23 Outubro 2014

momentos assim



Clarinete. 
Lá fora o outono deita fogo à cidade. 

(Deixa-me disfarçar, que ainda me arrumam numa casa para senhoras de nervos frágeis.)


barómetro





No duche desta manhã acertei à primeira na passagem de

   morena dos olhos d'água

para

   tira os seus olhos do mar  (*)


O dia está cinzento e de chuva, mas tenho a certeza que me vai correr bem.


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(*) comparado com esta passagem de tom sem o apoio da guitarra, o "Desafinado" inteiro e a capella é canjinha.


22 Outubro 2014

Shnorhakal Em




No fim do concerto que encerrou a Semana da Arménia na Gulbenkian os músicos arménios juntaram-se à volta do Jordi Savall. Eu estava por ali, como quem foi só para ver a bola, que é a minha especialidade. Eles chamaram-me, insistiram que tinha de fazer parte daquele grupo, e obrigaram-me a ficar na fotografia como se fosse uma deles.

Na Arménia ouvi várias pessoas repetir a frase "sou tantas pessoas como as línguas que falo".
Não falo ainda a língua, mas já me acrescentei como pessoa. Shnorhakal Em, amigos!

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"Shnorhakal Em" significa "obrigado", em arménio. Já sei que "como estás?" se diz de uma maneira muito portuguesa, "como estás? como não estás?" e que a resposta também é muito nossa: "assim, assim".
Pergunto-me se a nossa maneira de falar português terá sido influenciada por arménios da diáspora, vindos para cá no princípio dos nossos tempos. Houve-os no Porto, fugiram para lá quando os turcos tomaram Constantinopla, até trouxeram um Santo, o Pantaleão, que só por coisa de dois ou três séculos não fez concorrência ao Vicente de Lisboa e ao Tiago de Compostela. E parece que na Arménia se usam palavrões para pontuar as frases. Não sei, mas...

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O concerto foi muito bom. Diferente do CD "Esprit d'Arménie", porque tinha canto (e que voz! o Aram Movsisyan esteve excelente) - e igualmente bom.
Mas o melhor de tudo foi um sorriso muito doce que vi ao Jordi Savall, não contem a ninguém.


21 Outubro 2014

regresso à base



Regressei a Berlim depois de um mês em Portugal. O Matthias e o Fox estavam à minha espera no jardim. O Fox correu para mim sedento de festinhas, e logo depois foi pedi-las com o mesmo entusiasmo à motorista do táxi. Anda uma mulher a criar um cão para isto...

O Matthias fazia 18 anos, e convidara 15 amigos para virem fazer sushi cá em casa. Perante a minha surpresa, afirmou que me tinha avisado, e até mostrou a mensagem no facebook. Maldito facebook, parece a estatística: mostra tudo, excepto o mais importante.

De modo que cheguei a Berlim depois de um mês em Portugal, e desatei a pôr a casa mais ou menos em ordem para receber 15 amigos do Matthias. Eu, que vinha a contar com um jantarinho sossegado num restaurante à escolha do rapaz.

Os amigos começaram a entrar pela casa adentro, a Christina saiu de bicicleta para ir comprar os ingredientes para o sushi (nesta de desenrascar em cima do acontecimento, os meus filhos saíram-me muito portugueses), eu fiz o resto das limpezas o mais discretamente que pude. Entrei no quarto do Matthias, achei que ali também fazia falta uma demão de mãe, limpei-lhe a casa de banho e disse-lhe que era o meu presente para os seus 18 anos. Riu-se, e pediu desculpa por não ter sido ele a pôr a casa em ordem.

Ficaram por aí até às não sei quantas, o Joachim e eu refugiámo-nos no apartamento dos turistas para podermos dormir apesar da barulheira que ia pela casa, e esta manhã descobrimos que a cozinha estava impecavelmente arrumada.

Anda uma mãe a criar um filho, e sai-lhe uma surpresa muito melhor do que aquilo que alguma vez seria capaz de sonhar, caso alguma vez tivesse sonhado os filhos.


16 Outubro 2014

Luís Filipe Sarmento sobre o ARtMÉNIA

(Desculpem o momento de fraqueza que faz sucumbir a falsa modéstia, mas tem de ser. Nem é por mim, é mesmo só para efeitos de arquivo...)




«Arménia» de Ricardo Espírito Santo e Helena Araújo
Assisti, anteontem, ao documentário «Arménia» de Ricardo Espírito Santo (realização) e Helena Araújo (guião), projetado no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian.
Dizer simplesmente que se gosta de uma obra desta dimensão artística e humanista é curto. O Ricardo (de quem sou amigo) e a Helena (que não conheço pessoalmente) mostraram que o documentário é uma disciplina superior do cinema. Ao estabelecerem um protocolo de afetos abrem as portas da percepção do espectador a um admirável mundo antigo. Um universo de um povo esmagado por genocídios, quase aniquilado por todos aqueles que não acreditam que a História de uma nação é mais poderosa que um qualquer intento de apagá-la com sangue assassino. Mas também um universo que guarda em si a mais antiga tradição cristã com as suas crenças, com os seus rituais, com a sua magia. Diria que se trata de um encantamento da distância.
Documentário de texto. Um texto brilhante que transportou o espectador ao longo de 110 minutos por uma história que devia ser património da humanidade e não alvo da cobiça dos ignorantes. Um texto que faz história no documentarismo português, europeu, universal. Um texto que nos ensina a ler a paisagem com a cumplicidade de uma fotografia de excelência de Pedro Magano, a subtileza dos movimentos de câmara, o olhar poético de Ricardo Espírito Santo. Um texto que nos ensina a ver imagens.
«Arménia» não é só um excelente documentário, é uma peça rara no cinema europeu, uma obra de arte a preservar. Mas é também uma exigência aos seus criadores que o caminho mal começou e muito têm para nos oferecer.
Por último, quero destacar o mérito da produção (que não é fácil) e de toda a equipa de Terra Líquida pela paixão que depositaram neste sonho de fazer cinema, neste cinema que nos faz sonhar! A todos, o meu agradecimento, como espectador! LFS

relatório de actividades

Ao fim de mais de três semanas em Portugal, comecei a visitar as fotos da minha cozinha como se fosse uma miragem daquelas que só há na internet. Regresso no dia 20, dia 19 ainda vou trabalhar um bom bocado, e no entretanto gozo a vida, que também mereço.

Ontem fui com duas amigas ver Os Maias, a versão de 3 horas, no Cinema Ideal. No intervalo encontrámos o João Botelho à porta, que me apresentou aos amigos como "uma cineasta". Não há dúvida: gente grande é outra coisa. Até me lembrei de um dia em que, recém-licenciada, cumprimentei um antigo professor com um "olá, colega!", e ele respondeu "alto lá! a antiguidade é um posto!" Claro que era uma piadinha, mas graça por graça, prefiro o humor do João Botelho. O qual acrescentou logo a seguir: "mas eu estou interessado é no marido dela". Estão a planear umas aventuras noutro continente no próximo Verão, e eu em Berlim a fazer o Cinemagosto. Triste vida. A minha sorte é que Portugal tem um Presidente da República muito atento e actuante, pelo que o meu abnegado sacrifício em prol da cultura portuguesa será devidamente recompensado com uma medalhinha no próximo 10 de Junho. É desta!

E os Maias? Adorei o Ega, e gostei muito do Dâmaso, do avô, daquele asqueroso da Corneta (está bem, vou contar tudo: também estava no cinema, e conheci-o como pessoa tão simpática que só pode ser um excelente actor para poder compor tão bem aquele "chouricinho de pus"). Gostei deste olhar sobre o livro. Os cenários são uma invenção fenomenal (não há como os portugueses para fazerem omoletes sem ovos).

Já a Maria Eduarda, não sei que diga: eu imaginava-a mais ampla, mais roliça, muito mais sensual. Mais Nigella Lawson. Não me parece que as mocinhas de hoje em dia, esses paus de virar tripas, sejam uma boa escolha para encarnar os livros do Eça. É que trata-se de encarnar, e não de desossar. 

Em suma: quando o João Botelho resolver filmar a Tragédia da Rua das Flores, havia era de se lembrar de mim para o papel da Genoveva.

(Este é o momento em que o Ricardo Espírito Santo mete a cabeça nas mãos e diz "ó Helena, então e aquele plano que me obrigaste a tirar do ARtMÉNIA, porque estavas demasiado ampla, roliça e sensual? e então aquela conversa de sim, queremos contar a História dos Arménios mas não é preciso começar por esta vénus pré-histórica, heinhe?")

(la donna è mobile, é o que é)

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Que estranho, já escrevi um post inteiro e ainda não falei do tempo em Lisboa. Pois tem sido assim: todos os dias saio de guarda-chuva, e nunca chove. O meu guarda-chuva tem poderes mágicos. Pelo que seria boa ideia a Câmara de Lisboa pagar-me para passear todos os dias o guarda-chuva por aí - mesmo que me pagassem um salário do escalão "remediado" sempre lhes saía mais barato que limparem as sarjetas, soltarem as ribeiras, e tal.


15 Outubro 2014

selfie interview




- Como foi a  reacção do público ao filme ARtMENIA?
- Das duas, uma: ou o Ricardo e eu temos muitos amigos, e todos excelentes, ou o ARtMENIA não nos saiu muito mal. As pessoas protestaram por não ter havido debate no final (e se eu estava preparada! até me penteei e tudo!), queriam saber onde é que o filme vai passar, queriam a banda sonora, queriam falar.

- E como é que se sente?
- Obviamente (estou a citar o meu sobrinho mais famoso deste blogue) muito feliz por o público se ter deixado tocar por este povo. Sinto que conseguimos traduzir para o filme algum do fascínio que nós próprios sentimos enquanto andávamos na fase da descoberta.
E sinto-me especialmente aliviada pela reacção de alguns dos arménios que viram o filme. É um risco enorme falar do país e da cultura dos outros, e durante estes dois anos a minha maior preocupação era ficar aquém daquilo que os arménios merecem.

- E qual foi o momento mais emocionante?
- Foram dois:  o final, com o Arto, quando eu me dei conta que desta vez ia conseguir ouvi-lo até ao fim sem largar uma única lagrimita, e depois, cá fora, quando uma arménia me quis agradecer e desatou a chorar. Parece que a equipa que fez este filme conseguiu entender e transmitir alguma coisa importante.



14 Outubro 2014

making-of: a dura vida de um realizador

O filme ARtMENIA vai ser apresentado hoje, às nove da noite, na Gulbenkian, e já sinto saudades destes dias em que andámos a sonhar e a trabalhar duramente para concretizar os sonhos. A Terra Líquida Filmes tem uma equipa mais-ou-menos (eu ia dizer fabulosa e todos os superlativos que conheco, e todos ficariam aquém da realidade, mas depois iam lá uns espertalhöes roubar o pessoal ao Ricardo Espírito Santo (ao Ricardo Espírito Santo bom, acrescente-se, que nos tempos que correm certos nomes parecem armadilhados), e eu arranjava um sarilho. Portanto: jeitosinhos, jeitosinhos). 
Foi um enorme prazer trabalhar com eles. 

Näo sei se eles diräo o mesmo. O Ricardo, por exemplo. Dizia-me "aqui falta uma frase", e eu respondia "espera pela minha próxima insónia matinal". Näo é bem insónia, é mais acordar cedo, mas nos tempos que correm é de bom tom dar uma cor de patologia a tudo o que foge ao normal, pelo que, portanto. Ia para casa, dormia, acordava, ficava deitada a pensar na frase, e zimbas. De caminho, comecei a achar que as anedotas dos alentejanos que trabalham deitados säo parvas. Mas uma frase por dia, convenhamos que já vi melhores produtividades. O Miguel Angelo, por exemplo, que também trabalhava deitado, se só conseguisse dar uma pincelada por dia ainda agora estava ali a pintar a capela Sistina. 

Em todo o caso, o Ricardo esperava pacientemente pelo dia seguite, e assim se foi fazendo o filme. Até que no dia seguinte ao filme ficar pronto eu anunciei cheia de entusiasmo que a insónia dessa manhä tinha dado a melhor ideia de todas: cozinheiras arménias a fazer um cozido à portuguesa. Na realidade  näo tinha sido insónia, tinha sido um belo sonho, as cozinheiras arménias muito sorridentes a arrumar nas travessas os bocados de carne com o desvelo daquele grupo de mulheres míticas da Cidade e as Serras. Mas o Ricardo acreditou que eu estava a falar a sério, e por uns momentos pensou como acomodar esta maluquice no filme. Depois percebi que ele estava prestes a dar-lhe uma coisa má, e apressei-me a desfazer o equívoco. Mas penso que nos próximos tempos melhor  será evitar mencionar a gastronomia portuguesa. Dura vida, a de um realizador. 

Só para dizer que  gostei muito de trabalhar com o Ricardo Espírito Santo, o bom, e toda a sua equipa. Sinto-me muito grata por esta experiencia. E prometo que, se me quiserem dar uma próxima vez, produzo duas frases por insónia e näo mencionarei nunca  o malfadado cozido à portuguesa.  

A näo ser que seja um documentário sobre a Maria de Lourdes Modesto.


quando Lisboa chove

(foto)

Andei uma semana a rir-me das lisboetas, que ao menor aviso de chuva se enfiavam em galochas até ao pescoço. "Parece que estão mortinhas por exibir as galochas novas", pensava eu. Ora bem: pelos vistos Deus não dorme, e castiga quando é preciso, porque ontem fiquei a saber como é quando Lisboa chove. Eu e a minhabocagrande.

Ao sair de casa já tinham olhado de revés para as minhas bailarinas. Acomodei o impermeável no braço, e encolhi os ombros. No fim do almoço, no Saldanha, repetiu-se a cena. Alemã, expliquei que nem eu nem os meus sapatos somos feitos de açúcar. Mas deixei-me influenciar e comprei um guarda-chuva, para ir a pé até Campolide. Em boa hora o comprei, porque me deu imenso jeito para tapar as pernas sempre que passava um carro.

Nem eu nem os meus sapatos somos feitos de açúcar, é certo. E tenho calor humano suficiente para secar num instante calças ensopadas  (vai ser o nosso segredinho, caso contrário ainda alguém se lembra de me pôr à venda com uma etiqueta de secador de roupa biológico e amigo do ambiente e tal). Mas tanta chuva não dá jeito. Os pés escorregam dentro dos sapatos e estes sobre a calçada. A chuva faz tanto barulho que uma pessoa nem consegue ouvir a sua própria cantoria largada no anonimato do guarda-chuva. De modo que ontem, em Lisboa, o meu amor pelo andar à chuva sofreu um pequeno abalo paradigmático.

E depois, havia os carros a passar e a levantar ondas enormes que me batiam nos joelhos antes de desmaiar no passeio. Agora olho para a travessia do Mar Vermelho na perspectiva dos desgraçados que viam Moisés passar. Depois admiram-se que no Médio Oriente haja ressentimentos entre as religiões...

PS: Esta manhã fui à janela, fiz voz grossa, e disse assim: "Ó minha, tu vê lá como te portas hoje, que eu quero sair à rua com sapatilhas de pano, porque são mais confortáveis que as bailarinas, e vou a pé do Areeiro para Campolide."
Encolheu logo as nuvens, viram? O que esta cidade precisa é de alguém com autoridade e visão.
(Parece que vagou um lugar ali na Câmara. Se precisarem de mim...) (Aqui deixo já a minha primeira promessa eleitoral: dispensar carro e motorista, ir a pé para o trabalho)


10 Outubro 2014

Lacrimosa

Lacrimosa começa a 22'53''





Era a parte do requiem que o compositor, Tigran Mansurian, mais temia.
Agora temo-a eu. Aquelas ondas escondem redemoinhos.


09 Outubro 2014

making-of: "mais te amarei, Arménia órfã, queimada de sangue, minha."


Esta miúda é uma delícia.
Nasceu na Arménia, agora vive em Berlim, e passa os domingos na escola arménia.
Recitou para nós um poema de Charents, "my sweet Armenia", um poema de amor à sua terra.

Aventuras de fazer um filme sobre os arménios: como traduzir um poema arménio para português, tirando a média ponderada, digamos assim, da tradução literal e mais umas cinco versões poéticas em línguas diferentes? Não sei se o Charents terá dado algumas voltas na sepultura (*), mas eu gostei de ter corrido este risco, e do resultado. O pessoal aqui da Terra Líquida Filmes é que deve pensar que sou um bocadinho maluca - eles a trabalhar a toda a brida, e eu parada, a olhar para o vazio, a murmurar fragmentos de frases.


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(*) Pobre Charents, morto na prisão e enterrado em local desconhecido. Ao fim de muitas décadas encontraram ossadas do seu corpo com sinais de torturas brutais, e sem cabeça.
Na União Soviética estalinista, podia-se morrer de poesia e amor ao seu povo.  


"matemática hereditária"

Momento "tia babada", vocês desculpem mas o que tem de ser tem muita força:
(roubado ao Sol)


Matemática hereditária




Não é todos os dias que se recebe um prémio das mãos de Lech Walesa. Mais raro é recebê-lo aos 16 anos, muito tempo depois de o famoso sindicalista polaco, que se opôs ao regime do seu país e que se tornaria mais tarde Presidente de uma Polónia democrática, ter construído o seu carisma. Pois foi essa a glória que coube a João Pedro Araújo, jovem estudante - começou agora o 12.º ano - que integrou o grupo dos primeiros portugueses a receberem o prémio máximo do Concurso da União Europeia para Jovens Cientistas, este ano realizado em Varsóvia. Além dele, que conquistou o prémio com um trabalho em matemática, as jovens Mariana Garcia e Matilde Moreira, de Arouca, celebraram o galardão na área da biologia.

Reservado, João Pedro, “depois de ver os trabalhos dos outros concorrentes” acreditou que ia a Varsóvia “para pedir autógrafos”. A cerimónia, de três horas, prolongou essa convicção. “O meu prémio foi o último a ser anunciado”, recorda. “Os outros projectos, como uma mão biónica ou novas abordagens ao cancro, eram impressionantes”. Já na fase nacional do concurso tinha ficado rendido aos trabalhos dos colegas, “um jovem de uma escola profissional de Oliveira do Hospital fez uma fantástica máquina de plantar batatas”.

No chão da sala da casa do premiado ainda se viam os cartazes 'My mano is the best!' que os cinco irmãos usaram no aeroporto de Lisboa, na recepção ao primogénito da família.

Mas o que fez João de tão extraordinário? “Os melhores teoremas são verdadeiros e belos. Um matemático australiano provou um teorema verdadeiro, mas feio”. Michael Kinyon, conceituado matemático norte-americano da Universidade de Denver e da Universidade Aberta, usou um computador para encontrar a versão bela do teorema, “mas a demonstração do computador era incompreensível”. Quando João Pedro lhe pediu para supervisionar um trabalho da escola, ele deu-lhe como tarefa “demonstrar a versão bela do teorema”. Para estudar o assunto pediu livros ao pai, que lhe indicou Teoria de Grupos em Desenhos. A dificuldade do livro era tal que João Pedro comentou a rir: “Com um pai assim não preciso de inimigos”. Felizmente, encontrou “livros da faculdade onde tudo estava explicado de forma simples e clara”. Assim o jovem português conseguiu provar o teorema e com isso convenceu o júri do concurso europeu, depois de ter conseguido a 'rendição' do júri português da Mostra Nacional de Ciência, onde expôs o trabalho antes de seguir para Varsóvia. “Fiz o trabalho e submeti-o. Convidaram-me para ir apresentá-lo aos professores e investigadores da Faculdade de Ciências [da Universidade de Lisboa]”, adianta. “E um deles sugeriu que me candidatasse ao concurso de jovens investigadores”. Para quem já viu uma feira de ciência em filmes americanos, a ideia é similar - os trabalhos são apresentados em stands ao público e avaliados por júris.

A partir deste ponto, a história segue como a conhecemos. Aluno do Colégio Planalto, em Lisboa - famoso pelo currículo internacional -, João Pedro ingressou um ano mais cedo na escola. São os alunos que escolhem as disciplinas e cada um tem de frequentar seis. Escolheu Literatura, Inglês, Economia, Física, Química e Matemática, mas a última é a preferida, talvez pela carga genética. O pai, João Araújo, é um matemático da Universidade Aberta e lá coordena um doutoramento que tem a novidade de ser leccionado por grandes professores estrangeiros. Michael Kinyon, que orientou João Pedro, é um deles. Esse doutoramento foi tema recente da secção de Ciência da Tabu.

O destino da família tem sido pródigo em episódios intensos. Com a felicidade de conseguir um prémio nunca antes alcançado em Portugal, havia uma tristeza íntima “por a mãe não estar em Varsóvia para eu poder agradecer-lhe as horas e horas que passou a estudar comigo quando eu era pequeno. Infelizmente o meu pai foi operado a um cancro e a minha mãe teve de ficar a cuidar dele”. 

Mas João Pedro, sereno, prosseguiu. Começou a programar aos 12 anos e apresentou no concurso de Varsóvia uma aplicação para android (Schur's Challenge) extraída do seu teorema. Fora do colégio, pratica ténis de mesa, é voluntário na Associação de Paralisia Cerebral, e dedica-se à música. Depois do piano - toca peças de Bach, Mozart e Beethoven, por exemplo - passou à guitarra eléctrica e explora alguns sons mais recentes, de bandas como Pink Floyd, Queen ou os quase esquecidos Barclay James Harvest.

A electrónica e o enxame de DJ que agora povoam os ouvidos das pessoas da idade dele dizem-lhe pouco: “O problema da música feita por computadores é que lhe falta uma certa emoção”. À música dos números - tem preferência pela engenharia mecânica no futuro, por combinar a matemática, a física e a química - pode até, quem sabe, seguir-se a das melodias. “Não me importava de ser músico”. Quem sabe…

Fotografia: Miguel Silva/SOL


07 Outubro 2014

Schweigeminute

(foto)


O Siegfried Lenz morreu, e eu dou comigo de volta à atmosfera que ele criou na novela Schweigeminute - o olhar limpo sobre o que foi, a gratidão, a serenidade do que é e permanece para lá da morte dos corpos.


06 Outubro 2014

making-of: o dia em que fui entrevistar Orhan Pamuk



Ao saber que Orhan Pamuk vinha a Lisboa tivemos um ataque de "já agora" - apesar de o filme estar praticamente concluído, seria muito interessante acrescentar a perspectiva de um turco como este escritor sobre a necessidade do confronto com o passado, e a possibilidade da coexistência, num mesmo espaço geográfico, de povos com diferentes culturas, religiões e línguas.

À parte termos tido um acidente no caminho para a Gulbenkian, tudo correu tão bem que eu comecei a desconfiar que Deus, lá do seu assento etéreo, estava a mexer furiosamente os cordelinhos. De repente demos connosco a meia dúzia de metros do Orhan Pamuk, alguém se dirigia a ele para perguntar discretamente se estaria disposto a responder às nossas duas perguntas, o Pedro já o estava a filmar e eu - esta foi a parte em que Deus se distraiu um bocadinho - preparava-me para entrevistar um simpático cavalheiro bastante parecido com os turcos que eu conheço de Berlim, e que não era o Pamuk. Maldita memória visual, que só me envergonha, e malditas fotografias da net, que não avisam que este escritor é um belo pedaço de homem, alto e bem parecido.

Ele não quis. Abanou a cabeça, "no! no! no!"
Pensei nas dificuldades por que já passou por causa deste assunto, e compreendi. Tanto mais que nós aparecíamos do nada, sem lhe dar tempo para se preparar convenientemente. No lugar dele, teria feito o mesmo.

Em suma:
Alá 1, Jeová 0

(Ou Jeová 1, mas foi um daqueles golos que ele marca por balizas tortas: agora, ao ler os livros do Pamuk, vou ter uma motivação extra. Mais estética, digamos assim.)


05 Outubro 2014

esta manhã

Esta manhã resolvi oferecer mais uns minutos de descanso aos meus amigos, e fiz o primeiro turno das filhas deles.
A de dois anos chama-me Balena, e fá-lo com uma voz tão doce que eu passei a dar um valor especial a cada um dos quilos que me põem muito à frente da Kate Moss.
A de cinco anos montou na sala um consultório médico, e aplicou-me tantas vacinas que estou pronta para fazer a volta ao mundo, de certeza que não vou apanhar nenhuma doença tropical.
Cantámos ("quem sabe uma canção com gatos?" "quem sabe uma canção com cães?"), inventámos letras novas com os nomes delas, caminharam nas minhas pernas feitas ponte sobre um mar revolto.
Aprendi uma canção nova, "pulga maldita / batata frita / fora o Benfica" e depois ri-me da tristeza encenada pelo pai, benfiquista, ao queixar-se das más companhias em que as filhas andam.

Saí para o trabalho às nove da manhã, e levava o bornal cheio de alegria.


26 Setembro 2014

quem não tem cão, caça com outro cão

Na Filarmonia de Berlim anda agora um ciclo Brahms + Schumann: as primeiras sinfonias dos dois, as segundas, etc.
E eu a vê-las passar, aqui em Lisboa e trabalhando de sol a sol. De sol a lua, melhor dizendo, que é o que acontece a quem se mete a trabalhar com portugueses.



Adiante. Quem não tem cão, descobre outro cão igualmente bom para tratar de ser feliz.
Consegui alforria temporária da senzala para ir amanhã  ao concerto do Artur Pizarro na Gulbenkian. Caso algum dos amigos que por aqui passa vá também, sugiro que a seguir vamos beber uma cervejinha espontânea juntos.
Alguém quer?


24 Setembro 2014

ínclita geração

Um sobrinho meu ganhou ontem o primeiro prémio para matemática do  European Union Contest for Young Scientists. Às vezes olho para a minha família e suspeito que é uma espécie de ínclita geração. (Eu sou o D. Fernando, o que ficou retido no estrangeiro)




22 Setembro 2014

cozinha de imigrante



Finalmente, aqui vai o último episódio da famosa cozinha. Melhor dizendo: o mais recente.
Agora é que tudo começa: estou ansiosa pelos próximos episódios, quando esta sala se encher com os risos e as conversas dos melhores amigos.

(É tão bonita, que acho que vou arranjar um fogão de campismo, uma bacia de plástico e um toldo, e vou cozinhar na varanda...)

(Não é aquilo que se chama funcional - o triângulo, o da esquerda para a direita, o sei lá. Mas deixem-me que vos diga: a funcionalidade está overrated.)

(Adoro a altura da zona de trabalho. Como é que aguentei mais de vinte anos da minha vida a trabalhar curvada?)

(Se tiverem sugestões para cadeiras, cámone yes. Mas que sejam extremamente confortáveis, e muito baratas. Estamos completamente, enfim, com certeza imaginam.)

(Agora vou trabalhar para Lisboa um mês, depois volto, e vamos pôr quadros nas paredes, e pensar numa estante para os CDs, e mais os focos de luz, e assim. Sempre a sonhar.)









 





 
 


(esta última é uma gracinha: as tomadas eléctricas - eu imaginei tomadas eléctricas no lados do bloco, mas na fábrica acharam que ficava parolo, e fizeram esta coluna encastrável)


É uma cozinha portuguesa, com certeza. Tenho o gosto de apresentar os seus autores:
- Gonçalo Araújo, meu irmão - a quem agradeço a ideia genial e mais toda a paciência que usou para me convencer.
- De Pau - Indústria de Mobiliário - são fantásticos. E mais não digo. Excepto que, bem feitas as contas, não ficarão assim tão mais caros que a IKEA. 


será só fumaça dentro daquelas cabeças, ou andam a tentar atirar-nos areia para os olhos?

Tenho acompanhado o debate sobre a Lei da Cópia Privada, sobretudo no blogue da Maria João Nogueira. Sinto uma grande admiração por esta mulher, por muitos motivos, e também pelo modo empenhado e sério como tem estado neste debate. Em vez de se lamentar em conversas derrotistas de café, parte para a luta, e mostra-nos que é possível, como cidadão, participar no árduo trabalho quotidiano da Democracia.

Graças a ela descobri hoje um texto tão divertido quanto brilhante sobre esta questão, que copio para aqui (volta e meia, gosto de abrilhantar este blogue). Se, depois de textos como este e os do Jonasnuts, o pessoal continuar a insistir que é preciso pagar esta taxa, o melhor é pedir à OMS que mande para Portugal equipas de emergência de Psiquiatria, porque vai por lá uma epidemia de autismo.

Segue-se o post do Marco Santos (roubado daqui):


LEI DA CÓPIA PRIVADA: O FUMO DE INÊS PEDROSA

Nuno Ferreira Santos
Inês Pedrosa fotografada por Nuno Ferreira Santos
Os fumos da polémica em torno da Lei da Cópia Privada, agora entregue pela Secretaria de Estado ao Parlamento, resumem-se ao genérico «Não pagamos!» – urro de egoísmo que, nesta sociedade em rede de malhas trôpegas e costas largas, passa por acto de cidadania.
Ah, o respeitocrónica de Inês Pedrosa no semanário Sol
Cara Inês Pedrosa, não urramos um genérico «Não pagamos!», mas um concreto «Já pagámos!»
Mesmo para trôpegos de costas largas, é difícil compreender que se tenha de pagar outra vez pelo direito à utilização legal do que já se comprou.
Resumindo: esta lei deixa-me copiar, para uso privado, obras que eu já comprei. Sei bem o que digo, pois tenho aqui gravada a música de mais de três mil discos-compactos copiada da minha estante para o computador.
O meu problema é perceber em que medida as cópias que fiz dos discos dos Pink Floyd, por exemplo, causam prejuízo ao José Cid. Como se calcula a compensação que o autor de «Como o macaco gosta de banana eu gosto de ti» deve receber pela cópia privada de «Another Brick in The Wall»?
Como se faz as contas ao prejuízo?
Uma pista: não é através da Matemática ou da Lógica.
Outro exemplo, perdoe-me o egoísmo: como se calcula a atribuição desta compensação no caso dos cidadãos produtores de conteúdo? Um pai de família que usa um telemóvel de última geração para fotografar os seus bebés e guardar os orgulhosos ficheiros num disco rígido, deve pagar porquê – e a quem?
Como se calculam estas contas se não há artista a quem atribuir a origem da cópia?
Uma pista: não é através da Matemática ou da Lógica.
Terá a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) de compensar todos os artistas que escreveram canções sobre relações familiares? Talvez o Tony e o Mikael Carreira possam beneficiar das fotos tiradas por esse pai de família, uma vez que até fizeram uma canção chamada «Filho e Pai».
A quem devem os adolescentes das redes sociais pagar pelas «selfies» que tiram? Ao já mencionado José Cid, por ter tirado a mais célebre de todas?
(Desculpe, Inês, não era minha intenção transtorná-la com aquela foto – costumo usá-la como firewall para o blogue.)

Demasiado fumo. Que tal aclarar a garganta?

As dúvidas sobre a forma como se calculam tais compensações levam-me a pensar que tais perguntas são irrelevantes. A intenção é salvar economicamente associações representativas dos autores em nome da evidência que a Inês refere: «sem autores não haveria música, nem filmes, nem qualquer forma de criação».
Felizmente para todos os autores que não estão inscritos, sem SPA continuaria a haver música, filmes ou qualquer outra forma de criação.
Se querem subsidiar a Cultura, façam-no com os impostos que nós, os trôpegos, já pagamos; não criem mais um só porque este Governo pensa que solidariedade social se faz transformando Portugal num país de Pirilampos Mágicos.
Tenho inspirado esses fumos da polémica todos os dias e concordo com a analogia que escolheu: os fumos impedem-nos de ver o que está diante do nariz.
No caso da polémica a que se refere e da falsa associação entre cópia privada e combate à pirataria, creio que até se poderá falar em gás de trincheira, fumos lançados por associações como a SPA com o propósito de envenenar a opinião pública mal informada – e a própria Inês, lamento dizer –, impedindo qualquer discussão saudável sobre o assunto.
Não admira por isso que os que estão contra esta taxa façam questão de frisar «o respeito» que devem aos autores e que a Inês classifica como falso e hipócrita: se não encherem a boca com essa palavra, correm o risco de serem acusados de defender a pirataria e querer levar os autores à ruína.
Nunca esteve numa situação em que se viu obrigada a repetir o óbvio perante um interlocutor galacticamente obtuso? Eu sinto-me assim sempre que alguém me acusa de servir o lóbi tecnológico, ignorando o facto de esta taxa dever a sua existência a um lóbi muito mais antigo e eficaz.
A cultura nada tem a ver com isto, cara Inês. A cultura de que fala o senhor Secretário de Estado não é mais do que o manto da invisibilidade que Harry Potter usa para disfarçar as suas verdadeiras intenções.
Compreendo e aceito o uso genérico da palavra «respeito» por parte de alguns opositores à Lei da Cópia Privada, mas obviamente não concordo. O meu respeito pelos autores é conquistado pelos próprios, pelo que fazem e criam, não está sujeito a taxas nem ao julgamento dos cronistas. Os autores são cidadãos como eu e o respeito deve ser recíproco.
Aos autores que gosto e mudaram a minha vida para melhor – excluo dessa lista a J.K. Rowling, já agora -, eu pago com palavras, bilhetes e, sempre que posso, dinheiro. Mas não consigo respeitar um músico que me insulta os ouvidos, um escritor de tretatologias epistemológicas ou artistas que se julgam os únicos juízes da modernidade.
Claro que isto nada tem a ver diretamente com a Lei da Cópia Privada, serve apenas para demonstrar o seu pobre entendimento do nosso «respeito».
A sua crónica, lamento dizê-lo, cheira ao mesmo gás de trincheira com que a SPA procurou envenenar a opinião pública.
Como se pode levar a sério o protesto de um cidadão carregado de impostos que ao insurgir-se contra um imposto disfarçado se vê reduzido a um estereótipo? Por outras palavras, como se pode conversar com trôpegos de costas largas que urram na rede, pessoas que não são consumidoras mas mero instrumentos do lóbi dos eletrodomésticos?
Resposta: não se conversa, manda-se taxar. Não existem problemas morais em extorquir aqueles a quem se nega a existência.

21 Setembro 2014

a Ucrânia da nossa ignorância



Há dias falei com uma pessoa que trabalha numa editora alemã como especialista em literatura do antigo bloco de Leste - e em particular da Ucrânia. Um dos seus projectos mais recentes foi o livro "Euromaidan": em pleno inverno quente na Maidan, ela encomendou análises da situação a especialistas das ciências sociais, e testemunhos in loco sobre esses momentos aos escritores ucranianos.

Contou imenso sobre o país e a situação actual. Contou como a região fronteiriça foi asfixiada - tão simples: um dia, as porteiras dos prédios deram lugar a homens mal-encarados de Kalaschnikov ao peito; no dia seguinte, apareceram controles nas ruas; depois, começaram a desaparecer pessoas; paramilitares perseguiam, agrediam e torturavam os cidadãos. As forças de segurança do Estado, arrastadas na derrocada do sistema Janukowytsch, deixaram de funcionar, pelo que não havia nenhum número de emergência para onde ligar a pedir ajuda. As empresas começaram a fechar, as pessoas fugiram como puderam. Contado assim, parece que é muito fácil matar cidades.

Não compreende o desinteresse e a ignorância dos europeus. Quase ninguém sabe nada sobre aquele país, mas muitos insistem em tiradas assertivas.

Foi a minha deixa, para testar certas opiniões que já ouvi sobre a crise da Ucrânia: que a culpa é da Alemanha e da Polónia, porque provocaram o Putin indecentemente (ela riu-se: é que eu ouvi isto a um político do PSD, e ela costuma ouvi-lo aos deputados dos Linke), ou que será uma tramóia muito maior do que podemos imaginar, com epicentro em interesses económicos americanos.
A sua resposta: quanto menos as pessoas sabem da Ucrânia, melhor se podem servir desta crise para reafirmarem a sua agenda ideológica. O ideal seria que se informassem sobre o país, a sua história e a sua sociedade, em vez de se limitarem a projectar as suas certezas ideológicas no vasto espaço da própria ignorância, para concluirem aquilo que queriam concluir.

E insistiu: vão conhecer a Ucrânia.

E nós, que nos rimos tanto dos americanos que escrevem Lisbon-Spain, que sabemos nós da Ucrânia? Nós, que criticamos tanto o modo com a Alemanha ignorou os imigrantes turcos há 50 anos, como acolhemos os ucranianos que vieram trabalhar para Portugal? Que quisemos aprender sobre o seu país e a sua cultura? Sabemos o nome de algum escritor ucraniano? (Fui procurar no google - não consegui encontrar nenhum romance de um ucraniano traduzido para português, mas em compensação encontrei imensas páginas a informar que o Evangelho do Saramago foi traduzido para ucraniano. Ah, bom, é o que interessa.)

Calhou de esta conversa ter coincidido com o referendo da Escócia, e com o desapontamento por parte daqueles que estavam gulosamente à espera de uma crise na Europa. Para dar uma ensinadela e Bruxelas e Estrasburgo...
Não entendo essa Schadenfreude em relação à Europa. Estamos rodeados de países em dolorosas convulsões, por estarem muito longe daquilo que já conseguimos construir, e nem assim aprendemos que um Estado democrático forte e estável é algo muito frágil, que exige vigília e trabalho quotidianos. O nosso único caminho é uma Europa mais forte e mais democrática. Há muito trabalho para fazer, e é para ser feito por nós todos, numa atitude de exigência construtiva.


20 Setembro 2014

quando for grande, acho que vou ser um rapazinho de cinco anos feliz por ver um tractor...

Vieram entregar o armário para os contentores do lixo:


 
 
 

(Tem estado uma semana terrível, um sol que parece Verão! Eu bem rezo para o São Pedro mandar para cá a chuva que anda a largar em Portugal, mas ele deve estar a gostar muito de se rir de mim. O melhor é deixar as rezas e, plano B, ir regar a relva.)


17 Setembro 2014

Grândola em Berlim

Sábado à noite partimos para, como dizia o nosso anfitrião, "uma graaaande aventura! uma viagem pela geografia dos vinhos!"
Partimos, é como quem diz: eu tinha de levar o carro para casa, pelo que me deixei ficar pela Itália: copito e meio de prosecco. Os outros largaram à desfilada: Itália, França, Espanha, e ali para os lados da África do Sul começaram a cantar canções revolucionárias das terras deles.
Em algum momento havia de sobrar para mim, e estava para lhes cantar as "Trovas do vento que passa", ou o "Não há machado que corte", para lhe mostrar que enquanto outros países fazem a Revolution nós cá, os portugueses, fazemos a Revoluschön, mas o Joachim disse "então vamos cantar o Grândola", e começou logo.
Ficaram muito impressionados - convenhamos que não é difícil impressionar viajantes de etílicas viagens, quando a jornada já lhes vai longa - e daí a pouco vinha um convite para outra aventura: daqui a umas semanas vai haver em Berlim um encontro sobre não sei quê, o futuro da Europa e assim, e era giro eu aparecer lá a cantar o Grândola, para lembrar aos políticos europeus a essência que deve orientar o seu agir, e tal (penso que por essa altura já iam na Austrália).

Agora só tenho de perguntar qual era o nome do prosecco que bebi, e beber copito e meio antes de começar a aquecer a voz, e perguntar o nome dos vinhos todos que eles beberam, para servir aos políticos europeus, e tudo há-de correr o melhor possível. Só não sei é se no day after ainda se lembrarão do que lhes quis ensinar sobre a Europa...

**

Como sempre, estou quietinha no meu cantinho, e Deus lembra-se de despejar silos inteiros de nozes para cima de mim. Não me queixo, não me queixo, e até já ando a treinar a segunda voz do "como se fosse a Primavera", pelo sim pelo não. É que, por este andar, quando menos esperar ainda dou comigo a cantar em dueto com o Chico Buarque, e convém estar preparada para essa eventualidade...


eu a adivinhar o futuro

Estava capaz de apostar que este bocadinho da Islândia





daqui a uns tempos vai estar mais ou menos assim:




Uma vez passei por aquela estradinha, do lado esquerdo da fotografia, e fiquei deslumbrada com a paisagem: como a grande muralha da China, mas sem escadas, e mais irregular.

O vulcão Barbapapa, ou lá como é que se chama, que trate de se acalmar rapidamente, que eu estou muito curiosa para saber se ganhei a aposta.

(Espero que esse futuro não demore alguns milhares de anos, não sei se me vou conseguir aguentar tanto tempo.)


16 Setembro 2014

dizer liberdade





(fotos e notícia: aqui, em inglês)


Na semana passada, numa escola de Moscovo, um aluno foi repreendido por ter aparecido com uma t-shirt American Eagle. Que era propaganda americana, e tal. O aluno falou com os amigos, e no dia seguinte apareceram todos vestidos com as cores da bandeira ucraniana. Que ninguém se lembre de lhes dizer como é que se devem vestir.
"I cannot believe – they are growing to be citizens, not just members of the population", comentou uma das mães.


15 Setembro 2014

coucou



O meu sogro adorava Django Reinhardt. Acho que tinha todos os discos vinil dele. Onde será que foram parar? Bem jeito nos davam agora, porque finalmente temos um gira-discos bom. Tem sido uma festa, ouvir as músicas da nossa adolescência. De momento andámos pelo Breakfast in America. Tão bom sentir ecoar dentro de nós esses que fomos aos quinze anos!


oh gentes aprendei a dançar





Oh gentes aprendei a dançar, pois de contrário no céu os anjos não saberão o que fazer convosco.

Santo Agostinho



Para rematar uma extraordinária entrevista que o João Botelho deu ao Sol. Termina assim:


O facto de ter sobrevivido a um cancro deixou-o com mais medo de morrer?
Nada. Ainda ontem tive uma discussão com o Luís Miguel Cintra. Ele queria-me convencer a voltar à Igreja Católica, porque estamos todos a morrer. E eu disse-lhe: 'Oh Luís Miguel, já fizeste tantas coisas boas, qual é o teu problema?'. O meu sonho é morrer atropelado numa passadeira, assim de repente. Ou ter um AVC numa noitada. Tudo o que for de repente é bom. A única coisa que me chateia é precisar de ajuda. Isso não quero, mais vale o suicídio. Não poder dançar seria uma chatice. Ainda hei-de dançar de cadeira de rodas. 

13 Setembro 2014

o regresso do senhor Oreste

(foto)

(foto)

Lembro-me bem da mercearia do senhor Oreste na aldeia da minha avó. Tinha todos os produtos a granel, e as pessoas pediam "275 gr de arroz" e "um naco de sabão rosa". O arroz era pesado dentro de um pacote de papel grosso, o sabão era cortado na guilhotina (esqueci-me de reparar se era a mesma guilhotina do bacalhau). As conversas ao balcão, as gargalhadas, "hoje o meu home tomou banho e fez a barba, fuosca-se que está que parece um cuzinho de menino", "jazus, mulher, tu que estás a fazer aqui na benda? bai é aprobeitar, caraites!", "ai bou, bou, carailhos me fuadam se não bou, que ele está mesmo a pedir que lhe façam cócegas!"

Lembro-me quando começaram a vender o óleo e as massas em embalagens de plástico, e começaram a usar latas de conserva. Na casa da minha avó surgiu um problema novo: o que fazer com esse lixo? Até então, as cascas e os restos de comida eram para os porcos ou as galinhas, o papel era queimado na lareira onde havia sempre uma fogueira (para cozinhar, para ter água quente), as garrafas de vidro davam jeito para engarrafar o vinho e o azeite.

Uns anos mais tarde abriram supermercados na aldeia da minha avó. Self-service, com todos os produtos exageradamente empacotados. Sem pessoal a servir, nem conversas ao balcão. Por essa altura já a aldeia se tinha organizado para recolher o lixo.

Hoje abre em Berlim um supermercado sem embalagens. As pessoas levam as suas próprias embalagens reutilizáveis. A ideia ocorreu a duas amigas de 24 e 30 anos, no fim de um belo jantar com uns copitos de vinho e um caixote de lixo cheio. Fizeram projectos e contas, divulgaram na internet, e em meia dúzia de dias receberam 70.000 euros em donativos para se lançarem nesta aventura. Curiosamente, a ideia de uma loja sem embalagens já me tinha ocorrido em 1991. Não tinha ainda 30 anos, estava muito infeliz no meu emprego e a pensar no que havia de fazer com o resto da minha vida. Mas, vejo-o agora, naquele momento faltou-me a amiga e os copos de vinho certos.


(foto)

Espero que o projecto delas corra bem, e abram um supermercado aqui perto de casa, porque a maior parte do lixo que produzimos são embalagens - em Berlim, são 76 mil toneladas por ano.

Mas o melhor, o melhor de tudo, era se o senhor Oreste voltasse, com os seus sacos enormes pousados no chão e a sua guilhotina, e as mulheres em conversas alegres ao balcão. Talvez seja esse o verdadeiro nicho de mercado: uma mercearia onde se vai estar com as pessoas do bairro, e se aproveita para fazer as compras sem poluir ainda mais o nosso mundo.


12 Setembro 2014

voulez-vous danser avec moi?

Dizia um músico que entrevistámos em Yerevan que em África, quando tocam Komitas, as pessoas começam a dançar.

(Em África, e em Berlim.)


 


o império contra-ataca

Das Imperium schlägt zurück.

 
Die Sanktionen Russlands gegen Amerika und Europa  werden die Welt erschüttern. Das Land verzichtet auf Import von Autos, Lebensmittel, Klamotten und Medikamente. „Wir werden zu Fuß  laufen, nackt und hungrig. Soll sich die Welt schämen!“  Ein alternativer Lebensentwurf  zeigten bereits Donezker Patrioten:  Uniformen tragen, Armeekonserven essen und Panzer fahren.

Do blogue do Wladimir Kaminer. Tradução:

As sanções da Rússia contra a América e a Europa vão abalar o mundo. O país prescinde da importação de automóveis, bens alimentares, roupas e medicamentos. "Vamos andar descalços, nus e esfomeados. Para que o mundo tenha vergonha!" Os patriotas de Donetsk já exibem um estilo de vida alternativo: usar uniforme, comer conservas do exército e andar de carro de combate. 


11 Setembro 2014

vocês desculpem, mas (a propósito de 11 de Setembro)




Vocês desculpem, mas quase sinto vergonha de lembrar o 11 de Setembro de 2001 porque, a cada ano que passa, mais nítida se vê a torpeza do aproveitamento mediático daquela tragédia, com o objectivo de criar uma janela de oportunidade para baralhar e dar de novo no jogo estratégico do Médio Oriente. Pobres vítimas do 11 de Setembro: a vida foi-lhes ceifada pela al-Qaeda, e a memória foi-lhes conspurcada pela máfia que se apoderou dos presidentes dos EUA.

Por estes dias fala-se muito do modo como o Estado Islâmico sabe criar realidades e imagens com o objectivo central de chocar os americanos, simplifiquemos assim, e discute-se se os meios de comunicação social ocidentais devem fazer o jogo deles. Oh, cambada de virgens! Não se terão apercebido que os do Estado Islâmico são simplesmente bons alunos? Observaram com atenção as televisões americanas no dia 11 de Setembro de 2001, a passar repetidamente imagens dos que saltavam das torres - especialmente aquele casal que saltou de mãos dadas -, e logo a seguir imagens de arquivo de um grupo de palestinianos em festa. Examinaram o fenómeno da manipulação dos povos a partir da gestão das notícias e das imagens, talvez até me tenham ouvido falar de quando vivíamos em San Francisco e, algumas semanas depois do 11 de Setembro, cancelámos a assinatura do jornal e arrumámos a televisão na cave, para podermos voltar a ser gente normal, sem deixar que o medo nos tolhesse os valores e o distanciamento que permite um olhar crítico.



 

Os nomes das vítimas do 11 de Setembro nos EUA estão inscritos num memorial no Ground Zero, organizados não por ordem alfabética, mas numa comovente rede de afectos. Tudo se sabe sobre essas 2.977 vítimas, os seus familiares, os seus sonhos cerceados, o seu heroísmo. Quanto às outras vítimas do 11 de Setembro, por exemplo as dezenas de milhares de iraquianos, tantas que já ninguém se dá sequer ao trabalho de as contar, não se lhes conhece o nome e as circunstâncias.

Por isso me envergonho de lembrar o 11 de Setembro de 2001, e de repetir as imagens cada vez mais transformadas em toques de sineta para fazer de nós cães pavlonianos. Porque nos mostram estas imagens? E nós, a salivar: salivamos ao serviço de quem?

Parte da resposta a esta pergunta pode vir de um 11 de Setembro anterior, noutro continente. Como dizia um amigo meu esta manhã, no facebook:

Há 41 anos, o Chile amanheceu banhado em sangue, para que os ricos pudessem continuar ficando mais ricos.




A Salvador Allende en su combate por la vida


(Pablo Milanés)
Qué soledad tan sola te inundaba
en el momento en que tus personales
amigos de la vida y de la muerte
te rodeaban.

Qué manera de alzarse en un abrazo
el odio, la traición, la muerte, el lodo;
lo que constituyó tu pensamiento
ha muerto todo.

Qué vida quemada,
qué esperanza muerta,
qué vuelta a la nada,
qué fin.

Un cielo partido, una estrella rota,
rodaban por dentro de ti.
Llegó este momento, no hay más nada
te viste empuñando un fusil.

Volaba,
lejos tu pensamiento,
justo hacia el tiempo
de mensajes, de lealtades, de hacer.

Quedaba,
darse todo al ejemplo,
y en poco tiempo
una nueva estrella armada
hacer.

Qué manera de quedarse tan grabada
tu figura ordenando nacer,
los que te vieron u oyeron decir
ya no te olvidan.

Lindaste con Dos Ríos y Ayacucho,
como un libertador en Chacabuco,
los Andes que miraron crecerte
te simbolizan.

Partías el aire, saltaban las piedras,
surgías perfecto de allí.
Jamás un pensamiento de pluma y palabra
devino en tan fuerte adalid.
Cesó por un momento la existencia,
morías comenzando a vivir.
(1973)


10 Setembro 2014

fronteira de luz - para comemorar os 25 anos da queda do muro





(aviso aos amigos que vivem no Porto: a Ryan Air já vai estar a voar para Berlim nessa altura)


2 + 2 (um post preguiçoso)

Duas citações (que tirei do folheto da Festa da Música de Berlim):

- Tradição é a transmissão do fogo, e não a adoração das cinzas.
  Gustav Mahler

- Depois de um concerto, às vezes nem consigo falar. Não me ocorrem as palavras. É que nós não tocamos notas, tocamos sentimentos.
  Patricia Kopatchinskaja


Duas anedotas em estrangeiro, para me armar em poliglota:

- A German walks into a bar and asks for a Martini.
- Dry? the bartender asks,
and the German replies,
- No, just one!

- What comes between fear and sex?
- Fünf!

(Outro dia conto como, recém-chegada da Alemanha à Califórnia, arranjei de propor "sex" ao empregado da caixa de um Albertsons)


09 Setembro 2014

a quem puder possa...



Bem sei que se diz "a quem interessar possa", mas estou tão entusiasmada com o que inventaram para comemorar os 25 anos da queda do muro de Berlim que a questão que se me coloca já não é a do interesse, mas mesmo só a de poder.
A quem puder possa, portanto: como já aqui contei, este ano o muro de Berlim vai cair num domingo, e esse fim-de-semana mostra-se muito prometedor. Vão fazer um muro luminoso com uns dez mil balões, que no dia 9 serão largados no céu.

Esta cidade arranja sempre maneiras de olhar para a História com seriedade, mas sem se deixar subjugar pelo seu peso. O memorial do Holocausto é o melhor exemplo, e este muro que se ergue sobre as nossas cabeças e se desfaz em forma de luz também não está nada mal.

Em suma: aconselho vivamente a quem puder que trate de estar em Berlim de 7 ou 8 a 10 de Novembro.

(Imagens da proposta, neste vídeo)
(E até parece que me pagam para isto...)


16 milhões de Chicos Buarques



Postal do Brasil (e aqui deixo um conselho de amiga: espreitem regularmente este blogue):

"Sentados no chão, admirando a parede bege da lanchonette, tento introduzir o namorado francês às especificidades da língua brasileira - quem falou de português do Brasil? -  a urgência de gerundiar e a música das palavras. Começo com Jacarépagua, a moça da lanchonette, que evidentemente não tem máquina para pagamento com cartão trabalhando, vem de lá. Jacarépagua. Mandioca. Maracanã. Moqueca. Tentei-ligar-do-orelhão-mas-meu-cartão-estava-zerado.
Mas pegando numa palavra neutra, sem carnaval à mistura : boca. Experimenta dizer boca com sotaque de telenovela da Globo. Boca. São testoteronas pop ups por todo o lado, uma explosão de sensualidade que não acaba mais, uma pessoa mergulha na palavra boca e já corre o risco de fazer o terceiro filho, ali. Na hora. Agora experimenta dizer boca na língua da ex-metrópole, na linhagem directa de Camões : boca. Verdade que fica logo ali um gostinho de repartição de finanças a pairar.
Não tenho a certeza que tudo se possa importar. Existem sons que aqui ganham um novo significado. Acreditem se quiserem, mas de repente é como se houvesse 16 milhões de Chicos Buarques. Posso estar a exagerar."

***

Há uns anos largos estava a comentar com amigos que "adoro o que os brasileiros fazem com a língua", e eles "aha, conta mais!", e eu "oh, parvos!"
Agora vem a Carla explicar que sim, que isto anda tudo ligado.
Já a Sophia, na sua época, se apaixonara por este fenómeno, mas em vez de enveredar pelos ímpios caminhos da carne, ficou-se pelos da flora. Outros tempos, outros tempos.


Gosto de ouvir o português do Brasil 
Onde as palavras recuperam sua substância total 
Concretas como fruto nítidas como pássaros 
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas 
Sem perder sequer um quinto de vogal 

Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro» 
O coqueiro ficava muito mais vegetal.