10 dezembro 2016

a doença, o sofrimento e a morte vão a um bar...





Entrei no mural da Tinta-da-China em busca de uma informação, e dei com isto. A um sábado de manhã. Já podemos seguir directamente para domingo à noite, que já ganhei este fim-de-semana.


é só estrelas!





No ano passado, a venda de Natal da Tinta-da-China anunciava que também tinham bolos e bebidas.
Este ano anunciam que têm bolos e escritores como o Pedro Mexia, a Matilde Campilho e o Rui Cardoso Martins a dar autógrafos.

É a autêntica Michelinização das compras de Natal.

(e eu aqui, na insularidade)


dia internacional dos Direitos Humanos


Dia Internacional dos Direitos Humanos num mundo que parece incapaz de aprender com a sua própria História. Por exemplo: a facilidade com que, esta semana, tantas pessoas passaram de "um refugiado afegão cometeu um crime horroroso na Alemanha" para "não entra nem mais um refugiado afegão na Europa, eles que se desenrasquem, não queremos aqui mais criminosos!"

Ainda temos de aprender a diferença entre "Humanos" e "Os Manos".


09 dezembro 2016

dezembro

Dezembro começou assim.
Mas rapidamente aqueceu de novo.
Enfim, "aqueceu" é uma maneira de dizer.





 





 






como um passeio de domingo

   


 



08 dezembro 2016

não há condições

Ia pela rua a toda a brida, a correr contra o atraso do costume, digo, o atraso ainda pior que o do costume, e dei com o Wagner todo refastelado ao sol. Atravessei a rua para o fotografar melhor, e o Tiergarten começou a entrar-me pelos olhos adentro, todo oferecido.

(Senhor juiz, sim, é verdade que me atrasei, mas a culpa não é minha, é de quem ainda não inventou a tal máquina para me clonar. Eu assim não tenho condições.)




 


está provado: o papa Francisco é do Porto!

Quem usa metáforas destas, só pode ter crescido num raio de 3 km do Bolhão!

Aconteceu numa entrevista ao semanário belga Tertio.
Falando sobre os meios de comunicação social, o papa terá dito:

«Je crois que les médias doivent être plus clairs, plus transparents et ne pas tomber, excusez l'expression, dans la coprophilie toujours prête à répandre les scandales des choses abominables, quelle qu'en soit la part de vérité»

E sobre os leitores:

«Et comme les gens ont tendance à souffrir de coprophagie, cela peut être très dangereux»

(...)
Bref, si les journalistes sont coupables de répandre des informations trop sensationnelles, les lecteurs le sont tout autant en les consommant. Ces commentaires font suite à un débat aux Etats-Unis et en Grand-Bretagne à propos des fausses informations ayant circulé sur internet et qui ont pu jouer un rôle pour persuader les électeurs de voter en faveur du candidat républicain Donald Trump ou du Brexit. «Les médias ont leurs propres tentations, ils peuvent être tentés par la calomnie, et donc être utilisés pour calomnier, salir les gens. Surtout dans le monde de la politique», a insisté François.

(...)
Dans Tertio, l'interview du pape François se concluait néanmoins par une note positive à l'adresse des jeunes : «N'ayez pas peur, ne soyez pas gênés de votre foi, allez de l'avant et n'ayez pas peur de chercher de nouvelles routes. Ne vous inquiétez pas : trouvez la signification de la vie. J'ai deux conseils à donner : cherchez de nouveaux horizons et ne perdez pas votre temps à des futilités. Regardez droit devant et travaillez à votre vocation humaine.» 

(fonte)


lupa

 (foto)

O meu facebook está cheio de náufragos do Natal, vítimas do sádico que inventou a época natalícia.
Às vezes penso que estas festas são uma lupa: o que corre bem parece ainda melhor; o que corre mal torna-se insuportável (esta é a parte inventada pelo sádico).

Provavelmente já contei aqui, mas espero que os meus leitores sofram da mesma falta de memória que eu (temos de ser uns para os outros) e não levem a mal as repetições cada vez mais frequentes: o Wladimir Kaminer, que é russo e portanto festeja o Natal da sua família uns dias mais tarde, no dia 24 de Dezembro faz serviço público: enche um dos maiores teatros de Berlim com pessoas que vêm ouvir uma das suas leituras (e passam o serão a rebolar a rir, porque ele é incrivelmente divertido) e a seguir faz uma Russendisko.

Mais um nicho de mercado: programas alternativos com muita qualidade para quem não tem com quem saborear a consoada em modo de lupa de coisas boas.


07 dezembro 2016

caso passe por aqui alguém com responsabilidades num jornal...



À atenção de quem trabalha nos jornais: arranjem quem traduza este artigo, e publiquem.
É simultaneamente fantástico e muito assustador.


[ADENDA 2: o debate a este artigo no meu mural de facebook mostrou que nada disto é novo. Já se faz desde 2004, e está cada vez mais aperfeiçoado. Entretanto, encontrei um filme de 10 minutos bastante claro sobre o método. Está no fim deste post.]

Ich habe nur gezeigt, dass es die Bombe gibt



[ADENDA 1:
Conto um pouco mais:
- Big Data
- Este simpático descobriu um método de reunir dados incríveis sobre as pessoas, a partir daqueles testes de psicologia que vamos fazendo para saber qual é a nossa cidade, ou quem fomos três encarnações antes, ou assim. Nós respondemos na brincadeira, e eles vão juntando e cruzando dados sobre nós.
- Likes no facebook: bastam-lhe 10 likes meus para me conhecer melhor que os meus colegas de trabalho, e 70 para me conhecer melhor que os meus amigos.
- Brexit e Trump foram possíveis graças a empresas que copiaram os seus métodos e usaram Big Data para manipular os eleitores.]






06 dezembro 2016

querido São Nicolau

O Spiegel online tem hoje (6 de Dezembro) um artigo com cartas ao Pai Natal.
Traduzo (rapidinho!) algumas delas:

1.
No Natal desejo Paz e Amor para o mundo e Playmobil para mim.
Anna, Grécia

2.
Querido São Nicolau,
tenho dinheiro suficiente para comprar meia caneta. Por isso gostava de receber um vale para meia caneta. Com os melhores cumprimentos. Por favor, podes mandar-me os selos do correio de volta?

Julian
3.
Tenho oito anos e ando na terceira classe. Alguns dos meus amigos dizem que tu não existes. Mas eu acredito que existes! Porque a minha mãe diz que tu fazes sempre coisas boas. Não te peço nada de especial. De facto, não tenho nenhum desejo para o dia de São Nicolau. Só para o Natal - gostava de receber uma mochila nova para a escola. E uma camisola gira. A minha mãe deu alguns dos meus brinquedos velhos a uma família pobre. Porque eles não têm dinheiro para comprar. Talvez possas levar-lhes uma prendinha? Tenho a certeza que ficavam muito contentes! Infelizmente não sei a morada deles. Mas tu deves saber de quem estou a falar. Afinal de contas, és o São Nicolau. Gostava muito que me respondesses a esta carta.
Lara Sophie
4.
Querido Pai Natal,
esta carta não é, excepcionalmente, uma lista de pedidos. Pergunto-me muitas vezes se o senhor existe. Se não existe, é surpreendente como é que o que não existe consegue fazer tantas pessoas felizes. E mesmo que exista, muitas pessoas pensam que tem uma barba branca e faz publicidade para a Coca Cola. Independentemente de existir ou não, faz muitas pessoas felizes. O que significa que faz o seu trabalho muito bem. Obrigado - sem si, a época de Natal seria mesmo intragável.
Iván, Suíça
5.
Por favor, podes operar o meu papá? Ele está no hospital universitário. O papá tem um cancro na barriga.
Luis
6.
Querido São Nicolau,
escrevo-te uma carta um pouco estranha. O meu marido já tem 73 anos, e o tempo da guerra e do pós-guerra foi terrível para as crianças. Ele nunca recebeu nada realmente bonito no dia de São Nicolau, e ainda hoje se lembra de um pato puxado por um cordel que o acompanhou durante anos. Será que podias escrever a uma "criança grande" que se chama Ferdinand? Eu ficaria feliz e muito grata.
Rosel
7. 
Bom dia, querido São Nicolau. Chamo-me Luca. Escrevo-te todos os anos e gosto muito de receber uma carta do São Nicolau. Tenho uma irmã que está doente, e gosto muito dela. Tenho tudo, e só desejo muita saúde para todas as pessoas que conheço. Tenho quatro anos.
Luca, em carta enviada de um centro hospitalar para famílias de crianças com doenças incuráveis
8.
Querido São Nicolau,
estou muito feliz por tu me vires visitar. Podes trazer presentes. Eu queria um i-Phone 5S. De resto, mais nada. Isso já me basta. Espero que chegues bem!
Lasse



prevêem-se fortes convulsões no mercado de trabalho para diplomatas americanos



Donald Trump twitou isto em resposta à reacção da China à sua aproximação a Taiwan.
Algo me diz que o Obama se esqueceu de o avisar da existência de diplomatas, e do interesse em recorrer aos seus serviços. Suspeito que o novo presidente os vai despedir todos - afinal de contas, ele dá facilmente conta do serviço no twitter, e além disso tem a ajuda da sua Ivanka e do marido dela.

Depois da tempestade, a tempestade: um dia que a época Trump acabe, vai ser preciso reintegrar todos os agora dispensados e multiplicar os efectivos das suas equipas para consertar todas as trumpalhadas internacionais.


30 novembro 2016

deste mundo para os outros

O facebook agora deu-lhe para me mostrar diariamente efemérides de mim própria, hehehe, de modo que hoje voltei a um texto que traduzi há uns anos. Vale sempre a pena reler.


Querido e simpático Pai Natal,
não sei se lês o jornal, mas há lá tanta gente que se droga, fuma ou bate nos outros. Talvez tu não saibas muito sobre essas desgraças. Há a floresta do Mazonas e os orfãos. Peço-te que os orfãos do mundo inteiro e também do Mazonas tenham um Natal melhor que o nosso. Mas nós nunca pensamos nesses orfãos, nós que temos roupa de que não gostamos porque temos demasiado.
E as pessoas que emigram? É um povo inteiro de refugiados que vivem em quartos sujos sem luz nem aquecimento e vão pelo mundo em carros (se os têm). Muitos morrem e vão para outro mundo.
Há muitos mundos, e eu não sei se tu vais a todos eles para dar presentes: há o nosso mundo, o terceiro mundo (nunca percebi o que era o segundo mundo), e também há o quarto mundo, que é o mais horrível de todos.
Em suma: quase todos vivem nos outros mundos, e as crianças têm sempre a mesma roupa esfarrapada e morrem de frio. Há Natais diferentes, porque nós atiramos as nossas roupas deste mundo para os outros. Nós também podíamos estar lá em vez deles, e então eram eles quem nos atirava a roupa. Querido Pai Natal, faz com que as crianças dos mundos nº 3 e nº 4 sejam pessoas normais como nós.
Agora vou escrever um poema para ti, que se chama "Paz e não guerra".

A paz é assim:
às vezes não a sentes.
Mas vês.
Há pássaros
que morrem
porque já não conseguem respirar,
pobrezinhos.
Como é que os homens
podem fazer tal coisa?

Pai Natal, eu inventei este poema, não o copiei!


Marco - Pordenone 


(do livro 'Babbo Natale, pensaci tu' - colectânea de cartas de crianças italianas para o Pai Natal)

--

Mais cartas deste género: "querido Pai Natal".


29 novembro 2016

"estranhamente estranho a mim"

Esta manhã o Fox fugiu para o memorial Gleis 17. Fui atrás dele, e encontrei um senhor a tirar fotografias. Falei-lhe da placa do dia 27.11.1941, e ele sabia. Tem amigos que eram de Riga, e viram assassinar um grupo de judeus a tiro, no pátio do prédio onde viviam. Essas pessoas viram-se depois obrigadas a fugir, e durante uns meses viveram, a contragosto, com polacos. "Quem não perdeu tudo, como eles, tem uma perspectiva muito limitada e simplista sobre o que é certo e errado." Pensei que estava a falar de judeus, mas não - falava dos alemães que foram expulsos da Europa oriental, ou fugiram precipitadamente dos soldados soviéticos. E continuou:
- Essas pessoas perderam tudo - as suas coisas, os lugares da sua história pessoal e o estatuto social - e recomeçaram a vida na Alemanha a partir do nível mais baixo, o de refugiado. Durante décadas não falaram do seu sofrimento, ou por ser muito doloroso ou por não cair bem queixar-se quando se é parte do povo que iniciou, praticou e provocou tantos actos de inacreditável horror. Mas o silêncio é terrível, porque os traumas estão a ser passados aos seus descendentes, que vivem com um sentimento surdo e inexplicável de que algo não está bem.
- Como as violações, disse eu. Durante décadas, as mulheres viram-se obrigadas a silenciar o crime de que foram vítimas.
- Sim, concordou. Uma tia minha foi violada pelos soldados russos, e teve um filho que morreu, infelizmente.
Fez uma pausa, e corrigiu:
- Infelizmente, ou talvez graças a Deus. Esses assuntos - tanto as violações como a criança - eram tabu na nossa família.
- Finalmente começa a falar-se do que aconteceu aos alemães. Desde há pouco mais de uma década comecei a ver artigos sobre esses temas.
- E até estão a fazer um museu sobre esses refugiados da II Guerra Mundial. Já não era sem tempo. Foi um período de muito sofrimento para todos. Mesmo esses que cometiam crimes horrorosos, mesmo esses têm uma história para contar. Leia o livro de Willy Peter Reese "Mir selber seltsam fremd" ("estranhamente estranho a mim"), um conjunto de apontamentos que se tornaram um diário da frente. Ele queria ser escritor, queria ser um Goethe, e foi mandado para a guerra, destruíram-lhe a alma. Morreu lá, aos 23 anos. As cartas que escrevia à mãe foram descobertas há tempos, e publicadas. Um livro impressionante. E depois, as pessoas que estavam do lado de lá, nesses sítios aonde ele levou a destruição. Conheci um deles. Aos 15 anos meteram-no descalço, e com a roupa que tinha no corpo, num comboio com destino aos trabalhos forçados em Berlim. Ao chegar aqui vestiram-no, calçaram-no, tiraram-lhe uma fotografia, e mandaram-no para o cemitério na Hermannstrasse, para um campo de trabalho que lá havia. Era um grupo de cem. Há alguns anos, na minha paróquia começou-se a falar disso, e fomos procurar as pessoas que ali tinham trabalhado. Fizemos anúncios na rádio e na televisão da Rússia e da Ucrânia. Um dia, um homem escreveu-nos a dizer que o pai dele sonhava em alemão. Foi assim que ele veio à Alemanha, ficou na minha casa, e na minha própria sala anunciou que se tinha fechado o ciclo, estava em paz com a sua história e já podia morrer. Depois começou a cantar „Heideröslein“ (uma canção muito popular na Alemanha, com música de Schubert para um poema de Goethe). Uma pessoa fica sem saber o que dizer. Morreu recentemente, tinha Parkinson. Fui visitá-lo quando a doença já ia adiantada, tinha um saco cheio de medicamentos e não sabia quais deles tomar. Uma catástrofe.
Voltei um pouco atrás na conversa, perguntei-lhe se esse prisioneiro dos alemães não tinha tido problemas ao regressar à terra dele, por ser considerado colaboracionista.
- Claro que teve! Quando o Exército Vermelho entrou em Berlim vestiram-lhe uma farda e puseram-no a trabalhar no transporte de prisioneiros de guerra. Mas, mal chegou a casa, foi julgado por colaboracionismo com o inimigo. Ele, que era esperto, dispôs-se logo voluntariamente a fazer os transportes de prisioneiros para a Sibéria. Passou dez anos a fazer isso, todos os dias carregava à pá 18 toneladas de carvão. Passou por muito na vida, esse homem.

Passar dez anos a levar prisioneiros para a Sibéria, para reduzir a crueldade de um castigo onde nem havia culpa...
Lembrei-me do outro, o maquinista de Auschwitz. O melhor amigo do filho dele era um rapazinho judeu que vivia com a mãe numa barraca, alegando que a casa deles tinha sido bombardeada e não tinham nem documentos nem alojamento. Ele levava judeus para Auschwitz, e fazia tantos transportes quantos a sua força permitia, para poupar aos colegas essa descida ao inferno. "Já me destruíram", dizia, "ao menos que não destruam também os outros". Quando a guerra acabou, os dois rapazes andavam a brincar com material militar perdido na floresta, e uma granada rebentou no bolso do filho do maquinista. O miúdo judeu levou-o ao ombro até casa. Como o filho morto no colo, o pai chorava, dizendo "este é o meu castigo, é a paga pelo que fiz."


28 novembro 2016

"29% dos portugueses entende que o sexo sem consentimento pode ser justificado"

O DN noticia que 29% dos portugueses entende que o sexo sem consentimento pode ser justificado.
Isto parece-me uma esmola muito grande, e desconfio. 29% dos portugueses é demasiada brutalidade. Pior: se falam em "portugueses", ou há uma percentagem significativa de mulheres a afirmar que o sexo sem consentimento pode ser justificado, ou então mais de metade dos homens pensa isso. Será mesmo assim? Ou será que há aqui algum mal-entendido?

Fui ler a pergunta:
"Algumas pessoas acreditam que ter relações sexuais sem consentimento pode justificar-se em algumas situações. Acha que isso se aplica às circunstâncias que se seguem? (várias respostas possíveis)"
As respostas possíveis:
"- Estar embriagada ou sob o efeito de drogas.
- Ir para casa com alguém, voluntariamente, a seguir a uma festa ou encontro, por exemplo.
- Vestir roupa reveladora, provocadora, ou sexy.
- Não dizer "não" claramente ou não resistir fisicamente.
- Nenhuma das anteriores."


"Isso", o quê? A opinião das pessoas, ou o acto em si? Se me fizessem aquela pergunta, eu ia partir do princípio que queriam saber quais são os motivos que, em minha opinião, essas tais pessoas invocam para justificar o sexo sem consentimento. O facto de eu saber que há brutos capazes de justificar uma violação só porque a mulher ia de minissaia não é o equivalente a afirmar que esse comportamento pode ser justificado.



Curiosamente, a Espanha tem números extremamente civilizados neste ponto. Serão os espanhóis tão extraordinariamente diferentes dos restantes europeus, ou quem conduziu o inquérito na Espanha ofereceu outra interpretação da pergunta?

Não percebo nada de inquéritos, mas se os números a apurar eram a percentagem de portugueses que entende que o sexo sem consentimento pode ser justificado, a pergunta devia ser mais clara. Por exemplo:

"Algumas pessoas acreditam que ter relações sexuais sem consentimento pode justificar-se em algumas situações.
1. Concorda?
2. Em que situações? (várias respostas possíveis)"


27 novembro 2016

faz hoje setenta e cinco anos





Faz hoje setenta e cinco anos que saiu um comboio de Berlim levando 1035 judeus com destino ao gueto de Riga. Umas semanas antes tinham começado a deportar judeus alemães para esse gueto, que rapidamente esgotou as capacidades para receber tantas pessoas. Depois de uma viagem de três dias, em condições horríveis de frio e falta de água), o comboio de Berlim chegou a Riga antes da data prevista. Todos os seus ocupantes foram levados directamente para o bosque de Rumbula, onde foram obrigados a despir-se, e os assassinaram a tiro. Uns dias mais tarde foram assassinados no mesmo lugar cerca de 27.000 antigos habitantes do gueto, para libertar espaço para os "evacuados" da Alemanha. Foi o Massacre de Rumbula.

Esta é a história insuportável por trás de uma das placas do memorial Gleis 17, junto à estação de Grunewald. A placa que escolhi fotografar apenas por ser hoje o dia 27 de Novembro. Para cada transporte há uma placa com a data, o número de judeus deportados, e o destino. O destino do comboio, que o das pessoas era sempre o mesmo: o extermínio programado.

 








Por estes dias faz 75 anos que começaram as deportações sistemáticas dos judeus alemães.
A 9 de Novembro, data da "noite de cristal", passei pelo Gleis 17 ao fim da tarde. Apesar da escuridão, do frio e da chuva, uma pequena multidão tinha-se reunido com velas em frente ao muro de betão onde foram cavadas silhuetas humanas para gravar a ausência. Pareceu-me que alguém cantava um kadish pelos mortos.



Uns dias mais tarde, alguém escreveu naquele muro "Verdade Amor Jesus".
A frase foi rapidamente apagada, sem deixar vestígios, mas a vergonha permanece: 75 anos depois, ainda há quem escolha usar a religião dos cristãos para humilhar os judeus.




No primeiro domingo deste Advento, lembro o Rorate Caeli: Abri-vos, ó céus, e que as nuvens chovam o Justo. E que o Justo se instale no nosso coração, em vez de ser usado como pedra de arremesso contra os nossos irmãos.


 



25 novembro 2016

NY Portuguese Short Film Festival' 16

O Arte Institute trouxe o NY Portuguese Short Film Festival' 16 a Berlim (first we take Manhattan, etc.).

Entre as muitas e muito boas curtas-metragens, gostei especialmente de "Pronto, era assim", de Patrícia Rodrigues e Joana Nogueira, e de "Lei da Gravidade", de Tiago Rosa-Rosso.


"Pronto, era assim" combina um refinado sentido  de humor com o discurso biográfico na primeira pessoa e no sotaque do Bolhão. Do Bulheom-e. A vida contada em frases cruas, pelas quais perpassa o calor de uma história de humanos, e também a perplexidade.

"Lei da gravidade" são variações sobre o cinema cheias de inesperado.

Se tiverem oportunidade de ver, não percam. Digo eu.  










24 novembro 2016

a publicidade de Natal este ano está muito boa...

...e este é, até agora, o melhor dos anúncios:



- Was ist Weihnachten?
- Das ist Weihnachten.

(O que é o Natal? / Isto é o Natal.)

A Bahlsen a fazer publicidade com refugiados! Isto diz muito sobre a Alemanha de 2016.


"tout est langage", dizia a outra

Uma vez telefonei a uma amiga, em Portugal, e disse-lhe assim:
- Oooiilha, querx que te lebálguma coisa dálemanha?
Ela respondeu:
- A minha mãe faz Eisbein muito bem. Se quiseres trazer um...

Quando nos encontrámos, na semana seguinte, ela morreu a rir com a garrafinha de Eiswein que lhe levava.
 

Eisbein = joelho de porco
Eiswein = vinho feito com as uvas já muito mirradas, colhidas depois das primeiras geadas.
[em alemão, w lê-se v]
[em portucalense, bem... ora vem, mudemos de assunto]



22 novembro 2016

"acaso sou eu o guarda do meu irmão?" (3)


(fonte)

A propósito do post em que contava a cena de enorme violência de Hamelin, alguém perguntava sobre a nacionalidade do atacante. Confesso que também tive essa curiosidade - o eterno "nós" e "eles". Tanto o atacante como a vítima tinham nacionalidade alemã e eram de famílias curdas. Antes de começar a arrumar o caso na gaveta do "ah, curdos, claro, não é de admirar", deixem-me contar daquele alemão de família alemã que matou a mãe do seu filho e tatuou no seu braço a data do nascimento e da morte dela, com a frase "obrigado por tudo". Antes de começar a arrumar o caso na gaveta do "ah, alemães, claro, não é de admirar" deixem-me lembrar a história do Palito, ou a das 43 mulheres vítimas mortais de violência doméstica em Portugal em 2014.

Voltando aos curdos desta cena, e às pessoas que assistiram a tudo das suas janelas, sem fazer nada: admito que essa passividade se tenha devido justamente ao facto de ser uma cena entre curdos, uma dessas coisas lá entre "eles". "Eles" que se amanhem...

Passo de novo a palavra à minha filha, que tem isto muito mais claro que eu: 
 
Violência não tem uma religião, violência não tem cor e não tem uma nacionalidade. Não sei que nacionalidade tinha o homem de ontem, mas não vou procurar na minha memória porque não muda nada. Eu sei que faz muito medo confrontar atacantes mas, para dizer a verdade, tenho muito mais medo quando estou sozinha na rua do que quando ajudo outra pessoa. Por um lado: já somos duas pessoas! Por outro lado: às vezes é suficiente uma pessoa ouvir "tu estás a fazer mal, eu estou a ver e não vou permitir que continues a fazer isso!" para essa pessoa parar. O que é mais importante para mim numa situação destas é dizer à vítima: estou a ver e não te deixo sozinho/a. 

Acho triste que as pessoas pensem logo que a violência é questão de nacionalidade e etnia. Isso é muito mais fácil que reconhecer que há bem e mal em todas as pessoas e todas as nacionalidades. Isso é racismo (é triste ter de dizer assim, mas é a verdade).


"acaso sou o guarda do meu irmão?" (2)

Conheço uma judia berlinense que em criança, em pleno programa de genocídio do povo judeu, foi protegida por uma mulher que era casada com um Blockwart (o "guarda do bloco", o nazi responsável por vigiar o que se passava num determinado núcleo habitacional). Durante bastante tempo teve uma vida relativamente normal, mas, quando se tornou claro que também ela seria deportada, a mulher escondeu-a numa cave. Foi ali que passou os últimos meses da guerra, deitada num colchão, até ser libertada por soldados russos. Tinha apenas sete anos. Estava num estado de terrível fraqueza, e os soldados russos tiveram de a alimentar com pequenas quantidades de leite condensado até o estômago conseguir suportar outros alimentos.

Conta ela que um dia - teria talvez cinco anos - escapou à vigilância para subir ao andar onde se tinha instalado recentemente uma família com crianças. Queria brincar com elas. Nesse preciso momento ouviu-se uma enorme confusão no pátio, e soldados subiram as escadas de roldão para levar a família. A mulher do guarda do bloco subiu também as escadas, e viu, horrorizada, que a sua protegida estava no meio das outras crianças.
- Que se passa aqui?, perguntou ela aos soldados.
- Viemos buscar uma família judia com cinco filhos.
- Ali estão seis. Aquela menina é minha.
- Então leve-a, e desapareça.
De volta ao apartamento no rés-do-chão, a miúda deslizou para uma janela, para ver o que se passava no pátio. O pai e quatro filhos já estavam dentro do camião, a mãe resistia ainda, com o bebé ao colo, que chorava. Um dos soldados agarrou no bebé pelas pernas e bateu-o contra o camião, uma e outra vez. Depois atirou o corpo inanimado para os braços da família.
A miúda de cinco anos olhou para as casas à volta: em todas as janelas havia alguém a olhar, e ninguém fez nada.

21 novembro 2016

"acaso sou eu o guarda do meu irmão?"

Ontem, em Hamelin, um homem discutiu na rua com a sua ex-companheira, e começou a bater-lhe.
Uma mulher que ouviu os gritos veio à janela, e disse-lhe para parar ou então chamava a polícia.
"- Chama", disse ele.
Entretanto a mãe dela correu para a rua, para tentar impedir aquela violência, mas o homem ignorou-a e continuou a bater na vítima.
Depois atou-a com uma corda, prendeu a outra extremidade ao gancho de reboque do carro, e arrancou. Arrastou-a assim por mais de 250 metros, até que o corpo se soltou e foi de encontro ao passeio. Não morreu, mas ainda está em risco de vida.
A mulher que veio à janela disse que havia gente em muitas outras janelas a olhar para a cena, mas ninguém fez nada.

Também ontem, em Perugia (e repasso o texto da minha filha):
When I headed home this evening, my roommate and I noticed a man walking strangely next to another man here in the streets of Perugia, Italy. He walked on alone and when we turned the next corner, we saw this man get very close to a woman and hugging her, eventhough she made very clear that she didn't want this kind of contact at all. He was being extremly pushy and she tried to get rid of him, he wouldn't let go. We immediately interfered and luckily this man let go of the woman, blaming the situation to be HER FAULT. Only after threatening to call the police, he turned around and left.
This happened on an open square around 9pm, there were at least 5 other people at the same place, watching, not doing anything, just watching.

Uma vez, há alguns anos, vi uns rapazes a bater numa mulher e fui ter com eles, porque não podia ficar apenas a olhar. É verdade que a meio do caminho já estava a morrer de medo, e quase arrependida, mas fui na mesma. Era ao meio-dia, numa rua central. Só uma vietnamita (que eu conhecia da escola) veio à porta da sua loja perguntar se era preciso chamar a polícia.
Portanto: percebo que as pessoas tenham medo, sei bem o que isso é. Não percebo que o medo as impeça de ajudar uma mulher que está a ser atacada.

Retomo o post da Christina:

I wish we would live in a world, where these things didn't happen, where I didn't have to walk in the streets at night with extreme attention for my own and other womens safety. It is an utter injustice that we do have to watch out and that we are afraid simply because of our sex!

I ask you to please have an open heart for others. Help others, protect yourself and others, have an open eye and an open ear for somebody who is not fine. If you are not sure, ask them and be sure that he or she is fine. We need to stand up for each other and raise our voices to be heard and to stop those who try to diminish, take advantage of, hurt or harass another human.

Be aware, be an example, BE LOVE!
 
 

Joseph - Wind




We found ourselves together
in an old house in a small town called High Hope.
We didn't mind the quaking.
Through me a tremble rose that I thought might tear but I hope.
We gathered in the same room,
but as the house shook and the ghosts looked in we moved.
Through the ceiling I screamed at you -
I said, "These bonds are wearing thin. Can you get us through?"
In a town called High Hope we do our best to sing a weary song.
We fill our lungs to blow these walls out,
But it takes wind to knock this house down
It came whistling round the corner
and from our separate rooms we felt it coming through
The cracks in the windows,
stirring up the dust - the wind blew.
In a town called High Hope we do our best to sing a weary song.
We fill our lungs to blow these walls out,
But it takes wind to knock this house down
From dust we came, to dust we'll go
From dust we came, to dust we'll go
From dust we came, to dust we'll go
From dust we came, to dust we'll go but we ain't gone.
In a town called High Hope we do our best to sing a weary song.
We fill our lungs to blow these walls out,
But it takes wind to knock this house down

20 novembro 2016

em coro


Coisa estranha, um coro: a fragilidade da beleza, inteiramente à mercê da qualidade de cada um, e da capacidade de cada um se combinar com todos. Dezenas de cantores, e nenhum se quer extraordinário em relação aos outros; e basta um distrair-se por um segundo para quebrar a beleza e a magia do momento.

Este é o fim-de-semana dos concertos do meu coro. Somos um coro amador. Investimos horas e horas e mais horas e mais horas, e depois expomo-nos ao público. Nem tudo corre bem, e pergunto-me porque fazemos isto - a nós, ao maestro e ao público.

Mas depois penso que a nossa vida seria bem mais pobre se a música pertencesse apenas aos profissionais que a produzem, e nós nos remetêssemos ao papel de consumidores. Além disso, há aqueles momentos em que fazemos acontecer o milagre da perfeição. Só por esses já vale a pena.

O programa preparado para este concerto inclui, para além da parte coral, algumas danças de Dvořák e Brahms e peças de Schumann e de Bizet, tocadas por duas jovens pianistas. Sorte a nossa, sentados à volta delas a saborear a sua arte.

Tocam uma das danças eslavas de Dvořák com tal expressão que tenho de me conter para não me levantar, e desatar a dançar de peito erguido a coreografia que a música manda, imperiosa.



(Versão para dois pianos aqui.)

Do Bizet, sublinho esta gracinha: Petit mari, petite femme.




Outras peças do nosso programa:


Dvořák, Na Natureza, op. 63:

1.


3.


4.



Brahms, Liebeslieder, op. 52



Usar esta gravação para ensaiar a minha voz é um prazer enorme: acompanhada por Benjamin Britten e Claudio Arrau a quatro mãos ao piano, e a minha voz ali, feita valente, a ajudar a Janet Baker que, coitada, não consegue fazer-se ouvir bem na refrega com Heather Harper, Peter Pears, Thomas Hensley.
("Na refrega", diz ela, hehehe)


O nosso concerto termina com um poema que Rilke escreveu em francês:


Abandon entouré d'abandon,
tendresse touchant aux tendresses...
C'est ton intérieur qui sans cesse
se caresse, dirait-on;

se caresse en soi-même,
par son propre reflet éclairé.
Ainsi tu inventes le thème
du Narcisse exaucé.









"põe os olhos na bola"

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Este treinador é um maravilhoso sinal dos nossos tempos.

No meu tempo, um erro destes podia ser caso para humilhar o miúdo, e até bater.

(Sim, ainda cá tenho atravessada aquela reguada que levei aos 9 anos, por não ter sido capaz de dizer "gerúndio" - eu sabia, estava debaixo da língua mas não saía, a maldita palava. Zás, um "bolo".)
(Sim, chamava-se "bolos" às reguadas que davam aos miúdos. A gente lá na minha infância ria-se muito, e primava pela mais fina ironia.)


18 novembro 2016

"not my president"

Sinto uma certa perplexidade perante a aprovação das reacções de violência ao resultado das eleições americanas. Entre os discursos conciliadores de Obama e Clinton e o movimento "not my president", não hesito. Não é possível defender a Democracia recusando as suas regras mais elementares.

Além disso, o problema não é Trump. É algo muito maior e mais difícil de corrigir. São partidos e políticos que não conseguem estabelecer pontes com o eleitorado (a propósito, ver o vídeo do Bernie Sanders, mais abaixo), é um sistema que permite que candidatos com um discurso que arrasa princípios democráticos e constitucionais permaneçam na corrida a um cargo político, são pessoas cada vez mais desintegradas da sua comunidade e da coisa pública, usando o voto como castigo em vez de escolha entre opções para o futuro, alimentando a solidão em redes sociais onde é possível dizer tudo e onde tudo parece ser verdade (e o detalhe curioso da enorme quantidade de mentiras pró-Trump espalhadas na net por um grupo de adolescentes da Macedónia para ganhar dinheiro é apenas isso mesmo: um detalhe curioso).

Lutar contra o facto consumado da eleição de Trump é gastar energias na causa errada.
Pode até ser que o Trump, tal como aconteceu com o Brexit, preste uma grande ajuda à causa da Democracia, na medida em que confronta as pessoas com os efeitos do seu voto ou da sua abstenção.
(No que diz respeito aos seus eleitores, estou especialmente curiosa para ver como é que vão reagir ao ver o empresário pragmático que elegeram usar o poder de presidente para favorecer os seus interesses directos no mundo empresarial - por exemplo, a ajuda para "make the Deutsche Bank great again!")

A nossa causa maior não é a da rejeição do Trump, é a da rejeição do seu discurso incendiário (que ele talvez não repita, como presidente, mas que já se espalhou pelos EUA e pela Europa com a força bárbara dos baixos instintos) e é a defesa da Democracia. Uma Democracia que não soube preparar-se para as novas realidades, e que se vê à mercê de quem a sabe atacar dentro dos limites da legalidade baseada em regras anacrónicas. Pobre Democracia. 

[Entretanto o corrector online insiste que Trump é um erro...]










colheita destes dias (2)

Para responder e completar o comentário do amigo jj. amarante, no post anterior, aqui deixo mais algumas fotos.
Publico-as, mesmo sabendo que se usasse a máquina fotográfica com bons conhecimentos técnicos, em vez de me limitar a disparar, estas imagens teriam uma qualidade muitíssimo melhor. A culpa não é minha, é do Mário Sá-Carneiro que me descreveu antes mesmo de eu nascer: Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além.


1. É difícil escolher entre as muitas possibilidades de folhas a flutuar na água lisa do lago.

Por saber como o jj. amarante gosta dos efeitos "Escher", acrescentei algumas que sobrepõem vários planos ( a árvore e o seu reflexo, folhas na árvore e folhas flutuantes).
A água lisa lava o ruído da imagem e torna-a mais fácil de entender - a última fotografia deste bloco, por exemplo, mostra um reflexo da árvore muito mais nítido que a árvore propriamente vista.





 




2. O Fox a perguntar "então não vens? já fizeste 300 fotografias, já chega!"



3. Hesitei bastante entre a fotografia 5 do post anterior, e esta. Nenhuma delas é realmente boa, mas fascinou-me o efeito do sol na madeira, a derreter o gelo.



 4. Mais algumas variações sobre os temas:




  


5. Para entender melhor a imagem das barras no post anterior: é um muro de jardim, feito com barras verticais, com o lado mais estreito virado para a rua.
Os pontos brancos eram, segundo me parece, restos de gelo. Numa placa de metal onde o sol não estava a bater com tanta força via-se o mesmo fenómeno com mais superfície - aquilo a que os alemães chamam "flor de gelo".
[Correcção: passei por lá de novo, e afinal os pontos brancos eram apenas "rastos" de insectos ou pássaros.]

 


6. E que não nos falhe o Fox, pois claro! :)