23 julho 2015

proibido ser



Quero mais. Não se admite fazer um livro que acaba mal uma pessoa começa a ler. Então que é isto, este fim abrupto, agora que estava a saber tão bem (e sabe bem desde a primeira frase)? Mais cem páginas de proibições, isso é que era. Raixparta o Estado Novo, que nem isso fez bem feito.

O livro do António Costa Santos é feito daquela inteligência mordaz que consegue combinar leveza e profundidade, seriedade e humor no ponto certo para tornar a informação um acto de prazerosa leitura.

Já isso bastava para ser um livro excelente. No meu caso, trouxe um ganho acrescido: entendi finalmente uma frase muito estranha que uma vez um padre me disse, a propósito da minha mãe, que ele conhecera no início dos anos sessenta. "A sua mãe era um bocado leviana", disse-me ele em jeito de confidência desconfortável. "Leviana", como eu entendo essa palavra, não era, sei-o bem. O livro do António Costa Santos foi-me revelando, capítulo a capítulo, as "leviandades" dessa mulher (e o poder opressor dos costumes, desde logo evidentes nas palavras com que catalogava): na missa, sentava-se ao lado do marido, em vez de ficar no lugar das mulheres, e esquecia-se muitas vezes de cobrir a cabeça com o véu; as pernas sem collants no verão, e dentro de calças no inverno (tinha uma fato lindo de pré-mamã, de calças e capa - era lindo, mas era a única grávida da cidade que andava de calças); as intermináveis cervejas que bebia com uma amiga no café da aldeia da minha avó: a mesa delas no meio de uma clareira espaçosa sobre o chão coberto de serrim, os meus irmãos e eu a apanhar barrigadas de tremoços e a deitar as cascas para o chão, para cima das escarradelas dos homens à nossa volta, nas outras mesas só havia homens; os cursos de verão em Paris, deixando os filhos com o marido ou os avós; o curso superior tirado em regime de acumulação com o trabalho e a maternidade; a teimosia da atitude, o "que mal tem?", o "e qual é o problema?" Em suma: leviana, porque afirmava a sua liberdade de forma inegável - não em debates ou revoltas, mas da maneira mais perniciosa para a época: sendo.  

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Um dos documentos mais hilariantes do livro é a lista de multas para certos comportamentos contra a moral e a ordem pública. "A mão naquilo", "aquilo na mão", "aquilo naquilo". Confesso que precisei de ler duas vezes para perceber que "aquilo" não era sempre a mesma coisa, e que "aquilo por trás daquilo" não havia de ser uma referência aos livros proibidos, arrumados em segunda linha nas estantes.
A falta que as aulas de educação sexual fazem a um legislador! Se as tivesse frequentado, saberia articular-se de forma mais clara, de modo a não deixar os agentes da ordem pública (e a mim) perplexos a tentar decifrar charadas. Ao menos, que escrevesse: aquilo na mão, a mão naquila, aquilo naquila, aquilo naqueloutro. Sim, que chamar "aquilo" a "aqueloutro" revela um profundo desconhecimento das leis da natureza, tão ao gosto dos defensores da moral. Esses legisladores haviam de ser pouco perversos, haviam.


22 julho 2015

primeiro dia


Diz que isto é um blogue, diz que é um diário, e por isso tenho andado a pensar descrever o meu primeiro dia de férias, mas hesito, porque não sei a quem interessaria saber que o despertador tocou justamente no momento mais aflitivo do meu sonho de não ter acordado a tempo, quando já estava a perder o táxi e o avião. Eram cinco da manhã. Notei a aliança na mão direita, sinal de que tinha de me lembrar de alguma coisa. Não me lembrei, pelo que optei por achar que talvez fosse o impermeável. Às cinco e quinze estava dentro do táxi, depois de o Fox ter incomodado o condutor, que era muçulmano (como seria a minha vida num país no qual as cobras fossem animais domésticos, e viessem velozmente ao meu encontro para eu lhes fazer festinhas?). Em Bruxelas estava frio e chovia. Saí do aeroporto para levar o Fox à casa de banho, e por sorte encontrei um naco de verde que lhe serviu de urban jungle, meia hora de gozo a escavar túneis em busca de ratos, e eu ali à chuva, bendito impermeável que trouxe de casa. Voltei a entrar no aeroporto, a passar no controle de segurança (é muito engraçado ver os sorrisos dos seguranças quando o Fox passa o detector de metal no seu passo de trote) e comprei trufas belgas para todos os que me aconselharam que roupa levar para esta viagem, excepto para quem me disse que não precisava de um casaquinho de inverno (já disse que em Bruxelas estava frio?), e foi então que me lembrei porque é que tinha posto a aliança na mão direita: sacos térmicos para levar as trufas! Quer-me parecer que este ano os meus amigos vão receber pequenas porções de fondant de chocolat.
O avião sobrevoou o Porto. Descobri que, vista de cima, a Ribeira não é nada espectacular, é apenas um conjunto de telhados iguais aos que se alargam por toda a cidade. Mas a verdade é que nenhum telhado é igual, cada um abriga histórias diferentes. Muitos deles abrigam histórias minhas, e procurei-os. Entrei no Porto com o coração alvoroçado de recordações boas.
Fui levar as malas a casa, visitar a vizinha. Contou-me da morte súbita de uma senhora com quem eu costumava estar na praia. Ela com uma doença crónica grave, foi regar o jardim e pouco depois encontraram-na morta, talvez o coração. Foi no momento em que a irmã chegada da França estava a descarregar o carro antes de ir ter com ela para lhe contar a grande surpresa: que ia ficar em Portugal para a acompanhar nesta última fase da caminhada. Não deixes para amanhã a alegria que podes dar hoje.
Fui a Viana, no Natário as bolas de Berlim estavam a sair ainda mornas. Na praça da República li num cartaz que os sobreviventes do Buena Vista Social Club vão passar por lá, e ali mesmo troquei as voltas aos meus planos e comprei bilhetes para o próximo sábado. Fui à Bertrand e comprei o Proibido, do António Costa Santos, O Mundo de S. J. Perelman, da colecção do RAP na Tinta da China, e a Granta que dizem que desta vez falhou com brio. Quase comprava também todos os poemas do Ruy Belo, todos os do Herberto Helder, mas decidi que já tinha a minha porção de alegrias para um primeiro dia de férias.
Passei de novo pela casa da vizinha, e ofereceram-me pataniscas de bacalhau e ovos do campo (ah, estas pataniscas feitas com bacalhau do campo!) e depois fui buscar a Christina que vinha no avião da noite, e quase chorou ao saber que vamos ver a Omara Portuondo no próximo sábado. O Fox fez-lhe imensa festa, mas depois ficou inquieto, e olhava para fora do carro com ar de onde estão os outros? onde estão os outros?
Este ano não podem vir, Fox. E que tristes vão ficar ao saber do nosso concerto, e das bolas de Berlim ainda mornas, da buganvília densíssima de flores na janela da cozinha, da brisa que passa agora por este post enquanto escrevo sob a ramada prenhe de uvas, no cantinho da internet ao fundo do quintal.
Um post que não interessa a ninguém, mas diz que isto é um blogue, um diário.  


19 julho 2015

se nos próximos dias eu andar muito calada

É sinal que me estou a encher de rissóis na Padaria Ribeiro, e de bolas de Berlim no Natário, e de pastéis de Belém na Autêntica Fábrica, e o mais da culinária da saudade que me apetecer, e estou calada porque não é bonito falar com a boca cheia.

Se depois, lá para Agosto, virem alguém com um ar muito feliz a rebolar em vez de andar, sou eu.


a ver se as redes socias servem para alguma coisa que me adiante à minha vida

Digam agora, ou... 

Que roupa devo meter na mala para passar as próximas 3 semanas em Portugal?
(Minho, Douro, Alentejo, Lisboa)


(...ou dêem-me um vale para compras num outlet qualquer se as coisas correrem mal e eu andar de camisolas de gola alta na praia, ou a tiritar de frio - como já aconteceu várias vezes - por ter feito as malas para um verão berlinense, e sair-me um sei-lá-quê-que-deu-ao-verão-português)


18 julho 2015

tinha uma pedra



Gosto muito da música do poema em italiano, gosto muito da interpretação no alemão.
A pedra é mais pedra quando é uma piedra - em espanhol.
E o poema - tenho a certeza - foi escrito em tupi. Foi escrito em tupi. Este poema foi, só pode ter sido, escrito em tupi.


Esclarecimento que acompanha o filme, no youtube:

Para marcar os 40 anos do poema "No meio do caminho", Carlos Drummond de Andrade publicou, em 1967, o livro Uma pedra no meio do caminho -- Biografia de um poema, no qual reuniu uma ampla seleção com o que foi dito sobre os famosos versos. O Instituto Moreira Salles lançou em 2010 uma nova edição do livro concebido pelo próprio Drummond, ampliada pelo também poeta Eucanaã Ferraz. Por ocasião do lançamento, o IMS produziu um vídeo com a leitura de "No meio do caminho" em vários idiomas. 
Leituras por: 
Eucanaã Ferraz (português) 
Matthew Shirts (inglês) 
Yael Steiner (hebráico) 
Heloisa Jahn (dinamarquês) 
Jean-Claude Bernardet (francês) 
Pieter Tjabbes (holandês) 
Davi Arrigucci Jr. (italiano) 
Paulo Schiller e Mariana Schiller (húngaro) 
Jana Binder (alemão) 
Sidney Calheiros (latim) 
Laura Hosiasson (espanhol) 
Carlos Papa (tupi)


17 julho 2015

levante-se a autora!




Olhem-me para esta capa!

(se me deixassem mandar, a Tinta da China vendia também as capas sem livro, só para emoldurar)

(se me deixassem mandar - e se houvesse dinheiro para isso - fazia um museu das mais notáveis capas que se vão da lei da Morte libertando, e tal, e esta era uma delas)

(alguém podia tratar disso, por uma questão de elevamento cultural do país, e também porque tenho um livro assinado pela Vera Tavares, autora desta capa, e ia subir de valor - como as acções nos bons velhos tempos do fim do século)

(por acaso tinha graça, em vez de dar a tola especulativa nas acções das empresas, dar nas obras dos artistas - a Arte passava a ser mais considerada, e as empresas podiam funcionar em paz e racionalidade económica, em vez de viverem para fazer bonito na Bolsa) (espera, já deu a tola especulativa nas obras de certos artistas) (mas havia de dar nas obras de mais, para o capital deixar as empresas em paz) (talvez, se fizessem mais museus...) (como ia dizendo, e portanto: se me deixassem mandar...)


a formiga e a cigarra



Este ano o Cinemagosto teve mais uma ideia genial (cof cof cof) (estes pólenes...): alargar a mostra de cinema português também a outras artes, dando mais visibilidade a artistas portugueses residentes em Berlim. Falámos com o cinema, que gostou da ideia, e depois convidámos a Maria Leonardo, que é fotógrafa. Estava tudo a correr muito bem, quando o cinema disse que afinal não ia poder dispor do espaço previsto para a exposição de fotografia.

Somos portugueses, não nos atrapalhamos com tão pouco: imediatamente arranjámos soluções alternativas, e decidimos explorar a possibilidade de associar ainda mais os dois hotéis de cadeias portuguesas em Berlim a este evento, fazendo neles a exposição. O Hotel Pestana recebeu-nos no próprio dia em que pedimos, com o director hoteleiro, o director financeiro e os técnicos que nos responderam imediatamente a todas as questões de ordem prática. O Hotel Sana recebeu-nos logo a seguir - apesar de ser encerramento do mês e estar cheio de trabalho, o director financeiro atendeu-nos com imensa gentileza e paciência, e respondeu a todas as perguntas.
De modo que ao fim do dia eu estava numa de "agarrem-me, que ainda vou dizer bem do sistema capitalista..."

Ora bem: aquela história da cigarra e da formiga está muito mal contada. O que eu vi na semana passada foi formigas extremamente atarefadas a arranjar tempo para parar e falar com as cigarras, em atitude disponível e generosa, e a ajudar a resolver o problema sem mais demoras. As cigarras, por sua vez, trabalham que até parecem formigas - o Hannes Reiss e a Anabela Moutinho que o digam (e a Maria Leonardo, na parte que diz respeito à exposição de fotografia, mas isso é assunto para outro post).

Já eu, que tenho andado a formigar noutras lutas, no Cinemagosto sinto-me um pouco como o outro que só cá veio ver a bola. Mas digo-vos que está a ser um jogo fantástico.


(roubei aquela fotografia descaradamente do mural de facebook da Maria Leonardo)


16 julho 2015

buscar a música nas coisas




Inspiração para música com pássaros em fios eléctricos não é nada, comparado com o que eu fazia com os meus irmãos quando éramos miúdos: tocávamos a lista telefónica!

Muito fácil: 1 era dó, 2 era ré, e por aí adiante. O espaço entre os grupos de números era uma pausa. Uma vez definidas as regras básicas, era só abrir a lista telefónica à sorte, escolher um nome, por exempo, "Silva, António" e ver como era a música que o António Silva tinha para nos dar.

Se não gostávamos, dávamos um jeitinho às regras: o 1 passava a ser dó sustenido, o 2 podia ser ré bemol ou sustenido, como nos parecesse melhor.

Moral da história: regras maleáveis é meio caminho andado para pôr os números a soar como a gente gosta...

ínclita geração




Estou aqui a pensar que sorte tem esta mulher, quando os filhos a vão visitar e resolvem cantar um bocadinho.

(Será que o Chico vai querer ser adoptado por mim?)


15 julho 2015

hoje o filme era outro

Hoje passei pelo embaixador da Islândia, que estava junto ao seu carro a conversar com o motorista. Disseram-me bom dia com ar simpático. Distraí-me, e quase ia escorregando nas papas de flor de tília que a chuva tem espalhado nos passeios.
Mas não caí, infelizmente. Pelo que eles continuaram a combinar a vida deles, e eu fui à minha.

Gosto muito mais de filmes assim, que do de ontem, no qual os guarda-costas me fizeram sentir intrusa, indesejada e insegura no próprio bairro onde moro.

(Imagino como se sentirão os palestinianos em Israel!)


14 julho 2015

os alemães e a Grécia (resultados de uma sondagem de ontem)

Resultados de uma sondagem realizada ontem pelo canal de TV da ARD:


A Grécia deve permanecer na zona euro?
sim / não
Fevereiro / início de Julho / 13.7.15



Satisfeito com a condução das negociações por Schäuble (64%) e Merkel (62%)

(permitam-me um comentário: estes dois negociaram alegadamente a favor do que é importante para proteger os interesses dos alemães, etc. etc., e entre os alemães encontram-se 36% e 38% de ingratos que não sabem reconhecer o que se faz por eles) 
(já não se fazem nazis como antigamente...)



A Alemanha tem vantagens ou desvantagem por pertencer à UE:
-- mais vantagens - 37
-- mais desvantagens - 17 
-- vantagens = desvantagens - 43
(variação: comparando com valores no princípio de Julho)



3º pacote de ajuda: continuar a dar ajuda financeira à Grécia é
-- correto - 52
-- incorreto - 44



Grécia: as medidas de austeridade e reforma são
-- adequadas - 57
-- insuficientes - 22
-- excessivas - 13



Confia no governo grego para fazer as reformas?
-- sim - 18
-- não - 78


eu se calhar ando a ver demasiados filmes...

Se calhar ando a ver demasiados filmes, mas estou em crer que desta vez não é alucinação.

No passeio matinal com o Fox, cruzei-me com três homens que não me chamaram a atenção (o que mais há por aqui é grupos de homens na rua, e além disso não olho para homens na rua) (quer dizer, tem dias, mas têm de valer a pena, o que não era o caso) mas acabei por reparar neles pela maneira como se comportavam. Dois iam à frente. Um deles, o que tinha cabelo comprido aos caracóis, olhava para as casas, o outro, com carequinha sexy tipo Varoufakis, olhava para os lados, e o que ia atrás, também ccstV, olhava em todas as direcções. Os dois ccstV tinham uns botões estranhos na lapela. Estavam a ser seguidos por um carro tipo grande preto, conduzido lentamente por um gajo que ia a falar para - juro que vi com estes que a terra hade comer ("hade" ou "háde"? lá tenho eu de ir consultar outra vez o acordo ortográfico) - como ia dizendo, eram seguidos por um carro conduzido por um homem que ia a falar para a sua caneta.

O Fox parou, para ler atentamente um jornal qualquer numa esquina, e eu parei também, olhando para o quadro para tentar perceber porque é que o dos caracóis parou a olhar atentamente para a casa de pessoas que conheço, e também para poder contar aqui. O ccstV olhou para mim com ar ameaçador. Quase lhe ia fazendo uma cara tipo "isto é um país livre e posso olhar para onde me apetecer" mas depois lembrei-me daquele pai benfiquista em Guimarães que também achava que estava num país livre e podia dar água ao filho onde lhe apetecesse, e apontei na direcção do Fox, que continuava a ler o jornal, chamei-o, e apressei-me para longe dali.

Muitos passos depois atrevi-me a olhar para trás, e não havia vestígios deles. Esfreguei várias vezes os olhos, e a rua continuava deserta. Se calhar ando a ver demasiados filmes...

A verdade é que tudo isto existe, tudo isto é triste - e muitas vezes ignoramos que é uma parte da nossa realidade.

(Se pedirem com jeitinho conto também a história de um conhecido meu que uma vez andou a investigar uma estranha morte por afogamento, e daí a pouco estava a chegar demasiado perto de simpáticos concidadãos que a seu tempo foram treinados pela Stasi para eliminar pessoas parecendo morte acidental ou por doença.) (Ou daquela vez no Rio de Janeiro, que deixámos os miúdos em Santa Teresa a dormir descansadíssimos, depois do jantar, e resolvemos ir à Mangueira pelo caminho mais curto, que era pela selva junto a uma favela, e daí a nada estávamos a ser parados por gajos que se diziam polícias à paisana e nos apontavam metralhadoras - e era na zona do precipício para onde às vezes caem carros..., como me disseram mais tarde) (Também há a história - digamos que a li numa revista - da pessoa que trabalhava em sistemas de segurança e mais não digo, que um dia calhou de estar a falar com um reformado da legião estrangeira, que lhe falou com toda a naturalidade do modo como resolviam os problemas que os incomodavam, e que a única coisa chata era esconder o corpo.) (O que me faz pensar que aquele tipo do Terra de Ninguém, da Salomé Lamas, se calhar...)

(foto)


13 julho 2015

xenofobia




Esta manhã, depois de uma curta incursão no facebook, fiquei com ganas de "agarrem-me, que ainda vou desamigar toda a gente que me aparecer pela frente a fazer um discurso xenófobo sobre os alemães!"

Tenham juízo: aprendam alemão e passem a falar com conhecimento de causa. Não há paciência para esta mistura de preconceito, ignorância, xenofobia e arrogância. Quem fala dos alemães como imperialistas e nazis, tipo "está-lhes na massa do sangue" e "era de esperar - lá estão eles outra vez! duas guerras não lhes chegaram!", não se apercebe de duas coisas: está a reproduzir o pensamento e a retórica dos nazis, mudando simplesmente o nome do inimigo, e está a evidenciar a sua ignorância sobre o que é a sociedade alemã hoje em dia.


(Tirei a fotografia de um fórum do Süddeutsche Zeitung. É pena as pessoas que passam por aqui não entenderem alemão, porque o que "os alemães" lá escrevem é extremamente interessante - tanto pelo conteúdo como pela forma. A que não será alheio o facto de ser um espaço moderado, e com regras claras para participação: só se publicam textos que acrescentem algo ao que já foi dito; não se publicam textos injuriosos para outras pessoas, grupos ou povos; não se publicam textos escritos em mau alemão, etc.)


12 julho 2015

"os nossos lindos euros alemães"




Dois humoristas alemães criticam com este filme(*) o modo como a Grécia é perseguida na comunicação social. Cada frase que dizem vem acompanhada do nome do jornal onde apareceu. Claro que o Bild ganha de longe aos outros. O filme é de sexta-feira, e já se tornou viral.

(Agora fico à espera de um vídeo semelhante feito por humoristas portugueses a satirizar os nossos compatriotas que, em nome da defesa da Europa, chamam nazis aos alemães...)

(Sim, adivinharam: esta manhã dei uma olhadela pelo facebook: a Europa a arder, e o pessoal a resolver o problema de uma penada dizendo que a culpa é dos alemães, esses nazis. Vá lá que ao menos desta vez a culpa não é do Sócrates.)


(*) O vídeo tem legendas em inglês - se não aparecem, é possível serem activadas



night fever

Friday night fever:

Diz que na sexta-feira passada, na Baviera, um homem de 50 anos andava a passear com uma menina de 10. Era ao anoitecer, alguns passantes acharam o seu comportamento esquisito, e resolveram proteger a menina, insultando o homem e chegando até a bater-lhe (que é o tratamento que pedófilos merecem...).
Foi-se a ver, e eram pai e filha à espera que a mãe saísse de uma acção de formação da Câmara de Indústria e Comércio.


Saturday night fever:

Ontem, ao sair para levar o Fox ao seu último passeio do dia, cruzei-me com o vizinho que, ao passear o seu cão, encontrara uma cadelinha amorosa perdida na rua. Eu também não a conhecia, e combinámos partir em direcções diferentes, em busca do dono.
A cadelinha foi com o Fox, em saltos e corridas, toda contente. Duas ruas à frente ouvimos alguém a assobiar, e ela partiu à desfilada. A pessoa que a chamara agarrou-a no ar, e eu ouvi várias vezes ganidos de dor e medo. Fui espreitar a casa onde ela entrou - estava quase capaz de recorrer ao grupo de atentos cidadãos da Baviera para dar uma ensinadela a quem fazia aquilo à cadelinha...



11 julho 2015

o Houdini português



Esta manhã, ao sair com o Fox, não sei que aconteceu que lhe deu a tola, e daí a nada já andava a saltar por cima das cercas dos vizinhos. Até que aconteceu como tinha de acontecer: ficou com a coleira presa numa estaca. Por sorte é uma coleira de peito, e não estava a sufocar, mas desatei eu também a dar saltos por cima das cercas, para lhe acudir rapidamente. Quando cheguei à estaca, só encontrei a coleira - o Fox já ia três casas à frente, a saltar nu como veio ao mundo.




Tive de pôr uma rede no parapeito do terraço, porque o nosso Houdini ganhava lanço para conseguir saltar para cima do muro sem bater no corrimão (um daqueles saltos em voo à super-homem), e logo a seguir tinha de meter travões a fundo para não escorregar na plataforma de metal liso e cair do outro lado, oito metros abaixo. Para ele é importante: do cimo do muro vê a rua toda, e desata a ladrar: hei! estou aqui! hei! olhem para mim! hei! aonde a vista alcança, é tudo meu! hei! sai da minha rua, ó ciclista! hei! hei, agarrem-me que eu vou-me a eles! hei! desaparece da minha vista, ó cão dez vezes maior que eu, que aqui ao muro sou mais que eu!
(já disse que é português, este nosso Houdini?)

(O Joachim acha a rede feia. Eu também acho, mas mesmo assim não é tão feia como o Fox ficaria depois de uma queda livre de oito metros. Os amigos disseram-nos para pendurarmos conchas e peixes de plástico na rede, para dar um ar de mediterrâneo. Quem tem amigos como os nossos...)


10 julho 2015

vítima menor



Gosto muito deste concerto, mas vejo o Kurt Masur e sinto um rebate de consciência: já lhe parti a anca.

Foi na altura em que sempre que comprava bilhetes para um concerto acontecia alguma coisa ao artista. E o Kurt Masur, ainda assim, foi a minha vítima menor. O Igudesman, do Igudesman & Joo, partiu os dois braços, e o Abbado... beeem, esqueçam. Por causa destas e doutras, há quem desconfie que sou a Calamity Jane.

Mudando rapidamente de assunto: aqui está o David Oistrakh, que hoje me acompanhou durante boa parte do dia. Atrasou-me um pouco a tradução, mas adiantou-me a beleza.








Portugal precisa de um rei...



Desconfio que quem escreveu este texto também deixou cair a chávena de café em cima do teclado, e ficou sem a tecla de ponto final. É pena, porque com tanto e isto e aquilo e aqueloutro perdi o pé e já não sei ao que iam.

Mas percebi que os reis não custam dinheiro de reforma, e só isso já era um bom motivo para Portugal ter um rei - pelo menos nunca mais tínhamos um presidente da República a trabalhar reformado, e a achar que em assim sendo já não precisa de cansar muito a cabeça (sim, estou a falar daquele magnífico espírito de estadista demonstrado na frase sobre os 18 que restam se a Grécia sair, por exemplo).

E agora a sério: perante coisas destas, lembro-me sempre de uma crónica do Luís Sttau Monteiro (estou em crer que era dele, e que foi na revista da Torralta) quando nasceu o primeiro filho do Carlos e da Diana. Se bem me lembro, o título era: "se o William soubesse, preferia não ter nascido" e falava do paradoxo de o máximo representante de um povo de gente livre ser a pessoa menos livre do reino. Sem liberdade para escolher o seu destino, a religião, o cônjuge, a carreira profissional, a objecção de consciência no serviço militar - nada. Em Portugal, a situação dos membros da família real ainda é pior: este nosso pobre Afonso, além de viver sob o peso opressor de uma "second life" misturada com a vida quotidiana, ainda tem de se sujeitar a um clube de fãs deste calibre.


09 julho 2015

um passo para trás, dois para a frente

Anteontem foi um dia infernal: tinha uma lista de to-dos, e de cada vez que riscava um apareciam-me três novos.

Ontem foi o contrário: eles riscavam-se sozinhos.

Hoje mantém-se a tendência: está a chover tanto, que já risquei dois:
- regar o jardim
- levar o Fox à rua

(bem, este último...)


08 julho 2015

cenas

(foto)

Passei o serão de ontem a ver cenas destas. E a sonhar em voltar aos bons velhos tempos dos romanos, quando a cena de esvaziar o bucho propositadamente para poder continuar a comer era socialmente aceitável. Aquele bacalhau à brás, ai, aquele bacalhau à brás! Que cena!

Chovia disparatadamente (isto sou eu a evitar dizer que chovia a potes ou a cântaros, porque às vezes desconfio que são traduções apressadas que aprendi nos livros da Enid Blyton, quando chovia gatos e cães sobre os cinco). Já acabava com estas cenas de parêntesis por tudo e por nada (que transformam os textos numa cena de leitura aos solavancos). Como ia dizendo: chovia imenso, e eu feliz da vida. Os nerds da informática são meninos de coro comparados com gente que tem um relvado para manter verde e acabou de receber uma factura de água de 600 euros (se alguém tiver uma ideia que pareça mais ou menos razoável para iniciar uma cena de crowd founding para me pagar esta factura, agradeço).

(Este texto sou eu a tentar entrar num caderno qualquer de exercícios de português para desgraçados que querem aprender as coisas giras que se podem fazer com o nosso idioma) (ia dizer com a nossa língua, mas travei a tempo, por causa daquela vez em que me aconteceu o seguinte diálogo:
- Adoro o uso que os brasileiros dão à língua!
- Aha, conta mais, conta mais!)


07 julho 2015

Maria Barroso



(desculpem o jingle inicial e final...)

Para além de tudo o que os jornais escrevem (muito boa, esta homenagem da Fernanda Câncio), e desta funda gratidão de ter mostrado que é possível caminhar nos tempos, em todos eles, de cabeça erguida, devo à Maria Barroso o Teixeira de Pascoaes.

Bem sei que, na vida dela, foi um detalhe insignificante. Mas hoje, ao saber da sua morte, lembrei-me desse momento, na casa do Teixeira de Pascoaes, em Amarante. Ela estava no centro da belíssima cozinha de pedra, em pé, e à sua volta um grupo enorme de pessoas. Eu mal a conseguia ver. Mas ouvia a sua voz firme e encantada, a transformar em música e sentido o que até então, para a adolescente que eu era, não passava de versos sem graça de um romântico.

A Maria Barroso era um desses seres privilegiados que sabem passar a luz.



um passo para a frente, dois para trás

Hoje é um daqueles dias em que a vida me acontece demasiado depressa: daqui a nada é noite e ainda não fiz sequer o que tinha planeado para até às dez da manhã. Tenho uma lista de to-dos, e de cada vez que risco um aparecem-me três novos. Parece feitiço. Já vou nas entrelinhas das entrelinhas, e não é subentendidos, é só trabalho que nunca mais acaba.

Acho que vou é levar o Fox ao lago (já devia ter feito há três horas) e aproveito para dar um mergulho - enquanto não mexer na lista de to-dos, não piora...

(Isto sim, é um exercício de lógica!) (Sabem aquela anedota do computador ao qual disseram que a maior parte dos acidentes acontece no primeiro e no último degrau da escada? Perguntaram-lhe como reduzir o número de acidentes e ele respondeu: suprimir-o-primeiro-e-o-último-degrau-da-escada.)



05 julho 2015

cidadãos responsáveis e conscientes da sua liberdade e dignidade

(não, este post também não é sobre a Grécia)

Às vezes deparo-me com diferenças enormes entre o que considero normal e o que se faz (e eu própria fazia, e achava normal) em Portugal. Nesses momentos, dou-me conta de que ando há 25 anos em processo de reeducação, uma autêntica lavagem ao cérebro e à sensibilidade. Por exemplo:

1. Já aqui falei sobre a minha zanga pelas perguntas que um banco português me faz, apenas porque quero tirar o meu nome de uma conta que pertence a outra pessoa. Querem saber tudo: com quem estou casada, que é que cada um de nós faz, quanto ganhamos (com comprovativos), e muito mais. Na Alemanha já abri e fechei várias contas bancárias sem precisar de mais do que mostrar o bilhete de identidade. E a Christina já abriu uma conta bancária sem sequer ter de ir ao banco - só teve de ir aos correios, para reconhecer a identidade (por acaso acho que há aqui mais bancos que postos dos correios, mas já me estou a afastar do assunto). Ao ver as folhas que tenho de preencher, e as perguntas que me fazem, pergunto-me como é que os portugueses se sujeitam a isto. Além da cusquice e do sigilo, é a questão do tempo. Ando a arrastar aqueles impressos há semanas porque não suporto a ideia de perder meia hora a dar informações que não quero dar.
Pergunto-me: quem dá a um banco o direito de me fazer essas perguntas, como se lhes estivesse a pedir um crédito de centenas de milhares de euros? Como é que o banco se lembra sequer de me fazer essas perguntas para algo tão simples como tirar o meu nome de uma conta? Por outro lado, se continua a pedir estes dados é sinal de que até agora toda a gente respondeu sem fazer alarde. É o que mais me intriga: porque é que as pessoas se sujeitam a coisas destas?

2. Também já aqui falei do desamor dos alemães aos processos electrónicos, que - descobri há tempos - não se deve a uma espécie de incompetência para a tecnologia, mas de serem avessos a deixar um rastro de dados desnecessário. Se pagarem em dinheiro, por exemplo, ninguém tem como saber o que compraram. O supermercado ao fundo da minha rua criou agora um cartão de cliente anónimo. Só mesmo isso: recebemos o cartão sem ter de preencher nada, e temos na mesma direito a ofertas especiais. A frase do cartaz de publicidade ao cartão é: "não tenho nada a esconder - excepto os meus dados!"
Não é gente que teme por dever alguma coisa. É simplesmente dar valor à privacidade. Este povo já conheceu as consequências de haver dados pessoais nas mãos de sistemas perversos.

3. Há tempos, ao sairmos do aeroporto, vimos que a fila para os táxis começava a dezenas de metros da porta onde estávamos. Tínhamos demasiada bagagem, e vontade nenhuma de ir até ao primeiro táxi da fila. O Joachim resolveu entrar no que estava à nossa frente. Os outros condutores iam protestar, mas ele disse: "eu tenho o direito de escolher livremente o táxi no qual quero ir!"
Fiquei a olhar para ele com cara de "wow!". Que espécie de socialização foi a dele, que lhe permite agora enfrentar com tanta segurança o lobby dos taxistas do aeroporto?!

Isso mesmo: que socialização?

Recentemente, ao traduzir um texto sobre o sistema de ensino em Portugal, descobri que os alunos portugueses têm um cartão electrónico com o qual marcam a hora de entrada e de saída da escola, e que também serve para fazer pagamentos na cantina, no bar e na reprografia. E hoje li que as escolas vão ter uma plataforma online para os pais terem acesso a todas as informações escolares sobre os filhos. A alemã que há em mim reage com surpresa e susto: o quê?! die totale Überwachung?!

Nem sei que me parece esta espécie de pulseira electrónica aplicada às novas gerações do meu povo. A escola e os pais podem controlar tudo o que fica registado no cartão: horários, consumos ("então compraste coca-cola em vez do leite chocolatado?!") (que diria a minha mãe dos lanches que eu não comi para poder comprar cromos do Sandokan? e foram-me tão importantes!) (ou que diria das vezes em que fui a pé em vez de ir de autocarro, para poder comprar cromos de outra porcaria qualquer - malditos cromos, mas também: bendita liberdade de aprender a partir de disparates deste género).

Hoje em dia, os pais podem controlar cada vez mais todos os passos dos filhos, quer no computador quer na cidade. Podem controlar, e controlam. É isso que me assusta mais: crianças que crescem achando normal que os pais e a escola tenham um controlo total sobre a sua vida. Para além da invasão da privacidade (a que as crianças também têm direito, dentro de certos limites), os miúdos habituam-se que têm de se sujeitar a tudo e têm de deixar que os adultos decidam tudo por eles, em vez de treinarem a responsabilidade e a autonomia. E os pais, em vez de conversar com eles, com os professores e com os outros pais num registo de "ninguém disse que a adolescência é fácil", vão para o computador ler as informações sobre esse potencial falhado/drogado/delinquente.

Que diferença em relação aos meus tempos de escola (os meus pais nem sabiam quando é que eu tinha exames, quanto mais testes e trabalhos - o que foi óptimo, porque aprendi a ser responsável e independente) e à escola dos meus filhos (que na primária recebiam todas as semanas uma avaliação por escrito da professora dirigida a eles - "esta semana foi um prazer ver como trabalhavas. Mas notei que a tua letra está diferente: passa-se alguma coisa?" ou "parabéns pelo modo como ajudaste o teu colega fulano quando o viste em dificuldades. Se me permites, dou-te uma sugestão: tenta escrever primeiro a redacção e só depois fazer o desenho, porque de outra maneira pode-te faltar o tempo").
Nas escolas deles, por norma as reuniões sobre as dificuldades de um aluno em concreto eram feitas ou apenas com o aluno, ou com o aluno na presença dos pais, sendo a conversa feita sobretudo entre o professor e o aluno. Porque a maior aprendizagem, e a mais difícil, é a de conhecer-se a si próprio e aprender a ser responsável pela sua própria história.

A propósito, lembro o ar perplexo do meu filho de cinco anos, a contar que o professor indiano da escola internacional lhes tinha dito que havia câmaras escondidas na escola toda, e os professores sabiam tudo o que os alunos faziam. Aos cinco anos, ele já sabia que esse controlo é inaceitável. Lembro também aquele momento, talvez aos 12 anos, em que me estava a mostrar uma sátira pateta no youtube, e passou uma parte à frente porque, como ele disse: "isto não é bom para ti, mãe - é melhor não veres." O que falhei em controlo, ganhei em responsabilidade e comunicação: em vez de se orientar por proibições, orientava-se pelos seus próprios critérios, que comparava com os meus. E nem precisava de esconder o que fazia - assumia-se.

Se podia ter corrido mal? Podia. Claro que podia. Mas os pais e as escolas que entendem que têm o direito de controlar todos os passos dos miúdos, e que os podem obrigar a justificar cada minuto ou comportamento fora da norma, pensam mesmo que é assim que as coisas vão correr bem? Pensam mesmo que é esta a melhor maneira de criar um povo de cidadãos responsáveis e conscientes da sua liberdade e dignidade?

(Há dias, no skype, o Matthias contou-me que tinha ido a uma queda de água que batia sobre um penedo enorme, pelo qual eles escorregavam até caírem no lago com um salto de dois metros. Ele não pôde deixar de comentar com os outros "se estivesse aqui, a minha mãe ia dizer que isto é perigoso". Do outro lado do mundo, com 18 anos, e ainda pensa nos meus critérios? Desconfio que traumatizei os meus filhos mais que dez cartões electrónicos e vinte chips...)


04 julho 2015

nova escola de impressionismo em Berlim



H. Araujo, Berlim, 2015
Les baigneuses 

Andava eu tão satisfeita com a minha máquina fotográfica de bolso, mas, por causa de um banho de café com leite que ela resolveu tomar (I e II), a minha vida mudou. A dela também: entrou em coma vegetativo. Não sei se lhe tire a bateria e lhe faça uma onda de ripanço no facebook (será que acabei de inventar esta expressão, ou terá ocorrido a alguém antes?) (ripanço: aquela repetição de "RIP" nos comentários aos posts que anunciam a morte de alguém; é estranho, mas pelo menos não é tão mau como pôr "like" num post de necrologia). Para já, vai descansando em paz sobre a minha mesa. Até que eu perca a esperança, e ganhe coragem para a ripar em público.

Enquanto espero, comprei outra. Com um zoom mais forte e cores mais vivas, disseram-me na loja. O zoom é mais forte, sim, agora as cores... As saudades que tenho da máquina anterior!

(Talvez fosse boa ideia enviar esta ao Nepal. A anterior foi passar um mês ao Nepal com a Christina, e voltou de lá muito catita - não sei se terá sido do yoga, da meditação budista, ou dos amanheceres nos altos do Annapurna)

Ontem passei por um lago de nudistas, e apontei às cegas e ao longe (ao muito longe, que eles não gostam), no meio daquele exagero de luz e calor, e saiu isto. Agora estou indecisa entre ir aprender a usar a máquina fotográfica, ou deixar a minha ignorância neste preciso ponto e criar uma nova escola de impressionismo em Berlim, o foto-impressionismo.

Provavelmente é como com o ripanço: já alguém terá tido esta ideia antes. Confesso que não me dá jeito nenhum estar constantemente a ser plagiada por pessoas que têm a mesma ideia que eu, mas por acaso a tiveram antes de mim. É o problema de viver num mundo redondo: há sempre alguém que acorda muito antes de eu começar a carburar. Fosse a terra plana, mudava-me para o país do sol nascente, passava a ser um génio.  

(E eis como, no decorrer do chorrilho de disparates do costume, acabo de inventar uma nova teoria para explicar o movimento dos descobrimentos portugueses. Quais pimenta, quais cristianismo, quais novas honras para a nobreza, quais burguesia emergente, quais quê - os portugueses foram até ao Japão para poderem ter as ideias antes de todos os outros, sem sequer terem de madrugar muito.)


03 julho 2015

"alistem-se, diziam eles..."




Lembram-se daquele concerto com o Lang Lang, quando parecia que eu estava a desfolhar um mal-o-quer/bem-o-quer? Está disponível gratuitamente até 5.7. no site da RBB, e também nos arquivos (não gratuitos) do Digital Concert Hall.

É oficial: fiz as pazes com o Lang Lang. Vejam o seu Grieg aqui (a partir do minuto  16:50).

Depois, ao ver o Emmanuel Pahud a tocar a música do Tom & Jerry (1:36:30), deu-me um ataque de snobeira e lembrei-me dos soldados romanos do Astérix a comentar "alistem-se, diziam eles..."
Mas parece que o Emmanuel Pahud - e todos os outros! - gostam desta espécie de tareia. E então o pessoal dos efeitos especiais, ao fundo do palco, do lado esquerdo...

Assisti ao concerto ao vivo, e foi um prazer vê-lo filmado perto da cara dos músicos. As expressões deles e do Simon Rattle enriquecem ainda mais alguns dos filmes da minha vida - como se fossem tocados por um sopro diferente.

Nos encores (1:55:00), a música do Indiana Jones foi, ao que parece, exigência dos filhos do Simon Rattle. Ele explica: os miúdos disseram que, se não houvesse Indiana Jones, não iam assistir ao concerto. E agradece-lhes, "porque é música muito boa". Depois vem o ET (continuo certa de ter visto vagamente uma bicicleta a voar sobre as árvores!) e o Star Wars (infelizmente o público não ia preparado, ninguém tinha espadas laser).

Para terminar, o tradicional Berliner Luft, e... para o ano há mais. 





I believe I can fly

O facebook está cada vez mais louco - depois de nos mostrar gatos que pensam que são cães e cães que pensam que são gatos, idem para ovelhas e cães, macacos e tigres, e sei lá que mais, aparece com raias que pensam que são golfinhos (no vídeo, a partir de 1:00).

(isto se calhar não é o facebook, se calhar é a Pixar, ou assim)
(ou então é o aquecimento climático - essas raias estão mesmo com ar de quem diz "caramba! que a água está a ferver!")





(e eu que gosto tanto de uma bela posta de raia no prato!)
(gostava...)


pragmatismo alemão

(não, este post também não é sobre a Grécia)


Durante as férias na Costa Rica, na Páscoa, ouvimos repetidamente esta canção. Eu andava em modo poupança de neurónios: saboreava-lhe o ritmo e já me bastava. Até que um dia em que estava mais desperta reparei na letra, e me surpreendi por um pragmatismo tão inesperado no nosso mundo sôfrego de superlativos.




Tradução rapidíssima da primeira estrofe:

Deixa-nos ficar na nuvem quatro
Porque na nuvem sete perdemos demasiadas coisas
Já lá estive uma vez, caí de muito alto
É melhor na nuvem quatro, contigo, do que em baixo e de novo só



Há muitos, muitos anos, o Lluis Llach já sabia que o caminho se faz pela nuvem 4, e não pelo sétimo céu:




(...)

Si vens amb mi

No demanis un camí planer
Ni estels d'argent
Ni un demà ple de promeses sols
Un poc de sort
I que la vida ens doni un camí
Ben llarg

I així pren, i així pren
Tot el fruit que et pugui donar
El camí que poc a poc escrius
Per demà
Que demà, que demà
Mancarà el fruit de cada pas
Per això malgrat la boira cal
Caminar


Aos vinte anos sabia de cor a canção do Lluis Llach. Aos cinquenta, sei que não tinha razão. O caminho continua a dar frutos novos, e o sétimo céu é um baixo contínuo que toca em surdina na nuvem quatro.

A Jetsunma Tenzin Palmo explica a origem da confusão:





**

O texto completo da "Wolke 4", em alemão:


Lass uns die Wolke vier bitte nie mehr verlassen
Weil wir auf Wolke sieben viel zu viel verpassen
Ich war da schon ein Mal, bin zu tief gefallen
Lieber Wolke vier mit Dir als unten wieder ganz allein

Ziemlich gut, wie wir das so gemeistert haben
Wie wir die großen Tage unter kleinen Dingen begraben
Der Moment der die Wirklichkeit maskiert
Es tut nur gut zu wissen, dass das wirklich funktioniert

Lass uns die Wolke vier bitte nie mehr verlassen
Weil wir auf Wolke sieben viel zu viel verpassen
Ich war da schon ein Mal, bin zu tief gefallen
Lieber Wolke vier mit Dir, als unten wieder ganz allein

Hab nicht gesehen, was da vielleicht noch kommt
Was am Ende dann mein Leben und mein kleines Herz zerbombt
Denn der Moment ist das, was es dann zeigt, dass die Tage ziemlich dunkel sind
Doch Dein Lächeln bleibt. Doch Dein Lächeln bleibt…

Lass uns die Wolke vier bitte nie mehr verlassen
Weil wir auf Wolke sieben, viel zu viel verpassen
Ich war da schon ein Mal, bin zu tief gefallen

Lieber Wolke vier mit Dir als unten wieder ganz allein
Lieber Wolke vier mit Dir als unten wieder ganz allein
Lieber Wolke vier mit Dir als unten wieder ganz allein


01 julho 2015

selfie familiar


Da esquerda para a direita: Christina, eu, Joachim.
Falta o Matthias (oh, se falta!) e o ó-sô-Fox não se vê porque está dentro de casa, por trás dos vasos, a brincar com uma garrafa de plástico.

(Ó sô Fox larga isso, que estás a fazer muito barulho!)


ARtMENIANS no Golden Apricot em Yerevan



O documentário ARtMENIANS está no Festival Internacional de Cinema Golden Apricot, em Yerevan. Entrei na página do festival, e tive uma bela surpresa: o ARtMENIANS aparece logo a seguir ao Ararat do Egoyan. Antes de me virem com a história da formiga que dizia ao elefante "ena, pá! olha a poeira que estamos a levantar!", deixem-me dizer-vos que começo a acreditar que deve haver um fundo científico nas coincidências. Por exemplo: a aventura do filme ARtMENIANS começou comigo sentada na Kammermusiksaal de Berlim, a assistir ao ensaio geral para a estreia mundial do requiem do Tigran Mansurian. De repente, do nada, o filme Ararat, do Egoyan, começou a rodar na minha cabeça ao som daquela música. E agora, em Yerevan, é esse filme que aparece imediatamente antes do ARtMENIANS.

Sabem aquela história da florzinha, da sementinha, da abelhinha?
(Coitado do Egoyan, não sabe que é o meu Espírito Santo, digamos assim.) (Na realidade, este filme tem dois Espíritos Santos - talvez fosse boa ideia sugerir ao Papa Francisco nova encíclica: "os Espíritos que nos animam") (vou é acabar aqui mesmo o post e pôr-me a trabalhar, que já percebi que hoje os disparates vêm em modo chouriço, agarrados uns aos outros em série interminável.)

***

O ARtMENIANS passou ontem na RTP2. Uma pessoa liga o computador, descansada da vida, e tem o facebook cheio de mensagens de pessoas que se dão ao trabalho e ao tempo de dizer como se sentiram tocadas pelo filme. Uma pessoa desliga o facebook e vai trabalhar, feliz da vida. 


30 junho 2015

Fusion -> Haircut -> Nowhere -> Haircut, ou: dentro e fora, fora e dentro

(este post não é sobre a Grécia)



Ontem juntou-se cá em casa um grupinho de foliões dos festivais: uns vinham do Fusion, outros estavam a partir para o Nowhere - o Burning Man europeu, se bem entendi. Um deles é o cabeleireiro favorito do Joachim. Nascido em NY, NY, punk por fora e doce por dentro (doce também por fora, e se calhar punk também por dentro), corta o cabelo como se cada cabeça fosse uma obra de arte. Enfim, cada cabeça é uma obra de arte - por dentro pelo menos.
Fomos para o terraço no topo da casa (é o nosso "vá para fora cá dentro") e ele foi cortando os cabelos enquanto eu cozinhava. O problema é que ele corta os cabelos um a um, de modo que à meia-noite ainda só tinha aviado 3 dos 5 que havia para aviar. Por sorte, depois de ir a Nowhere regressa a Berlim, e temos haircut: fica na nossa casa, disse que arranja tempo para a Christina e para mim. Pela minha parte, prometi-lhe que da próxima vez faço o spaghetti mais al dente. Porque todos têm direito a uma segunda oportunidade.

(E agora têm duas semanas para me ajudar a decidir se atravesso o verão com um frugal rabo de cavalo, ou se arrisco um corte tipo nova-iorquino) (não faço a menor ideia do que poderia sair dali)

(a fotografia está pouco nítida porque (1) não percebo nada disto de fotografar à noite e (2) não pedi autorização para usar as imagens deles)

(ter gente do Burning Man a jantar cá em casa tem a sua graça: no fim, em vez de "arrumar a cozinha", organizam uma "LNT-action") (LNT = leave no trace)


29 junho 2015

será que tenho poderes?



Agarrem-me que estou outra vez a sentir-me tentada pelo pensamento mágico.

Num dia lembrei-me da Yael Naim. De facto, lembrei-me apenas de imagens de um vídeo com uma música dela - nem sabia o nome dela, nem o da música. Uma amiga conseguiu adivinhar o vídeo que eu tinha em mente, e conseguiu encontrá-lo. Se não fosse ela, tinha de recorrer à minha extensão de memória para estas coisas, que está de momento a fazer um ano de voluntariado na Costa Rica. (Maldito ano de voluntariado na Costa Rica, que nunca mais acaba.)

Em todo o caso: num dia lembro-me da Yael Naim, depois de não ter pensado nela durante séculos, e no dia seguinte recebo uma mensagem a avisar que vem a Berlim em Setembro.

(Agora vou lembrar-me com muita força daquele cantor brasileiro, como é mesmo o nome dele?, um que tem olhos verdes e já não é muito novo - pode ser que resulte...)


o momento certo

(não, este post não é sobre a Grécia)

Anedota politicamente incorrecta:

Dois alentejanos estavam no meio do Alentejo quando passou uma sueca (é a parte politicamente incorrecta, daqui para a frente podem ler à vontadinha) (como vêem, esta anedota tem mais de quarenta anos, é do tempo em que se falava assim das suecas) (como é que se diria hoje? uma rapariga moderna? uma moça desinibida? uma feminista? pensando bem, provavelmente dizia-se apenas: uma mulher) que estava com problemas, porque o carro se tinha avariado, o reboque só vinha no dia seguinte, e ela precisava de um sítio onde dormir. Os alentejanos disseram que no monte deles só havia uma cama, mas que se ela não se importasse de dormir na cama deles... Ela não se importava, e assim fizeram. A meio da noite, aconteceu o que tinha de acontecer (porque isto é uma anedota) mas antes de acontecer, a sueca disse: "como eu não quero engravidar, vocês vão ter de pôr estas coisinhas". Eles puseram, depois já se sabe, e no dia seguinte veio o reboque e a moça foi-se embora.

Passados seis meses, estavam outra vez os dois alentejanos no meio do Alentejo, e pergunta um:
- Ó Zé, tu importas-te que a sueca engravide?
- Eu não, e tu?
- Eu também não.
 - Atão, que achas de tirarmos estas coisas?


(Vem isto a propósito do filtro com o arco-íris no meu perfil de facebook. Pergunto-me quando será altura de o tirar.)




28 junho 2015

afinal parece que gosto do Lang Lang...






Afinal não choveu. E estava tão longe do Lang Lang que não lhe vi os trejeitos, mas ouvi-lhe a música, o concerto para piano em lá menor de Grieg - e foi belíssima.

Antes disso, música de filme. Por exemplo, este tema do filme Laura, de David Raksin. Dei graças por não estar na Filarmonia, porque é música de filme, e eles sabem-na toda para nos iludir o sentimento. Esta em particular, no espaço uterino da sala grande, era capaz de me pôr a planar em asa delta, como daquela vez na segunda sinfonia de Sibelius, quando de repente a força de gravidade me falhou.



(A parte da segunda de Sibelius com poderes paranormais - em mim, pelo menos -, é esta:)




À excepção do Grieg, o concerto foi todo com música de filmes. A execução da música de Tom e Jerry foi muito divertida (só por isso já vale a pena ver a transmissão no Digital Concert Hall, que começa às 20:05 - 19:05 em Portugal) e quando tocaram o ET até demos um salto. O ET! Não tenho a certeza, mas acho que vi um miúdo a pedalar furiosamente no espaço azul sobre as árvores por trás do palco. 





27 junho 2015

assim como assim nem gosto muito do Lang Lang...

E eis que ando há semanas à espera do último concerto desta temporada da orquestra youknowwhatImean, no anfiteatro ao ar livre Waldbühne, com o Lang Lang ao piano, e ontem caí na asneira de ir ver o noticiário (enfim, havia muitos motivos para isso) e esqueci-me de desligar a televisão antes do boletim meteorológico. Diz que vem por aí o temporal do ano, e que é hoje ao fim da tarde, e que na Baviera até é capaz de haver um furacão.

Vou, claro que vou, com guarda-chuva, impermeável e bons sapatos. E se vier o dilúvio, bom, assim como assim nem gosto muito do Lang Lang, nem achava muita graça a terem um programa com músicas de filme...

...Mas espero que o temporal só venha depois do Grieg.







(O "Berliner Luft", o Ar de Berlim, com que se termina sempre este último concerto da época. A orquestra já toca isto de olhos fechados, pelo que até faz pena ver alguns maestros muito aplicados a tentar dirigir. Neste filme, o Simon Rattle, esse brincalhão, aparece ora na percussão, ora a tocar piccolo, ora misturado com o público. E o Placido Domingo sai-nos outro brincalhão, a dirigir e cantar ao mesmo tempo. Ar de Berlim.)


orgulho gay

(Esta minha vida dupla nas redes sociais é um stress. Ultimamente ando muito mais activa no facebook, e os amigos do blogue já se começaram a queixar. Há muito que ponho no facebook links para os posts do blogue, e a conversa acontece mais lá do que nos comentários ao próprio post. Agora vou começar a fazer também o contrário: trazer para o blogue conversas do facebook.)




A propósito da minha nova foto de perfil para assinalar a decisão do Tribunal Supremo de Justiça dos EUA sobre o casamento entre casais do mesmo sexo (este filtro é um pequeno gesto simpático do facebook, que disponibilizou a ferramenta: https://www.facebook.com/celebratepride?_rdr=p ) um amigo comentou o seguinte:

Falar de orgulho gay e de cultura gay tem o mesmo efeito para a normalização da vida dos homossexuais que o black power teve no direitos dos negros: nula. A aposta não deve ser na diferença e muito menos na superioridade. A aposta deve ser na integração no dia-a-dia. Mais lento, mas mais duradouro...

Passo a vida a repetir que "orgulho gay" não é "orgulho de ser gay" é "orgulho de ter a coragem de se afirmar perante uma sociedade que persegue e humilha quem é gay". A interacção no dia a dia está marcada por um opróbrio automático. A começar pela mãe bem-intencionada que diz que continua a amar o filho apesar de ele ser gay, a continuar pelos que dizem "isso cura-se", passando pela Igreja que lhes recomenda a castidade, continuando pelo Estado que quer proibir de dar sangue os homossexuais (todos, e como se sexo anal só fosse praticado por eles) e pelo futebol onde esses assuntos são pura e simplesmente tabu.

Quando a nossa sociedade olhar para os gay com a mesma indiferença com que olha para os canhotos, podemos falar sobre integração no dia-a-dia. Até lá, permito-me o prazer de festejar cada passo dado no sentido da afirmação da dignidade dessas pessoas.

Se me incomodam certos comportamentos de superioridade? Às vezes, ligeiramente. Mas penso no poema do Brecht: do rio que tudo arrasta...

Quem tem comportamentos de insuportável superioridade são pessoas e grupos do lado heterossexual - basta ver os exemplos que dei acima.


Obama!

Vivi a esperança de que Obama pudesse mudar o mundo. Vivi a desilusão de ele não o ter mudado tanto quanto sonhei (quanto ele próprio sonhou). Vi-lhe os cabelos a enbranquecer. Vi-o enredado em jogos de poder e contradições. Perguntei-me se é preciso tanto trabalho para eleger um presidente, se depois não manda quase nada. E depois há momentos assim, como aconteceu esta semana, que ficam para a História:







26 junho 2015

página do diário

9:00 Estou-me a arrancar uma tradução a ferros. Como é que os outros conseguem dar à luz os seus textos tão facilmente? Serei a única tradutora que vira cada palavra do avesso e do trevesso, lhe procura os mais remotos sentidos, e depois dá voltas à cabeça e aos dicionários para encontrar em português uma palavra que transporte a mesma riqueza e os mesmos mistérios? Sei que no McDonald's ganhava mais por hora de trabalho - e às vezes desconfio que até teria mais prazer...
Não liguem a este último desabafo. É mesmo só culpa dos ferros com que me estou a arrancar esta tradução.

10:00 Fui passear o Fox, e encontrei no lago uma vizinha que já não via há muito. Disse-me que estava chateada, porque com a mania que é republicana e não liga a essas coisas não foi ver a rainha de Inglaterra, que ontem passou por trás da casa dela. Decidi ali mesmo que havia de lhe dar as Holas que tenho escondidas debaixo do colchão - é tempo de acabar com esta ditadura dos bons costumes e da má consciência. Se soubesse que a rainha passava aqui ao lado também lá tinha ido, e até tirava uma fotografia para pôr no blogue, rir de mim própria por antecipação resulta quase sempre. A minha vizinha contou que passou em frente à residência britânica pouco antes da recepção, e as mulheres estavam impressionantemente elegantes de vestido de cocktail e chapéu. Ora bem: só o facto de ter conseguido que as berlinenses se ponham elegantes já é um caso de milagre, e de justificar a vontade de ir ver a milagreira e até de fazer selfies à frente do carro dela.

A propósito: há dias passaram aí um vídeo de uma rapariga de hijab a dizer que tapar assim a cabeça é uma maneira de combater a sociedade de consumo e a objectificação e excessiva sexualização do corpo feminino. Ela que me desculpe, mas a verdadeira batalha não se trava com hijab  - ela que venha às ruas de Berlim ver o que são mulheres que recusam a sexualização do seu corpo. Uma cidade cheia de corajosas resistentes.

15:00 Fui à padaria comprar uma baguete, mas estavam a vender um bolo chamado piña colada, com ananás e coco. Ananás e coco! Não é preciso muito mais para me fazer feliz. Trouxe-o todo, em vez da baguete - porque o pão branco engorda e além disso o ananás tem vitaminas importantes.

Depois recomecei a arrancar as últimas frases da minha tradução. Complicadíssimas: toneladas de ideias acavaladas umas nas outras.

16:00 Descobri que uma amiga minha morreu na noite passada. Fui procurá-la no seu mural de facebook, e estava cheio de bondade e beleza.

(um dia que eu morra, o que é que os meus amigos vão encontrar no meu mural de facebook?)







animais

Anda por aí um vídeo horroroso, que não quero ver. Já me conheço, e não quero que estas imagens se tornem estilhaços de vidros colados dentro de mim. 

O Nuno Markl descreve o caso e condena-o sem peias: numa festa popular prende-se um gato no topo de um poste e deita-se fogo à palha que o rodeia. O divertimento consiste em observar o pânico do gato. No vídeo que anda a correr por aí, o gato acaba por saltar, e foge com o corpo em chamas, perante os risos da população.

No facebook encontrei o comentário "que animais!" e ia corrigir: animal é o gato - estes humanos são é bestas. Mas bestas também são animais. Tento emendar, procuro outras palavras: isto aqui são pessoas burras, más como as cobras, brutas que nem um boi. Grandes cabras.

Porque é que usamos epítetos de animal para insultar? Mais: quem é que se lembrou de associar a animais este comportamento de crueldade e brutalidade absolutamente gratuitas? O contrário é que é verdade: quando os animais têm comportamentos de crueldade gratuita, estão a portar-se como humanos.

Inventem-se novos insultos, que os antigos correspondem a uma mentalidade já ultrapassada, ou de cujos enganos estamos a ganhar consciência. E olhemos para as nossas palavras de insulto, para o que significam e para o preço pago pelos portadores desse nome: animal, besta, bastardo, filho da puta, maricas, cigano, judeu, preto, etc.

Já agora, olhemos com mais demora para "humano", aprendamos a ver o que há nele de trigo e de joio. O que me lembra uma história que aqui contei há anos:

Um casal, a quem nascera um filho, desentendeu-se quanto ao nome a dar à criança, e foi falar com o rabino.
- Qual é o vosso problema?, perguntou o rabino.
- A minha mulher quer dar ao nosso filho o nome do pai dela, e eu quero que ele receba o nome do meu pai, respondeu o marido.
- Qual é o nome do seu pai?
- Abia.
- E o nome do seu sogro?
- Abia.
- Então qual é o vosso problema?, perguntou o rabino, surpreendido.
- Sabe, disse a mulher, o meu pai era um doutor, enquanto que o pai do meu marido era um ladrão de cavalos. E eu não quero que o meu filho tenha o nome de um ladrão de cavalos!
Desesperado, mas incapaz de os deixar sem uma resposta, o rabino disse-lhes:
- Dêem ao vosso filho o nome Abia. Depois deixem-no crescer, começar a andar e a falar. Ouçam os seus sonhos, vejam como luta pelo seu futuro, observem como se realiza. E assim verão se ele recebeu o nome do doutor ou o do ladrão de cavalos.


***

Para minha memória futura, deixo aqui o texto do Nuno Markl:




Não é tradição, é selvajaria


O que eu sei é que um vídeo da Queima do Gato de Mourão começou a circular pelas redes sociais. E o mais incrível é que não é um video de denúncia. É uma reportagem feita, creio eu, pela organização das festas mostrando, orgulhosamente, cenas de bailarico e terminando como um filme de terror: com a população a assistir, divertida, ao momento em que, no fim de contas, um gato real, não um peluche, é aterrorizado a uma altura tremenda, quando os foliões de Mourão deitam fogo a uma quantidade de palha que envolve a árvore ou o poste em cujo topo o animal foi colocado, e depois riem e comentam o que se passa a seguir: as chamas subindo a velocidade alucinante, o gato em pânico lá no cimo, a multidão divertindo-se com a dúvida: será que ele salta? Será que ele arde?
O gato, desesperado, acaba por saltar daquela altura gigantesca – gigantesca até mesmo para os dotes de salto de um gato – e, mais terrível ainda, salta de lá e foge em chamas. E o povo ri. E celebra. Numa pesquisa que fiz no Google sobre esta tradição, encontrei um depoimento de um idiota qualquer que dizia, sobre a tradição da Queima do Gato (que, no fim de contas, parece ter largado oficialmente o boneco para regressar à tortura de um animal real): “Calma, que não acontece nada ao gato – a não ser um grande susto!”
Permitam-me discordar desta frase imbecil a vários níveis. Só um “grande susto” (colocar um animal cercado a uma altura tremenda e obrigá-lo a saltar dali para escapar a uma morte pelo fogo) já é desumano. Pura e simplesmente desumano. Não tenho dúvidas quanto a isto: uma pessoa que se regozija com a ideia de celebrar uma festa pregando “um grande susto” a um gato é uma má pessoa. Não há volta a dar-lhe. Mas é pior ainda quando o “grande susto” termina como vemos neste vídeo: com um animal inocente, que não faz ideia do que é uma “tradição”, a fugir em chamas enquanto o povo ri e aplaude e festeja. Aí já não estamos a falar de meras más pessoas. Nenhum ser humano que acha divertida uma festa que termina com um ser vivo em chamas pode ser um ser humano decente. Qualquer ser humano que acha divertida uma festa que termina com um ser vivo em chamas é, lamento dizê-lo, uma besta psicótica.
Eu não quero acreditar que há só bestas psicóticas em Mourão. De certeza que há pessoas boas e decentes que compreendem o quão errado e indesculpável é este procedimento, por isso não vou fazer generalizações.
Vou só explicar aquilo que, quanto a mim, pode significar manter esta tradição sinistra e cruel.
Num primeiro nível, significa fazer mal a um ser vivo inocente, o que é errado. Mas pronto – isso é um argumento que pega pouco em Portugal, país que tem enraizada a ideia de que os bichos ou são para comer, ou são para matar – por desporto, espectáculo ou tradição. A um nível geral, somos um país que se está pouco borrifando para os animais, por isso condenar um mau trato, apesar de ser algo que vale sempre a pena fazer, é frequentemente inútil.
Mas pensem nisto: há crianças em Mourão a crescer com a ideia, bem impressa na sua mente, de que não só é possível – como é recomendável e muito apreciado pelos adultos – torturar física e psicologicamente um animal. Para as crianças de Mourão, isto valida qualquer brutalidade que se faça nos outros 364 dias do ano. Se um gato pode ser posto em chamas naquela noite, porque diacho não pode ser posto em chamas, picado, cortado, em qualquer altura do ano? E quem diz gatos diz cães. Ou outro animal qualquer. Celebrar a Queima do Gato com um gato real é dizer às crianças: “Este grau de violência é giro”.
Crescer com a ideia arrogante de que é divertido e socialmente aceitável fazer mal aos animais é grave. Porque não é só “fazer mal aos animais” (o que já é muito). É abrir as portas para que se faça mal a tudo – incluindo a seres humanos. Perde-se rapidamente o sentido do Bem e do Mal. Basta passar os olhos por algumas biografias de assassinos psicopatas para perceber que muitos deles têm em comum o gosto infantil e juvenil pela tortura de bichos. Não estou com isto a sugerir que anos e anos de tradição da Queima do Gato fez das pessoas de Vila Flor assassinos psicopatas; mas uma coisa é certa: depositou-lhes no coração uma semente do Mal, e é mesmo aquele Mal com artigo definido e letra maiúscula.
Lamento, mas quem faz uma festa assim não tem bondade nem decência dentro de si.
O vídeo está aqui.