26 Novembro 2014

Luís, já fui feliz aqui!

Caro Luís Novaes Tito,

lembra-se deste episódio?
Eu lembro-me bem. Deste (que vai copiado, aí em baixo), e de quando andei a combinar com o António Pais uma entrega de presuntos na sua casa, com votos sinceros de feliz Natal para o digníssimo júri - entre outros momentos igualmente divertidos.

No Lidl já há biscoitos de Natal. Sinal de que é preciso começar a pensar no futuro: será que a Barbearia vai reeditar este concurso? Vá, diga que sim! Para voltarmos todos aonde já fomos felizes.

E se lhe falta tema, tomo a liberdade de propor "a palha do presépio" - uma singela homenagem à comunicação social portuguesa nos tempos que correm.

Então: temos concurso?

Beijinhos,

Helena






Concurso de Natal 2011 – Helena Araújo26ª concorrente admitida

Helena Araújo do Blog 2 Dedos de Conversa é veterana destes concursos e, por tradição, é a impulsionadora da agitação que à sua margem se desenvolve.

Diz-nos que "Se não têm pão, dá-se um jeito para que um camelo do Azerbaijão leve a Portugal bolas de Berlim.
Tenho a certeza que com esta prova de tanta solidariedade internacional nem vale a pena às outras pessoas concorrerem ao concurso camelos de presépio. Já está no papo.
"

Já antes, quando ainda queria vir a concurso sem imagens explícitas, tinha dito: 
"Allah hat 99 verschiedene Namen, die wir Menschen kennen. Keiner von uns kennt jedoch alle Namen. Als der Prophet Mohammed die Namen Allahs verkündete, beugte er sich am Ende vor und flüsterte den 100. Namen in das Ohr des Kamels. Seitdem ist es das einzige Tier auf Erden, das alle 100 Namen Allahs kennt. Und deswegen hat es auch so einen langen Hals und reckt den Kopf so hochmütig nach oben." (*)
Ao avançar com a provocação de servir os seus camelos montados por bolas de Berlim com recheio amargo, não deixa espaço para que se pense que daquelas paragens podem vir mais do que receitas agridoces. Bate-se, como sempre, por um primeiro lugar (esta coisa da supremacia germânica, pega-se) mas o júri habituado às deliciosas bolas com creme que continua a comer quando está de papo para o ar à beira-mar, apesar da ASAE, não se deixa impressionar.


(*) Tradução:
Alá tem 99 nomes conhecidos pelos humanos. Mas nenhum de nós os conhece todos. Quando o profeta Maomé anunciou os nomes de Alá, inclinou-se para um camelo e segredou-lhe o centésimo ao ouvido. Desde então, o camelo é o único animal no mundo que conhece os cem nomes de Alá. E por isso tem um pescoço tão alto e levanta orgulhosamente a cabeça.
"


25 Novembro 2014

este Natal só queria duas prendinhas

(foto)


1. Que me clonassem uma ou, de preferência, duas vezes.

2. Que clonassem a minha carteira 10 ou 20 vezes (de preferência no princípio do mês, por causa da conjuntura mais favorável)


É que é assim:

1. A Grimaud e o Queyras vão dar um concerto em Berlim no dia 30 de Novembro. Infelizmente não é na mesma sala, os patetas.

2. Há tempos soube que a ZAZ vinha a Berlim. Fiquei a pensar se comprava bilhetes ou não, se comprava bilhetes ou não, se comprava bilhetes ou não, e quando perdi o amor ao dinheirinho por causa dos valores mais altos e tal, e também por causa da conjuntura mais favorável, o concerto já estava esgotado. Agora estou a ouvir o CD da ZAZ, e de canção para canção fico um pouco mais chateada. O que eu teria gostado de a ver em palco!
Mas - já se sabe como é Berlim - provavelmente nesse dia havia mais dois concertos imperdíveis, e por isso dava-me jeito ter mais dois clones de mim.

Pelo que... menino Jesus, já sabes: são só dois desejos, e mais fáceis de realizar do que daquela vez que te pedi uma pilinha para poder caçar grilos como os rapazes da minha rua, e depois ficamos amigos para sempre. Quer dizer, já somos amigos para sempre, e os bons amigos... combinado? Obrigadinha.


24 Novembro 2014

prisão preventiva

Sobre a prisão preventiva do Sócrates não tenho nada a dizer porque não tenho dados para isso - o que dissesse revelaria mais sobre mim que sobre ele. Espero o desenrolar do processo, e estou em crer que não precisam do meu contributo para fazerem o seu trabalho bem feito.
Mas tem sido muito interessante observar as reacções das pessoas no facebook. E depois ainda falam dos comentadores anónimos dos jornais...

(Que me sirva a mim de aviso: vou estar muito atenta ao modo como falo dos políticos de quem não gosto.)


passatempos

Aos seis anos a minha filha divertia-se a falar inglês com sotaque russo.
Aos dez o meu filho divertia-se a inventar segundas vozes para os cânticos na missa. Esse é também um dos meus prazeres, mas pensava que era um prazer secreto (como uma pessoa se engana...) (noutro dia posso contar com mais detalhe essa alegria de descobrir coisas nossas nos filhos).
Para além de inventar (discretamente) segundas vozes, também gosto muito de imitar a voz de cantores conhecidos (bem mais fácil que inventar a minha própria, eu sei). Hoje experimentei esse passatempo com uma variação: para aproveitar o ear worm do dia, que calhou de ser o "And All that Jazz", comecei a tentar cantá-lo com o estilo Luísa Sobral.
A parte do "ããã dol det jããããzz" já resulta bastante bem.

Imitar a Catherine Zeta-Jones é que no way: aquela mulher sabe coisas que eu não vou saber nunca - bem tento pôr a voz num registo de mulher fatal devoradora de homens, mas de repente, em vez de meias de rede e ligueiro, dou comigo a descambar para o conforto da Joana Vasconcelos: a canção sai-me toda embelezada com naperons de crochet.
Enfim... cantar o All That Jazz à maneira da mãe da Susaninha do Quino - convenhamos que tem o seu quê de criação artística...



Caso queiram experimentar pôr crochet nisto, em vez das meias de rede da Catherine Zeta-Jones, cá vai a letra:

[VELMA]
Come on babe
Why don't we paint the town?
And all that Jazz

I'm gonna rouge my knees
And roll my stockings down
And all that jazz

Start the car
I know a whoopee spot
Where the gin is cold
But the piano's hot

It's just a noisy hall 
Where there's a nightly brawl
And all 
That 
Jazz

[COMPANY]
Skidoo!

[VELMA]
And all that Jazz

[COMPANY]
Hotcha!
Whoopee!

[VELMA]
And all that Jazz

[COMPANY]
Ha! Ha! Ha!

[VELMA]
So lick your hair
And wear your buckle shoes
And all that Jazz

I hear that Father Dip
Is gonna blow the blues
And all that Jazz

Hold on, hon
We're gonna bunny hug
I bought some aspirin 
Down at United Drug
I case you shake apart 
And want a brand new start
To do that-

[ROXIE]
Jazz

[VELMA]
Find a flask
We're playing fast and loose

[ALL]
And all that jazz

[VELMA]
Right up here
Is where I store the juice

[ALL]
And all that jazz

[VELMA]
Come on, babe
We're gonna brush the sky
I bet you luck Lindy
Never flew so high
'Cause in the stratosphere
How could he lend an ear
to all that Jazz?

[VELMA]
Oh, you're gonna see your sheba shimmy shake

[COMPANY]
And all that jazz

[VELMA]
Oh, she's gonna shimmy 'till her garters break

[COMPANY]
And all that jazz

[VELMA]
Show her where to park her girdle
Oh, her mother's blood'd curdle

[COMPANY]
If she'd hear her baby's queer
For all that jazz

[VELMA]
And all that jazz

And all that jazz

Come on babe
Why don't we paint
The town?
And all that jazz

I'm gonna
Rouge my knees
And roll my
Stockings down
And all that jazz

Start the car
I know a whoopee spot
Where the gin is cold
But the piano's hot
It's just a noisy hall
Where there's a nightly brawl
And all that-

[COMPANY]
jazz

[VELMA]
No, I'm no one's wife
But, Oh, I love my life
And all that Jazz!

[COMPANY]
That Jazz!


20 Novembro 2014

Martha Argerich e Riccardo Chailly em Berlim - um post para quem estiver nesta cidade na próxima semana


A Martha Argerich e o Riccardo Chailly vão dar três concertos na Filarmonia na próxima semana: 27, 28 e 29 de Novembro - Mendelssohn, R. Schumann (esta minha Schumanna parece que tem quinze dias...) e Rachmaninov. E agora a notícia bombástica: na terça-feira vão pôr bilhetes à venda para os lugares do coro, por 16 euros. Quem quiser, apareça lá às 14:01 (às 14:00 apareço eu, não tentem passar-me à frente, se faz favor).




A quem interessar possa, aviso ainda que a Hélène Grimaud vai tocar o seu "water recital" na mesma sala no dia 30. Ainda há lugares nos bancos do coro, mas infelizmente custam 40 euros.


19 Novembro 2014

um suave milagre


Uma amiga alemã, pediatra, telefonou-me porque tinha um doente angolano com problemas graves numa perna, que não entendia nada do que os médicos lhe queriam dizer e perguntar. Se eu podia traduzir? Com certeza, disse eu. Mas informei-a logo que devia contactar a Berlinda - Acção Social, que tem uma rede de voluntários justamente para casos destes.

Começámos: ela dizia-me em alemão "diz-lhe que vamos tirar a ligadura para ver a perna", eu pensava "ena, que médicos amorosos, arranjam um tradutor para explicar ao doente estas coisas tão óbvias" e, do meu lado do telefone, explicava tudo em português. Ela dizia "agora vamos deitar um líquido para soltar o penso, e se doer ele deve fazer um sinal", e eu traduzia. "Vamos passar os dedos pelas duas pernas, para ele dizer se sente o mesmo nas duas" - traduzi, mas o miúdo não reagia. Perguntei à médica se seria surdo. Ela achava que não, e continuámos. No fim do telefonema dei os contactos da Berlinda, e desliguei com uma certa sensação de impotência.

À noite recebi um sms: "querida Helena, desde que a senhora da Berlinda esteve aqui, o nosso rapazinho recomeçou a sorrir!"

(raramente um sms me fez sentir tão feliz)


18 Novembro 2014

esta minha semana mais parece uma schumanna...




"Alguns dos melhores músicos do Mundo", disse uma vez o Paulo, contando como foi o serão na Mesa dos Frades com alguns membros da Filarmónica de Berlim.
Hoje lembrei-me muito desta frase, porque estive no Lunchkonzert da Filarmonia, e tocava o Philharmonisches Klavierquartett Berlin - que, como o nome indica, é formado por músicos dessa orquestra - Andreas Buschatz, Matthew Hunter e Knut Weber -, acompanhados por Markus Groh ao piano. E que pianista! (além disso, o rabo de cavalo fica-lhe tão bem como à Hélène Grimaud)


Ali estavam eles a tocar um quarteto para piano de Schumann (Es-Dur op.47), e faziam-no com tanta poesia que passei o tempo todo a regressar às palavras do Paulo: alguns dos melhores músicos do Mundo, sem dúvida. Lucky me.

Lucky us: eles deram um encore, ainda mais bonito que a peça do Schumann. No fim, e porque queria trazer essa música para aqui, perguntei a um deles que peça era. Más notícias: era um quarteto para piano de Heinrich von Herzogenberg, uma peça raríssima que nunca foi gravada.

É sempre o costume: se me deixassem mandar...

Em todo o caso: hei-de estar atenta a estes senhores. Parece que um mês destes vão tocar na Kammermusiksaal, e vão repetir o Herzogenberg.

***

Só tinha o telemóvel jurássico comigo. Mesmo assim, não resisti a fotografar o bocadinho de Filarmonia que via das escadas onde estava sentada. Este edifício fascina-me. Tem mais de meio século, e continua a surpreender.



o pássaro como profeta

Já sei qual foi o encore que a Maria João Pires deu no concerto de ontem:
O Pássaro como Profeta, de Schumann.
Ainda agora estou a sorrir.

Adenda, para quem não está na Alemanha: podem ver aqui a Maria João Pires a tocar esta peça.






Brahms & Schumann



A seguir ao Verão a Filarmónica de Berlim teve um ciclo Brahms & Schumann: par a par, as sinfonias dos dois compositores, da primeira à quarta. Tive imensa pena de não poder ir, mas estava em Portugal.
(Não sei como faço para estar sempre do outro lado da Europa quando as coisas acontecem... - excepto quando caiu o muro, nesse caso estava apenas do outro lado da Alemanha; ou quando foi o 11 de Setembro: estava do outro lado dos EUA) (sou um caso irremediável de acertar em cheio sempre ao lado)

Ora bem: se Maomé não vai à montanha... o Digital Concert Hall está a disponibilizar gratuitamente o primeiro concerto dessa série.

Curiosamente, ontem ouvimos esta sinfonia nº1 do Schumann na Filarmonia, com o Paavo Järvi e a Staatskapelle Berlin - uma orquestra que festeja agora 444 anos de existência e cujo actual director artístico é o Barenboim.
(Nunca deixarei de me surpreender com os critérios divinos da distribuição das nozes.)

"E a Maria João Pires?", perguntarão. "Então o concerto de ontem não era com ela?"
Pois, que superlativos querem que eu invente, algo que seja realmente novidade, quando se trata de um concerto da Maria João Pires?
Um Mozart muito moderno e desempoeirado. Um encore tocado com leveza e alma (ó pra mim a inventar outra vez a roda no que diz respeito a críticas musicais a esta pianista), que ninguém me soube dizer de quem era. Perguntei ao pessoal que encontrei com instrumentos musicais no bar, depois do concerto, e eles: Satie? Some Brazilian guy? Chopin?
(Tão bom descobrir que estas coisas também acontecem aos outros, mesmo aos que andam a passear um instrumento musical pela Filarmonia...)

"E o Paavo Järvi?", perguntarão alguns, "então não era um dos que se falava para substituir o Rattle?"
Bom. Muito bom. Ainda tem de frequentar umas aulitas de Dança Expressiva, mas não está nada mal. O problema dele, contudo, é que o Dudamel já frequentou essas aulas, e além disso tem uma cabeleira mais efusiva.  
(Quem quiser algo de verdadeiramente novo nos critérios da escolha de maestros: pergunte-me a mim.)

Para terminar, boas notícias: parece que este não era um concerto de despedida da Maria João Pires. Parece que no próximo ano regressa a Berlim. Pois que venha sempre, e que me venha iluminar os próximos cinquenta aniversários, pelo menos!


17 Novembro 2014

ouro sobre azul


 


 
Hoje, ao passear com o Fox junto ao nosso lago, deixei-me encantar pelo dourado das folhas contra a superfície lisa da água: o ouro sobre o azul.
Está um dia tão bonito que o que apetecia era convidar os amigos para um entardecer na orla do Wannsee: a nossa fogueira, o vinho, o queijo. Seria com certeza um belo fim de tarde, mas não pode ser: hoje é o concerto da Maria João Pires na Filarmonia.
É o que vos digo: ouro sobre azul.

(Mas o melhor de tudo, se querem saber, são as mensagens que vão chegando: sinais dos que são e permanecem o ouro e o azul na paisagem da minha vida.)


16 Novembro 2014

ultimamente a minha vida tem sido isto

Hoje quis deixar aqui dois concertos para piano do Rachmaninov, tocados por ele próprio, para me acompanharem ao longo da manhã, enquanto arrumava a minha mesa, que bem precisa.
O problema é que - não sei como - pensava que a minha manhã ia começar ali, e afinal já passava muito da hora do almoço, e o dia começava a escurecer. Desde que caiu o muro, no domingo passado, o tempo perdeu os contornos.

O muro também deve ter caído para a Christina, porque apareceu para o almoço já passava das quatro. Ficámos a conversar até serem horas de ir buscar o Matthias, que regressava de um estágio no sul, e depois jantámos. Ainda não deixei aqui os dois concertos, ainda não arrumei a mesa, mas o domingo já acabou.

Amanhã é outro dia. Vou já adiantando trabalho: aqui fica o Rachmaninov, a ver se me ajuda a começar a semana a tempo e horas.







agora sei onde está a Miriam Makeba

Dizem que, quando morrem, as pessoas que amamos se mudam para uma estrela. Nas noites mais límpidas podemos sentir a sua presença numa luz pequenina e única.
A Miriam Makeba, pelos vistos, foi parar a um cometa, e agora canta na sua língua materna:





(para os que preferem as explicações científicas à metafísica, poder-se-ia dizer que há indícios de que os primeiros habitantes do cometa da missão Rosetta são africanos)

("explicações científicas", diz ela, hihihi)


15 Novembro 2014

a vida real como a virtual

Ontem fui jantar a casa de uns amigos, e foi taliqual como no facebook: ao fim de cinco minutos já passava da meia-noite.


14 Novembro 2014

ontem tive o meu momento Sophia Loren



Era só para dizer que aquele drapeado à altura da cintura era mesmo muito bem feito. 
Mas não gostei nada do baton preto.

A verdade é que não gostei nada de mim própria, a ver esta parte do Bambi como se fosse um mirone da praia, ou pior, uma hipócrita em atitude de vergonha alheia por antecipação, sempre à espera do momento em que se ia ver ainda mais do que se via.

"Então, e o momento Sophia Loren?", perguntarão.
Beeeem... esta fui eu, ontem:


Se querem saber tudo, tenho mais momentos Sophia Loren. É o meu superego, desde que me contaram que alguém lhe perguntou como é que fazia para não parecer velha, e ela respondeu que evitava fazer ruídos de velha. De modo que eu, agora, sempre que me atiro para uma cadeira e faço "aaaaah" ou me levanto e faço "aaaaiiiiiiiiii", ou assim, penso logo a seguir, com susto, "Oh, não! Sophia Loren!"
Os próximos cinquenta anos vão ser complicados.

13 Novembro 2014

heimat




Ai, que me está a dar a Ostalgie!

Conheci esta canção no Good bye Lenine. A minha vizinha em Weimar cantava-ma, a pedido. Belos tempos, quando os pais da turma da Christina, na escola primária, se juntavam em magustos e piqueniques. Um deles levava o piano eléctrico - era professor de música (bom, naquela escola metade dos pais eram músicos, e a outra metade eram arquitectos, e mais um par de estrangeiros como eu e mais um par de pessoas com roupas estranhas e ar de poucos amigos para os estrangeiros, que se calhar eram neonazis, ou assim). Pois, um deles levava o piano eléctrico, e acompanhava a minha vizinha, que sabia de cor todas as canções de todas as Alemanhas, e mais um bom par de canções russas ("aaaah, a alma rrrrussa", suspirávamos todos). As nossas filhas davam-se cotoveladas, um bocadinho incomodadas com estas mães que as embaraçavam. Depois comíamos o bom gulash húngaro que a minha vizinha fazia num caldeirão pendurado em paus por cima da fogueira. Bons tempos. Quase diria que foi minha, essa Heimat.


piano novo



Gosto muito de tocar esta peça, mas - sabe-se lá porquê! - quando a toco não soa assim.
Acho que vou comprar um piano novo...


normalidade


Está um dia cinzento, frio e chuviscoso.
Finalmente um dia normal de Novembro! Tem duas vantagens: (1) já não tenho de me preocupar com a relva, e, (2) se isto se aguentar assim por umas semanas, estou em crer que em Dezembro teremos Natal.


12 Novembro 2014

queda do muro de Berlim - 25 anos (3)

Bem sei que a semana já vai na quarta-feira, e não interessa nada o que eu fiz no domingo passado, mas deixo aqui na mesma, para minha memória futura:

Depois da celebração ecuménica, saímos do Mauerpark e começámos a descer para a Bernauer Strasse. Junto à rua havia um ecrã gigante que passava imagens históricas, e vi um avô que desceu da sua bicicleta para explicar ao neto: "ali era a rua tal, ali era a fronteira, nós passámos acolá..."






Memorial do muro, na Bernauer Strasse:




 


Desta vez, a cerimónia oficial foi no lado oriental do muro, e não no lado virado para a capela da reconciliação. Os políticos deixaram uma rosa na ranhura entre os blocos do muro, em vez de pôr coroas de flores no chão.

No memorial para as vítimas do muro também havia flores:




Na East Side Gallery (que era um segmento do muro todo do lado oriental, na parte em que o rio servia de fronteira, pelo que o betão estava nu até à implosão da RDA, e agora é pintado e repintado e trepintado segundo a vontade de cada um, para irritação dos primeiros artistas que tomaram posse):








Não nos deixaram entrar na 17 Juni, porque já estava sobrelotada. Que pena! Queria muito ver o que se passava no palco. Fomos para trás do Parlamento esperar a largada dos balões junto ao rio. Havia um ecrã gigante que passava imagens históricas. Mas o que nós queríamos era saber o que se passava no palco! A ver se para as comemorações do centenário me convidam a mim para organizar isto, a ver se fica um bocadinho melhor.




 




O muro mesmo junto ao Parlamento:




O muro a avançar na direcção da porta de Brandenburgo:


O muro junto ao nosso posto de observação:





Quando pouco faltava para começarem a largar os balões, apareceram uns barcos que se puseram à nossa frente. O pessoal desatou aos gritos e assobios. Ao meu lado, uma senhora dizia: "eles pagaram, podem", e eu respondi "Não podem tirar a vista às pessoas que estão aqui à espera há várias horas!". Ela insistiu: "Se pagaram..." e eu teimei: "O dinheiro não pode comprar tudo!"
Os gritos e os assobios não paravam, e os barcos foram para mais longe, para a parte em que não ficavam entre as pessoas e o muro de luz.
Um momento de Berlim no seu melhor - que ninguém pense que pode fazer dos berlinenses parvos!

Fiquei a pensar no argumento da senhora: a que propósito é que aceitamos que quem tem dinheiro passe por cima das normas mais básicas de civismo? Seria ela de Leste, resignada a deixar que quem tem dinheiro (os Wessis) faça o que lhe apeteça?




O Wowereit fez o seu discurso, lembrou a imensa coragem das pessoas que ousaram protestar, lembrou outros muros que ainda têm de cair. E os balões começaram a subir na noite.




A princípio foi muito bonito. Os holofotes em frente à porta de Brandenburgo iluminavam-nos bem, e eles largavam a bom ritmo. Mas em algum momento a coisa começou a travar. Nem todos os "padrinhos" do balão conseguiam soltá-lo à primeira, e nem todos tinham a presença de espírito de dizer aos do lado "vão largando vocês, que este daqui a nada também vai". De modo que o processo parava, ficava tudo à espera, o desgraçado do padrinho com um stress monumental de volta do pedestal...
Os nossos amigos portugueses criticavam a má organização. Portugueses! Nunca estão satisfeitos com o que se faz em Berlim...

Uma das vantagens de assistir a estas coisas no meio dos berlinenses é que uma pessoa é arrastada pelo humor deles. Daí a nada já estavam a aplaudir entusiasticamente cada balão renitente que finalmente levantava voo, e um pouco mais tarde, quando o processo parou por demasiado tempo, começaram a gritar a uma voz "Die Mauer muss weg! Die Mauer muss weg!" ("O muro tem de desaparecer!"). Rimos todos, claro, mas acho que um ou outro largou a sua lagrimita.
A boa disposição continuou: foi uma festa quando alguns balões ficaram presos debaixo da pala da biblioteca do Parlamento, e o pessoal quase soprava com força para os ajudar a escapar.




Regressámos a casa cansados e contentes, apostando que, ao ritmo a que isto (não) avançava, ainda íamos ver os últimos balões na televisão. Ao chegar perto do carro vimos que muitas pessoas levavam os pedestais para casa. "Pode-se levar?", perguntei eu. "Pode! Vão ser todos reciclados amanhã."
Trouxe um. Estou a pensar usá-lo como candeeiro de pé alto na sala.
Depois li no jornal que os criadores deste muro de luz se sentiram muito honrados por a população berlinense se apropriar da sua obra. Ora essa, de nada, de nada.

***

Algumas das fotografias que aqui estão foram feitas por um dos meus amigos portugeses. Como não me apetece estar a discriminar, ficamos assim: as melhores foram feitas por ele. Ou então pelo Joachim.

Há muitas mais, e muito boas, aqui e aqui.