24 março 2020

notícias da minha tranquilíssima aldeia



Há tempos senti alguma curiosidade de saber qual seria o som de uma cidade sem o ruído de carros. Agora já sei - e é estranho. O cenário é o de sempre -  casas, carros, casas, carros - mas sobre tudo há um silêncio entrecortado apenas por gritos de gaivotas. Fechando os olhos podíamos imaginar que estamos em férias numa aldeia costeira tranquila.

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Ontem alegrei-me ao ver duas crianças de bicicleta e um pai na rua até então desertíssima. Que bela música: "Papá! Papá! Olha, papá!"

Onde estarão todas as crianças deste bairro? Deviam deixá-las sair para correr em frente da porta de casa. Das 10:05 às 10:25 a família do 1º Esq., das 10:35 às 10:55 a família do 1º Dir., e por aí sucessivamente. Nós todos a sorrir à janela: a ver os miúdos brincar, aprender a andar de bicicleta ou de patins. Até nos esquecíamos de ir à cozinha comer qualquer coisa outra vez.

Por acaso, agora que penso nisso: porque é que se pode ir passear o cão e não se pode passear os filhos? Tomando, obviamente, todas as precauções para não chegar perto de ninguém e para não tocar nada.

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O meu coro vai recomeçar hoje os ensaios. Com o sistema de conferência zoom, cada um na sua casa.
Acabei de descobrir que me esqueci das partituras em Berlim...

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Hoje não preciso de ir ao supermercado. Tanto melhor! Ainda não me habituei àquelas coreografias de fuga pelos corredores: como se os outros tivessem peçonha.


23 março 2020

opção: ficar em casa

Em conversa com um amigo alemão quase deixei escapar que penso com pena nas minhas amigas portuguesas que por estes dias estão em casa com crianças pequeninas. Mas - felizmente - calei-me a tempo. É que a sociedade alemã que eu conheço desde há 30 anos esperava (e espera) isso de todas as mães. Muitas das minhas amigas alemãs largaram tudo para ficarem dia e noite com as suas criancinhas até estas fazerem três  (ou seis, ou dezoito) anos. Aquilo que muitas famílias portuguesas se vêem obrigadas a fazer em tempos de covid-19, e tanto custa, é algo que muitas alemãs fazem pelo menos até o filho mais novo ter três anos.

Espero que esta revelação sobre o sofrimento das mães alemãs ajude os portugueses a criar uma espécie de empatia com aquele povo, no qual tantos tanto gostam de bater.

(Sim, bem sei que vão dizer que ninguém as obriga, e que ninguém as manda ser parvas, etc.
Pffff, calem-se, que não percebem nada de idiossincrasias sociais. Eu bem me lembro dos argumentos "a criança precisa da mãe em casa", "o meu filho há-de ser educado por mim e não por um estranho qualquer!" e "há que escolher entre fazer carreira ou ter família".)

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Fui comprar sabonete e - pronto, confesso: - gateau breton. No caminho para o supermercado vi dois homens jovens que iam pela rua como quem vai em passeio. Um carro parou e chamou-os. Era um polícia à paisana, a controlar a declaração que cada um de nós deve levar no bolso explicando o motivo para andar na rua.

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No supermercado Super U havia placas de plexiglas a proteger as pessoas na caixa registadora, e marcas no chão para os clientes não ficarem demasiado próximos uns dos outros. Enquanto punha as minhas coisas no tapete rolante pisei um desses riscos inadvertidamente, e a empregada chamou-me imediatamente a atenção. Pedi desculpa, claro, e pus-me literalmente na linha.

Os funcionários na caixa tinham todos luvas de látex e uma máscara de pano que parecia ter sido feita em casa. Cada uma com um tecido diferente. A da minha caixa, por exemplo, era aos quadradinhos azuis. Nem sei que dizer.


sem motivo para queixas

 
A pouco e pouco instalamo-nos na nova normalidade, e ganhamos outros hábitos. Por exemplo: levar um lenço de papel para proteger a mão que abre a porta da rua e o contentor do lixo. Ainda bem que quando toda a gente estava a exagerar no papel higiénico eu me lembrei de comprar antes um pacotão de lenços de papel. Têm dado muito jeito, nestes tempos de dar uma assoadela e deitar o lenço fora.  

Ontem - no que foi o sexto domingo consecutivo da semana passada - comemos espargos brancos frescos (que é época deles) com manteiga bretã. Podíamos estar tão pior...

Estou em casa, sim. Confinada. De resto, está tudo bem. Os miúdos estão em segurança relativa na nossa casa, num bairro de baixa densidade populacional em Berlim. Não temos preocupações de pagamento de dívidas, doenças crónicas, operações urgentes adiadas. É verdade que o Joachim está a trabalhar no hospital e tem um risco acrescido de ser contagiado, e que o Matthias quer trabalhar num supermercado ("os supermercados estão desesperados à procura de pessoal, e antes eu que uma pessoa de 60 anos, mãe") - mas vivemos um dia de cada vez.
Para muitos, esta crise é uma tragédia. Para nós, não passa de um pequeno conjunto de contratempos.
Se me apanharem aqui a queixar-me, mandem-me ter vergonha.

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De repente, do nada, o Joachim foi remexer o seu saco de survival kits para os festivais. Lá bem no fundo encontrou um pacote de 3 máscaras que comprara numa loja de bricolage. "FFP2!", anunciava ele, eufórico.

Já temos o que usar para entrar no supermercado - no caso de sermos portadores, as outras pessoas ficam um pouco mais protegidas. Mas temos de as poupar como se fossem ouro, para não se estragarem, e para não gastarmos todo o período de validade no primeiro dia.

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Ontem esteve um domingo cinzento. Pela janela vi duas crianças a atravessar a ponte. Seriam irmãos, teriam talvez quatro e seis anos, levavam máscaras e saltitavam pelo caminho. Dois passarinhos em liberdade, felizes, a alegrar as ruas desertas.

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Demos a volta habitual, mantendo a distância de segurança de todas as - poucas - pessoas com quem nos cruzámos. Desta vez fomos até ao porto, escolhendo os caminhos com mais escadas para fazermos exercício físico. Havia alguns iates, e parámos a apreciar os luxos que até agora nunca tínhamos visto de tão perto. O Katamaran, esse então, era de uma elegância extrema. Mas em tempos de covid-29 tudo isto parece deslocado e irreal. Temos outras preocupações, e o verdadeiro luxo é o comportamento solidário. Não me sai da cabeça a expressão usada por uma amiga para descrever a decisão voluntária de ficar em casa para proteger todos: um enorme abraço ao mundo.


 


 
 

22 março 2020

o que podemos fazer


Que seria de nós agora sem o cuidado dos amigos que partilham connosco ideias, sentimentos e sugestões para atravessarmos este tempo estranho? É comovente assistir à profusão de gestos de humanidade que estão a nascer desta crise, e, mais comovente ainda, ver que tantos milhões de pessoas se fecharam voluntariamente em casa para proteger os mais frágeis da sociedade.

Esta manhã recebi - com gratidão! - de uma amiga a imagem que partilho acima, e de outra um artigo no NY Times de um antigo astronauta que revela as estratégias usadas para aguentar mais de um ano em órbita sem poder - digamos assim - sair de casa. O artigo está aqui, e muito sinteticamente as estratégias são as seguintes:

1. Fazer um plano para o dia e segui-lo à risca.

2. Encontrar um ritmo pessoal, prever tempo para actividades sociais divertidas e respeitar um horário de sono.

3. Sair de casa para ter algum contacto com a natureza - mantendo a distância de segurança em relação aos outros, obviamente.

4. Ter um hobby - ler, aprender/praticar um instrumento musical, trabalhos manuais, arte (lembram-se disto?).

5. Escrever um diário - não a lista das actividades do dia, mas algo mais introspectivo. Ou, eventualmente, memórias.

6. Informar-se junto dos especialistas, nomeadamente World Health Organization e o Johns Hopkins Coronavirus Resource Center

7. [Traduzo todo o último ponto, porque gostei muito]

Estamos todos interligados



Vista do espaço, a Terra não tem fronteiras. A propagação do coronavírus está a mostrar-nos que o que partilhamos é muito mais poderoso do que o que nos separa, para o bem e para o mal. Todas as pessoas estão directamente interligadas, e quanto mais nos pudermos unir para resolver os nossos problemas, melhor será para todos nós.



Uma das consequências de ter visto a Terra a partir do espaço, pelo menos para mim, é sentir mais compaixão pelos outros. Por mais desamparados que nos sintamos dentro de nossas casas, há sempre coisas que podemos fazer - já vi pessoas a ler para crianças por videoconferência, doando o seu tempo e dinheiro para instituições de caridade online, e fazendo recados para vizinhos idosos ou com imunodeficiências. Os benefícios para o voluntário são tão grandes quanto para aqueles que são ajudados.
 

  

os mocassins dos outros


Fechada em casa, com pequenas saídas nas quais mantenho a distância em relação a outras pessoas em pelo menos dois metros, tenho-me lembrado das descrições sobre a vida nas leprosarias que lia nos almanaques das missões na casa da minha avó. Ficava horrorizada com a imagem de pessoas a perder o corpo bocado após bocado, abandonadas num local onde não infectassem os outros. O covid-19 obriga-nos a muitos sacrifícios, mas nenhum de nós está sujeito a sofrer o que sofriam muitas pessoas com lepra não vai sequer há meia dúzia de décadas. 

Penso também nos refugiados fechados em campos sem um mínimo de condições e sem a menor dignidade. Apesar de termos de ficar em casa, ainda estamos muito longe de viver numa situação como a que oprime essas pessoas durante meses e anos.

A crise do covid-19 está a ter um efeito colateral interessante na minha consciência: aumentou a proximidade emocional com pessoas a viver em circunstâncias muito piores que as minhas. 

21 março 2020

"ho trovato l'invasor"

Por muito que nos custe estar em casa, e por muito que tantos de nós se sintam profundamente angustiados com a sua sobrevivência económica, e por muito que alguns temam o princípio do fim da Democracia, convém não esquecer nunca isto: estamos em casa para evitar que nos hospitais os médicos não sejam obrigados a tomar a terrível decisão sobre quem vão deixar morrer por falta de máquinas disponíveis. Estamos em casa para não chegar a uma situação em que seja necessário levar os corpos das vítimas do covid-19 para as cidades vizinhas porque os fornos crematórios daquela cidade já não chegam para tantos mortos. Não podemos esquecer nunca estas imagens. É contra isto que estamos a lutar. -- Partilho um vídeo no qual alguns italianos dizem o que aprenderam nos últimos dez dias. Temos de ser capazes de aprender com a tragédia alheia.

o novo quotidiano

Esta manhã fomos fazer as compras necessárias. As pessoas esperavam em frente às lojas guardando uma distância de cerca de dois metros umas das outras. Na padaria trouxeram os móveis de balcão para a entrada, de modo a servirem os clientes directamente na rua, e pediam para pagarmos com cartão, para que os vendedores não tivessem de pegar no nosso dinheiro. Na zona das caixas do Lidl havia marcações no chão para respeitarmos a distância de segurança, e os funcionários na caixa estavam separados do público por grandes placas de plexiglas.

Vi alguns vizinhos nas suas varandas, a saborear o sol tímido deste primeiro dia de primavera. Alguns liam, um deles dançava.

Já tive manhãs de Ano Novo no meu pacato bairro bem mais movimentadas que as ruas de Brest neste sábado de manhã. Os bretões estão a mostrar-se extraordinariamente razoáveis e disciplinados. Mas de momento temem o perigo acrescido provocado pelos parisienses, que se deslocaram em massa para as suas casas de férias nesta costa mal ouviram do Macron o anúncio de que o país ia fechar daí a algumas horas.

Telefonámos longamente com os nossos filhos e alguns amigos. Aparentemente na Alemanha ainda há muita gente que não se apercebeu da gravidade da situação.

A minha professora de zumba enviou para o grupo whatsapp uma gravação de exercícios que podemos fazer em casa. Agradeci-lhe, mas a verdade é que já ando a tentar escapar à gravação de exercícios que o ginásio do Joachim lhe enviou para ele se manter em forma.

Posei para o Joachim, e as pinturas estão agora espalhadas pelas paredes do nosso quarto, tornando mais nosso este apartamento provisório. Só é pena os lápis e pincéis dele terem entrado em modo automático e terem pintado como bem lhes apeteceu - e logo havia de lhes ter apetecido pintar à maneira de Rubens, não sei se me faço entender...
(pincéis da marca Modigliani já me bastavam)

Comovi-me imenso com os habitantes de uma rua na Alemanha a cantar o Bella Ciao para a população de Bérgamo.


Una mattina mi son alzato
Bella, ciao, bella, ciao, bella, ciao, ciao, ciao
Una mattina mi son alzato
Ho trovato l'invasor

Estamos juntos na luta contra este invasor. E só se unirmos esforços com toda a determinação conseguiremos vencê-la.



Comovi-me com a notícia de que os hospitais do sudoeste da Alemanha estão a aceitar doentes franceses que não têm lugar nos hospitais do lado de cá da fronteira.

Mas ao fim do dia, no noticiário francês, falaram do modo como a Alemanha se está a preparar para a grande vaga de casos graves que temem estar para breve (o vírus só chegou ao país há cerca de 3 semanas, e demora algum tempo antes de se revelar em toda a sua violência) e revelaram que os hospitais se estão a abastecer com grandes stocks de material como máscaras e luvas, que recusam partilhar com os países em situação de carência.

No mesmo noticiário também entrevistaram um médico francês que está a trabalhar há quase dois meses em Wuhan. Ele criticou as medidas do seu governo, por serem demasiado insuficientes. Segundo ele, é preciso reclusão absoluta.

Reclusão absoluta?!
(mas... mas... mas em reclusão absoluta não vou poder reabastecer-me de gateau breton à velocidade a que ele se evapora em cima da mesa...)
(e só comprei oito rolos de papel higiénico...)


Piadas à parte: no fim do mês mudamos para o apartamento onde devemos ficar até ao fim da nossa estadia em França. Temos de tratar dos contratos de electricidade e de internet, e não sei se o processo será assim tão simples, especialmente tendo em conta a situação actual.
Nem quero imaginar o que será estar em reclusão absoluta sem internet.


entretanto, do outro lado do Atlântico...

Esta manhã um amigo nosso falava-nos da sua preocupação sobre a catástrofe que se prepara nos EUA.

"Um banho de sangue" foi a expressão que usou. Sendo fortíssima, descreve bem as consequências do modelo dos EUA: a ausência de um sistema público de saúde muito forte, o elevado número de pessoas sem qualquer espécie de seguro de saúde, os que têm esse seguro mas não dispõem de meios para adiantar o pagamento para reembolso posterior, as inúmeras pessoas com baixos rendimentos que só em último caso irão ao médico. Uma situação explosiva. Um horror.

E que resposta tem Trump para dar ao seu povo angustiado pela tragédia que já está em marcha inexorável para se abater sobre ele?



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Um detalhe - sim, isto é apenas um detalhe, mas convém ter conhecimento dele:

"On Jan. 24, Richard Burr, a Republican senator from North Carolina, attended a private Senate briefing from senior government scientists about the seriousness of the coronavirus. Kelly Loeffler, a Republican senator from Georgia, received the same briefing.

At the time, many Americans did not yet understand the danger that the virus posed. The same day as the briefing, President Trump — in one of his many attempts over the past two months to make the virus seem like a frivolous matter — tweeted, “It will all work out well.”

Given the disconnect between what they knew and the public’s understanding, Burr and Loeffler had an opportunity to sound the alarm. They could have broken ranks with other congressional Republicans and told the country to take the situation more seriously. They could have criticized Trump for not doing more. Such criticism, coming from Trump’s own party, would have received major attention. It would have had the potential to alter Trump administration policy and, by extension, the course the disease took.

But Burr and Loeffler did virtually nothing to protect the health and safety of their constituents or of Americans in other states. (Burr went so far as to co-write an article for FoxNews.com bragging about the country’s readiness.) Here’s what the two senators did instead: They sold large amounts of their personal stock holdings, cashing in before the market sharply declined, as the severity of the virus became apparent to everyone."

The Daily Beast broke the story of Loeffler’s trades, which added up to between $1.2 million and $3.1 million. She started selling the shares the same day as the briefing. She also bought “between $100,000 and $250,000 in Citrix, a technology company that offers teleworking software” and whose share price has risen since the crisis began, The Daily Beast’s Lachlan Markay, William Bredderman and Sam Brodey write."

Autor: David Leonhardt - o texto completo está aqui.


20 março 2020

passeio

Esta semana foi domingo de manhã todos os dias.

Ontem fui dar uma volta para meter algum ar nos pulmões. Com os cuidados habituais: sem tocar em nada, sem tossir, e atravessando para o outro lado da rua sempre que me cruzava com alguém.

Mas não precisei de me desviar muito. Devo ter visto dez pessoas no máximo. Todas as outras ficaram em casa.

Ocorreu-me que estava a fazer a figura dos oportunistas da vacina: não precisam de vacinar os filhos, porque a sua própria segurança é garantida por todos os outros que vacinam.

Andei a passear na zona para onde vou mudar no fim deste mês se tudo continuar como está neste momento. Se endurecerem as medidas para conter a epidemia, provavlemente não podemos mudar. Mas o pior que nos pode acontecer é ficar na casa onde estamos - e onde não estamos nada mal.





Há por ali 3 janelas que vão ser as nossas.

Lá perto: Les Capucins. Além das e janelas, um motivo importante para escolher ir morar naquele bairro. Mas isso foi há uma eternidade - há duas semanas - antes de o covid-19 ter fechado a cidade.


  

um enorme abraço ao mundo

(Mais um post que estava aqui há vários dias para ser publicado.) (Na realidade, é um apanhado de coisas que vou publicando no facebook.) (Portanto, amigos do facebook: se lerem isto, não vão encontrar nada de novo. Mas podem fazer "revisões da matéria dada", claro. :) )

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Anda toda a gente a açambarcar álcool, e nós não somos menos que toda a gente.
Entre tinto, branco, Porto, sidra e muscat de Rivesaltes temos para três semanas. Quatro, se for preciso racionar.
Só não comprámos gin porque naquele Lidl não tinham água tónica.

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Tentei inscrever-me no sistema social francês, mas queriam que lhes desse uma certidão de nascimento. Bem argumentei: Oh minha senhora, se estou à sua frente, quer melhor prova de que nasci?
Mas não. Queriam aquele documento. Algum dia hei-de entender porquê. Escrevi um help a uma sobrinha simpática que tenho em Braga, e ela respondeu que quem lhe dera poder ajudar-me (já disse que é simpática?) mas que tinha acabado de entrar em quarentena...

De modo que estou assim: em tempo de covid-19, sem seguro de saúde... 

(sim, eu sei que posso pedir online - mas precisava da internacional, que não se pode pedir online)

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Quando já me estava a ver sem acesso a cuidados médicos, obrigada a andar por Brest de capa amarela e uma sineta a avisar que sou contagiosa e que devem todos fugir de mim, eis que me avisam do seguinte (sintetizo aqui a informação, para o caso de ser importante para mais alguém):

- A minha irmã lembra-me que a sua especialidade é arranjar declarações talicoisa (só me lembrei de pedir à sobrinha porque ela mora na cidade onde nasci, e eu - já disse hoje que é muito triste ser totó? - ainda estou no Portugal de há 30 anos, quando era preciso tratar de tudo presencialmente.
Portanto: a tal declaração internacional praticamente já cá canta (e parece que custa menos de metade da normal online, concretamente: 20 euros, e não tenho de traduzir!) (isto parece tão bom que nem sei se acredite)

- Parece que é possível pedir a certidão de nascimento internacional online neste site (para quem está registado nele, obviamente - o que não é o meu caso): https://servicos.portaldocidadao.pt/PORTAL/login/

- Estando inscrita no SNS português, tenho alguma segurança. Agora vou pedir rapidamente o cartão de saúde europeu, que se pode pedir online
(Quer dizer: ia. Mas não estou registada nesse portal, e parece que para me registar tenho de ir a um local de atendimento...)

Parece-me que é tudo. Se tiver aí alguma informação errada, agradeço que corrijam. Não é para mim, é para os outros desgraçadinhos que estejam na mesma situação que eu.

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Viva Itália!
(é reconfortante ver os humanos a serem humanos)



Encontrei o filme anterior num grupo novo do facebook, CulturENTENA, criado para:
"Ver, Ouvir e Ler em Quarentena.
Sugiram obras para o grupo e aproveitemos tempos maus para usufruirmos de coisas boas."

Foi lá também que fiquei a saber que o Digital Concert Hall vai estar aberto (quer dizer: gratuito) durante um mês.

E há bocadinho vi num post de uma amiga que há pessoas a organizar-se para ajudar os vizinhos mais idosos.

Este movimento generalizado de pessoas que voluntariamente se metem em casa para protegerem os mais frágeis da sociedade lembra - como disse uma amiga minha - um "enorme abraço ao mundo".

Quem diria que o maldito covid-19 ia servir para mostrar muito do melhor que temos em nós? Ao menos isso (digo eu, comovida)

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Bill Gates a falar - há quatro anos - do que estamos agora a viver.
O que me faz pensar que, como de costume, fomos avisados mas optámos por ficar quietos a pensar que podíamos escapar entre os pingos da chuva. E também que os governos e os países não têm dimensão nem poder para resolver problemas que são planetários. Já seria um grande ganho se esta crise nos permitisse abrir os olhos e inventar maneiras novas de colaborar uns com os outros, a nível mundial, para evitarmos pandemias como esta.

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O superlativo da solidão:
(não consegui descobrir o nome do autora da imagem)



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E agora vou passar camisas a ferro enquanto vejo televisão, que elas não se passam sozinhas e além disso dá jeito introduzir algum factor de normalidade neste mundo saído dos eixos.

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Ia eu passar a ferro em frente à tv para desanuviar, e o Joachim está a ver o "K19 - the widow maker". Oh, triste vida: meu reino por um O Pátio das Cantigaaaaaaaas!

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Entretanto na Holanda, mal se soube que iam fechar as lojas...

(há que conhecer as prioridades, ora essa!)
(estou-me a rir, mas é sério: como será as pessoas precisarem de um bocadinho de erva para relaxar, e não poderem sair de casa para a ir comprar?)