29 Outubro 2014

quatro dias de tranquilidade

Todos os anos, no fim de semana à volta do Toussaint, encontramo-nos com casais amigos e um jesuíta num mosteiro perto dos Alpes franceses. Quatro dias de tranquilidade, olhando para a vida que nos acontece.

Repesco um post que escrevi em 2011. Sei que este ano vai ser diferente, e tão único como todos os outros.


dias de magia (2)




Primeiro dia

Chegar. No aeroporto, a enorme surpresa e a alegria de sermos recebidos por uma amiga que julgávamos em Portugal. Em casa, queijo e vinho pela noite adentro, conversas e risos.
E o olhar dos amigos: atento e perscrutador, procurando-me até ao fundo dos olhos - como fazia o meu pai, para concluir "pareces bem, cachopa".
Estou bem. Rodeada de gente que busca o chão dos meus olhos, estou o melhor possível.


Segundo dia 

Amigos oferecem-se para trocar de quarto connosco - recebemos deles a floresta, as estrelas que nos entram pela janela.
Conversamos sobre as nossas vidas, as nossas angústias e alegrias. Falamo-nos e ouvimo-nos com confiança e atitude de profunda aceitação.

Aller en profondeur pour toucher l'universel. 

Lá fora, a paisagem em tranquila transformação. A luz desliza pelas árvores, ilumina por dentro pedaços de amarelo e laranja. Não faço fotografias, não me quero perder da conversa. Uma mãe conta como diz o amor através da comida. Como, ao fim do dia, acolhe com aromas de bolo no forno essa filha que anda perdida em muito sofrimento. Como inventa um perfeito equilíbrio nas tartes de legumes para os filhos comerem no intervalo das aulas: pedaços de ternura na sacola.

Ce n'est pas le bout du tunnel, c'est aujourd'hui.

Depois do jantar, a música: uma canção de Clarika na voz de uma amiga e na sua guitarra (e que linda mensagem). George Brassens, les Croquants. Estamos na França, temos cinquenta anos e tanto que nos une.








Terceiro dia

Acordo cedo, agasalho-me à pressa e saio de máquina fotográfica na mão. Atravesso a floresta rapidamente, inquieta dos ruídos da noite (e se me aparece agora uma enormejavalia com javalizinhos?), inquieta de chegar demasiado tarde ao espectáculo da madrugada. Chego a tempo. O céu está tomado por uma poderosa carga de nuvens, o sol vai escalando os montes a custo, arde em pequenas nuvens tresmalhadas, mostra-se por uns minutos, encanta-me as árvores e o caminho da floresta com a sua luz rasa e dourada, e esconde-se de novo.







Ao pequeno-almoço:
- O que é um egoísta?
- É alguém que não pensa em mim.

Mostro as fotografias, toda orgulhosa. O Joachim sugere "amanhã, podias experimentar a preto e branco".
"Amanhã?! Pensas que vai haver amanhã?"


Olho pela janela enorme, e não vejo paisagem, mas vida: árvores, pássaros, insectos. Vida intensa e densa, respiração.

Notre seule chance c'est l'ésprit de remise en question.






Quarto dia

Ao pequeno-almoço duas amigas, professoras, falam do trabalho com os alunos pequeninos. Como fazê-los tomar consciência do seu corpo? "O que se passa agora mesmo no teu corpo?" "A respiração!" "E o que é preciso para respirar?" "Reflectir!" "A sério?!", e a digestão, o coração que bate, "Tudo isso no meu corpo? tanta coisa!" O yoga infantil, a aprendizagem do corpo como caixa-de-ressonância, a aprendizagem do grupo na improvisação da música e na busca de um ritmo comum. Ouço-as, deliciada: a escola como local de prazer, de missão humanitária, de entrega com alegria.

À hora do lanche o nevoeiro abre, liberta a encosta verde do monte.
"Oh, que calma vai caindo".







Prier c'est d'abord cesser de faire autre chose.
Quand on demande à Dieu, la première réponse c'est la paix - même si le problème n'est pas résolu.


Depois do jantar, o jogo: sentados numa roda de cadeiras, temos de mudar de lugar permanentemente, tentando impedir que o que está de pé consiga sentar-se numa cadeira momentaneamente vazia. Temos cinquenta anos, dores de costas, e rimos e caímos das cadeiras, e damos connosco sentados nos joelhos dos outros, uma e outra vez, dizemos brejeiros que ça c'est angoissant.


Quinto dia

Levanto-me cedo. Saio para a floresta, já sem medo dos bichos da noite. O céu está limpo, hoje as nuvens estão pousadas no vale. O sol virá mais tarde, sinos de aldeias longínquas anunciam-no já, e eu espero: os pés encharcados do orvalho da floresta, as mãos geladas, o coração sereno, comovida de beleza.




Será que nos lembramos do que acontece de bom ao longo do nosso dia? Uma proposta: anotar diariamente cinco momentos bons. Mudar a perspectiva: do derrotismo para a consciência do bem que habita a minha vida. 
No meio da fragilidade, perder o medo. Há um caminho de vida para mim - não um caminho de fuga às dificuldades, mas de acolher a minha vida, dizer-lhe "sim!" - não tenho outra vida senão esta que me foi dado viver neste dia. E é neste dia que posso acolher o "sim!" de Deus.

Criar sistemas anti-rotina: não estamos condenados a repetir. Podemos começar sempre. 

S.Paulo: "sois filhos, e não escravos". 


Antes da partida, trocamos informações.


Livros: Pietro De Paoli;  L'origine de la violence; Olivier Le Gendre (Confession d'un cardinal); Maurice Bellet (Minuscule traité acide de spiritualité); Madeleine Delbrêl (La joie de croire); Deux petits pas sur le sable mouilléUne femme fuyant l’annonce.

Terminou. Continua. Germina em nós. 


yonder (2)

My father once asked me if I knew where yonder was. I said I thought yonder was another word for there. He smiled and said, "No, yonder is between here and there." This little story has stayed with me for years as an example of linguistic magic: It identified a new space-a middle region that was neither here nor there-a place that simply didn't exist for me until it was given a name.

Siri Hustvedt, em "A plea for Eros"

"Yonder" continua aqui.


yonder

Há tempos pediram-me um conto numa frase. Como é que se lembram de me pedir tal exercício de síntese a mim, logo a mim, é algo que nunca entenderei, mas hoje, ao ver uma fotografia no facebook, o conto veio ter comigo. Assim:



Guardou as más memórias numa caixa, escreveu por fora "do not open", e sucumbiu ao seu peso cada dia maior. 

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Melhor seria usar a caixa para guardar as boas recordações, escrever por fora o conteúdo com evocativas simples, e por elas partir para yonder - o lugar entre o que foi e o que se quer reter.

Ler "de coração cheio": ao entardecer, entre a lua cheia e o mar, os rapazes a jogar à bola com o Fox; ler "filha grande aventureira": a interminável viagem de carro a Colónia e a tua filha a contar histórias do seu Setembro no Nepal; ler "espaços de sublime que são verdade!": o passeio com os amigos no outono de Potsdam.

E esquecer na caixa fechada - por insignificantes - o vento e a areia da praia misturada no vinho, o terror quando o autocarro nepalês parou na queda de água sobre a estrada e começou a deslizar de lado para o abismo, o relógio a expulsar-nos de Potsdam para o aeroporto.


os benfiquistas parece que gostam de ser maltratados pelas mocinhas


Se calhar nem todos, mas o benfiquista a quem eu mandei uma boca foleiríssima, que metia o Estado Islâmico e adeptos do Benfica na mesma frase e sem respirar de permeio, parece que sim, que gosta de ser maltratado pelas mocinhas, porque na volta do e-mail me convidou, e mais a uma portista ferrenha, daquelas de herança genética e tudo, para ir jantar com ele, e serviu um Borgonha (*), um Douro (**) e um Madeira (***) de 1978 que eram de beber e chorar por mais. De beber e bater por mais, diria eu, porque quanto mais nós nos alargávamos em explicações sobre a superioridade do Gloriuôso, e tal, mais os copos se enchiam quase sozinhos.
Uma noite bem passada, portanto: a carne estava uma delícia, o gelado artesanal de morango e menta estava sublime, a mousse de chocolate idem, a portista batia com conhecimento de causa, eu batia só para merecer mais um bocadinho do Madeira antigo, e também, confesso, por amor aos jogos florais do mal-dizer: sobre a nudez diáfana da verdade, o manto cruel da fantasia.

Depois, já a caminho de casa, ocorreu-me que se calhar os benfiquistas não gostam de ser maltratados pelas mocinhas. Se calhar aquele belo jantar foi uma bofetada de luva branca, tão bem dada que nem reparei. Caramba, os benfiquistas com aquele ar desligado de quem só está ali por causa da bola: sabem-na toda!


(*) Echézeaux - não li  nome do produtor, mas não faz mal. Basta-me o nome, Echézeaux - benditos produtores de vinho da Borgonha que ao destacar o nome do torrão da Côte d'Or na garrafa me levam instantaneamente a lugares onde fui muitas vezes feliz (****).
(**) Tentei ler a etiqueta da garrafa do Douro, e li, mas depois esqueci-me.
(***) Boal, Barbeito.

(****) "fui muitas vezes feliz": passear pelas aldeias da Borgonha, entrar nos pátios das quintas, falar com o viticultor, sentar-se a uma mesa de madeira antiga, provar vários dos seus vinhos. Passar os dias nisto.


28 Outubro 2014

cisnes

No lago há agora cisnes. Ontem ouvi um restolhar na água, e eram eles a levantar voo: presuntos voadores. Esta manhã deslizaram na nossa direcção. Foi idílico, mas só até ao momento em que o Fox se chegou à frente para ver melhor. Como tantas vezes na estética, o bonitinho esconde a fealdade intrínseca. Malditos bichos. De modo que fomos brincar para o prado, do outro lado do lago. 
Apareceu por lá a velhinha que tem um cão que não se dá bem com o Fox. Aqueles dois já me valeram uma cena muito embaraçosa: ela a defender o cão dela, a tropeçar e a cair de costas, e eu sem saber se devia primeiro separar os cães ou ajudar a velhinha, a pensar "bom, já caiu, já não lhe acontece mais nada", a decidir separar primeiro os cães porque era essa a maior preocupação da velhinha, para depois a ajudar a levantar-se segurando o palerma do Fox acima da minha cabeça para não ser mordido pelo outro, a pensar que se houvesse ali alguma câmara escondida ainda me ia meter em sarilhos por ter ajudado os animais antes dos humanos. Há dias, esse cão foi direitinho ao Fox para lhe morder, e o Matthias não conseguiu ficar calado: "viu? desta vez foi o seu cão que atacou!"
Hoje ela avisou-me de longe: "olhe que agora o meu cão já se defende!"
Ah, bom.
Passámos de "o meu filho é um anjinho e tem sempre razão" para "o meu cão é um anjinho e tem sempre razão".
Somos uns cisnes. 


 

   
 





27 Outubro 2014

hora de inverno e outros assuntos sem importância

A vantagem da hora de inverno - uma das - é que o sol passa a nascer durante o meu pequeno-almoço, e não quando o dia já me vai a meio.



Com um sol destes a nascer em frente à janela, uma pessoa até se imagina em África.
Mas não se iludam - esta África minha também é assim:


(Ou alguém é capaz de imaginar o céu sobre Berlim sem uma meia dúzia de guindastes por perto?)

Levei o Fox ao nosso lago, encontrámos lá o outono. Depois o Fox desatou a correr na direcção de outro cão, e eu fui a correr atrás dele e fiz sem querer uma selfie do meu casaco - que deixo aqui, só para provar que no outono em Berlim todas as fotografias ficam bem.






Finalmente chegou o outono, acabou-se o stress de esperar pela chuva para regar a relva. Este ano o verão foi bastante ingrato, não choveu quase nada!

A relva em frente à garagem está uma maravilha:


O mais curioso é que cresce entre pedras. Como não podíamos fazer uma auto-estrada até à garagem, porque já tínhamos usado toda a área permitida, fizemos um caminho de cascalho e plantámos relva pelo meio. Depois rezámos muito, e funcionou. As rezas, e mais as regas, claro. (Já disse que isto é uma triste vida, já nem no verão alemão se pode confiar?)


Depois fiz mais uma selfie minha.


E pronto. Acabou-se a conversa sobre o tempo e outros assuntos sem importância.


23 Outubro 2014

momentos assim



Clarinete. 
Lá fora o outono deita fogo à cidade. 

(Deixa-me disfarçar, que ainda me arrumam numa casa para senhoras de nervos frágeis.)


barómetro





No duche desta manhã acertei à primeira na passagem de

   morena dos olhos d'água

para

   tira os seus olhos do mar  (*)


O dia está cinzento e de chuva, mas tenho a certeza que me vai correr bem.


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(*) comparado com esta passagem de tom sem o apoio da guitarra, o "Desafinado" inteiro e a capella é canjinha.


22 Outubro 2014

Shnorhakal Em




No fim do concerto que encerrou a Semana da Arménia na Gulbenkian os músicos arménios juntaram-se à volta do Jordi Savall. Eu estava por ali, como quem foi só para ver a bola, que é a minha especialidade. Eles chamaram-me, insistiram que tinha de fazer parte daquele grupo, e obrigaram-me a ficar na fotografia como se fosse uma deles.

Na Arménia ouvi várias pessoas repetir a frase "sou tantas pessoas como as línguas que falo".
Não falo ainda a língua, mas já me acrescentei como pessoa. Shnorhakal Em, amigos!

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"Shnorhakal Em" significa "obrigado", em arménio. Já sei que "como estás?" se diz de uma maneira muito portuguesa, "como estás? como não estás?" e que a resposta também é muito nossa: "assim, assim".
Pergunto-me se a nossa maneira de falar português terá sido influenciada por arménios da diáspora, vindos para cá no princípio dos nossos tempos. Houve-os no Porto, fugiram para lá quando os turcos tomaram Constantinopla, até trouxeram um Santo, o Pantaleão, que só por coisa de dois ou três séculos não fez concorrência ao Vicente de Lisboa e ao Tiago de Compostela. E parece que na Arménia se usam palavrões para pontuar as frases. Não sei, mas...

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O concerto foi muito bom. Diferente do CD "Esprit d'Arménie", porque tinha canto (e que voz! o Aram Movsisyan esteve excelente) - e igualmente bom.
Mas o melhor de tudo foi um sorriso muito doce que vi ao Jordi Savall, não contem a ninguém.


21 Outubro 2014

regresso à base



Regressei a Berlim depois de um mês em Portugal. O Matthias e o Fox estavam à minha espera no jardim. O Fox correu para mim sedento de festinhas, e logo depois foi pedi-las com o mesmo entusiasmo à motorista do táxi. Anda uma mulher a criar um cão para isto...

O Matthias fazia 18 anos, e convidara 15 amigos para virem fazer sushi cá em casa. Perante a minha surpresa, afirmou que me tinha avisado, e até mostrou a mensagem no facebook. Maldito facebook, parece a estatística: mostra tudo, excepto o mais importante.

De modo que cheguei a Berlim depois de um mês em Portugal, e desatei a pôr a casa mais ou menos em ordem para receber 15 amigos do Matthias. Eu, que vinha a contar com um jantarinho sossegado num restaurante à escolha do rapaz.

Os amigos começaram a entrar pela casa adentro, a Christina saiu de bicicleta para ir comprar os ingredientes para o sushi (nesta de desenrascar em cima do acontecimento, os meus filhos saíram-me muito portugueses), eu fiz o resto das limpezas o mais discretamente que pude. Entrei no quarto do Matthias, achei que ali também fazia falta uma demão de mãe, limpei-lhe a casa de banho e disse-lhe que era o meu presente para os seus 18 anos. Riu-se, e pediu desculpa por não ter sido ele a pôr a casa em ordem.

Ficaram por aí até às não sei quantas, o Joachim e eu refugiámo-nos no apartamento dos turistas para podermos dormir apesar da barulheira que ia pela casa, e esta manhã descobrimos que a cozinha estava impecavelmente arrumada.

Anda uma mãe a criar um filho, e sai-lhe uma surpresa muito melhor do que aquilo que alguma vez seria capaz de sonhar, caso alguma vez tivesse sonhado os filhos.


16 Outubro 2014

Luís Filipe Sarmento sobre o ARtMÉNIA

(Desculpem o momento de fraqueza que faz sucumbir a falsa modéstia, mas tem de ser. Nem é por mim, é mesmo só para efeitos de arquivo...)




«Arménia» de Ricardo Espírito Santo e Helena Araújo
Assisti, anteontem, ao documentário «Arménia» de Ricardo Espírito Santo (realização) e Helena Araújo (guião), projetado no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian.
Dizer simplesmente que se gosta de uma obra desta dimensão artística e humanista é curto. O Ricardo (de quem sou amigo) e a Helena (que não conheço pessoalmente) mostraram que o documentário é uma disciplina superior do cinema. Ao estabelecerem um protocolo de afetos abrem as portas da percepção do espectador a um admirável mundo antigo. Um universo de um povo esmagado por genocídios, quase aniquilado por todos aqueles que não acreditam que a História de uma nação é mais poderosa que um qualquer intento de apagá-la com sangue assassino. Mas também um universo que guarda em si a mais antiga tradição cristã com as suas crenças, com os seus rituais, com a sua magia. Diria que se trata de um encantamento da distância.
Documentário de texto. Um texto brilhante que transportou o espectador ao longo de 110 minutos por uma história que devia ser património da humanidade e não alvo da cobiça dos ignorantes. Um texto que faz história no documentarismo português, europeu, universal. Um texto que nos ensina a ler a paisagem com a cumplicidade de uma fotografia de excelência de Pedro Magano, a subtileza dos movimentos de câmara, o olhar poético de Ricardo Espírito Santo. Um texto que nos ensina a ver imagens.
«Arménia» não é só um excelente documentário, é uma peça rara no cinema europeu, uma obra de arte a preservar. Mas é também uma exigência aos seus criadores que o caminho mal começou e muito têm para nos oferecer.
Por último, quero destacar o mérito da produção (que não é fácil) e de toda a equipa de Terra Líquida pela paixão que depositaram neste sonho de fazer cinema, neste cinema que nos faz sonhar! A todos, o meu agradecimento, como espectador! LFS

relatório de actividades

Ao fim de mais de três semanas em Portugal, comecei a visitar as fotos da minha cozinha como se fosse uma miragem daquelas que só há na internet. Regresso no dia 20, dia 19 ainda vou trabalhar um bom bocado, e no entretanto gozo a vida, que também mereço.

Ontem fui com duas amigas ver Os Maias, a versão de 3 horas, no Cinema Ideal. No intervalo encontrámos o João Botelho à porta, que me apresentou aos amigos como "uma cineasta". Não há dúvida: gente grande é outra coisa. Até me lembrei de um dia em que, recém-licenciada, cumprimentei um antigo professor com um "olá, colega!", e ele respondeu "alto lá! a antiguidade é um posto!" Claro que era uma piadinha, mas graça por graça, prefiro o humor do João Botelho. O qual acrescentou logo a seguir: "mas eu estou interessado é no marido dela". Estão a planear umas aventuras noutro continente no próximo Verão, e eu em Berlim a fazer o Cinemagosto. Triste vida. A minha sorte é que Portugal tem um Presidente da República muito atento e actuante, pelo que o meu abnegado sacrifício em prol da cultura portuguesa será devidamente recompensado com uma medalhinha no próximo 10 de Junho. É desta!

E os Maias? Adorei o Ega, e gostei muito do Dâmaso, do avô, daquele asqueroso da Corneta (está bem, vou contar tudo: também estava no cinema, e conheci-o como pessoa tão simpática que só pode ser um excelente actor para poder compor tão bem aquele "chouricinho de pus"). Gostei deste olhar sobre o livro. Os cenários são uma invenção fenomenal (não há como os portugueses para fazerem omoletes sem ovos).

Já a Maria Eduarda, não sei que diga: eu imaginava-a mais ampla, mais roliça, muito mais sensual. Mais Nigella Lawson. Não me parece que as mocinhas de hoje em dia, esses paus de virar tripas, sejam uma boa escolha para encarnar os livros do Eça. É que trata-se de encarnar, e não de desossar. 

Em suma: quando o João Botelho resolver filmar a Tragédia da Rua das Flores, havia era de se lembrar de mim para o papel da Genoveva.

(Este é o momento em que o Ricardo Espírito Santo mete a cabeça nas mãos e diz "ó Helena, então e aquele plano que me obrigaste a tirar do ARtMÉNIA, porque estavas demasiado ampla, roliça e sensual? e então aquela conversa de sim, queremos contar a História dos Arménios mas não é preciso começar por esta vénus pré-histórica, heinhe?")

(la donna è mobile, é o que é)

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Que estranho, já escrevi um post inteiro e ainda não falei do tempo em Lisboa. Pois tem sido assim: todos os dias saio de guarda-chuva, e nunca chove. O meu guarda-chuva tem poderes mágicos. Pelo que seria boa ideia a Câmara de Lisboa pagar-me para passear todos os dias o guarda-chuva por aí - mesmo que me pagassem um salário do escalão "remediado" sempre lhes saía mais barato que limparem as sarjetas, soltarem as ribeiras, e tal.


15 Outubro 2014

selfie interview




- Como foi a  reacção do público ao filme ARtMENIA?
- Das duas, uma: ou o Ricardo e eu temos muitos amigos, e todos excelentes, ou o ARtMENIA não nos saiu muito mal. As pessoas protestaram por não ter havido debate no final (e se eu estava preparada! até me penteei e tudo!), queriam saber onde é que o filme vai passar, queriam a banda sonora, queriam falar.

- E como é que se sente?
- Obviamente (estou a citar o meu sobrinho mais famoso deste blogue) muito feliz por o público se ter deixado tocar por este povo. Sinto que conseguimos traduzir para o filme algum do fascínio que nós próprios sentimos enquanto andávamos na fase da descoberta.
E sinto-me especialmente aliviada pela reacção de alguns dos arménios que viram o filme. É um risco enorme falar do país e da cultura dos outros, e durante estes dois anos a minha maior preocupação era ficar aquém daquilo que os arménios merecem.

- E qual foi o momento mais emocionante?
- Foram dois:  o final, com o Arto, quando eu me dei conta que desta vez ia conseguir ouvi-lo até ao fim sem largar uma única lagrimita, e depois, cá fora, quando uma arménia me quis agradecer e desatou a chorar. Parece que a equipa que fez este filme conseguiu entender e transmitir alguma coisa importante.



14 Outubro 2014

making-of: a dura vida de um realizador

O filme ARtMENIA vai ser apresentado hoje, às nove da noite, na Gulbenkian, e já sinto saudades destes dias em que andámos a sonhar e a trabalhar duramente para concretizar os sonhos. A Terra Líquida Filmes tem uma equipa mais-ou-menos (eu ia dizer fabulosa e todos os superlativos que conheco, e todos ficariam aquém da realidade, mas depois iam lá uns espertalhöes roubar o pessoal ao Ricardo Espírito Santo (ao Ricardo Espírito Santo bom, acrescente-se, que nos tempos que correm certos nomes parecem armadilhados), e eu arranjava um sarilho. Portanto: jeitosinhos, jeitosinhos). 
Foi um enorme prazer trabalhar com eles. 

Näo sei se eles diräo o mesmo. O Ricardo, por exemplo. Dizia-me "aqui falta uma frase", e eu respondia "espera pela minha próxima insónia matinal". Näo é bem insónia, é mais acordar cedo, mas nos tempos que correm é de bom tom dar uma cor de patologia a tudo o que foge ao normal, pelo que, portanto. Ia para casa, dormia, acordava, ficava deitada a pensar na frase, e zimbas. De caminho, comecei a achar que as anedotas dos alentejanos que trabalham deitados säo parvas. Mas uma frase por dia, convenhamos que já vi melhores produtividades. O Miguel Angelo, por exemplo, que também trabalhava deitado, se só conseguisse dar uma pincelada por dia ainda agora estava ali a pintar a capela Sistina. 

Em todo o caso, o Ricardo esperava pacientemente pelo dia seguite, e assim se foi fazendo o filme. Até que no dia seguinte ao filme ficar pronto eu anunciei cheia de entusiasmo que a insónia dessa manhä tinha dado a melhor ideia de todas: cozinheiras arménias a fazer um cozido à portuguesa. Na realidade  näo tinha sido insónia, tinha sido um belo sonho, as cozinheiras arménias muito sorridentes a arrumar nas travessas os bocados de carne com o desvelo daquele grupo de mulheres míticas da Cidade e as Serras. Mas o Ricardo acreditou que eu estava a falar a sério, e por uns momentos pensou como acomodar esta maluquice no filme. Depois percebi que ele estava prestes a dar-lhe uma coisa má, e apressei-me a desfazer o equívoco. Mas penso que nos próximos tempos melhor  será evitar mencionar a gastronomia portuguesa. Dura vida, a de um realizador. 

Só para dizer que  gostei muito de trabalhar com o Ricardo Espírito Santo, o bom, e toda a sua equipa. Sinto-me muito grata por esta experiencia. E prometo que, se me quiserem dar uma próxima vez, produzo duas frases por insónia e näo mencionarei nunca  o malfadado cozido à portuguesa.  

A näo ser que seja um documentário sobre a Maria de Lourdes Modesto.


quando Lisboa chove

(foto)

Andei uma semana a rir-me das lisboetas, que ao menor aviso de chuva se enfiavam em galochas até ao pescoço. "Parece que estão mortinhas por exibir as galochas novas", pensava eu. Ora bem: pelos vistos Deus não dorme, e castiga quando é preciso, porque ontem fiquei a saber como é quando Lisboa chove. Eu e a minhabocagrande.

Ao sair de casa já tinham olhado de revés para as minhas bailarinas. Acomodei o impermeável no braço, e encolhi os ombros. No fim do almoço, no Saldanha, repetiu-se a cena. Alemã, expliquei que nem eu nem os meus sapatos somos feitos de açúcar. Mas deixei-me influenciar e comprei um guarda-chuva, para ir a pé até Campolide. Em boa hora o comprei, porque me deu imenso jeito para tapar as pernas sempre que passava um carro.

Nem eu nem os meus sapatos somos feitos de açúcar, é certo. E tenho calor humano suficiente para secar num instante calças ensopadas  (vai ser o nosso segredinho, caso contrário ainda alguém se lembra de me pôr à venda com uma etiqueta de secador de roupa biológico e amigo do ambiente e tal). Mas tanta chuva não dá jeito. Os pés escorregam dentro dos sapatos e estes sobre a calçada. A chuva faz tanto barulho que uma pessoa nem consegue ouvir a sua própria cantoria largada no anonimato do guarda-chuva. De modo que ontem, em Lisboa, o meu amor pelo andar à chuva sofreu um pequeno abalo paradigmático.

E depois, havia os carros a passar e a levantar ondas enormes que me batiam nos joelhos antes de desmaiar no passeio. Agora olho para a travessia do Mar Vermelho na perspectiva dos desgraçados que viam Moisés passar. Depois admiram-se que no Médio Oriente haja ressentimentos entre as religiões...

PS: Esta manhã fui à janela, fiz voz grossa, e disse assim: "Ó minha, tu vê lá como te portas hoje, que eu quero sair à rua com sapatilhas de pano, porque são mais confortáveis que as bailarinas, e vou a pé do Areeiro para Campolide."
Encolheu logo as nuvens, viram? O que esta cidade precisa é de alguém com autoridade e visão.
(Parece que vagou um lugar ali na Câmara. Se precisarem de mim...) (Aqui deixo já a minha primeira promessa eleitoral: dispensar carro e motorista, ir a pé para o trabalho)


10 Outubro 2014

Lacrimosa

Lacrimosa começa a 22'53''





Era a parte do requiem que o compositor, Tigran Mansurian, mais temia.
Agora temo-a eu. Aquelas ondas escondem redemoinhos.


09 Outubro 2014

making-of: "mais te amarei, Arménia órfã, queimada de sangue, minha."


Esta miúda é uma delícia.
Nasceu na Arménia, agora vive em Berlim, e passa os domingos na escola arménia.
Recitou para nós um poema de Charents, "my sweet Armenia", um poema de amor à sua terra.

Aventuras de fazer um filme sobre os arménios: como traduzir um poema arménio para português, tirando a média ponderada, digamos assim, da tradução literal e mais umas cinco versões poéticas em línguas diferentes? Não sei se o Charents terá dado algumas voltas na sepultura (*), mas eu gostei de ter corrido este risco, e do resultado. O pessoal aqui da Terra Líquida Filmes é que deve pensar que sou um bocadinho maluca - eles a trabalhar a toda a brida, e eu parada, a olhar para o vazio, a murmurar fragmentos de frases.


**


(*) Pobre Charents, morto na prisão e enterrado em local desconhecido. Ao fim de muitas décadas encontraram ossadas do seu corpo com sinais de torturas brutais, e sem cabeça.
Na União Soviética estalinista, podia-se morrer de poesia e amor ao seu povo.  


"matemática hereditária"

Momento "tia babada", vocês desculpem mas o que tem de ser tem muita força:
(roubado ao Sol)


Matemática hereditária




Não é todos os dias que se recebe um prémio das mãos de Lech Walesa. Mais raro é recebê-lo aos 16 anos, muito tempo depois de o famoso sindicalista polaco, que se opôs ao regime do seu país e que se tornaria mais tarde Presidente de uma Polónia democrática, ter construído o seu carisma. Pois foi essa a glória que coube a João Pedro Araújo, jovem estudante - começou agora o 12.º ano - que integrou o grupo dos primeiros portugueses a receberem o prémio máximo do Concurso da União Europeia para Jovens Cientistas, este ano realizado em Varsóvia. Além dele, que conquistou o prémio com um trabalho em matemática, as jovens Mariana Garcia e Matilde Moreira, de Arouca, celebraram o galardão na área da biologia.

Reservado, João Pedro, “depois de ver os trabalhos dos outros concorrentes” acreditou que ia a Varsóvia “para pedir autógrafos”. A cerimónia, de três horas, prolongou essa convicção. “O meu prémio foi o último a ser anunciado”, recorda. “Os outros projectos, como uma mão biónica ou novas abordagens ao cancro, eram impressionantes”. Já na fase nacional do concurso tinha ficado rendido aos trabalhos dos colegas, “um jovem de uma escola profissional de Oliveira do Hospital fez uma fantástica máquina de plantar batatas”.

No chão da sala da casa do premiado ainda se viam os cartazes 'My mano is the best!' que os cinco irmãos usaram no aeroporto de Lisboa, na recepção ao primogénito da família.

Mas o que fez João de tão extraordinário? “Os melhores teoremas são verdadeiros e belos. Um matemático australiano provou um teorema verdadeiro, mas feio”. Michael Kinyon, conceituado matemático norte-americano da Universidade de Denver e da Universidade Aberta, usou um computador para encontrar a versão bela do teorema, “mas a demonstração do computador era incompreensível”. Quando João Pedro lhe pediu para supervisionar um trabalho da escola, ele deu-lhe como tarefa “demonstrar a versão bela do teorema”. Para estudar o assunto pediu livros ao pai, que lhe indicou Teoria de Grupos em Desenhos. A dificuldade do livro era tal que João Pedro comentou a rir: “Com um pai assim não preciso de inimigos”. Felizmente, encontrou “livros da faculdade onde tudo estava explicado de forma simples e clara”. Assim o jovem português conseguiu provar o teorema e com isso convenceu o júri do concurso europeu, depois de ter conseguido a 'rendição' do júri português da Mostra Nacional de Ciência, onde expôs o trabalho antes de seguir para Varsóvia. “Fiz o trabalho e submeti-o. Convidaram-me para ir apresentá-lo aos professores e investigadores da Faculdade de Ciências [da Universidade de Lisboa]”, adianta. “E um deles sugeriu que me candidatasse ao concurso de jovens investigadores”. Para quem já viu uma feira de ciência em filmes americanos, a ideia é similar - os trabalhos são apresentados em stands ao público e avaliados por júris.

A partir deste ponto, a história segue como a conhecemos. Aluno do Colégio Planalto, em Lisboa - famoso pelo currículo internacional -, João Pedro ingressou um ano mais cedo na escola. São os alunos que escolhem as disciplinas e cada um tem de frequentar seis. Escolheu Literatura, Inglês, Economia, Física, Química e Matemática, mas a última é a preferida, talvez pela carga genética. O pai, João Araújo, é um matemático da Universidade Aberta e lá coordena um doutoramento que tem a novidade de ser leccionado por grandes professores estrangeiros. Michael Kinyon, que orientou João Pedro, é um deles. Esse doutoramento foi tema recente da secção de Ciência da Tabu.

O destino da família tem sido pródigo em episódios intensos. Com a felicidade de conseguir um prémio nunca antes alcançado em Portugal, havia uma tristeza íntima “por a mãe não estar em Varsóvia para eu poder agradecer-lhe as horas e horas que passou a estudar comigo quando eu era pequeno. Infelizmente o meu pai foi operado a um cancro e a minha mãe teve de ficar a cuidar dele”. 

Mas João Pedro, sereno, prosseguiu. Começou a programar aos 12 anos e apresentou no concurso de Varsóvia uma aplicação para android (Schur's Challenge) extraída do seu teorema. Fora do colégio, pratica ténis de mesa, é voluntário na Associação de Paralisia Cerebral, e dedica-se à música. Depois do piano - toca peças de Bach, Mozart e Beethoven, por exemplo - passou à guitarra eléctrica e explora alguns sons mais recentes, de bandas como Pink Floyd, Queen ou os quase esquecidos Barclay James Harvest.

A electrónica e o enxame de DJ que agora povoam os ouvidos das pessoas da idade dele dizem-lhe pouco: “O problema da música feita por computadores é que lhe falta uma certa emoção”. À música dos números - tem preferência pela engenharia mecânica no futuro, por combinar a matemática, a física e a química - pode até, quem sabe, seguir-se a das melodias. “Não me importava de ser músico”. Quem sabe…

Fotografia: Miguel Silva/SOL


07 Outubro 2014

Schweigeminute

(foto)


O Siegfried Lenz morreu, e eu dou comigo de volta à atmosfera que ele criou na novela Schweigeminute - o olhar limpo sobre o que foi, a gratidão, a serenidade do que é e permanece para lá da morte dos corpos.


06 Outubro 2014

making-of: o dia em que fui entrevistar Orhan Pamuk



Ao saber que Orhan Pamuk vinha a Lisboa tivemos um ataque de "já agora" - apesar de o filme estar praticamente concluído, seria muito interessante acrescentar a perspectiva de um turco como este escritor sobre a necessidade do confronto com o passado, e a possibilidade da coexistência, num mesmo espaço geográfico, de povos com diferentes culturas, religiões e línguas.

À parte termos tido um acidente no caminho para a Gulbenkian, tudo correu tão bem que eu comecei a desconfiar que Deus, lá do seu assento etéreo, estava a mexer furiosamente os cordelinhos. De repente demos connosco a meia dúzia de metros do Orhan Pamuk, alguém se dirigia a ele para perguntar discretamente se estaria disposto a responder às nossas duas perguntas, o Pedro já o estava a filmar e eu - esta foi a parte em que Deus se distraiu um bocadinho - preparava-me para entrevistar um simpático cavalheiro bastante parecido com os turcos que eu conheço de Berlim, e que não era o Pamuk. Maldita memória visual, que só me envergonha, e malditas fotografias da net, que não avisam que este escritor é um belo pedaço de homem, alto e bem parecido.

Ele não quis. Abanou a cabeça, "no! no! no!"
Pensei nas dificuldades por que já passou por causa deste assunto, e compreendi. Tanto mais que nós aparecíamos do nada, sem lhe dar tempo para se preparar convenientemente. No lugar dele, teria feito o mesmo.

Em suma:
Alá 1, Jeová 0

(Ou Jeová 1, mas foi um daqueles golos que ele marca por balizas tortas: agora, ao ler os livros do Pamuk, vou ter uma motivação extra. Mais estética, digamos assim.)


05 Outubro 2014

esta manhã

Esta manhã resolvi oferecer mais uns minutos de descanso aos meus amigos, e fiz o primeiro turno das filhas deles.
A de dois anos chama-me Balena, e fá-lo com uma voz tão doce que eu passei a dar um valor especial a cada um dos quilos que me põem muito à frente da Kate Moss.
A de cinco anos montou na sala um consultório médico, e aplicou-me tantas vacinas que estou pronta para fazer a volta ao mundo, de certeza que não vou apanhar nenhuma doença tropical.
Cantámos ("quem sabe uma canção com gatos?" "quem sabe uma canção com cães?"), inventámos letras novas com os nomes delas, caminharam nas minhas pernas feitas ponte sobre um mar revolto.
Aprendi uma canção nova, "pulga maldita / batata frita / fora o Benfica" e depois ri-me da tristeza encenada pelo pai, benfiquista, ao queixar-se das más companhias em que as filhas andam.

Saí para o trabalho às nove da manhã, e levava o bornal cheio de alegria.


26 Setembro 2014

quem não tem cão, caça com outro cão

Na Filarmonia de Berlim anda agora um ciclo Brahms + Schumann: as primeiras sinfonias dos dois, as segundas, etc.
E eu a vê-las passar, aqui em Lisboa e trabalhando de sol a sol. De sol a lua, melhor dizendo, que é o que acontece a quem se mete a trabalhar com portugueses.



Adiante. Quem não tem cão, descobre outro cão igualmente bom para tratar de ser feliz.
Consegui alforria temporária da senzala para ir amanhã  ao concerto do Artur Pizarro na Gulbenkian. Caso algum dos amigos que por aqui passa vá também, sugiro que a seguir vamos beber uma cervejinha espontânea juntos.
Alguém quer?


24 Setembro 2014

ínclita geração

Um sobrinho meu ganhou ontem o primeiro prémio para matemática do  European Union Contest for Young Scientists. Às vezes olho para a minha família e suspeito que é uma espécie de ínclita geração. (Eu sou o D. Fernando, o que ficou retido no estrangeiro)




22 Setembro 2014

cozinha de imigrante



Finalmente, aqui vai o último episódio da famosa cozinha. Melhor dizendo: o mais recente.
Agora é que tudo começa: estou ansiosa pelos próximos episódios, quando esta sala se encher com os risos e as conversas dos melhores amigos.

(É tão bonita, que acho que vou arranjar um fogão de campismo, uma bacia de plástico e um toldo, e vou cozinhar na varanda...)

(Não é aquilo que se chama funcional - o triângulo, o da esquerda para a direita, o sei lá. Mas deixem-me que vos diga: a funcionalidade está overrated.)

(Adoro a altura da zona de trabalho. Como é que aguentei mais de vinte anos da minha vida a trabalhar curvada?)

(Se tiverem sugestões para cadeiras, cámone yes. Mas que sejam extremamente confortáveis, e muito baratas. Estamos completamente, enfim, com certeza imaginam.)

(Agora vou trabalhar para Lisboa um mês, depois volto, e vamos pôr quadros nas paredes, e pensar numa estante para os CDs, e mais os focos de luz, e assim. Sempre a sonhar.)









 





 
 


(esta última é uma gracinha: as tomadas eléctricas - eu imaginei tomadas eléctricas no lados do bloco, mas na fábrica acharam que ficava parolo, e fizeram esta coluna encastrável)


É uma cozinha portuguesa, com certeza. Tenho o gosto de apresentar os seus autores:
- Gonçalo Araújo, meu irmão - a quem agradeço a ideia genial e mais toda a paciência que usou para me convencer.
- De Pau - Indústria de Mobiliário - são fantásticos. E mais não digo. Excepto que, bem feitas as contas, não ficarão assim tão mais caros que a IKEA.