30 junho 2016

separação amigável



As notícias dos últimos dias sobre a reacção da União Europeia ao Brexit e os comentários nas redes sociais enchem-me de vergonha e desânimo. Bem sei que é fundamental impedir que os nacionalismos e populismos ganhem ainda mais força, e a situação se torne de todo incontrolável, mas questiono o método usado pelos responsáveis políticos e sinto embaraço e susto pelo nível de indigência política e ética no modo como se fala do tema.

Primeiro: a Alemanha convida os seis fundadores da comunidade europeia para uma reunião de urgência no dia seguinte a saber-se o resultado. Não sei se a reunião estava assim combinada há muito ou se foi uma reacção do momento, mas reuniões a seis, num contexto de crise dos 28, têm um peso simbólico extremamente negativo. Entendo a ideia de, para os fundadores da comunidade, fazer todo o sentido conversarem uns com os outros sobre o modo como a ideia inicial descarrilou. Mas, a partir do momento em que integram novos países no grupo, perdem a possibilidade de continuar a falar entre si, fazendo dos que chegaram mais tarde membros de segunda classe. É certo que, de momento, as erupções nacionalistas mais prementes são na França e nos Países Baixos, que estiveram nessa reunião a seis, mas o descontentamento global gerado pelas circunstâncias deste encontro pode ser muito bem capitalizado por todos os interesses nacionalistas, em todos os países - inclusivamente nesses dois.
Se a ideia era não dar mais força aos extremismos de fundo nacionalista e anti-europeu, correu-lhes mal.

Segundo: o ressabiamento e a maldade que andam por aí à solta, e que são alimentados pelas declarações dos políticos habilmente propagadas pelos meios de comunicação social. O Donald Tusk anuncia as próximas cimeiras europeias já sem o RU; a imprensa alemã empola, do discurso da Angela Merkel no seu parlamento, a frase que mais alimenta o ressentimento e satisfaz a sede de vingança - "a UE não vai deixar o RU fazer cherry-picking nas negociações da saída". Angela Merkel tem razão quando insiste que o acesso ao mercado comum implica respeito por determinadas regras comuns, nomeadamente a liberdade de circulação de pessoas - que foi um dos elementos centrais que levou à vitória do Brexit -, mas o modo como o seu discurso é tratado nos meios de comunicação reforça reacções de "eles vão finalmente deixar de se rir de nós" ou "agora é sem dó nem piedade!"
A verdade é que até as piadinhas me causam uma sensação de incómodo. Todos - do mais alto nível da política europeia ao cidadão comum - fazem piadinhas com fundo de Schadenfreude sobre os ingleses. E a eliminação da equipa de futebol inglesa permitiu deitar ainda mais achas na fogueira. Bem sei do humor como uma válvula de escape que alivia a pressão, bem sei da liberdade de expressão, bem sei da importância do riso para esconjurar os medos ou perplexidades, mas não entendo: as notícias que me chegam são as de um país desconcertado, profundamente dividido e em risco de se desagregar, uma sociedade em estado de choque, as pessoas atordoadas e assustadas perante o que lhes está a acontecer - e nós aqui a fazer piadinhas atrás de piadinhas sobre eles. Como estamos em termos de solidariedade dos povos? Ao mesmo tempo que protestamos por a Europa não ser solidária e atenta aos povos, mostramos abertamente a nossa falta de empatia e até o desprezo pelas pessoas de um país?
Talvez esteja a exagerar, talvez esteja condicionada pelo meu profundo sentimento de perda e pela raiva que sinto perante o sucesso das mentiras e da xenofobia que instrumentalizaram este referendo, talvez seja um problema meu de falta de sentido de humor (apesar de ter sorrido com algumas das piadas). Mas arrisco na mesma a pergunta: devemos acrescentar ao rol de defeitos da UE (a macrocefalia antidemocrática de Bruxelas, a combinação dos egoísmos nacionais, a supremacia alemã, os países divididos em actores principais e figurantes, etc.) a falta de solidariedade e empatia entre os povos? Que podem os políticos fazer para uma Europa mais coesa se as populações continuam a alimentar desconfianças e ressentimentos umas contra as outras? Quer dizer: será que a culpa do fracasso deste projecto não é só dos políticos, mas também de cada um de nós?

Voltando ao momento concreto: se o que está em causa é evitar o alastramento das tensões populistas para abandonar a UE, o que eu faria (agarrem-me, que...) se fosse porta-voz da União Europeia seria afirmar a tristeza por este projecto deixar de contar com um povo tão importante na História e na actualidade da Europa, agradecer sinceramente o seu contributo para o que somos hoje, e manifestar a intenção de preparar esta saída de forma o mais suave possível para evitar ao máximo convulsões sociais e económicas.

Para além do respeito e do cuidado pelo povo do Reino Unido, o que me move é a necessidade de, neste momento crítico, mostrarmos grandeza em vez de mesquinhez, e de fazer com que a motivação de cada país para permanecer na UE seja a vontade de fazer parte de um projecto considerado muito positivo e com possibilidade de ser corrigido e melhorado, em vez do medo de um terrível castigo quando se decide abandonar.


29 junho 2016

perplexidade

Tive esta manhã dois simpáticos jardineiros de Dessau (Sachsen-Anhalt) a plantar árvores no meu jardim.

De caminho carregaram para o camião dois enormes montes de lixo de outras andanças no terreno que não têm nada a ver com o contrato com a firma deles, deixaram imensos sacos de terra que bem jeito me fazem, podaram-me quatro árvores de fruto e deram-me dicas importantes para algumas plantas que tenho por aí. Tiraram as botas antes de entrar em casa para ir ao quarto de banho. Não quiseram nem o café nem a água ou os sumos que várias vezes lhes ofereci. "Nós estamos aqui para trabalhar!", disseram, com uma gargalhada franca.

No fim também fizeram questão de não aceitar os 10 euros que queria dar a cada um. E bem sei que um jardineiro não ganha um salário propriamente alto.

Estou que não percebo o mundo.


24 junho 2016

Brexit

Brexit.
A primeira sensação é de perda. O meu mundo mudou radicalmente, e vai mudar ainda mais.
Espero que saibamos todos aproveitar este momento de ruptura para aprender com os erros, e melhorar o que resta da UE. ("O que resta da UE" é uma formulação demasiado dramática, mas é como sinto hoje.)
Espero que os eurocratas tenham a grandeza suficiente de não complicar demasiado a vida à Grã-Bretanha só para estatuir um exemplo severo que impeça outros Estados de ponderar uma saída.
Espero que consigamos sair todos mais sábios desta crise.

(Entretanto, vou aproveitar a queda da libra para açambarcar Cadbury - como dizia o Manelinho: "os pequenos ganhos das grandes perdas")


23 junho 2016

freudenfreude

A explosão de alegria do comentador islandês perante o golo que leva a equipa do seu país aos oitavos de final é contagiante.
Já se inventava a palavra "Freudenfreude": antónimo de "Schadenfreude".

(Às tantas, já alguém a inventou.) (Triste vida.) (A ver se da próxima vez arranjo de não nascer tão tarde no meu tempo.)







17 junho 2016

fracasso

De uma newsletter do Spiegel:

O fracasso tornou-se parte da realidade alemã contemporânea. Não se pode dizer que a queda de uma ponte de auto-estrada em Untenfranken representa uma nova revelação sobre nós. Já o sabemos há muito. A nossa perfeição perdeu-se. Seja a eternamente adiada abertura do novo aeroporto de Berlim, as trafulhices da Volkswagen, o piloto da Germanwings que tinha problemas mentais e conseguiu iludir todos os controles - nos últimos anos, muita coisa correu mal, e os alemães têm de corrigir a imagem que têm de si próprios. O que acontece nos outros países, também acontece no nosso.


15 junho 2016

"emigrante"

Devo à internet o fim da minha condição de emigrante-lá-longe. Durmo em Berlim, passo uma bela parte dos dias em Portugal, em português.
A princípio, há mais de um quarto de século, era o telefone. Por uns minutos voltava à minha terra, estava inteiramente do lado de lá. A voz - uma simples gargalhada - me bastava para o "beam me up".
Chamam-nos agora "expatriates". Tenho a sensação que é para ter um nome mais bonito, porque emigrante é muito bidonville. Mas a essência é a mesma, e a internet é a mesma para todos: essa larguíssima ponte que em segundos nos leva de regresso ao nosso país, à nossa cultura, aos nossos temas e à nossa língua.
Bidonville: que estranhos valores europeus nos fazem pensar que os emigrantes são aqueles que vêm para ocupar o lugar mais baixo da pirâmide social? E que são cidadãos de segunda? Quantas vezes não ouvi eu que tenho de estar grata por me terem recebido aqui, e que não devia criticar nada, porque isso é morder a mão que dá de comer! Quantas vezes não ouvi que os imigrantes são tolerados mas têm de saber merecer essas regalias (as migalhas que pingam da mesa dos ricos, a regalia de fazer o trabalho que mais ninguém quer)!
Eu própria caio no mesmo erro: ainda hoje, ao ler que há lobbies turcos na Alemanha que confundem integração com assimilação e a recusam, e que estão a pressionar os deputados alemães com raízes turcas para se porem do lado da Turquia de Erdogan contra os mais elementares princípios da sociedade alemã, ainda hoje, dizia, me apeteceu mandar essa cambada toda para a terra deles. Por sorte percebi logo o erro em que estava a cair (se vivesse em França, ainda corria o risco de votar Le Pen, para proteger a França dessa gente...).
Ser emigrante é fazer um caminho sem regresso para longe de todos os lugares. Nunca chegaremos à terra para onde fomos, e nunca voltaremos a ser um dos nossos. Eu sou "a alemoa".
Estou a embarcar para Portugal. Para o Porto. Hoje à noite vou dormir na minha casa, onde não há internet. Curiosamente, em Portugal fico mais longe deste meu quotidiano português que acontece no facebook e no blogue.
Daqui a uma semana regresso, e já sei como vai ser a tristeza do último passeio pela casa, pelas árvores do jardim. Pousar um último olhar nas flores e nas pedras, tentar reter.
Bem feita! Que me fique de lição, para ver se da próxima vez me lembro de não nascer assim portuguesa, com este tique de sofrer antecipadamente saudades para ir adiantando o trabalhinho.


14 junho 2016

"dance harder, fight harder, be more fearless than ever "


Pam Ann, no facebook: 

My heart is so heavy, my eyes filled with tears ... We've all lost so many of our brothers and sisters today who just wanted to dance. I will make sure I dance harder, fight harder, be more fearless than ever and I will wave the rainbow flag stronger, higher and prouder than I ever have in my life. My thoughts and love go out to all the families and friends of all those murdered and fighting for their lives in Orlando. LOVE Pam Ann ❤️

(Lembram-se daquele velho mal-entendido sobre "orgulho gay"? Esse orgulho é isto - a coragem de assumir a sua identidade, mal-grado a hostilidade do mundo.)


10 junho 2016

mas que violência!

Esta manhã tive de apagar spam que alguém deixou num evento que criei (se querem saber tudo: a sardinhada dos Portugueses em Berlim vai ser no domingo, dia 12, a partir da uma da tarde, no parque Monbijou). Apaguei o post, e então o facebook perguntou-me: "Tens a certeza que queres eliminar esta publicação e eliminar Sylvia Andrade*?"

Oh, pá! Eu não quero eliminar a Sylvia Andrade!
Que violência.

(Estou a brincar, mas tem o seu quê de sério: a violência no abuso do espaço alheio, a violência na linguagem das mensagens de sistema. A pergunta "queres eliminar" combina muito mal com o nome completo de uma pessoa. Se me deixassem mandar, mudava para "queres bloquear o acesso a esta personagem?")


* Apelido modificado.

08 junho 2016

mais um post onde se fala de refugiados (isto sou eu a escrever a palavrinha mágica para aumentar o número de leitores)

O dicionário informa que o equivalente português de "Vorfreude" é "antecipação".
Antecipação?! Isso não me serve para descrever a feliz expectativa enquanto avançava para este Junho, o mês berlinense do Philippe Jaroussky. Meio ano de Vorfreude a olhar para os tantos bilhetes que comprei para toda a família, imaginando a beleza que nos seria dada.

O problema é que, como bem diz o ditado, "o homem põe, e Deus dispõe":

Primeiro, foram os meus filhos que disseram que não podiam ir a esses concertos (algo me diz que são um caso de lost in translation: ainda tenho de lhes ensinar o significado de Vorfreude). Decidimos oferecer os bilhetes a alguns dos seus amigos sírios, e escusado será dizer que estes souberam traduzir muito bem Vorfreude para a sua língua materna. Em especial um deles, que tem andado a receber hate mail ("vai para a tua terra! ninguém te quer aqui!), além de uma carta oficial que o está a preocupar imenso, informando que, segundo o tratado de Dublin, tem de voltar ao país pelo qual entrou na Europa. Agora que conseguiu chegar tão longe, e até já trabalha em Berlim como informático, teme ser enviado para um campo de refugiados na Turquia.

Segundo, foram os concertos que tiveram de ser todos cancelados por motivos de saúde do Philippe Jaroussky.

O problema da Vorfreude é quando se desfaz em dolorosos sacões, como um balão bojudo com a saída de ar aberta, largado à solta.

O homem põe, Deus dispõe, mas eu remato "hahaha, não me doeu nada, hahaha, até estou a rir, hahaha, vês?" É que àqueles sírios já ninguém rouba a alegria de lhes terem sido oferecidos bilhetes para concertos do Jaroussky. Ao menos isso.


07 junho 2016

70x7, as pombas e as serpentes, o facebook

Quando, há cerca de cinco anos, comecei a estar mais activa no facebook, decidi manter a cronologia aberta a todos, e aceitar todos os pedidos de amizade - excepto os que eram spam óbvio.

Entretanto, dei-me conta de que não tenho jeito nenhum para o cristianismo. Estando escrito "Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas." (Mt. 10:16), aqui a artista não consegue levar a sério a parte dos lobos (e fica inteiramente desconcertada sempre que se depara com um), e não tem muito jeito para a prudência da serpente.

Andar no facebook partindo do princípio de que do lado de lá é tudo gente boa até prova em contrário pode parecer um cheque em branco, mas tem o seu preço: quando me aparece uma prova em contrário, raramente dou segunda oportunidade. Não há cá "perdoar 70 x 7 vezes" - excepto quando se trata de amigos da vida real.

Bem sei que seria mais avisado partir do princípio de que o facebook está cheio de lobos. Mas não consigo olhar para um desconhecido através dos óculos de "o que tu queres sei eu". Antes de as conhecer, não sei o que as pessoas querem (e mesmo depois de as conhecer melhor...). Elas que vão revelando ao que vêm, e em função disso decido se me apetece continuar a cruzar-me com elas no facebook, ou se desapareço do seu raio de observação e acção.

A este propósito, lembro uma frase que vinha numa carta que a polícia californiana nos mandou, por causa de uma infracção de trânsito: "está prestes a perder o privilégio de conduzir". O facebook seria um lugar muito mais respirável se as pessoas tivessem consciência que os murais alheios e a atenção do seu proprietário não são um direito inalienável seu, mas um privilégio que têm de saber merecer.

(Depois, no dia do Juízo Final, hei-de ter uma conversinha sobre essa história dos lobos e do 70x7. Talvez me safe, como naquela oral de Contabilidade de Custos, quando respondi "ora ainda bem que me fala nisso, porque tenho dúvidas sobre este ponto e sobre aquele", e o temido catedrático, atónito, "como é que vem para a oral sem saber isso?", mas explicou-me, e deixou-me passar.)

(Por falar nisso, e agora vou mudar completamente de assunto, o Juízo Final bem podia ser uma explicação da nossa vida à luz de um amor infinito por cada um de nós e pelo mundo.) (E o inferno seria, nesse caso, atravessar a eternidade com a consciência de termos vivido na terra muito aquém da plenitude a que podíamos aspirar.) (Espero que nos seja então descontada a ansiedade que já vamos experimentando à medida que os anos passam e nos damos conta da finitude do corpo e da incompletude do ser.) (Descontada com juros, por favorzinho, que isto não é fácil.) (Se calhar tratava de terminar o que já devia estar pronto há 3 dias, em vez de estar aqui a alinhavar pensamentos em público.)


o Jovem "Conversador" de Direita está cada vez melhor




Já aqui disse que estava capaz de apostar que sei quem é o autor do Jovem Conservador de Direita. Apostava, mas não digo o nome, porque assim não me envergonho se não for, e além disso deixo a pairar a ideia de que "sei coooiiiisas..."
(Mas que maneira tão fácil de parecer poderosa!)

Também disse que, em termos de genialidade na construção de um heterónimo, já se podia equiparar esse autor ao Fernando Pessoa. Não é qualquer um que consegue defender de forma tão coerente e razoável o contrário daquilo em que acredita.

Escrevi mais ou menos isto há seis meses, e por um triz escapei de repetir tudo sem me dar conta. Valeu-me uma busca no google que desembocou no meu próprio blogue. O JCD é o meu detector pessoal de velocidade de galope do Alzheimer. Menos mal: mais divertido e mais barato que um teste de ressonância magnética.

Voltando ao título do post, que é o que aqui me trouxe, aqui vos deixo o exemplo mais recente:

5 razões que provam que o Dr. Harry Potter é de direita 

Nos últimos dias percebi que o Dr. Harry Potter tem fãs de esquerda bastante extremistas. Só a simples menção do facto evidente de que os alunos de Hogwarts estariam ao lado dos colégios privados na polémica dos contratos de associação, levou a que fosse mais odiado por alguns deles do que o Dr. Cujo nome não deve ser pronunciado. Isto fez-me querer saber mais sobre os livros do Dr. Harry Potter. Terei eu analisado mal este fenómeno da cultura popular e interpretado incorrectamente esta série de livros como literatura juvenil de direita? Claro que não. Depois de ter ouvido o meu estagiário a falar sobre estes livros durante 5 minutos cheguei à conclusão definitiva de que o Dr. Harry Potter é um herói de direita, sem margem para dúvidas. As razões são as seguintes:

1. Hogwarts é um colégio saudavelmente elitista

Hogwarts é um colégio de direita. Para começar, os alunos eram obrigados a usar uniforme. Não havia t-shirts do Che Guevara, nem meninas em trajes menores. Além disso, só os melhores entravam em Hogwarts. Sendo que "melhores" no contexto de Hogwarts quer dizer "portadores dos melhores genes". Um Muggle bem pode estudar uma vida inteira para ser feiticeiro que, chegando à idade, não só não vai receber a desejada carta de Hogwarts como, se ousar ser pró-activo, ainda ganha um traumatismo craniano ao tentar atravessar o portal para a plataforma 9 e 3 quartos. Se a esquerda mandasse no Ministério da Magia, iriam tratar de arranjar quotas em Hogwarts para Muggles por questões de integração e diversidade. Isto ia levar a uma quebra dos níveis da qualidade de Hogwarts e, em pouco tempo, estariam a abrir disciplinas completamente inúteis para um feiticeiro (e para qualquer pessoa) como Sociologia, Filosofia ou Artes Dramáticas.

2. Hogwarts forma feiticeiros tendo em conta necessidades de mercado, sem quaisquer inclinações ideológicas

Hogwarts é um colégio completamente virado para o mercado de trabalho na área da feitiçaria. As disciplinas leccionadas não permitem qualquer interpretação ideológica. São áreas técnicas como Herbologia, Poções, Feitiços ou Defesa contra as Artes Negras (as artes marciais dos feiticeiros). A única disciplina remotamente de esquerda é Adivinhação, a disciplina da tresloucada hippie Prof. Trelawney e que é referida nos livros como uma perda de tempo, por ser inútil e que só é escolhida pelo Dr. Harry Potter para encher chouriços porque é fácil. Curiosamente é também a única disciplina onde se apela à criatividade, na interpretação de borras de café, por exemplo. Isto mostra claramente que a criatividade é um aspecto secundário e opcional da aprendizagem. Um feiticeiro não tem de ser criativo, tem ser bom. Hogwarts prepara os seus alunos para serem bons técnicos de feitiçaria, não os prepara para serem intelectuais de feitiçaria daqueles que falam muito mas, quando pegam na varinha, são incapazes de evocar um simples Expelliarmus. Não há cá análises críticas sobre o que são artes negras (artes negras são más, ponto, não há cá cinzentos nem análises de contexto), nem questionamento sobre o papel do feiticeiro na luta contra o neoliberalismo. Os alunos estão em Hogwarts para fazer, não para "pensar".

3. A saga do Dr. Harry Potter retrata o triunfo da direita conservadora contra a extrema direita grunha

A luta entre a direita conservadora e a extrema direita grunha é um combate que, pessoalmente, me diz muito, dado os meus confrontos recentes com militantes do PNR. Esta luta é o grande fio condutor dos livros do Dr. Harry Potter. Vejamos, o Mundo da feitiçaria é conservador de direita. A ordem estabelecida é tipicamente conservadora. Há famílias poderosas de feiticeiros que zelam pelo bem comum, que coexiste com um sistema meritocrático que permite a ascensão de descendentes de Muggles especiais que o mereçam. Mas não há grandes misturas. Vivem em harmonia na sua desigualdade. Os feiticeiros protegem os Muggles mas, para além disso, não querem nada com eles. Tudo funciona bem e de forma pacífica. A única ameaça são os grunhos de extrema direita, os autodenominados Devoradores da Morte, que querem purificar o sangue dos feiticeiros e não olham para os Muggles como pessoas, mas sim como animais que só atrapalham os feiticeiros. O Dr. Harry Potter e companhia unem-se para proteger a ordem estabelecida conservadora da ameaça progressista e revolucionária do Dr. Voldemort.

4. Os homossexuais sabem como viver sem pecado

Segundo a Dra. JK Rowling, o Dr. Dumbledore era homossexual. Fiquei muito contente quando soube desta revelação porque o Dr. Dumbledore é um exemplo para todos os homossexuais, visto que prova que é possível manter uma vida virtuosa, ao mesmo tempo que se tem instintos pecaminosos. Se a saga do Dr. Harry Potter fosse de esquerda o Dr. Dumbledore não era director. Abraçaria a sua homossexualidade e partiria para a América do Sul à procura de orgias com esbeltos feiticeiros latinos peritos em feitiços dirigidos ao aumento de certas partes do corpo. Mas, em vez disso, sabendo que possuía uma orientação sexual pecaminosa, manteve-se no sítio onde, como grande feiticeiro que era, poderia ser útil. Não querendo formar uma família tradicional, como era seu direito, tomou a segunda melhor opção: dedicou a sua vida à academia e ao bem comum. É um excelente exemplo de que, só porque uma pessoa é homossexual, não precisa de ter comportamentos pecaminosos.

5. A esquerda aparece apenas como um exemplo das fantasias próprias de adolescentes idealistas e ingénuos A única causa remotamente de esquerda defendida nos livros é a defesa da libertação dos elfos domésticos levada a cabo pela Dra. Hermione. Chega a ser cativante, assistir a esta ingenuidade própria da adolescência da Dra. Hermione a favor dos "pobres e oprimidos". No final, libertam alguns elfos domésticos mas, a maior parte deles, os que são bem tratados pelos seus donos, prefere manter-se na escravidão porque só assim são felizes. Ao fim ao cabo, os elfos domésticos são electrodomésticos feitos de carne. Como qualquer electrodoméstico nasceram para ser escravizados mas revoltam-se se forem maltratados. Experimentem tratar a vossa máquina de lavar roupa ao pontapé. Um dia ela vai revoltar-se e vai deixar de funcionar. Foi o que aconteceu com o Dobby. Era maltratado pelos Malfoys e revoltou-se. Se o tivessem tratado bem, ele ter-se-ia mantido feliz como escravo.

Se, perante esta argumentação, continuarem a achar que o Dr. Harry Potter é de esquerda e um defensor da escola pública é porque a vossa cegueira ideológica vos impede de ver a realidade.


05 junho 2016

Komitas



A minha manhã abriu-se com esta canção medieval arménia que encontrei no mural de um amigo no facebook.

A canção lembra-me o que o compositor Tigran Mansurian dizia, numa entrevista para o ARtMENIANS, sobre o Komitas a compor num jardim com 2000 anos - o exercício de composição como um passeio passeio quotidiano por um espaço musical com dois milénios. E lembra-me também o que o Jordi Savall comentou a propósito da música arménia: testemunha da sensibilidade e da poesia de um povo sem terra, que vive em constante sobressalto.

Os pensamentos são como as cerejas... Por falar no Komitas, perguntei-me se o Komitas String Quartett terá um CD com as suas "miniaturas" de Komitas.
Se existir, tenho a certeza que é um álbum formidável (onde se compra? comprava logo 10 - um para mim, e os outros para oferecer aos amigos mais queridos).
Se não existir, já começava a ser tempo de alguém tratar disso.
(Se me deixassem mandar...)


04 junho 2016

Nathalie Stutzmann!





Este é o mês do Jaroussky em Berlim: vários concertos e duas master classes. Comprei os bilhetes há meio ano, e preparava-me em quase alvoroço para ir ao primeiro desses concertos quando recebi uma mensagem informando que Philippe Jaroussky estava doente e que a maestrina Nathalie Stuzmann, que é também contralto, iria dirigir a peça e ao mesmo tempo cantar a parte dele.
Que decepção! Bem sei que os humanos às vezes adoecem, mas o Jaroussky não nos pode desfazer assim seis meses de alegria antecipada.

Pelo que pensei duas vezes se me valia a pena ir ao concerto - e decidi ir, apesar das expectativas goradas e do tanto trabalho que tinha em casa. Outros terão pensado o mesmo, e não foram. Havia muitas cadeiras vazias na sala, e faltaram-me os casais gay que costumam aparecer em grande número nos concertos deste cantor.

O Stabat Mater foi extraordinário. A Nathalie Stutzmann começou como é normal: de costas para o público (e eu a pensar: "vamos lá ver o que sai daqui"). Ao chegar o seu momento de cantar, pegou na estante e virou-se para o público, dirigindo a orquestra de costas com precisão e graça. E quando abriu a sua voz magnífica de teca e cardamomo, esqueci completamente o Jaroussky.

Aqui um exemplo, com Vivaldi:



A sua voz combinava-se harmoniosamente com a da soprano Anna Prohaska, que também esteve muito bem, mas nem o tom claro e fresco desta, nem as perfeitas modulações, nem o penteado, nem o lindíssimo vestido sem costas conseguiram por um momento desviar a nossa atenção do prodígio que estava a acontecer naquela sala. O público aplaudiu longamente e de pé. A caminho da saída, a desconhecida ao meu lado comentou, com um enorme sorriso: "que sorte tivemos!"

Inesquecível.





02 junho 2016

cenas da minha vida real



O nosso Bolinhas está a chegar ao fim, Temos andado a tentar mantê-lo vivo até usarmos o último saco do pacote, mas entretanto já fui comprar um aspirador novo. Por causa dos nossos muitos degraus e do cão, tinha de ser superleve e superpotente (a minha vida real é uma suíte de quadraturas do círculo). Na loja, em dúvida sobre cinco modelos diferentes, pedi ajuda. A funcionária da secção passou-me para a mão o sexto modelo, um Miele que estava com preço especial. A ver se me lembro de não ir nunca às compras sem passar antes por uma hora de psicoterapia, para poder resistir às etiquetas escritas a vermelho com um sinal de percentagem muito grande. Em menos de nada dei comigo a caminho da caixa com um Miele debaixo do braço. Por sorte o caminho para a caixa era longo, deu-me tempo de cair em mim. Voltei para trás, olhei com mais atenção para as características do aparelho. Rendimento em tapete, numa escala de A a F: D. Rendimento em chão duro: C. E também não era nenhum peso leve. Ou seja: a única coisa que eu ia comprar era um Miele e um % escrito a vermelho!
Perguntei à funcionária se aquele D não era sinal de mau rendimento, e ela respondeu-me que havia pior. Ah, bom.
Larguei a caixa, recomecei a busca. Encontrei um que tinha "A" a tudo, era dos mais leves que lá estavam, e mais barato que o % Miele. Como não encontrava nenhuma caixa do modelo, fui ter com a vendedora, que estava a atender uma senhora cheia de perguntas sobre um robot. Pousei o modelo da exposição na plataforma de demonstração dos robots, e fiquei pacientemente à espera.
Passou outra cliente, que viu o meu aspirador pousado em cima da mesa, parou, e começou a passar-lhe a mão pela carapaça. Avisei-a que o queria comprar, e ela sorriu: "fique descansada, não venho comprar aspiradores. É que tenho um igual em casa, e gosto imenso dele."
Finalmente consegui falar com um funcionário, que me disse que aquele era o último aparelho disponível, e por isso mo vendia por metade do preço. Até vi estrelas em forma de % .
A senhora atrás de mim na fila da caixa perguntou-me se o aspirador era bom. Repeti a informação da outra cliente, e acrescentei que devia ser mesmo especial, porque a outra até lhe tinha feito festinhas e tudo. Paguei, validei o talão do estacionamento, a senhora atrás de mim desejou-me "boa sorte e muito prazer com o seu aspirador", eu repeti "hehehe, vou ter muito prazer com este aspirador" e desatámos ambas a rir.
Ainda estava a rir quando desci o estacionamento pelo poço em serpentina. Ao chegar à cancela passou-me o riso: tinha-me esquecido de pagar o estacionamento! Tentei subir a serpentina em marcha atrás, mas havia cada vez mais carros atrás de mim. Impossível.
Um homem que vinha a passar na rua veio ter comigo, disse-me que infelizmente se tinha esquecido do seu cartão de utilizador diário no escritório e por isso não o podia usar para me deixar sair. Sugeriu-me que tocasse a campainha, e dissesse que me esquecera desse cartão. Toquei a campainha, e disse a verdade: esqueci-me de pagar, e já há 5 carros atrás de mim, se me pode deixar sair, eu estaciono o carro na rua e vou pagar. Do lado de lá, um riso bem-disposto: deixe estar, vou abrir a cancela, pode-se ir embora, não precisa de pagar nada.

Às vezes suspeito que a minha vida real decorre numa realidade paralela.



01 junho 2016

o forreta do São Pedro comprou um aparelho auditivo com 50% de desconto!

Por causa da relva cada vez mais seca, e do acerto da conta da água de 2015 que ainda me está a tinir na conta bancária, tenho andado a pedir ao São Pedro que faça chover de noite.

Parece que o forreta do santo comprou um aparelho auditivo com 50% de desconto: só ouviu a primeira metade da frase.

Copiosamente, em pleno dia. Estava capaz de organizar um crowdfunding para comprar um aparelho auditivo que lhe permita ouvir as rezas até ao fim.


31 maio 2016

Raduan Nassar

(foto)

Notícia de 30.05.2016 no Público: Raduan Nassar é o vencedor do Prémio Camões.

No dia 29.05.2016 uma amiga comentou comigo que tinha gostado muito do livro do Raduan Nassar que lhe emprestei. Logo a seguir, ele ganha o Prémio Camões. Agora vou pensar que autor de língua portuguesa empresto a essa minha amiga daqui a cerca de um ano, para ela gostar.

(Aceitamos transferências bancárias, envelopes, presuntos.)


mudanças

Este domingo os meus filhos mudaram de casa: o Matthias saiu, a Christina regressou.
Aos 19 e 21 anos, ninguém precisa dos pais para quase nada. Trataram sozinhos de tudo, inclusivamente de alugar uma carrinha de mudanças.
Eu fiz uma salada de cuscuz suficiente para um regimento inteiro e o bolo de aniversário para a Christina, que fez anos ontem, e fui levar umas coisas do Matthias à casa dele. No caminho cruzámo-nos com a carrinha das mudanças, abrimos as janelas, olá! olá! até já! Quando regressámos, uma hora mais tarde, a carrinha já estava vazia, os móveis espalhados pelos lugares que lhes competiam, e o pessoal estendido no terraço a comer cuscuz e restos do frigorífico, e a beber cerveja. Depois arrumaram tudo, agarraram nas coisas deles, disseram onde estava o que o pai tinha de levar no carro, e foram para aquela sauna louca no centro da cidade grelhar salsichas e festejar até entrarem no aniversário da Christina. Eu fui para a recepção na Embaixada.

Nunca vi nada disto: duas mudanças no mesmo dia, sem o menor alarde, sem qualquer nervosismo. Tudo pronto a horas, com toda a calma.

Não sei como é que os meus filhos conseguem. Das duas, uma: ou são os genes alemães, ou então passaram a infância toda a observar-me atentamente e a decidir como não querem ser.


cenas

Isto ontem dava uma sequência de filme (infelizmente não muito original): 
fui ao terraço fotografar um arco-íris que lá estava, e de repente olhei para o lado e vi que o céu estava para cair sobre Berlim. E caiu.





Esta manhã, no Tiergarten, o céu estava a levantar-se de novo: uma neblina suave erguia-se do chão e envolvia as árvores, dando ao parque um aspecto fantasmagórico. 




O Fox deve ter cheirado uma prima, porque lhe deu a tola e desatou a correr como um bólide, até se me perder longe da vista e da voz.

Triste cena: de manhã bem cedo, ao lado da Chancelaria, uma mulher a andar de um lado para o outro por entre as árvores enevoadas, com os pés cada vez mais molhados da erva húmida, a chamar as raposas em português. 

(Coitado do Presidente da República, ainda agora veio a Berlim polir a imagem do país, e já tem de voltar para dar mais uns retoques.)


30 maio 2016

da missa a outra metade

Este post já tem uma semana de atraso, mas eu ainda não consegui inventar maneira de viver a vida e contá-la ao mesmo tempo, desculpem. 






Caso alguém tenha interesse em saber mais sobre o projecto da Rundfunkchor Berlin com inúmeros coros de amadores, à custa do pobre do Schubert que não tem culpa nenhuma e nesse dia deve ter dado tantas voltas no túmulo que quase ia morrendo de novo, aqui vai:

Às dez da manhã estávamos todos a postos, todos os 1300 cantores deste projecto do Rundfunkchor Berlin, e dois pianistas. Era a primeira vez que os vários coros se encontravam juntos e com o maestro Simon Halsey. O concerto público - a missa em mi bemol maior, de Schubert - teria lugar às quatro da tarde.

Começámos pelos exercícios de distensão e de aquecimento de voz:



Após uns minutos, arrancámos com o Kyrie. Cantámos bonitinho, sem sermos interrompidos, e até nem parecia mal. Foi o que me pareceu, mas o maestro tinha outra opinião. Fez-nos repetir, uma e outra vez, em trabalho intenso e concentrado para afinar a interpretação e nos levar bem mais longe. Esse trabalho já é, em sim, a essência do prazer de cantar. Mas o Simon Halsey, com o seu humor britânico, o extraordinário dom de entertainer e o inteiro domínio da peça e dos participantes, leva esse prazer para uma dimensão a todos os títulos superlativa.

Das dez ao meio-dia estiveram apenas os coros amadores. A seguir ao almoço percorremos de novo toda a missa, mas já com a orquestra, o Rundfunkchor e os solistas. Finalmente, fizemos o ensaio geral. Mais uma pequena pausa, e seguiu-se o concerto.




Vou tentar relatar os comentários e as informações do Simon Halsey à medida que íamos conquistando a Missa página a página. No texto que se segue, as frases entre aspas são dele. As fotografias são do fotógrafo Kai Bienert, e trouxe-as da página de facebook do coro. Por favor espreitem lá, e deixem um like, para eu poder dizer que o roubo era por uma boa causa) (eles pediram-nos para pôr likes, queriam chegar aos 5000 nesse dia. Prometeram que quem fizesse o nº 5.000 tinha direito a um meet and greet com o Simon Halsey. Ele fez uma careta e comentou: "e o segundo prémio é dois meet and greet comigo").

À falta de um filme deste concerto, repito a gravação com a Orchestre Philharmonique de Radio France e o Daniel Harding. Das versões que ouvi até agora, é a que me parece mais próxima da interpretação que lhe demos neste concerto de 22.05.2016.






00:00 Kyrie

O Kyrie é um problema, porque começa com uma consoante dura. Se não estamos atentos ao maestro e uns aos outros, em vez de começar com Kyrie, parecemos gagos: Ky-Ky-Ky-Kyrie. Pergunto-me se não será daí que vem a palavra "cacofonia". Numa das repetições, o maestro zangou-se e disse aos tenores, que por azar tinham errado naquele momento: "nesta peça, o Kyrie às vezes vem depois daquilo que vocês querem. Se preferirem ser vocês a dirigir, trocamos já de lugar, e eu canto."
Mas eles não preferiam, o que foi uma sorte - sabia eu lá a qual dos 200 tenores devia obedecer!



06:21 Gloria
"Não, não é gloRRIAAA, é GLOria", notava o maestro. E pedia-nos para cantar como quem proclama, e para fazer o arco a crescer para Deo: Gloria in excelsis Deo! Pediu aos naipes masculinos que cantassem só eles, e as sopranos e contraltos aplaudiram a performance. "As mulheres gostaram", disse o Simon Halsey, e nós rimos. "Eu não! A primeira frase foi fantástica. Mas a segunda falhou."
Na última repetição antes do ensaio geral, pediu ao seu Rundfunkchor que cantasse sozinho. Ficámos consternados com a diferença. O maestro passeava pelo palco com o polegar e o indicador à volta da testa, e perguntava-se em tom meditativo "porque será que soa melhor? sim, porquê? talvez por estar mais focado, e ter mais energia, e milhões de outras coisas". Agora nós: tentando cantar de modo focado e com energia, E acertar no GLOria, e crescer para o excelsis Deo. E milhões de outras coisas.

 

06:50 - "Et in terra pax, paz na terra, ouçam, isto agora é connosco! Proclamemos: laudamus te! Mais entusiasmo: benedicimus te! E agora, o mistério: adoramus te..."



08:17 - "Gratias agimus tibi - elegante, em vez de elefante!"
e: "O som tem de vos sair dos olhos e não da barriga" (só por esta frase, já me valeu a pena todo o trabalho).



10:49 - "Qui tolis pecata mundi, que tira o pecado do mundo. Schubert tinha muitos pesos na consciência, "pecado" era uma palavra terrível para ele. Vejam o medo que ele tem aqui! Ouçam o medo na orquestra."
Esta parte - Domine Deus, Agnus Dei - começa com as vozes masculinas. O maestro interrompeu-os ao fim de alguns compassos, e perguntou "porque é que cantamos num coro, meus senhores?" Respondeu ele mesmo: "Porque está cheio de mulheres. Vamos lá cantar isso de modo a deixá-las muito impressionadas!" Os homens recomeçaram, e ao chegar ao fim da frase o maestro soltou um gritinho de admiração, juntou as mãos e fez-lhes olhinhos descaindo um lado da anca.
(Era preciso que alguém filmasse um destes ensaios.)

11:36 - Em menos de um segundo passávamos do riso para a seriedade. Na parte "cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende misericórdia de nós" tentámos pôr naquele miserere toda a espantosa beleza que o espírito atormentado do Schubert pôde produzir. Não se bate em quem está no chão, e Schubert está no chão, da sua mais baixa condição de humano e pecador pede misericórdia a um Domine Dei forte e implacável.


20:23 Credo

"Quando está a escrever esta missa, Schubert já está muito doente. Tem sífilis. Está cheio de medo do futuro e daquele Deus": Creio em um só Deus, que fez o céu e a terra, e todas as coisas, visíveis e invisíveis..."

22:50 - ...e em Jesus Cristo, que para nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus.
A música muda completamente. "Estamos em Viena, Jesus faz-se carne como nós, faz-se homem em Viena, isto é uma valsa, dancemos." - o maestro convida uma das solistas para valsar com ele ao som da orquestra. Depois mostra-nos o movimento dos contrabaixos no início da peça, "reparem que beleza, reparem na leveza deles; os contrabaixos só têm o seu solo uma vez na vida, e é hoje!"

25.30 - "Oh, no! Grande choque, grande comoção: foi crucificado! Cristo morre hoje por nós, está a morrer aqui em Berlim. O ritmo é o de um coração a bater, horrorizado por tudo o que acontece no mundo."

26:45 - "Voltamos a Viena, voltamos à valsa" - nesta parte, movemo-nos entre o horror da cruz e a beleza de um Deus feito homem. Schubert entre o terror e a esperança, oito ou oitenta.

29:34 - E de novo há-de vir em sua glória, para julgar os vivos e os mortos. "Para julgar os vivos e os mortos! (30:05 ) Schubert tem 35 anos, tem sífilis, sabe que vai morrer, Tem um medo enorme. Um medo enorme."



31:10 - Professo um só baptismo para a remissão dos pecados, O maestro ajoelha-se e implora em tom dramático: "remissãããããoooooo dos pecaaaaaadooooos".


35:42 Sanctus

Antes de começar o Sanctus, um pouco de conversa: "No Digital Concert Hall foi publicado recentemente um filme com entrevistas a maestros. Numa delas, Zubin Mehta diz que o trabalho do maestro é analisar. Reparem no início do Sanctus: começa em si bemol menor, e segue para algo completamente inesperado, assusta-nos - si menor." (um dos pianistas toca os dois acordes, e ele esconde-se atrás do outro, com esgares de terror. "O terceiro acorde soa ainda mais desconfortável: sol menor." Corre, com ar de aflição, para se aninhar escondido atrás do pianista, enquanto nós digerimos o efeito daquela sequência de acordes. Depois levanta-se, vem à boca do palco, e remata: "É isto o que eu faço de segunda a quinta-feira."

36:27 - No fugato "pleni sunt coeli et terra" o maestro pede-nos "um coro de anjos".


39:10 Benedictus


45:13 Agnus Dei

"This is the stuff of horror movies", avisa-nos.

 46:06 - Miserere, miserere nobis: "O tempo é instável, porque o futuro é incerto". E logo a seguir: "conhecem a história de Lázaro, que estava morto e voltou à vida, libertando-se das faixas que o envolviam?" - ele próprio mima Lázaro, primeiro preso e retesado, a pouco e pouco ganhando liberdade e leveza de gestos - "é assim que quero que cantem este miserere nobis."
(se em vez de dizer Lázaro tivesse dito Houdini toda a gente percebia logo)

51:43 - Dona nobis pacem: "Ficamos  com a sensação que a missa vai acabar aqui, no fim deste diálogo entre os solistas e o coro em eco, e acabava muito bem. Mas não é o caso! Logo a seguir ao último pacem entram os barítonos em tom ameaçador, como num filme do Harry Potter."

53:49 - "Pela segunda vez, ficamos com a sensação que a peça devia acabar aqui. Mas ainda não acaba, ainda precisa de um final terrível! Normalmente sai-se de um concerto com sentimentos de leveza. Desta vez não será assim. Deste concerto sai-se doente."








Não saí do concerto doente, nada disso. Mas saí muito mal-habituada. Foi extraordinário sentir a minha voz fundir-se com centenas de contraltos, jogando com ou contra os outros naipes poderosíssimos. E, se pudesse, daqui para a frente só cantava com orquestra.
Maravilha.

Depois do jogo é antes do jogo: vou preencher a ficha para me inscrever no próximo projecto.


português swag



O Presidente da República e o ministro dos Negócios Estrangeiros estão em Berlim, e ontem tiveram um encontro com alguns elementos da comunidade portuguesa. Também me convidaram (pois: por estas e por outras é que este país...), de modo que me disfarcei de senhora, e fui.
Marcelo Rebelo de Sousa discursou sem papel e sem se perder em banalidades de ocasião. Mencionou todos os grupos activos da comunidade portuguesa em Berlim - de cor, sem gaguejar, sem esquecer nenhum (bem diferente de um maestro que vi há dias na Filarmonia a fazer um pequeno discurso e a hesitar na parte em que queria dizer o nome da cidade). Depois falou com cada um dos presentes, realmente interessado no que lhe diziam. Contei-lhe sobre as novas perspectivas para o Cinemagosto, respondeu com algumas sugestões.
Por sua vez, o ministro ia ficando sem jantar por estar inteiramente imerso na conversa com os investigadores da associação ASPPA.
O embaixador João Mira Gomes e a embaixatriz/embaixadora Graça Mira Gomes conseguiram criar um ambiente tão informal quanto elegante, sempre bem-dispostos e atentos a tudo - até a chamar as cozinheiras para receberem o nosso aplauso de gratidão e falarem ao Presidente. Uma delicadeza.

Para mim, foi uma noite muito proveitosa: além de matar saudades de um bacalhau como deve ser, pude falar com várias pessoas fundamentais para a nova associação cultural que estamos a criar.

Mas o melhor de tudo, de longe o melhor de tudo, foi ter passado umas horas a assistir a um Portugal renovado e cheio de swag. Meu rico país!

["swag" no sentido alemão da palavra: uma aura invejável de descontracção e confiança, própria de quem está de bem consigo e com o mundo]

[como se não bastasse termos o problema de as palavras portuguesas mudarem de significado quando chegam ao lado de lá do Atlântico, agora temos palavras inglesas com sentidos diferentes conforme o país onde são ditas - tradutor sofre!]




(roubei as fotos no facebook da Helena Ferro de Gouveia)



29 maio 2016

porque hoje é domingo: história mirabolante de uma miúda que quer inventar um foguetão

Do Humans of New York:


"I'm going to build a rocket ship out of a trash can and some wood and a bubble that never pops, and then I'm going to test it out to see if it goes somewhere, and if it goes somewhere, I'll go to outer space and see things that people never even saw before."

Resposta da NASA, no facebook:

NASA - National Aeronautics and Space Administration You're just about the right age to be on one of the first human missions on our Journey to Mars! We're building NASA's Space Launch System rocket and NASA’s Orion Spacecraft right now, but we're going to need innovators like you to develop new technologies people haven't even thought of yet to get there. Keep experimenting, keep testing, keep dreaming, and keep looking up!


porque hoje é sábado: histórias mirabolantes de uma miúda portuguesa que quer ser política na Alemanha

Porque hoje é sábado, e porque amanhã a vou conhecer, deixo aqui algumas histórias da Matilde, contadas pela mãe no blogue Domadora de Camaleões. Adiantando já a moral da história: adoro viver na Alemanha!

1. A recém... política
(...) Pediu-me para ver sozinha as fotografias. “Tens a certeza?”. “Tenho”. Corpos escavados pela fome, pela fadiga, pelo pesadelo nazi. Empilhados como molhos de lenha. Uma tácita convenção impõe que eu não quebre o silêncio antes dela. “Anne Frank morreu assim?”. “Sim querida”. “Isto não mais vai voltar a acontecer, pois não Mami?”. “Não. Nie wieder”. “Temos de estar atentos”, diz-me baixinho. Disfarço mal a comoção.
Continuamos o percurso pela Haus der Geschichte, o museu de História de Bona e um dos mais importantes legados do chanceler Helmut Kohl. Paramos no Bundestag. O mobiliário original do primeiro parlamento alemão do pós-guerra está aqui. Sobe ao púlpito e pede-me para tirar uma fotografia. Ao almoço, depois de visitarmos a queda do Muro e a reunificação, comeu sem pressas, mastigando com lentidão. Cogita. “Tu sabes que eu não vou ter filhos, não sabes?”. “Sim, Matilde?”. “ E também já não vou estudar baleias para o Alasca com a tia”. “E?”. “ Decidi uma coisa hoje”. AIAMINHAVIDA.”Sim?”. “Como não quero ter filhos tenho todas as condições para ser política, como a Merkel”. “Aaah?”. “ Ela não é a mulher mais poderosa do mundo? E não pode decidir sobre guerra e paz? Pois eu quero ser política para que nunca mais haja guerra. E vou ser dos Verdes”. Mãe em hiperventilação.
Pensar que eu aos nove anos sonhava ser a Wonder Woman.


2. As crianças são o melhor do mundo e tal 
Há quem diga que a ironia é o melhor dos condimentos e é óptimo ter sentido de humor. Aprecio uma e não me escasseia outro. Porém digam, digam-me o que eu fiz de errado quando a mini-política cá de casa afirma “ser favorável à introdução de um salário mínimo” e põe no topo da sua lista de presentes de Natal ( sim lista de presentes de Natal em Setembro ou não fosse a pestinha alemã) um encontro com …o Peer Steinbrück.
Façam coro comigo: ohmmmmmmmm.




28 maio 2016

imagens de Portugal

(foto)

Estando nos antípodas de um filme publicitário sobre o Porto, a curta "Canção de Amor e Saúde" do João Nicolau agarra em duas peças de Serralves com um olhar tão surpreendente que me deixou capaz de apanhar o primeiro avião para as ir viver com calma.

Temos um país extraordinário. E temos pessoas que fazem cinema extraordinário. Temos tudo para poder dar do país perspectivas originais, poéticas, inesperadas, compondo uma imagem que suscite interesse e curiosidade. Temos a matéria, a arte, a inteligência, a flexibilidade e a criatividade necessárias para inventar uma nova linguagem na publicidade turística.

Também por isso me incomodam os filmes publicitários para atrair turistas que põem a tónica no "venha a Portugal, coma uma local", nas imagens com a beleza banalizada dos catálogos turísticos, e na hospitalidade confundida com subserviência. Portugal é muito mais, pode muito mais e merece muito mais que isto.


27 maio 2016

"vem a Portugal, come uma local"



"Vem a Portugal, come uma local" deve ter sido a ideia de base que serviu à equipa que fez este filme. Seguida de "a nossa culinária é um bocado esquisita, mas as nossas mulheres são mais boas que as vossas" e "estamos ansiosos por ver as nossas ruas invadidas por gente bárbara, usem-nas à vontade, porque nós levamos a hospitalidade tão a sério que nem nos importamos que alguns dos nossos moradores vão parar ao hospital".

Sobre os conteúdos, estamos conversados. Agora gostava de saber quem é que fez esta pérola da subserviência, quem pagou, e quanto pagou.


26 maio 2016

dirait-on



O meu coro já está a preparar a próxima maratona: um trabalho intenso com o Rundfunkchor Berlin, e um programa variado e exigente. A arte também se quer organizada, e muito: já nos deram uma folha com as peças que vamos cantar, e uma tabela de datas para fins-de-semana do coro, ensaios normais e ensaios com o Rundfunkchor. Quem se inscrever, compromete-se a faltar o menos possível aos ensaios normais e a não falhar nenhum dos outros.

Ainda tenho a missa do Schubert feita ear worm nos meus dias, ainda falta mais de uma semana para terminar o prazo de inscrições para o próximo projecto, mas uma colega do meu naipe já começou a ouvir as peças propostas e já nos avisou que há uma que a tocou de forma especial. Chama-se "dirait-on", e é a música de Morten Lauridsen para um dos poemas que Rainer Maria Rilke escreveu em francês. Como estamos na Alemanha, o entusiasmo espontâneo é muito organizado: enviou-nos o poema em francês e a tradução para alemão, e um filme no qual o compositor explica como criou a música.

Esta manhã estive a ouvi-la repetidamente: a tranquilidade e a simplicidade que se instalam em nós sem remissão.

Venha a próxima maratona! Quero corrê-la intensamente e devagar, passo a passo, compasso a compasso, inteiramente.


Les roses  

Abandon entouré d'abandon, 
tendresse touchant aux tendresses... 
C'est ton intérieur qui sans cesse 
se caresse, dirait-on; 

se caresse en soi-même, 
par son propre reflet éclairé. 
Ainsi tu inventes le thème 
du Narcisse exhaucé.




25 maio 2016

a raça conspurcada por uma embalagem de chocolates

À boleia do Europeu de Futebol, a empresa Ferrero trocou a imagem habitual nas embalagens dos chocolates Kinder. Em vez do miúdo do costume, vêem-se fotos de criança dos jogadores da selecção nacional.



Um grupo regional do movimento Pegida publicou no facebook uma fotografia dos pacotes que tinham rostos com traços fisionómicos diferentes do que se associa normalmente a "alemão", mas escondendo a parte da embalagem que informava tratar-se de estrelas do futebol em criança. E comentou: "nada os faz parar" (com o sentido de "não têm quaisquer escrúpulos") e a pergunta: "isto está mesmo à venda? ou é uma piada?"

(foto)

A Ferrero reagiu imediatamente, afirmando sem margem para dúvidas que na empresa não há lugar para xenofobia ou discriminação, e que não aceita esse tipo de comentários nas suas comunidades no facebook. 
O caso chegou ao topo da Federação Alemã de Futebol. O seu presidente, Reinhard Grindel, comentou que a equipa nacional é um dos melhores exemplos de sucesso da integração, que há milhões de pessoas orgulhosas desta equipa por ser como é, e que no futebol o que interessa é como se joga, e não a religião ou a origem da família do jogador. 

O próprio chefe do Pegida, Lutz Bachmann, distanciou-se do grupo, dizendo que já não pertence à organização e está a usar abusivamente o seu nome desde Junho de 2015. Mas já não escapam à onda de gozo na internet. O twitter encheu-se de imagens como as seguintes (que tirei daqui):

Uma nova variação de chocolate, para o Pegida: "racisnoz"



A revista satírica Titanic lança uma edição especial de chocolates Kinder Pegida:



Alguém pergunta no Twitter o que é que o Pegida dirá do romance entre as duas personagens da publicidade aos chocolates de leite, o Shoky e a Milky:



E um adepto remata: quem quer discriminar Jerome Boateng und Ilkay Gündogan não é xenófobo, é traidor da pátria!

Uma pessoa ri-se, mas isto é sério. O racismo, que tem vivido uma existência discreta, está a perder a vergonha. Desta vez tiveram azar com o alvo escolhido. Mas amanhã encontrarão outro.


21 maio 2016

da missa a metade

Amanhã vou cantar um missa de Schubert na Filarmonia. O tal concerto a mil vozes, a maior parte delas de coros amadores como o meu.
Erros meus, má fortuna, viagens, outros afazeres: são quase cinco da tarde, e ainda só sei da missa a metade.

Agora vou estudar o resto, para tentar reduzir ao mínimo o post que talvez venha a escrever mais tarde sobre o erro de estudar apenas para dez quando a escala vai até infinito, sobre não saber aproveitar convenientemente as oportunidades que nos dão, etc.


ponha o pé no acelerador

Esta manhã acordei, abri um olho, vi que eram 9:30. Ena, ena! Isto é que foi dormir!, pensei. Levantei-me a correr, fiz um café, preparei o pão, olhei para o relógio: 6:02. Na penumbra do quarto tinha trocado o ponteiro grande pelo pequeno. Mas o café já fumegava, e tinha um aroma tão bom que desisti de voltar para a cama e tentar redormir.

Desde então não parei. E mesmo assim ainda nem comecei a fazer o almoço. Da próxima vez, hei-de ver se me consigo levantar antes de deitar, para poupar tempo e aviar mais pontos da minha listinha de to-dos.


tira a mão das calças quando falo contigo

O título de um texto de Margaret Stokowski no Spiegel online é, das que vi até agora, a melhor resposta a dar a pessoas que em vez de usar o cérebro se afundam na armadilha do sexismo: tira a mão das calças, pá. O texto não é dos melhores que lhe tenho lido, mas é uma reacção sincera ao fenómeno do ódio na internet, e por isso traduzo.

(melhor dizendo: quem traduz é o Speedy Gonzalez, como de costume)


Ódio na net: carta ao hater anónimo  


Tira a mão das calças quando falo contigo

Ela escreve um texto, ele deseja-lhe a morte: a colunista Margarete Stokowski responde a um comentador irado. A título de excepção.

Já não me respondes mais no chat do facebook. Tinha-te perguntado por que motivo concreto é que me desejas a morte, Ruven. É esse o teu nome, ou talvez não. Lindo nome.
No site Baby-Vornamen.de diz que o teu  nome significa "vejam. um filho". Como se os teus pais anunciassem a tua existência em júbilo contínuo, e talvez seja assim. Mas o que faz este filho? Vai para o facebook escrever a mulheres que não conhece, dizendo-lhes que devem morrer: "Olá, minha porca. Espero que te afogues numa das tuas sanitas para transexuais." Foi a tua, digamos, carta do leitor, a propósito da minha penúltima crónica. E como não era suficiente, ainda acrescentaste um "fuck you". Provavelmente para ter a certeza que eu percebia o tom.

Perguntei o que te impelia a escrever esta missiva. "Exmo. Senhor [nome de família], porque é que tem esse desejo? Cumprimentos, Margarete Stokowski" - e ao menos deste uma resposta curta. "Porque já estou farto da tua tagarelice. E agora, tão delicada, queres ser minha amiga no facebook? Só se me enviares fotografias nua!"

Pois, Ruven. Tenho fotografias tão boas. Mas esse não era o assunto que estávamos a tratar, pois não? Tira a mão das calças quando falo contigo. Perguntei uma segunda vez o que é que te incomoda tanto que te leva a desejar-me a morte. Que imagem tens tu das mulheres, Ruven?

Não consegues melhor que isso, quando não concordas com a opinião de uma mulher? Dizer-lhe que pode escolher entre morrer ou servir-te de inspiração para uma punheta? É pouco, Ruven! Onde está o filho pelo qual os pais se alegraram tanto? Escreves o mesmo a homens que não têm a tua opinião? Pediste ao Jakob Augstein fotos dele nu?

O ódio não é boa ideia

Para a tua visão do mundo, seria conveniente que eu te odiasse. Mas não te posso ser útil. Mesmo juntando todas as emoções negativas que tenho neste momento, não consigo sentir ódio. Vi fotos tuas no facebook, e li que de momento tens problemas de saúde. As melhoras, Ruven. Sem qualquer ironia, desejo que te sintas de bem com a vida. E não é por ter comido um hippie ao pequeno-almoço. É porque nas fotografias tu pareces infeliz.

Parece-me que andar pela internet a odiar não é boa solução para nada. Sobretudo quando é feito à custa dos outros. Hoje dão-te atenção, mas amanhã já se esqueceram de ti. Pura e simplesmente, não é boa ideia. Li que tiveste um ataque cardíaco, Ruven. Imagina que tens outro, e a última coisa que fizeste antes disso foi enviar uma mensagem curta e má, que provavelmente nem sequer será lida.

É certo que não mereces que eu me ocupe tanto de ti. Pura sorte, Ruven. Confesso até que nem és um caso especial. Há quem me escreva com mais frequência e brutalidade que tu. Dizem que devia ser violada por um grupo de árabes e só depois morrer. Ou falam em vingança sanguinária e aniquilação total. Tu dizes-me apenas que eu devia morrer nuns sanitários públicos. É mais provável que eu seja atropelada pelo Jan Böhmermann num Segway do que morra afogada numa sanita de transexuais, mas as pessoas são livres de pensar o que lhes apetecer.

Já o Einstein tinha aconselhado a Marie Curie a não ler comentários online, digamos assim. Obviamente, não se tratava da internet. Mas a mensagem era clara: "se o mob continua a falar de si, não leia esses disparates." És o mob, Ruven? Escrevo-te porque me pergunto porque é que as pessoas enviam essas mensagens de ódio. E com certeza que também escrevo porque gosto do teu nome - embora talvez nem seja o teu nome, se calhar chamas-te Manuel Neuer.

E também porque já fiz férias na cidade onde moras. Uma cidade impressionante, marcada pela coexistência muito próxima de pessoas com religiões diferentes. Sabe Deus que nem sempre de forma pacífica. Mas na maior parte do tempo conseguem. Isso incomoda-te, Ruven? Incomoda-te a existência lado a lado de pessoas que têm visões diferentes do mundo? Às vezes acusam-me disso: que não me dou bem com a existência de pessoas que têm outras opiniões. A verdade é que me dou muito bem, e praticamente até é disso que vivo.

Porque me desejas a morte?

Talvez queiras dizer agora: quem vai à guerra, dá e leva. É verdade. Um ponto para ti, Ruven. Mas penso que a expressão significa que quem dá uma opinião recebe uma opinião, e quem dá uma bofetada recebe uma bofetada, Não esses votos de morte em troca de uma opinião.

Porquê, Ruven? Porque me desejas a morte? Ou tratava-se de uma metáfora? Para quê? (...) Conheces este estudo do Guardian, que analisou 70 milhões de comentários online? Embora no Guardian, como aliás em toda a parte, a maior parte dos textos de opinião sejam escritos por homens, os dez autores que recebem mais comentários ofensivos são oito mulheres e dois homens de pele escura. Os temas com mais comentários bloqueados foram Isreal/Palestina, feminismo e violação. Os temas com mais comentários decentes foram palavras cruzadas, críquete, corridas de cavalos e jazz.

Bem sei que receberia muitas mais mensagens de pessoas como tu, Ruven, se usasse um lenço na cabeça. "Não me apetece continuar a ser a mulher de limpeza da nação", disse Kübra Gümüsay na re:publica [ o vídeo indicado no link é em alemão - recomendo-o imenso a quem o fala; para os outros, já sei, já sei, vou ver o que se arranja ali com o Speedy Gonzalez ] , ter de limpar a porcaria das ideias dos outros, repetidamente e sem parar. É possível esgotar as pessoas enviando-lhes mensagens de ódio. Mas o paradoxo é este, e agora repara bem, Ruven: quando, em vez de argumentar, simplesmente se enviam insultos, não se muda absolutamente nada. É a maneira mais idiota de reagir. Hoje é o único dia da tua vida em que te dei algum do meu tempo, e tu desperdiçaste-o por completo. Repara: eu continuo a ser feminista e a favor de sanitários públicos para transexuais. Que pena. Perdeste a tua oportunidade, Ruven, e tão pequena que era.


20 maio 2016

"diabo"

Estava a ver se alguém fala do diabo que foi desencaminhar o Dr. Fausto de Goethe, que havia de ser um nerd mas em medíocre (o Fausto - porque o Goethe, esse, havia de ser um nerd, mas em genial). Como estão todos muito caladinhos, vou ter de me envergonhar eu. A história começa com um prólogo no céu, uma conversa entre Deus e o diabo, à maneira do livro de Job. Não sei como é que Deus arranja, que a cada par de milénios mete-se no jogo e a fazer apostas. Más companhias, já a minha avó avisava. Cuidado com as más companhias! Entretanto ela morreu, e espero que esteja a avisar Deus com o mesmo empenho com que me avisava a mim, e espero que ele lhe dê ouvidos (durante muitos anos a coisa correu bem comigo, mas agora meti-me no facebook...).
O diabo entra na casa do Fausto em forma de caniche, depois mostra quem é e ao que vem, e o nerd do professor, que tudo estudou mas pelos vistos pouco aprendeu, com meia dúzia de tretas acaba a vender a alma ao diabo. Ao caniche. E é melhor eu agora não atirar pedras ao telhado do Fausto, porque tenho cá em casa um rafeirito que manda em mim, e nem sequer fizemos um pacto para ele me dar tudo o que quero, nem nada. Por falar nisso, são horas de o levar outra vez a passear.
Em todo o caso: o Fausto vendeu a alma ao diabo, depois disso só fez asneiras, e quem pagou foi a pobre da Gretchen.
O Goethe publicou o primeiro Fausto em rapaz novo, e passou o resto da vida a pensar e a escrever o segundo. O Fausto II escapa com um olho negro. Então como é? Vende a alma ao diabo, morre, e tal, mas Deus arranja de não perder a aposta toda?! E depois falam em "justiça divina"... Mais valia rematar à maneira do Evangelho, com uma daquelas frases que me deixam sempre boquiaberta a pensar quem terá sido o tradutor que fez tal asneira (geralmente a culpa é do tradutor), tipo "o reino de Deus é assim: quem muito tem, mais lhe será dado; quem pouco tem, até esse pouco lhe será tirado". É daquelas frases que me fazem pensar que se o reino de Deus é assim, se calhar era boa ideia ir espreitar como será o contrário, o reino do diabo, mas eu não disse nada, nem sequer estou aqui, ópramim lá tão longe, já estou no lago a passear o cão. Não, não é um caniche.

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Na aldeia da minha avó não se podia dizer diabo. Nem demo. Nem mafarrico. Nenhum dos seus nomes. Em vez disso, diziam "o cão" ou "o bicho da peçonha" em modo raivoso, cuspido. Como se o diabo existisse mesmo, como se todos morressem de medo da sua presença material e fizessem questão de lhe omitir o nome, não fosse ele pensar que o estavam a chamar.

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Hoje já é amanhã, pelo menos aqui na minha terra, e a culpa é do vizinho que me viu a chegar a casa tarde e a más horas e ainda abriu uma garrafinha de vinho para ficarmos na conversa. Em todo o caso, antes deste dia do diabo terminar queria falar do Martinho Lutero que fugiu para a Wartburg disfarçado de Junker Jörg, e se entreteve por lá a traduzir o Evangelho para uma língua que acabou por se tornar a base do alemão moderno unificado, digamos assim, mas isso era no tempo em que a religião tinha uma palavra a dizer na sociedade. Até tinha uma língua inteira.
Diz que o diabo costumava incomodá-lo muito, desde tenra idade, e uma vez, lá na Wartburg, quando estava novamente a ser provocado e posto à prova, o Lutero perdeu a paciência e, zimbas!, atirou-lhe o tinteiro ao focinho. Mas o malvado do mafarrico esquivou-se e a parede ficou toda esborratada. Para gáudio dos crentes e turistas muitos anos depois, que foram esgravatando a tinta da parede até não sobrar mancha nenhuma para eu ver (fui lá no princípio deste século, e não tinham deixado nada para mim, os egoístas). Para gáudio dos trolhas da Turíngia, que passavam a vida a pintar e a repintar a nódoa, que era esgravatada e repintada. Mas agora deixaram-se disso, se calhar a culpa é da troika.
Em todo o caso: a culpa deste texto é do rosé.
Boa noite, durmam bem.


fantástico sentido de oportunidade (3)

Rui Carvalho tem um sentido de oportunidade ainda mais fantástico que eu: teve 14 longos anos para denunciar o que lhe parece ser um comportamento criminoso de um investigador, mas só se lembrou de falar disto justamente na altura em que o tal investigador, agora ministro, está a travar uma luta complicada para fazer cumprir obrigações constitucionais que vão contra interesses de um grupo empresarial.

Coitado do Rui Carvalho. Mesmo que tivesse razão (e parece que não tem - as entidades públicas envolvidas afirmam que o processo decorreu com toda a normalidade), ser-lhe-ia muito difícil explicar porque é que foi precisamente neste momento que se lembrou de denunciar algo que aconteceu há 14 anos. E vai-lhe ser ainda mais difícil conseguir que alguém acredite que o que o move não está de modo algum ligado a poucas-vergonhas como as que se descrevem nesta reportagem.

Mais lhe valia ter ido regar o jardim à chuva, ou perguntar se alguém pode levar uma encomendazinha no próprio dia em que se suspeita de uma bomba ter feito cair um avião...