21 outubro 2025
Stadtbild...
10 fevereiro 2025
em que nos estamos a tornar?
https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/afegao-que-matou-2-pessoas-alemanha-seguia-no-pais-devido-erro-administrativo/
10 junho 2024
caso alguém não saiba onde era a extinta RDA...
21 maio 2024
no parlamento federal alemão, não pode - nem por sombras
Para memória posterior, aqui fica registado que aconteceu no Parlamento
português, em 17.5.2024:
Pergunta da deputada Alexandra Leitão: "Se uma
determinada bancada disser que uma determinada raça, ou uma determinada etnia,
é mais burra, mais preguiçosa ou menos digna - também pode?"
Resposta de Aguiar-Branco, Presidente da Assembleia da República: "No meu
entender, pode." A seguir, justifica: "A liberdade de expressão está
constitucionalmente consagrada. A avaliação do discurso político que seja feita
aqui nesta casa será feita pelo povo, em eleições." E insiste: "Não
serei eu nunca a cercear a liberdade de expressão de um senhor deputado."
=====
Passei pelas redes sociais, encontrei o circo
instalado. De um lado, o gozo e os aplausos por parte dos adeptos do
"quanto pior, melhor". No outro extremo, este desabafo dos
professores tocou-me especialmente: "se o presidente da Assembleia da
República diz que o discurso racista está protegido pela liberdade de
expressão, retira aos professores a autoridade para impedir comportamentos ou
discursos racistas na sala de aula, e está a torpedear o cumprimento de um
dever da escola, que é a construção de uma sociedade democrática e coesa,
assente no respeito pelos direitos garantidos pela Constituição."
Em vez de repetir neste blogue o que por aí se diz e lê em português, traduzo alguns textos da comunicação social alemã, apenas com o intuito de informar sobre como se fala sobre estas questões na Alemanha (lembram-se? É o país onde Hitler chegou ao poder por via democrática – e “gato escaldado”...)
Não sou especialista destes temas. Limitei-me a fazer uma pesquisa sumária com
o auxílio do google, e a traduzir algumas das primeiras páginas que me
apresentou. Aqui, por ordem cronológica:
17.5.2018
Excertos de um artigo sobre as ofensas às normas e à
dignidade do Parlamento Federal alemão (Bundestag), alguns meses
depois de nele existir uma facção da AfD:
Quem preside a uma sessão parlamentar tem à sua
disposição várias possibilidades para manter o respeito pela ordem e pela
dignidade do Parlamento. Entre elas: repreensão, chamada à ordem, expulsão da
sala (pode ir até 30 dias).
Na primeira legislatura (1949 a 1953) e na décima
(1983 a 1987) foi preciso recorrer inúmeras vezes a esses instrumentos. A
décima legislatura coincidiu com a entrada no Parlamento de um jovem partido:
os Verdes. Famosa ficou a sessão em que Joschka Fischer disse ao presidente:
"Com todo o respeito, o senhor é um cabrão". Foi expulso da sessão, e
no dia seguinte pediu desculpa. As legislaturas seguintes tornaram-se muito
calmas no que diz respeito ao tom do debate parlamentar. Com a entrada da AfD,
no Outono de 2017, recomeçou a necessidade de velar para manter a ordem e o
nível nas sessões parlamentares. Várias vezes os deputados da AfD foram
interrompidos pelo presidente da sessão por se expressarem de forma
"inapropriada para o Parlamento", ou "em moldes que não são
habituais entre nós". Em Maio de 2018, a líder do grupo parlamentar da
AfD, Alice Weidel, afirma no seu discurso: "Burkas, raparigas de lenço na
cabeça, assassinos de faca a viver de subsídios e outra gente sem préstimo não
vão garantir a nossa prosperidade, o crescimento económico e, acima de tudo, o
Estado social". O presidente do Bundestag, Wolfgang Schäuble,
interrompe-a: " A senhora deputada está a discriminar todas as mulheres
que usam um lenço na cabeça. Por isso, chamo-a à ordem". Weidel apresentou
uma objecção, que foi a votação e rejeitada pela maioria dos deputados.
14.6.2018
Um deputado da AfD usa o seu tempo
de intervenção para fazer um minuto de silêncio em memória de uma jovem de 14
anos que fora encontrada dias antes sem vida, alegadamente assassinada por um
refugiado.
A vice-presidente do Parlamento insiste para que o
deputado fale sobre o tema do debate, e acaba por expulsá-lo do pódio, uma vez
que não acata as suas ordens. Na semana seguinte, ao dar início aos trabalhos
do plenário, o presidente da Assembleia fez algumas declarações sobre o assunto
e admoestou a facção da AfD. Queixou-se de que o grupo parlamentar do AfD tinha
publicado um vídeo da cena numa rede social, pouco depois do incidente,
criticando a vice-presidente do Parlamento. Consequentemente, a deputada foi
difamada, insultada e ameaçada em inúmeros comentários, e-mails e telefonemas -
de tal forma que se pesou a necessidade de lhe dar protecção policial.
Afirmou que não é permitido "criar uma espécie de minuto de silêncio por meio de um silêncio demonstrativo", que o tempo de uso da palavra de um deputado está limitado a intervenções, e que o Presidente do Bundestag é o único que decide sobre os minutos de silêncio e as cerimónias de homenagem no Parlamento. A "encenação" do AfD não só resultou em violações dos direitos de personalidade, como também afectou o Bundestag enquanto órgão constitucional: "A mera aparência de instrumentalização das vítimas de crimes não é compatível com a dignidade do Parlamento Federal". Continuou, dizendo que as disputas no parlamento devem seguir regras, e que o que acontece no Bundestag tem consequências para o debate público: "Pode ser o modelo para um debate civilizado. Mas também pode ser uma causa para o ódio e a agitação, para o embrutecimento e até para as piores formas de violência. (...) Faz parte da nossa responsabilidade aprender com a experiência da nossa história a facilidade com que disputas irresponsáveis podem levar ao ódio e a uma escalada de violência. (...) Temos de manter a moderação para não envenenar o nosso clima político e social."
5.9.2023
Artigo no jornal Welt:
Na abertura da sessão parlamentar, a presidente do
Bundestag, Bärbel Bas (SPD), apelou aos deputados para que se tratem com
respeito. O número de medidas disciplinares aplicadas está "muito acima do
nível" das legislaturas anteriores. (...) Criticou a forma como os
deputados se comportam em plenário e apelou a que dêem o exemplo. "Caros
colegas, todos sabemos que o discurso e a resposta são determinantes para um
debate argumentativo e pacífico. Quem se serve do discurso para emitir
provocações, generalizações e banalidades, quem insulta e agride, fica à margem
do discurso argumentativo." Muitas sondagens mostram que a confiança nas
instituições políticas está a diminuir. Por isso, apelou aos membros do
Bundestag para que levem a sério a sua responsabilidade de dar o exemplo.
Um deputado da AfD comparou de forma
indirecta Angela Merkel a Hitler
Disse ele: "Exceptuando um 'cabo da Boémia',
nenhum político trouxe tanta desgraça à Alemanha como esta ex-chanceler."
A vice-presidente do Parlamento Federal repreendeu-o nestes termos: "No
Bundestag, pode exprimir-se qualquer opinião, mas o que não se pode fazer é insultos
pessoais. E o que também não é aceitável é equiparar as pessoas que trabalham
na política deste país àquelas que ocuparam o poder durante o
nacional-socialismo. (...) Não é apropriado para o Parlamento. E não vamos
tolerar isso nesta Assembleia."
21.1.2024
Artigo no jornal SZ (não
directamente sobre discurso racista ou xenófobo no Parlamento, mas sobre o modo
de debater e exprimir discordância)
O ambiente no país está a ficar mais irritável - e os debates no Bundestag
estão cada vez mais agitados. Por isso, o número de vezes que os deputados
foram chamados à ordem aumentou consideravelmente. Só no ano passado, a
presidência do Parlamento recorreu a este instrumento 51 vezes para penalizar
deslizes verbais e outros comportamentos incorrectos. Este número foi superior
ao registado em toda a legislatura anterior, de 2017 a 2021, na qual, de acordo
com um resumo do Bundestag alemão, foram emitidas 49 chamadas à ordem. Daquelas
51, 30 foram para a AfD. Dois deputados (Beatrix von Storch, da AfD, e Michael
Schrodi, do SPD) chegaram a ser penalizados com uma coima de 1000 Euros cada
um. As estatísticas sobre as medidas disciplinares impostas em cada legislatura
por violação das normas ou da dignidade do Parlamento mostram claramente que o
ambiente se tornou muito mais áspero com a entrada da AfD, nas eleições de 2017.
Em toda a 18ª legislatura (2013 a 2017), apenas tinham sido emitidas duas
chamadas à ordem, e apenas uma na 17ª legislatura.
28.2.2024
Artigo sobre o modo como a AfD sabe
usar as redes sociais e, inclusivamente, delineia os discursos no Parlamento
para terem o maior impacto possível em plataformas como o Tiktok:
"Ao contrário de outros partidos, a AfD utiliza sistematicamente o Tiktok;
os políticos da AfD são treinados para fazer discursos adequados a esta
plataforma, com palavras no local certo para suscitar indignação e frases
curtas e nítidas (mensagem central ou punch line)."
21.4.2024
O Parlamento bávaro discute uma lei
dos deputados nova, que pune de forma bem mais severa os comportamentos de
desrespeito ao Parlamento
Os partidos CSU, Eleitores Livres, SPD e Verdes
concordaram que, no futuro, os deputados poderão ser multados até 4000 euros se
tiverem um comportamento inadequado no Parlamento - no hemiciclo, mas também
noutras ocasiões, possivelmente de carácter social. Poderão também ser
excluídos dos debates durante semanas. "Precisamos desta lei com muita
urgência", disse o deputado que apresentou a proposta.
17.5.2024
Entrevista a Yvonne Magwas, vice-presidente do Bundestag, no jornal "Das
Parlament"
Excertos:
A propósito do ataque ao deputado do SPD Matthias Ecke, que no princípio de
Maio de 2024 foi barbaramente atacado em Dresden quando andava a colar
cartazes, e teve de ser operado porque tinha vários ossos da face partidos (*),
a vice-presidente do Parlamento Federal alemão diz: "É assustador que seja
necessária uma tomada de posição condenando a violência física durante as
campanhas eleitorais. O que está a correr mal? Até certo ponto, também podemos
ver no Bundestag alemão que o clima do debate mudou. Endureceu. As chamadas à
ordem são vistas pelos deputados da AfD como troféus. A difamação é usada para
desafiar os limites do que pode ser dito. O que tem muito a ver com o facto de
a AfD fazer isto em grande escala e de, com demasiada frequência, outros se
juntarem a ela. O que leva a um clima exaltado no debate. E, infelizmente, as
palavras são seguidas de actos."
Sobre o endurecimento na cultura de debate no Parlamento, cuja responsabilidade
é atribuída ao grupo parlamentar da AfD: "As medidas disciplinares do
regulamento do Parlamento ainda têm um certo efeito. No entanto, também nos
apercebemos de que é necessário tornar este regulamento mais rigoroso. Penso,
por exemplo, que temos de trabalhar muito mais com o instrumento das coimas em
vez das repreensões. A alteração está atualmente em curso. Os partidos da
coligação e da oposição democrática estão a dialogar sobre o assunto e nós,
enquanto Comissão Executiva, apresentámos propostas. As conversações chegaram
agora a uma fase muito concreta."
(*) Matthias Ecke na Spiegel,
após o ataque de que foi vítima: "A AfD
envenenou o clima social nos últimos anos. Estamos perante uma desinibição
planeada e um embrutecimento organizado, que são acções deliberadas da AfD, em
conjunto com outras estruturas de extrema-direita."
17 março 2024
Alemanha e Israel
Private Collection. © Gerhard Richter
Aqui a dorminhoca só reparou hoje que a Almanaque Mag já saiu em Fevereiro. Isso foi, segundo as minhas contas, duas séries de correrias antes daquelas em que ando agora metida. Em plena Berlinale. Não importa: aí está o artigo que escrevi em Novembro de 2023 sobre a Alemanha e Israel. Nasceu de uma necessidade forte que senti na altura de explicar um pouco mais sobre os motivos do comportamento da Alemanha perante os crimes terríveis que Isael estava (e continua) a cometer em Gaza. Algumas passagens já não são muito actuais. Entretanto Israel já triplicou o número de civis que matou em Gaza; os próprios políticos alemães e a população começaram a criticar mais abertamente o governo de Israel; na altura, Geert Wilders era o vencedor das eleições nos Países Baixos, e havia notícias sobre o medo sentido por muçulmanos naquele país - neste momento, já vimos que mesmo que a direita populista ganhe eleições, é possível proteger a democracia. Mesmo assim, o artigo não envelheceu tão mal como temia.
Leiam, e digam o que vos parece.
https://almanaquemag.com/alemanha-e-israel/
09 fevereiro 2024
era uma vez na Alemanha
(Nota prévia: se não houver informação contrária, todos os links são para notícias em alemão)
No sábado passado, no centro de Berlim, um estudante judeu foi atacado por outro estudante da sua universidade, que o reconheceu num bar, o seguiu na rua, e o agrediu violentamente - mesmo quando já estava caído no chão. A vítima teve de ser operada para evitar uma hemorragia cerebral, e está no hospital com fracturas em vários ossos do rosto. Chama-se Lahav Shapira. Depois do ataque, no twitter e no instagram multiplicaram-se publicações do género: "lol - é um provocador hardcore" e até "um famoso racista judeu (...) com alma satânica".
O avô materno do "provocador hardcore" emigrou para Israel em 1948. Sozinho. No gueto de Varsóvia, escapou à "solução final" friamente planeada porque, no dia em que os nomes de toda a família apareceram na lista do transporte para o gás em Treblinka, ele conseguiu esconder-se.
O avô paterno de Lahav, Amitzur Shapira, era treinador dos atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique, e foi uma das vítimas do massacre de terroristas palestinianos.
Em 2002, depois do divórcio, a mãe decidiu deixar a Cisjordânia, onde viviam, e mudar-se para a Alemanha com os dois filhos, para viver com o seu novo companheiro numa pequena cidade de Sachsen-Anhalt. Shahak, o filho mais velho, tinha então 14 anos. Não se importou de deixar a Cisjordânia, onde nunca se sentira bem e não tinha amigos. Na Alemanha, contudo, o ambiente era ainda pior, porque a região para onde foram viver é um bastião da extrema-direita mais radical. Uma das primeiras palavras alemãs que aprendeu foi "Judensau". Na escola, troçavam dele por ser estrangeiro e judeu.
Um dia, teria Lahav 16 anos, foi insultado ("porco judeu") e espancado por um adolescente com ideias da direita radical. O ataque só não foi além de algumas contusões e feridas superficiais porque um condutor que ia a passar parou, gritou ao atacante e levou dali a vítima no seu carro.
Descobriu-se depois que o agressor jogava no clube de futebol local, onde havia um treinador de futebol neonazi. Mas demorou algum tempo até se conseguir convencer a direcção do clube que não podiam deixar aquele tipo com bigodinho à Hitler treinar adolescentes.
O irmão mais velho, Shahak, foi viver para Berlim, onde finalmente encontrou o ambiente de liberdade que sempre almejara. Mas até em Berlim fez más experiências. No clube de futebol onde se inscreveu, alguns jogadores árabes chamaram-lhe "porco infiel". Mudou para outro clube. E depois, na passagem de ano para 2015, na carruagem de metro onde ia estavam sete jovens berlinenses de origem turca ou árabe a cantar "fuck Jude" e "fuck Israel". A carruagem estava cheia, mas só duas pessoas protestaram. Shahak foi ter com eles, disse "eu sou judeu - têm algum problema com isso?" Filmou-os. Cuspiram-lhe em cima. Quando saiu do comboio, os outros seguiram-no, exigiram-lhe que apagasse o filme e, tendo ele recusado, espancaram-no até que agentes de segurança da estação intervieram. Quando o caso se tornou público, Shahak quis a todo o custo impedir a sua instrumentalização para propaganda islamofóbica. "Porque aprendi muito cedo o que é o racismo, e sempre o achei uma estupidez", disse ele. A sua mensagem: é preciso pôr fim à espiral de ódio. O anti-semitismo não deve ser instrumentalizado para justificar discurso de ódio contra muçulmanos. "E claro que também teria dito alguma coisa se alguém estivesse a gritar 'fuck Palestina'."
Entre outras iniciativas de protesto, Shahak Shapira é o autor da série de fotomontagens Yolocaust (para quem não conhece: aqui, em português e aqui um exemplo) e de uma acção de crítica ao Twitter, quando, depois de denunciar mais de 300 tuítes de ódio e receber apenas 9 respostas, todas elas alegando que os tuítes não violavam as regras, decidiu pintar alguns deles em frente à sede da empresa em Hamburgo. Frases como: "Jewish scum", "n*rs are a plague to our society", "retweet if you hate muslims", "a Alemanha precisa novamente de uma Solução Final para o Islão".
Devido à sua participação em iniciativas contra a extrema-direita, a própria mãe de Shahak precisou de ficar sob protecção policial durante duas semanas.
É esta a história da família de Lahav Shapira, que está neste momento no hospital com vários ossos da cara partidos.
Depois do massacre do Hamas, os judeus começaram imediatamente a sentir-se ainda mais inseguros nas ruas europeias. Berlim não foi a excepção - bem pelo contrário. Afinal de contas, esta é a cidade onde, no dia 7 de Outubro, algumas dezenas de pessoas vieram para a rua festejar aquela orgia de violência contra judeus.
Na realidade, há vários anos que os actos de violência anti-semita, por parte de neo-nazis e de alguns muçulmanos, já são um tema que choca e preocupa a Alemanha. E essa violência aumentou imediatamente a seguir ao massacre, ainda antes de Israel começar a bombardear Gaza.
À semelhança do que aconteceu em toda a cidade, e particularmente nos bairros onde há mais árabes e turcos, também os alunos judeus da Freie Universität (Universidade Livre), onde Lahav estuda, começaram a deixar o quipá e o fio com a estrela de David em casa. Sentem medo. Ao longo destes meses, a direcção da Universidade não tem sabido responder de forma adequada a esta situação.
Em meados de Dezembro de 2023, estudantes dessa universidade, juntamente com grupos do exterior, organizaram ali uma acção de protesto contra os crimes que Israel está a cometer em Gaza. Ocuparam um anfiteatro, afixaram cartazes, disseram o que tinham a dizer, houve até quem pusesse em causa o direito de Israel a existir. Alguns estudantes judeus daquela universidade tentaram entrar na sala, mas o acesso estava vedado a quem tivesse uma posição crítica ou pró-Israel. Lahav conseguiu entrar juntamente com outros estudantes. Num ambiente de enorme tensão, prendeu à parede um cartaz com a fotografia de um dos reféns do Hamas. Houve cartazes (dos dois lados) arrancados e alguns empurrões. A cena foi filmada (aqui).
No filme, vê-se um homem que faz menção de arrancar o cartaz de Lahav e o tenta empurrar para fora do local. É Ramsis Kilani. Imediatamente a seguir ao massacre de 7 de Outubro, Ramsis Kilani publicou uma série de tuítes chocantes, como por exemplo: questionava se os cidadãos israelitas deviam ser realmente considerados civis, já que, afinal de contas, mais tarde ou mais cedo todos cumpriam serviço militar.
Ramsis Kilani é um berlinense filho de uma alemã e de um palestiniano. Após o divórcio do casal, o pai regressa a Gaza, onde casa novamente. Na guerra de 2014, uma bomba israelita cai no prédio onde a família com cinco filhos se refugiara, em obediência às ordens do exército israelita. Em busca de um lugar mais seguro que a sua casa no norte de Gaza, tiveram o azar de se abrigar no prédio de escritórios onde também um comandante do Hamas se escondera. A bomba destinada a este mata onze pessoas da família de Ramsis Kilani: o pai, a sua mulher e todos os filhos, e mais 4 parentes que também se tinham refugiado ali. Uma vez que o pai e os cinco filhos tinham nacionalidade alemã, na Alemanha diversas organizações deram início a processos por crime de guerra. Israel conseguiu arranjar forma de não ser dado seguimento a nenhum deles. A organização de defesa dos direitos humanos que apoiava Ramsis Kilani avisou-o que não valia a pena recorrer, exemplificando com um precedente: até no caso do assassinato de quatro menores numa praia de Gaza Israel tinha conseguido escapar ao julgamento.
Como consequência do confronto na Freie Universität, imagens de Lahav Shapira começaram a circular na internet juntamente com o apelo: "Fixem este rosto". Lahav é marcado como provocador sionista e racista de extrema-direita.
Numa troca de mensagens com Lahav, Ramsis Kilani responde-lhe enviando simplesmente o emoji do triângulo vermelho. Na Alemanha, a ninguém escapa a berrante coincidência: o sinal do Hamas para assinalar alvos inimigos, que agora está a tornar-se um símbolo da resistência palestiniana (link para uma descrição em inglês), é igual ao sinal que os nazis usavam nos campos de concentração para marcar os prisioneiros políticos. A escolha deste símbolo é certamente um acaso, mas o seu uso na Alemanha ganha todo um outro significado.
A universidade titubeia. Começa por dizer que o mundo universitário é um lugar de confronto de ideias e que por vezes há naturalmente excessos, não toma medidas para evitar o aumento da tensão entre alunos judeus e grupos pró-palestinianos, quando se exige a expulsão do agressor diz que não pode expulsar um estudante por motivos políticos (na realidade, a lei não permite que uma universidade berlinense expulse aluno nenhum, seja qual for o motivo; no máximo, pode impedi-lo de entrar nas instalações durante alguns meses). Perante a evidência da violência física, fala em divergência ideológica. A nível da política do Estado de Berlim, também há algumas hesitações. Ao fim de alguns dias após este ataque, a pressão aumentou a tal ponto que se deu finalmente uma inflexão. A responsável deste pelouro no governo do Estado de Berlim e a direcção da universidade assumiram uma posição mais firme contra actos de violência anti-semita. Ontem, 8.1.2024: - Na Universidade Humboldt um grupo pró-palestiniano interrompeu uma sessão onde juristas de vários países, entre os quais uma juíza do Supremo Tribunal de Israel, queriam debater sobre os desafios do julgamento no contexto das Democracias constitucionais. Imagens aqui. (Sinceramente, é preciso ter uma pontaria de luxo para acertar tão ao lado: boicotar justamente uma juíza do Supremo Tribunal de Israel, o último reduto institucional daquele Estado capaz de cercear as tentações totalitárias do governo de Netanyahu!) - Em frente à Freie Universität - que ainda não decidiu o que vai fazer com o aluno agressor, e em quatro meses ainda não definiu um plano sobre como responder à situação de insegurança dos alunos judeus - houve nova manifestação pró-palestiniana. A universidade afirma que foi instaurado um processo-crime "devido ao conteúdo dos cartazes que apelavam a esta manifestação".
Uma associação de estudantes exige que a direcção da FU se demita. Acusa-a de passividade perante incidentes de fundo anti-semita, por demasiadas vezes e durante demasiado tempo. Referem a ocupação da sala e a violenta agressão de um aluno, distribuição de panfletos e ameaças a estudantes, além da apresentação de queixas por agressões menores. "Há uma falta de acção concreta, uma falta de consequências por parte da direcção da universidade", acusa essa associação.
O ambiente na universidade está cada vez mais tenso. Ontem, uma aluna confessava a um jornalista: "Até eu sinto medo, e nem sou judia."
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Tudo isto é trágico. Aquela cena de confronto físico numa universidade - o lugar de troca de ideias por excelência - entre um descendente de uma vítima do "terror palestiniano" e um descendente de uma vítima do "terror israelita": se não fosse a terrível realidade, dava uma potente metáfora. O desespero dos que sofrem pelos milhares de palestinianos a morrer em Gaza. O desespero de um judeu que cresceu na insegurança de um ambiente profundamente anti-semita e vê, na sua universidade, pessoas a desprezar os direitos dos reféns do Hamas e a negar ao seu país o direito de existir.
No meio de tudo isto, o que mais me espanta é o modo como alguns grupos pró-palestinianos conseguem fazer tudo de forma tão contraproducente. No preciso momento em que o mundo inteiro está profundamente escandalizado com o horror de Gaza, no preciso momento em que os alemães saem à rua aos milhões para protestarem contra os planos islamofóbicos da extrema-direita e aplaudem os oradores que afirmam que na Alemanha todos são bem-vindos, em vez de aproveitarem este contexto único para melhorarem a situação do povo palestiniano, alguns grupos pró-palestinianos escolheram formas de luta que provocaram uma extrema polarização.
Queimar bandeiras de Israel, gritar "from the river to the sea", recusar liminarmente falar dos reféns do Hamas ou criticar essa organização, ocupar instalações universitárias e recusar o debate, boicotar iniciativas universitárias: tudo isto faz com que largas camadas da população se recusem a participar em protestos pró-palestinianos, para não serem automaticamente associadas a simpatizantes do Hamas e inimigos do Estado de Israel.
Não dá para acreditar, mas conseguiram realmente afastar das suas manifestações muitas pessoas que concordam inteiramente com os motivos do protesto (que são: a deliberada destruição de Gaza e a morte de dezenas de milhares de pessoas), e, pior ainda: estão a conseguir reforçar na sociedade alemã a imagem preconceituosa que a extrema-direita espalha sobre os muçulmanos, como pessoas que não respeitam as leis e a cultura do país, e ameaçam valores básicos e a coesão desta sociedade.
Os palestinianos - em Gaza, e no mundo inteiro - mereciam melhores defensores.
07 novembro 2023
lenha para a fogueira
Como ficaria o mundo se não houvesse redes sociais? Pessoalmente, eu perderia imenso. Mas: e o mundo?
Por estes dias, fujo do twitter. De cada vez que lá vou, encontro-o cheio de ódio, e de manipulações que excitam o ódio.
Ontem, por exemplo: na Alemanha, o escândalo do dia era um infantário que queria mudar o seu nome. De "Anne Frank" para "Descobridores do Mundo" (em alemão soa de forma muito positiva: abertura, curiosidade pelo mundo, iniciativa, dinamismo, etc.)
Esta decisão vem já do início deste ano, como parte de uma reformulação geral do funcionamento do infantário. Queriam ter um nome mais adequado a crianças daquela idade, e que estivesse ligado ao novo projecto pedagógico. Além disso, segundo a directora, os pais estrangeiros não se identificavam com este nome. ("Por que no te callas?", como dizia o outro.)
Lembraram-se de trazer o assunto para a ribalta justamente agora, num momento em que os judeus em todo o mundo se sentem ameaçados, em que o anti-semitismo na Alemanha é um tema central e o debate está a ser conduzido no sentido do reforço desenfreado de um primo daquele: o anti-islamismo.
Por estes dias, o caso apareceu posto nestes termos: "De repente, querem tirar 'Anne Frank' do nome de um infantário alemão!" (este "de repente" foi, como é óbvio, uma invenção do venenoso Bild), "Para não incomodar os imigrantes, querem outro nome" e, porque para o ataque ser completo ainda faltava reforçar a imagem negativa das regiões da antiga RDA, "na região onde em tempos um bando de neonazis queimou o Diário de Anne Frank".
Claro que o twitter foi ao rubro. E até os jornais sérios perderam o pé num finca-pé desnorteado.
Dá vontade de perguntar se está tudo maluco. Mas é pior: está tudo com vontade de acreditar nas piores maluquices, e de as ir atirar para as redes sociais com o prazer de quem mantém viva uma fogueira.
Ontem à tarde veio a notícia de que se recuou na decisão: de momento, o nome não muda. O que me parece mal.
Fosse eu o presidente da Junta daquela terra, e mudava. Miúdos de 3 anos - alemães ou não - não têm de ser confrontados com a tragédia de Anne Frank. Em troca, dava o nome "Anne Frank" a uma rua, a um hospital, a um liceu. Tirava de um lado, multiplicava do outro.
Aliás: para bem ser, como sinal de solidariedade para com os judeus alemães que neste momento se sentem isolados e à mercê do ódio, esta era a semana em que, em cada cidade alemã, se mudava o nome de uma rua, de um centro de dia, de um hospital. Infelizmente, nomes é algo que não falta: Anne Frank, Etty Hillesum, Janusz Korczak, e tantos outros. E em cada cidade haveria uma escola que esta semana ganhava o nome de alguém que se elevou acima do horror do seu tempo pelo exemplo de coragem ética: Sophie Scholl, Irena Sendler, Aristides Sousa Mendes, entre - felizmente! - muitos outros.
Esta parte, seria fácil. Apesar do que se diz nas redes sociais, sobre este assunto há um consenso vasto. E o país está a precisar de se unir em torno de iniciativas com este simbolismo.
Mais complicado seria tentar um olhar mais abrangente: uma Rua da Naqba, uma Praça de Gaza, um Hospital dos Mártires da UNRWA, uma escola Iqrit e um liceu Bir Am.
A ausência de consenso sobre isto é, também, lenha altamente indendiária para a fogueira que está a devorar a paz social.
01 junho 2022
instantâneo alemão
20 novembro 2020
a raposa no meio das galinhas
Notícias muito preocupantes sobre os ataques à Democracia na Alemanha: no dia em que se discutiu no Parlamento Federal a nova lei para enquadrar a actuação dos governos em caso de pandemia, que restringe o actual poder discricionário do governo e estabelece as suas possibilidades de actuação,
(1) a AfD, por motivos de pura estratégia mediática, criou uma narrativa inversa, comparando a lei em debate ao golpe de Estado que permitiu a Hitler escapar às regras da Democracia e instalar-se no poder;
(2) no plenário do Parlamento, todos os deputados da AfD usaram as cadeiras livres ao seu lado para exibirem um cartaz patético mostrando uma faixa de luto por cima da Constituição (o presidente do Parlamento mandou-os tirar tudo aquilo imediatamente, dizendo que a troca de ideias naquela casa não é feita com recurso a cartazes);
(3) alguns deputados da AfD levaram convidados para a parte de acesso reservado dos edifícios parlamentares (o que é permitido), mas deixaram-nos por lá à solta (o que não é permitido). Esses arruaceiros andaram a perseguir, a intimidar, a filmar e a insultar políticos que se dirigiam ao plenário, entre os quais o ministro da Economia como se vê neste filme. Alguns funcionários do Parlamento sentiram-se de tal modo ameaçados que se fecharam à chave dentro dos seus escritórios. Os filmes dos políticos ultrajados no interior do Parlamento foram postos online, para gáudio dos inimigos da Democracia;
(4) ali perto, junto à Porta de Brandeburgo, uma manifestação contra as medidas de combate à pandemia e contra esta lei foi dispersada pela polícia, uma vez que não respeitavam as regras de saúde pública; a polícia usou os canhões de água com potência reduzida, de modo a fazer uma espécie de chuva sobre eles, uma vez que havia crianças entre os manifestantes (o que está muito bem - e seria muito desejável que tivessem a mesma delicadeza quando estão perante manifestantes que querem impedir uma marcha de neonazis, ou a destruição de um parque numa cidade, ou um transporte de lixo nuclear).
A lei foi aprovada pelo Parlamento e assinada pelo presidente nesse mesmo dia, para entrar em vigor o mais depressa possível. Estamos em plena pandemia, é importante que o quadro legal seja claro - nomeadamente para facilitar o trabalho dos tribunais que serão chamados a decidir sobre as decisões dos governos e o comportamento de agentes do Estado. Hoje, o Parlamento debateu sobre o comportamento da AfD e acusou o partido de se aproveitar cinicamente dos direitos dos seus deputados para atacar a Democracia.
[ ADENDA: Desde que escrevi este post, há várias semanas, penso noutros casos que recentemente têm chocado a sociedade alemã. Antes deste Novembro, em que deputados da AfD introduziram na área reservada do Parlamento youtubers de extrema-direita para intimidar e achincalhar os mais altos representantes da nação, enquanto transmitiam em directo para os seus canais na internet (como, aliás tinham anunciado nos dias anteriores), já tinha havido em finais de Agosto uma tentativa de invasão do Parlamento por grupos desse espectro político. A polícia informou recentemente que o número de crimes contra estrangeiros e em especial contra judeus está a aumentar imenso. Em 2018, grupos de extrema-direita lançaram-se em Chemnitz numa violenta perseguição aos estrangeiros que por acaso andassem nas ruas. A caça ao homem em Chemnitz aconteceu numa altura em que o país ainda debatia, consternado, a afirmação de um dos chefes da AfD, que se queixara da importância excessiva que ainda hoje se dá ao período nazi, quando isso "não passou de uma cagadela de pássaro" no conjunto da "gloriosa História alemã". E antes disso outros escândalos houve, que não são nem independentes uns dos outros, nem casuais. Cada um deles é um marco no processo de fazer recuar as linhas vermelhas, de modo a alargar o caminho das forças antidemocráticas. O "nunca mais!" - que a Democracia alemã frequentemente repete para assinalar o dever da responsabilidade histórica - corre o risco de se tornar uma expressão ultrapassada pela realidade. ]
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À margem disto, uma nota pessoal: o chefe de uma amiga minha é um dos que pensa que a Covid é uma gripezinha e que a máscara é um atentado à sua liberdade pessoal. Por conseguinte, anda no escritório sem máscara, e vai de mesa em mesa falar com quem lhe apetece à (pouca) distância que lhe apetece. Há dias descobriu-se que tinha covid. A minha amiga - que tem 30 anos, e uma saúde relativamente frágil - descobriu hoje que foi contagiada por ele.
os alemães isto e os alemães aquilo
Ontem ao fim da tarde escrevi uma mensagem online para uma instituição pública de Weimar, porque precisava de uma cópia do registo matricial da casinha que lá temos e queria fazer o pedido por email, em vez de enviar pelo correio.
Esta manhã, logo pelas oito, tocou o telefone. "- Guten Tag, quer dizer, guten Morgen!" - disse uma voz bem-disposta. "Ontem contactou-nos por internet, mas por motivos legais não podemos dar resposta por email, e como deixou na sua mensagem um lindíssimo número de telefone estou a ligar para informar que deve enviar pelo correio o formulário, ou então uma carta a dizer simplesmente "peço que me envie uma cópia do registo matricial do nº x". Em princípio não demora mais de três dias para receber o que pediu. Mas não caia na asneira de recorrer aos serviços de agências que encontra na internet, porque eles cobram três ou quatro vezes mais do que nós, e demoram três semanas a dar-lhe o papel!"
Agradeci, desejei-lhe um bom dia (do fundo do coração), ela retribuiu (e também me pareceu sincero).
Fica aqui registado, para o caso de aparecer alguém a dizer que os alemães isto e os alemães aquilo.
04 junho 2020
é o comunismo...
- Diz aí aos teus americanos que isto é o comunismo...
Nos EUA, qualquer proposta com preocupações mais sociais é "comunismo". Pois que seja - e aqui deixo alguns exemplos da forma como o "comunismo" do sistema alemão permitiu a crise da covid-19:
- Quando o problema ainda era apenas chinês, um laboratório de investigação estatal alemão criou um teste de diagnóstico. Em Janeiro, quando o vírus ainda nem sequer tinha chegado à Alemanha, o teste do laboratório estatal alemão foi posto gratuitamente à disposição do mundo inteiro;
- O chefe desta equipa, Christian Drosten, começou a dar entrevistas diárias para informar em primeira mão sobre o ponto da situação do ponto de vista científico. Várias pessoas contaram-me que todos os dias, antes de adormecer, ouviam o seu podcast de cerca de meia hora, porque a voz dele tinha um efeito apaziguador. E não era apenas a voz - era sobretudo a autenticidade: o cientista tinha a coragem e a humildade de falar da situação sem omissões nem dramas, de forma ponderada e autocorrectiva, assumindo aquilo que ainda não sabia e também o que entretanto aprendera e corrigira depois de uma entrevista anterior;
- Quando o vírus chegou à Alemanha, já havia testes em grande quantidade disponíveis em laboratórios de todo o país, para testar sem demoras os casos de risco, e pôr em isolamento todos os que dessem resultado positivo;
- Quando o governo impôs o confinamento, deu imediatamente e sem complicações burocráticas cinco mil euros a quem perdeu os seus rendimentos (vários amigos meus de Berlim - músicos, fotógrafos, etc. - receberam esse dinheiro num prazo de dois dias), permitindo a essas pessoas atravessar esta crise com um mínimo de tranquilidade, e ficar em casa em vez de se sujeitarem a fazer qualquer coisa para ganharem algum dinheiro;
- O governo alterou uma das regras do Sistema de Apoios Sociais, para que as pessoas que ficaram impedidas de trabalhar devido às regras de distanciamento social (como as dos sectores da cultura, das restauração, da prostituição, etc.) pudessem receber os apoios sem terem primeiro de gastar todas as suas poupanças, vender o apartamento ou mudar para um alojamento de dimensão menor;
- Há mais de dez milhões de alemães a trabalhar em regime de horário e salário reduzido. São dez milhões a menos no desemprego, e são dez milhões que podem recomeçar a qualquer momento a trabalhar a pleno. Quando vier a retoma, empresas e trabalhadores estão prontos a avançar - ao contrário de outros países, nos quais a retoma será atrasada pelo facto de ser necessário procurar pessoas e treiná-las.
É certo que também foram cometidos erros, também houve muita navegação à vista, também foi complicado gerir o conflito entre as informações em constante mutação por parte da ciência e a pressão das pessoas e dos agentes económicos para se voltar à normalidade. Ninguém disse que o "comunismo" é perfeito. Mas gostava de saber a escolha dos habitantes dos EUA (e já agora dos adeptos da AfD e do Chega): numa crise como a da covid-19, preferiam morar nos EUA do Trump ou na Alemanha de coligação de partidos do centro democrático?
09 maio 2020
75º aniversário do Dia da Libertação na Alemanha
O noticiário Heute Journal de 8.5.2020, no vídeo acima, é mais um daqueles momentos em que tenho pena de todos os que não entendem alemão. Trata-se da edição especial sobre os 75 anos da Libertação, e tem algo de irrepetível porque apresenta várias testemunhas daquela época a contar na primeira pessoa essa época da História. Para além das imagens das comemorações em Berlim, falaram com dois berlinenses (um detalhe do que contaram: a criança de sete anos que se habitua a ver mortos nas ruas, e a ver pessoas que têm sempre consigo uma tesoura para cortar botões da roupa dos mortos, porque na Berlim destruída não havia onde os comprar), fizeram uma entrevista absolutamente extraordinária a Klaus von Dohnanyi, que tinha 16 anos quando a guerra terminou, e perdera vários membros da sua famosa família de resistentes, assassinados pelo regime. Este homem de 92 anos, que teve um papel importante no mundo político alemão, lembrou que para nós hoje o importante não é olhar para o Dia da Libertação, mas para os erros cometidos 12 anos antes. O noticiário passou ainda em revista as comemorações noutros países, apresentou algumas peças sobre questões ligadas à covid-19, e terminou num lar de terceira idade em Israel para sobreviventes do Holocausto, mostrando jovens voluntárias alemãs que, sabendo que a organização de voluntariado internacional não enviaria ninguém para as substituir, escolheram continuar a cuidar daqueles idosos em vez de regressarem rapidamente à Alemanha aproveitando os serviços governamentais de repatriamento no início da crise.
Nas imagens - gravadas pelas próprias voluntárias, porque o isolamento absoluto não permitia a entrada de jornalistas do exterior - há cenas absolutamente tocantes. Como aquela em que uma sobrevivente conta à jovem alemã que os seus familiares foram assassinados logo à entrada em Auschwitz, e remata: "tu não tens culpa - mas isto aconteceu".
Cheguei ao fim deste noticiário comovida, e com vontade de acreditar na possibilidade da paz entre as pessoas.
Os planos de Berlim para as comemorações do 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa tiveram de ser drasticamente alterados devido à crise da covid-19. A "Festa do Encontro", em frente à Porta de Brandeburgo, foi anulada. As comemorações decorreram sobretudo online: com concertos em directo da Nikolaikirche em Leipzig e da Staatsoper Unter den Linden em Berlim, e com uma exposição online: "rumo a Berlim" (https://75jahrekriegsende.berlin/en/experience/ - em inglês)
No filme que partilho acima vêem-se alguns momentos da homenagem no Memorial para as Vítimas da Guerra e da Tirania, em frente à pietà de Käthe Kollwitz . Nas palavras da própria artista: "A mãe está sentada, envolvendo o filho morto, que está deitado entre os joelhos dela. Já não é dor, mas introspecção".
Setenta e cinco anos depois do fim da guerra, a introspecção é a palavra chave. No mural de facebook do Governo Federal juntaram às imagens desta homenagem um texto que oferece uma boa síntese do como a Alemanha olha para esta terrível página do seu passado:
"8 de Maio, Dia da Libertação
A chanceler Merkel e o presidente Steinmeier, juntamente com os representantes dos outros órgãos constitucionais, comemoram hoje o fim da Segunda Guerra Mundial e a libertação do jugo do nacional-socialismo.
A capitulação da Alemanha, há 75 anos, para além de pôr fim a uma guerra terrível, acabou também com um regime de terror de uma violência inimaginável, que trouxe a morte e a destruição a inúmeras pessoas.
Este crime permanece para os alemães como um alerta constante, e constitui uma responsabilidade histórica e um dever para que nunca permitam a repetição de tamanha barbárie."
No seu discurso, o presidente Steinmeier usou palavras simples, mas firmes, para falar do passado e do percurso percorrido por este país, falar das ameaças do presente e da importância da Europa, e reafirmar a responsabilidade da Alemanha na luta para fortalecer a Democracia e o bom entendimento entre os povos. O discurso foi feito em frente ao Memorial das Vítimas da Guerra e da Tirania, na avenida Unter den Linden, a poucos metros da praça onde no dia 10 de Maio de 1933 uma turba de académicos nazis organizou a fogueira de livros.
Partilho, da página da Presidência, a tradução para inglês:
(fonte) (vídeo)
"It is you who are the key! It is you who must carry the lessons of this cruel war into the future!"For this reason we had invited thousands of young people from around the world to Berlin today, young people whose grandparents were enemies, but who themselves have become friends.
"No heart is as whole as a broken heart."Germany’s past is a fractured past – with responsibility for the murdering of millions and the suffering of millions. That breaks our hearts. And that is why I say that this country can only be loved with a broken heart.
"Human dignity shall be inviolable."This first sentence of our constitution is and remains a public reminder of what happened in Auschwitz, of what happened in the war and during the dictatorship. It is not remembrance that is a burden – it is non-remembrance that becomes a burden.
"Never again,"we vowed after the war. But for us Germans in particular, this
"never again"means
"never again alone". This sentence is truer in Europe than anywhere else. We must keep Europe together. We must think, feel and act as Europeans. If we do not hold Europe together, also during and after this pandemic, then we will have shown ourselves not to be worthy of 8 May. If Europe fails, the
"never again"also fails.
"never again". After 1945, it forged a new foundation out of all it had learnt from this catastrophe, it built human rights and international law, rules to preserve peace and cooperation.
"8 May was a day of liberation."In my opinion, these famous words of Richard von Weizsäcker’s have to be reinterpreted today. When they were spoken, they constituted a milestone in our efforts to come to terms with our past. But today they must point to our future. For liberation is never complete, and it is not something that we can just experience passively. It challenges us actively, every day anew.
"If it can happen here, it can happen anywhere."These words were spoken by Israel’s President Reuven Rivlin on Holocaust Remembrance Day in the German Bundestag earlier this year. If it can happen here, it can happen anywhere. But today there is nobody to liberate us from these dangers. We have to liberate ourselves. We were liberated – freed to be responsible for our own actions!




