Modestamente confesso que sinto algum orgulho nesta fotografia. ![]()
Uma garça à espera do pequeno-almoço e três tartarugas ao sol, corvos-marinhos so sol, folhinhas tenras ao sol, a garça a engolir o pequeno-almoço e o Fox a fazer figura de galeirão.
Hoje estava a nevar de maneira tão bonita que resolvi ir dar um passeio até ao lago, mesmo sem o Fox (que já foi outra vez para a casa dele).
Dizem que a neve torna o mundo silencioso, mas não é bem verdade: esta manhã, rangia sob os meus passos. E no lago começou a fazer ruído de chuva.
A julgar pelo degrau junto ao lago, acredito que esta manhã alguém veio tomar o seu banho de água gelada.
Os cisnes é que não se vêem em lado nenhum. Talvez tenham voado para algum lugar mais seguro. No lago, assim gelado, ficam à mercê das raposas. Na semana passada, lá foi mais um.
O Fox passou todo o meu pequeno-almoço a lamuriar-se, “ai coitadinho de mim, ninguém me leva à rua, sou um desgraçadinho, mais me valia ser um cão vadio, sempre tinha um acesso facilitado à casa de banho”. De modo que me apressei a sair com ele de manhãzinha. No lago, havia dois cisnes que estavam a treinar para Jesus a caminhar em cima da água. Depois apareceu uma moça que se meteu na água gelada, mas cheia de medo que os cisnes - que vinham justamente na direcção dela - a atacassem. Os cisnes ficaram parados em cima da placa de gelo, junto ao sítio onde ela estava. Esperaram que ela saísse da água para entrarem eles. Foi um cena que - garanto! - se não tivesse visto com os meus olhos pensava que era um filme manipulado por IA. Não tirei fotografia da moça na água porque não lhe pedi autorização antes, e não queria fazer barulho enquanto o parceiro dela filmava. Mas tirei depois uma ao longe, quando ela se estava a vestir, só para não pensarem que eu invento isto tudo.
Acabei de ler a newsletter semanal "Alles Gute" do Spiegel, que só tem notícias positivas, e fiquei com vontade de dar beijinhos ao mundo.
Na edição deste sábado (aqui, em alemão), são estes os temas:
- é possível reduzir o lixo de plástico no mundo inteiro em 80% até 2040;
- duas irmãs, de 10 e 13 anos, contam como viveram uma semana inteira sem consumir nada embrulhado em plástico ("uma amiga ofereceu-nos gomas, mas como vinham num saco de plástico, não aceitámos")
(onde está o emoji da lagriminha quando a gente precisa dele?);
- uma casa numa favela de Belo Horizonte ganhou um prémio internacional de arquitectura (podem ver imagens da casa aqui e vídeo da notícia numa TV brasileira aqui);
- mamografias acessíveis em regiões rurais da Índia, onde não existe o equipamento adequado: estão a ensinar mulheres com cegueira a usar o seu tacto apuradíssimo para detectar nódulos na mama;
- o neuropatologista Diego Sepulveda-Falla descobriu um gene que protege do Alzheimer;
- há uma nova liga de futebol: só com equipas de pessoas com excesso de peso, para lhes dar a oportunidade de praticar desporto em grupo sem se sentirem diferentes (título: "tivemos de mandar duas pessoas embora porque eram demasiado magras") (hehehe);
- o preço do gás na Europa, que em agosto de 2022 tinha subido aos 300 euros por MWh, esta semana esteve abaixo dos 30 euros;
- o WhatsApp tem agora uma função de senha para proteger conversas mais privadas;
- estão a trabalhar num sucedâneo do café, a partir do fruto do cafeeiro depois de extrair os grãos - em vez de os deixar a decompor e a largar metano para nos desgraçar ainda mais o clima. Também tem muita cafeína, é uma bebida saudável, chamam-lhe "Cascara", e a ver vamos;
- uma carta de um leitor: estava no café de uma estação de comboios à espera da ligação, trocou meia dúzia de frases com um passageiro a seu lado, e quando ia pagar o outro fez "pay forward": pagou o café dele, e da próxima vez ele pode fazer o mesmo a um desconhecido.
Tem mais alguns artigos, mas eu quero parar neste último, porque me lembrou algo que aconteceu no meu bairro por alturas do Natal. Num passeio da manhã com o Fox, vi um sem-abrigo a dormir num banco junto ao lago (esse banco por trás da fotografia do topo, com aquela mesma neve), apenas com um saco-cama para se proteger das temperaturas negativas. Pensei telefonar ao serviço que dá apoio a estas pessoas, e no inverno impede que morram de frio na rua, mas entretanto o senhor desapareceu. No dia seguinte, ao passar com o Fox, vi que já tinha uma tenda. No terceiro dia, quando ia a passar perto da tenda, apareceu uma vizinha com uma garrafa termos, que anunciou alegremente: "O pequeno-almoço está pronto! Café quentinho!" E no quarto dia, vi duas vizinhas a conversar e a rir muito com ele, os três no jardim em frente ao lago, com flutes de espumante na mão. Depois uma delas agarrou nos copos e na garrafa vazia e despediu-se "Desculpem, tenho de ir, são horas de fazer o almoço. Até amanhã!"
Hoje, Berlim acordou transidinha de frio.
E eu, a bem dizer, acordei a dormir: quando o corvo marinho levantou voo, no meio do lago coberto de neblina, precisei de vários segundos para apontar a câmara como deve ser. Triste vida.
Depois de temperaturas siberianas (enfim... uma pessoa chega aos nove graus negativos e dá-lhe para exagerar um bocadinho...), aqueceu. Estava de chuva, achei que não ia tirar fotografias de jeito e saí com o Fox para o primeiro passeio da manhã levando apenas o telemóvel. Bem me arrependi, porque tive de lidar com aquela luz fantástica sem a Olympus.
De modo que no dia seguinte, apesar de continuar de chuva e cinzento, levei o equipamento todo para o passeio matinal. Não me serviu para nada. Primeiro, porque o máximo que podia fotografar era gotas de água. Segundo, porque o Fox farejou uma pista no chão, e de cada vez que eu parava para uma fotografia ele avançava, seguindo aquela pista que prometia fazê-lo feliz, e eu depois fazia a figura do costume a gritar no parque, em todas as direcções "Fox! Ó Fox!".
Se calhar já me levavam a uma escola de cães, para me ensinarem que sou eu quem manda nele, e não o contrário...
E assim vai a vida: tentando gerir os ritmos da felicidade de cada um, sempre cheia de luz e de surpresas.
A todos os que por aqui param uns momentos, desejo um tempo de Natal cheio de alegria. Apesar de todos os apesares que todos temos: alegria.