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14 março 2026

magia pura

 


O filme (aqui) em que Noah Bendiz-Balgley, concertmaster dos Filarmónicos de Berlim, conta como se apaixonou pelo seu violino lembrou-me aquela vez em que o Guy Braunstein
(esperem, tenho de dizer isto de outra forma)
aquela vez em que o Guy ❤ ❤ ❤ ❤ ❤ ❤ Braunstein me contou uma história semelhante:

Experimentou um violino, foi amor à primeira nota. Nunca mais o largou. O que foi chato, porque o violino não estava à venda, e a lei da oferta e da procura nesses casos tem uma curva bastante íngreme.
Estes violinistas a falar dos violinos lembram-me as descrições dos livros do Harry Potter sobre como comprar uma varinha mágica.





22 janeiro 2026

para começar o dia em beleza

 



A ignorância é uma coisa muito triste: em 2009 eu ainda não sabia que era possível comprar lugares para o estrado por trás da orquestra por preços muito acessíveis. Eu e muitos outros. Só assim se explicam aqueles lugares vazios em frente ao Abbado na Filarmonia.
A dorminhoquice também é uma coisa muito triste: como foi possível ter assistido ao concerto inaugural do DCH nesse estrado, em 2008, e não ter percebido logo ali que a venda dos lugares no estrado, na própria semana do concerto, era uma possibilidade a explorar sempre?

15 janeiro 2026

decisões, só decisões

 



Esta mocinha vem a Berlim em Março. Ela, e Brahms. Outro sobre azul sobre ouro sobre azul sobre ouro sobre azul. E ainda têm bilhetes com vista para, digamos, o teclado. Contudo, uma pessoa parece que nunca está satisfeita: estou aqui a pensar se compro já o bilhete, ou se fico à espera que vendam bilhetes nos lugares do coro, bem mais perto da pianista. Mas: e se desta vez não venderem, e entretanto os outros já estiverem esgotados? (Uma vez perguntaram-lhe uma palermice qualquer sobre a roupa que usa em concerto, e ela perguntou em troca algo como "você em que século vive? ou em que país? não me diga que estamos no Irão e eu não reparei?")
(estou agora mesmo deliciada com o Chopin, a partir de 24:05)

01 junho 2025

 



Diz-me o Facebook que faz ontem um ano estava de novo a ser feliz na Filarmonia: 1.6.2024 Ontem regressei ao Simon Rattle (ou ele a mim) e foi lindo – tudo!
A peça que Jörg Widmann escreveu para o trompista Stefan Horn (estreia mundial, e se calhar primeira e última vez que é tocada, que esta peça é um inconseguimento programado para qualquer trompista, excepto o Stefan Dohr) (hum...hum... acabei de ser desamigada por todos os trompistas do mundo, excepto o Stefan Dohr) era uma delícia de surpresa e humor.
Dei comigo a pensar que estava muito mais certa na batuta de Simon Rattle que na de um Petrenko: ali estava ele, o Simon Rattle da inovação e do risco, do prazer do inesperado na música, do humor. O Simon Rattle dos Late Night.
Na 6ª de Bruckner: ali estava o Simon Rattle a dirigir a música tantas vezes apenas com a expressão do rosto, a tirar desta orquestra toda a transparência, a profundidade e a subtileza de que ela é capaz.
E ali estava eu num dos bancos do coro, por trás da percussão, tão perto que bem podia ser mais uma da orquestra, encantada e com as costas a doer, sem tirar os olhos do maestro.
Uma sinfonia inteira a sorrir.
Havia várias cadeiras vazias na sala, teria sido possível sair dos bancos do coro e ir ocupar um lugar mais confortável. Mas ficaram todos. Desconfio que tinham tantas saudades como eu de ver o Simon Rattle a comunicar com a orquestra.

26 janeiro 2025

receita para a felicidade

 




Receita de La Palice para a felicidade:
Voltar sempre a onde se é feliz.
[Adenda: estou na dúvida entre "voltar sempre aonde se é feliz" e "voltar sempre a onde se é feliz". Gosto mais da segunda formulação, mas se houver por aí algum grande especialista de gramática, agradeço que me explique se é um erro.]
[Adenda dois: por acaso não tenho dúvida nenhuma em voltar a esses lugares propriamente ditos - seja "aonde" ou "a onde".]

19 janeiro 2025

o meu amor faz hoje 70 anos

 


O meu amor (vá, um deles) faz hoje anos. No ano passado, a Filarmónica de Berlim deu-lhe os parabéns com este trecho. E eu pensei imediatamente naquela noite em que o Matthias, que ganhava uns trocos a trabalhar no auditório e no bengaleiro, chegou a casa encantado com o concerto que acabara de ouvir (era este), me mostrou no youtube a sua passagem favorita tocada por outra orquestra, e comentou:
- Está bonito, mas a nossa interpretação hoje foi melhor.
("a nossa" 😍 )

Prestes a fazer setenta anos, Simon Rattle deu uma entrevista (aqui, em alemão, a partir de 14'30) na qual dizia, com o brilhozinho que lhe brinca nos olhos, que é sempre possível continuar a aprofundar o estudo das partituras. Exemplifica: como terá conseguido trabalhar toda a sua vida sem algo que só na semana passada descobriu?

E depois: "Um homem realmente sábio escreveu-me uma vez uma carta simpática, que terminava desta forma: Diz-se que é melhor viajar que chegar ao destino, Simon. Por favor, promete-me que nunca consentirás em chegar a um destino. Vais continuar a viajar?"

Em miúdo, o primeiro trabalho que sonhou para si foi ser condutor de autocarro. E tem tudo a ver, diz ele: alguém com quem se pode contar, que mantém o ritmo e leva as pessoas consigo.

Continuação de boa viagem, Sir Simon. E obrigada por nos levar no seu autocarro.



11 fevereiro 2024

continua linda!

 



Regresso à Filarmonia (tentando compor as coisas, depois da facadinha de ontem).




21 dezembro 2023

"lembrai-vos de nós / com indulgência"


É sabido que na Filarmonia de Berlim se faz acontecer música extraordinária. Mas há dias em que se chega a outra dimensão. Como ontem, no concerto de beneficiência para as famílias dos reféns de Gaza e para associações de mulheres que, de ambos os lados do muro, trabalham para a paz. Um concerto de sublime pungência.

Em tempo record, aqui juntaram Martha Argerich, Guy Braunstein, Kirill Gerstein, Thomas Hampson, Steven Isserlis, Christian Tetzlaff, Emmanuel Pahud, a par de vários músicos judeus e árabes vindos de Israel.

É verdade que, tal como uma amiga me apontara ao ver o programa, havia um peso muito maior de músicos de Israel que da Palestina e, de facto, houve algum desequilíbrio nos discursos: Efrat Machikawa falou longamente sobre o seu tio Gadi Moses, que ainda está refém do Hamas, mas ninguém subiu àquele palco para dar nome a uma só que fosse das crianças mortas ou repentinamente feitas órfãs em Gaza.



Meera Eilabouni (na foto) falou em nome das mulheres das associações pacifistas Women Wage Peace e Women of the Sun, que lutam por um futuro de paz, igualdade e segurança para ambos os povos. Acusou as guerras dos homens (fazendo de novo ecoar em mim a ideia de "masculinidade tóxica" que me ocorreu ao ver as imagens do massacre do Hamas e, uns dias mais tarde, de Netanyahu a passar revista às tropas prontas para invadir Gaza) - e sublinhou a importância da luta das mulheres pela paz: "ninguém consegue parar mulheres que se preocupam pelo futuro dos seus filhos".


Mira Awad e Noa cantaram "There must be another way", e puseram o público de toda a sala a ensaiar em árabe, hebraico e inglês um verso do poeta palestiniano Mahmoud Darwish: “If only I were a candle in the dark”. E retivemos as palavras de Noa: "Dizem que somos ingénuas por cantar esta mensagem. Mas a alternativa à paz é o inferno."

O concerto terminou com Kol Nidrei op. 47, de Max Bruch, com solo de viola em vez de violoncelo. O solista que ali estava, à frente da orquestra e ao lado de Kirill Petrenko, é o primeiro violista da Filarmónica de Berlim: Amihai Grosz - cujo sobrinho esteve várias semanas prisioneiro do Hamas. O horror aqui tão perto.

Deixei para o final deste post os dois poemas ditos por Martina Gedeck, que se cravam em nós e neste tempo desgraçado: Aos vindouros - Bertolt Brecht (aqui na voz de Brecht, e de seguida na tradução de João Barrento)

I

É verdade, vivo em tempo de trevas!

É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa

Revela insensibilidade. Os que riem

Riem porque ainda não receberam

A terrível notícia.

Que tempos são estes, em que

Uma conversa sobre árvores é quase um crime

Porque traz em si um silêncio sobre tanta

[monstruosidade?

Aquele ali, tranquilo a atravessar a rua,

Não estará já disponível para os amigos

Em apuros?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.

Mas acreditem: é puro acaso. Nada

Do que eu faço me dá o direito de comer bem.

Por acaso fui poupado (Quando a sorte me faltar, estou

[perdido.)

Dizem‑me: Come e bebe! Agradece por teres o que tens!

Mas como posso eu comer e beber quando

Roubo ao faminto o que como e

O meu copo de água falta a quem morre de sede?

E apesar disso eu como e bebo.

Também eu gostava de ter sabedoria.

Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:

Retirar‑se das querelas do mundo e passar

Este breve tempo sem medo.

E também viver sem violência

Pagar o mal com o bem

Não realizar os desejos, mas esquecê‑los.

Ser sábio é isto.

E eu nada disso sei fazer!

É verdade, vivo em tempo de trevas!

II

Cheguei às cidades nos tempos da desordem

Quando aí grassava a fome.

Vim viver com os homens nos tempos da revolta

E com eles me revoltei.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

Comi o meu pão entre as batalhas

Deitei‑me a dormir entre os assassinos

Dei‑me ao amor sem cuidados

E olhei a natureza sem paciência.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

No meu tempo as ruas iam dar ao pântano.

A língua traiu‑me ao carniceiro.

Pouco podia fazer. Mas os senhores do mundo

Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

As forças eram poucas. A meta

Estava muito longe

Claramente visível, mas nem por isso

Ao meu alcance.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

III

Vós, que surgireis do dilúvio

Em que nós nos afundámos

Quando falardes das nossas fraquezas

Lembrai‑vos

Também do tempo de trevas

A que escapastes.

Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos,

Atravessámos as guerras de classes, desesperados

Ao ver só injustiça e não revolta.

E afinal sabemos:

Também o ódio contra a baixeza

Desfigura as feições.

Também a cólera contra a injustiça

Torna a voz rouca. Ah, nós

Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade

Não soubemos afinal ser amáveis.

Mas vós, quando chegar a hora

De o homem ajudar o homem

Lembrai‑vos de nós

Com indulgência.




Depois deste dilúvio - Ingeborg Bachmann na tradução de J. Carlos Teixeira


Depois deste dilúvio,

queria a pomba

e nada mais do que a pomba 

ver - salva uma vez mais.


Eu afogar-me-ia neste mar!

Não voasse ela para longe,

não trouxesse ela

a folha na última hora.


04 novembro 2022

cá se fazem, cá fica registado para todo o sempre...

 


Na semana passada regressei à Filarmonia, depois de um longo interregno, para ver o Viotti (melhor dizendo: para pôr os olhinhos de molho no Viotti - e os ouvidinhos também). Mas como comprei os bilhetes demasiado tarde fiquei muito longe, precisei de binóculos. O que é triste, porque assim uma pessoa não disfarça nada ao que vem.

Há dias tive (sei lá!) uma espécie de lembrança, fui ver se havia bilhetes, e descobri que recomeçaram a vender os lugares do coro. Finalmente! E como aparentemente mais ninguém tinha tido a mesma lembrança, ainda havia muitos bilhetes à venda. Online e tudo, um luxo!

De modo que lá fui eu ver o Kirill Petrenko a apresentar a estreia mundial de "Unstuck", de Andrew Norman (e agora digo, só para me armar: conheço muito bem, já cantei a estreia mundial de uma ópera dele), Mozart (concerto nº1 para violino e orquestra com o solista Noah Bendix-Balgley), e Korngold (o compostior que, para escapar ao Holocausto, foi parar a Hollywood, onde fez música de cinema e lhe aconteceu um pequeno percalço: o seu estilo marcou de tal maneira a música de cinema que agora, quando as pessoas ouvem as outras músicas dele, dizem que parece música de cinema, em vez de dizerem, ao ouvir música de cinema, que parece música do Korngold) (isto era o que vinha no programa do concerto).

Adiante. O Petrenko continua um doce de maestro. Gosto especialmente quando, em pleno concerto, agradece aos músicos terem tocado determinada passagem tal e qual como ele a queria. Continua a ser um prazer enorme assistir aos concertos nos bancos mesmo por trás da orquestra. Tanto mais que não preciso dos binóculos para nada, consigo disfarçar muito melhor assim.

Hoje tive mais uma espécie de lembrança, e fui ver o trailer deste concerto, que é feito com imagens desse dia em que eu assisti sentada num dos bancos do coro. Era o que temia: lá estou eu, mesmo no meio (fácil de ver: estou de máscara), e a câmara apanha-me exactamente no momento em que estremeço e ergo os olhos para o céu porque me alembrou repentinamente, em pleno Korngold, que me tinha esquecido das tigelas de marmelada a secar ao sol na varanda. E já era noite, e ameaçava chuva.

É a má sorte do Korngold, coitado: a música dele tem queda para filmes.

(Podem ver o trailer aqui - carreguem em "Vorschau". O momento "ai minha rica marmeladinha" é por volta de 1'28'')

25 junho 2022

era para ser hoje

 

(imagem: Sebastian Greuner, aqui)

Anda uma pessoa há uma eternidade (sim, comprei os bilhetes na semana em que Putin invadiu a Ucrânia) a esperar o reencontro com o seu querido Trifonov, e vai ele e adoece, pelo que será substituído pelo Kirill Gerstein, que não conheço. 

Lembra-me aquela vez que um miúdo perguntou ao Lang Lang como é que se faz para ficar famoso e ele respondeu: "trabalha-se muito, e fica-se à espera que o pianista de um concerto apanhe uma gripe."

(Quantas novas estrelas serão efeitos colaterais da covid?)

Entretanto, informação para o dia em que alguém afirmar ai-aqui-d'el-rei que andam a cancelar os russos: maestro russo, compositores russos, pianista russo. 


08 junho 2022

Jakub Józef Orliński

 


Sabem aqueles amores, quando temos perfeita consciência de onde vimos pela primeira vez o ente amado? Conheci Jakub Józef Orliński de calções, absolutamente inesquecível. Não apenas os calções e o seu ar descontraído, mas sobretudo a beleza do seu Vedro com Mio Diletto. Mas vá, confesso: os calções também. Foi aqui:


Ontem esteve em Berlim, na Kammermusiksaal. Cantou Händel, Purcell, Johann Joseph Fux, e três compositores polacos: Henryk Czyż, Mieczysław Karłowicz e Stanisław Moniuszko. Disse que ele e o pianista - Michał Biel, também polaco, e excelente acompanhador - gostam ambos muito desses compositores, e entendem que o resto do mundo também os devia conhecer. Caso a minha opinião interesse para alguma coisa: penso que têm toda a razão. Essas canções não foram compostas para a voz de contratenor de Orliński, pelo que "tudo isto é muito refrescante" - como ele disse, com um sorriso.

Muito refrescante e belo. Um concerto memorável. E um momento surpreendente: o movimento de break dance que fez, de fato, no palco daquela famosa casa, quando já soavam os primeiros acordes de Music for a While. Para logo a seguir entrar com toda a graciosidade na música.



À saída, uma amiga comentou comigo que quando morrer quer subir para o lado de lá ao som do seu "Amen, hallelujah" de Händel. Excelente ideia, roubei-lha logo ali. A ver se morremos juntas e no mesmo momento, assim ele só canta uma vez para as duas, fica mais barato.



13 outubro 2021

Margot Friedländer


Ontem foi dia de "Salão Filarmónico" na Kammermusiksaal, e a convidada era Margot Friedländer, uma sobrevivente do Holocausto que fará 100 anos no próximo dia 5 de novembro. 

A sessão começou com Dagmar Manzel a cantar canções berlinenses dos anos 20. As canções descontraídas, divertidas, brejeiras que Margot terá ouvido em criança, no tempo da República de Weimar, pouco antes de os nazis chegarem ao poder. 

Quando subiu ao palco - uma senhora baixa e franzina, cheia de energia - quase parei de respirar. Tinha à minha frente alguém que atravessou 100 anos da nossa História, e cuja vida foi profundamente marcada pelo maior dos crimes. 

Ela sentou-se no seu cadeirão, e encheu a sala com a sua voz elegante e serena, a contar: da sua infância feliz no seio de uma família enorme, da chegada dos nazis ao poder, do divórcio dos pais em 1937 e da sua mudança com a mãe e o irmão para uma pensão, porque tencionavam sair do país em breve. Das tentativas da mãe para fugir do país e da recusa do pai em assinar os papéis ("se é para passarem fome na Austrália, podem muito bem ficar em Berlim"). Da sua mudança forçada para um prédio de realojamento de judeus. Da manhã a seguir ao 9 de Novembro de 1938, quando a caminho do trabalho passou por inúmeras lojas destruídas que ela nem sabia que pertenciam a judeus. Do terrível estado em que encontrou o atelier onde trabalhava, e da descoberta da ganância dos vizinhos, até então gente civilizada, que agora aproveitava a destruição para pilhar. Do Bar Mizwa do irmão, que se devia realizar no sábado seguinte, e já não aconteceu porque a sinagoga estava em cinzas. E daquele dia em Janeiro de 1943 que mudou tudo: ela regressava a casa depois do trabalho, e teve um mau pressentimento quando um homem com aspecto estranho passou por ela. Apertou melhor a carteira contra o peito, como fazia sempre para esconder a sua estrela amarela, e continuou. Assustou-se ao ver que o homem entrava pela porta do seu prédio. Mesmo assim, admitiu que fosse visitar alguém, e entrou também. Ao subir as escadas, viu que ele estava parado em frente à porta do apartamento onde ela própria vivia. Fazendo das fraquezas força, passou por ele de cabeça levantada e subiu mais um andar. A vizinha que lhe abriu a porta contou-lhe que a Gestapo tinha vindo buscar todos, mas só encontrara o irmão dela. Nessa noite dormiu na casa da vizinha, e no dia seguinte começou a procurar a mãe. Encontrou finalmente sinais dela na casa de outra vizinha, que lhe deu a notícia de que a mãe se fora entregar à Gestapo para acompanhar o filho na deportação para Auschwitz [e eu a gritar para dentro de mim: "oh, não! a escolha de Sofia!"] e deixara à filha mais velha o seu colar de âmbar, um caderninho de apontamentos, e uma última frase: "tenta fazer a tua vida". 

Ela tentou fazer a sua vida: pintou o cabelo de ruivo, pôs ao pescoço um cordão com cruz, fez uma operação para mudar a forma do nariz, andou fugida de casa em casa - num total de 16 agregados que puseram as suas próprias vidas em risco para salvar a dela. Uma vez, numa dessas casas, tocaram à campainha e ela abriu a porta. Eram homens da Gestapo que vinham fazer uma busca. Enquanto eles examinavam os documentos das pessoas presentes, ela aproveitou um momento de distracção e saltou pela janela. Dessa vez conseguiu escapar, mas a sorte falhou-lhe tempos depois, quando foi denunciada por um daqueles judeus que identificavam outros em troca da protecção dos seus próprios familiares. Deportaram-na para Theresienstadt. 

- E as pessoas dessas 16 casas que a ajudaram, que gente era essa?, perguntou o moderador. Eram opositores políticos? Resistentes?     
- Seres humanos, respondeu ela. Pessoas cujo sentido de humanidade as impedia de fazerem de conta que não viam o que estava a acontecer. 

Dagmar Manzel voltou ao palco. Sentou-se no degrau junto ao cadeirão de Margot Friedländer, e cantou-lhe o que me pareceu ser uma canção hebraica. Belíssima. 
[Eu comovida com o símbolo: uma canção hebraica cantada com humildade no centro de uma das mais importantes instituições da cultura de Berlim. Que não nos falhem nunca estes símbolos e estas pontes.]

Margot continuou o relato: o seu trabalho em Theresienstadt, o reencontro com um homem que já conhecia de Berlim e com quem viria a casar no campo pouco depois da libertação, antes que o último rabino se fosse embora. O momento em que descobriu o que era Auschwitz: quando chegou um comboio que trazia prisioneiros de Auschwitz que o exército alemão retirara à pressa, para esconder a evidência do crime antes da chegada do exército soviético. Do meio daqueles vultos tenebrosos, que ela não sabia bem dizer se estavam mortos ou vivos, ergeu-se uma voz: "Margot, não me reconheces?", e não, ela não fora capaz de reconhecer o seu antigo amigo. Nesse momento teve a certeza que a mãe e o irmão não voltariam nunca. 
[Li noutro livro uma referência semelhante a essa sobre o comboio que veio de Auschwitz, por um sobrevivente que na altura era ainda criança. Também ele teve dificuldade em reconhecer a miúda alegre e despachada, pela qual estavam todos mais ou menos apaixonados, e que poucos meses antes fora levada de Theresienstadt num dos comboios com destino à Polónia.]

Em 1946, Margot e o marido emigraram para os EUA. Ao avistar a estátua da Liberdade, olhou-a com desprezo: "então é aqui que tu estás, Liberty? Pois olha que não te devo nada: quando mais precisei de ti, não me ajudaste. Só agora, quando já sou uma pessoa livre, é que te mostras."

Depois da morte do marido, em 1997, Margot aceitou um convite da cidade de Berlim dirigido a "judeus perseguidos e emigrados", e em 2003 veio visitar a sua cidade natal. Ficou encantada: "ah, tivesse eu dez anos menos, e mudava-me para aqui!"
Oito anos depois - com 88 anos - mudou-se para Berlim. E desde então não tem parado de apelar a todos aqueles a quem conta a sua vida, para que não esqueçam nunca o seu dever de humanidade. 

Contou que no decorrer da cerimónia solene em que lhe deram a nacionalidade alemã perguntou directamente: "não estão à espera que eu agradeça a devolução de algo que me roubaram há tantos anos, pois não?" - e virou-se para nós em tom desafiador: "Eu sou alemã! Eu sou alemã!"

A sala começou a aplaudir com força. Eu olhava em volta, "ninguém se levanta? ninguém se levanta?", uma pessoa ergueu-se, eu saltei como se tivesse uma mola, e no momento seguinte todos aplaudiam de pé. 

Dagmar Manzel voltou ao palco para cantar "Wenn ich mir was wünschen dürfte" de F. Hollaender.
E uma última canção, a sua canção favorita, disse ela, com música de Werner Richard Heymann, que uma vez terá dito "você não me conhece, mas provavelmente já está bem farto de me ouvir".
Cantou:

"Em algum lugar no mundo há um bocadinho de sorte
E é nisso que penso sem parar
Em algum lugar no mundo há um pouco de felicidade
E há tanto tempo que penso nela

Se soubesse onde está, punha-me a caminho
Porque por uma vez quero ser inteiramente feliz
Em algum lugar no mundo começa o meu caminho para o céu
Em algum lugar, de algum modo, em algum momento."

- e depois abracou Margot Friedländer longa, longa, longamente. 

A sessão tinha terminado, mas eles ainda estavam no palco, e ficamos todos a olhar uns para os outros sem saber o que fazer, até que desatamos a rir, o que ajudou a disfarçar as lágrimas. 


I have so much longing

I dream so many times

that just once hapiness will be close

I have so much longing

I have hoped,

That soon the hour will be there.

Day and night

I am waiting

I never give up hope.

 

Somewhere in the world

there is a little piece of luck

and that's what I dream in every moment

somewhere in the world

there's a little bit of happiness

I'have been dreaming of that

for a long, long time.

 

If I knew , where it was,

then I'd go out into the world,

Because only once

I want to be happy more than

anything else.

 

Somewhere in the world

there's a path to heaven.

Somewhere, somehow, sometime.

 

27 junho 2021

rapsódia sem chuva


A pouco e pouco - e já o sabemos: por apenas algumas semanas de alívio - a vida berlinense volta ao normal. Os restaurantes já reabriram (sobretudo na parte das esplanadas), os cinemas estão quase a reabrir (estão fechados desde Novembro), e ontem foi o concerto de fim de temporada dos Filarmónicos na Waldbühne.

Apesar de ser ao ar livre, as regras eram apertadas: bilhete com nome e lugar marcado, teste do dia negativo, espaço de dois lugares entre cada par, e sem o piquenique habitual que transformava este concerto numa imensa festa comunitária.

O concerto de ontem levou-nos aos EUA, pelas pautas de Bernstein, John Williams e Gershwin. Wayne Marshall foi o maestro - e também pianista no Rhapsody in Blue. Já lá vamos.

Um bom terço do palco estava ocupado pelos instrumentos de percussão de Martin Grubinger para tocar "John Williams: The Special Edition" em arranjo especial de Martin Grubinger senior. A peça percorre vários temas importantes de filmes, nomeadamente Star Wars, e é do género da que se ouve aqui. Gostava de ter visto Martin Grubinger de muito mais perto, mas já se sabe como é aquele anfiteatro: ou se leva um telescópio de ver as pedrinhas nas crateras na lua, ou se vai preparado para ouvir apenas. Ouvi, e já não foi mau.

Depois do pot-pourrit que voltava e uma outra vez à marcha imperial do Star Wars, foi a vez de Rhapsody in Blue. Talvez por causa da crise na cultura, não houve dinheiro para pagar um pianista, pelo que o maestro teve de fazer os dois trabalhos. E fez muito bem, excepto nas partes em que improvisava e levava o tema para a marcha imperial do Star Wars. Parecia aquele aluno a quem o professor pediu a tabuada do sete, e respondeu que preferia dizer a do seis, que conhecia muito melhor. Coitadito do pianista: não deve ter tido tempo para estudar tudo...

Ou então, leu o título da peça literalmente: "ai isto é uma rapsódia? então, cá vamos nós!"

Estou a brincar, claro. Tocada assim, a Rhapsody in Blue foi muito divertida. Fez-me sorrir de cada vez que passava dos temas que conhecemos ao Gerschwin para o de Williams que tinha tocado na peça anterior. Para terem uma ideia do que ali aconteceu:


Em suma: foi um bom concerto. Muito bom.

Mas sem o Rattle, e sem todo aquele espaço apinhado de gente feliz, e sem o temporal que já começava a ser tradição, não foi a mesma coisa.

Tenciono voltar lá no próximo ano, e espero que esteja apinhado e chova muito, para termos a certeza que a normalidade regressou finalmente a Berlim.


21 março 2021

concerto piloto



Berlim está a reabrir a Cultura com experiências piloto no teatro, nas salas de concerto e na ópera. A Filarmonia, por exemplo, pôs em venda online 1000 bilhetes para um concerto com o Petrenko, que esgotaram em três minutos, apesar de cada pessoa só poder comprar dois bilhetes.

Foi ontem, e nós estávamos entre esses mil berlinenses sortudos. 

A última vez que tinha estado naquela casa foi na véspera do confinamento light, que começou no dia 2 de Novembro, foi reforçado a 15 de Dezembro, e só neste Março começou a ser aliviado (veremos por quanto tempo). Depois da estadia na Bretanha demorei algum tempo a voltar a entrar na rotina cultural de Berlim. Enquanto hesitava, o vírus reconquistava território. Optimista, em meados de Novembro comprei bilhetes para 3 concertos, assisti ao primeiro desses e logo a seguir... "vai ficar tudo bem" em casa. Ofereci os bilhetes restantes à Filarmonia, só para poder dizer que sou mecenas deles. 

Devia contar sobre o concerto de ontem, mas não resisto a fazer uma pequena incursão down memory lane até ao de 1 de Novembro, com a Nina Hoss a dizer (com tanta graça!) um texto de Loriot, e os músicos da Filarmónica a tocar o Carnaval dos Animais numa sala cheia de lindas esculturas de papel. Tudo perfeito - até nós, o público, com o rosto alegremente coberto por máscaras artesanais cheias de colorido, essas que agora são proibidas nos supermercados, nos transportes públicos e neste tipo de eventos. E um sabor especial a fim do mundo, porque bem sabíamos que no dia seguinte iam fechar novamente todas as actividades culturais, inclusivamente museus e exposições. Tudo. 





O concerto de ontem era também por isso muito importante para nós. Fechar o hiato, retomar a normalidade possível, deixar para trás aqueles quase cinco meses em que fomos existindo fora do tempo. 

Dirigi-me para a Filarmonia numa mistura de ansiedade e alegria - e não era a única nesse estado de exaltação. Estávamos a viver um marco importante para a cultura neste tempo de pandemia. Não por acaso, chamaram ao evento "concerto piloto": tratava-se de definir os moldes em que podem ser reiniciadas as actividades culturais apesar da pandemia. 

Tudo decorreu em condições muito controladas: o portador de cada bilhete estava identificado, e no dia do concerto tinha de fazer um teste rápido num dos centros indicados pela Filarmonia. O teste foi pago pela cidade. A hora foi marcada com antecedência, para reduzir ao máximo o tempo de espera. Só deixavam entrar as pessoas que mostravam o resultado desse teste no telemóvel, juntamente com um documento de identificação e o bilhete nominal. 

Mil bilhetes é menos de metade da lotação da sala, as pessoas ficaram todas separadas umas das outras por um lugar vazio e mantiveram as máscaras durante todo o tempo que estiveram dentro do edifício. Não houve intervalo e muito menos serviço de bar. Mas estavam a oferecer garrafas de água à entrada. 

Como tínhamos teste marcado na Filarmonia, entrámos para o foyer da Kammermusiksaal. Em menos de dez minutos tínhamos o teste feito, e fomos esperar para as traseiras do edifício, onde havia uma roulotte de street food e café. Quinze minutos mais tarde recebemos no telemóvel a mensagem com o resultado (para os mais cuscos dos leitores: negativo, yey!), e pudemos entrar na sala grande da Filarmonia - onde um grupo de metais dava um concerto para a sala que se ia enchendo. 

Antes do concerto, dois pequenos discursos: Andrea Zietzschmann, a directora da casa, deu-nos as boas-vindas, agradeceu muito a nossa presença, e disse que os músicos estavam fartos de tocar para as cadeiras vazias e se sentiam felicíssimos por nos verem. Seguiu-se o Senador da Cultura, Klaus Lederer, que falou em tom de resistência e luta. Estava muito satisfeito por tudo ter corrido tão bem e sem atrasos. Lembrou que a Cultura foi o primeiro sector a fechar quando começou a crise da covid, apesar de ser vital para o nosso equilíbrio. Mencionou a importância de reabrir as salas nos moldes agora experimentados: se um dos elementos centrais para o combate ao vírus é a realização de testes, estes eventos culturais que exigem testar tantas centenas de pessoas contribuem de forma muito positiva para o esforço de saúde pública. Também agradeceu a nossa presença, tal como a directora antes dele - todos se sentiam muito felizes pelo modo como o público aderiu. O que me fez imediatamente pensar que se continuarem a oferecer os bilhetes por 20 euros e o teste de graça, terei imenso gosto em fazê-los felizes todas as semanas.    

Por fim, os músicos entraram na sala (sem máscara, e sem separadores) e o público aplaudiu com um entusiasmo que - confesso - me comoveu. A vantagem da máscara é que uma pessoa pode largar uma ou outra lagrimita e até soluçar levemente sem que os outros reparem (disse-me uma amiga). 

No final, a sala inteira ergueu-se para aplaudir, e o maestro teve de regressar meia dúzia de vezes ao palco. Às tantas os músicos perderam a paciência e foram-se embora. E nós também - embora tenhamos ficado a aplaudir até o último sair, até o Petrenko voltar ao palco vazio e fazer um gesto de nos abraçar a todos. 

Resta ainda comentar que esta maldita pandemia tem uma pequena vantagem colateral: não se ouviu uma única tosse, um único catarro, durante o concerto todo. Por um lado, pediam às pessoas que não fossem ao concerto se se sentissem doentes, por muito leves que fossem os sintomas. Por outro lado, a rapidez com que os bilhetes esgotaram na venda online, e a complexidade de ter de receber um email no smartphone para mostrar à entrada devem ter funcionado como factor impeditivo para os mais velhos virem a este concerto. O público era francamente mais novo do que o habitual. Além disso, como é óbvio, nos tempos que correm ninguém se atreve a tossicar em público. 

Partilho dois vídeos só para dar a ideia dos aplausos: a entrada dos músicos, e o final do concerto. Note-se que a sala não tinha nem sequer metade do público habitual, mas os aplausos tiveram o entusiasmo e o volume dos melhores momentos da casa cheia.   





20 março 2021

regressar

 




Petrenko, Rachmaninov, Tschaikowski, teste - concerto piloto para a era covid, com tudo a que temos direito.
Os bilhetes vendidos online esgotaram em 3 minutos.
Já não vinha a esta casa desde 1 de Novembro.
Enquanto as pessoas com resultado negativo vão enchendo a sala, um grupo de metais junta-lhe música.
Tão bom voltar (estar!) aonde sou feliz!

20 janeiro 2021

novinho em folha




Fez ontem 10 anos que o público dos bancos de pau da Filarmonia (o meu lugar favorito) cantou os parabéns ao maestro.
Dez anos depois: o maestro director dos Filarmónicos de Berlim é o russo Kirill Petrenko. Simon Rattle decidiu voltar para o seu país mas foi atropelado pelo Brexit, mudou para Munique e pediu a nacionalidade alemã.

Bons auspícios para a Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks: casa nova, e este alemão novinho em folha como maestro. 


03 maio 2020

1 de Maio de 2020 - concerto europeu na Filarmonia de Berlim (2)


Tocante: a alegria destas pessoas por poderem voltar a fazer música em conjunto. Comovedor: a emoção dos músicos no Adagio for Strings de Barber. Surpreendente: uma 4ª de Mahler quase outra, com pouco mais do que uma dúzia de músicos em palco. Extraordinário: a ausência de tosses e catarros. Delicioso: o suave declinar da música no fim das peças, que nenhum aplauso quebrou. Insuportável: o frio das cadeiras vazias. Profundamente triste, profundamente digno: o maestro a saudar com um sorriso e uma vénia o público ausente.

Divertido: os cabelos mais compridos de todos.

No intervalo, Kirill Petrenko explicou a escolha das músicas para este concerto "inesquecível em cada um dos seus segundos": o Fratres/irmãos de Arvo Pärt porque esta crise apela à nossa solidariedade; as Ramifications de György Ligeti, com os seus contrapontos tão adequados à disposição dos músicos no palco; o Adagio for Strings, um "evergreen" que tem especial razão de ser nestes dias de angústia e perda. Sobre a quarta sinfonia de Mahler - que fazia parte do programa preparado para levar a Israel na 30ª edição do Concerto Europeu - adiantou que esta interpretação por um grupo reduzido de músicos poderá talvez permitir chegar mais perto do âmago da peça.

Não concordei com uma afirmação do maestro, sobre a crise da covid ter obrigado esta orquestra a deixar as pessoas sozinhas. Pelo contrário: ao abrirem o Digital Concert Hall a todos, conseguiram enriquecer os dias de inúmeras pessoas fechadas em casa. Que o diga, por exemplo, a minha sogra de 84 anos: desde que lhe falei dessa possibilidade, há cerca de um mês, os dias dela ganharam uma nova qualidade. Está viciada no Digital Concert Hall, e decidiu fazer a assinatura anual.

E fiquei a pensar nas voltas que a vida dá: numa altura em que outras orquestras se abriam aos cinemas, organizando transmissões em directo para algumas dessas salas, Simon Rattle conseguiu levar a cabo um projecto de presença online. A crise actual fechou as salas de cinema, e alargou ainda mais a importância da internet. Quando foi mais necessária, esta orquestra de Berlim chegou às casas de cada um e alargou por dentro seu mundo subitamente mais limitado. 


02 maio 2020

1 de Maio de 2020 - concerto europeu na Filarmonia de Berlim

Ontem os filarmónicos voltaram à sua sala para darem um concerto. Não um concerto qualquer, claro - era o 30º Concerto Europeu. Devia ter tido lugar em Telavive, e o presidente da República da Alemanha estaria também presente.

Em vez disso, o presidente veio discursar à Filarmonia, e os músicos tocaram na sala sem público, sentados a uma considerável distância uns dos outros.

O concerto é transmitido hoje às sete da tarde (hora de Berlim) neste link.

O presidente da República, Walter Steinmeier, fez um discurso no qual lembrava os artistas que estão a passar dificuldades, e reafirmou que as artes são literalmente víveres para nós.

("Alimentos", em alemão, diz-se: "Lebensmittel" - à letra: meios de vida. A tradução inglesa optou por "food for the soul". Por sorte em português temos a palavra "víveres", que mantém a raíz Leben=vida da palavra alemã)

Parte do seu discurso:

We speak so many different languages on our continent and we have so many different ways of life. But we can only master the difficulties we all face today and in future if we stand together – and that is particularly true at the current time, which is so hard for all of us. Europe is our shared home – and it is virtually impossible to express this better than with music, this distinctive shared European language. Especially today, however, this gift presents us with a task. We have to help each other – and we will help each other. The musicians who will play for us today led by Kirill Petrenko represent more than themselves. When I thank them for the special concert they are performing for us today, I am also thinking of the many freelance artists, indeed our entire cultural life, that has once more been especially badly hit by this crisis. Many livelihoods are at risk. I very much hope that the help which has been provided will go where it is needed.
Art and culture which we can enjoy together are not expendable trivialities. Now more than ever, we see that art and culture are indeed food for the soul.
I am looking forward to what will certainly be a very special concert – and I am looking forward to a time when we can again listen to music together. All the best to you. And let’s look out for each other.

O discurso completo, bem como as traduções para várias línguas, está aqui: Bundespräsident.


30 abril 2020

Digital Concert Hall - último dia de acesso gratuito

Acabou-se o que era doce: hoje, à meia-noite (onze da noite em Portugal), o Digital Concert Hall deixa de estar disponível gratuitamente.

Caso haja por aí alguém que ainda tenha um tempinho - ou será que estão como eu, com os dias cada vez mais curtos? - sugiro que ouçam o segundo concerto desta Páscoa, que é todo dedicado a Mahler e junta filmes do arquivo, interpretações actuais gravadas na Filarmonia agora deserta, e alguns comentários sobre cada peça.

Gosto muito de Mahler. Neste concerto, gostei especialmente de dois momentos: imagens do primeiro ensaio com Abbado (uma delícia) e Anna Prohaska a cantar "A Vida Terrena", depois de ter dedicado a canção a todos os colegas músicos que vão passar meses sem trabalho, e não sabem como conseguirão arranjar comida para pôr no prato dos filhos.

«Mãe, ai mãe, tenho fome,
Dá-me pão senão morro!»
«Espera um pouco, meu querido filho!
Amanhã cedo vamos ceifar!»

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Dizia eu que se acabou o que era bom, mas há sempre um "mas", e este por sorte é uma boa notícia: na próxima sexta-feira, às onze da manhã (dez da manhã em Portugal), quem não tiver telescola, nem teleconferência, nem nada que tenha de ser feito naquele momento, pode assistir também gratuitamente ao Concerto Europeu, que era para ser realizado em Telavive, e vai ser afinal com a orquestra nesta sala, em forma de orquestra de câmara e todas as medidas de protecção da saúde dos participantes.

O programa:

Arvo Pärt - Fratres
György Ligeti - Ramifications for strings
Samuel Barber - Adagio for Strings, op. 11
Gustav Mahler - Symphony No. 4 in G major (arranged for chamber ensemble by Erwin Stein)


29 abril 2020

instrumentista de mim própria

Estou a assistir no Digital Concert Hall a um concerto que vivi ao vivo, digamos assim, naquela casa.

O som é muito bom, a realização é excelente, mas assistir a estes concertos na internet é-me quase doloroso por causa das passagens mais danzabile, eu: "deixa cá ver o maestro", o realizador: "solo da flauta, mostra aí o Pahud".

Se me deixassem mandar, realizava estes concertos com filmes paralelos no ecrã: metade para os músicos, metade para o maestro. Mas isso sou eu, habituada a assistir a estes concertos nos bancos de pau: como se estivesse na última fila da orquestra, como se o maestro se dirigisse também a mim - eu sem tirar os olhos dele, instrumentista de mim própria em alvoroço mudo.