30 novembro 2011

nas veias

Ontem fui almoçar com um grupo de portuguesas.
No caminho para o restaurante fotografei a cidade incrivelmente soalheira - com o telemóvel, à queima-roupa, dentro da carruagem do S-Bahn com os vidros todos riscados.

 


 
Fizemos uma algazarra incrível no restaurante Brasserie am Gendarmenmarkt (só digo o nome porque nos saiu muito bom e com um preço muito razoável para almoço; com um empregado extremamente paciente, simpático e atencioso, que no fim ofereceu a cada uma de nós um frasquinho de compota de figo). Falámos de tudo um pouco, atropelámos os temas, fizemos planos. Ao sair, dei com a magia do mercado de Natal no Gendarmenmarkt. Voltei para casa feliz da vida.
Melhor que dias assim, só mesmo injectar vinho do Douro directamente nas veias.

o doodle nosso de cada dia nos dai hoje

176º aniversário de Mark Twain, diz-nos o Google hoje. E faz-nos um desenho, que me leva imediatamente às tardes amenas da infância, eu enterrada num sofá completamente embrenhada nas aventuras daqueles dois amigos.

querido Pai Natal (2)

Querido e simpático Pai Natal,

não sei se lês o jornal, mas há lá tanta gente que se droga, fuma ou bate nos outros. Talvez tu não saibas muito sobre essas desgraças. Há a floresta do Mazonas e os orfãos. Peço-te que os orfãos do mundo inteiro e também do Mazonas tenham um Natal melhor que o nosso. Mas nós nunca pensamos nesses orfãos, nós que temos roupa de que não gostamos porque temos demasiado.
E as pessoas que emigram? É um povo inteiro de refugiados, que vivem em quartos sujos sem luz nem aquecimento e vão pelo mundo em carros (se os têm). Muitos morrem e vão para outro mundo.
Há muitos mundos, e eu não sei se tu vais a todos eles para dar presentes: há o nosso mundo, o terceiro mundo (nunca percebi o que era o segundo mundo), e também há o quarto mundo, que é o mais horrível de todos.
Em suma: quase todos vivem nos outros mundos, e as crianças têm sempre a mesma roupa esfarrapada e morrem de frio. Há Natais diferentes, porque nós atiramos as nossas roupas deste mundo para os outros. Nós também podíamos estar lá em vez deles, e então eram eles quem nos atirava a roupa. Querido Pai Natal, faz com que as crianças dos mundos nº 3 e nº 4 sejam pessoas normais como nós.
Agora vou escrever um poema para ti, que se chama "Paz e não guerra".

A paz é assim:
às vezes não a sentes.
Mas vês.
Há pássaros
que morrem
porque já não conseguem respirar,
pobrezinhos.
Como é que os homens
podem fazer tal coisa?

Pai Natal, eu inventei este poema, não o copiei!


Marco - Pordenone

socorro, tirem-me daqui!

Há bocadinho descobri um blogue novo, beijo de mulata, (sim, eu sei: mais uma vez a interessada é sempre a última a saber...) e agora não consigo sair de lá.

E o boas intenções está melhor que nunca. Não, isto diz-se de outra maneira: o boas intenções está melhor como sempre. E o que vai por aquelas caixas de comentários?, nem vos digo nem vos conto. Mas previno já: ninguém sai daquelas caixas de comentários como entrou. 

29 novembro 2011

querido Pai Natal (1)

Querido Pai Natal,

tenho um cão que se chama Spicchio e morre de frio. A minha mãe fez-lhe um casaquinho para andar em casa, mas tira-lho quando ele tem de ir à rua, porque é ridículo e a minha mãe tem vergonha quando as pessoas dizem "olha como aquela deixa o cão andar!" Por isso o Spicchio odeia o Natal: porque a minha mãe não quer que as pessoas se riam dela. Peço que vejas se podes mudar alguma coisa no frio, ou na minha mãe, ou nas pessoas que se riem. Falo-te em nome do Spicchio.

Chiara - Civitavecchia (Roma)

***

De um livro de cartas de crianças ao Pai Natal, colectânea de Federica Lamberti Janardi e Brunella Schisa

trabalhar ao som de música assim (3)

Esta manhã encontrei no facebook da Isabel Ramalhete um poema:

"De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.


Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece."

Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"

Logo a seguir um comentador propunha esta música para acompanhar os versos: My song - Keith Jarrett and Jan Garbarek


E eis que o meu dia começa melhor graças a pessoas que nunca vi.  Sim, que o facebook tal e coisa, mas também é isto.

***

Como habitualmente, o youtube não me deixa abrir aquele link. Lá sigo eu pelo caminho das pedrinhas: video-googleei os nomes, e ponho-me a trabalhar ao som da música que me oferece um site japonês...
Sim, que a globalização tal e coisa, mas também é isto.

(eu nem me importava de pagar os direitos de autor para poder ter acesso aos vídeos - esta comunicação na internet que, aqui na Alemanha, nos leva constantemente a links sem saída, isso é que é duro; o youtube alemão devia abrir contas tipo pay-pall, sempre seria melhor do que é)

palavrões e insultos

Apesar de ter crescido no Porto e estar em contacto frequente com o vernáculo minhoto, quando tenho de traduzir palavrões e insultos fico sempre indecisa. É que estas coisas são muito pessoais, e o que serve para mim pode não servir para os outros. Para além da interpretação subjectiva, há os usos regionais: cada terra tem os seus, ou usa os de todos mas atribui-lhes significados diferentes.
Pior ainda: constou-me que em Lisboa certos palavrões ecoam com uma intensidade que surpreende as gentes do Norte, habituadas a isso e a muito mais. Pelo que deviam traduzir versões diferentes de livros, à semelhança do que fazem para DVDs vistos nos aviões ou fora deles: uma versão mais literal para o país a norte do Mondego, e uma mais eufemística para o seu sul.
Em todo o caso, aqui vai uma rápida moral da história: razão tinha a minha avó, quando nos proibia o uso de palavrões - agora vejo bem o trabalho que se pouparia ao tradutor!

Se esta já é uma questão suficientemente bicuda, imaginem traduzir os palavrões usados por um russo que escreve em alemão. Por exemplo: um "Ziegenbock", um bode. Um insulto que os alemães não usam. Lá vou eu farejar pela internet (como é que os tradutores dantes faziam?) e descubro que "cabra", em russo, significa "pessoa manhosa". Aaaah, já me entendo: sua raposa velha. Alea iacta est, gulp.

Algo me diz que o Sherlock Holmes em novo foi tradutor. Mas depois ganhou juízo, e decidiu usar as suas qualidades de detective para tarefas mais simples.

***

Como é que os tradutores faziam antes de terem internet? Perguntavam ao escritor. Escreviam uma cartinha, bai carta feliz boando, e passadas algumas semanas recebiam a resposta. Pelo menos foi isso que contou o primeiro tradutor de Saramago para alemão, e a resposta que veio uma eternidade depois era "essa palavra não existe, inventei-a eu!"
Dei um pequeno salto no tempo, perguntei ao Kaminer. "Bode", afinal, tinha o sentido de teimoso e caprichoso. Será que a sul do Mondego este bode também é uma mula do cara**o?...
*suspiro*

28 novembro 2011

tentando fazer de conta que não é segunda-feira de manhã...

Dois vídeos muito divertidos que o Vítor Santos Lindegaard partilhou no facebook:





(este, apetecia-me fazer um concurso cá em casa a ver quem identifica mais quadros)



(para quem está com preocupações de produtividade: o vídeo é todo muito divertido, mas o "extrórdinário" começa lá para o segundo minuto)

mais um vício


Morangos secos. Nunca mais Gummibärchen. E os figos secos que se cuidem, que estão quase a passar para a antecâmara do esquecimento.

Agora só me falta saber onde comprá-los, sem ser na amazon (de onde tirei a foto).

***

Na semana passada a Christina foi ao correio mandar um calendário de Advento que preparou para o Matthias. Traduziu saudades e ternura em 24 saquinhos de papel profusamente pintados com motivos kitsch de Natal, cheios de chocolates e pastilhas, barretes de pai Natal e armações de renas. Faltava um dia, e eu sugeri estes morangos secos. Mas será que podemos enviar morangos secos para os EUA? Não nos arriscamos a que na Alfândega deitem todos os 24 saquinhos ao lixo, só por causa da contaminação?
Em vez disso, decidimos que a surpresa desse dia será um pequeno filme que vamos gravar só para ele, e pôr no youtube.

Volta, Matthias, tens aqui uma embalagem enorme de um vício novo à tua espera. E nós, pois, e as nossas saudades.

27 novembro 2011

outono

Cheguei ao Ku'damm de manhã cedinho, e talvez fosse do sol ainda baixo, talvez fosse do ar limpo: tive a certeza que a cor dos plátanos estava outra. Como se o Outono lhes tivesse chegado durante a noite, repentinamente.



Um pouco mais tarde fiz esta fotografia com o telemóvel. Pouco mostra. Nada diz da alegria daquele momento, e muito menos do alvoroço que toma conta de mim quando vejo a avenida naquela festa de cores, as folhas enormes caídas nos larguíssimos passeios, os troncos dos plátanos antigos experimentando vestir-se de rosa e prata.

***

Como parece que agora há liberdade de expressão, e cada um pode dizer o que pensa, e este blogue se pretende pluralista, aqui vai o contraditório. Não concordo nada com o que ela diz, mas estaria capaz de me deixar matar e tal para ela o poder dizer. É a Democracia, parece.
E além disso ela canta que é uma beleza.

26 novembro 2011

ai, a poesia é uma coisa tão linda...



As saudades que eu tinha destas músicas...
Já já não ouvia disto desde 2002, quando ia fazer as compras no supermercado chinês da Irving Street em San Francisco.

Foi um período de troika privada, e eu ia comprar nos chineses, que eram de longe os supermercados mais baratos. Como é que eles fariam para ter aqueles preços, muitas vezes menos de metade de produtos semelhantes em supermercados americanos? Muito borrego comprei eu lá, sem saber se seria ahem ahem. Mas parece que não, parece que ahem ahem é mais caro que borrego. Também houve aquele momento gago em que estavam a vender um sapo vivo por cima do peixe, e o sapo urinou. Bem, é tudo organic...  

Às vezes ia à China Town, a uma padaria que lá conheço, comprar bolos muito parecidos com pão-de-ló. Estranho: quando tinha saudades de casa, ia à China Town. A culpa deve ser do Afonso de Albuquerque e do Jorge Álvares, que andaram a inventar a globalização muito antes de ela nos cair em cima da cabeça.

25 novembro 2011

muitos anos de experiência




Contava-me há dias um amigo que dá aulas de autodefesa para mulheres:

- Sabemos a técnica, mas não estamos preparados para o mundo das mulheres que frequentam os nossos cursos. Elas vêm caladas e discretas, e esforçam-se. Nota-se que se esforçam realmente. Depois, a pouco e pouco, vão-se abrindo. Como uma mulher de meia idade, com quem eu estava a fazer um exercício de defesa no chão. Ela lutava aguerrida, com valentia e força, não desistia. Elogiei-a. No dia seguinte confidenciou-me: "foram muitos anos a defender-me do meu marido". Tu tens vinte anos, não sabes nada da vida, e ficas a olhar para ela, horrorizado e mudo.

"Here we are on the edge of a financial and social disaster..."

Encontrado no Entre as brumas da memória (obrigada, Joana Lopes)




"Here we are on the edge of a financial and social disaster and in the room today we have the four men who are supposed to be responsible. And yet we have listened to the dullest most, technocratic speeches I've ever heard.

You are all in denial. By any objective measure the euro is a failure. And who exactly is responsible, who is in charge out of all you lot? The answer is none of you because none of you have been elected; none of you have any democratic legitimacy for the roles you currently hold within this crisis.

And into this vacuum, albeit reluctantly, has stepped Angela Merkel. And we are now living in a German-dominated Europe - something that the European project was actually supposed to stop. Something that those who went before us actually paid a heavy price in blood to prevent. I don't want to live in a German-dominated Europe and nor do the citizens of Europe.

But you guys have played a role, because when Mr Papandreou got up and used the word 'referendum' - or Mr Rehn, you described it as 'a breach of confidence', and your friends here got together like a pack of hyenas, rounded on Papandreou, had him removed and replaced by a puppet Government. What an absolutely disgusting spectacle that was.

And not satisfied with that, you decided that Berlusconi had to go. So he was removed and replaced by Mr Monti, a former European Commissioner, a fellow architect of this Euro disaster and a man who wasn't even a member of parliament.

It's getting like an Agatha Christie novel, where we're trying to work out who is the next person that's going to be bumped off. The difference is, we know who the villains are. You should all be held accountable for what you've done. You should all be fired.

And I have to say, Mr Van Rompuy. 18 months ago when we first met, I was wrong about you. I said you would be the quiet assassin of nation states' democracy, but not anymore, you are rather noisy about it aren't you. You, an unelected man, went to Italy and said, 'This is not the time for elections but the time for actions'. What in God's name gives you the right to say that to the Italian people?"

observadores passivos

Numa reunião de pais (da Jenaplan de Weimar, a tal escola que educa para a Democracia, e para a participação, e tal) combinou-se irmos todos assistir a um jogo de futebol num bar. Um dos pais, vietnamita, disse: "eu, nesse bar, não entro". Neonazis.
Então escolheu-se outro bar, para ele poder entrar.

Somos todos observadores passivos?

Quanto mais olho para o que acontece na minha vida, menos vontade tenho de atirar pedras aos telhados dos alemães que aqui viviam nos anos 30.
(E antes de cederem à tentação de me virem atirar pedras a mim, arranjem um espelhito, nunca se sabe...)
(Por acaso estava agora a lembrar-me de amigos meus em Portugal: ele tem a pele clara e ela tem a pele escura. Lembro-me de andarmos à procura de um restaurante, e ser ele a entrar para ver se havia mesa para o grupo, porque se fosse ela a perguntar era provável que não houvesse.)

24 novembro 2011

sinfonia 45 de Haydn, também conhecida como "sinfonia da despedida"

Hoje, por ser dia de protesto, uma amiga lembrou-me esta "sinfonia da despedida", a que está ligada uma história interessante. Vi-a uma vez, algures por cá, com um público que teve alguma dificuldade em conter o riso perante a saída a conta-gotas da orquestra.

Aqui podem ver os momentos finais de uma interpretação de Barenboim,



e no vídeo seguinte todo o quarto andamento:



Muitas vezes se conta que os músicos tiveram ordens para, durante o adágio, abandonar a orquestra segundo uma ordem determinada. Esta hipótese baseia-se no seguinte relato:

Havia um regulamento que impunha que os músicos da orquestra viessem no princípio do Verão para o palácio Esterhaza, mas sem as suas famílias. Por esse motivo, durante todo o Verão os músicos não tinham contacto com as famílias, à excepção de dois cantores, o violinista Tomasini e o próprio Haydn. O motivo apresentado era a exiguidade do espaço para alojar tantas pessoas. Quando os músicos se queixaram de terem saudades da família e despesas dobradas, o príncipe pagou-lhes sem hesitar um suplemento. Para ele, o mais importante era não ter de ver as mulheres e os filhos dos seus serviçais.
A saison do Verão de 1772 prolongou-se demasiado, e os músicos pressionaram Haydn para tomar o partido deles junto do príncipe. Sobre esse concerto, Jacob relata: „Após não mais que 100 compassos, todos os instrumentos pararam repentinamente na dominante de Fá sustenido: quatro violinos iniciaram de modo completamente inesperado um tema que até ali não tinha sido ouvido. Arrastavam-se e afastavam-se uns dos outros. Algo incrível aconteceu para os lados do segundo trompista: ele, e o primeiro oboísta levantaram-se a meio da peça, arrumaram os seus instrumentos e abandonaram o palco. Onze compassos mais tarde o fagotista, que até então não tivera nada que fazer, pega no seu instrumento e, juntamente com o segundo violino, repete em breve uníssono o início do primeiro motivo; a seguir, apaga a sua luz e sai também do palco. Após sete compassos é seguido pelo primeiro trompista e pelos segundo oboísta. Agora é a vez do violoncelo, que até então acompanhara o contrabaixo, de se afastar deste: durante uma viragem da música -  quando inesperadamente surge um dó menor como dominante - o contrabaixo ergue-se e sai da sala. A música vai-se tornando cada vez menos potente, mais ténue. Haydn, ao piano, continua a dirigir, como se não se desse conta de nada. Alguns compassos do adágio em lá maior. Contudo, enquanto estes ressoam, o violoncelo, o terceiro e o quarto violino e a viola desaparecem um após o outro.
O palco está quase às escuras. Só numa estante ardem ainda duas velas: junto a Luigi Tomasini e um segundo violino, que têm a última palavra. Os violinos soam muito baixo, usam abafadores. Entrelaçam-se em tercinas e sextinas, para a seguir quase morrerem num sopro leve. Agora apagaram-se também as últimas luzes, os últimos violinistas levantaram-se e desapareceram como sombras na parede: sobre a audiência espalha-se o bafo de uma solidão outonal. Quando Haydn se prepara para sair em bicos de pés, o príncipe aproxima-se e pousa-lhe a mão levemente sobre o ombro: "Meu caro Haydn, entendi a mensagem! Os músicos têm saudades de casa... Muito bem! Amanhã fazemos as malas..." 
Na sala da entrada, a orquestra espera ansiosa o seu mestre. Será que a amável partida resultou? Mas eis que ele chega já, e mais que as suas palavras, o seu rosto revela o bom resultado da empresa. Com abraços levam-no para fora."

Devido a este relato, Schweikert (1988) vê no primeiro andamento um confronto musical entre o príncipe (primeiro tema) e os músicos com o tema que "implora".
Segundo o jornal „Wiener Blättchen“ de 19. Julho 1787 terá sido o clarinete o último instrumento a abandonar a orquestra. No entanto, nesta orquestra nem sequer está previsto um clarinete.
Johann Matthias Sperger compôs em 1796 uma "sinfonia da chegada" em oposição a esta "sinfonia da despedida".


Webster vê toda a peça como descrição dos sentimentos dos membros daquela orquestra: por exemplo, o cansaço dos músicos, ansiosos por voltar para casa, está representado no pouco usual tom de fá sustenido maior, que simbolizaria o lar quase inalcançável.
Marggraf tematiza, a partir de um relato feito provavelmente por um aluno de Haydn, Ignaz Pleyel, segundo o qual o príncipe Nicolau sofreria de depressões. Para o animar, Haydn compôs uma nova sinfonia, pela qual o príncipe, contudo, não se interessou. Haydn ficou muito chocado e no dia seguinte pediu a sua exoneração. „Este andamento final – provavelmente o mais estranho de toda a literatura sinfónica - encerra uma sinfonia que insiste de forma única na representação de conflitos profundos; não se trata de um gracejo musical, mas da descrição de algo dramático e chocante, pleno de luto e trágico, que talvez devêssemos ver como o eco de uma grande catástrofe afinal evitada.“
No manuscrito original não se encontra qualquer indicação para abandonar os lugares; apenas nas cópias, das quais só uma foi feita perto da data da composição desta obra. Alguns autores têm dúvidas que tal cena pudesse ter acontecido justamente em Esterhaza, com toda a sua etiqueta e a estrutura fortemente hierárquica. Talvez este final seja „apenas para considerar como mais um final experimental dos anos 1771/72, sem qualquer motivo simbólico ou alegórico“?
Uma síntese das outras teorias sobre esta obra, apresentada por van Hoboken (1957). Nenhuma delas está suficientemente documentada (tal como a anteriormente apresentada):
  • Dificuldades financeiras teriam levado o príncipe a dissolver a orquestra.
  • Com esta interrupção, Haydn queria ridicularizar alguns músicos que lhe pareciam demasiado impertinentes.
  • Haydn teria escrito um contraponto para esta sinfonia, o qual se inicia com os dois violinos, e os restantes músicos vão entrando a pouco e pouco. 
***

Isto é tudo sabedoria da wikipedia alemã. Infelizmente as versões francesa e inglesa são muito mais sumárias, pelo que teve de ser o Speedy Gonzalez a traduzir.

    será isto o futuro?

    Já aqui falei de um post no blogue ninguém sai daqui vivo, onde se conta de um português que trabalha 10 a 12 horas por dia e que mesmo em férias é acordado bem cedo para ajudar a resolver problemas da empresa.

    Hoje, dia de greve geral em Portugal, recordo-o para acrescentar que conheço muitas pessoas na Alemanha que trabalham a esse ritmo. Parece que é o futuro, o admirável mundo novo. Ou se está disposto a fazer o trabalho de dois, ou se fica no topo da lista do borda-fora. E depois ficam muito admirados por o número de casos de burn out estar a crescer assustadoramente. 

    Quando vim viver para cá, há vinte anos, não era preciso trabalhar mais do que oito horas por dia para ter direito a ganhar muito bem. Na primeira empresa em que trabalhei, todos os minutos dados a mais eram somados e convertidos em dias de férias. Todos os minutos.
    Agora, os contratos de trabalho são feitos com isenção de horário.


    Uma amiga (que trabalha na Alemanha) contou-me que espera ser despedida por volta dos cinquenta anos, porque está a ficar demasiado cara à empresa. Ao que parece, os quadros intermédios de algumas empresas correm o risco de ser despedidos por volta dessa idade. Recebem uma indemnização, vão para o desemprego. De longa duração, pois: quem emprega pessoas de cinquenta anos?

    Conheci na região da antiga RDA um americano cuja função era "tirar gorduras às empresas" para as vender depois por bom preço. Empresas alemãs, numa região com graves problemas de desemprego.
    Contou-me que a responsável do sector de pessoal (uma alemã, obviamente, daquelas que considera que "a responsabilidade social do capital" é um valor fundamental desta sociedade) protestou por ele querer despedir um pai de família, uma senhora de 55 anos, pessoas assim. E ele terá comentado, a rir: "você trabalha para os sindicatos ou para mim?"
    Ela trabalhava para uma ideia da Alemanha que até há poucos anos estava generalizada e era indiscutível.

    cenas de um ensaio geral

    Duas crianças aninhadas no pai, e este encantado com a música, e eu encantada com tudo (e o meu telemóvel a fazer a fotografia possível):


    Durante o requiem de Mansurian, a dois metros do compositor, o filho de uma das cantoras do RIAS lia atentamente um livro do Tio Patinhas:

    23 novembro 2011

    parlamento alemão pede desculpa às vítimas dos neonazis




    Discurso de Norbert Lammert, Presidente do Parlamento Federal Alemão, no dia 22.11.2011:

    Em nome do Parlamento Federal Alemão e de todos os seus membros, quero exprimir o pesar, a consternação e o choque que a assustadora série de assassínios e ataques perpetrados por um bando de neonazis nos causaram.
    Sentimo-nos profundamente envergonhados pelo facto de os serviços de segurança dos Estados e da Federação se terem mostrado incapazes, ao longo destes anos, de desvendar atempadamente e de evitar estes crimes. O nosso coração está com os familiares das vítimas; às vítimas e aos seus familiares devemos um pedido de desculpas por certas suspeitas de que foram alvo no decorrer das investigações.
    Conhecemos a nossa responsabilidade. Estamos firmemente decididos a fazer tudo o que esteja ao alcance de um Estado de Direito para esclarecer o que se passou e os seus motivos, e para que o nosso país assegure a protecção das pessoas e dos seus direitos fundamentais - para todos os seus habitantes, independentemente da sua origem, religião e orientação.

    ***

    Para quem não sabe: no dia 9.11.2011 começou a fazer-se luz sobre uma longa série de assassínios de estrangeiros (oito turcos e um grego), que se descobriu agora ser obra de um grupo de neonazis. A polícia suspeitava de ajustes de contas numa espécie de máfia turca. O país está em choque.
    Todos os dias surgem mais pormenores escabrosos. Como, por exemplo, um vídeo encontrado na casa da célula terrorista - "quinze minutos de sadismo", dizia o Spiegel.
    Debate-se: como foi possível acontecer fiasco tão grande? E: devemos proibir o partido NPD? Não, responde Stefan Kuzmany, no Spiegel: proibir um partido não evita o terrorismo de extrema-direita, porque o problema não é o partido mas a "borra castanha" - apesar das fragilidades e das incongruências deste partido, houve eleitores em número suficiente para o meter em dois parlamentos; eleitores que não percebem que este partido não aponta um caminho de futuro, mas para o mais sombrio passado. Os actos de terrorismo germinam nesta parte da população que se identifica com os ideais e objectivos neonazis, e não dependem da proibição de um partido. Como resposta a este argumento, diz-se que é vergonhoso o Estado financiar um partido que tem um discurso anti-semita e xenófobo. O problema, acrescento eu, é que as coisas não são tão fáceis de destrinçar. Por exemplo, o cartaz "dar gás" (carregar no acelerador) de que já falei aqui: como provar que o que parece é?

    ***

    E agora, para os portugueses que se sentem afrontados quando a Angela Merkel manda palpites sobre Portugal, olhem-me aqui o Erdogan a vingar-vos (de um artigo de 22.11 no Spiegel):

    Serviços estatais e assassínios por neonazis


    Erdogan aconselha aos alemães que sigam o exemplo turco

    Entre as vítimas da célula terrorista de Zwickau há oito homens turcos. O primeiro-ministro Tayyip Erdogan pede que se investigue o envolvimento de serviços estatais alemães no caso, e sugere que se olhe para o exemplo turco.

    Ancara - Os assassínios brutais de um grupo de neonazis, de Zwickau, chocou especialmente não apenas a comunidade turca na Alemanha, mas também toda a Turquia - e o tom das críticas aumenta. O primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, apelou aos investigadores alemães para que analisem atentamente o possível envolvimento de agentes estatais nesta série de assassinatos de extrema-direita. Os crimes não podem ser simplesmente arrumados na gaveta de "actos de neonazis", disse Erdogan perante os deputados do seu partido, o AKP, em Ancara.
    (...)
    No seu discurso, Erdogan falou não apenas do terror de extrema-direita na Alemanha, mas renovou também as suas acusações contra a acção de organizações políticas e bancos alemães na Turquia. Segundo ele, na Alemanha existem diversos complôs "contra a Turquia, os turcos e os estrangeiros".

    (...)
    No que se refere à luta contra o terror de direita, a Alemanha pode seguir o exemplo da Turquia. O seu governo lutou contra organizações ilegais "dentro do Estado". Erdogan referia-se às investigações que decorrem desde 2007 contra o Ergenekon, que seria um grupo conspirador que estava a preparar um golpe de Estado. Suspeita-se que cerca de 200 oficiais do exército estariam envolvidos nos planos.

    22 novembro 2011

    aventuras na internet

    Não, não é o que pensam.

    É só para dizer que ontem uma comentadora deste blogue avisou que o concerto do Sakamoto ia passar na internet, um amigo do facebook disse-me qual era o link, eu divulguei essa informação, e no facebook juntou-se um grupinho muito divertido a comentar o concerto e tudo o que mais apeteceu. Foram duas horas de gargalhada. E depois dizem que o facebook, e a virtualidade, e não sei quê, mas o belo serão que ontem passei na companhia de amigos "da vida real" e de outros que só conheço da internet, gente que nem sequer mora na mesma cidade, foi verdade.
    Agora estou ansiosa pelo próximo concerto online, porque é mesmo muito engraçado assistir assim a um concerto em alegre cavaqueira com os amigos.

    "Interessada":  muito e muito obrigada! Prestou-nos um grande serviço.

    num país perto de si

    A Alemanha é neste momento um país em estado de choque, debatendo-se com o - segundo dizem - maior escândalo do pós-guerra. Muito resumidamente: há cerca de 10 anos, quando iam proibir a NPD, descobriram que havia demasiados agentes dos Serviços de Informação nas chefias desse partido, o que tornava impossível distinguir o que era NPD e o que era Estado. Um escândalo, uma vergonha, um fiasco brutal. O processo voltou ao ponto inicial, a NPD continuou sob observação. Simultaneamente, começou uma estranha série de assassínios de proprietários de restaurantes de Döner. A polícia tratou de investigar "em todas as direcções": falou-se logo em ajustes de contas entre máfias turcas, mas não se avançou muito na pista da violência de extrema-direita. Há dias descobriu-se que esses assassínios eram obra de um grupo de neonazis, tal como as bombas em prédios com muitos estrangeiros, o atentado num cemitério judaico e os assaltos violentos a bancos. O que transtorna a Alemanha é não entender como foi possível ter tantos agentes dos SI dentro da NPD e nenhum deles informar sobre aquilo a que o Spiegel já chamou a "Braune Armee Fraktion". A pergunta do momento é: "seremos cegos do olho direito?", e a pergunta que imediatamente se segue: "porque é que isto está a acontecer com tanta força no território da antiga RDA?"
    Em Dezembro de 2007, quando morávamos ainda em Weimar, comecei a fazer uma lista sobre a presença dos neonazis na minha vida (incidentes que se tinham passado comigo ou com pessoas que eu conhecia). Pelo motivo habitual ("eu não dou vazão!") a lista ficou esquecida. Até esta semana, quando se soube que, bem perto de Weimar, neonazis tentaram fazer um atentado bombista numa casa onde moravam portugueses, e me dei conta que aquela sensação de insegurança era muito mais que justificada: há de facto uma rede de extrema-direita organizada e disposta a tudo, e o seu epicentro situa-se, ao que parece, muito perto da região onde eu vivi. 
    Retomo essa lista, acrescento alguns incidentes mais recentes e outros lidos em jornais. 

    I.
    No verão de 2006, a directora do centro de refugiados de Weimar organizou um campo de férias para animar os miúdos. Mais difícil que arranjar o dinheiro, foi convencer as mães a largar os filhos durante uma semana. Na terra de ninguém que é o tempo de espera por uma decisão sobre o seu futuro, as pessoas acabam por se agarrar à única certeza do momento: os membros da família.
    Foi uma semana óptima, numa casa no meio da floresta, com imensas caminhadas, visitas a museus infantis, jogos. Na viagem de regresso vinham felizes.
    Até que um bando de rapazolas entrou no comboio, reparou naquele grupo de miúdos e começou a insultar ("kanake", "bananas castanhas"). Quando um deles resolveu abrir o saco de uma das crianças e espalhar o conteúdo, um dos alemães presentes naquela carruagem disse "agora chega!" e tirou-lhe o saco. Caíram-lhe todos em cima, levou uma tareia de ir parar ao hospital.
    Por sorte o comboio parou na estação seguinte, onde a Polícia já estava à espera.
    Os miúdos, esses, precisam agora de ter luz no quarto para adormecer, e não vão esquecer facilmente o terror daquele momento.

    II.
    Neuruppin, sábado de manhã. Uma cidade ao norte de Berlim, rodeada de floresta e lagos, linda, e uma manhã deslumbrante de sol. Pela rua principal passa um bando de neonazis. Serão uns dez, o som assustador das suas palavras de ordem enche a rua. Não percebo a letra, mas fico aterrorizada com a música. Eles que não saibam que sou estrangeira! Uma senhora de meia-idade passa de bicicleta, olha para mim como quem pede desculpa. "E não se pode fazer nada...", diz ela. Eles vão numa direcção, eu procuro outra. Passo por um café e vejo o seu dono: tem pele escura. Sorrio-lhe, enquanto penso: "é preciso muita coragem - ou então muito desespero - para teres aqui um café, homem!" - e procuro refúgio no meu hotel. 
    III.
    Em Weimar surgiu uma iniciativa de cidadãos para promover debates e exposições sobre o problema da extrema-direita. Passado algum tempo, corria na internet uma lista com o nome de todos os participantes, morada, número de telefone e outros dados pessoais. Uma lista do tipo "procura-se, vivo ou morto".

    IV.
    Depois do jantar, levo dois cientistas coreanos ao hotel deles. Atravessamos a cidade a pé, o passeio do costume: o parque sonhado por Goethe, o palácio com a sua ala construída por Goethe, a biblioteca Anna-Amalia organizada por Goethe, a escola de artes para o povo onde Goethe chegou a morar, o café-bar Piano, o hotel. Um dos coreanos quer levar-me de volta a casa, porque não gostou do ambiente no café e não acha bem que eu passe por lá sozinha àquela hora. Digo-lhe com um sorriso como quem pede desculpa que eu, com a minha cara de mulher, corro menos riscos na noite de Weimar que ele com os seus olhos amendoados. 

    V.
    Em frente aos edifícios de plattenbau onde estão alojados os refugiados residentes em Weimar, o director regional da Caritas explicou: deste lado são os blocos dos refugiados, e daquele lado são os blocos dos estudantes. "Os estudantes são gente tolerante...", comenta um dos presentes. "É mais o contrário: os refugiados são tolerantes", corrige o director.

    VI.
    Um professor de uma turma de secundário conta-me que basta ter um neonazi na sua sala para o ambiente ficar insuportável, e ser praticamente impossível dar as aulas. No jornal leio que um professor de História deu o III Reich em duas aulas, porque se sentia intimidado pelos alunos neonazis naquela turma. Num parlamento de um Estado da antiga Alemanha de Leste os deputados lamentam-se que perdem imenso tempo de plenário a explicar aos deputados da NPD o que está fundamentalmente errado nas suas exigências. Estes divertem-se imenso com as sessões: sabem muito bem que estão a torpedear a Democracia no seu próprio coração.

    VII.
    Durante o mundial de futebol na Alemanha as praças encheram-se de ecrãs para ver os jogos. Também a praça em frente ao teatro de Weimar (o de Goethe, o da estreia do Lohengrin, o da República de Weimar) está cheia de gente alegre. Passam neonazis, avançam a direito pelo meio das pessoas, no rosto e na postura corporal uma expressão de arrogância e agressividade latente - dois ou três bastam para uma sombra cair sobre toda a praça. Penso nos dementors do Harry Potter, esses que ao passar pelas pessoas lhes sorvem a alegria.

    VIII. 
    Estou a almoçar num pequeno restaurante vietnamita, com o meu filho de seis anos. Um rapaz entra com ar decidido, dirige-se ao dono, um homem já de certa idade, e dá-lhe uma ordem: "troca-me esta nota por moedas!"
    Quero dizer-lhe que não é assim que se fala com pessoas mais velhas, mas encho-me de medo: e se ele vê pelo meu sotaque que não sou alemã, e se ele me dá uma tareia? 

    IX.
    Antes de atravessar num semáforo vermelho, olho em volta: para ver se vêm carros, e se há neonazis por perto. Primeira estratégia de sobrevivência: não dar nas vistas.

    X.
    A avó de uma amiga minha contou-me que, quando era pequena, os pais costumavam comprar nas lojas dos judeus. Que eram gente séria, vendiam produtos de boa qualidade e nunca enganavam os clientes. Depois começou a falar da nova sinagoga em Munique, e que é demasiado grande, e que bem podiam ter feito uma coisa mais discreta...
    - Mas os cristãos também fazem igrejas enormes..., disse eu.
    - Pois então, os judeus que vão fazer sinagogas grandes para a terra deles...
    - A terra deles?! Os judeus chegaram à Europa antes dos cristãos - aliás, o cristianismo entrou na Europa pelas comunidades judaicas.

    XI.
    No Ku'damm passam duzentos neonazis a gritar palavras de ordem. Vozes como um trovão.
    Vejo-os da porta da minha casa - a tremer, lívida, aterrorizada.

    XII.
    Na escola primária, em Weimar, dois miúdos pegam-se.
    - Idiota!, grita o filho de vietnamitas.
    - Fiji-man!, grita o filho de alemães.

    XIII.
    Dos jornais: numa festa de solestício de Verão, numa aldeia perto da fronteira com a Polónia, um grupo de rapazes começou a atirar livros para a fogueira. Outros participantes na festa descobriram horrorizados que estavam a queimar o Diário de Anne Frank, e chamaram a Polícia.
    "Anne Frank? Que Anne Frank?", perguntou o polícia na esquadra, e não se mexeu da cadeira.

    XIV.
    Dos jornais: Konstantin Wecker ia dar um concerto numa escola em Halberstadt (Sachsen-Anhalt), mas foi impedido pela NPD. Argumentos:
    - trata-se de um cantor político, e se se permite política (de esquerda) na escola, então também serão obrigados a aceitar que a NPD organize nas escolas sessões para discutir temas nacionalistas;
    - se o deixarem actuar, a NPD também vai ter uma participação activa no concerto.
    O concerto foi transferido para outra cidade, em Thüringen.
    Também em Halberstadt, um cabaretista ia apresentar o seu espectáculo ("Hitler Kebab", organizado em conjunto com a Câmara Municipal e uma união sindical) numa sala da Câmara. Por pressão da NPD, a sessão passou de pública a privada.


    Adenda: sobre este tema, um artigo da jornalista Cristina Dangerfield-Vogt, saído no Portugal Post. 

    ando a fazer alguma coisa muito mal

    Mais um: Elvis Costello deu um concerto fantástico no Tempodrom, e eu nem me apercebi que ele tinha passado pela cidade. Só agora, ao deitar fora os jornais...

    (Rita, ó Rita: haverá algum Frühwarnsystem onde eu possa inscrever os nomes dos meus músicos preferidos, e ele diz-me quando passam por Berlim?) (ou: como é que todas as outras pessoas fazem?)

    21 novembro 2011

    Sakamoto em directo na internet

    O concerto de hoje na Gulbenkian, às nove da noite (em Portugal) será transmitido em directo.
    Link: Gulbenkian Música.

    no baloiço


    Comentário de um amigo, no post anterior, referindo-se a esse tronco na água, à direita da fogueira:

    E falta referir um pormenor delicioso: num palmo de água, estava um tronco em movimento perpétuo, como que embalado pela beleza e serenidade da paisagem. Se calhar foi o teu anjinho que se sentou lá a observar-nos, enquanto balançava a perna.

    (acredito e não me admiro - já estou por tudo...)

    quatro dúzias


     

    Um convite inusitado (mais parecia eu a testar quem é realmente amigo):


    Garanto que não sei como é que estas coisas me acontecem


    Anda uma pessoa toda discretinha na sua vida, e zimbas: daqui a nada faço outra vez anos.
    Como se não os tivesse feito já, e há pouco tempo!
    Bom, como o que não tem remédio remediado está, o melhor é rirmos juntos: no domingo, 20 de Novembro, a partir das duas da tarde.

    Se o tempo estiver seco, será na margem do Wannsee, perto da paragem do autocarro 218 “Große Steinlanke“, com uma fogueirinha e queijo francês que nem vos digo nem vos conto, vinho português idem (mas também Glühwein) e (se a minha filha quiser ser simpática, isso, e também escapar ao risco de ser deserdada) brownies de chocolate com uma velinha.
    Quem quiser pode trazer um banquinho de plástico ou algo do género – é mais agradável para estar de volta da fogueira.
    Ah, e como saber se o tempo está bom ou mau? Olhar pela janela, e, em caso de dúvida, telefonar aqui à artista: 017xxxxxxxx
    Pensei fazer uma festinha só para portugueses, mas a idade está a tornar-me mais tolerante, pelo que: aceitam-se magnanimamente também alguns estrangeiros (especialmente alemães, franceses e italianos)


    Beijinhos, Helena


    PS. por favor, digam se vêm, e quantos, que é para nós levarmos a litragem e o pão necessários. O queijo, está visto: será o que comprei há dias na Sabóia, e é um caso de solange der Vorrat reicht.



    Beber vinho e comer queijo ao ar livre num dia 20 de Novembro, em Belim?! Os amigos começaram a sugerir um plano B, e que frio vamos rapar, e uma fogueirinha na lareira de casa isso é que era bom, e que não tem jeito nenhum beber vinho semicongelado. Mas eu permaneci inflexível, e bem, porque tivemos um dia fantástico, de temperatura "relativamente" amena e sem o menor sopro de vento. E aconteceu-nos uma festa inesquecível. Tanto, que até me faltam os superlativos. Fiquemo-nos então pelos factos:



     
    Um grupo todo feito de bem-querer. Pão pão, queijo queijo, uvas e tomate-cereja, vinho. Que mais é preciso? (bem, é sempre possível melhorar um bocadinho: o vinho era Madeira, do verdadeiro)  


    O espumante Informal, do Luís Pato, no frigorífico.
    No copo, uma beleza: "o mosto, sem prensagem, da casta Baga plantada no solo argilo-calcáreo da Vinha da Panasqueira, colhida na última semana de Agosto de 2010, criou este branco de uva tinta."
    O vinho tinto, esse, estava muito bem embrulhado em sacos térmicos para não arrefecer. Sim, quase íamos levando cobertores para abafar o vinho...

    Em frente à fogueira dançou-se o Senhor da Serra e cantou-se o Grândola, o Avante e a Internacional (mas nem todos sabiam a letra completa...) (desculpem, terão de imaginar esta parte, que as fotos e os vídeos ficarão para sempre no segredo dos deuses que lá foram figurantes)

    Os alemães que passavam, curiosos, tinham também direito a um bocadinho de bolo - depois de cantar Happy Birthday, evidentemente, que na Alemanha também não há almoços grátis, era o que faltava. E eles, perfeitos desconhecidos, cantavam, e riam connosco, e gostavam do bolo.



    A calma ia caindo sobre o lago. Um grupo de patos pousou na água, discutimos muito cientificamente quais seriam as fêmeas, quais seriam os portugueses. Os preconceitos são uma cena que não nos assiste. 

     
     

     

    Eu sei que me vou repetir (de novo, mais uma vez), mas tem de ser: gracias a la vida, que me ha dado tanto!

    Tenho uma amiga que afirma que eu ando com um anjo atrelado a mim. Começo a acreditar que é verdade. Este ano o meu anjo andou uns meses arredio, mas voltou completamente em forma. Deve ter estado num curso de formação, e dos bons.

    apenas o silêncio

     

    20 novembro 2011

    quem não sabe... às vezes acerta um bocadinho (mas a paisagem também ajuda, e de que maneira)

    Um dia muito especial chega ao fim.
    Amanhã conto mais - por agora, deixo três fotografias que mostram apenas uma parte da realidade. O que não se vê nestas fotografias é de longe o melhor: a família e os amigos com quem construo e partilho dias memoráveis como o de hoje.

    (Gracias a la vida que me ha dado tanto...)





    quem não sabe... às vezes faz fotografias muito boas



    (mas foi sem querer, garanto que foi sem querer)

    um requiem (2)

    Comentário de um amigo, no post anterior:

    Quando hoje me contaste, entusiasmada, o que me esperava à noite, pensei para comigo: entre Mozart e Mansurian só me fala do segundo?
    Depois percebi. Realmente, assistir a um concerto na presença do compositor é outra coisa. Dez minutos de ovação contínua, diversas subidas ao palco - nas quais o senhor tropeçou e quase caiu, tal era a emoção - o abraço longo e sentido ao maestro, a distribuição pelas violinistas dos ramos de flores que lhe deram, uma plateia inteira rendida a um momento único e histórico.

    Já o Mozart, esse, nem se dignou aparecer no final. Dizem que é da fama.


    ***

    Mais uma vez: podem ouvir o requiem de Mansurian hoje, a partir das 19:03 (hora portuguesa), no live-stream da Deutschlandradio Kultur.

    19 novembro 2011

    um requiem para os arménios vítimas do genocídio

    Tigran Mansurian, um cristão arménio, compôs este ano um requiem, a convite do RIAS Kammerchor e da Münchener Kammerorchester, que hoje será apresentado pela primeira vez ao público na Filarmonia de Berlim. O compositor dedicou-o às vítimas do genocídio no qual ele próprio perdeu uma grande parte da família.

    No mesmo concerto ouvir-se-á também o requiem de Mozart, na versão de Robert D. Levin.
    Este novo requiem pretende oferecer ao de Mozart um eco e contraponto. O resultado é uma peça sublime, fora do nosso mundo e do nosso tempo, dialogando ora com Mozart ora com a tradição musical arménia. Toda a composição é espantosa, mas fui tocada especialmente pelo Agnus Dei: a fragilidade de um cordeiro completamente à mercê do seu destino.

    O concerto será transmitido amanhã pela Deutschlandradio Kultur (entrar no link, e escolher uma das possibilidades na coluna da direita, na caixa live-stream) às 20:03 (19:03 em Portugal). O requiem de Mansurian vem na primeira parte, o de Mozart na segunda.

    ***

    Hoje assisti ao ensaio geral do requiem de Mansurian sentada atrás do compositor.
    Vi-o agitar-se ao som da música, uma ou outra vez a sua mão tremeu emocionada sobre a partitura. No fim, levantou-se a aplaudiu coro e orquestra. Mas logo parou, tímido. Chamaram-no ao palco, havia passagens que ele devia esclarecer. Vi-o trabalhar com o maestro, vi-lhe a mão que dançava, ouvi a sua voz cantar o que sonhara. O maestro continuou o trabalho, ele voltou para o seu lugar, mostrou às acompanhantes as passagens onde havia dúvidas. No fim do trabalho, foi aplaudido pelos músicos.
    E eu, ao pé dele: emocionada e grata.

    Às vezes penso, com uma certa nostalgia: como teria sido ouvir a criança Mozart tocar piano, assistir a uma aula de piano de Liszt, ver Mahler a dirigir uma sinfonia sua? E depois caio em mim, e dou-me conta que estas coisas me acontecem hoje, no meio da minha vida.

    Pude falar com o compositor, agradecer-lhe e dizer o quanto a sua obra me tinha emocionado. Ele é uma pessoa simples e afável, abre um sorriso que lhe inunda os olhos. Dissemos toi-toi-toi para a estreia esta noite, e rimo-nos com as variações: tu-tu-tu em arménio, tssu-tssu-tssu em russo (será? tentaram várias vezes ensinar-me, mas eu pronunciava sempre muito mal). Perguntei se podia publicar fotos que fiz dele, e ele disse que era uma honra. E sorriu de novo.

     

    lacrimosa



    Requiem de Mozart, esta manhã, na Sala de Música de Câmara da Filarmonia: em memória de uma mulher muito amada que partiu esta semana, e de uma bebé que se agarrava à vida com toda a força das suas mãozinhas minúsculas, mas foi levada há um mês.

    ***

    Eu não devia ter fechado os olhos logo aos primeiros compassos. De olhos fechados, a música bate com muita mais força - nunca mais consegui controlar-me, mesmo tentando aquele truque de olhar para o tecto (olhava para o tecto, olhava para a orquestra, olhava para o tecto, olhava para a orquestra - parecia a cena final do Blow Up, mas em movimentos verticais em vez de horizontais) e daí a pouco uma senhora ao meu lado fungava copiosamente e até a soprano ia limpando uma e outra lágrima (parecia aquela cena do Padre Patrone de quando os rapazes se foram às galinhas, mas desta vez em contágio de irreprimível comoção).

    (foto: aqui)

    ó vida de mil faces transbordantes

    Estava eu aqui calmamente sentada em frente à minha lista de 25 to-dos, e desta vez estava firmemente decidida a aviá-los a eitinho, quando o telefone tocou:
    - Queres vir ao ensaio geral do concerto de hoje à noite? começa com o Requiem de Mozart e...
    - Quero!

    Pudesse eu não ter laços nem limites
    ó vida de mil faces transbordantes,
    para poder responder aos teus convites
    suspensos na surpresa dos instantes.

    18 novembro 2011

    acabei de beber um Malvasia de 75

    Um Malvasia de 1875.
    Para que conste: no dia 18.11.2011 o vinho da Madeira deixou de me ser vinho para cozinhados e passou-me a ser cultura. Sei agora imenso sobre as castas, e as regiões, e a acidez. E que gosto muito de Boal de 1978 com morangos secos (aaaah, morangos secos!). E como é o sabor de um Verdelho de 1885 e de um Malvasia de 1875. O nariz é estranho - o aroma do Malvasia com 136 anos lembrava um pouco cola, o que não faz mal, porque adoro cheiro de cola, por favor não contem a ninguém - dizia eu: o nariz é estranho, mas o vinho explode na boca. Uma hora depois, o sabor ainda aqui está. E o sorriso nos lábios. Há quem diga que o vinho me fica bem.

    Berlim é uma cidade de prodígios, e hoje não lavarei os dentes.

    (Como daquela vez que fui directamente da praia de Ipanema para o avião, e ao chegar a casa custou-me tomar banho, porque não queria tirar aquela areia da minha pele.)

    tenho tanto para contar, mas há gente que tem ainda mais, e mais importante, e melhor

    A Rita continua imparável e excelente: contos exemplares I, contos exemplares II, contos exemplares III, contos exemplares reloaded.

    A Helena Ferro Gouveia sintetiza num breve post várias tragédias africanas, e é tudo insuportável: Sobre o poder do jornalista e a sua impotência.

    A Fernanda Câncio, sobre o luto da amizade: citius, altius, fortius.

    zumba, ou: estamos tramados

    O professor fenício deixou crescer barba e cabelo. Aquele nariz, aqueles caracóis densos, aquela beleza: afinal é assírio. Adoro os antigos.

    Fico sempre ao fundo da sala - a uma distância de segurança do professor, para não ver a decepção no seu olhar, a uma distância de segurança do espelho, para não ver a decepção no meu olhar, e a uma distância confortável das fãs de roda dele, pelo sim pelo não.

    Pela testa escorrem-me gostas de suor, que não me impedem de observar as outras: a leveza e a graça tropical da brasileira que consegue rodar as ancas como trilo contínuo entre os passos da dança, o calor maduro da peruana que sorri à música e ao professor, a agilidade felina da chinesa.
    Ai! a chinesa: um corpo esculpido em borracha compacta, largado em movimentos elásticos de perfeita concentração. Onde o professor atira uma perna, ela atira também os braços e a cabeça perfeitamente controlados e soltos (isso mesmo: perfeitamente controlados e soltos!), onde o professor dá um passo ela salta ligeira e poderosa. E ri, feliz - como se aquele can-can enlouquecido fosse uma festa de alegria, como se estivesse a gostar mesmo. Descubro com espanto que ela gosta de ultrapassar todos os limites, experimenta um profundo prazer ao obrigar o corpo a responder de forma exacta e elegante à sua mente concentrada. Um prodígio.

    E eu, e as outras europeias no fundo da sala: a suar as estopinhas já contentes se conseguimos acertar a sequência mambo/cha-cha-cha. Eu aliviada se o nosso Miguel colombiano não se ri da cumbia que ensaio em casa: olho para aquela chinesa superlativamente perfeita e controlada, tento imitá-la, e concluo que nós, os europeus, estamos tramados.

    vão ler, ó seus preconceituosos!

    Algumas boas achegas para o post "vai trabalhar, ignorante!" da Rita Dantas:

    1. O testemunho de um dos jovens que aparece no vídeo, onde ele afirma que só passaram a pergunta que ele errou, explica como o erro aconteceu, e que foi imediatamente corrigido.

    2. Um post do Vítor Lucas Lindegaard, de um blogue que toda a gente lê (ou devia), sobre o mesmíssimo tema (a ignorância das novas gerações).

    3. Outro post do Vítor, sobre o empobrecimento da expressão em português.


    ***

    E ainda dois comentários completamente à margem, a partir de casos que me são próximos:

    - Já ouvi gente a rir de cartas vindas dos EUA endereçadas a "Lisbon, Spain". Essas pessoas saberão dizer qual é a capital do Arizona, ou de Oklahoma? (sim, isto é uma variação do que o Vítor escreveu)

    - Os tradutores que eu conheço estão integrados em grupos de entreajuda na internet. Se não sabem, perguntam. Já ouvi discutirem coisas tão interessantes como o significado de oferecer jacintos brancos a uma mulher no séc.XIX (talvez não fossem jacintos, mas não me apetece agora ir investigar) para tentar traduzir o melhor possível uma cena do filme “Kate & Leopold”. Poucos meses depois de surgir o primeiro grupo internético de tradutores brasileiros, há cerca de 16 anos, alguém perguntava, feliz e surpreendido: "como é que nós trabalhávamos antes?!"
    Não apenas os tradutores, todos nós: como é que trabalhávamos antes de haver internet, e que qualidade tinha o nosso trabalho se só podíamos recorrer aos livros disponíveis e a uma rede de contactos relativamente exígua?
    A informação que há quinze anos nos custaria dias ou semanas de pesquisa, conseguimos hoje em meia hora. Beethoven? Duas horitas de internet, entre wikipedia e youtube, e chega-se a uma plataforma de informação como na geração anterior só existiria para uma parte da elite cultural: os "nerds" de Beethoven. 

    Talvez há vinte anos fosse muito importante conseguir disparar à primeira "Miguel Ângelo!" e "H²O!" (espero ter acertado, não me apetece ir agora investigar). Hoje já não é. Hoje, fundamental mesmo é ter espírito crítico e inquiridor, saber formular perguntas e saber encontrar-lhes a resposta. Ah, e conhecer um bom técnico de informática, que saiba ressuscitar o PC as vezes que for preciso (mesmo que não saiba mais nada, nem o nome do nosso primeiro-ministro - Passos Troika - nem quem foi o Pelé).


    Finalmente: não percebo o prazer perverso em dar de nós a pior imagem possível. Este filme manipulou a realidade para dizer aos portugueses que alguns de nós não prestam. Se me deixassem mandar (sim, já cá faltava esta!) criava uma figura nova de crime, o "manipular informação para deliberadamente denegrir a imagem do país, de grupos ou de pessoas" (bom, o último já é crime) e tirar a carteira profissional a "jornalistas" que nele incorram.

    17 novembro 2011

    vai trabalhar, ignorante!

    A Rita, ainda mais brilhante que de costume.

    É muito mais que sobre o vídeo que a Sábado fez com inquéritos a jovens. É sobre a nossa sociedade, e sobre essa indústria "jornalística" do espectáculo, que vai assassinando o país enquanto faz de conta que o retrata.

    Em determinada parte lembrei-me de um vídeo que se tornou viral no youtube: num comício da campanha eleitoral do Obama um jornalista foi fazer perguntas sobre o projecto do sistema de saúde a um rapaz de pele escura e ar de "cool, meu". Foi um show: o "cool, meu", em vez de fazer aquilo que se esperava de um preto, mostrou que sabia imenso sobre essa questão. Foi por isso que o vírus deu a volta ao mundo - porque era um murro no estômago dos nossos preconceitos.

    sinto uma grande ternura por esta miúda

    Quando eu tinha seis, sete anos, levantava-me antes de toda a gente, arranjava-me para a escola, e ia para a cozinha ferver o leite do pequeno-almoço. Quando se tem sete anos, ferver o leite é uma seca monumental - ou uma grande maçada, como se dizia na altura. A casa era velha, e o chão da cozinha, em terrazzo, tinha uma bela série de fendas que me ajudava a passar o tempo. Eram as estradas do meu mapa-múndi, percorria-as à volta da mesa de mármore no centro, Braga-Porto-Lisboa-Espanha-França e avançava, Rússia-China-Japão e acabava-se aquele segmento, num salto ia de avião até à Austrália, outro salto para o Brasil (aos seis anos numa cozinha fria inventam-se mapas prodigiosos), atravessava a mata atlântica, chegava de novo a casa. Primeiro em passos normais, deixa cá ver quantas voltas ao mundo dou até o leite ferver. Depois passos de formiguinha, um pé colado ao outro. Devagar, devagarinho, saborear bem cada curva do país. O leite começava a assobiar, vai subir agora, pensava eu, e estugava os passinhos de formiga, mais depressa, mais depressa, já só me falta a Austrália, salto para o Brasil, afligia-me de pressa pelas suas estradas tão sinuosas. Do Brasil saltava para o fogão, às vezes o leite vinha por fora, "não cheguei a tempo, que pena". Limpava o fogão, bebia o leite, ia esperar o autocarro da escola.

    16 novembro 2011

    pergunta aos grandes especialistas de Mahler que por aqui passarem

    E se um desconhecido lhe quisesse oferecer... todas as sinfonias de Mahler (pensaram que eu ia dizer flores?), qual das seguintes colecções escolheriam?



    Das klagende Lied: Rattle, Hodgson, Döse, Tear, Rae, Birmingham SO
    Quartettsatz in a-moll: Domus-Quartett

    Lieder eines fahrenden Gesellen: Furtwängler, Fischer-Dieskau, Philharmonia Orchestra
    Symphonie Nr. 1: Giulini, Chicago SO

    Symphonie Nr. 2: Klemperer, Schwarzkopf, Rössl-Majdan, Philharmonia Orchestra & Chor

    Verschiedene Lieder: Bostridge, Fischer-Dieskau, Fassbaender et al.

    Symphonie Nr. 3: Rattle, Remmert, Birmingham SO
    Blumine (Satz aus 1. Symphonie): P. Järvi, RSO Frankfurt

    Symphonie Nr. 4: Horenstein, Price, London PO

    Symphonie Nr. 5: Tennstett, London PO

    Kindertotenlieder: Walter, Ferrier, Wiener PO

    Rückert-Lieder: Barbirolli, Baker, New Philharmonia Orchestra

    Symphonie Nr. 6: Barbirolli, New Philharmonia Orchestra

    Symphonie Nr. 7: Rattle, Birmingham SO

    Des Knaben Wunderhorn: Szell, Schwarzkopf, Fischer-Dieskau, London PO

    Symphonie Nr. 8: Connell, Wiens, Lott ... (?)

    Das Trinklied von der Erde: Klemperer, Wunderlich, Ludwig, Philharmonia Orchestra

    Symphonie Nr. 9: Barbirolli, Berliner PO

    Symphonie Nr. 10 (rekonstruiert nach Cooke, also nicht nur der erste Satz): Rattle, Berliner PO

    Weitere Lieder mit Hampson






    entre outros:
    - Sinfonie Nr. 1: Rafael Kubelik, Sinfonieorchester des Bayerischen Rundfunks, ADD 1967 Studio. Referenz-Aufnahme mit böhmischem Flair.
    - Sinfonie Nr. 2 ("Auferstehungs-Sinfonie"): Zubin Mehta, Wiener Philharmoniker, ADD 1975 Studio. Vitale und kraftvolle Darstellung in sehr gutem Klang, legendär.
    - Sinfonie Nr. 3: Bernard Haitink, Concertgebouw Orchester, Maureen Forrester (Mezzo-Sopran), ADD 1966 Studio. Weniger bombastisch als z.B. Bernstein, aber zupackend und ironisch-idiomatisch ganz im Mahlerschen Sinne.
    - Sinfonie Nr. 4: Pierre Boulez, Cleveland Orchestra, Juliane Banse (Sopran), DDD 1998 Studio. Unromantisch, aber durchaus interessant.
    - Sinfonie Nr. 5: Leonard Bernstein, Wiener Philharmoniker, DDD 1987 live. Fabelhafte (manchmal eigenwillige) Interpretation voller Charakter.
    - Sinfonie Nr. 6: Claudio Abbado, Berliner Philharmoniker, DDD 2004 live. Spürbare Tragik, stellenweise etwas weich.
    - Sinfonie Nr. 7: Giuseppe Sinopoli, Philharmonia Orchestra, DDD 1992 Studio. Schöne und elegante Darstellung.
    - Sinfonie Nr. 8 ("Sinfonie der Tausend"): Georg Solti, Chicago Symphony Orchestra, ADD 1971 Studio. Berühmter Klassiker, bombastisch und elektrisierend.
    - Sinfonie Nr. 9: Herbert von Karajan, Berliner Philharmoniker, DDD 1982 live. Interpretation der Spitzenklasse, einfach wunderbar.
    - Sinfonie Nr. 10 ("Unvollendete"): Riccardo Chailly, Radio-Sinfonie-Orchester Berlin, DDD 1986 Studio. Kristallklar musiziert, toller Klang.
    - Das Lied von der Erde: Carlo Maria Giulini, Berliner Philharmoniker, Brigitte Fassbaender (Alt), Francisco Araiza (Tenor), DDD 1984 Studio. Interpretation voller Intensität und innerer Beteiligung.
    - Des Knaben Wunderhorn: Thomas Quasthoff (Bariton), Anne Sofie von Otter (Mezzo-Sopran), Claudio Abbado, Berliner Philharmoniker, DDD 1998 Studio. Stimmungsvoll und facettenreich.
    - Lieder eines fahrenden Gesellen, Kindertotenlieder, Rückert-Lieder: Thomas Hampson (Bariton), Leonard Bernstein, Wiener Philharmoniker, DDD 1990 live. Spitzenaufnahme, die unter die Haut geht.
    - Das klagende Lied: Riccardo Chailly, Radio-Sinfonie-Orchester Berlin, DDD 1989 Studio. Sehr schöne Interpretation wie aus einem Guss.





    Qual destas? Alguém tem ideias ainda melhores?
    Desde já agradecida.

    como jogadores de futebol (2)

    Será que alguém na Filarmónica lê os meus posts aqui?
    Esta manhã escrevi sobre músicos como jogadores de futebol, e pouco depois recebi a newsletter deles com uma ligação para este filme. Vejam a partir do minuto 1:28 (ou vejam tudo, é tudo bom): aclamados como jogadores de futebol!

    como jogadores de futebol

    No próximo mês a Hilary Hahn e a Hélène Grimaud vão tocar em Berlim. Fui ontem às bilheteiras, certíssima de que aconteceria um milagre, mas não aconteceu. Os bilhetes mais baratos começam nos 45 euros, o que dava noventa para cada concerto, o que dá quase uma semana de trabalho pago ao salário mínimo português. Para uma pessoa que controla os seus consumos pela bitola do salário mínimo: não dá. Não é uma questão de ter ou não ter esse dinheiro, é uma questão de perguntar se me sinto bem ao gastar para este prazer aquilo que custa a muita gente quarenta horas de trabalho.

    Claro que se todos fossem como eu os restaurantes de luxo fechavam, criando ainda mais desempregados, que iam abrir bares de bifanas para tentar sobreviver, e eu não consigo consumir bifanas em número suficiente para dar de comer a essa gente toda. Por isso: não se sintam sequer tentados a compreender e a seguir os meus critérios. Isto é só uma maneira minha de me orientar num mundo feito de desigualdades e injustiças.

    Agora: quarenta e cinco euros o bilhete mais barato?! Estes músicos ganharão como jogadores de futebol?!
    Bom: se ganhassem, não estava nada mal.
    Como seria um mundo em que os músicos ganhassem milhões, os bilhetes fossem a preços acessíveis, e os concertos em salas enormes sempre à cunha? Aaaah, deixem-me sonhar.

    Até me lembra (mas isto agora não é nenhuma indirecta para os adeptos de futebol, embora pareça muito) um autocolante que vi num carro americano:

    imagine que as escolas tinham à sua disposição todo o material de que necessitassem,
    e as forças armadas tinham de organizar quermesses e vendas de bolos para comprar armas novas

    new kids on the blog

    (tenho a certeza que já alguém antes inventou este trocadilho - tsss tssss, chego sempre atrasada, paciência)

    Pois: new kids, e desta vez de quatro patas. Ou três. Num blogue acrescentado pelo Daniel Carrapa: Sofá Arranhado. O Daniel soma e segue, sempre excelente. 
    Leiam isto, por exemplo: Cinza.


    [ Para quem não conhece - haverá alguém que não conheça?! - é o autor do blogue "a barriga de um arquitecto", onde se apresenta assim:

    My name is Daniel Carrapa. I was born in Lisbon, Portugal, in 1973. I’m an architect living in Évora, a nice historical town that was included in the World Heritage List by UNESCO in 1986. I’m married, have 4 cats – Matilde, Patanisco, Olivia, Lisa – and 1 dog – Moby. Moby is a three-legged dog. He’s okay. I graduated as an architect in 1996 (FAUTL Lisbon Faculty of Architecture). I am also an authority on cat litter and will provide expert advice upon request. I love traveling, watching movies, reading books and draining the battery from my X360 gamepad. In my lifetime I have visited the following countries: India, Nepal, China (Hong-Kong and Macau), Greece, Spain, France, Italy, Austria, Hungary, Poland, Czech Republic, Germany and the Netherlands.
    I love feedback, so feel free to drop me a line to abarrigadeumarquitecto@ gmail.com or meet me on Google+. I'm also registered on Twitter and Facebook but I don't use them as much. ]

    15 novembro 2011

    "no céu, debaixo da terra"

    E já que estou a falar de cemitérios berlinenses, passo o trailer do documentário que ganhou o prémio do público na Berlinale 2011: "no céu, debaixo da terra"

    se gostaram daquele post sobre o cemitério...

    Se gostaram daquele post sobre o cemitério de Teltow, vão ver o que a Rita escreveu sobre o mesmo assunto. Leva-nos em belo passeio pela história do séc. XX alemão.

    cemitério da Heerstraße

    Um post imperdível da Rita. Como os outros, aliás, mas agora vou falar só deste.Vão lá ver todas as fotos e ler tudo.

    Guardo este bocadinho:

    Consigo imaginar a dor de alguém a ser mitigada pela beleza do lugar (não estou a menosprezar a dor, só a apreciar condignamente a beleza, cujo consolo esquecemos tantas vezes) ou até o medo de morrer a diminuir face à ideia de passar a eternidade (ou os próximos vinte anos, o mínimo legal em Berlim) a olhar para um lago e um conjunto de árvores lindíssimas.


    (Por acaso agora lembrei-me que para os lados de Caminha há um cemitério com uma vista fantástica para o mar. E no Douro também há cemitérios com paisagens de luxo. Só é pena aquele exagero de mármore e flores de plástico. Se um dia resolver mudar de vida, compro um bom lote num monte com vista para o mar, planto-lhe árvores lindas, e faço um cemitério para mortos de bom gosto. Isto é um investimento como plantar sobreiros, os meus bisnetos depois hão-de acender-me uma velinha.)

    Brahms, clarinete, filarmonia (2)

    Sentei-me à frente, bem perto do palco. 

    O clarinetista, Matthias Glander, contou um pouco sobre a história da peça (quando Brahms já tinha parado de compor ficou de tal modo encantado com um clarinetista, Richard Mühlfeld, que decidiu escrever algumas peças para clarinete. Antes de as escrever pediu a Mühlfeld que tocasse tudo o que sabia, o que este fez: Mozart, Bach, o que calhou. E Brahms inspirou-se nesses antigos para estas obras tardias: um terceto, um quinteto, duas sonatas; no caso deste quinteto, Mozart) e explicou a sua estrutura (o primeiro andamento, um "solitário" que dá voz a todos os instrumentos, o adagio um pouco sombrio e introspectivo, o andantino cigano, e o último andamento, con moto, que propõe um tema com cinco variações e uma coda.

    Começaram a tocar.
    Fechava os olhos, levitava mais alto. 
    Abria-os, via o mosaico verde que representa uma peça de Bach, decidia: "deve ser o G"
    (a quem pensou uma brejeirice do género "Freud explica": estava a falar do tom, sol maior) - e espantava-me com essa certeza que me leva a afirmar que aquele verde só pode ser sol maior.



    O último andamento (e que maravilha aquela variação, por volta de 5:00) (e que maravilha todas elas, para ser sincera):



    Entre o público havia um homem paralisado do lado esquerdo. Enquanto nós batíamos palmas, ele sorria para os músicos e estendia a mão direita como se lhes preparasse um abraço. Tocante maneira de agradecer.




    Nota: alguém na wikipedia em inglês anda a trabalhar muito bem. O verbete sobre esta peça está muito bom, e a gravação que o acompanha ainda melhor.