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27 janeiro 2022

lembrar as vítimas do nazismo

 

(imagem: daqui )

27 de janeiro, a data em que o Exército Vermelho libertou Auschwitz, tornou-se o dia internacional em memória das vítimas do nazismo: judeus, ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais, e tantos outros.

Hoje quero lembrar Karl Stojka, e o seu aviso:

"Não foi Hitler, nem Göring, nem Goebels, nem Himmler, nem nenhum desses quem me arrastou e espancou. Não. Foi o sapateiro, o vizinho, o leiteiro. E depois receberam um uniforme, uma braçadeira e um barrete, e passaram a ser a raça superior."

Karl Stojka nasceu em 1931 em Viena, numa família católica lovari - um subgrupo da etnia cigana, sobretudo conhecidos como comerciantes de cavalos. O sistema nazi odiava os povos ciganos, e ainda mais os grupos itinerantes como a família de Karl. Acusavam-nos de serem associais e preguiçosos, diziam que não se integravam e viviam do trabalho dos outros. Um ódio muito conveniente, porque permitia unir a população contra um inimigo exterior.

Quando Karl tinha dez anos, os nazis levaram o pai dele para Dachau. Assassinaram-no alguns meses depois. Aos onze anos, Karl foi enviado com a família para Auschwitz, onde lhe trocaram o nome pelo número Z5742 ("Z" de Zigeuner, cigano) e acabaram por matar grande parte dos seus.
Ele conseguiu sobreviver ao Porajmos.
Muitos anos depois começou a pintar as dolorosas memórias do campo - como esta imagem que partilho, com o título "medo". Assinava as suas pinturas com o nome e com o número que lhe deram em Auschwitz. 
(Mais imagens e informações: aqui e aqui)

Falamos bastante do que os nazis fizeram aos judeus, e frequentemente ignoramos as outras vítimas. O resultado é que estamos mais sensíveis aos discursos antissemitas, mas nem reparamos quando hoje em dia políticos (ou amigos nossos) falam sobre os ciganos nos mesmos exactos termos em que os nazis o faziam há oitenta anos. Ouçamos ao menos o aviso de Karl Stojka: não foi Hitler quem o maltratou, foram os seus vizinhos, o leiteiro, o sapateiro. Pessoas banais, integradas na sociedade, inteiramente convencidas que eram pessoas de bem. 

No livro "SS", Guido Knopp avisa:

"
A moral da história? Qualquer pessoa poderia ter-se tornado um agressor. Quando um Estado criminoso destrói as barreiras entre o certo e o errado, qualquer pessoa fica em situação de risco. A natureza humana por si só é vulnerável. Em cada um de nós há um Himmler e um Mengele, um Eichmann e um Heydrich. 
Noutros tempos e sob outras circunstâncias, todos estes homens teriam tido "vidas normais", teriam sido cidadãos que não davam nas vistas."

Hoje passei no Gleis 17 - um dos memoriais que lembra as deportações dos judeus de Berlim. Tinha uma flor em cima de todas as placas que assinalam os comboios que partiram desta cidade em direcção aos campos de concentração. Para essas vítimas, pouco mais podemos fazer que pousar flores em placas frias. Mas para os nossos irmãos judeus, os nossos irmãos ciganos, os nossos irmãos refugiados, e todos os que hoje são vítimas do discurso e da ideologia nazi recuperados ao gosto do nosso tempo: não podemos assistir de braços cruzados. Há muito trabalho a fazer. 

Para que os nossos netos não nos perguntem depois como foi possível termos deixado acontecer. 





29 agosto 2021

enquanto isso, em Kabul...

Os taliban invadiram Kabul bem antes da altura prevista pelos incompetentes que governam o mundo, e este blogue entrou em letargia. Bem sei que corro o risco do ridículo, porque o planeta continua a girar à mesma velocidade independentemente do que escreva aqui, mas não tenho conseguido conciliar num só blogue os dois planos - o desta minha vida que continua amena, e o da tragédia afegã que corre a passos cada vez mais rápidos para o seu desfecho anunciado. 

Já comecei vários posts sobre a tragédia do Afeganistão, e perdem a actualidade mesmo antes de serem publicados. Simultaneamente, a minha vida berlinense recomeçou com a intensidade habitual - mas tenho uma espécie de prurido em escrever os textos do costume.

Como posso contar sobre as férias e o meu regresso a Berlim sozinha de carro (3 dias ao volante) e no post seguinte falar sobre o regresso ao futuro que ameaça as mulheres de Kabul? Como publicar as terríveis imagens dos afegãos no aeroporto, e a seguir escrever sobre o início da temporada na Filarmonia, ou resmungar sobre a seca na hortinha apesar de todos os dias haver previsão de chuva? Como posso partilhar fotos da reabertura da Neue Nationalgalerie e dos passeios com o Fox, e entremear com imagens de pessoas a cair de um avião?

Como escrever sobre o asco (é a palavra) que sinto pelos políticos que andaram a dificultar deliberadamente a fuga daqueles que acreditaram na promessa de modernizar o país e por causa disso têm agora a cabeça a prémio - e a seguir comentar que a máquina de lavar a louça que comprei há tempos é tão económica tão económica tão económica que acaba por não lavar a louça bem como devia?

Como explicar (até a mim própria) que é possível sentir uma apreensão sincera ao abrir o twitter, por saber que vou ser confrontada com imagens terríveis, e passar depois para o instagram e desatar a distribuir coraçõezinhos entusiasmados pelas férias dos meus amigos?

A verdade é que enquanto o "sonho americano" em que alguns afegãos acreditaram se tornou um horroroso pesadelo, a nossa vida nesta parte da Europa continua como antes: as férias e o trabalho, a família e os amigos, os propensos à cretinice a instrumentalizar a tragédia afegã para tentar encurralar ou ridicularizar adversários, os egoístas empedernidos a afirmar que "eles não são dos nossos" e devem ficar num dos países vizinhos ("eles":justamente os afegãos que acreditaram no horizonte que nós lhes prometemos e participaram na construção de uma sociedade à imagem das ocidentais, mesmo que isso implicasse fechar os olhos aos tantos erros cometidos pelos ocupantes).

Sim, tudo na mesma: apesar da vergonha que sinto pela traição mortal que o Ocidente de que faço parte cometeu contra tantos afegãos e contra a sua credibilidade como defensor dos direitos humanos, a minha vida continua igual ao que era. E dou-me conta de que seria até hipócrita manter este blogue mudo de vergonha e choque enquanto eu, eu propriamente dita, continuo a viver como sempre. 

Por isso recomeço: dois dedos de conversa sobre o que nos desaquieta, o que nos faz rir e o que dá que pensar, o que nos choca e o que nos alegra. Sobre a vida tal como nos vai acontecendo: na sua imensa variedade.