28 fevereiro 2015

às vezes diabos à solta pelas palavras

Ia para contar uma coisa, mas resolvi contar também outra que aconteceu antes.
(vá, é sábado, deixem-me redigir à maneira da preguiça)

Saí de carro com o Joachim (e o Fox, se querem saber tudo). Meti o carrinho das compras na mala. Saí do carro num cruzamento, com tanta pressa que me esqueci do carrinho. Fui ao Lidl, também me tinha esquecido do saco para as compras, trouxe tudo numa caixa de cartão enorme. A quem interessar possa: o Lidl tem compota de morango com 75% de frutos por 88 cêntimos. Talvez seja melhor não me perguntar como é possível produzir a este preço...
Talvez seja melhor perguntar, pensando bem. E ver se a resposta me satisfaz.
O Joachim (e o Fox) ainda não tinham regressado, pelo que resolvi tomar um café ao sol, enquanto os esperava. Deixei a minha caixa numa das cadeiras da esplanada e entrei na padaria para fazer a minha encomenda. Dois velhotes passaram pelas minhas coisas e fizeram comentários. Disse-lhes que era meu, disseram que eu era inconsciente. Velhinhos simpáticos (e simpática eu, também: olhei para eles a sorrir, suspeitando que se imaginaram que eu podia ser roubada era porque eles seriam capazes de roubar). Tapei as minhas compras com uma das mantas da cadeira, pensando que quem rouba um pacote de leite ou fruta é porque precisa. Mas tapei na mesma.
Sentei-me ao sol com o café e o bolo, à espera do Joachim. Vi um carro a estacionar sobre a saída do estacionamento onde nós queríamos deixar o nosso carro. Fui ter com o condutor, e avisei-o que aquilo era uma passagem para um parque de estacionamento, e o meu marido chegaria dentro de 2 minutos e quereria passar. O homem ficou chateado. Estacionou o carro, mas não o abandonou. Até que outro carro saiu, e ele estacionou no sítio adequado.
Ao passar por mim perguntou:
- Onde está o seu marido? Já passaram os dois minutos.
- Isso também eu queria saber...
- Está com uma amante!
Larguei uma gargalhada daquelas grandes, do fundo da barriga, para ele saber que me estava a rir dele.
Fiquei a pensar que lhe devia ter dito que estava com O amante, que hoje é sábado. Ou que estava com a mulher dele, por compaixão.
Se calhar amanhã devia ir ao confesso. Ando com muitas maldades cá por dentro.


melhor que os melhores amores



Aqui o Wim Wenders a explicar porque é que esta casa me fascina.

Melhor que os melhores amores: que nasce à primeira vista e cresce ainda mais a cada dia, uma capacidade de encantar e surpreender que nem o tempo nem o quotidiano nem as primeiras rugas diminuem.


27 fevereiro 2015

concerto promenade - os pássaros começam onde as árvores acabam





Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração

Os pássaros nascem nas pontas das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
Deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
Quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
Mas deixo essa forma de dizer ao romancista
É complicada e não se da bem na poesia
Não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração


Ruy Belo

ver ou não ver, eis a questão




Aqueles... aqueles... aqueles calateboca-que-se-digo-o-que-me-apetece-desgraço-me, aqueles coisos do Exército "islâmico" continuam a criar happenings para obter o máximo efeito mediático. Depois das degolações online em horário nobre americano, agora são ataques à cultura. Corre por aí um filme feito no museu de Mosul, com bárbaros a desfazer à marretada as peças antiquíssimas. (Um dos problemas da barbárie é que é contagiosa: ao ver aquelas imagens, dá-me uma fúria que estava capaz de lhes dar com a marreta num certo sítio. E de canto, para doer mais.)

Não tenhamos ilusões: o único objectivo deles é chocar. Nem sequer se trata de um mob, mais parece que estão a obedecer a ordens: tu, aí, abate esta escultura, tu, aí, filma, tu, aí, põe na internet, aqueles palermas do inimigo vão partilhar, vai ser um sucesso. E nós partilhamos. Fazemos o jogo deles.

Mostrar ou não mostrar?
Tendo em conta que eles fazem isto para nos chocar, parece-me que seria muito mais avisado não partilharmos o filme. Fazer um desenho, descrever. Mas não lhes dar o gosto de milhões e milhões de visualizações no youtube.

Pergunto-me até se a destruição do museu não é uma fase nova nos efeitos especiais, chamemos-lhes assim. Será que as degolações já não têm o impacto desejado, e por isso procuram novas imagens chocantes? Nem quero pensar no que virá a seguir, quando o "público" se tiver habituado às imagens do património cultural a ser destruído. Para o impedir, faço a única coisa ao meu alcance: não partilho as imagens que eles criam para nós. Recuso-me a ser um elo nesta cadeia.

(Mas, está-se mesmo a ver, vou ser a única. Vou parecer a Mafaldinha no recreio da escola, quando descobriu que era a única que não tinha televisão...)


o tempo a passar a olhos vistos



Esta manhã o sol começou a nascer entre um prédio e uma árvore, e subia por ali acima tão depressa que até parecia o elevador da Potsdamer Platz. Hesitei entre ficar a ver o tempo passar a olhos vistos, e ir buscar a máquina para filmar aquele prodígio. Quando voltei com a máquina já ele se tinha soltado do prédio e ia pelo céu fora em desatino. Desconfiei que hoje o dia se me ia acontecer num instante, e tinha razão: já é quase meio-dia, e ainda não fiz nenhuma das coisas chatíssimas que tenho de fazer sem falta. Se o dia me continua a esta velocidade, logo à noite é Natal.


26 fevereiro 2015

e na hora da nossa morte




Ontem tivemos a visita de um amigo querido, cujo sogro morreu na semana passada.
Trouxe um presente preparado pela sua mulher, com um postal onde se lê:

hoje estamos encerrados por motivos de ontem

É assim que se sentem.
Falámos muito sobre esses últimos momentos, numa conversa tão comovedora como interessante. No nosso tempo evita-se o tema da morte, e muitos de nós não sabem o que fazer perante um moribundo, nem como fazer o trabalho do luto, nem sequer com as meras questões de organização que a morte de um familiar implica.
Por isso, e em jeito de testemunho, tento passar para aqui o que ele nos contou:

A saúde do meu sogro já estava a piorar há muito tempo, e nos últimos meses juntou-se a senilidade. Teve de ficar internado durante seis semanas num lar, enquanto a minha sogra recuperava de uma cirurgia, mas voltou num estado tão miserável que a minha sogra jurou que nunca mais faria a mesma asneira, e que ele seria cuidado em casa até ao fim dos seus dias. Ainda puderam festejar o 60º aniversário do casamento, e ele aguentou bastante bem, apesar do esforço enorme. Convidaram amigos que tinham estado presentes no dia do casamento, e pudemos rir com as recordações daquele tempo. Depois disso, o seu estado piorou a olhos vistos. A minha mulher pediu à mãe que a avisasse quando visse que estava a chegar a hora, porque sabia que para os pais a morte era um tabu, e a mãe não saberia o que fazer nesse momento.
A minha mãe é bem diferente: há tempos entregou-nos um dossier com todas as informações de que precisaremos um dia que ela morra. Tirou um formulário da internet, e preencheu-o com todos os detalhes: o que fazer nas primeiras 24 horas após a morte, nas 72 horas seguintes, etc. Quem deve ser convidado para o funeral (vai-nos actualizando esta lista regularmente). Que tipo de funeral quer ter - inclusivamente os cânticos. Quais são os seguros, as contas bancárias, as ordens de transferência automática que tem. É um grande favor que nos faz: um dia que morra, não nos deixa atrapalhados à procura da documentação por todos os lados, nem a tomar decisões importantes sob imensa pressão. Está ali tudo muito bem organizado, com todas as informações e indicações necessárias.
Quando a minha sogra telefonou a dizer que ele estava a ficar muito mal, fomos logo para a cidade deles, e os nossos filhos vieram ter connosco - excepto a mais nova, que está na Austrália. Ele estava mesmo sem força, mas ainda nos reconhecia e entendia o que lhe dizíamos. Ficamos de volta dele o dia todo, lembrando momentos bonitos da nossa vida, cantando, recitando salmos. Ao dizer o salmo 23 (O Senhor é meu pastor, nada me faltará. Leva-me a repousar em verdes prados, conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma.) enganamo-nos numa frase, e ele fez uma careta. A minha mulher passou a noite com ele e a mãe. No dia seguinte estava relativamente bem. Tivemos de nos despedir para voltar para o trabalho. Cada um de nós pôde entrar sozinho no quarto dele, para se despedir sem testemunhas. Telefonámos para a Austrália, para a neta mais nova lhe dizer umas palavras. Os netos disseram-lhe que podia partir descansado, que eles cuidariam da avó. Regressámos a casa, e a meio do caminho a minha mulher telefonou a dizer que tinha morrido.

À hora a que o enterramos, na Austrália a nossa filha mais nova foi para a praia com uma vela, e ficou a olhar para as estrelas.


25 fevereiro 2015

Grécia e Europa: assim, o jogo não funciona

Este artigo é como o namorado mais recente: todos os outros que partilhei eram apenas o caminho que me trouxeram até aqui. É um texto de opinião de Henrik Müller, como o anterior, e foi publicado no Spiegel Online ao fim do dia 21.2.2015 (ultimamente a História ganhou tal velocidade que quase é preciso escrever o segundo exacto em que acontece). Gostei de o ler porque analisa o que correu mal no diálogo entre a Europa e a Grécia e porque nos aponta perspectivas de futuro. Resta saber se é por aí que queremos ir.



Grécia e Europa: assim, o jogo não funciona

por Henrik Müller


Griechischer Finanzminister Varoufakis: "Keine bindenden Absprachen"

Ministro das Finanças Varoufakis: "os acordos não são vinculativos"

O ministro Varoufakis arriscou e perdeu. No entanto, é um especialista em teoria dos jogos - devia saber como é que as negociações funcionam. O problema: o jogo europeu já não funciona, precisa de regras novas. 

Para já o desastre foi adiado, mas o drama continua. Após várias reuniões de crise, os ministros das Finanças da Zona Euro acabaram por se entender quanto à permanência da Grécia no Euro. Ao menos isso. Só não se sabe se a coisa resulta ou não. Ao cabo de cinco anos de programas de ajuda, medidas de austeridade e reformas, pode ser que a Grécia ainda venha a cair do Euro. Seria, possivelmente, o princípio do fim da união monetária. Não imediatamente, mas a longo prazo.

Como foi possível chegar tão longe? Que condições específicas vigoram na Europa, que não existem em mais lado nenhum do mundo? E como seria possível alterar as regras para conseguir estabilizar a Zona Euro a longo prazo?

Comecemos pelo ministro grego. Giannis Varoufakis, como foi repetidamente referido nas últimas semanas, é especialista em teoria dos jogos. Um especialista do ramo da Economia que analisa o comportamento de pessoas racionais em situações de conflito - por exemplo, em negociações ou em competições.

Um dos jogos de estratégia mais simples é o chamado Chicken Game, como aparece por exemplo no American Graffiti de George Lucas: dois carros dirigem-se um ao outro, e quem se desviar primeiro perde. A princípio, tínhamos a sensação que o novo governo grego estava a jogar segundo o guião do Chicken Game. Um jogo "não cooperativo", como é chamado no jargão. Lemos o que Varoufakis escreveu: "Nos jogos não cooperativos não há acordos vinculativos. Os jogadores podem dizer o que lhes apetece, quando lhes apetece - não há nenhuma instância externa que os obrigue a cumprir aquilo a que se comprometeram." É o que se lê na página 113 do livro Game Theory, que ele publicou em 1995, em colaboração com Shaun Hargreaves Heap.

Por vezes é razoável recuar

Isto é a teoria. Na realidade política, este quero-lá-saber-do-que-disse-ontem não funciona. Varoufakis teve recentemente a prova disso: viu-se sozinho perante a maior coligação possível, os ministros das Finanças dos restantes 18 países do Euro.

Formulado em termos de teoria dos jogos: na zona Euro temos um "superjogo com horizonte temporal ilimitado". Os actores não se reunem apenas uma vez, mas repetidamente. Num contexto destes, há outras estratégias que garantem mais sucesso: quem tenta levar a melhor sem contemplações pode ser castigado pelos outros na rodada seguinte.

Em compensação, quem actua de modo cooperativo, pode ser recompensado com cooperação. Ou seja: é boa ideia recuar ocasionalmente, ao contrário do que acontece em situações simples de jogo. A previsibilidade compensa. Confiança e credibilidade são as categorias decisivas.

O que explica as atitudes de Wolfgang Schäuble: não se desvia do seu rumo - ajuda sim, mas com duras condições; não haverá passagem para uma "União de transferências"; redução da dívida, mesmo que dure muito tempo. É legítimo perguntar se esta atitude é correcta do ponto de vista económico. Do ponto de vista político, contudo, tem tido sucesso: o número dos seus adeptos na Zona Euro tem vindo a crescer - os espanhóis, os irlandeses, os portugueses e a maior parte dos países de Leste mostram-se pouco inclinados a continuar a ajudar a Grécia com condições especiais.

Até agora tem tido sucesso - esta restrição é importante. Porque mal a Zona Euro - e com ela o conjunto do projecto de integração europeu - começar a vacilar, a Alemanha incorrerá em custos políticos e económicos desastrosamente altos.

O sistema actual está a vacilar

A crise grega mostra a fragilidade do edifício da união monetária. Problemas económicos crónicos podem conduzir a situações fora de controlo. Hoje é a Grécia que está em causa, no Outono será talvez a Espanha, depois do próximo ano eventualmente uma França governada pela Frente Nacional.

A Zona Euro pode continuar a jogar um superjogo, mas este continua a ser um jogo não cooperativo.
Os representantes de governos soberanos negoceiam uns com os outros. Isto só funciona enquanto a grande maioria estiver de acordo quanto à direcção. Se não houver acordo, não há qualquer instância que os force a isso.

Há duas possibilidades de chegar a uma constelação estável a longo prazo:

- Ou há uma superpotência, superior aos outros, que cria uma estabilidade hegemónica e uma ordem internacional à qual os outros se sujeitam. Tal como os EUA depois da II GM. Na Europa actual teria de ser a Alemanha a tomar esse papel.

- Ou a Zona Euro consegue dar o salto para o mundo dos "jogos cooperativos". Cria-se uma instância superior, que goza de legitimidade e está em condições de exigir a vinculação dos Estados àquilo que foi acordado. Quem ferir os tratados será chamado à responsabilidade.

A Alemanha - a "potência hegemónica relutante" (como lhe chamou The Economist) - com o papel de poder dominante na Zona Euro é uma solução insustentável dos pontos de vista político e económico. Só uma solução federal pode trazer estabilidade à Zona Euro.

Neste novo jogo serão possíveis mecanismos estatais federais de redistribuição (condicionada) e de partilha do risco, sem os quais uma zona monetária não pode funcionar. Um Parlamento especial da Zona Euro tomaria decisões sobre o Orçamento, financiado pelos seus próprios impostos. Uma parte das dívidas nacionais seria coberta por Eurobonds. O próprio fundo de salvamento do Euro (ESM) seria controlado por este Parlamento. Seria introduzida uma base de apoio social igual para todos os países. Um governo e um ministro das Finanças da Zona Euro teriam poder de agir sobre os Estados membros.

Esta é, sem dúvida, uma visão audaciosa. Há alguma possibilidade de vir a ser posta em prática em breve? Não. O drama continua.  



Zum Autor

  • Roland Bäge
    Henrik Müller ist Professor für wirtschaftspolitischen Journalismus an der Uni Dortmund. Zuvor arbeitete der promovierte Volkswirt als Vize-Chefredakteur des manager magazin. Außerdem ist Müller Autor zahlreicher Bücher zu wirtschafts- und währungspolitischen Themen. Für SPIEGEL ONLINE gibt er jede Woche einen pointierten Ausblick auf die wichtigsten Wirtschaftsereignisse der Woche.

qed



Estava aqui tão bem, abro o facebook, e zimbas, cai-me este stress em cima.
Será que estarei à altura desta responsabilidade? Será que tirei das últimas horas de ontem - únicas, irrepetíveis, e pelos vistos contadas - tudo o que tinha a tirar delas? E das de anteontem, que já nem me lembro o que fiz?
Oh, que coisa, estava aqui tão bem, e agora isto...

(claro que percebo a ideia, e até lhe acho graça, e às vezes até penso do mesmo modo - mas prefiro oferecer-me a suprema liberdade de olhar com gratuidade para os meus dias, e até com indulgência e cumplicidade para os dias mais fracassados) (que esta vida são dois dias, e era pena desperdiçar um deles numa ansiedade de não ficar aquém de mim)

(esta manhã, esta ao menos, vai para o lado do crédito no balanço, porque foi muito bem aproveitada: marchou meia caixinha de Mon Chéri) (por este andar, até ao fim da semana já me terei ultrapassado, e em muito) (será que há alguma loja de roupas XXL em saldos?) (sim, ultrapassarei todos os meus limites físicos, e até mentais - que aquele licor de cereja nem sei que vos diga que vos conte) (a culpa é do São Valentim, tinha os Mon Chéri a preços irrecusáveis)

(de onde se prova que o amor transforma e leva-nos além de nós) (hic, perdão, qed)

(devo ser o primeiro caso de demonstração de teorema sem teorema e sem intenção de demonstração) (se abro mais um parêntesis, ainda corro o risco de dar comigo num frasco de formol num museu de História Natural)


Eleições na Grécia: é tempo de reduzir a dívida à Grécia do Syriza

Este artigo de opinião, escrito no Spiegel online antes das eleições na Grécia, já é uma espécie de antiguidade, tendo em conta as semanas vertiginosas que temos vivido. Mas continua a valer como marco e espelho - parcial - do debate em curso na Alemanha. Além disso, é citado num outro artigo de que quero falar hoje. Finalmente, tem algo que aprecio muito no debate alemão: apresenta as razões dos dois lados, o que nos permite entender melhor o que está em causa.
Pelo que aqui vai a tradução rapidíssima:


Eleições na Grécia: é tempo de reduzir a dívida à Grécia do Syriza

Henrik Müller

As eleições em Atenas têm de marcar o início de uma nova política: a UE devia perdoar as dívidas aos gregos, e em troca exigir reformas férreas. A estratégia "poupar, custe o que custar" falhou. 

Mostrar firmeza! Não fazer concessões! Nada de indulgências! A aliança de esquerda do Alexis Tsipras pode ser escolhida para formar governo no próximo domingo, mas as suas exigências não serão ouvidas: perdão da dívida? Fim da austeridade? Connosco, nem pensar!

Esta atitude está muito espalhada na Alemanha, e com certeza dominará o encontro dos ministros da Economia e das Finanças da Zona Euro na próxima segunda-feira. Contudo, não é nem razoável nem realista. Independentemente de quem ganhe as eleições em Atenas: no que diz respeito à Grécia, a política da UE, do FMI e - não menos importante - de Berlim vai ter de mudar. Um perdão dos créditos é inevitável. A questão é apenas saber se virá agora e permitirá um recomeço. Ou mais tarde, mas aí com custos sociais, políticos e económicos ainda maiores. Os hardliner em Berlim e Bruxelas fazem questão de insistir no reembolso como planeado - apesar de o plano não estar a dar bons resultados. Em última instância, apresentam argumentos morais: quem contrai dívidas tem de se responsabilizar por elas.
Consequentemente, os hardliner perguntam: aonde vamos parar se a Grécia, justamente a Grécia - o país que entrou no Euro com estatísticas falseadas - é beneficiada com um perdão da dívida de tantos milhares de milhões? Dava-se um sinal, argumentam eles, que seria catastrófico: um convite a todos os outros países do Euro para adiarem as reformas e para não se preocuparem tanto com o equilíbrio das contas do Estado, uma vez que no fim a comunidade - e, do ponto de vista dos alemães, a Alemanha mais que os outros - paga a factura.

"Moral hazard" ou guerra de princípios?

Os economistas chamam "moral hazard" a este efeito: o abuso da solidariedade na prossecução egoísta dos próprios interesses. Se cada um pensasse apenas em si, a Grécia (dívidas no valor de 180% do PIB) teria um perdão da dívida. A seguir viria Portugal (140% do PIB) e depois a Itália (150% do PIB). Por esta altura o mundo financeiro global já se encontraria numa situação catastrófica, porque um dos maiores mercados de obrigações do mundo teria implodido. Afinal de contas, a Itália tem dívidas no valor de 2,2 bilhões de euros.
Para evitar a corrupção moral e a consequente reacção em cadeia, segundo os hardliners, a Grécia tem de continuar em austeridade. Mesmo que a crise duradoura provoque uma devastação social evidente. Mesmo que a deflação que existe desde há vários anos faça com que o montante da dívida continue a crescer.
Para sermos claros: a Grécia não vai poder pagar as suas dívidas. Nem sequer vai estar em condições de pagar os juros a preços normais de mercado. Independentemente do partido que ganhar as eleições. O argumento do "moral hazard" pode ser utilizado em situações onde ainda há alguma coisa a ganhar. Mas transforma-se em guerra de princípios quando os problemas são tão grandes que, por mais que as pessoas se esforcem, não podem ser resolvidos.

O tratamento de choque não permitiu a redução da dívida

A Grécia esforçou-se enormemente nos últimos anos, mas os seus esforços têm sido em grande parte ignorados (especialmente pela Alemanha):
- As despesas públicas foram de tal modo cortadas que a Grécia atingiu um excedente orçamental de mais de 4% do desempenho económico - o que é, de longe, o valor mais alto dos países da OCDE. Ou seja: se descontarmos o serviço da dívida, as receitas do Estado grego são suficientes.
- A relação salários/produtividade desceu drasticamente nos últimos anos, como em mais nenhum país da OCDE.
- Devido à austeridade vigente desde 2008, os investimentos baixaram para quase zero - um desenvolvimento extremamente raro em tempos de paz.
- A economia implodiu: o PIB é hoje 25% inferior ao que era em 2008.
- O desemprego subiu para cima de 25%. Os desempregados de longo prazo não recebem qualquer ajuda do Estado.

Tudo isto representa um tratamento de choque sem precedentes. No entanto, as dívidas da Grécia aumentaram, em vez de diminuir.
É certo que a Grécia continua a precisar de fazer reformas estruturais. A administração pública ainda está longe dos standards ocidentais. Os interesses económicos instalados impedem o progresso, o que é agravado pelos oligarcas que se servem do Estado.
Mas: num contexto económico que não oferece perspectivas à maioria da população, é impossível operar essas transformações.

Syriza permite construir um futuro melhor

Um novo partido como o Syriza no governo representa pelo menos a oportunidade de quebrar a rigidez tradicional e pôr fim à espiral de fatalidade. Um perdão da dívida dar-lhes-ia força - melhor seria que fosse logo metade da dívida pública (estamos a falar de uma renúncia a 150 mil milhões de euros).
Seria um sinal importante para os outros Estados do Euro: quem poupa e faz reformas é recompensado com um perdão da dívida. Tal como no direito alemão das insolvências: o devedor não fica marcado para toda a eternidade; depois de uma fase de observação, é-lhe permitido um recomeço.
Podia ser o início de uma nova política: cortes drásticos com o objectivo de trazer dívidas incomportáveis para níveis razoáveis, e não apenas na Grécia, mas também as dívidas do sector privado na Espanha, Irlanda ou Itália. Deste modo a Europa podia ver-se livre do seu excesso de dívida que torpedeia o crescimento económico, e podia melhorar a sua competitividade.
Visto por este prisma, as eleições na Grécia podiam representar uma mudança para melhor, que nos levariam à raíz do problema: a dimensão da dívida.


Zum Autor

  • Roland Bäge
    Henrik Müller ist Professor für wirtschaftspolitischen Journalismus an der Uni Dortmund. Zuvor arbeitete der promovierte Volkswirt als Vize-Chefredakteur des manager magazin. Außerdem ist Müller Autor zahlreicher Bücher zu wirtschafts- und währungspolitischen Themen. Für SPIEGEL ONLINE gibt er jede Woche einen pointierten Ausblick auf die wichtigsten Wirtschaftsereignisse der Woche.

24 fevereiro 2015

Verificação de factos: a Europa está a salvar a Grécia, ou apenas a salvar os bancos?

Mais um artigo no Spiegel Online, 17.02.2015. Mais uma tradução rapidíssima. A notícia não é nova em Portugal - só a traduzi para mostrar em que termos se falou disto na Alemanha.
(A sério: não há um jornal português que me queira pagar para eu fazer isto?)



Verificação de factos: a Europa está a salvar a Grécia, ou apenas a salvar os bancos?


Hauke Janssen


Filial bancária em Atenas: a ajuda da UE não foi um acto de solidariedade?

Varoufakis, o ministro das Finanças grego, diz: "os alemães têm de saber que com o seu dinheiro não salvaram a Grécia, salvaram os bancos". A secção Spiegel-Dokumentation verifica os dados. Para onde foram os milhares de milhões?

Para muitos alemães, não há dúvidas sobre o que aconteceu na Grécia: viveram durante anos acima das suas possibilidades e concederam-se todo o tipo de benesses sociais sem receberem a contrapartida em impostos. A mistura entre corrupção e desperdício não poderia funcionar a longo prazo. A miséria económica em que se encontram é da sua responsabilidade. Os gregos podem dar-se por satisfeitos por terem parceiros fortes que os safaram da bancarrota, continua o argumento. Tendo em conta que uma bancarrota descontrolada da Grécia podia ser perigosa para toda a Eurozona, a troika constituída pela UE, o BCE e o FMI autorizou dois enormes pacotes de ajuda internacional, em 2010 e 2012, com um volume total de 240 mil milhões de euros.
Se o governo grego se rebela agora contra o que foi acordado sobre as medidas de austeridade, isso parece um sinal de ingratidão. Mas muitos gregos não estão a ver de que modo é que a redução das reformas e o despedimento dos funcionários públicos os podem ajudar. Enquanto na Europa o desemprego continua a baixar (em média para 11%) na Grécia já chegou aos 26%, o maior em toda a zona Euro.
Também por esse motivo o governo de Alexis Tsipras não quer continuar a negociar em posição de humilde pedinte. Quer-se libertar e afrouxar as medidas de austeridade.

Será que Varoufakis tem razão?

Não nos é possível analisar aqui todos os aspectos da crise grega, mas podemos, para variar, usar um exemplo com uma perspectiva que vai contra a leitura alemã.
O ministro das Finanças grego compara as regras da troika às torturas da CIA, a imposição das medidas de austeridade a um waterboarding fiscal.
Compreensivelmente, esta frase choca a Alemanha, que lhe responde: "a Grécia não está a ser afundada em água, mas em dinheiro".
Varoufakis responde ao Spiegel: "os alemães têm de saber que com o seu dinheiro não salvaram a Grécia, salvaram os bancos. O dinheiro foi utilizado para impedir que os bancos, especialmente os franceses e os alemães, sofressem ainda mais prejuízos".
No seu livro (*) continua:
"Com a desculpa de salvar a Grécia, os prejuízos astronómicos nas contas dos bancos foram passados para os ombros frágeis dos contribuintes gregos, sabendo de antemão que esses custos acabariam por passar para os ombros da Alemanha, da Eslováquia, da Finlândia e de Portugal.
É óbvio que não houve qualquer salvamento da Grécia e qualquer solidariedade com os gregos gastadores. O Estado grego recebeu créditos no valor de 240 mil milhões de euros, para que mais de 200 mil milhões fluíssem para os bancos e hedge fonds. Este dinheiro foi entregue à Grécia com a contrapartida de medidas de austeridade drásticas que reduziram os rendimentos privados em 25%, pelo que o serviço da dívida, tanto pública como do sector privado, se tornou impossível."


O jornal Handelsblatt, que tem uma posição muito crítica em relação a Atenas, já se referiu aos "verdadeiros motivos da tragédia grega" nestes modos: ao fim e ao cabo, as acções de salvamento do sector financeiro, levadas a cabo pelos Estados, significam que os riscos dos balanços dos bancos são transferidos para o Estado.
A base para esta conclusão foi dada por um estudo do BCE, "The Janus-Headed Salvation", no qual Jacob Ejsing e Wolfgang Lemke mostram que o que pôs a Grécia em dificuldades foi a ajuda aos bancos e as suas consequências.
O Attac também fez revelações importantes sobre o uso das ajudas da troika.  

77% das ajudas foram para o sector financeiro

O resultado:  dos 207 mil milhares de milhões que foram entregues à Grécia até meados de 2013, 77% foram entregues directamente (58,2 mil milhões para recapitalização dos bancos) ou indirectamente (101,3 para credores do Estado grego) ao sector financeiro. Para o orçamento do Estado sobrou menos de um quarto do volume total.
O professor Michael Hüther, director do Instituto da Economia Alemã, instituição próxima dos empresários, reconhece este facto, mas lembra que "com esse créditos evitou-se que os bancos caíssem numa crise funcional ainda mais funda. Portanto, podemos numa primeira abordagem dizer que se tratou apenas de ajudar os bancos. Mas no fundo tratou-se de assegurar a infraestrutura."
Resta uma questão: se o que está em causa não são bem os gregos, mas o sistema financeiro europeu, porque é que a troika não parece preocupada com o fracasso das negociações?
O motivo é muito simples: muitos institutos de crédito europeus já não têm papéis da dívida grega. Em vez dos 272 mil milhões de então, são apenas 34 mil milhões. Os bancos na Alemanha e na França não correm grandes riscos de desequilíbrio caso a situação na Grécia se agudize.

Fazit: segundo a tese de Varoufakis, as ajudas da troika não foram um acto de solidariedade de cidadãos e contribuintes europeus para com o povo grego, mas um acto de auto-ajuda do sistema financeiro europeu às custas dos cidadãos europeus. Esta tese não se deixa refutar facilmente. O que é já motivo bastante para refutar as acusações dos cidadãos alemães irados.

(*) Yanis Varoufakis com Stuart Holland e James Galbraith: "Bescheidener Weg zur Lösung der Eurokrise" - sai a 25.02.2015 na Alemanha

Zum Autor
Hauke Janssen (Jahrgang 1958) leitet seit 1998 die Abteilung für Dokumentation beim SPIEGEL. Er ist Sachbuchautor, insbesondere veröffentlichte er Werke zum Themenkomplex der Volkswirtschaft im Deutschland der Dreißigerjahre.


Assim não, Europa!

(publicado no jornal Die Zeit online, e traduzido depressa demais, aviso já)

Assim não, Europa!

Embaraçoso - é o que se pode dizer sobre o encontro do Eurogrupo. A responsabilidade por esta situação cabe tanto aos alemães como aos gregos: o comportamento de ambos ridiculariza a Europa.

Um comentário de Marlies Uken, Bruxelas





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Bundesfinanzminister Wolfgang Schäuble  |  © Emmanuel Dunand/AFP/Getty Images
Os credores da Grécia têm bons motivos para se sentirem irritados com o novo governo de Atenas. Depois da vitória apoteótica, os novos governantes percorreram a Europa em mangas de camisa, anunciando simplesmente o fim da política de salvação [do euro] até então em curso. Mais ainda: o ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, comparou o trabalho da troika, tão odiada pelos gregos, aos métodos de tortura da CIA.

A Grécia quer ter um papel especial, pede tempo e dinheiro e está disposta a oferecer, no máximo, compromissos em doses homeopáticas. Simultaneamente, o novo governo grego apresenta-se como o salvador de toda a Europa. Isto não tem como resultar, pelo que deve ser rejeitado pela UE e pela Zona Euro. Tanto mais que está em causa dinheiro dos contribuintes no valor de milhares de milhões. 

Ao quinto dia das negociações ainda não se tornou claro o que é que o governo grego quer. Em vez disso, Jeroen Dijsselbloem, o chefe do Eurogrupo que foi a Atenas reunir de urgência, viu-se humilhado com estrondo mediático. Pode ser que isso traga pontos ao nível do eleitorado grego, mas cai muito mal aos parceiros europeus. 

E depois, na qualidade de novo colega em Bruxelas, fazer discursos longos e académicos sobre a democracia - referindo apenas lateralmente as imensas necessidades de financiamento da Grécia: também assim o ministro Varoufakis abusou da paciência dos seus colegas. 

Um compromisso tem de ser realizado 

Para dar a ideia do conjunto, é preciso também dizer que o modo como o resto da Europa está a reagir à Grécia é sinal de falta de respeito e solidariedade. Mesmo que a alguns políticos europeus não dê jeito que a detestada esquerda tenha ganhado as eleições na Grécia, ela merece ser ouvida. As suas críticas à política da troika e da salvação do euro têm a sua razão de ser. 

O comunicado final que o Eurogrupo apresentou ontem à tarde para ser assinado pelos gregos era, contudo, de tal modo inaceitável, que chega a ser desavergonhado tê-lo trazido para a mesa. Nele não havia a menor intenção de aproximação mútua, de disponibilidade para compromissos. E em particular a Alemanha desempenha aqui um papel inglório. Não apenas pela teimosia que o ministro Schäuble exibe repetidamente. Nos bastidores, o ministério das Finanças diz mal do novo colega grego e critica o modo como se apresentou em Bruxelas. Isto também é um mau estilo!

Independentemente da questão sobre quem chantageia quem, os gregos chantageiam o resto da Europa ou a Eurozona e o FMI chantageiam os gregos: estamos todos numa lose-lose-situation. Mais uma vez, a Eurozona é posta perante os seus limites. Se existe realmente esse desejo tantas vezes formulado de um acordo, as duas partes têm de se começar a mexer agora. A Europa é um continente de compromissos. Este é o momento de o realizar, em vez de ser apenas exigido. Vale para os dois lados.  

MARLIES UKEN
Marlies Uken
Marlies Uken ist Redakteurin im Ressort Wirtschaft und bloggt bei ZEIT ONLINE. Ihre Profilseite finden Sie hier.
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um governo a Alemão do que é a Alemã



1. 
Estou cheia de dúvidas sobre a tradução da frase daquele cartaz do Bloco de Esquerda para português. É verdade que se lermos com a entoação de um robot chegamos mais facilmente ao sentido: eine-re-gie-rung-die-deu-tscher-als-die-deu-tsche-ist. Mas sem a desfiguração do robot, e se estivermos habituados a ler os textos segundo as regras vigentes para a sua escrita, é difícil entender a mensagem que queriam passar.
O que não tem importância nenhuma, pelo contrário: porque o que este cartaz pretendia, no fundo, bem lá no fundo, era chamar a atenção para a impossibilidade de nos entendermos uns aos outros, especialmente quando alguns ignoram as regras que pareciam universais...

2. 
Leio a frase em português, e pergunto-me: que diriam os autores deste cartaz se na Alemanha o partido Die Linke fizesse um cartaz semelhante? A mesma foto, e a frase "um governo mais português que o português", para criticar um escândalo de nepotismo em cargos de assessores de membros do governo?

(Desculpem, não resisti a largar as piadinhas. Antes que me venham atirar ovos podres, lembrem-se que somos todos Charlie...) (Oh, não! reincidi!)
(Daqui a nada volto cá para me redimir, com a tradução de alguns artigos muito interessantes que li no Spiegel online)

23 fevereiro 2015

o que cabe num fim-de-semana

Neste fim-de-semana jantei com duas mulheres fantásticas, conheci um blogger que admiro há mais de dez anos, e descobri que na vida real é ainda melhor do que eu o imaginava. Não conseguimos resolver os problemas todos de Portugal, mas não nos falhou a alegria. Tive de fotografar a ementa do dia para a poder traduzir à mesa.


Fui à padaria com o Fox à hora a que as crianças da vizinhança se agitavam de campainha em campainha a chamar os amigos. Quando ia pagar os croissants chegou um novo tabuleiro acabado de sair do forno. A senhora trocou os que me ia dar pelos quentinhos. Comprei mais dois, para os vizinhos que nos fazem dog-sitting. Passei pela casa deles, o Fox levou uma demão de festinhas. Avisaram-me alegremente que ainda havemos de nos encontrar num tribunal de família para decidir sobre a guarda do bicho. Voltei para casa, a rua já estava por conta das crianças - de bicicleta, triciclo, trotineta, bicicleta sem pedais, skate. Sábado de manhã, sol, gritos alegres. Nem parecia que estamos em Berlim no séc. XXI e em Fevereiro.
Ao pequeno-almoço prometeram-me um belo apoio para o Cinemagosto (até me lembrei do Varoufakis, hei-de revelar-lhe o poder de um croissant quentinho e estaladiço).
Fui a casa do vizinho, para aprender a cozinhar perna de javali júnior. Agora sei como se faz, é muito simples, começa assim: "Compre na e-bay uma panela oval de ferro fundido usada, por 80 euros..."
Encontrei a página da Sabine Platz na internet (a brincalhona que recriou os 50 shades of Grey com o dono de uma loja de ferragens) e escrevi-lhe uma mensagem elogiosa e grata. Pouco depois estava a receber uma resposta escrita de forma simples e pessoal. Adoro gente sem peneiras.  
Fomos a uma feira de vinhos. Atraquei no cantinho do Super-Ibérico, entre o presunto Pata Negra e os pastéis de nata a sair do forno. Deram-me a provar vinho do Porto com 30 anos. Entre outros, entre outros, entre outros, hic. A companhia estava óptima, adoro feiras de vinho: estão todos um bocadinho tocaditos, bem-dispostos e inconvenientes q.b.
Deram-me os restos mortais do Pata Negra para fazer uma feijoada, mas a verdade é que ainda vinha bastante vivo.
Passei por um japonês que estava a fazer sushi "New York style" (o salmão ligeiramente grelhado com um maçarico), e estava delicioso.



Parei num vendedor de salamis de carne de vaca, um homem muito engraçado. Tinha salamis para meninas bem-comportadas (mas ofereceu-se logo para dar o seu número de telefone), salamis perigosíssimos ("porquê?" "porque tem poderes afrodisíacos, as pessoas provam-nos e querem logo casar comigo"). Comprei o melhor de todos, e vim de lá com noivo. 


Depois da feira queríamos ir todos jantar a um italiano (recomendo: Italo Cafe) mas o vizinho lembrou-se que não tinha programado o forno para se desligar sozinho, e tinha de voltar para casa para salvar o javali. Eu lembrei-me do Fox, que estava há mais de dez minutos sem mim, e queria voltar também. Mas não foi preciso, porque o vizinho disse que podia cuidar do javali e do Fox.
Um sábado atulhado de gente boa.

  

No domingo o Joachim deixou-me junto ao memorial do Holocausto e seguiu para a sessão de pintura. Enquanto atravessava o memorial ocorreu-me a canção de embalar que dizem que a Ilse Weber cantou às crianças quando entravam na câmara de gás. A parte do vento a tocar na lira e da lua feita lampião ainda dá para aguentar. Mas a terceira estrofe dá cabo de mim: "oh, que calmo está o mundo / nada perturba este doce sossego / dorme, menino, dorme também tu / oh, que calmo está o mundo". O que mais me comove nos relatos do Holocausto são os sinais de humanidade e dignidade que brotam daqueles despojados que enfrentam o horror e a morte.


Berlim é uma cidade curiosa: junto ao memorial do Holocausto há uma vinha e um elogio ao vinho, e logo a seguir vem o Café Balzac com os seus bolos deliciosos. A vida continua?
A minha continuou: à espera do Godot, em frente a um belo naco de Schoko-Karamell-Shortbread.


Para encerrar a exposição "Violins of Hope" organizaram uma sessão pública com o proprietário da colecção e os organizadores da exposição. O Amnon Weinstein emocionou-se ao falar do pianissimo que, no Adagietto da 5ª de Mahler, os músicos dirigidos por Simon Rattle conseguiram fazer nascer daqueles violinos inertes há meio ano. Não entendi, mas no final explicaram-me: é preciso tocar os instrumentos regularmente para a madeira manter as vibrações. O Jordi Savall diz que o difícil é conhecer o ponto certo: nem de menos, para o instrumento não ficar "opaco", nem demais, para ele não se cansar. Sempre que falo com músicos de instrumentos de cordas fico com a sensação de estar numa sub-secção do Harry Potter.



A colecção do Amnon Weinstein foi enriquecida com um novo violino, que lhe ofereceram em Berlim. Um pedaço de História alemã: era tocado numa orquestra de comunistas, em Wedding. Apesar das muitas rusgas que os SS e os outros criminosos paramilitares faziam às salas onde eles davam concertos, o violino conseguiu escapar inteiro a todas as cenas de pancadaria. Agora vai para Telavive. Gosto muito do simbolismo deste misturar de Histórias, de trazer a Berlim os violinos expulsos pelos nazis, e de guardar um violino comunista berlinense ao lado de outro que tocou em Auschwitz. 
Acabámos a conversar com o organizador da exposição, que elogiou os desenhos que o Joachim fez durante o concerto, e quase lhe pediu os originais. O Joachim aproveitou para se queixar da megera de mulher que tem, que odeia ouvir o seu lápis durante os pianissimos, e o outro passou-se para o lado dele e disse que não tem mal nenhum, que muito pior são as tosses, o restolhar dos programas, as pulseiras das senhoras. Estou a ver que vou entrar para o lado errado dos anais da Filarmonia...
Daí a nada estávamos a conversar alegremente com a família Weinstein. O filho contou que esteve em Portugal uma vez, quando vinha de barco à vela dos EUA até ao Mediterrâneo. Em Lagos queria muito comer humus, e encontraram uma loja que vendia, mas que fechava às 20:00. Eram 20:01, e o empregado recusou-se a vender o humus que tinha ali à sua frente. "Era alemão!", disse o Joachim. "Da próxima vez, tente ter antes desejos de bacalhau", disse eu, sempre em busca de soluções fáceis.
Depois viemos para casa com amigos roer o resto do presunto, e fomos jantar o javali com os vizinhos.
No fim disto tudo, prometeram ao Joachim uma garrafa de vinho do Porto com 150 anos.
(Vou ver se não o chateio nos próximos concertos, pode ser que sobre um copinho para mim.)


21 fevereiro 2015

a vida no lado confortável da parábola

A Christina telefonou esta manhã. Ia a caminho de um exame, e queria contar que uma amiga nossa lhe telefonou a desejar boa sorte - apesar de o funeral do seu pai ser hoje, ao princípio da tarde, ainda se lembrou de pensar nos outros. Depois conversaram um bocadinho, e a nossa amiga contou algo bonito e reconfortante: que o pai morreu com muita paz, que se pôde despedir de todos e agradecer à sua mulher a vida que atravessaram juntos.
A Christina comentou: "vocês sabem escolher os amigos".

Penso muitas vezes naquela estranha frase do Evangelho no fim da parábola dos talentos: "Pois a quem tem, mais lhe será confiado, e possuirá em abundância."
Talvez não seja bem uma questão de ter, mas de saber. Saber olhar com olhos de gratidão para o bom que a vida nos dá, não ligar demasiado aos escolhos que vão aparecendo. No fundo, a nossa vida é como a vemos.


20 fevereiro 2015

sabor a


Estes dois senhores são os patronos de um projecto da Filarmonia ao qual concorri: um concerto com cantores amadores. Concorri pensando que tinha a sua graça estar do lado de lá, uma vez na vida.
 Não sei é se eles vão achar a mesma graça que eu, que isto a minha voz já não é o que era. E tudo por causa do preço da energia. Dantes, no tempo da gasolina barata, cantava muito. No carro, ó pra lá e ó pra cá. O Chico Buarque nem sonha a quantidade de duetos que fizemos juntos. E no duche também - às vezes aviava discos inteiros, LPs (sim, o vinil era o suporte habitual no tempo em que eu decorava os discos inteiros). Mas agora tomo duches de uma ou duas quadras, no máximo, e ando de transportes públicos, ou a pé. As circunstâncias pedem um registo discreto, que isto é Berlim, é verdade, mas também não é preciso abusar. Estou uma especialista em música tipo meditação.

Será que devia cantar a seco e imóvel? De pé, no meio da sala?
Acho que não: ia parecer uma profissional, e eles foram bem claros - músicos amadores. Emboramente, eu bem sei como é que os amadores alemães são...

A ver se me chamam para a prova de admissão, a ver se me aceitam.

Em suma: gostava imenso de trabalhar (oh, se gostava!) com estes senhores. Mas suspeito que esta imagem deles no projecto é como a das laranjas nos pacotes de sumo com sabor a.


19 fevereiro 2015

e ainda dizem que os alemães não têm sentido de humor

Às sete da manhã estava a ver televisão. Eu, que nem à noite vejo, esta manhã estava a ver televisão, ainda o sol não tinha nascido. Se querem saber tudo: descobrimos em cima da hora que o Joachim estava sem camisas passadas, e lá fui eu tratar disso, enquanto ele preparava o pequeno-almoço.
As tarefas estúpidas são como os extremos: tocam-se. Pelo que liguei a televisão, e calhou de ser no Morgen Magazin, e mesmo a tempo de ver uma sátira ao 50 Shades of Grey muito à maneira alemã. (carreguem no link - está em alemão, mas só o ar com que eles fazem isto já vale bem a coisa)

A peça desenvolve-se assim: a locutora, com aquele ar típico da alemã que saiu de casa sem olhar para o espelho, entra numa loja de ferragens e tenta recriar algumas cenas do 50 Shades com o dono da loja. Ela mostra-lhe uma cena do filme, que os dois copiam logo a seguir, e foi uma sorte a camisa do Joachim não ter ficado toda queimada. O Herr Düring explica que tem braçadeiras para "pequeno" e "grande", e riem-se os dois. Depois ele mostra-lhe o non plus ultra das braçadeiras: com velcro, para serem reutilizáveis, e ela ri-se, toda satisfeita, "com isto pode-se trabalhar!"

Cena seguinte: a fita-cola. Traduzo (ó Speeeeeedy! anda cá traduzir isto, ó faz favor!) o filme a partir de 1'20'':

Enfim, a cena da fita-cola não nos faz avançar muito do ponto de vista erótico. Vamos para a cave, para tentar uma aproximação. E de facto, na zona dos cabos chegamos mais perto um do outro.
- Este é o seu cabo favorito, Herr Düring?
- Sim, e ainda por cima o metro só custa 1,95 €.
- Wow! Que se pode desejar mais? Barato, e agradável na pele.
- Agora vamos ver a cena do filme, Herr Düring...

[mostram a cena do filme em que ela lhe mostra cordas]
Ora, o que ela faz já o meu Düring sabe fazer há séculos!
- Herr Düring, acho-o cada vez mais interessante.
- Obrigado.
- De nada. 


De volta ao rés-do-chão já não há como travar, e o dono da loja revela-me o instrumento que mais o acelera.
- É muito agradável passar isto sobre a pele nua, nas costas...
- Sim... mmmmh, ah, sim, sim! hahahaha


Entre nós os dois a coisa começou a aquecer, sem dúvidas. Mas, na realidade, toda a loja está escaldante.

Primeiro cliente (homem):
- A sua mulher sabe que o senhor está aqui?
- Não.


Segundo cliente (homem):
- O que é que o senhor quer comprar?
- Lâmpadas.
- E que tenciona fazer com elas?
[reparem no sorriso dele, é o máximo]


Terceiro cliente (mulher):
- O meu espremedor de limões estragou-se.
- Como? Porquê?
- Era velho. Ou então, sou eu que sou muito fogosa
.

Acho que vou ter de começar a levantar-me mais cedo para ver o morgen magazin da ZDF. Há muito tempo que não me ria tanto ainda antes do primeiro café da manhã. Gosto de tudo: da ideia de improvisar cenas de erotismo com o homem de uma loja de ferragens, do modo natural como todos entram na brincadeira, da mistura entre erotismo e diálogos típicos de alemães a apreciar material de loja de ferragens, do ar desalinhado da mulher (é tão refrescante ver estas profissionais da televisão que não precisam de se disfarçar de bonecas) e sobretudo da segurança com que ela se põe nestas situações de auto-ridicularização. Nesta peça, a Sabine Platz está uma maravilha. Mas não é só ela: fico a pensar que uma coisa assim só é possível numa sociedade em que a mulher é realmente respeitada.


mandou-me uma carta em e-mail perfumado...


O Daniel Barenboim volta e meia escreve-me, quer-me contar o que tem andado a fazer. Eu sou muito pela liberdade, mas acho simpático ele prestar contas. Às vezes até é prestável. Outro dia, por exemplo, revelou que ainda havia bilhetes para cadeiras no palco, mesmo ao lado do piano ao qual ele se sentaria para fazer música de câmara. Quem te avisa, amigo é? Somos íntimos, o Barenboim e eu, e fui logo comprar um bilhetinho.

O concerto foi ontem, no Schiller Theater - que alberga a Staatsoper enquanto as obras da Ópera em Unter den Linden não terminam. Parece que o mestre de obras é o mesmo do aeroporto de Berlim, é uma triste vida.

Quando os lugares são no palco, convém ser dos primeiros a entrar. Eu fui dos últimos, fiquei com uma das poucas cadeiras ainda disponíveis: pertíssimo do piano do Barenboim, mas do lado errado. Passei todo o Dvořák a ver o topo da sua cabeça agitada por trás do livro das notas. Em compensação via o ajudante que lhe virava as páginas, e por inteiro. Um espectáculo: parecia que era ele quem estava a interpretar a peça. No fim retirou-se discretamente para os bastidores, e foi pena - também ele merecia vir à frente do palco agradecer os aplausos.

Antes do concerto, a senhora ao meu lado meteu conversa (e o que eu gosto destes berlinenses que conversam com os vizinhos enquanto esperam!)  e contou que o Barenboim só traz para estes ciclos os seus melhores músicos. Primeiro violino, primeira viola e primeiro violoncelo da orquestra da Staatsoper. E eu ali, ao lado deles, deliciada.
Obrigadinha, ó amigo Barenboim. Dá sempre notícias!
(Especialmente quando começarem a vender lugares no palco para o concerto do Pinchas Zukerman e do Yefim Bronfman, sim?)

O programa - gostei especialmente da última peça, o Dvořák:









18 fevereiro 2015

concerto promenade - o lago dos cisnes

Esqueçam a piroseira de cisnes graciosos e delicados, em forma de coração e assim. O verdadeiro cisne é um navio quebra-gelo!
(o da frente é o autêntico multi-tasking: além de quebra-gelo é cão de guarda - ai de mim se chego demasiado perto dele quando ando a fotografar) (depois, se calhar para compor o orçamento, é bem capaz de pôr o pescocinho a jeito, ele e mais o outro branco, para aquelas fotografias dos cartões de São Valentim) (e assim se enganam os tolos) (mas essas não ponho aqui)






17 fevereiro 2015

concerto promenade - andamento: agitato

Aquece e arrefece, arrefece e aquece: sedimentos na superfície do lago. O gelo antigo de várias semanas e liso, no centro, a superfície ondulada que gelou esta noite junto à margem, e entre as duas a água agitada pelos pássaros.









15 fevereiro 2015

volta xador, estás quase perdoado...

A caminho do metro passei por um bordel, de onde estava a sair um homem. Vinha a escrever um sms (imaginei que estaria a escrever "querida, desculpa, a reunião demorou demasiado tempo). Daí a bocadinho, para meu azar, estava sentado à minha frente na carruagem do comboio.
Não me apetecia que por um momento sequer aquele homem reparasse em mim e fizesse contas de cabeça sobre quanto estaria disposto a pagar para usar o meu corpo durante meia hora. Enterrei a cabeça o mais que pude no cachecol, parecia uma tartaruga.
Naquele momento percebi um pouco melhor as mulheres que saem à rua com casacos compridos largos e lenços na cabeça.


concerto promenade - andante tranquillo

Temos tido dias gloriosos. Até o sol dá um ar da sua graça sobre a superfície gelada do lago. E têm calhado aos fins-de-semana. Organizadinho, este inverno alemão.

Não me canso de saborear os reflexos opacos dos azuis no gelo.
Pergunto-me: se aos cinquenta estou com estes hobbies de velhota, que vou fazer quando tiver cem anos?















Berlinale 2015 - Paridan az Ertefa Kam



O filme "Taxi" esgotou bem antes de eu ter olhado para o programa da Berlinale. Pelo que procurei outro filme iraniano, já que gosto muito da subtileza desse cinema.
Paridan az Ertefa Kam (A Minor Leap Down) estava anunciado como a história de uma mulher grávida que descobre que o filho morreu e se revolta contra o silêncio à sua volta. No filme que vi, é ela quem se encerra no silêncio e inicia um movimento centrífugo de destruição. Um filme opressivo sobre a impossibilidade do diálogo e a projecção como armadilha.

O público não gostou. Os aplausos foram escassos e breves.

Saí do cinema a pensar que este ano ando com azar na Berlinale. Mas depois ocorreu-me que talvez fosse este o filme cuja equipa não foi autorizada a sair do Irão. De viver há tanto tempo em sociedades livres, já me esqueci da necessidade de alegorias. Afinal, este feto a apodrecer no ventre de uma mulher em negação bem podia ser uma crítica ao regime iraniano. E a sua resposta ao marido - "tu não aguentarias conhecer a verdade" - bem podia ser uma parábola do paternalismo perverso de um sistema que destrói pensando proteger. E a naturalidade com que o marido aceita a realidade - "o meu filho morreu" - bem podia ser um sinal de que os protegidos afinal não precisam de protecção.

(Eu sou aquela que já chegou a tentar encontrar filosofias profundas nos diálogos do Rambo, dêem-me um desconto...)


Berlinale 2015 - Je suis Annemarie Schwarzenbach






O filme "Je suis Annemarie Schwarzenbach" começa de forma muito prometedora, com as cenas do casting para o filme. Ainda não é o filme, e já está lá tudo - a busca de Annemarie, os pontos de contacto entre os actores e ela, entre nós e ela. Quem sou eu, quem é Annemarie? Annemarie como o resultado de uma busca, construção, escolha, afirmação. Como cada um de nós, afinal.

Foi feito antes da onda "je suis Charlie", mas parece uma cópia: um olhar sobre a Annemarie Schwarzenbach que nos questiona sobre a nossa e a sua identidade. O problema é que entretanto já fizemos esse exercício com o Charlie, não precisamos de o repetir para a Annemarie. Há azares de timing.

Uma vez escolhidos os vários actores que serão todos eles Annemarie, o filme desenha-se entre o improviso e a encenação, num relato prismático que se perde entre o "ela" e o "eu" de quem a procura e representa. O ritmo e a inspiração vão falhando. No final aparece uma figura ridícula a fazer de fauno, e um boneco ambulante a fazer de urso. Representarão o perigo e o mistério que nos espiam das margens da nossa vida, explica no fim a realizadora, Véronique Aubouy.

Annemarie Schwarzenbach não merecia um final tão, digamos assim, artesanal.


14 fevereiro 2015

síndrome de Estocolmo



Ontem falaram outra vez de mim no Governo Sombra. Para o que uma pessoa está guardada: sexta-feira à noite descansadinha da vida, e de repente, zimbas! Falam quase tanto de mim como da Lagarde, por este andar lá terei de ir ao fundo da gaveta buscar os Burberries que os amigos me deram. Talvez fosse boa ideia começar a pensar em comprar um chanelzinho em segunda ou terceira mão.

Os simpáticos governantes vieram  a Berlim em 2011, fi-los sofrer horrores (saiu na imprensa de referência, e com detalhes - a revista Volta ao Mundo acusou: Helena Araújo mostra a sua costela teutónica e estuga o passo) (um deles saiu de Berlim a coxear, e no último dia fizeram de conta que saíam cedo para o aeroporto e esconderam-se no hotel). Apesar de tudo, ontem até mandaram beijinhos. Não sabia que a síndrome de Estocolmo tinha efeitos tão duradouros.

(Beijinhos de volta, ó garbosos cavalheiros. E se calhar de quererem sofrer mais um bocadinho, façam favor de dispor.)

 ***

O Valter Hugo Mãe vem a Lisboa na próxima semana. Escrevi-lhe a avisar que havia aqui um grupo de gente interessante ligada à literatura que o queria convidar para jantar. Recebi de volta uma daquelas mensagens tipo "desculpe, estou ocupadíssimo, não posso responder já". Ora bem, em termos de ocupadíssimo andamos todos ao mesmo (e eu fui pateta, em vez de a apagar, devia ter copiado aquela mensagem para dar um toque de Literatura aos meus atrasos epistolares), mas ele não sabe o que perde: sensações tão fortes que estão garantidos pelo menos três anos de mixed feelings.

***

E agora com licencinha, vou para a vida real: tenho de levar o Fox a conhecer a sua dog-sitter para amanhã (é uma vizinha que estava capaz de pagar para poder ficar com ele umas horas), e os vizinhos do lado vieram-me convidar para comer ostras. Isto a vida é muito dura, mas é preciso acreditar que dias melhores virão.


dia de São Valentim no Google

Os brincalhões do google puseram hoje um par de namorados lado a lado cada um em frente ao seu computador. "Romance she said", e podia continuar a rir-me disto, mas bem me lembro do que fiz no Verão passado: em casa de amigos, de manhãzinha cada um de nós sentado em frente ao seu mundo 2.0., trocando de vez em quando impressões e comentários sobre o que descobríamos. Uma maneira de comunhão. 

Entretanto o google vai mudando os doodles de hoje. "I'm interneting in the rain", e outros do género. O amor na sua variedade, quererão dizer. E sublinham a variedade com uma galeria de imagens sobre o tema do dia, como estas:


von BanksyGlobal Street Art Foundation(foto)

von Romualdas PožerskisModern Art Center / Modernaus Meno Centras(foto)


 Romance (1988)
von Dan DaileyHuntington Museum of Art(foto)


The Glass of Wine (around 1661)
von Jan Vermeer van DelftGemäldegalerie, Staatliche Museen zu Berlin(foto)

Lovemaking (1915) 
von Schiele
Leopold Museum
(foto)