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14 abril 2026

para que serve o facebook

 

Encontrei hoje, nas memórias do Facebook, o apelo que se segue. - é uma rubrica cada vez mais conhecida, a que dei o nome de "deixa ver se o Facebook serve para alguma coisa" - Muôres
(sim, adivinharam: cá venho eu de novo)
não desejo nada de mal a nenhum de vocês, mas será que alguém tem um bilhete para o concerto da Maria João Pires e descobriu que nesse dia tem dores de cabeça // reunião de condomínio (que é outra maneira de dizer dor de cabeça) // zanga com a pessoa para a qual comprou o segundo bilhete (mais uma maneira de dizer dor de cabeça) // outra dor de cabeça qualquer que vos ponha um bilhetinho a sobrar?
Não é para mim, é para um amigo.
Ele diz que até estava capaz de trocar o da Yuja Wang por esse.
(Só vos digo que os vestidos da Yuja Wang são muito mais interessantes que os da Maria João Pires, mas se calhar se fosse pelos vestidos vocês não iam à Gulbenkian, iam à semana da moda de Paris.) --- Foi um dia bom no Facebook: seguiu-se uma onda de risota, com vários amigos meus cheios de esperança que outros amigos meus ficassem com dores de cabeça, e eu a temer arranjar um sarilho com a Gulbenkian por andar com esquemas de revenda, e a achar que a empresa da Aspirina ia ficar muito minha amiga.

31 março 2026

o que somos

 

Disse Saramago: "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
Fico a pensar que está muito bem dito.
Também eu tenho a sensação, ao ler o que certos anónimos escrevem na internet, que é o seu eu mais autêntico e sem máscaras que ali exibem...

26 fevereiro 2026

nota mental

 

Trago do meu mural de facebook:

Nota mental:
Se fores ao supermercado, não passes no corredor dos chocolates.
Se passares no corredor dos chocolates, não olhes.
Se olhares, não procures os tony's.
Se procurares os tony's, não tentes ver quais são os sabores que ainda não conheces.
Se descobrires que há sabores novos, não compres.
Se comprares, não ponhas no teu escritório a rir-se para ti.
Se puseres no teu escritório a rir-se para ti, não abras a embalagem.
Se abrires a embalagem, não comas tudo de uma vez.
Se comeres tudo de uma vez, vai ao facebook perguntar aos teus amigos que desculpa vais agora dar à médica quando vierem os resultados das análises.
Amigos: fartei-me de fazer asneiras, um autêntico dominó do desgraçanso, e agora a bola está do vosso lado. Que digo à médica?
Muito obrigadinha. *** E algumas respostas dos amigos: "Diz-lhe que tropeçaste e caíste com a boca em cima do chocolate. Podias ter partido os dentes, mas está tudo bem. No meio de tudo ainda tiveste sorte."

"
Argumenta que os chocolates fazem bem à saúde mental e deviam ser comparticipados pelo SNS pois poupavam-se gastos em medicamentos para a dita saúde . Ela que passe uma receita a ver se resulta..."

"
Leva-lhe um Tony's, ela vai perceber-te"

"
O cacau é um fruto. Estou de dieta."

15 dezembro 2025

para reequilibrar a percepção do mundo

 


Em Portugal, se não me engano, foi a SIC que transformou uma experiência de uma pequena escola de cães de uma cidadezinha alemã numa "nova tendência na Alemanha: passear cães... invisíveis".
A mentira está a espalhar-se como fogo em palha seca, acompanhada de um coro de "está tudo maluco?!", "este mundo está roto, chove nele como na rua".
(Onde está a ERC quando faz falta?)
Os factos: uma treinadora de cães quis experimentar algo novo nas suas aulas. Antes de deixar os respectivos cães entrar em campo, faz alguns exercícios apenas com os donos, para que estes se concentrem bem no que ela lhes está a tentar ensinar.
Tão simples como isso. Depois, a treinadora publicou alguns filmes desses treinos no seu instagram, e teve muitas reacções, ou seja: nasceu um novo trend na internet.

A seguir, um repórter resolveu falar do assunto, e para isso fez uma paródia: foi passear uma trela sem cão no centro de uma cidade alemã, e filmou a reacção das pessoas. No meio da paródia, incluiu algumas imagens da treinadora de cães a dar a primeira parte da sua aula, na fase ainda sem cães. A SIC faz uma notícia onde troca a ordem dos acontecimentos (primeiro veio o curso, depois veio a sátira do jornalista), confunde um caso de trending na internet com "nova tendência na Alemanha", torna plural o que é um caso único ("a moda já tem workshops") e inventa motivações dos "praticantes desta actividade".

Irrita-me muito que no jornalismo português aconteça um desastre destes, absolutamente escusado. E irrita-me ainda mais assistir à reacção que este erro grave de jornalismo provoca nas pessoas, porque lhes alimenta uma percepção enviesada do nosso tempo.
O mundo, no triste estado em que se encontra, não precisa que andemos a espalhar mentiras que aumentam o pessimismo e o descrédito na humanidade. De modo que deixo aqui um repto a todos os que partilharam esta pseudo-notícias, e aos que comentaram com um "ai que horror!": para reequilibrar a percepção do mundo, quem comentou partilha agora três notícias positivas verdadeiras. E quem partilhou a notícia partilha dez, porque teve maior responsabilidade na propagação do mal.

14 dezembro 2025

sobre o poder de escolher (aviso já: estou a brincar!)

 

Neste belo domingo tomei uma decisão radical: vou tornar-me senhora do meu destino, mudar eu própria as agulhas e os rumos que dou à minha vida. E vou até mais longe: escolho eu própria as ofertas que a vida me dá!

(Embrulha, universo!)

Estou a falar do Facebook, e o truque tem a simplicidade de um ovo de Colombo: basta entrar várias vezes em páginas de publicidade de um tema que nos alegre o dia sem nos tentar a carteira, e o algoritmo passa a oferecer-nos apenas publicidade disso. O meu tema é meias nórdicas. Não compro, porque já as tenho em número suficiente, mas agora o meu facebook enche-se, de tantos em tantos posts, com as cores garridas dessa publicidade, e deixou de me oferecer homens de meia idade, sapatos manhosos que faz de conta que são portugueses, tralha vária de empresas que "infelizmente" têm de fechar e estão a saldar tudo, medicamentos para cães que comem ervas, etc.

Para o caso de algum passante querer também agir radicalmente sobre o seu destino, aqui deixo um link aleatório.

15 novembro 2025

em bicos de pés

 

Do diário no facebook: 15.11.2021 Pára tudo! Acabaram de me dizer que tenho uma voz igual à da Maria de Medeiros.
Um dia que precisem de alguém para dobrar a voz dela, para falar em português, já sabem: contratem-me. 🙂
(Ai, espera...)

15.11.2021
E por falar em voz semelhante...
A primeira vez que ouvi Arpi Alto pensei que seria um caso tipo Conchita Wurst, mas em mais bonito. Estava realmente surpreendida com aquele registo tão grave. Afinal, não: é mesmo uma arménia que tem uma extraordinária voz de contralto.
Hoje, ao ouvir este You Are So Beautiful, dei-me conta que ela canta no mesmo tom que eu. Enfim, canta mais bonito e com mais graça, mas eu consigo cantar no mesmo tom confortavelmente.
Ora bem: este é o segundo post consecutivo em que me ponho em bicos dos pés para poder dizer "ó pra mim, sou eu e ela".
Vou é trabalhar, que nós somos muito parecidas muito iguais, mas nenhuma delas me vem ajudar a traduzir um livrinho interminável que tenho em mãos.


13 novembro 2025

mais queixas

 


Ontem, o telemóvel ouviu que estávamos a falar em comprar um pinheirinho de Natal como deve ser, com o seu aroma a floresta, e mais as velas de cera de abelha, e os pássaros de vidro checos, e tudo. É que vamos ter um convidado especial, directamente vindo da Trumpsilvânia(*), e queremos impressioná-lo e mostrar-lhe como tudo é lindo e aprazível aqui no nosso continente onde impera o comunismo. Mas não gostamos nada da ideia de comprar uma árvore para deitar fora logo a seguir (nós, os da seita do clima, somos assim). 

Como ia dizendo: ontem, o telemóvel ouviu a conversa em português, e esta madrugada já me estava a informar em alemão que é possível comprar um abeto anão no vaso, com links e preços e tudo. Só cresce até 1,5 m, pode passar o ano todo na varanda, e no Natal vem para dentro de casa, e todos são felizes para sempre. 

Agora, digam-me cá como devo reagir.

É que devia ficar chocada e aterrorizada por isto estar a acontecer, mas a verdade é que me sinto grata e muito tentada a aceitar a sugestão. 

Será síndrome de Estocolmo?

[ pssst, ó telemóvel: se me dissesses onde arranjar mais pássaros de vidro com plumas na cauda, sem ter de ir ao mercado de Natal de Erfurt ali por volta de 2005, agradecidinha! ]


(*) o seu a seu dono: quem me dera ter inventado esta piadinha da Trumpsilvânia, mas não - ouvi-a à Nina Hagen, pouco depois de Trump ter ganho as eleições pela primeira vez. 

10 novembro 2025

queixinha

 

Venho cá fazer queixinha do chatgpt: pedi-lhe para me corrigir uma frase em alemão, e ele deu um erro de gramática na resposta.

Primeiro problema: atão como é que é, heinhe?!!!! Se nem na gramática acerta...

Segundo problema: alertei-o para o erro, e deu-me logo razão.
Mas ele tem um ar tão sabujo quando o corrigimos que tenho sempre a sensação que é daqueles que diz sempre que sim à voz do dono.

Terceiro problema: só sei que nada sei, e o chatgpt menos ainda.

E ainda só é segunda-feira de manhã.

19 outubro 2025

entardecer

 

Lembra-me o facebook que neste dia, em 2013, parei encantada junto a um canal perto do antigo aeroporto de Tegel. Apesar de ter fotografado com o meu telemóvel jurássico, ainda agora consigo sentir a paz daquele momento.
Entardecer junto ao aeroporto de Tegel
(ou: das vantagens de fazer biscates de taxista)










01 março 2025

desabafo

 

Pequeno desabafo: que se passa com a minha bolha do Facebook, que era tão simpática e de repente começou a ser frequentada por pessoas, digamos, estranhas?
Ele é defensores dos irmãos Tate, ele é TERFs que mal vêem a palavra "trans" sacam logo da navalha de ponta e mola e me enchem este espaço com os seus memes e a sua chinfrineira...
Será que o aquecimento climático já começou a libertar vírus perigosos que até agora estavam congelados, ou será a onda de sucesso do sistema Trump que encoraja as pessoas a mostrar em público o ódio que lhes dá sentido à vida?
ADENDA: Adoro quando é o próprio lixo que se limpa do meu mural. Acabei de ser bloqueada por uma dessas TERF que por aqui andava.

18 fevereiro 2025

chuva de estrelas

 


Depois do fiasco com o Benedict Cumberbatch, que fotografei, no meio dos caça-autógrafos, para perguntar no facebook quem era o figurão, e o facebook quase vinha abaixo com o escândalo
(escusam de continuar a bater: “Eu nasci assim, eu cresci assim. E sou mesmo assim, vou ser sempre assim.” Um dia destes vou conseguir não me reconhecer a mim própria no espelho, portanto, não batam mais. Além disso, isto sou eu e o Brad Pitt, um dia ainda havemos de pertencer ao mesmo clube de prosopagnósticos, ou algo do género, e aí vocês vão morrer de inveja de me verem ao lado do Brad Pitt, embrulhem, mas com o jeito que tenho para confundir rostos provavelmente vou estar ao lado do motorista do Brad Pitt achando que é o patrão...)
fui para a estreia de Blue Moon avisadinha: Ethan Hawke, Margaret Qualley, Bobby Cannavale.
Margaret, em princípio era fácil de distinguir: a que vinha de saias. Os outros trocaram-me as voltas: vinham com casacos muito parecidos.
A sério, pá: não podiam trazer os nomes na roupa, como os corredores da maratona?
(O Ethan Hawke é o mais antipático, passou por mim tão a correr que só o consegui fotografar de costas. O Bobby Cannavale é um doce, sorriu-me duas vezes. E também fotografei uma bonitinha que não sei quem é, mas também não vos pergunto, que vocês desatam logo a bater...)
(Ai, afinal não era o Bobby Cannavale, era o Andrew Scott. E eu a pensar que desta vez acertava em todas!)

07 fevereiro 2025

fazê-lo pagar


O facebook, que se gabava de me conhecer melhor que os meus próprios pais, agora pespega-me com "sugestões" de tipos e partidos que considero inaceitáveis. O instagram ainda está pior: às vezes até com a página do coelho do Vintruja vem invadir o meu espaço pessoal.
Agora estava aqui a pensar: é o Vintruja que paga às redes sociais para invadir o meu espaço pessoal, ou são elas que decidem que eu devia alargar os meus horizontes políticos até à cloaca? E se é o sistema Vintruja que paga: paga mais se eu clicar, ou se ficar mais tempo a olhar para aquele lixo? Digam-me o que lhe custa mais dinheiro, que eu faço tudo! Não é que me agrade dá-lo a aganhar ao Zuckerberg, mas uma pessoa tem de conhecer as suas prioridades.
ADENDA: A Rita Dantas explicou no facebook como é que isto funciona. Partilho convosco, que eu cá não sou de sonegar informação importante:
Quando ele paga publicidade, em princípio tu consegues ver essa indicação. O problema é que ele pode pagar para a Manuela ver, ela vê e presta atenção e depois o algoritmo mostra-to a ti, de graça, porque costumas ter o mesmo gosto que a Manuela e ele deseja ter o mesmo resultado – que tu passes o máximo de tempo na rede. Se tu ainda por cima confirmares o interesse, ele vai de seguida mostrar o mesmo ao teu amigo João, para além claro de continuar a mostrar-te outras coisas da mesma índole.
Acho que ganhas mais em sinalizar que não estás interessada.

23 janeiro 2025

adeus twitter

 

Há alguns anos entrei para o twitter. Por teimosia, depois de o fãcista que o comprou (significa: fã de fascistas) lhe ter mudado o nome, continuava a dizer twitter.
No dia 21.1.2025 saí do X.

19 janeiro 2025

viver na internet

 

Como tantos outros, também estou a pensar o que fazer: sair do facebook e do instagram, onde tenho tantos amigos? Ficar, apesar do seu negócio sórdido?
Penso no tempo dos blogues, quando éramos o nosso próprio algoritmo, movidos apenas pelo interesse que as conversas nos suscitavam. Porque deixámos morrer isso, e aceitámos tornar-nos servos do capitalismo mais selvagem e mais letal para a Democracia?

Em suma: vou voltar ao blogue com mais intensidade, e deixar a pouco e pouco o facebook e o instagram. Talvez comece uma carreira no bluesky - a ver vamos.



27 junho 2024

ser feliz todos os dias

Esta manhã, o facebook lembrou-me algo que escrevi há uns anos (é o que faz todas as manhãs, na realidade). A vantagem de usar o facebook para fazer apontamentos do que nos corre bem é que depois, todas as manhãs, o facebook nos lembra que faz hoje um ano estava a ser feliz, faz hoje dois anos estava a ser feliz, faz hoje três anos estava a ser feliz...
Há sete anos, estava a ser feliz da maneira que se segue.

Post mete-nojo:

Está uma pessoa ao computador descansadinha da vida, a arrancar os cabelos enquanto luta contra o atraso (esta semana vai ser assim) e recebe uma mensagem a dizer isto:
Hi guys, I hear from my brother that you are planning a visit. Don't forget to include a few days at our coastal apartment. We are looking forward to seeing you both.
O "coastal apartment" é em Santa Cruz, em frente ao Pacífico. Já estou outra vez com stress de tempo livre: eclipse solar em Oregon, Avenue of the Giants, San Francisco, acampar junto à Highway nr. 1, e agora Santa Cruz.

Há que ser forte, e manter o sangue-frio.

01 dezembro 2023

atrasos


Todos os dias publico na Enciclopédia Ilustrada a "palavra mágica" para o dia. Devia ser às 9 da manhã (minhas 10), mas poucas vezes consigo fazê-lo à hora certa. E quase sempre escrevo um comentário a explicar o motivo do atraso. Ontem, foi este: Bom dia. Estou aqui a pensar que desculpa dar para este atrasinho. Acho que vou escrever aqui uma série delas, e vocês sirvam-se à vontadinha (escolha múltipla):

- Tive de passar a ferro logo de manhãzinha (não perguntem) e para isso liguei a mediateca para ver o noticiário de ontem, que não pude ver por causa de termos passado o filme "Índia" no festival, e enquanto houve noticiário fui passando a ferro e dobrando roupa, e quando aquele acabou começou o do dia anterior, que também estava muito interessante, e eu sempre a passar, sempre a dobrar...

- Levei o Fox ao lago, e como nevou imenso fui andando mais devagar, com medo de escorregar nas placas de gelo que às vezes estão por baixo da neve fresquinha.

- Além disso, fui a conversar com uma vizinha que deve ficar muito irritada com as minhas perspectivas esquerdistas sobre quase tudo. O tema da discórdia de hoje era sobre o direito dos herdeiros das casas antigas do nosso belo bairro residencial a ganhar uns bons milhões para trocar as casas antigas por prédios horrorosos de apartamentos de luxo que acabam por transformar as poucas casas originais restantes em objectos anacrónicos e deslocados na paisagem. E como eu insistia na minha, e ela insistia na dela, a discussão demorou mais do que devia (caramba, não sei porque é que não me deixam logo ganhar estas discussões! É uma questão de eficiência: quanto mais depressa me derem razão, mais cedo podemos ir todos à nossa vida!)

- Cheguei a casa depois do passeio do Fox e lembrei-me daquela roupa que deixei a lavar de noite, e fui estendê-la.

- Liguei o computador, fui ver se havia alguma coisa interessante e urgente para ler. Havia. 🙂



29 novembro 2023

gatos e flores


Tenho andado muito calada por aqui porque por estes dias tenho andado a dar água sem caneco no Portuguese Cinema Days in Berlin e, lamentavelmente, não consigo dar água sem caneco em todos os lugares ao mesmo tempo. O festival está a correr muitíssimo bem e já nos deu muitas alegrias (à equipa que o prepara e ao público), mas também me faz correr ainda mais do que o habitual.

Quando tiver tempo, virei cá com mais vagar. Hoje conto apenas que, por burrice do algoritmo do facebook, o fantástico grupo Enciclopédia Ilustrada está em risco de ser eliminado. E lá se vai um arquivo com oito anos de publicações sobre a "palavra mágica" de cada dia, feitas por gente com formação, sensibilidade e experiências de vida extraordinárias.

Para assinalar o perigo, ontem propus que o tema fosse "gatos e flores". Tentando evitar assuntos fracturantes...

E depois, por brincadeira, publiquei isto:


Com esta é que aposto que ninguém contava: aqui está um prato que junta #gatos_e_flores.

Do tempo em que era conserto atrás de conserto em tudo o que tínhamos. A vida dos nossos objectos parecia uma autêntica filarmónica.




07 novembro 2023

lenha para a fogueira



Como ficaria o mundo se não houvesse redes sociais? Pessoalmente, eu perderia imenso. Mas: e o mundo?

Por estes dias, fujo do twitter. De cada vez que lá vou, encontro-o cheio de ódio, e de manipulações que excitam o ódio.

Ontem, por exemplo: na Alemanha, o escândalo do dia era um infantário que queria mudar o seu nome. De "Anne Frank" para "Descobridores do Mundo" (em alemão soa de forma muito positiva: abertura, curiosidade pelo mundo, iniciativa, dinamismo, etc.)

Esta decisão vem já do início deste ano, como parte de uma reformulação geral do funcionamento do infantário. Queriam ter um nome mais adequado a crianças daquela idade, e que estivesse ligado ao novo projecto pedagógico. Além disso, segundo a directora, os pais estrangeiros não se identificavam com este nome. ("Por que no te callas?", como dizia o outro.)

Lembraram-se de trazer o assunto para a ribalta justamente agora, num momento em que os judeus em todo o mundo se sentem ameaçados, em que o anti-semitismo na Alemanha é um tema central e o debate está a ser conduzido no sentido do reforço desenfreado de um primo daquele: o anti-islamismo.

Por estes dias, o caso apareceu posto nestes termos: "De repente, querem tirar 'Anne Frank' do nome de um infantário alemão!" (este "de repente" foi, como é óbvio, uma invenção do venenoso Bild), "Para não incomodar os imigrantes, querem outro nome" e, porque para o ataque ser completo ainda faltava reforçar a imagem negativa das regiões da antiga RDA, "na região onde em tempos um bando de neonazis queimou o Diário de Anne Frank".

Claro que o twitter foi ao rubro. E até os jornais sérios perderam o pé num finca-pé desnorteado.

Dá vontade de perguntar se está tudo maluco. Mas é pior: está tudo com vontade de acreditar nas piores maluquices, e de as ir atirar para as redes sociais com o prazer de quem mantém viva uma fogueira.

Ontem à tarde veio a notícia de que se recuou na decisão: de momento, o nome não muda. O que me parece mal.

Fosse eu o presidente da Junta daquela terra, e mudava. Miúdos de 3 anos - alemães ou não - não têm de ser confrontados com a tragédia de Anne Frank. Em troca, dava o nome "Anne Frank" a uma rua, a um hospital, a um liceu. Tirava de um lado, multiplicava do outro.

Aliás: para bem ser, como sinal de solidariedade para com os judeus alemães que neste momento se sentem isolados e à mercê do ódio, esta era a semana em que, em cada cidade alemã, se mudava o nome de uma rua, de um centro de dia, de um hospital. Infelizmente, nomes é algo que não falta: Anne Frank, Etty Hillesum, Janusz Korczak, e tantos outros. E em cada cidade haveria uma escola que esta semana ganhava o nome de alguém que se elevou acima do horror do seu tempo pelo exemplo de coragem ética: Sophie Scholl, Irena Sendler, Aristides Sousa Mendes, entre - felizmente! - muitos outros.

Esta parte, seria fácil. Apesar do que se diz nas redes sociais, sobre este assunto há um consenso vasto. E o país está a precisar de se unir em torno de iniciativas com este simbolismo.

Mais complicado seria tentar um olhar mais abrangente: uma Rua da Naqba, uma Praça de Gaza, um Hospital dos Mártires da UNRWA, uma escola Iqrit e um liceu Bir Am.

A ausência de consenso sobre isto é, também, lenha altamente indendiária para a fogueira que está a devorar a paz social.



13 setembro 2023

coisas da minha vida

Esta manhã atrasei-me mais de hora e meia a publicar o post com o tema do dia na Enciclopédia Ilustrada, o que deixou as pessoas preocupadas - e bem tinham razão para isso, porque à hora a que se começaram a preocupar já eu estava com os nervos em fanicos.

O caso é que hoje ainda tinha mais que fazer que de costume, porque tinha de fazer de taxista para o Joachim e a seguir tinha de ir ao hospital, como faço todos os anos, para os médicos verificarem se ainda estou viva.

Comecei a adiantar trabalho às seis da manhã, depois fui fazer de táxi, depois fui para o hospital, onde costuma ser assim: tiro uma senha, espero imenso tempo, atendem-me, mandam-me esperar à porta do médico, espero imenso tempo, sou atendida pelo médico e enviada para a sala de espera do ultra-som, espero imenso tempo, outro médico faz-me o ultra-som e manda-me para o laboratório, espero imenso tempo, tiram-me o sangue e vou-me embora.

Tencionava publicar o post com o tema do dia numa dessas cenas de esperar imenso tempo, mas hoje não esperei tempo nenhum. Tirei a senha, fui chamada, fui enviada para a médica, ela chamou-me logo e levou-me logo para o ultra-som onde fui imediatamente atendida e logo a seguir tiraram-me o sangue. Nem dava tempo para sentar, quanto mais para escrever.

Até aqui, até parece que estava tudo a correr bem. O problema: era o primeiro dia da médica naquele serviço. Não se dava bem com o sistema informático, não sabia o que tinha de fazer, com o nervoso dizia piadinhas e ria-se sozinha, perguntou pelo menos cinco vezes se eu ia lá todos os anos, etc. E eu a ver o tempo passar. Finalmente levou-me para o ultra-som, e eu a pensar "ok, escrevo agora enquanto espero para me fazerem este exame, só tenho 8 minutos de atraso, eles estão tão habituados que nem vão reparar". Mas, oh, tragédia!, quem ia fazer o exame era ela. E nunca tinha feito antes. Um colega estava ali a explicar, com toda a calma, como se fazia. E ela cada vez mais nervosa, no limite do ataque de nervos (sei, porque disse muitas vezes Scheiße à minha frente), e eu também a ver o tempo a passar, ai é hoje que me desgraço, etc., e a pensar: será que os dois médicos levariam a mal se eu pedisse para interromperem um minutinho o exame enquanto eu escrevo rapidamente um post no facebook?

Ao fim de uma infinidade de tempo ela deu o exame por terminado, e garantiu-me que ainda estou viva, Mas confesso que não sei se acredite, porque foram pelos menos 10 Scheiße. No próximo ano, veremos.

Saí dali a pensar que finalmente tinha um tempinho para escrever o post enquanto não me chamavam para tirar sangue, mas...

- Frau A... A... Ara... iu, kommen Sie bitte!

Quando a enfermeira me espetou a seringa, o sangue jorrou com tanta força e em tal quantidade que até parecia que estávamos em Anadia (*). (*) Alusão a um acidente na Anadia, quando o rebentamento de um tanque numa destilaria provocou um autêntico rio de vinho. Dois milhões de litros foram derramadas na estrada.

 


07 junho 2023

"Bimba" e "Lola" na cozinha

 

Há dias perguntei à minha bolha do facebook se havia algum motivo para comprar a Bimby que custa dois salários mínimos ou mais, em vez da máquina parecida que o Lidl vende por menos de 500 euros.

Como já sei do que a casa gasta, sugeri logo aos comentadores que viriam responder que ninguém precisa nem de uma nem de outra que fossem tomar um cafézinho numa esplanada, dar um passeio, coisas assim, em vez de perderem tempo no facebook.

Ora bem: adoro a minha bolha do facebook! Num instante tinha várias pessoas a dizer que não preciso nem de uma nem de outra, e a informar que a esplanada estava óptima. E dezenas de comentários úteis, que sintetizei da forma que se segue, caso se andem a debater com a mesma dúvida existencial:


- há muito quem aprecie esplanadas no pouco tempo que lhes sobra depois de estar de volta das panelas artesanais a impedir que a sopa esturre (hihihihi, não levem a mal o veneno);
- a prima da Bimby é a Lola ("Lola" é o nome inventado por um dos comentadores, e pegou);
- há quem não note a diferença entre a Bimby e a Lola, e há quem diga que a Bimby é mais robusta, mais silenciosa, mais intuitiva, e tem excelente serviço de atendimento ao clientes e de reposição de peças; além disso, tem sempre receitas novas;
- também há quem diga que a Bimby é melhor, mas a diferença de qualidade não justifica a diferença de preço;
- a ligação à net e as receitas da Lola não são tão boas
- o motor da do Lola é mais potente;
- cito: "Depende se vais mesmo usar a máquina ou é para de quando em vez. Se fores usar de quando em vez (como eu que para além da sopa só para aí uma vez por mês) a do Lidl ou similar é bem boa. Se fores mudar os teus hábitos para usar no dia a dia, tenho ideia que a bimbi é melhor tecnicamente e ganhas um "grupo de suporte" que te dá receitas sugere coisas a fazer, etc, etc". Aquilo é quase uma religião"
- cito: "Bimby, os grupos de apoio são brutais (não conheço a do lidl) mas os bimbólicos são uma seita" (estou aqui a pensar se quero ser bimbólica ou lolólica. Acho que bimbólica tem mais estilo: lolólica parece que bebi a mais e já não consigo articular as palavras)
- nas feiras da ladra de aldeia, na Dinamarca, é possível comprar robôs de cozinha Silvercrest e Thermomix quase novos a 25 e 30 euros. Mas depois é preciso aprender dinamarquês para entender as receitas... 😉
- a Bimby lava-se sozinha em dois segundos (e a Lola?)
- a Bimby tem uma peça para descascar batatas e cenouras (e a Lola?)
- A Bimby tem excelente serviço de assistência (e a Lola?)
Em suma: continuo sem saber, mas já me ri muito convosco, e já aprendi mais umas coisas importantes. 
***
Depois, pus-me eu própria em campo e partilhei uma informação que encontrei num blogue na internet (traduzida no deepl, sem verificação). O que se segue:
Diferenças entre a "thermomix" (bimby) e a "monsieur cuisine" (Lidl):
Comecemos pelos factos óbvios: Dimensões, capacidade, pormenores técnicos. Todos estes são factores importantes para decidir qual o aparelho a comprar:
- O aparelho básico Thermomix® é bastante mais pequeno do que o Monsieur Cuisine. Sobretudo em profundidade. Por isso, ocupa muito menos espaço na bancada de trabalho. Este é um aspecto importante, especialmente para cozinhas pequenas.
- A panela do Monsieur Cuisine tem um volume absoluto de 4,5 l., quando está a cozinhar tem 3 l.. Isto é consideravelmente mais do que a Thermomix® com 2,2 l.. No entanto, o tacho Monsieur Cuisine é também muito mais pesado. Ambas as panelas têm uma pega para poderem ser levantadas com uma mão.
- A tampa é colocada no TM6 (thermomix) e fechada pelos braços do aparelho, enquanto que no Monsieur Cuisine é aparafusada com meia volta. Isto torna-a um pouco mais fácil de retirar na Thermomix®. A limpeza da tampa é mais fácil com a Thermomix®, porque no Monsieur Cuisine há muito mais fendas e reentrâncias nas quais podem entrar alimentos ou mesmo água durante a lavagem. Uma clara vantagem para a Thermomix®.
- O copo medidor está fixado na tampa de ambos os aparelhos, de modo a não poder cair. Com a Thermomix® empurra-se para dentro, com o Monsieur Cuisine torce-se para dentro da tampa. Ambos têm capacidade para 100 ml.
- O ecrã do Monsieur Cuisine tem 8 polegadas, o da Thermomix® tem 6,8 polegadas. No Monsieur Cuisine, as funções e as receitas são apresentadas em cores vivas com fotografias, tudo é muito mais colorido.
- A Thermomix® oferece 13 funções básicas e vários modos, como a cozedura de ovos ou a fermentação, enquanto o Monsieur Cuisine smart tem 10 programas automáticos. Ambos os aparelhos estão constantemente a ser actualizados, o que significa que as suas capacidades estão a aumentar.
Comparação do desempenho dos dois processadores de alimentos
A Thermomix® tem um motor com 500 W de potência nominal. As velocidades variam entre 100 e 10.700 rotações/minuto (fase de agitação suave: 40 rotações/minuto). O Monsieur Cuisine tem uma potência máxima de 1200 W e oferece velocidades de aprox. 125 a 5.500 rpm.
Esta diferença também se nota ao triturar, fazer puré ou pulverizar. Os resultados da Thermomix® são mais finos no mesmo tempo, o Monsieur Cuisine precisa de um pouco mais de tempo para picar os alimentos com a mesma finura.
Quanto custa a Monsieur Cuisine smart, quanto custa a Thermomix® TM6?
Enquanto a Thermomix® TM6 custa actualmente 1399 euros, a Monsieur Cuisine smart é muito mais barata, custando 499 euros. Por vezes, existem ofertas especiais para o Monsieur Cuisine, caso em que se poupa mais 50 euros.
No que diz respeito à selecção de receitas, a Thermomix® ainda está à frente. Só o portal de receitas Cookidoo® oferece dezenas de milhares de receitas de todo o mundo, algumas das quais só estão disponíveis nas línguas desses países.
Ainda não há tantas receitas disponíveis para o Monsieur Cuisine, mas estão sempre a ser adicionadas mais. A aplicação associada é gratuita, enquanto a utilização do Cookidoo® da Vorwerk custa 48 euros por ano.
---
fim da tradução
---
Resta-me saber como é o serviço de assistência da máquina do Lidl. O que encontrei na internet, em relação à Alemanha, não me pareceu muito famoso. Mas nestas coisas de avaliações na internet, nunca sei se não são agentes da concorrência a dar cabo da imagem.
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Depois, uma amiga deu-se ao trabalho de me explicar com se faz um poema de amor com panelas: "Vou responder sem ler outros comentários porque este assunto me irrita. Desde sempre. E eu até comprei uma Bimby, há anos, está para ali arrumada numa caixa. A bimby é, quase de certeza, um fenómeno essencialmente português, ou burguês. A qualidade da Bimby? Uma extraordinária trituradora. Se uma trituradora vale esse valor?, eu acho que não. Há outras boas trituradoras. A Bimby vende rapidez. Para mim, cozinhar nao tem de ser demorado, mas nao é, definitivamente, uma coisa que se despache. É um acto de amor e, desculpem, a Bimby nada tem que ver com amor, mas com algum desapego. Nao quero saber se nao gostam do meu juízo de valor e da minha sentença, em momento algum voltaria a cometer o erro de a comprar. Mais depressa comprava dois bilhetes de avião para Bagdad. (...) Cozinhar não devia ser um acto de cumprir ordens dadas num manual: velocidade 4, colher inversa……… cozinhar é ir colocando cada ingrediente a encontrar o outro, a libertar aromas, texturas diversas, é ir provando, enquanto ao lado se vai preparando outras coisas. Opa, às vezes tinha um miúdo no banho, outro com trabalhos de casa e outro a picar salsa ao meu lado e cozinhar nunca deixou de ser um encanto. É o sitio onde nos encontrarmos.
Uma amiga minha fez frango com ovos mexidos em vez de frango de fricassé porque estava apaixonada…. e isso é tão lindo. Da História nao rezam Bimbys, rezam acontecimentos destes. Para além de que a criatividade nao tem limites…. Ai minha nossa senhora dos remédios…."
*** E assim vai a vida. Acho que vou comprar a Bimby, mas primeiro tenho de ver que banco assalto, e depois tenho de ver como a escondo da minha amiga que tem tanta razão... ;)