05 maio 2022

a história boa de cada dia nos dai hoje







Cheguei esta madrugada ao Porto. Dormi numa casa centenária, estava capaz de jurar que é Raul Lino. Mas em melhor.

Tomei o pequeno-almoço com uma amiga numa esplanada perto da Boavista, e ao fim de 10 minutos ali sentadas passa outra amiga, "és mesmo tu? estás cá?" - combinámos logo ali um almocinho com outros amigos, e depois apressei-me a ligar a todos, a avisar "antes que saibas por outra..."

Amiga, amigas, amigos: é mesmo certo que cheguei ao Porto.

Fiquei a acabar o pequeno-almoço sozinha, na rua, e a senhora da mesa ao lado perguntou-me se podia olhar pelas coisas dela um momentinho enquanto ia lá dentro pedir o café. Deixou ali a bolsa, as chaves, um saco - e deixou-me a mim pasmada com tanta confiança.

(Até me lembrou as missas em Berlim: as pessoas vão comungar, e deixam as bolsas no seu banco.) (Espero que nenhum gatuno berlinense leia este post.)

A empregada veio, e eu pedi-lhe a conta, mas só depois de trazer o café para a mesa do lado. "ah, para a dona Emília", disse ela, e eu a pensar que abençoada terra essa, onde as pessoas têm nome mesmo num café do centro da cidade. A empregada trouxe o café e a conta, onde incluíra o café. Ri-me, e disse que tinha todo o gosto em pagar. 

- Ai, isso é que não!

- Olhe que oferecer-lhe um café, em troca da confiança que me ofereceu, até nem me sai nada caro. 

Não aceitou, mas também se riu. Depois sossegámos ambas a empregada, que insistia em envergonhar-se muito do malentendido. Disse-lhe que deixasse estar, que assim já tínhamos uma história para contar hoje.  

Foram os primeiros momentos da primeira manhã das minhas férias em Portugal, e já me souberam a tudo.   







04 maio 2022

9 euros por mês para os transportes públicos em toda a Alemanha

 

Este vai ser o verão dos transportes públicos na Alemanha: em junho, julho e agosto pode-se comprar um passe mensal de 9 euros que permite andar nos transportes públicos de todas as localidades do país, e também em todos os comboios regionais.

Isso mesmo: paga-se uma vez 9 euros e pode-se ir passear dos Alpes até ao Báltico - mas nos comboios regionais, aqueles tipo tartaruga da fábula de La Fontaine.

(Ó pra nós a vislumbrar um bocadinho de futuro.)

O que não é tão apelativo: não houve tempo para reforçar os transportes, nem em termos de pessoal nem em termos de mais carruagens e autocarros.

Portanto: este vai ser o verão dos transportes públicos na Alemanha, e também de tirar a barriguinha de misérias no que diz respeito a proximidade social...

(Se calhar começava a levar comigo o famoso palito para usar em caso de contactos indesejados no autocarro.)

Uma colega do coro dizia ontem que já comprou o passe anual para os transportes públicos berlinenses, bem mais caro que 9 euros por mês. Espera que lhe devolvam o dinheiro correspondente a estes 3 meses. Outro questionava se tudo tem de ser justo até ao último cêntimo. Lembrei-me logo da parábola dos trabalhadores da vinha: "então não recebeste aquilo que foi combinado? que te interessa a ti o que combinei com os outros?". Mas isso era no tempo em que não havia partidos populistas de extrema-direita a capitalizar o descontentamento das pessoas. Eles que devolvam o dinheiro dos passes, caso contrário nas próximas eleições os oportunistas da extrema-direita vão dar mais um saltinho para a frente.


cada vez percebo melhor

 



Neste cartaz em Moscovo anuncia-se a Suécia como um país de nazis. A autora da Pipi das Meias Altas, o Ingmar Bergmann, o dono da IKEA: nazis.

Se basta isto para um país ser nazi, nenhum país na Europa está livre das operações especiais do Putin para o desnazificar.

E nós aqui a assistir a estes golpes inacreditáveis, a ver o curso da História a descarrilar, e sem saber o que fazer para o impedir.

Cada vez percebo melhor os alemães no princípio dos anos 30.

Fonte: https://twitter.com/carlbildt/status/1521425081754398720

01 maio 2022

luta de classes, 2.0

 

Luta de classes, 2.0:

Recentemente, o Elon Musk tentou entrar no Berghain, e não o deixaram. Teve de se contentar com o KitKat.


(Berghain e KitKat são clubes famosos em Berlim)

29 abril 2022

fitness democrático

 

Tantas petições, tantas petições, e ninguém se lembra de fazer uma deveras importante: mudar o nosso hino nacional.
Do "às armas! às armas!" para o "em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade, o povo é quem mais ordena".
Quem concorda?

(E depois, tinha a vantagem de os oportunistas da Democracia desandarem do lugar sempre que se cantasse o hino nacional, era um power walking tipo fitness democrático)

28 abril 2022

e o Iémen...

 


Esta semana, depois do ensaio da cantoria (se querem saber tudo: o Libera Me, do Requiem de Fauré, sublime), dei comigo sentada num restaurante ao lado da colega de coro que há seis semanas recebeu duas irmãs ucranianas que eu encontrara na estação central de Berlim. Disse que têm andado de casa em casa, ficando instaladas nos apartamentos de amigos dela que vão de férias, e que era melhor irem viver numa localidade bem mais pequena que Berlim, porque esta cidade é demasiado complicada para quem nem sabia usar um smartphone. Têm sido muitas horas dedicadas a ajudá-las com tudo o que é necessário (registo, conta bancária, smartphone, traduções automáticas que dão azo a inúmeros mal-entendidos, etc.). Quando as tirei da estação central, sabia perfeitamente: comparado com o trabalho das famílias de acolhimento, o que eu fiz era menos que zero.

A minha amiga falou depois de um refugiado sírio pelo qual ela se responsabilizou em 2015. Era um dos muitos milhares de menores não acompanhados que chegaram à Alemanha nessa altura. Muitos deles ficavam alojados em hotéis transformados à pressa em internatos, mas era preciso que cada um dos menores tivesse na Alemanha um adulto que o acompanhasse e resolvesse as questões burocráticas.

O miúdo conseguiu aprender alemão, fazer o exame de liceu (Abi, Gymnasium: o mais exigente) com boas notas, e está agora a estudar Tecnologias Médicas. Esperto, o rapaz: tira um curso que lhe garante emprego no mundo inteiro. Há tempos conseguiu encontrar-se com a família - seis anos depois de ter partido para uma Europa incerta. Os pais tinham entretanto fugido para a Arábia Saudita, os irmãos foram para outros países. A covid impediu viagens e manteve os familiares dispersos sujeitos às regras particulares de cada país. A única solução que encontraram foi um encontro em Meca. Uma solução caríssima. O miúdo pagou tudo. Paralelamente com o estudo do alemão e as aulas do liceu, e agora do curso superior, trabalhou como estafeta de bicicleta e poupou com desespero para ajudar a família.

A minha amiga comentava com lágrimas nos olhos o filme que recebeu de Meca, do reencontro da família, e que só por sorte é que a mãe do rapaz não morreu ali mesmo de alegria e comoção.

E depois, tristíssima:

- Tantas guerras no mundo, tantos refugiados, tanto sofrimento! No Iémen, por exemplo, também há uma guerra horrorosa.

Estremeci. Desde que Putin invadiu a Ucrânia, em 24 de Fevereiro, foi a primeira vez que ouvi uma referência ao Iémen com genuíno sentimento de tristeza, em vez da arma de arremesso em que se tornou: "Ah, mas do Iémen não falam vocês, seus hipócritas!"

O Iémen (nas discussões sobre a invasão da Ucrânia) tal como os sem-abrigo (na recusa de ajudar os refugiados estrangeiros): poucos os ajudam, mas lembram-se muito deles quando dão jeito como ferramenta de retórica.


26 abril 2022

como o diabo da cruz

 

O diabo a fugir da cruz, os vampiros a fugir do alho, e o gang de políticos oportunistas a fugir do Grândola.
Parece-me bem.


25 abril 2022

primavera!





Querem mais primavera que esta, a cerejeira em flor, os morangueiros cheios de viço, e uma raposa confortavelmente instalada na laje aquecida pelo sol, com os morangueiros a servir de almofada, a dormitar embalada pelo zumbido das abelhas?

Sim, tudo muito bucólico e maravilhoso, excepto:
- agora o Fox não pode andar à vontade no jardim
- já não vou comer morangos sabendo que vêm da sanita da raposita
- o raio do bicho ontem rebentou mais uma vez um dos sacos do lixo de embalagem que estavam pendurados na cerca, e tive de andar a apanhar tudo à mão.
(Acordei-a com o clic clic da máquina fotográfica - o PAN que não saiba que ando a incomodar os animais desta maneira, OK?)









fascismo nunca mais

 


Hoje é dia de louvar a coragem desses que ousaram mudar a História
e fazer a madrugada
do dia inicial inteiro e limpo
onde emergimos da noite e do silêncio
e aprendemos a ser livres
e a conquistar o nosso lugar
na substância do tempo.

(Sim, isso mesmo: misturei ideias minhas com os famosos versos da Sophia) (Apressei-me a acrescentar, caso algum distraído achasse mesmo que me podia ocorrer plagiar um dos poemas mais conhecidos de Portugal)



24 abril 2022

cantar no meio do pesadelo

 



Os meus vizinhos - russo e ucraniana - insistiram com os seus amigos em Kyiv para que se refugiassem na casa deles o tempo que fosse preciso. Foi difícil convencê-los, que não era preciso, que não queriam incomodar...

Vieram, finalmente: mãe e dois filhos. A miúda é amorosa. Volta e meia toca à nossa campainha para vir buscar a bola que caiu no jardim.

Vi-os a caminho da escola na manhã a seguir a termos todos sabido o que acontecera em Bucha. Vi-os da minha janela. Compaixão deve ser isso: ver miúdos a caminho da escola, e ficar com os olhos cheios de lágrimas.

Vejo a mãe frequentemente no jardim. A olhar para o smartphone, e a fumar. Há dias, vi-a assim bem cedo, ainda nem sete da manhã. São as férias da Páscoa. Ocorreu-me que o ritmo imposto pela escola é uma rede que impede a mãe de cair ainda mais fundo nos seus abismos.

Este filme é muito bonito, mas não nos iludamos: estas pessoas estão a atravessar o mais horrível dos pesadelos.


memórias da guerra (2)

 

Por causa da guerra da Ucrânia, a minha sogra agora não consegue parar de se lembrar da guerra que afligiu a sua própria infância, e deixou marcas profundas. Há dias falei de como se lembra das noites passadas na cave do prédio, ouvindo as bombas a silvar à sua volta. A mãe acabou por enviá-la para a aldeia onde viviam familiares, ela na quinta de uns primos, o irmãozinho na quinta de outros. Tudo era preferível a ficar na cidade onde todas as noites choviam bombas.

O exército dos aliados que entrou naquela parte da Alemanha era o americano. E aqui, o rosto dela abriu-se num sorriso, ao lembrar como os soldados americanos tratavam bem as crianças. Em especial os soldados negros: inexcedíveis em simpatia. (Eu a pensar: underdogs entre si, a solidariedade dos mais frágeis com os mais frágeis.)

Quando os bombardeamentos pararam, ela e o irmão voltaram para casa. O pai também conseguiu regressar. Tinha sido enviado para a frente Leste, a mais mortífera. Estava a curar ferimentos num hospital de campanha quando sentiu o Exército Vermelho a aproximar-se. Arranjou (sabe-se lá como...) uma bicicleta e pedalou mais de mil quilómetros de regresso a casa. Na cómoda do quarto da minha sogra há um bonequinho de peluche, um cão preto de pêlo hirsuto, que o pai dizia ser o seu talismã. Foi para a guerra com ele, e trouxe-o de volta naquela desesperada viagem de bicicleta. (Eu a pensar num homem adulto, pai de dois filhos: que espécie de terror o terá feito agarrar-se assim a um boneco?)

Na escola, davam às crianças subalimentadas papas de aveia. Serviam-nas num pucarinho de alumínio que cada criança levava consigo. A minha sogra comia metade, e levava a outra metade para casa, para o irmãozinho também poder comer alguma coisa.

Este post acaba aqui, assim abruptamente, como a conversa com a minha sogra que, chegada a este ponto, decidiu mudar de assunto. 



atraso de vida

 

Isto hoje vai ser um dia complicado: até fecharem as urnas francesas, eu com as mãos fechadas em figas.

(E logo hoje, que tinha tanto que fazer! Esta gente de extrema-direita só nos atrasa a vida.)


23 abril 2022

a queda das máscaras

 

Oh pá, a sério!
Aqui a artista tem andado a ler nas redes sociais menções à "queda das máscaras" e pensava que se referiam à posição do PCP sobre a Ucrânia...
(Esta minha tendência natural de tirar pelo sentido ainda vai acabar mal)

Agora mesmo a sério, para acabar de vez com os exercícios de retórica:
Se Cuba decidisse aliar-se a um inimigo dos EUA, e o exército norte-americano invadisse Cuba, destruísse as suas cidades, fizesse tiro ao alvo à população e violasse as suas mulheres e crianças, eu gritaria muito alto contra os EUA.
Se a Coreia do Sul dissesse que se sentia ameaçada pela Coreia do Norte e invadisse esse país, destruísse as suas cidades, fizesse tiro ao alvo à população e violasse as suas mulheres e crianças, eu gritaria muito alto contra a Coreia do Sul.
Não me interessa se os invasores tinham razão para ter medo, não me interessa se os governantes dos países invadidos são ditadores. É tão simples como isto: nenhum país pode invadir outro país, destruir as suas cidades, fazer tiro ao alvo contra os civis e violar as suas mulheres e crianças.


22 abril 2022

memórias da guerra

 

"Hoje nós, amanhã vocês"


Falei há dias das duas alemãs octogenárias a quem as imagens da guerra na Ucrânia trazem à tona memórias do que viveram em 1945. 

Rimo-nos com a história do pai obrigado a tocar "noite feliz" na Páscoa. Mas perguntavam também, apreensivas: esse exército não aprendeu nada em todos estes anos? Continuam igualmente brutais? Preferiram falar apenas do anedótico: alguns soldados do Exército Vermelho que chegaram a Berlim bebiam da água das sanitas, por não saberem o que era aquilo. 

Pensei numa passagem de um diário dessa época escrito em Berlim: os soldados soviéticos que tentavam aprender a andar de bicicleta nas ruas bombardeadas. Num instante a bicicleta ficava toda estragada. Eles deitavam essa fora, e roubavam mais uma para continuar a treinar.

Mas isso era o lado quase anedótico da ocupação. Bem pior que o saque generalizado, foram as violações e as execuções sumárias. A vertigem do poder sem freios.  

Em Weimar, conheci uma polaca que era peremptória: comparados com os soldados do Exército Vermelho, os soldados alemães eram uns cavalheiros, dizia ela. Nem mesmo o meu argumento da lista que os nazis levaram para a invasão da Polónia, com os nomes de milhares de pessoas a abater, a demoveu: o verdadeiro horror chegou com o Exército Vermelho.
Fico a pensar que crimes terão sido esses, que fizeram dos SS alemães "uns cavalheiros".
E mais me assusta a pergunta das minhas amigas: será que não mudaram, em todos estes anos? 

A minha sogra contou que tem andado a dormir mal. As notícias da Ucrânia trazem às noites dela memórias do tempo em que era uma criança, e se abrigava na cave do prédio, ouvindo as bombas cair à sua volta. Oitenta anos depois, descobre que esse pesadelo esteve sempre com ela. 

Ontem enviaram para o meu coro um apelo para encontrar uma família de acolhimento para um miúdo de 12 anos. Veio para Berlim com a irmã, os pais ficaram na Ucrânia. Os dois decidiram que é melhor separarem-se, porque a irmã está profundamente traumatizada, e o rapazinho não consegue lidar com isso. 

Daqui a setenta anos, ainda vão carregar com eles este pesadelo. Eles, e milhões de outras crianças ucranianas, por causa de um Putin que se dizia muito preocupado com os - entre novecentos e cinco mil - homens do batalhão Azov. Era preciso desnazificar a Ucrânia, dizia o Putin, pelo que enviou para lá os seus próprios paramilitares nazis. Como era mesmo a famosa frase? "São uns filhos da puta, mas são os nossos filhos da puta".

Como os tempos são outros, muito do que os soldados e paramilitares russos roubam tem chips que indicam o seu paradeiro. Há máquinas agrícolas ucranianas que agora estão na Tchetchénia.
O que me lembra a cobiça estampada no rosto dos "alemães de bem" que, na primeira metade dos anos 40 do século passado, frequentavam as vendas do recheio das casas dos judeus enviados para os campos de concentração. 

E penso nesta afirmação de Jonathan Littell:

War leads to crime, to the abandonment of the usual norms, to incredible brutality and sadism. But it's always collective violence, the madness of a group as a whole, not the insanity of one individual such as Anders Breivik in Norway. There's always a system at work behind the killing, an administrative organization of death.

É o que Putin decidiu infligir à Ucrânia, como antes decidiu infligir à Tchetchenia, à Geórgia, à Síria. Uma autêntica pombinha da paz. 
(Mas ainda há quem prefira entender que o verdadeiro problema é o Zelenski...)





Fotos de uma manifestação em Berlim em 13.3.2022.
Por demasiado chocante, tudo!, não incluí a do miúdo com um cartaz a dizer: "a minha família quer viver". Mas é comodismo meu: o que me custa tanto a ver e a mostrar é algo que vai ficar com ele para sempre.  


17 abril 2022

"jardineiro"

 



Por estes dias, quando penso em #jardineiro lembro-me de um que trabalhava com pincéis.
Foi a neta dele que me contou, em Yerevan: durante a segunda guerra mundial, o pintor arménio Martyros Saryan, que já era um artista muito famoso, e portanto com o poder suficiente para "mexer cordelinhos" que poupassem o seu filho ao pior, anunciou à família que este tinha de ir combater em Leninegrado, porque era lá que se decidia o futuro da Arménia. Ele ficou em Yerevan, com o coração nas mãos, e pintava quadros de flores alegres para oferecer algum optimismo ao seu povo que estava a perder tantos filhos na guerra.

De certo modo, plantava flores como luz no escuro.


15 abril 2022

"O" (2)

 

Na minha zona do Minho, quando morria alguém e o velório era feito em casa, deixava-se a janela aberta durante a noite para a alma poder ir a Santiago de Compostela, caso não o tivesse podido fazer em vida.
(Por acaso, agora que escrevo isto, pergunto-me se não deixariam a janela aberta para arejar um bocado, e se esta explicação não terá sido algo que inventaram para me responder. A minha mãe era muito assim, a paisagem da nossa infância tinha mouras encantadas por baixo de cada pedra que nos parecesse mais especial. Dá uma infância mágica, mas o problema é chegar a adulto sem ter tido oportunidade de filtrar todas as informações.)
Mas pronto, vamos assumir que este é um costume do Minho.
O que eu queria dizer é que, depois de ter escrito o post anterior, sobre o "O" do Cirque du Soleil, fiquei a pensar se no dia em que eu morrer alguém fará o favor de deixar uma janela aberta para a minha alma ir ver o O a Las Vegas e voltar a tempo do funeral.
E vocês: também precisam que vos deixem uma janela aberta? Qual é o vosso "O"?
E nós todos: se é tão importante, porque não nos pomos hoje a caminho, com o corpinho inteiro?
(E eis como me dou conta de que já não estou a falar do O de Las Vegas, mas do Ómega no horizonte.)

14 abril 2022

quinta-feira santa



 




Quando andámos a filmar o ARtMENIANS em 2014, pudemos assistir ao #rito da Páscoa da Igreja Arménia: domingo de ramos em Etchmiadzin (o "Vaticano" da Igreja Arménia), e domingo de Páscoa no mosteiro de Gelarde. Recomendo tudo: as celebrações, os cânticos antiquíssimos, a vivência da fé, os cenários. A alegria das crianças no domingo de ramos, a festa da ressurreição em Gelarde - e uma solista a cantar numa sala subterrânea, uma das primeiras igrejas cristãs do mundo. 

Na quinta-feira santa estávamos em Nagorno-Karabakh, e filmámos partes da celebração desse dia com o famoso arcebispo Pargev Martirosyan.

Todos me falavam com imensa admiração deste arcebispo que esteve sempre ao lado dos arménios na guerras de Nagorno-Karabakh após o desmembramento da URSS. Um herói, diziam. Vimo-lo em Shushi, cidade da qual os arménios tinham sido expulsos depois dos massacres do princípio do século XX. A catedral, durante muitos anos usada como paiol pelos azeri, foi rapidamente reconstruída após a conquista da cidade. Mostraram-nos - com lágrimas nos olhos - um filme do regresso do arcebispo àquela igreja.

Quando chegou o momento de lavar os pés, alguns soldados fardados subiram ao altar, e o arcebispo ajoelhou à frente deles num gesto de grande humildade. O Pedro, nosso artista da câmara, ficou chocadíssimo com a cena, e recusou-se a filmar. Só filmou o lava-pés dos ajudantes da celebração.

Quando entrevistei o arcebispo, tive o atrevimento de falar sobre guerra e cristianismo. Ele não gostou, e respondeu-me com uma passagem do Evangelho, justamente de quinta-feira santa: Então lhes disse: Agora, porém, o que tem bolsa, tome-a, como também o alforge; e o que não tem dinheiro, venda a sua capa e compre espada (Lucas 22:36.)

Em 2014, Shushi era uma cidade ainda cheia de ruínas: as ruínas do antigo bairro arménio destruído um século antes, e as ruínas da guerra dos anos noventa. Em 2020, o exército azeri reconquistou a cidade, e voltou a danificar a catedral. Mais ruínas.

Pergunto-me onde andarão agora as crianças que ali vimos, e se ainda terão aquele sorriso confiante. Onde estarão os soldados cujos pés foram lavados pelo arcebispo. E, sobretudo, qual dos versículos em que Jesus fala de espadas é o certo quando o que está em jogo é a nossa vida e o nosso sentido de Justiça.


[ Agora mudava de religião e passava para a história do rabino de uma shtetl no Leste da Europa, que juntou dinheiro da comunidade para ir à cidade comprar a Justiça. O espertalhão do negociante pegou numa ânfora, encheu-a com água do esgoto, fechou-a, recebeu o dinheiro e deu ao rabino a ânfora cheia de Justiça, avisando que não a podia abrir. O rabino regressou à shtetl, meteu a ânfora debaixo da cama, mas não conseguia dormir. Quando não aguentou mais a curiosidade, abriu a ânfora. No dia seguinte, toda a comunidade queria saber como era a Justiça que tinham comprado. E o rabino:
- Só vos sei dizer isto: a Justiça fede! ]








13 abril 2022

"O"

 


#O é o nome de uma das obras de arte do Cirque du Soleil. Disseram-me em 2001 que era a melhor deles. Foi na primavera desse ano, éramos tão novos! No verão demos uma volta enorme pelo South West, com partida de Las Vegas, mas não fomos ver o O. Ficámo-nos pelos espectáculos gratuitos dos hotéis dessa cidade de faz-de-conta: o água-luz-som do Bellagio, as estátuas que se movem do Palácio de César, o eterno pôr-do-sol no subsolo do Veneza...
Depois veio o 11 de Setembro, nós envelhecemos de repente e deixámos a Califórnia.
Voltei a Las Vegas com a Christina em 2009. Uma noite: enquanto os rapazes atravessavam o Grand Canyon a pé, nós aproveitámos ter de dar a volta com o carro para os apanhar do outro lado, e fomos dormir àquela maluquice de cidade. A ideia era ir ver o O, mas os bilhetes disponíveis custavam 200 dólares para cada uma, de modo que repetimos o programa gratuito, e entrámos numa ou noutra loja. Comprei para a minha filha adolescente uma t-shirt onde se via um monstro com uma bandeja cheia de bolachinhas, e a frase "come to the dark side, we have cookies!"
Precisei de uns bons 5 anos para perceber mesmo o que ali estava escrito...
Ainda agora tenho pena de não termos visto esse espectáculo do Cirque du Soleil. O que me obriga a pensar nessa coisa de identificar o que é realmente importante para mim, e carpe diem. Não é fácil - porque se fosse fácil já não andava a pensar nisso...


à moda da casa


Encontrei no facebook: o tuíte de António Filipe sobre o ataque ao site do PCP, seguido de algumas reacções que seguem o argumentário à moda da casa. Tenho alguns problemas em relação a este tipo de acções dos hacker porque, independentemente da causa, são grupos de justiceiros por conta própria. A ideia é reforçar o Estado de Direito, em vez de depender destas "coboiadas" para que se faça justiça.

Dito isto, passemos aos exemplos de excelente sentido de humor. (Grata a quem compilou, e a quem partilhou.)













12 abril 2022

maus caminhos

 

Aconteceu no princípio da Semana Santa: dei comigo a imaginar que o mundo parasse durante um minuto para que cada um rogasse uma praga ao Putin.

E logo a seguir imaginei-me na pele do Putin tomando consciência de ser o epicentro de milhares de milhões de ondas negativas, carregadas de ódio, em todas as línguas do planeta. Caí em mim: não se pode fazer isto.

Como é possível que me tenha ocorrido um gesto de tamanha violência simbólica? Porque não me ocorreu, em vez disso, pedir ao mundo que parasse um minuto para enviar ondas positivas ao Putin, para ele ganhar juízo e desistir da invasão da Ucrânia?

Isto: estamos na Semana Santa, e não me ocorreu rezar pelo Putin.

Se calhar já entregava o "cartão do clube" - o documento do baptismo? - e aceitava que o meu cristianismo se perdeu algures por maus caminhos.


vizinhos novos


 

Em termos de taxa de natalidade nas raposas da minha rua, é isto.

(Até lhe perdoei ter aberto o meu saco de lixo reciclável e espalhado o conteúdo (agora muito bem lambido) por todos os lados.)

08 abril 2022

famosos

 

Há tempos fizeram no facebook uma brincadeira em que partilhavam esta imagem e cada um contava as suas histórias. Durante mais ou menos uma semana andei muito impressionada a ler as listas de pessoas famosas perto de quem os meus amigos já estiveram, e a pensar que era uma desgraçadinha, porque só a mim é que eles não aconteciam.
Mas depois, de repente, fez-se luz. A Berlinale! Charters deles (a começar pelo Brad Pitt no tempo em que era bonito, a meio metro de mim, virado para mim, podem embrulhar esta muito embrulhadinha).

Ai, e a Filarmonia! Famosos às paletes. Nem vou começar a dizer nomes.

Escritores? Calateboca. Vários Nobel, e também uma cena de meter água em quantidades diluvianas: fui falar com o Agualusa pensando que era o Luís Rufatto (nem tentem entender, que eu também não).

Futebol - assim que me lembre, o Pinto da Costa esteve a jantar no mesmo restaurante que eu, mas noutra mesa. E se calhar já me desgracei com esta revelação.

Políticos - ia falar do Marcelo Rebelo de Sousa, mas esse, sendo muito famoso, já esteve perto de 99,9% dos portugueses, já não impressiona ninguém. E se dissesse Marcelo Caetano desgraçava-me outra vez. Que tal: Merkel? Ou a Danielle Mitterrand e toda a família (confundi o filho dela com o dono do restaurante onde estávamos a almoçar, por um triz não me dirigi a ele para fazer um elogio à cozinheira)

IT: Bill Gates, easy easy. E alguns dos alemães mais importantes deste sector, mas essa é ainda mais easy: trabalhei na empresa deles no tempo em que comiam na cantina do pessoal.

O que me espanta verdadeiramente é ter andado uma semana a pensar que só os outros é que chegam perto dos famosos. Suspeito que ando a dormir em pé na minha própria vida.

Entretanto, proponho um novo passatempo, muito mais divertido: com que famosos é que vocês já meteram água?

Sem pensar muito, já vou em quatro. Deixem-me pensar mais cinco minutitos, e chego a vinte, ou mais.