24 janeiro 2020

isto acontece 75 anos depois da libertação de Ausschwitz (3)




Partilho um vídeo do Spiegel - partes de uma entrevista a Esther Bejarano, uma das últimas sobreviventes do Holocausto, com o título: "Avisos de uma sobrevivente".

Reparo no olhar desta mulher de 95 anos, sobrevivente de Auschwitz, quando diz: "vejamos: eu sei bem o que acontece a seguir, se isto continuar assim e se não se fizer nada para o evitar."
E de repente cai a ficha: ainda há entre nós pessoas que assistiram à chegada dos nazis ao poder. Pessoas que se lembram como foi, e que encontram paralelos no que vemos hoje em dia.
Depois de terem passado pelo horror do Holocausto, passam agora pelo horror de descobrir que pouco se aprendeu com o mais terrível capítulo do passado da Alemanha.

Para quem fala alemão: há aqui uma entrevista de uma hora com Esther Bejarano, feita em 2018.



Tradução:

"Tudo isso está ainda na minha cabeça. Continuo a ver aquilo por que passámos. Coisas absolutamente horrorosas."

Como descrever o horror real, o horror absoluto?
Esther Bejarano tenta. Conta a sua história inacreditável uma e outra vez. Durante a segunda guerra mundial, os nazis levaram-na para Auschwitz.
Actualmente empenha-se para que as pessoas não esqueçam o que aconteceu há cerca de 80 anos. Procura sensibilizá-las, alertá-las.
Tarefa especialmente importante nos nossos dias, porque os desenvolvimentos actuais na Alemanha afligem imenso esta mulher judia de 95 anos.

"Na rua desfilam nazis gritando slogans que já foram criados há muitos, muitos anos, com a saudação nazi, com tudo o que lhes ocorre... E a AfD desfila com eles. Isto é assustador. Temos a Pegida, temos a NPD. Para as pessoas que passaram por aquilo, naquela época, isto é realmente... nem sei descrever até que ponto isto é horroroso para nós."

Bejarano foi levada para Auschwitz em 1943, onde começou por ser forçada a fazer trabalhos muito pesados. Era a prisioneira nº 41948. Mas teve sorte: entrou numa orquestra de raparigas. O instrumento que aprendera a tocar era o piano, mas tinha de tocar acordeão, que tratou de aprender de forma autodidacta. Foi o que a salvou. Como membro da orquestra, estava mais protegida e não era obrigada a fazer trabalhos pesados. No entanto, os piores momentos que passou no campo foram aqueles em que estava a tocar com a orquestra, particularmente quando chegava um comboio.    

"Estes comboios que aqui chegavam sobre estes carris... estas pessoas que vinham nos comboios: foram todos levados para o gás. Eram os comboios que iam para a câmara de gás. E nós estávamos ali, obrigadas a fazer música. As pessoas ouviam a música e pensavam - estou certa disso - que um lugar onde há música não pode ser assim tão mau. Era a táctica dos nazis. Não tínhamos saída. Não podíamos fazer nada, absolutamente nada."

Repetidamente foi obrigada a ver até onde os guardas do campo eram capazes de ir.

"Por exemplo, havia aquele chefe Moll, com os seus dois cães - tinha pastores alemães - que obviamente estavam treinados para morder pessoas até as matar. Horroroso. Andava sempre na rua do campo com os cães, e se calhasse de não gostar da cara de algum dos prisioneiros, ou se estivesse com vontade de gozar o espectáculo de ver os cães a matar uma pessoa, açulava-os contra alguém. E os cães desfaziam aquela pessoa com os dentes."

Bejarano ficou naquele campo cerca de meio ano, até ser enviada para Ravensbrück. Em 1945 conseguiu fugir na altura em que os nazis estavam a evacuar o campo devido à chegada iminente dos Aliados. Já se passaram 75 anos, mas Bejarano continua a pensar diariamente nas imagens horrorosas, nas atrocidades cometidas pelos nazis.   

"Não há como evitar pensar nisso. Vocês têm de compreender que para mim é muito duro ter de falar tantas vezes sobre este tema. Mas faço-o, porque sei que é extremamente importante. Mas, para mim, isto não é uma coisa fácil. É sempre muito duro contar a minha história."
[repare-se no olhar de Esther Bejarano ao dizer isto: 4:50]

E, no entanto, ela fá-lo. Bejarano visita escolas, faz palestras, e continua a apostar na sua paixão: a música. A música salvou-lhe a vida em Auschwitz, e é agora um bom meio para falar sobre aquilo que viveu. Bejarano sobe frequentemente ao palco com a banda rap de esquerda "Microphone Mafia", e transmite a sua mensagem de forma clara: a História não se pode repetir!

Por isso mesmo vê com grande preocupação os paralelismos com o que testemunhou no tempo do nazismo, a brutalização da linguagem que observa em funcionários da AfD. E quando algum país europeu se recusa a aceitar refugiados, também aí reconhece os traços daquela época.

"É o que lhe digo: naquele tempo fizeram exactamente o mesmo. Por exemplo, a minha irmã fugiu para a Suíça, e foi enviada de volta para território alemão. E foi assassinada. Hoje é um pouco diferente, mas há semelhanças."

O que faz com que seja muito importante não calar. Bejarano gostaria de ver mais humanidade, e exige do governo alemão que tome medidas para contrariar esta tendência. Combina essas exigências com uma advertência inequívoca: 

[6:26] "Vejamos: eu sei bem o que acontece a seguir, se isto continuar assim e se não se fizer nada para o evitar. Se estes partidos de direita ganharem ainda mais força, então... vejo um futuro muito negro. Porque pode voltar a acontecer o mesmo que aconteceu naquela época."

   

isto acontece 75 anos depois da libertação de Auschwitz (2)

Neste vídeo há algumas passagens do discurso histórico do presidente da República da Alemanha, Frank-Walter Steinmayer, em Yad Vashem, no dia 23 de Janeiro de 2020.






O presidente alemão começou por se dirigir à assembleia em hebraico, e a seguir passou para inglês. Por respeito às vítimas e ao local, não fez o discurso na sua própria língua, o alemão.

O discurso completo, em inglês, pode ser visto aqui. Partilho o texto:



“Blessed be the Lord for enabling me to be here at this day.”

What  a  blessing,  what a  gift,  it is  for  me  to  be  able  to  speak  to you here today at Yad Vashem
Here at Yad Vashem burns the Eternal Flame in remembrance of the victims of the Shoah.
This place reminds us of their suffering. The suffering of millions.  
And it reminds us of their lives – each individual life.
 
This  place  remembers  Samuel  Tytelman,  a  keen  swimmer  who won  competitions  for  Maccabi  Warsaw,  and  his  little  sister  Rega,  who helped her mother prepare the family meal for Sabbath.
This place remembers Ida Goldish and her three year-old son Vili. 
In October, they were deported from the Chisinau ghetto. 
In the bitter cold  of  January,  Ida  wrote  her  last  letter  to  her  parents    I  quote:  “I regret  from  the  very  depth  of  my  soul  that,  on  departing,  I  did  not realise  the  importance  of  the  moment,  [...]  that  I  did  not  hug  you tightly, never releasing you from my arms.”
 
Germans  deported  them. Germans  burned  numbers  on  their forearms. Germans  tried  to  dehumanise  them,  to  reduce  them  to numbers, to erase all memory of them in the extermination camps. They did not succeed.
 
Samuel and Rega, Ida and Vili were human beings. And as human beings, they live on in our memory. Yad  Vashem  gives  them,  as  it  says  in  the  Book  of  Isaiah,  “a momument and a name”.
I, too, stand before this monument as a human being – and as a German. 
I  stand  before  their  monument. I  read  their  names.I  hear  their stories. And I bow in deepest sorrow. 

Samuel and Rega, Ida and Vili were human beings. 
  
And  this  also  must  be  said  here: The  perpetrators  were  human beings. They were Germans. 
Those who murdered, those who planned and helped in the murdering, the many who silently toed the line: They were Germans. The industrial mass murder of six million Jews, the worst crime in the history of humanity, it was committed by my countrymen. The  terrible  war,  which  cost  far  more  than  50  million  lives,  it originated from my country. 

75 years after the liberation of Auschwitz, I stand before you all as President of Germany – I stand here laden with the heavy, historical burden of guilt. 

Yet at the same time, my heart is filled with gratitude for  the  hands  of  the  survivors  stretched  out  to  us,  for  the  new  trust given  to  us  by  people  in  Israel  and  across  the  world,  for  Jewish  life flourishing in Germany. 

My soul is moved by the spirit of reconciliation, this spirit which opened up a new and peaceful path for Germany and Israel, for Germany, Europe and the countries of the world.
The  Eternal  Flame  at  Yad  Vashem  does  not  go  out.  

Germany’s responsibility does not expire. We want to live up to our responsibility. By this, you should measure us.
I stand before you, grateful for this miracle of reconciliation, and I wish I could say that our remembrance has made us immune to evil.  
Yes, we  Germans  remember. But sometimes it seems as though we understand the past better than the present. The  spirits  of  evil  are  emerging  in  a  new  guise,  presenting  their antisemitic, racist, authoritarian thinking as an answer for the future, a new solution to the problems of our age.
I wish I could say that we Germans have learnt from history once and for all. But I cannot say that when hatred is spreading. I  cannot  say  that  when  Jewish  children  are  spat  on  in  the schoolyard,  I cannot say that when crude antisemitism is cloaked in supposed criticism of Israeli policy. I cannot say that when only a thick wooden door prevents a right wing  terrorist  from  causing  a  bloodbath  in  a  synagogue  in  the  city  of Halle on Yom Kippur. 

Of course, our age is a different age. 
The words are not the same. 
The perpetrators are not the same. 
But it is the same evil.  
And there remains only one answer: Never again! Nie wieder! 

That is why there cannot be an end to remembrance. 

This  responsibility  was  woven  into  the  very  fabric  of  the  Federal Republic of Germany from day one. But it tests us here and now. This  Germany  will  only  live  up  to  itself,  if  it  lives  up  to  its historical responsibility. We fight antisemitism! We resist the poison that is nationalism! We protect Jewish life! We stand with Israel!
Here at Yad Vashem, I renew this promise before the eyes of the world. 
And I know that I am  not alone.  
Today we join together to say: No to antisemitism! No to hatred! 

From  the  horror  of  Auschwitz,  the  world  learned  lessons  once before. 
The nations of the world built an order of peace, founded upon human rights and international law.

We Germans are committed to this order and we want to defend it, with all of you. 
Because this we know: Peace can be destroyed, and people can be corrupted. 

Esteemed  Heads  of  State  and  Government,  I  am  grateful  that together  we  make  this  commitment  today: A  world  that  remembers the Holocaust. A world without genocide. 

“Who knows if we will ever hear again the magical sound of life?  
Who  knows  if  we  can  weave  ourselves  into  eternity    who knows?” 
Salmen  Gradowski  wrote  these  lines  in  Auschwitz  and  buried them in a tin can under a crematorium. 
Here  at  Yad  Vashem  they  are  woven  into  eternity: Salmen Gradowski, Samuel and Rega Tytelman, Ida and Vili Goldish. They  were  all  murdered. Their  lives  were  lost  to  unfettered hatred. But our remembrance of them will defeat the abyss. And our actions will defeat hatred. 

By this, I stand. 
For this, I hope.   

Blessed be the Lord for enabling me to be here at this day.


isto acontece 75 anos após a libertação de Auschwitz (1)


"Cerveja do Reich", à venda numa loja de bebidas em Sachsen-Anhalt.

Trago a imagem de uma página de facebok em alemão, onde encontrei o comentário que passo a traduzir:

"É perturbador assistir ao intenso esforço da extrema-direita para apresentar a sua ideologia como algo completamente normal e que faz parte da sociedade.
Fala-se muitas vezes de sociedades paralelas, de pessoas que não querem integrar-se, que não reconhecem os nossos valores.
Sim, esta sociedade paralela existe, constitui 15% dos eleitores e representa um perigo para a nossa ordem democrática liberal."

Acrescento ainda um comentário sobre os preços: aquele "88" não está ali por acaso. O H é a oitava letra do alfabeto. Dois H seguidos significa...? E 18,88? "A" é a primeira letra do alfabeto. "H" é a oitava. 18: "A H". Pois, isso mesmo.

(Texto original, na página "Steife Brise - die Wahrheit über Aalsuppe":
Es ist beunruhigend wie massiv Rechtsextreme versuchen ihre Gesinnung als etwas völlig Normales und Teil der Gesellschaft darzustellen.
Es wird oft über Parallelgesellschaften gesprochen, über Menschen die sich nicht integrieren wollen, die unsere Werte nicht anerkennen.
Ja, es gibt diese Parallelgesellschaft, sie macht 15% der Wahlberechtigten aus und stellt eine Gefahr für unsere FDGO dar.)

23 janeiro 2020

até me esqueci do que ia dizer



"Estava eu descansadinha, sentada no facebook", disse eu ontem ao jantar, e os amigos desataram a rir. Riram tanto que até me esqueci do que ia dizer. Tanto melhor: falaram eles, e foi assim que fiquei a saber da existência desta peça de David Lang: "The Little Match Girl Passion".

Uma beleza.

Aqui fica uma introdução à peça:





21 janeiro 2020

vida boa



Hoje esteve um dia glorioso em Berlim. Fui à Filarmonia comprar bilhetes para o concerto da sexta-feira, e não consegui impedir-me de tirar as fotografias possíveis dentro do S-Bahn e do autocarro. Clic-clac, clic-clac, clic-clac - um dia destes ainda arranjo sarilhos com os outros passageiros, por causa da barulheira que faço a tirar fotografias (escusam de tentar ensinar-me como se faz para silenciar o telemóvel: tem esse botão avariado - mas obrigada na mesma).

A fila estava enorme - o dobro da semana passada. Comecei a conversar com o senhor atrás de mim, que também estava surpreendido com tanto público. Revelou-me que na semana anterior tinha conseguido comprar bilhetes para o Blomstedt um dia antes do concerto. "Suspeito que as pessoas não saibam o prodígio que é ouvir o Blomstedt", acrescentou. E daí a nada estava a falar da veneração que os músicos da orquestra têm por este maestro de 93 anos, e de como isso se nota na música que fazem com ele. Elogiou a sua agilidade apesar da artrose avançada, "está melhor que o Karajan". Confirmou o que já digo há anos: os lugares por trás da orquestra são os melhores. E no caso do Petrenko, mais ainda: "o Petrenko é tão expressivo que quase nem era preciso a orquestra tocar - a música já está toda estampada no maestro", disse ele. Revisitámos a 4ª de Bruckner da semana passada, as expressões de felicidade no rosto do Blomstedt nas passagens especialmente bem conseguidas, o solo de trompa do Stefan Dohr a abrir a sinfonia como se fosse fácil, "imagine que aquilo corria mal - lá se estragava a sinfonia toda!", os músicos que eu vi a chorar no fim do concerto. Trocámos cromos sobre os nossos melhores concertos naquela casa (mas ele ganhou: era amigo do primeiro violino no tempo do Karajan, ia a todos os concertos que queria). E recomendou-me muito ouvir as introduções aos concertos quando são feitas pelo Götz Teutsch, que já foi o primeiro violoncelo da orquestra, e fala das peças com intimidade e prazer de amante. 

Finalmente chegou a nossa vez, e consegui os bilhetes que queria. Esperei para ver se ele também teria sorte (teve) e à despedida ele comentou: "às vezes é uma sorte haver filas compridas na Filarmonia. Esta hora a conversar consigo passou num instante. Muito obrigado!"

Então é assim: esta cidade tem mais de 3,5 milhões de habitantes, e não sei como, mas arranjo de passar a vida a cruzar caminhos com os mais simpáticos deles todos. 






  

20 janeiro 2020

é desta que ganho um óscar!



Este livro, e este elenco de apresentadores - e eu aqui, no outro extremo da Europa.
Se não é desta que me dão o óscar da insularidade, sinceramente, não sei quando é que vai ser.


(sim, podem ter pena de mim)

(ainda por cima: o livro é mesmo bom!) (se querem saber a minha opinião, claro) (que é esta: apresenta cada um dos acontecimentos no contexto da época e das relações de forças, desenhando com clareza a trama que nos ajuda a descortinar a História, e mais ainda: consegue fazê-lo num registo simultaneamente simples e inteligente)


faz hoje três anos

O facebook lembra-me o ataque de masoquismo que me levou a assistir à tomada de posse de Trump, faz hoje três anos. Não é que tenha grande interesse, mas como diz que o blog é um diário, aqui fica o registo:


Trumpeta do Apocalipse
(José Bandeira/DN)


 The other 98%



20 de janeiro de 2017 às 17:19

Acabei de me meter no masoquismo: transmissão em directo.
Vi os filhos do Trump a entrar em cena.
Diz que o filho mais novo tem autismo, pelo que não vou fazer qualquer comentário sobre o seu comportamento.


20 de janeiro de 2017 às 17:40

O Matthias veio aqui, e disse que estou a perder tempo. Pode ser, mas não consigo desligar e ir fazer outra coisa. Pareço hipnotizada. O coelho perante a cobra.
(Esperava que o Trump trouxesse uma cartola de onde sairiam passarinhos do Twitter, mas não, parece que não vai haver efeitos especiais.)


20 de janeiro de 2017 às 18:00

Até agora, ainda só vi cinco pessoas de pele escura. Já estou a incluir os Obamas.
Adenda: afinal vi seis.


20 de janeiro de 2017 às 18:05

aaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
O discurso do Trump
aaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiii 


20 de janeiro de 2017 às 18:28

A pobre Jackie Evancho está tão nervosa!
Bolas, que impressão me está a fazer.


20 de janeiro de 2017 às 18:30

Acabou.


20 de janeiro de 2017 às 18:39

Ai, a cara do Obama!
"gute Miene zum bösen Spiel"...


20 de janeiro de 2017 às 18:42

Agora estou a assistir ao mesmo, mas com comentários da ARD.
Uma pessoa precisa de se sentir um pouco mais acompanhada.
(Hei! estão a entrevistar jornalistas no mundo inteiro! que disparate! então não ouviram? make America great again! a que propósito é que a ARD se dá ao trabalho de querer saber o que outros países estão a pensar?...)


20 de janeiro de 2017 às 18:47

Lá se vai o helicóptero do Obama.
Já estou com saudades.


20 de janeiro de 2017 às 19:04

O chat dos jornalistas ao lado da transmissão em directo do New York Times é o máximo.
Por exemplo:
Alan Rappeport
Washington Correspondent
12:15 PM ET

Trump says that the military, law enforcement and God are protecting the American people.
Jon Meacham
Presidential Historian
12:15 PM ET
Does God know that?


20 de janeiro de 2017 às 19:18

Obama a discursar agora.
"A Democracia não são edifícios e monumentos, a Democracia somos todos nós."
"Isto não é um ponto final, é uma vírgula"
(onde foi isto?)
Adenda: “This is just a – this is just a little pit stop. This is a – this is not a period, this is a comma in the continuing story of building America.”


20 de janeiro de 2017 às 19:30

Amendoins, que nojo.
Maine lobster and Gulf shrimp with saffron sauce and peanut crumble, followed by grilled Seven Hills Angus beef with dark chocolate and juniper juice, accompanied by potato gratin.


20 de janeiro de 2017 às 19:47


A oração antes da papinha não acaba?
Se eu fosse a cozinheira, já estava a mandar vir. Os amendoins ainda vão arrefecer, depois não prestam para nada.
(Nestes momentos lembro-me sempre do comentário de um amigo sobre umas férias no Douro, na casa de um padre:
"tinha de rezar antes de comer, mas valia a pena")


20 de janeiro de 2017 às 19:57


Ai! Já são oito da noite?!
Como o tempo passa!
Vou ver o noticiário, para saber se aconteceu alguma coisa importante hoje.
Até já.


20 de janeiro de 2017 às 23:46

O cúmulo do masoquismo, hoje, é ir ver a tomada de posse do Obama em 2009.
Agarrem-me! que estou capaz de me desgraçar...


19 janeiro 2020

Goebbels, Lohengrin e Hitler



Há tempos vi numa exposição sobre "arte degenerada", em Berlim, a ordem de um responsável nazi para banir as obras de um determinado pintor do espaço público. O que mais me chocou naquele texto: os argumentos eram iguais aos que tenho ouvido no Brasil de Bolsonaro quando se fala da Educação e da Cultura. Infelizmente não fotografei aquele documento, mas deixo uma pista: procurem documentos nazis de perseguição aos artistas daquele tempo, e vejam os paralelos com o actual discurso do poder no Brasil. Será coincidência, ou estratégia deliberada para usar uma receita que por volta de 1930 teve sucesso na Alemanha?

No vídeo acima, o secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, entretanto demitido, cita Goebbels ao anunciar novas perspectivas para a arte brasileira (que não "do Brasil"). Usando a transcrição da Deutsche Welle:

"A arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada".

No seu discurso, Goebbels disse: "A arte alemã da próxima década será heróica, será ferrenhamente romântica, será desprovida de sentimentalismo e objectiva, será nacional com um grande pathos e será ao mesmo tempo imperativa e vinculante – ou não será".

Heróica, nacional, imperativa, vinculante - ou então não será. 
(Ou então não será. Olá, totalitarismos, como têm passado?)

O plágio suscitou uma onda de protestos que levou à demissão do secretário.

[ADENDA: informaram-me que a demissão "não resultou dos protestos dos opositores do Bolsonaro, mas da pressão de judeus que o apoiam, e em especial da manifestação de desagrado do embaixador de Israel no Brasil, como foi brevemente noticiado numa coluna política da Folha de S.Paulo (Monica Bergamo). Acho importante ressaltar isso para não nos iludirmos em relação à pressão das forças democráticas, que têm sido tímidas e, quando se manifestam, não costumam ter algum sucesso." ]

Ainda tentou defender-se dizendo que não sabia da coincidência, e uma pessoa até se sentiria tentada a acreditar, não fosse o modo como a sua comunicação foi encenada, e muito particularmente o acompanhamento musical com o famoso prelúdio de Lohengrin. Os distraídos dirão que é apenas uma música muito bonita, mas seria interessante explicar porque é que um político brasileiro escolhe música alemã para falar do futuro da Arte brasileira. Não haverá no Brasil nenhum compositor de música "heróica, nacional, imperativa e vinculante"? Ou será que a escolha do Lohengrin para acompanhar uma comunicação onde se plagia Goebbels foi tudo menos coincidência?

Um estudo da universidade Ludwig Maximilian, de Munique, sobre a História da Bayerische Staatsoper entre 1933 e 1963, tem um capítulo sobre o Lohengrin, onde se analisa com maior detalhe o modo como os nazis se serviram de Wagner para a sua propaganda. Mais uma vez, ao ler aqueles textos da época nazi, encontrei paralelos com certos discursos presentes no Brasil actual - nomeadamente a confiança em Bolsonaro como líder enviado por Deus.

Muito resumidamente, o estudo diz o seguinte:

"Para a terra alemã, a espada alemã" - Lohengrin como peça de propaganda

Por ordem pessoal de Hitler, a ópera Lohengrin destinava-se a ser o projecto central e de maior prestígio nas "Jornadas da Arte Alemã" realizadas em Munique em 1938. A escolha não surpreende: esta peça era uma das favoritas em eventos importantes dos nazis porque se centra na figura de Lohengrin, o líder enviado por Deus. Mais ainda: em Bayreuth foram trocadas frases do original, para passar uma mensagem ideológica mais favorável aos nazis, e no programa da apresentação em Munique havia uma página onde, juntamente com a fotografia de Hitler, se via esta passagem da ópera: "se bem reconheço o poder / que te trouxe a esta terra / foste-nos enviado por Deus."

Um outro elemento que justifica o interesse desta ópera para os nazis é a referência a Henrique I. Este rei, fundador da dinastia que deu  início ao I Reich, foi apropriado pelo culto nazi que estabelecia uma ponte entre esse primeiro império e o III Reich. Um exemplo: em 1936 Heinrich Himmler mandou desenterrar as ossadas de Henrique I, que morrera em 936, para serem transladadas com grande pompa e impacto mediático para Quedlinburg. A ópera de Wagner junta esse primeiro império histórico, na pessoa do rei Henrique I, e o futuro "Führer" dos povos alemães, directamente legitimado por aquele - o que permite facilmente interpretar a peça segundo uma lógica nazi.

Hitler esteve, como é óbvio, presente na première, no dia 9 de Julho de 1938. No final da ópera, o público "uniu-se num aplauso de agradecimento ao Führer, que do seu lugar por várias vezes ergueu o braço em saudação".

Os jornais festejaram entusiasticamente o evento, e também o apoio financeiro recebido de Hitler. "A interpretação [...] de que a Arte é uma irmã do heroísmo também explica a posição de Adolf Hitler em relação a Richard Wagner. Adolf Hitler abriu o caminho para que o valor de Wagner chegasse aos corações de todo o povo. A grande ajuda financeira que deu à Ópera de Munique para permitir a nova produção, baseada no compromisso de um generoso mecenato, fez também da causa de Bayreuth um assunto do Estado."

O director da Ópera de Munique, por sua vez, comentou:

"O Povo e a Arte são dois conceitos tão fortemente inter-relacionados que um não deveria ser pensado sem o outro. Toda a criação artística deve, de alguma forma, ter a sua origem no povo para poder perdurar, e cada povo, por sua vez, torna-se mais consciente do seu próprio valor quando o mede pelos valores das obras de arte que produziu. Esta relação estreita e ideal entre o Povo e a Arte é passível de um especial desenvolvimento no caso específico das terras alemãs. De acordo com o desejo e a vontade do Führer, todos os que trabalham no campo artístico devem lutar com seriedade e devoção fanática para cumprir a tarefa de levar o Povo a conquistar a Arte e a Arte a conquistar o Povo."

A encenação feita em 1938 contribuía também para a causa nazi: o cenário era mais abstracto que o de Bayreuth e tinha vários elementos simbólicos que sugeriam solidez e perenidade. No guarda-roupa notava-se a tendência germanizante, muito estilizada e omissa de referências históricas. Lohengrin, o radioso herói loiro, trazia um símbolo de águia sobre o peito. Por seu lado, um soldado em uniforme da época nazi e capacete de aço simbolizava a disponibilidade do povo para defender o país, que já está presente de forma inequívoca no libreto de Wagner: "para a terra alemã, a espada alemã /  assim fique demonstrado o poder do império".

No contexto da estreia deste Lohengrin, um jornal enquadrava estas frases de Wagner do seguinte modo: "Wagner coloca o surgimento de Henrique I, fundador do império, no mundo místico. Como símbolo de factos históricos, o rei relaciona-se com as preocupações centrais de Wagner, presentes no núcleo mais profundo desta tragédia: Henrique, 'o rei alemão', em cujo exército Lohengrin se ergue como 'protector no Brabante', [....] ergue-se acima do mundo aparentemente intransponível, como uma figura neutra, por assim dizer, em cuja boca Wagner põe as palavras que insinuam a subtileza da trama e criam a condição prévia para a profecia de Lohengrin: 'Nos dias mais longínquos / do Oriente, nunca as hordas porão os pés na Alemanha!' " A relação entre o povo e a figura de Lohengrin, o Führer supremo enviado por Deus, era interpretada pelo jornal deste modo: "O filho de Parsifal vem ao mundo para lhe oferecer a salvação. Mas essa salvação tem um preço: confiança inquestionável".

Essa mesma confiança inquestionável no Führer foi uma condição básica do Estado nazi - que se revelou fatal.