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04 fevereiro 2020

apontamentos da vida no autocarro

Às vezes entretenho-me a contar no facebook a minha vida quando vou sentada no autocarro.
Ou seja: às vezes vou ao centro de Berlim sentada no facebook...
Aqui deixo alguns desses apontamentos:

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Para que conste: o condutor do autocarro já tinha fechado as portas e arrancado quando me viu a correr desaustinada, quase a desistir. Parou, esperou por mim e nem quis ver o meu passe.
Para que conste: vou no autocarro conduzido pelo berlinense mais simpático do mundo.

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Ó pra isto: eu no autocarro tão sossegada, sentadinha no Facebook, e o simpático do lugar da frente a querer socializar comigo. Já me interrompeu para pedir desculpa por ter um saco tão grande, já me interrompeu para me mostrar um casal sentado num daqueles carrinhos minúsculos que os italianos faziam nos anos cinquenta, já me ri com ele e estou mesmo a ver que por este andar ainda acabo a portar-me como animal social no autocarro!
Não sei que me parece...

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Update: o simpático do autocarro preparou-se para sair, e disse-me "então adeus, desejo-lhe uma boa tarde", e eu "vou sair na mesma paragem" e ele "ai é? então retiro tudo o que disse!" - e rimos de novo os dois.
Saímos, e ele ia na minha direcção. Daí a nada ele estava a saber que eu sou portuguesa, e estava a revelar-me que o florista da estação de Grunewald é português, e que sempre que passa por ele lhe diz "olá, Duarte!" e ele responde "olá, Samuel!"
Depois eu fiquei a saber que ele costuma vir ao meu bairro visitar a avó. Despedimo-nos, e logo a seguir vi que um carro travou a fundo, e a condutora saiu do carro para lhe ir dar um abraço e conversar com ele.
Este homem lembrou-me uma expressão muito bonita que ouvi há dias: "humanizar os passeios das ruas" - dita por um jesuíta velhinho, que já não tinha força para mais, mas ainda era suficiente para conversar com as pessoas com quem se cruzava na rua.

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Preparem-se! Estou outra vez no autocarro.

(Por enquanto, tudo tranquilo.)
(Mas ainda só fiz duas paragens)

13 dezembro 2018

perdi o autocarro (2)

 
Recapitulando: perdi o autocarro por me ter posto a tirar fotografias, aproveitei a espera forçada para mais uns cliques às escuras e sem óculos, apanhei o autocarro seguinte, parei no Ku'damm para comprar óculos, perdi mais um autocarro, apanhei outro, e no caminho para o ensaio do coro fotografei ainda o arquivo da Bauhaus, que está fechado para obras. O projecto de alargamento é extraordinário, mas, infelizmente, não vai estar pronto em 2019 para o centenário da Bauhaus. Se for como o aeroporto de Berlim, às tantas nem para o bicentenário...

No regresso a casa não perdi mais nenhum autocarro. Aliás: apanhei o melhor de todos, porque ao meu lado sentaram-se algumas americanas bem-dispostas, e às tantas uma pôs-se a ler um poema para o grupo. Era de E.B. White, "Song of a bee" (escrito em 1945, uma paródia à informação dada pelo Ministério da Agricultura sobre a inseminação artificial das rainhas das abelhas ser difícil porque elas copulam no ar com qualquer zangão que lhes aparece à frente).

Esta cidade é um mimo.



 

 

E depois, mais para o fim do Ku'damm, vi que a loja de penhores para carros de colecção (que aluga os carros entregues como penhor) tinha um bólide realmente interessante. Mas um descapotável no inverno é má ideia, e além disso não deve ter pneus para a neve, e provavelmente estão verdes, não prestam, só os cães as podem tragar.


perdi o autocarro



Por causa desta foto, e de mais algumas como esta, perdi o autocarro.
Fazer o quê?
Aproveitei a espera para tirar mais algumas fotografias. Às escuras, e sem óculos (eu bem digo que nesta cidade se pode fotografar de olhos fechados).


















05 dezembro 2018

conversa de elevador

Está um dia lindo. E tanto, que se fosse esperta ia agora às compras e só depois fazia o que tenho de fazer. Porque um "dia lindo", no Dezembro berlinense, é apenas meia dúzia de horas entre o nascer do sol e o anoitecer.

Como ontem, por exemplo: estava um dia lindo. Tirei algumas fotografias no autocarro, a caminho da Filarmonia. Tirei mais algumas fotografias na Filarmonia, porque estava encantada com a luz do sol nas folhas das árvores. Quando voltei para casa já escurecia. E quando, uma hora depois, saí de novo, já tinha o Ku'damm feérico de Natal.
(Se me deixassem mandar, tirava aquela tralha toda do meio da rua, e deixava apenas as luzes nas árvores.)

Na segunda-feira, quando saí de Portugal, chovia desalmadamente. Entretanto já avisaram que há aí um temporal a caminho do Norte da Alemanha, vindo do Oeste da Europa. Eu vim de avião, a chuva vem a pé, demora três dias. Diz que sexta e sábado vai ser terrível. Agora, digam vocês que estão em Portugal: a chuva já parou? É só para saber o que devo calçar em Berlim no domingo.

Ontem fui à Filarmonia, mas não devia ter ido. Nem estavam a vender bilhetes dos lugares do coro para os concertos do fim-de-semana, nem o Lunchkonzert foi muito bom. Parecia música de elevador, como esta conversa.








 


12 outubro 2018

nos transportes públicos de Berlim

1. De cada vez que vou sentada nos transportes públicos e tenho o impulso de oferecer o meu lugar a uma pessoa mais velha, penso duas vezes: corro o risco de estar a oferecer o lugar a alguém mais novo que eu. É que a imagem que tenho de mim estacionou ali para os 25 anos, talvez 30, mas quem vê caras não vê auto-imagens. Um dia destes alguém ainda vai levar a mal.

2. Entrei para uma carruagem de metro que ia bastante cheia, e fiquei à porta, juntamente com uma jovem alemã que ocupou o espaço a que sentia ter direito sem reparar no pobre rapaz ao lado dela. Este, encurralado entre as costas do banco atrás dele e a mulher à sua frente, começou a fazer um exercício de implosão. Sabem como é, um corpo humano a tentar ficar o mais plano possível? Nem respirava, coitado do rapaz. A rapariga estava muito descontraída a pensar em coisas suas, inteiramente alheia ao esforço dele para que os corpos não se tocassem. Saí na estação seguinte, e sorri para o rapaz um daqueles sorrisos de compreensão, solidariedade e agradecimento pelo respeito demonstrado.
Suspeito que era refugiado. Um desses "refugiados que vêm para cá violar as nossas mulheres"...

3. Ontem Berlim exibiu-se no seu melhor rosto outonal. Encostei o telemóvel ao vidro da S-Bahn e comecei a fotografar às cegas. Do outro lado do corredor, um alemão meteu conversa. Se estava a filmar contra o sol. Não, estou a fotografar. E fotografias tiradas contra o sol ficam bem? Olhe estas aqui. Ena, ficaram óptimas, não imaginava! Pois é, às vezes corre bem. Você é da Escandinávia? Não, sou portuguesa.
E então (até vou mudar de linha), ele disse isto: Ah, Portugal! Como é que anda o vosso, como é que ele se chama?, o vosso rei? O... vosso presidente, o... o vosso chefe? O... ah, já sei! O Ronaldo! Como anda ele? É um jogador de classe, mas aquilo que ele fez não se faz. Vai ter de pagar por isso. Vai ter de pedir desculpa. Vai ter de pedir desculpa.








29 setembro 2017

depois do concerto

Depois do concerto de ontem na Filarmonia juntou-se um grupo enorme de pessoas na paragem do autocarro. Quando este chegou, apinhámo-nos lá dentro como pudemos. O condutor começou a falar pelo microfone:

- Boa noite a todos! Espero que tenham tido um belo serão. Agora vão aqui apertados - mas têm uma vantagem: não precisam de se preocupar com agarrar-se bem para não cair.

Gargalhada geral. O condutor continuou:

- Por favor, não se irritem com as condições desta viagem. Olhem à esquerda e à direita, pode ser que encontrem alguém com ar simpático que queiram vir a conhecer melhor. Aproveitem a oportunidade, sabe-se lá quando é que vão voltar a ter tanta proximidade humana...

Aplausos e risos.

- Mas estejam também atentos às carteiras. Às vezes há por aí carteiristas. 

À chegada ao zoo, avisou:

- Estamos a chegar ao nosso destino. Antes de saírem verifiquem se não esqueceram nada. Pode poupar-vos muitas correrias amanhã. Desejo a todos uma boa noite, e um bom caminho até casa, até ao hotel, ou até onde queiram ir.


Uma multidão a sair de um autocarro, e todos sorriam.


14 setembro 2017

da série "os alemães são todos uns grandes antipáticos e outros preconceitos"

Entrei no autocarro e disse ao condutor que queria comprar um passe mensal. Ele respondeu que não me podia vender, mas que me levava sem bilhete até à estação de S-Bahn seguinte, onde podia comprar um.

E assim foi. De facto, era o que eu lhe ia propor, mas ele antecipou-se.


25 junho 2017

já foste!

Se querem saber tudo (se não querem, passem para o parágrafo seguinte): no sábado passado, dia da estreia mundial da ópera em que andei a trabalhar nos últimos dois meses, liguei o telemóvel no intervalo do almoço. Daí a nada estava a tocar. Era a Christina. "Ó mãe, saí para o jardim, a porta da casa bateu, e agora estou aqui descalça e o Fox está sozinho lá dentro!" O problema do Fox sozinho em casa é que tinha sido operado três dias antes, e estava sem o funil torturador. Não podia ficar várias horas a lamber os pontos sem ninguém o chatear. Como eu não tinha tempo de ir a casa e voltar a tempo do concerto, a Christina sugeriu encontrarmo-nos a meio do caminho. Foi a uma vizinha pedir uns sapatos emprestados, e encontrámo-nos no Zoo.

Com isso, perdi a horinha que tinha guardado para rever a partitura da ópera e assentar algumas ideias. De modo que ia sentada no autocarro, de regresso à Filarmonia, folheando o livro e repetindo febrilmente "oieoai falado, oieoai cantado 2 vezes e à segunda bates palmas", e coisas assim. O autocarro parou, um homem entrou e sentou-se ao meu lado. Cheguei-me mais para a janela para ele acomodar o corpanzil, e continuei a estudar.

- A senhora é música?, perguntou-me ele, em inglês.
- Não. Apenas amadora.
- Ah. Pensei que era música. É que eu sou. De Jazz.
Pelo ar com que o disse, imaginei que se consideraria uma autêntica lenda viva.
Sorri-lhe brevemente, larguei um "ah, que giro...", e espetei o nariz no livro.
- Se quiser, posso dar-lhe um CD.
- Obrigada... - voltei ao livro.
- Dou-lhe o meu número de telefone, você liga-me, e eu dou-lhe o CD.
Impaciente, passei-lhe um papel para as mãos, na esperança de que ele sossegasse depois de escrever o número (e agora não me chateiem, que eu estava a 35 minutos da estreia mundial e tinha a cabeça no oieoai cantado 2 vezes e à segunda bates palmas). Escreveu - com algarismos americanos - deu-me o papel, e estendeu a mão para um aperto. Estendi-lhe a minha (como quem estende um papel na esperança de que o outro sossegue depois de registar o seu número de telefone, e não me chateiem, que tinha a cabeça no aoeo em que fazemos uma vénia à rainha) e o gajo pousou delicadamente um beijo nas costas da minha mão.

- Já foste!, pensei eu, furiosa comigo própria por ter caído na armadilha. E depois semicerrei os olhos, e rosnei só para mim:
- Já foste, meu grande chato.

Largou-me a mão, e continuou:
- Tem aí o meu número de telefone, pode ligar-me, podemos tomar um café.

Apontei para o livro, e disse-lhe com firmeza que me estava a incomodar.   

Uma amiga minha, portuguesa, contou que quando veio morar para a Alemanha se perguntava o que haveria de errado com ela por não ser assediada na rua. Não estava habituada àquele sossego.
Eu, há quase trinta anos por estas terras, habituei-me bem demais. Tanto, que já nem sei desconfiar de gajos que começam uma conversa comigo no autocarro.

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Caso estejam perplexos com os textos da ópera que cantei: era a história de uma viagem à lua - a língua do povo da lua era feita só de vogais: a o e i I (ai) o u.
Como não se entende o que eles dizem, a própria música tem de contar tudo. É uma bela ópera para crianças. Um dia destes disponibilizam no Digital Concert Hall, e eu ponho aqui o link.


19 outubro 2016

é assim que...

Amanhã o "meu mais novo" faz 20 anos.

Hoje, no autocarro, uma senhora ofereceu-me o lugar dela. E desconfio que era mais velha que eu.


17 março 2016

viagem de autocarro

(Fotos de Fevereiro, da altura da Berlinale. Como o tempo passa, é assim que nos pomos velhos, etc.)