15 agosto 2020

a ver se faço férias das férias

Pelas minhas contas, já passaram uns bons três quinze dias sem posts sobre esta estadia na Bretanha. ("Posts mete-nojo", dizem alguns, e eu respondo: "senhor juiz, a culpa não é minha - a vida é que me acontece assim")

O tempo passa, e os posts vão ficando pelo caminho: não consigo passear e descobrir e saborear, e contar simultaneamente. De modo que hoje deixo aqui um ou outro apontamento fotográfico das últimas semanas. 

Um dia destes hei-de fazer férias das férias, e nessa altura conto os detalhes. Mas sem garantia: sabe-se lá se nas férias das férias a vida não me continua a acontecer com tal intensidade que não tenho tempo de olhar para trás e contar?

O stress do costume...































 

13 agosto 2020

não importa que doa: é tempo de avançar de mão dada

Partilho o poema "para os que virão", de Thiago de Mello, que me ofereceram numa caixa de comentários:


Para os que Virão

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.


Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente alguém
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.



(Obrigada, Lucy)


agora é que me vou desgraçar de vez: toda a gente vai ficar a saber que não percebo nada de Biologia



E agora para algo completamente diferente: há tempos passei com a roda do meu wind car por cima de uma medusa enorme que estava na praia. Pensava que seria gelatinosa, mas era duríssima. Alguém me sabe explicar este fenómeno?

(senhor juiz, a culpa não foi minha, foi do vento que me levou para ali; já sabe como é: o vento e os portugueses, são seis séculos de desvios - mas vá lá que a mim só me mandou para cima de uma medusa; ao Pedro Álvares Cabral mandou até ao Brasil, coitadinhos dos indígenas)


são poucos, mas são nazis

Depois de ter anunciado que no dia 8.8 (88 -> hh -> heil hitler) ia acontecer alguma coisa grande, depois de nesse dia dúzia e meia de mascarados terem levado a cabo uma acção de intimidação em frente à sede do SOS Racismo (numa encenação que mistura elementos do Ku Klux Klan e de uma campanha neonazi de um grupo alemão entretanto proibido), depois de avisarem que "isto é apenas o começo" (os vídeos - entre os quais este e este - entretanto foram marcados como privados), o movimento "resistência nacional" enviou agora a seguinte mensagem de intimidação e perseguição:


A ameaça para as pessoas desta lista é mais uma das encenações com que pretende aparecer, ganhar palco, e conquistar alguns seguidores. Mas é também, obviamente, para ser levada muito a sério pela Polícia Judiciária e pelo Ministério Público. Este grupo - que agrega algumas pessoas que já por várias vezes mostraram a sua capacidade para actos de brutal violência movida por ódio racista - está a cometer crimes para os quais o Código Penal estipula penas claras. Num chat, de que partilho a seguir algumas imagens, o grupo mostra sem margem para dúvidas o seu carácter racista e homofóbico. Também se fala em "assassinar alguém importante", e divulga-se as estratégias do momento: infiltração, e angariação de seguidores. Em suma: caso ainda houvesse dúvidas, este chat e as acções dos últimos dias provam que há nazis em Portugal. Não são muitos, e desentendem-se facilmente, mas estão a tentar unir-se em volta do ódio ao SOS Racismo e aos Antifas. E querem crescer em número. À semelhança do que aconteceu há cem anos com os judeus na Alemanha, o SOS Racismo e os Antifas são apenas um isco para atrair pessoas de índole racista e/ou anti-esquerdista, e um bode expiatório muito útil para unir forças desavindas. Esperamos que a Polícia e o Ministério Público façam bem o seu trabalho, mas isso não basta. Há muito mais para fazer: - a classe política tem de dar sinais inequívocos de que não há lugar para nazis na Democracia portuguesa; - os media têm de estar atentos para não promoverem o branqueamento destes movimentos (como o caso desastrado do programa do Manuel Luís Goucha, por exemplo), nem porem as suas caixas de comentários ao serviço da estratégia de crescimento de grupos nazis; - a sociedade civil tem de estar permanentemente atenta às tentativas de infiltração e de angariação de seguidores; - têm de ser criados canais expeditos para que as empresas gestoras das redes sociais tenham uma actuação responsável no sentido de impedirem que o seu espaço seja usado para atacar a ordem democrática. E agora, senhoras e senhores, convido para um pequeno passeio pela lixeira ideológica que se está a erguer no nosso país:










12 agosto 2020

sputnik-v

Ontem o noticiário Heute Journal abriu com a notícia da nova vacina russa.
Vou traduzir a peça (que podem ver aqui, em alemão) só para tentar mostrar porque é que tenho um caso de amor com o Klaus Kleber - e também para dar a perspectiva de um noticiário alemão sobre o caso.

"Boa noite. A propósito do corona, o presidente Putin puxa todos os registos dos triunfos russos. À nova vacina contra a covid-19, que hoje anunciou ao mundo, deu o nome de Sputnik-V. "V" de vírus; e "Sputnik" como o pequeno satélite que, em 1957, foi o primeiro objecto que os humanos conseguiram colocar em órbita. Um sucesso da URSS na altura em que nos campos de lançamento dos EUA os foguetes ainda se limitavam a rebentar em todas as direcções.

Um choque para o arrogante mundo ocidental de então. Hoje seria uma bênção para o mundo... se a vacina Sptunik-V fizesse aquilo que o presidente Putin promete, mas de facto não pode saber, porque simplesmente permitiu que se passasse ao lado de testes essenciais."

Segue-se uma reportagem de Dara Assamzadeh: "Sputnik significa "companheiro de caminho". A vacina Sputnik-V deve salvar a humanidade da pandemia do corona vírus. A partir de Outubro, a Rússia quer vacinar em grande escala: primeiro os médicos, depois os professores. Se a vacina resultar, um Estado que vive do gás e do petróleo seria catapultado para novas esferas. [ Putin ]: "Esta manhã foi autorizada a primeira vacina contra a infecção do corona vírus. Sei que funciona de forma eficaz, e cria uma imunidade estável. E, repito: passou por todos os testes necessários." A vacina foi desenvolvida em Moscovo pelo Gamaleya, Instituto Estatal de Epidemiologia, que já em Maio anunciava resultados positivos nos testes. Em início de Agosto informaram que os testes necessários tinham sido concluídos, mas não publicaram os resultados. Por esse motivo, já há uma semana começaram a surgir dúvidas em relação a este estudo, e alguns cientistas russos criticaram-no severamente. [ Cientista russo ]: "O que estão a criar agora é algo absolutamente novo. Ainda não há vacinas destas. Não sabemos como é que o vírus se comporta, nem como é que se propaga. Não sabemos quanto tempo é que resiste à imunidade." O standard internacional para os testes às vacinas prevê três fases: 1. Tolerância 2. A dosagem possível e a resposta possível do sistema imunitário Nestas duas fases já se reconhecem os riscos possíveis da vacina. 3. Fiabilidade da protecção e eficácia. Normalmente os testes são feitos em pelo menos 4.000 pessoas. Na Rússia não chegaram a 100 pessoas - entre elas, uma filha de Putin. [ Prof. Klaus Cichutek, presidente do Paul-Ehrlich-Institut ]: "Alertamos para uma autorização prematura, porque os testes normais ainda não foram realizados. Nos próximos meses haverá muitos outros produtos autorizados em diversas regiões do planeta." Parece evidente que na Rússia deixaram de lado a última fase do teste da vacina, que exige muito tempo, e ninguém sabe - nem mesmo no Kremlin - como é que a vacina funciona. Putin é o primeiro governante que sujeita o seu povo a este risco. Seja para ganhar a corrida global para a vacina, seja por pressão de um sistema de saúde desgastado e um sistema económico frágil. Os russos vão ser submetidos a uma experiência." [ Entrevista com Bodo Plachter, virologista da Universidade de Mainz ]: - Putin praticamente salta por cima da terceira fase, o que lhe permite poupar muito tempo. O que é que se perde no meio disto?
- Esta fase é importante para testar a eficácia da vacina. Sem ela, pode criar-se uma falsa sensação de segurança. Além disso, nesta fase são estudados os efeitos colaterais, que podem ser de molde a inviabilizar o uso da vacina. Isso está a faltar. Também está a faltar a transparência e portanto poderá faltar a aceitação por parte da população, que terá dificuldade em deixar-se vacinar com este produto sabendo que falta a terceira fase do estudo.
- Tendo em conta o alcance desta epidemia, em termos da vida e da saúde de muitas pessoas, e das consequências do lockdown, será que podemos fechar um olho e deixar passar estas irregularidades nos testes? - É preciso provar que esta vacina é eficaz, o que ainda não foi feito. É preciso ver se a Rússia vai fazer realmente os testes que faltam. Aqui seria muito difícil autorizar a vacina nesta fase.

- Mas se uma pandemia se apresenta de forma tão ameaçadora (estou a tentar apresentar a posição contrária) e nos damos conta de que há alguma protecção, talvez não 100% ou 95%, mas em todo o caso 70% ou 75%, já se ganhava alguma coisa...
- Seguramente. Também não quero duvidar da eficácia da vacina, mas esta tem de ser testada como todas as outras que estão a ser produzidas neste momento. Esta vacina não se antecipa às outras. Na realidade, os outros produtos que estão a ser testados já estão a ser produzidos em grandes quantidades, para estarem disponíveis para as populações mal os respectivos testes cheguem ao fim com resultados positivos.
- Isso significa que não inveja os seus colegas russos por já estarem a pôr uma vacina no mercado? - Na realidade, eu teria muitos pruridos em passar essa receita. - A Rússia escolheu esse caminho. Se tudo correr bem, é um ganho para o mundo inteiro. Mas o risco seria demasiado alto para nós. "

11 agosto 2020

tochas, máscaras brancas, e a escolha do número 8

No dia 7 de Agosto, o grupo "Resistência Nacional" publicou no youtube um vídeo com o seu símbolo, o título "o crepúsculo dos deuses" e música de Wagner, para anunciar isto:

8/8
2020

(para quem ainda não sabe: o H é a oitava letra do alfabeto, e 88 é um código para "Heil Hitler" nos grupos neonazis) 

O mesmo grupo publicou dias depois um vídeo sobre a manifestação que fez em Lisboa, na noite de 8.8.2020, em frente à sede do SOS Racismo: um punhado de franduleiros empunhando tochas e escondendo o rosto com uma máscara branca de teatro. A notícia vem no Públicoe é corroborada por, entre outros, um post que o próprio grupo pôs na sua página de facebook ("A sede do SOS Racismo recebeu hoje uma visita nossa. Obrigado a todos os que compareceram"), e pelo tal filme no youtube. Este abre com a simbólica data 8/8/2020, e acusa o SOS Racismo de "em vinte anos" não ter defendido "um único português"; depois avisa que não esquecem e não perdoam, e que isto é apenas o começo. Em comunicado, o mesmo grupo diz que "A acção consistiu numa vigilia em honra das forças de segurança mortas por "Jovens", mas que aos olhos do SOS Racismo nunca é racismo", que "Não causámos qualquer desacato ao contrário dos grupelhos antifa" (os neo-nazis alemães da campanha "os imortais" também se gabam muito disso) e que "o artigo 45 da constituição permite-nos estar em qualquer lugar a qualquer hora,sem necessidade de qualquer explicação ou autorização. Não agredimos ninguem nem partimos ou daníficamos seja o que for". (copiei os textos entre aspas sem corrigir a ortografia)

Perante estas caras brancas e estas tochas em frente à sede de uma organização anti-racista, a primeira ideia que nos vem à cabeça são as acções de intimidação do Ku Klux Klan. No entanto, as máscaras brancas e as tochas não vieram dos racistas dos EUA, mas dos racistas neonazis alemães. Deixo uma tradução rapidíssima da Wikipedia alemã sobre a campanha "os imortais":

"Os Imortais foi uma campanha conduzida por neonazis e realizada em toda a Alemanha. Semelhante a um flash mob, formava-se um número de até 300 participantes, que, usando máscaras brancas, na maioria das vezes à noite, com tochas, realizavam um desfile que se desintegrava após alguns minutos. Este método foi utilizado pela primeira vez pelo Spreelichtern, um grupo dentro do "movimento de resistência no sul de Brandenburgo", que foi proibido em Junho de 2012. Estas marchas eram seguidas de uma produção mediática através da Internet, que procurava alcançar um amplo impacto.

Durante as suas aparições inesperadas em festivais populares ou durante desfiles nocturnos, os activistas de extrema-direita usavam geralmente máscaras de teatro brancas. Marchavam pela área em formações de cerca de cinquenta a cem pessoas e cantavam slogans de extrema-direita. Normalmente desapareciam tão repentinamente como tinham chegado. As actuações nocturnas, em particular, faziam lembrar as procissões de tochas dos nacional-socialistas.

A máscara destinava-se a evitar que os indivíduos fossem acusados de acções ou declarações concretas. A intenção é assim semelhante à do Bloco Negro do Antifa ou dos "nacionalistas autónomos".

O que é novo nos Imortais, segundo o cientista político de Potsdam Gideon Botsch, "é que os extremistas de direita abriram novos meios de comunicação e novas formas de acção, e podem assim romper, até certo ponto, a sua marginalização por parte do mainstream."

A revista Stern também fez um artigo sobre este fenómeno (aqui, em alemão). No youtube encontram-se vários vídeos desses cortejos (os muito curiosos podem procurar por "die unsterblichen"), com as imagens manipuladas para parecerem muitos. A um deles juntaram a canção "das volk steht auf der sturm bricht los" do filme Kolberg (um filme de propaganda encomendado por Goebbels).

Voltemos a Portugal: o SOS Racismo apresentou queixa ao Ministério Público. Esperemos que a Justiça actue, pegue nas provas que o próprio grupo publicou na internet, e explique a esta gente que a intimidação também é crime. Nós cá estaremos para acompanhar este processo de perto e escrutinar.

Para além da Justiça, é imperioso que o Governo e a Presidência tomem uma posição sobre o assunto, e deixem muito claro que no Portugal democrático não se admitem manobras de intimidação, muito menos imitando os métodos do Ku Klux Klan e dos neonazis alemães.
Quanto à encenação propriamente dita: aquela dúzia e meia de párias fez a encenação não apenas para testar o sistema democrático português, mas também para tentar ganhar palco com imagens "vistosas" na net. Precisam de palco, e contam connosco para o ganhar: as imagens foram feitas para o nosso instagram, o nosso twitter, o nosso facebook. E é justamente por isso que não as partilho. Não deixo que usem o meu repúdio como elemento multiplicador de um palco que de outro modo não teriam. Essa gente não merece a fama - merece ser confrontada em tribunal com as leis do seu país, e receber a justa pena pelos crimes que comete. Por isso, temos de aprender a desprezar estas imagens que eles criam com o único propósito de lhes servirmos como departamento gratuito de marketing. Não daremos palco às imagens, mas divulgamos o abuso e exigimos do Estado democrático que faça respeitar os valores da Constituição.
--- A propósito, partilho dois textos, trazidos do mural de facebook do jornalista Ricardo Cabral Fernandes, que nos informam sobre o que está a acontecer em Portugal neste momento:
1. A extrema-direita está cada vez mais arrojada nas redes sociais, numa tentativa de espalhar medo e criar um clima de perseguição permanente. Há militantes seus a criar páginas dedicadas a identificar e denunciar pessoas associadas à esquerda. É mais um sinal de acompanhamento das tendências da extrema-direita vistas noutros países.
No início deste mês, foi criada no Facebook uma página chamada Piratas do Regime. O seu objectivo? Denunciar o marxismo cultural na sociedade portuguesa. Fotografias com os rostos de académicos, jornalistas e dirigentes de organizações de apoio a refugiados são acompanhados por pequenos textos em que se explica as razões de serem inimigos da pátria e ideólogos do anti-racismo na sociedade, principalmente no meio académico. Os alvos foram sobretudo académicos da Universidade de Coimbra, mas também houve do ISCTE-IUL, do Politécnico de Setúbal e da Universidade Nova de Lisboa.
As suas publicações, muitas das vezes com dezenas de partilhas, circularam em grupos da extrema-direita portuguesa e algumas tiveram centenas de 'gostos'. É como se as publicações fossem uma lista pública de alvos, algo comum entre a extrema-direita, olhe-se para a Alemanha, por exemplo. É intolerável em democracia.
Contrariando o "sucesso" que a página estava a ter, os administradores anunciaram que iria, "por agora", ficar adormecida, sem dar mais explicações. Mas, poucos dias depois, foi criada uma outra ferramenta com o mesmo objectivo, desta vez no Twitter.
Chama-se PIDE e na sua apresentação declara que tem o dever de "expor aqueles que estão activos em processos destinados a prejudicar os portugueses e os seus aliados europeus", para "ajudar na segurança do povo português e da sua nação".
Ao contrário dos Piratas do Regimes, esta nova página anónima parece agir de forma descentralizada, apelando aos seus seguidores para enviarem todo o material que puderem (fotos, textos, perfis, etc) sobre quem considerem uma ameaça para Portugal. E já se sabe o que querem dizer com isso.
A PIDE diz ter uma "cooperação com a Legião Portuguesa", não se sabendo se é humor, dado que as suas publicações têm essa característica, ou se é uma referência à organização criada depois de uma cisão da Nova Ordem Social de Mário Machado. Inclino-me para a primeira hipótese, mas não afasto a segunda. A conta não revelou até agora as identidades de pessoas associadas à esquerda, optando por denunciar os Antifa portugueses e as suas ligações ao Curdistão.
Na primeira vez que o vi, o Twitter da PIDE ainda tinha poucos seguidores (menos de 100) e não seguia ninguém. Até ao momento, os seus seguidores, entre os quais a Frente Nacional Portuguesa, usam contas com nomes a gozar e claramente associados à extrema-direita. Mas o número de contas "reais" está a aumentar, e sempre de pessoas associadas à fachoesfera.

2. Na calada da noite, duas dezenas de militantes de extrema-direita organizaram este domingo um protesto em frente à sede do SOS Racismo em "homenagem aos polícias mortos em serviço" e contra o seu "racismo anti-nacional". É o mais recente protesto contra a organização, depois de a fachada da sua sede ter sido vandalizada e recebido um e-mail com ameaças de uma recém-formada "milícia" de extrema-direita.
Este novo grupo, fundado no início de Julho, chama-se Resistência Nacional e é composto por antigos elementos da Nova Ordem Social, de Mário Machado, do Partido Nacional Renovador e por membros dos Portugal Hammer Skins. Também tem ligações a claques de futebol ilegais, como os 1143 do Sporting Clube de Portugal, e a apoiantes do Chega.
A militância de extrema-direita mais hardcore continua reduzida em Portugal e, portanto, é normal haver esta sobreposição de membros. Grupos nascem e morrem, fruto de divergências ideológicas e disputas de poder, para depois outros serem fundados, e os elementos vão circulando por este universo. É possível que daqui a uns meses este grupo acabe por definhar ou evolua para algo mais num país cada vez mais polarizado. Mas é de destacar o ganhar confiança e o uso de novas formas de protesto.
A organização está a tentar evitar a continuação das guerras que durante anos caracterizaram a extrema-direita portuguesa, tentando promover a unidade. “Não nos queremos sobrepor aos outros movimentos, nem nos interessam guerras internas do Nacionalismo no passado. Não interessa se és identitário, Chega, PNR, MON, NOS…”, lê-se numa publicação de Facebook. “Com todas as nossas diferenças, entendemos que o inimigo é a esquerda e os liberais. Mais ninguém! Basta de grupos e grupinhos, só com uma ponte de entendimento chegaremos a algum lado”.
A extrema-direita portuguesa tem nos últimos tempos tentado ultrapassar as suas divergências ideológicas e guerras de grupelhos, em grande parte incentivada pela entrada do Chega na Assembleia da República. Já houve dois encontros, um no Porto e outro em Lisboa, em Julho, com o objectivo explícito de se ultrapassarem as divergências – do segundo terá resultado a auto-denominada milícia Nova Ordem de Avis.
O objectivo da Resistência Nacional é, de acordo com uma fonte, organizar “protestos silenciosos” em frente a instituições que consideram anti-patriotas - vêem o SOS Racismo como "anti-nacional". É o mínimo denominador comum – o ódio ao SOS Racismo e aos Antifas é transversal – para uma certa unidade e, se assim for, é também um sinal de replicação de tipologias de protesto e estética vistos noutros países – as máscaras e tochas são objectos usados na Europa de Leste.
O grupo está a recrutar activamente, difundido propaganda pouco elaborada no YouTube, e organiza-se na rede social de mensagens encriptadas Telegram e no Facebook, onde tem uma página e um grupo onde abundam publicações racistas e favoráveis ao Chega. Também tem um fórum de discussão "dedicado a todos os nacionalistas portugueses". O clássico.
Um dos principais elementos da Resistência Nacional esteve vários anos emigrado na Bulgária, onde se integrou no circuito da extrema-direita búlgaro, e chegou a representar o Nova Ordem Social numa manifestação com mais de dois mil nacionais-socialistas em Sófia, em Fevereiro de 2019, em homenagem ao general pró-nazi búlgaro Hristo Lukok, assassinado por dois militantes antifascistas em 1943.
Não é a única relação internacional. A organização já está a tentar estreitar laços com outros países da Europa de Leste, nomeadamente com a Polónia. A organização anunciou que vai estar presente na marcha de extrema-direita do dia da independência polaco, a 11 de Novembro. É a maior marcha de extrema-direita na Europa e serve como ponto de encontro internacional. Porém, não é de esperar uma grande comitiva de portugueses, antes uns poucos para estabelecerem contactos, o que já aconteceu no ano passado.
A extrema-direita polaca é elogiada pela restante extrema-direita europeia, incluindo a portuguesa, por ter uma máquina muito bem oleada.


saiam da frente, que chegou a vez dos bloggers!

 



Diz o JN (no artigo de onde trouxe a foto que está creditada: DR): "O Governo brasileiro nomeou a "blogger" de turismo Monique Baptista Aguiar para um cargo de coordenação da Fundação Nacional de Artes (Funarte), importante órgão de fomento artístico no país." Ora bem: já só me falta escrever todos os posts sobre a Bretanha que tenho alinhados na cabeça (são mais de trinta), comprar um bikini cor-de-rosa e uns óculos de sol grandes, e fico habilitada para dar uma fantástico salto na minha carreira.

(Ui, estava-me a esquecer que também é preciso que o sistema democrático português descarrile de forma brutal) (portanto: meus amigos, se querem ver a maior incompetência possível na atribuição dos apoios para a cultura, nas próximas eleições votem todos nos oportunistas do Chega; eu cá vou fazer a minha parte: escrever posts com recomendações de viagens) (e comprar um bikini cor-de-rosa; os óculos, se calhar também servem uns que encontrei anteontem na praia - têm uma haste meio partida, mas com jeitinho dá para a foto)

10 agosto 2020

t-shirt para estes tempos encoronados (2)

 




Ontem fomos ao farol da Île Vierge.

Além de ver o farol de pedra mais alto do mundo etc. etc, vi:

Pessoas que não se conheciam sentadas lado a lado e a tirar as máscaras para conversar melhor. Pessoas que baixavam a máscara para fazer perguntas ao guia do barco. Pessoas com o nariz de fora da máscara (o clássico da temporada). Pessoas que baixavam a máscara para subir os 360 degraus de pedra mais uns quantos de ferro até chegar ao topo. Pessoas que, já agora, também baixavam a máscara para descer os mesmos degraus. 

De modo que estou com vontade de imprimir numa t-shirt alguma frase que alerte os outros para a presença do vírus entre nós. Hesito entre: 

"Desculpe, mas não posso garantir que não seja portadora de Covid"

"Tem a certeza que eu não tenho Covid?"

"E se eu tivesse Covid, vocês usavam a máscara?"

"Não se preocupe - acho que este meu aspecto febril não é de Covid"

"Por favor não se aproxime: só amanhã é que vou receber o resultado do teste. Acho que não tenho Covid, mas nunca se sabe..."

"Sou cuidadora de doentes com Covid. O último teste que fiz deu negativo, mas entretanto..."


(Sim, sim, bem sei: se sair à rua com uma t-shirt assim, talvez seja boa ideia ir também de capacete e outras protecções contra linchamentos populares...)



t-shirt para estes tempos encoronados

 


Já faltou mais para mandar fazer uma t-shirt com este desenho impresso na frente e nas costas, e usá-la sempre que vou à rua.


06 agosto 2020

em Brest como na Amazónia

Em Brest como na Amazónia: passaram golfinhos, e só lhes vi os anéis que deixaram na água.

Como hoje não é dia de São Tomé, não vou à procura das centenas de fotos que fiz desses anéis num rio da região amazónica boliviana, nem partilho a que fiz quando ouvi o "anda cá ver depressa, há golfinhos no rio" que o Joachim me gritou para a casa de banho. Ele estava a telefonar na cozinha, olhando distraidamente pela janela, e nem queria acreditar quando viu à sua frente golfinhos em animada folia.

Já na semana passada aconteceu o mesmo: a caminho da ilha de Ouessant, o piloto parou o barco para nos mostrar os golfinhos que andavam ali aos saltos. Mal eu olhei, os golfinhos deixaram de aparecer.

De modo que estou na dúvida: será que existem golfinhos, ou é mais uma teoria da conspiração? Andam-me a fazer gaslighting? Será que estes golfinhos são apenas o monstro de Loch Ness que volta e meia vai de férias para os mesmos lugares que eu?

(Mais um bocadinho, e estou capaz de acreditar que a terra é, sei lá, quadrada)


05 agosto 2020

Erline Moreira


Bom dia, meus queridos amigos.
E porque o caso é sério, acrescento: bom dia, meus queridos inimigos e pessoas que em geral se irritam muito comigo.
Ai quase ia esquecendo: bom dia, bots! (Tudo bem? 😎😅💩💪💦🙉😻😷😭 e parabéns pelo aniversário, etc. )
Venho falar-vos da Erline Moreira, uma lutadora que cresceu em condições económicas muito difíceis, mas teve a sorte de descobrir um dom especial para a música, e com grande esforço e determinação fez o seu caminho até uma bolsa de mestrado em Manchester. Já falta muito pouco para conseguir chegar à meta, e é para isso que peço a vossa ajuda. Aqui podem ler o testemunho da Inês Thomas Almeida, que a conhece pessoalmente e tem acompanhado o caso: https://www.facebook.com/inesthomasalmeida/posts/10158626169873953
A Erline já conseguiu 5.000 euros, mas precisa de outros 5.000. O que vos peço (e prometo que tão cedo não volto a pedir nada, nem sequer receitas de cozinha): será que podem dar uma ajudinha no crowdfunding?

Portanto:
- Aos meus amigos cristãos: nem é preciso dizer nada, certo?
- Aos meus amigos de esquerda: bem sei que o Estado é que devia assegurar isto, mas enquanto não chegamos a esse estádio superior da civilização, podem dar uma ajudinha?
- Aos meus amigos de direita: vejam bem este vídeo – em termos de mérito, estamos conversados. A fase seguinte é recompensá-lo.
- Aos meus amigos que se comovem com o HONY: esta é a vossa oportunidade de participarem num desses momentos altos de humanidade.
- Aos meus amigos melómanos: ajudem, e daqui a uns anos vão vê-la num concerto e vão poder dizer com orgulho “aquele si bemol paguei-o eu!”
- Aos meus amigos e aos meus inimigos que já dão para os sem-abrigo/crianças em situação precária/desempregados/animais abandonados/etc. – a vocês não peço nada, que já fazem muito bem a vossa parte.
- Aos meus amigos/inimigos/bots que dizem “ai, porque é que vamos dar a esta, quando temos tantos sem-abrigo/crianças em situação precária/desempregados/animais abandonados/etc. que também precisam de ajuda?”: juntem-se ao grupo anterior, e façam realmente alguma coisa, em vez de tentarem envenenar o esforço dos outros.
- Aos meus amigos/inimigos e em especial aos bots: partilhem o link para o crowdfunding (https://www.gofundme.com/f/mestrado-em-manchester-master-in-manchester).
- Aos meus inimigos e às pessoas que em geral se irritam muito comigo: dei 50 euros. Prometo que se derem o dobro me vou sentir profundamente enxovalhada. Humilhação para a vida toda, garantido! Vá: mostrem-me que não presto, mostrem-me que sou uma unhas-de-fome sem mérito nenhum.

Podem clicar neste link (https://www.gofundme.com/f/mestrado-em-manchester-master-in-manchester) e ajudar com cartão de crédito, ou se preferirem fazer directamente uma transferência bancária para a conta da Erline Moreira:
IBAN PT50003508500000573870028
BIC: CGDIPTPL

Obrigada a todos.

26 julho 2020

ou não

Esta manhã Brest acordou em pleno verão: céu azulíssimo, sol como deve ser, tudo a preceito.
Fiquei na dúvida: será mais avisado preparar-me para ir à praia, ou tentar arranjar rapidamente um escafandro em segunda mão?
Ao pequeno-almoço chegaram as nuvens: enormes, brancas, densas. Uma hora mais tarde, toda a cidade estava na penumbra.

Se bem entendo os sinais que me fazem: provavelmente vai ser uma tarde fantástica de praia.
Ou não.


25 julho 2020

imensíssimo mar




Hiroshi Sugimoto, 'Atlântico Norte, Cape Breton', 1996.

Encontrei esta imagem no mural de facebook da artista Bia Wouk, que a descreve assim:

"A série de mares de Sugimoto é metafísica, uma destilação da paisagem, uma exploração dos limites físicos e espirituais. O tempo de exposição de cada foto é de muitas horas, captando todas as mudanças sutis no mar e na luz durante um dia e uma noite. O resultado é uma meditação zen."


Para mim, o resultado é um buraco negro: impossível resistir.
(Ah, se a Ikea se lembrasse de vender isto imprimido sobre uma tela enorme!)
(Oh, acabei de descobrir que foi leiloado pela Christie's por 150 mil dólares. Suponho que já sei porque é que a Ikea não se lembrará nunca de vender esta imagem.)

E eis que descubro que outros seguiram o exemplo de Hiroshi Sugimoto, e fizeram trabalhos também muito apelativos. Por exemplo, 
Daniel Fuller // Meditation on Blue. 



Uma pessoa vê isto e começa a sonhar: "ah, se se arranjasse uma janela em frente ao mar..." e "ah, se eu conseguisse aprender a fotografar assim!"

Sendo que "aprender a fotografar assim", no meu caso, é ainda mais difícil que arranjar uma casa com uma boa janela para o mar. 

Portanto: será que alguém me arranja o contacto da pessoa responsável pela escolha dos produtos de decoração da Ikea? Com whatsapp, faz favor, para não gastar o meu dinheiro todo a ligar para a Suécia.


a Bretanha (des)igual a si mesma

Na noite passada dormi com a janela aberta, e antes de adormecer fiquei a olhar para as nuvens densas que passavam cheias de pressa. Era estranho, porque não havia vento nenhum mas elas passavam baixas e velozes. 

Hoje amanheceu cinzento. "Óptimas notícias!", pensei eu, "daqui a nada muda, vai ser um belo dia" - e pus um vestido leve para ir à feira semanal de Saint Renan (o meu novo vício aos sábados) e seguir depois para dar um mergulho nas águas verde-paraíso do Aber Benoît, e apanhar uns bigorneaux para o jantar. 

Como previsto, daí a nada o tempo mudou. Sim, mudou - mas para pior. Quando saí de Saint Renan, a caminho da praia Sainte Marguerite, a chuva desbragou-se toda, como se a Bretanha se quisesse desforrar num dia só de todas as semanas de verão que já nos deu. 

Era tão forte que perdi até a vontade de ir visitar algumas igrejas que tenho na minha lista.
"Não, nem pensar. Este tempo pede chá e gâteau breton, e o conforto de casa", decidi.
Dei meia volta e regressei a Brest. 

Quando estacionei o carro em frente de casa, parou de chover. E quando comecei a fazer o chá, o sol abriu a prometer uma linda tarde. 

Alguém arranje de mandar o São Pedro bretão a um psi, que este comportamento não é normal. 

 

24 julho 2020

a turista acidental



Quando fiz as malas para vir para a Bretanha tive o cuidado de incluir poncho, impermeável e galochas. Mas o aquecimento climático (ou então deu a senilidade precoce do São Pedro) trocou-me as voltas. Durante o confinamento, raramente choveu. E mesmo depois, tem dias. 

Isso mesmo: tem dias. Eu é que me esqueço - e esqueço-me sempre de levar o impermeável. 

Hoje, por exemplo: vesti-me de verão, e pus-me a caminho de Pont-Aven. Depois do almoço - justamente quando queria dar um passeio pelo Bois d'Amour até à capela onde o Gauguin encontrou o seu "Cristo amarelo" - começou a chover. Ora, fazer uma caminhada de vinte minutos à chuva não tem graça nenhuma, pelo que entrei numa loja de turistas para comprar um impermeável bretão.
De qualquer modo já andava há meses a namorá-los, será hoje? será amanhã? - foi hoje. 

Escolhi depressa, mas demorei um bocadinho mais a pagar, porque o leitor de cartões estava esquisito. Quando saí da loja, já tinha parado de chover. 

É a Bretanha...

Em todo o caso: já cá canta um impermeável. Que isto de ir à Bretanha e não comprar um impermeável é como ir a Roma e... e... não comprar um daqueles globos com neve a cair no Coliseu. Ou outra porcaria qualquer para turistas.


23 julho 2020

P.E.I.D.A.

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Encontrei este vídeo no mural de facebook do Vasco Pimentel, com um comentário a dizer assim:

"Ergue-ma até dizer chega."

A gente ri-se muito e partilha, claro. Mas não consigo evitar um certo sabor amargo: é óbvio que eles escolheram este nome para a gente se rir muito e partilhar. Hoje em dia, em termos eleitorais, andar nas bocas do mundo é o plano B para quem não consegue ter participação num programa de televisão, ou até um programa seu.

Beeem, mas já que me ri e partilhei, partilho mais algumas piadinhas:

 

Do Paulo Pinto, no facebook:

"a moda dos partidos-interjeição parece ter pegado. Primeiro foi o populista Chega! (que integrava a coligação Basta!) e agora o nacionalista Ergue-te!. Aguardo ansiosamente pelo radical Toma!, pelo anarquista Foda-se!, pelo europeísta Yess! ou pelo pacifista Tásse!"

 

 

Também havia alguém que dizia:

"Ergue-te!

o partido do Comprimido Azul"


 

E o Jovem Conservador de Direita, com a habitual precisão cirúrgica:

"O país soube ontem que o PNR passou a chamar-se Ergue-te. Fico surpreendido, pensei que o PNR já nem existia; pensei que os chegófilos os tinham afogado como vulgares migrantes do Mediterrâneo. E se era para afogar migrantes, até o Dr. Pinto-Coelho concordaria. É uma excelente notícia, como quando sabemos todos os anos que o Dr. Vasco Granja morreu, mas permite-nos recordar o Dr. Vasco Granja.

Este rebranding da União Nacional, outrora PNR, demonstra progresso. Tenho dúvidas é que as 17 pessoas que ainda apoiavam o Dr. Pinto-Coelho aceitem. O Dr. Pinto-Coelho deve ter preparado uma sessão de slides e acetatos e terá dito: "Nós éramos a Kas Cola da extrema-direita e fomos ultrapassados pela Spur Cola. Temos de nos adaptar e ser mais como a Spur Cola. Aliás, nós nem somos como eles, eles é que são como nós, mas mais eficazes. Por isso, temos de nos identificar como outra coisa, apesar de termos nascido uma coisa. Ergue-te!" E ergueram-se todos, apesar da idade.

É claro que há quem diga que o nome do partido parece um anúncio de disfunção eréctil. E de certa forma é. Se pensarmos na democracia como um útero à espera de carregar no ventre partidos políticos que a inseminam, o PNR sempre foi o pénis flácido porque não consegue excitar-se com democracia. Fica ali, como um apito, feito de pano, a fazer de conta que quer muito, mas acaba por se retrair e parecer uma pequena vagininha, uma portinha USB, penetrada por outros partidos que disfarçam melhor.

O travestismo pode salvar o PNR. E pode salvar-nos da extrema-direita (que não existe). Quantos mais partidos houver, mais polarizado fica o voto. Se tivermos o Chega, o Ergue-te e, em breve, numa última tentativa de sobrevivência, o CDS, o voto fica polarizado e haverá menos hipótese de elegerem deputados. É claro que o CDS terá de mudar de nome também. Por exemplo, poderá ser baptizado como o Pilão da Democracia, numa alusão a um utensílio de cozinha que serve para esmagar ingredientes. É claro que tem também uma alusão a masculinidade, tão presente no Dr. Nuno Melo e no Dr. Chicão. Acima de tudo, ficam lado a lado com outro utensílio de cozinha que todos eles amam."

 

 

22 julho 2020

QI

Apareceu-me no facebook um teste para aferir o meu QI. Durava 20 minutos, mas como era ao fim do dia, e eu até tenho uma certa curiosidade por este tipo de perguntas, decidi lançar-me a ele. Consegui responder a todas as questões menos uma. Ainda tinha 7 minutos, mas não me apeteceu pensar para tentar responder à última - tanto mais que aquilo era apenas mais uma gracinha no facebook. Quando fui ver o resultado, descobri que tinha de pagar quase 20 dólares para receber um certificado. Sem isso, fico sem saber o meu QI.

Só então fui ler as letras pequeninas: "patrocinado".
De modo que, sim, fiquei a saber o meu QI: 50, no máximo...


21 julho 2020

"operação valkíria"

20 de Julho de 1944 - Operação Valkíria Confesso que não sabia muito sobre a #Operação_Valkíria. Sabia que houve boa gente ligada ao grupo (falei disso há tempos aqui) e partia sumariamente do princípio que qualquer tentativa de eliminar o Hitler era positiva. Por causa do tema do dia fui ler a wikipedia alemã, e nesse artigo o que mais me chamou a atenção foi, por um lado, os resultados nefastos de certas tomadas de posição por parte dos outros países, e, por outro lado, a subjectividade na análise deste caso. Vou sumariar e traduzir algumas partes desse artigo:
Desde a subida de Hitler ao poder que houve tensões entre o novo regime e grupos conservadores das chefias do Exército, que eram mais ou menos resolvidas pelo princípio da sujeição militar ao primado da Política. Em Setembro de 1938, um grupo de militares estava a preparar um golpe de Estado como resposta à ordem de Hitler de invadir a Checoslováquia para se apoderar da região dos sudetas. Mas os planos desfizeram-se quando Chamberlain foi a Munique oferecer a Hitler a Sudetenland de mão beijada. O povo alemão, que se opunha a uma guerra, encheu-se de entusiasmo e regozijo pelo poder do seu Führer. Os militares perderam assim a base de apoio da qual necessitavam para realizar o golpe de Estado com sucesso. Antes da invasão da Polónia, um membro da inteligência militar alemã foi à Grã-Bretanha pedir que enviassem uma esquadra para Danzig, para servir de ameaça de uma guerra com duas frentes, de modo a travar os planos de Hitler, mas não foi ouvido. Os sucessos na invasão da Polónia e da França aumentaram ainda mais o entusiasmo, tanto ao nível do povo como das elites – nomeadamente em Stauffenberg. Este oficial tinha uma posição ambígua: começou por aprovar com entusiasmo a recusa do tratado de Versalhes mas recusou-se a entrar para o partido nazi; afastou-se do regime após os ataques aos judeus de 9 e 10 de Novembro de 1938, mas após o rápido sucesso na invasão da Polónia e da França exclamou: “quanta mudança em tão pouco tempo!” A sua ideia era vencer a guerra e depois tratar da “peste castanha”, mas mudou radicalmente de opinião ao ver os massacres de civis na frente Leste, o assassínio de três milhões de soldados soviéticos prisioneiros de guerra, e as execuções de centenas de milhares de judeus.
Em Junho de 1942, quando o exército alemão começou a dar os primeiros sinais de fraqueza na frente Leste, o jurista Adam von Trott zu Solz enviou um pedido de ajuda ao governo britânico, mas não foi levado a sério. Grupos ligados a dois oficiais provenientes de famílias nobres, Tresckow e Stauffenberg, começaram também a preparar atentados a partir de meados de 1942. Nenhuma das tentativas teve sucesso. Até ao verão de 1943 foi Tresckow quem dirigiu os atentados; a partir de Setembro de 1943, Stauffenberg tomou a dianteira. Duas citações:
„Chegou a hora de fazer alguma coisa. Mas quem ousar fazê-lo tem de ter consciência de que vai entrar na História alemã como traidor. No entanto, se não o fizer, tornar-se-ia um traidor da sua própria consciência.”
“Não conseguiria olhar de frente para as mulheres e os filhos dos caídos se não fizesse tudo ao meu alcance para impedir este sacrifício sem sentido de tantas vidas humanas.”
Depois do desembarque na Normandia, Stauffenberg pergunta a Tresckow se ainda é necessário fazer um atentado. Resposta deste: „Temos de fazer um atentado, custe o que custar. Mesmo que não resulte, é preciso fazer alguma coisa em Berlim. Já não se trata do objectivo prático, mas de mostrar ao mundo e à História que a resistência alemã arriscou a própria vida para a jogada decisiva. Comparado com isto, tudo o resto é indiferente.”
A descrição dos planos e a análise dos motivos do fracasso são muito interessantes, mas vou passar directamente à questão seguinte: como é que este movimento entrou na História.
A propaganda nazi acusou os autores do atentado de serem “cobardes traidores da pátria”, que escolheram dar uma facada nas costas da Alemanha num momento extremamente difícil para o país. Esta versão ainda tem seguidores nos nossos dias.
Como motivação comum para acção deste grupo (para lá dos princípios éticos ou da tomada de consciência perante as atrocidades), os historiadores contemporâneos apontam o “interesse nacional”. O diletantismo de Hitler estava a conduzir a Alemanha para uma tragédia cada vez maior, e importava agir para limitar a dimensão do desastre. O “interesse nacional” é uma motivação particularmente óbvia para as acções de 1938 a 1940.
Historiadores de orientação marxista vêem neste movimento de resistência uma tentativa, por parte dos aristocratas „oficiais de Hitler“, para evitar a ocupação da Alemanha, a perda das suas próprias propriedades no Leste e a perda dos privilégios da casta de oficiais. Para estes historiadores, a verdadeira resistência foi feita pela KPD e pela Rote Kapelle. Outros historiadores dão mais importância a Georg Elser e ao grupo Weiße Rose, pelo seu carácter democrático, do que à conspiração do 20 de Julho. Stauffenberg seria monárquico, e portanto não era um democrata. Joachim Fest e outros historiadores defendem que Stauffenberg era monárquico (e portanto, não republicano), mas que era com certeza um democrata.
Certo é que do grupo faziam também parte alguns nazis radicais, como:
- Eduard Wagner, co-responsável pelo assassínio de milhões de prisioneiros de guerra soviéticos, e que temia consequências quando o Exército Vermelho chegasse à Alemanha;
- Arthur Nebe, comandante dos grupos de comando B (os que iam atrás do exército na frente e atacavam as aldeias de judeus – ou outras – destruindo e massacrando) e responsável pelo genocídio dos Roma e Sinti (Porajmos);
- Wolf-Heinrich Graf von Helldorff, nazi da primeira hora e que com um currículo de ataque aos judeus que já vinha de antes de 1933.
Não obstante, entre os outros membros do grupo houve vinte que assumiram perante o tribunal nazi que tinham agido para impedir o crime do Holocausto, e não cederam nessa posição nem mesmo para tentar salvar a vida. Os historiadores admitem que tenha havido um processo de tomada de consciência que os levou de uma adesão inicial ao regime a um repúdio total. Como Tresckow disse, ao despedir-se de um amigo: “Se Deus prometeu uma vez a Abraão que não destruiria Sodoma se nela encontrasse dez justos, espero que, devido a nós, não destrua a Alemanha. [...] O valor moral de um homem só começa quando ele está preparado para dar a vida por aquilo em que acredita.”
Reacções internacionais:
O atentado foi visto com um certo desprezo, uma vez que o inimigo era considerado moralmente inferior no seu conjunto. Churchill comentaria que se tratava de "lutas de extermínio entre as elites do Terceiro Reich" e que "as principais personalidades do Reich alemão estão a matar-se umas às outras, ou procuram matar-se umas às outras; mas os seus dias estão contados". Os EUA acompanhavam Churchill nessa análise. O NYT escreveu que se tratava de um ajuste de contas no contexto de um obscuro mundo de criminosos, e que este não era o comportamento que seria de esperar de um corpo de oficiais de um Estado civilizado. Num jornal militar soviético lia-se que a Alemanha não seria vencida por oficiais rebeldes, mas sim pelo Exército Vermelho e seus aliados. “Os nossos exércitos são mais rápidos que a consciência dos 'Fritzen“.
Já a alemã Marion Gräfin Dänhoff, jornalista e editora do semanário Die Zeit, apontou para o „muro de silêncio“ que o estrangeiro ergueu, apesar dos pedidos de apoio por parte de alguns membros da resistência, e critica o modo como esses países aceitaram a versão de Hitler, vendo no atentado do 20 de Junho um acto de oficiais ambiciosos.
A Alemanha depois de 1945:
Tanto na RFA como na RDA temia-se o surgimento de um nova ficção como a do „punhal nas costas“ que surgiu após a primeira guerra mundial. As populações dos dois países estavam ainda muito marcadas pela versão da propaganda nazi.
Na RFA estes oficiais começaram a ganhar boa fama a partir de meados dos anos 50, com o processo Remer (um oficial que foi levado a tribunal por ter chamado traidores aos autores do atentado – este processo acabou por confrontar a Alemanha consigo própria: para exigir respeito pelos autores do atentado era preciso que um tribunal alemão assumisse o carácter de Unrechtsstaat da Alemanha nazi). No entanto, a população evitava o tema. Segundo o historiador Joachim Fest, parte desse repúdio advinha do facto de os nazis ainda estarem integrados na sociedade até aos mais altos cargos, por um lado, e de, por outro lado, os jovens da revolução de 68 terem dificuldade em aceitar dar tanta importância à resistência ao fascismo com origem num grupo de nobres e generais, fascistas e criminosos de guerra, em vez de de operários, camponeses, mulheres, prisioneiros e desertores. A crescente liberdade dos meios de comunicação contribuiu para melhorar a fama deste grupo de resistentes, e o simples facto de terem existido permitiu à Alemanha libertar-se da tese da culpa colectiva (expresso por exemplo num discurso pseudo-cristão no qual se comparam os membros deste grupo que pagaram com a sua vida a uma espécie de “cordeiro de Deus” que redimiria os alemães do seu pecado). Ou como Tresckow dissera uns anos antes: “se houver 10 justos em Sodoma...”
Os partidos políticos mantiveram uma posição dúbia em relação ao atentado, porque não queriam afastar nenhum possível eleitor, nem sequer os antigos simpatizantes dos nazis. Em 1946, Adenauer manifestou-se radicalmente contra a atribuição de uma pensão às viúvas dos condenados pelo atentado. Mas oito anos mais tarde anunciava num discurso na rádio: "Quem, por amor ao povo alemão, se comprometeu a quebrar a tirania, como as vítimas de 20 de Julho, é digno da estima e da veneração de todos".
Na RDA, a narrativa era bem diferente: os autores do atentado eram „agentes reaccionários do imperialismo americano“. A conspiração teria sido „na sua totalidade e na sua essência um empreendimento radicalmente reaccionário para salvar o imperialismo alemão e o poder dos monopólios antes de serem esmagados". Mais tarde, no sentido da teoria marxista da história, foram passados para a categoria de "idiotas úteis", ou seja, como elementos originalmente inimigos da classe trabalhadora que tinham, contudo, apoiado involuntariamente o exército soviético a vencer na sua luta contra o fascismo. Por volta de 1980, as chefias do partido único SED recordaram a sua tradição prussiana e fizeram uma avaliação cautelosamente positiva dos participantes do dia 20 de Julho. No filme “ Libertação”, que foi produzido sob a direcção da União Soviética de 1969 a 1972, o atentado ocupa bastante espaço e é apresentado de uma forma claramente positiva.
Hoje em dia, em toda a Alemanha é reconhecido o mérito destes resistentes.