26 maio 2016

dirait-on



O meu coro já está a preparar a próxima maratona: um trabalho intenso com o Rundfunkchor Berlin, e um programa variado e exigente. A arte também se quer organizada, e muito: já nos deram uma folha com as peças que vamos cantar, e uma tabela de datas para fins-de-semana do coro, ensaios normais e ensaios com o Rundfunkchor. Quem se inscrever, compromete-se a faltar o menos possível aos ensaios normais e a não falhar nenhum dos outros.

Ainda tenho a missa do Schubert feita ear worm nos meus dias, ainda falta mais de uma semana para terminar o prazo de inscrições para o próximo projecto, mas uma colega do meu naipe já começou a ouvir as peças propostas e já nos avisou que há uma que a tocou de forma especial. Chama-se "dirait-on", e é a música de Morten Lauridsen para um dos poemas que Rainer Maria Rilke escreveu em francês. Como estamos na Alemanha, o entusiasmo espontâneo é muito organizado: enviou-nos o poema em francês e a tradução para alemão, e um filme no qual o compositor explica como criou a música.

Esta manhã estive a ouvi-la repetidamente: a tranquilidade e a simplicidade que se instalam em nós sem remissão.

Venha a próxima maratona! Quero corrê-la intensamente e devagar, passo a passo, compasso a compasso, inteiramente.


Les roses  

Abandon entouré d'abandon, 
tendresse touchant aux tendresses... 
C'est ton intérieur qui sans cesse 
se caresse, dirait-on; 

se caresse en soi-même, 
par son propre reflet éclairé. 
Ainsi tu inventes le thème 
du Narcisse exhaucé.




25 maio 2016

a raça conspurcada por uma embalagem de chocolates

À boleia do Europeu de Futebol, a empresa Ferrero trocou a imagem habitual nas embalagens dos chocolates Kinder. Em vez do miúdo do costume, vêem-se fotos de criança dos jogadores da selecção nacional.



Um grupo regional do movimento Pegida publicou no facebook uma fotografia dos pacotes que tinham rostos com traços fisionómicos diferentes do que se associa normalmente a "alemão", mas escondendo a parte da embalagem que informava tratar-se de estrelas do futebol em criança. E comentou: "nada os faz parar" (com o sentido de "não têm quaisquer escrúpulos") e a pergunta: "isto está mesmo à venda? ou é uma piada?"

(foto)

A Ferrero reagiu imediatamente, afirmando sem margem para dúvidas que na empresa não há lugar para xenofobia ou discriminação, e que não aceita esse tipo de comentários nas suas comunidades no facebook. 
O caso chegou ao topo da Federação Alemã de Futebol. O seu presidente, Reinhard Grindel, comentou que a equipa nacional é um dos melhores exemplos de sucesso da integração, que há milhões de pessoas orgulhosas desta equipa por ser como é, e que no futebol o que interessa é como se joga, e não a religião ou a origem da família do jogador. 

O próprio chefe do Pegida, Lutz Bachmann, distanciou-se do grupo, dizendo que já não pertence à organização e está a usar abusivamente o seu nome desde Junho de 2015. Mas já não escapam à onda de gozo na internet. O twitter encheu-se de imagens como as seguintes (que tirei daqui):

Uma nova variação de chocolate, para o Pegida: "racisnoz"



A revista satírica Titanic lança uma edição especial de chocolates Kinder Pegida:



Alguém pergunta no Twitter o que é que o Pegida dirá do romance entre as duas personagens da publicidade aos chocolates de leite, o Shoky e a Milky:



E um adepto remata: quem quer discriminar Jerome Boateng und Ilkay Gündogan não é xenófobo, é traidor da pátria!

Uma pessoa ri-se, mas isto é sério. O racismo, que tem vivido uma existência discreta, está a perder a vergonha. Desta vez tiveram azar com o alvo escolhido. Mas amanhã encontrarão outro.


21 maio 2016

da missa a metade

Amanhã vou cantar um missa de Schubert na Filarmonia. O tal concerto a mil vozes, a maior parte delas de coros amadores como o meu.
Erros meus, má fortuna, viagens, outros afazeres: são quase cinco da tarde, e ainda só sei da missa a metade.

Agora vou estudar o resto, para tentar reduzir ao mínimo o post que talvez venha a escrever mais tarde sobre o erro de estudar apenas para dez quando a escala vai até infinito, sobre não saber aproveitar convenientemente as oportunidades que nos dão, etc.


ponha o pé no acelerador

Esta manhã acordei, abri um olho, vi que eram 9:30. Ena, ena! Isto é que foi dormir!, pensei. Levantei-me a correr, fiz um café, preparei o pão, olhei para o relógio: 6:02. Na penumbra do quarto tinha trocado o ponteiro grande pelo pequeno. Mas o café já fumegava, e tinha um aroma tão bom que desisti de voltar para a cama e tentar redormir.

Desde então não parei. E mesmo assim ainda nem comecei a fazer o almoço. Da próxima vez, hei-de ver se me consigo levantar antes de deitar, para poupar tempo e aviar mais pontos da minha listinha de to-dos.


tira a mão das calças quando falo contigo

O título de um texto de Margaret Stokowski no Spiegel online é, das que vi até agora, a melhor resposta a dar a pessoas que em vez de usar o cérebro se afundam na armadilha do sexismo: tira a mão das calças, pá. O texto não é dos melhores que lhe tenho lido, mas é uma reacção sincera ao fenómeno do ódio na internet, e por isso traduzo.

(melhor dizendo: quem traduz é o Speedy Gonzalez, como de costume)


Ódio na net: carta ao hater anónimo  


Tira a mão das calças quando falo contigo

Ela escreve um texto, ele deseja-lhe a morte: a colunista Margarete Stokowski responde a um comentador irado. A título de excepção.

Já não me respondes mais no chat do facebook. Tinha-te perguntado por que motivo concreto é que me desejas a morte, Ruven. É esse o teu nome, ou talvez não. Lindo nome.
No site Baby-Vornamen.de diz que o teu  nome significa "vejam. um filho". Como se os teus pais anunciassem a tua existência em júbilo contínuo, e talvez seja assim. Mas o que faz este filho? Vai para o facebook escrever a mulheres que não conhece, dizendo-lhes que devem morrer: "Olá, minha porca. Espero que te afogues numa das tuas sanitas para transexuais." Foi a tua, digamos, carta do leitor, a propósito da minha penúltima crónica. E como não era suficiente, ainda acrescentaste um "fuck you". Provavelmente para ter a certeza que eu percebia o tom.

Perguntei o que te impelia a escrever esta missiva. "Exmo. Senhor [nome de família], porque é que tem esse desejo? Cumprimentos, Margarete Stokowski" - e ao menos deste uma resposta curta. "Porque já estou farto da tua tagarelice. E agora, tão delicada, queres ser minha amiga no facebook? Só se me enviares fotografias nua!"

Pois, Ruven. Tenho fotografias tão boas. Mas esse não era o assunto que estávamos a tratar, pois não? Tira a mão das calças quando falo contigo. Perguntei uma segunda vez o que é que te incomoda tanto que te leva a desejar-me a morte. Que imagem tens tu das mulheres, Ruven?

Não consegues melhor que isso, quando não concordas com a opinião de uma mulher? Dizer-lhe que pode escolher entre morrer ou servir-te de inspiração para uma punheta? É pouco, Ruven! Onde está o filho pelo qual os pais se alegraram tanto? Escreves o mesmo a homens que não têm a tua opinião? Pediste ao Jakob Augstein fotos dele nu?

O ódio não é boa ideia

Para a tua visão do mundo, seria conveniente que eu te odiasse. Mas não te posso ser útil. Mesmo juntando todas as emoções negativas que tenho neste momento, não consigo sentir ódio. Vi fotos tuas no facebook, e li que de momento tens problemas de saúde. As melhoras, Ruven. Sem qualquer ironia, desejo que te sintas de bem com a vida. E não é por ter comido um hippie ao pequeno-almoço. É porque nas fotografias tu pareces infeliz.

Parece-me que andar pela internet a odiar não é boa solução para nada. Sobretudo quando é feito à custa dos outros. Hoje dão-te atenção, mas amanhã já se esqueceram de ti. Pura e simplesmente, não é boa ideia. Li que tiveste um ataque cardíaco, Ruven. Imagina que tens outro, e a última coisa que fizeste antes disso foi enviar uma mensagem curta e má, que provavelmente nem sequer será lida.

É certo que não mereces que eu me ocupe tanto de ti. Pura sorte, Ruven. Confesso até que nem és um caso especial. Há quem me escreva com mais frequência e brutalidade que tu. Dizem que devia ser violada por um grupo de árabes e só depois morrer. Ou falam em vingança sanguinária e aniquilação total. Tu dizes-me apenas que eu devia morrer nuns sanitários públicos. É mais provável que eu seja atropelada pelo Jan Böhmermann num Segway do que morra afogada numa sanita de transexuais, mas as pessoas são livres de pensar o que lhes apetecer.

Já o Einstein tinha aconselhado a Marie Curie a não ler comentários online, digamos assim. Obviamente, não se tratava da internet. Mas a mensagem era clara: "se o mob continua a falar de si, não leia esses disparates." És o mob, Ruven? Escrevo-te porque me pergunto porque é que as pessoas enviam essas mensagens de ódio. E com certeza que também escrevo porque gosto do teu nome - embora talvez nem seja o teu nome, se calhar chamas-te Manuel Neuer.

E também porque já fiz férias na cidade onde moras. Uma cidade impressionante, marcada pela coexistência muito próxima de pessoas com religiões diferentes. Sabe Deus que nem sempre de forma pacífica. Mas na maior parte do tempo conseguem. Isso incomoda-te, Ruven? Incomoda-te a existência lado a lado de pessoas que têm visões diferentes do mundo? Às vezes acusam-me disso: que não me dou bem com a existência de pessoas que têm outras opiniões. A verdade é que me dou muito bem, e praticamente até é disso que vivo.

Porque me desejas a morte?

Talvez queiras dizer agora: quem vai à guerra, dá e leva. É verdade. Um ponto para ti, Ruven. Mas penso que a expressão significa que quem dá uma opinião recebe uma opinião, e quem dá uma bofetada recebe uma bofetada, Não esses votos de morte em troca de uma opinião.

Porquê, Ruven? Porque me desejas a morte? Ou tratava-se de uma metáfora? Para quê? (...) Conheces este estudo do Guardian, que analisou 70 milhões de comentários online? Embora no Guardian, como aliás em toda a parte, a maior parte dos textos de opinião sejam escritos por homens, os dez autores que recebem mais comentários ofensivos são oito mulheres e dois homens de pele escura. Os temas com mais comentários bloqueados foram Isreal/Palestina, feminismo e violação. Os temas com mais comentários decentes foram palavras cruzadas, críquete, corridas de cavalos e jazz.

Bem sei que receberia muitas mais mensagens de pessoas como tu, Ruven, se usasse um lenço na cabeça. "Não me apetece continuar a ser a mulher de limpeza da nação", disse Kübra Gümüsay na re:publica [ o vídeo indicado no link é em alemão - recomendo-o imenso a quem o fala; para os outros, já sei, já sei, vou ver o que se arranja ali com o Speedy Gonzalez ] , ter de limpar a porcaria das ideias dos outros, repetidamente e sem parar. É possível esgotar as pessoas enviando-lhes mensagens de ódio. Mas o paradoxo é este, e agora repara bem, Ruven: quando, em vez de argumentar, simplesmente se enviam insultos, não se muda absolutamente nada. É a maneira mais idiota de reagir. Hoje é o único dia da tua vida em que te dei algum do meu tempo, e tu desperdiçaste-o por completo. Repara: eu continuo a ser feminista e a favor de sanitários públicos para transexuais. Que pena. Perdeste a tua oportunidade, Ruven, e tão pequena que era.


20 maio 2016

"diabo"

Estava a ver se alguém fala do diabo que foi desencaminhar o Dr. Fausto de Goethe, que havia de ser um nerd mas em medíocre (o Fausto - porque o Goethe, esse, havia de ser um nerd, mas em genial). Como estão todos muito caladinhos, vou ter de me envergonhar eu. A história começa com um prólogo no céu, uma conversa entre Deus e o diabo, à maneira do livro de Job. Não sei como é que Deus arranja, que a cada par de milénios mete-se no jogo e a fazer apostas. Más companhias, já a minha avó avisava. Cuidado com as más companhias! Entretanto ela morreu, e espero que esteja a avisar Deus com o mesmo empenho com que me avisava a mim, e espero que ele lhe dê ouvidos (durante muitos anos a coisa correu bem comigo, mas agora meti-me no facebook...).
O diabo entra na casa do Fausto em forma de caniche, depois mostra quem é e ao que vem, e o nerd do professor, que tudo estudou mas pelos vistos pouco aprendeu, com meia dúzia de tretas acaba a vender a alma ao diabo. Ao caniche. E é melhor eu agora não atirar pedras ao telhado do Fausto, porque tenho cá em casa um rafeirito que manda em mim, e nem sequer fizemos um pacto para ele me dar tudo o que quero, nem nada. Por falar nisso, são horas de o levar outra vez a passear.
Em todo o caso: o Fausto vendeu a alma ao diabo, depois disso só fez asneiras, e quem pagou foi a pobre da Gretchen.
O Goethe publicou o primeiro Fausto em rapaz novo, e passou o resto da vida a pensar e a escrever o segundo. O Fausto II escapa com um olho negro. Então como é? Vende a alma ao diabo, morre, e tal, mas Deus arranja de não perder a aposta toda?! E depois falam em "justiça divina"... Mais valia rematar à maneira do Evangelho, com uma daquelas frases que me deixam sempre boquiaberta a pensar quem terá sido o tradutor que fez tal asneira (geralmente a culpa é do tradutor), tipo "o reino de Deus é assim: quem muito tem, mais lhe será dado; quem pouco tem, até esse pouco lhe será tirado". É daquelas frases que me fazem pensar que se o reino de Deus é assim, se calhar era boa ideia ir espreitar como será o contrário, o reino do diabo, mas eu não disse nada, nem sequer estou aqui, ópramim lá tão longe, já estou no lago a passear o cão. Não, não é um caniche.

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Na aldeia da minha avó não se podia dizer diabo. Nem demo. Nem mafarrico. Nenhum dos seus nomes. Em vez disso, diziam "o cão" ou "o bicho da peçonha" em modo raivoso, cuspido. Como se o diabo existisse mesmo, como se todos morressem de medo da sua presença material e fizessem questão de lhe omitir o nome, não fosse ele pensar que o estavam a chamar.

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Hoje já é amanhã, pelo menos aqui na minha terra, e a culpa é do vizinho que me viu a chegar a casa tarde e a más horas e ainda abriu uma garrafinha de vinho para ficarmos na conversa. Em todo o caso, antes deste dia do diabo terminar queria falar do Martinho Lutero que fugiu para a Wartburg disfarçado de Junker Jörg, e se entreteve por lá a traduzir o Evangelho para uma língua que acabou por se tornar a base do alemão moderno unificado, digamos assim, mas isso era no tempo em que a religião tinha uma palavra a dizer na sociedade. Até tinha uma língua inteira.
Diz que o diabo costumava incomodá-lo muito, desde tenra idade, e uma vez, lá na Wartburg, quando estava novamente a ser provocado e posto à prova, o Lutero perdeu a paciência e, zimbas!, atirou-lhe o tinteiro ao focinho. Mas o malvado do mafarrico esquivou-se e a parede ficou toda esborratada. Para gáudio dos crentes e turistas muitos anos depois, que foram esgravatando a tinta da parede até não sobrar mancha nenhuma para eu ver (fui lá no princípio deste século, e não tinham deixado nada para mim, os egoístas). Para gáudio dos trolhas da Turíngia, que passavam a vida a pintar e a repintar a nódoa, que era esgravatada e repintada. Mas agora deixaram-se disso, se calhar a culpa é da troika.
Em todo o caso: a culpa deste texto é do rosé.
Boa noite, durmam bem.


fantástico sentido de oportunidade (3)

Rui Carvalho tem um sentido de oportunidade ainda mais fantástico que eu: teve 14 longos anos para denunciar o que lhe parece ser um comportamento criminoso de um investigador, mas só se lembrou de falar disto justamente na altura em que o tal investigador, agora ministro, está a travar uma luta complicada para fazer cumprir obrigações constitucionais que vão contra interesses de um grupo empresarial.

Coitado do Rui Carvalho. Mesmo que tivesse razão (e parece que não tem - as entidades públicas envolvidas afirmam que o processo decorreu com toda a normalidade), ser-lhe-ia muito difícil explicar porque é que foi precisamente neste momento que se lembrou de denunciar algo que aconteceu há 14 anos. E vai-lhe ser ainda mais difícil conseguir que alguém acredite que o que o move não está de modo algum ligado a poucas-vergonhas como as que se descrevem nesta reportagem.

Mais lhe valia ter ido regar o jardim à chuva, ou perguntar se alguém pode levar uma encomendazinha no próprio dia em que se suspeita de uma bomba ter feito cair um avião...


fantástico sentido de oportunidade (2)



Tem estado um tempo formidável em Berlim. "Formidável" é um conceito relativo, bem sei. Em todo o caso: ora com mais calor ora com menos, tem estado seco. Sim: há semanas que não chove! A relva do nosso jardim parece que tem icterícia, o acerto da factura da água do ano passado ainda nos dói na conta bancária, e não chove. E depois há o sádico do boletim meteorológico a repetir, dia após dia, que chove na Alemanha toda. Toda? Não! Uma pequena aldeia da Prússia resiste estoicamente no mapa.

Ontem não aguentei mais e fui regar o jardim. Bem sei, de outros anos, que se eu regar daí a nada chove. Até queria que a câmara de Berlim me pagasse a conta da água, porque com o que faço chover poupam eles a rega de todos os parques. O problema é que se eu não regar não chove, e ainda se lembram de me passar uma multa por causa do prejuízo da cidade. Reguei, portanto, e a relva começou a tingir-se, agradecida, sabem como é: aquela associação do verde à esperança.

Daqui a nada começa a chover. Se for o dilúvio, fui eu.


fantástico sentido de oportunidade (1)

Ontem, quando meio mundo se questionava - em choque - sobre os motivos da queda de um avião no Mediterrâneo, perguntei nas redes sociais se haveria alguém disposto a trazer-me um pequeno volume de menos de um quilo de Lisboa para Berlim.
E admirei-me muito de não ter resposta.


19 maio 2016

Khatia Buniatishvili, Khatia Buniatishvili, Khatia Buniatishvili




(fotos: Catarina Ivone, numa série do facebook a que chamou "esta mulher é pecado")


 


Nem sei bem como, caí numa play list com esta mocinha, e fiquei a ouvi-la tocar mais de três horas, vídeo após vídeo.
Caramba, esteve a tocar de cor mais de três horas!
(vá, era uma piada seca)

(volta e meia ia espreitar, e os vestidos eram todos de aimêdês - desde a Yuja Wang que não via nada disto)

(há tempos esteve cá - da próxima vez, não me escapa)

(antes que pensem coisas, aviso já que só escrevi o nome dela muitas vezes porque é difícil como tudo, e não quero enganar-me da próxima vez que me quiser armar em pessoa erudita)

("fiquei a ouvi-la" foi o que escrevi no início do post. Entretanto, por causa de comentários de amigas no facebook, fui ver. Agora não sei se quero ir a um concerto dela. É um dois em um: boa música, e excelente mise en scène. Não é o Lang Lang, demasiado arrebicado, nem a Grimaud, que se transforma em música, nem o Trifonov, que se funde com o piano. É dois em um, e é demais: não sei se conseguirei abstrair da sensualidade dela para lhe ouvir a arte.)









"caixa"

A minha estreia numa loja nos EUA: cheguei à caixa, mostrei o que queria comprar, e a senhora perguntou:
- How are you today?
Apanhada completamente desprevenida:
- Well, ahem, fine, fine. Thank you.
A pensar: que maravilha de país, têm atendimento psicológico nas caixas das lojas!

(Por sorte o meu filho mais novo já chegou à fase em que não se envergonha de mim. Até me pede para ser natural à frente dos amigos dele, diz que quando começo a meter água sou muito divertida.)

(Nós tínhamos dos nossos pais uma ideia completamente diferente, não era? Estávamos muito longe de os conhecer por dentro, como os nossos filhos nos conhecem. Será que eles disfarçavam muito bem, ou já estavam realmente completos e adultos como os imaginávamos, ou não se podiam dar ao luxo de tirar a máscara nem perante eles próprios?)


**


Uma vez (desconfio que quando o pessoal lê os meus "uma vez" pensa "oh, não! lá vem ela com o uma vez outra vez!") os meus irmãos viram um esquilinho amoroso à venda no mercado do Bolhão, e convenceram o pai que era mesmo mesmo mesmo o presente de anos que a mãe ia adorar (o aniversário dela era o que estava mais a jeito para o caso). A contragosto, o pai lá deu os 500 escudos para o comprar - uma fortuna.
Os rapazes foram ao Bolhão, e quando descobriram que a gaiola não estava incluída no preço não se atrapalharam, nem ficaram em choque, nem nada: compraram o bicho, e trouxeram-no para casa numa caixa de sapatos com buraquinhos no cartão para ele poder respirar.
O resto, é uma história mirabolante de uma miúda de seis anos que vai espreitar o esquilo, do esquilo a aproveitar para fugir da caixa - mas como este é o momento em que a caixa sai desta história, não conto do pandemónio que foi para o tentar apanhar, nem de ele ter mordido o meu irmão que se tinha protegido com uma luva de pano (hihihihi, uma luva de pano!), nem da minha mãe a telefonar ao hospital a perguntar se o bicho teria raiva, nem do meu pai a mandar comprar uma gaiola e depois, quando chegou a casa, a fazer um corredor entre o sítio onde a pobre criatura se escondera e a gaiola, e a resolver o problema em menos de um minuto. Pobre esquilinho. Morreu pouco depois. Se calhar, era o meu irmão que tinha raiva...


**




Na nossa casa havia uma caixa destas. Era de mil novecentos e vinte e pouco, e imagino o meu avô a encomendá-la de Paris, feliz que estava com a chegada do filho. Em criança, passei horas sem fim a estudar-lhe o mecanismo, e mais horas ainda a dançar uma coisa a que chamava "ballet" ao som daquelas músicas (por sorte, ninguém viu). Tinha uma boa dúzia de melodias, e podia-se escolher repetir sempre a mesma, ou tocar a sequência. Só não tinha a opção de sequência aleatória. Nem sequer passou a ter depois de eu a ter estudado por todas as formas, e em particular pelo método experimental.


18 maio 2016

"administrador"

querido diário,
hoje foi o meu primeiro dia como administradora da Enciclopédia Ilustrada. Que responsabilidade! Que medo! A letra do dia era A, e claro que me ocorreu imediatamente "administrador". Fiz o post cheia de medo, aimêdês que não vai haver nada para dizer, aimêdês que ainda agora comecei e já estou a desgraçar esta obra. Mas os posts começaram a entrar, uns melhores que os outros. Que maravilha! Estou fascinada com este poder. Digo uma palavra qualquer, e os estimados colegas desatam a produzir coisas incríveis.
 Agora estou a pensar criar um sistema de encomendas de palavras. Não sei ainda: 5 ou 10 euros por encomenda? Talvez 20, que isto é um grupo muito selecto. Enfim, não quero exagerar, e também não convém enriquecer depressa. Nos tempos que correm anda tudo muito desconfiado, o Correio da Manhã ainda vinha a saber, e depois o youtube enchia-se de escutas de telefonemas entre mim e o Joachim, "a que horas vens jantar? " e "não te esqueças de trazer pão" e o pessoal, que é fino e não se deixa enganar, ia logo ver que isto são mensagens codificadas.
Agora vou dormir, e sonhar com a palavra da próxima quinta-feira. A letra D. Será que encontro alguma?


de mil faces transbordantes



No próximo domingo, o Daniil Trifonov vai tocar o concerto nº 2 para piano de Rachmaninov na Filarmonia de Berlim. Vi-o há meses, a tocar o nº 3. A sala inteira em apneia, até se esqueceram de tossir e tudo.

Os bilhetes para o próximo domingo são demasiado caros, pelo que estou a pensar um plano B, teimosamente fundado na convicção de que a esperança é a última a morrer: ir para a porta, ver se há alguém com um bilhete a mais, que o queira oferecer. Às vezes, há.

O problema é que no próximo domingo vou cantar a missa de Schubert. Estarei na Filarmonia das dez da manhã até às seis da tarde, completamente mergulhada em música e endorfina da melhor. Já basta para um dia, já deveria bastar - e bastaria até para um mês, ou seis meses, ou um ano, se a minha vida não fosse a tal de mil faces transbordantes.

Há tempos, uma das cantoras que participou na ópera do ano passado comentou que foi o melhor que lhe aconteceu nesse ano (ou terá dito "na vida inteira"?). Fiquei muito surpreendida, porque eu tinha conseguido encaixar a ópera entre uma viagem maravilhosa à Costa Rica e a festa que organizámos na nossa rua - para falar apenas do que aconteceu na mesma altura. Pergunto-me se dou o devido valor ao que me acontece, ou se na vertigem de tanto e tão bom acabo a deslizar pela vida sem lhe tocar a profundidade.

Estou a ouvir o Trifonov, e a pensar que gostaria imenso de o ver no próximo domingo, mas não sei se consigo estar realmente nesse concerto com ele logo depois de ter cantado a mil vozes uma missa de Schubert - essa missa que estou a fazer minha.

Não será uma overdose de sensações demasiado intensas?
Menos é mais?

Não me digam que ainda agora completei cinquenta anos, e já estou a ganhar juízo?

(Provavelmente é apenas o saber de experiência feito. Por causa daquela vez em que fiquei de frente ao Dudamel a vê-lo dirigir a segunda de Mahler, e a seguir fui ao late night com o Rattle e a Barbara Hannigan. Eles foram excelentes, mas foi uma péssima ideia, porque não conseguia ouvi-los - ainda estava no concerto anterior. O eco daquele Mahler precisou de vários dias para se resolver dentro de mim.)

(Por outro lado, é o Trifonov. E o nº 2 de Rachmaninov. Aaah, pudesse eu não ter laços nem limites...)


vícios



Há uma passagem neste vídeo que me lembrou imediatamente uma resposta dada ao Michael Moore no seu filme mais recente, Where should we invade next?, quando se falava do modo como em Portugal tratam os consumidores de droga.

- Mas então, não criminalizam o consumo?! A droga destrói famílias!
- O facebook também, e ninguém o proíbe...

(Vi-o na Berlinale: o Friedrichsstadtpalast cheio até à última cadeira, e o público a rir em uníssono com esta resposta. Fiquei muito orgulhosa daquele português.)


17 maio 2016

efeméride

Esta manhã lembrei-me, nem sei porquê, daquele fim de tarde em que - teria talvez seis anos - me mandaram ir num instantinho comprar um ramo de salsa à mercearia. Ia a subir a rua (pelo meio do passeio, nem demasiado perto do movimento, nem demasiado perto do pastor alemão e do lobo da Alsácia de um vizinho, que metiam um medo dos diabos a toda a gente), quando vi um carro desgovernado na minha direcção, com várias raparigas lá dentro. Passou por mim aos ésses, e logo a seguir guinou para a direita, galgou o passeio e estampou-se de frente contra um muro. As raparigas saíram, gravei delas os cabelos compridos, as calças à boca-de-sino, algum sangue na cara de uma, o ar de choque. Começaram a aparecer pessoas, e eu continuei caminho aliviada por o carro não ter guinado para cima de mim (lá ficava a minha família sem salsa para o jantar),

Hoje ocorreu-me que estas raparigas, se naquele dia não foram mortas pelo pai, devem estar a fazer uns sessenta e cinco anos. Espero que já tenham ganhado juízo.


16 maio 2016

em Portugal, o Kafka é um menino do coro

(Antes de mais, façamos um esforço para ignorar os nomes envolvidos neste assunto, de modo a podermos pensar com objectividade em coisas muito sérias.)

É o seguinte: no nosso país, como em muitos outros, os cidadãos concedem ao Estado o poder de lhes devassar a privacidade e a intimidade em casos muito especiais, quando há fortes suspeitas de crime. Dado tratar-se de um abuso do Estado contra os mais básicos direitos da personalidade, essa devassa está sujeita a regras muito apertadas. No entanto, recentemente demo-nos conta de que no nosso país é possível que jornalistas tenham legalmente acesso a material muito sensível, recolhido segundo essas apertadas regras, para a seguir publicarem acusações contra uma pessoa que nem sequer está na mira do Ministério Público. Desculpem, vou repetir: apesar de o Ministério Público entender que não há motivos para incriminar e levar a tribunal determinada pessoa, ela vê-se acusada num tribunal popular que a julga com base nas insinuações de um jornal que se diz omnisciente mas não consegue apresentar provas concludentes do que afirma (claro: se as houvesse, o Ministério Público constituía a pessoa como arguida). Mas ainda pior é possível: se essa pessoa, para se defender, pedir ao Ministério Público acesso ao processo de modo a conhecer a base da acusação que lhe foi feita pelo jornal, esse pedido é-lhe recusado porque - quem diria? - aquele material está sob segredo de Justiça. Entretanto, parte do tal material (que, recorde-se, foi recolhido no âmbito de uma investigação que obedece a regras rígidas e nem sequer tinha esta pessoa como alvo) já é exibido, de forma manipulada, em vários meios de comunicação social.

Diz-se que somos uma Democracia recente, e que ainda estamos a ensaiar passos. Penso, pelo contrário, que quarenta anos não são tão pouco como isso, que já começa a ser tempo de sermos exigentes com o país e connosco em vez de nos embalarmos nesta atitude de compreensão e derrotismo, e que não podemos tolerar que se ensaem passos na direcção errada. A direcção que este caso toma é fatal. Um jornal entende que se pode substituir à Justiça: começa por lhe dizer o que ela deve fazer e, ao ver que não é obedecido, arma-se em herói justiceiro e castigador. Não o confundamos com um whistle blower - esse fornece à Justiça os factos que ela desconhece. Aqui, quem desconhece os factos é o jornal, que os vai buscar à Justiça e, rejeitando o veredicto de não-relevância do único agente do Estado de Direito que tem o direito de decidir sobre isso, publica calúnias alegando que "sabe coisas" - o que dá origem a um julgamento popular. Por outro lado, ao mesmo tempo que se põe descaradamente acima da Justiça, o jornal furta-se às obrigações mais elementares do jornalismo, não cuidando de ouvir a pessoa que acusa para lhe dar a oportunidade de contraditório,

Sinceramente, não sei como é que o Ministério Público se deixa desautorizar desta maneira, e como é que o caso não foi ainda ao Parlamento. Ainda não perceberam que estamos perante um ataque muito sério ao regular funcionamento das instituições que são a base de qualquer Democracia?

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Neste momento está a acontecer à Fernanda Câncio.
Independentemente dos sentimentos de ressentimento e vingança que algumas pessoas possam ter em relação a ela, não nos iludamos: se permitirmos isto, deixamos uma porta aberta para que aconteça a qualquer um de nós.

Alguns dirão "ai, mas eu cá sei escolher as pessoas com quem me dou". Não teria tanta certeza.
Melhor será passar a exigir sempre cópia da declaração de impostos a todos os amigos que nos convidarem para um almoço ou nos derem um presente de valor.
(É esta a sociedade que queremos ter?)

Outros dirão "quem não deve não teme". Pois, fiem-se na Virgem...

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Quem quiser ler o texto da Fernanda Câncio: o processo marquês e eu (e a visão).
Quem quiser ler a crítica que o Daniel Oliveira faz ao Correio da Manhã e à Justiça portuguesa (explica muito melhor que este meu post): Fernanda Câncio e os atalhos do "Correio da Manhã".
Quem quiser mesmo ir coscuvilhar no que nunca devia ter passado ao domínio público, mas agora que o mal está feito convém informar-se para além das insinuações do Correio da Manhã: O que liga Fernanda Câncio à Operação Marquês? 
Quem quiser ouvir o Ricardo Araújo Pereira a dizer que isto parece o processo de Kafka do séc. XXI: Governo Sombra de 15.05.2016 (a partir de 7:34)
(Ontem escrevi o título deste post, e fiquei toda satisfeita com ele, achei-me muito original. Esta manhã vi o Governo Sombra, e aparece-me o Ricardo a dizer mais ou menos o mesmo. Humpf! Das duas, três: ou é sinal de que eu sou um génio, ou o RAP está a perder qualidades, ou então o espírito do La Palice caiu sobre nós os dois.)


15 maio 2016

um concerto de mil vozes



Daqui a exactamente uma semana, mais minuto menos minuto, estarei na Filarmonia a cantar esta missa de Schubert.
Eu, e mais 999, e mais os solistas. Não se preocupem comigo, desta vez não me vou envergonhar, porque tenho o playback muito bem ensaiado: nas partes em que não estou segura, abro e fecho a boca dentro do ritmo e das vogais certas, e a coisa vai.

[ ouçam o "Domine Deus", a partir de 10:48, ouçam o - aaaaaah - "Miserere" ]

O meu coro teve cerca de dois meses para preparar a missa inteira. O nosso maestro deu-nos um plano muito exigente para prepararmos previamente cada ensaio, enviava-nos e-mails do género:

                               Seite Takt  bis
1 Kyrie Christe           4    51    88
2 GloriaGratias          14  68    115
   Domine Deus          19 151   229
   ff. Fuge
   Cum sancto             29 329   387
   ff.                            31  388   432
4 SanctusBenedictus (tutti)
                                  68    26   35

Quem não tinha piano, podia usar este site: http://www.cyberbass.com/Major_Works/Schubert_F/schubert_mass_eflat_major.htm
(que é o perfeito antónimo de música, mas quem não tem cão. Além disso, pode-se reduzir o ritmo, o que dá jeito quando se está a aprender as passagens de fuga.)

Apesar do ritmo intenso do trabalho e de fazermos os trabalhos de casa, no último ensaio senti sinceramente pena antecipada do Simon Halsey, que no próximo domingo vai ter de apresentar uma missa de Schubert com duas dúzias de coros amadores, e mais o seu fantástico Rundfunkchor Berlin. Adoro o Simon Halsey, gosto imenso de trabalhar com ele (esta é a segunda e provavelmente a última vez, porque ele também se vai embora de Berlim, como o Simon Rattle) (desconfio que esses dois em Londres vão provocar uma bela subida do índice de felicidade na região) e deu-me pena: coitado, não merecia levar com uma como eu, que em dois meses o máximo que consegue fazer é preparar o playback na ponta da língua. 

E depois senti muita pena de mim. É que, no ensaio da semana passada, ficámos um pouco mais em duas passagens - uma que me cativou por parecer russa [ 30:10 ] e outra, quase renascentista, que me fez sentir em casa - e por termos parado mais nelas comecei a perceber o que o Schubert queria e a sentir-me encantada por estar em comunhão com ele; pelo meio o nosso maestro dizia gracinhas do género "isto não é erro de impressão, é mesmo maldade do Schubert", a seguir a maldade resolvia-se em beleza, e eu só pensava - cheia de pena - que mais seis meses, seis meses de entrega total e íamos entrar realmente nesta missa e no Schubert, íamos talvez conseguir tocar a alma desta música.

[ ouçam os solistas a cantar "e encarnou", a partir de 20:50 ]  


14 maio 2016

se me deixassem mandar, em vez de "mansplaining" chamava-lhe "machosplaining"

Se me deixassem mandar, em vez de "mansplaining" chamava-lhe "machosplaining", e filmava aleatoreamente conversas, debates e reuniões para depois, discretamente, mostrar essas cenas como espelho a quem dele precisa. Que ele não há rapazes maus, o problema é que alguns estão mal habituados.

13 maio 2016

prémio "literacia no jornalismo" vai para a jornalista Ana Dias Cordeiro

Esta semana o prémio "literacia no jornalismo" vai para a jornalista Ana Dias Cordeiro, cujo artigo no Público mostra que foi uma das poucas pessoas na comunicação social, se não a única, que leu e entendeu o texto da Fernanda Câncio na revista Visão.

Dei uma vista de olhos pelo que os jornais online escrevem sobre o caso, e é desanimador: esta gente parece estar condicionada para interpretar o que lê seguindo um esquema de drama, intriga, traição, sangue a correr na calçada.

Se não fosse tão grave, era uma boa anedota: a Fernanda Câncio escreveu um retrato assustador do que se está a passar na Justiça e no Estado de Direito em Portugal, e o pessoal do jornalismo não se deu conta.

Bem sei que pois é, e tal, a vida está difícil, a crise tramou isto tudo, o jornal tem de vender, a espada de Dâmocles pende sobre o pescoço de todos. O nome "Sócrates" vende imenso, há que repeti-lo o mais possível. E há que retirar de um texto aquilo que rende mais, há que explorar ao máximo a intimidade de um casal famoso, há que usar os detalhes que o público - o ganha-pão dos jornais - quer ler. Ou isso, ou inventar uma boa impressora de dinheiro.

Por outro lado, talvez seja demais esperar que os outros jornalistas entendam, se o próprio director da Visão parece não ter lido atentamente o que publicou. Antes de pôr a revista nas bancas, já anunciava que este texto é "uma viagem a uma parte do processo, contada na primeira pessoa, vivida e sentida por um dos envolvidos mas que é uma preciosa ajuda para a perceber parte do que está em causa no Processo Marquês", e deixou que trocassem o título “Esclarecimento Público: O Processo Marquês e eu” da Fernanda Câncio para um muitíssimo mais rentável "Sócrates, o processo Marquês e eu", acrescentando o subtítulo "Exclusivo / As revelações de Fernanda Câncio".

Moral da história: ninguém diga "desta água não beberei" - a Visão lançou o isco para apanhar público, e os jornalistas morderam-no com o entusiasmo de quem juntou a fome à vontade de comer.

Se me aceitassem uma sugestão, era esta: senhores jornalistas, mudem de vida e tentem ser felizes a fazer aquilo para que têm realmente jeito. Escrevam episódios de telenovela. Assim como assim, rende mais que o jornalismo sério, e não é preciso meter os princípios deontológicos e a mais elementar literacia no bolso de trás das calças, aquele que fica mais perto do, enfim, vocês sabem.

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E afinal, de que fala a Fernanda Câncio na Visão? Quem não quiser comprar a revista (e não merece - quem troca “Esclarecimento Público: O Processo Marquês e eu” para um muitíssimo mais rentável "Sócrates, o processo Marquês e eu" não merece que lhe comprem a revista), pode ler este resumo no Público. Obrigada, Ana Dias Cordeiro.

ADENDA: dizem-me que não é possível seguir os links dos blogues para o Público. Quem quiser ler o artigo, pode procurar no Google por "Ana Dias Cordeiro" e o título: Fernanda Câncio espera de uma justiça “cúmplice de crimes” que “reponha a verdade”


Fátima

Ide ver e vede, vereis que vos rides. 


http://luislucaspereira.net/playfatima/








eterno retorno





Deixem-me ver se entendo: ficámos todos chocados quando a Dilma trouxe o Lula para o governo, ajudando-o a escapar a um tribunal - e agora o presidente interino nomeia para ministro oito indivíduos que eram réus do Lava Jato?!

(Pronto, lá caí outra vez na ratoeira da superioridade moral da Esquerda: no caso do Lula, é imperdoável; no caso dos outros oito, é normal.) (Pessoas de bem da Direita, que também as há: protestem alto e bom som, por favor. Humilhem-me, mostrem-me que sofro de preconceitos absurdos.)


anedota para o dia

Anedota para o dia: Sabem como é que se distingue uma oliveira de uma azinheira?
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Abanam-se as duas. De onde cair a Nossa Senhora, é uma azinheira.


11 maio 2016

terminal de aeroporto



O meu avião saía da Cidade do Cabo às duas da tarde. Tomámos o pequeno-almoço, fomos gastar os últimos rands nuns vinhos da região e no Pan-African Market da Loop Street, e ala para o aeroporto. Íamos em aviões diferentes, porque o Joachim foi com milhas pela Lufthansa e eu com um bilhetinho de pelintra que incluía duas maravilhosas passagens por Heathrow, esse fantástico aeroporto onde se gasta quase tanto tempo a ir de um terminal para outro como no voo que - finalmente - se segue a tais andanças. O meu avião saía primeiro, pelo que o Joachim me deixou no aeroporto e foi devolver o carro alugado. Do pequeno-almoço já nem memória tinha, e o almoço do avião, caso houvesse, ainda vinha longe. E eu sem um único rand no bolso. Fui a um café e perguntei se podia pagar com o cartão crédito e assinatura, em vez de PIN. Disseram que podia, pedi um cappuccino e uma tarte de lima e merengue que se estava a rir para mim descaradamente. Quando ia pagar, pediram-me o PIN. "Então?  Eu perguntei antes se podia pagar apenas assinando - é que não sei o PIN do meu cartão." Chamaram os responsáveis, o cappuccino a arrefecer enquanto eu ia percorrendo toda a cadeia de gerência do café. Quis pagar com as últimas moedas de euros que tinha (exactos 1,87 €) mas a mais alta responsável disse que não precisava de euros para nada e ofereceu-me o cappuccino que já estava morno. Agradeci imenso, e despedi-me disfarçadamente e com muita pena da tarte de lima e merengue pousada no balcão.

Daí a bocadinho o Joachim veio ter comigo à minha porta de embarque, mas já não havia tempo para ir ao café pagar com o cartão dele e rever a saudosa tarte.

No avião deram-me um pãozinho daqueles de encher a cova do dente, se for pequena. 

Em Joanesburgo tinha de esperar três horas. Três longas horas. Três horas intermináveis. E um Illy a fazer-me negaças, com umas empadas de carne que eram pura pornografia para a minha fome. Fui à caixa, e perguntei se podia pagar com o cartão de crédito e sem PIN. Verificaram, disseram-me que sim. Pedi uma empada e uma cerveja. Quando ia pagar, dejà-vu: pediram-me o PIN. "Então? Eu perguntei antes se podia pagar apenas assinando - é que não sei o PIN do meu cartão."
A senhora atrás de mim na fila, com dois violinos a tiracolo, disse que se eu lhe pudesse dar o dinheiro em euros ela pagava a minha conta. Mas eu só tinha uma nota de cinquenta euros, e as tais moedas que não chegavam para a despesa. Riu-se, e disse que me pagava na mesma. Perguntei-lhe se ia para Berlim, mas não - ia para Frankfurt. Recusei. Isso mesmo: estava a morrer de fome (e de gula, confesso, que aquela empada tinha um ar fabuloso), e recusei uma oferta tão generosa quanto descontraída de me pagarem um almoço.
A jovem riu-se, e disse ao senhor da caixa que afinal eu era demasiado tímida para aceitar que me pagassem a conta. Agradeci-lhe mais uma vez, e desapareci rapidamente.

Da próxima vez que me pedirem uma esmola, hei-de lembrar-me disto. Do que temos de desistir de nós, do nosso brio, para aceitar que um desconhecido nos dê uma moedinha. 

A violinista ficou por ali a beber uma cerveja, e ainda pensei meter conversa com ela, mas não queria correr o risco de ela insistir em oferecer-me a empada, e por isso deixei-me no meu cantinho. Daí a um longo bocado o Joachim apareceu de novo. Já estavam a fazer o embarque, mas era um A 380 (*) com gente que nunca mais acabava, e pedi à hospedeira se ainda me dava dez minutinhos. Fomos comprar a tal empada. O senhor da caixa, no Illy, serviu-nos a empada e a cerveja mas não aceitou o cartão do Joachim, porque a outra cliente já tinha pago tudo. Agradecemos-lhe a honestidade, e saboreámos o lanche sem saber se havíamos de rir ou de nos sentir comovidos e gratos.

Se alguém conhecer uma violinista de sorriso aberto, com uns trinta anos, cara de asiática, cabelo comprido e dois violinos (um numa caixa preta e outro numa caixa azul claro) que ao fim da tarde da segunda-feira passada estava a ir de Joanesburgo para Frankfurt, diga-lhe que tem a haver um bom jantar em Berlim. 


(*) Sim! Voei num A 380! É um sofá voador. Só reparei que já tinha levantado voo quando olhei pela janela e vi a cidade muito lá em baixo. Mas não sei se fui no andar de baixo ou no de cima. Entrei pela porta que me mandaram, e fui sempre em frente.    

30 abril 2016

Bartolomeia Dias

No aeroporto, a caminho da África do Sul.
Por causa de umas coisas e outras, traduções e burocracias, prazos a rebentar, mil coisas para organizar antes de sair, atrasei-me imenso. Atirei a minha tralha à tonta para dentro da mala, zarpei.
No aeroporto, ainda atordoada de stress, só fiz asneiras. No controle disse que não tinha líquidos, os sacos tiveram de voltar para trás, esqueci-me que tinha um creme noutro sítio, tive de abrir o saco.
No meio da confusão, o controlador - todo bem disposto - falava do que via no écran. "Vai observar pássaros? Isto são binóculos de profissional! O da ópera também é engraçadinho..." Parvo! Não os deviam deixar beber cerveja ao almoço.
Depois de virar os sacos do avesso e de me rastrearem os sacos e as calças, caí em mim: Bruxelas! Já me tinha esquecido. Claro que estão muito mais atentos, claro que não passa mais nenhum creme distraído no fundo de uma carteira. E provavelmente a conversa dos binóculos era para mostrar ao público que está realmente atento.

O avião está atrasadíssimo. Queria ir comprar uma bebida na máquina, mas mesmo ao lado estava uma senhora a rezar, com o tapete estendido no chão. Preferi não a incomodar. Daí a bocadinho a companhia avisou que ia distribuir bebidas gratuitas a todos.
Obrigadinha, ó Alá! Já poupei 3,5 euros.

Vou a caminho do Cabo das Tormentas (sim, o meu vizinho avisou-me: "um vento horroroso, leva gorro e cachecol!") e arrependo-me da pouca atenção com que li os Lusíadas e a Mensagem. Agora faltam-me os versos para fazer minhas (vá lá, vá lá: nossas) aquelas ondas.

(Tanto melhor.)


"o povo vulgar"


"Vão-se refugiar noutro lado!
Aqui não há nada para morar!
Refugees not welcome"



Em Freital, uma pequena cidade com 40.000 habitantes, à distância de dez minutos de comboio de Dresden, há movimentos anti-refugiados muito fortes. Um deles, inspirado no Pegida, chama-se "Frigida". Apesar de ser uma situação extremamente séria, sempre que deparo com este nome não consigo evitar uma gargalhada.

Os movimentos anti-refugiados têm-se revelado um importante ponto de encontro e de fortalecimento de redes da direita radical: de Frigida (lê-se: frriguída) para piquetes de protecção civil e para um grupo terrorista que foi alvo de uma razia na semana passada levando à prisão de cinco dos seus membros - quatro homens e uma mulher.

O jornalista Sebastian Leber foi a Freital, e publicou um longo relato no Tagesspiegel, de que traduzo algumas partes e sintetizo outras.

(O título - "Das gemeine Volk" - é um trocadilho: "gemein" tanto significa "comum" como "repulsivo/imoral/vil" ou, na Botânica e na Zoologia, "sem características especiais". Gostava de ter encontrado uma palavra que sugerisse imediatamente "vil" e "normal".)



O povo vulgar

Sebastian Leber, Tagesspiegel, Seite 3, 26.04.2016

A reportagem começa pelo dono de um dos bares mais populares de Freital, que deixa bem claro que na cidade não há nazis. Enfim, não muitos. E terroristas é que não há mesmo.
Tem um ar tão simpático que uma pessoa se sente tentada a acreditar no que diz. Nos últimos tempos tem-se falado muito de Freital: protestos enormes contra o uso de um antigo hotel para abrigar refugiados, ataques com explosivos a refugiados e partidos de esquerda, e agora a prisão de 5 pessoas da cidade sob acusação de fazerem parte de um grupo de terroristas. Ridículo, diz ele. Essas pessoas não são terroristas. Quando muito, exageraram um bocado e fizeram alguns disparates. Se as conhece? "Nu", diz ele, que é como nesta região se responde para dizer "sim". "Tenho a certeza que querem assustar refugiados, mas não os querem ferir." E acrescenta: "são pessoas normais".
Freital destaca-se no contexto das localidades da Saxónia onde tem havido protestos fortes contra os refugiados. Aqui, o ódio materializa-se de forma mais visível. Nas manifestações contra o centro de refugiados faz-se frequentemente a saudação nazi. Em resposta a um inquérito de rua de um jornal local, uma habitante afirmou que as pessoas de direita que atiram pedras não são perigosas, uma vez que não atiram pedras aos alemães.
O dono do bar continua: na sua grande maioria, os habitantes de Freital não são xenófobos. O que acontece é que têm observado coisas. Por exemplo: desde que os refugiados chegaram, há mais roubos nos supermercados. Ou que os do norte da África às 11 da noite vão comprar snacks à bomba de gasolina, apesar de custarem o dobro do que custam no Aldi. Ou que há sempre estrangeiros a fazer fila nos correios para enviar à família, lá no país deles, o dinheiro que o Estado alemão lhes dá. "Eu não os quero julgar", diz ele. "Faz parte da sua cultura."
No bar está sentado um homem de cabeça rapada. Diz que não é da extrema-direita - aquilo é apenas um penteado. O que o intriga: " Porque é que os sírios vêm todos para cá? Será que na terra deles não têm um exército que os proteja?" O dono do bar concorda. "Imagine-se", diz ele, "que na altura da guerra os alemães fugiam todos, em vez de lutarem pela sua pátria. Ia ser uma catástrofe!" Faz uma pequena pausa. Não, não reparou no que disse.
A cidade está cheia de graffiti contra os refugiados. Encontram-se às dúzias em casas, bancos, por todos os lados:  "no Asyl" ou "não queremos cá um centro de refugiados". Muitos deles ligados às iniciais "N.S." A autarquia diz que não apagou o graffiti porque os conteúdos não são anticonstitucionais. Recentemente, uma iniciativa privada quis remover alguns deles, com a ajuda dos refugiados, mas teve de interromper o trabalho devido à forte pressão de quem passava na rua.
Quem toma o partido dos estrangeiros é ameaçado. Uma vereadora dos Verdes foi ameaçada durante meses, e divulgaram a sua morada na internet. Puseram uma bomba no carro do chefe dos Linke. Os nomes dos dois políticos constavam de uma "lista to-do" que foi colada na janela da sede dos Linke.
As pessoas que foram agora presas são acusadas de terem atirado explosivos para uma casa onde vivem, no rés-do-chão, 14 refugiados da Eritreia. A janela ainda está partida, e debaixo dela lê-se: "N.S." Os refugiados dizem que não ousam sair de casa à noite. Em compensação, recebem frequentemente visitas de jovens que os ofendem e gritam ameaças como "we will kill you". Há tempos arrombaram-lhes a porta da frente. Um dos refugiados fala das diferenças: quando chegou a Munique, no Verão passado, as pessoas acenavam-lhe com simpatia. Se em Freital uma mão se agita na sua direcção, ou é um punho fechado ou é o dedo médio esticado. Pensaram que melhoraria, mas não melhora. Na semana passada havia pessoas mascaradas na entrada da casa, que atiraram gás lacrimogéneo para os olhos de um refugiado.
A polícia andou meses a seguir o grupo que foi preso na semana passada. Os investigadores também estão a averiguar porque é que não foram evitados outros ataques, uma vez que até havia um polícia muito próximo do grupo.
Freital tem uma longa tradição de extrema-direita. O partido NPD começou aqui antes de se instalar em Dresden. O fundador do Pegida, Lutz Bachmann, vem frequentemente à cidade - foi aqui que fez a famosa fotografia em que posava como se fosse Hitler.
Porquê Freital? Os especialistas apontam algumas explicações habituais: o esvaziamento industrial da região depois da reunificação; a saída dos jovens com melhor nível de formação, especialmente as mulheres; a situação na periferia; a sensação de ter ficado pendurado; a busca de uma identidade. Mas será que isso explica tudo?
No conselho da autarquia há situações de cooperação e bom entendimento entre CDU, AfD e NPD que seriam impensáveis noutras cidades. À sugestão do NPD de proibir a entrada nos parques infantis a refugiados, um importante político do partido democrata cristão respondeu que, do ponto de vista jurídico, seria difícil impor essa medida. Um outro disse que ter os refugiados em ginásios não pode ser "a solução final". Em resposta às críticas, acabou por dizer que a expressão consta dos dicionários.
O presidente da Câmara não tem tempo para entrevistas, e manda dizer por escrito que na cidade não há qualquer problema relevante de neonazismo. E que também recomenda uma visita à cidade a turistas com pele escura.
Para quem toma partido contra a extrema-direita, estas afirmações são absurdas. Por exemplo, a empregada de mesa Steffi Brachtel, de 41 anos. Não tem partido, e até há pouco não se interessava por política. Mas um dia um amigo publicou no facebook uma piada que dizia: "Porque é que não há muçulmanos no Star Trek? Porque se passa no futuro." Ela reagiu, dizendo que não tinha graça, e recebeu inúmeros comentários insultuosos. Foi aí que se deu conta de que ou fechava a boca ou arranjava sarilhos. Criou, com mais algumas pessoas, um grupo chamado "organização para abertura e tolerância", e desde então alguns amigos, conhecidos e vizinhos afastaram-se dela. A mãe de uma colega do filho acusou-a entredentes, na paragem do autocarro: "tu és pelos do centro de refugiados".
O corte atravessa as próprias famílias. Na da Steffi, é o seu irmão mais novo. Ele acredita que a Alemanha continua sob ocupação americana, e que o mundo inteiro é dominado pelos judeus. Há muito tempo que é assim, mas dantes era possível falar com ele sobre outras coisas, era possível ouvirem música juntos. Ultimamente, com o Pegida e a crise dos refugiados, já não se pode falar com ele. "Agora estamos em lados opostos."
Em Julho participou numa sessão camarária de esclarecimento sobre o alojamento dos refugiados. Na sala, foi insultada e ameaçaram-na de que também iam deitar fogo à casa dela. Quando, no fim da sessão, perguntou ao pessoal da segurança porque é que não tinha feito nada, responderam-lhe "preferimos ter cinco como tu contra nós do que trezentos como eles."
No bar do inicio da reportagem todos a conhecem. O simpático dono diz que o grupo de voluntários é constituído por gente que se quer fazer importante. E por mulheres que estão a precisar de ser fodidas.
A Steffi Brachtel já foi seguida por um carro à noite, no caminho entre a paragem do autocarros e a sua casa. Já rebentaram a sua caixa do correio com um explosivo. Quando perguntou na polícia que riscos reais corria, responderam-lhe que se todas as pessoas fizessem essa pergunta, a polícia não teria tempo para fazer o trabalho.
Segundo ela, as acções da extrema-direita foram vistas como bagatelas durante anos. Talvez porque encará-las de frente implicasse muito trabalho e muitos riscos. Talvez porque pareça ser uma guerra perdida à partida. Talvez porque muitos estejam de acordo não com a violência, mas com os princípios que lhe estão subjacentes. O que explicaria porque é que os graffiti não são apagados.
A iniciativa de âmbito nacional "levantar a voz contra os nazis" quis dar um concerto em Freital com artistas famosos, para dar algum apoio aos voluntários e aos refugiados. A autarquia começou por recusar, afirmando que a ideia de haver neonazis em Freital é um cliché. Só mudou de atitude devido aos protestos vindos de toda a Alemanha.
A palavra "cliché" soa cínica quando se fala com um jovem refugiado do Ghana, de 18 anos, que vive na cidade. Se pára às dez da noite em frente à sua casa, não demora nem um minuto até que alguém grite, do outro lado da rua, "Scheißneger". Ele conhece bem esse e outros insultos, como Bimbo e Kanacke. Já atiraram explosivos na sua direcção, e deitaram cascas de bananas à porta da mulher alemã que o tem à sua guarda. Comenta que em Freital tratam as pessoas de pele escura abaixo de cão. "Penso que nesta cidade as pessoas têm orgulho em serem de extrema-direita", diz. Chegou há oito meses, e aprendeu rapidamente a evitar a rua central, e sobretudo os cafés. Só sai à rua quando é absolutamente necessário. Frequenta um psicólogo de uma cidade vizinha, especialista em traumas, que lhe dá alento para a vida quotidiana, e lhe diz que deve ignorar quando lhe chamam "ratazana preta". A sensação de alívio desaparece mal chega à estação de Freital e os insultos recomeçam.
Pensa em suicídio. Diz que a sua capacidade para aguentar o sofrimento não é infinita. Mas também tem esperança: talvez consiga em breve um lugar de aprendiz em Münster. Já esteve lá uma vez, e diz que se sentiu profundamente surpreendido: as pessoas trataram-no como se fosse um ser humano.


29 abril 2016

estudantes sírios

Ontem os meus filhos aproveitaram a minha ida à Filarmonia, e encheram a casa de refugiados sírios.

Quando voltei, encontrei uma dúzia de rapazes e raparigas muito sossegados a fazer um jogo e a contar histórias, com música cubana a arredondar a cena.

Comi os restos da comida deles, e deixei-os em paz. Bem sei que tenho por aí muitos leitores cuscos mortinhos por saber como foi, e como são os "refugiados sírios", e tal, mas preferi deixá-los ser o que são: amigos dos meus filhos que vieram jantar com eles.


26 abril 2016

"galo ou galinha"

[Notícias frescas da enciclopédia mais engraçada do mundo]

Sabem aquela coisa de "levantar-se com as galinhas"?
Para fusos horários próximos é um truque fácil de explicar. Por exemplo, e o Vítor e eu não nos levantamos com as galinhas (ele, dinamarquesas, e eu, alemãs) (ou berlinenses, que não é a mesma coisa), o sol é que se levanta com as galinhas russas, e nos acorda antes de acordar os outros enciclopedistas, que estão em Portugal ou no Brasil.
Uiiii, os do Brasil! Só aparecem aqui à hora a que estamos a sonhar com galinha de cabidela para o almoço, e depois ficam com fama de mandriões, quando afinal a culpa é das galinhas russas que sacodem o sol para fora da cama à hora a que as galinhas brasileiras estão a sonhar com minhocas e assim.
Para fusos horários longínquos é mais complicado explicar. Como daquela vez que trabalhava em San Francisco e estava à espera de uma tradução que me fora prometida para as nove da manhã de segunda-feira na Coreia do Sul, e até sabia que horas era isso na Califórnia, só não sabia se era de domingo, segunda ou terça. Má organização das galinhas.
(Hoje fiz um risotto fantástico de espargos verdes, acompanhado com um belo branco alentejano, provavelmente nota-se um bocadinho.)
E por falar em arroz de galinha de cabidela: o neto da minha vizinha chama-lhe "arroz de chocolate".
Na casa dos meus pais havia um Livro do Pantagruel, e dentro dele uma receita de arroz de cabidela que começava assim: "vá ao galinheiro buscar uma galinha de tamanho médio". No quintal havia galinhas. Quando estava mau tempo metiam-se na cave. Isso era no tempo em que as pessoas iam do campo para a cidade sem passarem antes por um curso de integração.
Adiante.
A minha melhor história com galinhas conta-se depressa: a minha avó deixava as galinhas à solta no terreiro, e prendia as flores.
A minha segunda melhor história com galinhas contou-ma uma amiga: na casa dela todas as crianças tinham uma galinha de estimação. Em dias de fazer canja, cada irmão fugia com a sua galinha, com ela bem presa ao peito, gritando "a minha não! a minha não!"
A minha terceira melhor história é com pintainhos, promessa de galos e galinhas: fomos à feira de Barcelos, e estavam a vender pintainhos amorosos. Os meus filhos compraram alguns, e puseram-lhes nomes que eram mesmo a cara deles (Elza, Herbert Bonaparte, Fritz the emperor. Mas eles ainda eram muito novinhos, e começaram a morrer, um após outro. Convencido que o nome é que lhes era fatal, o Matthial ainda tentou rebaptizá-los. Debalde. De próxima vez temos de comprar pintainhos mais velhos, e eu, por muito bom que seja o risotto do almoço, bebo é água.


mais uma causa fracturante: casas de banho unissexo

Quando parecia que já não havia mais causas fracturantes para nos fazer perder o nosso rico tempo, vem a Margarete Stokowski (no Spiegel online) falar das casas de banho públicas. Ora vejam:
(em versão sintetizada e traduzida à pressa, como de costume, com links para artigos em alemão e, na parte relativa ao risco de suicídio, em inglês)

Segundo uma nova lei, no North Carolina as pessoas são obrigadas a usar a casa de banho pública correspondente ao sexo que consta na sua certidão de nascimento. Para os transexuais, isso significa que, mesmo vivendo há anos ou décadas como mulher, se deve usar a casa de banho dos homens - e vice-versa. E aceitar sujeitar-se ao sentimento de desconforto, aos insultos, às agressões físicas ou à expulsão desse local, que é o que costuma acontecer nesses casos. A alternativa é ir aguentando até encontrar uma casa de banho privada.

As casas de banho públicas são o exemplo preferido para mostrar como tudo fica incrivelmente complicado quando se trata de acomodar os interesses de todas as minorias trans-, inter- ou qualquer coisa com gender queer: essa gente é tão complicada, não é? Até nas casas de banho nos complicam a vida.

No entanto, há muito que frequentamos casas de banho públicas unissexo nos aviões e nos comboios, e nem reparamos.

Podia ser tão fácil: casas de banho para todos. Pode-se e deve-se discutir sobre muitas coisas, mas não devia ser preciso discutir sobre a necessidade de escolher tranquilamente a casa de banho que se quer usar.

E nem sequer é preciso fazer obras. Basta mudar as placas, para "em pé / sentado" ou "com urinol / sem urinol".

Mal se diz "casa de banho unissexo" ou "para todos os géneros" aparece logo um Martenstein a sugerir que as pessoas mintam. "O melhor que os transexuais e intersexuais alemães podem fazer pelo seu país  resume-se na seguinte frase: a outra casa de banho está avariada." Que a um jornalista premiado não ocorra que é muito fácil ir verificar se essa afirmação é verdadeira, e que as mentiras podem ser punidas com tareias, ilustra bem a ignorância das pessoas nestas questões de género.

A propósito de músicos famosos que cancelaram os seus concertos nesse Estado, como protesto contra esta lei, alguém comentava no facebook do Spiegel: "talvez as pessoas estejam farta de ser OBRIGADAS a seguir todas as modas idiotas? Tanto o politicamente correcto como estas manias de género surgiram nos EUA." Como este facebook, aliás. Outro escrevia: "Desculpem, mas afinal para que é preciso uma lei? Com pénis = casa de banho dos homens, sem pénis = casa de banho das mulheres."

A mensagem é a mesma - seja do Martenstein, ou dos comentadores: "se eu não tenho problemas, porque é que querem mudar?"

Como é possível pensar assim? Será que estas pessoas querem tirar das prateleiras dos supermercados os produtos que elas próprias não consomem? Querem tirar as legendas aos filmes na sua língua, porque elas entendem tudo? Querem que se poupe o dinheiro da iluminação pública nas noites em que não saem?

Em qualquer embalagem de Snickers vem escrito em grandes letras que contém amendoins. Quantas pessoas são alérgicas a amendoins? Diz-se que 0,5% a 1% das crianças alemãs. Se não nos incomoda marcar as embalagens de chocolate em função dos interesses de minorias, o que nos impede de fazer o mesmo com as casas de banho?

Será que as pessoas que se irritam com as casas de banho unissexo sabem que as pessoas transexuais são alvo muito mais frequente de ataques, e têm um risco maior de depressão e suicídio? E não é por predeterminação natural. Quanto maior o número de experiências de rejeição no seu contexto social, maior o risco de suicídio.

Sinceramente: não entendo como é que as pessoas que sabem isto, e continuam a afirmar que exigir casas de banho públicas unissexo é uma perda de tempo e uma patetice, conseguem ver-se ao espelho quando estão a lavar as mãos depois de terem usado com toda a tranquilidade a casa de banho pública.



[Nota 1: A última frase resolveu-me uma dúvida existencial antiga: porque é que há pessoas que não lavam as mãos quando usam a casa de banho? Agora sei: por algum motivo grave, não têm coragem de se ver ao espelho...]

[Nota 2: O artigo do Martenstein diz que em Kreuzberg, Berlim, vão pôr caixas à volta dos urinóis, para impedir que os outros utentes vejam o que ali se está a mostrar. O Martenstein fala nos custos desta medida, e que em vez de exigir essa despesa aos cofres do Estado era muito mais patriótico o transexual ir à casa de banho feminina desculpando-se com uma pequena mentira. Ora, essa das caixas interessa-me muito. Já ouvi muitas vezes rapazes, ou até homens mais velhos, queixarem-se de de se sentirem incomodados pelo interesse que o vizinho de urinol demonstra pelo que ali se mostra. Ora, enquanto não conseguirmos educar todo o povo para respeitar a intimidade alheia mesmo quando é exposta, talvez fosse boa ideia pensar nessas caixinhas para todos...] [Esta última sugestão  é só para provocar, claro.]


25 abril 2016

o Colégio Militar e a sua cultura de inclusão

Se eu soubesse quem manda no Colégio Militar, escrevia a essa pessoa a sugerir que proibisse toda a gente ligada à instituição de falar sobre ela. Ultimamente, de cada vez que alguém abre a boca, parece que está a fazer crash testing com a imagem da escola. Amolgadelas em cima de amolgadelas.
(Bem sei que isto de impor mordaças vai um bocadinho contra a Constituição, mas uma das amolgadelas recentes foi justamente sugerirem a possibilidade de dar um jeito quando a Constituição não dá jeito, e portanto...)

Amolgadelas:

- Aquela mãe entrevistada no Observador que teme que, "numa escola em que o mais novo deve respeito ao mais velho", o mais velho possa violar o mais novo. Se isto não é uma facada nas costas do Colégio Militar! A frase dá a ideia de se tratar de uma instituição na qual os adultos investem os alunos mais velhos de poderes arbitrários sem - aparentemente - haver garantia da aptidão para o seu exercício.
Concretamente, no que diz respeito ao medo da violação: se, no nosso tempo, qualquer miúdo tem consciência da sua dignidade e da inviolabilidade do seu corpo, que espécie de "respeito pelos mais velhos" vigora no Colégio Militar, que profunda alienação dos direitos de personalidade acontece ali, que leva uma mãe a temer que o seu filho não faria imediatamente queixa de um mais velho ao menor sinal de este querer abusar dele? Mais: se essa imposição de um respeito total realmente existe e é desejada pela instituição, como é que se garante que não há abuso? É que é muito fácil identificar um comportamento sexual invasivo e predador, mas o mesmo não se pode dizer da prepotência e do abuso sádico do poder. Como é que o Colégio Militar protege os seus alunos mais frágeis de algum eventual desequilíbrio psicológico e de carácter de um aluno mais velho?
Mais valia essa mãe não dizer nada, para evitar dar tão má imagem da escola.

- No mesmo artigo do Observador, exprimia-se uma outra preocupação, a de "ter um filho violado por causa da Constituição", que dá a quem está de fora a ideia de que dentro do Colégio Militar  (1) se entende que a lei fundamental do Estado português pode ser suspensa quando o medo fala mais alto e (2) apesar de ser uma escola que se orgulha de treinar os alunos para a obediência e a disciplina, não consegue afinal impedir que nas camaratas os alunos façam o que muito bem lhes apetece (à revelia das regras claramente expressas, tais como a proibição de namoros e, por maioria de razão, de contactos sexuais). Bem sei que a liberdade de expressão, e isto e aquilo, mas peçam a essa pessoa que se cale, porque a imagem que transmite é a de uma escola sem rei nem roque.

- O subdirector da escola contou, numa entrevista ao Observador, que os casos de roubo e de drogas são tratados pela direcção (transferência imediata para outra escola), enquanto os casos de homossexualidade acabam por ser resolvidos, aparentemente, com uma vaga de bullying tolerada que envolve todos os alunos: “Passados 30 segundos, toda a gente sabia. O colégio parece um Big Brother. Tudo se sabe. A informação passa. Agora repare o que é um aluno numa situação crítica e complicada, e que deveria ter alguma salvaguarda de identidade… Passado uma hora, 600 sabem e 600 estão a comentar. É complicado“. O aluno acabou por sair da escola.

Uma pessoa bem tenta, mas é difícil não imaginar um cenário no qual, sendo impossível expulsar o aluno por homossexualidade, se permite que os outros alunos lhe dificultem de tal maneira a vida que ele acaba por sair. E nem sei o que me assusta mais: se a imagem de um grupo de alunos tacitamente autorizado a comportar-se como mob contra um colega que se suspeita ser homossexual, se a direcção de uma escola que parece demitir-se de resolver um problema com a sabedoria e a autoridade de pessoas adultas. Ora, eu não percebo nada de escolas militares, mas percebo bastante de escolas civis, onde já vi directores e professores a agir em defesa de um aluno e dos princípios indiscutíveis da nação, interpondo-se entre o aluno e o mob e cortando cerce o fenómeno de bullying. Entre outras medidas, vi alunos de seis anos a escrever cem vezes a mesma frase simples que descrevia uma norma fundamental da escola, e vi alunos finalistas a receber um castigo colectivo - uns pelo seu comportamento aviltante e os outros por terem visto e não terem tomado claramente partido contra o que estava a acontecer.

Felizmente, e ao contrário do que aquelas pessoas andaram a dizer, no Colégio Militar vigoram outras regras. Segundo li no DN, um porta-voz do Exército assegurou que a direção do Colégio Militar "não promove nem compactua" com práticas discriminatórias e atua pedagogicamente junto da comunidade escolar visando preservar o bem-estar dos alunos e criar uma "cultura de inclusão".
Compete à direção do Colégio Militar "garantir as melhores condições a todos os alunos, preservando todo e qualquer aluno que tenha sido sinalizado como alvo de discriminação, agindo de forma educativa junto da comunidade escolar, de forma a ser criada uma cultura de inclusão e não de exclusão".
"A postura da direção do Colégio Militar (CM) é de não promover ou compactuar com comportamentos ou práticas discriminatórias, seja qual for a sua natureza, e atua pedagogicamente, com o intuito de preservar o bem-estar dos seus alunos ou alunas, junto do encarregado de educação e da comunidade escolar", declarou o porta-voz do Exército, tenente-coronel Góis Pires, em resposta a questões da Agência Lusa. Colocados perante uma situação que "configure um comportamento discriminatório seja de que ordem for", a direção do CM "envolve, compreensivelmente, os encarregados de educação, aos quais caberá tomada de decisão" sobre a melhor solução para o aluno ou aluna. 

Isto é que é falar! Se bem entendi, a escola assume uma posição muito clara de inclusão, e fala com os encarregados de educação dos alunos com práticas discriminatórias, para os envolver na resolução desse problema comportamental.

"Mas então castigam as vítimas e protegem os homossexuais?!", perguntarão alguns. À primeira vista, a reacção até pode fazer algum sentido. Em defesa das linhas de orientação que o Colégio Militar afirma com tanta clareza, vejamos de perto os argumentos apresentados a favor da exclusão dos alunos homossexuais:

1. "Queremos os nossos filhos em segurança"
Penso num episódio da minha própria adolescência: no recreio da escola, uma colega acusou-me de ser lésbica, por gostar de andar de braço dado com a minha melhor amiga. Foi desagradável, mas ninguém lhe deu ouvidos, nem houve cochichos, nem me chatearam. O que teria sido a minha vida, ou aquela fase da minha vida, se na escola se tivesse formado um movimento generalizado de rejeição por suposta homossexualidade?
Alguém quer o seu filho numa escola onde uma insinuação (tenha ou não um fundo de verdade) resulta numa perseguição por parte de todos os alunos da escola? Alguém tem dúvidas de que o risco de o seu filho ser vítima de uma brutalidade destas é muitíssimo maior que o risco de ser violado numa camarata? (Já agora: alguém deseja para o seu filho que, ao sair do armário, se torne vítima de bullying por parte de 600 colegas?)

2. "Eles andam nus nas camaratas e nas instalações sanitárias, o que se pode prestar a situações muito desagradáveis de voyeurismo e de proximidade física não desejada."
Compreende-se inteiramente. E pergunta-se: num cenário em que pura e simplesmente não se pode expulsar o aluno por suspeita de homossexualidade, nem se permite que ele seja rejeitado pelos seus pares, o que se pode fazer então para evitar situações dúbias? A solução mais simples é ter vestiários e sanitários individuais para os alunos que querem ocultar a sua nudez. A solução mais trabalhosa, mas também mais profícua, é um trabalho de educação para o respeito mútuo. Sei que é possível ensinar os alunos a conversar de forma aberta e justa sobre o que os incomoda (no infantário dos meus filhos havia crianças de 3 anos que já o conseguiam fazer - quem quiser saber mais, pode procurar "Ursula Thrush" e "peace table") e sei, por experiência própria como frequentadora de praias de nudistas e de saunas mistas que, se quiserem, as pessoas sabem estar num contexto de nudez sem usarem um olhar de devassa.

3. "Eles vão violar os nossos filhos". Este argumento é mais difícil de compreender. Por algum motivo que não entendo, há pessoas que acreditam que os homossexuais, todos os homossexuais, são abusadores. Espero que em algum momento abram os olhos para a realidade: homossexualidade e abuso não são sinónimos, e, por outro lado, há homens casados e com filhos que gostam de ter sexo com rapazinhos. Não há qualquer certeza nem sobre quem pode ser um abusador nem sobre quem está acima de qualquer dúvida, pelo que manter longe dessa escola os alunos homossexuais não resolve o problema da segurança - além de ser anticonstitucional, e uma injustiça e uma ofensa inaceitáveis. Mais vale preparar os nossos filhos para a eventualidade de serem vítimas de abuso, e para se saberem defender.

4. "Eles vão levar os nossos filhos para maus caminhos". Ouço muito este argumento, e não consigo entender o medo do efeito "maçã podre que vai estragar os outros".
Vejamos: eu podia ter a Ellen DeGeneres super apaixonada por mim a dormir na cama ao lado, e nem por isso sentiria a mínima vontade de, digamos, dar o corpo ao manifesto. Gostaria muito de conversar com ela, mas não sentiria desejo físico e não lhe alimentaria falsas esperanças. Por isso, não compreendo esse medo do "contágio".
O que leva as pessoas a temer que os seus filhos heterossexuais se possam sentir atraídos pelo caminho da homossexualidade? Que imagem têm da heterossexualidade - tão penosa, tão pouco convicta - que qualquer promessa de algo diferente a pode ameaçar?


"festa"

Hoje, na nossa enciclopédia, é dia de F de Festa.

Escrevi um apontamento (a seguir) que suscitou uma magnífica resposta da Guiomar Belo Marques. Já ouvi todo o programa, sentindo uma pena cheia de retroactivos por não ter estado no Coliseu nesse dia. Mas tinha 10 anos, e morava no Porto.

O meu apontamento:

"Festa" é uma bela palavra para este dia. Melhor seria ainda se fosse no 1º de Maio.
Ainda ontem ouvi alguém dizer, no filme "48" da Susana Sousa Dias: "O 25 de abril começou no 1º de Maio". Nesse dia, no Porto, assisti à maior festa da minha vida: um povo inteiro unido em abraços, sorrisos e lágrimas de alegria, já sem medo e ainda sem divisões. Muitos anos mais tarde, estava no sul da Alemanha no primeiro 3 de Outubro, quando se assinou o tratado da reunificação. Saí para o centro da cidade antecipando o segundo 1 º de Maio da minha vida, os alemães todos unidos numa imensa alegria comum e eu entre eles, a reviver o meu passado num presente feliz - e nada. O pessoal aproveitou o feriado para ir tratar da sua vidinha.
Deixem cá que vos diga: a comissão de festas em Portugal trabalha melhor. Muito melhor!


A resposta da Guiomar (para os assinantes do Público: podem consultar no arquivo do jornal um texto de página inteira sobre este espectáculo, na edição de 29 de Março de 2004):

Antes de mais, um Viva à Festa que é, dentro de nós, o dia de hoje.
A Helena Araújo diz, no seu post, que o “25 de Abril começou no 1º de Maio” e em parte tem razão, mas, de certo modo, ele começou foi a 29 de Março de 1974, quando se realizou no Coliseu dos Recreios o I Encontro da Canção Portuguesa, organizado pela Casa da Imprensa. Não por ter tido qualquer influência na data em si ou na operacionalidade dos Capitães de Abril, que já tinham tudo mais do que preparado, mas porque dele saiu a canção do Zeca que ficaria para a história como o hino do 25 de Abril.
Estive lá e jamais esquecerei aquela noite em que ninguém teve medo. Um momento de resistência e luta em relação ao qual a pide nada pôde fazer ( http://ruadojardim7.blogspot.de/2014/04/i-encontro-da-cancao-portuguesa.html).
Lá fora, eram dezenas de carrinhas da polícia de choque a circundar todo o perímetro do Coliseu, enquanto lá dentro os pides tentavam infestar a sala, sem sucesso. Atrás do palco, todos os cantores tiveram de soletrar uma a uma as letras que iam cantar. A pide ia-as proibindo na íntegra ou cortava versos. No palco, cada um ia explicando de formas indirectas que tinha esquecido ou perdido versos e o público cantava-os. Só o Zeca ficou sem soluções. O mais esperado por todos nós, o pai da canção de protesto em Portugal e o mais terrivelmente perseguido, viu uma a uma serem-lhe proibidas todas as suas músicas. Por fim, avançou com duas, que aos pides pareceram inócuas: Grândola e Milho Verde. Foi assim que Grândola, cantado duas vezes pela sala apinhada e de pé, e por todos os músicos no palco, determinou a escolha dos Capitães de Abril. Se não tivesse havido este concerto, a senha teria sido outra.
Ontem, encontrei, por acaso, o registo de um programa que os meus amigos António Macedo e Viriato Teles fizeram há dois anos para a rádio sobre este espectáculo. Desconhecia-o, porque não estava cá na altura, e foi com surpresa que revivi aquele inesquecível dia 29 de Março de 1974. Nem sabia, sequer, que aquilo tinha sido gravado. Foi emocionante ouvi-lo. Fica aqui, para o ouvirem se quiserem, hoje ou noutro dia qualquer, porque vale a pena.
Bom 25 de Abril para todos!