Já tenho dito, e repito: não gosto do tipo de humor do Extremamente Desagradável da Joana Marques.
Incomoda-me o olhar impiedoso, sempre em busca do ridículo nos outros, e o dedo (sou só eu que o acho salazarento?) que se ergue a apontar e humilhar.
Um humor que vive do "parece mal..." - esse ranço tão português.
Sim, bem sei que o Estremamente Desagradável está numa cruzada contra a flatulência dos conteúdos que enchem o espaço público.
Mas não será que a nossa sociedade corre o risco de morrer da doença e também da cura?
Quer dizer: como seria viver entre nós, se todos andássemos na vida com o mesmo olhar trucidante da Joana Marques, sentindo-nos no direito (e no dever, dirão muitos) de confrontar todos os outros com o seu espelho?
Dizem: ah, e tal, se não gostas tens bom remédio, não vejas! Concordo inteiramente, penso que é uma atitude muito razoável, e até gostava de fazer essa mesma sugestão à Joana Marques.
Se ao menos criasse personagens estereotipadas, em vez de andar a rir-se de pessoas concretas!
Dito isto: não percebo como foi possível o tribunal ter aceitado levar em frente a queixa dos querubins, espero sinceramente que decida de forma exemplar a favor da acusada (que, mais que a Joana Marques, é a liberdade da criação humorística), e estou disponível para contribuir caso seja criado um fundo para a ajudar a pagar as despesas que possa haver.
O livro Fahrenheit 451 foi recentemente publicado pela editora "Saída de Emergência", com tradução de Casimiro da Piedade.
No prefácio, Jaime Nogueira Pinto fala do autor e do contexto da obra, e aponta para a sua enorme actualidade, apenas mudando o responsável de desaprendermos a pensar: ontem era a televisão, hoje são as redes sociais.
Uma pessoa não tem viés nem preconceitos, não é assim?, mas pergunta-se logo porque será que o Jaime Nogueira Pinto é convidado a prefaciar uma obra tão importante sobre a “liberdade de expressão”.
E depois descobre coisas: a editora "Saída de Emergência" (este nome: todo um programa) apresenta-se na internet como "editora independente e 100% nacional". O editor, Luís Corte Real, escreve livros de fantasia muito interessantes. Por exemplo, a série "Reinos Bastardos", que começa com "a canção de Runa - livro 1", assim descrito: "Runa - de olhos verdes e cabelos de fogo - é uma órfã humana criada numa tribo de ogros onde impera a violência. Não devia sobreviver… mas tornou-se uma lenda." Só é pena o nome da heroína ser Runa, a antiga escrita germânica à qual os nazis foram buscar símbolos (por exemplo, os zigezagues da SS), porque viam nela um sinal da superioridade da "cultura ariana" e da "raça nórdica". Símbolos que também são muito apreciados pelos neo-nazis.
Uma Runa a lutar contra um "reino dos bastardos": já não é propriamente um caso de gato escondido com o rabo de fora - mais claro que isto é difícil.
A mesma editora publicou vários livros de Douglas Murray, um jornalista britânico muito próximo da extrema-direita, profundamente islamofóbico, divulgador de teorias da conspiração sobre a "grande substituição" e o "marxismo cultural".
Não admira, portanto, que Luís Corte Real tenha participado num abaixo assinado criticando as acções do grupo Habeas Corpus, por este andar a boicotar lançamentos de livros com conteúdos que pretendia censurar. Não é que esses livros da famosa "agenda LGBTQ+" alguma vez apareçam na editora "Saída de Emergência", mas a defesa da liberdade de expressão é uma luta instrumental para poder publicar histórias de heroínas chamadas Runa e livros com opiniões sobre o corpo das mulheres europeias ser uma ferramenta de resistência à "grande substituição", por exemplo.
Por este exemplo se vê que a liberdade de expressão, desculpem dizê-lo tão abertamente, parece a Belle de Jour - ora na casa de família, ora no bordel.
Como proteger a liberdade de expressão sem permitir que seja o cavalo de Tróia da Democracia?
Para mim, traço aqui a linha: o discurso que mostra outras perspectivas dentro de uma sociedade aberta e pluralista, mesmo que não concorde com ele, deve ser protegido. Mas o discurso que desumaniza e que exclui, o discurso que corrói as bases da sociedade democrática, deve ser alvo de escrutínio dos tribunais. Mesmo que apareçam personagens a dizer-se vítima de censura, e a lembrar o Fahrenheit 451...
Não é fácil, nunca é simples. Mas temos de estar atentos, em vez de nos socorrermos de fórmulas simplistas.
Ainda a propósito de Aguiar-Branco entender que, por respeito à liberdade de expressão dos deputados portugueses, não deve intervir quando algum deles insulta tudo e todos (à excepção dos presentes no hemiciclo): e se Dijsselbloem viesse dizer outra vez que os países do sul não podem andar a gastar o dinheiro em vinho e mulheres e depois ir pedir ajuda - protestávamos, como o Costa e o Santos Silva fizeram no tempo em que eram eles quem assumia a responsabilidade de proteger o bom nome de Portugal, ou também aceitávamos que não devemos impor ao presidente do Eurogrupo "a ditadura do politicamente correcto", e que temos de respeitar a sua liberdade de expressão?
E se de hoje para amanhã no Parlamento francês, no alemão, no suíço ou no luxemburguês, algum deputado deixar escapar, pelo meio do seu discurso, que "até os portugueses, que não são propriamente conhecidos pela sua honestidade..." - ninguém protesta, certo? Porque estamos obrigados a respeitar a sua liberdade de expressão...
(A resposta é: errado. Pelo menos no que diz respeito ao parlamento alemão, caía o Carmo e a Trindade. Aquele maldito artigo 1º da Constituição alemã, sobre a inviolabilidade da dignidade humana, aquelas baboseiras sobre a dignidade da instituição e sobre o papel de modelo para a sociedade que os deputados também têm de desempenhar, ai, uma canseira...)
No post anterior falei sobre o aceso debate suscitado pelas críticas à guerra de Gaza que foram feitas na cerimónia de encerramento da Berlinale. Há políticos responsáveis na área da Cultura a anunciar o fim de apoios financeiros a "artistas anti-semitas", há instituições a anunciar que vão rever os apoios de financiamento à Berlinale. Neste contexto de "crime e castigo" (sendo que o crime é uma acusação de "anti-semitismo" segundo critérios que poucos entendem), esta declaração de Carlo Chatrian e Mark Peranson aparece como uma lufada de ar fresco:
March 1, 2024
We have a great deal of respect for the institution we are working for and for the country that has hosted us for the last five years. The way Germany has handled its past and overcome it, becoming a leading country in supporting human rights and welcoming people in distress has been admirable, and that is one of the reasons why we have been so proud to work for the Berlinale. Knowing that our backgrounds don’t allow us to fully comprehend the complexity of people’s feelings and beliefs, we have always aligned with the festival’s decisions even when these were not exactly ours and at times did not go in the direction of what an international film festival should stand for.
The last days have made us aware of the great danger that the Berlinale, like other institutions in Germany, is facing. That’s why we dare to raise our voices. We stand for cinema, which doesn’t belong to any political party- it is neither right wing nor left wing. We believe in the power of cinema to unite people. This year’s festival was a place for dialogue and exchange for ten days; yet once the films stopped rolling, another form of communication has been taken over by politicians and the media, one which weaponizes and instrumentalizes anti-Semitism for political means. No matter our individual political convictions or beliefs, we should all keep in mind that freedom of speech is an essential part of what defines a democracy. The award ceremony on Saturday, February 24 has been targeted in such a violent way that some people now see their lives threatened. This is unacceptable.
We stand in solidarity with all filmmakers, jury members, and other festival guests who have received direct or indirect threats, and do not back down from any programming choices made at this ear’s Berlinale. We also take this opportunity to state that we deeply feel for the hostages still being held by Hamas, including former Berlinale guest David Cunio, and we call for an immediate release of all other hostages. We also feel for the lives of millions of people in Gaza; their lives are in danger. To the ones who say that it is either or, we want to remind you that sorrow is universal. Mourning the loss of human beings on one side doesn’t mean that we don’t mourn others’ losses too. Stating the opposite is simply dishonest, and shameful and polarizing behavior.
As festivalgoers and programmers, we truly hope that the Berlinale will stay a “window of the free world”. A place where any film can be shown. A place where any international guest can come without having their political views scrutinized. As Meron Mendel, director of the Bildungsstätte Anne Frank said when asked for comments regarding the award ceremony, “It would be wrong to describe all those who criticize Israel one-sidedly and sometimes with radical positions as antisemites…
Whether we like it or not, we have to learn to endure such debates!
Sobre a directora de uma escola primária na Florida, que - segundo afirmam os escandalizados - foi obrigada a demitir-se por ter mostrado uma imagem do David de Miguel Ângelo aos alunos, comecemos pelo mais simples: não foi por se ter mostrado aos alunos uma imagem dessa escultura que a directora da Tallahassee Classical School foi afastada, mas por não terem avisado os pais de que o iam fazer. Havia um acordo entre a escola e os pais sobre o procedimento em casos destes, e a escola não cumpriu.
Podemos discutir se o ensino da arte renascentista deve ser objecto de compromissos desse tipo com os encarregados de educação, podemos discutir se o castigo foi excessivo. Mas façamos um esforço para permanecer no plano dos factos, em vez de escorregarmos afincadamente na casca de banana que nos estão a estender.
Facto é que a Tallahassee Classical School é uma "charter school": uma daquelas escolas mais ou menos autónomas, financiadas pelo Estado mas fortemente influenciadas pelas comissões de pais. Em certos casos, como me parece ser o desta escola em concreto, trata-se de uma concessão do Estado a um grupo de pais conservadores. A alternativa seria as famílias optarem pelo home schooling, e as crianças ficarem inteiramente à mercê dos progenitores.
Sendo estas as regras do jogo, parece-me que é bem mais interessante discutirmos o contexto, em vez de embarcar numa informação dada de forma manipulada para excitar os ânimos e pôr o pessoal a uivar contra a censura, como se as regras tivessem de ser iguais no mundo inteiro e, obviamente, determinadas por nós.
Alguns comentários avulsos:
1. O que pensamos sobre a liberdade de cada um educar os filhos como muito bem entender? Será que a opinião consensual da sociedade sobre, por exemplo, a importância da Arte deve sobrepor-se à opinião de determinados progenitores sobre, por exemplo, o pudor ou a religião?
2. Nos EUA, o respeito pela liberdade individual é levado bem mais a sério que nas nossas sociedades europeias "de pensamento único" (para citar a expressão dos pais que procuram aquele tipo de escolas para proteger a sua própria diferença em relação ao consenso social). Dei-me bem conta disso no princípio deste século, numa escola primária privada, em San Francisco, quando assisti ao embaraço da professora da minha filha para justificar a existência de um poster com a teoria evolucionista de Darwin na sala de ciências. "Tenho aquele poster na parede", explicava ela, "mas também leio às crianças a história de um Deus sem mãos que criou o mundo". Como diria o outro: mas a Ciência, Senhor, porque lhe dás tanta dor?
3. Parece-nos algo longínquo e inteiramente alheio à realidade portuguesa? Lembremos o caso da disciplina de cidadania e do pai de Famalicão que usou os filhos para fazer um braço de ferro com o Estado português - vejo nele uma espécie de "Martim Moniz" de um grupo conservador que tenta invadir a escola pública para a coarctar no seu papel de construtora de coesão social e consenso sobre valores básicos.
4. Não tenho dúvidas sobre qual é o meu lado nesta disputa. Mas não posso ignorar que há outros lados, e que estão a exercer cada vez mais pressão na nossa sociedade, e que se não formos capaz de dar uma resposta inteligente vamos aumentar cada vez mais o fosso entre uns e outros.
5. Numa sociedade cada vez mais sensível às relações de força e de violência subjacentes ao discurso da maioria, achamos condenável que as escolas se comprometam a avisar os responsáveis de educação sempre que os alunos forem expostos a material que possa ser considerado ofensivo para alguns? É muito complicado e trabalhoso, mas a alternativa não é melhor: as crianças acabariam divididas por escolas que seriam verdadeiros guetos ideológicos, religiosos, étnicos, etc.
6. A hipersensibilidade de alguns pais da Florida perante a nudez daquela estátua de David faz-me sorrir, porque me lembra a visita de Hassan Rouhani a Roma, e o afã de cobrir algumas estátuas antigas para não provocar embaraço ao presidente do Irão. Na altura, essa decisão foi muito criticada segundo uma lógica de "nós" contra "eles". É um pequeno exercício de humildade darmo-nos conta de que também há disto do lado de cá, no nosso lado, esse a que chamamos "Ocidente moderno".
7. Mudando completamente de assunto: não sei como é com as outras pessoas, mas, nas duas imagens acima, só a de David em cuecas me faz olhar automaticamente para o resto do corpo. É assim que reparo mais depressa na beleza dos joelhos ou do seu six pack. Pergunto-me se é um reflexo condicionado do meu próprio pudor, que me desvia os olhos da roupa interior. Já a folha de figueira, os ramos com flores ou aqueles panos ridículos que contornam um dos lados das ancas e se aguentam como por milagre por cima dos genitais nas estátuas ou pinturas antigas têm o efeito contrário: hipnotizam-me a ponto de me esquecer de reparar no corpo que existe para além daqueles atavios.
Há tempos, fui verificar no dicionário alemão Duden os significados da palavra "Mischpoke", e deparei-me com isto:
"NOTA ESPECIAL - Na secção "significados" encontra uma nota especial sobre o uso desta palavra."
Na secção "significados", encontrei o seguinte:
"1. a família de alguém, parentes
Uso: normalmente pejorativo, e entendido como discriminatório
2. más companhias, grupo de pessoas desagradáveis
Uso: pejorativo
Exemplo: "mas que Mischpoke!"
NOTA ESPECIAL: O substantivo "Mischpoke" com os significados de "família, parentes" e "más companhias, grupo de pessoas desagradáveis" está historicamente muito associado a ideias anti-semitas. Geralmente é considerado discriminatório e por isso devia ser evitado a todo o custo no espaço público."
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Podiam ter explicado um pouco mais, mas explico eu, citando directamente da wikipedia em alemão:
Mischpoke é um termo iídiche baseado no hebraico מִשְׁפָּחָה ([miʃpa'χa] 'família'), que significa 'família, sociedade, parentesco'. O termo foi adoptado coloquialmente na língua alemã no início do século XIX com o significado pejorativo de " ralé, bando de ladrões".
Enquanto o termo é usado em iídiche de forma neutra em termos de valor, em alemão a palavra tem frequentemente um significado pejorativo.
Em suma: eis aqui uma obra do anti-semitismo no seu esplendor. Pega-se numa palavra que os judeus usam para designar a família ou grupos sociais, e introduz-se na língua alemã com um cunho pejorativo.
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Parece-me muito bem que o dicionário não apague a palavra, mas acrescente informação sobre o anti-semitismo que está na base do significado que lhe é atribuído em alemão.
E gostava que - para contribuir para um espaço público mais civilizado e respeitador da dignidade de todos - os dicionários do nosso tempo fizessem o mesmo com todas as palavras misóginas, racistas, xenófobas, anticiganistas, anti-semitas, homofóbicas, etc., que usamos sem nos apercebermos realmente do que estamos a dizer. Não "proibir" o seu uso, mas informar sobre a origem e o peso das palavras, para que cada um decida livremente que palavras quer usar e que imagem quer dar de si próprio em público.
Alguém faça o favor de avisar os choramingas da direita portuguesa que repetem cada vez mais alto aquela ladainha de "ai, estamos cercados, ai acudam, que isto é o fim do mundo", para eles reajustarem a narrativa.
Estamos cercados, sim, mas pelos vistos é de parte a parte. E parece que os wokes e os tais fanáticos do politicamente correcto nem sequer são os mais poderosos nesta triste história de censura.
Por mim, que hoje acordei liberal, era permitir os livros todos, com avisos na primeira página sobre as críticas que determinado grupo lhe faz:
- "A associação SOS Racismo alerta para o conteúdo racista deste livro." (ou para os elementos estruturalmente humilhantes da língua, tais como exemplo a e exemplo b)
- "A FEM alerta para o contexto de machismo estrutural deste livro, e para a existência de passagens humilhantes para as mulheres."
- "O Conselho Judaico Y alerta para passagens deste livro que reforçam preconceitos antisemitas."
- "O Episcopado português considera que este livro desrespeita a religião."
- "A Faculdade de Ciências X informa que este livro, que pode parecer científico para os mais incautos, não o é. Quem estiver interessado em informações sérias sobre o assunto, pode consultar as obras x, y e z."
- "O grupo MGTOW xpto informa que este livro dá uma ideia positiva das mulheres."
- "O Chega avisa que neste livro se promove a ideia de que as pessoas de etnia cigana são seres humanos de dignidade inviolável."
- "A Associação Terraplanista de Confins da Ponta considera que este livro promove leis da Física incompatíveis com as teorias daquela Associação."
- "O Movimento Menino Veste Azul e Menina Veste Rosa informa que este livro troca os conceitos todos e pode provocar confusão na mente das crianças, ou mesmo despertar nelas ideias contra natura."
(Só seria mais complicado com a Bíblia, que ia ter uma dúzia de páginas de avisos, por conter tudo, e de tudo também o seu contrário.)
Por causa dos identitários, dos wokes, e sei lá de que mais gentes que se lembraram de nos vir questionar os hábitos, ouve-se muito o queixume de que agora já não se pode brincar com nada, porque há sempre alguém que se sinta ofendido.
Oh, como os compreendo! É que dá imenso trabalho, 1. abrir os olhos para o contexto da vida dos outros; 2. abrir os olhos para o modo como, do mais fundo da ignorância que nem nos damos conta que temos (como é da própria natureza da ignorância), mantemos vivo o discurso instalado de micro (ou macro) agressões que eterniza o mal-estar de alguns; e 3. renunciar a fazer piadinhas que nos parecem muito engraçadas.
É nesse processo que me encontro. Sobre o sofrimento daqueles que não pertencem ao que é sentido por todos como o "standard" da nossa sociedade, pouco sei. Tento abrir os olhos, a inteligência e a sensibilidade. Sei que me é impossível entender realmente como é a vida deles.
E tenho a certeza que quem se queixa de já não poder brincar com nada se lamuria assim porque também está apenas no início deste processo de tomada de consciência.
Para agilizar um pouco o processo, proponho uma experiência à escala nacional:
1. Combinamos que durante esses seis meses, o novo neutro gramatical é feminino: as trabalhadoras das empresas em vez de os trabalhadores, as funcionárias públicas em vez de os funcionários públicos, as alunas em vez de os alunos de uma escola. Se numa sala houver 99 homens e 1 mulher, fala-se em "elas". Um governo com seis ministros e seis ministras reune em conselho de ministras. Se virmos ao fundo da rua vários homens e uma cadela, dizemos que "elas estão a chegar".
Isto, para começar, só para desinstalar um bocadinho.
2. Durante esses seis meses, tratamos os homens brancos sis com mais de quarenta anos como "homens velhos brancos". É fácil: basta comentar tudo o que dizem com um "pfffff... isso é mesmo típico de homem velho branco sis."
E as mulheres?, perguntarão. Coitadas das mulheres! Para além de terem de suportar a falta de paridade salarial e de acesso a cargos de topo, os comentários sexistas e a menção à sua histeria natural, ainda vão sofrer imenso ao verem tratar os pais, os maridos, os filhos e os irmãos com esta falta de respeito. Sofrem por interposta pessoa, também aprendem.
Depois, daqui a seis meses, voltamos a falar sobre esses chatos dos identitários, dos wokes, dos snowflakes, e revemos a queixa "ai que chatice, as pessoas sentem-se ofendidas com tudo e com nada".
(Foi um sonho de uma noite de verão, deixem estar, daqui a nada passa-me.)
Muito se fala da "cancel culture" que constitui um risco terrível para pessoas que "inadvertidamente" incorrem na fúria de grupos "que impõem o pensamento único" e fazem tudo o que podem para lhes destruir a existência.
Antes de falar dessa "cancel culture" das minorias, deixem-me mostrar o outro lado da questão: a maioria também tem "cancel culture", e exerce-a com o à-vontade que lhe é permitido pela "ordem natural das coisas". E o mais grave é que nem se dá conta disso.
Trago três exemplos:
1. "Em setembro de 2000, (...) Manuel Serrão publicou um artigo no jornal "O Jogo" com o título "Calado que nem um melão" em que, para atacar e achincalhar o clube seu adversário (e também meu...), o Benfica, insinua que o seu capitão é gay e tem uma relação com um melão.
Dias depois, em 14 de setembro, o defunto pasquim "O Crime" publica uma "notícia" com o título "Um grego calado com cabeça de melão", em que, com base no artigo do Serrão, diz abertamente que José Calado, capitão do Benfica, tem uma relação homossexual com o cantor Melão, membro da então famosa boysband "Excesso".
Lançado o boato, nada mais o faz parar e a vida destes dois homens passa a ser um inferno.
Melão, que era um ídolo das teenagers amorangadas e iniciava uma carreira a solo, passa a ser gozado e insultado em todo o lado e, inclusive, num espetáculo para estudantes de Coimbra (!!), abandona o palco à terceira canção porque já não consegue aguentar a constante berraria daqueles futuros "doutores". Viu vários espetáculos cancelados e praticamente deixou de ser contratado.
José Calado, passou a ser conhecido por "Capitão Gay" e a sua vida um pesadelo, atacado por adeptos adversários quando as coisas lhe corriam bem e por benfiquistas quando lhe corriam mal.
No dia 2 de outubro de 2000, durante um jogo no estádio da Luz, em que o Benfica perdia por 1-0, os insultos e piadas a José Calado foram de tal dimensão que ele abandonou o campo ao intervalo, o que lhe valeu um processo disciplinar, a perda da braçadeira de capitão, a saída do Benfica e o início de uma rampa descendente na carreira.
Ambos, como é natural, tinham família, pais, irmãos, companheiras, amigos e todos esses foram também vítimas desse pesadelo perpetuado, sem nenhum peso na consciência, por centenas de milhar de pessoas que se pensam de bem.
Na verdade, quem destruiu a carreira e quase arruinou a vida destas duas pessoas, não foram o Serrão nem o pasquim "O Crime", foram todos aqueles que, sem pensar nas consequências, foram gozando com o boato, que para muitos deles era apenas uma brincadeira mas para pessoas concretas era um pesadelo.
Mas é melhor estar calado, porque é mais do que evidente que somos um país de brandos costumes, nada homofóbicos nem racistas..."
[Autor: António Moreira]
2. "Doutor Freud, que memórias lhe poderei descrever? Voltar aos três anos e à queda do muro da eira, empurrado pela vizinha, mulher adulta? Ou prefere que lhe conte o apego a um brinquedo quando tinha quatro anos?
Doutor Freud, ao contrário de muitas crianças, como deve saber tão bem, nunca tive muitos brinquedos e todos os que havia lá em casa, uns de metal e outros já em plástico, eram herança das primas e dos primos que viviam na cidade grande. Lembro-me que descobri, num caixote de papelão pardo, uma boneca sem um braço, com um vestido todo rasgado e os lábios pintados com esferográfica vermelha; confesso que senti pena daquele brinquedo e adoptei-o.
Doutor Freud, tomei conta e brinquei com aquela boneca até aos oito anos; ao contrário de muitos meninos que corriam atrás de uma bola, eu embalava e contava estórias a uma boneca sem um braço - lá fora os miúdos chamavam-me 'mariquinhas' e 'menina'.
Inquietantes aquelas palavras que, de vez em quando, ainda entram nos meus sonhos e se transformam em monstros, capazes de devorar a vida."
[Autor: Joaquim Carreira]
3. No Alentejo, há meia dúzia de anos, procurava um restaurante para almoçar com um grupo de amigos, entre os quais uma mulher com pele escura. Quando lhe propus entrarmos num restaurante para ver se tinham lugar, respondeu-me que era melhor ser o marido (de pele branca) a entrar comigo. Se fosse ela, o mais provável era dizerem que não tinham lugar. "Já estou habituada" - rematou. Podia acrescentar que esta minha amiga é mais inteligente, mais culta, mais educada e mais bonita que eu. E lembrar a história de quando o Nelson Évora, "a quem Portugal tanto deve", foi impedido de entrar num clube. Mas esse seria um discurso armadilhado, porque normaliza a ideia de que as pessoas dos grupos que a maioria cancela por sistema e sem se dar conta têm de ser mais do que nós para terem os mesmos direitos.
Se me parece bem o cancelamento de uns para alertar para o cancelamento de outros? Não. Mas a mim é que não apanham a choramingar que "já não se pode dizer nada". Pelo menos, enquanto tiver noção do meu privilégio, e do ridículo em que incorro.
Por acaso agora estava a pensar: o resto do mundo não devia bloquear a saída de representantes da Rússia para eventos culturais ou desportivos. Muito pelo contrário: venham todos, quantos mais, melhor!
Mas antes do seu evento, tinham de assistir a um filmezito de duas horas, ou assim, sobre o sistema Putin e o que está a fazer agora na Ucrânia.
(Como se faz em Berlim, naquele bunker nazi para turistas: antes de chegarem à salinha que recria o escritório de Hitler, levam noventa minutos de informação sobre o que foi o III Reich. Não há cá almoços grátis... )
Vem isto a propósito de notícias que andam por aí, corroboradas pelo que me contaram os meus vizinhos russo/ucraniana: é impossível conversar com os amigos russos e até com os próprios familiares ucranianos na Rússia, porque todos estão firmemente convencidos que Putin está a lutar contra os nazis na Ucrânia, e os bombardeamentos das cidades é fake news.
(E uma nota à margem sobre o PCP: se até ucranianos a viver na Rússia dão um desconto enorme ao que lhes contam os seus próprios familiares a viver abrigados em bunkers e em estado de desespero absoluto, percebe-se um pouco melhor que um partido como o PCP também tenha dificuldade em encarar a realidade e reagir adequadamente a ela.)
Entretanto ocorreu-me que o resto do mundo não devia bloquear a saída de representantes da Rússia para eventos culturais ou desportivos. Muito pelo contrário: venham todos, quantos mais, melhor!
Mas antes do seu evento, tinham de assistir a um filmezito de duas horas, ou assim, sobre o sistema Putin e o que está a fazer agora na Ucrânia.
(Como se faz em Berlim, naquele bunker nazi para turistas: antes de chegarem à salinha que recria o escritório de Hitler, levam noventa minutos de informação sobre o que foi o III Reich. Não há cá almoços grátis... )
Vem isto a propósito de notícias que andam por aí, corroboradas pelo que me contaram ontem os meus vizinhos russo/ucraniana: é impossível conversar com os amigos russos e até com os próprios familiares ucranianos na Rússia, porque todos estão firmemente convencidos que Putin está a lutar contra os nazis na Ucrânia, e os bombardeamentos das cidades é fake news.
(E uma nota à margem sobre o PCP: se até ucranianos a viver na Rússia dão um desconto enorme ao que lhes contam os seus próprios familiares a viver abrigados em bunkers e em estado de desespero absoluto, percebe-se um pouco melhor que um partido como o PCP também tenha dificuldade em encarar a realidade e reagir adequadamente a ela.)
A declaração de Tugan Sokhiev na sua página de facebook lembra uma tragédia grega.
Mas sai de cabeça levantada. E - no terreno dos danos colaterais (porque a verdadeira tragédia, convém ter isso sempre presente, está a acontecer na Ucrânia) - deixa bem claro o que estamos a perder todos.
Trago da sua página:
I know that many people were waiting for me to express myself and to hear from me my position on what’s happening at the moment.
It took me a while to process what is happening and how to express those complex feelings that the current events provoked in me.
First of all I need to say most important thing: I have never supported and I will always be against any conflicts in any shape and form. For some people even to question my desire of peace and think that me, as a musician could ever speak for anything other than Peace on our planet is shocking and offensive.
During various catastrophic geopolitical events our humanity faced during last twenty years of my career, I always remained with my fellow musicians and we always, together, shown and expressed the support and compassion for all the victims of those conflicts. This is what we musicians do, we express things with music, we say emotional things with music, we comfort with music those who need it. We musicians are the lucky ones to be able to speak this international language that can sometimes express more than any words known to civilisation.
I am always very proud to be a conductor who comes from such a rich cultural country as Russia and I am also very proud to be part of rich french musical life since 2003. This is what music does. It connects people and artists from different continents and cultures, it heals souls across the boarders and gives hope for peaceful existence on this planet. Music can be dramatic, lyrical, funny, sad but never offensive! This is what my very fruitful partnership with great Toulouse orchestra has proved. This is what my fantastic ensemble of Bolshoi Theatre was showing me every time I conducted performances with them in Russia or on tour in Europe. Both in Toulouse and in Bolshoi Theatre I regularly invited Ukrainian singers and conductors. We never even thought about our nationalities. We were enjoying making music together. And it still remains the case. This is why I started Franco-Russe festival in Toulouse, to show everyone that people of France and Russia are connected historically, culturally, spiritually and musically and that I am proud of this connection between our two great countries that I love. This festival is being opposed today by the politicians and administrators in Toulouse. What a shame. And they want me to express myself for peace! I believe that this festival can achieve more in building bridges than political words.
During last few days I witnessed something I thought I would never see in my life. In Europe, today I am forced to make a choice and choose one of my musical family over the other.
I am being asked to choose one cultural tradition over the over.
I am being asked to choose one artist over the other.
I am being asked to choose one singer over the other.
I will be soon asked to choose between Tchaikovsky, Stravinsky, Shostakovich and Beethoven, Brahms, Debussy. It is already happening in Poland, European country, where Russian music is forbidden.
I cannot bare to witness how my fellow colleagues, artists, actors, singers, dancers, directors are being menaced, treated disrespectfully and being victims of so called “cancel culture”. We as musicians are given extraordinary chance and mission to keep human race kindhearted and respectful to each other by playing and interpreting those great composers. We musicians are there to remind through music of Shostakovich about horrors of war. We musicians are the ambassadors of peace. Instead of using us and our music to unite nations and people we are being divided and ostracised.
Because of everything that I have said above and being forced to face the impossible option of choosing between my beloved russian and beloved french musicians I have decided to resign from my positions as Music Director of Bolshoi Theatre in Moscow and Orchestre National du Capitole de Toulouse with immediate effect. This decision should confirm to everyone concerned that I am a very lucky person, to be able to know Bolshoi Theatre artists and Toulouse orchestra musicians. It is always a privilege to make music with all wonderful artists from those two institutions and I will always stand by them as MUSICIAN!!!!!
Depois de escrever o post anterior, "o regresso do McCarthysmo?", li alguns artigos em alemão sobre o caso Gergiev. Há quem critique o seu afastamento do mundo cultural alemão, e há quem o defenda. Partilho agora uma dessas defesas, um artigo de opinião de Friedrich Geiger no Spiegel (aqui, artigo pago). Friedrich Geiger é professor de História da Ciência Musical, e especialista do tema "Música e Ditaduras"
O sonho da música apolítica
"Será correcto cancelar agora em grande escala artistas próximos de Putin? Não necessariamente. Mas no caso Waleri Gergiev é muito claro: uma Democracia tem de se proteger quando alguém abusa deliberadamente da música para fins de propaganda."
Síntese:
O caso Fürtwangler já nos ensinou que é ingénuo pensar que é possível fazer música de forma apolítica num contexto de ditadura - quando, por exemplo, tocou uma abertura de Wagner numa sala cheia de bandeiras nazis.
E a função do maestro Gergiev no sistema Putin tem muitos paralelos com a Fürtwangler no sistema nazi - embora, obviamente, a Rússia de Putin não seja de modo algum comparável à Alemanha de Hitler.
Ao contrário de Fürtwangler, que fez algumas tentativas para se demarcar dos nazis (por exemplo, defendeu o compositor Paul Hindemith), Gergiev tem vindo a encenar com música uma ideologia agressiva da Grande Rússia, que proclama abertamente a sua supremacia na Europa, além de declarar abertamente o seu apoio a Putin.
O objectivo da "Valery Gergiev Foundation" é "aumentar a influência cultural da Rússia no mundo".
Exemplo da articulação perfeita entre a política de Putin e a propaganda cultural imperialista de Gergiev foi o "Concerto dos Vencedores", no verão de 2008 numa região ocupada da Geórgia. Tocou a Sinfonia de Leninegrado, composta por Schostakowitsch em 1941 durante o cerco a Leninegrado como apelo à resistência contra as tropas nazis. Na Geórgia, a escolha desta peça sugeria uma leitura oposta aos factos, a mesma que Putin hoje dá à invasão da Ucrânia (para alegadamente a libertar dos nazis que a ocupam), e foi antecedida por um cínico discurso de Gergiev, no qual ele dedicava o concerto às vítimas dos georgianos (!).
Também participou numa carta aberta, em Março de 2014, que aplaudia não apenas a anexação da Crimeia mas também a "atitude do presidente da Federação Russa em relação à Ucrânia".
Isso já seria motivo de sobra para não poder tornar-se Maestro da Orquestra Filarmónica de Munique. E foi um erro ter-lhe renovado o contrato.
Mas é preciso aprender com os erros, em vez de persistir neles.
Manter Gergiev à frente daquela orquestra era usar impostos dos contribuintes alemães para financiar a propaganda de Putin no estrangeiro, e simultaneamente continuar a sonhar o sonho da música apolítica que, como se viu com Fürtwangler e outros, teve aquele desfecho.
Imagine-se a orquestra de Munique - cidade geminada com Kyiv - a tocar a Sinfonia de Leninegrado no próximo dia 12 de Maio, como estava planeado. Georgia reloaded. Quem conseguiria e quereria ouvir esse concerto de consciência tranquila?
A questão de Gergiev não se põe ao nível da liberdade de expressão. E é preciso ter cuidado para não cancelar todo e qualquer artista russo. Tanto mais que é temos de olhar para o que significa, para os artistas que vivem sob uma ditadura, serem forçados a distanciarem-se dela. E perguntar-nos também se isso faz sentido, ou se se destina apenas a alimentar a nossa boa consciência.
Mas o caso Gergiev é muito diferente, porque este maestro abusa da música para fins de propaganda, e fá-lo não por obrigação mas por convicção ao serviço de uma loucura ideológica, profundamente desumana, que ameaça a existência do mundo livre. Ele trabalha para um déspota que se está nas tintas para a liberdade de expressão e para a população ucraniana que bombardeia neste momento.
Como disse Popper, que o aprendeu em 1945 a partir da História, "tolerância ilimitada conduz necessariamente ao fim da tolerância". Isto também é válido para artistas, e por isso a Democracia deve defender-se deles, em vez de lhes pagar ainda por cima.
A Orquestra Filarmónica de Munique rescindiu com efeitos imediatos o contrato com o seu maestro Gergiev, por estar demasiado próximo de Putin, e não ter tomado uma atitude pública de condenação da invasão da Ucrânia. A Anna Netrebko também foi forçada a fazer uma declaração - e fez, depois de alguma hesitação, mas protestou contra a pressão que estão a exercer sobre os artistas russos. Pouco depois, cancelou todos os seus concertos.
Petrenko, o maestro dos Filarmónicos de Berlim, tomou imediatamente uma posição pública contra a invasão. Mas para ele não deve ser uma decisão particularmente difícil e delicada, porque já há muito tempo que a Europa ocidental é a sua casa.
Confesso que estes cancelamentos me incomodam imenso.
- Primeiro, o eco da era McCarthy: vamos exigir declarações de todos os criadores de cultura russos, vamos passar a vida deles a pente fino? Vamos obrigá-los a escolher um dos lados da cerca que não construíram e em muitos casos nem sequer desejaram?
(Transponho para a realidade do Portugal salazarista: como seria um escritor, um músico ou um pintor português ser obrigado em todo o Ocidente a tomar uma posição pública contra Salazar, sem a qual não poderia trabalhar fora do seu país?)
- Segundo, a hipocrisia: quando a Orquestra Filarmónica de Munique contratou Gergiev, já este tinha publicado uma carta de apoio à invasão da Crimeia. Só agora descobriram que ele tinha uma posição política contrária aos nossos valores?
De notar que, desta vez, ele não tomou uma posição pública de apoio à invasão. Limitou-se a ficar calado - e isso já foi motivo para despedimento.
Este gesto de encurralar alguém que preferia manter-se em silêncio é-me especialmente custoso. Compreenderia, se se tratasse de um general ou um ministro de Putin - mas é apenas um maestro.
- Terceiro, a crueldade: para muitos destes artistas, o centro da sua vida é a Rússia. Um país sufocado por um ditador que aprendeu tudo no KGB. Exigir deles um distanciamento público de Putin equivale a obrigá-los a decidir entre continuar a viver e trabalhar na Rússia, ou nunca mais lá voltar. Não é uma hipótese teórica, já acontece. O escritor Wladimir Kaminer, por exemplo, não pode regressar a Moscovo, onde nasceu, devido às posições públicas que tem tomado contra Putin. Quer dizer: poder, pode... Como ele próprio disse há tempos numa entrevista, "a Sibéria é grande, há espaço para todos".
- Quarto, o empobrecimento cultural que resulta das exigências fanáticas que impomos aos famosos. Os criadores de cultura não são seres perfeitos. Têm os seus contextos e as suas contradições como qualquer um de nós.
Quando cancelarmos Wagner por ser anti-semita, e Picasso por ser machista, e Polanski por ser pedófilo, e Meryl Streep por ter aplaudido Polanski, e Cristiano Ronaldo por causa daquilo em Las Vegas, e Netrebko por não se distanciar de Putin, o que nos vai restar? Provavelmente pouco mais que os youtubes de crianças de 3 anos a cantar, pintar, tocar instrumentos e dançar. E é enquanto não aparecer nenhum filme onde elas dão um empurrão a outra criança no escorrega.
ADENDA: Escusado será dizer que eu vaiaria aos gritos e abandonaria a sala de concertos onde Gergiev afirmasse que acha muito bem o que Putin está a fazer na Ucrânia, e a sala de cinema onde Polanski aparecesse a dizer que não vê nada de mal em ter sexo com menores, etc.
Quando andava à procura de trabalhos do Vasco Gargalo para escrever os
dois posts anteriores deparei com este, alusivo ao escândalo provocado
pela abstenção de Joacine Katar Moreira no Parlamento relativamente ao
voto apresentado pelo PCP de "condenação da nova agressão israelita a
Gaza e da declaração da Administração Trump sobre os colonatos
israelitas".
Este cartoon aparece em inúmeros sites de combate ao
anti-semitismo, acompanhado por comentários irados. É óbvio que as
pessoas não conheciam os factos a que o cartoon aludia, e fizeram uma
interpretação primária, com base nas suas experiências pessoais e na convicção prévia de que Vasco
Gargalo é anti-semita. Um desses críticos chegou a ler neste cartoon uma
acusação de que os judeus torturam os negros.
Um trágico mal-entendido, que me fez sentir uma enorme empatia por Vasco Gargalo: cercado de ódio devido a interpretações erradas de um desenho que só faz sentido no contexto de um determinado momento da vida política portuguesa.
Também entendo facilmente que esse desenho tenha sido mal interpretado. É que - mais uma vez - insere-se numa construção imagética anti-semita por demais conhecida: a vítima no centro da imagem, rodeada por judeus. Exemplo disso são desenhos insinuando que os
judeus faziam sacrifícios humanos, maltratavam os seus criados e eram sádicos com os animais.
(Representação do alegado ritual de sacrifício de Simão de Trento em 1475,
da Crónica Mundial de Hartmann Schedel de 1493)
(Página do livro "o Cogumelo Venenoso" - tradução para inglês aqui)
Apesar de não haver a menor intenção de anti-semitismo naquele cartoon, a
imagem de uma negra vestida de palhaça (o símbolo do Livre é desconhecido no plano internacional) e crucificada numa estrela de
David tem tudo para ser mal entendida e, pior, tem tudo para se instalar
na memória colectiva do anti-semitismo como mais um exemplo da perfídia
dos judeus.
(A sério: pobre Vasco Gargalo!)
Como evitar mal-entendidos como este?
O primeiro passo é tomar consciência de que estamos perante um povo que tem vivido com teorias de conspiração como libelo constante na sua história milenar - desde a morte de Jesus Cristo aos Protocolos dos Sábios de Sião, passando pela peste negra que seria resultado do envenenamento dos poços de água dos cristãos. E que, por isso mesmo, reage com particular sensibilidade a tudo o que possa parecer uma acusação.
O segundo passo é ter consciência de que todos os elementos alusivos ao povo judeu são material explosivo, e redobrar as cautelas.
Depois, fica com a consciência de cada artista decidir se quer correr o risco de criar material que possa enriquecer o arsenal dos anti-semitas, e de ser considerado como um deles.
Amanhã vai haver uma marcha em Berlim contra o anti-semitismo e o racismo. Muito simbolicamente começa na Bebelplatz: a praça no centro de Berlim - entre a universidade, a biblioteca, a ópera e a catedral católica - onde os nazis queimaram os livros em 1933.
Alguns dirão: pois, lá está - queixam-se da fogueira de livros dos nazis, mas querem fazer o mesmo. Querem impedir os outros de dizer o que pensam.
Quem assim fala ainda não percebeu que não se trata de uma questão de simetria. "Racismo" e "respeito pelo ser humano" não são opiniões de valor igual e que merecem igual respeito. Não é uma questão de concordar em discordar, e muito menos de tentar encontrar um consenso - trata-se de respeitar valores básicos para a coexistência pacífica entre todos.
Lembram-se do Walter Lübcke, o político que foi assassinado este ano? Eis a história completa (pode-se ler mais aqui e aqui, em alemão): em 2015, na altura em que os refugiados sírios entravam no país aos milhares por dia, foi necessário criar rapidamente centros de acolhimento para todas essas pessoas. Em cada região foram identificados edifícios devolutos que pudessem ser usados para esse fim, e fizeram-se sessões de esclarecimento com os cidadãos. Numa dessas sessões, no dia 14.10.2015, Walter Lübcke tentava explicar às pessoas o que ia ser feito, mas o seu trabalho estava a ser muito dificultado por agitadores de extrema-direita que se tinham espalhado por toda a sala, que o interrompiam gritando "Estado de merda" e "governo de merda" e atiravam perguntas provocatórias e polémicas. A certo momento, Walter Lübcke louvou o trabalho das escolas, do voluntariado e das instituições que trabalham em conjunto para transmitir os valores essenciais desta sociedade, disse que dá gosto viver num país que se identifica com eles, e - irritado com os gritos e as provocações - rematou: "e quem não defende estes valores, está à vontade para se ir embora do país se não concordar". O vídeo deu a volta pela internet com títulos como "ser alemão não é crime". Quatro dias depois festejava-se em Dresden o primeiro aniversário da Pegida, e um dos oradores comentou, a propósito deste incidente, que haveria com certeza outras maneiras de tratar os alemães que não concordam com a política de integração, mas infelizmente os campos de concentração estavam momentaneamente fora de serviço. Mais tarde foi obrigado a pagar uma multa por discurso de ódio. Entretanto, um vídeo manipulado (onde se ouve esta frase sem o contexto provocatório em que ocorreu) multiplicava-se pela internet, acompanhado por inúmeros comentários violentos. O blogue "Politicaly Incorrect" publicou a morada, o número de telefone e o endereço de e-mail de Walter Lübcke. Ao longo dos anos seguintes, políticos de extrema-direita divulgaram este vídeo repetidamente numa estratégia de auto vitimização. Até que no dia 2 de Junho de 2019 um homem se dirigiu à casa de Walter Lübcke e o matou com um tiro. Era o homem que no fim deste vídeo se ouve a gritar "Verschwinde!) ("desaparece!") A notícia do assassinato do político foi acolhida em certas partes da internet com comentários de júbilo: "uma ratazana nojenta a menos!", "agora só faltam os outros todos", "a guerra ainda mal começou".
Aqui está o comunicado do convite para a manifestação de amanhã em Berlim, em inglês. Sublinhados meus.
#KeinFussbreit (= não ceder)
Antisemitism and racism kill. Right wing terrorism is threatening our society.
The right-wing terrorist attack in Halle leaves us stunned and makes us angry. We commemorate the victims. Our thoughts turn to all members of the Jewish community, all affected people, relatives of the victims in and around the snack bar and at the further targets of the attack, as well as to all those who have long since ceased to feel safe.
Two people were killed in the terrorist attack. The members of the Jewish community have only just escaped a massacre. By now it is evident, that the perpetrator acted based on antisemitic and racist motives. He may have committed the crime alone, he is therefore not a lone perpetrator - the crime stands in the following context:
• Jews, Muslims, People of Colour and all those who don’t fit into the inhuman conception of the world of the (extreme) Right, can no longer feel safe and secure • More than 200 people have been killed by right-wing violence since 1990 in Germany • Consolidated militant Nazi structures, the NSU network and right-wing networks in German security agencies • Lack of willingness to elucidate and bring about justice, as recently experienced in the NSU Complex and in other radical right acts of violence • An unceasing trivialisation of the right-wing danger and a defamation and obstruction of democratic, civil society and antifascist engagement • and an advancing normalisation of antisemitic, racist and inhuman mindset in parliaments, media and the general public
We view this act as an attack on our society! A society in which we are committed to defend social and human rights and in which all people should be able to live a self-determined life free of fear.
Antisemitism, racism and any form of group-based discrimination are not mere opinions that a democratic society must endure. They lead to inhumanity, humiliation, discrimination and violent crime. We stand united and oppose this resolutely. In this difficult hour, we stand together in solidarity and above all: indivisible! We demand a consistent and complete resolution of all right-wing criminal acts of violence! We call on everyone to show solidarity! We will not allow ourselves to be played off against each other. Together we express our grief, anger and compassion. On Sunday, October 13th we will walk from the Bebelplatz in Berlin-Mitte to the New Synagogue in the Oranienburger Straße.
This call was initiated by people, activists and organisations from the #Unteilbar alliance. We invite all people, groups and alliances who are committed to the demands and principles of the call to join us. The demonstration was registered together by #unteilbar and the Jewish Forum for democracy and against antisemitism – JFDA.
Traduzo e partilho aqui algumas frases importantes do debate que neste momento decorre na Alemanha sobre o poder das palavras e a violência de extrema-direita, no contexto da tentativa de massacre numa sinagoga alemã a 9.10.2019.
Destaco uma delas, que é um elemento fundamental neste debate:
"Em Halle houve um atentado realizado por um homem só, mas que não estava
sozinho. O simples facto de ter um capacete com uma câmara revela que
estava a comunicar com um público real na internet."
Um atirador a filmar um massacre em directo para a internet mostra que esta é muito mais que apenas um espaço de opinião. O lugar de verbalização é simultaneamente o lugar de formação de comunidades de tal modo sólidas que há quem decida criar factos (massacres!) para servir o sangue de que essa comunidade se mostra sedenta.
Se isto não é um convite - melhor dizendo: um ultimato! - a repensarmos todas as nossas teorias sobre a liberdade de expressão, não sei que mais será necessário para finalmente abrirmos os olhos.
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Dirk Kurbjuweit: Há espaços do pensamento e da fala que estão ou abertos ou fechados. É melhor que alguns fiquem fechados, porque entrar neles é indecente ou, por vezes, perigoso. Nos últimos anos políticos da AfD têm feito muito para abrir dois destes espaços e atrair outros para entrarem neles. Esses dois espaços de pensamento estão ligados a este atentado. O primeiro é o desprezo e a falta de consideração por quem é entendido como "outro". (...) O segundo é a banalização do nacional-socialismo. (...) Abriu-se de novo um espaço no qual já não é tabu dirigir um olhar suave ou aprovador ao período mais terrível da História alemã, um período de assassínios em massa. O atacante de Halle movia-se nestes dois espaços, que estão ligados: há algumas coisas boas no nazismo, acredita que o Holocausto é um boato, os judeus são para ele "os outros", que ele odeia. E então, fez algumas armas e começou a disparar. Estes espaços já existiam antes da AfD. Umas vezes as portas estavam mais bem fechadas, outras vezes pior. De momento estão escancaradas, e tem muito a ver com a AfD. É esta a responsabilidade deste partido no atentado de Halle.
Marina Weisband: Nós começamos por falhar na tarefa de impedir a violência verbal. Na internet, no parlamento, em debates na televisão. (...) Há que lutar contra a teimosia de afirmar que o anti-semitismo é sobretudo muçulmano - não aceito que as minorias sejam jogadas umas contra as outras. (...) O nosso inimigo é o ódio. Não lhe podemos dar palco."
Max Czollek: A seguir ao ataque, Annegret Kramp-Karrebauer falou em "sinal de alarme". Mas isto não é um caso de alarme, isto é uma catástrofe. "Sinais de alarme" era quando deixavam metades de porco em frente a sinagogas, quando ofendiam pessoas nas ruas, e quando um político disse que o III Reich não passou de uma caganita de pássaro na História alemã. Aquilo a que agora assistimos é a tempestade sobre a qual temos andado a avisar. Nós, os que andámos há anos a chamar a atenção para o perigo do terrorismo de direita: os sinais que recebemos da célula neonazi NSU, do assassinato de Walter Lübcke, dos êxitos da AfD, da caça ao homem em Chemnitz e dos centros de refugiados em chamas. (...) Em Halle houve um atentado realizado por um homem só, mas que não estava sozinho. O simples facto de ter um capacete com uma câmara revela que estava a comunicar com um público real na internet. O nazismo e o ódio, que passam facilmente da cruz eleitoral para a aniquilação do "outro" são parte deste país. (...) Os judeus também estão no radar destes novos-antigos racistas. Quem quer uma Alemanha sem muçulmanos também a quer sem judeus. (...) A nossa direita, da qual a AfD é um sintoma, representa uma ameaça para todas as pessoas que não forem entendidas como "alemãs". (...) A ideia de que o antifascismo e o antiracismo são elementos básicos do interesse nacional da Alemanha após 1945, ou seja, que a esquerda e a direita não estão à mesma distância do centro político pós-nacional-socialismo, não corresponde à atitude política actualmente dominante. Mas devia. Porque se, em 2019, este país não se baseia num consenso antifascista - então, não sei em que se pode basear.
Hoje ensinaram-me a descarregar vídeos, experimentei alguns programas e depois passei mais umas boas horas a pôr as legendas em português.
Estou a ter muito trabalho com esta peça, mas ela merece-o: eis o jornalismo que assume o seu papel de esteio fundamental da Democracia e de uma sociedade com sentido de decência.
(Se as legendas não aparecerem automaticamente, basta carregar na respectiva caixa, na base do filme.)
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Entretanto, se quiserem saber mais detalhes do que aconteceu ontem (sintetizando e traduzindo rapidamente do Spiegel):
O atacante gravou tudo num vídeo de cerca de meia hora. Inclusivamente os tiros e as pessoas a morrer. Ou as tentativas de arrombar a sinagoga, as exclamações "fuck!" e o nome "loser" que chamou a si próprio. Carregou um Golf alugado com armas e explosivos, matou um homem e uma mulher, feriu outras pessoas, foi ferido pela polícia mas conseguiu fugir. Passou do seu carro para um taxi, e foi apanhado na sequência de um acidente provocado por ele.
Na internet foi encontrado um manifesto com o plano detalhado do ataque, que se acredita ser autêntico. Estava num fórum da extrema-direita. O manifesto anuncia que ele pretende matar "de preferência" judeus.
Stephan B. vive com a mãe em Benndorf, os vizinhos dizem que é muito reservado e nunca cumprimenta, e que estuda em Halle.
A polícia recebeu as primeiras chamadas a pedir ajuda pouco depois do meio-dia. Nas primeiras imagens do vídeo, num parque de estacionamento, ouve-se a sua voz irritada por as máquinas não estarem a funcionar como ele quer. Quer que o vídeo seja visto no mundo inteiro, e por isso de vez em quando fala em inglês. Faz um discurso de negação do Holocausto, põe o capacete e começa a conduzir. Ouve-se música rap.
Em frente à sinagoga agarra numa das muitas armas que estão no carro e parecem ser artesanais. A seguir tenta arrombar a sinagoga, lança alguns explosivos e mata pelas costas uma mulher que está a passar.
Desiste ao fim de alguns minutos. Regressa ao seu carro, e cruza-se com um homem. Trocam algumas palavras, e o atacante dispara a sua arma, mas não sai nenhum tiro. O homem consegue entrar no seu carro e fugir.
Mais à frente, o atacante atira um explosivo para dentro de uma tasca de döner, mata um homem que está lá dentro, e atira sobre pessoas que tentam fugir na rua. Depois esconde-se atrás do seu carro e dispara contra os polícias.
Para terem uma ideia de como o atentado terrorista neonazi a uma sinagoga foi hoje tratado na televisão alemã, traduzi (muito a correr) o noticiário Heute Journal de 9.10.2019, que podem ver aqui.
ADENDA: dado que este post continua a ser partilhado, incluo aqui o vídeo já com legendas em português
[0:18 - Reportagem, voz off]
Leipzig, esta noite. Trinta anos depois da noite em que tudo podia ter acontecido, quando 70.000 pessoas temeram que as forças armadas estatais atirassem sobre os manifestantes - o que não aconteceu. A revolução pacífica tornou-se imparável.
[0:43 - Claus Kleber]
Boa noite. No dia que devia ser para celebrar o melhor da Alemanha, foi o pior da Alemanha que dominou as notícias: dois mortos, e pelo menos dois feridos em Halle an der Saale. O plano do autor do atentado era muito pior: o seu alvo era a comunidade judaica de Halle, na sua sinagoga, na festa mais importante do ano judaico, desprotegida e à mercê do assassino e da sua arma automática.
[01:13 - Imagens do ataque, voz off]
A meio do dia ouvem-se tiros em Halle. No bairro St. Pauli, que normalmente é muito tranquilo, uma mulher é morta a tiro perto da sinagoga. Dentro do edifício encontram-se entre setenta e oitenta pessoas. Os judeus comemoram hoje a sua festa maior, Yom Kipur, a festa da reconciliação.
[01:34 - Testemunha]
Atirou primeiro com a caçadeira, depois pegou na outra, que tem um som diferente. (...) Parecia equipado como um polícia, com o equipamento completo de combate, capacete, roupa de protecção, caçadeira, arma automática, granadas que atirou contra as paredes...
- Também ouviu explosões?
- Sim.
[01.56 - Imagem aérea]
A sinagoga é o alvo do ataque. O atacante, um alemão de 27 anos, tenta penetrar no edifício, e filma os seus actos. No vídeo, que decidimos não exibir, nega o Holocausto, fala com desprezo sobre estrangeiros e mulheres. Depois do fracasso deste ataque, mudou de alvo, dirigindo-se a uma loja de döner kebab a cerca de 600 m da sinagoga. Aqui, um homem é morto a tiro.
[02:22 - Porta-voz da polícia de Halle]
O atacante fugiu de carro, saiu de Halle. A polícia conseguiu detectar o carro e prender o homem.
[02:32 - Reportagem, voz off]
Também há disparos numa localidade vizinha, Landsberg. A polícia não confirma uma ligação aos acontecimentos em Halle, mas durante toda a tarde fala de uma "situação de amok". A polícia faz várias buscas domiciliárias em Landsberg. Entretanto o caso já está nas mãos do Procurador-Geral Federal, e a ministra do Interior publica um comunicado: "o que sabemos neste momento aponta para, pelo menos, um atentado de carácter antisemita. Segundo a avaliação do Procurador-Geral Federal, há indícios suficientes de uma possível motivação de extrema-direita."
O presidente de Sachsen-Anhalt interrompeu uma viagem ao estrangeiro e aterrou em Berlim ao anoitecer.
[3:14 - Reiner Haseloff, CDU]
Duas pessoas foram assassinadas, e o objectivo era matar muitas mais. É horrível ter de descrever um acto destes. Para mim é horrível ver esta motivação anti-semita que já se revela, saber que uma comunidade religiosa, concidadãos nossos, não se sentem em segurança, e que alguém os queria matar.
[3:41 - Reportagem, voz off]
A polícia fala de um único atacante, com motivação de extrema-direita, que queria entrar na sinagoga para provocar um banho de sangue.
[3:51 - Claus Kleber]
Já aqui se referiu a existência de um vídeo do ataque. O atacante - supõe-se que à semelhança de quem lhe serviu de modelo - transmitiu os ataques live na internet. Na redacção vimos este vídeo e analisámos os factos que contém, mas decidimos não mostrar absolutamente nada dele. A vontade de se encenar a si próprio e de auto glorificação é também um dos motivos para estes actos de violência, e não queremos contribuir para isso. Está fora de causa!
[4:22 - Jornalista no exterior ]
- Annegret, ao longo do dia não era certo se se tratava apenas de um ou mais atacantes. Agora já se sabe?
- Ainda não há confirmação oficial, mas tudo indica que se trata de um homem isolado. Pode ter acompanhantes, pessoas que estavam ao corrente do seu plano, mas sobre isso ainda não sabemos nada. O vídeo que ele fez e está agora a ser analisado pela polícia mostra que não tinha mais ninguém com ele, ninguém a usar armas e a atacar a sinagoga. É um alemão de 27 anos, de Sachsen-Anhalt, que vive em Halle.
- Hoje vimos imagens de Halle. A comunidade judaica dá nas vistas? E a sinagoga?
- A sinagoga fica perto do centro antigo de Halle, e é bastante visível. É uma rua aberta, a sinagoga não está escondida. Uma habitante do bairro contou-nos há pouco que passa por lá frequentemente de bicicleta e nunca viu polícia a proteger o edifício. Pergunta-se porque é que justamente hoje, o dia mais importante da comunidade judaica, não havia ali polícia - de momento, esta ausência é objecto de grande crítica.
[6:25 - Claus Kleber]
Ontem à noite teve lugar em Berlim uma conferência dos serviços de segurança e do ministério da Justiça sobre os riscos da extrema-direita e do anti-semitismo, com o título "Justiça e sociedade contra a violência de extrema-direita". H. Funke fez a palestra principal.
- Boa noite, prof. Funke. A partir do que sabemos neste momento, que conclusões pode tirar sobre o contexto e as motivações do atacante?
- Antes de mais, um anti-semitismo assassino. No seu cerne está a ideologia da extrema-direita e dos neonazis na Alemanha e no mundo inteiro, como há um ano em Pittsburgh com um terrível resultado, vinte pessoas de religião judaica assassinadas, ou em Christchurch, onde atacaram uma mesquita e mataram a tiro cerca de cinquenta pessoas. É este o cerne.
- Este atacante, depois de não conseguir entrar na sinagoga, foi para outro lugar, para uma loja de döner, e matou um homem que em princípio não seria judeu. O que parece errático e tresloucado.
- Aparentemente, sim. Mas o cerne é monstruoso: é a misantropia que se revela em ideologias como o anti-semitismo, ou na raiva contra refugiados, ou na raiva à loja de döner e aos árabes.
- Como é que uma sociedade se pode proteger de um delírio que começa por ser praticamente invisível mas acaba por desembocar nesta violência assassina?
- De duas formas: os serviços de segurança - e ontem falou-se muito sobre isso - têm de estar mais conscientes da existência de novos riscos, redes que estão profundamente ramificadas, e em parte são terroristas, ou, como é provavelmente este caso, que trabalham com desvios de comunicação, influência e actos de imitação. Essa é uma questão. Mas a outra questão é que temos de acabar com o discurso de ódio, por exemplo o de um Björn Höcke, que no seu livro programático afirma que quer expulsar milhões de pessoas deste país para fora, e o quer fazer com - cito - "uma crueldade bem doseada, bem afinada". Ou seja: com sadismo. Isto não pode ser, não se pode admitir no espaço público, nos media. Isto destrói não apenas o sentido da moral, mas também a sociedade.
- Se bem entendi, coloca esta acção de um homem isolado em Halle an der Saale, ou seja, na província alemã, no mesmo nível de ataques que vão da Austrália à Noruega.
- É o lado negativo da internet. Uma pessoa vê, e encontra elementos que quer imitar. Este caso lembra Christchurch, mas lembra também Pittsburgh.
- A sociedade vai conseguir resolver o problema desta Hidra e das suas muitas cabeças?
- Ainda não é uma Hidra. Mas está a crescer. Temos o caso do 1 de Setembro de 2018 em Chemnitz, quando houve um encontro partidário nacional que juntou militantes da extrema-direita e hooligans, onde alguns gritaram "Hitler", temos o grupo Revolution Chemnitz, e temos o assassinato de um político, o primeiro cometido pela extrema-direita na História da República Federal Alemã. São tempos perigosos, e temos de lutar contra isso. Ambos: os serviços de segurança, e a sociedade. Só assim conseguiremos controlar o problema, e espero que isso aconteça.
[10:37 - Claus Kleber]
Em situações de perplexidade como estas, os símbolos e os gestos têm um grande significado. A chanceler esteve hoje com a comunidade da Grande Sinagoga de Berlim.
[11:00 - Entrevista com Josef Schuster, representante do Conselho Central Judaico da Alemanha]
- Herr Schuster, devíamos ter previsto que isto iria acontecer?
- É certo que temos vindo a alertar para um certo temor dos desenvolvimentos e desvios na direcção da extrema-direita, e de um extremismo com potencial de violência. No entanto, não contava com um ataque concreto a uma sinagoga como o que hoje aconteceu.
- Será que nós, a sociedade alemã, o governo alemão, subestimámos alguma coisa, ou falhámos algo nos últimos tempos?
- Já chamei a atenção para o que tem acontecido ultimamente: há linhas vermelhas que estão a ser ultrapassadas, ideias que as pessoas tinham mas não se atreviam a dizer em público começaram a ser aceitáveis. E às palavras seguem-se actos - isto é um facto conhecido, que hoje, infelizmente, se verificou mais uma vez.
- Frases dessas têm sido alvo de protestos claros por parte do governo, dos media, da maior parte da sociedade, mas aparentemente não está a ser suficiente.
- Não está a ser suficiente, e a isso junta-se um elemento novo em Halle, que foi o que mais me chocou: o atacante não conseguiu entrar na sinagoga graças a uma porta resistente, mas em dias como estes deve haver forças da polícia a proteger as comunidades judaicas. O que é algo que lamento, mas se tivesse estado ali um carro da polícia podia ter-se evitado pelo menos a segunda morte.
- Perguntas que os media e a opinião pública com certeza se farão nos próximos dias. Para além disso: o que é que a sociedade terá de fazer no dia seguinte a este atentado?
- A sociedade tem de fazer algo que é independente deste atentado, e que é fácil - mas se calhar muito difícil. É o conceito de coragem civil. Começa no nível mais simples: quando num café alguém fizer afirmações anti-semitas, racistas, xenófobas, alguém tem de se erguer e dizer "reparaste no que acabaste de dizer? pensas mesmo isso que disseste? parece-te que o que disseste é aceitável?" - é a isto que chamo coragem civil. E se for claro que estas afirmações, que estas opiniões são rejeitadas, é um passo muito importante.
[14:36 ]
O noticiário passa de novo para Leipzig, onde as pessoas celebram os 30 anos do início da revolução pacífica que levou à queda do muro um mês depois. Informam que o horror de Halle esteve no centro dessas celebrações. Mas não vou traduzir, porque isto já vai muito longo.