26 Setembro 2014

quem não tem cão, caça com outro cão

Na Filarmonia de Berlim anda agora um ciclo Brahms + Schumann: as primeiras sinfonias dos dois, as segundas, etc.
E eu a vê-las passar, aqui em Lisboa e trabalhando de sol a sol. De sol a lua, melhor dizendo, que é o que acontece a quem se mete a trabalhar com portugueses.



Adiante. Quem não tem cão, descobre outro cão igualmente bom para tratar de ser feliz.
Consegui alforria temporária da senzala para ir amanhã  ao concerto do Artur Pizarro na Gulbenkian. Caso algum dos amigos que por aqui passa vá também, sugiro que a seguir vamos beber uma cervejinha espontânea juntos.
Alguém quer?


24 Setembro 2014

ínclita geração

Um sobrinho meu ganhou ontem o primeiro prémio para matemática do  European Union Contest for Young Scientists. Às vezes olho para a minha família e suspeito que é uma espécie de ínclita geração. (Eu sou o D. Fernando, o que ficou retido no estrangeiro)




22 Setembro 2014

cozinha de imigrante



Finalmente, aqui vai o último episódio da famosa cozinha. Melhor dizendo: o mais recente.
Agora é que tudo começa: estou ansiosa pelos próximos episódios, quando esta sala se encher com os risos e as conversas dos melhores amigos.

(É tão bonita, que acho que vou arranjar um fogão de campismo, uma bacia de plástico e um toldo, e vou cozinhar na varanda...)

(Não é aquilo que se chama funcional - o triângulo, o da esquerda para a direita, o sei lá. Mas deixem-me que vos diga: a funcionalidade está overrated.)

(Adoro a altura da zona de trabalho. Como é que aguentei mais de vinte anos da minha vida a trabalhar curvada?)

(Se tiverem sugestões para cadeiras, cámone yes. Mas que sejam extremamente confortáveis, e muito baratas. Estamos completamente, enfim, com certeza imaginam.)

(Agora vou trabalhar para Lisboa um mês, depois volto, e vamos pôr quadros nas paredes, e pensar numa estante para os CDs, e mais os focos de luz, e assim. Sempre a sonhar.)









 





 
 


(esta última é uma gracinha: as tomadas eléctricas - eu imaginei tomadas eléctricas no lados do bloco, mas na fábrica acharam que ficava parolo, e fizeram esta coluna encastrável)


É uma cozinha portuguesa, com certeza. Tenho o gosto de apresentar os seus autores:
- Gonçalo Araújo, meu irmão - a quem agradeço a ideia genial e mais toda a paciência que usou para me convencer.
- De Pau - Indústria de Mobiliário - são fantásticos. E mais não digo. Excepto que, bem feitas as contas, não ficarão assim tão mais caros que a IKEA. 


será só fumaça dentro daquelas cabeças, ou andam a tentar atirar-nos areia para os olhos?

Tenho acompanhado o debate sobre a Lei da Cópia Privada, sobretudo no blogue da Maria João Nogueira. Sinto uma grande admiração por esta mulher, por muitos motivos, e também pelo modo empenhado e sério como tem estado neste debate. Em vez de se lamentar em conversas derrotistas de café, parte para a luta, e mostra-nos que é possível, como cidadão, participar no árduo trabalho quotidiano da Democracia.

Graças a ela descobri hoje um texto tão divertido quanto brilhante sobre esta questão, que copio para aqui (volta e meia, gosto de abrilhantar este blogue). Se, depois de textos como este e os do Jonasnuts, o pessoal continuar a insistir que é preciso pagar esta taxa, o melhor é pedir à OMS que mande para Portugal equipas de emergência de Psiquiatria, porque vai por lá uma epidemia de autismo.

Segue-se o post do Marco Santos (roubado daqui):


LEI DA CÓPIA PRIVADA: O FUMO DE INÊS PEDROSA

Nuno Ferreira Santos
Inês Pedrosa fotografada por Nuno Ferreira Santos
Os fumos da polémica em torno da Lei da Cópia Privada, agora entregue pela Secretaria de Estado ao Parlamento, resumem-se ao genérico «Não pagamos!» – urro de egoísmo que, nesta sociedade em rede de malhas trôpegas e costas largas, passa por acto de cidadania.
Ah, o respeitocrónica de Inês Pedrosa no semanário Sol
Cara Inês Pedrosa, não urramos um genérico «Não pagamos!», mas um concreto «Já pagámos!»
Mesmo para trôpegos de costas largas, é difícil compreender que se tenha de pagar outra vez pelo direito à utilização legal do que já se comprou.
Resumindo: esta lei deixa-me copiar, para uso privado, obras que eu já comprei. Sei bem o que digo, pois tenho aqui gravada a música de mais de três mil discos-compactos copiada da minha estante para o computador.
O meu problema é perceber em que medida as cópias que fiz dos discos dos Pink Floyd, por exemplo, causam prejuízo ao José Cid. Como se calcula a compensação que o autor de «Como o macaco gosta de banana eu gosto de ti» deve receber pela cópia privada de «Another Brick in The Wall»?
Como se faz as contas ao prejuízo?
Uma pista: não é através da Matemática ou da Lógica.
Outro exemplo, perdoe-me o egoísmo: como se calcula a atribuição desta compensação no caso dos cidadãos produtores de conteúdo? Um pai de família que usa um telemóvel de última geração para fotografar os seus bebés e guardar os orgulhosos ficheiros num disco rígido, deve pagar porquê – e a quem?
Como se calculam estas contas se não há artista a quem atribuir a origem da cópia?
Uma pista: não é através da Matemática ou da Lógica.
Terá a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) de compensar todos os artistas que escreveram canções sobre relações familiares? Talvez o Tony e o Mikael Carreira possam beneficiar das fotos tiradas por esse pai de família, uma vez que até fizeram uma canção chamada «Filho e Pai».
A quem devem os adolescentes das redes sociais pagar pelas «selfies» que tiram? Ao já mencionado José Cid, por ter tirado a mais célebre de todas?
(Desculpe, Inês, não era minha intenção transtorná-la com aquela foto – costumo usá-la como firewall para o blogue.)

Demasiado fumo. Que tal aclarar a garganta?

As dúvidas sobre a forma como se calculam tais compensações levam-me a pensar que tais perguntas são irrelevantes. A intenção é salvar economicamente associações representativas dos autores em nome da evidência que a Inês refere: «sem autores não haveria música, nem filmes, nem qualquer forma de criação».
Felizmente para todos os autores que não estão inscritos, sem SPA continuaria a haver música, filmes ou qualquer outra forma de criação.
Se querem subsidiar a Cultura, façam-no com os impostos que nós, os trôpegos, já pagamos; não criem mais um só porque este Governo pensa que solidariedade social se faz transformando Portugal num país de Pirilampos Mágicos.
Tenho inspirado esses fumos da polémica todos os dias e concordo com a analogia que escolheu: os fumos impedem-nos de ver o que está diante do nariz.
No caso da polémica a que se refere e da falsa associação entre cópia privada e combate à pirataria, creio que até se poderá falar em gás de trincheira, fumos lançados por associações como a SPA com o propósito de envenenar a opinião pública mal informada – e a própria Inês, lamento dizer –, impedindo qualquer discussão saudável sobre o assunto.
Não admira por isso que os que estão contra esta taxa façam questão de frisar «o respeito» que devem aos autores e que a Inês classifica como falso e hipócrita: se não encherem a boca com essa palavra, correm o risco de serem acusados de defender a pirataria e querer levar os autores à ruína.
Nunca esteve numa situação em que se viu obrigada a repetir o óbvio perante um interlocutor galacticamente obtuso? Eu sinto-me assim sempre que alguém me acusa de servir o lóbi tecnológico, ignorando o facto de esta taxa dever a sua existência a um lóbi muito mais antigo e eficaz.
A cultura nada tem a ver com isto, cara Inês. A cultura de que fala o senhor Secretário de Estado não é mais do que o manto da invisibilidade que Harry Potter usa para disfarçar as suas verdadeiras intenções.
Compreendo e aceito o uso genérico da palavra «respeito» por parte de alguns opositores à Lei da Cópia Privada, mas obviamente não concordo. O meu respeito pelos autores é conquistado pelos próprios, pelo que fazem e criam, não está sujeito a taxas nem ao julgamento dos cronistas. Os autores são cidadãos como eu e o respeito deve ser recíproco.
Aos autores que gosto e mudaram a minha vida para melhor – excluo dessa lista a J.K. Rowling, já agora -, eu pago com palavras, bilhetes e, sempre que posso, dinheiro. Mas não consigo respeitar um músico que me insulta os ouvidos, um escritor de tretatologias epistemológicas ou artistas que se julgam os únicos juízes da modernidade.
Claro que isto nada tem a ver diretamente com a Lei da Cópia Privada, serve apenas para demonstrar o seu pobre entendimento do nosso «respeito».
A sua crónica, lamento dizê-lo, cheira ao mesmo gás de trincheira com que a SPA procurou envenenar a opinião pública.
Como se pode levar a sério o protesto de um cidadão carregado de impostos que ao insurgir-se contra um imposto disfarçado se vê reduzido a um estereótipo? Por outras palavras, como se pode conversar com trôpegos de costas largas que urram na rede, pessoas que não são consumidoras mas mero instrumentos do lóbi dos eletrodomésticos?
Resposta: não se conversa, manda-se taxar. Não existem problemas morais em extorquir aqueles a quem se nega a existência.

21 Setembro 2014

a Ucrânia da nossa ignorância



Há dias falei com uma pessoa que trabalha numa editora alemã como especialista em literatura do antigo bloco de Leste - e em particular da Ucrânia. Um dos seus projectos mais recentes foi o livro "Euromaidan": em pleno inverno quente na Maidan, ela encomendou análises da situação a especialistas das ciências sociais, e testemunhos in loco sobre esses momentos aos escritores ucranianos.

Contou imenso sobre o país e a situação actual. Contou como a região fronteiriça foi asfixiada - tão simples: um dia, as porteiras dos prédios deram lugar a homens mal-encarados de Kalaschnikov ao peito; no dia seguinte, apareceram controles nas ruas; depois, começaram a desaparecer pessoas; paramilitares perseguiam, agrediam e torturavam os cidadãos. As forças de segurança do Estado, arrastadas na derrocada do sistema Janukowytsch, deixaram de funcionar, pelo que não havia nenhum número de emergência para onde ligar a pedir ajuda. As empresas começaram a fechar, as pessoas fugiram como puderam. Contado assim, parece que é muito fácil matar cidades.

Não compreende o desinteresse e a ignorância dos europeus. Quase ninguém sabe nada sobre aquele país, mas muitos insistem em tiradas assertivas.

Foi a minha deixa, para testar certas opiniões que já ouvi sobre a crise da Ucrânia: que a culpa é da Alemanha e da Polónia, porque provocaram o Putin indecentemente (ela riu-se: é que eu ouvi isto a um político do PSD, e ela costuma ouvi-lo aos deputados dos Linke), ou que será uma tramóia muito maior do que podemos imaginar, com epicentro em interesses económicos americanos.
A sua resposta: quanto menos as pessoas sabem da Ucrânia, melhor se podem servir desta crise para reafirmarem a sua agenda ideológica. O ideal seria que se informassem sobre o país, a sua história e a sua sociedade, em vez de se limitarem a projectar as suas certezas ideológicas no vasto espaço da própria ignorância, para concluirem aquilo que queriam concluir.

E insistiu: vão conhecer a Ucrânia.

E nós, que nos rimos tanto dos americanos que escrevem Lisbon-Spain, que sabemos nós da Ucrânia? Nós, que criticamos tanto o modo com a Alemanha ignorou os imigrantes turcos há 50 anos, como acolhemos os ucranianos que vieram trabalhar para Portugal? Que quisemos aprender sobre o seu país e a sua cultura? Sabemos o nome de algum escritor ucraniano? (Fui procurar no google - não consegui encontrar nenhum romance de um ucraniano traduzido para português, mas em compensação encontrei imensas páginas a informar que o Evangelho do Saramago foi traduzido para ucraniano. Ah, bom, é o que interessa.)

Calhou de esta conversa ter coincidido com o referendo da Escócia, e com o desapontamento por parte daqueles que estavam gulosamente à espera de uma crise na Europa. Para dar uma ensinadela e Bruxelas e Estrasburgo...
Não entendo essa Schadenfreude em relação à Europa. Estamos rodeados de países em dolorosas convulsões, por estarem muito longe daquilo que já conseguimos construir, e nem assim aprendemos que um Estado democrático forte e estável é algo muito frágil, que exige vigília e trabalho quotidianos. O nosso único caminho é uma Europa mais forte e mais democrática. Há muito trabalho para fazer, e é para ser feito por nós todos, numa atitude de exigência construtiva.


20 Setembro 2014

quando for grande, acho que vou ser um rapazinho de cinco anos feliz por ver um tractor...

Vieram entregar o armário para os contentores do lixo:


 
 
 

(Tem estado uma semana terrível, um sol que parece Verão! Eu bem rezo para o São Pedro mandar para cá a chuva que anda a largar em Portugal, mas ele deve estar a gostar muito de se rir de mim. O melhor é deixar as rezas e, plano B, ir regar a relva.)


17 Setembro 2014

Grândola em Berlim

Sábado à noite partimos para, como dizia o nosso anfitrião, "uma graaaande aventura! uma viagem pela geografia dos vinhos!"
Partimos, é como quem diz: eu tinha de levar o carro para casa, pelo que me deixei ficar pela Itália: copito e meio de prosecco. Os outros largaram à desfilada: Itália, França, Espanha, e ali para os lados da África do Sul começaram a cantar canções revolucionárias das terras deles.
Em algum momento havia de sobrar para mim, e estava para lhes cantar as "Trovas do vento que passa", ou o "Não há machado que corte", para lhe mostrar que enquanto outros países fazem a Revolution nós cá, os portugueses, fazemos a Revoluschön, mas o Joachim disse "então vamos cantar o Grândola", e começou logo.
Ficaram muito impressionados - convenhamos que não é difícil impressionar viajantes de etílicas viagens, quando a jornada já lhes vai longa - e daí a pouco vinha um convite para outra aventura: daqui a umas semanas vai haver em Berlim um encontro sobre não sei quê, o futuro da Europa e assim, e era giro eu aparecer lá a cantar o Grândola, para lembrar aos políticos europeus a essência que deve orientar o seu agir, e tal (penso que por essa altura já iam na Austrália).

Agora só tenho de perguntar qual era o nome do prosecco que bebi, e beber copito e meio antes de começar a aquecer a voz, e perguntar o nome dos vinhos todos que eles beberam, para servir aos políticos europeus, e tudo há-de correr o melhor possível. Só não sei é se no day after ainda se lembrarão do que lhes quis ensinar sobre a Europa...

**

Como sempre, estou quietinha no meu cantinho, e Deus lembra-se de despejar silos inteiros de nozes para cima de mim. Não me queixo, não me queixo, e até já ando a treinar a segunda voz do "como se fosse a Primavera", pelo sim pelo não. É que, por este andar, quando menos esperar ainda dou comigo a cantar em dueto com o Chico Buarque, e convém estar preparada para essa eventualidade...


eu a adivinhar o futuro

Estava capaz de apostar que este bocadinho da Islândia





daqui a uns tempos vai estar mais ou menos assim:




Uma vez passei por aquela estradinha, do lado esquerdo da fotografia, e fiquei deslumbrada com a paisagem: como a grande muralha da China, mas sem escadas, e mais irregular.

O vulcão Barbapapa, ou lá como é que se chama, que trate de se acalmar rapidamente, que eu estou muito curiosa para saber se ganhei a aposta.

(Espero que esse futuro não demore alguns milhares de anos, não sei se me vou conseguir aguentar tanto tempo.)


16 Setembro 2014

dizer liberdade





(fotos e notícia: aqui, em inglês)


Na semana passada, numa escola de Moscovo, um aluno foi repreendido por ter aparecido com uma t-shirt American Eagle. Que era propaganda americana, e tal. O aluno falou com os amigos, e no dia seguinte apareceram todos vestidos com as cores da bandeira ucraniana. Que ninguém se lembre de lhes dizer como é que se devem vestir.
"I cannot believe – they are growing to be citizens, not just members of the population", comentou uma das mães.


15 Setembro 2014

coucou



O meu sogro adorava Django Reinhardt. Acho que tinha todos os discos vinil dele. Onde será que foram parar? Bem jeito nos davam agora, porque finalmente temos um gira-discos bom. Tem sido uma festa, ouvir as músicas da nossa adolescência. De momento andámos pelo Breakfast in America. Tão bom sentir ecoar dentro de nós esses que fomos aos quinze anos!


oh gentes aprendei a dançar





Oh gentes aprendei a dançar, pois de contrário no céu os anjos não saberão o que fazer convosco.

Santo Agostinho



Para rematar uma extraordinária entrevista que o João Botelho deu ao Sol. Termina assim:


O facto de ter sobrevivido a um cancro deixou-o com mais medo de morrer?
Nada. Ainda ontem tive uma discussão com o Luís Miguel Cintra. Ele queria-me convencer a voltar à Igreja Católica, porque estamos todos a morrer. E eu disse-lhe: 'Oh Luís Miguel, já fizeste tantas coisas boas, qual é o teu problema?'. O meu sonho é morrer atropelado numa passadeira, assim de repente. Ou ter um AVC numa noitada. Tudo o que for de repente é bom. A única coisa que me chateia é precisar de ajuda. Isso não quero, mais vale o suicídio. Não poder dançar seria uma chatice. Ainda hei-de dançar de cadeira de rodas. 

13 Setembro 2014

o regresso do senhor Oreste

(foto)

(foto)

Lembro-me bem da mercearia do senhor Oreste na aldeia da minha avó. Tinha todos os produtos a granel, e as pessoas pediam "275 gr de arroz" e "um naco de sabão rosa". O arroz era pesado dentro de um pacote de papel grosso, o sabão era cortado na guilhotina (esqueci-me de reparar se era a mesma guilhotina do bacalhau). As conversas ao balcão, as gargalhadas, "hoje o meu home tomou banho e fez a barba, fuosca-se que está que parece um cuzinho de menino", "jazus, mulher, tu que estás a fazer aqui na benda? bai é aprobeitar, caraites!", "ai bou, bou, carailhos me fuadam se não bou, que ele está mesmo a pedir que lhe façam cócegas!"

Lembro-me quando começaram a vender o óleo e as massas em embalagens de plástico, e começaram a usar latas de conserva. Na casa da minha avó surgiu um problema novo: o que fazer com esse lixo? Até então, as cascas e os restos de comida eram para os porcos ou as galinhas, o papel era queimado na lareira onde havia sempre uma fogueira (para cozinhar, para ter água quente), as garrafas de vidro davam jeito para engarrafar o vinho e o azeite.

Uns anos mais tarde abriram supermercados na aldeia da minha avó. Self-service, com todos os produtos exageradamente empacotados. Sem pessoal a servir, nem conversas ao balcão. Por essa altura já a aldeia se tinha organizado para recolher o lixo.

Hoje abre em Berlim um supermercado sem embalagens. As pessoas levam as suas próprias embalagens reutilizáveis. A ideia ocorreu a duas amigas de 24 e 30 anos, no fim de um belo jantar com uns copitos de vinho e um caixote de lixo cheio. Fizeram projectos e contas, divulgaram na internet, e em meia dúzia de dias receberam 70.000 euros em donativos para se lançarem nesta aventura. Curiosamente, a ideia de uma loja sem embalagens já me tinha ocorrido em 1991. Não tinha ainda 30 anos, estava muito infeliz no meu emprego e a pensar no que havia de fazer com o resto da minha vida. Mas, vejo-o agora, naquele momento faltou-me a amiga e os copos de vinho certos.


(foto)

Espero que o projecto delas corra bem, e abram um supermercado aqui perto de casa, porque a maior parte do lixo que produzimos são embalagens - em Berlim, são 76 mil toneladas por ano.

Mas o melhor, o melhor de tudo, era se o senhor Oreste voltasse, com os seus sacos enormes pousados no chão e a sua guilhotina, e as mulheres em conversas alegres ao balcão. Talvez seja esse o verdadeiro nicho de mercado: uma mercearia onde se vai estar com as pessoas do bairro, e se aproveita para fazer as compras sem poluir ainda mais o nosso mundo.


12 Setembro 2014

voulez-vous danser avec moi?

Dizia um músico que entrevistámos em Yerevan que em África, quando tocam Komitas, as pessoas começam a dançar.

(Em África, e em Berlim.)


 


o império contra-ataca

Das Imperium schlägt zurück.

 
Die Sanktionen Russlands gegen Amerika und Europa  werden die Welt erschüttern. Das Land verzichtet auf Import von Autos, Lebensmittel, Klamotten und Medikamente. „Wir werden zu Fuß  laufen, nackt und hungrig. Soll sich die Welt schämen!“  Ein alternativer Lebensentwurf  zeigten bereits Donezker Patrioten:  Uniformen tragen, Armeekonserven essen und Panzer fahren.

Do blogue do Wladimir Kaminer. Tradução:

As sanções da Rússia contra a América e a Europa vão abalar o mundo. O país prescinde da importação de automóveis, bens alimentares, roupas e medicamentos. "Vamos andar descalços, nus e esfomeados. Para que o mundo tenha vergonha!" Os patriotas de Donetsk já exibem um estilo de vida alternativo: usar uniforme, comer conservas do exército e andar de carro de combate. 


11 Setembro 2014

vocês desculpem, mas (a propósito de 11 de Setembro)




Vocês desculpem, mas quase sinto vergonha de lembrar o 11 de Setembro de 2001 porque, a cada ano que passa, mais nítida se vê a torpeza do aproveitamento mediático daquela tragédia, com o objectivo de criar uma janela de oportunidade para baralhar e dar de novo no jogo estratégico do Médio Oriente. Pobres vítimas do 11 de Setembro: a vida foi-lhes ceifada pela al-Qaeda, e a memória foi-lhes conspurcada pela máfia que se apoderou dos presidentes dos EUA.

Por estes dias fala-se muito do modo como o Estado Islâmico sabe criar realidades e imagens com o objectivo central de chocar os americanos, simplifiquemos assim, e discute-se se os meios de comunicação social ocidentais devem fazer o jogo deles. Oh, cambada de virgens! Não se terão apercebido que os do Estado Islâmico são simplesmente bons alunos? Observaram com atenção as televisões americanas no dia 11 de Setembro de 2001, a passar repetidamente imagens dos que saltavam das torres - especialmente aquele casal que saltou de mãos dadas -, e logo a seguir imagens de arquivo de um grupo de palestinianos em festa. Examinaram o fenómeno da manipulação dos povos a partir da gestão das notícias e das imagens, talvez até me tenham ouvido falar de quando vivíamos em San Francisco e, algumas semanas depois do 11 de Setembro, cancelámos a assinatura do jornal e arrumámos a televisão na cave, para podermos voltar a ser gente normal, sem deixar que o medo nos tolhesse os valores e o distanciamento que permite um olhar crítico.



 

Os nomes das vítimas do 11 de Setembro nos EUA estão inscritos num memorial no Ground Zero, organizados não por ordem alfabética, mas numa comovente rede de afectos. Tudo se sabe sobre essas 2.977 vítimas, os seus familiares, os seus sonhos cerceados, o seu heroísmo. Quanto às outras vítimas do 11 de Setembro, por exemplo as dezenas de milhares de iraquianos, tantas que já ninguém se dá sequer ao trabalho de as contar, não se lhes conhece o nome e as circunstâncias.

Por isso me envergonho de lembrar o 11 de Setembro de 2001, e de repetir as imagens cada vez mais transformadas em toques de sineta para fazer de nós cães pavlonianos. Porque nos mostram estas imagens? E nós, a salivar: salivamos ao serviço de quem?

Parte da resposta a esta pergunta pode vir de um 11 de Setembro anterior, noutro continente. Como dizia um amigo meu esta manhã, no facebook:

Há 41 anos, o Chile amanheceu banhado em sangue, para que os ricos pudessem continuar ficando mais ricos.




A Salvador Allende en su combate por la vida


(Pablo Milanés)
Qué soledad tan sola te inundaba
en el momento en que tus personales
amigos de la vida y de la muerte
te rodeaban.

Qué manera de alzarse en un abrazo
el odio, la traición, la muerte, el lodo;
lo que constituyó tu pensamiento
ha muerto todo.

Qué vida quemada,
qué esperanza muerta,
qué vuelta a la nada,
qué fin.

Un cielo partido, una estrella rota,
rodaban por dentro de ti.
Llegó este momento, no hay más nada
te viste empuñando un fusil.

Volaba,
lejos tu pensamiento,
justo hacia el tiempo
de mensajes, de lealtades, de hacer.

Quedaba,
darse todo al ejemplo,
y en poco tiempo
una nueva estrella armada
hacer.

Qué manera de quedarse tan grabada
tu figura ordenando nacer,
los que te vieron u oyeron decir
ya no te olvidan.

Lindaste con Dos Ríos y Ayacucho,
como un libertador en Chacabuco,
los Andes que miraron crecerte
te simbolizan.

Partías el aire, saltaban las piedras,
surgías perfecto de allí.
Jamás un pensamiento de pluma y palabra
devino en tan fuerte adalid.
Cesó por un momento la existencia,
morías comenzando a vivir.
(1973)


10 Setembro 2014

fronteira de luz - para comemorar os 25 anos da queda do muro





(aviso aos amigos que vivem no Porto: a Ryan Air já vai estar a voar para Berlim nessa altura)


2 + 2 (um post preguiçoso)

Duas citações (que tirei do folheto da Festa da Música de Berlim):

- Tradição é a transmissão do fogo, e não a adoração das cinzas.
  Gustav Mahler

- Depois de um concerto, às vezes nem consigo falar. Não me ocorrem as palavras. É que nós não tocamos notas, tocamos sentimentos.
  Patricia Kopatchinskaja


Duas anedotas em estrangeiro, para me armar em poliglota:

- A German walks into a bar and asks for a Martini.
- Dry? the bartender asks,
and the German replies,
- No, just one!

- What comes between fear and sex?
- Fünf!

(Outro dia conto como, recém-chegada da Alemanha à Califórnia, arranjei de propor "sex" ao empregado da caixa de um Albertsons)


09 Setembro 2014

a quem puder possa...



Bem sei que se diz "a quem interessar possa", mas estou tão entusiasmada com o que inventaram para comemorar os 25 anos da queda do muro de Berlim que a questão que se me coloca já não é a do interesse, mas mesmo só a de poder.
A quem puder possa, portanto: como já aqui contei, este ano o muro de Berlim vai cair num domingo, e esse fim-de-semana mostra-se muito prometedor. Vão fazer um muro luminoso com uns dez mil balões, que no dia 9 serão largados no céu.

Esta cidade arranja sempre maneiras de olhar para a História com seriedade, mas sem se deixar subjugar pelo seu peso. O memorial do Holocausto é o melhor exemplo, e este muro que se ergue sobre as nossas cabeças e se desfaz em forma de luz também não está nada mal.

Em suma: aconselho vivamente a quem puder que trate de estar em Berlim de 7 ou 8 a 10 de Novembro.

(Imagens da proposta, neste vídeo)
(E até parece que me pagam para isto...)


16 milhões de Chicos Buarques



Postal do Brasil (e aqui deixo um conselho de amiga: espreitem regularmente este blogue):

"Sentados no chão, admirando a parede bege da lanchonette, tento introduzir o namorado francês às especificidades da língua brasileira - quem falou de português do Brasil? -  a urgência de gerundiar e a música das palavras. Começo com Jacarépagua, a moça da lanchonette, que evidentemente não tem máquina para pagamento com cartão trabalhando, vem de lá. Jacarépagua. Mandioca. Maracanã. Moqueca. Tentei-ligar-do-orelhão-mas-meu-cartão-estava-zerado.
Mas pegando numa palavra neutra, sem carnaval à mistura : boca. Experimenta dizer boca com sotaque de telenovela da Globo. Boca. São testoteronas pop ups por todo o lado, uma explosão de sensualidade que não acaba mais, uma pessoa mergulha na palavra boca e já corre o risco de fazer o terceiro filho, ali. Na hora. Agora experimenta dizer boca na língua da ex-metrópole, na linhagem directa de Camões : boca. Verdade que fica logo ali um gostinho de repartição de finanças a pairar.
Não tenho a certeza que tudo se possa importar. Existem sons que aqui ganham um novo significado. Acreditem se quiserem, mas de repente é como se houvesse 16 milhões de Chicos Buarques. Posso estar a exagerar."

***

Há uns anos largos estava a comentar com amigos que "adoro o que os brasileiros fazem com a língua", e eles "aha, conta mais!", e eu "oh, parvos!"
Agora vem a Carla explicar que sim, que isto anda tudo ligado.
Já a Sophia, na sua época, se apaixonara por este fenómeno, mas em vez de enveredar pelos ímpios caminhos da carne, ficou-se pelos da flora. Outros tempos, outros tempos.


Gosto de ouvir o português do Brasil 
Onde as palavras recuperam sua substância total 
Concretas como fruto nítidas como pássaros 
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas 
Sem perder sequer um quinto de vogal 

Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro» 
O coqueiro ficava muito mais vegetal.


08 Setembro 2014

ainda sol

Quando nos sentíamos já a caminho do Outono, o sol surpreendeu-nos com um fim-de-semana radiante. Será que já sente antecipadamente saudades? Terá vindo pedir "só mais um bocadinho..." antes de partir para uma ausência de muitos meses?
Largámos tudo, e fomos.




Na Liebermann Villa, que é um museu privado tornado possível pela generosa participação de dezenas de voluntários, estavam a vender saquinhos de bolbos que davam direito a participar no sorteio de duas abóboras, mas só depois de espetarmos as cebolas na terra. Espertinhos, os voluntários: pagámos para fazer de graça o trabalho que custaria uma choruda factura de jardineiro. Não ganhámos a abóbora, mas deram-nos o segundo prémio, caramelos para todos, e um convite sorridente: "não se esqueçam de voltar cá na Primavera, para verem o resultado do vosso trabalho". Voltaremos, com certeza, e vou levar uma máquina fotográfica de jeito para fotografar os quadros do jardim do Liebermann, e depois o jardim propriamente dito, aposto que esta é a ideia mais original da década.









Também havia sol no karaoke do Mauerpark, e o habitual clima, muito berlinense. Vimos um grupo de miúdas que cantava muito mal mas tinha uma onda muito gira, e uma brasileira de Minas Gerais que deu um show fantástico. O Helmut, de Berlim, cantou Die Moritat von Mackie Messer a cappella, e cantou-a melhor que o Brecht propriamente dito, o que - aliás - não é difícil. Um outro trouxe uma canção como quem implora que o ajudem, e deu-me vontade de gritar com urgência "há algum psicólogo no público?", mas limitei-me a aplaudir com entusiasmo, como se faz para todos.





Depois fomos comer Waffeln à Oderberger Strasse. Na Kauf Dich Glüklich comprei uns óculos de existencialista, e fiquei igualzinha ao Jean-Paul Sartre. Pus esta fotografia no perfil do facebook, começaram a chover likes. No facebook gostam muito de mulheres com cara de intelectual.