25 abril 2017

e livres habitamos a substância do tempo ?

 (foto: Eduardo Gageiro)

O 25 de Abril foi há 43 anos, e ainda temos muito que trabalhar para chegar ao quarto verso do poema da Sophia:

esta é a madrugada que eu esperava
o dia inicial inteiro e limpo
onde emergimos da noite e do silêncio
e livres habitamos a substância do tempo

--

Se me concedessem dois desejos para inventar caminhos que nos levem ao quarto verso, seriam estes:
- Aceitar que não há soluções únicas, perfeitas e a contento de todos: viver em liberdade é viver em diálogo, negociação e respeito mútuo. 
- Saber escutar os outros com atenção. Sim, que aquela frase atribuída a Voltaire, "seria capaz de me deixar matar para que tu possas dizer a tua opinião" está ultrapassada. Se é para morrer, que seja para libertar a liberdade de expressão do prostíbulo onde a obrigam a servir os monólogos autistas e surdos que enchem de ruído o nosso mundo. Dialogar é preciso.

(A propósito, conto um episódio que me aconteceu no facebook: escrevi um texto tomando determinada posição sobre um tema. Foram surgindo comentários com dados que eu desconhecia e outras perspectivas. À medida que conversava com os comentadores ia percebendo cada vez mais o erro da minha posição, e escrevi um ou outro comentário a dar nota de um reajustamento. Às tantas, um comentador zangou-se:
"- É impossível conversar consigo! Você começa por dizer uma coisa e acaba a dizer outra!"
"- Desculpe", respondi eu. "Chama-se a isto: pensar.")

(Fantástico resumo sobre a arte do diálogo no nosso tempo: não vale a pena conversar com quem repensa a sua posição em função daquilo que os interlocutores dizem.)


24 abril 2017

a integração dos turcos na Alemanha (1)




Ando para falar disto há vários meses, e faço hoje, 24 de Abril, quando se lembra o início do genocídio dos arménios na Turquia. O Paulo Sousa Pinto contou no programa da Antena 2 "Os Dias da História" o que aconteceu neste dia de 1915, e o posicionamento actual da Turquia. Mas foi simpático: não falou da cumplicidade da Alemanha nesta tragédia.

Em 2016, e depois de ter passado um século a assobiar para o ar, o Parlamento alemão falou abertamente em "genocídio arménio". Este passo difícil deveu-se em grande parte à pressão de Cem Özdemir, deputado dos Verdes. Alemão filho de turcos, aprendeu e apreendeu uma das melhores características do país em que nasceu - a coragem de enfrentar as páginas mais negras da sua História - e levou o Parlamento a tomar uma posição que desagrada ao país dos seus pais, mas estava a tornar-se cada vez mais imperativa para a Alemanha.

Na altura do debate  ouviram-se comentários muito desagradáveis vindos da Turquia. Erdogan fez insinuações sobre a pureza do sangue dos deputados alemães provenientes de famílias turcas, e alguns desses deputados foram alvo de ameaças de morte.

O presidente do Parlamento, Norbert Lammert, abriu a sessão dizendo que é óbvio que o Parlamento aceita críticas, mas as ameaças com o objectivo de impedir o seu debate livre são absolutamente inaceitáveis. Sublinhou que não se podem esquivar a questões difíceis, particularmente nos casos em que a Alemanha se carregou de culpas. E rematou: "A Turquia não é responsável pelo que aconteceu há cem anos, mas tem parte da responsabilidade no que acontece agora e acontecerá no futuro."


No seu discurso, Cem Özdemir afirmou que era obrigação da Alemanha empenhar-se na normalização das relações entre turcos e arménios. Dirigindo-se à Turquia, quis deixar claro que não se tratava de um gesto de arrogância e superioridade moral, mas de uma página da História na qual a Alemanha tem culpas, e que tem de ser encarada de frente - tal como os episódios de violência contra muitas outras minorias nesse país. Dirigindo-se à Alemanha, lembrou que o processo de confronto com o Holocausto é uma das bases da Democracia alemã, mas que há mais crimes que o país tem de reconhecer, nomeadamente o genocídio dos Herero e dos Nama.


Nestes dias em que se fala dos problemas da integração, falemos também disto: como um filho de imigrantes turcos ajuda a Alemanha a caminhar na direcção do melhor de si própria.


Keukenhof em Berlim


Começo a suspeitar que exagerei ligeiramente nas tulipas no meu talhãozinho...
:)


 
  



23 abril 2017

os psicadélicos e a ciência



O facebook a mostrar a vida como ela é em apenas quatro passos:

1. Alguém escreveu um post a criticar as pessoas que se iludem sobre os riscos do sarampo.
2. Outra pessoa comenta: "O que dizer de quem, tendo os filhos vacinados, se preocupa tanto com os que não estão? Estupidez pura, afinal, se os seus estão imunizados, o que os preocupa no contacto com crianças não vacinadas? live and let live"
3. Entra em cena este texto: The choice not to vaccinate doesn't only affect you!
4. Logo a seguir aparece o texto "
Portugal: o sarampo", onde li o comentário que transcrevi num post anterior, insinuando que em Portugal "mataram" uma adolescente para servir a agenda da histeria pró-vacinas.
 
Ora aí está um exemplo muito claro da impossibilidade de ganhar as pessoas por meio do debate e do esclarecimento.

Na cidade onde vivo tem havido alguns surtos de sarampo, devido a grupos da classe média-alta que se interessam muito por medicina alternativa e se entendem como vanguarda dos cuidados de saúde que pensa "fora da caixa" (sendo que "caixa" é a ciência). Se metem na cabeça que não devem vacinar os filhos, é impossível ao médico convencê-los do contrário. De tal modo que uma médica no hospital universitário já reduziu a argumentação a esta frase: "oh, não precisa de vacinar todas as crianças, vacine apenas aquelas que não quer perder."

É uma simplificação, claro. Porque muitas vezes não são os nossos filhos que se perdem, mas os filhos, os pais ou os avós dos outros.

"Serei acaso o protector do meu irmão?" foi a cínica pergunta de Caim, quando Deus lhe perguntou por Abel. Teremos acaso de nos preocupar com a saúde dos outros? Alguém me pode obrigar a vacinar o meu filho apenas para proteger o vizinho cujo sistema imunitário é muito frágil? E se um filho meu, doente com rubéola, contagiar uma grávida, e se ela decidir abortar, posso sair desta história de mãos descansadamente lavadas? E se ela não abortar, e se a criança nascer cega ou com microcefalia, posso encolher os ombros e murmurar "shit happens"?


A propósito, conto uma história que nos está a acontecer: há tempos o Matthias fez à vizinha o favor de tomar conta do cão dela. O cão (um bichinho tímido e sensível, do tamanho de um gato) fugiu, correu desaustinadamente vários quilómetros, e mordeu a mão do homem que o tentou agarrar. Uns dias mais tarde recebemos uma carta a dizer que a ferida teve complicações, o homem teve de ir ao hospital tratar o ferimento, faltou vários dias ao trabalho, e tudo somado dá um prejuízo de cinco mil euros - que ele agora exige dos donos do cão e de quem o deixou fugir.

Parece-me que se as pessoas têm de responder pelos prejuízos provocados pelos animais que estão à sua guarda, também podem ter de responder pelos prejuízos provocados por elas próprias e pelas decisões que tomam. Enquanto se discute se as vacinas devem ou não ser obrigatórias, e enquanto não se chega a consenso, faça-se uma lei que não deixe dúvidas sobre a responsabilidade de quem, podendo evitar ser portador de uma doença contagiosa, não o fez. Concretamente: se eu escolho não vacinar um filho meu, e se ele acaba por contagiar um bebé que ainda não está em idade de ser vacinado, depois este contagia a sua avó, e se esta morrer por causa disso, eu devia ter de pagar as despesas médicas da avó e do neto e as faltas ao trabalho por ser preciso tratar desses dois doentes, e ainda me devia sujeitar a um processo por homicídio involuntário. Que tal?

Uma outra solução - mas isto agora sou eu a delirar, que também tenho direito, não são só os outros... - era oferecer às famílias de não vacinados uma estadia de quinze dias com tudo pago num clube de férias muito agradável, onde houvesse permanentemente surtos de sarampo, rubéola, varicela, papeira e todas as outras doenças infantis contagiosas que constam do plano nacional de vacinas. Tinha a vantagem de apanharem as doenças e deixarem de ser portadores potenciais, e de poder confrontar os pais com a Gretchen Frage, que é: querem mesmo sujeitar os seus filhos a correr o risco de apanhar certas doenças, quando o podem evitar? 




(Os meus filhos têm as vacinas em dia. Já eu, não sei. Perdi o meu boletim de vacinas da infância, e não sei o que constava lá. Só me lembro das anotações a lápis com a data em que devia ir repetir determinadas vacinas. Vou tratar disso esta semana, sem falta. É que a tragédia que aconteceu em Portugal na semana passada lembra-nos que essas doenças matam. E se, de um modo geral, podem ser relativamente inócuas nos miúdos, no caso dos adultos há um grande risco de complicações grandes ou até fatais. Não me dava jeito nenhum ir desta para melhor por causa dos psicadélicos que gostam de desconfiar da ciência médica ocidental.)


21 abril 2017

atentado de Dortmund (2)

Provavelmente é nervoso, mas não consegui impedir algumas gargalhadas por causa do autor do atentado bombista à equipa do Borussia Dortmund. Como é possível alguém lembrar-se de fazer uma coisa destas?

É um homem de 28 anos, de dupla nacionalidade (alemão e russo) que fez um crédito de 40.000 euros para apostar na bolsa que o preço das acções do clube ia baixar. Reservou um quarto no hotel da equipa, fazendo questão de ter vista para aquela rua. Comprou as opções usando a internet do hotel. Escondeu as bombas de grande potência nas sebes, e accionou-as da janela do quarto exactamente no momento em que o autocarro estava a passar por elas.
A sorte dos jogadores que ele queria matar foi a bomba mais potente estar mal apontada, acabando a projectar os pregos de 7 cm por cima do autocarro.
Foi descoberto porque alguém da área de Finanças avisou a polícia de que havia movimentações pouco usuais nas vendas de títulos.
Por ganância, estava disposto a assassinar várias pessoas. E só por um erro de cálculo no posicionamento de uma das bombas não aconteceu uma enorme tragédia.

Suspeito que o meu riso nervoso também está ligado ao que traduzi há uns dias, sobre a possibilidade de ser um atentado do Daesh. Deu para ver de novo com clareza: o nosso medo do terror islamista põe-nos a fazer figuras ridículas.


a vontade do povo

Na minha família, pouco depois do 25 de Abril, os filhos demitiram o pai. Foi numa manhã de sábado - os pais a dormir, e nós a inventar tropelias.
Fizemos um documento muito oficial, a anunciar que demitíamos o ditador. No parágrafo seguinte ele era eleito nosso pai, por nossa livre vontade. No fim, assinámos todos.
Para que ficasse claro que só era nosso pai porque nós assim o queríamos.

Depois fomos em fila festiva, com som de fanfarra e tudo, acordá-lo e entregar-lhe o documento emanado do povo.

--

Bem sei que agora se vão rir e dizer "síndroma de Estocolmo". Oh, calem-se!


20 abril 2017

Primavera!

Primavera!

(- Então, Heleninha, não estás a dormir?
- Não. A conselho de um amigo, optei por rebobinar o dia.)




Lembrei-me deste vídeo, que provavelmente já partilhei aqui, a propósito deste outro que reencontrei hoje no mural de facebook de um amigo - e que provavelmente também já partilhei, mas há coisas demasiado belas para serem vistas apenas uma vez.









sabem a história daquela princesa que dormiu cem anos?

Comecei o dia a ler um comentário num blogue de alguém que diz que leu (e passo a citar) "que "mataram" aí em Portugal, uma menina de sarampo para garantir a agenda fóbica na massa!"

Vou voltar para a cama. Acordem-me quando a vacina antipalermice tiver sido inventada e for de aplicação compulsiva.

19 abril 2017

justiceiros




No momento em que acabei de escrever um post sobre a vacina do sarampo e o "atentado à liberdade individual", li a notícia da morte da adolescente que não estava vacinada e foi contagiada por um bebé de 13 meses, também não vacinado. O que pretendia ser um contributo para o debate e uma proposta de resolução dos problemas ganhou repentinamente nomes concretos e ficou refém de uma tragédia irremediável.

Publicarei o post noutra altura. Hoje é dia de luto e de respeito pelo sofrimento daquela família.

Entretanto o facebook encheu-se de justiceiros, entre o "eu não disse?" e o clamor para que aqueles pais sejam responsabilizados. Esqueceram que não se bate em quem já está no chão. Aqueles pais perderam a filha, haja respeito pela sua dor! Se é caso para o Ministério Público, ele que faça o seu trabalho. Eu faço a minha obrigação de ficar calada neste momento.

Deixo apenas alguns retratos de justiceiros, de um quadro de Lucas Cranach, o velho. E um apelo: não deixemos que seja um retrato de nós.


18 abril 2017

o que será do Cristianismo?



"O que é a Páscoa? Sei que morreu alguém - mas quem foi?"
Esta pergunta foi-me feita no Sul da Alemanha, em finais do séc. XX, por um rapaz filho de ingleses que tinha feito o ensino secundário numa escola europeia internacional. Estupefacta com aquela ignorância, falei-lhe do Natal (um Deus que se faz humano), falei-lhe de Jesus (abriu um sorriso enorme: "esse era cool, esse conheço") e depois falei da traição, da morte na cruz e da ressurreição. Olhou para mim com um ar de benevolente tolerância, e perguntou: "Vocês acreditam nisso?!..."

É difícil transmitir esta fé a adultos. Especialmente se os valores e os símbolos são transmitidos por Igrejas que têm as mãos sujas - tanto no passado como, infelizmente, ainda hoje. A busca de espiritualidade e transcendência ainda existe, mas as respostas tomam hoje em dia caminhos muito diversos, e já não são monopólio exclusivo das Igrejas. No entanto, as culturas da Europa e muitos dos seus valores têm no Cristianismo uma base importante: sem noções básicas desta religião é impossível compreender e apreciar em toda a sua profundidade muitas das obras criativas dos dois últimos milénios; do mesmo modo, reconhecemos verdadeira grandeza àqueles que são movidos pelo amor à Humanidade e ao mundo - o que é a mensagem mais importante que Jesus Cristo nos deixou.

Na Europa do nosso tempo, onde há cada vez mais lugar para o ateísmo, o agnosticismo e as "espiritualidades alternativas" (digamos ironicamente assim), que futuro tem o Cristianismo e as suas interligações à nossa cultura? Será que em algum momento a sociedade vai começar a olhar para as imagens da herança cristã como olha hoje para as da Antiguidade clássica? "A Anunciação" ao lado de "Leda e o cisne"? "A Matança dos Inocentes" ao lado de "O Rapto das Sabinas"? Será que usaremos expressões como "Atire a primeira pedra..." ou "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha..." com o mesmo desconhecimento do respectivo contexto com que hoje dizemos "o dinheiro não tem cheiro" ou "in vino veritas"?

E quando outra fé tomar o lugar do Cristianismo, quando outros simbolismos forem aplicados às nossas celebrações, quem ressuscitará no Domingo de Páscoa?

Não sei. Mas acredito que se tratará de uma entidade que apela ao mais puro que há em nós, e nos convida a ir além da nossa imperfeição humana para fazermos um mundo melhor. O que quer que seja que isso signifique para cada um de nós.


17 abril 2017

serviço público: hoje, Paixão segundo São Mateus de Bach, com encenação de Peter Sellars, transmissão gratuita



Esta é a peça mais extraordinária de todas as que vi até agora na Filarmonia de Berlim. Acabei de descobrir que hoje está disponível gratutitamente no Digital Concert Hall.



quem é responsável pelo ataque químico de Chan Scheichun?

O Lutz Brücklemann deu-se ao trabalho de traduzir e publicar no facebook boa parte de um artigo do SPIEGEL do dia 12 de abril que compila a informação verificável até a data e avalia as alegações contraditórias sobre o ocorrido.

Repasso aqui (com ligeiras alterações), para o trabalho dele chegar a mais pessoas:
 
 [..] Mais de uma semana se passou desde o incidente. O que se sabe sobre os acontecimentos em Chan Scheichun?
 
O momento do incidente  
Às 06:30 horas locais, testemunhas residentes na cidade informaram de ataques aéreos. Às 07h59, o repórter local Mohammed Sallum al-Abd publicou no YouTube um vídeo mostrando o ataque. Vêem-se várias grandes colunas de fumo e uma menor, um pouco ao lado. No título do vídeo Abd escreve que foram usadas "bombas de veneno" no ataque. Com base na posição do sol pode concluir-se que o vídeo deve ter sido gravado logo após o nascer do sol. Na terça-feira o sol nasceu em Chan Scheichun em cerca de 6h15. 
Às 10 horas locais já há também relatos da utilização de gás veneno por agências de notícias, referindo médicos e ajudantes civis no local. Gravações vídeo de vítimas com dificuldade respiratória e convulsões já estão a circular na Internet por essa altura. 
Apesar destes factos a Rússia apresenta uma versão muito diferente: de acordo com esta, a força aérea síria realizou "entre 11h30 e 12h30 um ataque aéreo na margem leste da localidade Chan Scheichun contra um grande depósito de munições e equipamento militar dos terroristas", disse Igor Konaschenkow, porta-voz o Ministério da Defesa russo. "No território deste depósito encontravam-se pavilhões para a produção de minas explosivas que estavam preenchidas com toxinas." 
O veneno teria sido libertado pelo ataque e causado a morte das pessoas em Chan Scheichun - assim a versão russa que o minístro sírio de Negócios Estrangeiros Walid al-Muallem repetiu na última quinta-feira. O primeiro ataque foi feito às 11h30, afirmou o ministro. 
 
O local do crime 
Esta versão russa-síria não pode estar certa e está claramente em oposição às imagens de vídeo de Chan Scheichun. Além disso: a Rússia diz que o ataque à alegada oficina de armas químicas tinha ocorrido na periferia leste de Chan Scheichun. As pessoas que morreram do ataque de gás venenoso, porém viviam na periferia norte. Exatamente ali, há também uma pequena cratera, que terá aparentemente sido deixada pela munição com agentes químicos. 
Kareem Shaheen, jornalista do jornal britânico "Guardian", visitou Chan Scheichun no dia após o ataque. Ele encontrou ao redor da cratera no norte um grande número de casas não danificadas em que pessoas tinham morrido. E descobriu vários silos de cereais e um armazém que tinha sido destruído. Imagens de satélite mostram que estes edifícios já foram destruídos pelo menos desde fevereiro 2017. Moradores locais contaram a Shaheen que os edifícios até já foram destruídas há cerca de meio ano. 
Uma coisa é certa: não há nenhum indício que, na parte de Chan Scheichun de que as vítimas do gás venenoso são oriundas, foi atingido qualquer casa na terça-feira passada. Existe apenas a cratera na estrada. 
Lugar e hora avançados pelo Ministério da Defesa russo, encaixam melhor numa segunda onda de ataques de terça-feira passada. Por volta de meio-dia caças bombardearam o hospital e o centro da proteção civil. O hospital está localizado na extremidade oriental de Chan Scheichun. Voluntários tinham construído lá o hospital parcialmente abaixo do solo para protegê-lo de ataques aéreos. 
Apesar disso, foi fortemente danificado no ataque aéreo do meio-dia da terça-feira. O hospital está localizado a cerca de dois quilômetros em linha reta da área no norte da cidade, donde veio a maioria das vítimas do gás venenoso. O governo dos EUA acusa a Rússia e a Síria de terem tentado destruir com o ataque ao hospital evidência do uso de gás venenoso.
 
O avião 
Rebeldes, testemunhas oculares e o Pentágono relatam conincidentemente que um jato de combate do tipo Sukhoi Su-22 executou o ataque com gás venenoso. Um supervisor de rádio dos rebeldes relatou que aos 06h26 um jato Sukhoi com o identificador Quds 1 levantou vou na base da Força Aérea Schairat em Homs. Pouco depois seguido por um segundo bombardeiro, cujo piloto tinha o identificador Quds 6. Piloto Quds 1 teria então sido quem largou o veneno sobre Chan Scheichun. 
Na hora local 09h00, na terça-feira, a página de mensagens locais de Facebook "Lente em Chan Scheichun e arredores" relatou que a cidade tinha sido atacada com gás venenoso por "dois jatos Sukhoi-22 do regime de Assad." 
O Pentágono divulgou um gráfico que pretende mostrar a rota do avião Su-22 que realizou o ataque. Segundo este, o Jet circulou entre 6h37 e 6h43 sobre Chan Scheichun. 
O piloto sírio com o identificador Quds 1 terá, segundo os rebeldes que escutam o tráfego de rádio da Força Aérea, também sido responsável por um ataque com gás venenoso na cidade Latamne em 30 de março. Naquela época, várias pessoas ficaram feridas, revelando sintomas semelhantes aos de vítimas de Sarin.
 
O piloto 
Na sexta-feira, o Chefe do Estado Maior do exército sírio, Ali Abdullah Ayoub visitou a Base da Força Aérea Shairat - poucas horas depois de ter sido atingido por 59 mísseis de cruzeiro Tomahawk dos EUA. O Ministério da Defesa em Damasco divulgou um vídeo no qual se pode ver, entre outro, como Ayoub felicitou vários soldados. 
Fares Shehabi, membro do parlamento leal a Assad e chefe dos industriais sírios, twittou: "O Chefe do Estado Maior sírio agradece ao piloto Haytham Hasouri por ter destruído o esconderijo de armas do al-Qaeda em Chan Scheichun, Idlib." Entretanto Shehabi apagou o tweet. Já na terça-feira, o meio de comunicação da oposição síria "Oriente News" anunciou que Hasouri seria o piloto com o identificador Quds 1 - portanto o piloto que largou o veneno em Chan Scheichun. Ahmad Rahal, ex-general de brigada da Força Aérea síria, identificou o homem perante o "Times" nas fotos do Ministério da Defesa também como sendo Hasouri. 
Ele seria o chefe da brigada 50 da Força Aérea síria, estacionada em Schairat. Uma confirmação independente de que Hasouri é realmente o responsável pelo ataque, contudo ainda não existe. [...]  
 
A munição 
Ainda não é claro que tipo de munição continha o gás. Assumindo que todas as testemunhas no terreno mentem, a cratera no chão no norte de Chan Scheichun também poderia ter sido causado por um projétil de artilharia. De tais armas dispõe também a milícia terrorista “Frente para a conquista da Síria” e grupos rebeldes na província de Idlib, onde a cidade está localizada. Mas durante uma semana nem mesmo o governo sírio nem o russo proferiam a acusação de que as próprias milícias anti-Assad dispararam o gás venenoso sobre Chan Scheichun por artilharia, a fim de provocar uma intervenção ocidental na Síria. 
Apenas na terça-feira Vladimir Putin trouxe esta teoria indiretamente ao jogo. O presidente russo advertiu contra “provocações” futuras com armas químicas na Síria. Moscovo dispunha de informações segundo as quais ao sul de Damasco "foram espalhadas substâncias para acusar as autoridades sírias que elas o fizeram". Sem dizê-lo explicitamente, Putin assim insinuou que também o ataque contra Chan Scheichun foi encenado pelos rebeldes. 
O chefe do Kremlin comparou o ataque dos EUA contra a base de Schairat com a invasão do Iraque de 2003 liderada pelos EUA. Putin apontou com razão para que os americanos então invadiram o país sob o pretexto falso de que queriam arrancar armas de destruição em massa a Saddam Hussein. Mas, ao contrário de então, todos concordam desta vez que em Chan Scheichun foi utilizada uma arma de destruição em massa. 
 
O veneno
De acordo com o Ministério da Saúde turco, testes de sangue e urina de vítimas que foram estudados em hospitais turcos, provaram sem dúvida que foi usado Sarin. A presença dum produto de decaimento correspondente foi demonstrado, disse o ministro da Saúde Recep Akdag. Também a Casa Branca anunciou que foi detetado Sarin em amostras. 
Representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) estiveram presentes nas autópsias. Ambas as organizações já anunciaram que há fortes indícios de as vítimas terem sido expostas a um agente nervoso. Se este realmente foi Sarin, ou um material semelhante como Tabun, ainda não é claro. 
Sarin normalmente é inodoro. No entanto alguns sobreviventes de Chan Scheichun referiam um cheiro acre. Testemunhos semelhantes já existiam no ataque com gás venenoso em subúrbios de Damasco em 21 de agosto de 2013. Isso pode ser porque foram adicionados ao Sarin outros produtos químicos. Ou o cheiro provêm duma das matérias-primas para a produção de Sarin. Após o ataque com gás Sarin no metro de Tóquio em 1995 ou após o ataque com gás venenoso iraquiano na cidade curda de Halabja, em 1988, em que também foi usado Sarin, sobreviventes igualmente falaram de cheiros caraterísticos. 
Assad comprometeu-se em setembro de 2013 para destruir todas as armas químicas. Sob a supervisão da OPAQ foram, em seguida, desativadas num navio especial no Mediterrâneo todas as armas químicas oficialmente declaradas - um total de cerca de 1.300 toneladas. Contudo: Sempre foram apenas as armas químicas que o regime de Assad declarou. Até então, Damasco tinha negado categoricamente possuir gás venenoso. Existem dúvidas de que a Síria realmente removeu todas as armas químicas para fora do país. Inspetores da OPAQ encontraram várias vezes - inclusive em dezembro 2014 e janeiro de 2015 - vestígios dos gases nervosos Sarin e VX em instalações de pesquisa militar na Síria. O regime não foi capaz de explicar satisfatoriamente a descoberta, dizia-se nos círculos dos investigadores da OPAQ. O especialista em armas químicas John Gilbert estima que em Chan Scheichun foram usados apenas 20 litros de Sarin. 
Até agora não há nenhuma evidência de que os rebeldes sírios possuem ou já possuíam Sarin ou um veneno semelhante.É certo que as forças militares russas alegaram que insurgentes em Aleppo teriam utilizado gás de cloro contra o exército sírio no ano passado. Provas para isso até ao momento não há. A OPAQ ainda não completou a investigação destas alegações. Mas Sarin é muito mais complicado de fabricar e instável do que o gás de cloro; é geralmente misturado pouco antes do uso a partir de duas componentes. Uma das quais é altamente explosiva e teria criado uma enorme bola de fogo se tivesse sido atingido por uma bomba. Nada disto se viu depois do ataque da última terça-feira. [...] 
 
 

Este fotógrafo é tão bom que (agarrem-me!) estava capaz de ficar o dia inteiro a olhar para os trabalhos dele!

Senhoras e senhores: Alexander Petrosyan!
Podem passear mais aqui:
- Alexander Petrosyan
- Street Photography by Alexander Petrosyan 








16 abril 2017

todo o instante é Páscoa


A vida do Ressuscitado está escondida em nós, como o fermento que leveda o pão, e é a espessura da nossa humanidade sofrente e jubilosa. 

A vida do Ressuscitado é-nos dada, mas discreta e leve como é leve uma palavra ou um perfume... 

Acreditemos na vida de Cristo mais forte do que a morte. Acreditemos na sua força, capaz de nos acordar do torpor e do amolecimento, como o grão que na Primavera faz acordar a terra. Acreditemos na vitória da vida, na insubmissão que vence o mundo. 

Todo o instante é Páscoa, toda a vida é passagem.


José A. Mourão ( da homília: O nosso destino é pascal)

Putin faz planos para o seu túmulo...

Pensando no futuro, Putin começou a fazer planos para o seu túmulo. O Vaticano fez-lhe uma oferta para ser enterrado entre os papas, por um preço razoável. "Que me interessa a mim ser enterrado na Igreja Católica entre papas que já nenhum palerma conhece? Não, obrigado. Vamos continuar a procura de algo adequado." - foi a reacção de Putin. A segunda proposta era para ser sepultado no mausoléu de Lenine, ao lado ou até em cima dele. "Interessante, mas pergunto-me se alguém vai saber quem é Lenine daqui a cem anos." Entretanto chega a última oferta, irrecusável: no túmulo de Jesus, em Jerusalém, por 100 milhões de euros. "A localização é fantástica", disse o presidente ao seu secretário, que lhe apresentara a oferta. "Melhor que isso é impossível. Mas acho o preço é demasiado alto. Avisaste-os que era só para três dias?"

(da página de facebook do Wladimir Kaminer)

14 abril 2017

"martírio"

 (fonte)

Um refugiado amigo do meu filho contou-lhe alguns dos momentos terríveis que passou na Turíngia. Por exemplo: estar fechado numa casa cercada por neonazis enfurecidos. Ou não poder sair à noite nem para ir à bomba de gasolina mais próxima, porque havia grupos de neonazis à espera, para dar uma tareia a algum refugiado que saísse do centro para ir à loja de conveniência.

Acompanho as estatísticas dos ataques a refugiados na Alemanha, sei que este ano - e ainda só vamos no quarto mês - já houve 9 ataques incendiários a centros de refugiados, e 15 casos de violência com danos corporais. Mas uma coisa é conhecer os números, e outra coisa é sentir o medo, o pavor de se saber cercado por brutamontes que alimentam a sua violência com ódio xenófobo. Tenho ideia do que será esse medo: uma vez assisti a uma marcha de 200 neonazis ao lado da minha casa. Estava a algumas dezenas de metros deles, numa perpendicular da rua em que desfilavam, e não era o objecto directo do seu ódio. Mesmo assim, senti um medo terrível. Ontem, quando o meu filho contava as histórias do seu amigo, lembrei-me dos urros que ouvi nesse desfile, e por uns momentos estive dentro da pele daquele homem. Como é que os refugiados aguentam estas tensões? E como é que aguentam viver sem condições mínimas, durante meses e anos à espera de uma decisão do Estado sobre a sua permanência neste país ou o repatriamento? Como é que aguentam a decisão de serem repatriados - para o Afeganistão, por exemplo - porque o seu país não é considerado "assim tão perigoso"? 

Sei, de outros amigos dos meus filhos que já aprenderam alemão e arranjaram um bom trabalho, como é o choque ao receber a carta que os obriga a regressar ao seu país. No lugar deles, tentaria todos os esquemas possíveis para ir ficando. Tanto mais que são tratados como meros peões no difícil jogo político de cedências e equilíbrios possíveis.

Hoje é Sexta-feira Santa. Falamos tanto do sofrimento de Jesus Cristo, e esquecemos tão facilmente o sofrimento horroroso, o medo, a angústia, o desespero destes que precisam da nossa ajuda. Fui à igreja, ouvi o padre na homilia mencionar o martírio de Jesus, e citar o pedagogo Pestalozzi, que terá dito que o sofrimento tanto pode elevar o ser humano como pode torná-lo selvagem. Fiquei a pensar que há algo de hipócrita no modo como acusamos aqueles que acabam transtornados pelos sofrimento. Como se esse sofrimento fosse inteiramente alheio à nossa vontade e responsabilidade. Falo das armas das quais eles fogem, tantas delas fabricadas e vendidas por empresas europeias. Falo dos conflitos dos quais eles fogem, em grande parte causados por uma gestão egoísta e arrogante dos nossos interesses. Falo do ódio e do racismo com que se deparam ao chegar à Europa, e falo do comodismo com que viramos costas e ignoramos o seu martírio. É muito mais fácil chegar à Semana Santa e pensar no que Jesus sofreu, vai para 2000 anos, para a redenção dos nossos pecados...


estratégia de sobrevivência em dia de mau tempo



Se a vida te dá nuvens e vento, põe a Khatia Buniatishvili a tocar o segundo concerto para piano do Rachmaninov, e encanta-te com a beleza da luz do sol nas árvores contra o fundo pesado de chuva, e com o espectáculo dramático no céu.

Arrebatador.







Já que estás com a máquina fotográfica na mão, vai até ao centro à volta do Ku'damm, e faz figura de tonta - sem te importares nada! - a esperar por uma oportunidade de sol a cortar as nuvens e semáforo verde em simultâneo, para ir até ao meio da rua tirar uma fotografia da Igreja da Memória e da torre dos sinos, que está em obras. Só uma, antes de cair o vermelho e teres de correr para o passeio.

Se o semáforo estiver vermelho quando vier o sol, fotografa o que vês do lugar onde estás.

Depois entras no Bikini Berlin para fotografar de novo o Adieu Tristesse, mas isso fica para outro post.






















13 abril 2017

atentado de Dortmund

Ultimamente dou comigo a consultar o site do Bild para ler, em cima do acontecimento, notícias com mais detalhes . Além de parecerem mais informados que os outros, explicam com clareza.
A pedido de vários amigos passo um resumo de dois artigos ("Atentado bombista contra o autocarro do BVB - pedaços de metal voaram até 100 m de distância", de 12.04.2017 - 23:21, e "Especialista analisa o conteúdo da mensagem do ISIS", de 12.04.2017 - 21:54 )

Podem clicar nas imagens para ver melhor.

(Bild: os vidros de segurança duplos do autocarro estão partidos)

Tradução das caixas:
1. Saída do autocarro às 19:15
2. Explosões simultâneas às 19:16. Os explosivos estão escondidos numa sebe ao longo da rua, numa extensão de cerca de 20 m.
3. A explosão é tão forte que alguns pedaços de metal se cravam na parede da casa em frente.
4. Gravemente atingido, o autocarro vira à direita e pára (19:17).
5. Os jogadores saem do autocarro. Alguns correm para mais longe, e reúnem-se 80 m à frente.
Topo, à esquerda: uma residente diz que toda a casa tremeu.
A vermelho: as mensagens foram encontradas junto ao local da explosão.


"Em nome de Alá, o misericordioso, o compassivo,

Os nossos abençoados irmãos já mataram 12 infiéis na Alemanha. Mas pelos vistos, Merkel, tu não te importas com os teus pequenos súbditos sujos. Os teus Tornados continuam a voar sobre o território do califado, para assassinar muçulmanos. No entanto, nós permanecemos firmes pela graça de Alá.

A partir deste momento,
constam da lista da morte do Estado Islâmico todos os infiéis que forem  actores, cantores, desportistas, bem como pessoas famosas na Alemanha e nas outras nações de cruzados .

E assim ficará enquanto não forem cumpridas estas exigências:
- retirar os Tornados da Síria
- fechar a Ramstein Air Base."


Foram encontradas três exemplares desta mensagem junto ao local do atentado.

Os autores do atentado tiveram o cuidado de pôr as bombas num local fora do raio das câmaras de vigilância do hotel. A construção e a activação das bombas exigem um elevado conhecimento técnico. O autocarro foi apanhado em cheio, o que significa que os criminosos estavam por perto e sabiam exactamente quanto tempo é que as bombas demoravam a detonar.

Embora a mensagem pareça islamista, há algumas dúvidas. O especialista em terrorismo Peter Neumann disse em entrevista ao Bild:

- É a primeira vez que deixam três exemplares da mensagem no local do atentado.
- O texto foi escrito em alemão, e faltam os símbolos típicos do ISIS.
- A formulação "Califado" é atípica. Os verdadeiros adeptos do ISIS nunca fariam essa formulação. Eles falam em "Khilafa" - é esse o conceito ideológico do "Estado Islâmico", o nome de marca. É como se nós disséssemos "computador maçã" em vez de "PC Apple".
- São feitas exigências concretas. O ISIS nunca entra neste tipo de detalhes. Os seus membros costumam dizer frases do género: "Lutaremos até vos termos exterminado e o Estado Islâmico se espalhar por todo o mundo". E nunca sugeriria que é possível comprar a sua boa vontade com o encerramento de uma base aérea.
- A formulação sobre a Merkel e os "pequenos súbditos sujos" é mais própria da extrema-esquerda. Nunca apareceu nada semelhante num texto islamista.

Ainda há dúvidas sobre a origem islamista da mensagem, mas na quarta-feira foi detido um iraquiano que está há muito tempo sob a mira da polícia. Suspeitava-se que tivesse explosivos em casa, e num telefonema que estava sob escuta fez alusões suspeitas. Não se encontrou nada na casa dele, e os cães não descobriram qualquer rasto de explosivos. A polícia também investigou um libanês porque ao entrar na sua casa devido a um conflito familiar descobriu um guarda-chuva do hotel onde a equipa estava alojada. O suspeito acabou por sair em liberdade.
 
(Bild: Sebe onde as bombas estavam escondidas.)

Também apareceu outra mensagem, desta vez numa plataforma da internet usada pela extrema-esquerda. Peter Neumann considera improvável que seja verdadeira, dizendo que é muito parecida com uma que apareceu após os ataques à mesquita e ao centro de congressos em Dresden, em Dezembro de 2016, e que se revelou ser uma falsificação com origem em grupos da extrema-direita.
Conclusão: há tantas contradições que não se pode considerar provado que este ataque é obra de islamistas. É preciso investigar também noutras direcções. O explosivo usado poderá dar pistas sobre a autoria do atentado, uma vez que os vários ramos de terrorismo têm cada um a sua preferência.

Mais alguns excertos da entrevista:

- O modo como as bombas foram colocadas lembra um método muito usado no Iraque, por exemplo. - Deve haver vários envolvidos, que terão alguma experiência na construção de explosivos; a operação foi planeada com todo o cuidado.
- O ISIS já aconselhou as pessoas a evitar usar explosivos, porque a construção de bombas se tem revelado demasiado complicada, e sugeriu que recorram antes a meios mais simples, como facas ou veículos. 
- A hipótese de terem sido simpatizantes do ISIS não é de afastar. O ISIS tem vários modos paralelos de acção: faz os seus próprios atentados, dá indicações aos seus seguidores para fazerem outros, e também diz aos simpatizantes que devem avançar sem esperar apoio da organização.
- A hipótese de terem sido hooligans é posta de parte porque nesse caso as mensagens não se dirigiriam contra toda a Alemanha, mas apenas contra o Borussia Dortmund. 
- O ISIS ainda não se pronunciou sobre este atentado. Enquanto os seus autores não forem presos, o mais provável é continuar em silêncio, para proteger os seus (eventuais) membros. Também não se pronunciou sobre o atentado em Estocolmo, porque o autor ainda está vivo.
- Porquê um atentado com apenas dois feridos? O ISIS já percebeu melhor que qualquer outro que no terrorismo o que importa é criar terror. Isso não implica necessariamente matar muitas pessoas. Com a decapitação de um padre em França, uma única pessoa, o ISIS conseguiu semear muito mais medo e pânico que com ataques que mataram 15 pessoas. Se um camião em Berlim avança sobre um grupo de pessoas, o objectivo é provocar o maior número possível de mortes. O que importa no ataque a um alvo concreto, como o autocarro de uma equipa de futebol famosa, é a força simbólica. Nenhum jogador de futebol e nenhum adepto deve sentir-se seguro. 


dia mundial do beijo

(Trouxe da Enciclopédia Ilustrada)



A kiss could've killed me
If it were not for the rain
A kiss could've killed me
Baby if it were not for the rain

And I had a feeling it was coming on
And I felt it coming
For so long
If I'm to be the fool
Then so it be

This fool can die now
With a heart that's soaked
How
How had it coming
For so long

And darling take my hand
And lead me through the door
Let's kidnap each other
And start singing our song

My heart is charged now
Oh, it's dancing in my chest
And I fly when I walk now
From the spell in that kiss

Cause I ...

It could've
It could've killed me
It could've killed me
If it were not for the rain

Oh darling let me dream
Cause somewhere inside me
I have been waiting
So patiently
For you

So don't you break
Don't break my dream
Don't break my dream

Let the rain exalt us
As the night draws in
Winds howl around us
As we begin
What a way to start a fire
Broken with the break of day

A kiss could have killed me
If it were not for rain

And I have a feeling it's coming on
And I felt it coming on
for so long

And oh it could've
It could've killed me
It could've killed me
If it were not for the rain



12 abril 2017

unidade de produção familiar


Ontem, ao jantar com amigos, reparei que por trás de mim havia dois quadros com partituras. Brincando, comentei que estava sentada junto a dois originais de Bach. Responderam-me que não eram originais, mas reproduções exclusivas. O dono da casa tinha sido o responsável da restauração de todo o arquivo de Johann Sebastian Bach. E contou que o Thomaskantor tinha de produzir pelo menos uma cantata por semana, a um ritmo tal que o levou a criar em casa uma autêntica linha de montagem: um dos filhos riscava as pautas na folha, o Carl Philipp Emanuel compunha as melodias, e no fim o pai dava o seu toque de génio ao conjunto. Nas folhas que ele tratara notava-se bem o apagado e o recomposto. E notava-se também a falta de dinheiro: se um tinteiro caía sobre a folha, cortavam a mancha, emendavam com um bocado de papel e cola de farinha, e continuavam.

Não sei se é verdade. Mas gostei da imagem de uma linha de montagem familiar. E gostei do brilhozinho nos olhos de quem contava, e das histórias que fazia nascer das folhas que tratou.