armário". Concordo inteiramente com o que diz sobre o direito à privacidade: "todos têm direito à reserva da sua vida privada e não têm nenhuma obrigação de virem a público dizer se são homossexuais, heterossexuais, bissexuais, bígamos ou indiferentes." E diria mesmo mais: violar a privacidade das pessoas, seja por que motivo for, é sempre um acto perverso e pérfido. E apelar a que as pessoas revelem de si aquilo que não querem revelar é manipulação e falta de respeito. Ninguém pode ser forçado a fazer-se bandeira de uma causa, seja ela qual for.

O problema é o resto da crónica. José António Saraiva já começa mal ao repudiar a crítica feita ao cardeal que considerou o resultado do referendo irlandês sobre o casamento para casais do mesmo sexo como "uma derrota para a Humanidade". Fá-lo com argumentos de uma surpreendente candura: "tenho o bom senso de perceber que não é um atrasado mental qualquer que chega a cardeal de uma Igreja com mais de dois mil anos". Infelizmente, em dois mil anos a Igreja acumulou uma impressionante carga de pecado (entendido como um afastamento da Verdade de Jesus Cristo), que se revela também nos seus cardeais. Nem a antiguidade é um posto, nem o posto é sinal de infalibilidade. O dogma da infalibilidade papal tem apenas alguns anos mais que a minha avó, e nem sequer se aplica a tudo o que um papa diz - quanto mais aos dizeres dos cardeais! Exemplos de cardeais que cometeram falhas gravíssimas não faltam por aí: desde os responsáveis pelo Banco do Vaticano até aos que encobriram os casos de abuso sexual de menores - e é para dar apenas exemplos recentes que todos conhecem.

A seguir, José António Saraiva espeta-se em cheio ao falar do orgulho gay:
"Aliás, sempre achei que o 'orgulho gay', as 'paradas gay' são um perfeito disparate. Orgulho porquê? Se, como os próprios dizem, ser homossexual é qualquer coisa independente da vontade, não se percebe que seja motivo de orgulho. Orgulho tem-se naquilo que foi obtido com o nosso esforço e o nosso trabalho. A admitir-se a parada do 'orgulho gay', teria de se aceitar uma parada do 'orgulho heterossexual' ."

A ver se nos entendemos: não é orgulho por ser quem é - é orgulho por ter a coragem imensa de assumir ser quem é e estar disposto a pagar o preço cobrado por uma sociedade ainda hostil. Não faz sentido termos uma parada do 'orgulho heterossexual' porque um homem heterossexual nunca vai ter de pensar como revelar aos pais que gosta de mulheres, nunca vai ser gozado na escola por se ter apaixonado por uma rapariga, nunca vai ser insultado com frases como "tu gostas é de [inserir aqui uma prática sexual de heterossexuais]" ou "és mesmo um gajo que gosta de mulheres!..." ou "não faças figura de heterossexual!" Um jovem heterossexual não vai ser alvo de olhares despudorados e invasivos, muitas vezes carregados de desprezo (a crónica do elevador do Chiado é um belo exemplo desse olhar despudorado). Uma mulher que gosta de homens não vai ter o pai a recriminar-se ("o que é que fiz de errado?") nem a mãe a choramingar ("não vou ter netos!"), nem os dois a dizer "aceitamos-te como és, apesar de tudo és a nossa querida filha". Uma mulher que gosta de homens não vai ser vítima de "violação de reeducação" para "aprender que sexo com homens é que é bom". Um heterossexual não vai nunca ouvir "isso cura-se, há terapias que funcionam", ou "não tens culpa nisso que te aconteceu, agora só tens de reprimir esses impulsos e viver em castidade".

O tal "orgulho gay" é um fenómeno de pessoas que passaram por muito sofrimento causado por uma sociedade que as rejeita, despreza, teme, ridiculariza e insulta. E quem lhes provoca o sofrimento são "meninos", pessoas que agem a partir de uma situação extremamente confortável de assimetria de poder. Celebrarem-se a si próprios numa marcha de orgulho seria o cúmulo do cinismo.

Alargo um pouco o desenho, talvez seja mais fácil perceber:
- [sobre perseguição e extermínio] imaginem uma parada do orgulho judaico em Berlim - alguém se lembraria de dizer que, a admitir a parada do orgulho judaico, era preciso também aceitar uma parada do orgulho cristão em Berlim?
- [sobre direitos civis] lembremos a marcha Selma-Montgomery - para podermos achar bem, devíamos querer como contrapartida uma marcha só para brancos?
- [sobre direito à identidade] imaginemos uma marcha de orgulho arménio na Turquia (pequena síntese: muitas famílias arménias na Turquia mudam o apelido e a religião para protegerem os seus filhos, e escondem deles a sua origem arménia; na escola turca ensina-se que os arménios são os inimigos da Turquia) - para aceitar tal marcha, teria de se aceitar também uma marcha do orgulho turco?

Espero que agora tenha ficado mais claro.