24 setembro 2016

aconteceu em Perugia

(o milagre da máquina fotográfica de bolso)






esta cidade

Nem sei como não apanhei uma tendinite de tantas vezes que tirei a máquina fotográfica do bolso e cliquei. Quase sempre na vertical, para apanhar as sucessões vertiginosas de arcos sobrepostos entre as casas das ruas mais estreitas, quase sempre frustrada por não conseguir apanhar toda a altura da rua e os contrastes da luz. Bem me arrependi de não ter trazido a máquina fotográfica digna desse nome. É verdade que me tomaria metade da mala de bagagem de mão que trouxe para a semana, e é certo que não a levaria tão facilmente no bolso das calças, sempre pronta a disparar. Mas andei por aí descontente, sofrendo a dor de haver tanto para fotografar, e tão pouco com que fazer imagens de qualidade. Um desperdício, um desperdício. E logo com esta cidade, tão generosa.







 








 



23 setembro 2016

remendos








beleza


Percorro as cidades italianas perplexa: como é que conseguem transformar tudo em beleza?
As cores gastas, as marcas de humidade, os remendos nas fachadas, o desalinho, as ruínas, as cicatrizes do tempo - tudo. Até aquelas telhas que em Portugal se chamam francesas e são feias, até essas: beleza.


 












tudo a correr bem aqui nesta espécie de Evereste


 



No primeiro dia deambulámos sem destino pela cidade. Sem destino, é como quem diz: primeiro desesperadas em busca do pequeno-almoço, depois em busca do supermercado para comprarmos com que fazer o almoço. De caminho procurámos o atendimento Erasmus da universidade, o que não é nada fácil porque o nosso mapa é bidimensional mas a cidade é toda ó pra cima e ó pra baixo. Se nos enganamos numa rua, arriscamo-nos a baixar uns quinhentos metros, e a ter de subir tudo outra vez.

Os italianos são amorosos. Largam o que estão a fazer para nos virem explicar com toda a calma para onde devemos ir. E nós vamos, e damos connosco outra vez quinhentos metros abaixo ou acima de onde devia ser. Perguntamos de novo a alguém que passa na rua, que olha para o nosso mapa com ar de quem nem sabe que cidade será aquela, e depois de alguns momentos de hesitação nos aponta, muito convicto, um rumo. Que é errado, claro, mas nós agradecemos imenso e fazemos de conta que seguimos o seu conselho, até sairmos do seu campo de visão. Depois, já em liberdade, asneamos de novo pelas escadas e ladeiras.

Numa das faculdades vimos uma mulher com um manto a cobrir todo o corpo. Olhei com mais atenção para tentar perceber se seria um manto amigo, ou de uma muçulmana perigosa e subjugada. Afinal era uma budista, pelo que moderei imediatamente o meu olhar invasivo e despudorado com o qual pretendia proteger uma hipotética muçulmana da sua sociedade machista que não lhe tem respeito.

A seguir ao almoço fiquei em casa a dormitar em frente à televisão, tentando aliviar um sarilho de pulmões que trouxe de Portugal e é pouco adequado a estas diferenças de nível na cidade. Enquanto eu descansava, a Christina foi resolver todas as questões da universidade e visitou o apartamento do tal italiano que se anunciava como o mais bonito da praça. Não era, mas em contrapartida o apartamento é uma maravilha: numa casa com mais de duzentos anos, mesmo no centro da cidade antiga, com uma vista fenomenal para as colinas verdes à volta. Ainda nem tinham passado 24 horas de termos chegado aqui, e já a vida corria incrivelmente bem à minha filha. Vai ser um bom semestre.

No meio da minha sonolência abri um olho para a televisão, e descobri que o papa Francisco estava em Assis, que é como quem diz, ao virar da minha esquina. Pensei ir até lá, porque não é todos os dias que se encontram dois Sãos Franciscos na mesma terra, mas como a nossa semana começou de modo tão promissor, achei que há uma probabilidade bastante grande de encontrar o papa por aí, sem ter de ir a correr até à cidade vizinha. Em vez disso, fomos para um terraço ver a paisagem, a luz branca de Assis na encosta, as nuvens poderosas sobre os montes, o pôr-do-sol. Passámos por duas freiras, e olhei-as com desconfiança: que estariam a fazer aqui, em vez de estarem em Assis? Seriam muçulmanas disfarçadas de católicas? (Sim, que não há limites para a astúcia do inimigo quando nos quer confundir!)

No dia seguinte, ao sairmos de casa depois do pequeno-almoço, demos com a praça IV Novembre ainda mais fechada ao trânsito que de costume, e uma magnífica concentração de seguranças e guarda-costas. Era o presidente da República que visitava a cidade. Lá vinha ele, a sair do museu que queríamos ver nesse dia. Acenou timidamente à meia-dúzia de populares que ali estava, mas eu esqueci-me de acenar e aplaudir porque estava muito ocupada a fotografar o estilo dos seguranças para mostrar às amigas que pediram. Não as sabia tão interessadas por moda masculina, mas os seus desejos são ordens para mim.





22 setembro 2016

roteiro



É muito fácil chegar ao nosso apartamento: avança-se entre o fontanário e a catedral, chega-se a um pórtico que deve ser do Cinquecento e vira-se à esquerda, desce-se umas escadas suavíssimas em curva, outra vez à esquerda, depois à direita uns três séculos para trás, atravessa-se um túnel em abóbada sob uma insula romana, vira-se para um beco estreito e rodeado de casas muito altas, e mesmo antes de chegar ao séc. XVII ou XVIII entramos na porta para o apartamento que deve ter sido dos etruscos, e esta semana é nosso. É amoroso, com a sua mistura de arquitectura moderna e pedras milenares, mas a verdade é que na primeira noite, na cama junto a um arco baixo de tijolos, sob as faixas paralelas abobadas, pensei que se houver um terramoto por estes dias ainda vou parar a um estudo de estratigrafia arqueológica, com o nome de "velha etrusca".  

A Christina disse que não vai haver terramoto nenhum esta semana, de modo que parece que ainda não é desta que me torno famosa.

  

 












20 setembro 2016

prazenteiramente

No autocarro que nos levava do aeroporto para a cidade, a minha filha disse-me "bem-vinda!" na língua local. Quase nem reparei, porque estava a ver um rapaz que passava numa Vespa, e a sentir que era um belo cartaz de boas vindas.
O segurança do café da estação tinha ar de modelo, e um fato de corte elegante e cair perfeito.
Enquanto esperávamos o dono do apartamento airbnb, junto ao fontanário da praça principal, observámos divertidas os estudantes sentados em grupos nas escadas da catedral, tipo anfiteatro medieval. Um rapaz veio conversar com a Christina, por causa da guitarra dela, e combinou encontrarem-se hoje para cantar juntos.
No restaurante - no restaurante de comida deliciosa! - à pergunta "podemos pagar?" o dono respondeu, com uma piscadela de olho, "só se quiserem", e depois foi todo contentinho contar a piada a outro cliente.
Em casa, a Christina começou a combinar visitas para encontrar um quarto de estudante. Perguntou a um dos contactos como o podia reconhecer no local combinado, e ele respondeu: "vou ser o italiano mais giro que está lá".

Estamos em Itália,

Temo que durante esta semana os meus post se tornem um pouco, como direi, prazenteiros.

19 setembro 2016

um país de mirones

Na altura do escândalo Clinton/Lewinsky, odiei que me tivessem contado uma anedota sobre um charuto, porque foi assim que fiquei a saber algo sobre o Clinton que não era da minha conta. Hoje em dia, é normal fazer piadas sobre o Clinton e os charutos - tornámo-nos todos desavergonhadamente mirones, e ainda temos o desplante de afirmar que quem está mal é o Clinton. O "livro proibido" que nos deixa espreitar pelo buraco da fechadura para a intimidade de terceiros banaliza a devassa da privacidade. O país vai desatar a fazer piadinhas e alusões torpes, como se ser mirone fosse socialmente aceitável e até louvável.

Quando eu era nova, os mirones escondiam-se nas dunas para gozar o panorama. Patetas! Hoje em dia, em nome da liberdade, já não precisam de se esconder nas dunas, e até podem tirar fotografias e publicar. Quem não quer ver o seu retrato no jornal, não vá à praia...

Queremos viver numa sociedade de mirones? Eu não quero. Ponho-me no lugar dessas pessoas cuja privacidade é devassada, ou no lugar de algum familiar muito próximo, e fico revoltada com este enxovalho absolutamente gratuito. Isto não é uma sociedade civilizada, é uma sociedade que aceita que alguns façam um lucro fácil por conta de espectáculos indecorosos à custa do bom nome de pessoas concretas.

Os políticos, como todas as outras pessoas, têm direito à sua privacidade. Tem de haver motivos fortíssimos de interesse público para ofender esse seu direito de personalidade. Esses motivos têm de ser escrutinados antes de publicada a devassa, e não depois.


16 setembro 2016

amos e criados



Cada um faz de criado dos senhores que pode: o Durão Barroso foi o anfitrião do encontro que lançou a invasão do Iraque, o Passos Coelho vai apresentar o livro do grau zero da decência em Portugal.


chibo, coscuvilheiro, bisbilhoteiro, intrigante, intriguista, mexeriqueiro - noutro registo: ignominioso, abjecto, afrontoso, aviltante, desonroso, indecoroso, infame, oprobrioso - em última análise: lesa-pátria




Lembram-se daquele episódio deplorável que envolveu uma revista criada especialmente para mostrar imagens muito íntimas de um arquitecto importante da nossa praça? Foi em fins dos anos oitenta, e pelos vistos na época nenhum órgão de informação se queria sujar com essa ignominia. Na altura, até tínhamos vergonha de falar disso. Alguém comentou que tinha visto o artigo, e que se sentia sujo por ter visto o que não devia ver. Muitos anos mais tarde, ouvi uma insinuação de que aquilo não era um mero ataque ao arquitecto, era um aviso a algum poderoso sobre o que lhe podiam fazer a ele. Seria?

Lembram-se do caso Clinton/Lewinsky? Nunca percebi porque é que o Clinton não disse logo à entrada "tenham paciência, mas a minha vida privada não vos diz respeito, e por isso não vou responder a essas perguntas". Podia ter perdido a presidência, mas salvava a sua dignidade e desenhava uma fronteira clara sobre o que se pode exigir a um político. Em vez disso, o mundo inteiro andou a debater publicamente e sem qualquer pudor os detalhes da vida sexual de um homem. Como é possível as pessoas espreitarem as camas alheias com óbvio gozo achando-se simultaneamente bastiões da moral?

Entretanto, o nosso sentido de decência vai sofrendo constantemente novos rombos. Já chegámos aos telefonemas privados (conseguidos por escuta e ao abrigo do segredo de Justiça) transcritos em jornais e divulgados no youtube. E se tivessem revelações bombásticas, que eventualmente justificassem a obrigação jornalística de informar... mas nem isso. Pura coscuvilhice e prazer de enxovalhar as pessoas.

Nos dias que correm, é normal no nosso país fazer impunemente insinuações sobre "saber-se coisas" da vida das pessoas, revelar nas entrelinhas detalhes da vida privada que não deviam ser da conta de ninguém, devassar abertamente a privacidade dos políticos. Serão avisos aos poderosos, ou até já a própria prática da chantagem? E, se o forem: queremos realmente ser cúmplices deste jogo que torna os nossos políticos reféns de coscuvilheiros e chibos indecorosos, ao serviço de sabe-se lá que obscuros interesses?

Tal como fiz na altura do processo Clinton/Lewinsky, não quero saber um único pormenor do que está no livro do José António Saraiva. Os artigos de João Lemos Esteves e de João Pedro Henriques chegam bem para ter uma ideia do nível dos conteúdos, e para querer evitar a todo o custo o contacto com a imundície que vai na cabeça do seu autor.

Não vou ler o livro, e é isto que pensarei das pessoas que o comprarem ou lerem: gente sem sentido de honra nem decência, que tira prazer de espreitar camas alheias, que não se importa de ser cúmplice num enxovalhamento aviltante dos mais altos representantes de Portugal, que se está nas tintas para a necessidade de garantir aos políticos um ambiente público baseado na confiabilidade, no respeito pelos mais elementares direitos humanos, e na decência. Gente que, pelo mero prazer de cuscar a privacidade alheia, participa em processos que podem tornar os nossos políticos reféns de pessoas sem escrúpulos, oferecendo a estas um poder  profundamente antidemocrático.


13 setembro 2016

parábola

Respondeu-lhe Jesus: o reino dos céus é comparado a uma mulher que, ao saber que o preço de um carro alugado cinco semanas na época alta ia para cima de 1200 euros, emprestou um carro à sua amiga e não aceitou dela um único tostão. Então aquela amiga, prostrando-se, a reverenciava e muito agradecia. Encontrando-se as duas, porém, a beber um café no momento da devolução do carro, passou uma cigana e pediu uma esmola, e a que acabara de louvar a generosidade da amiga pôs automaticamente cara de "não me incomode". A amiga que emprestara o carro deu também uma esmola à cigana, e continuou a falar como se nada se tivesse passado. Nem exigiu à outra 1200 euros pelo aluguer, nem nada.

Moral da história: há ateus (ou agnósticos, outro dia pergunto) que fazem parábolas ainda melhores que as que os evangelhos contam.

(Estou a morrer de vergonha desse euro que não dei.)


11 setembro 2016

onde estava no 11 de Setembro de 2001?

Já contei tantas vezes estas histórias, que temo que elas se comecem a contar sozinhas. Para quem ainda não as conhece, cá vamos nós outra vez:

Em 2001 vivíamos em San Francisco. No dia 11 de Setembro fomos acordados pelo  meu sogro, que nos ligava da Alemanha, a dizer que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada, em Nova Iorque passava das nove da manhã, as duas torres já estavam a arder.
Corremos para a televisão, ligámos duas lado a lado, hipnotizados.
O Joachim telefonou à escola, e a directora pediu que levássemos os nossos filhos, porque queriam falar com eles sobre o que estava a acontecer.
Eu não fui trabalhar. Fiquei em frente à televisão o dia todo, a assistir em directo àquele horror em bruto, agravado pela repetição frequente de uma sequência odiosa de imagens: mostravam as pessoas em queda livre, e a seguir um grupo de palestinianos a aplaudir alegremente. No próprio dia 11 de Setembro vi essa sequência dezenas de vezes.
Quando fui buscar os miúdos à escola, a meio da tarde, no "livro de bordo" havia um recado da directora: "Em nome do futuro e da paz, contem às vossas crianças como é a vida dos palestinianos. É preciso andar nos mocassins dos outros para os entender."

Na quinta-feira seguinte houve uma cerimónia ecuménica no City Hall. Representantes de todas as religiões iam fazendo as suas orações e apelos, até que o Reverendo Brown, de uma Igreja Baptista, começou: "quando eu era pequeno e me ia queixar à minha mãe porque a minha irmã me batera, ela perguntava-me o que é que eu tinha feito à minha irmã. Que fizeste tu, América? Que tens andado a fazer, AmééériiiccccCCCCAAAAAAAAA?" - e por aí fora. A praça aplaudiu, entusiasmada (já disse que estava em San Francisco?), mas hoje penso que aquele discurso foi completamente descabido. O país em choque, ainda sem saber sequer quantos mortos teria havido, e ele a confundir vítima e criminoso.

Entretanto já começara a haver ataques a mesquitas e centros muçulmanos, e formaram-se piquetes de cristãos para fazer escudos humanos nesses locais.

Depois, foi o que se viu: os ataques de antraz, o atirador de Washington DC, os boatos (o próximo alvo é a Golden Gate Bridge! Roubaram os planos de abastecimento de água da Bay Area! Em Stanford há bactérias em quantidade suficiente para matar todos os californianos!), o medo servido em doses cavalares nos jornais e nas televisões. O PATRIOT ACT, Guantanamo, as invasões do Afeganistão e do Iraque. E o Donald Rumsfeld a chamar "danos colaterais" aos civis mortos pelo exército americano. ("Danos colaterais"! Que fizeste tu, América? Que tens andado a fazer, AmééérrrriiicccaAAAAA?)

As primeiras bombas que anunciavam a desestabilização da "pax americana" no Iraque foram notícia de primeira página e abertura de telejornal. Pouco depois deixaram de ser notícia. Ficamos a saber dos horrores pelos refugiados iraquianos que procuram a Europa em número cada vez maior.

Para piorar, muita da relativa segurança em que vivemos é conseguida por meios que vão contra os nossos princípios mais básicos - nomeadamente a prática da tortura. Nem quero pensar no valor da factura que vamos pagar um dia por aceitarmos hoje com tanta naturalidade que as vidas dos ocidentais valem mais que as dos outros.





Pensando bem, a questão não é onde estava no 11 de Setembro de 2001, mas onde estamos hoje. O que estamos a fazer para impedir a propagação do ódio? O que estamos a fazer para que o mundo se torne um lugar melhor para todos?



16 agosto 2016

real história trágico-marítima

"Quer o cabelo mais curto?"
"Não. Mais comprido."
A anedota dos meus pesadelos aconteceu-me hoje. Depois da asneira feita, a cabeleireira desatou a gabar o meu cabelo, "que maravilha de cabelo que aqui tem!". Concordei: "tinha, tinha".
Tentou secar-me a careca com um dispersor, mas as peças estavam em autogestão, caía cada uma para o seu lado. Por isso, quando me perguntou se eu preferia um "look wet", eu disse logo que sim, ela espalhou uma gosma na minha cabeça, eu paguei-lhe os 12 euros da carta de alforria e fugi para a rua.
Se nos próximos dois meses virem por aí uma mocinha com a cabeça enfiada num saco, sou eu.
Como se não fosse já suficientemente horrível, tinha esperado imenso pela minha vez e não tinha nenhuma iHola! para ver. É certo que podia ter lido a Siri Hustvedt, acabada de comprar, mas nem sei que me pareceria estar no cabeleireiro sem ser a ler futilidades. De modo que é isto: fui ao cabeleireiro, e saí de lá sem nada - nem dentro nem fora da cabeça.
Se calhar não me devia ter informado sobre o melhor sítio para cortar o cabelo junto ao carrinho da peixeira a quem tinha acabado de perguntar se tinha piça de rei. Não era para mim, era para a minha vizinha que gosta muito desse peixe e ainda mais de imaginar a minha atrapalhação a pedi-lo em público. Pois lá me atrapalhei, lá tive a resposta de que tinham acabado (parece produto muito procurado), e depois perguntei pela cabeleireira, porque havia naquela rua uma que me cortou o cabelo no ano passado e eu tinha gostado muito, mas essa (disseram-me a peixeira e uma freguesa) mudou-se há tempos para a rua de trás ("atrás de onde?", ia perguntar eu, mas fiquei calada) e agora estava muito desleixada. "Muito desleixada", repetiram. "Desarrisca", pensei eu.
Por sorte a tabuleta do Zé Natário acenou-me, toda oferecida, e fui afogar misérias em bolas de Berlim acabadinhas de sair.
Se nos próximos dois meses virem uma mocinha de dimensões muito equilibradas (isto é: com tanto de altura como de largura) e com a cabeça metida num saco, sou eu.

(o "marítima", do título, é por causa da peixeira, e o "real" é por causa do raio do peixe)

(sim, estou em Viana do Castelo)


15 agosto 2016

como seriam os desportos se fossem fotografados como beach volleyball?

Ver aqui. E confesso que gostei tanto da pergunta como da resposta (sim, este mundo está roto, chove nele como na rua).

(A palavra mágica de hoje na Enciclopédia Ilustrada é "olímpico". Foi de lá que trouxe este link. Ainda não chegámos ao milésimo membro, mas está por pouco. A ver se é hoje que sabemos qual é o presente para o nº 1000.)


14 agosto 2016

enciclopédia ilustrada

Aviso aos amigos: a Enciclopédia Ilustrada nasceu no facebook há pouco mais de um ano, e em breve terá mil membros.
O milésimo membro vai receber um presente especial. Ainda não vi o que é, mas tenho a certeza que é realmente especial. E por isso deixo aqui este aviso aos amigos: vão lá inscrever-se. É que, além de receberem o tal presente (e olhem que estou a pensar sair do grupo e entrar de novo, só para tentar ficar com ele para mim...) entram no espaço do facebook mais interessante que conheço. Todos os dias é proposta uma "palavra mágica", e cada um escreve a propósito dela um post interessante, ou divertido, ou comovente, ou nada disso, ou tudo isso.


28 julho 2016

e diria mesmo mais...

Alguém no Independent anda a ler o que eu tenho escrito sobre a Alemanha e os refugiados. Hehehehe.

(Quer dizer, não será exactamente assim, mas não podia deixar escapar a oportunidade de anunciar que não estou sozinha nesta caminhada contra um medo que cria espaço para a cegueira e o ódio. Mais ainda tratando-se de pessoas que escrevem em estrangeiro que, como é sabido, é sempre mais interessante que o produto nacional. Mais ainda tratando-se de um homem, o que impede aquele paternalismo que às vezes se abate sobre as mulheres que se atrevem a sair ao espaço público para dizer o que pensam.)

Falando muito a sério, é isto: a atitude de Angela Merkel a favor dos refugiados pode ter salvo a Alemanha de ataques terroristas realmente grandes. Leiam, leiam, é uma análise muito interessante.

E diria mesmo mais: até pode ser que um dia (até pode ser que neste preciso momento) haja um desses ataques terroristas com dezenas de mortos na Alemanha. Não há segurança absoluta perante a loucura, o ódio, as estratégias de poder. Mas se é para morrer, prefiro morrer de pé e fiel aos valores em que acredito, a morrer em fuga como um rato que salta do navio.

Tanto mais que as propostas de fuga que tenho ouvido por aí são disparatadas e suicidas. O ódio não se combate com o ódio. Tentá-lo, é perder três vezes: perdemos, porque em termos de ódio, "eles" estão mais desesperados que nós (por exemplo, dispostos a dar a vida para destruir inimigos); perdemos porque desistimos dos valores com os quais queríamos construir um futuro para os nossos filhos; e perdemos porque confirmamos os motivos do ódio contra nós.


25 julho 2016

calma, é apenas um pouco tarde



Ontem, na viagem de regresso a Berlim, ao entrar na Baviera sintonizámos o rádio numa estação local, mesmo a tempo de ouvir o locutor dizer: "Continuamos todos em estado de choque devido aos acontecimentos dos últimos dias. O Estado está muito atento e a fazer todos os possíveis para evitar que tragédias como estas se repitam. E cada um de nós terá de fazer também tudo o que está ao seu alcance para as impedir. Temos de ser muito mais atentos uns aos outros, e aprender a ter gestos de simpatia e humanismo para com todos." Depois continuou normalmente o programa musical da tarde.

Um pouco mais tarde noticiaram que numa cidade do sul da Alemanha um homem matou uma mulher com um machete no meio da rua, e feriu mais uns quantos. Pela descrição que li hoje no Spiegel, era um refugiado sírio a quem não deram autorização para ficar na Alemanha, mas foi ficando porque não se pode repatriar pessoas para países em guerra. A vítima era sua colega de trabalho. Depois de matar essa sua conhecida, partiu o pára-brisas de um carro que passava, e entrou em dois estabelecimentos de restauração - num, esfaqueou um homem na cara; no outro, espetou várias vezes a sua faca numa mesa de madeira. Durante a sua fuga, duas mulheres feriram-se. Um condutor que testemunhou o ocorrido atropelou-o propositadamente para o imobilizar. O atacante está agora nos cuidados intensivos do hospital, sob vigilância policial.

Esta manhã, leio a notícia de um atentado suicida à entrada de um festival. Um refugiado sírio, que trazia na sua mochila uma bomba, juntamente com pregos e fragmentos de metal. Li duas notícias algo contraditórias: uma diz que não o deixaram entrar porque não tinha bilhete; outra afirma que deu meia volta quando descobriu que estavam a revistar todos os sacos. Em todo o caso, a única vítima mortal foi ele mesmo. Felizmente, nenhuma das pessoas feridas na explosão corre perigo de vida.

Ambos os sírios eram conhecidos da polícia, por pequena criminalidade.

Penso com tristeza nas vítimas, e nas suas famílias. Em poucos dias, tantas mortes horríveis, e tantos feridos e familiares cuja vida mudou radicalmente num único momento. Tantas pessoas em sofrimento e profundamente traumatizadas - talvez para sempre.

Parto do princípio que estes ataques se vão repetir, e não tenho dúvidas de que há algures alguém a preparar um atentado de dimensões bem diferentes. A próxima vítima posso ser eu, ou alguém que me é especialmente querido.

Muito mais que a minha vida ou a vida dos meus próximos (afinal de contas, a probabilidade de ter um acidente rodoviário é bem mais alta que a de ser vítima de um ataque destes), temo que a sucessão de cenas de violência e o medo crescente nos possam fazer perder a perspectiva e provoquem em nós reacções primárias e nada sábias. 

Há dias, a newsletter do Spiegel falava da nossa falta de memória. Já ninguém se lembra que há pouquíssimas décadas a Alemanha tinha sérios motivos para temer uma guerra nuclear no seu território, e estava a ser atacada pelos terroristas da RAF / Baader-Meinhof. É há muito mais que isso. Focando o olhar apenas na cidade de Berlim, é isto que vejo: a "ilha" ocidental cercada por um corredor da morte, o sofrimento das famílias divididas à força. A Guerra Fria que a qualquer momento podia rebentar a quente sobre uma população indefesa. A cidade destruída, a chegada dos russos, as violações das mulheres, a falta de medicamentos para tratar a sífilis, a fome. O totalitarismo nazi, a destruição premeditada e impiedosa da diversidade cultural e social. A revolução de Novembro e as explosões de violência nas ruas, o risco de uma guerra civil. Antes disso, não sei. Mas o século XX já basta para perceber que hoje, em termos de violência e horror, estamos e continuaremos a estar a uma enorme distância do que aconteceu às gerações alemãs que nos antecederam. Em Berlim, essas pessoas souberam evitar a guerra civil no princípio da República, curar os males e reconstruir a cidade após a loucura nazi, viver alegremente apesar da ameaça nuclear, recuperar a diversidade, derrubar o muro. Alargando o horizonte, olhemos para a Europa: os países souberam ultrapassar feridas profundas e ressentimentos, e construir um espaço comum que durante setenta anos garantiu a paz entre países inimigos. 

Lembro o Manuel António Pina:
"Ainda não é o fim nem o princípio do mundo
calma
é apenas um pouco tarde"

Não deixemos que a nossa inteligência se turve à vista do sangue que tem corrido. Não somos peões, somos sujeitos da nossa História. Agora é a nossa vez de encontrar soluções para os problemas actuais, soluções que nos permitam construir um futuro melhor. De momento, está a correr mal. Parecemos galinhas tontas à frente de um carro no meio da rua. Votamos deliberadamente em partidos perigosos para a democracia e para o futuro comum, só para dar uma ensinadela ao pessoal que está no poder. Fazemos o daesh muito maior do que é, e emitimos opiniões cheias de ódio e incompreensão, que atingem uma grande percentagem da população mundial. Cegos de medo, dizemos enormidades, fazemos acusações absurdas, exigimos medidas irrealistas e incendiárias. E alguns políticos, os piores de todos, os realmente perigosos, aproveitam a situação com oportunismo.

Agora é a nossa vez, e - inacreditavelmente! - apesar de sermos a geração com melhor acesso ao ensino, à informação, aos processos democráticos e às ferramentas de comunicação, estamos a fazer muito pior figura que os nossos pais e avós, que foram confrontados com problemas bem mais graves que os nossos e não tinham os nossos meios.



Mencionando apenas o problema do terrorismo islâmico: melhor seria que, daqui em frente, após cada atentado nos deixássemos de "je suis #localdoatentadomaisrecente" e usássemos um "je suis intelligent". Para não esquecer que a inteligência corre sempre o risco de ser a primeira vítima de qualquer atentado terrorista. 

O que se passou durante a operação policial em Munique foi sintomático: ainda a polícia não sabia o que se estava a passar, e os meios de comunicação social portugueses já estavam cheios de especialistas a falar do terrorismo islâmico. O daesh deve esfregar as mãos de contente: nem precisam de fazer nada para nos encher de terror!
(O gato do número 10 de Downing Street que se acautele, porque se calha de um dia destes atravessar a rua distraído e ser atropelado, e se calha de o condutor ser paquistanês, o mundo vai tremer por esta nova fase, ainda mais cruel, do terror islâmico, que nem os animais poupa...)

Já se afirma abertamente e sem qualquer espécie de análise crítica que o Islão é uma religião bélica e perigosíssima, e que a Europa tem o direito de se proteger e por isso deve fechar as portas aos muçulmanos. Muito se poderia responder a isto. Prefiro passar o link para um artigo excelente, que um amigo me fez chegar hoje. Leiam, leiam - informa imenso e dá resposta a muitas questões. O problema não é o Islão, é o aproveitamento oportunista de uma ideia propositadamente desfigurada dessa religião para justificar comportamentos que nasceram de uma ânsia prévia de radicalização.  



Do mesmo modo, escolher um discurso islamofóbico incendiário é deixar-se levar pela sede de radicalismo, e é a solução obviamente mais fácil - quando se é demasiado preguiçoso para ler...