2 Dedos de Conversa

sobre o que nos inquieta

12 Maio 2008

Irena Sendler

Transcrevo integralmente um post do Jardim de Luz:



A polaca Irena Sendler, que salvou cerca de 2500 crianças de serem encaminhadas para campos de concentração nazi, morreu hoje, aos 98 anos, informou a sua família. Sendler foi considerada como uma das grandes heroínas da resistência polaca ao nazismo, tendo estado nomeada para o Prémio Nobel da Paz.

notícia Publico.


***

Gosto muito do calor e da placidez deste olhar. Deve ter sido uma mulher muito bem dentro da sua pele.

Por coincidência, sem imaginar que tinha morrido, ainda hoje falei dela a uma amiga.
E ela contou-me que a mulher polaca, que conheci na semana passada na Filarmonia, foi baptizada 10 vezes. De cada vez que era baptizada recebia um nome novo, passado pelo padre que resolvera colaborar neste processo, e os pais entregavam esses papéis, que correspondiam a uma nova identidade, a um grupo da resistência polaca que salvava crianças judias.
Depois contou-me a história da sua própria família, mas essa fica para depois das férias. Agora tenho de fazer as malas.

e agora, com licencinha,



E agora, com licencinha, vou ser feliz para aqui.
Até breve!

crónicas dos pequenos delitos

Graças à IO, descobri um blogue formidável.

Apreciem, por exemplo, esta crónica.

10 Maio 2008

um outro Maio



Há 75 anos, a Alemanha escurecia à luz de fogueiras grandiosas, numa gigantesca encenação para fazer a apologia do bom e glorioso e imortal espírito alemão, acção conjunta do Ministério de Propaganda e organizações de estudantes.



Estas coisas preparam-se com cuidado. Foram pedidos manifestos a vários escritores (a maior parte do quais alegou falta de tempo para escrever); foram instalados pelourinhos em frente às universidades, para punir simbolicamente o nome de professores e autores que traíam o espírito alemão; foram organizadas sessões solenes nas Faculdades, contando com a presença de professores e estudantes; realizaram-se cortejos triunfais para manifestar o repúdio pelo traidores.




E as fogueiras, no dia 10 de Maio.

Antes de atirar os livros ao fogo, havia uma proclamação que explicava o motivo pelo qual se entregavam os livros daquele autor às chamas purificadoras:

1ª Chamada: Contra a pregação da luta de classes e contra o materialismo, pela nação e pelo nosso estilo de vida ideal! Entrego ao fogo as obras de Marx e Kautsky.

2ª Chamada: Contra a decadência e a decomposição moral, pela moral e pelos bons costumes, entrego ao fogo as obras de Heinrich Mann, Ernst Glaeser, E. Kästner.

3ª Chamada: Contra a degradação da mentalidade e a traição política, pela dedicação ao povo e ao estado! Entrego ao fogo as obras de F.Wilhelm Förster.

4ª Chamada: Contra a sobrevalorização dos instintos que destrói o espírito, pela nobreza da alma humana! Entrego ao fogo as obras de S. Freud.

5ª Chamada: Contra a falsificação da história e o desrespeito pelas suas grandes personagens, pela veneração do nosso passado! Entrego ao fogo as obras de E. Ludwig e W.Hegemann.

6ª Chamada: Contra o jornalismo inimigo do povo, de inspiração democrático-judia, pela colaboração responsável no trabalho de construir a nação! Entrego ao fogo as obras de Theodor Wolff e Georg Bernhard.

7ª Chamada: contra a traição literária cometida contra o soldados da guerra mundial, pela educação do povo no sentido da defesa nacional! Entrego ao fogo as obras de Erich Maria Remarque.

8ª Chamada: contra o obscurecimento e a estropiamento do idioma alemão, pelo cuidado do valor mais precioso do nosso povo! Entrego ao fogo as obras de Alfred Kerr.

9ª Chamada: contra o atrevimento e a arrogância, pelo respeito e a veneração do imortal espírito alemão! Entrego ao fogo as obras de Kurt Tucholsky e Ossietzsky.


(Cá vai a nota do costume: fiz esta tradução à pressa. É que este fim de semana há Karneval der Kulturen, e enquanto escrevo isto estou a perder a festa. São cinco palcos em simultâneo, com música e dança do mundo inteiro, e gente de todas as cores e proveniente de todas as culturas a saborear em conjunto a riqueza das diferenças. Apenas 75 anos depois de universitários terem queimado os livros que danificavam o imortal e glorioso espírito alemão. Tem tudo a ver.)

(Cá vai mais uma nota: faltam maiúsculas. Comecei a escrevê-las, mas tenho uma espécie de alergia a textos com tantas maiúsculas. Talvez até alergia a épocas com tantas maiúsculas. Também pela ortografia se percebe que não eram bons, esses velhos tempos.)

09 Maio 2008

"alguém viu esta rapariga?"

Como é que se traduz girl para português?
Até há pouco tempo, usava-se menina.
Mas menina, aplicado a uma girl de 18 anos, condiz mal com os tempos modernos. De modo que rapariga começa a ser cada vez mais usado.

Acredito que o infeliz do tradutor do Sun não tenha tido muito tempo para se informar sobre o contexto da girl que tinha que traduzir, o que deu origem àquela página absurda.



Mais absurda ainda - voltando à questão do português universal - para os brasileiros, que lêem rapariga e entendem prostituta.

***

Em termos de aventuras da tradução, há pior: a brasileira que traduziu o Harry Potter cometeu(*) uma tradução infeliz logo no princípio do primeiro livro, e ficou condenada a ela até ao fim do último volume: muggles = trouxas.


(*) "cometer uma tradução": gostava de ter sido eu a inventar esta expressão.

06 Maio 2008

português neutro

Eu, pecadora, me confesso:
passei oito anos da minha vida a inventar uma língua chamada português neutro, numa empresa que queria uma tradução única para utilizar em Portugal e no Brasil.
E eu, acabada de nascer, tão ignorante como bem-intencionada, achei que, com jeitinho, era possível.
Pensava que bastaria usar o acordo ortográfico de 1990 (sim, senhores: o mesmo que agora se discute), e tudo acabaria em bem.

Hoje, do alto da minha experiência, vos digo: não funciona.
O problema não é o modo como se escrevem as palavras, mas o seu significado.

Sem pensar muito, ocorrem-me logo vários exemplos em que tropecei nessa época negra da minha linguística:
- Um armazém, em Portugal, é uma área onde se guarda mercadoria; no Brasil, é uma mercearia de portugueses. Que palavra usar então para a área onde se guarda mercadorias? Almoxarifado? Depósito? A partir do momento em que tentamos soluções de mínimo denominador comum, a língua transforma-se numa construção artificial alheia à realidade de cada país.
- O célebre file inglês é um ficheiro em Portugal e um arquivo no Brasil. Não tem solução.
- O time brasileiro (team) e a equipa portuguesa (equipa nem aparece no Aurélio, só existe equipe). Forma-se um grupo?
- Outras armadilhas de palavras heterossemânticas: bilião, fazenda, cadastrado, adeus, constipação, miúdos, terno. E muitas mais. Fazendo uma pequena incursão nas brejeirices: a palavra bicha já desapareceu dos meios de comunicação social portugueses, mas vamos também evitar trepar, pinto e grelo?

[Adenda (em 8.05) aos exemplos: por muito que unifiquem a ortografia, nunca será possível escrever um livro de culinária para ser usado simultaneamente no Brasil e em Portugal. Alguém sabe o que é um limão, no Brasil? E um limão galego? Eu ainda não consegui entender.]


O acordo ortográfico vai simplificar um pouco? Talvez, mas também complica:
Preciso de me concentrar para não ler afeto e respeto como afêto e respêto. (Ora aí está o alentejano promovido a português neutro.)
Ação pede a pronúncia de cação, receção parece recessão.
E porque é que o h cai da humidade, mas se mantém nos seres humanos e nos homens? (quer dizer: espero que se mantenha...)


Não adianta unificar a ortografia das palavras para termos a sensação que se trata de uma língua única. Mesmo que estejam escritas da mesma maneira, será sempre necessário conhecer e saber descodificar as palavras usadas pelos outros. Por isso, penso que a única solução é informar-se sobre as diferenças. Aprender mais sobre a nossa língua e sobre a língua portuguesa falada nos outros países. Assumir, por muito que custe aos heróis do mar nobre povo, que não há um português universal, mas um "portugalês" e um "brasileiro" (do português falado nos outros países não falo, porque não sei).

Fazer um acordo ortográfico que suprime alguns acentos e consoantes mudas, tira aqui hífens para os acrescentar ali, e pensar que essas alterações confusas de cosmética são um passo importante para unificar a língua, é de uma ingenuidade que se poderia dizer ridícula se não tivesse tantos custos.

Vão por mim: só nos faz bem aprender mais e exercitar permanentemente o cérebro. Aprender os falsos cognatos, manter as nossas consoantes mudas e os acentos de todos, inclusivamente o belíssimo trema brasileiro (eqüidade, que equilíbrio de palavra!), a eterna dúvida entre o ç, o ss e o s, tudo isso são bons exercícios para fintar o Alzheimer. Isto nem é só uma questão de ortografia, é até um caso de saúde pública...

Também não concordo com simplificações da ortografia para facilitar a aprendizagem. Isso equivale a, desculpem a ofensa, fazer uma hortografia: ortografia para nabos.


Tudo isto para dizer que sim, também assinei o manifesto em defesa da língua portuguesa. Embora por razões diferentes das que estão lá escritas.

***

Na altura em que eu inventava um português neutro, assistia a discussões dos tradutores para espanhol. Pelo que entendi, a Real Academia Española, sedeada em Madrid, decide a evolução do espanhol no mundo inteiro. Os sul-americanos protestavam, mas manda quem pode...
De onde se conclui que a culpada dos nossos problemas linguísticos é a República e o seu pai de todos os males, o regicídio... ;-)
Que um dia ainda se chamará rejissídio. ;-)

04 Maio 2008

nacionalismos

Ontem vi um maestro chinês dirigir a quinta sinfonia de Beethoven na Filarmonia de Berlim.

Pensei: "isto sim, é coragem!", e lembrei-me deste debate, onde se fala de nacionalismos e globalização.

Tenho de pensar mais no assunto.

03 Maio 2008

e ao terceiro dia: vingaram-se



Depois do museu do muro (também se lhe pode chamar museu da claustrofobia), os meus rapazes fizeram questão de subir à Siegessäule.
Setenta metros, 285 degraus.
Lá fui eu atrás deles, arquejante, arquejante.

De volta a terra firme, disseram-me com um sorriso malandro: "estamos quites!"

02 Maio 2008

hoje há milagres

Primeiro milagre: ao pequeno-almoço, os rapazes disseram que afinal queriam ir conhecer mais da cultura de Berlim. Queriam ver todos os museus que referi, excepto o do dinossauro.
(Plano C, que equivale a redistribuir o Plano A por dois dias e meio. Também cortámos os Ferrari e os Opel.)

Segundo milagre: o Pergamon tinha uma bicha quase até à porta da Angela Merkel. Eu precisava de ir à casa de banho, e disse aos rapazes que entrassem comigo no museu, e que vissem ao menos o foyer. Ultrapassámos a bicha em velocidade cruzeiro. Lá dentro, reparei que por trás das informações havia uma porta de vidro que permitia ver a sala do altar. Pedi autorização ao funcionário para os miúdos verem o altar através da porta, e ele... tãtãtãtãããã... abriu a porta e deixou-nos passar!
(sim, eu sei que não é correcto em relação aos turistas ultrapassados - mas posso alegar que não foi premeditado, e que não foi por mim, foi pelos meus rapazes)

Terceiro milagre: os rapazes gostaram. Gostaram muito. Até fizeram fotografias, até leram alguma documentação. Um deles descobriu que gostava de tapetes, o que aumentou exponencialmente o tempo que tencionava passar lá dentro.

Quarto milagre: a casa de banho das senhoras tinha uma bicha quase tão grande como a da bilheteira. Mas cá fora, no Café Pergamon, não havia ninguém à espera.

Quinto milagre: às nove da noite estavam na cama. Às nove e meia estavam a dormir. Completamente estourados com o Pergamon e o passeio de barco de manhã e o jardim zoológico (inclusivamente Knut, inclusivamente aquário - fizeram questão) à tarde, seguido de um jogo de futebol para terminar o dia em grande.

01 Maio 2008

dá Deus as nozes...

O Matthias aproveitou o fim-de-semana com quatro dias para convidar alguns amigos de Weimar.

Preparámos com todo o cuidado um roteiro turístico e gastronómico para lhes oferecer uns dias inesquecíveis.


À primeira refeição, comecei a contar o que podemos fazer:

- uma exposição de Ferraris (inclusivamente um de Fórmula 1);

- outra na Opel da Friedrichstrasse onde se podem ver os primeiros automóveis e as experiências de evolução;

- o museu no Checkpoint Charlie (e dizia o Matthias, tentando entusiasmá-los: "com um filme sobre uma fuga num balão, e mostra os truques que eles inventavam para fugir");

- o Pergamon ("com um altar inteiro em mármore e uma rua triunfal da Babilónia", dizia eu, e falava da Prússia, e dos cientistas enviados por todo o mundo, regressando com as peças mais impressionantes para expor no centro do império);

- o Museu de História Natural, com o maior esqueleto de dinossauro que existe exposto no mundo inteiro (um braquiossauro de 13 m de altura);

- o Museu de História onde podem ver sapatos para atravessar as ruas medievais (sim, já nessa altura tinham o mesmo problema com excrementos no passeio...) ou tocar numa cota de malha para ver o peso daquilo;

- etc., tantos tantos etc.

E os rapazes? Que não, que não lhes interessa, que querem é ir jogar futebol.


Senti-me mais ou menos como um amigo meu daquela vez que ofereceu vinho do Porto a uns escoceses, e os viu a despachar o vinho directamente da garrafa pró bucho.


O Matthias foi logo buscar uma folha de papel para fazer um novo programa das festas. Plano B: reduzir o plano A ao mínimo, por muito favor fazemos a cúpula do Reichstag e damos um passeio de barco. Quanto ao mais, bolas. Literalmente.

E, ainda por cima, põem cara de cool: "Cultura?! Não temos tempo para perder com essas chatices..."

Por sorte, o menos entusiástico de todos já se vai embora no sábado à tarde. É que à noite vamos à Filarmonia de Berlim, e sei lá como é que ele se ia portar - ele, que nunca viu uma sala de concertos por dentro.

***

Não serei eu quem vai forçar estes rapazes a aproveitarem ao máximo a oportunidade de quatro dias em Berlim.
(Enfim, vou forçar um bocadinho: hoje à tarde vamos ao Pergamon. Nem que seja por dez minutos, mas hão-de ver o altar, a porta de Ishtar - seis séculos antes de Cristo; emboramente... eles vêm da Alemanha comunista, às tantas nem sabem quem foi Cristo -, o portal do mercado de Mileto, e mais duas ou três velharias egípcias e turcas.)
E depois voltam para Weimar. Mais ou menos no mesmo estado em que vieram.

Em contrapartida, o Matthias: como prémio do seu interesse ao fazer um trabalho sobre Roma antiga, ofereceram-lhe uma visita super-exclusiva a Ostia, com uma arqueóloga especialista naquela cidade. Fica-nos um bocadinho à desamão, é verdade, mas às tantas ainda se consegue dar um jeitinho.

Chegada aqui, lembro-me de uma passagem difícil do Evangelho: "àquele que tem lhe será dado, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado."

Começo a desconfiar que Cristo estava a falar do Conhecimento.

(Ou seja: da escola, Céu, da escola!...)












29 Abril 2008

piercings e outras liberdades

Decididamente, há países que não aprendem com os erros dos outros...

Agora que a blogosfera portuguesa já decidiu que proibir piercings e tatuagens é um intolerável ataque à liberdade e uma intromissão na esfera privada das pessoas, vem uma comissão parlamentar alemã discutir o mesmo assunto.

Começou por ser uma discussão sobre os limites das operações de estética em menores de 18 anos, e o controle das condições em que estas podem ser realizadas. Fazendo eco da preocupação manifestada por alguns grupos, os deputados chamaram a atenção para a necessidade de um debate alargado sobre:
- a realização de operações em menores apesar de não terem justificação médica;
- o alastrar de institutos cirúrgicos de beleza, de qualidade mais que duvidosa;
- a pressão exercida sobre os jovens para sobrevalorizarem a estética corporal e se sujeitarem a intervenções de risco;
- as consequências: muitas vezes danos graves e até irreversíveis para a saúde.

A Ordem dos Médicos não põe em causa, à partida, a prática de operações estéticas em menores, e dá o exemplo da operação para corrigir "orelhas de abano". No entanto, vinca a necessidade de os pacientes poderem escolher com segurança os médicos que estão qualificados para realizar essas intervenções.
Pode-se sempre alegar que estão a lutar pelos seus interesses, e pode-se sempre responder que quando se corre o risco de apanhar uma doença infecciosa ou de perder o controle de um músculo ou a sensibilidade de um nervo, convém não deixar os adolescentes entregues à publicidade na Bravo.
(Traduzido para português, dá outro mote querido dos blogues: ai que lá vêm outra vez os fascistas da ASAE!)

A Associação de Pediatras aproveitou o debate para pedir a proibição absoluta de piercings e tatuagens em menores.
Afirmam que em quase 20% dos casos há complicações para a saúde. Informam que há um número crescente de pais que vêm ao consultório do pediatra pedir que o médico "apague" uma tatuagem da pele dos filhos. Consideram inaceitável que a saúde dos jovens seja sujeita a riscos por uma questão de moda ou de pressão do grupo. E chamam irresponsáveis aos pais que põem um piercing no nariz de crianças com menos de 3 anos, ou furam as orelhas de crianças de meses.
(Chegados aqui, alto e pára o baile: se a lei passar, teremos de pedir uma excepção tipo "respeito pela sharia portuguesa" para proteger a identidade cultural dos nossos emigrantes...)

Curiosa, fui finalmente ler a notícia no Público sobre a proposta de lei que estava a ser preparada em Portugal.

Pelo que entendi, aquilo não é bem uma lei, é mais um regulamento de saúde pública.
Claro como água: definição de um "quadro de referência de qualidade", que constituirá "factor de protecção dos consumidores e de informação dos profissionais", e que "seja proporcionador de mais segurança" para consumidores e profissionais.
- Tipo de materiais e de instrumentos a usar: elementar.
- Partes do corpo que devem ser poupadas, dado o elevado risco de lesão e infecção: óbvio.
- Uso de agulhas descartáveis: mas será preciso explicar isto?!
- Obrigação de informar o consumidor, "previamente e por escrito", sobre todos os procedimentos, natureza dos produtos a cujo contacto será submetido temporária ou permanentemente e possíveis consequências da realização de uma tatuagem ou colocação de “piercings”, "dando-lhe oportunidade para que possa reflectir acerca do assunto": é o que (pelo menos na Alemanha) se faz antes de qualquer intervenção cirúrgica, mesmo que seja absolutamente necessária.

O que é que deu aos blogues portugueses para desatarem a chamar ridículo, fascista e totalitário ao PS, em vez de discutirem a proposta a sério?
Porque não aproveitaram o espaço mediático para debater os muitos aspectos da questão?
Gostaria de ter lido informações dos médicos, em especial alergologistas e pediatras, sobre as implicações para a saúde, ou um debate entre filósofos e juristas sobre as questões da responsabilidade dos pais e da liberdade para a automutilação.
Adoraria a discussão com os neo-ultra-liberais, quando viessem com a proposta de que os custos dos problemas de saúde causados por este tipo de intervenção não deveriam ser suportados pelo SNS.

Mas não, nada de complicar e aprofundar o que pode se pode facilmente prestar a aproveitamentos demagógicos.

Basta dizer isto: o PS está numa deriva totalitária. Pim.

***

Ah, o pomo de todas as discórdias: a liberdade de fazer um piercing na língua. E porque diabo se intromete o Estado nisso?
Que mania insuportável! É isso, é a obsessão em retirar do mercado produtos que nós gostamos de consumir (alegam que são cancerígenos - olha o disparate! se apanhar cancro, o problema é meu!), é uma espécie de sadismo burocrático que proíbe o meu marido de operar conhecidos na nossa mesa da cozinha (podíamos ganhar umas boas coroas, e os amigos agradecem não ter de esperar pela sua vez nos hospitais, e afinal de contas nos hospitais há muitas mais bactérias que na minha casa, e são bem mais perigosas).
Maldito Estado totalitário, que parece que não tem mais problemas senão meter-se na nossa vida privada e coarctar-nos a liberdade.

Ah, e já me ia esquecendo do mais importante: nada como ir ler jornais brasileiros para saber o que se passa na Europa, e se dar conta que por trás disto tudo está... tãtãtãtãããã... Bruxelas.

27 Abril 2008

só porque gosto




Gosto muito desta fotografia, do Sony World Photography Awards 2008.



E destas palavras, que a minha avó dizia, e já quase ninguém diz:


algures - alhures - a nenhures

.

24 Abril 2008

pareço adolescente



Já ouvi esta música hoje praí umas vinte vezes. E a minha família concorda comigo - nem ao Caetano (nem ao "A Bossa de Caetano") dão tantos elogios.

A globalização isto, a globalização aquilo, toda a gente a falar da globalização, mas quando uma pessoa precisa dela, nicles. Onde é que se pode comprar este CD?

"Ode Descontínua e Remota Para Flauta e Oboé"
(Poemas de Hilda Hilst musicados por Zeca Baleiro)

oh vós que sois vocês

Quando traduzi o texto do post de 15 de Abril, estaquei durante semanas no pronome pessoal.
"Meus filhos, vós" ou "meus filhos, vocês"?

É verdade que "no tempo das schtetl e dos progroms" ninguém dizia "meus filhos, vocês".
Mas... aquela parte do "vós tendes a vossa própria vida" - embora gramaticalmente correcta, deixou-me os ouvidos a doer.

Como é que se fala hoje em dia? Que mãe se dirige aos filhos dizendo "vós", usando o verbo na segunda pessoa do plural?
E como funciona o "vocês", que tanto aceita o "-vos" e o "vosso" como o "lhes"?

É curioso assistir a esta evolução da língua.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, viram-se os pronomes, destrata-se a sintaxe.
Pensando bem, é doloroso aperceber-me que começo a ser um museu itinerante da língua portuguesa.
Na minha terra já ninguém fala assim - e até eu começo a ter dúvidas...

***

Por este andar, ainda chegamos ao Brasil: onde se fala uma língua, e se escreve outra.

22 Abril 2008

O realismo dos contrastes

Li um dia destes que vivemos tempos de caos ético. Como todas as outras, esta é uma verdade relativa. Todos os tempos foram feitos de luzes e de sombras. Não resisto a transcrever um texto que ilustra bem este binómio:
Los campos de concentración nacieron en Africa. Los ingleses iniciaron el experimento, y los alemanes lo desarrollaron. Después Hermann Göring aplicó, en Alemania, el modelo que su papá había ensayado, en 1904, en Namibia. Los maestros de Joseph Mengele habían estudiado, en el campo de concentración de Namibia, la anatomía de las razas inferiores. Los cobayos eran todos negros.
En 1936, el Comité Olímpico Internacional no toleraba insolencias. En las Olimpíadas de 1936, organizadas por Hitler, la selección de fútbol de Perú derrotó 4 a 2 a la selección de Austria, el país natal del Führer. El Comité Olímpico anuló el partido.
A Hitler no le faltaron amigos. La Rockefeller Foundation financió investigaciones raciales y racistas de la medicina nazi. La Coca-Cola inventó la Fanta, en plena guerra, para el mercado alemán.
La IBM hizo posible la identificación y clasificación de los judíos, y ésa fue la primera hazaña en gran escala del sistema de tarjetas perforadas.
En 1953, estalló la protesta obrera en la Alemania comunista. Los trabajadores se lanzaron a las calles y los tanques soviéticos se ocuparon de callarles la boca. Entonces BertoltBrecht propuso: ¿No sería más fácil que el gobierno disuelva al pueblo y elija otro?
Operaciones de marketing. La opinión pública es el target. Las guerras se venden mintiendo, como se venden los autos. En 1964, los Estados Unidos invadieron Vietnam, porque Vietnam había atacado dos buques de los Estados Unidos en el golfo de Tonkin. Cuando ya la guerra había destripado a una multitud de vietnamitas, el ministro de Defensa, Robert McNamara, reconoció que el ataque de Tonkin no había existido. Cuarenta años después, la historia se repitió en Irak.
Miles de años antes de que la invasión norteamericana llevara la civilización a Irak, en esa tierra bárbara había nacido el primer poema de amor de la historia universal. En lenguasumeria, escrito en el barro, el poema narró el encuentro de una diosa y un pastor. Inanna, la diosa, amó esa noche como si fuera mortal. Dumuzi, el pastor, fue inmortal mientras duró esa noche.
Paradojas andantes, paradojas estimulantes: El Aleijadinho, el hombre más feo del Brasil, creó las más hermosas esculturas de la era colonial americana. El libro de viajes de Marco Polo, aventura de la libertad, fue escrito en la cárcel de Génova. Don Quijote de La Mancha, otra aventura de la libertad, nació en la cárcel de Sevilla. Fueron nietos de esclavos los negros que generaron el jazz, la más libre de las músicas. Uno de los mejores guitarristas de jazz, el gitano Django Reinhardt, tenía no más que dos dedos en su mano izquierda. No tenía manos Grimod de la Reynière, el gran maestro de la cocina francesa. Con garfios escribía, cocinaba y comía.
Que o reino das sombras não nos afunde no fatalismo. E que os gestos criadores de esperança desdigam as teorias do desconserto do mundo.
Manuel António

15 Abril 2008

Kaddisch Antes da Madrugada

Do livro de Michel Friedmann, "Kaddisch vor dem Morgengrau":

Numa pequena aldeia da Polónia, no tempo dos pogroms e dos schtetl, dirigiu-se um alfaiate ao rabino.
A sua mulher estava a morrer. Tinha-lhe dado sete filhos, tinha sido uma companheira maravilhosa, tratara sempre bem da casa e criara as crianças com muito amor. Estes, já adultos e eles próprios pais, encontravam-se junto à cama da moribunda e imploravam-lhe que não morresse. Diziam-lhe que ainda precisavam dela e que sem ela não conseguiam viver, pediam-lhe que lhes oferecesse ainda algum tempo de vida antes de morrer e subir aos céus. Perante estes lamentos e pedidos, a mãe chorava amargamente e martirizava-se para permanecer viva e não os abandonar ainda. O alfaiate estava desesperado, porque amava a sua mulher, e não suportava assistir ao seu sofrimento. Sabia que a sua mulher iria morrer, e nem o pranto nem as orações o poderiam evitar. Contudo, sabia que ela não podia morrer em paz enquanto não tivesse dado uma resposta às queixas dos filhos. Por isso viera falar com o rabino e lhe pedira um conselho: que devia a mãe dizer aos filhos, como os poderia convencer?

O rabino não precisou de reflectir longamente. Conhecia a dor dos filhos, que também por ele passara. Por outro lado, sabia como é difícil para os pais deixarem os filhos sozinhos neste mundo. E assim aconselhou o alfaiate:

- Diz à tua mulher que lhes deve explicar o seguinte:
Queridos filhos, até na véspera da vossa própria morte me direis que precisais de mim, que sem mim não quereis viver, não conseguireis viver. Mas vós tendes a vossa própria vida. Sede pessoas completas, que fazem o seu próprio percurso. Tudo o que eu vos podia ensinar, todo o amor que eu vos podia dar, está em vós. Eu cumpri a minha vida, vi-vos crescer para vos tornardes pessoas autónomas. Agora é a vossa vez de voar. Eu não passo de uma pedra que vos impediria de o fazer. Voai, filhos, voai para a vida, e deixai-me voar para a eternidade.

da mesa para o tanque

No Verão da minha infância, quando passava temporadas na aldeia da minha avó, gostava de ir para o tanque público dar uns mergulhos com a miudagem que vivia pelas vizinhanças.
Era uma festa: as mulheres ao longo do tanque, às vezes uma dúzia delas, os braços vigorosos a esfregar a roupa com sabão, a batê-la na pedra, e a aproveitar a companhia das outras para lavar toda a roupa suja da aldeia, em alegre algazarra.
Belas tardes.

Mas uma pessoa cresce e amadurece, e dá-se conta que não faz muito sentido andar a chafurdar na porcaria alheia.

***

Contou-me uma amiga que lhe deram uma mesa antiga, que tinha pertencido ao seu bisavô, um historiador famoso.
Deram-lha, com estes votos: "que a esta mesa se mantenha o nível a que ela está habituada".

***

Tenho um grande orgulho na caixa de comentários deste blogue. Tem sido, ao longo de mais de quatro anos, a minha "mesa do historiador" - o local onde acontecem conversas com muita qualidade.
Contudo, ultimamente têm aparecido uns comentários a puxar para o tanque.

Por esse motivo, os comentários passaram a ser moderados.

Que me desculpem os amigos.

11 Abril 2008

um post sobre futebol e miúdas



Uma televisão privada alemã tem um programa onde a Heidi Klum aparece a escolher e a ensinar eventuais futuras supermodelos. As miúdas concorrem, expõem-se de uma maneira insuportável (de onde se prova que eu vejo pouca televisão privada, porque se visse mais dizia agora "expõem-se da maneira habitual"), são permanentemente devassadas pelas câmaras de televisão que as filmam a chorar, a rir, a experimentar passos em bikini, a olhar de esguelha para as outras concorrentes, a serem vítimas de uma radical mudança de visual, e etc.

Ontem, no intervalo do jogo de futebol mais incrível dos últimos anos, vi (filha adolescente oblige) uns minutos desse lixo. Deixaram as futuras estrelas ir a uma festa social, mas lançaram-lhes no encalço uma jornalista que as entrevistava com perguntas parvas, do género: que roupa interior é que tinham, e como é que iam de relações sexuais, e se tinham algum incidente embaraçoso para contar.
O programa mostrava as respostas (mas apenas aquelas de que as miúdas se vão envergonhar mais, claro), e os comentários dos "professores" ao ver o vídeo: "não deviam abrir assim o jogo", "eh, lá, isto é muito privado!", "que ingénuas!", coisas assim.

O programa vive todo de expor as pessoas muito para lá do limite do respeito por si próprias. Os organizadores jogam permanentemente com isso. Mas depois vêm cheios de sabedoria comentar que elas não sabem distinguir o público do privado.

Este mundo está louco, só o futebol nos salva.
O jogo de ontem, por exemplo.
(Eu estava pelos espanhóis, por causa do Felipe e por estarem a jogar com um jogador a menos e assim, mas o Matthias lembrou-me logo Olivença, e eu adoptei uma atitude de neutralidade)

10 Abril 2008

mãe galinha



(via Aurea Mediocritas)

09 Abril 2008

estes alunos diabólicos

Mais dois episódios da escola primária Jenaplan:

Numa reunião de pais falou-se de uma aluna que tinha ataques de agressividade e começava a atirar cadeiras pelo ar. Um dos pais insistia que era preciso tirá-la daquela escola e pô-la noutra, para crianças "especiais". Vincava que era preciso tomar urgentemente uma atitude, antes que uma cadeira acertasse na cabeça de outra criança.
A professora começou a falar como se estivesse apenas a pensar em voz alta: por causa dessa aluna fizemos uma reunião com todo o pessoal que trabalha na escola... durante duas horas perguntamo-nos em que contextos tinham surgido as crises... porque é que ela faz isso? o que devemos fazer para evitar situações em que ela fica agressiva? combinámos que não a podemos deixar sozinha em momento algum e que temos de estar atentos para evitar as situações em que ela é provocada pelos outros.
Até me esqueci das consequências de uma cadeira na cabeça do meu filho. Só pensei: abençoados professores que tentam ir ao fundo das questões em vez aproveitarem a oportunidade para se verem livres dos problemas.

Numa das semanas de projecto fiquei responsável por fazer um poster com os alunos. Durante esses dias tive oportunidade de conversar com uma das alunas mais problemáticas da escola. Enquanto íamos pintando, ela contava: que vivia só com a mãe, que esta trabalhava num restaurante, que às vezes ela comia no restaurante mas a dona não gostava, e ralhava com a mãe mesmo à frente da criança. E que no restaurante anterior ainda tinha sido pior.

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Ouvi de uma professora de liceu, com experiência internacional e em várias regiões da Alemanha, que só no Leste deste país assistiu ao extraordinário fenómeno de olhar para os alunos enquadrando-os num contexto familiar mais ou menos público.
Reuniões de notas em que um professor comenta que um aluno está a baixar o rendimento e logo vêm outros colegas contar que a avó dele está no hospital, e que o cão morreu, etc.

Lembro-me também muitas vezes do que a directora do liceu dos meus filhos me respondeu, quando eu comentei que iam entrar quatro miúdos muito especiais para essa escola: "Só quatro? Setenta! Todos os alunos desta escola são miúdos muito especiais!"

Quando a escola olha assim para os seus alunos, é mais difícil entrar numa dinâmica de diabolização.