17 dezembro 2014

letter from home




(esta última foto com efeito "tartaruguinha", mas eu só fui levar o Fox à rua, 
não fui fotografar de máquina de profissional e tripé e tudo)




o Correio da Manhã a desinquietar a maldadezinha que há em mim

(foto)

O raixparta do Correio da Manhã abriu-me o dia com uma notícia sobre uma terrível frente de frio, 3 graus negativos em Setúbal, 0 graus negativos em Sintra (nestes casos, quando é zero é negativo, não me queiram corrigir), coisas assim. Que o Natal só seria suportável no Algarve, com 8 graus.

E eu então esfreguei as mãos de maldadezinha, e fui chatear um amigo lisboeta que me tinha dito há tempos que Berlim tem um inverno que não se pode.

O Correio da Manhã à tarde veio dizer que não. Que vem uma frente quente, e que o Natal este ano parece que vai ser escaldante.

Gulp. Eis que de um golpe só revelei que (1) a maldadezinha também me assiste, (2) leio o Correio da Manhã * e, o mais grave de tudo, (3) acredito no que leio!

Devia ter dado mais atenção às canções horrorosas que me ensinaram na infância. Estava escrito: "por ser má fui infeliz".

(Agora fico à espera de novas peripécias para entender finalmente o sentido profundo de "atirei o pau ao gato-to-to")



(*) Em minha defesa direi que não leio o Correio da Manhã. Mas uma amiga tinha falado de uma notícia muito reles que envolvia um antigo chefe de Estado, e eu fiquei curiosa para saber quem seria a pessoa (pronto! já me desgracei outra vez!) e calculei que, se era reles, provavelmente estava no Correio da Manha. Não encontrei a tal notícia, mas escorreguei com grande estardalhaço nesta sobre a frente fria. Também estava escrito: Deus castiga! Parece que sim, parece que sim. Mas eu tinha esperanças que nesta época do ano lhe desse o espírito natalício...

(eh, lá! Será que estão a privatizar o céu, e o diabo já tem interesses maioritários nos sectores da Compaixão e do Perdão? Isso explicava tanto o meu comportamento como a mesquinhez do castigo.)

(hehehe, eis como no espaço de um post consigo confessar o crime, mostrar arrependimento e arranjar um bode expiatório!)


16 dezembro 2014

dizem que a juventude não sei quê, mas eu, pela amostra...



Por exemplo, ontem: de manhã, encontrei um recado do Matthias pousado no teclado do meu computador:

"Olá minha querida mãe!
Por favor, podes arrancar-me violentamente da cama entre as 11 e o meio-dia? Tenho uma entrevista para um emprego na Filarmonia.
(Portanto: trata-se de bilhetes gratuitos para ti!!! ;)  )"


Como se tratava de bilhetes gratuitos para mim, acordei-o às onze menos cinco. Ele disfarçou-se de rapaz-homem, de camisa preta e sapatos elegantes, e lá foi, e lá voltou com o emprego.
Perguntei-lhe se tinha dito que já tinha muita experiência em eventos culturais, e ele disse que sim, que falou logo no Cinemagosto.
"Vês como és recompensado por ajudares a tua mãe?", comentei eu. "Por isso, agora vai arrumar a cozinha."

Não foi, a ingrata criatura. Diz que tem de ir tratar de uns papéis de burocracia alemã que eu nem sei o que são, ou se já existem cá em casa.

Fez 18 anos há meia dúzia de semanas. Anda a tratar de todo o processo para ir fazer um ano de serviço voluntário na Costa Rica, arranja os seus jobs sem ajudas - e muito menos cunhas - dos pais, trata sozinho de todas as questões burocráticas, e volta e meia arruma a cozinha sem eu lhe pedir.

Enfim, é verdade que os pais não o ajudam muito, mas a irmã - que passou por tudo isto há dois anos - tem dado bons conselhos e um apoio inestimável. Olho para estes dois, e penso numa frase que ouvi há muitos anos: "é bom ter filhos pequenos, mas não há maior prazer que ter filhos adultos".

(a fotografia foi feita pela Christina durante a "Fahrradsternfahrt" - uma manifestação de ciclistas berlinenses na qual participaram os dois)


15 dezembro 2014

o justo e o pecador


A ler notícias sobre o café em Sidney ocupado por alguém que dizem ser um fundamentalista islâmico, fico pasmada com a rapidez de certas respostas: em meia dúzia de horas organiza-se numa mesquita uma oração ecuménica que reúne um imã, um rabino e um padre; cerca de 40 organizações representantes de muçulmanos emitem um comunicado a condenar aquele acto de violência e a apelar à unidade dos australianos.
Alguns muçulmanos são atacados na rua, e em resposta surge no twitter um movimento de solidariedade para acompanhar no espaço público pessoas cuja aparência as possa pôr à mercê do ódio étnico e religioso.

Que mundo é este nosso? Porque é que as pessoas de determinada religião são sujeitas ao medo, porque é que têm de se justificar?
Como católica, não sinto a menor necessidade de me justificar perante o mundo quando uns tresloucados cristãos cometem crimes em nome da sua fé (por exemplo, se matam um médico de uma clínica de abortos). Sabemos todos distinguir entre religião e crime. Por isso mesmo, estes gestos de auto-defesa por parte de alguns muçulmanos deixam-me embaraçada e muito envergonhada. Se, perante um louco que invade um café e faz umas dezenas de reféns, os muçulmanos sentem necessidade de se mostrar publicamente ao lado de representantes de outras religiões, é porque nós, os das sociedades de matriz cristã que nos temos em tão boa conta, não sabemos distinguir o trigo do joio.


("Ah, mas e se um cristão fizesse uma coisa destas num país muçulmano, ai, aí é que ia ser o bom e o bonito!", dirão. Talvez sim, talvez não - não sei. Mas a ideia era fazermos o melhor que podemos, em vez de nos andarmos a nivelar pelo pior que pensamos dos outros.)


holiday stress management


Espero que a TAP faça a sua greve no Natal. Adiava-se o Natal uns três ou quatro dias, dava-me mesmo jeito. Bem, se me deixassem mandar, adiava logo quatro meses. Ou para daqui a um ano. Porque é que o menino Jesus não se lembrou de nascer a 29 de Fevereiro?
Isto está complicado, isto está complicado...

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Para que conste: dez dias antes do Natal já temos um apontamento de decoração natalícia. Agora só falta encontrar a caixa com os santons do Canut para armar o presépio, e ir comprar o pinheiro (será no dia 24, dois minutos antes de a loja fechar) (é quando se fazem os melhores negócios) (na óptica do comprador, claro).

***

Foi mais ou menos por acaso que pusemos esta luz do Advento junto à vénus africana e à bailarina. Mas tem tudo a ver. É uma pena não me deixarem ser padre - já tinha aqui uma homilia catita.

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A bailarina - o meu quadro favorito, cá em casa (exceptuando todos os pintados pelo Joachim, claro!) - é uma pintura sobre um tecido dourado que se usava na RDA para encadernar livros. Tem tudo a ver: no princípio era a palavra, e a palavra dançava...

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Ai! Faltam nove dias para o Natal, e eu aqui a perder tempo com metáforas.
Ou a TAP faz a sua greve, ou eu tenho de fazer por mudar de vida imediatamente.
(Então, ó senhores da TAP? Como ficamos?)


14 dezembro 2014

momento romântico

Em Frankfurt, quando nos estávamos a instalar no avião do último voo do dia para Berlim, mesmo antes daquela lengalenga sobre as saídas de emergência e os coletes de salvação a hospedeira pediu a atenção de todos e passou o microfone a um homem bastante novo e com ar simpático, que nos disse que nesse dia ele e o namorado comemoravam dois anos juntos, e que, como se iam encontrar já tão tarde, tinha imaginado algo especial para essa comemoração. Tinha com ele cem rosas vermelhas e pedia a cada passageiro que, ao sair para a zona de espera, lhe oferecesse uma rosa. Junto às rosas ia ter uma fotografia do namorado, para nós sabermos a quem a dar.
O avião rebentou em aplausos, e a família muçulmana ao meu lado aplaudia ainda mais alegremente que os outros.
Em Berlim, durante a espera das malas, as pessoas iam buscar a sua rosa e conversavam com ele. O piloto do avião também, e até o Fox.
Parecia um encontro de família, todos cheios de sorrisos.






 


o que é, o que não é














13 dezembro 2014

despedida do outono em Brandemburgo

No segundo fim-de-semana do Advento há na região de Berlim dois mercados de Natal imperdíveis: Blankensee e Jagdschloss Grunewald. Passo a vida a falar deles, pelo que desta vez nem ponho auto-links nem nada.

Este ano fui com uma amiga ao mercado de Blankensee. Eles têm sempre uma feira de velharias onde já comprei muitos contributos para enxovais de filhos de amigos, de modo que ia toda contente a pensar no próximo serviço de louça inglesa ao preço da chuva, e num conjuntinho de chávenas para dar à minha filha, ou para acrescentar a estas que dei no ano passado a uma amiga:


Mas, triste vida: este ano não fizeram mercado de velharias. As senhoras que o organizam estão todas doentes, disseram. As senhoras que o organizam, diga-se de passagem, no ano passado juntaram aos meus dois caixotes de louça (e à cartola centenária, e à máquina de escrever antiga) um anjinho e um bilhete escrito à mão, a lápis, a desejar feliz Natal e a dizer que gostariam muito de me ver no ano seguinte. Não era marketing. As pessoas daquele mercado de Natal são assim mesmo: especiais.

Queríamos provar toda a comida que lá havia, mas infelizmente tínhamos o nosso espaço vital sob ocupação do pequeno-almoço. Pelo que na barraquinha das Maultaschen pedimos a porção mais pequena, dividida por dois pratos. Os vendedores cochicharam alguma coisa entre eles, eu pensei que nos estariam a cortar - justificadamente, aliás - na casaca, mas não: estavam a combinar que nos ofereciam os dois pratinhos do caldo delicioso com meia Maultasche para cada uma. Não é marketing, eles são mesmo assim, mas comprei-lhes logo um pacote de uma dúzia, e a minha vontade era comprar todas.


Ao fim de umas voltas fomos aquecer para dentro da igreja, que nesse fim-de-semana se transforma em pavilhão polivalente. Perguntámos a uma senhora velhinha se nos podíamos sentar à mesa dela, para tomar o nosso café, e ficámos por ali a conversar. Ela contou um pouco da história dessa comunidade cristã, dos problemas que a aldeia comunitária teve com os nazis, da expropriação no tempo da ocupação soviética, do comandante russo que, ao devolver as casas que tinham sido quartel russo durante quatro décadas, pediu que rezassem por eles. "E nós rezámos", dizia ela, "porque foram sempre bons vizinhos e iam partir para a insegurança da terra deles."
À despedida, agradeceu-nos aquela conversa.

Voltámos para Berlim, num entardecer lindíssimo. Nem conseguia conversar, só repetia, fascinada: "olha-me esta luz! olha-me para isto!" - e finalmente encostei o carro e saímos as duas para saborear com calma os últimos raios de sol naquele bocadinho de Brandemburgo.
 







Já em Berlim, resolvemos ir espreitar o Jagdschloss Grunewald. A fila era enorme, e a minha amiga disse que a culpa era minha, por fazer tanta publicidade àquele mercado de Natal. Deve ter razão, e por isso no próximo ano vou-lhes pedir uma comissão nas entradas.

Este ano tinham barraquinhas entre o palacete e o lago, e numa delas mostravam como imprimir motivos em tecidos.



À parte estar ainda mais cheio que de costume, e faltar a neve que o torna mágico, o mercado deste antigo palacete de caça estava muito bom. Parámos um pouco a ver a peça de teatro que repetem todos os anos, e todos os anos nos faz rir.



Fomos ainda visitar os quadros dos javalis, ritual da minha amiga, e encontrámos nesse pavilhão vestígios da minha passagem por lá no ano passado: numa fotografia, eu feita boneco de neve. Para que conste: já há fotos minhas numa exposição em Berlim! Estou aqui, estou na capa da Vogue.





Saímos do mercado por volta das cinco e meita da tarde, era já noite cerrada. 
Pois: ninguém disse que o Outono em Berlim tem de ser perfeito, perfeito, o que se chama perfeito. 



despedida do outono










E para os amigos que, ao ver fotografias do lago, pedem notícias do raposinho:



o meu lago desarrumado ao sol