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19 fevereiro 2026

"foi apenas um acidente" e o cinema político


O momento mais especial deste ano na Berlinale foi, para mim, a sessão especial que aconteceu hoje com o realizador Jafar Panahi, sobre o seu filme mais recente e, como dizia o programa, “The Power of Storytelling”.

O entrevistador apresentou-o e seguiu logo para a primeira pergunta, mas Jafar Panahi protestou e exigiu algum tempo para fazer uma introdução. Falou da situação no Irão e do sofrimento do povo iraniano. Contou que as pessoas vão dançar e cantar nos cemitérios em memória dos que foram mortos, e pediu uma salva de palmas em homenagem às vítimas do regime. Cito de memória o que disse nessa sessão: Começou por esclarecer que não faz cinema politicamente empenhado, faz cinema socialmente empenhado (politically engaged / socially engaged). O cinema politicamente empenhado vive da divisão entre bons e maus. E os regimes ditatoriais impõem quem são uns e outros. A diferença que Panahi encontra entre os dois tipos de cinema está bem explicada na segunda parte desta entrevista (em inglês). Respondendo à questão sobre o humor no filme “Foi apenas um acidente”: não se tratou de uma escolha dele, foi o humor que se impôs no filme. No Irão, ninguém riria, porque a vida quotidiana das pessoas é mesmo assim. O anormal tornou-se normal. O inacreditável — o irracional — tornou-se racional. Fora do Irão, parece humor. Mas não o é para os iranianos. Por exemplo, nos EUA e no Canadá o público riu imenso durante todo o filme. Na Ásia, as pessoas riram muito na cena em que levam a mulher ao hospital. O realizador não entendeu porque riam nesse momento, porque no Irão ninguém riria de cenas destas, uma vez que é algo com que todos se confrontam. Deu um exemplo: na guerra dos 12 dias (Irão–Israel, 2025), um míssil israelita deitou abaixo uma parede numa área prisional onde estavam presos políticos, e estes aproveitaram para fugir. À saída, viram que o edifício ao lado também tinha sido atingido, mas os prisioneiros não podiam fugir porque as celas estavam fechadas. Em vez de se porem imediatamente a milhas, foram ajudar os outros a fugir também. O entrevistador perguntou-lhe sobre a sua motivação para fazer um filme tão explícito, desta vez. Resposta: o realizador tem de avançar com a sociedade. Quando a sociedade muda, o cinema tem de mudar também. Por exemplo: a recusa das mulheres em cobrir a cabeça marcou um antes e um depois para o regime iraniano, e este filme tinha de reflectir isso. Outro fenómeno impensável até há pouco: mulheres a praguejar. Um filme socialmente empenhado tem de acompanhar estas mudanças na sociedade. Aquela mulher com a cabeça descoberta pode parecer um panfleto mas, de facto, é o cinema a mostrar a realidade actual. Quanto aos palavrões: há mais de quarenta anos que o regime dita às pessoas as ideias e os valores que devem ter. As pessoas estão fartas disto, e as mulheres começaram a dizer palavrões como acto de resistência. Os filmes dele têm de reflectir esse fenómeno, quer ele goste quer não goste. Nova pergunta: no final do filme, a perspectiva muda e o carrasco toma o lugar central durante mais de quinze minutos. Porquê? Resposta: durante mais de uma hora, o homem está fechado numa caixa. Falam sobre ele, mas não se vê. O cinema socialmente empenhado é sobre humanidade, sobre ver as pessoas como seres humanos. O cinema politicamente empenhado divide as pessoas em bons e maus. Os da minha ideologia são bons e os outros são todos maus. É um cinema que quer eliminar os maus. O problema é que remover esta peça, o “mau”, nos distrai do essencial: faz-nos esquecer o problema maior. Esta pessoa também tem o direito de falar — é uma questão de justiça social no cinema socialmente empenhado. Portanto, o realizador queria deixá-lo falar, ter a sua parte no filme. O problema são os detalhes, a justiça visual. Foi difícil criar um perfil do carrasco que fosse convincente. Como ele próprio só tinha estado dois ou três meses na prisão com torturadores, para conseguir mais verdade naquela cena foi pedir informações e conselhos aos seus conhecidos que tinham sido presos políticos durante muito mais tempo. De facto, muito daquele filme são coisas que aconteceram realmente a pessoas com quem ele falou. Mais adiante: Há dois tipos de realizadores no mundo: os que vão atrás da audiência e fazem o que esta quer, e os que fazem o que entendem, segundo o seu próprio gosto, confiando que a audiência irá atrás. Sem querer dizer qual é a forma correcta de ser realizador, diz apenas que cada um escolhe, e a partir daí sabe o que tem de fazer. Ele próprio, quando era estudante, fez um filme para a televisão iraniana, com uma equipa excelente e equipamento muito bom. Mas, quando estava a editar, percebeu que o filme era mau. Tudo muito bem do ponto de vista técnico, mas o filme não era “dele”. Apesar de ninguém o conhecer ainda, não queria ter o seu nome associado àquele trabalho. Um dia, foi ao laboratório e roubou os negativos. Foi nesse momento que descobriu a que grupo de realizadores pertencia. Última pergunta: vai regressar ao Irão, apesar de saber que corre o risco de ser preso? Resposta: quando soube que tinha uma sentença de prisão, a sua vontade foi voltar nesse preciso momento. Não o fez, porque está a fazer a promoção do filme, e sente que deve continuar por respeito à equipa que o fez. Mas o lugar dele é no Irão. “As a socially engaged director, I stand with my people. My work and my cinema are for the people of Iran — and I will return, true to myself and to my beliefs.”


12 fevereiro 2026

Berlinale 2026

 





Chove copiosamente. Bem sei que ninguém me pergunta nada, mas preferia neve.
Em todo o caso: o meu edredon com mangas aguentou como um valente.
Agora, é só ver se este novo ditado se confirma:
Chuva na abertura, filmes bons com fartura.





24 fevereiro 2025

Berlinale 2025 - dia 2




Nevou durante a noite, de modo que eu parecia a Gata Borralheira: antes de sair para a festa, ainda tive de limpar tudo. O que não é tão complicado como possa parecer, porque foi antes das sete da manhã: enquanto ninguém pisa a neve fresca, é facílimo varrê-la do caminho.

Nas estações da S-Bahn sem cobertura havia uma camada alta de neve na plataforma. Aí é que era preciso limpar realmente! Mas, pelos vistos, os outros varredores de neve não tinham de sair a correr de madrugada para ir ver o primeiro filme do dia...




1. Sheng xi zhi di (Living the Land), de Huo Meng

Uma aldeia chinesa nos anos 80, a sentir já as mudanças provocadas pelo processo de industrialização do país. Um filme algures entre a crueldade e a crueza de O Laço Branco de Haneke e o retrato pitoresco de A Aldeia da Roupa Branca. O pequeno Chuang empresta-nos o seu olhar empático e puro para atravessar esta espécie de quadro vivo de um equilíbrio ameaçado pela modernização em curso, mas o caminho do filme é sinuoso e perde-se entre os muitos personagens e episódios. 


2. Hot Milk , de Rebecca Lenkiewicz    

Infelizmente tive de sair a meio, mas estava a ser um bom filme. 


3. Michtav Le'David (A Letter to David), de Tom Shoval

(aqui)


4. Solo Sunny, de Konrad Wolf 

No centenário de Konrad Wolf, este filme de 1980 foi exibido na secção Berlinale Classic. Escolhi-o porque me interessava ver como era a vida em Prenzlauer Berg - provavelmente o bairro mais gentrificado de Berlim - dez anos antes da queda do muro. Mas o filme é muito mais do que o contexto de uma época, e a Sunny é uma figura tão bem conseguida que saiu do écran e anda por Prenzlauer Berg a tentar ser feliz. Ainda hoje. 

Na Akademie der Künste reuniram-se algumas das figuras históricas do cinema da RDA. No palco, contaram uma história velha de quase meio século: Solo Sunny foi apresentado na Berlinale, em Berlim ocidental, e a actriz principal ganhou um urso de prata pelo seu trabalho. O urso de prata ainda conseguiu chegar a Berlim leste, mas o diploma respectivo ficou pelo caminho. Durante muito tempo pensou-se que teria sido obra da Stasi, ou algo assim, até que recentemente os descendentes de um dos responsáveis do filme estavam a arrumar os papéis que ele deixara, e encontraram lá pelo meio o famoso diploma. Que foi finalmente entregue aos descendentes da actriz, no meio de muitas gargalhadas. 





18 fevereiro 2025

chuva de estrelas

 


Depois do fiasco com o Benedict Cumberbatch, que fotografei, no meio dos caça-autógrafos, para perguntar no facebook quem era o figurão, e o facebook quase vinha abaixo com o escândalo
(escusam de continuar a bater: “Eu nasci assim, eu cresci assim. E sou mesmo assim, vou ser sempre assim.” Um dia destes vou conseguir não me reconhecer a mim própria no espelho, portanto, não batam mais. Além disso, isto sou eu e o Brad Pitt, um dia ainda havemos de pertencer ao mesmo clube de prosopagnósticos, ou algo do género, e aí vocês vão morrer de inveja de me verem ao lado do Brad Pitt, embrulhem, mas com o jeito que tenho para confundir rostos provavelmente vou estar ao lado do motorista do Brad Pitt achando que é o patrão...)
fui para a estreia de Blue Moon avisadinha: Ethan Hawke, Margaret Qualley, Bobby Cannavale.
Margaret, em princípio era fácil de distinguir: a que vinha de saias. Os outros trocaram-me as voltas: vinham com casacos muito parecidos.
A sério, pá: não podiam trazer os nomes na roupa, como os corredores da maratona?
(O Ethan Hawke é o mais antipático, passou por mim tão a correr que só o consegui fotografar de costas. O Bobby Cannavale é um doce, sorriu-me duas vezes. E também fotografei uma bonitinha que não sei quem é, mas também não vos pergunto, que vocês desatam logo a bater...)
(Ai, afinal não era o Bobby Cannavale, era o Andrew Scott. E eu a pensar que desta vez acertava em todas!)

mais nozes...

 


“Dá Deus as nozes” ataca de novo: alguém me pode dizer quem é este simpático cavalheiro?

Estava tudo maluco a pedir autógrafos, por isso tirei as fotografias assim como quem ri da piada mesmo quando não percebeu. Já perguntei no facebook, e pergunto também aqui. Alguém há-de saber... *** O facebook, além de ficar escandalizado, esclareceu o mistério e ofereceu-me como extra este presente. Enjoy!



16 fevereiro 2025

Berlinale 2025 - dia 1


1. Kaj ti je deklica (Little trouble girls), de Urška Djukić

Não consegui evitar os paralelos com o Gloria, de Margherita Vicario, que vi também na Berlinale no ano passado: primeira longa da realizadora, música, jovens mulheres ou adolescentes a cantar. Mas no Gloria a alegria e o prazer da música estão no centro; neste Kaj ti je deklica, a música é apenas a moldura que enquadra as tensões e a descoberta da sexualidade.


2. Minden Rendben (Growing Down), de Bálint Dániel Sós

Um filme bem feito, com bom ritmo, bons actores, e a pergunta que angustia: e se um pai obrigar o filho a mentir para escapar às consequências dos seus actos?


3. El Diablo Fuma (y guarda las cabezas de los cerillos quemados en la misma caja), de Ernesto Martínez Bucio

Também primeira longa metragem do realizador, tinha tudo para me conquistar: um título muito promissor, um bando de crianças. Digamos assim: não conquistou.


4. Das Licht (The Light), de Tom Tykwer

À saída da exibição, ouvi um jornalista a comentar com outro: "mas que foi isto?!" Isto é uma vertigem berlinense neste princípio do século XXI, com uma mensagem simples (estamos todos perdidos, cada um no seu próprio labirinto; só nos salvamos se tocarmos o essencial de mãos dadas com os outros. É isto, mas na forma de sopa da pedra cinematográfica: um pouco de tudo, e tudo e excesso. Ainda estou a decidir se gostei ou não, mas há duas cenas que não esqueço: o modo como filma o primeiro date de um adolescente (lindo!!!) e o comentário de uma vizinha perante a discussão do casal no patamar das escadas (não conto, mas deixo aqui registado: adoro os berlinenses!)




15 fevereiro 2025

Berlinale 2025 - sessão de abertura

A Berlinale continua política, e não é só nos temas de muitos dos filmes que exibe. Na abertura do festival, os carros dos VIP passavam por manifestantes com uma bandeira da Palestina e um cartaz a acusar a Alemanha de ser cúmplice do genocídio. Do outro lado das barreiras, no tapete vermelho, lembraram David Cunio, que há alguns anos veio a este festival apresentar o filme "Youth", onde teve o papel principal - e agora é um dos reféns do Hamas. 

Muita política, e o seu quê de provinciana, nomeadamente em certos vestidos: a boa, velha Berlinale!

Como sempre, as actrizes já consagradas vieram agasalhadinhas, e as que ainda andam a lutar pela vida passaram um frio dos diabos. Fan Bingbing, a actriz chinesa que faz parte do júri do concurso, veio agasalhada num braço e a passar frio no outro. Talvez falsa modéstia...

Infelizmente não consegui bilhete para a sessão de abertura. Por isso, tirei uma fotografias do povo de pé à neve, ainda passei pelo stand da Armani, onde insistiram muito para me fazer o make up (a mim! coitados, sabem lá eles com quem se meteram...) e fui cedo para casa, que não convém rebentar os foguetes todos logo no primeiro dia. 







 

Berlinale 2025 - cá vamos nós outra vez


Cá vamos nós outra vez! Até 23 de Fevereiro: correria, correria, correria. Mas quem corre por gosto...

A Berlinale está cada vez mais pobre. Perderam patrocinadores poderosos, e nota-se: até nas flores do tapete vermelho poupam. Mas é bem verdade que quando se fecha uma porta, abre-se outra coisa qualquer. Este ano, o São Pedro abriu as comportas do céu e pôs a cidade mágica de neve. Em termos de efeitos especiais: um luxo!









10 cm de neve nos passeios.
Sim, pelas sete da manhã, antes de sair para os cinemas, tenho de limpar a neve em frente à minha casa. Esta minha Berlinale é glamour puro…

Como ia dizendo: 10 cm de neve nos passeios. Adeus, "escolhi o caminho menos percorrido", adeus "a distância mais rápida entre A e B é uma recta". É que nos dois primeiros dias fui para lá com as minhas botas favoritas, por serem as mais confortáveis. E por serem as favoritas estão com as solas muito lisas, ou seja: pneus carecas. Normalmente ando em cima da neve para evitar escorregar, mas com a neve tão alta não dá, porque fico com as calças ensopadas. Por isso ando aos ziguezagues na rua, pelos sítios que me parecem menos escorregadios, e como na velha anedota: sigo o caminho das pedrinhas.
Ao terceiro dia: levei uma botas novas, com uma sola que deixa mosquinhas na neve. (Já falei do outlet desta fábrica? Noutro dia conto. Mas, para já, falemos da Berlinale.)








06 março 2024

Berlinale 2024 - dia 2






O segundo dia do festival foi uma festa para mim: só filmes bons. Além disso, começou bonito. Um belo dia de inverno. Ao fim da tarde, a Filarmonia iluminada guiou-me o caminho enquanto atravessava o escuríssimo Tiergarten a pé, entre o terceiro e o quarto filme do dia.



4. Keyke mahboobe man - My Favourite Cake, de Maryam Moghaddam & Behtash Sanaeeha

Um filme lindo, comovente e divertido sobre uma viúva iraniana de 70 anos que decide dar-se uma nova oportunidade e ser feliz numa relação. Os seus autores, que também já trouxeram à Berlinale o "Ballad of a white cow" não estavam presentes porque o regime iraniano os impediu de sair do país.


5. Crossing, de Levan Akin

(não encontrei nenhum trailer com legendas em inglês)


O filme começa com esta informação: tanto na língua georgiana como na turca, não há género gramatical. Mesmo nos pronomes, o género é neutro. Eu a pensar: "Esta tem graça. Um país é cristão, o outro muçulmano. Aparentemente, não precisam da gramática para se entenderem quanto ao masculino e ao feminino."

Uma mulher vai da Geórgia a Istambul em busca da sobrinha transsexual. E nós vamos com ela, e fazemos com ela o percurso que leva do preconceito ao acolhimento da realidade do outro.

Um filme imprescindível.



6. Sieger Sein - Winners, de Soleen Yusef



Numa escola de Wedding, um bairro berlinense onde vivem muitas famílias de trabalhadores com baixo nível salarial e/ou imigrantes, um professor muito interessado tenta ajudar à integração de uma aluna nova, de uma família curda que fugiu à guerra da Síria, convidando-a a entrar para o clube de futebol feminino.

A realizadora, Soleen Yusef, ela própria chegada à Alemanha em criança, fugindo à guerra do Iraque, decidiu homenagear com este filme a sua família, as crianças refugiadas e os professores que a ajudaram a integrar-se na sociedade alemã e a encontrar o seu caminho.

Por trás da linguagem moderna das imagens, da personagem principal que atravessa a quarta parede para se dirigir ao público, do ritmo excelente, do humor e até do sinal da luta de classes (Wedding contra Charlottenburg, hehehe), o filme oferece um retrato empático daqueles adolescentes, com todos os seus pesos e as dificuldades pessoais que trazem para o seio da comunidade escolar.

Um filme para toda a família que vale muito a pena ver.



7. A different man, de Aaron Schimberg

Um trabalho inteligente, cheio de reviravoltas, sobre o ser, o parecer e a consciência de si próprio.

Sebastian Stan recebeu o Urso de Ouro para melhor actuação. Mas eu não conseguia tirar os olhos do Adam Pearson.









05 março 2024

Berlinale 2024 - dia 1


1. Yoake no subete - All the long nights, de Shô Miyake

Gostava muito de ter visto este filme, mas descobri demasiado tarde que há um raixparta de um túnel de S-Bahn que está em obras. Tive de mudar o percurso, perdi um tempo precioso, cheguei demasiado tarde. Aprendi para a vida - nunca mais perdi nenhum filme da Berlinale por causa desse maldito túnel em obras.


2. Săptămâna Mare - Holy Week, de Andrei Cohn

Roménia, finais do século XIX. Uma família judia vive à margem da aldeia, numa pequena propriedade onde tem um restaurante para quem passa. Às vezes, o marido conversa com a mulher sobre um rumor que ouviu, sobre a possibilidade de se mudarem para uma terra longínqua, nem se sabe bem onde, algures perto da Síria, onde poderiam viver em paz. Ela não acredita nisso. A partir do momento em que o pai da família começa a temer vir a ser vítima de um acto de grande violência, e a polícia da terra ignora os seus pedidos, desata a tomar decisões erradas.

Um filme escorreito, de ritmo um pouco lento, que não é necessariamente um daqueles filmes imperdíveis. Mas há algo importante que me ficou dele: lembrar (nunca esquecer!) a vulnerabilidade e a impotência perante uma hostilidade generalizada, que eram elementos determinantes na vida qutodiana dos judeus europeus. E perceber o poder apelativo do sonho de ir viver numa terra livres de humilhações e violências.


3. Small Things Like These, de Tim Mielants

Uma pequena cidade na Irlanda consegue assobiar pacatamente para o lado perante as atrocidades praticadas num lar de freiras que acolhe mulheres jovens "perdidas" - uma das "Magdalene Laundries" irlandesas onde tantas mulheres sofreram horrores. Todos, menos um pai de família, que vê e se debate com a decisão entre arriscar o futuro das suas próprias filhas e tomar uma posição de frontalidade e de respeito pela sua própria consciência.

Emily Watson extraordinária no papel de directora do lar. Cillian Murphy às vezes um bocado cansativo naquelas cenas de penumbra em contraluz onde o seu conflito interior se manifesta num perfil de boca entreaberta, a respirar com custo. Às escuras, até eu sou boa actriz...


04 março 2024

Berlinale 2024 - em defesa da liberdade de expressão


No post anterior falei sobre o aceso debate suscitado pelas críticas à guerra de Gaza que foram feitas na cerimónia de encerramento da Berlinale. Há políticos responsáveis na área da Cultura a anunciar o fim de apoios financeiros a "artistas anti-semitas", há instituições a anunciar que vão rever os apoios de financiamento à Berlinale. Neste contexto de "crime e castigo" (sendo que o crime é uma acusação de "anti-semitismo" segundo critérios que poucos entendem), esta declaração de Carlo Chatrian e Mark Peranson aparece como uma lufada de ar fresco:



March 1, 2024

We have a great deal of respect for the institution we are working for and for the country that has hosted us for the last five years. The way Germany has handled its past and overcome it, becoming a leading country in supporting human rights and welcoming people in distress has been admirable, and that is one of the reasons why we have been so proud to work for the Berlinale. Knowing that our backgrounds don’t allow us to fully comprehend the complexity of people’s feelings and beliefs, we have always aligned with the festival’s decisions even when these were not exactly ours and at times did not go in the direction of what an international film festival should stand for.

The last days have made us aware of the great danger that the Berlinale, like other institutions in Germany, is facing. That’s why we dare to raise our voices. We stand for cinema, which doesn’t belong to any political party- it is neither right wing nor left wing. We believe in the power of cinema to unite people. This year’s festival was a place for dialogue and exchange for ten days; yet once the films stopped rolling, another form of communication has been taken over by politicians and the media, one which weaponizes and instrumentalizes anti-Semitism for political means. No matter our individual political convictions or beliefs, we should all keep in mind that freedom of speech is an essential part of what defines a democracy. The award ceremony on Saturday, February 24 has been targeted in such a violent way that some people now see their lives threatened. This is unacceptable.

We stand in solidarity with all filmmakers, jury members, and other festival guests who have received direct or indirect threats, and do not back down from any programming choices made at this ear’s Berlinale. We also take this opportunity to state that we deeply feel for the hostages still being held by Hamas, including former Berlinale guest David Cunio, and we call for an immediate release of all other hostages. We also feel for the lives of millions of people in Gaza; their lives are in danger. To the ones who say that it is either or, we want to remind you that sorrow is universal. Mourning the loss of human beings on one side doesn’t mean that we don’t mourn others’ losses too. Stating the opposite is simply dishonest, and shameful and polarizing behavior.

As festivalgoers and programmers, we truly hope that the Berlinale will stay a “window of the free world”. A place where any film can be shown. A place where any international guest can come without having their political views scrutinized. As Meron Mendel, director of the Bildungsstätte Anne Frank said when asked for comments regarding the award ceremony, “It would be wrong to describe all those who criticize Israel one-sidedly and sometimes with radical positions as antisemites…

Whether we like it or not, we have to learn to endure such debates!

Carlo Chatrian, artistic director

Mark Peranson, head of programming

02 março 2024

Berlinale 2024 - entre a política e o cinema, com a guerra de Gaza no centro do palco



A Berlinale começou a 15 de Fevereiro, e acabou no domingo passado - depois de 90 km, 180 andares e três dúzias bem aviadas de filmes, no que me diz respeito. Desde que verifico no telemóvel os passos que dou e as escadas que subo, dou-me conta de que a Berlinale é meia preparação para uma maratona. 

Em 2024, o festival mostrou-se ainda mais político que o habitual. Na cerimónia de abertura começaram por aludir ao facto de terem desconvidado dois deputados da AfD, depois de se ter tornado pública a ligação deste partido a um movimento que pretende expulsar do país estrangeiros e até os seus filhos com nacionalidade alemã ("as tradições são importantes, mas às vezes é preciso serem revistas, e foi o que fizemos"). Condenaram a invasão da Ucrânia, o massacre do Hamas e o horror que neste momento se abate sobre a população civil de Gaza. No seu discurso, a ministra federal da Cultura referiu-se à guerra de Gaza num tom que já foi bem diferente do registo dos representantes políticos alemães em Outubro e Novembro. Por parte da Alemanha, o apoio a Israel mantém-se - mas não impede esta ministra do governo alemão de acusar a tragédia humanitária, e de afirmar que é imperativo caminhar urgentemente para uma solução de coexistência pacífica entre ambos os povos. 

Perante o ambiente muito tenso desta Alemanha polarizada entre o apoio incondicional a Israel e as duras críticas à catástrofe humanitária em Gaza, os directores da Berlinale falaram do festival como um espaço de diálogo, de troca de ideias e de escuta do outro, e apresentaram o projecto "tiny house", que é sobretudo simbólico: um pequeno pavilhão na Potsdamer Platz onde, no início do festival, durante três dias um judeu e um palestiniano se ofereciam como interlocutores para quem quisesse trocar ideias e verbalizar angústias.

O festival de cinema correu bem, como é habitual. Nota-se nos detalhes que já não tem os patrocinadores poderosos de outros tempos, mas os bilhetes para a maioria dos filmes continuaram a esgotar poucos minutos depois da abertura das bilheteiras online, e muitas praças de Berlim encheram-se com o bulício típico da Berlinale.

Na cerimónia de encerramento é que tudo se complicou: os prémios principais foram atribuídos segundo critérios mais políticos que artísticos - urso de ouro para um documentário sobre a restituição de peças de património cultural ao Benim, prémio do melhor documentário para "No Other Land", sobre a ocupação violenta de aldeias palestinianas e o roubo de terras na Cisjordânia. Os discursos foram - segundo as críticas que logo agitaram a sociedade - demasiado unilaterais. Falou-se em genocídio e apartheid, exigiu-se um cessar-fogo imediato, mas a ninguém ocorreu lembrar o massacre do Hamas, e o que revelou ao mundo inteiro sobre a insegurança de quem vive em Israel. Mais significativo ainda: quando duas pessoas da assistência se ergueram e gritaram "Paz para Israel e os palestinianos!", foram vaiadas. E os políticos presentes na sala - entre outros, o presidente de Berlim e a ministra federal da Cultura - não tiveram a presença de espírito de reagir de forma adequada. Como também não houve reacção por parte dos moderadores no palco, nem dos directores da Berlinale.

No noticiário do primeiro canal de televisão, o responsável pelo pelouro da cultura do Estado de Berlim acusou o anti-semitismo que grassa nesta sociedade e em particular no mundo da cultura, e que tem de ser encarado de frente, nomeadamente recusando financiar com fundos públicos projectos artísticos de pessoas que são anti-semitas ou têm um comportamento discriminatório. Como é, infelizmente, habitual nestes casos, o seu discurso não foi claro na distinção entre anti-semitismo e crítica aos actos cometidos pelo Estado de Israel.

A comentadora Monika Wagner foi mais clara e pedagógica: "O que aconteceu na Berlinale provocou um escândalo que não foi útil para ninguém e prejudicou muitos, desde logo os artistas que querem que o seu trabalho seja levado a sério. Sim, pode-se exigir um cessar-fogo, sim, pode-se criticar a política de colonatos de Israel, sim, com certeza que se pode criticar o modo como Israel aceita que em Gaza sejam mortas pessoas inocentes em massa. A nada disto se pode chamar "discurso anti-semita". O que levanta questões é o modo como alguns criticaram as operações militares de Israel em Gaza sem mencionarem o sofrimento das pessoas no dia 7 de Outubro. Porque estamos a falar de pessoas que foram torturadas e mortas com toda a bestialidade, pessoas que foram desumanizadas. Falamos de uma organização terrorista que quer implantar um Estado islâmico, quer varrer Israel do mapa e tem ainda em seu poder muitos reféns inocentes. Nos seus discursos, os artistas premiados não disseram uma única palavra sobre isto. Não será possível pôr fim a este conflito assustador se não se encarar e nomear o sofrimento de ambos os lados. Só uma verdadeira compaixão em relação a todas as vítimas pode ajudar a resolver este conflito e a restaurar a humanidade. O que não ajuda nada são afirmações unilaterais cheias de veemência. Pode-se ou deve-se proibir manifestações deste género no futuro? Como é óbvio: não. Deviam os moderadores ou a direcção do festival ter reagido de outra forma? Isso teria, ao menos, reduzido a dimensão dos danos. Porque os danos são imensos no caso de um festival internacional como este. A polarização unilateral raramente ajudou a resolver um conflito; na maior parte dos casos, tornaram-no ainda mais grave e mais duradouro."  

Perante a catástrofe de Gaza, o mundo dá consigo cada vez mais entrincheirado em retóricas de abominação do outro. Se queremos o fim deste conflito de tantas décadas, temos de saber pôr fim à espiral do ódio. Antes de mais, temos de ser capazes de transformar o nosso discurso num húmus para a paz: a matéria orgânica que transforma a podridão e o horror da morte em promessa de vida. Queremos que Israel e os grupos jihadistas parem de atacar as populações civis de um lado e do outro do muro, queremos a libertação imediata tanto dos reféns do Hamas como dos palestinianos que estão em prisões israelitas sem julgamento. E queremos que os governos dos nossos países se unam a uma comunidade internacional cada vez mais coesa, e muito determinada em estabelecer uma ordem nova que garanta para todos - judeus e árabes - a coexistência pacífica e uma vida com dignidade naquela terra.

 

02 março 2023

Berlinale 2023 - dia 1

Para o pessoal inscrito na Berlinale como eu, o dia começa cedo: às 7 da manhã é a hora a que abrem a bilheteira online para reservar os bilhetes de filmes que vão passar dois dias mais tarde. E tudo acontece demasiado depressa, porque há centenas de pessoas interessadas nos mesmos filmes.

Naquela primeira sessão de reservar bilhetes, a quarta-feira antes de começar a loucura a sério, eu estava prontíssima à frente do computador, com a minha lista de filmes, as prioridades já definidas, tudo a postos para arrancar. Tudo, excepto saber mexer-me bem no sistema...

Primeiro demorou demasiado tempo a ser a minha vez de entrar, depois fiz algumas asneiras, atrapalhei-me... e quando finalmente cheguei à loja online, quase todos os filmes que queria ver estavam esgotados. Olhava para aquela lista interminável onde já faltavam quase todos os que me interessavam. Em pé, ao meu lado, o Joachim olhava disfarçadamente para o relógio: tínhamos combinado que o levava ao aeroporto às 7:05, já caminhávamos para as 7:15, a auto-estrada ficava mais cheia de minuto para minuto. De modo que tive um ataque de "prantelhana", como o homem da anedota que não conseguia decidir-se sobre o nome da filha. Reservei Seven Winters in Teheran, o único dos remanescentes que queria muito ver, Joan Baez I am Noise (estava em dúvida, por imaginar que seria outra vez um documentário daqueles todos iguais sobre artistas famosos) e Matria (que me atraiu por ser galego). 

Foram esses os meus filmes do primeiro dia da Berlinale, e se o festival tivesse acabado aí já me tinha valido a pena. 


1. Seven Winters in Tehran, de Steffi Niederzoll


Um documentário feito a partir de dentro de Reyhaneh Jabbari - uma mulher iraniana que aos dezanove anos resistiu ao homem que a ia violar. Este acabou por morrer, e todo o sistema se uniu para acusar a mulher, única maneira de limpar a honra do homem. E digo "a partir de dentro" porque o filme usa textos que ela conseguiu passar para fora da prisão onde ficou sete anos. A vítima tem a palavra, e produz um documento notável sobre dignidade e consciência de si. Impressionou-me em particular a força e a coragem daquela jovem mulher apanhada na engrenagem de um sistema totalitário e altamente misógino, e a inteligência emocional que a mãe revela ao longo de todo o processo, particularmente nos contactos com os familiares da vítima, que têm o direito de desistir da execução da pena de morte. 
Dilacerante. E absolutamente imperdível. 


2. Joan Baez I am a noise, de Karen O’Connor, Miri Navasky, Maeve O’Boyle

Um documentário que vai ao cerne de Joan Baez. Honesto, transparente, surpreendente. A cantora e activista permitiu que as realizadoras entrassem no arquivo da família, onde estão todos os filmes, as cassetes, os diários, as cartas, as fotografias, as gravações de sessões de terapia psicológica. Tanta abertura só foi possível porque Joan Baez e Karen O’Connor são amigas de longa data.

Era o meu primeiro dia da Berlinale, ainda me faltavam vinte cafés para começar a carburar bem. De modo que entrei no Kino International e quase fiquei surpreendida por ver ali a Joan Baez a posar para os fotógrafos e logo a seguir, já no andar de cima, a beber um chazinho. Claro: première mundial do documentário. Como não me ocorrera antes que ela estaria ali, à distância de um sorriso?

Fiquei um bocadinho a cuscar o ambiente, e aquela mulher tão franzina e jovem nos seus 82 anos, e depois entrei na sala já muito cheia. Perguntei a uma senhora sentada na cadeira junto ao corredor se a do lado estava vazia. Olhámos uma para a outra: a senhora é do meu coro, uma das minhas pessoas favoritas! E a cadeira estava vazia, que sorte!

No final do filme a Joan Baez passou por nós a sorrir, em direcção ao palco, e ofereceu-nos uma bela Q&A cheia de humor. A realizadora a contar que começou a pensar no filme em 2016, porque algum dia a Joan Baez faria a última tournée, e ela a interromper, com música alegre na voz: "you never know..." (o público a estremecer de esperança, e ela a rir). O filme, que era suposto ser sobre a carreira, mas virou para outra dimensão quando Joan Baez deixou as realizadoras entrar na divisão onde guardam os arquivos da família. E foi-se fazendo à medida das descobertas e das conversas, cheias de confiança, entre as amigas Joan Baez e Karen O'Connor. Alguém do público perguntou se ela ainda tinha a casa na árvore. "Sim, tenho. E sim, dei uma queda quando estava a subir pela escada de mão. E sim, parti a bacia. But it's all right." (eu a pensar que isso explica aquela sua forma cuidadosa de andar). Perguntaram que canção estava a dançar na última cena do filme. "A que a produção me deu para dançar. Mas eu sou mais Gipsy Kings". Perguntaram como teria sido a vida dela se não se tivesse tornado tão famosa tão cedo. "Não sei. Foi esta a vida que me foi dado viver - and I'm not complaining". Ninguém lhe perguntou pelo Bob Dylan (aleluia!).

E no fim, Joan Baez agarrou no microfone e cantou a capella para nós:

Ain't gonna let nobody, turn me around
Turn me around, turn me around
Ain't gonna let nobody, turn me around
Keep on a walking, keep on a talking
Gonna build a brand new world


A minha amiga e eu saímos do cinema em estado de graça. A Berlinale 2024 já estava ganha. 



3. Matria, de Álvaro Gago


Matria é a primeira longa de ficção de Álvaro Gago, falado em galego, e começou a germinar quando a avó deste morreu, a família contratou Francisca para cuidar do avô, agora viúvo, e a casa se encheu de vida. Ao querer mostrar-nos Francisca, Álvaro Gago acabou a fazer uma homenagem a todas essas mulheres cheias de força e dignidade, que não desistem apesar das muitas pancadas que a vida lhes dá. Ao falar para o público, o realizador emocionou-se: "Este filme é dedicado a uma mulher a quem disseram que não valia nada - Francis, tu tens muito valor!"
Francisca não estava presente, mas a sua energia encheu a sala. E a actriz que a representou contou que a mera representação da vida dela fora um esforço físico esgotante.
 

25 fevereiro 2022

Klondike - Berlinale 2022




Tenho pensado muito no cenário central de Klondike, o filme ucraniano que vi na Berlinale há cerca de uma semana: uma casa  ucraniana perto da fronteira da Rússia, uma sala à qual falta a parede virada para Leste. 

A vulnerabilidade total. O desamparo. 

Uma grávida entre o irmão pró-ucraniano e o marido que se dá com separatistas. O marido que só quer que o deixem em paz e ser feliz com a sua família. A mulher que se recusa a fugir. O irmão e o marido a reerguerem zangados a parede da casa. A incapacidade de comunicarem. O avião de passageiros que cai lá perto. Os paramilitares russos e tchetchenos no meio da sala, a decidir o que farão ao bebé quando nascer. 

A estupidez do mundo. A impotência.    

Quando o vi, ainda estava na fase de acreditar que Putin estava apenas a fazer bluff. 
Uma semana depois, o filme regressa-me como metáfora sobre a desgraça deste país. 


17 fevereiro 2022

Alcarràs - "Volem preus justos!" - Berlinale 2022

 

O Urso de Ouro da Berlinale de 2022 foi para Alcarràs, da catalã Carla Simòn, que já em 2017 levara de Berlim um prémio para o seu delicado Estiu 1993.

Se só pudesse usar um adjectivo para o Alcarràs, era este: solar. Consegue manter uma energia alegre apesar de nos apresentar um mundo em vias de desmembramento, e apesar da ameaça que paira sobre a família e os seus equilíbrios. Um filme excelente.

Já a cena inicial do filme, com a pequena Ainet Jounou no papel de Iris a brincar com os primos, prepara o público para o que se seguirá: cem minutos de vida intensa, cheia de naturalidade, atravessada por uma alegria bem ancorada na solidez dos laços humanos. Antes da projecção, os actores e a realizadora assinaram os seus cartazes, como é tradição neste festival. Em dois deles, ao lado das assinaturas deixaram também a mensagem central do filme: o mundo rural precisa de trabalhar com preços justos. No final, fica uma sensação enorme de estima e perda. Não podemos deixar este mundo desaparecer.