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29 julho 2025

notas de viagens

Nos meus apontamentos de viagens no Facebook repete-se muito a palavra "paraíso". Das duas, uma: ou aprendo outras palavras, ou começo a frequentar sítios menos, lá está, paradisíacos... Há cinco anos, foi assim:







E como se não bastasse, está um tempo impecável.
(Por enquanto, claro.)
Primeira paragem: meter gasolina.
Depois: aonde o coração nos mandar.
(Sim, bem sei que estou a fazer figura de deslumbradinha, mas deslarguem-me, que isto não me acontece todos os dias)





Almoço no paraíso. Depois os rapazes mergulharam, e vieram à tona a gritar que estamos numa corrente fria. Lembrei-me logo que os portugueses têm digestão, e nem entrei na água. Estou a vê-los chegar à ilha.

Está-se bem.

(Não sei o nome desta ilha. Sei apenas que saímos de Brest, fomos na direcção de Ouessant, e parámos a meio. Fica em frente a uma outra ilha que foi recentemente repovoada com famílias jovens que se dedicam à agricultura biológica e à criação de ovelhas.) --- E para a amiga que me pediu ideias para passeios no Finistère bretão, escrevi isto:
* Ando numa de Enclos Paroissiaux. Ainda hoje vi dois fabulosos: Guimiliau e Lampal-Guimiliau. Mas sendo para vocês, talvez o melhor seja verem Pleyben - particularmente o Calvário com dezenas de figuras (o Calvário é uma espécie de presépio português a contar as histórias do Novo Testamento) e dentro da igreja as sablières (frisos em madeira ao longo da parede, entre o fim da parede e o princípio do tecto - esculpidos com cenas da vida quotidiana, mais monstros e bizarrices - um festim!)
* A caminho de Finistère, espreitem a ilha da capela de Saint Cado em Belz. É muito bonitinha.
* Concarneau
* Pont-Aven e Le Pouldu - seguir a passagem de Gauguin. O filme no museu de Pont-Aven é muito interessante (o museu também é muito bom). Em Le Pouldu reconstruíram a casa onde moravam os artistas, inclusivamente as pinturas que eles lá fizeram (adorei)
Perto de Pont-Aven também tem as ostras de Belon, que podes comer em mesas corridas num bosque por cima da ria. Um lugar de sonho. E se tiveres sorte os figos da figueira ao lado da loja já estão maduros, e se calhar dão-vos alguns.
* Locronan (escrevi um post sobre isso - lê, e conta aos teus filhos as histórias do Saint Ronan - torna tudo muito mais interessante)
* Também gostei imenso de andar em char à voile na praia de Plomodiern / Saint Nick
* Um dia na Île de Batz, perto de Roscoff (e Roscoff, claro). Na ilha, procurem as praias de areia na zona virada a Oeste.




29 outubro 2022

"zona entremarés"


 


Partilho mais um post que escrevi para a Enciclopédia Ilustrada: A propósito de #zona_entremarés, um colega enciclopedista lembrou - e bem! - o Mont Saint-Michel.

"Normando por parte da mãe, e bretão por parte de um amigo do pai...", dizia a rir o nosso hospedeiro, quando lá passámos uma noite no verão de 2020. Era normando, ele.

Chegámos às cinco da tarde, em hora de maré baixa, quando inúmeros grupos de caminhantes se espalhavam em magotes pelo areal. Não tínhamos reservado um guia, e decidimos ir por nossa conta e risco. Os nativos do monte ficaram preocupados. Recomendaram-nos evitar as zonas de areias movediças ("na parte norte há um rio, cuidado com ele!"), ensinaram-nos o que fazer se fôssemos apanhados (ponham-se de joelhos, e chamem os bombeiros!") e disseram-nos para não regressar a casa com os pés sujos.

E nós lá fomos. Espertinhos, fomos no encalço de um grupo com guia. Eles andavam, andavam, andavam, e nós satisfeitíssimos da vida, porque podíamos tirar fotos impecáveis do lado norte do monte a reflectir-se na água que entretanto ia subindo. Os outros continuavam a andar - até que nos apercebemos que não tencionavam voltar para trás e regressar ao monte, e nos vimos obrigados a arrepiar caminho. O que era óptima ideia, porque a maré (diz-se) naquele sítio sobe à velocidade de um cavalo a galope. Além disso, não era difícil: o nosso destino estava ali mesmo à nossa frente. Apenas umas centenazitas de metros.

Só quando os pés se começaram a enfiar cada vez mais fundo na lama é que nos lembrámos das areias movediças. O famoso rio no lado norte do monte! E atrás de nós a maré.

Avançámos: com passos rápidos e largos, tentando manter o equilíbrio apesar do chão que cedia ao nosso peso e se abraçava às nossas pernas.

Finalmente no rochedo, pasmámos com a lama que nem aos joelhos chegava. Durante a travessia, estava capaz de jurar que quase me tocava o umbigo!

Lavámo-nos na torneira do cemitério (elementar, meu caro Watson: em que outro sítio haveria uma torneira pública?) e regressámos a casa a tempo de saborear o entardecer na água a partir de uma das nossas janelas (a outra dava para a abadia).

Na manhã seguinte levantei-me antes do sol e subi ao alto do monte para o ver nascer ali.
Valeu a pena.

Depois do pequeno-almoço visitámos a abadia (e como estávamos no monte, fomos os primeiros - quase não havia mais turistas) e a seguir partimos para Omaha Beach, que os nossos amigos queriam muito visitar nesse dia antes de se fazerem à estrada para a Alemanha. De modo que não pudemos almoçar por ali o famoso borrego com o sabor especial que resulta de se alimentar das ervas que crescem entre marés - os rebanhos dos prados salgados. Podem ver neste filme:

O filme só não explica se dão cerveja aos pobres bichos para lhes matar a sede depois de uma dieta tão pesada de sal.

Deixo aqui algumas fotografias sobretudo da zona entremarés. Desculpem serem tantas, mas não consigo escolher quais deixar de fora.














27 junho 2021

viver e escrever

 







A vantagem de partilhar momentos felizes no facebook é que ele mos lembra depois, ano após ano. Esta manhã, por exemplo, já me lembrou que a fronteira entre a França e a Alemanha reabriu faz agora um ano, e amigos nossos vieram passar alguns dias connosco: casa com vista para o mar perto de Douarnenez (e char à voile numa praia linda e deserta, e Quimper sem turistas), casa com vista para o mar em Carantec, pernoitar em Saint Malo e Mont Saint-Michel (num Mont Saint-Michel sem turistas!) intra muros.
(Nas imagens: o lado menos conhecido do Mont Saint Michel, nós no cemitério a lavar os pés porque para ir ver o lado norte do Mont Saint Michel acabámos atolados nas areias movediças que ali há, mais o anoitecer, mais o amanhecer.) E há quatro anos estava assim:
Post mete-nojo:
Está uma pessoa ao computador descansadinha da vida, a arrancar os cabelos enquanto luta contra o atraso (esta semana vai ser assim) e recebe uma mensagem a dizer isto:
Hi guys,
I hear from my brother that you are planning a visit. Don't forget to include a few days at our coastal apartment. We are looking forward to seeing you both.
O "coastal apartment" é em Santa Cruz, em frente ao Pacífico. Já estou outra vez com stress de tempo livre: eclipse solar em Oregon, Avenue of the Giants, San Francisco, acampar junto à Highway nr. 1, e agora Santa Cruz.
Há que ser forte, e manter o sangue-frio.

Tenho dezenas de milhares de fotografias dessa viagem à Califórnia, da estadia de sete meses na Bretanha, e de todos os outros dias felizes que o facebook me vai relembrando. O que me dava mesmo jeito era que me obrigassem a ficar em casa vários meses seguidos, para desbastar o arquivo de imagens e aproveitar algumas para contar neste blogue.

Ai, espera...




15 abril 2021

"com que roupa eu vou?"

Lembra-me o facebook que há um ano andava a tentar adaptar-me ao clima da Bretanha e ao segundo mês de medidas drásticas de confinamento.

Tinha de ir à rua (fazer compras, e aproveitar a saída para a tal voltinha num raio de 1 km à volta de casa, para mexer um bocadinho o esqueleto) mas como o tempo na Bretanha muda a cada cinco minutos, estava sem saber se me devia vestir para inverno ou para verão.

(De facto, o que é espantoso é os bretões conseguirem escapar ao pijama de manhã: como saberão eles qual é a roupa mais adequada para o dia?)

Sugeriram-me que vestisse tudo, de modo a estar preparada para o que desse e viesse. Segui o conselho à risca - vestido de verão, casaco comprido de penas, cachecol e gorro na carteira, porque nunca se sabe - mas surgiu mais uma dúvida existencial: botas de cano alto ou sandálias?

Finalmente, já vestida e calçada, dei-me conta de que a vontade de ir à rua se tinha volatilizado: aquela coisa de ter de usar um lenço de papel para abrir as portas do prédio, e a seguir deitá-lo fora com muito cuidado, e mais isto e mais aquilo...

A verdade é que apenas um mês depois de ter começado a crise da covid, já estava habituadíssima a estar em casa. Não tinha paciência para todos os cuidados que era preciso ter nos espaços públicos.
Além disso, tinha algumas garrafas de vinho vazias para deitar no vidrão, e não sabia que é que os vizinhos iriam pensar de mim: de vestido de verão, casaco de inverno, sandálias, e várias garrafas de vinho na mão...

(Um amigo do facebook comentou: "quando os vizinhos virem as garrafas de vinho, vão compreender a indumentária..." - ainda hoje me lembro da gargalhada que me provocou.)



18 março 2021

faz agora um ano que estávamos a tentar perceber

 


Ao segundo dia do confinamento dei-me conta de que a pressão habitual do mundo exterior tinha deixado de existir, começara a usar gateau breton para preencher esse vazio atarantado, e ao jantar bebíamos mais do que o habitual num dia da semana (o que, de certo modo, fazia sentido, porque foi a época em que todos os dias eram domingo). 

Também comecei a entender melhor o pessoal dos Países Baixos, que foi fazer bicha em frente aos Coffee Shops mal se soube que iam fechar todos os estabelecimentos não prioritários. 



14 março 2021

uma janela oooooh


O facebook a lembrou-me que faz agora um ano estávamos a começar a instalar-nos em Brest. Começámos numa residência de estudantes, num quarto demasiado exíguo para tudo o que tínhamos connosco. Por sorte encontrámos rapidamente um apartamento que nos pareceu um palácio: quarto, sala, e uma cozinha só nossa!

Tinha três frentes: uma para a ponte pênsil, uma para a torre histórica e o forte do outro lado do rio, uma para umas traseiras urbanas.

O caso é que o tempo em Brest muda a cada cinco minutos. E esta combinação de sol e chuva dá efeitos de luz formidáveis. Nunca tinha sossego naquele apartamento, onde havia sempre uma janela oooooooooh e outra janela aaaaaaaaah...

Vista da janela das traseiras.

Vista da mesma janela, sem arco-íris.

Vista da janela da cozinha.



Vista da janela da sala. As árvores tapavam a vista para os edifícios históricos (raixparta as preocupações ambientais...).





07 março 2021

faz hoje um ano

 

Há um ano estava a passar o fim-de-semana em Concarneau. Éramos felizes, e nem sabíamos quanto. 

O Joachim estava a participar num workshop de médicos. Um dos palestrantes não pôde vir, porque tinham descoberto alguns casos de covid na aldeia dele e fecharam os contactos com o resto do mundo. Sabíamos isso, mas não estávamos realmente preocupados. 

No sábado dei um saltinho a Brest para ver um apartamento que queria alugar. À chegada, e depois de uma ligeira hesitação, cumprimentei o agente com um aperto de mão. Deve ter sido o último aperto de mão que dei neste ano que passou. Não sei quando voltarei a cumprimentar alguém assim.


01 março 2021

faz hoje um ano que...

Faz hoje um ano que nos pusemos a caminho da Bretanha. O mundo estava a acabrunhar-se de covid, mas nós, longe dos noticiários e jornais do nosso antigo quotidiano, quase nem nos dávamos conta da dimensão do descalabro. 

Em França só se podia passear até 1 km de casa. Mas como se podia ir às compras, nós passeávamos em passo mais ou menos apressado até ao porto de Brest para comprar peixe e marisco fresquíssimos. Todos os dias. 

Passámos seis meses num apartamento minúsculo com uma vista fantástica, e eu olhava pela janela e pensava no colega Monet, que também se deslumbrava com aquelas variações de luz. 

Olhando para este período, penso naqueles mergulhadores que estavam no fundo do mar no momento em que um tsunâmi se estava a largar sobre a costa. A Bretanha foi o nosso fundo do mar, estável, belo e fora do mundo.

---

Comecei um diário. Mas quando o confinamento acabou, e a Bretanha se ofereceu em verão, deparei-me com o problema do costume: não consigo viver tão intensamente e escrever ao mesmo tempo. 

Talvez agora, quando faz um ano que começámos esta aventura, consiga recuperar as pontas. 
(Depois aproveito, e escrevo sobre as viagens à África do Sul, à Bolívia, ao Peru, à Costa Rica...)

Mas para já estou a aviar filmes da Berlinale online como se não houvesse amanhã. 
(E ainda não escrevi sobre os que vi na do ano passado - que interrompi no penúltimo dia para me pôr a caminho da Bretanha.)


31 dezembro 2020

alinhamento dos astros e boletim meteorológico






Deve ter sido a constelação à minha nascença, é a única explicação que tenho para tanta sorte na vida.
Por exemplo: 2020 foi um ano bom para mim. Muito bom. Quase diria: cinicamente bom. Especialmente se penso nas resistências que tive à ida para a Bretanha, "porque ia perder a vida cultural de Berlim", e mal me instalei em Brest a vida cultural de Berlim foi reduzida a zero (excepto o que passou a ser online, e chegava a França e ao mundo inteiro).

Os sete meses que passámos na Bretanha foram um tempo muito rico de paz e de descobertas.
Por isso regresso hoje, neste 31 de Dezembro de 2020, aos melancólicos dias da despedida, quando levámos o "Boletim Meteorológico" da Sandra Costa para o último mergulho ao fim do dia na nossa Sainte-Anne du Portzic, ou quando o erguemos a iluminar o farol de Pontusval e a praia de Brignogan, na nossa saída de Finisterra.
O mar estava encapelado e verde como nunca o víramos antes. 


"Podia ser o mar de Finisterra onde andei à procura
dos poemas que não escrevi, o mar do Golfo da 
Biscaia, o dos faroleiros que vazaram os olhos,
o mar de Skagen onde sou uma daquelas mulheres
de Krøyer que caminham na orla da maresia, o
mar que sustenta as falésias da Irlanda, sem que 
as vertigens me invadam, o mar de Cacela Velha
onde nunca estive e os poetas vivem e morrem
de um amor mais profundo. Podia ser todos
estes mares. Em todas as estações. É tão só
este mar que contemplo. Eu no mar.
O mar em mim."



Que não te falte nunca o mar em ti, querida Sandra.

Que não falte nunca a ninguém: o mar em si, em si. 


25 setembro 2020

regressar

Saímos da Bretanha faz hoje uma semana. Nesse dia o Joachim ainda começou a fazer a experiência que o levara a Brest, e só foi possível iniciar nas últimas horas da nossa estadia. Enquanto isso, eu meti a nossa tralha no carro e entreguei o apartamento. Assim terminaram seis meses de Rue de Pontaniou, mesmo em frente ao rio de Brest, a duas docas secas da Marinha, e à luz do céu bretão.

Saímos da Bretanha pela praia de Brignogan, o farol de Pontusval e Dinan. No caminho para a praia ultrapassámos um casal que ia num carro antiquíssimo, lindo. 



O mar de Brignogan estava verde e encapelado. Desistimos de um último banho em Finisterra. Limitámo-nos a mergulhar os olhos na beleza dos lugares. Exaltados e mudos, a repetir como um mantra: "até já, até já, até já".





Dormimos em Dinan, num hotel junto à muralha. Na manhã seguinte levantamo-nos cedo para ir dar uma voltinha pela cidade antes de partir para a Alemanha. Mas chovia tanto que regressámos apressadamente ao hotel para mudar de roupa e sapatos antes de seguir caminho. Havemos de voltar a Dinan num dia de sol. 

Visitámos a família no sul da Alemanha, e chegámos a Berlim no domingo à noite. Mas não se regressa de sete meses - e de um confinamento - como se saiu. Desta vez está a ser difícil juntar todos os meus bocados. Ontem fui ao centro de Charlottenburg, e não senti esta cidade como minha.
Que é que estou a fazer aqui? 

Esta noite, a chuva de Dinan chegou a Berlim. Pode ser que traga algumas das parcelas de mim que ficaram pelo caminho.