15 novembro 2018

ai, Brexit!

Notas soltas:

1. O problema que a Irlanda do Norte levanta ao Brexit faz-me pensar numa frase de Jean Paul: "a satisfação pelo que temos é muito menor que a infelicidade de o perdermos". De tal modo demos por certa a paz que a União Europeia trouxe àquela ilha, que nem nos lembrámos que um Brexit poderia despertar os velhos demónios. E só agora, quando o Brexit exige que se levante de novo a fronteira entre as duas Irlandas, nos damos conta do valor do que tínhamos e vamos perder.

2. Diana Zimmermann, a correspondente do Heute Journal em Londres, dizia hoje a propósito da hipótese de a Grã-Bretanha chegar à conclusão que afinal foi tudo um erro enorme, e decidir continuar na UE:
"Não se sabe qual seria o resultado de um segundo referendo, mesmo se as sondagens dão, de momento, uma ligeira desvantagem ao Brexit. Donald Tusk disse hoje que a Grã-Bretanha é sempre bem-vinda. No entanto, esse regresso não seria sem problemas. Nos últimos dois anos e meio muita coisa aconteceu aqui, houve debates... Se agora decidissem regressar ao seio da União Europeia, não o fariam por se terem entretanto dado conta de como é extraordinária, mas sobretudo porque descobriram como é complicado abandoná-la. Muitos dizem que o governo negociou mal, ou então que a UE chantageou a Grã-Bretanha. O regresso à União nestas condições seria sentido como uma humilhação. Num país que desde há alguns anos recomeçou a ter movimentos nacionalistas, a humilhação é algo muito perigoso."
(o Heute Journal pode ser visto aqui - as notícias sobre o Brexit surgem a partir de 10:38)

3. Ao olhar para o modo como os políticos que provocaram este imbróglio abandonaram o barco e deixaram a Theresa May, que era contra o Brexit, desempenhar a impossível tarefa de levar o processo até ao fim com um mínimo de danos, fico a pensar que de futuro os políticos que propuserem um referendo devem também apresentar um plano de execução e os nomes da equipa que ficará responsável pelo cumprimento da vontade do povo, se o povo assim o decidir.
Em defesa da Democracia, é preciso acabar com a inimputabilidade dos agitadores.


14 novembro 2018

isto é que é vida...


O príncipe Carlos festeja hoje 70 anos. Já tinha boa idade para ir para a reforma, mas ainda não o deixaram assumir o trabalho que foi decidido para ele antes ainda de ter nascido.

Uma pessoa ri-se, mas depois fica a pensar em todas estas perversões: a liberdade que lhe roubam, a desconfortável situação de esperar a morte da mãe para cumprir o seu próprio destino, a impossibilidade de escapar ao ridículo de continuar à espera...

Pode ter palácios, dinheiro e pompa, mas, decididamente: há vidas melhores. Bem melhores.

10 novembro 2018

o meu 9 de Novembro de 2018


Ontem era o centenário da instauração da república na Alemanha, mas não ouvi falar disso, nem dos 29 anos da queda do muro - excepto no noticiário, onde mostraram partes da cerimónia no Parlamento. À minha volta, o tema do dia era a provocação descarada de um grupo de extrema-direita, que marcou para os oitenta anos do terrível pogrom nazi uma "marcha fúnebre pelas vítimas da política".

De modo que fomos para a rua: vários milhares de berlinenses de um lado, 140 do outro, e 1200 polícias entre os dois grupos. Estive apenas com a Christina, porque o Matthias e os seus amigos estavam numa manifestação que vinha de outro lado da cidade.

Antes disso fomos a uma cerimónia junto ao memorial da Levetzowstrasse, onde deram a palavra a Marian Kalwary, sobrevivente do gueto de Varsóvia, e a Horst Selbiger, berlinense e filho de um judeu, nascido em 1928.

Marian Kalwary, de 89 anos, pôs toda a gente a rir ao recusar uma cadeira dizendo que isso "é para gente nova!".


 

Depois leu com dificuldade o texto alemão que lembrava o que aconteceu há oitenta anos na Europa, e fez um pedido na qualidade de sobrevivente do gueto: vim de Varsóvia a Berlim urgir-vos para não esmorecerem na luta, e para não esquecerem nunca.

Horst Selbiger, numa voz muito clara, falou-nos do que viu naqueles terríveis dias.
E sublinhou: "Quem dorme em Democracia acorda em ditadura. Fascismo não é uma opinião, fascismo é um crime!"


Também respondeu à questão de que falei ontem, sobre o 9 de Novembro ser a melhor data para um feriado alemão, por agregar a maior vergonha e a maior glória.

"Não!", disse ele. "Ouço dizer que hoje em dia é possível combinar este dia da vergonha e da culpa com um feriado festivo. E assim deixam que se comemore no dia 9 de Novembro a unidade alemã. E assim se deixa cair no esquecimento a data da vergonha e da culpa. Se nós o permitíssemos! Erguei-vos!  Oponham-se a essas pessoas da extrema-direita! Ainda somos a maioria, e devemos aproveitá-la! E, por favor, não digam nunca mais "tem de ser possível encerrar este capítulo". É isto que vos digo: não podemos, e não o faremos. Não há esquecimento, não há perdão, e temos de pôr fim, de uma vez por todas, a esta transformação dos criminosos em vítimas."



As pessoas apinhadas na praça ouviam-nos em silêncio atento.


A seguir, uma banda cantou algumas músicas (entre outras: Donna donna donna, Ich wandere durch Theresienstadt, Bella Ciao - nesta, a primeira estrofe foi cantada em ritmo mais lento, mais ao estilo da música judaica) e eu fui comprar o livro do Horst Selbiger, que por acaso estava junto à mesa, e mo autografou - "para memória do 9 de Novembro de 2018" - por baixo da frase:

Façam-nos perguntas, nós somos os que restam!
Quando deixarmos de existir, só ficará a História em papel
.

Pusemo-nos a caminho. Largas centenas de pessoas, rodeadas por muitos polícias, alguns deles com câmaras de filmar. A Christina a ensinar-me os truques ("não vás demasiado à frente, se as coisas correrem mal é lá que complica primeiro" e "fica atenta ao pessoal todo de preto"), eu a dizer que achava mal as palavras de ordem tipo "nunca mais Alemanha!", ela a comentar que sentia um certo desconforto ao ver as bandeiras de Israel naquelas ruas de Moabit, que é um bairro onde moram muitos muçulmanos, eu a responder que as pessoas daquela manifestação também vão para a rua em defesa dos direitos dos muçulmanos. E perto de nós o carro de som, que avançava empurrado por alguns manifestantes, a passar a gravação da mensagem "nunca mais! para estes crimes, não há esquecimento e não há perdão" em várias línguas: alemão, hebraico, farsi, árabe.

Passámos por um prédio onde havia um homem à janela, junto a uma bandeira da Alemanha, que nos berrava insultos. O pessoal respondia em coro. E a polícia filmava, para verificar depois se estes tumultos ainda estavam dentro da ordem constitucional.

O cortejo parou junto à estação central de caminho-de-ferro, na barreira que a polícia tinha preparado para separar os manifestantes. Tudo tranquilo - excepto alguns turistas aflitos para apanhar o comboio. Deixei a Christina, e fui para a Filarmonia, para assistir a um concerto em memória das vítimas do 9 de Novembro de 1938. No metro, viajei ao lado de três miúdas vestidas de preto e com a cara tapada. Estariam com certeza a tentar furar a barreira policial, para chegar mais perto dos da extrema-direita. Passei a correr pelo memorial do Holocausto, estava tudo calmo. E daí a nada estava sentada na Filarmonia, a ouvir o concerto. Mas isso é tema para outro post.

Já em casa, vi os noticiários do dia. O discurso do presidente da República no Parlamento, afirmando que "quem despreza os direitos humanos e a Democracia, quem desperta de novo o antigo ódio nacionalista, esses não têm de modo algum direito ao preto-vermelho-ouro da bandeira", o aplauso dos deputados da AfD fazendo de conta que aquela mensagem não era para eles, e parte da cerimónia na sinagoga da Rykestrasse, da qual a AfD foi ostensivamente excluída. Angela Merkel referiu o alarmante crescimento do anti-semitismo na Alemanha, e o representante da comunidade judaica na Alemanha, Josef Schuster, falou da AfD sem dizer o nome, tal como antes o presidente da República fizera no Parlamento: "De novo somos confrontados com incendiários. Quero que reparem nestes números: em 2016 houve cerca de 1000 ataques a casas de refugiados, entre os quais mais de sessenta ataques incendiários. Mais de sessenta! São, em média, cinco ataques incendiários por mês a casas onde vivem pessoas que procuram refúgio entre nós."

Lembrei-me da conversa sobre a bandeira israelita nas ruas de Moabit: esta gente também seria capaz de desfilar para proteger os muçulmanos.

Portanto: no 80º aniversário do pogrom nazi contra os judeus, o representante dos judeus alemães tomou a palavra para lembrar as novas vítimas do ódio: os refugiados muçulmanos. E depois há quem se admire do meu optimismo.


do vidro ao cristal

(foto)


Ontem escrevi sobre a dificuldade em encontrar uma designação mais adequada que "noite de cristal" ou "noite dos cristais" para os ataques nazis de 9.11.1938, e fiquei a pensar nos motivos possíveis para os berlinenses (que foram, aparentemente, quem cunhou o termo) escolherem "cristal" em vez de "vidro" - ou "estilhaços", ou "destruição", ou "assalto".

Na manhã do dia 10 de Novembro de 1938 os passeios das cidades estavam cobertos de vidros das montras das lojas e das janelas. Vidros, e não cristais. Há uma diferença clara entre um e outro, e a língua alemã conhece-a bem: ninguém diz "janelas de cristal" ou "montras de cristal".

Porquê, então, usar um material mais nobre para designar o que viam?

Só me ocorre uma hipótese: inveja e ressentimento. O que os berlinenses viram derramado pelos passeios não foi o vidro das montras, mas o luxo dos odiados judeus. Por isso terão chamado "cristal" aos vidros partidos. 



09 novembro 2018

9 de Novembro de 1938 (3)

Já publiquei este texto há alguns anos neste blogue, mas deixo-o de novo, para o caso de alguém não ter lido:

Erich Kästner, jornalista e escritor, testemunhou assim os acontecimentos da noite de 9 para 10 de Novembro de 1938 no Kurfürstendamm (a avenida mais importante da abastada parte ocidental da cidade):

Naquela noite apanhei um táxi para regressar a casa, que me levou pela Tauentzien e pelo Kurfürstendamm. Dos dois lados da rua havia homens que batiam com barras de metal nas montras das lojas. Por todos os lados o vidro quebrava e espalhava-se em estilhaços. Eram homens da SS, com calças de montar pretas e botas de cano alto, mas com chapéu e casaco à paisana. Faziam o seu trabalho calma e sistematicamente. Dava a impressão que cada um estava encarregado de quatro ou cinco casas. Levantavam a barra de ferro, batiam várias vezes e avançavam depois para a montra seguinte. Não se viam outras pessoas na rua. Só mais tarde, contaram-me no dia seguinte, terão aparecido serventes de bar, empregados de mesa nocturnos e prostitutas, para saquear as lojas. 
Três vezes fiz parar o táxi. Três vezes quis sair do carro. Três vezes surgiram de trás de uma árvore agentes da polícia que me deram ordens peremptórias de voltar a entrar no táxi e continuar a viagem. Três vezes lhes retorqui que ainda posso sair de um carro quando me apetece, e particularmente num momento como este, quando em público se praticam - passe o eufemismo - actos impróprios. Três vezes disseram com maus modos "polícia judiciária!". Três vezes bateram a porta do carro. Quando quis parar pela quarta vez, o condutor recusou-se. "Não adianta", disse ele, "e além disso está a resistir à autoridade do Estado!" Só parou quando chegámos à minha casa.

(Erich Kästner: Notabene 45. Ein Tagebuch, Frankfurt/M 1983, Pg.140)

9.11.2018 em Berlim: se me deixassem organizar a contramanifestação de hoje, caramba, ai!, se me deixassem mandar...

Estava aqui a pensar numa coisa que me disseram ontem, "não se combate maldade com maldade", e também que, aconteça o que acontecer, os neonazis que querem desfilar hoje em Berlim vão regressar a casa todos satisfeitos, com a sensação do dever cumprido, porque agitam a cidade e aparecem nos noticiários.

E foi então que tive uma ideia fantástica, modéstia à parte: querem fazer uma "Marcha Fúnebre pelas Vítimas da Política" a atravessar o centro geográfico da política alemã? Oh, meus amigos, façam favor!

Mas:

- Não devia haver contramanifestação;

- Não devia haver nenhum jornalista a acompanhar o evento, e a comunicação social devia ignorá-lo;

- As luzes de todos os edifícios (Chancelaria, Parlamento, etc.) e das ruas deviam estar apagadas;

- Ao longo de todo o percurso devia haver ecrãs gigantes a mostrar filmes sobre as Vítimas da Política: crianças a morrer de fome no gueto de Varsóvia, as mulheres alemãs a cercar o centro da Rosenstrasse para obrigar o regime a libertar os seus maridos judeus, os transportes de judeus para os campos, o "Querem a guerra total?" e o "sim! queremos!" sobreposto à imagem dos jovens soldados alemães desesperados no campo de batalha, a vida nos campos de concentração, as colunas de refugiados expulsos do Leste da Prússia, o "ninguém quer construir um muro", os métodos da Stasi, o Willy Brandt a ajoelhar em frente ao gueto de Varsóvia, etc.

Também se pode mudar o tema, com o tempo:
- mostrar-lhes filmes de comunidades que acolheram bem os refugiados e onde todos vivem como amigos, filmes da destruição da Síria, filmes de apresentação de algumas das famílias que fugiram para a Alemanha, mostrar-lhes a riqueza cultural dos países de onde vêm os refugiados, etc.
- passar pequenos filmes sobre os Direitos Humanos, ou sobre a Constituição Alemã.


Em suma: sempre que haja manifestações deste tipo, não se deve oferecer resistência nem palco mediático, antes aproveitando a oportunidade para dar uma lição de História àquelas pessoas. Provavelmente não há melhor oportunidade de os concentrar num lugar, durante tanto tempo, a ver aqueles filmes.

9 de Novembro de 1938 (2)


"Aconteceu, e por isso pode voltar a acontecer: é esta a essência daquilo que temos para dizer."
Primo Levi

No 80º aniversário do pogrom nazi de 1938, a extrema-direita quer marchar em Berlim. Esta "Marcha Fúnebre pelas Vítimas da Política" é organizada pelo grupo "nós pela Alemanha".

O ministro do Interior do Estado de Berlim, Andreas Geisel (SPD), está a fazer os possíveis para inviabilizar a manifestação. Um tribunal proibiu-a, outro tribunal levantou esta manhã a proibição, e neste momento decorre o recurso. O problema é que o sistema legal alemão parece não ter como impedir uma manifestação convocada nestes termos, apesar de ser óbvio que se trata de uma provocação.

Andreas Geisel, por seu lado, não tem dúvidas sobre a gravidade do momento:

"A nossa Democracia pode e tem de ser capaz de aguentar muitos embates. Nós, democratas, somos capazes de lidar com opiniões contrárias. Mas a nossa Democracia não tem de aceitar tudo. E muito menos por parte daqueles que na realidade desprezam a nossa comunidade democrática. A perspectiva de que, no 80º aniversário da Noite de Pogrom do Reich, pessoas de extrema-direita possam marchar - provavelmente com velas, depois do anoitecer -  pelo Bairro do Governo é para mim insuportável.
A provocação dirigida às vítimas e aos seus descendentes é premeditada e realizada conscientemente. Trata-se de deslocar os limites do aceitável continuamente para a direita. Não podemos continuar a tolerar o extremismo de Direita sob o manto da liberdade de expressão. Este é o momento em que todas as pessoas democratas se têm de erguer e afirmar: "Stop! Daqui não passam."


Eles estão a preparar-se para marchar. Se a próxima instância não proibir a marcha, eles vão atravessar o centro geográfico da política da Alemanha Federal protegidos pela polícia. Marquei encontro com a minha filha na Hansaplatz às 16:30. Estão-se a juntar milhares de pessoas para os cercar e impedir de iniciar a marcha. E a polícia, obrigada a proteger uma manifestação autorizada pelo tribunal, será a nossa inimiga. Espero que não batam com força.

--

Em 2002 assisti a algo semelhante em Weimar. Os neonazis convocaram uma manifestação, e a população saiu de casa naquele dia horroroso de vento, chuva e neve para lhes fazer frente. O Joachim juntou-se ao grupo que impedia os neonazis de profanarem o pequeno cemitério dos judeus. E eu em casa, com os miúdos pequeninos, cheia de medo que aquilo corresse muito mal e eles ficassem órfãos.

9 de Novembro de 1938 (1)




O que há num nome?

Quem se terá lembrado de chamar "Noite de Cristal" a este momento de brutal ruptura com a ideia que tínhamos da nossa civilização?

Não terão sido os nazis, que em documentos da época lhe chamavam “operação judeus”, “operação vingança”, “operação Rath”. Talvez tenha sido cunhada pela população de Berlim, perante os montes de vidros estilhaçados que se acumulavam sobre os passeios, e entrou no léxico da História.

Se esta expressão - eufemística, quase romântica e até glorificadora - seria natural durante a época do III Reich, o que explica que se tenha mantido na Alemanha até aos anos oitenta do século passado? Mais: o que explica que ainda seja usada em tantos países (nomeadamente em Portugal e no Brasil)? Curiosamente, até em Israel se usa esta designação (»Leil HaBdolach«), embora sempre com aspas.

Em 1988, Avraham Barkai escrevia no seu „1938 – Ano Fatídico“: „Noite de Cristal! Os cristais brilhantes, reluzentes, cintilantes de uma festa! Começa a ser tempo de eliminar, ao menos dos textos de História, esta expressão malévola e adoçada”.
 
Na viragem da primeira década do nosso século, quando os meus filhos andavam no secundário em Berlim e estudavam estes temas, ainda não havia um nome estabelecido para referir esse capítulo da História. “Kristall” era sem dúvida uma palavra a evitar, mesmo se ligada a Reich, “noite de cristal do Reich”. Usar “pogrom” em vez de “cristal” também não é adequado, porque o pogrom é normalmente uma erupção de violência popular, um fenómeno de mob, algo muito diferente destes ataques a judeus planeados e executados a partir da cúpula do sistema nazi. Por outro lado, falar em “noite” também é incorrecto, porque essa vaga de violência com ataques aos edifícios e perseguições às pessoas durou vários dias. Na exposição Topografia do Terror, em Berlim, o título dado a estes acontecimentos é “Terror anti-semita 1938”.
 
Entretanto, e apesar de não ser muito adequada, a designação mais usada tem sido “Noite de Pogrom do Reich”, “Reichspogromnacht”.

À boleia de Avraham Barkai, sugiro que também em Portugal se reveja o nome usado. Seria um bom exercício de debate sobre o politicamente correcto: a necessidade de nos darmos conta, por fim, do significado das palavras que usamos, e da ideologia que transportam.

 

31 outubro 2018

revisões da matéria dada

#diga1933

Encontrei este desabafo desesperado no facebook.
Depois de ler tantas biografias atravessadas pelo horror nazi, dou comigo a ler relatos muito semelhantes feitos em 2018. Aquela ideia de andar nos mocassins dos outros para os compreender ganha um novo significado: a História invade as nossas vidas com toda a sua crueza. Se não me bastou ler para entender, pode ser que entenda finalmente quando vejo acontecer à minha volta.
Por estes dias, assistimos ao regresso das dificuldades e dos desafios com que os alemães de 1933 se viram confrontados. E parece que estamos tão paralizados e perplexos como eles. 
 

Desabafo de um amigo/amiga brasileiro, que por razões óbvias não convém identificar:
"Considerações pós eleições:

1- não, eu não tô calmo/a e não tenho previsão de ficar calmo/a. Seria mais fácil eu estar calmo/a porque eu sou branco/a, hétero, moro na zona sul, dentre outros privilégios que acumulo hoje, mas como pensar só no meu rabo? Quem me conhece minimamente sabe disso...além do mais, infelizmente acredito(não desejo) no sofrimento generalizado da classe média pra baixo. Não pense que seu rabo está a salvo.
2- Sou humano/a! Não sou namastê good vibes! Estou com raiva de gente religiosa/espiritualizada hipócrita que votou nesse homem burro e mau se valendo do fato de ter privilégios ainda maiores que os meus, tipo: morar fora do país, ter carro blindado pra andar num país armado, morar em condomínio fechado com gorilas armados até os dentes...São meus filhos que andam desprotegidos nas ruas do Rio de Janeiro e milhares de outros filhos de outras mães...e se algo acontecer aos meus torça pra eu não cruzar com vc
3- Dói miseravelmente saber que o massacre nas áreas mais pobres vai aumentar...sim, Cinderelas, porque vc não faz ideia de que já existe um massacre e que aquele menino que morreu indo pra escola na Maré virou apenas uma leve expressão de tristeza na sua cara de pau, enquanto pra mãe dele é um buraco negro que nunca terá fim. A verdade é: vc está cagando pra gente pobre. Cagando! Embora finja até pra si mesma que não, está cagando! E agora eu sei quem vc é!
4- Peço perdão a quem me manda a florzinha da resistência de quem lutou ao meu lado e está orgulhoso por ter amigos assim e acha que é importante esse momento de afagos. Não que eu não valorize conhecer gente decente que pensa no mundo pra todos e não só pra sua bolha dourada...mas, veja, só nas primeiras 24h já foram mortes por arma de fogo em comemorações pela vitória desse maldito, vizinhos atirando pro alto(e olha que eu moro no ÚNICO bairro do RJ onde o Haddad ganhou), gente ameaçando vizinhos pela janela, Paulo Guedes tratando jornalista como lixo, professores sendo ameaçados, invasão da UNB, aquela acelerada na reforma da previdência em moldes mais macabros ainda...e eu nem tô conseguindo me lembrar de tudo...e não tô conseguindo ser fofo/a. Se vc gosta de mim tenta entender essa limitação.
4- De minha parte não haverá ciranda! Vou dedicar todo o tempo que tiver ao trabalho de base e não vou conseguir ter respeito por ativista de sofá. Desculpa. Ou é isso, ou sair do país. E eu posso sair de cabeça erguida porque desde os 17 anos aderi a um partido que sonhou e construiu uma vida melhor pro meu povo. E por seus acertos muito mais do que por seus erros, foi massacrado. Se eu quiser me “aposentar” dessa luta quero ver quem é que vai julgar! Mas vc que votou nesse traste, baixa a tua bola agora que a tua responsabilidade é mais pesada que a massa da terra...começa a assumir tua escolha! Cobre esse infeliz! Para de mostrar a beleza da primeira dama que isso só mostra o seu nível de retardo intelectual e moral. Que caralhos importa pro país se a mulher é bonita ou feia?!! Se ela é cristã ou ateia?! Se ela é baladeira ou recatada do lar?
5- Sei quem votou nele e sei quem banca o isento pra não assumir responsabilidade em nenhuma hipótese, e queria dizer que eu não terei constrangimento em constrangê-los pessoal ou virtualmente a cada inevitável cagada que rolar.
Por enquanto é só!"

sobre os brasileiros que vivem em Portugal e votaram Bolsonero, fazendo um pequeno desvio pelo caso dos turcos-alemães

"Que vão para a terra deles!", dizem em Portugal algumas pessoas, chocadas com a quantidade de imigrantes brasileiros em Portugal que escolheram Bolsonero.

Antes de mais: "que vão para a terra deles!" é retórica à maneira do Bolçário. Se os queremos criticar, não podemos ter tiques iguais.

Na Alemanha, os turcos provocam choques idênticos: entre os que votam, a maioria é a favor de Erdogan; no referendo sobre a mudança da Constituição, o número de votos "sim" na Alemanha foi superior aos da própria Turquia. A AfD aproveita para meter o seu veneno ("esta gente nunca será capaz de se integrar no nosso país"), os partidos decentes optam por um discurso bem mais cuidadoso e democrático. E o país pergunta-se o que falhou para que as famílias dos imigrantes não tenham aderido aos valores mais básicos desta sociedade. Por sua vez, muitas pessoas na Turquia criticam os turcos-alemães por viverem descansadamente em liberdade e democracia mas usarem o voto para imporem aos seus compatriotas a autocracia, a perseguição política e o caos económico.

Alguns jornais adiantaram explicações para o fenómeno que permitiram passar para além da reacção primária "não queremos cá uma 5ª coluna, vão para a vossa terra!". Em primeiro lugar, convém não esquecer algo importante: só metade dos turcos ou seus descendentes que vivem na Alemanha é que vota, e quase metade dos que votam não escolhe Erdogan. Não se pode generalizar desta parte relativamente pequena para o todo.
Quanto aos que escolhem Erdogan: muitos turcos na Alemanha vivem num contexto de indesejados e desprezados, o que pode criar neles a necessidade de terem no seu país um "homem forte" para contrabalançar as humilhações quotidianas. Além disso, o modo como na Alemanha se fala do Erdogan pode ser sentido como ofensa pelos turcos que aqui vivem - com ou sem razão, ninguém gosta que se critique assim o seu país. É natural que num país democrático se critique abertamente um governante que conduz o seu país para a ditadura, mas essa crítica ressoa de forma diferente na minoria nacional, que a sente como mais um ataque e falta de respeito, a somar a todas as outras humilhações de que são vítimas.

[ Que humilhações?, perguntarão. Uma lista pouco exaustiva vai desde o facto de um apelido turco ser um entrave para alugar casa, arranjar emprego e subir na carreira profissional, passando pelo fenómeno de as famílias de língua materna alemã evitarem pôr os seus filhos nas escolas onde há muitos filhos de turcos, até ao terrível escândalo de ter havido um bando de neonazis que durante uma década andou pelo país a matar turcos ao acaso, e a polícia alemã ter conduzido os inquéritos - a que chamou "assassinatos Dönner"! - convencida de que se tratava de meros ajustes de contas de uma qualquer máfia turca. ]    

Voltando a Portugal, e aos brasileiros que aqui vivem: quantas pessoas votaram Bolsotário? Esse número corresponde a que percentagem da população brasileira em Portugal? Provavelmente não passará de 15% do total, mas em Portugal instalou-se a ideia de que a grande maioria dos brasileiros que aqui vivem é apoiante de Bolsalário.

Igualmente importante: quantos desses votos não serão um sintoma de mal-estar por se sentirem de certo modo rejeitados pela sociedade portuguesa?

Levando esta ideia um pouco mais longe: Portugal tem feito muito para aprofundar a consciência democrática, mas - como aliás em todos os países - os valores e a prática da Democracia não estão naturalizados de forma homogénea na sociedade. Por serem estrangeiros e um grupo minoritário, os imigrantes estão expostos com mais frequência e mais virulência a episódios resultantes da falta de cultura democrática de alguns portugueses. Sendo assim, o argumento "vivem em Democracia, mas não aprenderam nada!" não colhe, porque o que os imigrantes vivem todos os dias é bem diferente da Democracia que pensamos ter.

Disso é exemplo mais recente e alarmante a frase "vai para a tua terra!", que tanto temos ouvido em Portugal por estes dias.

**

Estou a tentar não escrever o nome certo do Bostanaro para não dar esse prazer a quem faz estatísticas do número de ocorrências na net. O mais engraçado é que depois de inventar três ou quatro nomes me esqueci do nome dele. O único que me ocorre, quando pretendo acertar, é Bolsonário - mas o meu favorito é Bolsonero.

30 outubro 2018

"fake news"

Ontem, o tema na Enciclopédia Ilustrada era Fake News.

Alguém lembrou o tempo em que as #fake_news vinham por e-mail, e eu pensei logo em 2003, quando uma conhecida minha, ultraconservadora dos EUA, desatou a mandar-me mensagens a afirmar que era o Saddam Hussein quem estava por trás do 11 de Setembro. Bush aquecia os motores para a guerra do Iraque, e o pessoal enviava mensagens a tudo o que mexia dizendo "lembrem-se das pessoas a cair das torres do WTC! Lembrem-se daquele casal que caiu de mãos dadas!"

Na altura aproveitava a falta de cuidado deles, que enviavam essas mensagens com os endereços de e-mail todos visíveis, e fazia um "responder a todos" mostrando porque é que estavam enganados e apelando a algum bom senso. Pelo que os eles aperfeiçoaram a técnica, e trataram de enviar as fake news de modo a evitar a hipótese de qualquer contraditório.

Moral da história: de certo modo, a culpa de isto se ter deslocado para o WhatsApp é minha...

Agora, mais a sério: pensávamos que as redes sociais seriam o espaço por excelência da polis grega, mas rapidamente se tornaram uma latrina romana, e agora estão a ficar uma sala de chute: descarregam o veneno customizado directamente para a veia de cada um dos toxicodependentes agradecidos.

Para terminar, e a propósito destes "toxicodependentes agradecidos por estarem a receber a droga que querem", recomento muito a leitura deste artigo do El Pais: A Longa História das Notícias Falsas



29 outubro 2018

"eleitor"

Trago este post do Lutz Brückelmann, que o publicou na Enciclopédia Ilustrada no dia em que a palavra mágica era Democracia.



Muitas pessoas pensam, à esquerda e à direita, que a democracia é o valor mais alto. Por ser o governo do povo. Como pode ser errado um governo eleito pela maioria? A maioria não tem, por definição, sempre razão?
Se entendem que não tem razão - como qualquer derrotado numa eleição naturalmente faz - dirão que foi porque o #eleitor foi enganado, pelos fake-news, pela propaganda, pela exploração hábil de frustrações que até se admite como compreensíveis e indignações justificadas, mas dirigidas contra alvos errados.
Isto pode ser tudo verdade, mas ainda assim é beside the point.
Há de encarar a possibilidade muito real que a maioria que elegeu Bolsonaro sabia, queria e aceita um governo que discrimina minorias, uma polícia que atira primeiro e pergunta depois, que espanca pretos e homos e transsexuais, um governo que tira o que resta de apoio e de território aos índios da Amazónia, que facilita ainda mais a desflorestação, e que prende e tortura os opositores.
A democracia é indispensável. Mas não é o mais importante. A democracia é instrumental, não tanto para facultar ao cidadão comum a ocasião de sentir que manda, quando calhou ter votado no vencedor, mas para evitar o despotismo. Para evitar a perpetuação do governo no poder. Com outras palavras, a democracia tem antes de mais assegurar a sua própria sobrevivência. Daí tem de limitar o poder do governo, distribuir o poder por diversas instituições independentes, e assegurar as condições da oposição para poder aspirar a substituir o governo vigente. Já para isso as liberdades cívicas são indispensáveis: a liberdade de expressão, o direito à reunião, à organização política e todo o resto.
Mas essas liberdades são mais do que instrumental. Fazem parte dos direitos que săo um fim em si e que são inalienáveis: os direitos humanos. O fim de qualquer Estado decente é antes de tudo a garantia e defesa da dignidade humana. Para todos. Para cada indivíduo.
Um governo que viola os direitos humanos não é legítimo e tem de ser combatido, mesmo se tiver o apoio de 90% da população. Um governo democraticamente eleito que decidia, por exemplo, discriminar ou prender ou escravizar ou matar uma minoria de 10% ou de 1% ou de 0,001%, por ter outra cor de pele, por ter outros costumes ou outra orientação sexual, ou por qualquer outra razão, é um governo inaceitável. Como combaté-lo, é matéria para considerações práticas, mas do ponto de vista moral, o combate contra ele não é só legítimo mas um imperativo.



#diga1933


Está aqui. Onde também encontrei esta brilhante peça de retórica política:
"É só se comportar direitinho que não precisa ter medo, cidadão."
Estaline não teria dito melhor. Ulbricht idem.
O pior do século XX está de volta.

#diga1933
#erasódabocaprafora


foi há dois anos


Na semana em que começou o golpe contra a Dilma, o Joachim pintou - aqui em Berlim - com uma modelo brasileira. A sessão de pintura correu normalmente até que, pouco antes do fim, a modelo disse:
- A pose seguinte tem um nome: tenho vergonha do meu país.


28 outubro 2018

eleições na RDA

Há dias o Spiegel online tinha dois artigos sobre as eleições no tempo da RDA.

Para quem não sabe como era, aqui vai a tradução (apressada, e resumindo):

I.

Eleições na RDA: folha dobrada, boca calada

Siegfried Wittenburg conta na primeira pessoa:

A ordem de Walter Ulbricht (que instalou o estalinismo na zona da Alemanha ocupada pela URSS e construiu o muro) era: "tem de parecer democrático, mas temos de controlar tudo".

Os chefes das lojas estatais tinham a incumbência de decorar as montras com material de propaganda.
No prédio onde morava com a minha mulher, os vizinhos foram convocados pelo chefe da comunidade de vizinhos (que era ao mesmo tempo polícia e responsável pela área) para serem informados sobre as bandeiras que deviam pôr às janelas. As janelas do prédio já tinham os necessários suportes. Era desagradável receber de um polícia ordens para mostrar tanta fidelidade ao regime, mas desobedecer seria um sinal que não convinha dar.
O chefe da comunidade também sugeriu que fossem todos juntos votar às 10 da manhã desse domingo, e quase todos os vizinhos se apressaram a levantar a mão em sinal de concordância.
Na sexta-feira antes das eleições, uns minutos antes de terminarmos o trabalho o responsável perguntou a cada um dos colegas: "vais votar no domingo?" Responder com um "não" teria consequências muito desagradáveis.
Ao longo de várias décadas os resultados anunciados entusiasticamente na segunda-feira seguinte eram sempre os mesmos: a população da RDA tinha votado quase unanimemente a favor da paz
e do socialismo. Os votos a favor teriam sido superiores a 99,8%. E só não eram 100% por causa de cidadãos como o meu pai, que se recusavam a ir votar. Muitos deles eram demasiado importantes para o sistema de produção, outros eram reformados que estavam a pensar ir para a Alemanha ocidental. Ignorá-los seria uma falsificação das eleições demasiado óbvia.

As assembleias de voto abriam às 8 da manhã. A população estava educada para ir votar até ao meio-dia. À tarde, fartos de esperar pelos 0,2% de eleitores que não apareciam, os ajudantes agarravam nas urnas e iam a casa desses eleitores renitentes pedir-lhes o voto.

Também eu e a minha mulher fomos votar de manhã, embora tivéssemos evitado ir em grupo com os vizinhos. Na sala havia cinco mesas. Na primeira entregávamos a folha com a convocatória para as eleições, na segunda mostrávamos os bilhetes de identidade e o funcionário fazia uma anotação, na terceira davam-nos a folha de voto com o candidato da Frente Nacional e na quarta mesa havia um funcionário que esperava sorridente até dobrarmos a folha e a metermos na urna. Por trás da quinta mesa sentavam-se dois homens extraordinariamente discretos.
Não era possível fazer uma cruz no nosso candidato favorito. Dobrava-se o boletim de voto e deitava-se na urna. Esse era o voto a favor. Para votar contra, era preciso riscar o nome do candidato. Olhei pela sala em busca da cabine. Estava a um canto, e era óbvio que os homens da quinta mesa escreveriam o nome de todas as pessoas que se aproximassem dela.
Na segunda-feira seguinte foram anunciados os resultados previamente preparados. Algumas semanas mais tarde soube-se que um jovem tinha usado a cabine antes de deitar o seu boletim de voto na urna. Todos o conheciam, e sabiam que o único voto contra que tinha sido contado era o dele. Alguns diziam "Típico! Nele, não me admira nada!"


II.

Queda do muro 1989: imagina que há eleições, e ninguém vai votar!

27 outubro 2018

Haddad rima com liberdade



Haddad!
Porque o presidente Haddad representa um Brasil de costas direitas e cabeça levantada, olhado como um parceiro respeitado e estimado, e não como um país pária ou um país coitadinho. Porque Haddad é o candidato apreciado e respeitado pelos países que acreditam na entreajuda e cooperação internacional para tornarmos o planeta um lugar melhor tanto a nível económico como ecológico.

Haddad!
Porque a comunidade internacional está alarmada com o que acontece no Brasil, e fará do apoio a Haddad e ao Brasil uma opção estratégica para garantir a estabilidade democrática na região.

Haddad!
Porque o planeta está em colapso climático, e a defesa da Amazónia é uma peça fulcral no desafio de salvar a humanidade. 

Haddad!
Porque a dignidade humana é inviolável, e ele sabe-o.

Haddad!
Porque - apesar de todos os erros - quer levar a cabo no Brasil o que os países europeus mais ricos e com sociedades mais igualitárias andam a fazer há décadas, com os resultados de bem-estar social generalizado que são do conhecimento de todos.

Haddad!
Porque sou cristã: "Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me." (Mateus 25) e também "Vós sois meus amigos, se praticais o que eu vos mando." (João 15:14).

Haddad!
Porque temo, temo realmente, que algumas das pessoas brasileiras mais generosas, inteligentes e doces que conheçam sejam em breve perseguidas, torturadas e assassinadas. E nem quero pensar na culpa que pais e outros familiares destas pessoas vão carregar para sempre por terem ajudado - por voto ou por omissão - a eleger quem avisou abertamente que vai matar os filhos deles.

Haddad!
Porque rima com liberdade.

[ Mas se o Haddad não ganhar, provavelmente ganho eu: o Chico e o Caetano vêm para o exílio na Europa, juntamente com algumas das pessoas brasileiras mais generosas, inteligentes e doces que conheço. Esses e essas serão recebidos de braços abertos. ]

"ele não queria dizer isso que disse..."

Há muitos, muitos anos - a minha filha não tinha nem dois anos e o meu filho não tinha nem 10 cm - fizemos férias de ski com um casal amigo.

A meio dessa semana, estava eu em casa calmamente a dar o almoço à miúda, quando o nosso amigo entrou de rompante, fez a mala a correr e saiu desaustinado. Bem-educada, ofereci-lhe um prato de sopa, mas ele não tinha tempo. Estava a fugir.

Daí a bocado chegaram o Joachim e a nossa amiga. Contaram que iam a subir a encosta num daqueles elevadores com lugares duplos, e ele de repente se virou e começou a descer a montanha a toda a velocidade.

No fim da semana voltámos todos para casa, e logo a seguir a nossa amiga ligou-nos a contar, muito surpreendida, que ele saíra de casa, levara as suas coisas, e deixara uma carta de várias páginas a dizer porque é que não aguentava mais aquela relação.

Nas semanas seguintes ela continuou à espera que ele voltasse. Quando eu lhe lembrava o modo como fugiu e a carta que deixou, ela afastava os meus argumentos com um movimento de mão que sacode moscas e dizia:

- Ele não é assim. Tenho a certeza que aquilo que escreveu não é o que pensa realmente.

Uns meses mais tarde ela mudou para outra cidade, e telefonava-me todas as semanas para, como me anunciava sempre, "fazer o relatório". Eu ouvia pacientemente enquanto ela ia debitando as linhas da sua agenda uma a uma, e metia aquela hora interminável na rubrica "os amigos também são para ouvir os relatórios, quando é preciso".

Até que um dia ela telefonou, me perguntou como sempre fazia "então, como estás?" e eu dessa vez respondi "estou à rasca, o meu mundo está a desmoronar-se à minha volta", e contei. No fim, ela disse:

- Ui, que coisas horríveis! Deixa-nos falar de algo mais agradável. Na minha varanda as roseiras já estão a florir, esta semana chegaram as cadeiras de esplanada francesas que encomendei há tempos, e comprei uns pés de tomate que estão muito promissores...

E eu:
- Desculpa, mas não quero falar mais. Adeus.

Nunca mais lhe falei. Ela perguntava porque deixei de lhe atender os telefonemas, e eu respondia: "porque não quero falar contigo, apenas isso."

Outros também me perguntavam porque é que não lhe explicava o que se tinha passado, porquê essa recusa em dar satisfações.

Mas o que é que se pode explicar a pessoas que lêem "ISTO!" escrito com todas as letras, e decidem: "ah, não, ele não queria dizer isso que disse..."?

Que inteligência e racionalidade, que diálogo é possível com pessoas que ouvem "É ISTO QUE VOU FAZER!" - dito com todas as letras, com toda a clareza - e decidem: "ah, não, não acredito que ele faça isso..."?

saber escolher o certo quando tudo parece errado


Contaram-me uma vez que, antes das eleições que levaram Hitler ao poder, o comunista Ernst Thälmann terá dito "se não nos soubermos unir agora, acabaremos unidos no campo de concentração".

Quanto mais leio sobre Thälmann mais improvável me parece
esta frase ter sido dita por ele. Thälmann tinha ideias muito claras sobre o sistema político ideal, e apelava à união, sim, mas segundo as suas regras. Parece-me que era uma daquelas pessoas que têm muita dificuldade em identificar o mal menor, e não fazia concessões nem jogos de cintura. Foi um dos primeiros a ser preso e torturado como inimigo da ordem nazi que ele não soube identificar como um perigo muito mais concreto e ameaçador que os outros opositores ideológicos.
Lembro agora
Žižek, que via na possível eleição de Trump uma oportunidade de sacudir o sistema para o renovar. Vimos essa "renovação do sistema": pessoas proibidas de visitar aquele país apenas devido à sua nacionalidade, crianças separadas das famílias e metidas em jaulas, bombas enviadas pelo correio àqueles que Trump odeia, e o planeta cada vez mais próximo do colapso climático e diplomático.
Lembro o Brexit, ou mesmo o muito comezinho referendo para salvar o aeroporto Tegel em Berlim: eleitores que usam o voto para se vingarem de algo, em vez de o usar para fazer uma escolha positiva, consciente e responsável.

O voto como ferramenta de vingança é a estratégia do suicida.


Repito parte do que escrevi no facebook logo após conhecer o resultado da primeira volta das eleições no Brasil:

Estou a pensar em 1986, em Portugal: na primeira volta, o candidato da direita teve 46%, e o que ficou em segundo lugar teve 25%. Mas foi este último - Mário Soares - que acabou por vencer, com 51%. 

Na segunda volta, muitas pessoas conseguiram ignorar o ódio profundo que sentiam contra Mário Soares e votaram nele para evitar um mal maior. Ficaram célebres frases como "Se for preciso tapem a cara de Soares no boletim de voto com uma mão e votem com a outra" ou "Vamos ter de engolir um sapo".

O que aconteceu em Portugal em 1986 mostra que é possível ultrapassar as diferenças e os ressentimentos para escolher o que é realmente mais importante para a maioria da população.

Por isso acredito que o Brasil vai virar.
O seu futuro está na mão dos indecisos, dos indiferentes e dos perplexos. Esta é a hora do diálogo com os que não estão cegos e surdos pelo ódio.
Nas próximas horas, o lema é: desesperar, jamais!
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E o Ernst Thälmann?, perguntarão.

Logo após o incêndio do Reichstag escondeu-se. Foi denunciado e levado pela política política. Quase no fim da guerra, mataram-no no campo de concentração - como mataram tantos outros políticos de vários quadrantes, tantos padres porque se recusavam a obedecer às leis desumanas do regime, tantos jovens Testemunhas de Jeová porque se recusavam a fazer serviço militar, tantos judeus e ciganos porque sim, tantos homossexuais porque eram o grão de areia na engrenagem do sistema de produção de arianos, tantos escravos do trabalho forçado apanhados na rede de um regime poderoso e sem escrúpulos.

Por erros dos políticos e de um eleitorado profundamente dividido e frustrado, a Alemanha teve de passar pelo maior dos horrores para aprender a amar a Democracia, e para se dar conta de que a defesa das liberdades democráticas é empenho e responsabilidade de cada um. Nada nos é oferecido, nada está garantido para sempre. 

Mas o Brasil não precisa de reinventar a roda do horror. Vai virar.



26 outubro 2018

porque tens os olhos tão grandes? (um post com presente)


Dudamel, Filarmónicos de Berlim, 5ª de Mahler.
Agarrem-me, que isto é mais do que uma alminha consegue aguentar.

Às vezes fechava os olhos, para ouvir a música em toda a sua perfeição. Em toda a sua sublime perfeição. Mas depois lembrava-me que estava a perder o Dudamel de vista, e abria-os outra vez. Muito, para não perder nada daquele momento.

Depois do concerto, já na rua, de novo o fascínio que aqueles edifícios me provocam.

- Porque tens os olhos tão grandes?
- Vão perguntar ao Dudamel e ao Sharoun.

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Para não se queixarem que uns têm tudo e outros nada, aqui repasso um presente que deram na folha do Lunchkonzert desta semana: um voucher para 48 horas no Digital Concert Hall. O programa a que assisti hoje vai passar amanhã em directo às 19 horas (18 em Lisboa). Depois digam o que acharam do Divertimento de Bernstein (eu achei-o sem brilho - como se os Filarmónicos estivessem a tocar muito bem instalados numa zona de conforto) e da 5ª de Mahler (quem disser mal desta, devolva já o voucher se faz favor! ;) )

Ah, o voucher: LK1819XG
Se gostarem, e puderem, comprem um passe para um mês ou assim, que é para isso que eles o andam a oferecer.