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24 junho 2025

Mascha Kaléko


Fique registado que no dia 23 de Junho de 2025 descobri a poeta Mascha Kaléko (1907-1975), e que a descobri por um poema que me deixou o dia inteiro a pensar como podia ser traduzido. 

De modo que agora tenho duas dúvidas: como traduzir este poema, e como me aconteceu ter andado tantos anos sem saber da existência da Mascha Kaléko. 

O problema central da tradução deste "Take it easy!" é que usa uma expressão idiomática, "pôr no ombro fácil" em tradução literal, com o sentido de não levar as coisas muito a sério. Pensei em "fechar um olho", mas a expressão portuguesa tem uma conotação mais próxima de tolerar algo que se sabe não estar certo - o que não é bem a mesma coisa. Seria mais "deitar para trás das costas", mas o texto exige que haja um contraponto, e fazê-lo com costas e barriga era o anticlimax do poema. Porque, convenhamos, na tradução de poemas, o meu desplante vai ao ponto de virar os versos sem pensar na métrica, nem na rima, nem no ritmo, nem na música -  mas anticlimax já é abuso! Até para mim. 

Portanto, para os mais curiosos, aqui deixo a tradução do sentido do poema, usando a tradução literal da expressão idiomática:


"Take it easy!"

Tehk it ih-si, dizem-te
Em inglês, para mais. 
"Põe no ombro fácil!"

Acontece que tens dois.
Põe sobre o fácil. 

Obedeci a este imperativo
Popular humanitário.
E fiquei torta. 
Porque o outro ombro
Também existe.

Por desdita há então que se forçar 
A escolher, às vezes, o mais difícil. 



Mascha Kaléko nasceu em 1907 em Chrzanów, perto de Auschwitz, filha de um casal de judeus - de mãe austríaca e pai comerciante russo. Em 1914, por causa da guerra, ou talvez por causa da violência crescente dos pogroms no Leste da Europa, a família decide fugir para a Alemanha, onde não é bem recebida. Devido à sua nacionalidade, o pai chegou a estar preso num campo de "estrangeiros inimigos".

(...) Já tinha seis anos, e ainda acreditava
Que no fim das guerras havia paz.


Em 1918, instalam-se em Berlim. Mascha aprende secretariado, e observa a Berlim dos anos vinte. Escreve de forma simples sobre o que conhece e vivencia. O quotidiano na grande metrópole. O amor e a fragilidade. A condição das jovens mulheres emancipadas daquela época, a sua tosca emancipação ("Vivemos de pão e chá / porque é barato. / Por vezes há quem nos ofereça um souper / ...se estivermos disponíveis. (...) De nada serve todo o crêpe satin / Somos os que somos: apenas manequim."). Escreve sobre a liberdade de costumes dessa década berlinense ("Aqui e ali beijos em bancos tranquilos / - ou então em barcos a remos. / O erotismo é reservado para os domingos. / ...E quem se lembra de pensar no futuro? / Chamamos as coisas pelos nomes, e só raramente coramos."

No famoso Romanisches Café, mesmo em frente à Gedächtniskirche (onde é agora o centro comercial Europa-Center, ao fundo do Ku'damm), consegue passar da "piscina dos pequeninos" para a "piscina dos nadadores", a pequena sala à esquerda onde diariamente se encontram os mais importantes jornalistas, críticos, escritores, artistas plásticos, músicos e actores daquela época: Else Lasker-Schüler, Gottfried Benn, Georg Grosz, Alfred Döblin, Bertolt Brecht, Hanns Eisler, Erich Kästner, Stefan Zweig, Erich Maria Remarque e tantos outros.

No final dos anos vinte já é uma autora aclamada. O primeiro livro publicado esgota rapidamente. Diz-se que só a poesia de Goethe vende mais. 

Trabalho oito horas como empregada
Por má paga cumpro as tarefas do dia
Em certas noites escrevo poesia
O meu pai diz, era só o que nos faltava. 

A pouco e pouco, chega a mudança radical. Os nazis conquistam o poder. No centro de Berlim, na praça entre a ópera e a universidade, atiram livros à fogueira. Por agora, os livros de Mascha Kaléko escapam, porque o regime ainda não se deu conta de que é judia. No Romanisches Café, aparece um grupo de homens em uniforme a perguntar por Walter Mehring, cuja recente peça de teatro irritara os nazis. Mascha Kaléko arma-se em inocente, distrai-os com uma longa conversa, enquanto Mehring escapa discretamente do local, atravessa a praça em direcção à estação do Jardim Zoológico, e apanha sem demora o primeiro comboio para Paris. Em 1937, o seu editor dá-lhe a terrível notícia: está proibida de trabalhar como escritora e de publicar. 

Em Setembro de 1938 consegue fugir para os EUA, com o filho e o marido. Mesmo a tempo! Um mês mais tarde, o regime nazi declara que os passaportes de judeus já não são válidos, e dois meses mais tarde incendeia sinagogas e empresas de judeus em todo o país. Mascha Kaléko e a família estão a salvo em Nova Iorque, mas ela não se sente feliz ("Tudo à minha volta desabrocha à luz do sol / Mas esta Primavera não é a minha"). O casal tenta criar em Greenwich Village um café com um ambiente semelhante ao do Romanisches Café, mas sem sucesso. Torna-se claro que esse tempo passou, e não voltará nunca. O marido é músico, encontra facilmente trabalho. A poeta em língua alheia vê-se remetida para funções de mãe, esposa e assistente do marido. 

Os homens com ofício têm sempre
um tesouro, normalmente feminino.
O que faz falta às mulheres
É a "esposa do artista". Ou um substituto equivalente. 
Mesmo que não seja uma Vénus,
Com doce boquinha de rosa,
Está por ali, escreve bem à máquina, e cozinha.
(...)
Quando Siegfried desembainhava a espada, e Don Carlos o punhal, 
raramente os chamavam para irem mudar as fraldas ao bebé. 
A alma de Petrarca, afastada do mundo, compunha os seus poemas
Livre de obrigações tais como limpar os legumes.

Bem gostaria de continuar estas linhas, mas, como sempre, tenho de interromper.
- O meu marido chama. Quer falar comigo sobre o seu próximo concerto


Regressam a Berlim em 1956, e Mascha Kaléko dá-se conta de tudo o que já não existe na sua cidade  tão amada: 

Berlim na primavera. Berlim sob a neve.
O meu primeiro livro numa livraria.
Os amigos no Romanisches Café.
O tanto que vejo que já não vejo!
Tão alto me falam as pedras de "Pompeia"!
Engolimos ambos o remédio por fim.
Pompeia sem pompa. Bonjour, Berlin!


Numa retrosaria da Uhlandstraße, ao comprar um artigo qualquer, é reconhecida pela vendedora, que vai ao fundo da loja buscar o seu livro "caderno lírico de estenografia", a primeira edição de 1933. Diz-lhe que o guardou durante todo aquele tempo terrível, e pede-lhe um autógrafo. 

Outros encontros não são tão aprazíveis. O tempo da inocência já vai longe. No país que quis exterminar um povo, nunca sabe com quem está a falar, que tipo de experiências fez essa pessoa, como a vê, e que espécie de discurso espera dela. 

Em 1956, ao saber que o prémio Fontane, da Academia das Artes de Berlim, lhe será entregue por um antigo membro das SS, recusa-se a recebê-lo. O secretário geral da Academia tenta persuadi-la a aceitar, diz que o escritor e membro do júri já ultrapassou há muito aquele seu erro de juventude, que é muito bem visto em toda a sociedade. Diz-lhe que a Academia se sente muito satisfeita por conseguir atrair um crítico tão conceituado, pede-lhe para considerar que ele precisa daquele cargo porque não consegue viver apenas do que escreve, e que todos temos uma família para sustentar. Apela à sua sensibilidade e empatia de mulher. Ela explica que, como emigrante, também não tem a vida fácil. No estrangeiro, perguntam-lhe como se pode identificar de novo com o mundo da escrita de um país que continua a manter nazis em lugares de destaque. Que irá ela responder depois de receber um prémio de literatura das mãos de um antigo SS? Não, por muito que o prémio a honre e o montante lhe faça falta, não pode aceitá-lo nestes termos, nem como escritora nem como judia. O director explode: "Não sou judeu, e passei por dificuldades iguais ou até maiores que os judeus. E não é possível acusá-lo eternamente por causa de um erro de juventude. Só se tornou SS por ser tão alto. Tudo isso já foi ultrapassado e está resolvido..."

Nunca mais foi nomeada para um prémio de literatura. 

Como sempre, continua a escrever poemas sobre a sua vida e os seus contextos. Os editores pedem-lhe mais leveza, mais humor, tal como escrevia antes. A vida é difícil para todos, dizem, o público precisa de textos estimulantes. Os poemas melancólicos e desanimadores não fazem falta a ninguém. 

A Alemanha do pós-guerra remete Mascha Kaléko para o esquecimento. O seu nome não consta dos léxicos da literatura alemã, nem mesmo em 1990. E a sua obra integral só é publicada em 2012. E talvez isso ajude a explicar porque andei todos estes anos sem saber dela. 

O casal emigra para Israel em 1960. Nova língua, novo exílio. 

Para onde quer que viaje, 
O meu destino é Nenhures.
 

    

E também:



Inventário

Casa sem telhado
Criança sem cama
Mesa sem pão
Estrela sem luz.

Rio sem cais
Montanha sem cabo
Pé sem sapato
Fuga sem destino.

Telhado sem casa
Cidade sem amigo
Boca sem palavra
Floresta sem cheiro.

Pão sem mesa
Cama sem criança
Palavra sem boca
Destino sem fuga. 


Termino com um poema seu (traduzido, tal como todos os anteriores, muito à pressa) que parece uma mensagem enviada ao nosso tempo:


Neste tempo

Não temos outro tempo senão este, 
Que para nós inclina escasso copo.
Temos de beber. Uma segunda vez
Não floresce para nós.  À distância, já um monstro:

Efemeridade. Somos meros seres fugazes
Por trás de toda a luz, a palidez nos avisa.
Já se derrama em nós o gelo de um brilho tardio
E somos velhos antes de ter sido jovens.

Chegámos outrora com a credulidade da infância
A um século devastado pela tempestade. 
Ainda temos esperança. Dentro de nós um silêncio de espanto.
Mas só recebe ajuda quem grita.

Por vezes sonhamos com o paraíso
E o desejo de felicidade nos envergonha.
Famintos, tentamos conquistar o nosso pedaço. 
- Não temos outro tempo senão este...


---

Quase todas as informações contidas neste texto foram retiradas de um programa da SWR3, de 5.1.2025:

„Ich habe mit Engeln und Teufeln gerungen“ – Lebensspuren der Dichterin Mascha Kaléko, de Simone Hamm.

Mais alguns poemas:

- Traduzidos para 
português: https://escamandro.wordpress.com/2018/06/27/mascha-kaleko-por-valeska-brinkmann/  

- E para inglês: https://thehighwindowpress.com/2022/08/08/mascha-kaleko-four-poems/ 

- E para espanhol: https://poemashumanos.com/2018/09/13/y-patria-es-solo-donde-estoy-contigo-tres-poemas-de-mascha-kaleko/

E um pouco de música: https://www.deutschelyrik.de/einmal-sollte-man.html


24 junho 2022

um anúncio feito para chocar

 

A trabalhar numa tradução, deparei-me com isto:


No livro "Saving One's Own: Jewish Rescuers During the Holocaust", Mordecai Paldiel conta que em 1943 os romenos começaram a prever a queda de Hitler, e queriam ficar nas boas graças dos poderes vitoriosos. Ion Antonescu propôs deixar sair do país os 70.000 judeus que ainda ali viviam, pedindo apenas que lhe pagassem as despesas de transporte. O secretário de Estado do Tesouro Henry Morgenthau Jr. levou o assunto a Roosevelt. Cavendish Cannon, dos Assuntos Europeus, argumentou que aceitar a oferta romena criaria um precedente perigoso: outros países onde havia perseguição a judeus podiam lembrar-se de fazer a mesma oferta. Significaria um convite a "novas pressões para asilo no hemisfério ocidental... tanto quanto sei, não estamos preparados para enfrentar o problema judaico em toda a sua dimensão".

O sionista Ben Hecht teve a ideia de publicar um enorme anúncio no New York Times, com o objectivo de chocar, despertar consciências, e pôr os judeus dos EUA a pressionar para salvar aquelas pessoas:

PARA VENDA à Humanidade
70.000 judeus
Garantidamente seres humanos
50 dólares a peça

"A Roménia está cansada de matar judeus. Matou cem mil deles em dois anos. Agora está a oferecê-los por um preço irrisório... Esta soma cobre as despesas de transporte... Atenção, América! É uma oferta sem precedentes! Setenta mil almas a 50 dólares a peça! As portas da Roménia estão abertas! Façam alguma coisa imediatamente!" 

(Dúvida da tradutora: "a peça", ou "cada um"? Escrever "peça" lembra-nos do léxico da escravatura, onde se contabilizava os capturados como "peças".)

Os EUA hesitaram, Por fim, a Alemanha acabou por convencer a ainda aliada Roménia a desistir desse projecto. 

Abro um momento de silêncio por 70.000 pessoas que podiam ter sido salvas, e ninguém quis salvar.

[       ]

Agora trocamos "judeus" por "africanos em barcos, no Mediterrâneo", e são os mesmos argumentos: não estamos preparados para enfrentar o problema da pobreza, da guerra e do aquecimento climático em África em toda a sua dimensão. Eles que vão morrer longe, já temos problemas que chegue... 

Mais silêncio. 

[       ]

Agora reparamos na parte do texto relativa aos palestinianos. "Atenção, Humanidade! Os árabes palestinianos não vão ser incomodados com a chegada de 70.000 judeus. Os únicos árabes que vão ficar incomodados são os líderes árabes que estão em Berlim, e os seus espiões na Palestina." (Leio "os seus espiões na Palestina" e lembro-me do cartaz russo recente a "informar" que na Suécia há muitos nazis.) Momento de silêncio pelos palestinianos, apanhados no turbilhão da uma tragédia na qual não tinham a menor culpa.

[       ]

Agora lembramos os nazis assassinos de secretária, os que tomavam decisões e assinavam papéis, os burocratas que se limitavam a cumprir ordens que tinham como consequência a morte de milhares de pessoas. E comparamo-los com os personagens desta história na América livre e rica, que encolheram os ombros à tragédia de setenta mil seres humanos. Agora tentamos descobrir as diferenças de fundo entre uns e outros. Mais silêncio. 

[       ]

E agora pensamos em nós. 
Sempre que há notícias de algum barco de refugiados parado num porto, e Portugal oferece-se para acolher alguns deles, tenho um sobressalto feliz: afinal é possível fazer melhor. 

02 fevereiro 2022

estrelas amarelas (1)

 


Janeiro de 2022. Estás na Holanda, na casa de um coleccionador de livros. O teu olhar percorre as estantes, com admiração e interesse. Reparas mais num ou noutro livro, mais ou menos à sorte. Pegas num deles: "Ritos e símbolos judaicos". Folheias o livro, que tem quase cem anos.

- Sabes o que aqui tens? - perguntas ao anfitrião. - Sim, conheço bem os meus livros. - Tens a certeza? Olha este aqui.

Ele abre o livro. E emudece.




27 janeiro 2022

lembrar as vítimas do nazismo

 

(imagem: daqui )

27 de janeiro, a data em que o Exército Vermelho libertou Auschwitz, tornou-se o dia internacional em memória das vítimas do nazismo: judeus, ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais, e tantos outros.

Hoje quero lembrar Karl Stojka, e o seu aviso:

"Não foi Hitler, nem Göring, nem Goebels, nem Himmler, nem nenhum desses quem me arrastou e espancou. Não. Foi o sapateiro, o vizinho, o leiteiro. E depois receberam um uniforme, uma braçadeira e um barrete, e passaram a ser a raça superior."

Karl Stojka nasceu em 1931 em Viena, numa família católica lovari - um subgrupo da etnia cigana, sobretudo conhecidos como comerciantes de cavalos. O sistema nazi odiava os povos ciganos, e ainda mais os grupos itinerantes como a família de Karl. Acusavam-nos de serem associais e preguiçosos, diziam que não se integravam e viviam do trabalho dos outros. Um ódio muito conveniente, porque permitia unir a população contra um inimigo exterior.

Quando Karl tinha dez anos, os nazis levaram o pai dele para Dachau. Assassinaram-no alguns meses depois. Aos onze anos, Karl foi enviado com a família para Auschwitz, onde lhe trocaram o nome pelo número Z5742 ("Z" de Zigeuner, cigano) e acabaram por matar grande parte dos seus.
Ele conseguiu sobreviver ao Porajmos.
Muitos anos depois começou a pintar as dolorosas memórias do campo - como esta imagem que partilho, com o título "medo". Assinava as suas pinturas com o nome e com o número que lhe deram em Auschwitz. 
(Mais imagens e informações: aqui e aqui)

Falamos bastante do que os nazis fizeram aos judeus, e frequentemente ignoramos as outras vítimas. O resultado é que estamos mais sensíveis aos discursos antissemitas, mas nem reparamos quando hoje em dia políticos (ou amigos nossos) falam sobre os ciganos nos mesmos exactos termos em que os nazis o faziam há oitenta anos. Ouçamos ao menos o aviso de Karl Stojka: não foi Hitler quem o maltratou, foram os seus vizinhos, o leiteiro, o sapateiro. Pessoas banais, integradas na sociedade, inteiramente convencidas que eram pessoas de bem. 

No livro "SS", Guido Knopp avisa:

"
A moral da história? Qualquer pessoa poderia ter-se tornado um agressor. Quando um Estado criminoso destrói as barreiras entre o certo e o errado, qualquer pessoa fica em situação de risco. A natureza humana por si só é vulnerável. Em cada um de nós há um Himmler e um Mengele, um Eichmann e um Heydrich
Noutros tempos e sob outras circunstâncias, todos estes homens teriam tido "vidas normais", teriam sido cidadãos que não davam nas vistas."

Hoje passei no Gleis 17 - um dos memoriais que lembra as deportações dos judeus de Berlim. Tinha uma flor em cima de todas as placas que assinalam os comboios que partiram desta cidade em direcção aos campos de concentração. Para essas vítimas, pouco mais podemos fazer que pousar flores em placas frias. Mas para os nossos irmãos judeus, os nossos irmãos ciganos, os nossos irmãos refugiados, e todos os que hoje são vítimas do discurso e da ideologia nazi recuperados ao gosto do nosso tempo: não podemos assistir de braços cruzados. Há muito trabalho a fazer. 

Para que os nossos netos não nos perguntem depois como foi possível termos deixado acontecer. 





27 novembro 2021

ciganos

 


Em memória dos Sinti e Roma europeus vítimas da ideologia nazi (que os perseguiu e matou dizendo sobre eles o mesmo que um certo partido que conhecemos diz sobre os ciganos portugueses).

Memorial no Tiergarten, junto ao Parlamento Federal alemão.


09 novembro 2021

"pronto-a-vestir" - ascensão e queda do sector da moda berlinense



O ataque aos judeus alemães, preparado e perpetrado em todo o país pelos nazis no dia 9 de Novembro de 1938, teve no centro de Berlim um acto de poderoso carácter simbólico: do mesmo modo que em 1933 queimaram livros na praça em frente à universidade, em 1938 fizeram nova fogueira, a poucas centenas de metros dessa praça, para queimar tecidos e modelos do sector da moda berlinense, que se desenvolvera imenso ao longo do século anterior devido ao trabalho pioneiro de empresas de judeus. A intenção do regime nazi era renegar a moda berlinense, associada aos judeus, e abrir um capítulo novo na história do pronto-a-vestir: a "arianização" da moda, para a tornar mais tradicional e adaptada ao corpo da "parideira" que correspondia ao ideal feminino do mundo nazi. O texto que se segue, sobre a história do pronto-a-vestir berlinense, foi escrito com base nos seguintes artigos (em alemão): "breve história da indústria da moda berlinense", "como os nazis destruíram a cultura da moda alemã" e "por que motivo Berlim deixou de ser uma metrópole da moda". Recomendo que os abram para ver as imagens históricas. A fotografia que aqui partilho estava neste artigo.
A lei da emancipação judaica de 1812 abriu aos judeus a possibilidade de exercerem novas actividades económicas, nomeadamente dando-lhes autorização para terem lojas que anteriormente lhes estavam vedadas. Até então, muitos judeus viviam do trabalho de alfaiataria e do comércio ambulante com roupas usadas e objectos de retrosaria. Por força das circunstâncias, tornaram-se especialistas nessa área – o que lhes viria a ser muito útil no novo contexto de afrouxamento das proibições. Em 1837, dois irmãos judeus, David e Valentin Manheimer, abriram uma “oficina de trabalho com têxteis” na Jerusalemer Str. 17 em Berlim. Supõe-se que o terão feito com dinheiro ganho no Loto. Ao fim de dois anos, Valentin abandonou a oficina que fundara com o irmão, onde se faziam casacos de homem, e abriu a sua própria fábrica na Oberwallstrasse – a dois passos do palácio do Kaiser. Nela fabricava casacos de lã grossa em tamanhos estandardizados para senhora, que vendia a preços acessíveis a um novo grupo de clientes, a classe média. Um ovo de Colombo: as mulheres que não tinham dinheiro para pagar a uma modista viram ali a sua oportunidade de comprar roupa de qualidade e ao gosto da época. Valentin Manheimer recebeu a alcunha de “Rei dos Casacos”, e chegou até a exportar para a cidade de Nova Iorque. Mas não era o único. Pouco depois de Valentin ter dado início à sua nova empresa, Hermann Gerson instalou-se na mesma área para produzir pronto-a-vestir para homem e senhora com um grau de refinamento um pouco mais elevado que os seus colegas. Teve tanto sucesso que se tornou fornecedor da corte. O “Modebazar Gerson”, aberto em 1849, tinha fama de ser “a loja de manufacturas de mais bom gosto, mais fantástica e mais significativa de toda a Alemanha”, e diz-se que terá sido a primeira “Kaufhaus” berlinense. Mas outro judeu, Nathan Israel, queria para si esse título, afirmando que o seu armazém é que era o autêntico Harrods de Berlim.
O sucesso destes atraiu novos empresários. Em 1860, havia 20 firmas de confecções à volta da Hausvogteiplatz. Onze anos mais tarde, quando Berlim se tornou a capital do Reich, esse número já tinha duplicado. Perto do final do século, todo esse bairro vivia das confecções nas várias vertentes do negócio: produção de vestuário e respectivas matérias subsidiárias, comércio, marketing e vendas para outras regiões. A “Berliner Durchreise”, primeira feira da moda de que há história, foi iniciada nessa altura. Duas vezes por ano reuniam-se ali importadores europeus e de outros continentes para apreciar as últimas novidades da moda berlinense e para a exportar. Simultaneamente, Berlim enviava compradores a Paris, Londres, Milão e Viena para espreitarem o que a Haute Couture dessas cidades fazia, e adaptar à produção em série.
Estes produtos eram apresentados em ambientes cada vez mais requintados, enquanto, na outra ponta da cadeia, a produção funcionava em regime de outsourcing, repartida por mais de 600 alfaiates que recebiam os moldes e os tecidos para produzir as encomendas das empresas de vestuário. Estes, por sua vez, entregavam o trabalho a mulheres que, por preços miseráveis, costuravam as peças nas suas próprias casas, nos bairros pobres à volta de Berlim. O número de costureiras sazonais deve ter chegado a 100.000. A princípio cosiam tudo à mão, mas em breve se daria uma inovação importante para este sector.
Em 1856, o americano Isaac M. Singer pôs no mercado a primeira máquina de costura que se podia usar em casa. Sete anos depois, abriu a primeira fábrica de máquinas Singer em Frankfurt. O trabalho passou a ser feito à máquina, a capacidade produtiva aumentou significativamente. O aparecimento da máquina de costura teve um papel muito importante no sucesso deste negócio berlinense, que cresceu a ponto de nos anos 1920’ assegurar todas as necessidades do mercado de vestuário alemão. O sector das confecções era o terceiro sector económico mais importante de Berlim. Mas, ao contrário da Siemens e da AEG, não tinha fábricas para mostrar. As costureiras, fechadas em casa e obrigando os filhos a ajudar, eram tão exploradas como as actuais trabalhadoras de têxteis no Bangladesh – e igualmente invisíveis.
Também noutros países – Reino Unido, USA – se fazia roupa em tamanhos standard “ready to wear”. Mas as empresas de confecções de Berlim foram pioneiras na captação de um público feminino que até então dependia de Paris.
A época da República de Weimar foi o período áureo do sector da moda de Berlim. A cidade alargara-se para as localidades vizinhas, transformando-se numa metrópole que experimentava novas liberdades na frágil democracia. Surgiu o “Berliner Chic”, e um novo tipo de cliente: as funcionárias dos escritórios – independentes, sem filhos, com algum dinheiro e com vida social. As mulheres emancipavam-se, jovens desenhadoras de moda abriam os seus próprios ateliers e oficinas de chapéus. Estrelas de cinema e jornalistas de moda contribuíam para dar bom nome ao estilo berlinense. E deu-se uma reviravolta curiosa: a moda berlinense era divulgada por revistas que por vezes incluíam moldes que permitiam a mulheres com menos recursos fazerem em casa os seus próprios modelos. Desse modo, mesmo as mulheres de classes sociais com menos rendimentos podiam vestir com alguma elegância. Esta concorrência nas classes mais baixas não incomodava as grandes empresas de confecções, cujos negócios continuavam a ir de vento em popa.
A grande crise de 1929 pôs um travão a esta euforia. A empresa Manheimer fechou em 1931, a Hermann Gerson entrou em processo de falência. Pouco depois os nazis chegaram ao poder, e começaram a tematizar a questão de 90% das confecções de Berlim estarem na mão de judeus. Tudo na moda berlinense - que associavam aos judeus - os irritava: a emancipação feminina, a flexibilidade e a criatividade que andavam de mão dada com o espírito de Weimar, com as novas correntes artísticas, com a Bauhaus, etc. Era preciso criar uma “arte de vestir ariana”. Vestidos com pano para a barriga em vez da cintura estreita, tranças loiras em vez de corte à pagem, criança ao colo em vez de cigarro na mão. Magda Goebbels, que durante algum tempo foi a patrona do Instituto da Moda, viria a comentar com tristeza “com os judeus desapareceu também a elegância de Berlim”. A partir de 1935, os empresários judeus foram proibidos de publicar anúncios nas revistas. No Reichspogrom de 1938 destruíram deliberadamente as suas lojas e deitaram fogo aos seus tecidos atirados para o meio da Hausvogteiplatz. Tal como com a fogueira dos livros, pretendia-se aqui uma cisão. A propaganda nazi tratava a palavra “confecções” com tamanho desprezo, que esta deixou de se usar – até hoje. Muitas empresas foram expropriadas ou compradas por baixo preço aos judeus, para se tornarem “arianas”. Das 2.700 empresas que havia na zona da Hausvogteiplatz, só 98 existiam ainda em 1939. Dessas 98, só uma pertencia ao grupo de empresas pioneiras dos anos 30 do século anterior – e salvou-se porque o seu fundador, Rudolph Hertzog, era cristão.
A história das empresas de confecção de judeus termina com um capítulo macabro: prisioneiros de Auschwitz-Birkenau produziam vestuário para exportação.
Enquanto as empresas dos proprietários judeus eram destruídas, a de Rudolph Hertzog atravessava uma fase de franco crescimento. Entre 1936 e 1945 vendia, para além do vestuário para homens e senhoras, fardas e equipamento do partido. O neto do fundador afirmaria mais tarde, num tribunal de desnazificação, que sempre tinha sido muito comedido em termos partidários. De pouco lhe serviu: a empresa foi expropriada. No edifício, muito danificado pelos bombardeamentos, a RDA viria a instalar uma loja de vestuário para jovens e uma empresa de casamentos.
Curiosamente, o mundo da moda berlinense voltou à vida logo nos primeiros meses após a guerra. Recomeçaram a publicar revistas com moldes para fazer em casa, revistas essas que os aliados autorizavam porque aceitavam o argumento de que se tratava de “uma área importante da vida das mulheres” que devia continuar a existir apesar de “a sua realização material ser um pouco mais limitada do que antes”. Davam-se conselhos para upcycling: como fazer um casaco quente com um cortinado de feltro [imagino que fossem os cortinados necessários para escurecer as janelas no tempo dos bombardeamentos], ou como fazer um turbante com um resto de seda. O último grito da moda pós-guerra eram os vestidos de remendos.
Sem os antigos dinamizadores do fenómeno da moda berlinense – fugidos para outros países ou assassinados nos campos de concentração - a moda berlinense passou a inspirar-se no “new look” de Christian Dior. Já em 1946 se contavam 662 oficinas de confecção com 50.000 empregados. Regressou o sistema de entregar o trabalho ao domicílio. Os modelos eram desenhados em Berlim Ocidental, os tecidos vinham da RFA. A maior parte da produção era destinada à exportação. O bloqueio soviético obrigou a que toda esta actividade dependesse da ponte aérea. Düsseldorf e Munique foram ganhando cada vez mais importância como cidades da moda. A construção do muro deu a última estocada ao sector de confecções de Berlim.
Hoje em dia, quem sai da estação de metro na Hausvogteiplatz e sobe pelas escadas a leste, vê que nos degraus foram inscritos nomes de empresas, e anos. Algumas dizem “até 1939”. Chegando à praça, encontra três espelhos dispostos em triângulo, como nas cabines de prova. É uma homenagem aos empresários judeus que naquele local deram origem ao pronto-a-vestir e à indústria da moda berlinense, e cuja empresas - e a própria vida - foram destruídas implacavelmente pelos nazis.
Em 2018 - só em 2018! - fizeram em Berlim uma exposição que respondia à questão “porque é que Berlim não é uma cidade da moda como Paris ou Londres?”, e também: porque é que as empresas de moda do pós-guerra quiseram manter tão bem escondida a história da ascensão e da queda do fenómeno da moda berlinense? Chamava-se: "tecido em chamas - a moda alemã feita pelas empresas judaicas de confecções da Hausvogteiplatz".


19 outubro 2021

Gleis 17 - 80 anos





Fez ontem oitenta anos que saiu de Berlim o primeiro comboio de deportação de judeus: 18 de Outubro de 1941, mil duzentos e cinquenta e um seres humanos com destino a Lodz. As primeiras vítimas de um total de mais de 35.000 berlinenses que o regime nazi arrancou às suas casas para enviar para as máquinas da morte.

Nem todos saíram de Grunewald. De facto, a maior parte dos judeus de Berlim foram levados da estação de mercadorias de Moabit. Desse vasto espaço resta agora um pequeno memorial entalado entre parques de estacionamento de grandes superfícies comerciais. Uma iniciativa de cidadãos está a tentar aumentar a dimensão e a forma do memorial.

Um dos voluntários desse projecto contou que há tempos se cruzou naquele local com uma velhinha que andava a passear o cão, e ela lhe disse que sabia bem o que ali aconteceu, porque em criança ouvia os gritos dos judeus.

Também foram levados do Anhalter Bahnhof cerca de 10.000 judeus. Eram os mais velhos, a quem o regime nazi vendia (isso mesmo: vendia) estadias em centros de repouso na Boémia. Eles pagavam, convencidos que iriam para um lugar menos mau que os campos sobre os quais se ouviam tenebrosos rumores - e ao chegar a Theresienstadt, ao verem as barracas onde iam ser metidos, apercebiam-se do logro.

O presidente da República alemão esteve ontem no Gleis 17, em Grunewald, e fez o discurso habitual destes momentos. "Nunca mais deve sair um comboio do Gleis 17. Nunca mais com destino a Theresienstadt, nunca mais para o ghetto de Lodz, nunca mais com destino a Auschwitz."

O discurso soube-me a uma confortável banalidade. "Nunca mais sairão daqui comboios para Auschwitz" - sim, é muito improvável que alguma vez voltem a partir da Alemanha comboios com pessoas levadas em carruagens de gado, com destino a câmaras de gás.

Tivesse ele dito "Nunca mais deixaremos que seres humanos sejam tratados como sub-humanos", e o caso mudava de figura. Porque o nosso olhar deixaria de repousar na segurança de uma Auschwitz transformada em museu (e portanto, remetida para um passado que não regressa), e seria obrigado a ver também os barcos no Mediterrâneo, a ver os campos de refugiados em Moria e na Turquia onde - pagos com dinheiro da União Europeia - tantos seres humanos vivem em condições que nem para animais são aceitáveis.











13 outubro 2021

Margot Friedländer


Ontem foi dia de "Salão Filarmónico" na Kammermusiksaal, e a convidada era Margot Friedländer, uma sobrevivente do Holocausto que fará 100 anos no próximo dia 5 de novembro. 

A sessão começou com Dagmar Manzel a cantar canções berlinenses dos anos 20. As canções descontraídas, divertidas, brejeiras que Margot terá ouvido em criança, no tempo da República de Weimar, pouco antes de os nazis chegarem ao poder. 

Quando subiu ao palco - uma senhora baixa e franzina, cheia de energia - quase parei de respirar. Tinha à minha frente alguém que atravessou 100 anos da nossa História, e cuja vida foi profundamente marcada pelo maior dos crimes. 

Ela sentou-se no seu cadeirão, e encheu a sala com a sua voz elegante e serena, a contar: da sua infância feliz no seio de uma família enorme, da chegada dos nazis ao poder, do divórcio dos pais em 1937 e da sua mudança com a mãe e o irmão para uma pensão, porque tencionavam sair do país em breve. Das tentativas da mãe para fugir do país e da recusa do pai em assinar os papéis ("se é para passarem fome na Austrália, podem muito bem ficar em Berlim"). Da sua mudança forçada para um prédio de realojamento de judeus. Da manhã a seguir ao 9 de Novembro de 1938, quando a caminho do trabalho passou por inúmeras lojas destruídas que ela nem sabia que pertenciam a judeus. Do terrível estado em que encontrou o atelier onde trabalhava, e da descoberta da ganância dos vizinhos, até então gente civilizada, que agora aproveitava a destruição para pilhar. Do Bar Mizwa do irmão, que se devia realizar no sábado seguinte, e já não aconteceu porque a sinagoga estava em cinzas. E daquele dia em Janeiro de 1943 que mudou tudo: ela regressava a casa depois do trabalho, e teve um mau pressentimento quando um homem com aspecto estranho passou por ela. Apertou melhor a carteira contra o peito, como fazia sempre para esconder a sua estrela amarela, e continuou. Assustou-se ao ver que o homem entrava pela porta do seu prédio. Mesmo assim, admitiu que fosse visitar alguém, e entrou também. Ao subir as escadas, viu que ele estava parado em frente à porta do apartamento onde ela própria vivia. Fazendo das fraquezas força, passou por ele de cabeça levantada e subiu mais um andar. A vizinha que lhe abriu a porta contou-lhe que a Gestapo tinha vindo buscar todos, mas só encontrara o irmão dela. Nessa noite dormiu na casa da vizinha, e no dia seguinte começou a procurar a mãe. Encontrou finalmente sinais dela na casa de outra vizinha, que lhe deu a notícia de que a mãe se fora entregar à Gestapo para acompanhar o filho na deportação para Auschwitz [e eu a gritar para dentro de mim: "oh, não! a escolha de Sofia!"] e deixara à filha mais velha o seu colar de âmbar, um caderninho de apontamentos, e uma última frase: "tenta fazer a tua vida". 

Ela tentou fazer a sua vida: pintou o cabelo de ruivo, pôs ao pescoço um cordão com cruz, fez uma operação para mudar a forma do nariz, andou fugida de casa em casa - num total de 16 agregados que puseram as suas próprias vidas em risco para salvar a dela. Uma vez, numa dessas casas, tocaram à campainha e ela abriu a porta. Eram homens da Gestapo que vinham fazer uma busca. Enquanto eles examinavam os documentos das pessoas presentes, ela aproveitou um momento de distracção e saltou pela janela. Dessa vez conseguiu escapar, mas a sorte falhou-lhe tempos depois, quando foi denunciada por um daqueles judeus que identificavam outros em troca da protecção dos seus próprios familiares. Deportaram-na para Theresienstadt. 

- E as pessoas dessas 16 casas que a ajudaram, que gente era essa?, perguntou o moderador. Eram opositores políticos? Resistentes?     
- Seres humanos, respondeu ela. Pessoas cujo sentido de humanidade as impedia de fazerem de conta que não viam o que estava a acontecer. 

Dagmar Manzel voltou ao palco. Sentou-se no degrau junto ao cadeirão de Margot Friedländer, e cantou-lhe o que me pareceu ser uma canção hebraica. Belíssima. 
[Eu comovida com o símbolo: uma canção hebraica cantada com humildade no centro de uma das mais importantes instituições da cultura de Berlim. Que não nos falhem nunca estes símbolos e estas pontes.]

Margot continuou o relato: o seu trabalho em Theresienstadt, o reencontro com um homem que já conhecia de Berlim e com quem viria a casar no campo pouco depois da libertação, antes que o último rabino se fosse embora. O momento em que descobriu o que era Auschwitz: quando chegou um comboio que trazia prisioneiros de Auschwitz que o exército alemão retirara à pressa, para esconder a evidência do crime antes da chegada do exército soviético. Do meio daqueles vultos tenebrosos, que ela não sabia bem dizer se estavam mortos ou vivos, ergeu-se uma voz: "Margot, não me reconheces?", e não, ela não fora capaz de reconhecer o seu antigo amigo. Nesse momento teve a certeza que a mãe e o irmão não voltariam nunca. 
[Li noutro livro uma referência semelhante a essa sobre o comboio que veio de Auschwitz, por um sobrevivente que na altura era ainda criança. Também ele teve dificuldade em reconhecer a miúda alegre e despachada, pela qual estavam todos mais ou menos apaixonados, e que poucos meses antes fora levada de Theresienstadt num dos comboios com destino à Polónia.]

Em 1946, Margot e o marido emigraram para os EUA. Ao avistar a estátua da Liberdade, olhou-a com desprezo: "então é aqui que tu estás, Liberty? Pois olha que não te devo nada: quando mais precisei de ti, não me ajudaste. Só agora, quando já sou uma pessoa livre, é que te mostras."

Depois da morte do marido, em 1997, Margot aceitou um convite da cidade de Berlim dirigido a "judeus perseguidos e emigrados", e em 2003 veio visitar a sua cidade natal. Ficou encantada: "ah, tivesse eu dez anos menos, e mudava-me para aqui!"
Oito anos depois - com 88 anos - mudou-se para Berlim. E desde então não tem parado de apelar a todos aqueles a quem conta a sua vida, para que não esqueçam nunca o seu dever de humanidade. 

Contou que no decorrer da cerimónia solene em que lhe deram a nacionalidade alemã perguntou directamente: "não estão à espera que eu agradeça a devolução de algo que me roubaram há tantos anos, pois não?" - e virou-se para nós em tom desafiador: "Eu sou alemã! Eu sou alemã!"

A sala começou a aplaudir com força. Eu olhava em volta, "ninguém se levanta? ninguém se levanta?", uma pessoa ergueu-se, eu saltei como se tivesse uma mola, e no momento seguinte todos aplaudiam de pé. 

Dagmar Manzel voltou ao palco para cantar "Wenn ich mir was wünschen dürfte" de F. Hollaender.
E uma última canção, a sua canção favorita, disse ela, com música de Werner Richard Heymann, que uma vez terá dito "você não me conhece, mas provavelmente já está bem farto de me ouvir".
Cantou:

"Em algum lugar no mundo há um bocadinho de sorte
E é nisso que penso sem parar
Em algum lugar no mundo há um pouco de felicidade
E há tanto tempo que penso nela

Se soubesse onde está, punha-me a caminho
Porque por uma vez quero ser inteiramente feliz
Em algum lugar no mundo começa o meu caminho para o céu
Em algum lugar, de algum modo, em algum momento."

- e depois abracou Margot Friedländer longa, longa, longamente. 

A sessão tinha terminado, mas eles ainda estavam no palco, e ficamos todos a olhar uns para os outros sem saber o que fazer, até que desatamos a rir, o que ajudou a disfarçar as lágrimas. 


I have so much longing

I dream so many times

that just once hapiness will be close

I have so much longing

I have hoped,

That soon the hour will be there.

Day and night

I am waiting

I never give up hope.

 

Somewhere in the world

there is a little piece of luck

and that's what I dream in every moment

somewhere in the world

there's a little bit of happiness

I'have been dreaming of that

for a long, long time.

 

If I knew , where it was,

then I'd go out into the world,

Because only once

I want to be happy more than

anything else.

 

Somewhere in the world

there's a path to heaven.

Somewhere, somehow, sometime.

 

29 setembro 2021

Babi Yar - um a um

 

(foto: Ann ronan Picture Library / IMAGO - Julho de 1941, assassínio de judeus em Winnyzja)


(foto: AP - 1942, assassínio de civis soviéticos em Babi Yar)


Ouvi pela primeira vez o nome #Babi_Yar em Weimar, em 2005, ao conversar com um sobrevivente de Auschwitz, quando ele me contou, com gargalhadas amargas, que em Babi Yar encontrou apenas um monumento aos resistentes antifascistas.
- Aos resistentes antifascistas!, repetia ele. E a seguir, sarcástico: bebés, crianças de colo, velhos: todos antifascistas! Hahaha! Judeus, judeus é o que eles eram! Depois de assassinados pelos nazis, a sua memória foi apagada pelos comunistas. É isto que fazem connosco...
Só recentemente me dei conta de que os nazis assassinaram em Babi Yar muitas outras pessoas para além dos judeus massacrados em fins de Setembro de 1941. A História é bem mais complexa do que apenas o foco de cada um dos seus grupos.

Entretanto, já fizeram mais monumentos em memória dos que ali foram barbaramente assassinados: os judeus (1991), as crianças (2001), os escravizados em trabalhos forçados (2005), os ciganos (2016) - entre vários outros.

No centro de Berlim há uma chama perpétua a lembrar as vítimas de todas as guerras, junto a uma pietà de Käthe Kollwitz. "Todas as vítimas" é jogar pelo seguro: sempre é melhor que falar de uns e esquecer outros, como era o caso do primeiro memorial soviético em Babi Yar.

Mas lá, em Babi Yar, é diferente: no lugar onde mataram a tiro, um a um, mais de cem mil seres humanos, há que lembrá-los todos, e nomear individualmente os pretextos que o horror totalitário invocou para destruir cada um deles. Porque esse ódio contra grupos determinados continua vivo entre nós, e é preciso que o saibamos identificar e combater.





Babi Yar: "se tomarmos consciência do que aconteceu ficamos loucos"

 

(Duas semanas depois do primeiro massacre de Babi Yar, a barbárie repete-se em Lubny. Um fotógrafo nazi, Johannes Hähle, capta alguns dos momentos que precedem a matança.
Foto: Hamburger Institut für Sozialforschung)





(Fotos 2 e 3: 14.10.1942 - Massacre em Misosz - Pictures from History, Ullstein Bild) 


Referindo-se ao massacre de Babi Yar, que começou faz hoje oitenta anos, na Enciclopédia Ilustrada usaram a imagem de uma “matança medieval” - e eu mais uma vez troquei tudo e pensei naquela cena horrorosa das guerras no tempo de Napoleão, com soldados a espetar as baionetas na barriga de outros homens jovens e saudáveis como eles.
A gente sabe e não sabe, e eu precisei de ver uma encenação da famosa batalha de Jena para me aperceber da dimensão da estupidez: que força levou aqueles homens a aceitarem caminhar em formação disciplinada em direcção ao exército inimigo para se matarem uns aos outros com baionetas?

Hoje foi o número 15 que me abriu um pouco mais os olhos: em #Babi_Yar mataram em média 15 pessoas por minuto. A tiro. Peng. Peng. Peng. Peng. Peng. Peng. Peng. Peng. Peng. Peng. Peng.
Um dedo a carregar no gatilho: uma e outra vez, cinquenta vezes.
Que força levou aqueles homens a dispararem assim sobre bebés (peng!), sobre mulheres nuas (peng!), sobre velhos doentes (peng!)?
Um artigo de Katha Iken no Spiegel Online de 27.9.2021 (https://bit.ly/3zNJ5Ws) aborda esse tema, a propósito de um advogado de 73 anos, cuja identidade prefere não revelar, que quer levar a julgamento um desses assassinos, um homem que tem agora 99 anos. Resumo o artigo assim:
“Quero levar esse homem a tribunal”, sublinha o advogado. Não lhe importa se ele vai parar à prisão, mas é importante haver expiação e justiça – ainda que tardia. “Porque é que não se pode pedir contas a um homem de 99 anos? Em Babi Yar também assassinaram pessoas de 99 anos.”
33.771 – a exactidão dos números! – mortos em 36 horas, mais de 15 por minuto. Nem em Auschwitz, Treblinka ou Belzec mataram pessoas a essa velocidade.
Os judeus avançaram para o desfiladeiro pensando que iam ser levados para viver noutra região. Chegados a Babi Yar, mandaram-nos dar os seus objectos de valor e os documentos de identificação, e despir-se. Muitas pessoas eram obrigadas a deitar-se de bruços sobre os corpos dos que tinham sido assassinados antes deles.
Os membros dos esquadrões da morte eram substituídos a intervalos regulares, e os organizadores do massacre cuidavam do seu bem-estar: comida quente e aguardente - e música de ópera a ecoar pelo desfiladeiro para abafar o som dos gritos.
No final, escreveram-se os relatórios que revelavam enorme satisfação pelo modo como a “operação” tinha decorrido.

Mesmo após a queda do regime nazi, os autores do massacre de Babi Yar não mostravam sentir alguma culpa. Antes parecia terem mais pena dos assassinos que dos assassinados.
Paul Blobel, um dos responsáveis directos, afirmou no tribunal de Nuremberga que „não conhecia o valor intrínseco das vítimas” e pensava mais nos seus homens que nas pessoas mortas. “Os nossos atiradores precisavam de apoio psicológico” e “Confesso que os homens que tomaram parte nisso sofreram mais dos nervos do que aqueles que tinham de ser ali mortos a tiro.”
Também Kurt Werner, membro de um desses esquadrões, mostrou sentir muita pena de si próprio: “Ainda me lembro hoje do choque dos judeus quando chegavam à orla do desfiladeiro e descobriam os cadáveres no fundo. Com o susto, muitos desatavam a gritar. Ninguém consegue imaginar como ficávamos com os nervos arrasados ao fazer o trabalho sujo lá em baixo.”

Os autores deste assassínio em massa como vítimas merecedoras da nossa compaixão: haverá maneira mais desprezível de zombar dos mortos?

O racismo dos autores destes crimes manteve-se depois de 1945. Deu-se início ao longo processo de encobrimento dos vestígios que poderiam ter ajudado a entender o que aconteceu em Babi Yar. Três dos nazis responsáveis pelo massacre foram condenados em Nuremberga, mas o tribunal não pediu contas a nenhum dos elementos do exército alemão que também tinham participado. Nenhum dos 700 homens dos comandos envolvidos no massacre foi levado a julgamento, excepto dez, já em 1967/68. Desses, três foram absolvidos, e os outros foram condenados a penas de prisão entre 4 e 15 anos por cumplicidade no homicídio - mas não por homicídio.

O advogado que insiste em levar o caso a tribunal acusa: “as falhas no trabalho jurídico relativo a Babi Yar não dignificam o Estado de Direito”. E continua: também é inaceitável que na Alemanha praticamente ninguém saiba nada sobre esse massacre.

Ninguém sabe. O antigo atirador de Babi Yar, viveu perfeitamente integrado na sociedade até aos 95 anos, altura em que a Justiça lhe foi bater à porta. Às acusações, respondeu que fazia apenas trabalho sanitário. „Que trabalho sanitário é necessário num massacre?“, ri amargamente o advogado.

Habitualmente opta-se por arquivar casos dirigidos contra pessoas de idade tão avançada. Mas o advogado não desiste: recentemente voou até Kiev para contactar familiares de vítimas de Babi Yar que possam impugnar essa decisão. E talvez a Justiça alemã tenha realmente de se ocupar uma última vez com aqueles crimes sobre os quais uma mulher de Kiev escreveu, a 2.10.1941:

“Alguma vez se viu algo assim na história da humanidade? Não dá para escrever, não dá para tentar compreender, porque se tomarmos consciência do que aconteceu ficamos loucos. ... Que século maldito, que tempo maldito e assustador"!