23 junho 2018

e enquanto andamos entretidos com os dizeres no casaco da Melania Trump...



A propósito do meu post anterior, sobre os motivos da Melania para exibir aquele casaco, o Lutz Brückelmann (lembram-se? o autor do saudoso Quase em Português) comentou o seguinte:

Custa acreditar que foi falta de pensamento. Melania, seja o que for a sua posição pessoal nisto, se existe, é First Lady e está rodeada de profissionais de comunicação da equipa de Trump. Podem estar incompetentes em tudo o resto, na comunicação não estão. Prova é que estão onde estão. A emissão de mensagens contraditórias é intencional. Assim, serve para tudo. A quem acredita que ela (e indiretamente Trump) tem uma réstia de humanidade, serve a visita, aos Trumpistas hardcore sinaliza que está a fingir. Mais importante ainda é o efeito de desorientação. Isto é "gaslighting". As mensagens contraditórias impedem qualquer debate com sentido e com uma base de verdade comummente reconhecida.
Em resumo: diretamente de Goebbels' playbook.


22 junho 2018

"I really don't care"


(fonte: nyp
Eureka!
Descobri porque é que a Melania escolheu vestir aquele casaco "I don't care". Estava ali ao lado a falar com a minha prima, e de repente - pling! - alembrou-me o motivo mais óbvio.
(Oh pá, sou tão genial que até me faz impressão :) ) (nem sei porque é que não me põem a escrever filmes)

Ora bem, pensem comigo:
1. Uma pessoa não tem um casaco daqueles no armário por acaso. E não o veste "sem querer".
2. Ela só quer que o marido a deixe em paz. Recentemente andou desaparecida quase um mês, com o pais inteiro a perguntar onde estava a primeira dama.
3. Aliás, se querem saber tudo, parece que nem mora na Casa Branca. Dizem que deu a desculpa de que era demasiada confusão o filho fazer diariamente um caminho tão longo até à sua escola em Bethesda, e pôs-se ao fresco.
4. O Trump disse-lhe "sai aí do teu refúgio e vai mazé mostrar a cara num dos centros onde guardam os filhos daquela gente muito-muito-perigosa" (estou a citar o Trump) e ela disse "não vou! tu é que és o presidente e fizeste esta cagada toda, vai tu!" e ele disse "quem é que manda aqui, hã?!" e ela resmungou "já vais ver quem é que aqui manda", vestiu o casaquinho e obedeceu. 


Aposto com quem quiser que acabou de conquistar mais algumas semanas de sossego.

21 junho 2018

palavras que não se dizem

A propósito do novo treinador do Sporting, li no facebook esta frase:

"Uma investigação depois do jogo concluiu que este terá chamado ao francês "fucking black monkey" – "macaco preto de m…." em português - repetidamente durante o jogo."

Pergunto: que espécie de sensibilidade leva esta pessoa a escrever "mac..." por extenso e "merda" com reticências?


isto é concorrência desleal contra os humoristas!





Por outro lado, não sei se a algum humorista ocorreria uma piada tão refinada e simultaneamente tão improvável.

(fonte: roubei de um mural fechado, no facebook)


escreve-lhe uma carta de amor


"Escreve-lhe uma carta de amor.
É bastante improvável que ela venha a encontrar mensagens WhatsApp no sotão daqui a 40 anos."

(fonte)


20 junho 2018

live on tv

Live on tv: uma pessoa a ser atacada pelo seu próprio sentido de decência.






os extremos atraem-se

Este tuíte de Donald Trump suscitou comentários de inúmeras pessoas inteligentes, informadas e bem formadas. Mais uma vez se verifica que os extremos se atraem.
Contudo, é assustador ver alguns dos comentários que lá aparecem a apoiar Trump. As pessoas querem mesmo acreditar nas histórias mais mirabolantes: que a polícia alemã está a omitir deliberadamente os crimes cometidos por refugiados, só para iludir as estatísticas, ou que os critérios de elaboração das estatísticas foram modificados para parecer que há menos crime na Alemanha.
Trump tem jogo fácil e terreno fértil no pessoal que gosta de olhar para o mundo pela perspectiva das teorias da conspiração. 




Em resposta a
Not exactly. We're having the lowest crime rate in 30 years here. Homicide rate in the US is six times higher than in Germany. Also Merkel is still the German politician with the highest approval rating.

How ironic: Donald Trump spreading fake news...

How many students have been killed by assault rifles in their schools in Germany?

= racist. Immigrants contribute to Europe's culture + to our own. I guess the convo had with President Orban stuck. Orban wants to make Europe a "christian continent" -- I am guessing DT is also in touch with Minister Seehofer (even he acknowledges crime is down)


think about the last time someone said immigrants were ruining Europe/ Germany's culture.


Merkel remains Germany‘s most popular politician in a poll released last week. She has been our Chancellor since 2005.

Em resposta a
Crime rates in Germany are at the lowest point since the 80s, and our government held up the law and acted accordingly to the Human Rights law and the European law when they opened the borders in 2015 but the truth is nothing you are interested in, you just want to spread lies.

E ainda:






"pomar"

(a propósito de "pomar", na Enciclopédia Ilustrada)



Por causa da palavra de hoje, #pomar, passei o dia a tentar lembrar as férias que fizemos em 2001 no South West dos EUA. Tenho as fotografias guardadas numa caixa de sapatos digital qualquer, e agora não dou com elas. De modo que passei o dia a tentar lembrar-me: sei que começámos em Las Vegas, daí fomos para umas termas com águas sulfurosas (essa parte lembro-me bem, porque fiquei com o biquíni a cheirar àquela porcaria pelo resto das férias), das termas fomos a Zion e seguimos para Bryce Canyon (o mais impressionante de todos). Saindo de Bryce, começámos a subir a Scenic Route 12. Lembro-me de ter dormido no Boulder Mountain Lodge, um hotel que era um autêntico oásis de qualidade no meio daquelas terras desterradas. Por esta altura já estão a fazer contas às minis que tenho de pagar por me estar a estender desta maneira, a palavra do dia é "pomar" e eu ponho-me a contar uma viagem de centenas e centenas de quilómetros pelo meio de pedras, rochedos, falésias e desfiladeiros, mas tenham mais um pouco de paciência, que estou quase a chegar. Sai-se de Boulder, continua-se na 12 em direcção ao norte, e quando esta desemboca na 24 vira-se à direita na direcção de Capitol Reef National Park. Ora bem: se este parque fosse o primeiro da viagem, talvez a gente se impressionasse com aquelas poderosas muralhas vermelhas. Mas nós já vínhamos de Zion, de Bryce, de Escalante. Já tínhamos a nossa conta de formações rochosas absolutamente assombrosas.
Só não estávamos preparados para o que se seguiu: ao ver a tabuleta a indicar “Fruita” saímos da 24, fomos descendo pelo meio das rochas, e de repente demos connosco num vale verde e fresco, ao longo de um pequeno rio, com um pomar onde pastavam corças. Entrámos com cuidado para não espantar os bichos, apanhámos alguma da fruta, deixámos na caixa o dinheiro que nos pareceu justo, e fomos visitar a escola histórica que me lembrou “Uma Casa na Pradaria”. A paz do lugar, o contraste do verde daquelas árvores contra as massas rochosas vermelhas, aquela escola antiga e a confiança de quem deixou uma lata em cima de uma mesa para as pessoas deixarem o pagamento da fruta que apanhavam, tudo isso me marcou de tal maneira que hoje, ao ver a palavra “pomar”, foi no que pensei. O dia todo.
Por não encontrar as fotografias fantásticas que lá fizemos, pus-me à procura de imagens no google, e descobri que aquele vale foi ocupado por mórmones. Tenho a certeza de que, se pesquisar mais dois ou dez dias, encontro informações sobre os povos que lá havia antes da chegada dos mórmones. Mas por enquanto só encontrei registo de estes terem começado a ocupar as terras à volta de Salt Lake City, e de em fins do séc. XIX alguns deles terem descoberto que aquele vale era óptimo para pomares. Ora bem: quando um texto escrito nos EUA diz que os colonos "descobriram que o vale era bom para a agricultura", desconfio logo. É que me vem à memória a voz da nossa guia nativa em Canyon de Chelly, na viagem que fizemos em 2009, a explicar um massacre terrível que lá houve: "os espanhóis viram os nossos pomares e ficaram cheios de inveja". Em todo o caso: no séc. XIX instalou-se naquele vale uma pequena comunidade de mórmones, construíram as suas casas e a escola que ainda lá está. Procurando um pouco mais também se vêem petróglifos. Os povos que os fizeram, esses, não se sabe deles.
Dali para a frente, não encontrámos mais pomares. Pelo contrário: em algum momento a estrada 24 contorna um monte quase no topo e começa a descer pelo meio de uma paisagem lunar. Melhor que lunar: são crateras rasas feitas por lajes de pedras sem arestas, numa sucessão de curvas em cores muito claras. Um espanto. Mas talvez não seja a 24, talvez seja a 12 entre Escalante e Boulder. Isto de ainda não ter um blogue em 2001 foi má ideia - agora não tenho como me lembrar do sítio exacto no Estado de Utah onde atravessei a lua .
Depois vem o Arches National Park, e a padaria francesa em Moab, e o Monument Valley etc., mas não conto nada disso porque lá não vi pomar nenhum.

Deixo algumas fotos que encontrei na net:



 
 
 
 
 
 
 

19 junho 2018

propositadamente


Estou convencida de que a língua portuguesa foi inventada propositadamente de forma a que as palavras se alinhem com elegância nos versos do Chico Buarque.

Com o José Bandeira dá-se exactamente o contrário: estou convencida de que a a maior parte das suas fotos é cuidadosamente preparada. Esta aqui, por exemplo, um trabalhão: os camiões de areia, o velocípede que terão ido buscar sei lá aonde, o homem ao lado da casa, e o José Bandeira: "ó amigo, aguente aí faz favor mais duas horas, até o sol estar na inclinação certa".


o escuro que me ilumina



Não sei que se terá passado na minha semana de férias em Portugal, que regressei a Berlim com uma inusitada energia para dar uma volta à casa - quatro anos depois da mudança, quatro anos a protelar últimos detalhes. Hoje, por exemplo, vou comprar encaixes para lâmpadas, porque metade das ligações para a luz ainda não passam de fios a espreitar da parede ou do tecto.

Pergunto-me quantas semanas de férias em Portugal serão precisas para arranjar energia para o passo seguinte: escolher os candeeiros, comprá-los e instalá-los. Até lá, serão as lâmpadas nuas (chamamos-lhes "design moderno" e, neste caso concreto, será um muito original "ebony and ivory", porque os encaixes que foram postos no dia da mudança são pretos, e hoje tenciono comprar os restantes em branco).

Isso é o projecto de hoje. Ontem, calhou de serem as almofadas do sofá. Resolvi lavá-las, e como são feitas à mão e uma delas é de linho bordado mais que centenário, lavei-as à mão com um produto para tecidos delicados. É que não esqueço aquela vez em que meti na máquina de lavar uma toalha de linho caseiro enorme feita em meados do séc. XIX (sim, numa das barras tecidas em milhentos nós lia-se o nome da avó e a data em que a fizera) e saiu de lá uma coisa pastosa em vez da toalha. O universo bem podia ter-me dado essa lição à custa de algo menos precioso, triste vida!

Como ia dizendo: deitei o produto delicado na água, pus as almofadas brancas de molho, e passadas algumas horas a água estava preta. Por favor, confirmem-me isto: os produtos para lavagem delicada têm um enzima ou um coiso qualquer que escurece artificialmente a água só para mostrar trabalho, não é? Isto é tudo pensado para dar às pessoas a sensação de "valeu a pena, em boa hora me lembrei de lavar isto, etc.", não é? É que se não for, vou ficar um bocado perplexa com a esterqueira que andava a exibir no sofá sem me dar conta. A culpa, senhor juiz, não é minha - é desta casa iluminada em estilo romântico-misterioso-intimista, por faltarem ainda muitas lâmpadas nas paredes e nos tectos.

Hoje vou comprar os encaixes. Depois veremos quem os aplica. Suspeito já que nesse dia os meus olhos se abrirão e conhecerei a verdade, e - caso ainda me sobre alguma da energia que trouxe de Portugal - esta parte da minha rua vai parecer a aldeia da roupa branca.

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"O escuro que te ilumina" é o título do novo livro do José Riço Direitinho. Estou com muita vontade de o comprar, mas para isso tenho de ir a Portugal, e sabe-se lá com que energias de lá volto, e que novas voltas me fará dar à minha vidinha. Seria mais um caso de a literatura mudar a vida de uma pessoa, e não sei se tenho coragem para tanto.


18 junho 2018

ontem não teria querido estar em nenhum outro sítio

Ontem assisti ao penúltimo concerto de Simon Rattle na Filarmonia. Melhor dizendo: haverá outros, mas ele será então o maestro convidado, e não o director da orquestra. Na próxima semana ainda há a sexta de Mahler (dizem que está esgotadíssima), e no domingo 24 terá a despedida na Waldbühne, após 16 anos à frente dos Filarmónicos de Berlim.

É uma espécie de fim do mundo. Do mundo como me habituei a ele: foi Simon Rattle quem iniciou o Digital Concert Hall, o programa Tapas (encomendas a compositores contemporâneos para peças marcantes mas de curta duração), o Education Program (que me permitiu cantar duas óperas sob a sua direcção), o Late Night. Foi ele que recriou com Peter Sellars as Paixões de Bach de tal maneira que me pergunto como eram elas antes dessa invenção. Foi ele que pôs uma das melhores orquestras do mundo a trabalhar com crianças dos extractos sociais com menos acesso à cultura. Foi ele que abriu aquela casa a projectos de acolhimento e integração de refugiados. E paro por aqui, sem saber se me brotam lágrimas de alegria e gratidão, ou de saudade antecipada, ou ambas. 

Ontem havia dois concertos: um às sete da tarde, dirigido por Simon Ratlle, seguido de um Late Night muito especial, com um programa surpresa preparado pelos músicos para oferecer ao seu maestro.

Tinha bilhetes para os lugares por trás da orquestra para o concerto das sete da tarde ("The age of Anxiety", de Bernstein, seguida de estreia de três "Tapas" encomendadas a Lindberg, Norman e Dean, "Tom and Jerry" - sim, isso mesmo! - de Bradley e "The adventures of Robin Hood", de Korngold). Saí de casa tardíssimo, e cheguei à Filarmonia apenas cinco minutos antes das sete. O problema é que tinha um bilhete para vender, e àquela hora os interessados já estavam servidos, ou tinham desistido. Atirei-me a uma senhora que ainda por ali andava. Ela estava muito indecisa: viera de Frankfurt para o open air com Barenboim e a orquestra da Staatsoper na Bebelplatz, tinha bilhete para ir ao Late Night, e achava que três concertos num dia só era demasiado. Além disso, não estava vestida para ir à Filarmonia - mas ela própria reconheceu que em Berlim isso não era importante. Finalmente, acabou por se decidir a comprar-me o bilhete, e levei-a comigo para os lugares atrás da orquestra, que ela não conhecia. No intervalo toda ela se desfazia em sorrisos, dizendo-me da sua felicidade por estar de frente para o Simon Rattle, e tão perto que quase se sentia parte da orquestra.



Ouvir ali a Sinfonia de Bernstein foi uma experiência única. Houve momentos em que a percussão fez saltar as pessoas na primeira fila. No final, o pianista Krystian Zimerman depôs o seu ramo de flores junto à partitura do Bernstein, em homenagem ao compositor que teria feito 100 anos em Agosto. A seguir disse meia dúzia de piadas e tocou uma peça dedicada a ele, na qual misturava a Sonata ao Luar de Beethoven ("um holandês", disse o brincalhão) e o Happy Birthday. Mas o mais inesperado estava para vir: os três músicos que faziam os efeitos especiais do Tom e Jerry tinham vindo sentar-se entre nós, nos bancos por trás da orquestra, e fartaram-se de fazer palhaçadas ali mesmo. Foram tão divertidos que fiquei com um sorriso preso à cara que durou até ao final do Robin Hood. Se tiver azar, vou ficar para todo o sempre no arquivo do Digital Concert Hall a ouvir o Korngold com cara de muito divertida.

No final, o público aplaudiu ainda mais que de costume. Depois da saída dos músicos, quando as pessoas já avançavam em direcção às portas, Simon Rattle voltou ao palco como faz habitualmente. A sala rebentou de novo em aplausos. À minha volta, algumas pessoas começaram a chorar.


Saí, encontrei-me com a Christina, entrámos para o Late Night. Por uma incrível sorte, tinha conseguido bilhetes na primeira fila do bloco A. Tudo fantástico, excepto as câmaras do Digital Concert Hall viradas a nós, que estávamos a fazer de público. A Christina avisou-me para não coçar o nariz, e treinámos um bocadinho a posição das pernas para parecermos senhoras elegantes. O concerto começou. Sarah Willis, encantadora como sempre, agradeceu a um Simon Rattle - sentado algumas filas atrás de nós - por se ter dado ao trabalho de vir assistir ao concerto que lhe queriam oferecer. Começaram com uma peça escrita por John Adams especialmente para essa noite, "Rattle my Cage". Ao ver o nome projectado na parede, fiz sinal à Christina: "olha, rest my case!", e ela respondeu com um olhar zangado. Alguma vez chegaria o dia em que a minha filha me havia de chamar a atenção como eu lhes fazia quando eram miúdos e não estavam em silêncio absoluto na Filarmonia. E foi logo no dia em que estávamos sentadas na primeira fila do bloco A, com as câmaras viradas a nós. Cá se fazem, cá se pagam...
Depois de Adams, os "Sir Simon all stars" subiram ao palco: os cantores Mark Padmore e Christian Gerhaher, os pianistas Ohad Ben-Ari e Mitsuko Uchida. Magdalena Kozená viria juntar-se a eles pouco depois, levantando-se do lugar ao lado do marido com um berro que se tornou música - uma peça sobre feminismo que termina de modo surpreendente. O dueto de Brahms "die Meere", cantado por Padmore e Gerhaher, foi para mim o momento mais poético da noite: pela melodia, pela perfeita harmonia das duas vozes, e pela delicadeza da interpretação de Mitsuko Uchida, em cujo rosto se reflectia a música que lhe saía dos dedos.

A orquestra entrou em palco, e Sarah Willis explicou que queriam tocar a peça favorita de Simon Rattle, mas não tinham conseguido perceber qual era, pelo que tiveram de arranjar outra solução. Dirigidos por Daniel Harding, um maestro que iniciou a sua carreira pela mão de Rattle (e depois Abbado), tocaram uma rapsódia de temas que fizeram história nesta era de Rattle em Berlim, com arranjo de Aurélien Bello. Eu a ouvir, e a lembrar os momentos em que aquelas músicas se entrelaçaram na minha vida: lembro-me tão bem da surpresa ao receber bilhetes de um casal amigo para irmos ouvir o Sacre du Printemps, ou daquela noite em que o Matthias chegou a casa tarde, depois do seu trabalho na Filarmonia, e me quis mostrar o solo das trompas no final da quinta de Sibelius que ouvira na transmissão para o foyer, mas a versão do Bernstein não o convenceu - disse: "oh, os nossos tocaram isto muito melhor!" ("os nossos"!). Lembro-me tão bem do ar encantado de Simon Rattle no ensaio geral da Paixão segundo São Mateus ao ouvir o violino solista a tocar "Erbarme Dich, mein Gott".





E agora tenho ainda mais para lembrar: o rosto doce de Mitsuko Uchida, sentada no palco, e o seu corpo a ondular suavemente como uma alga no fundo do mar ao som daquele mesmo solo de violino. 

Por essa altura do concerto já tinha a certeza de que não quereria estar em nenhum outro sítio do mundo naquele momento, senão naquela sala, naquele lugar. E a Barbara Hannigan ainda não tinha entrado em cena para dirigir e cantar simultaneamente "Crazy Girl" de Gerschwin. Vertiginosa, tudo. Desde a voz, de nuances ricas e muito segura, até à coreografia enérgica da direcção. Dança moderna, da melhor. E depois, os seus dedos esguios largados no ar, aquela roupa, o pormenor da esfera junto ao tacão das botas. Só visto. Estava a acontecer a meia dúzia de metros de mim, e eu ia ficando sem olhos, de tanto os esbugalhar.

A "Crazy Girl" terminou com um olhar de matador na direcção de Simon Rattle, o público quase saltava das cadeiras por aplaudir com tanto entusiasmo, e os músicos concentraram-se em semicírculo no centro do palco, para o último ponto do programa. A Sarah Willis comentou que há duas coisas que músicos profissionais nunca devem fazer em público: cantar e dançar. "Fiquem descansados, não vamos dançar", disse ela. Abriram as partituras, e cantaram a vozes uma canção criada especialmente para agradecer a Simon Rattle estes 16 anos de entrega, e também „We learned from you/our English knowledge too“. Alguns deles não conseguiam esconder a emoção.

No final houve festa para as pessoas da casa, e por ser o meu dia de sorte, de super-sorte, convidaram-me como acompanhante. De modo que andei por ali no meio de tantos músicos que me fascinam, assisti ao entusiasmo de uma senhora do sector administrativo a contar que tivera finalmente a coragem de ir agradecer ao Simon Rattle tê-la feito gostar de música clássica, e este lhe ter dado um abraço apertado, assisti aos discursos (e à Angela Merkel a aplaudir quando se falou do trabalho da orquestra com os refugiados), à entrega do presente muito especial que a orquestra encontrou para aquela despedida, e a um Simon Rattle comovido, feliz e sem palavras. Depois um grupo da América Latina começou a tocar salsa e outras latinadas, e quando dei por ela eram três da manhã.

Foi uma noite tão extraordinária que até me esqueci que era a despedida do Simon Rattle de Berlim, e que isto é uma espécie de fim do meu mundo. Vim para casa a levitar.

17 junho 2018

mundial de futebol, dia 4


Desta vez, o texto da série de Wladimir Kaminer sobre o mundial de futebol não está no seu blogue. Foi publicado apenas no facebook, e diz isto:


MF 2018 Dia 4

Já antes do Mundial de Futebol havia rumores sobre os habitantes de Rostov, no Sul da Rússia, serem de certo modo intolerantes e terem má vontade em relação aos homossexuais. É só boatos, nada disso é verdade. O Brasil joga hoje em Rostov contra a Suíça, e as pessoas da cidade estão fora de si de tão excitadas, tanto crianças como adultos estão colados às janelas ou nas suas varandas e acenam efusivamente aos convidados estrangeiros, e acenam e acenam e acenam... Mas não vão ver o jogo. E porque não? Porque estes habitantes de Rostov não são autênticos. Aqui recorreu-se a um método de restauração que já deu comprovadas garantias noutros tempos: em vez de arranjar a fachada antiga, usou-se uma tela pintada de fresco para a esconder. Deste modo, a cidade conseguiu duas cajadadas com um coelho: poupou dinheiro e criou cidadãos simpáticos e tolerantes.
 
 
[NT: A expressão idiomática alemã usada no trocadilho da última frase refere "mosca" em vez de "coelho": matar duas moscas com uma palmada.]



mundial de futebol, dia 3

Do blogue de Wladimir Kaminer:




A República Autónoma da Mordóvia é conhecida pelos seus inúmeros campos e prisões, e não é um lugar para onde as pessoas viajem voluntariamente. Muitos dos russos que ainda não têm antecedentes criminais não fazem a menor ideia sobre onde fica Saransk, e os estrangeiros muito  menos.
O comediante francês Gerard Depardieu, conhecido pela arte de bem beber, que foi obrigado a abandonar o seu país devido a fuga aos impostos, foi a primeira personalidade de vulto a visitar Saransk como turista. Foi recebido na Mordóvia com pompa, e a direcção da República ofereceu-lhe logo o cargo de ministro da Cultura, com residência oficial e uma brigada de guardas pessoais, mas ele recusou simpaticamente a oferta e retirou-se de novo para a França. As más-línguas dizem que Gerard Depardieu ficou tão impressionado com aquela viagem que logo à chegada a França cuidou de pagar antecipadamente todos os seus impostos e deixou de beber para não ter de regressar à Mordóvia. Hoje a cidade está cheia de dinamarqueses e peruanos, a Dinamarca joga contra o Peru.

16 junho 2018

mundial de futebol, dia 2 - oiê oiê oiê

[O Wladimir Kaminer a queimar os neurónios do Speedy Gonzalez logo pela manhã: o título do dia 1 foi "ole ole ole", e o do dia 2 "oje oje oje". Pergunto-me o que inventará para os dias 3, 4 e seguintes, e se é um erro fatal traduzir "oje oje oje" pelo mais português "ai ai ai"]  [por estas e por outras é que tradutores literários ganhavam mais se trabalhassem no McDonald's] [mas se calhar não tinham tanto prazer] [e no fim da tradução literária não se vai para casa com a pele e o cabelo a cheirar a fritos] [excepto os neurónios do Speedy Gonzalez]

Como ia dizendo, aqui está o post do Wladimir Kaminer sobre o dia 2:



MF dia 2 ai ai ai

Em São Petersburgo, o presidente da Câmara foi recentemente obrigado a mudar a sua sede para o estaleiro do estádio Arena Zenit - com vistas permanentes para as escavações onde, a velocidade relâmpago, se enterraram milhares de milhões sem resultados visíveis. Apesar de todos os esforços, o trabalho não avançava, o novo telhado do estádio estragou-se ainda antes de terminar a montagem. Os culpados foram rapidamente descobertos: os pelicanos teriam feito tamanha cagada no telhado que este caiu. Consta que os malvados pelicanos se sentem atraídos pelo futebol. Desde então, há uma nova frase idiomática na Rússia: "Não olhes para mim como um pelicano do futebol". Hoje, neste estádio, o Irão ganhou 1:0 contra Marrocos, os pelicanos aguentaram-se, o telhado também.