24 abril 2015

a equipa que produziu, realizou e bla bla bla [ARtMENIANS, estreia hoje na RTP2, por volta das onze da noite]


Já contei que o nome do documentário é uma criação da Ana Vieira. A Ana, que vale o seu peso em ouro - e podia pesar o dobro. Também é dela um momento extraordinário do filme, quando se fala das crianças orfãs, e do trauma que é herdado pelas gerações seguintes. Gostava muito de saber o que é que a Ana toma no café da manhã, que lhe permite continuar criativa, calma e bem disposta 24 horas mais tarde. Ou 36. Ou 48, que eu vi.

Podia contar muito sobre o Pedro Magano, mas fico-me apenas por dois apontamentos: o ar tão contente dele quando, no fim da nossa primeira viagem à Arménia, me dizia que tinha ali material de que o Ricardo ia gostar muito. E o que lhe custou a segunda viagem, o trabalho intenso durante mais de quatro semanas, as saudades da filhinha, que nessa altura tinha meia dúzia de meses. 

O Pedro Ferreira, a sua enorme competência e a sua ainda maior paciência. Os seus olhos brilhantes ao passar-me com orgulho o filme já quase terminado, avisando-me que depois do tratamento de cor e de som aí é que ia ser. O seu entusiasmo - talvez lhe possa até chamar amor - por alguns momentos do filme, a alegria que nem a maratona da montagem conseguiu abafar. 

E o José Pedro Rosado (mais um Pedro! será que o Ricardo escolhe pelo nome as pessoas com quem trabalha?) que fez algumas animações extraordinárias. Que me faz sorrir com a sua animação para ilustrar o mito da origem dos arménios (digam vocês: que vos ocorreria como animação para um texto como o que se segue? "A arca da Noé pousou no monte Ararat, Noé e os seus filhos desceram para o vale e começaram a fazer o primeiro vinho do mundo. Noé falava com Deus na mesma língua em que falava com os seus filhos."), e que, depois de me aturar muitas variações de "este mapa mais assim, aquele mapa mais assado", fez uma animação que sintetiza muito bem as andanças de quase três mil anos de História dos arménios. 

A Elke Hartmann, a historiadora que nos ajudou imenso com os textos históricos e aparece várias vezes ao longo do filme. Ela fala, para além dos corriqueiros alemão, inglês e francês, o arménio, o árabe e o turco (e russo, se bem me lembro). Fala e escreve. Mostrava-me fotografias de comícios dos Jovens Turcos, "olha para isto, os cartazes dizem o mesmo, só que o dos turcos está escrito com letras árabes e o dos arménios está escrito em turco com letras arménias", e logo a seguir comentava a actualidade, falava-me do IS e dos primeiros salafitas, que começaram por ser uma espécie de Martinho Lutero no contexto muçulmano, e eu a ouvir, pensando que adoraria ser sua aluna. A Elke, com quem gravámos uma entrevista de quase duas horas, que nos deixou fascinados e ao mesmo tempo preocupados, sem saber o que cortar de todos aqueles tesouros. 

E, last because first, o Ricardo Espírito Santo. O ar emocionado com que me olhou em silêncio quando entrei na sala onde ele estava a ver pela primeira vez o filme completo.
O Ricardo, apanhado entre dois fogos terríveis: eu, e as Finanças.
Eu, que comecei a carburar demasiado tarde criando um stress terrível à equipa, eu que não conseguia cortar nada, e que dizia em tom tétrico "ai! despedaças-me o coração!" de cada vez que ele sugeria tirar uma ou outra coisa.
E as Finanças, que resolveram perseguir impiedosamente a Terra Líquida Filmes como se se tratasse de terríveis criminosos. Não sei como é que o Ricardo conseguiu a força para lutar tendo contra si a máquina poderosíssima e cega do Estado. Por trás do documentário sobre os arménios, que tentámos fazer o melhor que soubemos, há a história de um milagre de resistência quotidiana: um homem que encontra em si a força que lhe permite continuar a fazer o seu trabalho, aguentar a sua empresa viva e manter os empregos dos colaboradores, apesar de essa empresa estar a ser perseguida pelo Estado. 


a cultura como estratégia de sobrevivência [ARtMENIANS, hoje, RTP2, por volta das onze da noite]



Quem inventou o nome ARtMENIANS foi a Ana Vieira, numa estrada em Nagorno-Karabakh. Andávamos há dias aflitos a tentar encontrar um nome realmente bom, a Gulbenkian pressionava para poder publicar os seus programas, eu hesitava. Quando ouvi ARtMENIANS pela primeira vez, também hesitei (ninguém sabe, mas o meu verdadeiro nome não é Helena, é Hesita Araújo). À segunda vez senti-me conquistada: é isso mesmo! Arte para designar cultura, e cultura como estratégia de sobrevivência.

Um dos elementos que mais me toca neste filme são os exemplos de intelectuais e artistas que se dão conta do seu poder para ajudar aquela gente profundamente traumatizada a reerguer-se de uma tragédia desta dimensão. Pessoas que decidem entregar o bem-estar, a carreira e - alguns - a própria vida ao serviço do seu povo. Durante a montagem do filme, chamámos-lhes "os resilientes". Entre outros, há o caso do pintor que, em vez de ir para França tornar-se um dos artistas mais famosos da sua época, fica na Arménia a pintar quadros de cores radiosas e cenas de resistência serena à ideologia soviética (se o filme pudesse ter cinco horas, incluía ainda o momento em que esse pintor, famosíssimo no espaço soviético, em vez de meter uma cunha para safar o filho na II GM decidiu mandá-lo para Estalinegrado, "porque era lá que se jogava o futuro do seu povo"). Há o caso do escritor que tinha uma mensagem para os arménios, e a disse, sabendo que lhe custaria a cabeça - como custou, literalmente (se o filme tivesse cinco horas também contaria das filhinhas dele, de 2 e 3 anos, perdidas na rua até que uns vizinhos repararam nelas, porque o pai foi levado para a cadeia e a tortura, e a mãe - pelo simples crime de ser casada com esse homem - foi levada para um campo de reeducação, onde ficou esquecida durante décadas. O charme discreto do estalinismo...). Mais recentemente, há o caso dos historiadores que, um século depois de a presença arménia ter sido apagada da Turquia, iniciam na internet um projecto de reinscrever os arménios na História e na Geografia da região que foi a sua durante milhares de anos.

Enquanto trabalhava no filme, sentia-me impressionada com o tanto que estes temas têm a ver connosco. Como, por exemplo, na entrevista ao director de um centro de arte moderna em Yerevan, lhe fiz uma pergunta provocatória: porquê gastar o dinheiro em arte, em vez de o gastar na economia de um país? A resposta dele deixou-me a sorrir, e com vontade de contar a toda a gente em Portugal e na nossa Europa de cega austeridade.

E também há aquela miúda de cinco ou seis anos, aquela miúda amorosa e séria, que numa rua de Berlim recita para nós um poema enorme de Charents:

Vá onde for, não esquecerei nossos cantos de lamento
nem os livros de antigas letras, em oração convertidos;

quanto mais fundo o sofrimento me ferir o coração

mais te amarei, Arménia órfã, queimada de sangue, Arménia minha.


Essa criança passa os seus domingos na escola arménia de Berlim, a aprender o alfabeto, a História e as canções do seu povo. Ela, como tantas outras pessoas que transportam para o futuro uma herança cultural pela qual se sentem responsáveis. 

E nós, portugueses e europeus? Que valores da nossa cultura queremos levar conscientemente para o futuro?  


23 abril 2015

simbolismos [ARtMENIANS: RTP2, 24.04, 23:25]




Se me deixassem mandar, o filme ARtMENIANS tinha pelo menos cinco horas.
Passei várias semanas a olhar para o material que tínhamos e a sentir-me o Ali Babá na caverna dos tesouros: para onde quer que olhasse, só encontrava preciosidades. O Ricardo deitava as mãos à cabeça, dizia que o filme não podia ser tão longo. Eu sentia-me angustiada: como escolher que jóias deixar de fora?

Um dos segmentos que acabámos por ter de cortar foi a descrição do modo como fazem o crisma na Santa Sé de Etchmiadzin, que depois é levado para as comunidades arménias em todo o mundo.

Esse óleo é feito com azeite puro e uma mistura de quarenta ingredientes (ervas aromáticas, flores, raízes, folhas, etc.) segundo uma antiquíssima receita. A mistura coze durante três dias num caldeirão selado. Seguidamente, é levado para o altar-mor da catedral, onde fica quarenta dias a receber as orações e os cânticos quotidianos. Na cerimónia da consagração, que só pode ser presidida pelo Catholicus, usa-se também a lança que trespassou Cristo e uma relíquia que vem do princípio do cristianismo na Arménia: a mão direita de São Gregório, o iluminador. Finalmente, junta-se ao óleo novo o que resta ainda do antigo, num gesto sempre repetido desde o primeiro crisma.  

No filme Ararat, de Atom Egoyan, há uma cena em que um rapaz descendente de arménios fala com um polícia sobre a História do seu povo, e se refere à batalha de Avarair, que foi em 451 d.C.
O polícia, americano, espanta-se:
- Isso foi há muito tempo.
- We go way back, responde o rapaz.

É isso. They go way back: o crisma usado nas comunidades arménias em todo o mundo é tocado pela lança que vem do princípio do cristianismo e pela mão do fundador da Igreja Apostólica Arménia, e tem os restos de todos os crismas da História da Igreja Arménia. Mais simbolismo que isto é difícil.
É difícil, mas é possível: esta cerimónia ocorre de sete em sete anos. No cristianismo, o sete representa a unidade plena entre o divino e o terreno - 3 + 4 = a Trindade e os quatro pontos cardeais. O óleo com que ungem os baptizados simboliza a união perfeita do céu, da terra e do tempo.


22 abril 2015

ARtMENIANS - RTP2, 24.04.2015



O ARtMENIANS passa amanhã na TV pública arménia, às 23:00, e no sábado às 17:25.
Disseram-me que em Portugal passa na RTP2 na sexta-feira, dia que marca o centenário do genocídio dos arménios, e constou-me que será antecedido de um debate sobre esse tema. Mas ainda não vi nada disso anunciado no programa online. É muito estranho - será o meu google está avariado?

[ ADENDA: entretanto, já está anunciado aqui. Amanhã, dia 24, às 23:25. ]

No outro extremo da Europa, a empresa de TV dobrou o filme e fez este trailer para o anunciar.

(Bem sei o que está no filme, até assisti às filmagens e tudo. Bem sei quem arranjámos para substituir a Angelina Jolie, que infelizmente não tinha tempo nessa altura porque andava a tratar do casamento. Mesmo assim, ver-me agora dentro de um filme anunciado em arménio é um bocadinho estranho. Quase me sinto como aquele miúdo ao sair do dentista: "is this real?")


21 abril 2015

a vida continua



A penúltima coisa de que me lembro, na Costa Rica, foi nós sentados no Bread & Chocolate, em Puerto Viejo, a comer uns brownies prodigiosos. A última coisa de que me lembro foi do ar de maturidade do Matthias a aturar a sua mãe chorosa. Bem, antes disso também houve um momento muito engraçado, quando ele anunciou "pai, tenho uma notícia trágica para ti!" e eu disse, sobressaltada, "o que é que aconteceu ao Bayern?", e era isso mesmo - o Matthias decidiu que já não quer ser adepto do Bayern. Uma notícia trágica para o Joachim, ficaram horas a falar sobre essa decisão. E depois dizem que as mulheres é que são difíceis de entender...

Levantámo-nos às três e meia da madrugada para ir apanhar o avião, e 22 horas mais tarde eram oito da manhã no aeroporto de Tegel. De momento não faço a menor ideia das horas que são dentro de mim.

Depois de uma soneca o Joachim foi buscar o Fox e eu fui passeá-lo. A Primavera tem andado pelo nosso lago, eu é que não tiro fotos, porque estas duas semanas na Costa Rica desencantaram-me a paisagem quotidiana. Ao fim da tarde o Joachim foi pintar e antes disso esteve a ver a nova exposição colectiva onde tem alguns quadros, eu fui ao ensaio do coro para a nova ópera do Jonathan Dove. Os primeiros cantores começaram a chegar 45 minutos antes da hora marcada, e muito antes do que estava previsto já estávamos todos prontos, de autocolante com nome ao peito e lista de presença assinada. O ambiente é bem-disposto e leve, mas de trabalho concentradíssimo - até os exercícios de aquecimento da voz são exigentes e exactos (é a Filarmonia, stupid). Durante o intervalo encontrei amigos que iam ao concerto desse dia, rimos um bocadinho e despachámo-nos para não chegar atrasados. No regresso para casa fui ao supermercado, e como não tinha saco meti tudo numa caixa de cartão. Na estação de metro dirigi-me a um dos funcionários para lhe fazer uma pergunta, e levava a caixa e as compras debaixo do braço. Ele começou a olhar para as bananas com ar de cobiça, dei-lhe uma. Aceitou, rindo aquele riso de quem sabe que abusou um pouco mas não se importa muito.
É: estou outra vez em Berlim.


12 abril 2015

o dolce far niente

Este blogue parece adormecido, e a culpa é do dolce far niente que me tem trazido muito ocupada.
Depois, quando conseguir algum tempo livre, conto.
(Para já tenho de apagar do cartäo da máquina fotográfica umas 1000 fotografias. Já tenho 2 G cheios de palmeiras e praias de água turquesa, e 3 malucos a afrontar as ondas do Pacífico ao por-do-sol.)


06 abril 2015

almoço de Páscoa em Garni

Mais do mesmo - o post que escrito há um ano, agora com as fotos prometidas:


ali para os lados do paraíso

Deixámos Geghard e fomos almoçar o nosso peixinho grelhado de Páscoa a um terraço ali para os lados do paraíso: à sombra do templo de Garni, com vista para montanhas cobertas de neve e colunas do desfiladeiro de basalto, rodeados de árvores em furioso alarde da Primavera.

Quando íamos pagar, o dono do restaurante fez-nos sentar à mesa dele, "e comam comigo, que o que aqui está é para partilhar - a gente não leva nada desta vida, para além das tábuas do caixão". Brindou várias vezes. Com vodca, claro, e a obrigação de o beber de um trago.

(Coitada da minha vida interior: com tanta desinfecção, desconfio que as bactérias das minhas vias digestivas se estão a sentir bastante combalidas.)












05 abril 2015

domingo de Páscoa no mosteiro de Geghard

Mais um dos posts que escrevi há um ano, prometendo fotografias "quando chegasse a Berlim".
Bom, vai com um anito de atraso...

mosteiro de Geghard

Todos os posts sobre a Arménia merecem fotografias, e este mais ainda. O problema é que chego ao fim do dia demasiado cansada para passar a fotos para um computador emprestado e escolher algumas para o blogue. Não perdem pela demora: quando chegar a Berlim transformo este Conversa num blogue de fotografia.
O domingo de Páscoa em Geghard merece mais que fotos - de facto, merecia um filme. É ao que andamos - e não perdem pela demora.
Geghard foi um dos primeiros mosteiros arménios, criado no séc. IV, num lugar de ritos pagãos tão poderosos que ainda hoje perduram. Apesar dos avisos da Igreja, há junto ao mosteiro alguns arbustos cheios de tiras de pano e lenços que as pessoas atam na esperança de verem um pedido atendido. Também atei um lenço, à maneira de quem atira moedas para um chafariz turístico. Mas dentro da igreja acendi velas sentidas, como se o cristianismo arménio - tão  mais antigo que o meu - fosse capaz de levar mais longe o meu apelo para o infinito. Tinha três velas, e quis rezar pela família do nosso guia, o Gor, que por estes dias vai ser pai. Uma vela para a sua mulher, uma para o bebé que vai nascer, e a terceira... hesitei um pouco, mas as coisas são como são: a terceira foi para o médico que vai acompanhar o parto. Que São Gregório o ilumine para que tudo corra o melhor possível.

Celebrar a Páscoa entre aquelas paredes milenárias, com ritos que, por menos conhecidos, me tocam como a descoberta de terra nova, sublinhados pelos antiquíssimos cânticos litúrgicos arménios - não é possível exceder o fascínio deste momento.

E no entanto... parece que na Arménia é sempre possível ir um pouco mais longe: daí a nada dou comigo numa capela mais antiga - uma sala escavada no coração da rocha, com impressionante acústica - e no meio há uma mulher que canta melodias de fora do tempo e do mundo.




















03 abril 2015

viagem

Cinco horas de espera em Newark. Já deu para apreciar o gozo do poder que os mais insignificantes funcionários da emigração têm. Ah, o prazer de mandar as pessoas dar voltas e mais voltas em corredores virtuais! Faz de conta que é para nossa bem, profilaxe da trombose. Já me fizeram passar por uma daquelas máquinas de nos ver nus por baixo da roupa. O Joachim recusou-se, pelo que ganhou um apalpanço a 100 por cento. Deixo aqui a informação para o caso de alguėm querer saber. Já saímos um bocadinho à rua para "respirar o ar deste país livre!" Cheirava a poluição, sobretudo combustível. Já vi capas de revistas e parece que o fim do mundo está próximo, especialmente o do Clooney. Business as usual. À passagem na alfândega perguntaram-nos "are you together?" e o Joachim disse "sim, há 23 anos". Pelas minhas contas são 28, mas ninguém me pergunta a opinião. O polícias deu-nos os parabéns e desejou-nos muitos mais.

Vi três filmes. Boyhood (clap clap clap), Imitation Game (clap clap clap) e - andava há anos curiosa - Eat Pray Love (chicken soup for the soul em ainda mais piroso). Uma frase no final de Imitation Game deixou-me a pensar. Só pode ser sarcasmo, não é? Trata-se de a rainha de Inglaterra ter concedido um real perdão a um matemático que nos anos 50 foi condenado por indecência e posto em tratamento para controlar a homossexualidade. Então a rainha perdoa, em vez de pedir desculpa de joelhos, em nome do seu país?! Não entendi.

Na Costa Rica os nossos filhos estão à espera num bar, e enquanto esperam experimentam cocktails para melhor nos aconselharem. Mandaram há bocadinho uma foto, têm os olhos muito brilhantes. 


Páscoa

Talvez tenha entendido mal, mas registei algures que o teólogo Karl Rahner terá dito que a ressurreição é a parte "abracadabra" do cristianismo. Ou se calhar fui eu que pensei nisso, e resolvi ir buscar um nome sonante para endossar as minhas palavras, como aqueles poemas cheios de banalidades que povoam o facebook e diz que são do Fernando Pessoa.

A parte da ressurreição pouco me importa. Quando chegar a minha vez, "deixo-me cair nas mãos do Deus vivo"(*), e logo se vê. Para já, interessa-me o sentido que encontro nos meus dias, e o rumo que lhes dou.

(*) Karl Rahner: "para o cristão com fé, a morte é cair nas mãos do Deus vivo". 
Ao chegar ao fim da vida, o famoso teólogo respondeu a quem lhe perguntava se estava com medo da morte: "medo? não! apenas uma enorme curiosidade." 
(Um teólogo que sente curiosidade perante a morte? Coitadinhos dos dogmas, devem estar todos na urgência do atendimento psicológico.)


Sobre o sentido e o rumo, volto ao meu poema de sempre da Sophia:

Escuto mas não sei
Se o que ouço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco


E acrescento frases soltas do Karl Rahner:

* O sermão da montanha só pode ser entendido por quem tiver a coragem de se pôr radicalmente em questão - a si próprio, e não aos outros; e muito mais que questionar apenas uma ou outra coisa em si próprio.

* A maneira menos confortável de avançar é por dentro de si próprio.

* Na oração de súplica há duas coisas: a certeza de sermos ouvidos e a renúncia total ao desejo de sermos ouvidos segundo o nosso plano.

* A Fé é isto: aguentar durante toda uma vida a incapacidade de entender e tocar Deus.


E assim vai a minha fé: em serena atenção aos desafios de conversão no quotidiano. Em confiança, sem certezas matemáticas nem entes mágicos a resolver os meus problemas (como dizia um amigo meu: Deus é bom, mas não é bombeiro). Em busca, sabendo que ficarei sempre aquém de tudo e de mim.
É bom que tenhamos ritos e momentos altos no calendário, como a Páscoa. Por uns dias elevamo-nos nessa festa - e depois a vida continua. A caminhada.

Boa Páscoa.


as recordacoes sao como as cerejas...

Antes de sair para a Costa Rica há que largar aqui as fotografias das férias na neve na semana passada, não vá acontecer como com as fotografias da Arménia que prometi e ando há um ano para cumprir. E não me venham agora dizer que isto é só laró, porque a culpa não é minha. O Joachim queria esquiar com um grupo que marcou a semana para demasiado tarde, a Christina só tem férias nesta altura, e cá vamos tentando conciliar os interesses de todos. Isto não é uma queixa.

Ora então:   


(a ver se aprendo a deixar as calças por fora das botas, e é se não quero que a neve me entre para as meias e comece a derreter ali mesmo)








(muitos passeios com o Fox, esse estabanado que passava a vida a fugir para fora da fotografia)




(estas casas estavam ao lado do consultório do veterinário que levou 50 euros para cortar uma unha partida ao Fox - é o que se chama meter a unha para tirar a mesma. Fiquei chateada - pareceu-me que ele, o veterinário, tinha arrebitado as orelhas de maneira especial quando me ouviu falar alemão...)



As recordações são como as cerejas...

Semana em Itália, com um grupo de esquiadores do sul da Alemanha. Dou comigo a jantar a uma mesa cheia de sotaques da Suábia e de Baden, todos a falar da neve, da neve solta, da neve dura, de esquiar na neve virgem, da má visibilidade quando neva.

Lembrei-me do Nicolas, num piquenique em Coyote Point, olhando para os surfistas e fazendo comentários sobre o vento. Decidi nesse dia que nunca sairia com um grupo de surfistas, só sabem falar do vento. Boa decisão - e para quê? Para acabar num hotel com gente da Suábia e de Baden a falar da neve.

O Nicolas viveu no Tahiti, falava da luz do Tahiti com tal encanto que quase nem é preciso ir ver para se encantar da mesma forma. Fazia muitas vezes uma receita tradicional, "poisson cru". Um dia hei-de ir de férias com uns amigos que eu cá sei para a ilha de Armona, e hei-de ir a Olhão comprar atum fresquíssimo dos viveiros que eles me disseram haver lá (esse, a Christina deixa comprar) para lhes fazer "poisson cru".

Cortar os filetes de atum em bocados pequenos. Envolver os pedaços de peixe em sumo de lima. Quando mudar de cor está pronto. Escorrer o sumo, e cortar o processo de cozedura com leite de coco. Juntar cenoura ralada (um pouquinho, para dar cor), sal e pimenta.
Também se pode juntar tomate, cebola vermelha em anéis finos.

Diz que o leite de coco não deve ser da lata. Não sei, não sei...
Mesmo sendo da lata sabe-me tão bem que estava capaz de comer quilos e quilos disto. Até apanhar um choque proteico, como daquela vez na Ile d'Yeu. A culpa foi da anedota do homem que estava com dificuldades naquilo, já se sabe o quê, e o amigo disse-lhe que experimentasse ostras. Passados uns tempos encontraram-se de novo, e ele atirou "tu e as tuas ostras! comi duas dúzias, só funcionaram sete!"
No mercado junto aos barcos estavam a vender ostras, e nós resolvemos experimentar quantas funcionavam. Comprámos duas dúzias, treize à la douzaine, apanhámos um choque proteico tal que não funcionou nenhuma. Mas sobrevivemos, e foram umas férias inesquecíveis. Às vezes, se o vento me traz um aroma de mar e anis, regresso a esses dias perfeitos. Como na reserva de Año Nuevo, nós a fazer a caminhada de quase uma hora para chegar às pouca-vergonhices dos elefantes marinhos em em Fevereiro e Março (também há uma anedota a propósito disto, mas eu queria acabar o post ainda hoje), e a vegetação rasteira misturada com a maresia a soltar aquele aroma inconfundível, o Joachim a correr com os miúdos mais à frente, longe demais, eu sem poder sorrir-lhe, "lembras-te?", ele sem saber que era a sua deixa para dizer "temos de voltar a essa ilha!"

Semanas depois era domingo de Páscoa, e fizemos outro piquenique, desta vez na Tomales Bay. Tínhamos um saco de vinte quilos de ostras compradas na baía, e uma  toalha de Chanukkah que a nossa amiga encontrara na cave. Desde então, sempre que vejo o candelabro de sete braços, lembro-me dessa Páscoa, das ostras e de uma manada de veados a desaparecer na neblina de uma encosta verde. E da praia de Sir Francis Drake - eu era a única que lhe chamava pirata (algumas das minhas noções de História ainda não passaram o cabo do 25 de Abril).



Nos passeios com o Fox descobri um grupo de árvores que me lembrava uma catedral. Que me lembrou logo a Avenue of Giants, quilómetros e quilómetros de redwoods. Levei lá os miúdos numa das viagens mais loucas que já fiz. Queríamos ir de San Francisco a Oregon despedir-nos dos amigos antes de regressar à Europa, e eu resolvi aproveitar para passear no norte da Califórnia, enquanto o Joachim ia de avião, porque só tinha o fim-de-semana.

Ainda a viagem não tinha começado e já estava a correr tudo mal, porque eu confundo milhas com quilómetros. Bem sei que não é a mesma coisa, mas, enfim, é quase como se fosse. Na manhã da saída, até ter tudo metido dentro do carro demorou algum tempo, e mal atravessámos a Golden Gate foi preciso meter gasolina, e "já agora" lavar o carro. A Christina soltou um "ó, mãe..." tipo "gosto muito de ti, mas também não precisavas de exagerar tanto os testes ao meu amor". E lá fomos nós, atrasados como tudo mas num carro muito asseado. Parámos em Fort Ross, para ver sinais dos russos que ali vivera, e acampámos numa cidadezinha pacata que em tempos foi dos lenhadores que dizimaram as florestas de árvores gigantes. Comemos na antiga cantina dos lenhadores, cheia de fotografias deles muito ufanos junto ao corpo do delito. Nem a comida se aproveitava.

Numa curva da estrada vi uma tabuleta lindíssima, com um bule de chá cheio de florinhas, tudo muito inglês e romântico, e a frase "best pot in California". Não sei quantos meses andei até perceber finalmente o que vendiam ali...

Percorremos a Avenue of Giants, passamos de carro pelo meio de uma dessas árvores, entrámos na casa feita no tronco oco de outra, os miúdos fascinados, eu com pena de não ter tempo para parar mesmo e partir a pé pelo meio da floresta.

Fomos ao Heritage House Inn, em Mendocino, e o Joachim, quando soube, ficou cheio de pena de não ter estado connosco. Havemos de ir lá os dois, prometi, e desatámos ambos a rir - afinal de contas, é o sítio onde foi filmado "same time, next year", não devia ser lugar de peregrinação de casados.

Dois dias mais tarde chegamos à casa de praia no Oregon onde os amigos nos esperavam. Enchemo-nos de boa vida e de crabs pescados por nós nas baías desenhadas por cedros, e no regresso resolvi vir pela auto-estrada do interior. Atravessámos um vale que devia ficar muito perto do paraíso, porque era lindíssimo. Tudo como nos sonhos: flores selvagens a perder de vista, montes doces, e um rio a saltitar pelo meio. Mas não anotei o nome na altura, e nunca mais o encontrei. É estranho. Garanto que não tinha comprado, e muito menos consumido, o tal best pot of California.
(Mais vale parar aqui mesmo, mais uma frase e desgraço-me.)


02 abril 2015

lua cheia



Amanhã à noite vamo-nos encontrar na Costa Rica com o Matthias e a Christina, e vai ser lua cheia sobre nós.

**

Pedido aos senhores ladrões que se lembrarem de aproveitar a nossa ausência: por favor não incomodem o nosso amigo que se mudou para o apartamento do Matthias, nem os outros amigos que vão aproveitar a casa estar vaga para fazer férias em Berlim. Obrigada.

um rapaz



Um filme para cantar e dançar com ele.

Deixo a outros o elogio fúnebre. Tanto mais que estas pessoas não chegam a morrer, ficam-nos apenas um pouco mais inacessíveis.

O Manoel de Oliveira continua por aí connosco, nos seus filmes.
Pessoalmente, para além dos filmes, guardo dele duas frases que me maravilham:

"Se não temos dinheiro para filmar o comboio todo, filmamos só uma roda - mas filmamos a roda bem."

"- E porque não foi à casa de banho?
  - Não queria que aquelas senhoras pensassem que eu sou velho."

Já tinha mais de cem anos e, verdade seja dita, ainda era um rapaz.


há um ano por estes dias estava em Nagorno-Karabakh

De regresso a Yerevan escrevi um texto a contar sobre a viagem, e prometi fotografias. Um ano depois, ainda pode ser?

O texto era este:

lua cheia sobre Nagorno Karabakh

Era já muito tarde quando chegámos a Shushi, e uma lua cheia enorme erguia-se por trás dos ramos de uma nogueira centenária, junto à casa onde iríamos passar a noite. Por uns momentos lembrei luas cheias associadas a momentos muito especiais do último ano. Na Pampa boliviana, no São João do Porto, com amigos portugueses em Berlim e com amigos alemães na neve. Senti-me invadida por uma onda de gratidão para com a vida - que me passou quando entrei na casa e vi as condições do Bed and Breakfast em que nos tínhamos metido.

Aviso aos visitantes de Karabakh: a não ser que gostem de cenários muito fortes, optem por um hotel.

E se puderem fazer a viagem de avião, em vez de automóvel por estradas num estado lastimoso, talvez não fosse má ideia... Ou talvez seja a pior ideia de todas, porque a paisagem entre Yerevan e Karabakh é uma sucessão de cenários deslumbrantes, e depois há o almoço em Vaik e a aldeia onde se pode provar "o primeiro vinho do mundo", há mosteiros milenares de onde saíram algumas das mais belas iluminuras arménias, e há rebanhos e cães pastores descomunais, há uma vendedora de fruta com a banca mais bonita que alguma vez vi e uma tristeza do tamanho do mundo. Há o sol nas árvores que ladeiam a estrada e mais longe muralhas de montanhas cobertas de neve. Como se estivéssemos a caminho de um lugar mítico. E estávamos. Mas só nos demos conta disso um pouco mais tarde, depois de falar com as pessoas e ouvir a sua história.

A lua cheia sobre o desfiladeiro que protege Shushi era um sinal que não entendemos logo.





Comecemos pelo mosteiro Khor Virap, não muito longe de Yerevan. Entre um cemitério e o monte Ararat - que fica já do outro lado da fronteira, e naquele dia estava coberto de nuvens. Foi aqui que o rei Tiridates III mandou encarcerar o São Gregório, o Iluminador. O que não foi grande ideia, porque a seguir o rei começou a transformar-se num porco. Estava cada vez pior, ninguém o sabia curar, e em desespero de causa lembraram-se do São Gregório metido no seu buraco (o mosteiro veio depois, claro), foram lá buscá-lo e encontraram-no milagrosamente em óptimo estado, levaram-no ao rei. Aconteceu como tinha de acontecer: o São Gregório curou o rei, que voltou a ter forma e comportamento humano, se converteu ao cristianismo, com ele todo o povo. 
Esta história é antiga, ainda mais antiga que este mosteiro que parece estar ali desde o princípio do mundo. Os arménios são o mais antigo povo cristão. 







Parámos numa aldeia para filmar um grupo de amigos a jogar cartas. Os homens jogavam, a equipa de filmagem filmava, os mirones miravam, e eu - mirone-mor! - fotografava os mirones. Até que eles repararam em mim e trataram de se esconder.





Identificação de uma mulher.
O nosso guia disse-lhe "pense numa coisa bonita para sorrir" e ela respondeu que não tinha nenhuma recordação feliz.





Dizem que nas grutas destas rochas se guardava o primeiro vinho do mundo.
(Espero que a mãe do Pedro não veja estas imagens...) (Até eu tive vontade de lhe gritar: "sai já daí! olha que vais cair!")






Em Vaik, numa cave de pedra, serviram-nos um banquete. Hei-de voltar a Vaik só para tentar comer de novo estas batatas com carne. Soube-me à comida da casa da minha avó, no Minho. É estranho ir à outra ponta da Europa em busca da recordação de uma avó portuguesa, mas a gente vai aonde for preciso para poder tocar, por uns momentos, a própria infância.









Decidimos deixar o mosteiro de Tatev para o regresso, e no regresso não pudemos ir.
Mais um motivo para voltar à Arménia.




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