17 julho 2019

no comboio ascendente

Partilho um belo texto da Sara Monteiro que li no facebook.
A série "viagens de comboio" da Sara Monteiro devia ser publicada em livro. A série sobre as aulas que dá nas prisões, também.

Aqui fica então uma das viagens mais recentes da Sara:


Quem vai de comboio para o sul, quando chega a Santa Clara Sabóia, atravessa uma fronteira invisível: a temperatura, o cheiro, a consistência do ar ficam diferentes.
E em Tunes, aqueles que saem do Intercidades (ou Alfa) para apanhar o regional com destino a Lagos, descobrem um outro tempo.
Na carruagem onde eu seguia, talvez fôssemos 20. Ciganos, negros, ucranianos, alemães, japoneses, portugueses, brasileiros. No mínimo.
O casal cigano tem um carrinho de bebé a obstruir a passagem. Chega uma rapariga negra com outro carrinho. Quer passar, pede desculpa pelo incómodo. O rapaz levanta-se de um salto, pega no bebé, entrega-o à mãe, desmancha o carrinho e num instante liberta o espaço. A rapariga agradece, senta-se mais à frente.
O bebé do casal acorda e começa a chorar. Nova agitação. O pai pega-lhe ao colo enquanto a mãe prepara o biberão. Agarra em mil tralhas e vai até à casa de banho, mas está ocupada, tem de esperar.
Ouvimo-lo perguntar:
- Mas não trouxeste água?
Meu momento racista: “Não me digam que ela vai fazer o biberão com a água do comboio!”
Não devo ter sido a única a pensar o mesmo. Uma mulher loira precipita-se na sua direção com uma garrafa de litro e meio.
- Se precisar de água..
- Ah eu tenho aqui água quente. E mostra uma garrafa termo.
Ficámos sem saber o que ela queria da casa de banho.
O bebé está cada vez mais irritado. O pai passeia pela carruagem, devorando-o com beijos.
A carruagem está ansiosa, segue os gestos da mãe – ela é tão bonita, parece a Cleópatra – atentamente. A rapariga também está tensa. Diz que não tem jeito nenhum ele ter acordado no fim da viagem.
Finalmente, o biberão está pronto. O outro bebé não acordou. Tudo está bem.
Sorrimos uns para os outros (os japoneses também).
Daqui tiro duas possíveis conclusões:
Primeira – é óbvio que tanto os ciganos como a rapariga negra leram o artigo da Maria de Fátima Bonifácio e deram-nos um baile de boas maneiras só para nos desorientar.
Segunda – o comboio regional do ramal de Lagos traz ao de cima o que há de melhor nas pessoas.
Comentário extra – ao levar água à rapariga cigana, a senhora loira denunciou-se mais do que eu.

os zulus que não saibam disto


Aqui este fantástico espécime da "cultura superior" esteve no domingo passado num terraço em frente aos jardins da chancelaria alemã a admirar a lua quase cheia que se erguia sobre o concerto do Gilberto Gil. Apenas dois dias depois, ontem, ao sair do concerto dos Beach Boys, ficou um bocado admirada por ver a lua tão pequena e com uma forma tão estranha.
 
Apesar de saber ler, de ter um curso superior, morar praticamente no centro geográfico das "culturas superiores" e até ter lido na internet alguma coisa sobre eclipses lunares (e até ser amiga de facebook do Miguel Gonçalves!), não lhe passou pela cabeça que podia estar a assistir a um eclipse.
Os zulus que não saibam disto! Ainda morrem todos a rir, e depois acusam-me a mim de genocídio involuntário.

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Vou ver se o Miguel Gonçalves me arranja os episódios de A Última Fronteira em edição especial para descarregar directamente para as veias. Suspeito que pela via da inteligência não chego lá...

"ganda puta!"

Há uma dúzia de anos uma blogger da nossa praça contou que o filho de dois anos andava com a mania de chamar "ganda puta" às pessoas. Os pais tentaram tudo para lhe tirar o hábito, mas o miúdo insistia. Até que a mãe recorreu a métodos brutais. A maior parte dos comentários ao post onde isto era relatado foram de aprovação, variações de "quando for grande vai-te agradecer ter recebido essa boa educação".

Há dias comparei os valentes que "ousam assumir" um discurso politicamente incorrecto a uma criança de três anos que grita "cocó" no meio de uma sala cheia de visitas. Mas ao ler o artigo mais recente do João Miguel Tavares dei-me conta de que a imagem peca por defeito. Corrijo agora: o que esses valentões dizem não é "cocó", é: "ganda puta!"
E parece que não tiveram pais que os educassem, em criança.

Por algum motivo que gostava de entender, mas argumentando que estão a respeitar a liberdade de expressão, os jornais publicam a provocação. Dão palco a estes discursos que não fazem o menor esforço para esconder os tiques de supremacia branca, e até os exibem em letras grandes e gordas:

Ganda puta!


Desculpem que pergunte: em nome de quê publicam os jornais um "ganda puta!" (por exemplo: "Sim, há culturas que são superiores a outras") em letras gordas?

A posição de que as ideias se debatem com ideias, e que a vantagem da publicação de textos infelizes é dar ensejo à publicação de textos felizes para contrapor, parece-me um bocadinho ingénua. Qual é o poder e o valor do contraditório nestes tempos de fake news, quando já é do conhecimento de todos que as pessoas ouvem apenas aquilo que querem ouvir e acreditam apenas naquilo em que querem acreditar, quando a terra ser redonda ou plana, a chegada do Homem à lua ou a importância das vacinas são meras questões de opinião? Hoje em dia, o que acontece no espaço público não é um debate esclarecedor, mas uma enorme chinfrineira. Para muitos, o debate esgota-se de forma satisfatória no momento em que lêem o "ganda puta!" da sua convicção escrito em letras grandes e gordas nas páginas do Público. Tudo o resto que se possa dizer sobre o assunto será ignorado: mera canzoada a ladrar.
São estas as novas regras do jogo, e não as podemos ignorar.
Fazer o quê, então? Não sei. Mas o facto de não ter solução para este problema não inviabiliza a crítica e não nos pode impedir de reconhecer que chegamos a uma situação de impasse.

Para tornar tudo ainda mais complexo, a gravidade desta questão não se esgota na improficuidade do debate. Se as ideias apresentadas e debatidas se limitassem a discutir o sexo dos anjos, menos mal. Mas muitas vezes esses "ganda puta!" atirados para o espaço público de debate ferem impiedosamente a dignidade humana. O infantiloide que se julga muito valente por não respeitar "a ditadura do politicamente correcto", e grita insultos para o meio da sala, está realmente a cometer tortura psicológica contra as pessoas de alguns grupos marginalizados. Dizer-se neste caso que "quem não deve não teme" será sinal de ignorância e falta de empatia. É exigir demasiada nonchalance a pessoas que ao longo de toda a sua vida são humilhadas por atitudes - muitas vezes inconscientes e involuntárias - de ódio étnico e racial. Estou a pensar, por exemplo, no que me contou há dias um empresário alemão: em miúdo, fartou-se de apanhar tareias na escola e na rua, sem saber o que é que os outros miúdos tinham contra ele. Até que um dia percebeu: o seu cabelo castanho dava-lhe um ar de turco. Isso mesmo: perseguiam-no e batiam-lhe apenas por acharem que ele era turco. Ele - filho, neto e bisneto de alemães - tinha como escapar a esta dinâmica de violência. Mas os outros, os filhos de turcos, não. 
E estou a pensar neste filme, que mostra bem o que é crescer num ambiente hostil:



O meu filho está há meses a trabalhar com grande entusiasmo e generosidade na organização do festival in*Vision. Um dos objectivos do festival é trazer para o centro da sociedade pessoas que se sentem marginalizadas. Fazê-las acreditar que são cidadãs de pleno direito, e que esta Polis também é delas - nem mais nem menos que dos outros.

De cada vez que um jornal publica um destes "ganda puta!" de supremacia branca em letras gordas, destrói o trabalho dos organizadores do in*Vision e de tantas iniciativas do género, e obriga-os a recomeçar, uma e outra vez. Pergunto-me se o João Miguel Tavares, a Fátima Bonifácio e outros comentadores do género se sentem contentes e orgulhosos do importante papel que escolheram ter na sabotagem dos esforços para criar uma sociedade igualitária. 

E fico à espera dos próximos capítulos no Púlico: será que teremos em breve mais um artigo da Bárbara Reis a criticar os "snowflake" por afinarem logo mal lhes chamam "ganda puta!"? Será que na próxima semana João Miguel Tavares nos vai explicar porque é que os tipos que vivem nos guetos da "cultura inferior" não se devem revoltar contra os da "cultura superior" que os tratam com a rudeza de um miúdo de dois anos que quer provocar a autoridade dos adultos?

15 julho 2019

professora

Com a sorte que tenho habitualmente, lá calhou de este fim-de-semana ter sido convidada para um jantar, e de ter ficado sentada ao lado de uma mulher interessante e conversadora que passou a noite a contar histórias da RDA e das muitas diferenças entre as duas Alemanhas.

De facto, a conversa começou mal: pelo lado dos refugiados e dos filhos dos turcos e árabes, pela dificuldade de os integrar. Pois se nem alemão falam! E que os miúdos destas famílias deviam ser metidos compulsivamente nos infantários, para lhes dar a oportunidade de aprender alemão desde bem cedo, e para poder influenciar a sua educação, promovendo a sua integração neste país. Algo absolutamente necessário - dizia-se naquele canto da minha mesa - para evitar o que se passa depois nas salas de aula: alunos que não falam alemão e que não respeitam as professoras pelo simples facto de serem mulheres, e famílias que fazem ameaças de violência aos professores quando não estão satisfeitas com o desempenho deles. Eu a ouvir, e a pensar nas tantas vezes que já ouvi estes queixumes, como se fosse essa a situação generalizada (não é) e como se identificar o problema não fosse já meio caminho andado para o resolver (como mostrou o exemplo da Rütli-Schule). Pensei também nas tantas histórias semelhantes que já ouvi em Portugal. Pais que agridem professores, ou o caso de um amigo meu que recebeu uma carta anónima: "sei onde moras - se me chumbares vou violar a tua mulher e a tua filha". Mas fiquei muito caladinha, que não sou maluca para dizer a um público alemão que há portugueses que fazem o mesmo que se está a criticar nos turcos e nos árabes. Terreno minado. Por sorte, ao falar-se na obrigação de frequentar o infantário, a "Ossi" lembrou-se do país no qual cresceu, de ter ido para a creche ainda muito pequenina, e de ter sido obrigada a pôr a filha na creche também muito cedo, porque na RDA não se punha a hipótese de uma mãe querer ficar em casa a criar os filhos. Uma violência, dizia ela. A "Wessi" do grupo concordou: as crianças pequeninas precisam do conforto e da segurança do ambiente doméstico, em vez de serem formatadas num espaço colectivo. "A própria ama do meu neto, em Hamburgo", dizia uma delas, "não tem tempo para se ocupar bem de cada uma das crianças que lhe são confiadas. Uma vez vi uma refeição com eles, e percebi porque é que o miúdo anda sempre com fome: ela não dá a papa a cada um dos bebés, cada um tenta comer como pode, e acaba por cair muito mais papa no babete que dentro da boca".

Já não estávamos a falar dos refugiados, e foi pena, porque a questão é muito pertinente: qual deve ser a margem de liberdade dos pais para decidirem sobre a educação dos seus filhos? Que direito temos de impor regras semelhantes às do regime totalitarista da RDA a estes pais que vivem na Alemanha em situação de total dependência da nossa boa vontade?

A minha vizinha de mesa contou mais histórias do país em que nasceu. De como se decidiu o seu futuro profissional: o Estado escolheu o curso que ela iria tirar, e também a profissão. Sem ser tida nem achada, estudou engenharia e acabou professora. Era professora quando o muro caiu e entrou em contacto com outras realidades do ensino. Como daquela vez em que um grupo de professores de uma escola de um Estado no norte da Alemanha veio assistir às suas aulas. Ela entrou, disse "bom dia" aos alunos, estes levantaram-se, disseram "bom dia, Frau Fulana", e sentaram-se. Os professores ao fundo da sala não se mexeram, apenas fizeram cara de esfinge. A aula começou, as esfinges continuavam impassíveis. A aula inteira assim, e ela a sentir-se cada vez mais insegura perante aqueles professores que vinham da riquíssima Alemanha Ocidental para passar a sua aula a pente fino. No final, foi de coração pesado para a reunião de avaliação com o director. Os professores convidados estavam lá, e continuavam com um ar muito sério. "Como é possível acontecer tal coisa numa sala de aulas?", perguntou um deles, e ela ficou ainda mais aflita. Até que percebeu que eles estavam surpreendidos pela disciplina, atenção e concentração dos alunos, e se justificou: é a condição sine qua non para poder trabalhar com eles. Uns meses mais tarde, quando foi a sua vez de ir à escola deles, percebeu a surpresa: alunos a mascar chiclete, alunos com os pés em cima da mesa, alunos a conversar uns com os outros. O professor não era uma figura de autoridade, era apenas o adulto que tentava atravessar a aula sem soçobrar naquele mar agitado. Educação antiautoritária, remataram em coro a "Ossi" e a "Wessi". Essa foi a minha deixa para louvar as escolas dos meus filhos, a Montessori em San Francisco e a Jenaplan em Weimar: onde os miúdos trabalhavam com enorme concentração, agarrados não pelo colete-de-forças da disciplina imposta de forma autoritária, mas pelo prazer enorme que tinham em trabalhar para aprender.

E depois a professora começou a contar como fazia para conseguir que a turma funcionasse: identificava os alunos problema, e tentava ganhá-los para o seu lado. Uma vez metidos dentro do barco, o trabalho tornava-se muito mais fácil. Mas os primeiros tempos com cada turma nova exigiam dela um esforço redobrado de análise: que problemas teria aquela criança? Como seria possível ajudá-la, e mantê-la sob controlo durante a aula? O seu primeiro teste era levantar a mão para fazer uma festinha na cabeça do aluno. Se ele tivesse o reflexo imediato de se encolher, era sinal de que apanhava em casa, e que a professora não teria qualquer sucesso se tentasse dominá-lo pela força (na RDA ainda era relativamente aceitável agarrar num aluno insubordinado por uma orelha e sentá-lo num canto da sala) e não devia de forma alguma ir falar com os pais, porque essa conversa resultaria seguramente em ainda mais violência contra a criança.

O olhar dela iluminou-se ao contar do dia em que foi escolher o seu primeiro carro novinho em folha, e o chefe do stand de automóveis a atendeu com imensa simpatia. Tanta, que ela começou a desconfiar que aquele homem jovem teria alguma fixação em mulheres de meia-idade. Umas semanas mais tarde, quando foi buscar o carro encomendado, o chefe do stand ofereceu-lhe uma rosa. Ela louvou o serviço aos clientes, mas ele sorriu: "não faço isto a todos. Só a si, para lhe agradecer ter-me trazido para o caminho certo." Foi então que ela o reconheceu: o aluno mais difícil de toda a sua carreira de professora. Demorou meio ano até conseguir ganhá-lo. O miúdo vivia numa situação de violência doméstica tão brutal que nem conseguia ter bom rendimento escolar, apesar de ser inteligentíssimo. Ela conseguiu a pouco e pouco conquistar a confiança dele. Dava-lhe explicações depois das aulas, e garantia-lhe que poderia contar sempre com ela. Ao fim de meio ano o miúdo deixou de se retrair com medo quando ela levantava a mão na direcção da sua cabeça. E tornou-se um dos melhores alunos da turma.

No nosso cantinho do jantar de repente havia uma "Ossi", uma "Wessi" e uma "estrangeira" com os olhos cheios de lágrimas.

13 julho 2019

"gaita"

A palavra de hoje na Enciclopédia Ilustrada é "gaita" (às vezes aos sábados a palavra proposta escorrega para a possiblidade de brejeirice, "porque hoje é sábado"...).

Mas quando alguém falou em "gaita-de-beiços" lembrei-me de um post que escrevi há década e meia, no princípio do blogue, e trouxe-o de novo à luz do dia. Melhor dizendo: trouxe a este nosso presente sombrio a luz de Reuven Moskowitz. Que tanta falta faz.



Conheci o Reuven Moskowitz no princípio deste século, porque a minha vizinha em Weimar o louvava imenso, e andava toda feliz com a perspectiva de receber em sua casa este homem tão cheio de alegria e frescura, que recebera o Aachener Friedenspreis por uma vida dedicada à construção de uma paz justa entre palestinianos e israelitas. Fomos ouvi-lo, e tivemos depois óptimas conversas bem acompanhadas de anedotas de humor hebraico e vinho do Porto. Contou um pouco da sua vida na Schtetl romena onde nasceu, evitou contar detalhes sobre o Holocausto, convidou-nos para ir a Israel conhecer alguns projectos e comunidades onde tem sido possível construir a paz (mas o Joachim recusou amavelmente, alegando alergia ao elevado teor de chumbo no ar).

O Reuven trazia sempre no bolso uma #gaita-de-beiços que uma família de palestinianos lhe deu no fim da guerra dos seis dias. Nessa altura ele era soldado, e sentia-se o vencedor mais triste do mundo. Estava encarregado de fazer respeitar a hora de recolha obrigatória num bairro. Algumas crianças começaram a espreitá-lo por trás de uma cerca, e ao vê-las ele sentiu o terrível peso das suas granadas, do capacete e das botas. Sorriu-lhes, foi ter com elas, deu-lhes os chocolates que tinha no bolso. Elas fugiram, e daí a pouco regressaram. Tinham uma laranja para ele. Depois apareceu o avô, convidou-o para a casa da família, e ofereceu-lhe uma gaita-de-beiços. Essa que ele passou a levar sempre consigo.

Numa das vezes que veio a Weimar, por volta de 2005, pediram-me para o ir buscar à estação de caminho de ferro. A conversa fluiu como se fôssemos amigos de sempre. Contei-lhe sobre os meus primeiros tempos em Weimar e a pergunta automática que me fazia sempre que via uma pessoa de idade: "há 60 anos, de que lado estavas?". Ele riu-se, "ah! tive a mesma reacção quando vim pela primeira vez à Alemanha!", e acrescentou: "não podemos ser assim, porque esse é exactamente o tipo de mecanismo que dá mais força ao anti-semitismo."
Fiquei a pensar nesta imensa sabedoria de saber perdoar ou esquecer, para poder recomeçar o jogo com cartas não marcadas. Vê-lo assim - ele, que escapou ao Holocausto -, tão disposto a aceitar a Alemanha e os alemães, faz-me pensar que no cântico dos anjos, “Paz aos homens de boa-vontade".

Mais tarde fui ouvi-lo no colóquio, onde falou sobre os mecanismos que impedem a paz em Israel: a diabolização premeditada do inimigo, as assimetrias na distribuição de forças e nas negociações. Foi muito claro em relação aos alemães: "É um erro gravíssimo atribuir uma culpa colectiva a todo um povo - os judeus viveram dois milénios com a culpa colectiva da morte de Cristo, e agora são os alemães que vivem com a culpa colectiva do Holocausto. Isto está errado! Não se deixem amordaçar por esses que vos impõem um sentimento de culpa colectiva. Vocês têm uma palavra a dizer sobre o que se passa em Israel, e têm obrigação de se pronunciar!"

Criticou Israel com desassombro e conhecimento de causa. Que os conflitos militares foram provocados por Israel para aumentar o seu espaço territorial, que Gaza não passa de uma enorme prisão, que há uma estratégia deliberada por parte de alguns políticos israelitas de desumanizar os palestinianos para melhor permitir a sua exploração sistemática, que os palestinianos têm sido vítimas de pogroms, e que o seu ódio tem crescido devido ao estado de permanente humilhação em que vivem. E que o único caminho para a paz é desistir das tantas mentiras criadas por motivos estratégicos e assumir a verdade, aceitar sentar-se à mesa com o opositor como um igual e não como um demónio (ou um "animal de duas patas", como um político israelita chamava aos palestinianos).

Um dos palestinianos presentes pediu a palavra, para falar sobre a sua cidade: 45.000 habitantes com um único check-point onde um soldado israelita de 19 anos dá livre curso ao seu sadismo, onde morrem pessoas porque a ambulância é obrigada a esperar várias horas, onde mulheres dão à luz em plena fila de espera no meio da rua. A cada nova frase o ódio tornava-se mais palpável - e compreensível.

Não tenho experiência de debates assim, e senti pena do Reuven, que, ao tentar abrir caminhos para a Paz, se expunha desta maneira. As suas palavras, que ainda há pouco soavam tão libertadoras, perdiam a força e tornavam-se quase ocas, impotentes perante os horrores a que os palestinianos são sistematicamente sujeitos.

Ele não se deixou intimidar pelo ódio. Falou do perigo de generalizar ("os judeus" ou "os palestianos" ou "os alemães" são conceitos que servem a lógica do ódio e da violência), e apelou para a necessidade de desarmar a região e criar uma confederação entre Israel, a Jordânia e talvez a Síria, com a possibilidade de livre movimentação para todos - qualquer palestiniano tem o direito de regressar à Palestina ("isso mesmo, apoiado!", dizia o palestiniano), qualquer judeu tem o direito de se estabelecer na Jordânia ("era o que faltava!", dizia o palestiniano).

E concluiu: temos de acreditar num futuro de paz. Olhem para mim: um judeu que escapou ao Holocausto e hoje tem alemães entre os seus melhores amigos. Digam-me se isto não é um sinal de esperança!

Tirou do bolso a sua gaita-de-beiços, contou como lhe tinha chegado às mãos, e terminou a sessão tocando canções árabes, alemãs e uma belíssima melodia para o seu salmo preferido:

Qual o homem que deseja a vida

e quer longevidade para ver o bem?


Preserva a tua língua do mal

e os teus lábios de falarem falsamente.

Evita o mal e pratica o bem,

procura a paz e segue-a.

Mário Bonifácio

Fantástico RAP.




11 julho 2019

cocó! (hihihihi)

Há tempos li um artigo de opinião no Spiegel online (infelizmente esqueci o nome do autor) onde se comparava o politicamente correcto à condução cuidadosa numa zona urbana com muitas pessoas.  A ideia era muito simples: se sei que há muitos peões nesta zona, se sei que há crianças a brincar, se sei que qualquer descuido meu pode provocar um acidente, naquela zona conduzo com redobrados cuidados. E nem por isso me vou queixar de que a minha mobilidade está em risco.

Traduzido o discurso dos opositores do politicamente correcto para os termos desta imagem, fica:

- Quero lá saber se há crianças e velhinhos a atravessar a rua! Tenho um bólide novinho em folha, estou numa rua para carros, tenho direitos. Saiam da frente, aqui vou eu!

A imagem também se aplica maravilhosamente à lamúria "sou um desgraçadinho, diga o que disser, há sempre alguém que se sente ofendido...":

- Tenho direitos! Estou a cumprir a velocidade legal dentro das localidades! Não tenho culpa que a rua seja estreita, sem passeios e cheia de peões. A cada metro, pumba!, mais um que se queixa que foi atropelado! Não me deixam conduzir como me apetece! Sou um desgraçadinho.

Num outro artigo de opinião na mesma revista, Ferda Ataman compara estas pessoas que querem  falar como lhes apetece, e sem se sujeitaram às peias da boa educação e da inteligência, a um miúdo de três anos que grita para o meio da sala "cocó!" e depois fica na expectativa, a ver como é que os adultos vão reagir. Como explicava a Françoise Dolto já há muitos anos: uma criança que diz "cocó!" para uma audiência de adultos sente-se muito poderosa.

Enfim, criancices.

Mas isto dá-me uma ideia. Para conseguirmos uma plataforma de entendimento entre os adeptos e os opositores do politicamente correcto, e lembrando ainda aquela piada da família que numerou as anedotas para as contar mais depressa ("37!" "hahahaha" "51!" "hehehehe, muito boa!" "15!" "oh, essa não se conta à mesa!"), quem quiser dizer o que lhe apetece sobre uma minoria podia anunciar simplesmente:

- Estou a dizer um cocó sobre os ciganos/africanos/judeus/mulheres/gays/desempregados/deficientes/idosos/etc. !

Dizia "cocó!", ficava aliviado, até podia entrar para as estatísticas ("em Julho aumentou exponencialmente o número de cocós xenófobos nas redes sociais") e o grupo alvo não se sentia espezinhado como nos casos em que alguém diz por extenso o que lhe vai nas tripas.


o outro

Ando há que tempos para contar sobre isto, mas mete-se uma coisa e outra, e antes que se meta o Natal (já falta pouco, aposto com quem quiser) arranjo tempo para anunciar, finalmente, que o número 2 da revista literária Fluir é sobre "O Outro", e que vale bem um passeio pelas suas páginas online.

Tem alguns poemas de empatia pungente da Maria Rosário Pedreira, tem poemas belissimamente ditos por Paula Fonseca, tem contos, tem uma entrevista a uma escritora de biografias literárias. Com este ponto final prematuro acabei de me desgraçar, porque todos os não mencionados vão levar a mal, e nunca mais me falam. Especialmente o Ruy Belo, que também lá anda.
(Ai, e o Afonso Cruz, com quem ainda queria beber uma cervejinha! Adeus, adeus, meus lindos sonhos, não tenho sorte nenhuma.)

E tem um texto meu. Que levei muito tempo a escrever, porque tinha tanto para dizer sobre o tema "o outro" que o problema não era escrever, era não escrever tudo o que queria. Por exemplo: só contei uma anedota. De alentejanos.

Depois de pronto, passei-o aos meus filhos. O Matthias gostou tanto que o meteu no tradutor do google, para partilhar com os amigos alemães, mas ficou decepcionado porque o tradutor automático não apanhou bem as nuances. De modo que os amigos dele leram-me, mas permaneceram muito distantes de mim. E não são os únicos: por estes dias tenho pena de todos os meus amigos alemães que não falam português. Queria falar-lhes do João Gilberto, lembrar músicas, desenhar com calma as suas frases nas nossas conversas. Mas eles não percebem nada, coitados, tão inteiramente outros me são. Nem sequer sabem o que perdem, coitados. E se é assim comigo, imagino o que não será com todos os outros estrangeiros de Berlim. A quantidade de mundos que aqui coexistem sem que as pessoas os possam sequer vislumbrar. Parecemos todos o Ali Babá numa caverna cheia de tesouros, mas com as luzes apagadas.
As luzes apagadas dentro da cabeça. 

09 julho 2019

"Fátima Bonifácio e o soufflé"

A melhor reacção que li até agora ao texto racista da Fátima Bonifácio no Público é este texto do Hugo van der Ding.

(Se vocês tivessem de ir para uma ilha deserta e só pudessem levar um humorista, qual dos outros levavam?) (O Hugo van der Ding não podiam levar, que já está reservadinho.)


Leiam tudo. Deixo aqui apenas duas pequenas ideias:

"Não conto que me responda, mas adorava que esclarecesse uma dúvida que me ficou da leitura do seu texto: a Maria de Fátima, no direito à duplicidade de que todos gozamos, escreveu-o na sua qualidade de Maria-de-Fátima-Académica ou na sua condição de Maria-de-Fátima-Calhandreira? Isto parece-me fundamental para compreender o que a Maria de Fátima escreveu. Se foi na sua condição de académica, a Maria de Fátima há-de dizer-me onde é que dá aulas, para eu escrever aqui num papel para não me esquecer de nunca lá pôr os meus filhos. Se foi na sua condição de calhandreira, estão os meus parabéns, o texto está ótimo!"
(...)
"É curioso que a académica Maria de Fátima se queixe depois das portas escancaradas das Universidades, da entrada de analfabetos que resultaria do acesso irrestrito e incondicional ao ensino superior, quando a própria Maria de Fátima trata este tema — pelo menos neste artigo, a única coisa sua que li até hoje — como uma analfabeta."


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ADENDA - agora que já passaram alguns dias, transcrevo o texto completo:

Cara Maria de Fátima,
Permita-me que a trate assim, que estou sem pachorra para ir ao Google procurar o seu grau académico, que, li não sei onde, é de licenciada para cima. Pois que já deve adivinhar o que me traz aqui: o seu artigo de opinião «Podemos? Não, não podemos», publicado no jornal Público, que li, eu e o resto do país. E resolvi então escrever-lhe uma carta aberta, para juntar às muitas outras que lhe têm escrito por estes dias a propósito do mesmo tema. Olhe, sempre é mais uma para pôr em cima da lareira ou do piano no Natal, que, com esse feitio não deve receber muitos postais de Boas Festas. Digo eu.
Por ignorância minha ou por não frequentarmos os mesmo círculos (nunca a vi, por exemplo, num after, ou, pelo menos, não tenho ideia disso), confesso que nunca tinha ouvido falar da Maria de Fátima. Mas soube agora, a propósito do frisson que causou o seu artigo, que ando a perder bastante, pois garantem-me que a Maria de Fátima é uma respeitadíssima e publicadíssima académica. Faz muito bem, que o saber não ocupa lugar. E, como diz o povo, um burro carregado de livros é um doutor. O povo é mesmo torto, credo.
Não conto que me responda, mas adorava que esclarecesse uma dúvida que me ficou da leitura do seu texto: a Maria de Fátima, no direito à duplicidade de que todos gozamos, escreveu-o na sua qualidade de Maria-de-Fátima-Académica ou na sua condição de Maria-de-Fátima-Calhandreira? Isto parece-me fundamental para compreender o que a Maria de Fátima escreveu. Se foi na sua condição de académica, a Maria de Fátima há-de dizer-me onde é que dá aulas, para eu escrever aqui num papel para não me esquecer de nunca lá pôr os meus filhos. Se foi na sua condição de calhandreira, estão os meus parabéns, o texto está ótimo!
Mas quero acreditar que a pessoa cuja crónica saiu no Público foi a Maria-de-Fátima-Calhandreira. É que a Maria-de-Fátima-Académica não faria generalizações como «os ciganos», «os africanos», e muito menos usaria como amostragem académica uma conversa que teve no elevador com a mulher-a-dias da sua vizinha de cima.
Dirijo-me, portanto, à Maria-de-Fátima-Calhandreira, com um intuito pedagógico. Não vou comentar a sua posição em relação ao sistema de quotas que tanto a incomoda. Discuti-la-ia com gosto com a Maria-de-Fátima-Académica, se ela assim quisesse. Mas, como já vimos, não é dela a prosa do artigo.
Abeiro-me assim da janela de onde a Maria-de-Fátima-Calhandreira, de óculos na ponta do nariz, casaco de malha coçado, e naperon de crochet crescendo numas agulhas, tece as suas considerações para quem a quiser ouvir.
Vou saltar por cima dos clichés estafados sobre os ciganos, que já não há pachorra para essa conversa, de tão pouco original. E qualquer taxista expõe melhor os seus argumentos do que a Maria de Fátima. Mas, Maria de Fátima, os africanos? A Maria de Fátima escreveu mesmo «os africanos»?
O que me parece faltar à Maria-de-Fátima-Calhandreira, como sói acontecer às calhandreiras, é mundo. É viajar, é ler, é ir ao cinema, que são três boas soluções para a falta de mundo. Uma mais cara, outra média e outra barata, para não haver desculpas.
África, Maria de Fátima, é um continente. Que vai do deserto à selva, da savana às montanhas. Tem o norte e tem o sul, tem o interior e o litoral, tem a costa atlântica e a costa oriental. E cada uma destas partes tem tanto a ver com as outras como têm a ver o olho do rabo com a Feira de Montemor, como também diz o povo.
África tem 30 milhões de quilómetros quadrados, 20% do total da área terreste. Tem 54 países. Tem cerca de 2000 línguas, com 140 delas faladas por vários milhões de pessoas. E, por falar em milhões de pessoas, sabia, Maria de Fátima, que «os africanos» são (números de 2018) 1.287.920.518 de pessoas? Vou dizer por extenso, pois creio ter lido que a Maria de Fátima é de Letras: mil duzentos e oitenta e sete milhões novecentas e vinte mil quinhentas e dezoito pessoas. Ou seja, há mais 1.287.920.517 de africanos, para além da mulher-a-dias da sua vizinha de cima, que a Maria de Fátima usou para resumir «os africanos». Já agora, estima-se que haja em África 380 milhões de cristãos, ao contrário do que a Maria de Fátima parece pensar, quando escreve que os africanos não «fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade». É bom de ver que a Maria de Fátima nunca leu, nem sequer nas revistas das Selecções do Reader’s Digest, na privacidade da sua casa de banho, que algumas das comunidades cristãs mais antigas do mundo (dos séculos I e II) são em África.
Mesmo dando de barato que a Maria de Fátima se referia à África que fala português, ficamos com cinco países, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, que ficam geograficamente em regiões tão distintas culturalmente como o noroeste, o sul, o oriente ou o meio do mar. E são cerca de 52.000.000 de pessoas. Cinquenta e dois milhões de pessoas.
Penso que foi a ignorância destes números que fez com que generalizasse que todos os africanos (e afrodescendentes) se «autoexcluem, possivelmente de modo menos agressivo [que os ciganos], da comunidade nacional»,  que «odeiam ciganos», que «constituem etnias irreconciliáveis», que «são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios», que «detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou "nacionalidades" rivais». E é aqui que usa o seu vasto conhecimento dos africanos, através do exemplo da mulher-a-dias da sua vizinha de cima, que, conta a Maria de Fátima, lhe disse: «Senhora, eu não sou preta, sou atlântica, cabo-verdiana». Desta história que a Maria de Fátima parece usar como exemplo académico, fica uma dúvida: a Maria de Fátima chamou preta à mulher-a-dias da sua vizinha de cima? É que, pun not intended, fica pouco claro.
Mais à frente no seu texto, e a propósito da criação de um observatório do racismo e da discriminação, escreve a Maria de Fátima: «Mas como é que se observa o racismo e a discriminação a partir dos gabinetes almofadados onde se sentariam os observadores? A única maneira de observar uma matéria tão fugidia e evanescente é frequentar feiras e supermercados baratos, é entrar nos bairros em que nem a polícia se atreve a pôr os pés». Isto escrito pela mulher que, umas linhas antes, usa o exemplo da mulher-a-dias da vizinha de cima para concluir que todos os africanos são racistas. Ai, Maria de Fátima, Maria de Fátima...
África e os africanos têm bastantes problemas, sabemos todos, e um deles, que não é de somenos, são os brancos como a Maria de Fátima que, por ignorância, mas também por maldade, usam o seu estatuto «académico» para despejar o seu ódio racista. Um discurso racista disfarçado por vezes de humanitário, trazendo para a conversa temas de facto sérios e graves como a excisão feminina, oferecendo, como contributo, a exclusão.
É curioso que a académica Maria de Fátima se queixe depois das portas escancaradas das Universidades, da entrada de analfabetos que resultaria do acesso irrestrito e incondicional ao ensino superior, quando a própria Maria de Fátima trata este tema — pelo menos neste artigo, a única coisa sua que li até hoje — como uma analfabeta.
A propósito do por vezes complicado choque de culturas, lembrei-me de uma história de Kofi Annan — pedindo-lhe desde já, Maria de Fátima, desculpa por usar o exemplo de um africano cuja craveira intelectual faz de si, Maria de Fátima, por comparação, uma analfabeta, cuja imensa pinta e classe fazem de si, Maria de Fátima, por comparação, uma frequentadora de supermercados baratos, e cujo prestígio internacional faz de si, Maria de Fátima, por comparação, tenho de dizer-lhe, a mulher-a-dias da sua vizinha de cima.
Kofi Annan casou, como sua segunda mulher, com uma condessa sueca. Vinda de um país, nas palavras da própria, onde «quando combinamos um jantar para as oito da noite, chegamos às sete e meia e ficamos a dar voltas de carro pelo bairro até chegar a hora marcada de bater à porta». Para o primeiro jantar que deu aos seus novos parentes africanos, fez a condessa um soufflé. Ora os seus novos parentes não chegaram às oito, nem chegaram às nove, chegaram às dez da noite. Já há muito que tinha ido o soufflé (que, penso que sabe, é um prato que tem de ser servido assim que sai do forno) para o caraças. A condessa ficou pior que estragada, claro. Depois de os parentes se irem embora, Annan, sempre um diplomata, lá acalmou a condessa. E acabaram por concordar que, no futuro, os parentes chegariam atrasados só uma hora e não duas, e que a condessa não voltaria a fazer soufflé.
São duas maneiras de encarar o «outro»: tratá-lo genericamente como um bárbaro selvagem, ou abdicar, de vez em quando, de um soufflé.
E esta escolha dirá sempre mais sobre «nós» do que sobre o «outro».



"Bom Jesus de Braga"


Os meus pais casaram na igreja do #Bom_Jesus_de_Braga, num dos feriados de Nossa Senhora, tudo como manda a lei - ou mandava, naqueles tempos pré-Vaticano II. Durante os anos que vivemos em Braga, o santuário espreitava-nos o quotidiano. Era da casa.
Cinco filhos, uma mudança para o Porto e muitos anos depois, os meus pais divorciaram-se. A igreja do Bom Jesus perdeu o brilho que tinha, ficou mais igual às outras.
A cidade, essa, para mim já perdera o brilho há muito. Já aos seis anos me parecia mesquinha.
Dizem-me que está melhor, mais moderna, muito agradável. Os meus amigos alemães que a visitam dizem maravilhas. Mas eu esqueço-me de mencionar que a minha história começou oficialmente ao cimo daquela escadaria no monte.
Talvez um dia lá volte, e lá regresse a mim.

08 julho 2019

ah, e tal, mas a Fátima Bonifácio limitou-se a descrever como é que os ciganos são...

Algumas informações para quem elogia a coragem da Fátima Bonifácio de dizer as coisas como elas são no que respeita aos povos ciganos:

1. A realidade actual dos povos ciganos na Europa é o resultado de mais de meio milénio de perseguições e marginalização. Para terem uma ideia: já por decreto de 1526 foi proibida a entrada de ciganos em Portugal e ordenada a expulsão dos que viviam no país. A proibição manteve-se ao longo dos séculos. Como a Espanha também proibia a entrada de ciganos, estes não tinham como cumprir a lei, e foram ficando em Portugal em situação de absoluta ilegalidade. Os ciganos que fossem apanhados eram punidos com açoites, perda de todos os seus bens, vários anos de galés (no princípio do séc. XVIII as galés eram reservadas aos homens; as mulheres ciganas eram deportadas para o Brasil, onde havia grande escassez de mulheres brancas para os colonizadores que não quisessem ou não pudessem casar com uma índia ou uma escrava negra), e em alguns casos até a pena de morte.
Outro facto muito importante para compreender as raízes históricas da "incapacidade de se integrar" do povo cigano: os portugueses que andassem com eles também estavam sujeitos às mesmas penas (açoites, expropriação, galés).
Sabendo isto, como é que nos podemos admirar que os ciganos vivam segundo as suas próprias leis, e tenham dificuldade em integrar-se? Mais ainda: como é que nos ocorre culpá-los de uma situação que foi criada pela perseguição institucional e social que durante séculos a sociedade portuguesa moveu contra eles? Que acções e que tempo são necessários para reduzir a desconfiança e sarar as feridas gangrenadas ao longo de tantos séculos?

2. O anticiganismo dos europeus é um facto, existe desde a Idade Média, e ainda hoje é aceite sem qualquer problema. Na nossa sociedade há um enorme à-vontade para generalizar e para falar das pessoas ciganas como se tivessem um problema genético de preguiça e de propensão para o crime e a ilegalidade, e poucos se dão conta da carga racista do discurso que fazem. Este nosso anticiganismo é um hábito que nos impede de ver as pessoas para além das categorias em que as arrumámos, e nos impede de encontrar soluções para os problemas que provocam tanto sofrimento e desconforto quer a essas minorias quer à sociedade em que vivem. Insistir numa retórica anticiganista é participar na construção dos entraves à resolução dos problemas, e simultaneamente atribuir cinicamente aos ciganos a responsabilidade por uma situação que resulta em grande parte das nossas escolhas, das nossas acções, do nosso discurso de rejeição ou, no mínimo, da nossa indiferença.

3. O que é realmente grave no texto de Fátima Bonifácio:
- Ignora o contributo da sociedade portuguesa para a criação do contexto em que essa minoria vive, bem como a questão da responsabilidade histórica.
- Parece decalcado da "retórica assertiva" dos nazis: "nómadas sem lei", "incapazes de integração", "resistentes ao trabalho", "com costumes diferentes dos nossos" - numa palavra: "associais". Como se Fátima Bonifácio não conhecesse a História do século XX, nada soubesse sobre os ciganos enviados para as câmaras de gás com um triângulo negro cosido no casaco (o símbolo dado aos "associais"),  e não tivesse tirado dela nenhum ensinamento.
- Evita a todo o custo estudar e tentar ver para além das aparências.
- Reforça o anticiganismo e o preconceito, preparando o terreno para que a sociedade civil aceite com indiferença e até alívio eventuais acções de violência (inclusivamente institucional) contra os ciganos. Caso hoje apareça por aí um político que queira dar uma "solução final" ao "problema cigano", textos como este da Fátima Bonifácio adequam-se maravilhosamente à sustentação "factual" de acções de perseguição racista.

4. Os ciganos alemães que conseguiram sobreviver à perseguição nazi e ficaram neste país parecem estar bem integrados. Vivo na Alemanha há 30 anos, e não me lembro de ter visto notícias ou ouvido comentários privados sobre alguma espécie de ameaça que os Roma e Sinti alemães possam representar para esta sociedade. Ou seja: em cerca de 50 anos foi possível passar da retórica nazi, que levou ao genocídio, para a coexistência pacífica.
Deixo esta última informação como sinal de esperança para os portugueses: se houver vontade política e tomada de consciência por parte da população civil, é possível corrigir em meia dúzia de décadas os terríveis resultados de meio milénio de anticiganismo institucional.
Mas se preferirem aplaudir a "assertividade" da Fátima Bonifácio, e teimar numa perspectiva mal informada e maniqueísta da situação, então aí...

07 julho 2019

algumas perguntas ao jornal Público

Por falta de tempo, não escrevo um post com frases do Hitler, do Goebbels, dos teóricos racistas do regime nazi e da Fátima Bonifácio (no seu texto de opinião "Podemos? Não, não podemos", publicado no Público), e a sugestão para os leitores tentarem adivinhar quais são as frases dos líderes nazis, e quais são as da Fátima Bonifácio.
Seria um exercício extremamente difícil, porque não há diferenças.
O ódio étnico e racial que Fátima Bonifácio revela abertamente no seu texto de opinião é o mesmo ódio que vivia em muitos cidadãos das sociedades alemã e europeias, o ódio que alimentou a máquina nazi e que lhe permitiu levar a cabo o Porajmos: o genocídio dos ciganos.

Em caso de dúvidas, a visibilidade maior que tem sido dada à Shoah no âmbito dos crimes nazis oferece-nos um instrumento simples para aferir o teor de ódio étnico e racial de um texto: basta trocar o grupo alvo do ataque por "judeus", e avaliar o resultado. No caso do texto "Podemos? Não, não podemos" de Fátima Bonifácio, ficaria assim:

A comparação com a igualdade ou paridade de género é inteiramente falaciosa. As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade. Ora isto não se aplica a judeus. Os judeus  possuem os seus códigos de honra, as suas crenças, cultos e liturgias próprios. Os judeus (e já se sabe isto desde o Mein Kampf) são inassimiláveis: organizados em famílias e parceiros de negócio, conservam os mesmos hábitos de vida e os mesmos valores de quando viviam na terra deles. E mais: eles mesmos recusam terminantemente a integração. Além disso, os judeus são abertamente racistas: detestam os brancos sem rodeios; e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de grupos rivais. O que temos nós a ver com este mundo? Nada. O que tem o deles a ver com o nosso? Nada.

Seria imaginável que algum órgão de comunicação social que se leve a sério publicasse um texto de opinião nestes termos? Não, de modo algum.

A publicação daquele texto de opinião de Fátima Bonifácio  suscita as seguintes perguntas, que dirijo aos responsáveis do jornal Público:

1. Se publicou o "Podemos? Não, não podemos" da Fátima Bonifácio, que motivos apresentaria para não publicar um texto com as mesmas frases, mas sendo sobre judeus em vez de ser sobre ciganos e negros? Onde traça a linha vermelha, e segundo que critérios?
Será por respeito às vítimas da Shoah? Argumento estranho, porque os ciganos foram igualmente vítimas das mesmas políticas nazis de genocídio, e os negros foram durante séculos vítimas de um racismo que justificou o negócio da escravatura (e vice-versa).   

2. Como foi possível não se terem apercebido do ódio étnico e racial (para além da ignorância e do preconceito) subjacente ao texto que publicaram no jornal? Repito a pergunta, porque ainda não consegui recuperar da perplexidade: como foi possível?
Exijo agora do jornal Público um exercício de transparência paralelo ao que a revista Spiegel fez quando se descobriu que um dos seus jornalistas inventava as reportagens que entregava para publicar.

3. Apesar da tomada de posição de Manuel Carvalho - e, pior ainda, por causa dos termos em que esta foi feita - os mal-entendidos sobre o alcance e significado da liberdade de expressão em Portugal ganharam renovada força. Para muitos, Fátima Bonifácio é a mártir mais recente do "maldito politicamente correcto que nos oprime e não deixa dizer as coisas como elas são". Um jornal não pode publicar textos de ódio étnico e racial. Pura e simplesmente: não pode. Ao publicar, e ao tentar emendar depois dizendo que cometeu um erro de análise, coloca o discurso de ódio étnico e racial no âmbito da opinião. "Começou por nos parecer que não tinha mal"...
De que modo vai o jornal Público  assumir a sua responsabilidade por ter contribuído, com o exemplo que deu, para baixar ainda mais o nível do debate sobre a liberdade de expressão e a fronteira da decência do discurso no espaço público?

4. A publicação deste texto não vai ter consequências no jornal Público? Estamos perante uma das crises mais graves da sua existência? Ou não se levam a sério e portanto partem do princípio que o texto do Manuel Carvalho vai resolver o problema?

05 julho 2019

o stress do fim-de-semana ataca de novo



Para além de tudo o mais que Berlim oferece todos os dias, este fim-de-semana há também:

Hoje: Vernissage de uma exposição do Joachim, no OMAs.

Hoje: Concerto do Milton Nascimento na Haus der Kulturen der Welt.

Sábado à 20:00: leitura do Wladimir Kaminer na Zitadelle de Spandau.

Sábado à noite: Russendisko no SO 36.

Domingo: entre as 10 da manhã e as cinco da tarde, a antiga prisão da Stasi em Hohen-Schönhausen abre as portas com programa especial para o público - especialmente para o público jovem. E às duas da tarde há um concerto com Wolf Biermann, o cantautor que foi expulso da RDA.
Wolf Biermann é, para quem não sabe, uma testemunha extraordinária da História da Alemanha no século XX (podem ler aqui, em francês).

Todo o fim-de-semana: 40º festival internacional de realejos, cujo ponto alto será um desfile no Ku'damm no sábado de manhã, por volta das 11:00, e a festa na Breitschadplatz, por volta do meio-dia.

Todo o fim-de-semana: Classic Open Air no Gendarmenmarkt

Mais a exposição do Caillebotte, mais a exposição do Nolde.

Ao menos a Filarmonia e as óperas fecharam para férias. Ao menos isso. Mesmo assim, não sei como vou dar vazão a isto tudo. Acho que Berlim vai ter de desenrascar alguns destes eventos sem a minha ajuda.


É que não há condições.


"século XI"


Onde é que eu ia? Ah, já sei: Quedlinburg, a Kaiserpfalz favorita da dinastia otoniana, foi assistindo mais ou menos pacientemente às andanças daqueles malucos (ele era um irmão a tentar matar o outro, ele era um tio a raptar o sobrinho, rei aos três anos, para lhe ficar com o trono) e à intervenção sábia das mulheres (graças à avó e à mãe, o pequeno Otão III foi libertado aos cinco anos e pôde continuar a ser rei). Bom filho e neto, quis agradecer a ajuda (se é que ter de ser rei aos cinco anos de idade se pode chamar ajuda), e para isso ofereceu à abadia feminina da sua avó, em Quedlinburg, o direito de cunhar moeda, fazer feiras e cobrar impostos de alfândega. Aconteceu isso em 994, apenas seis anos antes do fim do mundo. Admito que o rapaz, na altura com 14 anos, tivesse pensado “yolo, e além disso quando isto começar a dar prejuízo já cá não estou” (assim uma espécie de parcerias público-privadas mil anos antes das nossas, é bem certo que na História nada se perde, tudo se transforma).

Acontece que, ao contrário do que tudo indicava, o fim do mundo afinal não aconteceu, e Quedlinburg entrou no #século_XI com uma sólida situação financeira, que lhe permitiu oferecer à abadia uma magnífica igreja românica: a igreja de São Servácio, que era um santo nascido na Arménia (curioso: para onde quer que me vire, dou com arménios – parece um caso de “estava escrito”).

O jovem Otão III morreu com apenas 22 anos, ainda o século era uma criança de fraldas, e quem lhe sucedeu foi o seu primo Henrique, que era um santo, e também o filho do tio raptor. Ou seja: tanto trabalho teve o tio Henrique, de cognome O Brigão, e para nada, excepto para enriquecer Quedlinburg (e também umas incursões bélicas de Otto III em Itália, que muito antes de Goethe já havia alemães a gostar daqueles ares e daquela culinária, lá está: a História a repetir-se, mas da segunda vez em forma de intercâmbio cultural e humanismo). Tal como Otto III, este primo morreu sem descendência, mas ao contrário daquele deixou um reino com a maior parte dos problemas bem resolvidos, e que ocupava mais ou menos a parte azul do mapa que podem ver numa das imagens (e que, já o sendo, não dava ainda pelo nome de sacro império romano-germânico, pelo que Henrique II foi provavelmente um caso de “éramos felizes, e não sabíamos”). O trono foi então dar uma voltinha para os lados da dinastia sálica (imagino o tio Henrique, o Brigão, às voltas na tumba, e a repetir "oh, se eu soubesse o que sei hoje tinha-me deixado ficar quietinho...").

Mas Quedlinburg permaneceu de pedra e cal, continuou a ser uma Kaiserpfalz favorita, e até teve direito a anais. Sim, os anais de Quedlinburg! Criados em 984, e com registos até 1025, pensa-se terem sido escritos por mulheres da abadia (who else?). Neles se pode ler pela primeira vez uma referência à Lituânia (1009). Mas não vou pesquisar nada sobre a Lituânia dessa época, porque ainda me arrisco a encontrar lá arménios.

Muito havia ainda para dizer. Por falta de tempo (e – escuso de fazer bluff - conhecimentos), deixo apenas uma nota à margem: este Santo Henrique era bisneto da Santa Adelaide. Ainda estou para saber se por alturas do século XI a santidade era questão de genética, educação, ou compadrio. [Cenas dos próximos capítulos: hei-de voltar ao assunto no século da Santa Isabel de Portugal.]

Não me deixaram fotografar a parte mais antiga da igreja de São Servácio, a do séc. X, mas desforrei-me na área construída no séc. XI. Eis as fotos.







"século X" (2)




Século X

Para que não vos falte nada, ontem fui de propósito a Quedlinburg, que no #século_X foi a terra do Henrique I, do Otão I, do Otão II, do Otão III e do Henrique II, para tirar fotografias. Entrei na igreja românica do burgo, fui direitinha à cripta e por trás desta ao "confessorium" construído em novecentos e troca o passo, e quando ia para fotografar apareceu a guarda da igreja a dizer que não podia.
- E pode dizer-me porquê?, perguntei eu com curiosidade e bons modos.
- Porque as fotografias perturbam a serenidade deste espaço, respondeu ela em voz alta, estridente e antipática.
Só me deixou fotografar na nave central. A cripta e o "confessorium" (com aspas, porque não tenho tempo de ir ver como se chamará em português, que daqui a nada são nove horas e tenho de pôr a palavra do dia) estão naquele espaço por trás do altar na que deve ser a última fotografia desta série.
A verdade é que fui a Quedlinburg num pé e vim noutro, porque os amigos com quem ia tinham bilhetes para os Festspiele de Halle e a ópera começava já às sete. De modo que só fiquei com umas ideias vagas daquele primeiro Henrique que foi promovido a rei quando andava a caçar pássaros, e dos seus filhos, um dos quais levou para a batalha contra os hungaros a autêntica lança que trespassou Cristo, e assim ganhou (a lança faz parte do tesouro da coroa germânica, e está agora em Viena, de onde não sai de modo algum, pelo que em Quedlinburg dão a ver uma cópia).
E por falar em cópias, também vi cópias de sapatos e outros objectos pessoais usados no século X. Não diziam se os sapatos eram de homem ou de mulher, mas - assim bonitos e confortáveis como são - parece-me que bem podiam ser de uma das poderosas rainhas dos Otões. Sendo certo que o casamento era importante para reforçar alianças a assegurar descendência, estas mulheres eram muitas vezes mais cultas que o marido, tinham muita influência na corte e na igreja, e cuidavam até de assegurar à sua família um lugarzinho ao sol do lado de lá da eternidade.

 

 


"século X" (1)

As palavras propostas na Enciclopédia Ilustrada seguem a ordem alfabética. No que diz respeito às palavras por A, B, C, D e quejandas, temos para muitas voltas. Mas quando chegamos ao fim do alfabeto, ao W, ao X, ao Y, ao Z, parece que o dicionário se cansou. Ao fim de alguns anos de voltas ao alfabeto, escasseiam as palavras. Uma maneira de tornear a dificuldade para a letra X foi propor os séculos: X, XI, XII, ...
(Agora só preciso de um truque assim expedito para o W, o Y e o Z...)

Partilho aqui de seguida dois posts meus sobre o século X e um sobre o século XI. Os séculos restantes virão a seu tempo, volta após volta.


Século X



S. Gregório de Narek viveu na segunda metade do no #século_X. Além de monge e abade, especialista em música, geometria, matemática, literatura, astronomia e teologia, escreveu uma série de poemas-oração que foram integrados nos cânticos litúrgicos arménios. O seu túmulo permaneceu no seu mosteiro de Narekawank junto ao lago Van, até o mosteiro ter sido destruído na lógica de destruição da memória que se seguiu ao genocídio de 1915.
Alguns desses cânticos ainda hoje se cantam naquelas espantosas igrejas milenares. Não sei se esta melodia tem 1000 anos, mas o texto, esse, é mesmo do século X.
Quando fizemos o filme ARtMENIANS entrevistámos o compositor Tigran Mansurian, que a dada altura disse que Komitas, o grande compositor da passagem do séc. XIX para o séc. XX, todos os dias se passeava em milénios de cultura musical arménia como quem passeia num jardim.
E se fosse só o Komitas... Em Yerevan, na praça Sarian, encontrámos um pintor que estava a vender pinturas nas quais inscrevia poemas de S. Gregório de Narek. Quase comprei um, e quase me arrependo de não ter comprado: os tons azuis do quadro, e a árvore cujas raízes eram um poema místico do século X que o pintor conhecia de cor. Contou-nos que tinha um quadro muito especial, que não vendia por dinheiro nenhum, que representava os versos daquele poeta que mais o tocavam. Pedi que o dissesse, e ele comoveu-se, começou, hesitou, recomeçou. Sabia o poema de cor, mas sentia-se tão avassalado que não o conseguia dizer.

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Só por curiosidade, partilho um link para um texto que encontrei sobre a evolução da música litúrigca arménia. O episódio passado no séc. VII é muito engraçado:
The next centuries were marked by an increase in feasts, the regulation of the rites and, consequently, the propagation of songs. Armenians did not yet intend to use parchment for music, but one day, in the 7th c., it became evident that the richness of the repertoire could cause a disaster. It was the Feast of Transfiguration. A crowd of clergymen who had come from different regions was gathered on this occasion and the Catholicos himself was present. Everything was normal until one of the choirs started singing the Patrum which belongs to a song series inspired by the prophet Azaria’s canticle. The other choir replied, with the same melody-type, but with a verse that belonged to another song, because the choristers didn’t know the first one. The two choirs exchanged eight verses, each belonging to a different song, composed in a different region. As a result, the Catholicos ordered that a selection of songs be made to be sung during offices and that every diocese in Armenia must use this selection.

04 julho 2019

começar o dia com música assim

Um amigo que ganhei no facebook (e vai sem aspas no "amigo" porque não é preciso ter visto alguém em carne e osso para lhe ter amizade) (em termos de amizades nas redes sociais, sou o autêntico anti-São-Tomé: não preciso de tocar para saber) vai ser operado em breve, e - isto é um "supônhamos" a brincar - deu-lhe para ouvir já agora a voz dos anjos do paraíso (pelo menos era o que parecia a quem entrasse desprevenido no seu mural de facebook). De caminho fez uma incursão nos prazeres terrenos, e que prazeres! (como se estivesse a decidir se na vida depois da vida prefere ir para o andar de cima ou o de baixo)

Num impulso, decido partilhar no blogue essa sucessão de tesouros que aconteceu no facebook (esta minha vida internética de leva e traz!) (em termos de logística, sou o vaivém espacial das redes sociais).





(Este rapazinho tem um nome impossível: Jakub Józef Orliński. De resto, não lhe encontro mais nenhum defeito.)




(Caramba! Até fico gaga. Cacacacaca-ramba.
A Elina Garanka compõe aqui a Carmen mais sexy, sensual, libidinosa e pérfida que alguma vez vi. Confesso que estas cenas
me põem a orientação sexual mais em risco que todas as acções de ideologia de género juntas...) (Estou a brincar, claro. Toda a gente sabe que a ideologia de género é que vai acabar com a Humanidade) (Vou já pôr um vestido cor-de-rosa para não esquecer nunca qual é o meu lugar.)
(Não vejam, não: não sabem o que perdem.)





(Mais um dueto de Elina Garanca e Roberto Alagna. Gostei muito de um dos comentários no youtube sobre o final do dueto: Samson: “I love you, Delilah. Now let me tell you by screaming this Bb in your ear.”)
(Há tanta gente com tanta graça nas redes sociais!)


Por sua vez, o youtube em autogestão começou a dar-me presentes sucessivos:





(Nathalie Stutzmann. Maravilhosa. E num instante regresso a um concerto memorável com ela. Junho de 2016 era para ser o mês do Philippe Jaroussky em Berlim, mas o cantor ficou doente e as salas tiveram de arranjar outra solução. O Stabat Mater de Pergolesi seria dirigido por Nathalie Stutzmann, com Jaroussky e Anna Prohaska. Tinha comprado bilhetes para os concertos desse mês (inclusivamente para as master classes) com enorme antecedência, mas Jaroussky começou a falhar sucessivamente e eu comecei a acompanhar com mais atenção as notícias, esperando o milagre de uma recuperação a tempo deste Stabat Mater. Dessa vez não houve milagres. Jarousky continuava doente, e na sua falta Nathalie Stutzmann ofereceu-se para dirigir e cantar simultaneamente. O resultado foi um daqueles concertos "depois disto, já podia morrer".)




(Outra vez os anjos celestiais)





(O programa "A Vida Breve" de Luís Caetano na Antena 2 começa com o tema inicial deste trio. Fica a informação para todos os que ouvem e pensam "ai que bela música, de quem será?)

começar o dia a rir

Histórias do facebook:

I.

Esta manhã, o facebook recordou-me algo que escrevi há três anos. A parte boa do Alzheimer é uma pessoa rir-se com o que escreveu há tempos, como se tivesse sido escrito por outro.
Era isto:


4 de Julho!
Em San Francisco é muito divertido: largam o fogo de artifício para uma muralha de nevoeiro. Não se vê nada, mas largam na mesma.
Melhor que isso, só mesmo aquela anedota dos homens que iam um a abrir um buraco e o outro a fechá-lo, e quando lhes perguntaram o que andavam a fazer responderam que estavam a plantar árvores mas o colega das árvores nesse dia estava doente.


II.










 
Comentei: Ahem... eu também estava a olhar para o meu polegar...
Uma amiga respondeu:
Mais uma afinidade, Helena, só que eu :"oh Paulo, chega aqui..."

03 julho 2019

testemunhas de Jeová

Os comentários que vou lendo aqui e ali denotando anticorpos em relação ao congresso internacional das Testemunhas de Jeová em Lisboa lembram-me de novo porque é que gosto tanto de Berlim.

Há alguns anos, esse congresso decorreu aqui. Os metros encheram-se de mulheres e de homens vestidos de uma forma que os fazia parecer saídos de uma realidade paralela (nada de realmente grave: apenas o comprimento das saias e dos vestidos muito compostinhos, o aprumo dos fatos masculinos) e que sorriam imenso. Pareciam sinceramente felizes e aliviados por serem tantos, por se sentirem tão acompanhados e fortes. Uma espécie de Pride Parade, mas em discreto e sóbrio, nas carruagens do metro.

Os berlinenses faziam o que fazem sempre: olhavam, registavam, e continuavam na sua vidinha.
Berlim é esta cidade onde há espaço para todos - e o que eu gosto dela justamente por causa disso!

Também tenho os meus anticorpos contra as Testemunhas de Jeová. Irrita-me a intrusão no meu espaço doméstico ou mesmo a exibição persistente e muda nas ruas, incomoda-me a estratégia de missionário que apregoa o fim do mundo para melhor vender o seu peixe, e tenho sérias objecções à proibição de fazer transfusões de sangue que pode decidir sobre a vida ou a morte - particularmente quando são os pais que decidem sobre a vida de um filho menor.

Mas depois lembro-me de Buchenwald, onde morreram tantos homens por se recusarem a fazer a guerra de Hitler. E lembro-me de Auschwitz, e do ambiente diferente que havia na barraca onde tinham enfiado esses objectores de consciência: a cara de espanto, o mal-estar dos guardas que vinham fazer a selecção para a câmara de gás, e eram recebidos com exclamações de alegria, porque traziam aos felizes escolhidos a bênção de uma rápida passagem para o ansiado paraíso: "o meu reino não é deste mundo". Naquele tempo, não era qualquer um que conseguia rebentar toda a lógica do sistema de terror e confrontar um SS de Auschwitz de uma forma que o deixava totalmente desarmado.

Não é o meu mundo, e não é com certeza a minha fé e a minha maneira de estar na fé.
Mas faz pensar. E quanto mais não fosse por isso, merece o nosso respeito.

02 julho 2019

António Manuel Hespanha


Gabaram-me tanto o António Manuel Hespanha, que eu comprei este Filhos da Terra para ler e tentar entender-nos melhor. Não consegui ainda lê-lo, e ontem o autor morreu.

E agora, que fazer a esta estranha sensação de mapa rasgado?

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será um caso de plágio?




A imagem dos deputados de costas voltadas no Parlamento Europeu lembra-me uma foto histórica que se pode ver na exposição fotográfica sobre o Parlamento e a Democracia alemã, que há na base da cúpula do edifício do Reichstag. Nela se vêem os deputados do NSDAP a virar as costas em sinal de desprezo pela Assembleia.


Será que estes deputados do partido do Brexit estão a plagiar os deputados nazis? E será que estão a fazer de propósito, ou o plágio foi um lapso involuntário, decorrente de uma profunda ignorância?

Caso numa próxima fase estes deputados entendam que era boa ideia marcar a sua oposição abandonando a sala do plenário, deixando apenas o Farage como observador, convém informá-los que quando os do NSDAP fizeram isso, em 1931, o observador que ficou na sala era o Goebbels.

Ah, e se se lembrarem de aparecer no Parlamento exibindo vestuário de confronto ideológico, também não estão a inventar nada. Na mesma exposição também há uma fotografia mostrando os deputados do NSDAP envergando o uniforme do seu partido.

Estou a avisar, para o caso de se ter tratado de um plágio involuntário.
Sabe-se lá... nos tempos que correm os eleitores já não são muito exigentes em relação aos políticos, aceitam qualquer um que saiba mentir e despertar ódios de forma convincente, e depois acontecem plágios históricos destes, que até podem ser involuntários mas parece mal... 






"Tour de France"

Já muito se falou na nossa Enciclopédia Ilustrada sobre o #tour_de_France, mas parece-me que falta o post mais importante, hehehe: o Tour de France e a minha vidinha.

A primeira cidade em que morei na Alemanha era Karlsruhe, na fronteira com a Alsácia. O Tour de France praticamente à esquina da rua. O meu marido chegou a tirar um dia de férias para os ir ver passar. O meu sogro tirava vários dias de férias. No dias do Tour, era certo e sabido: o Joachim vinha mais cedo para casa, ligava a televisão, e durante algumas horas não estava para ninguém.

Quando o nosso filho se queixou de que os meninos na escola se riam da bicicleta dele por ser cor-de-rosa (era a bicicleta da irmã dois anos mais velha) dissemos-lhe que não era cor-de-rosa, era "magenta, a cor do Jan Ulrich", e no dia seguinte ele pedalou para a escola todo contente. Mas foi só até o avô saber da história e lhe dar dinheiro para mandar pintar a bicicleta de azul. Mais uma frase, e estou a pagar multinha por falar de Stonewall tanto tempo depois de ter sido a palavra do dia...
 

Mas depois rebentou o escândalo do doping. O Jan Ulrich foi à vida e o Lance Armstrong não - mas todos desconfiavam de que jogava com cartas marcadas. Instalou-se uma ideia com a força de epifania: ganha aquele que consegue não se deixar apanhar pelos testes de doping. É uma competição de médicos, mais que de ciclistas. E puffffff!, acabou-se o Tour de France na nossa casa.

Amigos nossos tiveram mais azar: o Tour de France instalou-se para sempre sobre o casamento deles. A história conta-se depressa: ela quis mostrar aos pais, que estavam de visita, o lindíssimo vídeo (no tempo do VHS, lembram-se?) do casamento, mas pararam para ir jantar, nunca mais se lembraram do vídeo, e no dia seguinte o recém-casado programou o leitor para gravar a etapa da volta à França que ele não ia poder ver por andar a passear os sogros. Quando voltaram, tinham uma bela série de pernas muito musculadas em cima da celebração do casamento, do beijo da praxe, do arroz dos amigos, dos sorrisos de todos.



"Stonewall"

No dia em que na Biblioteca Ilustrada se falou de Stonewall, por se assinalar o cinquentenário do início da revolta, partilhei um texto de Frederico Lourenço sobre #Stonewall, e também esta foto que, em minha opinião, resume o que estava/está em causa.



Quando fala destas coisas, o Frederico Lourenço dá-me uma espécie de vergonha do mundo. E penso nas famílias onde não se fala “dessas coisas”: a situação de fragilidade em que as crianças crescem apenas porque os pais decidiram que se não houver palavras para “aquelas coisas “ também não haverá lugar para elas.

Eis o seu testemunho:



Orgulho Gay 

(foto e texto: facebook, mural do Frederico Lourenço)

Foi a 28 de Junho de 1969. Stonewall. Quem não souber, procure na net. Nesse dia começou algo que, para citar Thomas Mann, «ainda não parou de começar». Nesse dia, começou o início de uma nova consciência sobre pessoas que não só se sentem sexualmente atraídas, mas se apaixonam (até para toda a vida), por alguém que é do seu próprio sexo. Mulheres que amam mulheres. Homens que amam homens. Amor. Sexo, claro (consentido e entre adultos). «What's not to love?»

Nesse mesmo ano, o meu avô materno (a quem reconheço «post mortem» a feitura de fotos que exprimem toda uma época) achou por bem fotografar-me a mim, seu neto, e à minha irmã Catarina, sua neta, da forma que vocês vêem na foto. Azul para o menino. Rosa para a menina. Todo um universo de experiência humana numa fotografia tão simples.

O problema é que ao azul estava a ser adscrita uma mensagem que nada tinha a ver comigo. Eu era rapaz. Devia ter comportamentos de rapaz. Mas não tinha. Já escrevi sobre isso noutro texto («Terrorismo de Género», que foi o único texto que escrevi no Facebook que chegou aos 20.000 likes).

Quando o meu avô tirou esta fotografia, eu não sabia que era homossexual. Não sabia que existia homossexualidade. Mas sentia-me diferente dos outros meninos, que já sabiam, muito antes de eu próprio ter descoberto, que eu era gay. Chamavam-me maricas e paneleiro. Uma vez perguntei «o que é paneleiro?». Os meninos disseram-me que «é quem leva no cu». Isso não me fez sentido. «Leva o quê no cu?» Eu passei toda a minha infância num estado de inocência total em relação à sexualidade, mas fui permanentemente vítima de bullying por meninos e meninas (sim...) que sabiam «a missa toda» e que já tinham adivinhado, antes de eu próprio saber, a minha sexualidade.

Ter sido maltratado e insultado durante todo o meu percurso escolar teve um efeito em mim que durou para toda a vida. Fez-me permanentemente desconfiado em relação às pessoas. Cortou-me os mecanismos necessários para fazer amigos. Inculcou na minha cabeça a ideia paranóica que toda a gente «lá fora» me odeia - ideia com que luto ainda hoje, aos 56 anos, embora saiba racionalmente que não é verdade. Ser insultado e rejeitado na infância pela sexualidade que eu ainda não sabia que era a minha ocasionou também um dano de longo alcance: a dificuldade colossal que eu tenho de viver no presente. Estou sempre a fantasiar uma realidade alternativa à que é a real; e tenho de me obrigar a olhar à minha volta para aquilo que a realidade realmente é. A minha infância e adolescência deram-me a noção de que o Presente não é um espaço seguro; tenho de fugir dele, tenho de me defender dele. É difícil explicar os efeitos nocivos que isso teve em mim. Mas foram muito maus.

As pessoas dizem (de forma irresponsável) que ninguém tem de celebrar Orgulho Gay nenhum; e que ninguém tem de sair do armário; e que gays, lésbicas, bissexuais, etc. já cansam com a permanente chamada de atenção para a realidade que vivem.

Mas é óbvio para mim que o dia 28 de Junho tem de ser festejado e celebrado. Há países no mundo em que a homossexualidade ainda é punida com pena de morte (Irão, Arábia Saudita e por aí fora). Há países no mundo em que as pessoas pensam que a melhor coisa que os pais podem fazer com o seu filho homossexual é matá-lo (trata-se de países islâmicos, não vale a pena esconder esse facto; mas os países de religião cristã Ortodoxa russa e grega não andam lá tão longe). Os ataques a casais gays que demonstram afecto em público continuam em todos os países ditos «civilizados». O Brasil, com o seu presidente e com a sua ideologia boi/bala/Bíblia, é o que é.

Não venham dizer que não é fundamental celebrar o Orgulho Gay. É fundamental, sim.

Em 1969, no ano de Stonewall, puseram-me um balão azul nas mãos. A cor do balão implicava expectativas em relação a mim que eu não pude cumprir. Sofri por isso. Mas tudo bem. Muita coisa mudou para melhor desde aí. Pude ser quem sou. Pude casar com o André. Obrigado às mulheres e aos homens de Stonewall. Tenho o maior orgulho em ser gay.



01 julho 2019

no comboio descendente

No comboio de regresso a Berlim, o homem sentado no lugar ao lado do que eu tinha reservado ia em posição de lótus, e de olhos fechados. Estava a contar com o meu lugarzinho à mesa e à janela, à frente do Joachim, mas para não incomodar aquele passageiro sentei-me num outro lugar que estava livre. Daí a nada ele desperta do transe e vira-se para o grupo de quatro mulheres na mesa do outro lado do corredor:
- Podem parar de falar? Nem com tampões nos ouvidos consigo escapar a esta barulheira! Estão aí a palrar o tempo todo, incomodam a carruagem inteira!
- Não é proibido falar no comboio!, responde uma delas.
- Esta carruagem é a do silêncio!, insistiu ele. Calem-se de uma vez por todas!
- Não se pode telefonar, mas pode-se falar!, teimava a outra.
O Joachim não ouviu nada, porque estava a trabalhar num artigo e a ouvir música com os phones. A rapariga ao lado dele estava tão incomodada como eu, e meteu-se na conversa:
- Atenção! A mim não me incomodam nada! Podem falar quanto quiserem.

Quem exige tanto dos outros não merece ser poupado, pensei eu. Levantei-me, fui ter com ele e pedi para me deixar passar para o meu lugar. Desfez o lótus, arrumou o saco dele, eu sentei-me à janela e ele sentou-se com os pés no chão, como todos os outros passageiros. E foi então que eu me dei conta de toda a obscenidade do que tinha acontecido uns minutos atrás: duas das quatro mulheres sentadas à mesa, ao nosso lado, tinham deficiência mental. O homem atrevera-se a ser desagradável com deficientes e as suas acompanhantes.

Disse ao Joachim para tirar os phones, e contei-lhe o que tinha acontecido. Em voz relativamente baixa e em português, falámos quanto nos apeteceu. Depois rimos, mostrámos fotos no telemóvel. Como se estivéssemos na nossa sala de estar.

Nunca me fiz tão gorda num transporte público como naquele comboio ontem. Nunca fui tão fria e antipática com uma pessoa sentada ao meu lado. E de cada vez que ele pegava na garrafa de água entre o assento dele e o meu e tocava inadvertidamente na minha perna eu franzia o sobrolho com o ar empoderado de #metoo e de "você está-me a incomodar!"

Quando ele saiu da carruagem por uns momentos, começámos todos a falar:
- Inacreditável!, disse eu.
- E a si é que ele não se atreveu a mandar calar!, respondeu uma das mulheres, e acrescentou: estive quase a chamar o guarda do comboio para o meter na ordem.

(Tem graça: nunca me ocorreu que fosse pessoa de impor respeito seja a quem for. E muito menos na Alemanha, onde me atribuí uma espécie de carta marcada por ser estrangeira. Talvez tenha chegado a altura de repensar quem sou neste país, em vez de me remeter por tique crónico a uma posição de low profile.)

E assim foi a viagem: um homem a passar quatro horas de incómodo, rodeado por pessoas que lhe tinham desprezo e não tinham a menor intenção de lhe oferecer sequer uma simpatia de anónimos.

Foi merecido. Mas depois destas coisas fico sempre a pensar que falhei, porque não fui capaz de encontrar a palavra certa que desarmadilhasse a situação e permitisse que todos se olhassem com respeito mútuo e de cabeça levantada.


28 junho 2019

sinais do fim-do-mundo

É preciso pontaria: um amigo festeja o seu 60• aniversário justamente no coração da terrível vaga de calor que este fim-de-semana se vai abater sobre a Alemanha. E lá vamos nós atravessar de comboio os 600 km entre os quase confortáveis 30 graus de Berlim e o inferno. Passei a manhã a brincar ao dilúvio na horta. Vou da água para o fogo, só me falta ouvir os anjos do fim-do-mundo. Encontro sinais: na nossa carruagem vem um polícia a ler um livro de Jürgen Todenhöfer, „A Grande Hipocrisia - como a política e os media traem os nossos valores“. Este Todenhöfer era um grande adepto da militarização no tempo da Guerra Fria, mas foi ao Iraque antes de este ser invadido pelo ocidente e fez lá amizades tão fundas que sente as dores desse povo, dos povos dessa região, como se fossem suas. O que o polícia da minha carruagem vai a ler é um apelo a que o ocidente deixe de chamar humanitárias às guerras que faz por interesses geo-estratégicos, ou económicos, ou políticos, e trate os outros países com o mesmo respeito com que gosta de ser tratado.
Um polícia humanista, portanto, e logo agora , quando se fala tanto da infiltração da extrema-direita nos corpos policiais.
Dou comigo a acrescentar uma frase  ao Imagine de Lennon:
Imagine que „polícia humanista“ é um pleonasmo....
O meu companheiro de viagem parece ser um desses. E sinto-me mais perto do fim de um mundo feito de violência e cupidez.