27 janeiro 2015

27 de Janeiro de 1945 - libertação de Auschwitz










 A ARD escolheu Esther Bejarano, uma prisioneira que tocava na orquestra de Auschwitz, para assinalar este dia. Uma mulher com uma vitalidade impressionante, que conta que em Auschwitz decidiu sobreviver para se vingar. E vinga-se bem, diz ela: vai às escolas contar o que viu e viveu.

Traduzo (rapidamente) partes de uma entrevista que deu à ARD. As fotografias são do mesmo site.

Esther Bejarano era uma jovem mulher quando foi deportada para Auschwitz. Um lugar na orquestra feminina salvou-lhe a vida. Em conversa com o tagesschau.de conta o que sofreu no campo e como viveu a libertação. 


- O que significa o 27 de Janeiro para si?
- É o dia da libertação de Auschwitz, e do princípio do fim do fascismo de Hitler. Mas nesse dia em Auschwitz não havia muitos prisioneiros. Apenas os que não podiam andar, ou estavam demasiado doentes para sair nas marchas da morte. Os que estavam nas marchas não foram libertados nesse dia. Foi um grande dia, mas não foi ainda a libertação completa.

- Onde estava a 27 de Janeiro de 1945?
- Já não estava em Auschwitz. Os nazis tinham seleccionado os chamados „Mestiços" – e eu tinha uma avó cristã. Por isso, depois de sete meses em Auschwitz, fui enviada para o campo de Ravensbrück com 70 mulheres que também tinham pais ou avós “arianos”. Era um campo de concentração para mulheres horroroso, mas não era um campo de extermínio. Fui libertada em Maio de 1945. Estávamos numa marcha da morte, em Mecklenburg, eu e sete mulheres que também tinham vindo de Auschwitz para Ravensbrück. Não sabíamos para onde nos levavam, e ouvimos um SS dizer a outro que já não podiam disparar. Foi aí que decidimos abandonar a marcha. Uma após a outra fugimos para a floresta. Vagueámos pela região e acabámos por chegar a uma quinta. Deixaram-nos dormir num palheiro. No dia seguinte o lavrador veio ter connosco e disse „Se forem para a esquerda encontram os americanos, se forem para a direita encontram os russos.” Mas não tivemos de tomar nenhuma decisão, porque nesse momento apareceram dois tanques americanos. Mostrámos aos soldados os números tatuados no braço. Os soldados içaram-nos para os tanques e levaram-nos para Lübz, onde nos convidaram para ir a um restaurante. Eu e uma amiga minha sabíamos inglês e contámos o que tínhamos vivido – inclusivamente sobre a orquestra de raparigas de Auschwitz. Daí a pouco entrou um soldado com um acordeão e disse que era altura de cantar. A seguir ouvimos uma grande barulheira na rua: soldados do Exército Vermelho tinham entrado na aldeia e anunciavam que o Hitler estava morto e a guerra tinha terminado. Os soldados americanos e russos festejaram juntos e queimaram uma grande fotografia do Hitler, enquanto eu tocava acordeão. Foi fantástico.

- Antes da libertação, das marchas da morte e de Ravensbrück, esteve em Auschwitz. Havia lá algo parecido com uma normalidade quotidiana?
- Naturalmente, havia um quotidiano, e era horroroso. Trabalho – no princípio tinha de carregar pedras. Das sete da manhã às sete da noite. As pedras eram imensamente pesadas e eu era uma miúda pequena e frágil. Tinha mesmo de sair dali – e tive sorte. Uma noite um dos prisioneiros veio em busca de mulheres que tocassem algum instrumento. Disse logo que sabia tocar piano. Mas não havia pianos Auschwitz. Ele disse que havia um acordeão, e eu devia tocar nele "Du hast Glück bei den Frauen Bel Ami". Nunca tinha tocado um acordeão, mas menti e disse que já não tocava há muito e precisava de alguns minutos para me habituar de novo. Fui para um canto da barraca experimentar. A mão direita não tinha problema, porque é como no piano. Mas o acompanhamento na mão esquerda – não fazia a menor ideia. Um dos botões estava marcado, era o dó maior. A partir daí, descobri os outros. Finalmente, toquei a música que queriam, e aceitaram-me na orquestra. Caso contrário, teria sido o meu fim.

- Quando é que os SS de Auschwitz deixavam tocar uma orquestra?
- Punham-nos ao portão a tocar quando as colunas de trabalho saíam de manhã e regressavam à noite. Mais tarde, ocorreu-lhes que também devíamos tocar quando chegavam os transportes da Europa, em cais diferentes. Nós sabíamos que estas pessoas iam directamente para as câmaras de gás. Elas acenavam-nos. Provavelmente pensavam que um lugar onde há música não pode ser muito mau.

- 70 anos mais tarde, a música ainda é muito importante para si. Faz parte da banda Microphone Mafia. O que há de especial nesta banda de rap?
- Na Microphone Mafia encontram-se três gerações e três religiões num palco. Entre outros temos um muçulmano, um católico – e eu e o meu filho, que somos judeus. Queremos ser um exemplo para todos os que pensam que as pessoas que têm raízes diferentes não podem viver em harmonia umas com as outras. Nós entendemo-nos lindamente.


primeiras conclusões sobre a vitória do Syriza:

Deixa-me é comprar rapidamente as passagens de avião para a Costa Rica, para irmos visitar o rapaz, que o euro está a perder valor e sei lá se as companhias de aviação fazem as contas em dólares.

Ai, espera, as companhias de aviação dependem do preço do combustível, e o petróleo começou outra vez a encarecer por causa da morte do rei Abdulah. Portanto: primeiras conclusões sobre a morte do rei Abdulah: deixa-me é comprar rapidamente as passagens de avião para ir visitar o rapaz.

Ontem vi na televisão alemã vários políticos europeus e cá da terra a fazer pocker face: Oh, estamos descansadíssimos, oh, não há motivo nenhum para estarmos preocupados. Obrigadinha, obrigadinha, pode ser que assim as minhas passagens de avião não fiquem mais caras.

Também vi um bocadinho do "Hart aber Fair" (aqui, em alemão), com a conversa do costume, "a Grécia tem de fazer reformas", "a Grécia já recebeu muito e continua a receber", mas também uma alemã que vive na Grécia há 14 anos e conta como é o dia-a-dia. Por exemplo, a empresa na qual o marido trabalha: com pessoal excelente, com projectos excelentes, mas completamente bloqueada porque nenhum banco lhes concede crédito para avançar com os negócios. E uma Sarah Wagenknecht, dos Linke, assertiva e confiante. Gostei muito de algumas das suas intervenções: quando falou de uma nova Europa, mais unida e mais social, e quando disse que era perfeitamente legítimo o governo grego expropriar 1/3 das posses dos mais abastados, tal como se fez na Alemanha no fim da guerra.

Eu a gostar do que os Linke dizem?! Não me digam que a eleição do Syriza iniciou um dominó esquerdista que até a mim vai arrastar?! A ver vamos.


pequeno elogio do desleixo parental

Por causa da tempestade de neve que está a provocar o caos nos aeroportos americanos, mandaram o Matthias para a Costa Rica por outra rota - a do México. Mas não lhes ocorreu que tinha de correr tudo mesmo muito bem para lhe dar tempo de recuperar a mala, passar a fronteira, arranjar um bilhete, passar a fronteira, e apanhar o avião para San Jose. De modo que perdeu a ligação e passou a noite no aeroporto do México, rodeado de malas. Esta manhã tinha uma mensagem dele no facebook: a avisar que já tinha internet e que estava bem, e a dizer que ia exigir à Lufthansa uma passagem gratuita porque foi a funcionária em Berlim que fez mal as contas. E repete: "Mas estou bem! :)"

Portanto: está do outro lado do mundo, praticamente sem dinheiro e sem bilhete para seguir viagem, passou a noite no aeroporto, e a sua primeira preocupação é descansar os cotas.

(Eu sabia que todos estes anos em que não lhe perguntei se tinha deveres para fazer ou pela data dos testes, nem lhe disse "vai estudar piano" e "vais chegar atrasado ao futebol!", todos estes anos em que desleixei o meu dever de lhe fazer a papinha iam ter algum resultado positivo.)


25 janeiro 2015

we'll always have lullabies


Porque é que o raixparta do Chico Buarque tinha de escrever o raixparta do poema Oh Pedaço de Mim? Porque é que eu tinha de o aprender de cor? É o meu ear worm agora que o Matthias está a partir para um ano de voluntariado na Costa Rica, triste vida.
Em resposta, o Matthias trauteia "não posso ficar, não posso ficar..."
Cantigas de amigo.

Ontem tivemos um jantar de despedida, e os dois pediram que cantasse a sua canção de embalar preferida. "A minha", disseram. Era a maneira de fechar o dia em paz com cada um deles, devem ter ouvido essas canções mil vezes. Ontem quiseram voltar a um lugar onde foram felizes - e eu cantei, fazendo das tripas coração.
No início desta nova fase da vida, é bom saber que we'll always have lullabies.

Lullabies, já as temos. Chegou o tempo de descobrir música nova, inventar outras pontes entre nós.
O Matthias anda a tentar entusiasmar-me para a música electrónica. Espertinho, mostrou-me isto, sugeriu que a Filarmonia de Berlim fizesse o mesmo:



E assim vai a vida.


24 janeiro 2015

Fanatika 2015

Peça do programa satírico Extra 3 de 22.01.2015 (vale a pena ver tudo - mas é em alemão).
Se me explicarem como posso pôr legendas em português no filme, eu traduzo. Para já, deixo a tradução em texto.



Fanatika 2015 - aqui apresentam religiosos extremistas e também organizações sem fins lucrativos novos produtos e tendências.
Há CDs dos "quatro fanáticos", radicalendários com as datas de tumultos mais importantes, ou, para os extremistas mais novos, o "Salafinho", a divertida mascote dos salafistas.

- Bom dia, como é o seu nome?
- Hassan.
- Hassan com um S?
- SS.
- SS? Fantástico! O meu avô também era desses, posso contar-lhe algumas coisas.

- Bom dia, onde é o pavilhão doj ijlamijtas? [sotaque suábio]
- Por causa da afluência, este ano estão no pavilhão 2, que é o maior. Passe ao lado do pavilhão 1, o dos nazis, e logo a seguir a um pequeno stand com muitas cores do Hamas tem uma porta à esquerda, e já está no pavilhão 2.
- Muito bem, obrigado.

Este jovem visitante da Feira é o Winfried Ovelha-Beta, está desempregado há três anos, não tem namorada e a sua personalidade é bastante instável. Procura na Fanatika novas oportunidades de carreira.

[Canção:] Vai para o ISIS, meu amigo, / Não tens jeito para nada, / Então começa por fazer todas as loucuras

Winfried começa por se dirigir ao stand do ISIS para se informar sobre a profissão de mártir. Aqui acena-lhe uma fantástica carreira como carne para canhão, se estiver disposto a fazer atentados suicidas.
- ...e no segundo atentado o pagamento é ainda melhor.
- Parece-me bem.

- Ei, irmão! Não vás para a cópia barata! Anda para o original! Anda para a Al-Qaeda!
- Ei, ei! A Al-Qaeda está a perder poder de tal maneira que é o HSV das organizações terroristas!
- Seu filho de uma cabra sem mãe!

- Ei, tu: devias vir para o Boko Haram.
- Hahahahaha

- Desculpe, onde são os colonos judeus radicais?
- Pavilhão 7.

Agora é o momento de comparar ofertas...
- Mas olhe que o seu colega do ISIS prometeu-me 73 virgens.
- 73 virgens? Um momento, tenho de falar com o chefe... (....) OK, oferecemos-lhe 74 virgens.
- 74, não me parece mal. Mas têm mesmo essas virgens todas para tantos mártires?
- Oh, temos sempre virgens que chegue. Não é, Fátima?
- Claro que sim.

- Esta é a minha última oferta: 75 virgens, e um saco de tâmaras.
- Tâmaras? Negócio feito!

A Fanatika 2015 continua aberta até ao fim do ano.


22 janeiro 2015

Berlin interiors

Tenho estado a ver o BnB de Berlim, e estou fascinada: agarrem-me, que me apetece mudar para as casas dos outros!
(Ou isso, ou arrumar e limpar a minha, para ficar mais ou menos parecidinha...)

As fotografias estão com pouca definição - nos respectivos links estão muito melhores, e há mais para sonhar à vontadinha.
(Será que uma simples vassoura me transportará para um lugar de sonho como estes? meu reino por um aspirador!)













coisas da vida


Os raixparta os afrontamentos também começaram a dar aqui para estes lados.
Hoje já vou praí em cinco (ou dez?). Estúpidos. Ia ver de quanto em quanto tempo são, mas depois lembrei-me que não estou grávida e isto não é um parto.
Até se aguenta mais ou menos (excepto os que dão durante o sono, e me acordam, esses são ainda mais raixparta). O que é difícil é este sinal iniludível de que a vida está a passar. Mesmo com sorte, já só tenho mais cinquenta aninhos. Que chatice, estava-me a saber tão bem andar por aqui!


21 janeiro 2015

sotaques

(foto)

Dizem que falo alemão com sotaque. Uns acham que será francês (também toco piano, ah, pois), outros apontam mais para o holandês, há quem diga sueco, nos melhores dias perguntam-me se sou suíça. Noutros tempos iria parar a uma barraca da feira, para o pessoal fazer apostas. Sorte a minha, que nasci na época certa. Quer dizer, azar o meu: era um dinheirinho bem ganho.

Dizem que também tenho um certo sotaque quando falo português. Até há quem me pergunte onde aprendi a falar tão bem. Uns acham que são ares do Porto, outros apontam para alguma pinta de inglês.

Já dei comigo a falar inglês com sotaque do Porto.

Se a língua é a nossa pátria, então sou alien nelas todas.

20 janeiro 2015

post onde se fala de economia paralela, solidariedade, receitas de bolos e o que mais calhou

Daqui a uma semana o Matthias sai para a Costa Rica, para um ano de trabalho voluntário numa escola. Ultimamente tenho-me lembrado muito da frase "os ricos que paguem a crise": para estes jovens alemães poderem ir trabalhar de graça durante um ano em bairros pobres, têm de juntar os 3.800 euros que o ano custa à organização, mais o dinheiro para a passagem de avião. Triste vida.
(E podem criticar, e dizer que mais valia dar logo os quase cinco mil euros ao bairro pobre. Têm razão, mas perdia-se o valor acrescentado de haver jovens a sair deste continente para conhecer outras realidades e fazer amigos entre outros povos e culturas.)

Para pagar o bilhete do avião resolvemos vender muitos dos livros infantis e uma parte do Lego que fomos juntando nos últimos vinte anos. O Matthias fez convites e andou a espalhá-los na vizinhança (foi um dia maravilhoso para o Fox: iam à rua, tocavam às campainhas, falavam, os vizinhos faziam festinhas ao Fox, voltavam para casa para vir buscar os convites que entretanto a impressora já tinha despachado, o Matthias chamava o Fox para saírem de novo, ele arrebitava as orelhas como quem não acredita no que está a ouvir e lá ia aos saltos, feliz da vida). Depois escolheu o Lego. Eu escolhi os livros, caixas e caixas deles, todos os que imagino que não vão interessar aos netos. A Christina e o Matthias fartaram-se de protestar quando viram o monte dos que eu estava disposta a vender ("este livro?! mas este livro é fantástico! e este foi durante muito tempo o meu favorito! ai, e aquele é tão engraçado, ria-me sempre quando o lia! e estes dois foram tão importantes para eu perceber como é que as máquinas funcionam!") (fiquei a ouvi-los enquanto percorriam os livros e por eles a sua infância - parece que os livros lhes foram bons amigos). Só sobrou metade do meu monte para vender, e mesmo assim dava para abrir uma pequena livraria. Pusemos os livros no quarto dos turistas, divididos por temas e línguas (alemão, inglês, português, francês) e cobrimos a cama com o Lego. Na cozinha ao lado os bolos foram enchendo a mesa: brownies, fiadone de Corse, tarte de grão de bico, bolo barranquenho, tarte de maçã, bolo de natas. E bolachas, por especial insistência do Matthias, que dizia que os miúdos iam gostar.


Os vizinhos começaram a chegar. Apesar dos nossos protestos, descalçaram-se todos e deixaram os sapatos no terraço gelado, e desataram aos "ah" e "oh", e que boa ideia tivemos!, e que bom termos esta oportunidade de conhecer os vizinhos!, e que maravilhosos os bolos!, e havemos de fazer uma festa de rua quando chegar o verão!


Os miúdos mergulharam no Lego e só pararam um bocadinho para se irem encher de bolachas.

Os bolos foram um sucesso, tal como daquela vez que fizemos uma garage sale em San Francisco para vender os móveis e tralha restante antes de regressar à Alemanha, e aproveitámos para nos despedirmos dos amigos com uma festinha no jardim da frente, junto à garagem. Os bolos desapareciam que era uma maravilha, os móveis nem por isso, de tal maneira que uma das nossas amigas sugeriu que eu vendesse os bolos e desse os móveis.

Desta vez correu melhor: o Matthias juntou metade do preço da passagem de avião. E nós aproximámo-nos bastante de alguns dos novos vizinhos. Gostei da pinta deles. Estávamos todos um bocado patetas, sem saber se nos havemos de tratar por tu ou por você. Desconfio que seja uma questão geracional: quando chegarem à nossa idade, os nossos filhos já não vão ter estas dúvidas.

Só uma família estragou um bocadinho a fotografia. Encheram um saco enorme de peças de Lego, e deram 13 euros. Fiquei a olhar para eles, estupefacta. "É pouco?", perguntaram. "Bem, cada um dá o que entende, mas estamos a vender isto para pagar a viagem do Matthias à Costa Rica..."
Treze euros. Devia ter dito "Claro que é pouquíssimo! Só as vinte figurinhas do castelo medieval valem isso e muito mais!"
Agora estou a pensar nesta minha maneira de ser, este engolir em seco quando alguém abusa. Para meu bem, e da saúde nas relações de vizinhança, devia ter sido bem mais directa. Tenho de aprender. E a ver se aprendo também: quantas vezes não fui já a concertos da Filarmonia "gratuitos", a favor da UNICEF, e me esqueci de deixar um donativo na caixa, ou deixei apenas uma notinha de cinco euros...

Para os mais curiosos: seguem imagens e algumas receitas dos bolos.
(As bolachas - para os ainda mais curiosos - eram Leibniz.)





(o bocadinho que falta foi o meu controlo de qualidade, e despachei-me a tirar a fotografia para continuar o controle, sem mais delongas e até à última fatia - foi o meu favorito do dia)



(como não arranjo broccio, faço com ricotta)




(uma velha conhecida deste blogue)





19 janeiro 2015

manhã de inverno





Ontem o lago gelou. Já por duas vezes tinha ameaçado, e foi à terceira.
Estava um dia tão bonito que, ao passear com o Fox, me lembrei de uma anedota que me contou uma amiga brasileira: "este ano os alemães tiveram sorte, o verão calhou num domingo".

Este ano tivemos sorte: o inverno calhou num domingo. E que belo inverno.






 






 




viva o direito de ofender, doa a quem doer...

(foto)


Nevou na Arábia Saudita, algumas pessoas divertiram-se a fazer bonecos de neve, um clérigo disse que os bonecos de neve eram tão proibidos como todas as outras imagens que representam seres com alma. Ou algo assim. Muita gente na Arábia Saudita protestou (o meu comentário favorito é este: «Que Deus preserve os académicos, pois eles gozam de uma visão afiada e reconhecem problemas que nem passam pela cabeça de Satã», aqui) e acredito que tenham ficado com tanta vontade de obedecer como quando em Portugal certos cristãos dizem que sexo é só para ter filhos.

Para libertar o Raif Badawi, que foi condenado na Arábia Saudita a levar cinquenta chicotadas por semana até perfazer mil - ou seja: que está condenado a uma horrorosa morte lenta -, a Amnistia Internacional finlandesa resolveu fazer uma manif em frente à Embaixada daquele país. E teve a brilhante ideia de usar como manifestantes os bonecos proibidos pela fatwa.
Quatro coelhos com uma cajadada, isto é que é eficiência! Mostram que não têm medo das fatwas sauditas, sublinham que nós cá temos liberdade de expressão, manifestam-se pela libertação do Raif Badawi e, em vez de ficarem horas e horas especados ao frio, fazem umas fotografias e vão para casa pô-las na internet.
 
Suponhamos que aqui há uns aninhos, em Portugal, a PIDE estava a torturar um homem chamado, sei lá, Manuel Silva. Suponhamos que por essa altura alguém importante da Igreja em Portugal tinha dito que a Nossa Senhora de Fátima era o non-plus-ultra da pureza e o símbolo nacional por excelência. Suponhamos que noutro país um grupo de engraçadinhos ia para a frente da Embaixada de Portugal pespegar imagens da Nossa Senhora de Fátima feita mulher fatal, com cartazes a dizer "free Manuel Silva". A PIDE nem ia torturar com mais acrimónia nem nada, suponho. O Manuel Silva ia ficar muito agradecido aos engraçadinhos, suponho.

(Este seria o momento em que eu ia buscar o cartoon do CH, e trocava a cara do Maomé pela do Raif Badawi a dizer "c'est dur d'être aimé par des cons!")


17 janeiro 2015

manifs

(foto)

(foto)

Ultimamente os meus filhos não têm mãos a medir: as manifs da segunda-feira do Pegida ("temos de ser muitos mais que eles!"), mais as "Je suis Charlie", mais as reacções vergonhosas contra a vinda de refugiados para a Alemanha, mais o TTIP - entre tantos outros motivos para sair à rua e lutarem pela sua Alemanha.
Ontem estavam a combinar a ida a Magdeburg, para impedir uma manifestação da extrema-direita. A saída era às sete da manhã, pelo que à noite combinei com o Matthias que tratava do Fox, e despedi-me dele pedindo-lhe para ter cuidado. Não sei da missa nem a metade, e o que sei já me dá motivos mais que suficientes para ficar inquieta: os meus filhos no lado dos fora-da-Lei, o momento horroroso de pânico quando a polícia os ataca, as regras rigorosas (mesmo simples jornais para proteger as canelas são proibidos), o perigo da viagem de regresso num comboio onde se juntam passageiros das duas frentes.

Temos falado bastante sobre isso. É mesmo preciso andarem em manifs não autorizadas? É mesmo preciso tentarem impedir os outros de se manifestarem? Não basta juntarem-se noutro ponto da cidade, mostrando um número de manifestantes dez vezes maior? E essa maneira justiceira de ocupar a rua não vai contra os princípios do Estado de Direito? E querem mesmo estar do lado de tanta gente que tem motivos bem diferentes dos deles, e não respeita os valores democráticos? Digo-lhes: marquem uma manifestação legal, e eu vou convosco.
Eles sabem que há muita gente do seu lado da manif que não partilha os seus princípios. E vão na mesma, porque lhes é muito importante impedir a passagem da extrema-direita nas ruas alemãs. Não concordo, não gosto que o façam. Mas sinto uma enorme admiração pela coragem e generosidade destes miúdos: milhares deles que se levantam de madrugada num sábado, para mais sabendo que correm o risco de apanhar da polícia e dos neonazis, e vão dar o corpo ao manifesto da Alemanha que querem ter.

Ao sair com o Fox estranhei ver a bicicleta do Matthias. Então ele não devia estar já no comboio a caminho de Magdeburg? No regresso, tinha uma mensagem da Christina: "liga-me quando te levantares". Telefonei-lhe. A manif de extrema direita em Magdeburg foi cancelada, e o grupo resolveu ir para Frankfurt (Oder), onde está anunciada outra. Queria dar-me o número de telefone de uma amiga, para o caso de a polícia a prender e lhe tirar o telemóvel. Havia medo na voz dela.

O Matthias resolveu não ir a Frankfurt. Para preparar a sua ida, em breve, para a Costa Rica, levou ontem um cocktail de vacinas e não se está a sentir bem. Mais me impressiona: apesar de doente, estava a planear ir para aquelas correrias loucas nas ruas de Magdeburg.

A Christina já me avisou que na próxima segunda-feira há uma manifestação anti-Pegida autorizada, e lembrou-me a promessa: se é autorizada, vens? Claro que vou, e levo amigos. Temos de ser cem vezes mais do que eles. Vou-me sentir muito honrada por desfilar ao lado dos meus filhos e dos seus amigos.

15 janeiro 2015

ah, as saudades que eu tinha de um bom escândalo...

(foto)

Parece que uma das maiores editoras mundiais escreveu aos seus autores de livros infantis, pedindo que evitassem criar histórias envolvendo porcos e salsichas. Ai, que grande escândalo! Ai, malditos muçulmanos (e judeus) que ameaçam a nossa liberdade!

Passo a vida a repetir isto: quando a esmola é grande o pobre desconfia. Mas as pessoas gostam é de se escandalizar muito, tenham ou não razão para isso (ora, detalhes sem importância). De modo que já vai por aí uma onda de preocupação por causa da fatwa contra a Miss Piggy e os Três Porquinhos.

A primeira coisa que me ocorreu foi perguntar-me como seria a minha própria reacção a um livro escrito numa cultura onde as cobras são animais de estimação. Será que eu compraria um livro de um menino que gostava muito da sua cobra, e dormia abraçado à cobra, e blablabla com a sua cobra, para ler aos meus filhos antes de eles adormecerem? Ou se o livro fosse escrito numa sociedade que usa excrementos humanos como quem usa mostarda (pronto, é só um exemplo de algo que nos mete nojo) - será que eu daria aos meus filhos livros dos "cinco" e dos "sete" escritos nessa cultura, incluindo as partes das sandochas?
Portanto: se me querem vender livros infantis, a mim, façam-nos com conteúdos que me sejam agradáveis. Caso contrário, não compro.

Foi o que a editora pensou: se queremos aproveitar os ganhos das economias de escala que a globalização permite, toca a fazer conteúdos que se possam vender em todos os países. Ninguém está a dizer que vão apagar a Miss Piggy do seu lugar de honra na cultura ocidental, mas apenas que quando fizerem novos livros que pretendam vender também em países de arreigadas tradições muçulmanas, seria melhor inventar outras figurinhas.

Um outro artigo explica isso muito bem, e põe-nos este espelho em frente dos olhos:

What concerns me most about today’s coverage is that it appears to focus almost entirely on the issue of pigs being “censored” because of Muslim sensibilities. Nobody’s talking about, for instance, the – in my view – bigger issue that (again for commercial reasons) writers are asked not to refer to evolution in reading scheme books because it will limit American sales.


14 janeiro 2015

13 janeiro 2015

Berlim, 12.1.2015, Chancelaria e Parlamento

A manifestação pretendia ser um sinal importante para o movimento Pegida, e uns bons milhares de pessoas aguentaram firmes apesar do frio e da chuva.








Quando me fui embora, o carrilhão do Tiergarten (do "Big Benz"...) estava a tocar "Weisst Du wieviel Sternlein stehen?"

(Sabes quantas estrelas há no céu? / (...) / Deus, o Senhor, contou-as / para que no meio de tantas / não se perca nenhuma.)


12 janeiro 2015

Berlim, 11.1.2015, Praça de Paris



Em frente à Embaixada francesa, pessoas armadas de lápis e flores brancas.