22 Setembro 2014

será só fumaça dentro daquelas cabeças, ou andam a tentar atirar-nos areia para os olhos?

Tenho acompanhado o debate sobre a Lei da Cópia Privada, sobretudo no blogue da Maria João Nogueira. Sinto uma grande admiração por esta mulher, por muitos motivos, e também pelo modo empenhado e sério como tem estado neste debate. Em vez de se lamentar em conversas derrotistas de café, parte para a luta, e mostra-nos que é possível, como cidadão, participar no árduo trabalho quotidiano da Democracia.

Graças a ela descobri hoje um texto tão divertido quanto brilhante sobre esta questão, que copio para aqui (volta e meia, gosto de abrilhantar este blogue). Se, depois de textos como este e os do Jonasnuts, o pessoal continuar a insistir que é preciso pagar esta taxa, o melhor é pedir à OMS que mande para Portugal equipas de emergência de Psiquiatria, porque vai por lá uma epidemia de autismo.

Segue-se o post do Marco Santos (roubado daqui):


LEI DA CÓPIA PRIVADA: O FUMO DE INÊS PEDROSA

Nuno Ferreira Santos
Inês Pedrosa fotografada por Nuno Ferreira Santos
Os fumos da polémica em torno da Lei da Cópia Privada, agora entregue pela Secretaria de Estado ao Parlamento, resumem-se ao genérico «Não pagamos!» – urro de egoísmo que, nesta sociedade em rede de malhas trôpegas e costas largas, passa por acto de cidadania.
Ah, o respeitocrónica de Inês Pedrosa no semanário Sol
Cara Inês Pedrosa, não urramos um genérico «Não pagamos!», mas um concreto «Já pagámos!»
Mesmo para trôpegos de costas largas, é difícil compreender que se tenha de pagar outra vez pelo direito à utilização legal do que já se comprou.
Resumindo: esta lei deixa-me copiar, para uso privado, obras que eu já comprei. Sei bem o que digo, pois tenho aqui gravada a música de mais de três mil discos-compactos copiada da minha estante para o computador.
O meu problema é perceber em que medida as cópias que fiz dos discos dos Pink Floyd, por exemplo, causam prejuízo ao José Cid. Como se calcula a compensação que o autor de «Como o macaco gosta de banana eu gosto de ti» deve receber pela cópia privada de «Another Brick in The Wall»?
Como se faz as contas ao prejuízo?
Uma pista: não é através da Matemática ou da Lógica.
Outro exemplo, perdoe-me o egoísmo: como se calcula a atribuição desta compensação no caso dos cidadãos produtores de conteúdo? Um pai de família que usa um telemóvel de última geração para fotografar os seus bebés e guardar os orgulhosos ficheiros num disco rígido, deve pagar porquê – e a quem?
Como se calculam estas contas se não há artista a quem atribuir a origem da cópia?
Uma pista: não é através da Matemática ou da Lógica.
Terá a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) de compensar todos os artistas que escreveram canções sobre relações familiares? Talvez o Tony e o Mikael Carreira possam beneficiar das fotos tiradas por esse pai de família, uma vez que até fizeram uma canção chamada «Filho e Pai».
A quem devem os adolescentes das redes sociais pagar pelas «selfies» que tiram? Ao já mencionado José Cid, por ter tirado a mais célebre de todas?
(Desculpe, Inês, não era minha intenção transtorná-la com aquela foto – costumo usá-la como firewall para o blogue.)

Demasiado fumo. Que tal aclarar a garganta?

As dúvidas sobre a forma como se calculam tais compensações levam-me a pensar que tais perguntas são irrelevantes. A intenção é salvar economicamente associações representativas dos autores em nome da evidência que a Inês refere: «sem autores não haveria música, nem filmes, nem qualquer forma de criação».
Felizmente para todos os autores que não estão inscritos, sem SPA continuaria a haver música, filmes ou qualquer outra forma de criação.
Se querem subsidiar a Cultura, façam-no com os impostos que nós, os trôpegos, já pagamos; não criem mais um só porque este Governo pensa que solidariedade social se faz transformando Portugal num país de Pirilampos Mágicos.
Tenho inspirado esses fumos da polémica todos os dias e concordo com a analogia que escolheu: os fumos impedem-nos de ver o que está diante do nariz.
No caso da polémica a que se refere e da falsa associação entre cópia privada e combate à pirataria, creio que até se poderá falar em gás de trincheira, fumos lançados por associações como a SPA com o propósito de envenenar a opinião pública mal informada – e a própria Inês, lamento dizer –, impedindo qualquer discussão saudável sobre o assunto.
Não admira por isso que os que estão contra esta taxa façam questão de frisar «o respeito» que devem aos autores e que a Inês classifica como falso e hipócrita: se não encherem a boca com essa palavra, correm o risco de serem acusados de defender a pirataria e querer levar os autores à ruína.
Nunca esteve numa situação em que se viu obrigada a repetir o óbvio perante um interlocutor galacticamente obtuso? Eu sinto-me assim sempre que alguém me acusa de servir o lóbi tecnológico, ignorando o facto de esta taxa dever a sua existência a um lóbi muito mais antigo e eficaz.
A cultura nada tem a ver com isto, cara Inês. A cultura de que fala o senhor Secretário de Estado não é mais do que o manto da invisibilidade que Harry Potter usa para disfarçar as suas verdadeiras intenções.
Compreendo e aceito o uso genérico da palavra «respeito» por parte de alguns opositores à Lei da Cópia Privada, mas obviamente não concordo. O meu respeito pelos autores é conquistado pelos próprios, pelo que fazem e criam, não está sujeito a taxas nem ao julgamento dos cronistas. Os autores são cidadãos como eu e o respeito deve ser recíproco.
Aos autores que gosto e mudaram a minha vida para melhor – excluo dessa lista a J.K. Rowling, já agora -, eu pago com palavras, bilhetes e, sempre que posso, dinheiro. Mas não consigo respeitar um músico que me insulta os ouvidos, um escritor de tretatologias epistemológicas ou artistas que se julgam os únicos juízes da modernidade.
Claro que isto nada tem a ver diretamente com a Lei da Cópia Privada, serve apenas para demonstrar o seu pobre entendimento do nosso «respeito».
A sua crónica, lamento dizê-lo, cheira ao mesmo gás de trincheira com que a SPA procurou envenenar a opinião pública.
Como se pode levar a sério o protesto de um cidadão carregado de impostos que ao insurgir-se contra um imposto disfarçado se vê reduzido a um estereótipo? Por outras palavras, como se pode conversar com trôpegos de costas largas que urram na rede, pessoas que não são consumidoras mas mero instrumentos do lóbi dos eletrodomésticos?
Resposta: não se conversa, manda-se taxar. Não existem problemas morais em extorquir aqueles a quem se nega a existência.

21 Setembro 2014

a Ucrânia da nossa ignorância



Há dias falei com uma pessoa que trabalha numa editora alemã como especialista em literatura do antigo bloco de Leste - e em particular da Ucrânia. Um dos seus projectos mais recentes foi o livro "Euromaidan": em pleno inverno quente na Maidan, ela encomendou análises da situação a especialistas das ciências sociais, e testemunhos in loco sobre esses momentos aos escritores ucranianos.

Contou imenso sobre o país e a situação actual. Contou como a região fronteiriça foi asfixiada - tão simples: um dia, as porteiras dos prédios deram lugar a homens mal-encarados de Kalaschnikov ao peito; no dia seguinte, apareceram controles nas ruas; depois, começaram a desaparecer pessoas; paramilitares perseguiam, agrediam e torturavam os cidadãos. As forças de segurança do Estado, arrastadas na derrocada do sistema Janukowytsch, deixaram de funcionar, pelo que não havia nenhum número de emergência para onde ligar a pedir ajuda. As empresas começaram a fechar, as pessoas fugiram como puderam. Contado assim, parece que é muito fácil matar cidades.

Não compreende o desinteresse e a ignorância dos europeus. Quase ninguém sabe nada sobre aquele país, mas muitos insistem em tiradas assertivas.

Foi a minha deixa, para testar certas opiniões que já ouvi sobre a crise da Ucrânia: que a culpa é da Alemanha e da Polónia, porque provocaram o Putin indecentemente (ela riu-se: é que eu ouvi isto a um político do PSD, e ela costuma ouvi-lo aos deputados dos Linke), ou que será uma tramóia muito maior do que podemos imaginar, com epicentro em interesses económicos americanos.
A sua resposta: quanto menos as pessoas sabem da Ucrânia, melhor se podem servir desta crise para reafirmarem a sua agenda ideológica. O ideal seria que se informassem sobre o país, a sua história e a sua sociedade, em vez de se limitarem a projectar as suas certezas ideológicas no vasto espaço da própria ignorância, para concluirem aquilo que queriam concluir.

E insistiu: vão conhecer a Ucrânia.

E nós, que nos rimos tanto dos americanos que escrevem Lisbon-Spain, que sabemos nós da Ucrânia? Nós, que criticamos tanto o modo com a Alemanha ignorou os imigrantes turcos há 50 anos, como acolhemos os ucranianos que vieram trabalhar para Portugal? Que quisemos aprender sobre o seu país e a sua cultura? Sabemos o nome de algum escritor ucraniano? (Fui procurar no google - não consegui encontrar nenhum romance de um ucraniano traduzido para português, mas em compensação encontrei imensas páginas a informar que o Evangelho do Saramago foi traduzido para ucraniano. Ah, bom, é o que interessa.)

Calhou de esta conversa ter coincidido com o referendo da Escócia, e com o desapontamento por parte daqueles que estavam gulosamente à espera de uma crise na Europa. Para dar uma ensinadela e Bruxelas e Estrasburgo...
Não entendo essa Schadenfreude em relação à Europa. Estamos rodeados de países em dolorosas convulsões, por estarem muito longe daquilo que já conseguimos construir, e nem assim aprendemos que um Estado democrático forte e estável é algo muito frágil, que exige vigília e trabalho quotidianos. O nosso único caminho é uma Europa mais forte e mais democrática. Há muito trabalho para fazer, e é para ser feito por nós todos, numa atitude de exigência construtiva.


20 Setembro 2014

quando for grande, acho que vou ser um rapazinho de cinco anos feliz por ver um tractor...

Vieram entregar o armário para os contentores do lixo:


 
 
 

(Tem estado uma semana terrível, um sol que parece Verão! Eu bem rezo para o São Pedro mandar para cá a chuva que anda a largar em Portugal, mas ele deve estar a gostar muito de se rir de mim. O melhor é deixar as rezas e, plano B, ir regar a relva.)


17 Setembro 2014

Grândola em Berlim

Sábado à noite partimos para, como dizia o nosso anfitrião, "uma graaaande aventura! uma viagem pela geografia dos vinhos!"
Partimos, é como quem diz: eu tinha de levar o carro para casa, pelo que me deixei ficar pela Itália: copito e meio de prosecco. Os outros largaram à desfilada: Itália, França, Espanha, e ali para os lados da África do Sul começaram a cantar canções revolucionárias das terras deles.
Em algum momento havia de sobrar para mim, e estava para lhes cantar as "Trovas do vento que passa", ou o "Não há machado que corte", para lhe mostrar que enquanto outros países fazem a Revolution nós cá, os portugueses, fazemos a Revoluschön, mas o Joachim disse "então vamos cantar o Grândola", e começou logo.
Ficaram muito impressionados - convenhamos que não é difícil impressionar viajantes de etílicas viagens, quando a jornada já lhes vai longa - e daí a pouco vinha um convite para outra aventura: daqui a umas semanas vai haver em Berlim um encontro sobre não sei quê, o futuro da Europa e assim, e era giro eu aparecer lá a cantar o Grândola, para lembrar aos políticos europeus a essência que deve orientar o seu agir, e tal (penso que por essa altura já iam na Austrália).

Agora só tenho de perguntar qual era o nome do prosecco que bebi, e beber copito e meio antes de começar a aquecer a voz, e perguntar o nome dos vinhos todos que eles beberam, para servir aos políticos europeus, e tudo há-de correr o melhor possível. Só não sei é se no day after ainda se lembrarão do que lhes quis ensinar sobre a Europa...

**

Como sempre, estou quietinha no meu cantinho, e Deus lembra-se de despejar silos inteiros de nozes para cima de mim. Não me queixo, não me queixo, e até já ando a treinar a segunda voz do "como se fosse a Primavera", pelo sim pelo não. É que, por este andar, quando menos esperar ainda dou comigo a cantar em dueto com o Chico Buarque, e convém estar preparada para essa eventualidade...


eu a adivinhar o futuro

Estava capaz de apostar que este bocadinho da Islândia





daqui a uns tempos vai estar mais ou menos assim:




Uma vez passei por aquela estradinha, do lado esquerdo da fotografia, e fiquei deslumbrada com a paisagem: como a grande muralha da China, mas sem escadas, e mais irregular.

O vulcão Barbapapa, ou lá como é que se chama, que trate de se acalmar rapidamente, que eu estou muito curiosa para saber se ganhei a aposta.

(Espero que esse futuro não demore alguns milhares de anos, não sei se me vou conseguir aguentar tanto tempo.)


16 Setembro 2014

dizer liberdade





(fotos e notícia: aqui, em inglês)


Na semana passada, numa escola de Moscovo, um aluno foi repreendido por ter aparecido com uma t-shirt American Eagle. Que era propaganda americana, e tal. O aluno falou com os amigos, e no dia seguinte apareceram todos vestidos com as cores da bandeira ucraniana. Que ninguém se lembre de lhes dizer como é que se devem vestir.
"I cannot believe – they are growing to be citizens, not just members of the population", comentou uma das mães.


15 Setembro 2014

coucou



O meu sogro adorava Django Reinhardt. Acho que tinha todos os discos vinil dele. Onde será que foram parar? Bem jeito nos davam agora, porque finalmente temos um gira-discos bom. Tem sido uma festa, ouvir as músicas da nossa adolescência. De momento andámos pelo Breakfast in America. Tão bom sentir ecoar dentro de nós esses que fomos aos quinze anos!


oh gentes aprendei a dançar





Oh gentes aprendei a dançar, pois de contrário no céu os anjos não saberão o que fazer convosco.

Santo Agostinho



Para rematar uma extraordinária entrevista que o João Botelho deu ao Sol. Termina assim:


O facto de ter sobrevivido a um cancro deixou-o com mais medo de morrer?
Nada. Ainda ontem tive uma discussão com o Luís Miguel Cintra. Ele queria-me convencer a voltar à Igreja Católica, porque estamos todos a morrer. E eu disse-lhe: 'Oh Luís Miguel, já fizeste tantas coisas boas, qual é o teu problema?'. O meu sonho é morrer atropelado numa passadeira, assim de repente. Ou ter um AVC numa noitada. Tudo o que for de repente é bom. A única coisa que me chateia é precisar de ajuda. Isso não quero, mais vale o suicídio. Não poder dançar seria uma chatice. Ainda hei-de dançar de cadeira de rodas. 

13 Setembro 2014

o regresso do senhor Oreste

(foto)

(foto)

Lembro-me bem da mercearia do senhor Oreste na aldeia da minha avó. Tinha todos os produtos a granel, e as pessoas pediam "275 gr de arroz" e "um naco de sabão rosa". O arroz era pesado dentro de um pacote de papel grosso, o sabão era cortado na guilhotina (esqueci-me de reparar se era a mesma guilhotina do bacalhau). As conversas ao balcão, as gargalhadas, "hoje o meu home tomou banho e fez a barba, fuosca-se que está que parece um cuzinho de menino", "jazus, mulher, tu que estás a fazer aqui na benda? bai é aprobeitar, caraites!", "ai bou, bou, carailhos me fuadam se não bou, que ele está mesmo a pedir que lhe façam cócegas!"

Lembro-me quando começaram a vender o óleo e as massas em embalagens de plástico, e começaram a usar latas de conserva. Na casa da minha avó surgiu um problema novo: o que fazer com esse lixo? Até então, as cascas e os restos de comida eram para os porcos ou as galinhas, o papel era queimado na lareira onde havia sempre uma fogueira (para cozinhar, para ter água quente), as garrafas de vidro davam jeito para engarrafar o vinho e o azeite.

Uns anos mais tarde abriram supermercados na aldeia da minha avó. Self-service, com todos os produtos exageradamente empacotados. Sem pessoal a servir, nem conversas ao balcão. Por essa altura já a aldeia se tinha organizado para recolher o lixo.

Hoje abre em Berlim um supermercado sem embalagens. As pessoas levam as suas próprias embalagens reutilizáveis. A ideia ocorreu a duas amigas de 24 e 30 anos, no fim de um belo jantar com uns copitos de vinho e um caixote de lixo cheio. Fizeram projectos e contas, divulgaram na internet, e em meia dúzia de dias receberam 70.000 euros em donativos para se lançarem nesta aventura. Curiosamente, a ideia de uma loja sem embalagens já me tinha ocorrido em 1991. Não tinha ainda 30 anos, estava muito infeliz no meu emprego e a pensar no que havia de fazer com o resto da minha vida. Mas, vejo-o agora, naquele momento faltou-me a amiga e os copos de vinho certos.


(foto)

Espero que o projecto delas corra bem, e abram um supermercado aqui perto de casa, porque a maior parte do lixo que produzimos são embalagens - em Berlim, são 76 mil toneladas por ano.

Mas o melhor, o melhor de tudo, era se o senhor Oreste voltasse, com os seus sacos enormes pousados no chão e a sua guilhotina, e as mulheres em conversas alegres ao balcão. Talvez seja esse o verdadeiro nicho de mercado: uma mercearia onde se vai estar com as pessoas do bairro, e se aproveita para fazer as compras sem poluir ainda mais o nosso mundo.


12 Setembro 2014

voulez-vous danser avec moi?

Dizia um músico que entrevistámos em Yerevan que em África, quando tocam Komitas, as pessoas começam a dançar.

(Em África, e em Berlim.)


 


o império contra-ataca

Das Imperium schlägt zurück.

 
Die Sanktionen Russlands gegen Amerika und Europa  werden die Welt erschüttern. Das Land verzichtet auf Import von Autos, Lebensmittel, Klamotten und Medikamente. „Wir werden zu Fuß  laufen, nackt und hungrig. Soll sich die Welt schämen!“  Ein alternativer Lebensentwurf  zeigten bereits Donezker Patrioten:  Uniformen tragen, Armeekonserven essen und Panzer fahren.

Do blogue do Wladimir Kaminer. Tradução:

As sanções da Rússia contra a América e a Europa vão abalar o mundo. O país prescinde da importação de automóveis, bens alimentares, roupas e medicamentos. "Vamos andar descalços, nus e esfomeados. Para que o mundo tenha vergonha!" Os patriotas de Donetsk já exibem um estilo de vida alternativo: usar uniforme, comer conservas do exército e andar de carro de combate. 


11 Setembro 2014

vocês desculpem, mas (a propósito de 11 de Setembro)




Vocês desculpem, mas quase sinto vergonha de lembrar o 11 de Setembro de 2001 porque, a cada ano que passa, mais nítida se vê a torpeza do aproveitamento mediático daquela tragédia, com o objectivo de criar uma janela de oportunidade para baralhar e dar de novo no jogo estratégico do Médio Oriente. Pobres vítimas do 11 de Setembro: a vida foi-lhes ceifada pela al-Qaeda, e a memória foi-lhes conspurcada pela máfia que se apoderou dos presidentes dos EUA.

Por estes dias fala-se muito do modo como o Estado Islâmico sabe criar realidades e imagens com o objectivo central de chocar os americanos, simplifiquemos assim, e discute-se se os meios de comunicação social ocidentais devem fazer o jogo deles. Oh, cambada de virgens! Não se terão apercebido que os do Estado Islâmico são simplesmente bons alunos? Observaram com atenção as televisões americanas no dia 11 de Setembro de 2001, a passar repetidamente imagens dos que saltavam das torres - especialmente aquele casal que saltou de mãos dadas -, e logo a seguir imagens de arquivo de um grupo de palestinianos em festa. Examinaram o fenómeno da manipulação dos povos a partir da gestão das notícias e das imagens, talvez até me tenham ouvido falar de quando vivíamos em San Francisco e, algumas semanas depois do 11 de Setembro, cancelámos a assinatura do jornal e arrumámos a televisão na cave, para podermos voltar a ser gente normal, sem deixar que o medo nos tolhesse os valores e o distanciamento que permite um olhar crítico.



 

Os nomes das vítimas do 11 de Setembro nos EUA estão inscritos num memorial no Ground Zero, organizados não por ordem alfabética, mas numa comovente rede de afectos. Tudo se sabe sobre essas 2.977 vítimas, os seus familiares, os seus sonhos cerceados, o seu heroísmo. Quanto às outras vítimas do 11 de Setembro, por exemplo as dezenas de milhares de iraquianos, tantas que já ninguém se dá sequer ao trabalho de as contar, não se lhes conhece o nome e as circunstâncias.

Por isso me envergonho de lembrar o 11 de Setembro de 2001, e de repetir as imagens cada vez mais transformadas em toques de sineta para fazer de nós cães pavlonianos. Porque nos mostram estas imagens? E nós, a salivar: salivamos ao serviço de quem?

Parte da resposta a esta pergunta pode vir de um 11 de Setembro anterior, noutro continente. Como dizia um amigo meu esta manhã, no facebook:

Há 41 anos, o Chile amanheceu banhado em sangue, para que os ricos pudessem continuar ficando mais ricos.




A Salvador Allende en su combate por la vida


(Pablo Milanés)
Qué soledad tan sola te inundaba
en el momento en que tus personales
amigos de la vida y de la muerte
te rodeaban.

Qué manera de alzarse en un abrazo
el odio, la traición, la muerte, el lodo;
lo que constituyó tu pensamiento
ha muerto todo.

Qué vida quemada,
qué esperanza muerta,
qué vuelta a la nada,
qué fin.

Un cielo partido, una estrella rota,
rodaban por dentro de ti.
Llegó este momento, no hay más nada
te viste empuñando un fusil.

Volaba,
lejos tu pensamiento,
justo hacia el tiempo
de mensajes, de lealtades, de hacer.

Quedaba,
darse todo al ejemplo,
y en poco tiempo
una nueva estrella armada
hacer.

Qué manera de quedarse tan grabada
tu figura ordenando nacer,
los que te vieron u oyeron decir
ya no te olvidan.

Lindaste con Dos Ríos y Ayacucho,
como un libertador en Chacabuco,
los Andes que miraron crecerte
te simbolizan.

Partías el aire, saltaban las piedras,
surgías perfecto de allí.
Jamás un pensamiento de pluma y palabra
devino en tan fuerte adalid.
Cesó por un momento la existencia,
morías comenzando a vivir.
(1973)


10 Setembro 2014

fronteira de luz - para comemorar os 25 anos da queda do muro





(aviso aos amigos que vivem no Porto: a Ryan Air já vai estar a voar para Berlim nessa altura)


2 + 2 (um post preguiçoso)

Duas citações (que tirei do folheto da Festa da Música de Berlim):

- Tradição é a transmissão do fogo, e não a adoração das cinzas.
  Gustav Mahler

- Depois de um concerto, às vezes nem consigo falar. Não me ocorrem as palavras. É que nós não tocamos notas, tocamos sentimentos.
  Patricia Kopatchinskaja


Duas anedotas em estrangeiro, para me armar em poliglota:

- A German walks into a bar and asks for a Martini.
- Dry? the bartender asks,
and the German replies,
- No, just one!

- What comes between fear and sex?
- Fünf!

(Outro dia conto como, recém-chegada da Alemanha à Califórnia, arranjei de propor "sex" ao empregado da caixa de um Albertsons)


09 Setembro 2014

a quem puder possa...



Bem sei que se diz "a quem interessar possa", mas estou tão entusiasmada com o que inventaram para comemorar os 25 anos da queda do muro de Berlim que a questão que se me coloca já não é a do interesse, mas mesmo só a de poder.
A quem puder possa, portanto: como já aqui contei, este ano o muro de Berlim vai cair num domingo, e esse fim-de-semana mostra-se muito prometedor. Vão fazer um muro luminoso com uns dez mil balões, que no dia 9 serão largados no céu.

Esta cidade arranja sempre maneiras de olhar para a História com seriedade, mas sem se deixar subjugar pelo seu peso. O memorial do Holocausto é o melhor exemplo, e este muro que se ergue sobre as nossas cabeças e se desfaz em forma de luz também não está nada mal.

Em suma: aconselho vivamente a quem puder que trate de estar em Berlim de 7 ou 8 a 10 de Novembro.

(Imagens da proposta, neste vídeo)
(E até parece que me pagam para isto...)


16 milhões de Chicos Buarques



Postal do Brasil (e aqui deixo um conselho de amiga: espreitem regularmente este blogue):

"Sentados no chão, admirando a parede bege da lanchonette, tento introduzir o namorado francês às especificidades da língua brasileira - quem falou de português do Brasil? -  a urgência de gerundiar e a música das palavras. Começo com Jacarépagua, a moça da lanchonette, que evidentemente não tem máquina para pagamento com cartão trabalhando, vem de lá. Jacarépagua. Mandioca. Maracanã. Moqueca. Tentei-ligar-do-orelhão-mas-meu-cartão-estava-zerado.
Mas pegando numa palavra neutra, sem carnaval à mistura : boca. Experimenta dizer boca com sotaque de telenovela da Globo. Boca. São testoteronas pop ups por todo o lado, uma explosão de sensualidade que não acaba mais, uma pessoa mergulha na palavra boca e já corre o risco de fazer o terceiro filho, ali. Na hora. Agora experimenta dizer boca na língua da ex-metrópole, na linhagem directa de Camões : boca. Verdade que fica logo ali um gostinho de repartição de finanças a pairar.
Não tenho a certeza que tudo se possa importar. Existem sons que aqui ganham um novo significado. Acreditem se quiserem, mas de repente é como se houvesse 16 milhões de Chicos Buarques. Posso estar a exagerar."

***

Há uns anos largos estava a comentar com amigos que "adoro o que os brasileiros fazem com a língua", e eles "aha, conta mais!", e eu "oh, parvos!"
Agora vem a Carla explicar que sim, que isto anda tudo ligado.
Já a Sophia, na sua época, se apaixonara por este fenómeno, mas em vez de enveredar pelos ímpios caminhos da carne, ficou-se pelos da flora. Outros tempos, outros tempos.


Gosto de ouvir o português do Brasil 
Onde as palavras recuperam sua substância total 
Concretas como fruto nítidas como pássaros 
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas 
Sem perder sequer um quinto de vogal 

Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro» 
O coqueiro ficava muito mais vegetal.


08 Setembro 2014

ainda sol

Quando nos sentíamos já a caminho do Outono, o sol surpreendeu-nos com um fim-de-semana radiante. Será que já sente antecipadamente saudades? Terá vindo pedir "só mais um bocadinho..." antes de partir para uma ausência de muitos meses?
Largámos tudo, e fomos.




Na Liebermann Villa, que é um museu privado tornado possível pela generosa participação de dezenas de voluntários, estavam a vender saquinhos de bolbos que davam direito a participar no sorteio de duas abóboras, mas só depois de espetarmos as cebolas na terra. Espertinhos, os voluntários: pagámos para fazer de graça o trabalho que custaria uma choruda factura de jardineiro. Não ganhámos a abóbora, mas deram-nos o segundo prémio, caramelos para todos, e um convite sorridente: "não se esqueçam de voltar cá na Primavera, para verem o resultado do vosso trabalho". Voltaremos, com certeza, e vou levar uma máquina fotográfica de jeito para fotografar os quadros do jardim do Liebermann, e depois o jardim propriamente dito, aposto que esta é a ideia mais original da década.









Também havia sol no karaoke do Mauerpark, e o habitual clima, muito berlinense. Vimos um grupo de miúdas que cantava muito mal mas tinha uma onda muito gira, e uma brasileira de Minas Gerais que deu um show fantástico. O Helmut, de Berlim, cantou Die Moritat von Mackie Messer a cappella, e cantou-a melhor que o Brecht propriamente dito, o que - aliás - não é difícil. Um outro trouxe uma canção como quem implora que o ajudem, e deu-me vontade de gritar com urgência "há algum psicólogo no público?", mas limitei-me a aplaudir com entusiasmo, como se faz para todos.





Depois fomos comer Waffeln à Oderberger Strasse. Na Kauf Dich Glüklich comprei uns óculos de existencialista, e fiquei igualzinha ao Jean-Paul Sartre. Pus esta fotografia no perfil do facebook, começaram a chover likes. No facebook gostam muito de mulheres com cara de intelectual. 



07 Setembro 2014

à porta da gruta do Ali Babá




Hoje foi um daqueles domingos em que começam a vender os bilhetes para concertos especiais no próximo trimestre, e lá fui eu de madrugada para a porta da gruta do Ali Babá, ansiosa por deitar a mão aos tesouros. Não estava muita gente, mas estava gente muito divertida. Era impossível concentrar-me nas leituras que levara, porque ao meu lado havia um animado grupo de velhotes que saltavam de tema em tema e riam prazenteiros ao sol. Quando me instalei com o meu banquinho (sim, entretanto tornei-me uma profissional disto), estavam a falar de neologismos chocantes ou divertidos, como "nicht kaputtbar" (em vez de indestrutível, "não kaputtável") ou "ich habe mich hoch gebückt" ("inclinei-me para cima"), e a cada nova expressão um coro de hehehe, hihihi, hahaha. Eu a tentar ler Sayat-Nova, "Je te supplie, écoute-moi, prête l'oreille, rai de mes yeux; / Mon coeur est plein de nostalgie, je me languis, rai de mes yeux; / Que t'ai-je fait pour me bouder? Je suis confus, rai de mes yeux; / Le monde s'est repu du monde, j'ai faim de toi, rai de mes yeux." e a fazer hihihi cá por dentro, num eco deles.
O tema mudou para os ciclistas berlinenses, esses insuportáveis, "uma vez assisti a um acidente ridículo, hehehe: dois ciclistas a aproximar-se um do outro, não conseguiram decidir quem se desviava do caminho do outro, chocaram e foram parar ambos ao hospital". Hihihihi, hahahaha, hehehehe, e o Sayat-Nova ainda às voltas com o seu amor triste. Depois falaram das encenações modernas, da mania da linguagem fecal que não leva a lado nenhum e da mania de despir as pessoas em palco ("e se ainda escolhessem raparigas bonitas, mas não..."), a seguir um deles revelou que já comprou a sua própria pedra tumular, e que se ri imenso quando as pessoas a vêem já pronta no cemitério, com o nome e a data do nascimento (e ria de novo, e justificava-se "sabem, gosto de histórias bizarras"). Por essa altura o Sayat-Nova já estava farto do mundo, "...on n'est jamais toujours le même, de ces chansons j'en ai assez. / Les biens d'ici sont sans valeur, il n'en demeure aucune trace; /  Homme de bien qui réussit à n'aller pas la tête basse; / Nous ne gardons rien d'ici-bas, selon le mot des hommes sages"  e eu farta de me tentar concentrar na leitura com tão pouco êxito. Fechei o livro, fiquei a ouvi-los. Contavam concertos memoráveis, e sabiam as datas de cor! O que já tem a pedra tumular adiantada contou "aquela cena inesquecível numa ópera quando o solista levanta a mão para os "assassinos" entrarem no palco, e não acontece nada, até que finalmente cai o pano, e ouve-se uma voz a gritar "primeiro de Abril!", ai, o que o público se riu" - hihihihi, hahahahaha, hehehehe. Quando lhe puserem a segunda data na pedra, estou em crer que no cantinho do cemitério que ele escolheu haverá um grande alvoroço das almas.
Na altura em que um ia falar de um concerto especial no dia 24 de Abril de 1974 (!) abriram as portas da casa, e perdi o resto da conversa. Espero encontrá-los de novo em princípios de Dezembro, pode ser que ganhe coragem para perguntar que concerto foi esse.

Daí a nada estava em animada mesa redonda, digamos assim, com a senhora da caixa, a minha lista de sonhos, e a minha carteira à beira de um ataque de nervos. Regressei a casa toda contente, com o alforge cheio de promessas:

- Andava há que tempos curiosa para ouvir a orquestra de cordas que usa exclusivamente instrumentos feitos pelo Stradivari. Tocam de dois em dois anos, e o próximo concerto vai ser a 24 de Maio de 2015. Ainda havia bilhetes! Maravilha.

- No dia 6 de Novembro faz 25 anos que vim morar para a Alemanha, e vamos celebrar no concerto comemorativo da queda do muro, com o Simon Rattle e a nona de Beethoven.

Agora tenho de estar atenta aos lugares nos bancos do coro, os únicos que não me dão cãibras à carteira. Vem aí a Argerich, vem a Grimaud (espero que traga o cabelo preso). Vai haver um ciclo Schumann + Brahms (quatro concertos, da 1ª à 4ª sinfonia de cada um deles) e um ciclo Sibelius (o concerto para violino é com o Leonidas Kavakos).
E em Dezembro começam a vender bilhetes para a segunda de Mahler, com a Magdalena Kozená e a Kate Royal, e para o deutsches Requiem do Brahms com o Gerhaher...

Precisava mesmo de arranjar um colchão debaixo de umas escadas perdidas naquela casa.

literalmente fora de série (27.01.2015, 20:00, Filarmonia de Berlim)



Je réfléchissais lorsque j'entendis le son d'un violon. Le son d'un violon dans la baraque obscure où des morts s'entassaient sur les vivants. Quel était le fou qui jouait du violon ici, au bord de sa propre tombe ? Ou bien n'était-ce qu'une hallucination ?
Ce devait être Juliek.
Il jouait un fragment d'un concert de Beethoven. Je n'avais jamais entendu de sons si purs. Dans un tel silence.
L'obscurité était totale. J'entendais seulement ce violon et c'était comme si l'âme de Juliek lui servait d'archet. Il jouait sa vie. Toute sa vie glissait sur les cordes. Ses espoirs perdus. Son passé calciné, son avenir éteint. Il jouait ce que jamais plus il n'allait jouer. 
Je ne pourrais jamais oublier Juliek. Comment pourrai-je oublier ce concert donné à un public d'agonisants et de morts ! Aujourd'hui, encore, lorsque j'entends jouer du Beethoven, mes yeux se ferment et, de l'obscurité, surgit le visage pâle et triste de mon camarade polonais faisant au violon ses adieux à un auditoire de mourants et de morts.
Je ne sais combien de temps il joua. Le sommeil m'a vaincu. Quand je m'éveillai, à la clarté du jour, j'aperçus Juliek, en face de moi, recroquevillé sur lui-même, mort. Près de lui gisait son violon, piétiné, écrasé, petit cadavre insolite et bouleversant. 

Elie Wiesel, La Nuit, 1958





No dia 27 de Janeiro de 2015, quando se completam 70 anos sobre a libertação de Auschwitz, alguns dos membros da orquestra filarmónica de Berlim darão um concerto literalmente fora de série.
Como informa o programa da orquestra: em memória das vítimas da Shoah, vão tocar em instrumentos musicais que fizeram o seu caminho até Auschwitz, e sobreviveram ao horror que vitimou os músicos seus proprietários. Os instrumentos foram recuperados pelo luthier israelita Amnon Weinstein: "Cada instrumento é como a pedra tumular de uma campa que falta, para corpos que foram reduzidos a cinza e a quem foi negado um enterro."
O programa inclui peças de compositores alemães e israelitas: Bach, Beethoven, Bruch, Tzvi Avni, entre outros.

(Informação para quem estiver em Berlim nessa altura: ainda há bilhetes disponíveis.)

 

06 Setembro 2014

somos todos a Jennifer Lawrence



Não sei como são as fotografias que roubaram à Jennifer Lawrence, e nem preciso de saber. Imagino que serão mais ou menos como as que eu faria, se me desse para isso (*).

Debaixo da roupa andamos todos nus, somos iguais na matéria. Em momentos iluminados, de confiante entrega a um diálogo de desejos, somos estrelas como os mais famosos de Hollywood. Aliás, nem há Hollywood que lhes valha: são iguais a nós. É a vida.

Por isso, a única coisa que me ocorre dizer aos gulosos que procuram na internet as fotos roubadas, é isto: deixem lá de espreitar a cama dos outros, e procurem o caminho das estrelas na vossa própria cama. Vocês conseguem.

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(*) Depois da mudança de casa, ainda não tivemos tempo para pôr espelho na casa de banho nem para trocar as lâmpadas, escolhidas à pressa naquela altura, por outras de luz mais intensa. Acho que vou deixar assim mesmo, porque me está a fazer maravilhas no ego.


05 Setembro 2014

concerto comemorativo dos 25 anos da queda do muro de Berlim



Aviso aos amigos: este ano o muro de Berlim vai cair num domingo.
Que tal correrem para a ryan air mais próxima (fui espreitar, Porto-Berlim ida e volta por menos de 100 euros) ou outra low cost qualquer e comprarem uma passagem para esse fim-de-semana mais a segunda-feira?

Como não podia deixar de ser, aquela orquestra youknowwhatImean vai ter um concerto comemorativo, na quinta-feira e no domingo. O programa é, como não podia deixar de ser, a nona de Beethoven. E também a Stabat Mater do Szymanowski, para lembrar as vítimas das divisões (de Berlim e do mundo). Há um contingente de bilhetes para venda online que estará disponível a partir das oito da manhã do domingo, 7 de Setembro (sete da manhã em Portugal). A partir das onze também se podem comprar por telefone, ou directamente na caixa. Estou a ver que no domingo vou madrugar para comprar dois míseros bilhetinhos para a quinta-feira, triste vida, mas tem de ser (se alguém quiser dois para domingo, é só dizer, e eu trato disso). Para a quinta-feira, sim, porque no dia 9 de Novembro não quero ir ao concerto, prefiro andar pela cidade: tenho a certeza que vai haver festa à grande e à berlinense.

(O concerto também vai ser transmitido em directo no Digital Concert Hall)

(Aviso aos muito amigos: podem ficar até aos meus anos, para irmos ver a Maria João Pires no que parece que vai ser o seu concerto de despedida de Berlim.)


à espera de Godot






04 Setembro 2014

4 de Setembro de 1989




Não foi o Spiegel (shame on you, rapazes!), foi o google.de quem hoje me alertou para a data histórica: a primeira manifestação de segunda-feira em Leipzig. Dois meses e cinco dias depois o muro cairia.

Quando se comemoram os 25 anos destas datas históricas, não esqueço a expressão de um amigo nosso, nascido na RDA, contando como foi para essas manifestações com a mulher e a filha bebé. Cercados pela polícia, sabendo que entre eles havia informadores da Stasi que já lhes estavam a fazer a ficha e provavelmente a cercear o futuro profissional, na iminência de um ataque do exército russo, empurravam o carrinho da filha com ainda mais determinação do que medo.

Também não esqueço as vozes de um grupo de velhinhos a cantar "Shalom" e "We shall overcome", quando organizei em Weimar uma manifestação contra a guerra do Iraque. Juntámo-nos em círculo na praça em frente ao teatro, que eu escolhera por por ser o teatro do Goethe e do Schiller, o teatro onde foi escrita a constituição da República de Weimar. Eles protestaram: "Esta é a praça errada! As nossas manifestações eram na Praça da República, em frente à Biblioteca Anna-Amalia!" - e referiam-se a essas manifestações de imensa coragem contra um regime totalitário. Quando elogiei a perícia de trazer as velas dentro de frascos, para que o vento não as apagasse, eles riram-se, muito orgulhosos, e contaram-me que era assim que iam para as manifestações de 1989.


Traduzo da wikipedia alemã:

Leipzig, início em Setembro de 1989
Em Leipzig, as manifestações de segunda-feira juntaram-se às orações para a Paz na Nikolaikirche, que os padres Christian Führer e Christoph Wonneberger (este último em estreita colaboração com grupos de base da oposição) organizavam desde 20 de Setembro de 1982. A primeira manifestação de segunda-feira teve lugar no dia 4 de Setembro de 1989. Foi iniciada por Katrin Hattenhauer e Gesine Oltmanns, activistas dos direitos civis, que no fim da oração distribuíram entre alguns voluntários cinco cartazes, e desenrolaram elas próprias uma faixa onde se lia "por um país aberto com pessoas livres". A manifestação no pátio da Nikolaikirche exigia "Liberdade!" e sobretudo - devido às fugas em massa que tinham acontecido nesse Verão - liberdade para viajar e outros direitos humanos básicos. Pessoas que tinham metido o processo para emigrar para o Ocidente chamavam a atenção para o seu objectivo: "queremos sair!" Perante jornalistas ocidentais, que se encontravam na cidade por ocasião da Feira de Leipzig, a Stasi derrubou os cartazes e tentou dissolver a manifestação. Como resultado, os populares desataram a gritar "Stasi, fora daqui!"
A data para as orações para a Paz na Nikolaikirche, e ainda três outras igrejas no centro de Leipzig, segunda-feira às cinco da tarde, foi muito bem escolhida. Permitia participar nas orações e manifestações sem ter de faltar ao trabalho, enquanto os membros do partido comunista nesses dias estavam retidos na tradicional reunião partidária nas respectivas empresas. Por outro lado, decorria a uma hora em que as lojas no centro da cidade ainda não tinham fechado, o que garantia uma certa liberdade de movimentos nas ruas sem despertar a atenção das forças de segurança. Além disso, as televisões ocidentais podiam transmitir regularmente o início das manifestações no seu noticiário principal, ao fim do dia. As imagens tinham de ser levadas secretamente para fora de Leipzig, uma vez que, por aqueles dias, a cidade estava fechada a jornalistas ocidentais.
As forças de segurança da RDA reagiram em parte com violência contra os manifestantes, em especial no dia 2 de Outubro de 1989 e durante os festejos do 40º aniversário da RDA, a 7 e 8 de Outubro de 1989. Uma autêntica onda de prisões aconteceu logo a 11 de Setembro de 1989, quando 89 manifestantes foram presos de forma arbitrária.  


(Nos próximos dias continuarei a traduzir os textos relativos a outras datas simbólicas.)


ADENDA: afinal o Spiegel já tem um artigo sobre a efeméride. E este noticiário que passou no mesmo dia na TV da Alemanha ocidental:




03 Setembro 2014

portas abertas



No fim-de-semana passado a Chancelaria abriu as suas portas para deixar entrar o povo. O costume: "visita de Estado", tapete vermelho, banda de música, aparato de motas e carros de luxo, passar por dentro do helicóptero da chanceler, etc. etc. - e ainda a comidinha e o palco no jardim ao longo do rio Spree. Já lá estive duas ou três vezes, já quase podia fazer as visitas guiadas, mas resolvi ir de novo, com uma amiga, mais para a acompanhar que por curiosidade. Ora bem: sabem aquelas histórias com moral tipo "faz o bem, e Deus te dará a recompensa"? Pois é: este ano comemoram-se os 25 anos da queda do muro, e no palco havia pessoas que ajudaram cidadãos da RDA a fugir: o que construiu o túnel 29, o que deu um jeito a um Cadillac para esconder pessoas no tablier, o que acompanhava grupos de fugitivos e ajudantes. De modo que eu, que estava ali só para a minha amiga não ir sozinha, dei comigo a pedir-lhe que se calasse e se desenrascasse como pudesse, porque queria ouvir aquela conversa.
(Se um dia resolvem escrever as sequelas daquelas tais histórias moralistas, vou passar mal.)

O túnel 29 foi feito para ajudar uma família a fugir da RDA, e nele trabalharam dezenas de voluntários dia e noite. Contava um dos seus operários: "fizemos vários erros, por exemplo, cavámos demasiado perto da superfície, e furámos as canalizações. De repente, o nosso túnel começou a encher-se de água. Com o coração nas mãos, fomos falar com os serviços camarários, na esperança de encontrar um berlinense às direitas que nos ajudasse sem fazer perguntas. Tivemos sorte. Mandaram logo um grupo de operários, sem quererem saber como é que nós descobrimos que havia ali um cano rebentado."


O dono do Cadillac era uma figurinha. Bem disposto, divertido, explicava como modificou o carro para esconder as pessoas no sítio mais improvável, e a seguir reconheceu que esse não tinha sido o seu melhor truque. O melhor - e ele nem conseguia explicar como é que funcionava - era o de passar duas vezes a fronteira com dois passaportes diferentes, para no regresso poder trazer um fugitivo.
- E o momento mais perigoso que viveu nessa altura?, quis saber a moderadora.
- Ia ajudar uma estudante de medicina - como eu - a fugir. Mas ela queria trazer uma caveira humana, porque era muito cara, e significava muito para ela. Eu disse-lhe que aquilo era capaz de correr mal, e que nesse caso tínhamos de fazer de conta que éramos namorados. Fomos apanhados, e eu fui interrogado durante várias horas. Armei-me em apaixonado, fiz fitas parvas, fartei-me de contar mentiras. E quando finalmente me deixaram sair, com a temeridade dos palermas, que tinha na altura, virei-me para a polícia e perguntei "e se eu tivesse estado a mentir-lhe o tempo todo?" Ela pensou um pouco, e respondeu "somos capazes de fazer uma boa avaliação das pessoas" - e mandou-me sair. Só duas semanas mais tarde é que a Stasi descobriu que tinham estado a interrogar um dos elementos mais activos da ajuda às fugas de cidadãos da RDA.
- E qual o momento mais memorável?, perguntou ela.
- Foi quando tentei encaixar uma grávida de nove meses debaixo do tablier do carro. Não havia maneira de o fechar sobre a barriga dela. Mas ela insistia: "tentem, não desistam, que eu quero fugir daqui para fora". Passados quinze dias enviou-me um postal que me comoveu: "o meu bebé conquistou o seu caminho para a liberdade a gritar."

O terceiro participante do debate lembrou factos importantes: que as coisas não eram a preto e branco, que os maiores traidores estavam entre os alemães ocidentais, que a determinada altura o Erich Mielke juntou os responsáveis do muro para lhes ralhar, porque era inacreditável que os seus soldados precisassem em média de mais de sessenta balas para acertar num fugitivo, quando nos campos de treino três balas bastavam para atingir o alvo. Falou também de um soldado morto num episódio de fuga, que a RDA transformou em herói nacional, e depois da queda do muro se soube que fora afinal morto pelos seus próprios camaradas. Lá foi preciso mudar o nome a tantas ruas. Mas foi porque não me deixam mandar, porque, por mim, devia ficar mesmo assim: vítima é vítima, e qualquer vítima da estupidez do muro devia ter direito a nome de rua.

Como tantas vezes em Berlim, o confronto com a História não nos roubou a alegria. Estava-se bem no jardim da Chancelaria, a ver passar os barcos. A ver como as árvores já se começam a tingir de Outono, nesse dia de céu azul glorioso.








(isto não é uma queixa)

Acordei com este ear worm:





Adenda (o ear worm que veio para ficar, e fica bem):




02 Setembro 2014

rentrée


I. Já sem filhos na escola, a rentrée agora é apenas às andanças da Filarmonia. No sábado passado foi o concerto de abertura da temporada. Sentada nos bancos de pau, ouvindo o Rachmaninov (Danças sinfónicas) e vendo de frente o Simon Rattle a criar aquele prodígio de música imaterial, decidi: vou tentar não perder nenhum dos seus concertos até ele se ir embora.
Espero que se lembrem de instalar desumidificadores na sala. 

II. Música imaterial: quando se liberta dos instrumentos que a produzem, e brota perfeita e límpida, não das cordas e dos metais, mas da vontade.


III. No "pássaro de fogo" tocaram uma parte (penso que era a "Mort de Kastchei") em surdina. Para se intuir, em vez de ouvir. Nem todos gostaram (nomeadamente os que, ao contrário de mim, não estavam a um metro da orquestra). Já assisti a algo semelhante, no concerto de comemoração dos 60 anos do edifício, quando a Mitsuko Uchida tocou tão delicadamente que conseguíamos ouvir o respirar da sala. Não sei se gosto - mas gosto, definitivamente, de nesta sala se gozar a liberdade de experimentar coisas novas. 

IV. Secção revista "Pais e Filhos"
Ao meu lado estava um casal com um filho dos seus dez anos. O miúdo estava sentado na primeira fila, os pais na segunda. Quando a orquestra começou, o rapazinho virou-se para trás, todo contente, e exclamou "também sei tocar isto!". Para o acalmar, a mãe começou a massajar-lhe as costas. Ele protestou, bem alto: "não faças com tanta força!". A senhora ao lado dele fez-lhe "chiu!" e ele deve ter tido uma reacção alérgica, porque passou a peça toda a tossicar. No fim, quando a orquestra estava a abandonar a sala, o simpático dos tímpanos (este, que estava mesmo à nossa frente) disse aos pais que era boa ideia mudarem de lugar. A mãe perguntou: "porquê?"

(A mãe perguntou: "porquê?" A mãe perguntou: "porquê?" A mãe perguntou: "porquê?" A mãe perguntou: "porquê?" A mãe perguntou: "porquê?" A mãe perguntou: "porquê?")

O músico até se engasgou, mas conseguiu explicar: "porque com o barulho que faz os músicos não se conseguem concentrar". Optei por rir, para não desatar a bater no pai, no filho e naquela maravilha de mãe. Olhei para as pessoas dos blocos por trás de nós, e estavam todos com cara de poucos-amigos a observar a família. Trocámos reviradelas de olhos e sorrisos de chateados.
Um senhor que conheço das longas esperas para comprar os bilhetes nos bancos de pau - sim, fazemos filas de mais de uma hora para os conseguir - ao passar pelo miúdo, depois do intervalo, perguntou-lhe com um sorriso se ele iria aguentar o Pássaro de Fogo, porque tinha algumas partes muito selvagens. A família encolheu os ombros, e a mãe pediu a uma senhora que passasse para a frente, para o filho ficar ao lado dos pais. A senhora era baixinha, bem queria ficar atrás para ver melhor, mas lá se sacrificou em nome do bem-estar de todos. Pensávamos nós! O miúdo recomeçou com a tosse, com os suspiros, com a respiração pesada em pleno pianissimo. O pai mandava-o calar, e ele respondia indignado: "tenho de respirar!"
Foi assim o nosso Pássaro de Fogo: cof cof cof, suspiro, aaaaiiiiii, suspiro, cof cof cof. E para completar o arraial, a mãe tirou os sapatos, e volta e meia os pés batiam neles, poc poc, catrapum. Suspiro, cof cof.

Pergunto-me o que devia ter feito durante o intervalo. Como dizer a estes pais, que manifestamente não sabem o que é inaceitável numa sala destas, que não têm o direito de estragar o concerto a centenas de pessoas, e o trabalho daqueles músicos? Oh, teria milhentas possibilidades de dizer o que queria, desde a prestável sugestão "podem deixar o miúdo no porteiro e ir buscá-lo no fim do concerto", à manifestação de empatia "que pena que têm de ir para casa a meio do concerto..." passando pela humilhação "ó rapaz, tens consciência que está toda a gente a olhar para ti e a ver os teus caprichos, não apenas nesta sala, mas no mundo inteiro, porque o concerto está a ser transmitido em directo - não tens?"
Mas nenhuma dessas seria a frase que os faria avançar. E essa, ainda não encontrei. Aceitam-se sugestões.
(O que eu gostava, o que eu gostava mesmo, é que um dia destes o maestro interrompesse o concerto e mandasse sair quem não se sabe comportar bem dentro da sala. Já vi uma vez, por causa de um bebé que estava a palrar, e cuja mãe levou imenso tempo a perceber que aquela pausa no concerto lhe dizia respeito. Era preciso acontecer mais vezes, e num instante se curava a tuberculose galopante que costuma dar nos concertos, mais o tédio barulhento de certas crianças.)


01 Setembro 2014

saia então um Simon Rattle para aquela desbragada na mesa do canto, ou: como não ficar de bem com o mundo e as suas gentes? (3)





No sábado passado inauguraram uma nova exposição no foyer da Filarmonia: fotografias de Cordula Groth, que é casada com um antigo solista da orquestra e conseguiu que, durante décadas, a deixassem fotografar a orquestra como se fosse um deles.

Como explicou a Verena Alves, que organizou a exposição, Cordula Groth sabe esperar pelo momento certo, à maneira de Cartier-Bresson. E que momentos! Karajan e a mulher alheios ao resto do mundo, Barenboim a saltar do piano como se tivesse uma mola, Yehudi Menuhin a dirigir a orquestra fazendo o pino (em 1982, por ocasião do centenário da filarmónica), e... Simon Rattle.









Gostei especialmente das fotografias que mostram os músicos descontraídos e sorridentes:





Pois por lá andava, com o copinho de Sekt numa mão e o telemóvel jurássico na outra, e calhou de começar a falar com a fotógrafa. Por causa da minha boca grande, que dispara mais depressa que o pensamento, dei comigo a pedir-lhe que no fim da exposição me desse o poster do Simon Rattle, para pôr no meu quarto. Ela riu-se, perguntou se o meu marido estava de acordo, e acabou a aceder, com uma gargalhada quase trocista. Enfim, não será bem a fotografia enorme que está à entrada da exposição, mas uma cópia mais pequena e muito à medida da parede que já lhe está reservada. Depois tive de aturar também a troça dos amigos, que me perguntavam se ia pôr o Rattle no lugar do crucifixo por cima da cama, mas nem me importei - lá no sétimo céu onde me encontrava, estava completamente de bem com o mundo e as suas gentes.

Continuei a fazer fotografias piratas. As imagens estão por trás de vidro que reflecte as luzes do edifício, o que nem sempre dá jeito, mas permitiu-me brincar um bocadinho aos selfies com os famosos dirigentes (só tenho de treinar melhor como fazer fotos com uma mão só sem ficar a parecer que tenho uma lula na ponta dos braços) (ou então, podia largar o copo, também não seria má ideia):




A 9 de Setembro recomeçam os Lunchkonzert no foyer às terças-feiras. Óptima oportunidade para os que estão por esta altura em Berlim entrarem e verem a exposição. De brinde, levam um concerto à hora do almoço, que costuma ser sempre bom.