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08 abril 2026

acudam, que não percebo nada de Biologia!

 

Bom. Nem sei se vos diga, se vos conte. Fui meter dois pés de ruibarbo na terra
(eu não planto, eu meto para lá, e fico à espera que o divino faça a sua parte do milagre, que da minha parte já fiz o milagre de arranjar tempo para ir meter aquilo na terra)
e o chão estava cheio de abelhas aos pares. Ainda pensei que fosse um enxame tresmalhado, mas não. Andavam por ali, pelo meio das ervas e do musgo, muito animadas, aos pares. Deixei-as andar, que eu não sou de me meter nos assuntos dos outros, e além disso não estava a ver muito bem
(é cá um preconceito que tenho: não chegar demasiado perto das abelhas para as ver melhor)
fiz o que tinha que fazer, e voltei para casa. Ainda pensei fotografá-las, porque não tinha a certeza se seriam vespas ou abelhas. Eram mais redondas que vespas, mas um pouco diferentes das abelhas das nossas colmeias.
Depois de lavar as mãos, ajeitei o cabelo e... catrapum. Duas abelhas dessas enroladas caíram ao chão. Tinham-se metido no meu cabelo, as malandras! Caso para lhes dizer: arranjem um quarto.
Depois de acabarem o que estavam a fazer, separaram-se. Uma parecia mais cansadita que a outra. Ajudei-as a encontrar o caminho para a janela, e saíram ambas a voar.
Agora, o que gostava de perceber: da última vez que isto foi tema na minha cultura geral, era abelhinhas e florzinhas. Mas afinal há abelhas e abelhos? E andam assim enrolados uns com os outros na primavera? O bicho de baixo é sempre a abelha-rainha, ou quê, ou quê, ou quê?
Estava aqui tão bem, e de repente abro mais uma frente na guerra contra a minha imensa ignorância.

ADENDA: Deixo aqui um filme que torna o caso ainda mais estranho. É que... algo me diz que... enfim. Calateboca. Mas olhem para as antenas de uma e da outra e digam lá se vos ocorre alguma coisa que calateboca, mais uma palavrinha e ainda caímos todos no marxismo cultural, na ideologia de género, eu sei lá.

22 junho 2024

adeus, relva

 





O clima de Berlim está a mudar. Dantes, podia ir descansadamente de férias de verão para Portugal, porque o verão berlinense regava-me o jardim. Hoje em dia, Berlim parece aquela aldeia do mapa dos livros do Astérix: chove em toda a Europa! Em toda? Não! Berlim resiste heroicamente.

Portanto: fartei-me da conta da água para regar a relva, tirei a relva, fiz uma breve investigação sobre plantas que se dão bem em terreno arenoso e sem água, fui comprá-las a eito e atirei-as para a terra ao deus dará. Je suis Esparta.

Isto que aqui se vê são as plantas que sobreviveram a mim e ao clima berlinense. Também tem algumas daninhas pelo meio, mas quero lá saber! Desde que atraiam insectos, está tudo bem.



(Escusado será dizer que só fotografei o único meio metro quadrado do meu jardim que se pode mais ou menos mostrar sem morrer de vergonha.)
(Dizem-me que tenho um jardim de polinização, e eu faço de conta que foi de propósito mas de facto nem sequer sei o que isso é. Andava a especializar-me em permakultur.)
(Quando digo "andava a especializar-me" quer dizer: compro dois ou três livros, folheio distraidamente, e avanço. Meia bola e força.)
(Aquela de ter um jardim de polinização sem saber o que isso é até me lembra a outra que foi para uma entrevista de emprego,
- Então, o que é capaz de fazer?
- Olhe, falo português, inglês, francês e espanhol.
- Pode dizer alguma coisa em espanhol?
- Buon giorno!
- Isso é italiano...
- Ah, querem lá ver que também sei falar italiano?!)

17 maio 2023

raixparta a natureza!

 

Acabei de ver uma gralha enorme com uma das minhas abelhinhas no bico. A impertinente usa a entrada da colmeia como buffet. Põe-se ali a vê-las passar (até me lembra aqueles restaurantes com canoas de sushi) e às tantas: "apetece-me esta!"

Minha rica abelha!

Odeio gralhas. Pior: tenho-lhes respeitinho. Porque já vi uma a provocar o Fox, quando este ia pelo parque fora, muito descansado da vida, a tratar dos seus assuntos quotidianos. A gralha saltitava atrás dele, e de repente tomava lanço, dava-lhe uma bicada por trás e saía a voar (e a rir-se, imagino). Uma e outra e outra vez. E também porque uma amiga me contou que uma vez espantou uma gralha para fora da sua varanda, e depois disso nunca mais lá pôde ter vasos com plantas. Sempre que tentava, a gralha regressava para deitar as plantas e a terra ao chão. E ainda por causa de uma outra gralha, que foi chamar as amigas para se vingar de um rapaz que a tinha enxotado. De repente, ele viu-se confrontado com um bando de gralhas com ar de rufias, que o fitavam desafiadoramente.

Portanto: gralhas, quero é distância delas. Mas uma das minhas vizinhas gosta de as ver no jardim, e por isso dá-lhes comida. A horas certas, porque é alemã. Chega àquela hora, junta-se ali um par de gralhas, e ela sorri muito feliz. "Uns bichos muito inteligentes", comentou outro vizinho, ao ver a cena. Trabalha no aeroporto, e diz que as gralhas de Schönefeld aprenderam a pousar os frutos de casca dura na pista de descolagem. Depois é só esperar que passe um avião, e já têm o almoço pronto a comer.

Esta vizinha das gralhas é a que há tempos me mandou um link para um artigo onde se dizia que demasiadas abelhas num local podem espantar os outros insectos. Mandou o link, e a frase "olha que interessante, isto que descobri - também reparaste que ultimamente não se vêem besouros por aqui?"

Tinha razão: eu também não via besouros desde há muito. Nem besouros, nem nenhum outro insecto, porque ainda estávamos no inverno. Mas fiquei preocupada. De modo que quando vi um par de besouros de volta de umas ervas daninhas em flor, nunca mais toquei nessas plantas e fui logo avisar a vizinha que afinal ainda temos besouros na rua. Ela entretanto já tinha percebido que se calhar não tinha sido simpático enviar-me aquela mensagem naqueles termos, e fez-me uma festinha no braço para pedir desculpa.

E agora sou eu que estou com zanga às gralhas dela. Mas sei por experiência própria que é mais avisado ficar caladinha.

Em todo o caso: raixparta a natureza! Não podia ter inventado gralhas vegan?!


24 abril 2023

abelhinhas



Não sei que têm as nossas colmeias, que já três enxames vieram cá bater à porta. Há alguns anos foram dois, com poucas semanas de intervalo. O terceiro chegou este fim-de-semana. Vinham sem abelha-mestra, e deu-se um jeito para acomodar mais algumas centenas de abelhas junto das outras. Mais um capítulo para juntar à centenária tradição de Berlim de acolher refugiados com toda a simpatia. Ele são os protestantes da Boémia, ele são os huguenotes, eles são os sírios, eles são os ucranianos. E agora, as abelhas.

Digo "nossas colmeias", mas não é bem verdade: limitámo-nos a disponibilizar o lugar em cima da garagem, e a pedir aos vizinhos que plantem flores de outono (porque na primavera e no verão ça va sans dire, mas em começando a arrefecer as coisas complicam-se) e a avisar a dona das abelhas sempre que acontece algo fora do normal. Portanto: avisámos, ela veio logo. Verificou que o enxame estava sem abelha-mestra, pelo que, em vez de lhes dar uma colmeia nova, arranjou maneira de as integrar numa já instalada. Tudo em boa paz. Aprendam, humanos!

Esta manhã encontrei junto a uma das nossas janelas uma abelha enorme. Seria a rainha que faltava ao enxame? Fotografei-a ao perto, para perguntar à apicultora.

Mas, pelo sim pelo não, antes de enviar a imagem, fui ao google aprender a diferença entre abelhas-mestras e vespas. Era uma vespa.

Ups! Ainda bem que não enviei a imagem à apicultora, imagino a cara dela quando a visse... Por sorte, ninguém viu, ninguém deu conta, ainda não é hoje que passo uma grande vergonha em público.




25 abril 2022

primavera!





Querem mais primavera que esta, a cerejeira em flor, os morangueiros cheios de viço, e uma raposa confortavelmente instalada na laje aquecida pelo sol, com os morangueiros a servir de almofada, a dormitar embalada pelo zumbido das abelhas?

Sim, tudo muito bucólico e maravilhoso, excepto:
- agora o Fox não pode andar à vontade no jardim
- já não vou comer morangos sabendo que vêm da sanita da raposita
- o raio do bicho ontem rebentou mais uma vez um dos sacos do lixo de embalagem que estavam pendurados na cerca, e tive de andar a apanhar tudo à mão.
(Acordei-a com o clic clic da máquina fotográfica - o PAN que não saiba que ando a incomodar os animais desta maneira, OK?)









12 abril 2022

vizinhos novos


 

Em termos de taxa de natalidade nas raposas da minha rua, é isto.

(Até lhe perdoei ter aberto o meu saco de lixo reciclável e espalhado o conteúdo (agora muito bem lambido) por todos os lados.)

03 fevereiro 2022

tudo lhe acontece

 

Sei de uma pessoa que esta manhã vestiu o seu edredon com mangas+carapuço+bolsos para ir passear o cão, e no regresso olhou para o jardim e pensou que tanto desleixo parecia mal (mesmo sendo em Berlim) e começou a arrancar as plantas secas para atirar para o composto atrás da casa. De caminho arrancou uma haste que se revelou ser o resto de uma dália do verão, porque saiu com uma série de bolbos (espero que se chame bolbo) (Helena Araújo: zero a Biologia), voltou a enterrar tudo o melhor que pôde e fé em Deus, e quando ia a passar junto a uma roseira que está a crescer em todas as direcções, viva a liberdade!, ouviu um zzzzzzzzz e pronto: três rasgões, vários buraquinhos, e o belo do casaco a mostrar parte da sua vida interior.  

Nem às paredes confesso a primeira palavra que lhe veio à mente. A segunda foi: "Oh, RIP!"
A terceira foi: 
Não! Estamos em Berlim: um bom pedaço de fita adesiva também resolve. 

Agora, sei de uma pessoa que está a pensar usar a fita adesiva também para tapar o sujo que se entranhou de tal modo no casaco branco que nem um tratamento duplo na limpeza a seco (daquela tão cara que uma pessoa até se pergunta se não vale mais a pena comprar antes um casaco novo) consegue resolver o problema. 



10 dezembro 2021

the day after

Hoje não nevou, e a neve de ontem começou a derreter. 
Num esforço sobre-humano de autodisciplina, só saí para fotografar depois de ter o trabalho de tradução bem adiantado. Já não havia flocos de neve com as estrelinhas muito nítidas, nem neve nos figos. 
Fico de novo à espera de dias melhores.
Mais concretamente: de uma boa neve com flocos fofos - a cair de um céu azul e muito limpo. 

(Sim, que tem? Quem teve a oportunidade de fotografar figos cobertos de neve pode querer ainda mais! O céu - azul! - é o limite...)








neve

 








Ontem nevou uma neve bonita em Berlim.
Saí para o jardim com a máquina fotográfica. A neve sobre as últimas flores do outono - que ali  queremos disponíveis para as abelhas até ao último dia de calor -, sobre as bagas de gogi, sobre as capuchinhas que ainda há pouco tempo comemos na salada, 
sobre a alfazema e sobre os figos.

Sim: os figos que não amadureceram no verão, e só começaram a ficar comestíveis em novembro,  quando eu já tinha desistido deles, e hoje lá me apareceram de novo, cobertos de neve. 

Figos na neve: até me lembrou aquela cena de Nostalgia, de Tarkowskij, quando o homem tentava atravessar a água com fogo na mão. 

(E agora me lembro que ainda não publiquei a fotos mais bonitas da neve do inverno passado.)
(A sério: como é que me aturo a mim própria?)












14 outubro 2021

marmelada berlinense

 


A quem me deu receitas impecáveis de marmelada, e em particular a da "marmelada gulosa da Isilda", da Clara de Sousa, e não me avisou que não devia pôr uma tampa na panela, nem ligar o fogão em fogo forte, e muito menos ir para o facebook enquanto aquilo cozia, só queria dizer isto:
- Sei quem vocês são. E até sei onde alguns de vocês moram...
(receitas neste post, e sobretudo no facebook)

06 outubro 2021

acreditem ou não

Acreditem ou não, na minha rua há uma pessoa que toma duche, lava o cabelo, se arranja toda compostinha com perfume e tudo - e depois vai suar as estopinhas para o jardim a apanhar ervas e folhas, a varrer caminhos, a apanhar um balde de batatas e outro de marmelos.

A sério que se não visse também não acreditava. 




(As batatas em vasos saíram muito pequeninas, mas comemos na mesma: faz de conta que é gourmet. Os topinambos também. Mas as batatas plantadas na terra, no sítio onde dantes havia uma relva que bebia água como se não houvesse amanhã, ficaram óptimas.)

(Os girassóis são tantos que resolvi cortar uns quantos para trazer para casa. Se alguém me disser onde há um curso no youtube para pessoas que bem gostavam de fazer um ikebanazinho de jeito mas parece que as flores conspiram contra elas, agradecia.)

(Por acaso agora que olho para aquele desconchavo com o distanciamento de um post na internet, ocorre-me que se me deixasse de manias das grandezas e arranjasse uma jarra meio metro mais baixa era capaz de resolver o problema.)

(Se alguém tiver uma receita impecável de marmelada feita na panela de pressão, também agradecia.)


03 junho 2021

relatório de actividades

 


Trabalhei cinco horas na horta e no pomar (acho que já só me faltam vinte, ou quarenta, para tudo ficar como deve) (Deus me ouça!) ("horta e pomar" significa: um talhão minúsculo de terra, com uma taxa de ocupação vegetal que mais parece a densidade demográfica da Holanda).
Almocei a desoras um gaspacho, a que juntei um nabo cru cortado aos bocados, para não ter a sensação de estar a comer um smoothie à colher. Depois, para repor as calorias, marchou uma bela fatia de bolo de chocolate com o café.

Algo me diz que esta noite vou dormir como um anjinho.


19 janeiro 2021

coisas da vida


Está a nevar forte e feio. Daqui a nada lá terei de agarrar na vassoura e varrer a neve do passeio. A minha, e mais a de 4 vizinhos. Um deles fez-nos o mesmo no domingo passado: quando me preparava para ir fazer o trabalho, descobri que já alguém o tinha feito. E como não sei quem foi, agora vou ter de limpar a neve do passeio de todos os suspeitos habituais.

(Maldito "faz bem sem olhar a quem"! Se isto fosse às abertas, e tivesse combinado apenas com um vizinho sermos mutuamente boas pessoas, só tinha de limpar a neve de duas casas.)

(Estou a brincar, OK? Além de o trabalho ser praticamente o mesmo, porque o que custa realmente é lutar contra a inércia e ir trabalhar ao frio, é muito bom morar numa rua onde sabemos que há pessoas que olham por nós e nos ajudam.)




21 fevereiro 2020

em estado de exaltação

Faz hoje 3 anos que escrevi este apontamento:

Hoje esteve um dia lindo. Nuvens enormes entrecortadas de sol e céu azul. Aquela luz maravilhosa que antecede o temporal. Andei por aí, de lago em lago, a fotografar em estado de exaltação e a perguntar-me que bem terei eu feito na vida para merecer isto tudo. Foram 330 fotografias, depois mostro algumas.

Ao regressar a casa a vizinha viu-me e convidou-me para um café, e levei bolo de chocolate que tinha em casa. Daí a bocadinho vimos passar o Fox com a sua cauda farfalhuda espetada no ar - tão querido, o Fox. O Matthias apareceu a seguir, ia levá-lo ao lago. A vizinha abriu a porta e perguntou ao Matthias se também queria um café, e ele respondeu da rua que não podia, obrigado, etc. - parecia aquelas conversas calorosas de aldeia, da rua para dentro de casa. Foram, voltaram, o Fox parou em frente ao portão a olhar para nós ainda de volta do café e do bolo, "então, não me querem deixar entrar?"

Combinei com a vizinha que um dia destes marcamos uma data para todas as pessoas da rua porem à porta os rebentos do jardim que não quiserem, para os vizinhos levarem para o jardim deles.
Disse-lhe que já estou toda contente a pensar nas batatas azuis que vou ter, nas framboesas, nos tomates, nas abóboras. Ela disse:
- Ainda demora algum tempo.
- Mas já estou contente agora. 


Vivo no centro de Berlim ocidental, rodeada de lagos, numa aldeia. Numa bolha.


Cuidado comigo, hoje estou hipersensível. 

Garanto que nunca na vida fiz tanto bem para merecer isto tudo.

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Foi na altura em que a água dos lagos gelava e degelava, criando texturas incríveis. Alguns exemplos da colheita desse dia:
 




 
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A meio da tarde, sentada à minha mesa, olhei para o lado e dei com estes dois.
A colheita do dia foi boa, mas esta semeadura é do melhor.



23 agosto 2018

tomates (1)

 
[Não, isto não é uma provocação - é mesmo só um prato de tomates da minha hortinha berlinense.]

De cada vez que vou ao quintal buscar o necessário para o jantar lembro-me daquele dia em que estava na nossa casa no Minho, e por me ter dado a preguiça de ir ao supermercado comprar alguma coisa para o almoço, fiz com o que a terra tinha para dar nesse dia: sopa de beldroegas, arroz de tomate e pimento, ovos estrelados.
 

A Christina, que teria uns oito anos, perguntou:
- Fizeste o nosso almoço sem ir comprar nada?
- Fiz.
Olhou para o prato, olhou para mim, e exclamou com os olhos enormes de surpresa:
- Mãe! Nós somos ricos!!!


Todos os dias ao fim da tarde, quando ponho na mesa um jantar feito quase só com produtos da hortinha, é nisso que penso: nós somos ricos!


11 julho 2018

dilúvio, relâmpagos, óptimo!


Eu devia ter desconfiado, quando num passeio de barco no domingo que passou deparei com esta arca de Noé pronta a partir. O dilúvio chegou hoje, está aqui em Berlim. Com relâmpagos, granizo, tudo o que faz parte.

Não sei o que vai acontecer a seguir, não sei se o senhor da arca se lembrará de vir cá dar-me uma boleia, mas uma coisa é certa: hoje não preciso de regar o jardim. E amanhã também não.
Óptimo, óptimo!



Estas fotos eram para mostrar a chuva, mas aproveito para contar que devo ter umas quinze qualidades diferentes de tomate nas varandas, mais aquele vaso onde crescem duas meloas, mais o pimento vermelho que já nasceu (e espero que nasçam muitos mais, porque se contar o preço da terra e da planta dá um custo demasiado alto per capita), mais as - pasmem, que eu também pasmei - batatas que estão a crescer no vaso da roseira. Tudo isso sem contar com tudo o que está a crescer no talhãozinho de quinta por trás da casa. Esta é a altura do ano em que olho para uma courgette amarela, dois pepinos, uma promessa de feijão, uns pés de batata e milhentos de tomate e encho o peito de ar e satisfação, sentindo-me intensamente rica.


05 julho 2018

calor


Partilhei esta imagem há três anos, e bem posso repeti-la hoje. O noticiário informou que a Alemanha está perante a maior seca das últimas cinco décadas. Mostraram agricultores a queixar-se que vão perder metade da colheita. Eles e eu! Até estou a pensar pedir uma ajuda ao Estado por causa do meu microfúndio berlinense. Apesar de estar a ficar uma especialista em dilúvios várias vezes por semana, metade das ameixas e das maçãs estão no chão. E desconfio que o que gasto em água no tomatal dava para os comprar ao quilo na melhor loja biológica da cidade.

Com tanto calor, o que nos vale é o lago. Ao fim da tarde vamos dar um mergulho para refrescar.
Ou melhor: a ideia é ir dar um mergulho para refrescar, mas as árvores frondosas do caminho já nos refrescam de tal modo que ao chegar lá quase nem apetece. O Joachim atira-se logo, e nada meio quilómetro enquanto eu fico ali, vou?, não vou?, até que finalmente me decido - e me arrependo do tempo todo que estive para me decidir. Isto dava uma metáfora para uma coisa qualquer, mas está demasiado calor para pensar nisso.


06 maio 2018

atraso de vida

Estava aqui tão sossegadinha a fazer planos para passar um domingo na horta (plantar os pés de tomate, mais os de pepino e os de pimento, deitar na terra sementes de abóbora e assim) e toca o telefone. A professora de zumba, a lembrar-me que hoje há aula (espertinha, ela! prevenida. já sabe do que é que a casa gasta).

E lá vou eu.

Maldito fitness. Pode ser que me dê muita qualidade de vida daqui a cinquenta anos, mas já me estragou a manhã de domingo.

20 abril 2018

promessas


  


Promessas de damascos.
Será que as árvores têm dores de parto quando dão estas flores à luz? Será que sentem prazer?
Será que não sentem nada? Será que as flores rebentam e abrem como as unhas me crescem a mim, "que chatice, tenho de as ir cortar outra vez", e pronto, olha, fez-se primavera - será isso?

Em todo o caso: fez-se finalmente primavera.

As tulipas já estão em festa, o damasqueiro já prometeu, agora prometem a macieira e as cerejeiras. Ainda espero sinais do marmeleiro, das ameixoeiras. Hoje andei a regar os exageros de pés de morangos e de framboesas que rebentam da terra por entre as folhas que sobraram do outono.
Estou quase quase a encomendar os pés de tomate - de todas as cores, grandes e pequenos, como os que tantas alegrias me deram no ano passado. E as batatas azuis. Este ano vou tentar ter batatas azuis a crescer em sacos pretos na varanda.
(Agarrem-me, que este blogue corre o risco de se tornar a filial berlinense do Almanaque Borda d'Água.)

02 dezembro 2017

Ideiafix


Esta manhã levei o Fox a passear na floresta de Grunewald, que é, a bem dizer, por trás da minha casa.
Entretida a fotografar umas casinhas encostadas aos troncos das árvores, pensando que seriam obra dos miúdos do infantário da floresta (sim, há infantários que funcionam na floresta: juntam os miúdos na paragem de autocarro, e passam a manhã inteira ao ar livre, sem livros nem brinquedos, faça o tempo que fizer), não dei conta do que se estava a passar bem perto. Às tantas, o Fox começou a olhar atentamente numa direcção, e daí a nada largou a correr como um maluco. Parecia uma cena do Ideiafix: pai, mãe, filhos, primos e tios javalis a correr em fila pelo caminho adiante, e o Fox a correr atrás deles todos. Contei oito, mas penso que o grupo era maior. E o último da fila era mesmo muito grande. Não fotografei, mas podem crer que não vos estou a enganar. Aliás: não ter tirado fotografias é a prova provada de que eles passaram demasiado perto - fiquei cheia de medo que um dos machos se virasse para trás e corresse atrás do Fox, e o maluco do cão fugisse na minha direcção. Ainda sobrava para mim.

Decidi que só volto àquela floresta depois de aprender a subir muito depressa a árvores de tronco liso e húmido.