20 Novembro 2014

Martha Argerich e Riccardo Chailly em Berlim - um post para quem estiver nesta cidade na próxima semana


A Martha Argerich e o Riccardo Chailly vão dar três concertos na Filarmonia na próxima semana: 27, 28 e 29 de Novembro - Mendelssohn, R. Schumann (esta minha Schumanna parece que tem quinze dias...) e Rachmaninov. E agora a notícia bombástica: na terça-feira vão pôr bilhetes à venda para os lugares do coro, por 16 euros. Quem quiser, apareça lá às 14:01 (às 14:00 apareço eu, não tentem passar-me à frente, se faz favor).




A quem interessar possa, aviso ainda que a Hélène Grimaud vai tocar o seu "water recital" na mesma sala no dia 30. Ainda há lugares nos bancos do coro, mas infelizmente custam 40 euros.


19 Novembro 2014

um suave milagre


Uma amiga alemã, pediatra, telefonou-me porque tinha um doente angolano com problemas graves numa perna, que não entendia nada do que os médicos lhe queriam dizer e perguntar. Se eu podia traduzir? Com certeza, disse eu. Mas informei-a logo que devia contactar a Berlinda - Acção Social, que tem uma rede de voluntários justamente para casos destes.

Começámos: ela dizia-me em alemão "diz-lhe que vamos tirar a ligadura para ver a perna", eu pensava "ena, que médicos amorosos, arranjam um tradutor para explicar ao doente estas coisas tão óbvias" e, do meu lado do telefone, explicava tudo em português. Ela dizia "agora vamos deitar um líquido para soltar o penso, e se doer ele deve fazer um sinal", e eu traduzia. "Vamos passar os dedos pelas duas pernas, para ele dizer se sente o mesmo nas duas" - traduzi, mas o miúdo não reagia. Perguntei à médica se seria surdo. Ela achava que não, e continuámos. No fim do telefonema dei os contactos da Berlinda, e desliguei com uma certa sensação de impotência.

À noite recebi um sms: "querida Helena, desde que a senhora da Berlinda esteve aqui, o nosso rapazinho recomeçou a sorrir!"

(raramente um sms me fez sentir tão feliz)


18 Novembro 2014

esta minha semana mais parece uma schumanna...




"Alguns dos melhores músicos do Mundo", disse uma vez o Paulo, contando como foi o serão na Mesa dos Frades com alguns membros da Filarmónica de Berlim.
Hoje lembrei-me muito desta frase, porque estive no Lunchkonzert da Filarmonia, e tocava o Philharmonisches Klavierquartett Berlin - que, como o nome indica, é formado por músicos dessa orquestra - Andreas Buschatz, Matthew Hunter e Knut Weber -, acompanhados por Markus Groh ao piano. E que pianista! (além disso, o rabo de cavalo fica-lhe tão bem como à Hélène Grimaud)


Ali estavam eles a tocar um quarteto para piano de Schumann (Es-Dur op.47), e faziam-no com tanta poesia que passei o tempo todo a regressar às palavras do Paulo: alguns dos melhores músicos do Mundo, sem dúvida. Lucky me.

Lucky us: eles deram um encore, ainda mais bonito que a peça do Schumann. No fim, e porque queria trazer essa música para aqui, perguntei a um deles que peça era. Más notícias: era um quarteto para piano de Heinrich von Herzogenberg, uma peça raríssima que nunca foi gravada.

É sempre o costume: se me deixassem mandar...

Em todo o caso: hei-de estar atenta a estes senhores. Parece que um mês destes vão tocar na Kammermusiksaal, e vão repetir o Herzogenberg.

***

Só tinha o telemóvel jurássico comigo. Mesmo assim, não resisti a fotografar o bocadinho de Filarmonia que via das escadas onde estava sentada. Este edifício fascina-me. Tem mais de meio século, e continua a surpreender.



o pássaro como profeta

Já sei qual foi o encore que a Maria João Pires deu no concerto de ontem:
O Pássaro como Profeta, de Schumann.
Ainda agora estou a sorrir.

Adenda, para quem não está na Alemanha: podem ver aqui a Maria João Pires a tocar esta peça.






Brahms & Schumann



A seguir ao Verão a Filarmónica de Berlim teve um ciclo Brahms & Schumann: par a par, as sinfonias dos dois compositores, da primeira à quarta. Tive imensa pena de não poder ir, mas estava em Portugal.
(Não sei como faço para estar sempre do outro lado da Europa quando as coisas acontecem... - excepto quando caiu o muro, nesse caso estava apenas do outro lado da Alemanha; ou quando foi o 11 de Setembro: estava do outro lado dos EUA) (sou um caso irremediável de acertar em cheio sempre ao lado)

Ora bem: se Maomé não vai à montanha... o Digital Concert Hall está a disponibilizar gratuitamente o primeiro concerto dessa série.

Curiosamente, ontem ouvimos esta sinfonia nº1 do Schumann na Filarmonia, com o Paavo Järvi e a Staatskapelle Berlin - uma orquestra que festeja agora 444 anos de existência e cujo actual director artístico é o Barenboim.
(Nunca deixarei de me surpreender com os critérios divinos da distribuição das nozes.)

"E a Maria João Pires?", perguntarão. "Então o concerto de ontem não era com ela?"
Pois, que superlativos querem que eu invente, algo que seja realmente novidade, quando se trata de um concerto da Maria João Pires?
Um Mozart muito moderno e desempoeirado. Um encore tocado com leveza e alma (ó pra mim a inventar outra vez a roda no que diz respeito a críticas musicais a esta pianista), que ninguém me soube dizer de quem era. Perguntei ao pessoal que encontrei com instrumentos musicais no bar, depois do concerto, e eles: Satie? Some Brazilian guy? Chopin?
(Tão bom descobrir que estas coisas também acontecem aos outros, mesmo aos que andam a passear um instrumento musical pela Filarmonia...)

"E o Paavo Järvi?", perguntarão alguns, "então não era um dos que se falava para substituir o Rattle?"
Bom. Muito bom. Ainda tem de frequentar umas aulitas de Dança Expressiva, mas não está nada mal. O problema dele, contudo, é que o Dudamel já frequentou essas aulas, e além disso tem uma cabeleira mais efusiva.  
(Quem quiser algo de verdadeiramente novo nos critérios da escolha de maestros: pergunte-me a mim.)

Para terminar, boas notícias: parece que este não era um concerto de despedida da Maria João Pires. Parece que no próximo ano regressa a Berlim. Pois que venha sempre, e que me venha iluminar os próximos cinquenta aniversários, pelo menos!


17 Novembro 2014

ouro sobre azul


 


 
Hoje, ao passear com o Fox junto ao nosso lago, deixei-me encantar pelo dourado das folhas contra a superfície lisa da água: o ouro sobre o azul.
Está um dia tão bonito que o que apetecia era convidar os amigos para um entardecer na orla do Wannsee: a nossa fogueira, o vinho, o queijo. Seria com certeza um belo fim de tarde, mas não pode ser: hoje é o concerto da Maria João Pires na Filarmonia.
É o que vos digo: ouro sobre azul.

(Mas o melhor de tudo, se querem saber, são as mensagens que vão chegando: sinais dos que são e permanecem o ouro e o azul na paisagem da minha vida.)


16 Novembro 2014

ultimamente a minha vida tem sido isto

Hoje quis deixar aqui dois concertos para piano do Rachmaninov, tocados por ele próprio, para me acompanharem ao longo da manhã, enquanto arrumava a minha mesa, que bem precisa.
O problema é que - não sei como - pensava que a minha manhã ia começar ali, e afinal já passava muito da hora do almoço, e o dia começava a escurecer. Desde que caiu o muro, no domingo passado, o tempo perdeu os contornos.

O muro também deve ter caído para a Christina, porque apareceu para o almoço já passava das quatro. Ficámos a conversar até serem horas de ir buscar o Matthias, que regressava de um estágio no sul, e depois jantámos. Ainda não deixei aqui os dois concertos, ainda não arrumei a mesa, mas o domingo já acabou.

Amanhã é outro dia. Vou já adiantando trabalho: aqui fica o Rachmaninov, a ver se me ajuda a começar a semana a tempo e horas.







agora sei onde está a Miriam Makeba

Dizem que, quando morrem, as pessoas que amamos se mudam para uma estrela. Nas noites mais límpidas podemos sentir a sua presença numa luz pequenina e única.
A Miriam Makeba, pelos vistos, foi parar a um cometa, e agora canta na sua língua materna:





(para os que preferem as explicações científicas à metafísica, poder-se-ia dizer que há indícios de que os primeiros habitantes do cometa da missão Rosetta são africanos)

("explicações científicas", diz ela, hihihi)


15 Novembro 2014

a vida real como a virtual

Ontem fui jantar a casa de uns amigos, e foi taliqual como no facebook: ao fim de cinco minutos já passava da meia-noite.


14 Novembro 2014

ontem tive o meu momento Sophia Loren



Era só para dizer que aquele drapeado à altura da cintura era mesmo muito bem feito. 
Mas não gostei nada do baton preto.

A verdade é que não gostei nada de mim própria, a ver esta parte do Bambi como se fosse um mirone da praia, ou pior, uma hipócrita em atitude de vergonha alheia por antecipação, sempre à espera do momento em que se ia ver ainda mais do que se via.

"Então, e o momento Sophia Loren?", perguntarão.
Beeeem... esta fui eu, ontem:


Se querem saber tudo, tenho mais momentos Sophia Loren. É o meu superego, desde que me contaram que alguém lhe perguntou como é que fazia para não parecer velha, e ela respondeu que evitava fazer ruídos de velha. De modo que eu, agora, sempre que me atiro para uma cadeira e faço "aaaaah" ou me levanto e faço "aaaaiiiiiiiiii", ou assim, penso logo a seguir, com susto, "Oh, não! Sophia Loren!"
Os próximos cinquenta anos vão ser complicados.

13 Novembro 2014

heimat




Ai, que me está a dar a Ostalgie!

Conheci esta canção no Good bye Lenine. A minha vizinha em Weimar cantava-ma, a pedido. Belos tempos, quando os pais da turma da Christina, na escola primária, se juntavam em magustos e piqueniques. Um deles levava o piano eléctrico - era professor de música (bom, naquela escola metade dos pais eram músicos, e a outra metade eram arquitectos, e mais um par de estrangeiros como eu e mais um par de pessoas com roupas estranhas e ar de poucos amigos para os estrangeiros, que se calhar eram neonazis, ou assim). Pois, um deles levava o piano eléctrico, e acompanhava a minha vizinha, que sabia de cor todas as canções de todas as Alemanhas, e mais um bom par de canções russas ("aaaah, a alma rrrrussa", suspirávamos todos). As nossas filhas davam-se cotoveladas, um bocadinho incomodadas com estas mães que as embaraçavam. Depois comíamos o bom gulash húngaro que a minha vizinha fazia num caldeirão pendurado em paus por cima da fogueira. Bons tempos. Quase diria que foi minha, essa Heimat.


piano novo



Gosto muito de tocar esta peça, mas - sabe-se lá porquê! - quando a toco não soa assim.
Acho que vou comprar um piano novo...


normalidade


Está um dia cinzento, frio e chuviscoso.
Finalmente um dia normal de Novembro! Tem duas vantagens: (1) já não tenho de me preocupar com a relva, e, (2) se isto se aguentar assim por umas semanas, estou em crer que em Dezembro teremos Natal.


12 Novembro 2014

queda do muro de Berlim - 25 anos (3)

Bem sei que a semana já vai na quarta-feira, e não interessa nada o que eu fiz no domingo passado, mas deixo aqui na mesma, para minha memória futura:

Depois da celebração ecuménica, saímos do Mauerpark e começámos a descer para a Bernauer Strasse. Junto à rua havia um ecrã gigante que passava imagens históricas, e vi um avô que desceu da sua bicicleta para explicar ao neto: "ali era a rua tal, ali era a fronteira, nós passámos acolá..."






Memorial do muro, na Bernauer Strasse:




 


Desta vez, a cerimónia oficial foi no lado oriental do muro, e não no lado virado para a capela da reconciliação. Os políticos deixaram uma rosa na ranhura entre os blocos do muro, em vez de pôr coroas de flores no chão.

No memorial para as vítimas do muro também havia flores:




Na East Side Gallery (que era um segmento do muro todo do lado oriental, na parte em que o rio servia de fronteira, pelo que o betão estava nu até à implosão da RDA, e agora é pintado e repintado e trepintado segundo a vontade de cada um, para irritação dos primeiros artistas que tomaram posse):








Não nos deixaram entrar na 17 Juni, porque já estava sobrelotada. Que pena! Queria muito ver o que se passava no palco. Fomos para trás do Parlamento esperar a largada dos balões junto ao rio. Havia um ecrã gigante que passava imagens históricas. Mas o que nós queríamos era saber o que se passava no palco! A ver se para as comemorações do centenário me convidam a mim para organizar isto, a ver se fica um bocadinho melhor.




 




O muro mesmo junto ao Parlamento:




O muro a avançar na direcção da porta de Brandenburgo:


O muro junto ao nosso posto de observação:





Quando pouco faltava para começarem a largar os balões, apareceram uns barcos que se puseram à nossa frente. O pessoal desatou aos gritos e assobios. Ao meu lado, uma senhora dizia: "eles pagaram, podem", e eu respondi "Não podem tirar a vista às pessoas que estão aqui à espera há várias horas!". Ela insistiu: "Se pagaram..." e eu teimei: "O dinheiro não pode comprar tudo!"
Os gritos e os assobios não paravam, e os barcos foram para mais longe, para a parte em que não ficavam entre as pessoas e o muro de luz.
Um momento de Berlim no seu melhor - que ninguém pense que pode fazer dos berlinenses parvos!

Fiquei a pensar no argumento da senhora: a que propósito é que aceitamos que quem tem dinheiro passe por cima das normas mais básicas de civismo? Seria ela de Leste, resignada a deixar que quem tem dinheiro (os Wessis) faça o que lhe apeteça?




O Wowereit fez o seu discurso, lembrou a imensa coragem das pessoas que ousaram protestar, lembrou outros muros que ainda têm de cair. E os balões começaram a subir na noite.




A princípio foi muito bonito. Os holofotes em frente à porta de Brandenburgo iluminavam-nos bem, e eles largavam a bom ritmo. Mas em algum momento a coisa começou a travar. Nem todos os "padrinhos" do balão conseguiam soltá-lo à primeira, e nem todos tinham a presença de espírito de dizer aos do lado "vão largando vocês, que este daqui a nada também vai". De modo que o processo parava, ficava tudo à espera, o desgraçado do padrinho com um stress monumental de volta do pedestal...
Os nossos amigos portugueses criticavam a má organização. Portugueses! Nunca estão satisfeitos com o que se faz em Berlim...

Uma das vantagens de assistir a estas coisas no meio dos berlinenses é que uma pessoa é arrastada pelo humor deles. Daí a nada já estavam a aplaudir entusiasticamente cada balão renitente que finalmente levantava voo, e um pouco mais tarde, quando o processo parou por demasiado tempo, começaram a gritar a uma voz "Die Mauer muss weg! Die Mauer muss weg!" ("O muro tem de desaparecer!"). Rimos todos, claro, mas acho que um ou outro largou a sua lagrimita.
A boa disposição continuou: foi uma festa quando alguns balões ficaram presos debaixo da pala da biblioteca do Parlamento, e o pessoal quase soprava com força para os ajudar a escapar.




Regressámos a casa cansados e contentes, apostando que, ao ritmo a que isto (não) avançava, ainda íamos ver os últimos balões na televisão. Ao chegar perto do carro vimos que muitas pessoas levavam os pedestais para casa. "Pode-se levar?", perguntei eu. "Pode! Vão ser todos reciclados amanhã."
Trouxe um. Estou a pensar usá-lo como candeeiro de pé alto na sala.
Depois li no jornal que os criadores deste muro de luz se sentiram muito honrados por a população berlinense se apropriar da sua obra. Ora essa, de nada, de nada.

***

Algumas das fotografias que aqui estão foram feitas por um dos meus amigos portugeses. Como não me apetece estar a discriminar, ficamos assim: as melhores foram feitas por ele. Ou então pelo Joachim.

Há muitas mais, e muito boas, aqui e aqui.