01 abril 2015

ser Charlie - um exemplo para debate


"Hetze" é uma daquelas palavras alemãs que não se consegue traduzir bem (talvez: acossar ou acosso), e que ultimamente tem sido muito usada.
Para tentar chegar lá com exemplos, aqui vão alguns títulos do "jornal" Bildzeitung sobre a Grécia e a crise do euro:

- "Tirem o Euro aos gregos!"

- "Gregos: mais ricos que nós!"

- "O russo ou o grego: qual deles é mais perigoso para nós?" (note-se que escrever "Russe" e "Grieche", como apareceu nesse título, é uma escolha que vai beber directamente à retórica nazi)


O Bildzeitung tem sido alvo de duras críticas por fazer campanhas de Hetze. E não é de hoje. Já contei aqui, há muitos anos, que vi um cliente de uma tabacaria a protestar alto e bom som "não tem vergonha de ter à venda um jornal com xenofobia descarada na primeira página?!" A dona da loja balbuciou alguma coisa sobre a liberdade de expressão, e o cliente saiu porta fora, irado.
Há cerca de um mês, quando esse jornal iniciou uma campanha de selfies com a primeira página do jornal, onde se lia "NÃO! Não vai mais nenhum milhar de milhões para esses gregos gananciosos!", foi muito criticado pela Associação de Jornalistas Alemães, que lhe lembrou que há uma grande diferença entre informação jornalística e criação de campanhas para pressionar os políticos.

O episódio mais recente de protestos deve-se ao espectáculo indecoroso que o Bild tem feito à volta da tragédia do avião Germanwings. Entre outras vergonhas, publicaram logo no momento em que se soube da tragédia um texto que vomitava assim:
"Queridas vítimas da queda do avião,
na sala da chegada o tapete das bagagens, que devia trazer as vossas malas, não se mexe. Normalmente há grande agitação - empurrões para chegar às mochilas, às Samsonites. O tapete em Düsseldorf não se move porque os mortos não recolhem a sua bagagem. Os mortos e as malas estão espalhados nos Alpes franceses. No avião havia dois bebés e uma turma alemã regressava de um programa de intercâmbio escolar."
Agora começaram a Hetze contra os pais do piloto. Fotografam a casa deles, juntam uma fotografia do filho, e perguntam cinicamente em letras garrafais: "O que passará pela cabeça destes pais? O próprio filho, um assassino em massa. Como é que os pais do piloto amok Andreas Lubitz conseguem viver com esta realidade?"
As pessoas reagem. Dizem que o processo ainda está em curso, que ainda é cedo para tirar todas as conclusões. Além disso, para os alemães, que prezam imenso o respeito pela esfera privada das pessoas, fotografar a casa dos pais e publicar por extenso o nome de um alegado culpado (quando o normal é escreverem apenas a inicial do apelido - por exemplo, o adolescente que em Winnenden matou 15 pessoas e a seguir se suicidou era o "Tim K.") vai muito além do que é aceitável.

A reacção: cada vez mais postos de venda estão a boicotar o Bild. Começou com uma estação de serviço que deixou um aviso, no sítio onde costumava estar esse jornal, informando que se recusava a vender um jornal que faz campanhas de Hetze. Outras lojas seguiram-lhe o exemplo. Uma delas foi ainda mais longe: deu o correspondente do dinheiro que deixou de ganhar com a venda do Bild a uma associação de ajuda às vítimas de esclerose múltipla (imagino que queiram limpar a consciência de culpa de terem ganho algum dinheiro a vender aquele lixo).

Sim, claro, Charlie e tal.
Mas, antes de mais, Charlie é sátira, o que é diferente de jornalismo. E mesmo a sátira tem limites. A melhor frase que li a respeito disso é esta (de um artigo que hei-de traduzir e publicar aqui quando tiver mais tempo): "O autor satírico é um idealista frustrado. Quer um mundo melhor, e irrita-se com as falhas deste. Por isso faz trabalhos satíricos a pôr o dedo na ferida."
Aí está: a própria sátira está enquadrada por valores éticos. Não vale tudo.

No caso do jornalismo, e justamente porque todos somos Charlie, só posso aplaudir que a população levante a voz para protestar contra jornais que abusam do poder do jornalismo e da liberdade de expressão.

Mas acredito que outras pessoas tenham outra opinião (nomeadamente os consumidores do Bild).
Dá um belo debate:
Seria eu capaz de me deixar matar para o Bild ter o direito de fazer aquelas capas horrorosas? Desculpa, Voltaire, mas não. E tu, provavelmente, também não.
Seria eu capaz de fazer uma fogueira com o Bild numa praça central de Berlim, para o queimar de forma exemplar? Não. Mas não teria dúvidas em forrar o meu caixote do lixo com ele, se o tivesse cá em casa.
Devo passar a responsabilidade de corrigir desvios para o sistema de Justiça, esperando que alguém processe e que os tribunais resolvam, caso a caso? Ou há uma parte do trabalho de defesa da Democracia que pode ser realizado pela participação activa e pacífica - nomeadamente: acções de debate e de crítica - da população?
Recusar-se a vender um jornal é um acto de censura? Ou os donos das lojas podem e devem decidir livremente sobre os conteúdos que vendem?


maldita terra onde o sol nunca se põe!




Estou desde as seis e meia da manhã a tentar falar ao mesmo tempo com pessoas na Arménia e na costa ocidental dos EUA.

Se me deixassem mandar, dizia a Deus que criasse um mundo em linha, em vez de em esfera. Morávamos todos na mesma longitude, nem tínhamos fusos horários nem jet lag nem nada.


(A verdade é que estou desde as seis e meia da manhã a falar com gente amorosa em vários sítios do mundo. Sobre esta parte, tenho de dar a mão à palmatória: Deus esmerou-se. Obrigadinha, ó Amigo!)


31 março 2015

sobre o tempo que faz em Berlim



Quem quiser saber quando é que chove em Berlim, é só perguntar-me quando tenciono levar o Fox à rua. Por estes dias chove sempre cinco minutos depois de termos começado o passeio. E é quando não neva.


Também está a passar um temporal dos bonitos por aqui. O que deu origem a good news e bad news.

A boa: o Joachim, ao saber que o vizinho estava com medo de se fazer à estrada para várias centenas de quilómetros no seu Porsche levezinho que pode ser levado pelo vento, foi logo oferecer-se para andar ele por aqui com o Porsche e o vizinho sair para a auto-estrada no nosso quase-camião-TIR, que é muito mais estável para atravessar o temporal. O altruísmo é uma coisa muito bonita.

A má: as persianas da nossa casa têm um sensor para temporais. Quando o vento começa a excitar-se demasiado, elas recolhem automaticamente. Só que o Joachim detesta cortinas ("temos persianas, não precisamos de cortinas") e o nosso quarto tem uma janela de alto a baixo e da largura de meia parede. Outro dia acordei de madrugada, e vi que estava a dormir praticamente na rua, opticamente falando. E esta noite as persianas nem vão descer. Sou a "noiva da cidade", buarquemente falando.

(A árvore da fotografia não caiu devido ao temporal. Parece que alguém a deitou abaixo ilegalmente, e agora andam a perguntar aqui pela vizinhança se alguém notou alguma movimentação estranha junto ao lago.)


a cultura popular pela hora da morte

Estava mesmo mesmo para dizer que este ano se cumprem todos os ditados,

- Março marçagão, de manhã inverno de tarde verão

- Em Abril águas mil (e isto porque nos últimos dias as nuvens começaram a entrar em incontinência: todos os passeios com o Fox têm sido interrompidos abruptamente por chuvadas intensas vindas não se sabe de onde)

...mas eis que esta manhã amanheceu a nevar. Neve a 31 de Março!

Já não há respeito pela cultura popular?!


30 março 2015

obrigada por pedires ajuda, filha



Quando os meus filhos eram pequeninos e choravam a meio da noite, eu levantava-me para cuidar deles sentindo que ninguém no mundo naquele momento seria capaz de os ajudar melhor do que eu. Às vezes bastava uma palavra, um beijinho. Às vezes era preciso mais. Inalações, ou limpar pela casa toda os excessos de uma gastroenterite, por exemplo. Passei algumas noites de Inverno a dormir sentada no sofá da sala, com a cabecinha do Matthias pousada no meu ombro, a janela aberta para ele respirar o ar seco e gelado - o que era melhor para os seus pulmões -, e no dia seguinte andava animada e cheia de energia. Sentir-me útil e especial para as pessoas mais importantes da minha vida dá uma onda muito boa.

Esta manhã, quando a Christina ligou da Bolívia, muito aflita porque não a deixavam entrar no avião por falta do boletim de vacinas, acalmei-a, e depois procurámos juntas uma solução. No fim ela agradeceu muito, "que seria de mim sem ti?", e eu ri-me, "resolvias o problema sozinha, tenho a certeza!" Mas senti-me feliz por ter podido ajudar - sobretudo por ela ter sentido que não estava só e tudo se ia resolver.

Há tempos ela contou-me que uma vez pediu às amigas que nos avisassem caso a vissem a escorregar para a toxicodependência. "Bem sei que os meus pais me vão dar o raspanete da minha vida, mas vão-me ajudar", disse ela.

Que podemos nós desejar mais do que esta confiança dos nossos filhos já grandes, de que saberemos ser-lhes abrigo no meio da tempestade?

(Bem sei que mais tarde serão eles o nosso abrigo - "vejam lá como nos tratam, somos nós quem vai escolher o vosso lar!", ameaçam eles, com um sorriso malandro. Bem sei que o nosso lugar será cada vez mais o de espectadores discretos e pudicos, enquanto eles vão conquistando com segurança o centro no palco da vida deles. Mas, para já, é assim que a vida vai, e sinto-me grata por isso.)


não se pode dizer que a minha vida é uma pasmaceira

Está uma pessoa calmamente sentada a fazer uma corrida contra o tempo, e toca o telefone: é a filha, às cinco da manhã do outro lado do mundo, a dizer que se esqueceu do boletim de vacinas e não a deixam ir da Bolívia para a Costa Rica sem provar que tem a vacina da febre amarela.

Se alguém conhecer alguém que faça milagres, agradeço.


ADENDA:
A quem quiser saber como é que a história acabou: consegui que lhe mandassem imagens do boletim. Ela imprimiu, e foi fazer um choradinho às senhoras do aeroporto, disse que estava sem dinheiro (por acaso é verdade), que ia ficar na Bolívia sem ter para onde ir nem como se desenrascar, etc. As senhoras foram para um canto falar sobre o caso dela, e riram-se tanto e com tanto gozo que puseram a Christina furiosa e sem vontade nenhuma de voltar àquele país. Depois pagou 20 euros, e uma médica passou-lhe um atestado de vacina que foi agrafado ao seu passaporte.
Escreveu-me de Quito, onde tinha uma paragem de cinco horas. Estava a ler, sentada ao sol.


28 março 2015

"calma, é apenas um pouco tarde"

"Was ist die Welt?" - uma canção da Renascença alemã que bem podia ter sido composta para os nossos dias.
Perante estas coisas (esta canção, ou Platão a dizer mal "desta juventude", ou o Eça a dizer horrores dos políticos portugueses, ou o Ramalho Ortigão, etc.) fico aliviada. O mundo arrasta estes problemas há centenas de anos - e daqui a centenas de anos estaremos ainda a lamentar-nos do mesmo. Assim seja, ámen...



O que é o mundo?

Só o dinheiro tem preço.
A todos falta diligência.
Ninguém cuida
do mal que se faz às almas.
Ninguém teme a Deus!
A honra pouco conta.
O interesse próprio é que manda,
sem suborno não há protecção.
E assim se age contra os pobres.
Ao fim e ao cabo
cada qual sabe
como acaba aqui o seu tempo,
mas nunca reconhece a causa.
O transitório cegou-o.

**

Was ist die Welt?

Geld
hat allein Preis.1
Fleiß
bricht2 jedermann.
Niemand sicht3 an,
was das der Seelen schaden kann.
Kein Gott’sforcht mehr!4
Ehr’
wird wenig g’acht’t.
Macht
der Eigennutz
ahn6 Gab’7 kein’n Schutz.
Damit beut man dem Armen Trutz.8
In B’schluß und End’
kennt
jedlicher,9  wie
hie
sein’ Zeit vollend’t,10
gar nie erkennt11
Ursach’. Ihn hat das Zeitlich’ blend’t.12 

 1 Geld allein wird gepriesen.
 2 gebrechen = fehlen 

 3 beachtet  
 4 keine Gottesfurcht gibt es mehr. 
 5 es verleiht  
 6 ohne 
 7 Geschenk zur Bestechung  
 8 Damit handelt man zum Nachteil der Armen.  
 9 jeder  
 10 wie er ... vollendet  
 11 aber er erkennt nie 
 12 geblendet

(Texto original encontrado aqui.)

a propósito da tragédia do voo 4U 9525

Do mural de facebook da Helena Ferro de Gouveia:

- Na imprensa matinal alemã a ex-namorada do co-piloto conta que já em 2014 ele anunciara que "iria fazer algo que mudaria o sistema e que poria toda a gente a falar dele". Na altura ela diz não ter compreendido aquelas palavras.

- Em todos os grandes jornais alemães a Lufthansa e a Germanwings publicam um anúncio de condolências por todas as 150 vítimas da catástrofe. A comunicação e a gestão de crise da LH tem sido exemplar e digna (um case study). 

- No dia 17 de Abril, na Catedral de Colónia, terá lugar uma missa em homenagem às vítimas que contará com a chanceler e o presidente alemão, com o chefe de governo espanhol e presidente francês entre outros representantes políticos. A cerimónia está aberta a quem deseje participar nela.


1.
Se alguém me dissesse que ia mudar o sistema e ficar famoso, eu iria a correr contar à polícia? Quantos polícias seria preciso ocupar para vigiar todos os complexados gabarolas que por aí andam?


2.
Num mundo cada vez mais mediatizado, no qual as pessoas estão dispostas a muito (ou a tudo, infelizmente) para conquistarem um espaço de visibilidade e fama, como nos podemos proteger?
Lembro-me de a Fernanda Câncio já ter dado uma resposta possível a esta questão, numa crónica que escreveu sobre o terrorista de Utoya, sem mencionar uma única vez o seu nome. Talvez seja a solução: quem cometer estes actos é deliberadamente apagado da História. Não se saberá sequer o seu nome.

3.
A Helena Ferro de Gouveia fala num case study, e eu penso logo em três, pelo menos:
- a comunicação e a gestão da crise da Lufthansa (anúncio de condolências por todas as 150 vítimas? também pelo piloto que os matou?!),
- a tentação securitária das pessoas (lembram-se quando queriam betonar todas as arribas das praias?)
- o interessante fenómeno que tenho visto em alguns murais do facebook em português: pessoas que se aproveitam desta tragédia para fazer insinuações torpes sobre a Alemanha em geral e a LH em particular. (O que Pedro diz de Paulo revela mais sobre Pedro que sobre Paulo...)


27 março 2015

caminhar na neve



Tenho de me organizar melhor, porque não estou a conseguir viver e descrever ao mesmo tempo.
Por exemplo: já comecei a fazer as malas para irmos visitar o Matthias ao outro lado do mundo, e ainda não contei como foram as férias nas Dolomitas, na semana passada (há uma eternidade, aliás).
Ontem uma amiga protestou (os meus amigos vêm ao blogue saber da minha vida para pouparmos tempo, depois quando nos encontramos metade da conversa já está feita) (então devíamos ficar metade do tempo em silêncio, não é?) (não sei porquê, não ficamos) (tanto melhor) e portanto cá vamos nós a isto.

Ora bem: o ponto mais alto da minha semana nas Dolomitas, à parte
- termos ficado num hotel italiano com meia pensão (aaaah, meia pensão! haverá lá coisa melhor para uma mulher que anda há quase 40 anos a sofrer a dúvida existencial e recorrente sobre o que é que vai cozinhar hoje?),
- o jantar ter 4 pratos (de comida italiana, hmmmm, anunciada com pompa, a "carne salada del Trentino", os "brócolos de Torbole", o "milho de Storo", a "polenta do Valle del Chiese", e assim, e eu a pensar como seria um menu de um restaurante português que anunciasse orgulhosamente a origem dos produtos, "presunto de Matancinha de Baixo", "azeite de Freixo-de-Espada-à-Cinta, "tomates de Alfarim", "salsa de Sarilhos Grandes", "coentros de Sarilhos Pequenos", etc.),
- o hotel ter uma piscina e um espaço de sauna e banho turco que era de suar e chorar por mais,
- estar numa cidadezinha engraçada, Maddona di Campiglio, rodeada de florestas onde dei belos passeios com o Fox,
o ponto mais alto, dizia eu, foi a caminhada na neve.
(Pensando bem, o ponto mais alto foi o livro Mar, do Afonso Cruz, que li e logo a seguir reli, mas adiante.)

A verdade é que, ao fim de vinte anos a fazer cursos de ski para principiantes, e de chegar ao fim da semana sempre muito aliviada por não ter caído nem partido bocado nenhum de mim, resolvi mudar de vida. No ano passado descobri o prazer das caminhadas na neve, e agarrem-me, que um dia destes compro um par de raquetes, saio por aí e só paro quando encontrar o abominável homem das neves.

A caminhada: subimos nas cabines, chegámos a uma pista cheia de gente que lembrava um quadro de Brueghel, começámos a andar tap-tap-tap naquela paisagem imaculada, eu ia fotografando isto e aquilo, maravilhada com tudo e em especial com os poços de neve que guardavam a luz. Os outros também paravam e fotografavam, e foi muito esquisito porque toda a gente estava deliciada, mas ninguém dizia nada a ninguém. Custava alguma coisa trocar sorrisos e dizer "que maravilha"?

Andámos por ali três horas, solitários em grupo, e depois descemos uma pista negra a pique para regressar à aldeia. Cada um por si, de novo. Consegui chegar ao fundo sem cair, e sem trocar um único olhar de pânico com alguém ao meu lado. Nunca pensei, durante aqueles vinte anos de curso de principiantes, que algum dia desceria uma pista negra a pique e não ia largar olhares de pânico em todas as direcções.

O que correu um bocadinho mal: saí do hotel a correr, e foi uma sorte ter-me lembrado do gorro e das luvas. Esqueci-me dos óculos de sol e do protector solar, pelo que andei umas quatro horas à neve e ao sol, com o gorro metido no bolso.

O que correu ainda pior: quando cheguei ao fim, com a cara e os olhos muito vermelhos, não encontrei por ali nenhum casting para um filme de terror. Davam-me logo o papel principal, ia ser um sucesso. Hollywood tem andado a dormir, é o que vos digo.




 




26 março 2015

morning gloryville berlin



Cá em casa, a febre começou  há três meses. Da primeira vez, o Joachim levantou-se às cinco e meia da madrugada de uma quarta-feira, feliz da vida. Eu limitei-me a virar para o outro lado, e continuar a dormir. À noite, ele contou que se tinha sentido alegre e cheio de energia durante o dia todo.
Da segunda vez, a mesma coisa. Pelo menos até ao momento em que o telemóvel dele tocou, às seis e meia da manhã, e era a Christina: "mãe, o pai esqueceu-se do telemóvel? eu queria ligar-lhe a ver se nos encontramos no Morning Gloryville, porque estou aqui à porta".
Entretanto toda a gente começou a falar disso - até em Portugal -, e eu comecei a perceber que tenho as nozes e desta vez até tenho os dentes, e que é uma palermice ficar na cama a dormir mais meia horinha.

Foi ontem. Levantei-me de um salto às cinco e meia da manhã, lavei-me a correr, levei o Fox à rua (coitado do Fox, olhava com ar ensonado para mim e para os canteiros das árvores com cara de "digam-me que isto não me está a acontecer!") e depois saímos disparados para o outro lado da cidade.

Abriu às seis e meia, e estávamos entre os primeiros. Comprámos cafés e empadas de ovos e bacon, eu deambulei por ali a ver o espaço das massagens, o grupo que se formava para o yoga, a pintora. O Joachim falava com os amigos. A pista foi-se enchendo de gente com muito boa onda. Uma das organizadoras estava ainda mais alegre que de costume, e o motivo era fácil de compreender: o irmão dela apanha todas as semanas o voo 4U9525 da Germanwings, mas na terça-feira passada, por um acaso extraordinário, estava a caminho da China.

No Morning Gloryville não se permitem bebidas alcoólicas nem drogas, nem sequer fumo. Uma vez por mês, a uma quarta-feira, as pessoas levantam-se mais cedo, vão "rave your way into the day" (é o que está escrito no bilhete, de 10 euros), e depois - entre as oito e as dez da manhã, hora a que termina - tiram os disfarces, vestem roupas normais e vão trabalhar.

Gostei especialmente dos sorrisos fáceis e abertos na cara de todos. Parece-me que no próximo mês me levanto de novo às cinco e meia da manhã. E já nos imagino aos quatro, Matthias incluído, quando regressar da Costa Rica. Será que deixam entrar o Fox? Até podíamos fazer lá um piquenique familiar, junto ao canto da massagem. A malta jovem berlinense é muito tolerante, aposto que ninguém se ia chatear com estes cotas.
(Se os meus filhos lerem este último parágrafo vão enterrar a cabeça nas mãos e soltar o lamento embaraçado do costume: "ó, mãe...")





 








(O espaço estava cheio de jornalistas a entrevistar o pessoal. Até nós os dois fomos entrevistados e filmados para uma tv alemã. Espero que a câmara estivesse sem os cartões, ou assim. O entrevistador fartou-se de rir com a cena do Joachim num canto a tirar o fato de maluco e a vestir o fato de trabalho, gravata e tudo. "Só mesmo em Berlim!", rematou.)


(Os organizadores a dar o corpo ao manifesto.)







guten morgen, berlin




Um pessoa tira fotografias ao sol que vai subindo no céu sobre Berlim às seis da manhã, uma pessoa vai procurar o vídeo com a música do Peter Fox que é a cara destas fotografias, uma pessoa vê o vídeo e pensa que tem de se levantar bem mais cedo para conseguir descrever tão bem as madrugadas berlinenses.
(Triste vida)




Ich bin kaputt 
Und reib mir aus meinen Augen deinen Staub 
Du bist nicht schön
Und das weißt du auch 

Dein Panorama versaut 
Siehst nicht mal schön von weitem aus 
Doch die Sonne geht gerade auf 
Und ich weiß, ob ich will oder nicht 
dass ich dich zum Atmen brauch (brauch, brauch, brauch...)


[uma, ahem, tradução:

Estou exausto
e esfrego os olhos para tirar o teu pó
Tu não és bonita
e bem o sabes
A tua paisagem desarrumada
Nem vista de longe consegues ser bonita
Mas o sol levanta-se agora
e, queira ou não queira, eu sei
que preciso de ti para respirar (preciso, preciso, preciso) ]


E mais um vídeo, para perceber Berlim um pouco melhor:




24 março 2015

daqui a nada há tango, e Verão

Agarrem-me, que estou capaz de acreditar que a Primavera anda por aí. Encontrei a prova dos noves no parque Monbijou: estão a montar o teatro de madeira em frente ao museu Bode.

Daqui a nada há tango, e Verão.
(E Shakespeare ao luar.)








23 março 2015

flash mob em frente à Chancelaria




O AVAAZ organizou hoje um flash mob em frente à Chancelaria: a ideia era aproveitar a visita do Tsipras para juntar ali pessoal aos beijinhos e abraços, mostrando que há amizade entre a Grécia e a Alemanha.

À hora marcada estávamos lá três. Eu disfarçada de "só vim cá tirar umas fotografias", e duas raparigas novas. Uma delas ia falando sobre a sua decepção em relação à Angela Merkel, "mantenho o respeito, porque é a Chanceler, mas a alegria já se foi há muito - o que ela faz enche-me de vergonha!"





As pessoas foram chegando, tímidas. Daí a pouco apareceu um organizador do AVAAZ a dizer que tínhamos de ir para mais longe, porque a polícia não nos queria a fazer um flash mob a meia dúzia de metros da grade da Chancelaria. Pareceu-me que até então a polícia não tinha sabido de nada - e só ficou a saber porque um dos participantes perguntou a um dos polícias de choque onde era a cena dos beijinhos. Fomos recuando, enquanto aqui e ali polícias confusos tentavam entender-se com as pessoas. Atravessámos a rua, fizeram o inventário: "Quem são os alemães do grupo?", perguntou um organizador. Quase todos levantaram a mão. "E os gregos?" - havia um rapaz.
Coitado do rapaz, pensei eu, se toda a gente desatar a beijocá-lo, vai ficar mais besuntado que os pés do menino Jesus na missa do galo.






Por sorte apareceram uns casais grego-alemães, que acederam de bom grado a beijar-se em frente às câmaras. Um dos casais, muito fotogénico, deu ali mais beijinhos do que, desconfio, na lua-de-mel inteira. Estavam com um ar muito feliz e romântico. Os fotógrafos insistiam, "e agora com aqueles cartazes por trás, e agora de perfil, e agora com a língua!" E eles, zimbas, não se faziam nada rogados. Tudo em nome do entendimento entre os povos. Amanhã devem estar em todos os jornais alemães.








Em frente às câmaras, apareceu mais um casal beijoqueiro: ele, grego, empurrava gentilmente a alemã sentada na cadeira de rodas. 



E um terceiro casal apareceu: duas mulheres. Beijavam-se com entusiasmo, muito empenhadas em mostrar ao mundo que a Grécia e a Alemanha se dão às mil maravilhas.






Ao lado, um coro grego-alemão cantava canções gregas a vozes. Muito emocionados, desafinavam um bocadinho.
Depois começaram todos a dançar. Alguém ensinou os passos brevemente, e cá vai disto. Mais alegria que coreografia - e é o que interessa.









Ao lado, um grupo dos Die Linke fazia a sua manif. A conversa do seu megafone ("fico muito feliz por estarmos aqui em tão grande número", dizia alguém para aquela meia-dúzia de manifestantes cheios de bandeiras e cartazes) misturava-se com a música da dança, mas ninguém parecia incomodado com o facto.


Entretanto chegou um grupo de rapazes adolescentes, o mais adolescente que se possa imaginar. Comentavam "parece que estão aqui para dizer que gostam de nós" (e fiquei com a impressão que havia ressentimento na voz deles) e depois "olha, há gajas boas! vamos lá para os beijos!". Um senhor de certa idade disse-lhes - com bons modos - que tivessem juízo. E a festa continuou.



"Este cão é grego", contou a dona. "Estava abandonado, e escolheu-me quando fiz férias na Grécia. Tive de o trazer."
"Ah, também tenho um assim. Espanhol. Já não o pude deixar lá."




Um exemplar da Constituição alemã, junto a uma pomba branca em crochet.
"Foi a minha filha que fez."



A seguir à dança houve um pequeno concerto - um dueto, muito aplaudido.

Fui-me embora quando alguém no grupo Die Linke se ria dos polícias de choque: "estes polícias estão aqui para proteger o Tsipras. Temem que nós tenhamos um ataque de entusiasmo e desatemos todos a correr para ele."
Tentei passar por trás da linha dos polícias, mas um deles disse-me que andar na rua é perigoso, e que devia ir à volta. Se calhar o que ele não queria era ter manifestantes a passar nas suas costas, mas foi simpático ter dito que era para o meu bem, em vez de me dar ordens desagradáveis. (Caio em todas as armadilhas pedagógicas, ainda é pior que nas da publicidade)



De modo que tive de atravessar o grupo de manifestantes. As pessoas sorriam, tinham um ar feliz.