21 março 2017

a Nova Putogalidade

Alguns apontamentos ainda a propósito do ruído à volta da palestra na FCSH e o debate sobre a liberdade de expressão:

1. Manipulações


Custa-me muito ver o espaço público a ser manipulado desta maneira por um grupo de putos. A ver se nos serviu a todos de lição. A começar por mim, que também me precipitei.


2. "Nova Putogalidade" ou "Trumpalhada à nossa moda"?

A primeira ideia com que fiquei da Nova Portugalidade foi a de um bando de putos arrivistas alucinados. O texto de Rafael Pinho Borges, "Reerguer a Portugalidade é o dever da hora", mostra um olhar para o passado imperial português com o deslumbramento do Atílio (lembram-se da telenovela "O Casarão"?) a remexer o estrume na sua banheira convencido de ter ali ouro. E a sua encenação de cócoras em frente à cama de Salazar lembra uma criança de dois anos a dizer "puta" para se sentir poderosa, porque sabe que é uma palavra com impacto. Bem, também me lembra uma conversa que ouvi a uma miúda de treze anos, que explicava à minha filha de nove: "quando for grande vou ser star. Não sei de quê, mas sei como chegar lá: faço escândalos, toda a gente fala de mim, fico famosa."
Depois li o artigo "Munique", e percebi que é ainda pior. É oportunismo e falta de decência.
Esse artigo foi publicado no dia 22.7.16, às 19:17 - à hora a que a rádio alemã ainda repetia "houve um tiroteio em Munique, não sabemos o que aconteceu, continuamos à espera de informações da polícia". Algumas hora mais tarde soube-se que se tratava de um alemão-iraniano movido por ódio contra estrangeiros (turcos, da antiga Jugoslávia, etc.). Que é que estes factos interessam ao líder do movimento "Nova Portugalidade"? Nada, absolutamente nada. À primeira notícia de haver tiros, mortos e muita confusão em Munique, disparou à queima-roupa para atingir políticos europeus. Parecia que tinha estado o tempo todo à espera de uma tragédia - e quanto pior, melhor. 

O artigo acusa nestes termos:

Entretanto, na Europa, as investidas de sicários contra alvos civis tornaram-se coisa tão banal quanto uma explosão na Estalinegrado de 1943.
Tinha razão Manuel Valls, o primeiro-ministro francês, que há dias pedia calma, um chá de tília e que nos habituássemos a viver com o terror.
Graças à escabrosa impreparação – mais, incompetência, falta de mundo, devoção imperdoável à falsa fé do multiculturalismo – da criatura e seus correligionários alemães, é o que parece estar a acontecer.
Fizeram da nossa casa comum – assim se lhe referia Gorbachev – uma trincheira.
Se tivessem espinha, já se teriam demitido ele e Merkel, culpada pelo massacre de Munique, e Hollande, Cazeneuve e Renzi.
Por sorte, há um homem que se distingue do escorralho.

(Deixem-me sublinhar esta obra-prima do estilo trumpista: "as investidas de sicários contra alvos civis tornaram-se coisa tão banal como uma explosão na Estalinegrado de 1943". Quem escreve assim não pode esperar que o levem a sério. Em lado nenhum - a não ser, talvez, lá no café dele, e depois de correr muito bagaço - e muito menos da Academia.)


2."Fascismo"

Será problema meu, mas não consigo levar a sério quem em Portugal acusa outros de "fascismo".
Explico: por um lado, assisti aos esvaziamento da palavra nos anos setenta em Portugal, quando foi transformada num insulto como outro qualquer. Por outro lado, sendo confrontada quotidianamente com memórias do fascismo alemão (um exemplo: perto do meu supermercado há árvores e carris que vieram de Auschwitz), acabei por criar imagens de referência de "fascismo" que andam muito longe do que conheço do Estado Novo. Alguns exemplos: culto do líder x respeitinho; excessiva politização x lobotomia política; imperialismo militar x "gestão do que é nosso". Não estou a tentar lavar a ditadura salazarista, mas apenas a notar que me parece estranho dar o mesmo nome a dois fenómenos com valores, práticas e consequências de dimensões tão diferentes como as do salazarismo e do III Reich. 
Pode ser problema meu, repito, mas não sei o que significa "fascismo" no caso português. Pergunto-me até o que significará hoje o "fascismo" referido na Constituição, e se o texto do artigo 46 ("4. Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista") não deveria ser mudado para:
"4. Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem ideologias colonialistas ou antidemocráticas".

Por este motivo, achei descabida a argumentação de alguns alunos da RGA da FCSH, quando defendiam que a Associação de Estudantes se devia demarcar daquele evento por ser organizado por fascistas. Fascistas? Não é qualquer arrivista alucinado que merece esse nome.


3. Fazer o trabalho de casa

Portugal ainda não se confrontou com a sua História. Talvez esteja a ser feito trabalho muito válido na Academia, mas ainda não chegou à população e ao discurso político. Ou então sou eu que estou mal informada. Em todo o caso, não encontro consenso na sociedade, como vejo na Alemanha, sobre questões essenciais da nossa História, nomeadamente a ditadura salazarista e a aventura ultramarina. Nunca vi representante nenhum do povo português a ajoelhar - como Willy Brandt fez no gueto de Varsóvia - perante um memorial sobre o nosso comércio de escravos, o massacre de Wiriamu, ou as cidades da rota das Índias saqueadas e reduzidas a cinzas pelos nossos egrégios avós - por exemplo. Em vez disso, vejo muitos portugueses cheios de saudades das colónias e do tempo em que "éramos tão grandes que o sol nunca se punha sobre o império", vejo Salazar a ser eleito o maior português da História de Portugal.
É preciso esclarecer todos esses mitos que o Estado Novo criou, e identificar os valores que lhes estão subjacentes. Enquanto esse trabalho não for feito, ficamos como estamos: parece que qualquer opinião é válida e tem o mesmo valor das outras. Como se estes temas fossem mera questão de gosto e "achanço".
É fundamental fazer debates - debates a sério, com apresentação de conclusões e passagem das informações para a opinião pública - e a Academia é o espaço por excelência para esse trabalho.
E também era um sinal da nossa decência e maturidade histórica se fizéssemos memoriais dos momentos negros da nossa História. Assim sem pensar muito (confesso que só pensei meio minuto, dêem-me um desconto), ficava-nos bem ter no Terreiro do Paço um labirinto da História, com os caminhos cheios de glórias (a conquista dos mares, o progresso científico, a interculturalidade, etc.), e as saídas marcadas por memoriais do que nos envergonha: como o comércio de escravos (e as consequências tanto para alguns países africanos como para  os descendentes dos escravos que ainda hoje são vítimas de racismo nos países onde nasceram), a violência das conquistas, o colonialismo.


4. Limites da liberdade de expressão

A este respeito, tenho ouvido de tudo - desde o "somos todos ainda mais que Charlie" até à imposição de determinados limites (nem é preciso ir muito longe: a wikipedia tem diferenças interessantes sobre este tema, conforme o idioma escolhido para o ler).
A confusão entre liberdade e libertinagem de expressão está a fazer do espaço público uma rua de maluquinhos a gritar perante a indiferença geral. Todos podem falar, mas ninguém ouve, e muito menos se entra em diálogo. Melhor seria que a liberdade de expressão fosse uma liberdade de pensamento (e não a criancice de dizer "puta" como o tal miúdo de 2 anos) e um exercício de boa-fé - boa-fé no raciocínio de quem fala, e boa-fé no acto de escutar uma opinião diferente.

Por outro lado, há que distinguir entre o direito de dizer o que pensa sem sofrer retaliações e a obrigação de dar palco a qualquer um. Penso que a Academia é um espaço privilegiado de debate de ideias, mas não tem de aceitar debater as ideias de todas as pessoas. Há mínimos de honestidade intelectual, de informação e de valores éticos que os miúdos da Nova Putogalidade não cumprem.




17 março 2017

one man show



Ontem foi um daqueles dias em que tive pena de todas as pessoas que não falam alemão. Fui com o Matthias a um bairro amoroso de Berlim, Köpenick - se querem saber tudo: estivemos na Liberdade de Köpenick, que se chama assim porque ali viviam os huguenotes, livres de impostos e serviço militar (sim, já há 300 anos os franceses tinham tratamento preferencial no que dizia respeito ao cumprimento das regras dos europeus...) -, para assistir a uma sessão de "Wladimir Kaminer ao vivo".

Este escritor é um show: ainda não tinha começado a falar dos livros, e a sala já estava a rir como nos melhores programas humorísticos. E não era para menos: começou por anunciar com orgulho e pompa que não precisava de microfone, porque estava a usar uma técnica muito mais moderna, e logo a seguir o microfone e a técnica moderna começaram a pregar rasteiras um ao outro, ora funcionavam ambos ora não funcionava nenhum. Onde outros ficariam aflitos e chamariam o técnico, o Wladimir Kaminer usou os contratempos para fazer humor.

Resolvida essa questão, desatou a contar histórias naquela sua mistura tão própria, entre o hesitante e o entusiasta, que põe a sala suspensa da frase seguinte, com as suas pausas medidas ao milímetro, com as saídas mais inesperadas e o humor lacónico. E nós todos hohoho hahahahaha hehehehe.


Mais ou menos assim:

- Era suposto na primeira parte da palestra ler histórias do livro sobre a minha mãe, para depois no intervalo vocês irem ao fundo da sala comprá-lo, mas o que me apetece mesmo é contar sobre os cruzeiros que a Olga e eu fizemos. Ando a escrever um livro sobre isso, é um mundo fascinante. Convidaram-me para fazer o cruzeiro, com a condição de fazer três palestras. Pareceu-me um bom negócio. Bem me enganei! É que nas palestras habituais, como a de hoje, eu chego ao fim e vou para casa...
Falou da viagem à Grécia, leu uma história sobre uma excursão com passeio entre olivais e almoço num restaurante típico com danças ao vivo, que afinal foi sem passeio porque chovia a potes, a cozinheira era ucraniana, o bailarino típico era búlgaro e os irmãos dele estavam nas ruínas gregas vestidos de deuses a fazer selfies com turistas pagantes, e todos eles estavam zangados com os refugiados que lhes queriam roubar o trabalho de fazer de conta que eram gregos antigos.

- Eu queria escrever um livro sobre os refugiados. O meu editor disse que nem pensar, que ninguém ia ler isso. Eu bem queria fazer-lhe a vontade e falar de outros assuntos, mas para onde quer que vá encontro refugiados!

Daí a nada estava a falar da filha, a Nicole, que começou a estudar - pausa, olhos semicerrados, suspense, e aquele leve sorriso trocista:
- Etnologia Europeia. Alguém sabe o que isso é? Eu não, a minha filha também não, e desconfio que nem os professores sabem. Ou então sabem, mas combinaram não revelar a ninguém. A Nicole teve de fazer um trabalho de campo. Num bar em Neuköln. O título que deu ao seu trabalho faria a inveja de qualquer escritor: "o medo do investigador perante o objecto de estudo".
O Sebastian, o filho, ainda está no secundário:
- Andamos há duas semanas a preparar-nos para o Abi. Sabem, o problema da escola são os professores. Os alunos chegam lá estouvados, ganham juízo, mudam. Os professores não mudam! E não se dão conta de que os alunos mudaram. Por isso, a escola dos meus filhos dá-me muito trabalho. E o pior é quando os professores não reconhecem o meu esforço! Há tempos, um professor deu "medíocre" a um texto que me deu imenso trabalho, sobre Gerhart Hauptmann. E ainda teve o desplante de escrever: "Sebastian, tu consegues fazer melhor!"

Passou enfim para a mãe. Não sem antes hesitar, porque o que lhe apetecia mesmo era ler uma história do livro que acabou de sair, Goodbye Moscovo, sobre o fim da União Soviética.
- Nós vivíamos com os olhos no futuro, que era o nosso objectivo. Um belo dia os políticos reuniram-se, resolveram desistir do futuro, e também não querem falar do passado. Deixaram-nos assim suspensos no tempo, sem passado nem futuro. Mas vou ler uma história do livro da minha mãe. Vou ler a história que dá o nome ao livro: a minha mãe, o gato e o aspirador.

A história é deliciosa. E Kaminer, a descrever o gato enorme e selvagem ao colo da mãe, a deixar-se acariciar por esta, e a imitar os olhos de assassino que lhe faz a ele: um mimo!

- A minha mãe tem a televisão sempre ligada nas notícias russas. Oh, ultimamente os russos andam felizes! É a primeira vez em décadas que puderam eleger um presidente. Bom, não foi o do seu próprio país, mas isso é um detalhe. A televisão da minha mãe está sempre no máximo, porque ela está um bocado surda, e tentou usar os aparelhos de surdez do meu pai, mas não se deu bem. De modo que outro dia um vizinho - o que mora no andar entre o meu e o da minha mãe - veio-se queixar que não tinha coragem de entrar na cozinha dele, porque tinha a sensação que o Putin agora vivia lá.

Depois do intervalo decidiu ler um dos capítulos do próximo livro que vai escrever, desta vez sobre a Olga. Leu uma história que metia guardanapos lindos de morrer, brancos com bordado azul, que a Olga comprou em Portugal, depois de muito hesitar porque eram caríssimos, e por isso mesmo os guardanapos ideais para mostrar aos convidados da festa de fim-de-ano que os considera pessoas muito especiais. De regresso a casa, a Olga guardou os guardanapos portugueses cuidadosamente no fundo do armário, e foi buscá-los quando chegou o dia 31 de Dezembro. Mas ao olhar para eles, tão brancos e tão bonitos, começou a pensar no estado em que ficariam depois de a Katia dançar em cima da mesa, o Dimitri limpar a salada do cabelo depois de ter adormecido para dentro da saladeira, e uma artista cujo nome não revelo entornar o copo de vinho tinto. De modo que os guardanapos foram outra vez para o fundo do armário, e aos convidados foram dados outros, de papel. Todos os anos a cena se repete: a Olga vai buscar os guardanapos, olha-os longamente, faz-lhes umas festinhas, e guarda-os de novo. Eles devem viver felizes naquele seu refúgio - porque o que é realmente importante na vida é ter quem nos ame.

E chegou enfim a vez de um capítulo de "Goodbye Moscovo". Quer dizer: ia ler, mas depois lembrou-se de outra história:

- Na Rússia só traduziram dois livros meus. Já a Finlândia, traduziu-os todos. Até aquele sobre o período em que tivemos um talhão nas hortas comunais, de onde fomos expulsos devido a - pausa, sorriso trocista, cara de reticências - "vegetação espontânea". E pensava eu que este fenómeno dos Schrebergärten e da obrigatoriedade de plantar ruibarbo era uma problemática que só interessava aos alemães! Estive lá numa feira do livro, e a antiga presidente da República falou-me dos talhões e do ruibarbo. Contei-lhe que tinha a cave cheia de frascos de compota de ruibarbo caseira, porque os leitores desataram a mandar frascos da sua produção para tentar convencer-me que o problema não era do ruibarbo, era meu. Ela disse que lhe aconteceu algo semelhante: quando foi eleita, e lhe perguntaram se ia deixar de fazer algumas das coisas que até então fazia para a família, ela respondera que provavelmente não teria tempo de tricotar meias - que é, pelos vistos, uma tradição finlandesa. De modo que pessoas de todo o país começaram a enviar-lhe meias para ela e toda a família, como quem diz "estamos contigo! juntos, havemos de conseguir!" E logo ali me perguntou quanto calço, e me prometeu enviar alguns desses pares de meias, em troca dos meus frascos de compota de ruibarbo. Não voltei a pensar nisso, mas passados uns dias recebi um e-mail do secretariado da ex-presidente, informando que as meias já estavam a caminho e perguntando pela compota. Infelizmente foi na altura em que houve uma inundação terrível na minha rua, que até veio nas notícias russas (os russos adoram mostrar o que corre mal por aqui), e a minha cave ficou alagada. Lá se foram as conservas! Por sorte, ainda há gente que compra o meu livro sobre essa breve incursão no mundo dos talhões comunitários, decide convencer-me de que o problema do ruibarbo sou eu, e me envia um frasco de compota caseira. Que eu reenvio para a Finlândia. Mas o que me apetecia mesmo era ler-vos uma história do livro que acabou de sair, querem ouvir?

A sala toda queria ouvir. Por eles (por mim), até podia ser como nos cruzeiros: continuar a conversa durante duas semanas.

E ele leu: em algum momento os dirigentes russos terão percebido o que correu mal na implantação do comunismo. Foram reler os textos de Marx e repararam melhor na tese de que depois de o capitalismo alastrar a todo o mundo, uma nova era chegará, na qual o comunismo libertará o mundo do tumor capitalista. Aha!, terão dito os dirigentes: foi esse o erro. Primeiro temos de deixar que o capitalismo se espalhe realmente a todo o mundo, e só então podemos avançar. A contragosto, suspenderam a tarefa de construir o sistema comunista, e implantaram o capitalismo no país. As pessoas não gostaram, reclamaram imenso. Os pobres chefes da polícia política, obrigados a assumir o papel de oligarcas milionários, lamentam-se cada vez mais e perguntam: quando é que este horror acaba?
Putin aconselhou-os a ter um pouco mais de paciência, e informou: estamos à espera de Cuba.

A sessão terminou com um brinde. De pé, virado para a sala, o escritor ergueu o seu copo de vinho, brindou à primavera que está a chegar, brindou ao sol:

- Na URSS o sol era muito importante. Todas as canções falavam de sol. Não havia desenho nenhum sem um sol. Marx, Lenine, sol. Quando os americanos chegaram à lua, os russos começaram a preparar-se para fazer melhor: iriam ao sol. Mas iriam de noite, para não se queimarem. 

Köpenick era na Alemanha de Leste. À minha volta, as pessoas choravam a rir, porque ele lhes falava directamente às recordações da infância. Algumas por pouco não começaram a cantar uma dessas melodias russas. Depois foi toda a gente para casa, e o Matthias e eu viemos os 40 minutos da viagem (sim, Köpenick fica no Leste profundo) a relembrar e a rir.

E foi por estas e por outras que ontem tive muita pena de todos os meus amigos portugueses que não entendem alemão.


António Lobo Antunes

 
 
Esta manhã, ao partilhar aqui o vídeo do gatinho ao colo do pianista, pensei que já não precisava de publicar mais nada, porque em termos de ternura e graça está ali tudo o que há para mostrar.
Bem me enganei. Logo a seguir descobri isto, e deu-me um ataque de vontade de gostar de tudo, incluindo a humanidade (menos alguns, vá). O António Lobo Antunes, quando quer, consegue dar mil a zero a todos os gatinhos do facebook (isto é um elogio). 
 
Se me deixassem mandar (ahem...) ia ao hino nacional e trocava os egrégios avós por portugueses como este: que nos sabem ler e descrever, que nos fazem rir, chorar e pensar - às vezes tudo isso no espaço de duas frases -, e nos mostram que é possível, hoje e aqui, tocar a verdade e o sublime que há em nós. Sem deixar de ser o chão que somos.

(A ver se me lembro quais são os livros de crónicas que tenho dele, para comprar agora os que me faltam, e assim lhe compor o fim do mês) 
 
 

tirem-me deste filme!

Ainda agora o dia me começou, e já se me está a atrasar: tirem-me deste filme! Apetece ficar nele, em repeat.




16 março 2017

havia um pato no meio da fotografia, no meio da fotografia havia um pato

Esta manhã, o Fox e eu entregues aos nossos prazeres habituais: ele a tratar de ir à sua vidinha (donos menos permissivos chamam a isso "fugir"), e eu toda satisfeita a fotografar reflexos na água, especialmente aquela nesga de azul que as nuvens por vezes permitiam.
Eis senão quando apareceu um pato metediço e foi direitinho meter-se no meio da luz.
Estragou-me as fotografias, isto é uma triste vida...






  



















Para terminar, "havia um pato no meio do filme, no meio do filme havia dois patos":




Salãm Syria!





No segundo filme, a partir de 0:55:

- O que é para ti "Heimat"?
- Heimat não é um lugar para viver. Heimat é um sentimento. Sobretudo: paz. Viver em paz é das coisas mais importantes.


Na Elbphilharmonie criaram um coro com refugiados de várias nacionalidades - dois deles apresentam-se neste filme.

Hoje e amanhã decorre na Elphi o festival Salãm Syria!, que pretende partilhar com Hamburgo a riqueza da cultura musical daquele país. 

Salãm: em árabe, "paz" é a palavra usada como saudação. 

(Ao fim de seis anos de guerra na Síria, a população de Damasco tem sido alvo crescente de atentados, com muitas dezenas de mortos. Algumas das cidades que eram grande exemplo de cosmopolitismo e tolerância naquela região estão em ruínas. Mas há quem acredite e afirme convictamente que "essa gente são todos terroristas".)



15 março 2017

comícios na Alemanha com ministros turcos

O conflito ligado ao cancelamento de comícios turcos em território alemão, que veio complicar ainda mais as relações entre a Alemanha e a Turquia e que se repetiu com ainda mais vigor nos Países Baixos, suscitou-me algumas questões. Limito-me a falar do caso alemão, porque é a informação a que tenho acesso - mas admito que se possam encontrar alguns paralelos para a situação no país vizinho.
Deixo indicação para os sites de onde retirei a informação. Todos os links são para textos em alemão, excepto nos casos expressamente indicados.

Um artigo de perguntas e respostas no Tagesspiegel revelou-se muito informativo, e por isso transcrevo parcialmente os dois primeiros pontos, que se referem a questões legais e diplomáticas.
 
1. É permitido que políticos estrangeiros façam campanha eleitoral na Alemanha?
 
A Constituição alemã garante a liberdade de expressão e de reunião para todos. O artigo 47 da "Lei dos Estrangeiros" (Aufenthaltsgesetz - texto em inglês) estabelece que os estrangeiros podem desenvolver actividades políticas em território alemão, excepto nos casos de (entre outros):
- ameaça à coexistência pacífica entre alemães e estrangeiros
- ameaça à segurança e ordem públicas
- ameaça aos interesses externos da Alemanha
- apoio a tendências ou partidos estrangeiros cujos objectivos e prática são incompatíveis com uma ordem estatal baseada no respeito pela dignidade humana.

[ O texto integral desse artigo, em inglês:


Section 47 Prohibition and restriction of political activities
(1) Foreigners may pursue political activities within the bounds of the prevailing general statutory provisions. A foreigner’s political activities may be restricted or prohibited if they
1. impair or endanger the development of informed political opinion in the Federal Republic of Germany, the peaceful co-existence of Germans and foreigners or of different groups of foreigners in the Federal territory, public safety and law and order or any other substantial interests of the Federal Republic of Germany,
2. may be counter to the interests of the Federal Republic of Germany in the field of foreign policy or to the obligations of the Federal Republic of Germany under international law,
3. contravene the laws of the Federal Republic of Germany, particularly in connection with the use of violence,
4. are intended to promote parties, other organisations, establishments or activities outside of the Federal territory whose aims or means are incompatible with the fundamental values of a system of government which respects human dignity.

(2) A foreigner’s political activities shall be prohibited if they
1. endanger the free and democratic constitutional system or the security of the Federal Republic of Germany or contravene the codified standards of international law,
2. publicly support, advocate or incite to the use of violence as a means of enforcing political, religious or other interests or are capable of inciting such violence or
3. support organisations, political movements or groups within or outside of the Federal territory which have initiated, advocated or threatened attacks on persons or objects in the Federal territory or attacks on Germans or German establishments outside of the Federal territory. ]


2. Nesse caso, a actual política de Erdogan é motivo para impedir esses comícios, ou não?



Na Alemanha há consenso em todos os partidos sobre Erdogan estar a abusar da lei marcial, após a tentativa de golpe, para reforçar o seu poder e destruir a oposição. Por outro lado, o presidente quer que o povo se pronuncie sobre as novas regras, e a Alemanha está a colaborar para que os turcos residentes na Alemanha possam participar nesse referendo.
O governo federal alemão não quer pronunciar-se sobre a eventual proibição de Erdogan fazer um comício neste país. Espera as deliberações relativas a este assunto da Comissão de Veneza, do Conselho Europeu, que serão apresentadas na próxima semana. Até lá, fala-se em liberdade de expressão e sublinha-se que o cancelamento de alguns comícios foi devido a questões técnicas do âmbito do poder regional.
(O que me parece uma cobardia, mas também se pode chamar diplomacia e contenção de danos.)



Três notas complementares ao artigo do Tagesspiegel:
- No caso concreto destes comícios com políticos turcos, Cem Özdemir (Verdes, filho de turcos) informou que o que os ministros turcos andam a fazer é ilegal, porque a lei turca proíbe esses comícios fora do país.
-
Quando o Obama veio a Berlim, no âmbito da sua primeira campanha eleitoral, a Merkel não o deixou mostrar-se em frente à Porta de Brandeburgo. E o Obama, ao contrário do que tem sido a reacção dos ministros turcos, em vez de fazer um braço de ferro e teimar que podia falar para quem lhe apetecesse a partir da Embaixada do seu país (que é mesmo ao lado da Porta de Brandeburgo), pediu licença para usar outro lugar.
- Gostava de saber se foram organizadas sessões de esclarecimento na Alemanha com a participação de defensores dos dois lados do referendo, ou grandes eventos para promover o "não".


As questões sociais são mais complicadas. Num debate televisivo sobre os "turcos alemães", realizado no princípio desta semana, levantava-se a questão: como é possível apreciar a liberdade e a democracia na Alemanha e apoiar Erdogan na Turquia, que representa exactamente o seu contrário?
Esta contradição pode ser gerada pelo sentimento de não pertença à sociedade alemã (como se fossem cidadãos de segunda, com dificuldades para, por exemplo, arranjar um bom emprego ou conseguir casa) que leva as pessoas a aderir a um presidente turco forte, e a voltar as costas ao governo alemão, que sentem não proteger os seus interesses.
Contudo, as contradições permanecem: pessoas que defendem a liberdade de expressão dos ministros turcos, mas não se manifestam contra os ataques à liberdade de expressão na Turquia, contra os jonralistas metidos na prisão e os presos políticos acusados de serem "terroristas",  ou que se queixam de discriminação e do racismo mas apoiam um governo que persegue minorias.



Se considerarmos os discursos que Erdogan tem feito para turcos na Alemanha, a questão torna-se ainda mais complexa. Nesses encontros, Erdogan reforça a ideia de que os turcos que vivem neste país não são protegidos pelo Estado alemão, mas que podem contar com o presidente turco, que nunca os abandonará. Em 2008, em Colónia, disse a 16.000 pessoas (muitas delas com passaporte alemão, e de famílias que já iam na 3ª geração na Alemanha) que a assimilação era um crime contra a Humanidade, ao qual ninguém se devia sujeitar; louvou-as por se manterem fiéis à língua, à fé, aos valores e à cultura da Turquia; aconselhou-as, contudo, a aprender alemão porque isso lhes traria mais vantagens; e sugeriu-lhes que deviam aproveitar a sua posição na Alemanha para fazer lobbying em defesa dos interesses turcos.

Na Alemanha fala-se muito em integração e debate-se permanentemente sobre a gestão das diferenças de culturas e valores para tentar encontrar um equilíbrio satisfatório para todos (casos como permitir que uma professora dê aulas com a cabeça coberta - este foi tema há 15 anos -, ou aceitar que uma rapariga não frequente as aulas de ginástica e natação porque os pais não a querem misturada com rapazes, ou tratar um divórcio de muçulmanos de forma diferente por "eles terem regras diferentes", entre milhentos exemplos). Num contexto destes, é difícil aceitar que Erdogan venha apelar às pessoas para que elas permaneçam fiéis à sua cultura e aos seus valores custe o que custar. Estas suas afirmações criam uma situação de instabilidade interna, nomeadamente no que diz respeito à aceitação das leis e dos princípios básicos alemães, e aumenta o potencial de conflito entre a minoria turca e os outros grupos que vivem neste país. E está mesmo a pedir a reacção básica de "quem não está contente com as leis deste país faça o favor de procurar um país com leis mais do seu agrado". Não subscrevo estas reacções de "vai prá tua terra, pá" como desejáveis, mas não tenho como ignorar que o Erdogan tem tido um papel activo e deliberado na criação deste ambiente de rejeição mútua e no reforçar da ideia de que os turcos vivem na Alemanha fechados sobre si próprios e disponíveis para formar uma 5ª coluna na Democracia alemã.

A realidade é que há muitos turcos que conseguiram fazer o seu caminho pessoal de gestão das duas culturas e trouxeram um enriquecimento à sociedade alemã (políticos, jornalistas, actores, músicos, etc.), e muitos mais que, sem terem conquistado uma posição de grande visibilidade, vivem em coexistência pacífica com os alemães e com todas as outras minorias (vou ignorar o problema gravíssimo da violência neonazi contra os turcos).

As provocações de Erdogan podem levar a uma viragem na posição destes turcos ou descendentes de turcos que estão bem integrados. Para aumentar o seu poder, Erdogan não hesita em criar problemas noutros países. Pergunto-me se os países têm de se sujeitar a convulsões sociais devidas ao cálculo político de um governante de outro país.




primavera às riscas

 




14 março 2017

facebook party

Comprei a passagem de avião para ir passar uns dias a Portugal.

Como diria o outro (se me deixasse mandar nos seus poemas):

Saudades, afazeres, muita alegria
a minha vida errónea comandaram;
saudades e afazeres me desculparam,
mas pra desculpa a terceira bastaria.

Adiante.
(Isto está cada vez pior: ainda nem disse ao que vinha, e já estou a mudar de assunto)

Comprei a passagem e avisei no facebook:

Atenção: fujam! fujam!
Vou a Portugal. De 18 a 28 deste mês - Porto - Lisboa - Porto e os in the betweens.
Estão avisados, e podem começar a fugir.
Os outros, os valentes, podem começar a dizer quando têm tempo para um cafezinho, ou assim
.

Ora bem: o facebook está cheio de valentes. Agora preciso de um app para gerir esta minha facebook party de dez dias, que é bem mais complicado que meter os 400 filmes da Berlinale numa semana só.
O app devia incluir as disponibilidades de todos os amigos, bem como os sítios onde estão em cada um desses momentos para optimizar as distâncias, e ainda doodles para os casos em que quero encontrar várias pessoas ao mesmo tempo.
Tanta gente nas informáticas, tantas start-ups,
e quando é preciso um produto simples para uma necessidade tão básica, népias.

Pffff.

(Entretanto, estou a pensar sentar-me na mesa do Fernando Pessoa, no Chiado, e avisar a que horas é que vamos estar a receber visitas.)


auto-de-fé

O escritor Rentes de Carvalho afirmou no seu blogue que vai votar Wilders. Eis as suas razões:

"Com as eleições na Holanda à porta, nos últimos dias tenho dado umas quantas entrevistas, e em determinado momento – porque tenho dupla nacionalidade – os entrevistadores, com ou sem rodeios, querem saber da minha intenção de voto, quase sempre subentendendo a resposta que de mim esperam.
Digo então, para surpresa de quase todos, que vou dar o meu voto a Wilders. E pacientemente explico que partilho a sua ideia de deportar os marroquinos que, na Holanda, encabeçam as estatísticas da criminalidade; que a Holanda teria vantagem em se separar da EU (o que não acontecerá); que se deveriam ter fechado as fronteiras (o que está provado  ser impossível ); que os idosos, os pobres e os deficientes não recebem os cuidados a que têm direito; que mesmo um país rico e bem organizado não tem capacidade para absorver a vaga de refugiados – problemática que os sucessivos governos empurram com a barriga no aguardo de milagres.
Discordo de Wilders pela irrealidade das suas intenções, pelo seu autoritarismo, pela nada democrática prática de ter um partido em que se pode votar, mas não aceita filiados.
 Mas dando-lhe o meu voto - o meu protesto - espero contribuir para que, alcançando um bom resultado eleitoral, ele tenha em mãos a possibilidade de fazer uma oposição construtiva, que seja um contrapeso a vinte e tal anos de governos tão politicamente correctos que a grande maioria dos cidadãos se pergunta de que maus sonhos é prenúncio a realidade que estão a viver."

Uma resposta possível seria dizer-lhe que
depois do Brexit e do Trump já se viu que votos de protesto podem ser um trágico tiro pela culatra, e que algo está muito mal na Democracia quando se vota numa pessoa da qual se discorda em pontos fundamentais. Se apanhasse o Godwin distraído, talvez até referisse que os nazis chegaram ao poder por via eleitoral, e que muitos eleitores os terão escolhido como um contrapeso a 15 anos de república de Weimar. 
 
Não me parece muito complicado debater nestes termos, mas o que tenho visto nas redes sociais são insultos e promessas de nunca mais ler um livro dele, e até de os queimar. Pelos vistos nem precisamos de ser invadidos pelo daesh, já vamos adiantando o trabalhinho de intolerância e violência simbólica...

Confesso que também a mim acontecem esses impulsos. Ao ver a página de facebook da Maria Vieira fiquei em estado de choque e descrença: não dá para acreditar que a actriz cujo trabalho aprecio tanto há décadas tenha aquele tipo de posição ideológica. Perguntei-me se seria capaz de rir da mesma maneira com as figuras dela na Gaiola Dourada. E depois lembrei-me da frase - e do tom peremptório em que foi dita - do judeu sobrevivente de Auschwitz que gostava muito de Wagner: "Quero lá saber do anti-semitismo do Wagner! Fazia uma música genial, é isso que me interessa."

Em suma: não vamos voltar aos autos-de-fé, não vamos queimar livros e votar pessoas ao ostracismo devido às suas ideias. Tanto mais que estas reacções lembram muito (Ó Godwin, olha que giro aquele passarinho que está a passar ali, consegues ver? isso, isso, esforça-te, daqui a nada já o vês, e olha que é bem bonito) aquela altura da História alemã em que muita gente acreditava que os judeus deviam ser mantidos longe da cultura porque a conspurcavam.


de cócoras






Desculpem, é mais forte que eu, não resisto.
Olhei outra vez para a imagem do Rafaelzito de cócoras em frente ao túmulo de Salazar, e lembrei-me outra vez daquela anedota de quando a Capuchinho Vermelho perguntou ao lobo:
- Porque é que tens os olhos tão grandes?
E o lobo, de cócoras e olhos esbugalhados, com voz de esforço:
- É porque estou a caaaagaaar...


13 março 2017

a minha vida (também) é isto

Abençoado o dia em que decidimos fazer a cozinha no andar superior da casa: todos os dias nos deslumbramos com o sol a nascer sobre o nosso pequeno-almoço.

Enfim, nem todos os dias, e nem todas as pessoas. Hoje, por exemplo: deixei o Joachim a tomar o café sozinho, e saí para o terraço. Estava tão empolgada que nem reparei no frio que entrava pela porta escancarada. Depois de a fechar continuei a fotografar o sol que atravessava o vidro embaciado. Esta nossa porta do terraço ainda me vai dar muitas alegrias.
 


 

 
Depois fui passear com o Fox. A velhinha do jardim cheio de flores já andava na sua faina. Disse-lhe que as fotografias do jardim dela tinham sido muito elogiadas na internet, e perguntei-lhe se tinha um computador para lhas mostrar.
- Eu não, mas posso pedir à minha filha...
- Deixe estar, um dia destes imprimo-as e deixo aí na sua caixa do correio.
Abriu um sorriso enorme:
- Era a primeira vez que recebia alguma compensação pelo trabalho que tenho!

(Depois o pateta do Fox fugiu para dentro do jardim dela. Se ela reparou, pode ter pensado: "estes estrangeiros... uma pessoa mostra alguma simpatia, e eles abusam logo.")

(Por falar no pateta: íamos pelo passeio, e vi que um dos inimigos do Fox vinha em direcção contrária. É um Golden Retriever que dá três ou quatro do Fox. O maluco do nosso cão pôs-se logo em posição de agarrem-me que vou-me a ele. Atravessei para o outro passeio, para lhe dar a possibilidade de se esquivar com honra. Atravessou a rua com cara de "só vou porque recebi ordens para isso", e mal o inimigo se começou a afastar desatou aos pinotes e a ladrar para o ar, como quem resmunga nas costas do outro "um dia destes vou-te a esse focinho, hades ver!")







12 março 2017

aqueles cinco minutos de sol entre as nuvens grossas e o horizonte


Ontem ia no S-Bahn a caminho do nosso grande concerto quando o entardecer se encheu de luz.

Sentada no banco do comboio, fui disparando. É daqueles momentos em que até de olhos fechados se acerta. Tive pena de não ter a máquina melhor ao passar no Hansaviertel, com os seus prédios da exposição internacional de arquitectura de 1957. Num deles, havia uma bicicleta na varanda num dos andares mais altos.  

O concerto correu bem. Muito bem. Agora temos duas semanas de férias, e depois começa o novo desafio: uma viagem à lua, uma ópera novinha em folha.



 















crocus

Aqui perto há uma casa velha e pouco cuidada, com um jardim enorme até ao lago.
O jardim fascina-me, porque combina o selvagem com o perfeitamente cuidado. A dona, uma velhinha cheia de energia, trata dele com cuidados de suábia: centímetro a centímetro. Varre frequentemente a terra, deixa no escuro do húmus traços de jardim japonês. Apanha os ramos secos, esgravata as ervas daninhas. Mas não planta nada.

Quando chega a Primavera, o jardim cobre-se de uma mancha discreta de luz: milhares de crocus que - disse-me ela - se espalharam livremente pela terra.

Esta semana chegou a Primavera.
(Vou omitir a conta das vezes que o Fox já foi à vida dele porque se fartou de esperar que eu acabasse de fotografar este jardim.)


   
  


  
 


11 março 2017

In the spring time, the only pretty ring time, / When birds do sing, hey ding a ding, ding; / Sweet lovers love the spring.






Mais um daqueles dias em que bem me podia dar inveja de mim própria: esta manhã, no ensaio geral, ouvimos o Ravel dos dois pianistas ("Ma mère l'oye"), e o Rundfunkchor a cantar cheio de swing "It was a Lover and his Lass", canção de George Sharing sobre um poema de Shakespeare.
O maestro deles disse-lhes que os queria a cantar aquilo no espírito On the Road de Jacques Kerouac. "Como a descrição que faz daquele clube de jazz em Nova Iorque", explicou.

Ai, a correspondência das artes: agora para cantar Shakespeare é preciso ler Kerouac e frequentar bares de jazz em Nova Iorque...

Ainda está frio em Berlim, mas esta música dá-nos primavera.

(A peça começa a 4:25 - e o Rundfunkchor canta isto muito melhor, mas ainda não gravaram, por isso deixo aqui o que encontrei.)



  IT was a lover and his lass,
With a hey, and a ho, and a hey nonino,
That o'er the green corn-field did pass,
  In the spring time, the only pretty ring time,
When birds do sing, hey ding a ding, ding;         5
Sweet lovers love the spring.
Between the acres of the rye,
  With a hey, and a ho, and a hey nonino,
These pretty country folks would lie,
  In the spring time, the only pretty ring time,  10
When birds do sing, hey ding a ding, ding;
Sweet lovers love the spring.
This carol they began that hour,
  With a hey, and a ho, and a hey nonino,
How that life was but a flower  15
  In the spring time, the only pretty ring time,
When birds do sing, hey ding a ding, ding;
Sweet lovers love the spring.
And, therefore, take the present time
  With a hey, and a ho, and a hey nonino,  20
For love is crown`d with the prime
In the spring time, the only pretty ring time,
When birds do sing, hey ding a ding, ding;
Sweet lovers love the spring.


Fukushima e a ameaça nuclear


video


Fukushima é muito mais que a tragédia que aconteceu no Japão faz hoje seis anos - é um aviso do que pode acontecer a qualquer momento noutros lugares do mundo. Inclusivamente à nossa porta.
Na Alemanha, foi o empurrão de que o país precisava para virar as costas ao nuclear.

Esta manhã passei por uma manifestação na Friedrichstrasse, onde se apelava também ao fim das bombas atómicas. O absurdo da ideia de que estas armas estão bem se estiverem em "boas" mãos, e que só é preciso evitar que cheguem às mãos dos "maus", tem sido posto a nu com a situação a que chegámos: o maior arsenal de armas atómicas do mundo está nas mãos de um homem casca-fina, vingativo, infantil, sem cultura democrática, nem humanística, nem nada.







overdose

Três concertos numa semana - e teriam sido quatro se tivesse conseguido entrar no Lunchkonzert, mas fecharam a porta três pessoas antes de mim.

Três concertos, e três ensaios com o Rundfunkchor e o seu maestro que é muito tipo agarrem-me que se começo a pôr aqui coraçõezinhos nem sei que vos diga que vos conte.

Começo com um presente: este domingo o Digital Concert Hall transmite em directo e gratuitamente um concerto com Zubin Mehta e Pinchas Zuckerman. Vi-o hoje, e foi sublime. Concerto para violino de Elgar, e 5ª de Tchaikovsky. Domingo, 13.3, às 7 da tarde em Portugal.







Não sei como é que Zubin Mehta aguenta este ritmo aos 81 anos - já dirigia os Filarmónicos ainda eu não era nascida, ainda nem sequer era uma ideia. E aqui está ele: por estes dias tem dado vários concertos consecutivos em Berlim - o Elgar e o Tchaikovsky desta semana, a seguir ao Bartók e ao Ravi Shankar da semana passada. Ai, o concerto do Ravi Shankar, com a cítara tocada pela Anoushka Shankar!  Raramente bati tantas palmas - eram merecidas, e além disso queria que ela voltasse muitas vezes ao palco porque estava com uma roupa lindíssima, que eu não me cansava de ver.

Amanhã vai ser o concerto do meu coro com o Rundfunkchor. Trabalhámos muito durante vários meses para chegar aqui, e desta vez sinto que entendi o que estou a cantar e posso saborear melhor a alegria de fazer esta música.

Já tivemos vários ensaios com o coro profissional. Nos dois últimos optaram por separar os coros, em vez de misturar os profissionais com os amadores. A minha auto-estima agradeceu imenso.
No concerto de amanhã vamos cantar algumas peças juntos, outras cantam só eles, outras cantamos só nós. E há uma, uma das que vão ter estreia mundial no concerto de amanhã, do Frank Schwemmer, em que cantamos juntos três estrofes e a seguir canta apenas o Rundfunkchor. Ouvi-os ontem: estávamos formados em semicírculos concêntricos, os profissionais atrás de nós, e de repente fomos envolvidos por uma música de tal beleza, cantada de maneira tão bela, que tive de me conter para não chorar.


Por mim, nem precisava de concerto: já me basta o que aprendi e o que me ri na sua preparação. O maestro do Rundfunkchor é um holandês bastante jovem, muito expressivo e com enorme sentido de humor. Ontem, por exemplo: a ensaiar a primeira das Valsas de Amor de Brahms começou ele próprio a valsar à nossa frente. E pedia desculpa aos pianistas, dizia "oh pá, estou empolgado! Esta música é tão cool!" Exigente nos detalhes, quer que sintamos cada palavra que cantamos, que a cantemos de modo a ser claro o que ela significa. Mima-nos a música como a quer ouvir de nós. Faz comentários do género: esse "vem, vem" não me convence, assim não me convencem a vir - e põe cara de reticências, e ri. Dá o exemplo dos fãs de futebol a chamar nomes ao árbitro para nos explicar como é a cadência com ritardando que queria. "Se 30.000 holandeses acertam isto, vocês também vão conseguir". E quando os naipes masculinos cantaram uma frase de forma pouco nítida, ele contou que daqui a um mês vai haver eleições na Holanda, e que o Geert Wilders distribuiu uma folhinha com o seu programa, "não mais que uma folhinha"; um dos pontos é sobre cortar os apoios às televisões, às rádios, à cultura, à música clássica, etc. etc. - e acrescentou, virado para os homens: "vocês estão a cantar esta frase como etc. etc. - ahem, desculpem, isto não veio muito a propósito, mas é uma coisa que não me sai da cabeça, e preciso de falar."


Amanhã temos um dia de muito trabalho, depois temos o concerto, e depois virá o vazio. Já sinto saudades destes dias.