Mostrar mensagens com a etiqueta Alemanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alemanha. Mostrar todas as mensagens

21 outubro 2025

Stadtbild...

 




"Stadtbild" pode bem vir a ser a "não-palavra" do ano.
Merz dá uma no cravo e outra na ferradura: na mesma altura em que afirma peremptoriamente que nunca haverá coligações com a AfD, diz também, a propósito de imigrantes, que ainda temos um problema de "paisagem urbana" (o tal "Stadtbild") e que é preciso continuar a deportar pessoas.
A estratégia é clara: "entendedores vão entender", e "deixai vir a mim os racistazinhos".
Quando lhe foram pedir contas, acrescentou: "perguntem às vossas filhas, como é andar na cidade à noite".
Perguntem-me a mim: é à noite e é de dia, e quanto mais nova pior, mas esse problema não se resolve com deportações. A minha amostra vale o que vale, mas raramente fui assediada ou ameaçada por um estrangeiro.
Entretanto, um humorista alemão filho de imigrantes fez o filme que resume toda a indignidade da afirmação do chanceler: vira-se para um moreno barbudo que vai calmamente pela rua e diz-lhe "sai daí, que estás a estragar a paisagem urbana".

10 fevereiro 2025

em que nos estamos a tornar?

 


https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/afegao-que-matou-2-pessoas-alemanha-seguia-no-pais-devido-erro-administrativo/

Em finais de Janeiro, uma tragédia atingiu a Alemanha em cheio: um refugiado afegão, conhecido por ser violento e por ter problemas psíquicos, e que já devia ter saído do país há vários meses, atacou um grupo de crianças de uma creche que iam a caminho de um parque. Matou um menino marroquino e feriu uma menina síria. Também matou o homem alemão de 41 anos que tentou defender as crianças.

Três dias mais tarde, numa sessão pública em memória das vítimas, Fátima, uma menina afegã de 12 anos insistiu muito com a organização para a deixarem dizer algumas palavras aos presentes. Tradução do que é dito no filme: Fátima: "Peço desculpa às mães das crianças." Organizadora: "Não tens de pedir desculpa. Não tens culpa." Fátima: "Mas há pessoas que pensam que eu, por ser afegã, sou uma pessoa má." Organizadora: "Tens à tua frente muitas pessoas, e não há uma única que pense isso de ti." Mais tarde, Fátima explica a uma equipa do canal BR (vídeo completo aqui) que depois daquele crime as crianças da escola começaram a olhar para ela de soslaio e a evitá-la, por pensarem que ela era perigosa e má.

A tragédia de Aschaffenburg pôs a questão da migração ainda mais no centro da campanha eleitoral que está em curso. Apesar de ser um resultado directo da ineficiência dos serviços, que naquele caso demoraram demasiado tempo a reagir, a passar informações e a fazer avançar o processo de saída do país que já estava decidido há muito, alguns partidos apressaram-se disparar numa direcção mais conveniente para os seus objectivos de curto prazo, exigindo mais dureza nas regras de entrada de refugiados.

A sociedade vai atrás. Não adianta um Scholz e um Habeck chamarem a atenção para os factos, o erro dos serviços, e a necessidade de melhorar os processos burocráticos para os tornar muito mais velozes e eficientes. O que dá votos é prometer mão forte, portas fechadas, controlo apertadíssimo das fronteiras, centros de refugiados fora da Europa. E os partidos da direita, mais a esquerda radical populista da Sahra Wagenknecht e a direita fascistóide da AfD atiram-se sem quaisquer escrúpulos a esse veio de ouro.

Um pequeno detalhe da hipocrisia: as crianças vítimas, que tanta comoção provocaram, pertenciam ao grupo dos indesejados, dos que é preciso "repatriar". São todos os "perigosos", os "maus" - para usar o vocabulário da jovem Fátima. Nenhuma criança síria ou marroquina se pode sentir em segurança num país que desconfia liminarmente de todos os seus compatriotas. E um dos partidos que mais cavalga o escândalo da morte destes pequeninos não se importa nada que outros pequeninos como estes morram no Mediterrâneo ou que os seus pais sejam assassinados por guardas da fronteira (sim, a Beatrix von Storch já sugeriu que se defendam as fronteiras alemãs a tiro). É nisto que nos estamos a tornar.

10 junho 2024

caso alguém não saiba onde era a extinta RDA...


(fonte: SZ)
 

Caso alguém não saiba onde era a extinta RDA...
Caso alguém pergunte "mas 35 anos depois da queda do muro, ele já acabou de vez ou ainda existe?"
Caso não saibam - e esta é a minha leitura pessoal, outras pessoas têm outras leituras - depois da queda de muro, e no espaço de menos de um ano, os alemães da RDA deram consigo na posição de cidadãos de segunda no país dos outros alemães. Tem sido um longo caminho a integrar as muitas humilhações de que foram vítimas, a aprender a viver num sistema capitalista, numa terra cada vez mais desertificada.

Também não tem ajudado muito o facto de terras em processo acelerado de desertificação terem muitas casas vazias que são óptimas para alojar centenas de refugiados, provocando mudanças radicais na estrutura demográfica de certas localidades.


21 maio 2024

no parlamento federal alemão, não pode - nem por sombras





Para memória posterior, aqui fica registado que aconteceu no Parlamento português, em 17.5.2024:

Pergunta da deputada Alexandra Leitão: "Se uma determinada bancada disser que uma determinada raça, ou uma determinada etnia, é mais burra, mais preguiçosa ou menos digna - também pode?"

Resposta de Aguiar-Branco, Presidente da Assembleia da República: "No meu entender, pode." A seguir, justifica: "A liberdade de expressão está constitucionalmente consagrada. A avaliação do discurso político que seja feita aqui nesta casa será feita pelo povo, em eleições." E insiste: "Não serei eu nunca a cercear a liberdade de expressão de um senhor deputado."

=====

 

Passei pelas redes sociais, encontrei o circo instalado. De um lado, o gozo e os aplausos por parte dos adeptos do "quanto pior, melhor". No outro extremo, este desabafo dos professores tocou-me especialmente: "se o presidente da Assembleia da República diz que o discurso racista está protegido pela liberdade de expressão, retira aos professores a autoridade para impedir comportamentos ou discursos racistas na sala de aula, e está a torpedear o cumprimento de um dever da escola, que é a construção de uma sociedade democrática e coesa, assente no respeito pelos direitos garantidos pela Constituição."

Em vez de repetir neste blogue o que por aí se diz e lê em português, traduzo alguns textos da comunicação social alemã, apenas com o intuito de informar sobre como se fala sobre estas questões na Alemanha (lembram-se? É o país onde Hitler chegou ao poder por via democrática – e “gato escaldado”...)

Não sou especialista destes temas. Limitei-me a fazer uma pesquisa sumária com o auxílio do google, e a traduzir algumas das primeiras páginas que me apresentou. Aqui, por ordem cronológica:

 

 

17.5.2018
Excertos de um artigo sobre as ofensas às normas e à dignidade do Parlamento Federal alemão (Bundestag), alguns meses depois de nele existir uma facção da AfD:

 

Quem preside a uma sessão parlamentar tem à sua disposição várias possibilidades para manter o respeito pela ordem e pela dignidade do Parlamento. Entre elas: repreensão, chamada à ordem, expulsão da sala (pode ir até 30 dias).

Na primeira legislatura (1949 a 1953) e na décima (1983 a 1987) foi preciso recorrer inúmeras vezes a esses instrumentos. A décima legislatura coincidiu com a entrada no Parlamento de um jovem partido: os Verdes. Famosa ficou a sessão em que Joschka Fischer disse ao presidente: "Com todo o respeito, o senhor é um cabrão". Foi expulso da sessão, e no dia seguinte pediu desculpa. As legislaturas seguintes tornaram-se muito calmas no que diz respeito ao tom do debate parlamentar. Com a entrada da AfD, no Outono de 2017, recomeçou a necessidade de velar para manter a ordem e o nível nas sessões parlamentares. Várias vezes os deputados da AfD foram interrompidos pelo presidente da sessão por se expressarem de forma "inapropriada para o Parlamento", ou "em moldes que não são habituais entre nós". Em Maio de 2018, a líder do grupo parlamentar da AfD, Alice Weidel, afirma no seu discurso: "Burkas, raparigas de lenço na cabeça, assassinos de faca a viver de subsídios e outra gente sem préstimo não vão garantir a nossa prosperidade, o crescimento económico e, acima de tudo, o Estado social". O presidente do Bundestag, Wolfgang Schäuble, interrompe-a: " A senhora deputada está a discriminar todas as mulheres que usam um lenço na cabeça. Por isso, chamo-a à ordem". Weidel apresentou uma objecção, que foi a votação e rejeitada pela maioria dos deputados.

  

14.6.2018
Um deputado da AfD usa o seu tempo de intervenção para fazer um minuto de silêncio em memória de uma jovem de 14 anos que fora encontrada dias antes sem vida, alegadamente assassinada por um refugiado.

A vice-presidente do Parlamento insiste para que o deputado fale sobre o tema do debate, e acaba por expulsá-lo do pódio, uma vez que não acata as suas ordens. Na semana seguinte, ao dar início aos trabalhos do plenário, o presidente da Assembleia fez algumas declarações sobre o assunto e admoestou a facção da AfD. Queixou-se de que o grupo parlamentar do AfD tinha publicado um vídeo da cena numa rede social, pouco depois do incidente, criticando a vice-presidente do Parlamento. Consequentemente, a deputada foi difamada, insultada e ameaçada em inúmeros comentários, e-mails e telefonemas - de tal forma que se pesou a necessidade de lhe dar protecção policial.

Afirmou que não é permitido "criar uma espécie de minuto de silêncio por meio de um silêncio demonstrativo", que o tempo de uso da palavra de um deputado está limitado a intervenções, e que o Presidente do Bundestag é o único que decide sobre os minutos de silêncio e as cerimónias de homenagem no Parlamento. A "encenação" do AfD não só resultou em violações dos direitos de personalidade, como também afectou o Bundestag enquanto órgão constitucional: "A mera aparência de instrumentalização das vítimas de crimes não é compatível com a dignidade do Parlamento Federal". Continuou, dizendo que as disputas no parlamento devem seguir regras, e que o que acontece no Bundestag tem consequências para o debate público: "Pode ser o modelo para um debate civilizado. Mas também pode ser uma causa para o ódio e a agitação, para o embrutecimento e até para as piores formas de violência. (...) Faz parte da nossa responsabilidade aprender com a experiência da nossa história a facilidade com que disputas irresponsáveis podem levar ao ódio e a uma escalada de violência. (...) Temos de manter a moderação para não envenenar o nosso clima político e social."

 

5.9.2023
Artigo no jornal Welt:

Na abertura da sessão parlamentar, a presidente do Bundestag, Bärbel Bas (SPD), apelou aos deputados para que se tratem com respeito. O número de medidas disciplinares aplicadas está "muito acima do nível" das legislaturas anteriores. (...) Criticou a forma como os deputados se comportam em plenário e apelou a que dêem o exemplo. "Caros colegas, todos sabemos que o discurso e a resposta são determinantes para um debate argumentativo e pacífico. Quem se serve do discurso para emitir provocações, generalizações e banalidades, quem insulta e agride, fica à margem do discurso argumentativo." Muitas sondagens mostram que a confiança nas instituições políticas está a diminuir. Por isso, apelou aos membros do Bundestag para que levem a sério a sua responsabilidade de dar o exemplo.

  

6.9.2023

Um deputado da AfD comparou de forma indirecta Angela Merkel a Hitler

 

Disse ele: "Exceptuando um 'cabo da Boémia', nenhum político trouxe tanta desgraça à Alemanha como esta ex-chanceler." A vice-presidente do Parlamento Federal repreendeu-o nestes termos: "No Bundestag, pode exprimir-se qualquer opinião, mas o que não se pode fazer é insultos pessoais. E o que também não é aceitável é equiparar as pessoas que trabalham na política deste país àquelas que ocuparam o poder durante o nacional-socialismo. (...) Não é apropriado para o Parlamento. E não vamos tolerar isso nesta Assembleia."


21.1.2024
Artigo no jornal SZ (não directamente sobre discurso racista ou xenófobo no Parlamento, mas sobre o modo de debater e exprimir discordância)

O ambiente no país está a ficar mais irritável - e os debates no Bundestag estão cada vez mais agitados. Por isso, o número de vezes que os deputados foram chamados à ordem aumentou consideravelmente. Só no ano passado, a presidência do Parlamento recorreu a este instrumento 51 vezes para penalizar deslizes verbais e outros comportamentos incorrectos. Este número foi superior ao registado em toda a legislatura anterior, de 2017 a 2021, na qual, de acordo com um resumo do Bundestag alemão, foram emitidas 49 chamadas à ordem. Daquelas 51, 30 foram para a AfD. Dois deputados (Beatrix von Storch, da AfD, e Michael Schrodi, do SPD) chegaram a ser penalizados com uma coima de 1000 Euros cada um. As estatísticas sobre as medidas disciplinares impostas em cada legislatura por violação das normas ou da dignidade do Parlamento mostram claramente que o ambiente se tornou muito mais áspero com a entrada da AfD, nas eleições de 2017. Em toda a 18ª legislatura (2013 a 2017), apenas tinham sido emitidas duas chamadas à ordem, e apenas uma na 17ª legislatura.


28.2.2024
Artigo sobre o modo como a AfD sabe usar as redes sociais e, inclusivamente, delineia os discursos no Parlamento para terem o maior impacto possível em plataformas como o Tiktok:

"Ao contrário de outros partidos, a AfD utiliza sistematicamente o Tiktok; os políticos da AfD são treinados para fazer discursos adequados a esta plataforma, com palavras no local certo para suscitar indignação e frases curtas e nítidas (mensagem central ou punch line)."

 

21.4.2024 
O Parlamento bávaro discute uma lei dos deputados nova, que pune de forma bem mais severa os comportamentos de desrespeito ao Parlamento

Os partidos CSU, Eleitores Livres, SPD e Verdes concordaram que, no futuro, os deputados poderão ser multados até 4000 euros se tiverem um comportamento inadequado no Parlamento - no hemiciclo, mas também noutras ocasiões, possivelmente de carácter social. Poderão também ser excluídos dos debates durante semanas. "Precisamos desta lei com muita urgência", disse o deputado que apresentou a proposta.


17.5.2024
Entrevista a Yvonne Magwas, vice-presidente do Bundestag, no jornal "Das Parlament"


Excertos:


A propósito do ataque ao deputado do SPD Matthias Ecke, que no princípio de Maio de 2024 foi barbaramente atacado em Dresden quando andava a colar cartazes, e teve de ser operado porque tinha vários ossos da face partidos (*), a vice-presidente do Parlamento Federal alemão diz: "É assustador que seja necessária uma tomada de posição condenando a violência física durante as campanhas eleitorais. O que está a correr mal? Até certo ponto, também podemos ver no Bundestag alemão que o clima do debate mudou. Endureceu. As chamadas à ordem são vistas pelos deputados da AfD como troféus. A difamação é usada para desafiar os limites do que pode ser dito. O que tem muito a ver com o facto de a AfD fazer isto em grande escala e de, com demasiada frequência, outros se juntarem a ela. O que leva a um clima exaltado no debate. E, infelizmente, as palavras são seguidas de actos."

Sobre o endurecimento na cultura de debate no Parlamento, cuja responsabilidade é atribuída ao grupo parlamentar da AfD: "As medidas disciplinares do regulamento do Parlamento ainda têm um certo efeito. No entanto, também nos apercebemos de que é necessário tornar este regulamento mais rigoroso. Penso, por exemplo, que temos de trabalhar muito mais com o instrumento das coimas em vez das repreensões. A alteração está atualmente em curso. Os partidos da coligação e da oposição democrática estão a dialogar sobre o assunto e nós, enquanto Comissão Executiva, apresentámos propostas. As conversações chegaram agora a uma fase muito concreta."


(*) Matthias Ecke na Spiegel, após o ataque de que foi vítima: "A AfD envenenou o clima social nos últimos anos. Estamos perante uma desinibição planeada e um embrutecimento organizado, que são acções deliberadas da AfD, em conjunto com outras estruturas de extrema-direita."

17 março 2024

Alemanha e Israel

Birkenau, 2014. Oil on canvas, 8 ft. 6 3/8 in. x 78 3/4 in. (260 x 200 cm).
Private Collection. © Gerhard Richter

 

Aqui a dorminhoca só reparou hoje que a Almanaque Mag já saiu em Fevereiro. Isso foi, segundo as minhas contas, duas séries de correrias antes daquelas em que ando agora metida. Em plena Berlinale. Não importa: aí está o artigo que escrevi em Novembro de 2023 sobre a Alemanha e Israel. Nasceu de uma necessidade forte que senti na altura de explicar um pouco mais sobre os motivos do comportamento da Alemanha perante os crimes terríveis que Isael estava (e continua) a cometer em Gaza. Algumas passagens já não são muito actuais. Entretanto Israel já triplicou o número de civis que matou em Gaza; os próprios políticos alemães e a população começaram a criticar mais abertamente o governo de Israel; na altura, Geert Wilders era o vencedor das eleições nos Países Baixos, e havia notícias sobre o medo sentido por muçulmanos naquele país - neste momento, já vimos que mesmo que a direita populista ganhe eleições, é possível proteger a democracia. Mesmo assim, o artigo não envelheceu tão mal como temia.


Leiam, e digam o que vos parece.

https://almanaquemag.com/alemanha-e-israel/

09 fevereiro 2024

era uma vez na Alemanha

(Nota prévia: se não houver informação contrária, todos os links são para notícias em alemão) 


No sábado passado, no centro de Berlim, um estudante judeu foi atacado por outro estudante da sua universidade, que o reconheceu num bar, o seguiu na rua, e o agrediu violentamente - mesmo quando já estava caído no chão. A vítima teve de ser operada para evitar uma hemorragia cerebral, e está no hospital com fracturas em vários ossos do rosto. Chama-se Lahav Shapira. Depois do ataque, no twitter e no instagram multiplicaram-se publicações do género: "lol - é um provocador hardcore" e até "um famoso racista judeu (...) com alma satânica".

O avô materno do "provocador hardcore" emigrou para Israel em 1948. Sozinho. No gueto de Varsóvia, escapou à "solução final" friamente planeada porque, no dia em que os nomes de toda a família apareceram na lista do transporte para o gás em Treblinka, ele conseguiu esconder-se.

O avô paterno de Lahav, Amitzur Shapira, era treinador dos atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique, e foi uma das vítimas do massacre de terroristas palestinianos.

Em 2002, depois do divórcio, a mãe decidiu deixar a Cisjordânia, onde viviam, e mudar-se para a Alemanha com os dois filhos, para viver com o seu novo companheiro numa pequena cidade de Sachsen-Anhalt. Shahak, o filho mais velho, tinha então 14 anos. Não se importou de deixar a Cisjordânia, onde nunca se sentira bem e não tinha amigos. Na Alemanha, contudo, o ambiente era ainda pior, porque a região para onde foram viver é um bastião da extrema-direita mais radical. Uma das primeiras palavras alemãs que aprendeu foi "Judensau". Na escola, troçavam dele por ser estrangeiro e judeu.

Um dia, teria Lahav 16 anos, foi insultado ("porco judeu") e espancado por um adolescente com ideias da direita radical. O ataque só não foi além de algumas contusões e feridas superficiais porque um condutor que ia a passar parou, gritou ao atacante e levou dali a vítima no seu carro.

Descobriu-se depois que o agressor jogava no clube de futebol local, onde havia um treinador de futebol neonazi. Mas demorou algum tempo até se conseguir convencer a direcção do clube que não podiam deixar aquele tipo com bigodinho à Hitler treinar adolescentes.

O irmão mais velho, Shahak, foi viver para Berlim, onde finalmente encontrou o ambiente de liberdade que sempre almejara. Mas até em Berlim fez más experiências. No clube de futebol onde se inscreveu, alguns jogadores árabes chamaram-lhe "porco infiel". Mudou para outro clube. E depois, na passagem de ano para 2015, na carruagem de metro onde ia estavam sete jovens berlinenses de origem turca ou árabe a cantar "fuck Jude" e "fuck Israel". A carruagem estava cheia, mas só duas pessoas protestaram. Shahak foi ter com eles, disse "eu sou judeu - têm algum problema com isso?" Filmou-os. Cuspiram-lhe em cima. Quando saiu do comboio, os outros seguiram-no, exigiram-lhe que apagasse o filme e, tendo ele recusado, espancaram-no até que agentes de segurança da estação intervieram. Quando o caso se tornou público, Shahak quis a todo o custo impedir a sua instrumentalização para propaganda islamofóbica. "Porque aprendi muito cedo o que é o racismo, e sempre o achei uma estupidez", disse ele. A sua mensagem: é preciso pôr fim à espiral de ódio. O anti-semitismo não deve ser instrumentalizado para justificar discurso de ódio contra muçulmanos. "E claro que também teria dito alguma coisa se alguém estivesse a gritar 'fuck Palestina'."

Entre outras iniciativas de protesto, Shahak Shapira é o autor da série de fotomontagens Yolocaust (para quem não conhece: aqui, em português e aqui um exemplo) e de uma acção de crítica ao Twitter, quando, depois de denunciar mais de 300 tuítes de ódio e receber apenas 9 respostas, todas elas alegando que os tuítes não violavam as regras, decidiu pintar alguns deles em frente à sede da empresa em Hamburgo. Frases como: "Jewish scum", "n*rs are a plague to our society", "retweet if you hate muslims", "a Alemanha precisa novamente de uma Solução Final para o Islão".

Devido à sua participação em iniciativas contra a extrema-direita, a própria mãe de Shahak precisou de ficar sob protecção policial durante duas semanas.

É esta a história da família de Lahav Shapira, que está neste momento no hospital com vários ossos da cara partidos.

Depois do massacre do Hamas, os judeus começaram imediatamente a sentir-se ainda mais inseguros nas ruas europeias. Berlim não foi a excepção - bem pelo contrário. Afinal de contas, esta é a cidade onde, no dia 7 de Outubro, algumas dezenas de pessoas vieram para a rua festejar aquela orgia de violência contra judeus.

Na realidade, há vários anos que os actos de violência anti-semita, por parte de neo-nazis e de alguns muçulmanos, já são um tema que choca e preocupa a Alemanha. E essa violência aumentou imediatamente a seguir ao massacre, ainda antes de Israel começar a bombardear Gaza.

À semelhança do que aconteceu em toda a cidade, e particularmente nos bairros onde há mais árabes e turcos, também os alunos judeus da Freie Universität (Universidade Livre), onde Lahav estuda, começaram a deixar o quipá e o fio com a estrela de David em casa. Sentem medo. Ao longo destes meses, a direcção da Universidade não tem sabido responder de forma adequada a esta situação.

Em meados de Dezembro de 2023, estudantes dessa universidade, juntamente com grupos do exterior, organizaram ali uma acção de protesto contra os crimes que Israel está a cometer em Gaza. Ocuparam um anfiteatro, afixaram cartazes, disseram o que tinham a dizer, houve até quem pusesse em causa o direito de Israel a existir. Alguns estudantes judeus daquela universidade tentaram entrar na sala, mas o acesso estava vedado a quem tivesse uma posição crítica ou pró-Israel. Lahav conseguiu entrar juntamente com outros estudantes. Num ambiente de enorme tensão, prendeu à parede um cartaz com a fotografia de um dos reféns do Hamas. Houve cartazes (dos dois lados) arrancados e alguns empurrões. A cena foi filmada (aqui).

No filme, vê-se um homem que faz menção de arrancar o cartaz de Lahav e o tenta empurrar para fora do local. É Ramsis Kilani. Imediatamente a seguir ao massacre de 7 de Outubro, Ramsis Kilani publicou uma série de tuítes chocantes, como por exemplo: questionava se os cidadãos israelitas deviam ser realmente considerados civis, já que, afinal de contas, mais tarde ou mais cedo todos cumpriam serviço militar.

Ramsis Kilani é um berlinense filho de uma alemã e de um palestiniano. Após o divórcio do casal, o pai regressa a Gaza, onde casa novamente. Na guerra de 2014, uma bomba israelita cai no prédio onde a família com cinco filhos se refugiara, em obediência às ordens do exército israelita. Em busca de um lugar mais seguro que a sua casa no norte de Gaza, tiveram o azar de se abrigar no prédio de escritórios onde também um comandante do Hamas se escondera. A bomba destinada a este mata onze pessoas da família de Ramsis Kilani: o pai, a sua mulher e todos os filhos, e mais 4 parentes que também se tinham refugiado ali. Uma vez que o pai e os cinco filhos tinham nacionalidade alemã, na Alemanha diversas organizações deram início a processos por crime de guerra. Israel conseguiu arranjar forma de não ser dado seguimento a nenhum deles. A organização de defesa dos direitos humanos que apoiava Ramsis Kilani avisou-o que não valia a pena recorrer, exemplificando com um precedente: até no caso do assassinato de quatro menores numa praia de Gaza Israel tinha conseguido escapar ao julgamento.

Como consequência do confronto na Freie Universität, imagens de Lahav Shapira começaram a circular na internet juntamente com o apelo: "Fixem este rosto". Lahav é marcado como provocador sionista e racista de extrema-direita.

(fonte: twitter)

Numa troca de mensagens com Lahav, Ramsis Kilani responde-lhe enviando simplesmente o emoji do triângulo vermelho. Na Alemanha, a ninguém escapa a berrante coincidência: o sinal do Hamas para assinalar alvos inimigos, que agora está a tornar-se um símbolo da resistência palestiniana (link para uma descrição em inglês), é igual ao sinal que os nazis usavam nos campos de concentração para marcar os prisioneiros políticos. A escolha deste símbolo é certamente um acaso, mas o seu uso na Alemanha ganha todo um outro significado.


(fonte: twitter)

A universidade titubeia. Começa por dizer que o mundo universitário é um lugar de confronto de ideias e que por vezes há naturalmente excessos, não toma medidas para evitar o aumento da tensão entre alunos judeus e grupos pró-palestinianos, quando se exige a expulsão do agressor diz que não pode expulsar um estudante por motivos políticos (na realidade, a lei não permite que uma universidade berlinense expulse aluno nenhum, seja qual for o motivo; no máximo, pode impedi-lo de entrar nas instalações durante alguns meses). Perante a evidência da violência física, fala em divergência ideológica. A nível da política do Estado de Berlim, também há algumas hesitações. Ao fim de alguns dias após este ataque, a pressão aumentou a tal ponto que se deu finalmente uma inflexão. A responsável deste pelouro no governo do Estado de Berlim e a direcção da universidade assumiram uma posição mais firme contra actos de violência anti-semita. Ontem, 8.1.2024: - Na Universidade Humboldt um grupo pró-palestiniano interrompeu uma sessão onde juristas de vários países, entre os quais uma juíza do Supremo Tribunal de Israel, queriam debater sobre os desafios do julgamento no contexto das Democracias constitucionais. Imagens aqui. (Sinceramente, é preciso ter uma pontaria de luxo para acertar tão ao lado: boicotar justamente uma juíza do Supremo Tribunal de Israel, o último reduto institucional daquele Estado capaz de cercear as tentações totalitárias do governo de Netanyahu!) - Em frente à Freie Universität - que ainda não decidiu o que vai fazer com o aluno agressor, e em quatro meses ainda não definiu um plano sobre como responder à situação de insegurança dos alunos judeus - houve nova manifestação pró-palestiniana. A universidade afirma que foi instaurado um processo-crime "devido ao conteúdo dos cartazes que apelavam a esta manifestação".

Uma associação de estudantes exige que a direcção da FU se demita. Acusa-a de passividade perante incidentes de fundo anti-semita, por demasiadas vezes e durante demasiado tempo. Referem a ocupação da sala e a violenta agressão de um aluno, distribuição de panfletos e ameaças a estudantes, além da apresentação de queixas por agressões menores. "Há uma falta de acção concreta, uma falta de consequências por parte da direcção da universidade", acusa essa associação.

O ambiente na universidade está cada vez mais tenso. Ontem, uma aluna confessava a um jornalista: "Até eu sinto medo, e nem sou judia."

---

Tudo isto é trágico. Aquela cena de confronto físico numa universidade - o lugar de troca de ideias por excelência - entre um descendente de uma vítima do "terror palestiniano" e um descendente de uma vítima do "terror israelita": se não fosse a terrível realidade, dava uma potente metáfora. O desespero dos que sofrem pelos milhares de palestinianos a morrer em Gaza. O desespero de um judeu que cresceu na insegurança de um ambiente profundamente anti-semita e vê, na sua universidade, pessoas a desprezar os direitos dos reféns do Hamas e a negar ao seu país o direito de existir.

No meio de tudo isto, o que mais me espanta é o modo como alguns grupos pró-palestinianos conseguem fazer tudo de forma tão contraproducente. No preciso momento em que o mundo inteiro está profundamente escandalizado com o horror de Gaza, no preciso momento em que os alemães saem à rua aos milhões para protestarem contra os planos islamofóbicos da extrema-direita e aplaudem os oradores que afirmam que na Alemanha todos são bem-vindos, em vez de aproveitarem este contexto único para melhorarem a situação do povo palestiniano, alguns grupos pró-palestinianos escolheram formas de luta que provocaram uma extrema polarização.

Queimar bandeiras de Israel, gritar "from the river to the sea", recusar liminarmente falar dos reféns do Hamas ou criticar essa organização, ocupar instalações universitárias e recusar o debate, boicotar iniciativas universitárias: tudo isto faz com que largas camadas da população se recusem a participar em protestos pró-palestinianos, para não serem automaticamente associadas a simpatizantes do Hamas e inimigos do Estado de Israel.

Não dá para acreditar, mas conseguiram realmente afastar das suas manifestações muitas pessoas que concordam inteiramente com os motivos do protesto (que são: a deliberada destruição de Gaza e a morte de dezenas de milhares de pessoas), e, pior ainda: estão a conseguir reforçar na sociedade alemã a imagem preconceituosa que a extrema-direita espalha sobre os muçulmanos, como pessoas que não respeitam as leis e a cultura do país, e ameaçam valores básicos e a coesão desta sociedade.

Os palestinianos - em Gaza, e no mundo inteiro - mereciam melhores defensores.


07 novembro 2023

lenha para a fogueira



Como ficaria o mundo se não houvesse redes sociais? Pessoalmente, eu perderia imenso. Mas: e o mundo?

Por estes dias, fujo do twitter. De cada vez que lá vou, encontro-o cheio de ódio, e de manipulações que excitam o ódio.

Ontem, por exemplo: na Alemanha, o escândalo do dia era um infantário que queria mudar o seu nome. De "Anne Frank" para "Descobridores do Mundo" (em alemão soa de forma muito positiva: abertura, curiosidade pelo mundo, iniciativa, dinamismo, etc.)

Esta decisão vem já do início deste ano, como parte de uma reformulação geral do funcionamento do infantário. Queriam ter um nome mais adequado a crianças daquela idade, e que estivesse ligado ao novo projecto pedagógico. Além disso, segundo a directora, os pais estrangeiros não se identificavam com este nome. ("Por que no te callas?", como dizia o outro.)

Lembraram-se de trazer o assunto para a ribalta justamente agora, num momento em que os judeus em todo o mundo se sentem ameaçados, em que o anti-semitismo na Alemanha é um tema central e o debate está a ser conduzido no sentido do reforço desenfreado de um primo daquele: o anti-islamismo.

Por estes dias, o caso apareceu posto nestes termos: "De repente, querem tirar 'Anne Frank' do nome de um infantário alemão!" (este "de repente" foi, como é óbvio, uma invenção do venenoso Bild), "Para não incomodar os imigrantes, querem outro nome" e, porque para o ataque ser completo ainda faltava reforçar a imagem negativa das regiões da antiga RDA, "na região onde em tempos um bando de neonazis queimou o Diário de Anne Frank".

Claro que o twitter foi ao rubro. E até os jornais sérios perderam o pé num finca-pé desnorteado.

Dá vontade de perguntar se está tudo maluco. Mas é pior: está tudo com vontade de acreditar nas piores maluquices, e de as ir atirar para as redes sociais com o prazer de quem mantém viva uma fogueira.

Ontem à tarde veio a notícia de que se recuou na decisão: de momento, o nome não muda. O que me parece mal.

Fosse eu o presidente da Junta daquela terra, e mudava. Miúdos de 3 anos - alemães ou não - não têm de ser confrontados com a tragédia de Anne Frank. Em troca, dava o nome "Anne Frank" a uma rua, a um hospital, a um liceu. Tirava de um lado, multiplicava do outro.

Aliás: para bem ser, como sinal de solidariedade para com os judeus alemães que neste momento se sentem isolados e à mercê do ódio, esta era a semana em que, em cada cidade alemã, se mudava o nome de uma rua, de um centro de dia, de um hospital. Infelizmente, nomes é algo que não falta: Anne Frank, Etty Hillesum, Janusz Korczak, e tantos outros. E em cada cidade haveria uma escola que esta semana ganhava o nome de alguém que se elevou acima do horror do seu tempo pelo exemplo de coragem ética: Sophie Scholl, Irena Sendler, Aristides Sousa Mendes, entre - felizmente! - muitos outros.

Esta parte, seria fácil. Apesar do que se diz nas redes sociais, sobre este assunto há um consenso vasto. E o país está a precisar de se unir em torno de iniciativas com este simbolismo.

Mais complicado seria tentar um olhar mais abrangente: uma Rua da Naqba, uma Praça de Gaza, um Hospital dos Mártires da UNRWA, uma escola Iqrit e um liceu Bir Am.

A ausência de consenso sobre isto é, também, lenha altamente indendiária para a fogueira que está a devorar a paz social.



01 junho 2022

instantâneo alemão

 

Um bocadinho de Alemanha pela manhã...

Ainda não são oito da madrugada, e já me aconteceu isto: por causa de uma tradução, fui ao Google ver o que era aquela história de o Goebbels coxear. Encontrei um tipo a perguntar a mesma coisa para ajudar a filha, que tinha de fazer um trabalho para a escola, e li as duas respostas que recebeu. A primeira, dizia que (cito) o "Dr. Goebbels" tinha um pé mais pequeno que o outro, e blablabla o "Dr. Goebbels" teria afirmado que blablabla.

A segunda pessoa a responder revelou que o problema era que quando erguia o braço direito a perna direita também se levantava e batia-lhe no focinho, e que infelizmente isso não acontecia com a frequência que seria de desejar.


20 novembro 2020

a raposa no meio das galinhas

 



Notícias muito preocupantes sobre os ataques à Democracia na Alemanha: no dia em que se discutiu no Parlamento Federal a nova lei para enquadrar a actuação dos governos em caso de pandemia, que restringe o actual poder discricionário do governo e estabelece as suas possibilidades de actuação, 

(1) a AfD, por motivos de pura estratégia mediática, criou uma narrativa inversa, comparando a lei em debate ao golpe de Estado que permitiu a Hitler escapar às regras da Democracia e instalar-se no poder;

(2) no plenário do Parlamento, todos os deputados da AfD usaram as cadeiras livres ao seu lado para exibirem um cartaz patético mostrando uma faixa de luto por cima da Constituição (o presidente do Parlamento mandou-os tirar tudo aquilo imediatamente, dizendo que a troca de ideias naquela casa não é feita com recurso a cartazes);  

(3) alguns deputados da AfD levaram convidados para a parte de acesso reservado dos edifícios parlamentares (o que é permitido), mas deixaram-nos por lá à solta (o que não é permitido). Esses arruaceiros andaram a perseguir, a intimidar, a filmar e a insultar políticos que se dirigiam ao plenário, entre os quais o ministro da Economia como se vê neste filme. Alguns funcionários do Parlamento sentiram-se de tal modo ameaçados que se fecharam à chave dentro dos seus escritórios. Os filmes dos políticos ultrajados no interior do Parlamento foram postos online, para gáudio dos inimigos da Democracia; 

(4) ali perto, junto à Porta de Brandeburgo, uma manifestação contra as medidas de combate à pandemia e contra esta lei foi dispersada pela polícia, uma vez que não respeitavam as regras de saúde pública; a polícia usou os canhões de água com potência reduzida, de modo a fazer uma espécie de chuva sobre eles, uma vez que havia crianças entre os manifestantes (o que está muito bem - e seria muito desejável que tivessem a mesma delicadeza quando estão perante manifestantes que querem impedir uma marcha de neonazis, ou a destruição de um parque numa cidade, ou um transporte de lixo nuclear).

A lei foi aprovada pelo Parlamento e assinada pelo presidente nesse mesmo dia, para entrar em vigor o mais depressa possível. Estamos em plena pandemia, é importante que o quadro legal seja claro - nomeadamente para facilitar o trabalho dos tribunais que serão chamados a decidir sobre as decisões dos governos e o comportamento de agentes do Estado. Hoje, o Parlamento debateu sobre o comportamento da AfD e acusou o partido de se aproveitar cinicamente dos direitos dos seus deputados para atacar a Democracia.   


[ ADENDA: Desde que escrevi este post, há várias semanas, penso noutros casos que recentemente têm chocado a sociedade alemã. Antes deste Novembro, em que deputados da AfD introduziram na área reservada do Parlamento youtubers de extrema-direita para intimidar e achincalhar os mais altos representantes da nação, enquanto transmitiam em directo para os seus canais na internet (como, aliás tinham anunciado nos dias anteriores), já tinha havido em finais de Agosto uma tentativa de invasão do Parlamento por grupos desse espectro político. A polícia informou recentemente que o número de crimes contra estrangeiros e em especial contra judeus está a aumentar imenso. Em 2018, grupos de extrema-direita lançaram-se em Chemnitz numa violenta perseguição aos estrangeiros que por acaso andassem nas ruas. A caça ao homem em Chemnitz aconteceu numa altura em que o país ainda debatia, consternado, a afirmação de um dos chefes da AfD, que se queixara da importância excessiva que ainda hoje se dá ao período nazi, quando isso "não passou de uma cagadela de pássaro" no conjunto da "gloriosa História alemã". E antes disso outros escândalos houve, que não são nem independentes uns dos outros, nem casuais. Cada um deles é um marco no processo de fazer recuar as linhas vermelhas, de modo a alargar o caminho das forças antidemocráticas. O "nunca mais!" - que a Democracia alemã frequentemente repete para assinalar o dever da responsabilidade histórica - corre o risco de se tornar uma expressão ultrapassada pela realidade. ] 


---

À margem disto, uma nota pessoal: o chefe de uma amiga minha é um dos que pensa que a Covid é uma gripezinha e que a máscara é um atentado à sua liberdade pessoal. Por conseguinte, anda no escritório sem máscara, e vai de mesa em mesa falar com quem lhe apetece à (pouca) distância que lhe apetece. Há dias descobriu-se que tinha covid. A minha amiga - que tem 30 anos, e uma saúde relativamente frágil - descobriu hoje que foi contagiada por ele. 


os alemães isto e os alemães aquilo

Ontem ao fim da tarde escrevi uma mensagem online para uma instituição pública de Weimar, porque precisava de uma cópia do registo matricial da casinha que lá temos e queria fazer o pedido por email, em vez de enviar pelo correio.

Esta manhã, logo pelas oito, tocou o telefone. "- Guten Tag, quer dizer, guten Morgen!" - disse uma voz bem-disposta. "Ontem contactou-nos por internet, mas por motivos legais não podemos dar resposta por email, e como deixou na sua mensagem um lindíssimo número de telefone estou a ligar para informar que deve enviar pelo correio o formulário, ou então uma carta a dizer simplesmente "peço que me envie uma cópia do registo matricial do nº x". Em princípio não demora mais de três dias para receber o que pediu. Mas não caia na asneira de recorrer aos serviços de agências que encontra na internet, porque eles cobram três ou quatro vezes mais do que nós, e demoram três semanas a dar-lhe o papel!"

Agradeci, desejei-lhe um bom dia (do fundo do coração), ela retribuiu (e também me pareceu sincero).

Fica aqui registado, para o caso de aparecer alguém a dizer que os alemães isto e os alemães aquilo.


04 junho 2020

é o comunismo...

Para manter a proximidade social apesar do afastamento imposto pela crise da covid-19, o meu marido começou a jogar às cartas online com dois amigos. Um em Munique, o outro em Washington - e nós os dois em Brest, num apartamento minúsculo. De modo que eu vou ouvindo as conversas: o amigo que está nos EUA a anunciar há dois meses, preocupadíssimo, que a covid-19 ia ser um "banho de sangue" no seu país; ou, no mês passado, a perguntar porque é que na Alemanha morrem muito menos pessoas que nos outros países; e a gargalhada velhaca dos alemães de cá:
- Diz aí aos teus americanos que isto é o comunismo...

Nos EUA, qualquer proposta com preocupações mais sociais é "comunismo". Pois que seja - e aqui deixo alguns exemplos da forma como o "comunismo" do sistema alemão permitiu a crise da covid-19:

- Quando o problema ainda era apenas chinês, um laboratório de investigação estatal alemão criou um teste de diagnóstico. Em Janeiro, quando o vírus ainda nem sequer tinha chegado à Alemanha, o teste do laboratório estatal alemão foi posto gratuitamente à disposição do mundo inteiro;

- O chefe desta equipa, Christian Drosten, começou a dar entrevistas diárias para informar em primeira mão sobre o ponto da situação do ponto de vista científico. Várias pessoas contaram-me que todos os dias, antes de adormecer, ouviam o seu podcast de cerca de meia hora, porque a voz dele tinha um efeito apaziguador. E não era apenas a voz - era sobretudo a autenticidade: o cientista tinha a coragem e a humildade de falar da situação sem omissões nem dramas, de forma ponderada e autocorrectiva, assumindo aquilo que ainda não sabia e também o que entretanto aprendera e corrigira depois de uma entrevista anterior;

- Quando o vírus chegou à Alemanha, já havia testes em grande quantidade disponíveis em laboratórios de todo o país, para testar sem demoras os casos de risco, e pôr em isolamento todos os que dessem resultado positivo;

- Quando o governo impôs o confinamento, deu imediatamente e sem complicações burocráticas cinco mil euros a quem perdeu os seus rendimentos (vários amigos meus de Berlim - músicos, fotógrafos, etc. - receberam esse dinheiro num prazo de dois dias), permitindo a essas pessoas atravessar esta crise com um mínimo de tranquilidade, e ficar em casa em vez de se sujeitarem a fazer qualquer coisa para ganharem algum dinheiro;

- O governo alterou uma das regras do Sistema de Apoios Sociais, para que as pessoas que ficaram impedidas de trabalhar devido às regras de distanciamento social (como as dos sectores da cultura, das restauração, da prostituição, etc.) pudessem receber os apoios sem terem primeiro de gastar todas as suas poupanças, vender o apartamento ou mudar para um alojamento de dimensão menor; 

- Há mais de dez milhões de alemães a trabalhar em regime de horário e salário reduzido. São dez milhões a menos no desemprego, e são dez milhões que podem recomeçar a qualquer momento a trabalhar a pleno. Quando vier a retoma, empresas e trabalhadores estão prontos a avançar - ao contrário de outros países, nos quais a retoma será atrasada pelo facto de ser necessário procurar pessoas e treiná-las. 

É certo que também foram cometidos erros, também houve muita navegação à vista, também foi complicado gerir o conflito entre as informações em constante mutação por parte da ciência e a pressão das pessoas e dos agentes económicos para se voltar à normalidade. Ninguém disse que o "comunismo" é perfeito. Mas gostava de saber a escolha dos habitantes dos EUA (e já agora dos adeptos da AfD e do Chega): numa crise como a da covid-19, preferiam morar nos EUA do Trump ou na Alemanha de coligação de partidos do centro democrático?


09 maio 2020

75º aniversário do Dia da Libertação na Alemanha



O noticiário Heute Journal de 8.5.2020, no vídeo acima, é mais um daqueles momentos em que tenho pena de todos os que não entendem alemão. Trata-se da edição especial sobre os 75 anos da Libertação, e tem algo de irrepetível porque apresenta várias testemunhas daquela época a contar na primeira pessoa essa época da História. Para além das imagens das comemorações em Berlim, falaram com dois berlinenses (um detalhe do que contaram: a criança de sete anos que se habitua a ver mortos nas ruas, e a ver pessoas que têm sempre consigo uma tesoura para cortar botões da roupa dos mortos, porque na Berlim destruída não havia onde os comprar), fizeram uma entrevista absolutamente extraordinária a Klaus von Dohnanyi, que tinha 16 anos quando a guerra terminou, e perdera vários membros da sua famosa família de resistentes, assassinados pelo regime. Este homem de 92 anos, que teve um papel importante no mundo político alemão, lembrou que para nós hoje o importante não é olhar para o Dia da Libertação, mas para os erros cometidos 12 anos antes. O noticiário passou ainda em revista as comemorações noutros países, apresentou algumas peças sobre questões ligadas à covid-19, e terminou num lar de terceira idade em Israel para sobreviventes do Holocausto, mostrando jovens voluntárias alemãs que, sabendo que a organização de voluntariado internacional não enviaria ninguém para as substituir, escolheram continuar a cuidar daqueles idosos em vez de regressarem rapidamente à Alemanha aproveitando os serviços governamentais de repatriamento no início da crise.
Nas imagens - gravadas pelas próprias voluntárias, porque o isolamento absoluto não permitia a entrada de jornalistas do exterior - há cenas absolutamente tocantes. Como aquela em que uma sobrevivente conta à jovem alemã que os seus familiares foram assassinados logo à entrada em Auschwitz, e remata: "tu não tens culpa - mas isto aconteceu".
Cheguei ao fim deste noticiário comovida, e com vontade de acreditar na possibilidade da paz entre as pessoas.

Os planos de Berlim para as comemorações do 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial na Europa tiveram de ser drasticamente alterados devido à crise da covid-19. A "Festa do Encontro", em frente à Porta de Brandeburgo, foi anulada. As comemorações decorreram sobretudo online: com concertos em directo da Nikolaikirche em Leipzig e da Staatsoper Unter den Linden em Berlim, e com uma exposição online: "rumo a Berlim" (https://75jahrekriegsende.berlin/en/experience/ - em inglês)

No filme que partilho acima vêem-se alguns momentos da homenagem no Memorial para as Vítimas da Guerra e da Tirania, em frente à pietà  de Käthe Kollwitz . Nas palavras da própria artista: "A mãe está sentada, envolvendo o filho morto, que está deitado entre os joelhos dela. Já não é dor, mas introspecção".

Setenta e cinco anos depois do fim da guerra, a introspecção é a palavra chave. No mural de facebook do Governo Federal juntaram às imagens desta homenagem um texto que oferece uma boa síntese do como a Alemanha olha para esta terrível página do seu passado:

"8 de Maio, Dia da Libertação
A chanceler Merkel e o presidente Steinmeier, juntamente com os representantes dos outros órgãos constitucionais, comemoram hoje o fim da Segunda Guerra Mundial e a libertação do jugo do nacional-socialismo.
A capitulação da Alemanha, há 75 anos, para além de pôr fim a uma guerra terrível, acabou também com um regime de terror de uma violência inimaginável, que trouxe a morte e a destruição a inúmeras pessoas.
Este crime permanece para os alemães como um alerta constante, e constitui uma responsabilidade histórica e um dever para que nunca permitam a repetição de tamanha barbárie."

No seu discurso, o presidente Steinmeier usou palavras simples, mas firmes, para falar do passado e do percurso percorrido por este país, falar das ameaças do presente e da importância da Europa, e reafirmar a responsabilidade da Alemanha na luta para fortalecer a Democracia e o bom entendimento entre os povos. O discurso foi feito em frente ao Memorial das Vítimas da Guerra e da Tirania, na avenida Unter den Linden, a poucos metros da praça onde no dia 10 de Maio de 1933 uma turba de académicos nazis organizou a fogueira de livros.
Partilho, da página da Presidência, a tradução para inglês:
(fonte) (vídeo)


Seventy-five years ago today, the Second World War came to an end in Europe.
8 May 1945 marked the end of the Nazi reign of tyranny, the end of night-time bombing raids and death marches, the end of unprecedented German crimes and the end of the Shoah, that betrayal of all civilised values. Here in Berlin, where the war of annihilation was conceived and from where it was unleashed, and whither it returned with the full force of destruction – we had planned to commemorate this day jointly with others.
We had planned to commemorate the day together with representatives of the allies from East and West who made huge sacrifices to liberate this continent. Together with our partners from every corner of Europe that suffered under German occupation, and yet were willing to seek reconciliation. Together with the survivors of German crimes and the descendants of those who perished, so many of whom reached out to us in reconciliation. Together with everyone around the world who gave this country the chance of a fresh start.
We had planned to remember, too, with the older generation in Germany who experienced that period themselves. Who as children knew hunger and violence, who were driven from their homes. After the war, it was they who rebuilt this country, both in the East and in the West.
And we had planned to commemorate this day with the younger people of today, who, three generations later, ask what the past can teach them now. To them I say, "It is you who are the key! It is you who must carry the lessons of this cruel war into the future!" For this reason we had invited thousands of young people from around the world to Berlin today, young people whose grandparents were enemies, but who themselves have become friends.
That is how we had planned to mark this 8 May together. However, the COVID-19 pandemic has compelled us to commemorate this day alone – separated from those who mean so much to us, and to whom we are so grateful.
Perhaps this state of being alone will return us in our minds to 8 May 1945. On that date the Germans really were alone. Germany had suffered military defeat, political and economic ruin, and moral collapse. We had made enemies of the entire world.
Today, 75 years later, we are forced to commemorate alone, but we are not alone! That is today’s good news. We live in a vigorous and well-established democracy, in a country that has been reunified for 30 years, at the heart of a peaceful and united Europe. We are a trusted member of the international community and reap the fruits of cooperation and partnership around the world. We Germans can definitely now say that the day of liberation is a day of thanksgiving!
It has taken three generations for us to admit it wholeheartedly:
8 May 1945 was indeed a day of liberation. But at the time the vast majority of Germans did not perceive it as such.
The liberation of 1945 was imposed from outside. It had to come from outside – this country had descended too far into the evil, the guilt, it had brought upon itself. Likewise the economic reconstruction and democratic renewal in the western part of Germany were only made possible by the generosity, far-sightedness and readiness for reconciliation of its former foes.
But we, too, played a part in the liberation. In our internal liberation. This did not take place on 8 May 1945, on a single day. Rather it was a long and painful process which involved facing up to the past, investigating what people knew and what they had colluded in. Raising painful questions within families and between the generations. Fighting to stop silence and denial from prevailing.
It took decades – decades in which many Germans of my generation gradually learned to find their peace with this country. Decades in which our neighbours came to trust us again, decades that allowed a cautious resumption of relations, from ever closer union within the European Communities to the treaties concluded in the course of West Germany’s Ostpolitik.
And it was in these decades that the people of Eastern Europe’s courage and desire for freedom grew until they could no longer be kept behind walls – leading to that gladdest moment of liberation: Germany’s peaceful revolution and reunification. These decades of struggling with our history were decades that allowed democracy to mature in Germany.
The struggle continues to this day. Remembrance never ends. There can be no deliverance from our past. For without remembrance we lose our future.
It is only because we Germans look our past in the face and because we accept our historic responsibility that the peoples of the world have come to trust our country once more.
And this is why we, too, can have confidence in this Germany. This is the core of an enlightened, democratic spirit of patriotism. No German patriotism can come without its cracks. Without a clear awareness of light and darkness, joy and sorrow, gratitude and shame.
Rabbi Nachman once wrote: "No heart is as whole as a broken heart." Germany’s past is a fractured past – with responsibility for the murdering of millions and the suffering of millions. That breaks our hearts. And that is why I say that this country can only be loved with a broken heart.
Anybody who cannot bear this, who demands that a line be drawn under our past, is not only denying the catastrophe that was the war and the Nazi dictatorship. They are also devaluing all the good that has since been achieved and denying the very essence of our democracy.
"Human dignity shall be inviolable." This first sentence of our constitution is and remains a public reminder of what happened in Auschwitz, of what happened in the war and during the dictatorship. It is not remembrance that is a burden – it is non-remembrance that becomes a burden.
It is not professing responsibility that is shameful – it is denial that is shameful!
But what does our historic responsibility mean today – three-quarters of a century after the fact? The gratitude we feel today must not make us complacent. We must never forget that remembrance is a challenge and a duty.
"Never again," we vowed after the war. But for us Germans in particular, this "never again" means "never again alone". This sentence is truer in Europe than anywhere else. We must keep Europe together. We must think, feel and act as Europeans. If we do not hold Europe together, also during and after this pandemic, then we will have shown ourselves not to be worthy of 8 May. If Europe fails, the "never again" also fails.
The international community learned from this "never again". After 1945, it forged a new foundation out of all it had learnt from this catastrophe, it built human rights and international law, rules to preserve peace and cooperation.
Our country, from which evil once emanated, has over the years changed from being a threat to the international order to being its champion. And so we must not allow this peaceful order to disintegrate before our eyes. We must not allow ourselves to be estranged from those who established it. We want more cooperation around the world, not less – also when it comes to fighting the pandemic.
"8 May was a day of liberation." In my opinion, these famous words of Richard von Weizsäcker’s have to be reinterpreted today. When they were spoken, they constituted a milestone in our efforts to come to terms with our past. But today they must point to our future. For liberation is never complete, and it is not something that we can just experience passively. It challenges us actively, every day anew.
In 1945 we were liberated. Today, we must liberate ourselves.
From the temptations of a new brand of nationalism. From a fascination with authoritarianism. From distrust, isolationism and hostility between nations. From hatred and hate speech, from xenophobia and contempt for democracy – for they are but the old evil in a new guise. On this 8 May, we commemorate the victims of Hanau, of Halle and Kassel. They have not been forgotten in the midst of COVID-19.
"If it can happen here, it can happen anywhere." These words were spoken by Israel’s President Reuven Rivlin on Holocaust Remembrance Day in the German Bundestag earlier this year. If it can happen here, it can happen anywhere. But today there is nobody to liberate us from these dangers. We have to liberate ourselves. We were liberated – freed to be responsible for our own actions!
I am well aware that this year 8 May comes at a time of great upheaval and great uncertainty.
Not just because of the COVID-19 pandemic, but very much exacerbated by it. We do not yet know when and how we will emerge from this crisis. But we know how we entered it: with great confidence in this country, in our democracy, in what we can shoulder together. That shows how very far we have come in 75 years. And it gives me hope for all the challenges ahead.
We cannot come together for a commemorative event because of coronavirus. But we can grasp the silence. We can pause to reflect.
I ask all Germans to remember silently the victims of the war and the victims of National Socialism. Wherever your roots may lie, take a moment to revisit your memories, your family’s memories, the history of the country in which we all live. Think what the liberation of 8 May means for your life and your actions.
75 years after the end of the war, we Germans have much to be thankful for. But none of the positive achievements since that date are safe in perpetuity. 8 May was not the end of the liberation – preserving freedom and democracy is the never-ending task it has bequeathed us!