28 outubro 2020

podia ser pior


Hoje à noite o Macron vai dizer aos franceses que... (aceitam-se apostas)
O meu coro continua a ensaiar. Até há pouco era ao ar livre, com gorros e cachecóis, e lâmpadas presas à partitura para ver as notas. Da penúltima vez que ensaiámos, chegámos a aguentar uma hora debaixo de uma chuvisquinha parva. No próximo fim-de-semana temos uma saída com todos os cuidados: teste rápido à entrada, quartos individuais, comer em mesas individuais, ensaiar num ginásio escolar com enorme distância uns dos outros e as portas abertas. Já experimentámos ontem num salão enorme aqui em Berlim, e é um bocadinho estranho: por causa da velocidade do som em temperaturas muito baixas, o nosso maestro deve achar que estamos a cantar um cânone.
Gracinhas à parte: a gente vai tentando manter um mínimo de normalidade dentro do respeito pelas regras, mas pode ser que as regras mudem entre hoje e sexta-feira. E não me admira nada que mudem, porque sabemos que os governantes estão a fazer um percurso no gume da navalha entre o colapso da economia e o colapso do sistema de saúde. Nunca quis ser política - e agora, menos que nunca.
De modo que não me queixo. Tanto mais que sei bem que no tempo da peste negra foi pior, no tempo da gripe espanhola foi pior.

18 outubro 2020

Angela Merkel sobre a situação actual da pandemia


Traduzo a mensagem da Angela Merkel sobre a situação em que a Alemanha se encontra neste momento, de uma gravação recente do seu podcast (vídeo / texto - ambos em alemão):

"Pelo menos desde a semana que passou estamos cientes de que nos encontramos numa fase muito séria da pandemia do corona. 
Dia após dia, o número de novas infecções está a aumentar rapidamente. A pandemia está a alastrar de novo rapidamente, ainda mais depressa do que no início, há mais de meio ano. O Verão - relativamente mais descontraído - terminou, e agora esperam-nos meses difíceis. Nos próximos dias e semanas vai decidir-se como será o Inverno e como será o nosso Natal. Isso vai ser decidido por nós todos, em função daquilo que fizermos. 
Entendo que isso significa o seguinte para nós:
Devemos fazer agora tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar que o vírus se propague de forma incontrolável. Agora, cada dia conta. Para quebrar as cadeias de contágio, é necessário informar todas as pessoas que estiveram em contacto com alguém infectado. Os gabinetes da Autoridade Sanitária estão a fazer um trabalho extraordinário, mas, se o número de infectados se tornar demasiado alto, vão chegar ao limite das suas possibilidades.
Tendo isto em conta, que pode cada um de nós fazer para abrandar o ritmo do contágio? Muito, e a maior parte desde já pelos simples cuidados de respeitar a distância mínima de segurança, de usar uma máscara a tapar a boca e o nariz, e de observar as regras de higiene.   
Mas agora temos de fazer mais. A ciência diz-nos claramente que a propagação do vírus está directamente ligada ao número de contactos, de encontros que cada um de nós tem. Se cada um de nós reduzir durante algum tempo e de forma substancial o número de encontros fora da própria família, então será possível parar e inverter a tendência actual de aumento de infecções.
É este o apelo que hoje faço a todos: reduzam substancialmente o número de pessoas com quem se encontram, tanto fora como dentro de casa. 
Peço: prescindam que qualquer viagem que não seja absolutamente necessária, prescindam de qualquer festa que não seja absolutamente necessária. Por favor: sempre que possível, fique cada um em sua casa e na respectiva localidade. 
Sei que peço duros sacrifícios, e que para muitos são renúncias difíceis. Mas é uma situação temporária, e de facto fazemos estes sacrifícios por nós próprios: pela nossa saúde e pela saúde de todos aqueles que queremos ver poupados a esta doença. Para não sobrecarregar o nosso sistema de saúde, para permitir que as escolas e os infantários permaneçam abertos. Para a nossa economia, e para os nossos empregos.   
Vejamos: a que se deveu o nosso sucesso relativo durante os primeiros seis meses da pandemia? Foi termo-nos mantido unidos e termos respeitado as regras. Por consideração pelos outros, e por sensatez. De momento, é esta a ferramenta mais eficaz que temos para lutar contra a pandemia. E agora é mais necessária que nunca. 
Muito obrigada a todos."





 

17 outubro 2020

não ter medo da covid

Nesta crise da covid tenho ouvido cada vez mais falar em medo, em "manipulação pelo medo" em "não ceder à estratégia do medo". Parece que há por aí quem acredite que os governos têm um plano secreto de instalação do totalitarismo, e a covid é apenas uma excelente desculpa para a pôr em prática.

Quem será que está a pôr estas ideias a correr? Quem adere a elas, e porquê? Acreditam mesmo que os actuais governos europeus têm uma agenda totalitária?

Quanto aos outros, os que sabem que estamos a viver uma pandemia, que o vírus tem uma taxa de mortalidade de cerca de 1% e leva ao internamento hospitalar de cerca de 6% dos infectados, mas falam na mesma em "resistir ao medo", pergunto: o que querem dizer com isso?

Será que "não ceder ao medo" e "manter a normalidade a todo o custo" significa aceitar que o vírus se propague em roda livre, usar para a covid apenas a capacidade médica e hospitalar que esteja disponível depois de tratar todas as outras doenças, e dizer "paciência, shit happens" no caso de a avó, ou a mãe, ou o filho diabético/com problemas cardíacos/com problemas pulmonares/com hipertensão lhes morrerem à porta do hospital por não haver lugar lá dentro? É esse o cenário que propõem? (Nota: podemos discutir os números que dei acima, 1% de mortalidade e 6% de necessidade de internamento hospitalar - mas, sejam eles quais forem, há que fazer as contas: há camas e pessoal nos hospitais para acudir a todos os que precisarem de ajuda caso o vírus se espalhe livremente pela população?) Ou será que têm propostas para um combate mais eficaz contra o vírus? Venham elas!

Pessoalmente, não sinto medo da covid. Sinto responsabilidade: quero participar voluntariamente no esforço de conter o vírus. Não por mim - provavelmente conseguiria safar-me sem grandes danos - mas para proteger aqueles que possa involuntariamente contagiar.

Se me custa falar com máscara? Sim, custa - mas nada que se pareça com o que me custaria saber que uma vizinha de 80 anos morreu por causa da covid com que involuntariamente a contagiei. Se me custa não poder abraçar os amigos? Sendo esse o preço a pagar para a minha amiga asmática se poder sentir um pouco mais segura, seja. Se tenho pena de andar a adiar sine die os projectos de viagem? Claro que sim - mas repito a mim própria que é apenas um adiar. Se tenho pruridos em usar o app alemão para me avisar caso tenha estado perto de alguém com covid? Não, nada, porque (1) é voluntário, (2) tenho a certeza que não foi criado para espiar os meus movimentos, e - tão last quanto least - (3) não funciona no meu telemóvel jurássico... Se estou chateada por este ano o nosso Natal ser diferente do habitual? Não, nem um bocadinho, porque é uma decisão responsável que tomamos por amor: uma das pessoas com quem costumamos passar o Natal tem um problema gravíssimo de coração. Nem pensar em fazê-la correr risco de vida apenas porque nos custa desistir da tradição.

Podemos sempre escolher entre estar nisto como vítimas, ou como cidadãos responsáveis. Cidadãos responsáveis que aceitam voluntariamente privar-se de parte daquilo a que estavam habituados para participarem no esforço de contenção deste vírus. E para não virem a carregar a culpa de terem contribuído para a morte da alguém que amavam. Ah, e quase ia esquecendo: o inimigo não é o governo. É o vírus. O vírus - e quem, perante os esforços de conter a pandemia e salvar vidas, aproveita para criar ainda mais confusão e teorias da conspiração.


16 outubro 2020

Berlim a um passo de novo lockdown

Há dias li um comentário sobre uma jovem berlinense que participou numa festa rave dizendo que para ela era uma questão essencial de "selfcare". Os jovens estão fartos da disciplina, dizem os jornais, e os resultados estão à vista: em Berlim, cerca de 60% dos infectados com covid têm idade entre os 10 e os 40 anos. 

Berlim deixou de receber turistas, os berlinenses não podem viajar livremente pelo resto do país, e a cidade está a um passo de novo lockdown: 3,7 milhões de pessoas obrigadas a regime de confinamento. 

Era bom que trocássemos umas ideias sobre a questão da liberdade individual. 



 

14 outubro 2020

isto tem sistema

(Fonte: aqui ."Moslems raus" faz pensar na frase que se ouvia muito há cerca de cem anos nesta região da Europa: "Juden raus". Viu-se o que deu.)

Depois do empresário de Famalicão que não deixou os filhos frequentarem a disciplina de Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento, é a vez de um empresário de Brandeburgo - um Estado da antiga RDA onde há uma implantação muito forte da extrema-direita - provocar deliberadamente a sociedade democrática. Este empresário não abusou do seu poder sobre os filhos, mas instrumentalizou o seu poder como empregador da maneira que passo a traduzir (o artigo original, em alemão, está aqui): 

Um jovem muçulmano alemão concorreu a uma empresa de construção de estradas. Depois de fazer a entrevista recebeu uma carta informando que a empresa encontrou um candidato mais adequado ao lugar. A carta continuava assim: 

"Além disso, a empresa não quer ter muçulmanos praticantes entre os trabalhadores. A meu ver, o Islão não é compatível com a Constituição alemã".
Em entrevista a um jornalista, o empresário confirmou: não pode empregar muçulmanos, porque isso provocaria agitação, como se pode ler em qualquer jornal. Além disso, a construção de estradas é um trabalho corporal muito exigente, que não pode ser realizado por pessoas que cumprem o Ramadão ("os trabalhadores simplesmente caem para o lado").

O candidato tinha informado que pratica desporto de competição, e que isso não seria problema. Mas o empresário não considerou esse facto, e na entrevista afirma que um muçulmano também traz riscos para o ambiente na empresa: "quando o alemão come a sua salsicha, o muçulmano senta-se noutra sala. [...] Pelo que decidimos não meter disso na empresa." O empresário nega que se trata de uma violação da Lei Geral de Tratamento Igualitário. Diz que não foi devido à religião do candidato que deram o emprego a outra pessoa. No entanto, sentiu necessidade de escrever na carta de rejeição aquilo que pensa sobre o Islão. E gostaria muito de ver o caso tratado em tribunal.
A empresa recebeu no ano passado um prémio estatal de reconhecimento do seu papel de formadora de novos trabalhadores qualificados, e não se sabe se esta carta terá consequências a nível daquele prémio. Comentário do empresário: "Não sei como é que os políticos vão decidir, e que oportunismo virá à luz do dia."

A polícia do Estado de Brandeburgo reagiu no Twitter informando que "A pessoa em questão pode apresentar queixa por ofensa. A recusa com base na religião/origem é matéria do Direito Civil." É óbvio que o candidato pode apresentar queixa, e é óbvio que é mesmo isso que o empresário quer. Ele próprio afirmou que gostaria muito de ver o caso levado a tribunal, e já anunciou de antemão que as decisões políticas que não lhe agradarem são puro oportunismo. Se tivesse sido só aquele pai de Famalicão, eu não reparava. Mas o paralelo oferecido por este caso em Brandeburgo revela que há aqui um sistema: estão a criar deliberadamente testes de stress contra o sistema democrático. E começamos a perceber os contornos da estratégia: alguém toma uma posição pública que vai contra a lei e os princípios constitucionais do país e tem, portanto, consequências. O caso, por inesperado, dá muito que falar. Os que são contra a ordem democrática alegram-se com o ruído e vendem o provocador como "mártir", alguns incautos caem na armadilha (olá Cavaco Silva! olá Passos Coelho! olá D. Manuel Clemente! - como têm passado? têm conseguido dormir bem, depois do presente que deram aos inimigos da ordem democrática?), e de caminho instala-se na sociedade a ideia de que é possível discutir e recusar os valores básicos das democracias modernas.


"o nosso famoso Fox!"

Ando há que tempos para dar notícias do Fox, e vai ser hoje: está a recuperar bem, obrigada! A pele está a cicatrizar sem mais problemas que a super infecção que teve no início, e os resultados das análises dos rins e do fígado estão bons. Habemus canitus para um bom par de anos, se tudo continuar a correr bem.

Hoje telefonei para o hospital veterinário do Porto onde ele esteve internado na primeira quinzena de Setembro: - Boa tarde, fala Helena Araújo, em Berlim. O nosso cão esteve aí internado em Setembro, por ter sido mordido, e precisava de falar com o dr. Francisco... - O dr. Francisco não está. Hoje só está a dra. Joana. - Então falo com ela. - Ela sabe do que se trata? - Sim, também tratou o Fox. - Ooooooh, é o Fox?! O nosso famoso Fox!!! Ai, o Fooooox! Como é que ele está? Vou já passar à dra. Joana.

Falei com a veterinária, esclareci as dúvidas que tinha, e tive de lhe prometer que enviava vídeos do Fox, porque querem muito ver como é que ele está agora.

Há mês e meio, quando me dei conta de que o cãozinho estava literalmente a apagar-se, pedi aos amigos sugestões para clínicas veterinárias de confiança na zona de Viana do Castelo. Recomendaram-me várias, com especial incidência na Ana Cardona, em Viana do Castelo, e na Ani Mar, na Póvoa de Varzim. Também me recomendaram um hospital em Braga e alguns no Porto, que devem ser muito bons. Mas escolhemos o Hospital Veterinário Dr. Francisco Corrêa Cardoso porque, além de ter excelentes recomendações, é pequeno e tem serviço permanente de 24 horas.

Hoje, ao ouvir a alegria naquela exclamação - "o nosso famoso Fox!" - confirmei a ideia que já tinha: escolhemos bem a clínica. Porque, tão importante como estar nas mãos de pessoas muito competentes, é estar bem guardado no coração de quem cuida.

O Fox é um felizardo. (Descontando as partes que correram pior na vida dele em Setembro, claro, claro.)

--- Passo alguns filmes, mas aviso já que não são para pessoas muito impressionáveis. Começo com um do seu primeiro passeio na rua ao fim de duas semanas de internamento:


O vídeo que se segue é já em Berlim, e tem 3 ou 4 dias
(mas aquela maneira de o Fox reagir ao assobio com um ar de "que é que queres? não vês que estou ocupado com outras coisas?", e seguir caminho, já tem vários anos).


E este é mais recente - à saída da veterinária anteontem - o Fox estava incomodado com o penso na pata:


E agora, tã tã tã tãããã, a "grande finale" escatológica:


De bónus, um filme já com alguns anos, que descobri nos arquivos: o Fox numa das suas sete quintas, a passear na "fortaleza medieval que foi modernizada no período rococó", perto da Polónia, onde às vezes alguns artistas berlinenses passam o fim-de-semana a pintar com modelos:



10 outubro 2020

não deixes para amanhã o que podes fazer bem hoje

Ontem à tarde, a regressar a casa de bicicleta, o Joachim entrou numa curva bem encostado ao lado direito, e deu de caras com um casal de ciclistas que vinham lado a lado a cortar a curva - aquelas coisas parvas de achar que "vamos com bom ritmo e aqui de qualquer modo nunca passa ninguém..." Surpreendidos, os outros ciclistas hesitaram na manobra para se desviarem. De modo que o Joachim, que já ia bem rente ao passeio, para evitar chocar de frente travou a fundo - e aterrou com a cabeça no chão e a bicicleta por cima dele. Dois minutos depois já estava a ser tratado por uma médica que vive naquela rua, e um vizinho foi imediatamente chamar, a seguir veio a ambulância, e a seguir cheguei eu. Estivemos no hospital até depois da meia-noite, enquanto lhe faziam todos os exames necessários, e um médico lhe cosia as feridas e lhe arranjava os dentes durante quase duas horas.

Tem a cara num estado lastimoso, mas felizmente parece que não tem mais nada de grave. O capacete está todo partido, e agora não sabemos se o deitemos fora, ou se lhe façamos cá em casa um altar com uma velinha sempre a arder.

Mais uma vez se comprova: nada nos está garantido, cada dia é uma dádiva. Ou, como dizia o Joachim esta manhã: "a vida pode mudar radicalmente em qualquer momento - e por isso não devemos adiar a felicidade".

Nem a dignidade, acrescento eu, a pensar numa frase que li algures: "imagina que escrevias esse comentário parvo na internet, a seguir tinhas um ataque cardíaco, e aquela frase era o último sinal que deixavas de ti".

Bem sei que viver cada momento como se fosse o último tornaria a nossa vida insuportável. Mas podemos pensar em termos de herança: que sinais de mim quero deixar hoje ao mundo?

---

Ontem, depois de a ambulância largar para o hospital, ainda fiquei com aquele casal à espera da polícia. Eles eram simpáticos, e estavam a fazer tudo muito certinho como manda a decência. Mas quando veio a polícia, e lhes disse que por enquanto eram testemunhas mas, dependendo do testemunho da outra parte, podiam tornar-se acusados, desataram a mentir. Que o Joachim vinha a uma velocidade desaustinada (sim, sim: tinha acabado de virar num cruzamento, e trazia um saco de mais de 10 kg às costas, de certeza que vinha a 100 à hora...) e que eles vinham bem encostados ao seu lado direito (pois, pois: tão dentro da legalidade, que uma pessoa se pergunta se terá sido a nossa senhora de Fátima que apareceu de repente à frente do Joachim e o obrigou a travar a fundo).

Espero que não tenham morrido esta noite. Era um triste sinal que deixavam deles ao mundo: mentir com todo aquele desplante, para mais no momento em que o Joachim estava a caminho do hospital sem se saber se tinha problemas graves.


09 outubro 2020

para evitar mais uma vintevintice

Estava aqui a pensar - outra vez!.. - que para evitar mais vintevintices talvez valesse a pena mudar de estratégia: não querer saber da academia do Nobel, virar-lhes as costas, ignorá-los, mostrar-lhes todo o desprezo até eles aprenderem a decidir como deve ser.
[ Pffff! ]
[ Cambada de incompetentes! ]

E começo já hoje: não quero saber a que horas anunciam o Nobel da paz, e nem me interessa. Tenho mais que fazer. Assim como assim, andam há estes anos todos a dar o Nobel da Paz, e cá continuamos a leste do paraíso. Não serve de nada, não adianta nada pensar nisso, e muito menos pensar nas pessoas que mais mereciam. Adiante, andor. Vá! [ ... ]

[ Greta Thunberg ou Fridays for Future, Papa Francisco. Podem dividir entre todos. ]
[ E além da Greta Thunberg, do papa Francisco, dos activistas de Hong Kong, da população da Bielorrússia, e de outros que tais, o Nobel da Paz deste ano bem podia ir para os governos que escolheram parar a economia para tentar proteger os mais velhos e os doentes crónicos. "Um gesto de ética radical", como lhe chamou alguém.
Bem sei que tem custos enormes, mas continuo fixada nesse momento inicial: quando os governos tiveram a coragem de proteger os mais frágeis, seja a que preço for. ] [ Mas eu não disse nada, isto é só conversa com os meus botões. Aqueles incompetentes que não pensem que lhes dou atenção. Ainda se lembram de ir dar o prémio ao Bahrain, aos Emiratos Árabes Unidos e ao Trump. Cruzes, canhoto! ]


08 outubro 2020

e além disso

E além disso, se o Nobel tivesse ido para o Lobo Antunes, todos nós podíamos desatar a dizer coisas interessantes, e ninguém se ia lembrar de troçar de nós e insinuar que até há 5 minutos nem fazíamos ideia de quem era essa pessoa.

(Não me conformo.)

E o país todo ia ficar mais feliz, e pessoas felizes combatem melhor os vírus, de modo que era assim que se controlava a covid, e deixávamos de ser um país de risco, e o turismo voltava a funcionar a pleno vapor, e a economia recuperava. Que é para isso que serve a literatura, caso não saibam. (Ai, espera - os EUA estão em situação muito mais grave que nós. Precisam mais. OK, OK, senhores júris do Nobel. Por esta vez estão perdoados.)  


2020 a cometer vintevintices


Esta manhã dei comigo a pensar que o ano de 2020 já vai no seu décimo mês, e até agora só fez asneiras, pelo que já começava a ser tempo de ganhar juízo e tentar finalmente fazer as coisas bem. A 3 de Novembro, por exemplo, ou hoje mesmo, dia de anunciar o Nobel da literatura deste ano: uma bela oportunidade de se emendar e de dar uma alegria ao mundo. Quer dizer: aos portugueses.

Mas não!     [ - Saia mais uma vintevintice para a mesa do fundo! ] À hora certa (e eu a morrer de nervos, não me importava nada que hoje tivessem começado uns minutos antes) a porta abriu-se, um senhor saiu. Vinha sem máscara, o que me aliviou, porque vá que ele dizia "Lobo Antunes" por baixo da máscara e ninguém entendia. Mas quando começou a falar também não se entendeu nada, porque era sueco. Fiquei com ideia que seria um poeta americano chamado Dürisclick.

Por sorte repetiu a seguir, em inglês. Afinal era Louise Glück - e não Dürisclick, e muito menos Lobo Antunes.

(Ó vinte-vinte, atão coméquié?! Não tínhamos combinado que desta vez ias aproveitar a oportunidade para mudar de vida?)

Fui ver poemas da recém-laureada. Vi, e aqui deixo um conselho à Louise Glück: compre mirtilos portugueses, é à confiança, não tem podres no fundo da caixa. (Não liguem: isto é o despeito a falar por mim) (2020: lá fora falamos, oubistes? Estás cada vez mais esparvoado.)
Dawn
BY LOUISE GLÜCK
1
Child waking up in a dark room
screaming I want my duck back, I want my duck back
in a language nobody understands in the least —
There is no duck.
But the dog, all upholstered in white plush —
the dog is right there in the crib next to him.
Years and years — that’s how much time passes.
All in a dream. But the duck —
no one knows what happened to that.
2
They’ve just met, now
they’re sleeping near an open window.
Partly to wake them, to assure them
that what they remember of the night is correct,
now light needs to enter the room,
also to show them the context in which this occurred:
socks half hidden under a dirty mat,
quilt decorated with green leaves —
the sunlight specifying
these but not other objects,
setting boundaries, sure of itself, not arbitrary,
then lingering, describing
each thing in detail,
fastidious, like a composition in English,
even a little blood on the sheets —
3
Afterward, they separate for the day.
Even later, at a desk, in the market,
the manager not satisfied with the figures he’s given,
the berries moldy under the topmost layer —
so that one withdraws from the world
even as one continues to take action in it —
You get home, that’s when you notice the mold.
Too late, in other words.
As though the sun blinded you for a moment.


07 outubro 2020

soprano masculino

 Mais beleza para começar bem o dia:

Devido a um distúrbio hormonal, Samuel Mariño não passou pelo processo de mudança de voz.

Parece a história do patinho feio: foi muito gozado na adolescência devido à sua voz feminina, mas agora pode cantar como soprano - tal como os castrati do barroco.
(Obrigadinha, Spiegel.de)

Jorge Silva Melo sobre o teatro como gerúndio

Ia escrever um post daqueles "o Trump agora fez o quêêê?!!!!" mas o mundo fica muito melhor se partilhar antes belezas como esta.

Bom dia!

06 outubro 2020

ideologia de género

Levou tempo, mas finalmente percebi porque é que certos pais querem que a disciplina de Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento seja facultativa, e fazem questão de ter o monopólio dos temas de "ideologia de género": é para poderem passar aos filhos os seus valores sem que os seus esforços de educadores sejam sabotados pela influência perniciosa da escola.  

Nem sei como é que não pensei nisso antes...

O bispo Edir Macedo, por exemplo: ensinou as suas filhas a ser submissas aos maridos, porque é essa a receita da felicidade. Não as deixou ir além do ensino médio, para não correrem o risco de ficarem superiores aos maridos. E vejam, no filme, como elas concordam com ele e sorriem. Se tiverem a divina graça de ter filhas, vão com certeza educá-las nos mesmos bons e santos princípios. Como deve ser. É óbvio que a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento tem de ser facultativa para famílias como a do Edir Macedo: era muito desagradável para estas famílias se a escola metesse ideias controversas nas cabeças das raparigas. Ainda ficavam a pensar que têm os mesmos direitos que os homens e decidiam tirar um curso superior, criando péssimo ambiente em casa e enchendo os pais de preocupações, pois estes bem sabem que elas se habilitariam a ficar sem marido, só por serem demasiado independentes. 




Ou a Damares Alves e os seus fãs, que defendem que "menino veste azul, menina veste rosa". Aonde é que o mundo deles iria parar se as crianças aprendessem na escola que menino também pode vestir rosa - e até saias! - se lhe apetecer? A escola não tem de ensinar coisas que não estão cientificamente provadas, e, como todos sabem, "menino veste azul e menina veste rosa" é uma verdade aceite por toda a comunidade científica - a mesma que se insurge contra as roupas unissexo, extremamente malignas para a saudável estruturação das crianças. 


E com que cara ficaria Bolsonaro se os seus filhos aprendessem na escola que um pai não pode dar uma tareia a um filho para lhe tirar as ideias gay da cabeça? 
Não, não! 
É fundamental que a escola respeite os valores dos pais, não se meta em assuntos que não são da sua conta, e não restrinja a liberdade de consciência de famílias como a do Bolsonaro.


Bolsonaro, felizmente, pôde fazer o seu trabalho educativo sem interferências, e criou um filho que dá gosto ver a argumentar assim contra o movimento LGBTQ: “Se você diz que só é preciso amor para ser uma família, você vai dizer que eu e meu cachorro, eu amo meu cachorro, somos uma família. Entende? Você abre a porta para muitas coisas.”
Outros pais não conseguem educar os filhos tão bem (como se vê neste filme, por exemplo a partir de 4:33) e, perante o fracasso, acabam por ver-se obrigados a expulsar os filhos da sua própria casa, a insultá-los e a bater-lhes (como neste filme) ou então a enviá-los para centros de tratamento da "doença", onde não se olha a meios para conseguir "curar" os menores.


Finalmente, há o supremo valor do amor, tão bem explicado por Nuno Melo: o verdadeiro amor é um homem gostar de mulheres, e uma mulher gostar de homens. Gostar-se de "pessoas", nem pensar.
Nuno Melo gostaria de ensinar aos seus filhos que o lugar das "pessoas" não heterossexuais é à porta do amor, do lado de fora. E o D. Manuel Clemente (juntamente com Cavaco Silva e Passos Coelho, entre outros), aparentemente acha que sim, que o Nuno Melo tem o direito de ensinar isso aos seus filhos sem qualquer interferência da escola a lembrar que as "pessoas" também são seres humanos, e que às tantas até são boa gente, e que pior que amar uma "pessoa" é negar e combater o amor que se sente por ela.
Em suma: se os pais querem ensinar aos filhos que as pessoas LGBTQ são seres perversos, degenerados e nojentos, é inadmissível que a escola se intrometa dizendo aos menores que a dignidade das pessoas LGBTQ é tão inviolável como a de outro ser humano qualquer. E por isso é que é fundamental que os encarregados de educação tenham o direito de fazer objecção de consciência à disciplina Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento. Faz todo o sentido...
--- Para pessoas como o Nuno Melo, o Bolsonaro, a Damares Alves e o Edir Macedo (e para todos os que subscreveram aquele texto defendendo que os pais devem poder fazer objecção de consciência à disciplina de Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento), o vídeo que se segue é material altamente nocivo da "ideologia de género" e do "marxismo cultural". Para mim, é das coisas mais dignas e comoventes que vi nos últimos tempos.





ressignificar




"Ressignificar" é um conceito usado em Psicologia para designar o processo de "dar um novo significado a algo". Ainda não consta dos dicionários portugueses, mas lá chegaremos.

O caso mais recente bem o exige: Trump faz um apelo aos Proud Boys (um grupo violento de supremacistas brancos) para "recuarem e ficarem a postos", porque "alguém tem de fazer alguma coisa contra os antifas". Os Proud Boys agarram com ambas as mãos a oportunidade que o presidente dos EUA lhes dá. Os EUA aproximam-se um pouco mais de um cenário de guerra civil. E é então que George Takei tem uma ideia brilhante: inundar as redes sociais com uma ressignificação de #proudboys. As pessoas responderam como se pode ver no filme.

Agora, quem tentar encontrar posts sobre os Proud Boys no twitter depara-se com uma série interminável de imagens de casais gays - cheias de humor e cheias de amor.

A milícia racista do Trump vai ter de mudar de nome, porque este foi "ressignificado". Uma ideia genialmente simples: responder ao ódio com amor, associar o nome "proud boys" à ideia de "love is love".

Mais informações: Forbes.

(Será que ainda vamos a tempo de sugerir o nome do George Takei para o Nobel da Paz desta semana?)



05 outubro 2020

de quem são as ovelhas?

A propósito do meu post anterior, sobre a facilidade com que desatámos a desenvolver teorias partindo do princípio que Trump estava a mentir quando dizia que tinha covid, alguns amigos
comentaram no facebook: lembraram o historial de mentiras do presidente dos EUA e a história do pastor e o lobo.  Aí está uma óptima analogia para explicar a minha questão central: é verdade que as mentiras do pastor são uma justificação muito compreensível e razoável para explicar a reacção das pessoas da aldeia. Mas quando o lobo chegou, e ninguém acudiu, as ovelhas que comeu pertenciam à aldeia toda.  O pastor mentiroso só estava a tomar conta. 


03 outubro 2020

afinal era verdade...

(foto: Jose Luis Magana / dpa - aqui)


A Casa Branca está que parece Ischgl...

Vários infectados após a cerimónia de apresentação de Amy Coney Barrett como candidata ao Supremo, na semana passada. Vários jornalistas infectados. Várias pessoas dos gabinetes infectados.
(Ainda não li nada sobre o batalhão de pessoas que cozinham, servem, limpam, conduzem, etc. - mas já sabemos que o vírus não faz distinção de classes)

Aqui está a resposta a todos os que ontem suspeitavam que se tratava de mais um truque do Trump.

Agora pergunto: porque é que desatámos a desconfiar assim, e a dizê-lo tão naturalmente?
Um dia destes ainda vamos acordar todos terraplanistas, e nem vamos notar... :(


01 outubro 2020

Quino

 


Lembro-me perfeitamente do dia em que me apresentaram o Quino: uma professora tinha faltado, e um pequeno grupo juntou-se no meio do recreio em conversa animada. De tema em tema, a conversa foi parar à Mafaldinha - e ainda nos ríamos quando começou a aula seguinte. Nunca mais larguei o Quino, e os seus livros estavam na mala que trouxe quando vim viver para a Alemanha. 

Nos últimos livros que lhe conheci pareceu-me amargo e muito triste. Terá perdido a capacidade de apontar as dores do mundo sem se deixar submergir por elas? Não sei. Mas sei que o realmente difícil é manter a alegria apesar do tanto que nos submerge. 

O Quino partiu. Deixa-nos as suas páginas, e a sugestão de continuarmos o seu trabalho de olhar para o mundo com os olhos da ética. 


30 setembro 2020

proposta para os próximos debates entre o Trump e o Biden

Se eu fosse o Chris Wallace, nos próximos debates entre o Trump e o Biden dava a cada um deles dois minutos para responder à pergunta que foi feita - como estava combinado com as equipas de ambos - e no resto do tempo mantinha-lhes o microfone desligado. 

(E depois, se fosse a equipa do Biden, treinava o candidato para responder às perguntas sem se deixar desconcentrar pelo ruído de fundo na sala.)


26 setembro 2020

como os nossos avós

Durante muito tempo olhava para a Alemanha dos anos vinte e trinta do século passado sem conseguir compreender como foi possível um povo tão culto e educado ter permitido e mesmo participado na ascensão do nazismo. Infelizmente, os tempos que correm estão a dar a resposta: a Democracia pode sucumbir a ataques graves em qualquer região do globo e em qualquer época. Até no Portugal de 2020 se repetem com todo o desplante desvios como aqueles que, há cem anos, foram testemunhados pelos nossos avós. E - hoje como então - a mesma perplexidade, a mesma sensação de impotência para proteger o sistema democrático destes ataques vergonhosos. Uma breve compilação:

- Um líder político serve-se do discurso de ódio contra uma minoria para conquistar espaço de poder. 

- No Parlamento, um deputado propõe a criação de campos de reclusão especiais para as pessoas de uma minoria étnica.   

- Num partido político leva-se a votação uma moção que propõe a mutilação feminina como forma de punição contra determinado comportamento das mulheres.
(Podem dizer que "só" tiveram x% de votos a favor - não interessa: há propostas que pura e simplesmente não podem ter lugar no nosso sistema democrático. A mutilação feminina como punição por parte do Estado é uma delas.) 

- Um deputado usa a difamação como arma - no caso, contra o Paulo Pedroso, que foi vítima de uma hábil manobra de assassínio de carácter, cujos efeitos permanecem apesar de o sistema de Justiça ter concluído que não havia o menor motivo para o inculpar - e para isso não hesita em arrastar para a lama um dos esteios do sistema democrático, sem sequer apresentar provas do que afirma.   

- O jornalismo, esse, em vez de titular na primeira página "André Ventura provoca crise institucional na Democracia portuguesa - deputado não respeita o princípio da separação de poderes", perde o rumo e a responsabilidade, e vai noticiando como quem comenta episódios de uma telenovela mexicana, "fulano afirmou", "sicrana respondeu", "beltrano tomou uma posição". 

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O Lutz Brückelmann dizia há uns anos, durante a campanha eleitoral que levou à eleição de Trump, que o seu sucesso se devia à sua capacidade de "libertar o filho da puta que existe em cada um de nós". André Ventura segue a mesma receita: a sua estratégia para conquistar o poder consiste na legitimação e validação dos piores instintos que existem dentro dos portugueses. No caso do ataque ao Paulo Pedroso, em vez de assumir a sua responsabilidade de deputado da Nação e a consequente atitude de respeito pela ordem democrática, faz exactamente o contrário: desrespeita o poder judicial e destrói a sua legitimidade, rejeitando - sem provas - uma decisão daquele. 

O ataque deliberado às instituições para as descredibilizar, a par da legitimação e da banalização do ódio, é do pior que pode acontecer a uma sociedade democrática. De cada vez que o André Ventura abre a boca, mais alguns portugueses ganham coragem para assumir o seu racismo, a sua xenofobia, o seu ódio às mulheres e às minorias, o seu absoluto desprezo pelo funcionamento das instituições. 

Isto é connosco, isto é contra nós. Por muito mau que o sistema democrático português possa ser, a alternativa que o André Ventura traz é incomparavelmente pior.

Quem quererá viver num país cujos governantes instalam uma ordem na qual as redes sociais e os meios de comunicação da sarjeta se substituem aos tribunais? Num país onde o Estado prevê a possibilidade de castrar, mutilar e matar, mas o sistema judicial não é suficientemente forte para proteger os cidadãos do extremismo do governo e das turbas? Num país onde há campos de concentração para minorias (por etnia, por orientação sexual, por nacionalidade)?
O Portugal de André Ventura seria assim. 

Repito: por muito mau que o sistema democrático português possa ser, alternativas como as do oportunista André Ventura são incomparavelmente piores.
O caminho é corrigir o que temos, em vez de deitar fora o bebé com a água do banho. Já aconteceu há cem anos na Alemanha, e o resultado foi o que se viu. 

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Ah, e para os sectores da direita democrática que se andam a encostar ao André Ventura e às suas manhosas estratégias de poder, deixo aqui um recado antigo, da revista londrina Punch, em 8 de Fevereiro de 1933:

Encontrei a imagem num artigo do Frankfurter Allgemeine Zeitung, sobre os media e o fracasso da República de Weimar, que diz o seguinte: 
"O exemplo da República de Weimar mostra que uma democracia não tem de falhar pelo facto de se confrontar com ventos adversos. Só falha se não puder contar com ventos favoráveis por parte dos políticos, dos meios de comunicação social e dos cidadãos." 
O artigo é em alemão, e não vou traduzir. Afinal de contas, bem sei que Cavaco Silva, Passos Coelho, D. Manuel Clemente e outros artistas do mesmo quilate não lêem este blogue. 


o caminho para a Democracia


Trago do LeMO (museu online vivo do Museu de História Alemã) um filme que se encontra na página sobre a República de Weimar, onde se sintetizam algumas tomadas de posição dessa época sobre a essência da Democracia. Por ser actualíssimo, traduzo o texto:
“Estamos nos anos 20 do século passado. Depois da primeira guerra mundial, instala-se na sociedade um espírito pioneiro. A Democracia chega pela primeira vez à Alemanha, e essa torna-se a palavra da moda.
Mas até os especialistas discutem sobre o seu significado.
O liberal Hans Kelsen, jurista de Direito Público, atrai as atenções com uma provocação: “nenhuma pessoa tem o direito de dominar outra, mas o governo é necessário”. Segundo Kelsen, o cerne da Democracia é a disponibilidade para o compromisso. Para ele, não existe a verdade absoluta (“temos de ser capazes de suportar uma opinião contrária”). Os partidos permitem negociar compromissos e aproximar as posições da maioria e da minoria.
Mas poucos especialistas em Direito Público concordam com Kelsen. As críticas chovem de todos os quadrantes políticos.
Hermann Heller rejeita a teoria de Kelsen. Como defensor da República (“A Democracia tem de ser capaz de se defender”), aponta a importância de valores democráticos mais altos (Parlamento/Estado de Direito social/Cidadania).
Para Rudolf Smend, a questão central não são as maiorias e as minorias, mas uma nação homogénea e sem opiniões divergentes.
Carl Schmitt, por sua vez, entende que eleições livres, partidos e parlamento são completamente desnecessários. A homogeneidade radical do povo (“igual entre iguais”) é o modelo da Democracia.
Kelsen situa-se no extremo oposto (“o que é que a posição de Carl Schmitt tem a ver com Democracia?”). Para ele, o fundamental é proteger a liberdade de cada indivíduo, mesmo perante o Estado. E com estas ideias aproxima-se muito do actual entendimento de uma Democracia liberal.
O debate sobre uma sociedade aberta e pluralista continua nos dias de hoje.
O que podemos fazer para responder aos desafios actuais?
Ainda há muito que pensar sobre as bases da nossa coexistência democrática."

25 setembro 2020

regressar

Saímos da Bretanha faz hoje uma semana. Nesse dia o Joachim ainda começou a fazer a experiência que o levara a Brest, e só foi possível iniciar nas últimas horas da nossa estadia. Enquanto isso, eu meti a nossa tralha no carro e entreguei o apartamento. Assim terminaram seis meses de Rue de Pontaniou, mesmo em frente ao rio de Brest, a duas docas secas da Marinha, e à luz do céu bretão.

Saímos da Bretanha pela praia de Brignogan, o farol de Pontusval e Dinan. No caminho para a praia ultrapassámos um casal que ia num carro antiquíssimo, lindo. 



O mar de Brignogan estava verde e encapelado. Desistimos de um último banho em Finisterra. Limitámo-nos a mergulhar os olhos na beleza dos lugares. Exaltados e mudos, a repetir como um mantra: "até já, até já, até já".





Dormimos em Dinan, num hotel junto à muralha. Na manhã seguinte levantamo-nos cedo para ir dar uma voltinha pela cidade antes de partir para a Alemanha. Mas chovia tanto que regressámos apressadamente ao hotel para mudar de roupa e sapatos antes de seguir caminho. Havemos de voltar a Dinan num dia de sol. 

Visitámos a família no sul da Alemanha, e chegámos a Berlim no domingo à noite. Mas não se regressa de sete meses - e de um confinamento - como se saiu. Desta vez está a ser difícil juntar todos os meus bocados. Ontem fui ao centro de Charlottenburg, e não senti esta cidade como minha.
Que é que estou a fazer aqui? 

Esta noite, a chuva de Dinan chegou a Berlim. Pode ser que traga algumas das parcelas de mim que ficaram pelo caminho. 






 

23 setembro 2020

mas afinal qual é, concretamente, o problema da disciplina de Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento?

Tento compreender os motivos que podem levar os encarregados de educação a alegar objecção de consciência para impedirem os menores a seu cargo de frequentar a disciplina obrigatória de Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento, mas está difícil, porque os argumentos permanecem demasiado vagos. Limitam-se a falar em "ideologia" e "temas que não são do âmbito da escola". Se pergunto um pouco mais, falam-me em "sexualidade" e "ideologia de género". Mas o que quer dizer isso, concretamente?

No final deste post partilho as linhas orientadoras desta disciplina, e apelo aos objectores de consciência para que informem sobre quais são as partes do programa dessa disciplina com as quais não concordam, e porquê. Agradeço também que apresentem casos reais de excessos cometidos em alguma escola, para podermos averiguar se se trata de um excesso ocasional a corrigir localmente, ou se é algo que abrange todo o sistema.

Quanto aos argumentos que já avançaram relativos a "sexualidade" e "ideologia de género", pergunto aos objectores de consciência: 

1. Porque é que, no que diz respeito à sexualidade, não querem que os menores a vosso cuidado recebam da escola "informações rigorosas relacionadas com a protecção da saúde e a prevenção do risco"? (v. as linhas orientadoras da disciplina, que partilho abaixo)
Ou será que conhecem casos de professores que se excederam, e trataram o tema "sexualidade" de uma forma nociva aos interesses dos alunos?

2. Porque é que não querem que a escola desconstrua "preconceitos e estereótipos de género, de forma a garantir as mesmas oportunidades educativas e opções profissionais tanto para rapazes como para raparigas"? Porque é que uma sociedade que tem a igualdade de oportunidades como princípio básico deve reconhecer a um encarregado de educação o direito de inculcar princípios contrários àquele, sem que ao menor seja oferecida a possibilidade de qualquer contraditório? 

3. Porque é que não querem que a escola informe os menores a vosso cuidado sobre a existência de orientações sexuais diversas, e lhes incuta o princípio do respeito por todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual?
Ou será que conhecem casos de professores que se excederam, e - por exemplo - fizeram a apologia dessas orientações sexuais como algo preferível à heterossexualidade?

4. Porque é que não querem que a escola informe os menores a vosso cuidado sobre a existência de pessoas que não identificam o seu género com o seu sexo biológico, sublinhando que essas pessoas merecem respeito? O que há de errado na informação sobre a existência de pessoas transexuais, e no alertar para as dificuldades da sua vida no contexto de uma sociedade maioritariamente binária?

Será que acreditam realmente que essas pessoas não existem? E, nesse caso, por que motivo deve a sociedade reconhecer a um encarregado de educação o direito de negar ao menor a seu cuidado informações fundamentais para a coexistência numa comunidade mais diversa do que aquilo que esse adulto está capaz de reconhecer e aceitar?

Agradeço sinceramente que me respondam a estas questões. 
 

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Educação paraa Cidadania - Linhas Orientadoras

A prática da cidadania constitui um processo participado, individual e coletivo, que apela à reflexão e à ação sobre os problemas sentidos por cada um e pela sociedade. O exercício da cidadania implica, por parte de cada indivíduo e daqueles com quem interage, uma tomada de consciência, cuja evolução acompanha as dinâmicas de intervenção e transformação social. A cidadania traduz-se numa atitude e num comportamento, num modo de estar em sociedade que tem como referência os direitos humanos, nomeadamente os valores da igualdade, da democracia e da justiça social.

 

Enquanto processo educativo, a educação para a cidadania visa contribuir para a formação de pessoas responsáveis, autónomas, solidárias, que conhecem e exercem os seus direitos e deveres em diálogo e no respeito pelos outros, com espírito democrático, pluralista, crítico e criativo.

 

A escola constitui um importante contexto para a aprendizagem e o exercício da cidadania e nela se refletem preocupações transversais à sociedade, que envolvem diferentes dimensões da educação para a cidadania, tais como: educação para os direitos humanos; educação ambiental/desenvolvimento sustentável; educação rodoviária; educação financeira; educação do consumidor; educação para o empreendedorismo; educação para a igualdade de género; educação intercultural; educação para o desenvolvimento; educação para a defesa e a segurança/educação para a paz; voluntariado; educação para os media; dimensão europeia da educação; educação para a saúde e a sexualidade.

 

Sendo estes temas transversais à sociedade, a sua inserção no currículo requer uma abordagem transversal, tanto nas áreas disciplinares e disciplinas como em atividades e projetos, desde a educação pré-escolar ao ensino secundário, de acordo com os princípios definidos no Decreto-Lei n.º 139/2012, de 5 de julho, com as alterações introduzidas pelo Decreto-Lei n.º 91/2013 de 10 de julho. Subjacente a esta conceção educativa, está uma visão integradora das diversas áreas do saber que atravessa toda a prática educativa e que supõe, para além de uma dinâmica curricular, também uma vivência de escola, coerente e sistemática, alargada ao contexto em que esta se insere.

 

A abordagem curricular da educação para a cidadania pode assumir formas diversas, consoante as dinâmicas adotadas pelas escolas no âmbito da sua autonomia, nomeadamente através do desenvolvimento de projetos e atividades da sua iniciativa, em parceria com as famílias e entidades que intervêm neste âmbito, no quadro da relação entre a escola e a comunidade. Não sendo imposta como uma disciplina obrigatória, é dada às escolas a possibilidade de decidir da sua oferta como disciplina autónoma, nos 1.º, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico. Deste modo, a educação para a cidadania pode ser desenvolvida em função das necessidades e problemas específicos da comunidade educativa, em articulação e em resposta a objetivos definidos em cada projeto educativo de agrupamento de escola ou escola não agrupada.

 

Atendendo à importância que o Ministério da Educação e Ciência reconhece a esta área curricular, têm vindo a ser produzidos, em colaboração com outros organismos e instituições públicas e com diversos parceiros da sociedade civil, documentos que se poderão constituir como referenciais na abordagem das diferentes dimensões de cidadania. Os referenciais e outros documentos orientadores não constituem guias ou programas prescritivos, mas instrumentos de apoio que, no âmbito da autonomia de cada estabelecimento de ensino, podem ser utilizados e adaptados em função das opções a definir em cada contexto, enquadrando as práticas a desenvolver.

 

As diversas dimensões da educação para a cidadania são já objeto de trabalho em muitas escolas, quer transversalmente, quer através de ofertas curriculares específicas e de projetos. As dimensões para as quais já foram elaborados ou estão em elaboração documentos orientadores para as escolas são, nomeadamente:

 

A Educação Rodoviária, que se assume como um processo de formação ao longo da vida que envolve toda a sociedade com a finalidade de promover comportamentos cívicos e mudar hábitos sociais, de forma a reduzir a sinistralidade rodoviária e assim contribuir para a melhoria da qualidade de vida das populações.

 

A Educação para o Desenvolvimento, que visa a consciencialização e a compreensão das causas dos problemas do desenvolvimento e das desigualdades a nível local e mundial, num contexto de interdependência e globalização, com a finalidade de promover o direito e o dever de todas as pessoas e de todos os povos a participarem e contribuírem para um desenvolvimento integral e sustentável.

 

A Educação para a Igualdade de Género, que visa a promoção da igualdade de direitos e deveres das alunas e dos alunos, através de uma educação livre de preconceitos e de estereótipos de género, de forma a garantir as mesmas oportunidades educativas e opções profissionais e sociais. Este processo configura-se a partir de uma progressiva tomada de consciência da realidade vivida por alunas e alunos, tendo em conta a sua evolução histórica, na perspetiva de uma alteração de atitudes e comportamentos.

 

A Educação para os Direitos Humanos, que está intimamente ligada à educação para a cidadania democrática, incidindo especialmente sobre o espectro alargado dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, em todos os aspetos da vida das pessoas, enquanto a educação para a cidadania democrática se centra, essencialmente, nos direitos e nas responsabilidades democráticos e na participação ativa nas esferas cívica, política, social, económica, jurídica e cultural da sociedade.

 

A Educação Financeira, que permite aos jovens a aquisição e desenvolvimento de conhecimentos e capacidades fundamentais para as decisões que, no futuro, terão que tomar sobre as suas finanças pessoais, habilitando-os como consumidores, e concretamente como consumidores de produtos e serviços financeiros, a lidar com a crescente complexidade dos contextos e instrumentos financeiros, gerando um efeito multiplicador de informação e de formação junto das famílias.

 

A Educação para a Segurança e Defesa Nacional, que pretende evidenciar o contributo específico dos órgãos e estruturas de defesa para a afirmação e preservação dos direitos e liberdades civis, bem como a natureza e finalidades da sua atividade em tempo de paz, e ainda contribuir para a defesa da identidade nacional e para o reforço da matriz histórica de Portugal, nomeadamente como forma de consciencializar a importância do património cultural, no quadro da tradição universal de interdependência e solidariedade entre os povos do Mundo.

 

A promoção do Voluntariado, que visa o envolvimento das crianças e dos jovens em atividades desta natureza, permitindo, de uma forma ativa e tão cedo quanto possível, a compreensão que a defesa de valores fundamentais como o da solidariedade, da entreajuda e do trabalho, contribui para aumentar a qualidade de vida e para impulsionar o desenvolvimento harmonioso da sociedade. A criação de uma cultura educacional baseada na defesa destes mesmos valores reforça a importância do voluntariado como meio de promoção da coesão social.

 

A Educação Ambiental/Desenvolvimento Sustentável, que pretende promover um processo de consciencialização ambiental, de promoção de valores, de mudança de atitudes e de comportamentos face ao ambiente, de forma a preparar os alunos para o exercício de uma cidadania consciente, dinâmica e informada face às problemáticas ambientais atuais. Neste contexto, é importante que os alunos aprendam a utilizar o conhecimento para interpretar e avaliar a realidade envolvente, para formular e debater argumentos, para sustentar posições e opções, capacidades fundamentais para a participação ativa na tomada de decisões fundamentadas no mundo atual.

 

A Dimensão Europeia da Educação, que contribui para formação e envolvimento dos alunos no projeto de construção europeia, incrementando a sua participação, reforçando a proteção dos seus direitos e deveres, fortalecendo assim a identidade e os valores europeus. Pretende-se promover um melhor conhecimento da Europa e das suas instituições, nomeadamente da União Europeia e do Conselho da Europa, do património cultural e natural da Europa e dos problemas com que se defronta a Europa contemporânea.

 

A Educação para os Media, que pretende incentivar os alunos a utilizar e decifrar os meios de comunicação, nomeadamente o acesso e utilização das tecnologias de informação e comunicação, visando a adoção de comportamentos e atitudes adequados a uma utilização crítica e segura da Internet e das redes sociais.

 

A Educação para a Saúde e a Sexualidade, que pretende dotar as crianças e os jovens de conhecimentos, atitudes e valores que os ajudem a fazer opções e a tomar decisões adequadas à sua saúde e ao seu bem-estar físico, social e mental. A escola deve providenciar informações rigorosas relacionadas com a proteção da saúde e a prevenção do risco, nomeadamente na área da sexualidade, da violência, do comportamento alimentar, do consumo de substâncias, do sedentarismo e dos acidentes em contexto escolar e doméstico.

 

A Educação para o Empreendedorismo, que visa promover a aquisição de conhecimentos, capacidades e atitudes que incentivem e proporcionem o desenvolvimento de ideias, de iniciativas e de projetos, no sentido de criar, inovar ou proceder a mudanças na área de atuação de cada um perante os desafios que a sociedade coloca.

 

A Educação do Consumidor, que pretende disponibilizar informação que sustente opções individuais de escolha mais criteriosas, contribuindo para comportamentos solidários e responsáveis do aluno enquanto consumidor, no contexto do sistema socioeconómico e cultural onde se articulam os direitos do indivíduo e as suas responsabilidades face ao desenvolvimento sustentável e ao bem comum.

 

A Educação Intercultural, que pretende promover o reconhecimento e a valorização da diversidade como uma oportunidade e fonte de aprendizagem para todos, no respeito pela multiculturalidade das sociedades atuais. Pretende-se desenvolver a capacidade de comunicar e incentivar a interação social, criadora de identidades e de sentido de pertença comum à humanidade.

 

 

 

Tento compreender os motivos que levam encarregados de educação a alegar "objecção de consciência" para impedir que os seus filhos frequentem esta disciplina, mas debato-me sempre com a falta de informação. Os motivos apresesentados são vagos ("temas que competem às famílias", "ideologia"). Os casos concretos são inexistentes. Ou então, sou eu que estou mal informada.

 

Se bem entendi, o problema reside nos temas "sexualidade" e "

 

A Educação para a Igualdade de Género, que visa a promoção da igualdade de direitos e deveres das alunas e dos alunos, através de uma educação livre de preconceitos e de estereótipos de género, de forma a garantir as mesmas oportunidades educativas e opções profissionais e sociais. Este processo configura-se a partir de uma progressiva tomada de consciência da realidade vivida por alunas e alunos, tendo em conta a sua evolução histórica, na perspetiva de uma alteração de atitudes e comportamentos.