23 janeiro 2021

Portugal ♡ ♡ ♡

Passei o dia no Consulado de Portugal em Berlim a trabalhar na mesa eleitoral que já abriu hoje para os votos dos portugueses da diáspora. Das oito da manhã até quase às sete da tarde não tivemos um único minuto de sossego na nossa mesa de voto. Alguns vinham de bicicleta, e entravam na sala com as mãos vermelhíssimas de frio. Alguns traziam crianças com os casacos todos molhados da chuva que caía nessa altura. Uma mãe perguntou aos seus filhos pequeninos em quem é que ela devia votar (e eles sabiam perfeitamente). Um pai trazia um bebé recém-nascido muito bem aconchegado no canguru. Um veio da sua cidade a 150 km de distância, e disse que não falha uma eleição. 

Passaram por nós pessoas de todas as cores, e com nomes de muitos cantos do mundo. Portugueses: todos eles sorriam, todos eles pareciam contentes de estar ali. 

Hoje senti um carinho especial pela minha gente. Esta gente que se dá ao trabalho e ao desconforto de se pôr a caminho, num dia de inverno triste e feio como foi hoje, porque acredita que tem uma palavra a dizer na decisão sobre o nosso rumo comum. 

Amanhã há mais. 


22 janeiro 2021

debater ideias com antidemocratas?


Depois de o conceito "factos alternativos" se ter instalado entre nós, depois de sabermos que a maior parte das pessoas só aceitam os factos que confirmam as suas próprias crenças, depois de sermos testemunhas de campanhas de manipulação da opinião pública que repetem mentiras as vezes que for necessário até que estas passem por verdades - depois de tudo isto, é ingenuidade acreditar que o problema dos actuais ataques perpetrados contra a Democracia pode ser resolvido trocando ideias com os atacantes até que a voz nos doa.

Todos conhecemos exemplos das dificuldades de contar com a racionalidade e o bom senso das pessoas. Um dos mais graves a que assistimos nos últimos meses: Trump a "avisar" repetidamente, ainda antes das eleições, para "o risco de haver fraude eleitoral"; a dar-se por vencedor a meio da contagem, enquanto esta lhe era favorável; e a gritar "eu bem avisei que ia haver fraude, parem imediatamente as contagens de votos!" quando os resultados deixaram de lhe ser propícios.
Alguns dirão: o sistema sabe proteger-se, as acusações de fraude foram todas rejeitadas pelos tribunais. Isso é verdade - mas quem quer acreditar que houve fraude interpreta a resposta dos tribunais como sinal de que "eles estão todos feitos uns com os outros" - e avança para invadir o Capitólio, prender deputados, enforcar a segunda pessoa mais importante do sistema político.

A troca de ideias é positiva e muito necessária - desde que aconteça entre agentes que respeitam as regras básicas definidas pelas Constituição. Quem não as respeita, não pode exigir ser tratado como democrata. 

O caso mais recente de uma Democracia a defender as suas linhas vermelhas está em curso na Alemanha: o Gabinete Federal de Protecção da Constituição anunciou que vai declarar a AfD como "partido suspeito" de atacar a ordem democrata-liberal e os princípios constitucionais alemães. Isso significa que haverá espiões e escutas telefónicas. Os servidores do Estado que pertençam a esse partido poderão ter problemas acrescidos, uma vez que, como funcionários públicos, estão particularmente obrigados a respeitar e promover os valores constitucionais. Uma das consequências será também que esse partido vai perder parte do eleitorado, porque quem se tem por "pessoa de bem" vai naturalmente afastar-se de um partido que foi declarado como perigoso para a Democracia. 
Mais informações, aqui (em português).

Já há muito que este passo se anuncia. De cada vez que o assunto é mencionado, o partido recua nas suas posições e na sua retórica - o que, só por si, já é um sinal positivo do poder do sistema para obrigar os partidos a jogar segundo as regras da Democracia. Mas ultimamente a AfD foi decididamente longe demais - entre outros, com a participação na tentativa de invasão do Parlamento, em Agosto, e mais recentemente quando deputados desse partido deixaram entrar youtubers na zona reservada aos deputados e membros do governo, para transmitir em directo para a internet as cenas de intimidação que lá fizeram. 

"Quem diz A não tem de dizer B. Também pode reconhecer que A estava errado." - diz Brecht.
O Tribunal Constitucional aceita os partidos mas não lhes dá com isso carta-branca para escaparem às regras e aos princípios consagrados na Constituição. 

Não se trata da minha opinião contra a dos outros, a opinião do meu partido contra a opinião de outro partido qualquer. Não se trata da vontade e do poder de uns para mandar calar outros.
Trata-se de respeitar e fazer respeitar os limites traçados pela nossa Constituição.
E esse é um dever das instituições.

Alguns argumentarão que a Democracia os persegue tal e qual como Salazar perseguiu os comunistas.
O que revela que não sabem a diferença entre Democracia e ditadura. 
Ou - o que é o mais provável - fazem de conta que não sabem. 


quando é que


Comecei a escrever no google

"quando é"

e o sistema completou imediatamente:

"a minha vez de receber a vacina"

(como é que ele adivinhou?...)
Entrei num dos sites: parece que há entre 20 e 40 milhões de pessoas à minha frente. Ora bem: vou para Portugal. Lá, na pior das hipóteses, só tenho 10 milhões antes de mim. Ontem apostei com uma amiga que ela está vacinada antes de 22 de Agosto de 2021. Apostámos ostras e uma garrafa de champanhe. Agora espero que a Angela Merkel faça o seu trabalhinho como deve ser.
(O meu marido é que tem azar: quer eu ganhe, quer eu perca, quem vai abrir as ostras é ele)

20 janeiro 2021

novinho em folha




Fez ontem 10 anos que o público dos bancos de pau da Filarmonia (o meu lugar favorito) cantou os parabéns ao maestro.
Dez anos depois: o maestro director dos Filarmónicos de Berlim é o russo Kirill Petrenko. Simon Rattle decidiu voltar para o seu país mas foi atropelado pelo Brexit, mudou para Munique e pediu a nacionalidade alemã.

Bons auspícios para a Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks: casa nova, e este alemão novinho em folha como maestro. 


19 janeiro 2021

coisas da vida


Está a nevar forte e feio. Daqui a nada lá terei de agarrar na vassoura e varrer a neve do passeio. A minha, e mais a de 4 vizinhos. Um deles fez-nos o mesmo no domingo passado: quando me preparava para ir fazer o trabalho, descobri que já alguém o tinha feito. E como não sei quem foi, agora vou ter de limpar a neve do passeio de todos os suspeitos habituais.

(Maldito "faz bem sem olhar a quem"! Se isto fosse às abertas, e tivesse combinado apenas com um vizinho sermos mutuamente boas pessoas, só tinha de limpar a neve de duas casas.)

(Estou a brincar, OK? Além de o trabalho ser praticamente o mesmo, porque o que custa realmente é lutar contra a inércia e ir trabalhar ao frio, é muito bom morar numa rua onde sabemos que há pessoas que olham por nós e nos ajudam.)




17 janeiro 2021

quem tem medo de lábios vermelhos?

"Os lábios muito vermelhos" e o "avô bêbado que a gente tem em casa" - eis um oportunista antidemocrata a revelar-se: o ódio às mulheres, o desprezo pelos idosos e pelas fragilidades dos humanos. O que não surpreende: vindo de quem usa grupos étnicos e minoritários como carne para o canhão da sua ascensão política.

A vaga de lábios vermelhos que pessoas de todos os quadrantes ideológicos democráticos ergueram nas redes sociais é um sinal muito positivo de um Portugal que rejeita a masculinidade tóxica do ataque sórdido dirigido não apenas a Marisa Matias, mas a todas as mulheres. E o filme de Ana Gomes a pôr bâton nos lábios é, para mim, um dos momentos altos desta campanha eleitoral para a presidência da República: solidariedade e união na luta em defesa da dignidade de todas as pessoas. Viva quem é capaz de ultrapassar diferenças ideológicas para se unir em defesa dos valores básicos da nossa sociedade!

Participei com duas imagens que apanhei na net (aqui e aqui). Comecei pela do cravo vermelho, mas depois achei que também era preciso homenagear o tal "avô bêbado que a gente tem em casa". Vou agora um pouco mais longe, para que não falte nada ao wannabe Trump tuga: já que os museus estão fechados, aqui lhe ofereço uma pequena exposição online.





(aqui)










15 janeiro 2021

sanitagate

Ouviram falar do Sanitagate da Ivanka Trump?

Os agentes responsáveis pela segurança da casa da família de Ivanka Trump, em Washington DC, não podem usar nenhuma das 6 ou 7 casas de banho que há naquela casa. Porquê, não percebi muito bem. Uns dizem que foi porque os donos da casa proibiram, mas parece que a Ivanka disse que não, muito pelo contrário. O que se calhar é mais uma daquelas verdades à maneira Trump, porque se fosse como ela diz não teria sido necessário pôr num cantinho do jardim uma daquelas sanitas azuis das obras. Que já lá não está há muito tempo, porque os vizinhos protestaram por causa do mau aspecto. Como os vizinhos provavelmente também protestariam se os seguranças começassem a usar a parte de trás de uma árvore qualquer (as árvores, nas zonas residenciais, têm o mau hábito de todos os seus lados darem para uma janela), a solução que encontraram foi usar a casa de banho do pessoal de segurança da família Obama, que é vizinha e fez um pequeno centro de apoio numa garagem ao lado da casa. Mas quando um dia um dos seguranças da Ivanka deixou a casa de banho dos seguranças do Obama num estado, digamos, pouco apetecível, foram todos corridos. E lá andavam eles a pedir aos vizinhos "ó tio ó tio, deixe-me usar o seu WC que estou mesmo aflitinho". Ou isso, ou meter-se num carro e conduzir meia milha até à próxima casa de banho possível.

(Quando lá morei, dizia que já só faltava aos norte-americanos usarem o carro para ir à casa de banho.) (Mas era piada, ó universo! Tens de perceber quando é que estou a dizer piadas e quando é que estou a fazer premonições. Só tens de actuar no segundo caso.)

Acabaram por alugar um apartamento para eles poderem ir à casa de banho, pela módica quantia de 3000 dólares por mês. Desde 2017, é só fazer as contas.



só neste país...


Para quem diz que só em Portugal é que talicoisa: por causa das mutações do vírus, a Angela Merkel quer reduzir a oferta de transportes públicos (uma decisão tão pouco adequada como reduzir o horário de funcionamento dos supermercados) ou até parar completamente os transportes regionais e de longa distância. Se o Costa quisesse parar o Alfa, caíam o Carmo e a Trindade e o governo.
E se querem saber mais: no Natal houve celebrações religiosas. Pedia-se aos crentes que celebravam o Natal com alguns familiares que não fossem às igrejas, para dar prioridade com segurança às pessoas que estão mais sozinhas.
No que diz respeito a igrejas, sinagogas e mesquitas (e a todas as comunidades religiosas em geral), podem realizar-se celebrações religiosas desde que haja uma distância mínima de 1,5 m entre as pessoas, todas usem máscara, e a comunidade não cante.
Mas a cultura está fechada. Os restaurantes, cafés e bares também.
Os congressos dos partidos políticos estão a decorrer online.
Não estou a dizer que a Alemanha é um modelo a seguir por todos os outros países. É mesmo só para que conste que não é só o Costa que talicoiso.
(Uma informação sem importância nenhuma, mas vinha na newsletter onde li algumas das informações acima partilhadas, e achei interessante: parece que a Angela Merkel é capaz de dizer os primeiros 300 algarismos a seguir à vírgula do pi)


14 janeiro 2021

a beleza salvará o mundo?


Na semana passada, enquanto me dava conta dos extremos de boçalidade no ataque ao Capitólio em Washington DC e me debatia com o meu próprio horror, cruzei-me com este vídeo. De repente, como um corte limpo, sobre o lamaçal do Trump ergueu-se esta música: clara, redentora, arrebatadora. 

Sem pensar pensei que era preciso dá-la a ouvir a todos, e que seria com certeza possível - ao menos por uns momentos - unir trumpistas, lunáticos, republicanos e democratas em torno desta beleza.

Mas depois lembrei-me dos nazis, que também gostavam muito de Schubert. E que contavam com o poder da "música pura" para unir as massas populares em torno da sua ideologia. E que entendiam que qualquer pessoa decente se consideraria insultada se algum maestro ou músico judeu tivesse o desplante de executar uma peça alemã.

Portanto: suspeito que a beleza não tem o poder de salvar o mundo. Mas aqui vos deixo este Schubert - e salve-se quem puder. 


13 janeiro 2021

"Alpes" (2)

 


A primeira vez que fiz uma semana de férias de ski nos #Alpes foi uma tragédia: subimos a montanha, puseram-me em cima daquelas coisas malditas que escorregam em todas as direcções, tentaram ensinar-me, mas eu tive a triste ideia de olhar em volta e ver a aldeia praí 1 km a pique abaixo de mim, tirei os esquis e vim a escorregar sentada na neve até à estação intermédia do teleférico. Andei meses com dores num sítio que não revelo, e ainda dizem que o desporto é saudável.

Se calhar era um sinal, mas não o entendi logo. De modo que continuei a ir todos os anos fazer uma semana de férias de inverno nos Alpes, como tantas famílias alemãs faziam nesse tempo de despreocupado consumo.

Juntei uma bela colecção de cursos de ski naquelas montanhas: Livigno, Serfaus, St. Moritz, Samedan, Pontresina, e mais uma aldeia na Suíça francesa (só me lembro que os croissants eram óptimos). Hão-de ter sido mais de uma dúzia de cursos, e sempre o dos principiantes.
Até ao dia em que me dei conta de que se calhar tinha - literalmente! - demasiada queda para o ski, e deixei de pagar a um professor para andar aos caídos, coisa que conseguia fazer perfeitamente sozinha.
O nosso vale favorito nos Alpes era o Engadin, por ser desafogado, o que é sinónimo de mais horas de luz. E também pelas aldeias históricas e pelas histórias das aldeias, pelos museus dos artistas da região, pelo artesanato, pelos lindíssimos lagos, pela Muottas Muragl, e ainda os bolos e as termas de Pontresina - tudo óptimo, tudo excelente! Só era pena ter de passar várias horas do dia em cima dos skis a lutar contra a força da gravidade...
Agora, fora de brincadeiras: deixei de fazer férias de inverno na neve porque me sinto cada vez mais envergonhada pela parte que me cabe na destruição do planeta. Talvez não volte àquelas paisagens nevadas - e é uma escolha relativamente fácil de fazer, porque já tive lá muitos dias felizes, e também porque sinto que tenho de deixar um bocadinho dessa beleza às gerações que virão depois de mim.

-- Alguns posts sobre esses dias felizes: https://conversa2.blogspot.com/2009/02/notas-do-engadin-2.html







"Alpes" (1)

A palavra mágica de ontem na Enciclopédia Ilustrada era "Alpes".

Um estimado colega falou de como Caspar David Friedrich "(1774-1840), áspide do Romantismo alemão -- e da arte romântica de sempre ! -- captou a essência dos Alpes em toda a sua carga de esplendor natural e de poesia pictórica."

Sim, o Caspar David Friedrich, concordo inteiramente. Mas também pensei logo na Heidi: a explicar esplendor natural e poesia pictórica como se fôssemos uma criança de 5 anos.

(OK, também dá uma aula extra de kitsch, mas pronto. Vamos pela positiva, e diremos que é 2 em 1)
(E japoneses a cantar jodelei é um 3 em 1)
(Helena Araújo: a baixar o nível em menos de dois tempos desde os anos sessenta do século passado)




Nero


Leio o artigo "Six hours of paralysis: Inside Trump’s failure to act after a mob stormed the Capitol", imagino a cena de um Trump empolgadíssimo a ver em directo na TV as imagens do ataque ao Capitólio, e só me ocorre uma imagem: Nero a ver Roma a arder, depois de ele próprio lhe ter deitado fogo. 

Bem sei que Nero não estava em Roma, e portanto não podia estar a observar o incêndio enquanto cantava e tocava lira. Mas a imagem de Trump muito satisfeito com as imagens que vê do Capitólio cola-se ao nosso imaginário da satisfação de Nero enquanto Roma ardia.  

Deve ser o primeiro caso de a História se repetir primeiro como farsa e depois como tragédia. 





12 janeiro 2021

sinais dos tempos

Os tempos que correm: quando vim morar para Berlim, em 2007, as pessoas que queriam ir visitar a cúpula do Parlamento só tinham de subir a escadaria, passar o controlo de metais, entrar no elevador e saborear o prazer de serem bem-vindas no coração do poder político alemão.

Poucos anos mais tarde, devido à ameaça do terrorismo islâmico, puseram uma cerca de metal à volta do edifício, começaram a obrigar as pessoas a inscrever-se previamente e sujeitam-nas a regras apertadas durante o percurso até ao elevador, perante o olhar vigilante de um número relativamente grande de polícias.

Depois do ataque ao Capitólio, o Parlamento alemão começou imediatamente a trabalhar num novo plano de segurança, porque se deu conta de que a medidas para se proteger dos terroristas islâmicos são insuficientes para se proteger dos terroristas nacionais de extrema-direita.

(Desculpem-me a demagogia matinal.)


11 janeiro 2021

sol intermitente

Na semana passada, Berlim teve seis dias que mais pareciam as noites brancas de São Petersburgo. Ou San Francisco no Verão. 

(Isto sou eu a tentar dar a volta por cima, para não me deixar deprimir por tantos dias seguidos de um céu muito denso em tons de branco escuro.) 


Ontem o sol deu um ar da sua graça. Reparei, porque de repente havia sombras à minha volta.
(Se calhar já arrumava a decoração de Natal) (Emboramente: à velocidade a que o tempo avança, mais me valia deixar ficar tudo como está, que o próximo Natal já vem ali praticamente à esquina da Páscoa)

Tudo o que tinha para fazer passou para segunda prioridade, e fui apanhar um bocadinho de vitamina D pelo nariz, que era praticamente o único bocado de pele que tinha à vista. 

Queria fotografar dois lagos, mas primeiro passei pela padaria. Depois resolvi ir investigar caminhos novos do bairro, e dei comigo em frente à residência do Embaixador da Grã-Bretanha. 
"Aaaah, então foi aqui que a rainha de Inglaterra esteve quando passou pela esquina da minha rua...", pensei eu, lembrando-me da vizinha que se lamentou por não ter ido fazer uma pequena espera ao seu cortejo. "Que eu nem sou nada disso", acrescentou, "mas quando a rainha de Inglaterra passa nas traseiras da tua casa, e não há ninguém na rua para te tapar a vista..."

Estava eu parada a olhar para o jardim do embaixador e a pensar nestes dilemas da vida, quando uma senhora se aproximou: "Ainda agora nos vimos na fila da padaria, não foi? Se precisar de alguma informação..."

Antes que pensasse que eu era uma republicana a tentar atacar a monarquia, disse-lhe logo que me estava a orientar para chegar ao lago, e ela apontou-me o caminho. 
(Aviso a quem quiser fazer alguma ilegalidade sem ser reconhecido: não é boa ideia ir primeiro à padaria)

Dali ao lago era um saltinho. Infelizmente, todas as pessoas daquele bairro que têm cães resolveram ir apanhar vitamina D para o mesmo  lugar que eu. Tive de pôr a máscara (adeus, sol na pele) e começar a andar aos ziguezagues entre as pessoas e as árvores (nem umas nem outras se desviavam). Encontrei uma família de cisnes que tinham um filho ainda jovem (em Janeiro?! era suposto já estar suficientemente grande para largar rumo ao sul a meio do Outono passado...), e mais uma dúzia de patos. Além de cães de todas as raças. Javalis, é que nem vê-los (tanto melhor).

Depois o sol foi de férias outra vez e eu regressei a casa pela penumbra, mas apesar de tudo contente: nem que venha por aí outra semana de dias como noites brancas, estes bocadinhos de sol já ninguém mos tira.   








07 janeiro 2021

"a responsabilidade dos agitadores"

O ministro dos negócios estrangeiros alemão escreveu no Spiegel uma pequena lição de Democracia a propósito do ataque de ontem ao Capitólio. 

Copio, porque é muito pedagógico a vários níveis.
  

TheStorming of the U.S. Capitol

Those Who Incite Bear Responsibility

A Guest Editorial by Heiko Maas, Germany's Foreign Minister

The attack on the Capitol in Washington, D.C., isn't just an assault on American democracy – it's an assault on every democracy around the world.

07.01.2021, 15.10 Uhr


The images of the storming of the Capitol Building in Washington, D.C., are painful to the soul of every friend of democracy. The democratic world is shocked and appalled. But that’s not enough. We need all democrats around the world to stand shoulder to shoulder. The struggle against narrow-minded delusion, against intolerance, against the division of our societies is our common struggle. Indeed, it would be self-righteous to point the finger solely at America right now. Here in Germany, too, in Hanau, Halle and on the steps of Reichstag (in coronavirus protests last summer), we have seen how agitation and inflammatory words can spark hateful deeds.

This should be extremely clear: Those who, like Trump, have spent years using words to constantly inflame and incite their own supporters, ultimately bear responsibility for this attack on the heart of American democracy. We see all around the world what happens when radical populists come to power and systematically stir up resentment against democratic institutions. Yes, democracy thrives on contradiction, even disagreement. But it dies when brute force silences the other, when sheer hatred breaks all bounds of decency and respect.

The radical mob does not represent the majority in the United States. The vast majority of American voters stand firmly behind democracy and voted decisively against a right-wing populist. And it’s not just Donald Trump who needs to finally accept that. Every Republican with a modicum of responsibility needs to finally repudiate Trump once and for all. The American courts have ruled clearly that this was a lawful election. Those who disrespect that election result are disrespecting their own people.

America’s strength is its diversity. It is admired around the world for the freedom of its democracy. U.S. president-elect Joe Biden knows this. His call yesterday for mutual respect and reconciliation were the soothing words of a president. And the confirmation of the election of Joe Biden and Kamala Harris by the U.S. Congress was the best democratic response to those who sowed chaos and discord in Washington yesterday.

As friends of America and as friends of democracy, we wish Joe Biden and Kamala Harris great strength in the difficult task of overcoming America’s division. We stand together with them in the fight for democracy. In keeping with the quintessential American motto: "E pluribus unum" – out of many, one.


5 anos de Trump nas capas do Spiegel

A primeira capa do Spiegel com o Trump, em 2016, dava-o como incendiário. Uma das mais recentes também. De certo modo, estava escrito. Nós é que quisemos acreditar que o óbvio ululante não aconteceria nunca.  

[ADENDA - depois do trabalho feito, descobri que o Spiegel fez algo semelhante - mas com apenas cerca de metade das capas. Está aqui, com tradução do título e links para os artigos em inglês. ] 


"LOUCURA - Donald Trump, o açulador da América"
["Hetzer" é muito difícil de traduzir numa palavra só. Significa alguém que provoca e acicata com discursos de ódio. Escolher "açular" porque há neste exercício de manipulação algo que apela ao lado animalesco dos humanos.]



"Cinco minutos antes de Trump - a fraqueza de Hillary Clinton torna-se um perigo para o mundo"



"The next president - guião de uma tragédia"



"O FIM DO MUNDO (tal como o conhecemos)



"OS TRUMPS - Uma família terrivelmente poderosa"



"O jogo de Trump - a nova ordem mundial"






"O REGENTE DUPLO - quanto Putin há no Trump?"



"JOGO MORTAL - Donald Trump e Kim Jong Un arriscam a guerra atómica"






"O ESTADO DA NAÇÃO - como vivemos, como pensamos: um caderno sobre a Alemanha"



"A verdadeira face de Donald Trump"



"Washington, um ano mais tarde"



"Na Idade do Fogo e da Fúria"



"Quem salva o Ocidente?"






"EU SOU O POVO - A Era dos Autocratas"



"Corte de relações - o que significa para a Alemanha ser um inimigo de Trump"



"O PRÍNCIPE E O ASSASSINATO - como um crime macabro choca o mundo"



"TRIO INFERNALE - um fanático, um incendiário e o imprevisível: o que uma guerra no Golfo significaria para o mundo"



"Um deal a mais - por que motivo o caso da Ucrânia pode custar o cargo a Donald Trump"



"Yes, he can - porque motivo Donald Trump consegue safar-se sempre"



"O piromaníaco - um presidente incendeia o seu país"



"The Presid-end" - como Corona tirou o fascínio ao populista Donald Trump"



"OPERAÇÃO FRAUDE ELEITORAL - como Trump tenta roubar a Democracia ao seu povo"


"SHOW DOWN - Desavergonhado contra inofensivo: será que Joe Biden vai conseguir?"



"O presidente-risco - Mentir até vir o médico (*). Como o Corona destrói o sistema Trump"

(*) "Mentir até vir o médico" é uma expressão idiomática alemã traduzida literalmente devido ao contexto. Significa: mentir até não poder mais.


"A AMÉRICA DE TRUMP - O que ficará dele, mesmo que ele tenha de sair"



"O Okupa - a luta suja de Trump pela Sala Oval"