21 Agosto 2014

de volta à filarmonia



Quem avisa amigo é: no sábado, 30 de Agosto, a Filarmónica de Berlim retoma as lides com um concerto que vai ser transmitido em directo no digital concert hall, e que podem ver gratuitamente se se inscreverem neste site.

Programa: Strawinsky (o pássaro de fogo) e Rachmaninow (danças sinfónicas).

E quem avisa os que moram em Berlim, amigo é: é muito provável que, por volta da terça-feira, ponham à venda bilhetes para os bancos do coro, por menos de vinte euros - são bilhetes melhores que os outros, porque dão concerto e ballet, com o Simon Rattle a fazer de primeiro-bailarino.


20 Agosto 2014

anda uma mãe a levar os filhos desde pequeninos ao conservatório...


Anda uma mãe a levar os filhos desde pequeninos ao conservatório, e eles depois vão e entram por caminhos outros. Ou: coitadinho do cão do Pavlov, que acabei de o ultrapassar pela direita a 200: vistam-me rockeiros com fatiotas barrocas, e descubro - surpreendida e fascinada - que afinal quem gosta de entrar por caminhos outros sou eu.








19 Agosto 2014

nós cá dentro do Cinemagosto (2)

É definitivo: para mim, o melhor do Cinemagosto, melhor ainda que os filmes, é a sorte de me saber acompanhada por pessoas especiais. Além da equipa de organização, os voluntários que por estes dias nos têm vindo ajudar nas mil tarefas de fazer uma mostra de cinema acompanhada por um pequeno festival de comidas e vinhos, livros e DVDs.

Têm sido dias cansativos, e às vezes não posso evitar perguntar-me porque é que me meto nestas coisas. Mas depois falo com as pessoas que vêm comprar um pastel de nata no fim do filme, e me aparecem com os olhos brilhantes, ou então vejo-me a fazer um intervalinho, sentada com os outros "escravos" em conversa e risos à volta da mesa com um prato de presunto e alguns copos de vinho, estendo as pernas, suspiro por dentro e penso "é por isto".

Pagamos mal, e em géneros: por jorna de trabalho, dois bilhetes para os filmes e uma broa de mel da Madeira. Os voluntários são amorosos, mandam-me ir ver o filme que me interessa, ficam eles a tomar conta do estaminé. Eu não vou, não tenho coragem. Mais uma ideia fantástica que me saiu pela culatra: queria ter uma mostra de cinema português em Berlim para poder trocar as voltas à minha insularidade, e agora tenho cinema português do melhor e não vejo porque estou a vender croquetes e bolinhos de bacalhau...
Para mais, tive os filmes todos em minha posse durante uns dias, em Lisboa, quando os andei a recolher para os enviar para Berlim. Vontade de fazer um controlo de qualidade não me faltou, mas o tal "maldito inquilino" não deixou - por uns dias a minha vida parecia a Casa das Belas Adormecidas, eu a dormir ao lado dos filmes sem lhes querer tocar, querendo. Por estas e por outras é que nunca hei-de arranjar um cargo de CEO numa daquelas empresas que paga muito bem aos CEO, por mais incompetentes que sejam. Ora, incompetente também consigo ser (como se prova no parágrafo anterior, por exemplo), mas parece que me faltam os restantes atributos. Triste vida.

Os meus filhos ajudam, coitados. Sobretudo agora, que chegou a cozinha de Portugal, e eles vêem o património familiar muito melhorado, não querem correr o risco de ser deserdados. E até trazem os amigos. Se não há muito trabalho para fazer, digo-lhes que vão ver o filme. Eles vão, e aprendem muito sobre o meu país, que é também deles. Também por isso esta mostra me vale a pena.



Aleluia! Finalmente deixaram-me mandar: as pessoas da equipa de organização, que são do centro e do sul de Portugal, e mais um alemão que se o deixassem mandar era de Lisboa, quando chegou o momento de dizer "viva o Cinemagosto" disseram "bibócinemáguôasto!" e desataram a rir.
(Havemos de repetir esta foto mais cedo, quando ainda há luz na rua)


O João Botelho conversa com o Hannes Reiss, a Anabela Moutinho sorri para a Teresa Prata, e eu converso com o nosso excelente barman, professor de matemática. Discutimos os teoremas da incompletude de Gödel, que é como quem diz: o meu copo está vazio. 










 
 


E para quem quer saber tudo, tudo, tudo, aqui vão dois vídeos:

- a equipa de preparação em plena azáfama;

- o debate do filme Juventude em Marcha, de Pedro Costa, gravação "pirata" que encontrámos no youtube.


anti sofá





Um blogue para um ano, e começa já a 1 de Setembro.

(O que eu gosto desta mulher e admiro nela dava para fazer mais um blogue, mas é daquelas coisas que respiram melhor no silêncio.)






15 Agosto 2014

se chego ao fim desta aventura, nem acredito que é verdade...

Estava aqui toda atarefada com o Cinemagosto, eis que vejo um camião a estacionar em frente à minha porta. Era a cozinha que veio de Portugal, e ninguém me avisou que vinha hoje.
Ora bem: antes hoje que amanhã, que já estou farta de subir e descer escadas para fazer um almocinho (as ferramentas e os ingredientes diversos no segundo andar, o frigorífico na cave, a cozinhita no rés-do-chão) (um dia destes quem escreve um livro com dicas para perder peso sou eu). E antes hoje que amanhã, porque hoje o Cinemagosto ainda não aperta. Amanhã é que vão ser elas.

O homem deixou três caixotes enormes em frente à casa, o Joachim e eu começámos a telefonar a empresas de mudanças de pianos de cauda, como uns desesperados, a ver se conseguíamos essa espécie de milagre que será elevar caixas pesadíssimas até ao terraço do segundo andar, e arranjar quatro homens com força de King Kong e sensibilidade de Sininho para pousar os blocos da ilha sobre as ligações da água que já lá estão espetadas no meio da sala.
Debalde.
Até que a Christina me sugeriu que fosse ao fundo da rua, onde há um guindaste, para pedir aos homens uma ajudinha. Fui ao fundo da rua, era hora do almoço e os operários ficaram todos muito contentes por lhes irromper pelo repasto adentro, e não podiam ajudar mas disseram-me o nome alemão do tipo de camião que me podia resolver o problema: "LKW mit Ladearm".
É bem verdade que no princípio era a palavra, e no verbalizar é que está o ganho.

O LKW mit Ladearm chega daqui a uma hora, os homens que carregam pianos de cauda (e orgãos, e espinetas, e cravos) devem vir na segunda-feira. Pedi que viessem o mais cedo possível, "se fôr às cinco da manhã não me importo, até lhes dou um café". Ele riu-se: "e nós levamos os pãezinhos quentes".

Veremos.

***

Para quem quer saber tudo, a cozinha estava assim na fábrica em Portugal, quando a fomos conhecer em meados de Julho (e aviso já que só aceito críticas positivas, tipo "é a cozinha mais bonita do mundo" e assim):





(Foi feita na "de pau, indústria de mobiliário" - por pessoas a quem dantes se chamava "artista": conhecedoras e amantes da sua arte. E por um preço que, bem feitas todas as contas, não fica muito acima das cozinhas IKEA.)

Agora está lá fora, assim:



Não percam os próximos episódios desta blogonovela. Se correr tudo bem, vitória vitória acabou-se a história. Por enquanto, tento viver um susto de cada vez. Tenho meia hora para ir buscar dinheiro para pagar ao condutor do LKW mit Ladekran, e mais uma tela de plástico para me abrigar as caixas lá em cima no terraço, porque por causa do Cinemagosto andei a rezar para que chovesse e as pessoas quisessem ir ao cinema em vez de ir ao lago (agora é que me vou desgraçar junto da população berlinense) e parece que rezei com demasiado empenho, que começou a chover agora mesmo em cima da minha rica cozinha. 

Depois conto o resto. 


nós cá dentro do cinemagosto (1)



Muito resumido, o arranque foi assim:

Fui buscar a Anabela Moutinho ao aeroporto, viemos dormir a correr, fomos buscar o João Botelho ao aeroporto. A caminho do hotel Pestana, que é um dos patrocinadores do Cinemagosto, demos uma volta para mostrar ao João o que mudou em Berlim desde a última vez que ele cá esteve. Enfim, um pouco do que mudou, que não tínhamos a semana toda, e esta cidade vive em perpétuo refazer-se.

Já levei dezenas de pessoas ao memorial do muro, na Bernauer Strasse, e nunca vi ninguém apanhado como o João Botelho. Aquelas pessoas nas fotografias a preto e branco, assassinadas no caminho para a liberdade, eram da família dele. Todas elas.

A equipa do Cinemagosto reuniu-se pela primeira vez, e a reality tv nunca está quando mais precisamos dela: para filmar o emotivo encontro entre o Hannes e a Anabela, que andam há meses a trabalhar juntos, numa onda de perfeito entendimento e admiração mútua, sem nunca se terem visto mais magros. Por outro lado, foi uma sorte a reality tv não estar lá, porque assim ninguém registou as nossas caras de inveja ao ver a t-shirt do Hannes.
(Decidi - mas vai ser o nosso segredinho, não contem a ninguém - que vou fazer uma para mim, e todos os anos outra. Como o grafismo se mantém, e só mudam as fotografias dos filmes, vai dar uma linda colecção. Hehehehe, desta é que os senhores da Berlinale não se lembraram, hehehe.)

Depois do almoço havia uma conferência de imprensa no cinema Babylon. Mais uma vez a reality tv falhou, e ficou por registar a comoção da Anabela ao descobrir a beleza daquele cinema quase centenário. A casa do Cinemagosto tem a vivacidade tranquila de um amor decantado pelo tempo.

A caminho de casa parámos ainda no memorial do Holocausto e perdemo-nos de vista na crueldade dos seus rectos caminhos, descemos ao centro de informação e de novo fomos separados pelo horror. Já fui lá tantas vezes, e a cada vez fico grata pela penumbra das salas que me recata a dor.

Reencontrámo-nos mais tarde num café, a falar da humildade dos génios e do, digamos assim, kama sutra do cinema (vocês sabem: as posições da câmara, a importância do olhar, a intuição que sabe encontrar o gesto certo, esses erotismos). Falámos do tanto que o Manoel de Oliveira ensina - sobre cinema e sobre o brio da vida. Fizemos planos mirabolantes para hoje, e dissemos adeus até amanhã.

(A mousse de chocolate do hotel Pestana é do outro mundo. Podem crer.)


13 Agosto 2014

apontamentos a meio deste verão




A meio deste verão, olho para trás: onde vão já as três semanas de férias sossegadas, onde ficaram os momentos perfeitos desses dias?

Passámos uma semana sem filhos nem Fox na casa do Minho, e foi estranho. Aquela casa guarda os ritmos e os ecos de vinte anos de férias em família, e durante uma semana tudo nela nos lembrava as ausências, como se a vida não estivesse a bater certo.    

Durante três semanas trabalhei em Lisboa, e pernoitei na casa de amigos. Perjantei também muitas vezes, porque estava demasiado cansada para organizar saídas nocturnas. Telefonava, pedia uma sopinha, davam-me jantares deliciosos no jardim de árvores frondosas. De manhã, encontrávamo-nos os três na sala, cada um entregue ao seu vício solitário. Entre o écran e o café, comentávamos brevemente as novidades e as descobertas, e depois cada um voltava ao seu mundo. Heimat ist da, wo man sich nicht erklären muss.



Emprestei a casa de férias a uma amiga, que mandou um sms a dizer "Os meus filhos estão histéricos, pensam que estão num palácio. Eu estou pior." Passaram pela casa como Jesus por Maria: nem se notou. Mas deixaram uma banda de música, "esperamos que a partir de agora não mais te sintas longe da tua querida filarmónica". Tenho o Simon Rattle mais laroca de todo o Minho.

Das conversas com tantos e tão bons amigos já nem lembro o que foi dito - sobrou um coração cheio de sorrisos carinhosos, gargalhadas e partilhas plenas de confiança.

Não sei em que dia da criação Deus inventou os meus amigos, e é pena: devia ser feriado.



Este verão passeei com o Fox por entre vinhas do Douro, e ele passeou comigo. Se me demorava muito a tirar fotografias, voltava para trás, perguntava: "então, não vens?"

Vi finalmente a Elisabete Matos entregue ao "vício da arte". O Paulo Ferreira prometeu que vem a Berlim cantar-me as árias do Calaf, e nem sei se acredite, mas vou falar com o otorrino para me pôr passadeiras vermelhas nos ouvidos. O Matthias, quando soube desta conversa, enterrou a cabeça nas mãos e disse "Oh, mãe..." - quando ele diz "Oh, mãe..." assim, sinto-me uma catraia traquina, e desato a rir.

Descobri uma música que me encantou (ouçam aqui, yesterdays), mostrei-a ao Matthias. Ele aprovou, e mostrou-me as suas descobertas musicais dessas férias. Anda uma mãe a criar um filho - e é para isto mesmo, é também para isto.

A meio deste verão regressei a Berlim e tomei um longo pequeno-almoço com a Christina. Entre macchiatos fomos desatando a pouco e pouco os nós que a estorvavam. Ela saiu a correr para o autocarro, ia tão leve que quase voava. Eu segui para a minha mercearia de turcos favorita, e tinham beldroegas. Beldroegas em Berlim!

Voltei para casa pelo caminho do lago, o meu peito em surda agitação: esta é a minha vida, e gosto tanto de estar assim nela!


12 Agosto 2014

Ararat

Este músico, Arto Tuncboyaciyan, é uma pessoa extraordinária. Cresceu como arménio em Istambul, e a partir da experiência da condição de pária no seu próprio país encontrou um sentido para a sua vida.
Nos dias da Arménia, o seu "Ararat" foi-nos companhia fiel. Tão fiel como a montanha, sempre lá. 

Ararat-jan.
Arto-jan. 




(a canção "Ararat" começa por volta do segundo 35)

(Para quem está na Alemanha, e tem de aturar a GEMA, aqui vai, enquanto for possível: Ararat)



Ararat


You're beautiful, beautiful
You Ararat hey jane
You're sight is different
From Armenia's side
Your soul's smell comes to me
Here's to you
Hey-li-lay-le-lou-lou-jan
le-lou-lou-jan
Hey-li-lay-le-lou-lou-jan
Ah Ararat ah
Ah Ararat ah
Ah Ararat ah ararat

Now I understand you
And what you mean for the Armenian
You are the basis of our soul
You are the King for us
I'm drinking for you
Here's to you
Hey-li-lay-le-lou-lou-jan
le-lou-lou-jan
Hey-li-lay-le-lou-lou-jan
Ah Ararat ah
Ah Ararat ah
Ah Ararat ah ararat

Ararat, our nice Ararat
Ararat, my heart with your name
Ararat, our nice Ararat
Ararat, my heart with your name

It's five years I'm looking to you
From Armenia's side 
Every day you're different
Come and take me jan
I don't want to return
Here's to you
Hey-li-lay-le-lou-lou-jan
le-lou-lou-jan
Hey-li-lay-le-lou-lou-jan
Ah Ararat ah
Ah Ararat ah
Ah Ararat ah ararat

That day has come
To separate with you
But I'm not separating with heart
And I promise to you
One day we'll stay together 
Here's to you
Hey-li-lay-le-lou-lou-jan
le-lou-lou-jan
Hey-li-lay-le-lou-lou-jan
Ah Ararat ah
Ah Ararat ah
Ah Ararat ah ararat

Ararat, our nice Ararat
Ararat, my heart with your name
Ararat, our nice Ararat
Ararat, my heart with your name
Ararat, our nice Ararat
Ararat, my heart with your name
Ararat, our nice Ararat
Ararat, my heart with your name
Ararat, our nice Ararat
Ararat, my heart with your name
Ararat, our nice Ararat
Ararat, my heart with your name


07 Agosto 2014

um daqueles dias



Estou a trabalhar intensamente no filme sobre os arménios. Com muito entusiasmo, e sobretudo com uma enorme gratidão por tudo: por me ter sido dada esta oportunidade, por ter conhecido pessoas que fiquei a admirar muito, pelo tanto que estou a descobrir. Grata por ter conhecido o Arto Tunçboyaciyan (que me foi gabado como excelente músico, e que numa entrevista me deixou completamente rendida) (depois vão perceber porquê) e o Vahagn Hayrapetyan (se ele soubesse que tenho andado a ouvir o seu Yesterdays no carro, com o volume no máximo e em repeat, como uma adolescente...), a Elke Hartmann (uma historiadora que nos deixa suspensos das suas palavras e a pedir sempre mais), o Tigran Mansurian (que devia ser considerado "património de humanidade da Humanidade"), e tantos outros.

Hoje foi um daqueles dias (tenho tido muitos) em que me ocorreu uma ideia genial, modéstia à parte.
Estou com vontade de dar beijinhos em mim própria.

O filme vai ser apresentado na Gulbenkian no dia 14 de Outubro. Penso que terei lá um lugar reservado - caso contrário, ia hoje mesmo fazer fila para conseguir um bilhete. Podem acreditar, vão por mim, e até devolvo o dinheiro a quem ficar decepcionado.
A entrada é livre.


03 Agosto 2014

nós por nós

O trailer do Cinemagosto:

02 Agosto 2014

com a idade vem a sabedoria



E de repente ocorre-me que aqueles soutiens com abertura à frente se calhar não se destinam a apimentar o truca-truca, mas a facilitar a vida a quem tem dores no ombro e a flexibilidade dos braços um pouco reduzida.


01 Agosto 2014

this land is mine



Resumido, é isto.

Quase dá vontade de pedir a Deus que vá privilegiar outra terra, e dê a esta umas tréguas na sua imensa e divina graça.

Contudo, se Deus insistir no status quo (e não me constou que alguém esteja a acrescentar textos às religiões do Livro), talvez pudéssemos acordar no essencial:
uma vida humana é uma vida humana é uma vida humana.

 (Sobre a utilização despudorada da acusação de anti-semitismo a quem critica a guerra de Israel contra Gaza, só me ocorre perguntar: isso não está a ser dito pelos judeus, pois não? Isso são os anti-semitas que puseram a correr, para destruir definitivamente o capital de empatia que esse povo conseguiu conquistar nas última décadas, não é?) (claro que é, só pode ser)


Fausto em Berlim


Hoje: o Fausto em Berlim, eu em Lisboa. Tenho cá um jeito para escolher insularidades...
(Mais informações, sobre este concerto e o festival Wassermusik: Berlinda)



31 Julho 2014

lei da cópia privada

(post copiado do blogue Jonasnuts, onde há imensa informação sobre este tema)




Lei da cópia privada. B, A, Bá #pl118

por jonasnuts, em 30.07.14
Vai ouvir-se falar muito da cópia privada, por estes dias. Não é novidade, há 2 anos e no ano passado foi a mesma coisa.

Como já é habitual, há-de haver muita gente interessada em misturar conceitos, em baralhar e em desinformar.

Os órgãos de comunicação social tradicional, na minha opinião, não fazem genericamente um bom trabalho a explicar o que é afinal a lei da cópia privada, e fazem copy paste de press releases que lhes chegam, o que ajuda a desinformar.

Então, afinal, o que é a Lei da Cópia Privada (que já existe e que está em vigor desde 1998)?

É uma excepção à lei do direito de autor. A lei da cópia privada permite que eu, que comprei um conteúdo, possa copiar esse conteúdo para utilização pessoal (não posso vender, não posso distribuir com intuito comercial, é o chamado fair use).

Acho muito bem que exista esta excepção à lei do direito de autor. Se eu compro um CD e quero fazer uma cópia para ter no carro, não faz qualquer sentido que seja obrigada a comprar um segundo CD. Já comprei, paguei (e muito bem) direitos de autor, pelo que para usufruir do que comprei, basta-me copiar. 

Mais, se eu comprar uma música via iTunes, por exemplo, tenho de a guardar algures, certo?

Até aqui tudo bem. Ninguém é prejudicado, neste processo, toda a gente sai a ganhar. O autor porque vendeu a sua obra, eu, que a comprei e dela estou a usufruir.

Onde a porca começa a torcer o rabo é a seguir.

Há quem defenda que a lei da cópia privada representa um prejuízo para o autor e que, por isso, este tem de ser compensado.

Não concordo. Não acho que o facto de eu copiar algo a que tive acesso legalmente (é disso que trata a cópia privada), prejudique de alguma forma os autores.

E, não satisfeitos com o erro da premissa (de que há prejuízo), os senhores que mandam acham que a forma de compensar o prejuízo (que não existe) é criar uma taxa, aplicada a todos os dispositivos que permitam o alojamento de ficheiros.

Sim, o disco rígido onde eu guardo as minhas fotos de férias, e as músicas que COMPREI, pagará uma taxa, para dar aos autores, por via do prejuízo causado pela cópia privada.

Nem me vou alongar sobre a forma de distribuição do dinheiro (vai para uma associação para a gestão da cópia privada, cujas entidades integrantes são sociedades de representação de direitos de autor), porque não acho que seja esse o tema.

O tema é a premissa.

Não há qualquer prejuízo em fazer-se uma cópia privada, portanto, não há lugar a qualquer compensação.

Tudo o resto que muita gente quererá trazer ao debate, para confundir (pirataria, defesa dos autores, remuneração justa, etc...) será folclore, areia para os olhos de uma indústria que teima em viver no século passado, não sabe (ou não quer) modernizar-se e acha que nós todos temos de pagar pelo seu conforto e pela sua tacanhez.


mãe sofre... (2)

Pouco antes do jantar telefonei para saber se o rapaz ainda estava bem. Estava, sim senhora, e tinha saído de bicicleta para ir comprar pão.
Depois fui para a vida boa com um amigo, e quando cheguei a casa já me tinha passado o medo, o nervoso miudinho e a sensação de impotência, pelo que não foi preciso dar uma palmada pedagógica a ninguém - nem ao rapaz, nem a quem lhe emprestou a bicicleta.

(Vou dar uma sogra maravilhosa, vou...)

(Adoro a expressão "palmada pedagógica". Acabei de fazer dois posts a gozar com ela, espero que tenham reparado.)


30 Julho 2014

mãe sofre...

O meu filho, teimoso como sabe-se lá o quê, decidiu - à revelia de todos os argumentos que lhe deram - ir de bicicleta do Areeiro ao Campo de Ourique, e do Campo de Ourique à Estação do Oriente, e voltar de lá para o Areeiro.
Estou à espera que me avisem que chegou são e salvo, para lhe ir dar um arraial de palmadas pedagógicas que o mando para o hospital...

(Sim, este é o que vai de bicicleta para a escola desde que tinha 5 anos. E que nos últimos seis anos fazia todos os dias uns valentes quilómetros de bicicleta em Berlim. Mas - que querem? - em cada país as pessoas conduzem de modo diferente, e eu sei lá se ele conhece as diferenças das idiossincrasias dos condutores alemães e portugueses. Eu, por exemplo, ultimamente estranho que, quando o sinal fica verde, os que esperam ao meu lado só começam a avançar quando eu já vou do outro lado do cruzamento. Haverá algum motivo para os condutores lisboetas demorarem tanto tempo a arrancar, nos cruzamentos? O que é que estou a fazer errado?)


Cinemagosto - FilmFokus Portugal



Para quem se queixa que em Berlim nunca acontece nada, e também para todos os outros: de 16 a 20 de Agosto vai haver uma mostra de cinema português no cinema Babylon. Serão 50 anos de excelente cinema (documentário, animação, ficção) para contar quem somos nós, estes portugueses que a partir de 1964 começaram a emigrar para a Alemanha ao abrigo de um acordo assinado entre os dois países.
Temas da mostra (um por dia):

Nós * Nós por cá * Nós também aqui * Nós por lá * Nós por aí

Para quem acha esta descrição muitos críptica, aqui vai o caminho das pedrinhas: programa.
Para quem quer saber mais: Cinemagosto no facebook.

(Escusado será dizer que estou outra vez num daqueles momentos em que sinto inveja de mim própria)


25 Julho 2014

o concerto




Na sexta-feira passada (eu sei, eu sei - notícia de última hora é outra coisa) fui ao concerto de homenagem à Elisabete Matos. O concerto.
Cheguei ao Largo com duas horas de antecedência, mas já estava praticamente cheio. E eu a pensar que era só em Berlim que o pessoal deslarga a produtividade para cuidar da cultura!
Pois bem, ali fiquei de guarda à meia dúzia de cadeiras que consegui guardar numa lateral do palco, onde mais tarde passariam todos os VIPs e os magníficos vestidos da Elisabete. Mas nem consegui ler o livro que avisadamente levara comigo, porque estava sempre a explicar aos interessados nas minhas cadeiras que "os meus filhos" só tinham ido ali beber uma água, coitadinhos, e estavam mesmo mesmo a chegar. (Este é o momento em que perco mais uma dúzia de leitores, "gostava tanto de a ler, mas agora que vejo que faz estas porcarias nunca mais cá volto". Eu e a minha boca grande...)
Os "meus filhos" (alguns deles mais velhos que eu, ele há milagres) foram chegando, a chuva chegou também, os instrumentos foram retirados à pressa, o pessoal ficou à espera a ver no que é que as coisas davam, ouvi de passagem que em Massamá chovia torrencialmente, e depois parou de chover, os instrumentos voltaram, o Primeiro Ministro entrou rapidamente em cena, a praça toda rebentou em vaias de tal maneira que as palmas do lado contrário mal se ouviam. O Joachim ficou chocado: "Portugal está assim?" Depois do concerto tentaram explicar-lhe que um ministro que chega ao poder por meio de intrigas e promessas falsas não merece o nosso respeito, mas ele continuava a achar estranho que um governante seja vaiado desta maneira. Tem sorte, tem sorte - vem de um país no qual, muito antes de se chegar à fase da vaia, os governantes vão embora pelo seu próprio pé.
O Jorge Rodrigues apresentou as peças que se ouviriam de entrada. Ao traçar o retrato de Scarpia, da Tosca, "um homem com ar de santinho, frequentador da igreja e alegadamente homem de bons princípios, mas na realidade um biltre", a praça rebentou em aplausos.  Pobre Jorge Rodrigues, sabia lá ele que as suas palavras teriam este efeito? Por sorte, o Joachim não percebeu a quem era dirigido o remoque.
O concerto começou. Fabuloso, tudo: os cantores, o Jorge Rodrigues, os coros, a orquestra, os vestidos. Se querem saber pormenores sobre a música, vão ler o Paulo, que sabe falar muito bem sobre isso (sobre este concerto: aqui aqui).
Eu fico-me pelo elogio ao Jorge Rodrigues, que era bem capaz de me fazer apaixonar pela Ópera, todas as óperas, até as de Wagner. Sobre a Elisabete, nem chovo no molhado, por causa das inundações que no caso iam dar dilúvio (mas que sorte a nossa, a dos portugueses, terem entre os seus uma cantora destas!). Não falarei dos cantores, portanto. Deixo apenas um suspiro para o Paulo Ferreira, que cantou um Calaf maravilhoso: ah, se ele deixasse aquela lambisgóia da Turandot e viesse cá cantar-me árias ao ouvido, ah, se ele quisesse vir decifrar comigo todos os enigmas do mundo...    
Mal o concerto acabou, começou uma chuva torrencial. Refugiámo-nos no café ao lado, de bem com a vida.

Avisa o Paulo, e eu repasso: o mesmo concerto, gravado no sábado, passa hoje na RTP2, às 23:06, depois de um documentário sobre a Elisabete Matos.
Vejam, deliciem-se com as descrições do Jorge Rodrigues e aquele extraordinário grupo de cantores, com a excelente interpretação das peças. Mas aviso já: no Paulo Ferreira ninguém toca, que eu vi primeiro.


12 Julho 2014

férias

Desta vez estava mesmo a precisar de férias, de férias mesmo. Sem correr meio Portugal a visitar família e amigos, sem concertos nem festivais. Nem sequer me apetece fazer fotografias.
Quando cheguei, há duas semanas, pensei fazer um post "das minhas férias ve-se um rio", e contar da beleza do rio Lima ao anoitecer, as luzes doces de Viana, o horizonte sobre o mar em laranja e rosa. Puro encantamento.
Também pensei contar que tenho o meu "dia da marmota" todos os anos, no primeiro dia de férias, quando me dou conta da luz de Portugal, e é sempre a surpresa de uma primeira vez.
Mas näo escrevo, nem tiro fotografias, nem viajo meio Portugal para encontrar pessoas que me säo muito importantes.
Fico pelo meu cantinho sob as videiras, ou o triangulo das Bermudas entre a macieira, a figueira e o diospireiro. Vou até à praia, a Ponte de Lima,  a Viana.
Ontem fomos para a praia ao fim do dia. Com vinho do Douro e amigos. O sol a baixar no mar, a lua enorme a erguer-se das dunas, entre a lua e o mar os rapazes a jogar à bola com o Fox. Näo é preciso muito para tudo ser perfeito.



26 Junho 2014

e ao fim de 30 dias...

Faz hoje um mes que mudamos de casa. A casa nova quase que ja se pode ver, eu é que nem por isso: tenho o corpo como se tivesse andado na violencia domestica (e andei: levei muita tareia das malditas caixas) (o pior era quando me vestia de senhora e ia à Embaixada ou assim reunir com pessoas importantes, e me sentava como uma enfezadinha so para conseguir tapar as nodoas negras nas pernas e nos bracos nus) (que aqui tem feito calor). Hoje levantei-me às cinco da manhä para fazer a mala, e arrumar uns papéis, e passar uma roupinha a ferro, e mais uma coisinha ou outra, e depois de muita confusäo e muito stress la me larguei ao caminho: férias em Portugal - e como preciso delas! No taxi para o aeroporto, toca o telefone. O Matthias a perguntar o que se ha-de fazer com os homens que väo entrar em casa na ausencia dele para fazer uns arranjos no chäo, e o Fox histerico a pensar que querem assaltar a casa. Telefonei ao homem a sugerir-lhe que se mostre muito amigo do cäo feroz ("é assim como um chiuhaua, näo é?", lembrava-se ele), e o encha de festas, e assim (espero que nenhum ladräo leia esta mensagem - quem é que se lembra de dizer o "abre-te Sésamo" no blogue? por este andar, daqui a nada digo-vos o PIN da conta bancaria...). Cheguei a boas horas ao aeroporto, mas o check in tinha cabo de fechar: entravam em greve naquele preciso momento. Dai a bocadinho veio a chefe, que nos arranjou uma solucäo de urgencia. A fura-greves era simpatica e estava a resolver-me um problema, mas fiquei a pensar que ela näo devia estar ali a resolver problemas a ninguem. Väo substituir o pessoal de terra por empregados mais baratos. Bem sei que passo horas a tentar encontrar os voos mais baratos, ainda ontem descobri que o lastminute.com tem voos 100 euros mais baratos que os outros e fiquei toda contente, mas depois dizem-me estas coisas e encho-me de vergonha. A minha vida é uma permanente quadratura do circulo ideologico: quero salarios bons para todos, mas escolho fazer consumos pelo valor do trabalho do terceiro mundo. Tambem é verdade que se voasse com bilhetes caros näo podia viajar tanto, e a economia dos aeroportos entrava em recessäo, e zimbas na mesma: la baixavam eles os salarios do pessoal. Que fazer, entäo? Em todo o caso: resolveram-me o problema. Depois de passar o ultimo controle, ja a meia duzia de metros do aviäo, ocorreu-me que näo tinha desligado o ferro de passar. Telefonei ao Matthias, que ia a caminho de um ensaio geral importante e voltou para casa a pedalar a toda a brida.
Parece que a casa ainda continua la. Era chato arder logo agora que ja estava quase habitavel. Também näo ligaram de um hospital qualquer a dizer que o carpinteiro ficou desfeito em bocadinhos pelo nosso Fox de guarda. De momento estou no aeroporto de Zurique à espera do aviäo, e descobri que däo uma hora de internet gratis às pessoas. As férias podem comecar - e bem preciso delas!

24 Junho 2014

"nós temos tudo."

Para melhorar o nível deste blogue, copio descaradamente para aqui um texto de um blogue aqui ao lado.
É o "eu, ele, a maria e o miguel", e o texto é assim:

nós temos tudo.


nós não temos muito dinheiro: não vamos a restaurantes, compramos marca branca, roupa na primark. não temos iphones, nem plasmas, nem bimby. nunca comemos bifes do lombo. temos um carro que às vezes não pega. nas férias vamos às praias da caparica. vendemos o que já não precisamos para ganhar algum. tentámos emigrar para não estarmos sempre a contar tostões. nunca conseguimos poupar: nunca sobra nada. houve meses piores: em que um pacote de fraldas fazia diferença nas contas. em que adiávamos as contas da luz para o mês seguinte. mas as coisas vão correndo bem, vão andando: e às vezes compramos frango assado para o jantar. um brinquedo novo para eles. entradas no oceanário. caracóis e gelados na esplanada. o nosso frigorífico tem sempre comida. eu faço um bolo todas as semanas. vivemos bem: não sinto falta de nada.
em abril ele foi despedido.
chegou a casa: abraçou-me. pediu desculpa.
disse-me: fui despedido. disse-lhe que ia correr tudo bem, que iamos arranjar trabalho: ele, eu. eu ia servir às mesas outra vez. a maria e o miguel dormiam a sesta na nossa cama. conseguiamos vê-los: um sono já leve. vi na cara dele o medo de não ter o que lhes dar: um brinquedo novo. gelados na esplanada. uma bolacha. um medicamento. uma sopa. encostado à parede ele chorou enquanto eu lhe limpava as lágrimas. 

ele começou a trabalhar este mês.
foram semanas difíceis: ele a adaptar-se a estar sempre em casa connosco. eu e eles a adaptarmo-nos a estar sempre em casa com ele. às vezes mais nervosos porque os dias passavam. às vezes mais deprimidos porque os dias passavam. às vezes com medo porque os dias não paravam de passar. é mais difícil do que se pensa: lidar com isto foi difícil. mas passou: ele começou a trabalhar. correu tudo bem. tivemos sorte. eles não sentiram falta de nada.

estava a pensar em todas estas coisas quando vi um apelo: uma família em dificuldades. o pai desempregado, a mãe, um filho, uma menina como a maria. pediam alimentos. pensei que podiamos ajudar. não acredito em deus: naquele momento apeteceu-me agradecer-lhe este novo trabalho. expliquei à maria o que íamos fazer: iamos comprar comida para uma menina como ela. e ela ajudou-me a colocar as coisas no cesto enquanto dizia: massa para a menina. arroz para a menina. leite para a menina. cereais para a menina. disse-lhe que se ela quisesse também podia dar um brinquedo dela à menina. quando chegámos a casa ela correu para o quarto para o escolher.
sozinha na cozinha passei os alimentos para um saco grande: a massa, o leite, o feijão, o arroz. lembrei-me que não tinha arroz agulha na minha despensa: tinha carolino, arroz de risotto, basmati, integral. não tinha agulha. guardei um dos 4 pacotes na minha despensa. a maria apareceu à minha frente com a carolina na mão: queria dá-la à menina. perguntei-lhe se tinha a certeza. se não ia sentir falta dela: era a única boneca que ela tinha com cabelo. ela pediu durante meses um bebé com cabelo. ela disse que tinha a certeza: queria dá-la à menina: meteu-a no saco.
fui espreitar o miguel: dormia aconchegado, enrolado nos meus lençóis que cheiravam a amaciador. estava a ficar melhor da gastroenterite: dei-lhe tudo o que ele precisava nesses dias: medicamentos para as cólicas, peito de frango cozido, papa de arroz, bananas e puré de maçã, torradas com compota. não lhe faltou nada. beijei-o na testa: deixei-o dormir.
fiz uma chávena de café, cortei uma fatia do bolo que fiz naquela semana e sentei-me no sofá de 4 lugares a ver um dos 74 canais que nunca vejo. quando olhei para o lado vi a maria: estava a brincar com a carolina. perguntei-lhe se já não a queria dar. ela respondeu-me que sim, que a queria dar. estava a brincar com ela porque "às vezes vou ter saudades dela e ela vai ter saudades minhas". eu não respondi: sorri: olhei para a televisão.
à minha frente sempre: a maria. para lá e para cá. parou: com as mãos nos meus joelhos disse-me "sabes mãe, a carolina é a única que tem cabelo, mas este bebé tem dentes, este tem chapéu, este tem uma banheira e este fala.": atrás dela alinhados no chão: 4 bonecos. ela tinha um sorriso no rosto enquanto apontava para eles. "vês?"-perguntou. vi. vi: carolino, risotto, basmati, integral.
levantei-me envergonhada. eu não sou uma pessoa egoísta, a sério que não. mas senti-me a maior, a pior das egoístas: senti-me mal. mais pequenina do que ela, que com 3 anos já é tão grande. disse-lhe que sim, que via. disse-lhe que ela tinha razão. chamei-me nomes enquanto tirei o arroz agulha da minha despensa e o coloquei no saco: a carolina já lá estava outra vez. às vezes digo que os meus filhos me mudam todos os dias, me ensinam coisas: grandes lições. uma vez uma amiga que ainda não é mãe perguntou-me: a sério? tipo o quê?
tipo isto, "vês?".

19 Junho 2014

“Não conto o tempo. Eu não conto a alegria e não conto a tristeza. Tenho o tempo que estou na vida”.

No blogue Domadora de Camaleöes há alguns dos textos mais bonitos que tenho lido a propósito do Mundial de Futebol no Brasil.

Vão lá ler, vão. Por exemplo, o mais recente, de onde tirei a frase do título.


16 Junho 2014

Alemanha x Portugal

Estava eu mais ou menos indiferente em relação ao jogo que vai começar daqui a bocadinho, encolhia os ombros e dizia "que empate o melhor", e eis que de repente me lembro que o meu filho está em Portugal com sete amigos alemães. Vão com certeza ver o jogo num café, e não fazem a menor ideia que isto é muito mais que um jogo de futebol, é um "ajuste de contas" (como li hoje no facebook).

Já não é a primeira vez que eles se metem em aventuras destas - há dois anos estavam numa esplanada holandesa a ver o Holanda-Alemanha. Mas os holandeses não andam a fazer discursos de ódio contra os alemães, nem andam a dizer que a Merkel conseguiu com o euro o que a Alemanha tentou com duas guerras mundiais, por exemplo.

Mandei-lhe uma mensagem a lembrar que podem estar rodeados de pessoas que odeiam os alemães, e a sugerir que sejam muito discretos caso a Alemanha ganhe.

Sinto-me parva, e perplexa. É esta a nossa Europa em 2014?!

ADENDA: no decurso de um longo debate no facebook dei-me conta de que devia ter escrito "pessoas com enormes ressentimentos em relação aos alemães" em vez de "pessoas que odeiam os alemães".
Escolho "alemães" e não "Alemanha" porque a agressividade verbal que tenho testemunhado é contra o povo e não contra o país.




14 Junho 2014

esta manhã no lago


De manhã, cedinho, vi um homem a sulcar o lago em sossego.
Estendia os braços, redesenhava a água.

Atrás dele ia um pato, e plagiava.



(Nota mental: nunca mais esquecer o telemóvel ou a máquina fotográfica)
(Aprender a fazer fotografia também seria boa ideia)


13 Junho 2014

aviso, para quem está em Berlim neste momento (2)




One Day For … David Bowie



A exposição de David Bowie, que estava em Londres, veio recentemente para o Martin Gropius Bau (convém comprar os bilhetes na internet).
[ADENDA: não é a de Londres, é outra, mais sobre David Bowie em Berlim. Desculpem o engano.]

Este domingo a Haus der Berliner Festspiele celebra Bowie e a sua ficagem por Berlim, e parece que até vão dar um ou outro bilhete. E eu aqui de volta das minhas caixinhas...

Eles explicam, em inglês (entrem no site, tem um filme que deve ser interessante, mas não consigo ver porque o caracol que me traz a internet, por estes dias, diz que não lhe dá jeito):


One day for … David Bowie

Heroes – just for one day

Not only was Berlin the place where the British musician, singer, producer, actor and painter David Bowie conceived and recorded what is probably his most famous song but it is also most certainly about Berlin: he sings of a couple in the shadow of the Wall, shots above their heads, and the desire to swim away like a dolphin.
David Bowie is one of the most influential pop artists in contemporary music history. His multi-faceted body of work has marked milestones in the history of pop, inspiring bands and musicians since 40 years to the present day. With the three albums produced by Brian Eno – “Low”, “Heroes” (both in 1977) and “Lodger” (1979) – Bowie shifted the aesthetic borders of pop music in the late ’70s from his base in Berlin.
On the occasion of the Bowie exhibition that runs from 20 May to 10 August 2014 in the Martin-Gropius-Bau, the Berliner Festspiele, in cooperation with ZEIT-Stiftung Ebelin und Gerd Bucerius and Musicboard Berlin, are organising “One Day for … David Bowie” to explore the glamorous Bowie universe from a Berlin perspective. In an evening gala, ten Berlin bands will pay tribute to Bowie by playing cover versions of his songs, while the crew from Kaffee Burger’s “Berlin bows down to Bowie” will stage a Bowie show in the afternoon run-up to this event.
The “Day for … David Bowie” begins around lunchtime with a diverse programme of events: after Bowie walking tours around Potsdamer Platz, the Haus der Berliner Festspiele will be enlivened with lectures, film screenings, a fashion show by participants in the school workshop “MGB Impuls²” from the Martin-Gropius-Bau and a video lounge; meanwhile, Diamond Kooks will be concocting Bowie’s favourite culinary dishes in the summer garden. Those who appear as Bowie lookalikes in front of the Haus der Berliner Festspiele can win free tickets to the day’s events. And anyone who uploads a cover version of his or her favourite Bowie song has a chance of being presented during the gala.

Programme

Bowie walking tours all around Potsdamer Platz
12:00: Hansa Studio Tour (max. 25 participants)
12:00: Bowie Walk (max. 25 participants)
14:00: Hansa Studio Tour in English (max. 25 participants)
14:00: Bowie Walk in English (max. 25 participants)
Registration by 13 June 2014
Information and tickets at www.musictours-berlin.de
Bowie programme at the Haus der Berliner Festspiele
From 16:00
- Bowie Lookalike Contest
Tobias Rüther will be reading
   from his Bowie book “Helden” (Heroes)
- “Berlin bows down to Bowie” – the Kaffee Burger show
   makes a guest appearance at the Haus der Berliner Festspiele
- Video lounge and make-up
- Bowie’s favourite food in the garden
20:00-21:45
Gala on the Main Stage
With AufBlack CrackerChuckamuckEmikaErfolgGemma RayJemek JemowitKool ThingLambertMary Ocher
Presented by Jens Balzer and Martin Hossbach
and: fashion show of the participants of the workshop “MGB Impuls²” of the Martin-Gropius-Bau and video clip show of the social media action “cover your favourite David Bowie song”








aviso, para quem está em Berlim neste momento




Este fim de semana há festa grande no Kulturforum. Os museus e a Filarmonia abrem as portas ao público numa iniciativa conjunta. Pois lá encontraremos o Simon Rattle, o seu amigo Simon Halsey e um coro de 1.000 vozes (espero que seja ao ar livre porque, se for dentro do edifício, só o coro esgota quase metade da sala), concerto de Jazz com Klaus Doldinger, break dance com Flying Bach ("flying Bach"?!!), e outras coisitas mais.


Em inglês, para parecer mais credível:

The Berliner Philharmoniker, the Rundfunkchor Berlin and Simon Rattle make the space between the Neue Nationalgalerie and the Philharmonie into an outdoor stage. Together with 100 children from the new, Berlin-wide choir project “Vocal heroes”, they will perform Carl Orff’s Carmina Burana. The Berlin music legend Klaus Doldinger brings many of his musical companions together for an open-air jazz concert. 1000 amateur singers and performers from all over Berlin will transform the Kulturforum acoustically on both days with Crowd Out, the new choral work by the New York composer David Lang. Musical programmes such as an organ walking tour with Cameron Carpenter, which will take visitors through the entire area and its individual buildings. The Staatlichen Museen zu Berlin, the Staatsbibliothek zu Berlin and the Ibero-American Institute take the year 1914, the beginning of the First World War, as the theme for their exhibitions. A number of events in the fields of fashion, dance, theatre, performance, film and music complement the programme. Interactive programmes, special tours and events especially for children and young people are also offered.



O programa (em alemão) está aqui, mas não vale a pena consultar. Este é um daqueles fins-de-semana em que mais vale arrumar um colchão num canto qualquer da Filarmonia, e ficar por ali.



11 Junho 2014

da minha vida vê-se um lago




Quatro vezes por dia vou até ao lago com o Fox. Já temos o nosso percurso habitual, o que significa que, para ele, tudo se tornou banal. Para mim, não. Há sempre algo novo a descobrir no passeio: a água que se oferece em brilhos de luz por trás das árvores, a tartaruga pousada ao sol num tronco, a mãe galeirão (a galeiroa?) atarefada num ninho entre os juncos, os seus filhinhos recém-nascidos a nadar alegremente por ali, os nenúfares de flores abertas, o aroma do jasmim, as libelinhas. A bicharada, a água, o verde - quase me imagino de regresso a Rurrenabaque (mas sem os golfinhos de água doce) (nem os crocodilos). Às vezes encontro pescadores sentados em botes, e pasmo com o idílio pitoresco no centro de Berlim. Também há homens que têm consigo sacos, ou um carrinho de compras, e me fazem suspeitar que serão pessoas sem abrigo a tentar disfarçar a sua condição. Há namorados, claro, e pessoas a passear os seus cães, que isto não é tudo só do Fox.

Depois de um dia a esvaziar caixas, vestimos os fatos de banho e vamos de chinelos de dedo e toalha pelos ombros dar um mergulho no lago. Entramos pelo lado dos nenúfares, o que fica mais perto da nossa casa, e é como se tivéssemos férias ao fim do dia, todos os dias. Férias numa espécie de paraíso.

Não sei porquê tenho-me lembrado de um post que andou pela internet há mais de dez anos. Algum brasileiro que foi para o Canadá, e escreveu a contar maravilhas sobre a neve e a paisagem. Na mensagem seguinte descrevia deslumbrado os veados que via da janela da sua casa. Uns dias depois a neve era apenas bonita, e os veados davam-lhe cabo do jardim. Daí a nada já dizia palavrões sobre a porcaria da neve que tinha de limpar, os veados, o inverno, tudo.

A ver vamos. Por enquanto, vou passear com o Fox quatro vezes por dia até ao lago, e ambos gostamos muito.


sinais auspiciosos



Durante os preparativos para a nossa mudança para Berlim, há cerca de sete anos, dei comigo num bairro muito sossegado, num dia claro de Outubro, a procurar uma escola para o Matthias. A rua tinha mansões do séc. XIX com jardins-parques e árvores enormes cujas folhas, já tingidas pelos Outono, pairavam no ar, embaladas pela brisa. Ouro no ar? Aceitei esse momento de beleza como um gesto de boas vindas de Berlim.

No sábado que antecedeu a mudança para a casa de imigrante tive de vir bem cedo abrir a porta a uns pintores, e aproveitei para ir passear o Fox junto ao lago. As tílias largavam flores douradas sobre nós, e acreditei que isso seria um sinal auspicioso.

Bem me enganei. Nesta mudança, tudo o que podia correr mal - enfim, quase tudo - correu péssimo. Alguém se enganou a fazer os alicerces das escadas, de modo que quando chegaram cá os homens para instalar as escadas foi preciso fazer à pressa os alicerces no sítio certo, e quando chegámos nós, com dois camiões para descarregar, o cimento ainda estava húmido. De modo que no dia seguinte foi preciso fazer 3 horas do trabalho do dia anterior, que faltaram ao fim da tarde, obviamente. Quando, finalmente, chegaram os dois camiões seguintes, começou a chover torrencialmente. Saíram depois das dez da noite, e o carpinteiro já não conseguiu montar os móveis. Telefonou dias depois a dizer que estava na cama com um febrão por causa das 3 horas que esteve a descarregar móveis vergastado pela chuva e pelo vento. Vários dias sem cozinha, nem armários nem estantes para começar a abrir as caixas e a dar destino à tralha. A internet, diz que virá um dia destes ou talvez lá para o Outono. E o simpático que andava a fazer o jardim foi pai quatro semanas antes do dia esperado (mas correu tudo bem, excepto que agora não vem trabalhar).

Nunca mais volto a acreditar nos sinais da natureza. Ou então, havia de arranjar de os saber ler.


27 Maio 2014

logo se vê

Começo a desconfiar que sou uma nulidade a organizar coisas, e a culpa é do estribilho "logo se vê".
O pintor só tem tempo de pintar a casa justamente na altura em que a empresa de mudanças a está a esvaziar, e - numa de "logo se vê" - combino com ele que a empresa vai esvaziando os quartos um a um, e ele vai atrás a pintá-los, vamos indo e vamos vendo, com certeza que no fim tudo corre bem. O pintor diz que sim, mas quando entra na nossa casa cheia de tralha e carregadores, sugere-me que ligue ao senhorio e pedir que adie alguns dias a entrega da casa (como é que eu não me lembrei logo disso?!). O senhorio também deve ser do tipo logo se vê, porque não tem planos fixos para a casa no dia 1 de Junho, e autorizou.
Na casa nova, os homens entram com caixas e móveis, e eu estou à porta a dizer para onde vai tudo aquilo, mas infelizmente desta vez não tive tempo de sonhar a disposição dos móveis na casa nova, de modo que depois da cena gaga em que dizia "o móvel chinês? ahem, fica no rés-do-chão, ah, espere, talvez no segundo andar", mando tudo para um quarto que por enquanto não é preciso. Depois vai ser bonito, transportar tudo para o sítio certo. Mas, lá está: logo se vê.
Pior ainda: para montar as estantes é preciso espaço (e ainda tenho de arranjar um homem que as corte, porque têm em altura 1 cm mais do que deviam). Se enchemos primeiro as divisões com as caixas de livros, não há como montar as estantes depois. De modo que os livros estão a ficar todos naquele tal quarto do andar de baixo, e eu vou passar um mês a descer as escadas e a subi-las de novo carregando centenas de livros. A vantagem é que no fim desse mês vou estar com um maravilhoso corpo de bikini.
Começo a desconfiar que descobri o segredo das, digamos, mocinhas que são um bocadinho lentas de entendimento e têm um corpo escultural, que vão para os concursos das misses. Também devem ser do tipo logo se vê, e depois coitadas lá tem de carregar os livros todos pelas escadas acima.

Ontem na casa nova:



Hoje na casa velha:



Daqui a nada desligam-nos os computadores, e estou aqui desesperada à espera do desenho final da cozinha que vai ser encomendada em Portugal. Se não vier agora, sei lá quando vou ter internet para ver e decidir e encomendar finalmente. Em todo o caso: vou andar pelo menos três meses a cozinhar na cozinhinhinha do Matthias, e a comer três andares acima. Se me preocupo? Ora essa! Logo se vê. 
Praias de Portugal, este verão é que ides ver o que é bom, hehehe.
PS: O Fox anda tristinho, tristinho. Passa o dia na casa dos vizinhos, que são amorosos, mas sente-se abandonado e não percebe nada do que está a acontecer à casa que até agora era o seu mundo. Já lhe expliquei que é para bem dele, e que quando tivermos o jardim com relva e cercas (para ele não ir para os jardins dos vizinhos, que ainda nos vai arranjar inimigos naquela rua) vai ver que valeu a pena todo este sofrimento, mas ele olha para mim de orelha murcha e choraminga um bocadinho. 


26 Maio 2014

já começou a mudança, e eu, que estou a trabalhar desde as cinco da manhã, vim aqui fazer um intervalinho, mas volto já para os trabalhos forçados, não se preocupem

Um após outro, já quatro homens percorreram o apartamento, e a cada nova sala ficam mais incrédulos. Não sei, mas parece-me que vai ser um longo dia.
(E talvez seja boa ideia eu desaparecer quando for a altura de carregar as caixas dos livros, porque quando vimos que os caixotes estavam a esgotar começámos a optimizar a ocupação do espaço...)

 

 



PS: Se a gratidão matasse, podiam começar a encomendar flores para o meu enterro. Os amigos que nos vieram ajudar, e ontem ficaram aqui até estar praticamente tudo feito, foram, bom, nem tenho palavras. E mais: quando viram que eu estava como o tolo no meio da ponte, sem saber para onde me virar, discretamente trataram de resolver tudo sozinhos. Esta manhã levantei-me às cinco, para fazer o resto - e só então descobri com detalhes a qualidade do trabalho que fizeram ontem sem o menor alarde.
A Christina também foi  incrível: depois do trabalho (tem um job que a obriga a levantar-se às seis da manhã) veio para cá e trabalhou até à meia-noite. E o Matthias, que tem o último exame do secundário amanhã, regressou de um encontro de preparação do ano de trabalho voluntário na América Latina, e ficou a ajudar enquanto foi preciso.
A minha sorte é que a gratidão não mata.