E se estas revoluções que se estão a desencadear no mundo árabe dessem origem a democracias, e se de repente eles se lembrassem de fazer uns Estados Unidos da Arábia, e se daqui a uns anos o mundo se dividisse em poucas grandes potências - China, EU-América, EU-Europa, EU-Arábia, talvez até EU-Sul (para a América Latina)?
E como seria se os Estados Unidos da Arábia resolvessem pôr um pouco de ordem no mundo, e nos fizessem o favor de bombardear Paris e Roma para nos libertar do Sarkozy e do Berlusconi?
Ocorreu-me esta manhã, naquela passagem do sono para a vida real. Hoje acordei com cara de iraquiana...
28 fevereiro 2011
27 fevereiro 2011
a interessada é sempre a última a saber...
Ando eu aqui tão tu cá tu lá com o Sir Simon Rattle, e ninguém tem a delicadeza de me contar que ele é casado com a Magdalena Kožená?
isto sim, é sabedoria do povo
Injuriado
Composição: Chico Buarque
Se eu só lhe fizesse o bem
Talvez fosse um vício a mais
Você me teria desprezo por fim
Porém não fui tão imprudente
E agora não há francamente
Motivo pra você me injuriar assim
Dinheiro não lhe emprestei
Favores nunca lhe fiz
Não alimentei o seu gênio ruim
Você nada está me devendo
Por isso, meu bem, não entendo
Porque anda agora falando de mim
(Escusam de tentar ler nas entrelinhas, isto não é nenhuma indirecta para ninguém. Gosto muito deste sambinha, e gosto da ironia. Quantos de nós não conhecem gente que morde na mão que lhes dá de comer? Inversamente - ó pra mim a dar uma volta de 180º - quantos de nós não experimentaram já a tentação de se tornarem de certo modo "proprietário" das pessoas a quem ajudaram?)
25 fevereiro 2011
a nossa sorte é que os animais não têm nem facebook nem praça Tahrir...
A gente sabe tudo isto, mas prefere ignorar.
Dá tanto jeito fazer de conta que não se sabe...
E agora: com que cara vou comprar a carninha barata dos supermercados?
De que consumos estou disposta a abdicar, para poder comprar a carne de quintas de produção biológica, integrada, essas coisas? "Ovos de galinhas felizes", "condições de vida humanas" - até nos rimos das expressões que se inventam para falar da diferença.
Acho que já contei: a minha avó prendia as flores e soltava as galinhas. O porco passeava na liberdade condicional do quinteiro, as vacas pastavam nas leiras frescas ao fundo do lugar.
Tivesse ela feito um aviário, podia comprar uma casa com piscina no Algarve.
(A saudade que tenho desses momentos em que a minha avó saía da casa com o avental cheio de milho, chamava "polhinha! polhinha!" e as galinhas vinham para ela, alvoroçadas e confiantes.)
Dá tanto jeito fazer de conta que não se sabe...
E agora: com que cara vou comprar a carninha barata dos supermercados?
De que consumos estou disposta a abdicar, para poder comprar a carne de quintas de produção biológica, integrada, essas coisas? "Ovos de galinhas felizes", "condições de vida humanas" - até nos rimos das expressões que se inventam para falar da diferença.
Acho que já contei: a minha avó prendia as flores e soltava as galinhas. O porco passeava na liberdade condicional do quinteiro, as vacas pastavam nas leiras frescas ao fundo do lugar.
Tivesse ela feito um aviário, podia comprar uma casa com piscina no Algarve.
(A saudade que tenho desses momentos em que a minha avó saía da casa com o avental cheio de milho, chamava "polhinha! polhinha!" e as galinhas vinham para ela, alvoroçadas e confiantes.)
24 fevereiro 2011
a 4ª revolução
"Die 4. Revolution" é o nome de um documentário que vi ontem - muito chato e um pouco manipulador, diga-se de passagem - sobre a autonomia energética.
Algumas ideias interessantes do filme e da discussão que se seguiu:
- Há grupos económicos poderosíssimos que não têm o menor interesse em abandonar o actual modelo energético que tão rentável lhes é, e que por isso não hesitam em recorrer a qualquer meio para pressionar e manipular: desde a opinião pública aos governos. Passar da produção centralizada de energia para milhentos pequenos produtores/consumidores autónomos representa para aqueles grupos uma brutal perda de negócio.
Alguns exemplos dos meios utilizados: manipulação do debate científico; o cálculo do custo da energia nuclear não leva em conta o preço da gestão dos resíduos durante milhares de anos, tornando-a artificialmente competitiva; o argumento de que que as energias renováveis não conseguem cobrir todas as necessidades, e portanto há que continuar a apostar nas tecnologias tradicionais (nota: o prazo previsto para o fim do nuclear na Alemanha foi recentemente adiado pelo actual Governo; na mesma altura, uma empresa do sul da Alemanha, que trabalhava em investigação de ponta sobre energias alternativas, meteu travões a fundo e despediu os empregados).
- Ao contrário do que se diz, é possível produzir energia alternativa em quantidades suficientes. Há cada vez mais possibilidades que não são muito caras (como instalar captação fotovoltaica nas fachadas de vidro dos edifícios) mas que por algum motivo não são levadas a cabo.
- "Nem sempre o Homem é um ser racional", dizia um amigo nosso, que tem um carro movido a gás. Ele, que já tem o carro pago só com o que poupa na diferença de preço entre gasolina e gás, não entende que as pessoas continuem a comprar carros com motores a gasolina.
- "Não me perguntem quanto me rende ou quanto me custa se isolar melhor as casas que tenho arrendadas", dizia outro amigo, que fez a opção de melhorar o isolamento térmico das casas de que é proprietário. "Ninguém me pergunta quanto ganho ao comprar uma cozinha Siemens em vez de uma IKEA. Aceita-se que, para o meu bem-estar, gaste vários milhares de euros a mais. Pois bem: para o meu bem-estar é importante saber que tenho essas casas bem aquecidas sem pagar rios de dinheiro a sabe-se lá que ditaduras do Médio Oriente. No fundo, custa-me o mesmo pagar o aquecimento ou isolá-las. Mas se as isolar crio postos de trabalho no meu país, em vez de pagar uma energia conseguida ao preço de guerras e apoio a tiranos."
No Arrumário encontrei uma pequena palestra TED sobre o que podemos aprender com a natureza para construir edifícios mais sustentáveis e eficientes do ponto de vista energético. São menos de catorze minutos, e valem todos a pena:
Algumas ideias interessantes do filme e da discussão que se seguiu:
- Há grupos económicos poderosíssimos que não têm o menor interesse em abandonar o actual modelo energético que tão rentável lhes é, e que por isso não hesitam em recorrer a qualquer meio para pressionar e manipular: desde a opinião pública aos governos. Passar da produção centralizada de energia para milhentos pequenos produtores/consumidores autónomos representa para aqueles grupos uma brutal perda de negócio.
Alguns exemplos dos meios utilizados: manipulação do debate científico; o cálculo do custo da energia nuclear não leva em conta o preço da gestão dos resíduos durante milhares de anos, tornando-a artificialmente competitiva; o argumento de que que as energias renováveis não conseguem cobrir todas as necessidades, e portanto há que continuar a apostar nas tecnologias tradicionais (nota: o prazo previsto para o fim do nuclear na Alemanha foi recentemente adiado pelo actual Governo; na mesma altura, uma empresa do sul da Alemanha, que trabalhava em investigação de ponta sobre energias alternativas, meteu travões a fundo e despediu os empregados).
- Ao contrário do que se diz, é possível produzir energia alternativa em quantidades suficientes. Há cada vez mais possibilidades que não são muito caras (como instalar captação fotovoltaica nas fachadas de vidro dos edifícios) mas que por algum motivo não são levadas a cabo.
- "Nem sempre o Homem é um ser racional", dizia um amigo nosso, que tem um carro movido a gás. Ele, que já tem o carro pago só com o que poupa na diferença de preço entre gasolina e gás, não entende que as pessoas continuem a comprar carros com motores a gasolina.
- "Não me perguntem quanto me rende ou quanto me custa se isolar melhor as casas que tenho arrendadas", dizia outro amigo, que fez a opção de melhorar o isolamento térmico das casas de que é proprietário. "Ninguém me pergunta quanto ganho ao comprar uma cozinha Siemens em vez de uma IKEA. Aceita-se que, para o meu bem-estar, gaste vários milhares de euros a mais. Pois bem: para o meu bem-estar é importante saber que tenho essas casas bem aquecidas sem pagar rios de dinheiro a sabe-se lá que ditaduras do Médio Oriente. No fundo, custa-me o mesmo pagar o aquecimento ou isolá-las. Mas se as isolar crio postos de trabalho no meu país, em vez de pagar uma energia conseguida ao preço de guerras e apoio a tiranos."
No Arrumário encontrei uma pequena palestra TED sobre o que podemos aprender com a natureza para construir edifícios mais sustentáveis e eficientes do ponto de vista energético. São menos de catorze minutos, e valem todos a pena:
anatomia de uma vergonha
Dito isto, no post anterior, sobre o umbiguismo nacional, tratemos de nos centrar no que é realmente importante.
Post integralmente roubado à Rita Dantas, inclusivamente o título:
Via Presseurop, o editorial do El País de hoje, que subscrevo inteiramente:
( Mateo Bartelli, no Cartoon Movement)
Os crimes dos últimos dias não foram os primeiros cometidos por Kadhafi mas, sim, os que perpetrou da maneira mais impudica. Perante eles, a Europa mostrou-se mais preocupada com a maneira de manter os líbios encarcerados dentro das suas fronteiras do que em apoiar cidadãos que tomaram a palavra e que apostam a vida para combater uma velha tirania.
Inquietude extrema da UE face face às consequências migratórias
Perante esta exibição de barbarismo, de nada vale a prudência do comunicado emitido pela Alta Representante para a Política Externa, Catherine Ashton, nem a do Conselho de Ministros europeus celebrado na passada segunda-feira. Não nos deixemos enganar: se dois países como a Itália e a República Checa conseguiram prejudicar a posição comum [ao recusarem condenar a Líbia] foi, entre outras razões, porque os outros membros dos Vinte e Sete não se sentiram incomodados com o resultado final, que consideraram aceitável. Só que este não é aceitável, segundo nenhum ponto de vista, nem sequer se o contemplarmos à luz de um possibilismo timorato, e, por isso, a vitória dos dois Estados-membros sobre os restantes, é na realidade uma derrota humilhante para todos.
Enquanto a Alta Representante e o Conselho de Ministros desempenhavam este triste papel, a Comissão vinha lançar mais opróbrio sobre a Europa, pela boca de Michel Cercone, porta-voz da comissária para os Assuntos Internos [Cecília Malmström]. Este garantiu que a UE está preocupada com as consequências das revoltas no Magrebe e no Médio Oriente em matéria de imigração. Se, na verdade, é esta a preocupação que paralisa a União neste momento, isso quer dizer que, de tanto olhar para o umbigo, a burocracia de Bruxelas perdeu a capacidade de hierarquizar os problemas, colocando no mesmo plano o sismo político que agita uma das regiões mais martirizadas do mundo e uma obsessão, que primeiro foi das forças populistas europeias e, depois, dos partidos democráticos, dispostos a qualquer coisa para conquistar votos.
Mas quer também dizer que, acossada pelos seus fantasmas, esta Europa de começos do século XXI renunciou a fazer a distinção entre imigrantes e refugiados. Perante um crime em grande escala como o que perpetrou Kadhafi, a Europa comete uma baixeza imperdoável, ao interrogar-se sobre a melhor forma de encerrar os líbios dentro das suas fronteiras, deixando-os à mercê de uma repressão feroz. A sua preocupação deveria ser, pelo contrário, a forma de contribuir para o fim de um regime caricato e de salvar vidas humanas.
Os comunicados e declarações oficiais não deixam transparecer uma coisa nem outra, com a agravante de que, enquanto os Vinte e Sete continuam a polir o fraseado eufemista da sua posição comum, Kadhafi recorre a mercenários para reprimir os manifestantes e faz crescer o clima de terror, ao impedir que os cadáveres sejam retirados das ruas.
São incontáveis os erros históricos cometidos pelas grandes potências no Magrebe e no Médio Oriente, em nome do dogma de que a ditadura era um mal menor, em comparação com a ameaça do fanatismo religioso islamita. Na realidade, trata-se de dois inimigos que se têm alimentado um ao outro e que deixaram milhões de pessoas presas entre garras que as privavam de liberdade e de qualquer esperança de progresso, em todo o mundo árabe. Agora que esses cidadãos tomaram a iniciativa, com risco das suas vidas, as grandes potências não podem acrescentar mais um erro aos já cometidos, mais uma vez de dimensões planetárias.
Pelo menos, a Europa não pode nem deve fazê-lo, porque isso seria o mesmo que consagrar uma traição definitiva aos grandes princípios com base nos quais quis criar a sua União. Os cidadãos que se ergueram, que estão a erguer-se, contra as respetivas ditaduras, exigindo liberdade e dignidade, precisam de receber do mundo exterior, do mundo desenvolvido e democrático, uma mensagem inequívoca de que as suas reivindicações são legítimas. E a União Europeia não pode permitir-se pronunciar-se em sussurros nem fazer bandeira dos seus medos mesquinhos.
Post integralmente roubado à Rita Dantas, inclusivamente o título:
anatomia de uma vergonha
Via Presseurop, o editorial do El País de hoje, que subscrevo inteiramente:
( Mateo Bartelli, no Cartoon Movement)Esta não é a Europa que a revolução em curso no Magrebe e no Médio Oriente requer. Ao silêncio e à paralisia com que foram acolhidas as manifestações que puseram termo às ditaduras de Ben Ali e de Mubarak, na Tunísia e no Egito, vem agora somar-se o comedimento da reação contra o massacre perpetrado pelo ditador líbio Muammar Kadhafi. Quando um tirano lança tanques e aviões contra os cidadãos que exigem a sua saída, e entre os quais os mortos se contam em centenas, é simplesmente vergonhoso falar de contenção no uso da força.
Os crimes dos últimos dias não foram os primeiros cometidos por Kadhafi mas, sim, os que perpetrou da maneira mais impudica. Perante eles, a Europa mostrou-se mais preocupada com a maneira de manter os líbios encarcerados dentro das suas fronteiras do que em apoiar cidadãos que tomaram a palavra e que apostam a vida para combater uma velha tirania.
Inquietude extrema da UE face face às consequências migratórias
Perante esta exibição de barbarismo, de nada vale a prudência do comunicado emitido pela Alta Representante para a Política Externa, Catherine Ashton, nem a do Conselho de Ministros europeus celebrado na passada segunda-feira. Não nos deixemos enganar: se dois países como a Itália e a República Checa conseguiram prejudicar a posição comum [ao recusarem condenar a Líbia] foi, entre outras razões, porque os outros membros dos Vinte e Sete não se sentiram incomodados com o resultado final, que consideraram aceitável. Só que este não é aceitável, segundo nenhum ponto de vista, nem sequer se o contemplarmos à luz de um possibilismo timorato, e, por isso, a vitória dos dois Estados-membros sobre os restantes, é na realidade uma derrota humilhante para todos.
Enquanto a Alta Representante e o Conselho de Ministros desempenhavam este triste papel, a Comissão vinha lançar mais opróbrio sobre a Europa, pela boca de Michel Cercone, porta-voz da comissária para os Assuntos Internos [Cecília Malmström]. Este garantiu que a UE está preocupada com as consequências das revoltas no Magrebe e no Médio Oriente em matéria de imigração. Se, na verdade, é esta a preocupação que paralisa a União neste momento, isso quer dizer que, de tanto olhar para o umbigo, a burocracia de Bruxelas perdeu a capacidade de hierarquizar os problemas, colocando no mesmo plano o sismo político que agita uma das regiões mais martirizadas do mundo e uma obsessão, que primeiro foi das forças populistas europeias e, depois, dos partidos democráticos, dispostos a qualquer coisa para conquistar votos.
Mas quer também dizer que, acossada pelos seus fantasmas, esta Europa de começos do século XXI renunciou a fazer a distinção entre imigrantes e refugiados. Perante um crime em grande escala como o que perpetrou Kadhafi, a Europa comete uma baixeza imperdoável, ao interrogar-se sobre a melhor forma de encerrar os líbios dentro das suas fronteiras, deixando-os à mercê de uma repressão feroz. A sua preocupação deveria ser, pelo contrário, a forma de contribuir para o fim de um regime caricato e de salvar vidas humanas.
Os comunicados e declarações oficiais não deixam transparecer uma coisa nem outra, com a agravante de que, enquanto os Vinte e Sete continuam a polir o fraseado eufemista da sua posição comum, Kadhafi recorre a mercenários para reprimir os manifestantes e faz crescer o clima de terror, ao impedir que os cadáveres sejam retirados das ruas.
São incontáveis os erros históricos cometidos pelas grandes potências no Magrebe e no Médio Oriente, em nome do dogma de que a ditadura era um mal menor, em comparação com a ameaça do fanatismo religioso islamita. Na realidade, trata-se de dois inimigos que se têm alimentado um ao outro e que deixaram milhões de pessoas presas entre garras que as privavam de liberdade e de qualquer esperança de progresso, em todo o mundo árabe. Agora que esses cidadãos tomaram a iniciativa, com risco das suas vidas, as grandes potências não podem acrescentar mais um erro aos já cometidos, mais uma vez de dimensões planetárias.
Pelo menos, a Europa não pode nem deve fazê-lo, porque isso seria o mesmo que consagrar uma traição definitiva aos grandes princípios com base nos quais quis criar a sua União. Os cidadãos que se ergueram, que estão a erguer-se, contra as respetivas ditaduras, exigindo liberdade e dignidade, precisam de receber do mundo exterior, do mundo desenvolvido e democrático, uma mensagem inequívoca de que as suas reivindicações são legítimas. E a União Europeia não pode permitir-se pronunciar-se em sussurros nem fazer bandeira dos seus medos mesquinhos.
"o umbiguismo nacional"
Tal e qual: o umbiguismo nacional (2), de Carlos Barbosa de Oliveira.
Ando há dias a pensar que espécie de mosca terá mordido alguns bloguistas portugueses, que olham para este terrível momento da Líbia e só lá vêem Sócrates e Amado.
Confesso que fiquei muito surpreendida quando o Kadhafi começou a frequentar os salões europeus. Então agora já lhe perdoámos?, pensei eu, que sou muito rancorosa. Abençoado petróleo, que tudo lava.
Mas a verdade é que todos temos as mãos sujas: eu não deixei de fazer uma única viagem para que o meu país não precisasse do petróleo da Líbia. Não criei um único posto de trabalho para que o meu país não precisasse de fazer acordos de colaboração económica com a Líbia. E não é só a Líbia: continuo a ser tentada pelos preços mais baratos, sem passar a dormir mal devido às condições de extrema pobreza e exploração em que vivem aqueles que produzem o que consumo a preços tão vantajosos.
Em vez de atirarem pedras ao Sócrates, digam lá como é que a economia portuguesa pode lutar por um lugarzinho ao sol sem fazer cedências aos princípios. Diga cada um dos que o ataca: o que é que mudou na sua vida privada, nos seus hábitos de consumo e na sua atitude de cidadão empreendedor e criador de riqueza, para que o governo português não se faça dependente desses ditadores?
Se acho bem que se faça cedências aos princípios? Não, não acho bem. Mas haverá algo profundamente hipócrita na minha crítica ao governo, se eu própria não tenho um projecto alternativo para resolver os nossos problemas - e só tenho algumas ideias mais ou menos desconexas - e enquanto não ajustar o meu comportamento de homo economicus à defesa integral desses princípios.
"Ah, mas não era preciso exagerar como o Sócrates exagerou!", dirão. Não sei. Admito que os mais pequenos tenham de se esforçar um pouco mais para chegar às tetas da vaquinha na qual os grandes já se instalaram.
Ando há dias a pensar que espécie de mosca terá mordido alguns bloguistas portugueses, que olham para este terrível momento da Líbia e só lá vêem Sócrates e Amado.
Confesso que fiquei muito surpreendida quando o Kadhafi começou a frequentar os salões europeus. Então agora já lhe perdoámos?, pensei eu, que sou muito rancorosa. Abençoado petróleo, que tudo lava.
Mas a verdade é que todos temos as mãos sujas: eu não deixei de fazer uma única viagem para que o meu país não precisasse do petróleo da Líbia. Não criei um único posto de trabalho para que o meu país não precisasse de fazer acordos de colaboração económica com a Líbia. E não é só a Líbia: continuo a ser tentada pelos preços mais baratos, sem passar a dormir mal devido às condições de extrema pobreza e exploração em que vivem aqueles que produzem o que consumo a preços tão vantajosos.
Em vez de atirarem pedras ao Sócrates, digam lá como é que a economia portuguesa pode lutar por um lugarzinho ao sol sem fazer cedências aos princípios. Diga cada um dos que o ataca: o que é que mudou na sua vida privada, nos seus hábitos de consumo e na sua atitude de cidadão empreendedor e criador de riqueza, para que o governo português não se faça dependente desses ditadores?
Se acho bem que se faça cedências aos princípios? Não, não acho bem. Mas haverá algo profundamente hipócrita na minha crítica ao governo, se eu própria não tenho um projecto alternativo para resolver os nossos problemas - e só tenho algumas ideias mais ou menos desconexas - e enquanto não ajustar o meu comportamento de homo economicus à defesa integral desses princípios.
"Ah, mas não era preciso exagerar como o Sócrates exagerou!", dirão. Não sei. Admito que os mais pequenos tenham de se esforçar um pouco mais para chegar às tetas da vaquinha na qual os grandes já se instalaram.
23 fevereiro 2011
a queda de um anjo (2)
O ministro mais querido dos alemães, Karl-Theodor zu Guttenberg, está a ter uma semana terrível: alguém descobriu que o seu trabalho de doutoramento está cheio de citações sem indicação da fonte, na internet apareceu logo um grupo de voluntários a passar o trabalho dele a pente fino, e o que há uma semana era um conjunto de erros involuntários e sem significado num trabalho de quase 500 páginas e 1.200 anotações é, passados uns dias, um erro grave que o leva a prescindir voluntariamente do título académico.
A Universidade lembra que só a ela compete conceder e retirar títulos académicos, e afirma que vai analisar o trabalho com toda a calma e sem se sujeitar a qualquer espécie de pressão. Tarefa ingrata: por um lado, não podem criar um precedente. Por outro lado, dava muito jeito a muitos poderosos, e a 70% do povo em geral (segundo uma sondagem recente), que a Universidade não encontrasse motivos para o acusar de plágio. Contudo, nos tempos da internet a margem de manobra da Universidade reduz-se imenso. Como dizer que esta barra, permanentemente actualizada no site GuttenPlag Wiki, não é significativa?
( Legenda: Azul - páginas não verificadas. Branco - páginas onde não foram encontradas passagens citadas sem referência da fonte. Preto - páginas onde foram encontradas essas passagens. Vermelho - páginas onde foram encontradas essas passagens, mas provenientes de mais que uma fonte.)
A oposição exige que ele se demita. A Angela Merkel diz que ao Governo pouco interessa o seu título académico, e que um ministro tão bom como ele faz muita falta, sobretudo nesta fase em que está a fazer reformas fundamentais na área da Defesa. As pessoas do seu partido também o apoiam, bem como o povo (70%). Os meios de comunicação social é que estão a estragar tudo: e que não pode ser, e que se este político subiu de forma tão meteórica foi justamente por encarnar o ideal de honestidade e transparência, e que não pode agora começar a tentar separar as áreas em que é honesto (política) daquelas em que se permite erros graves (académica). Que uma pessoa ou é honesta ou não é, e que a defesa da Democracia e do Estado de Direito exige que se trate este caso de forma exemplar.
Chegados a este ponto, lembro Willy Brandt, que foi para a rua quando se descobriu que o seu secretário era um espião da RDA - e que culpa tinha ele? E quanta falta não fazia ao país?
Lembro Margot Kässmann, que foi apanhada a conduzir embriagada e se demitiu dois ou três mais tarde, apesar de ter o apoio da sua Igreja e haver por toda a Alemanha grupos de cristãos que rezavam para que ela continuasse a ocupar o seu posto (contei parcialmente aqui).
Guttenberg prestou declarações no Parlamento esta manhã, e desculpou-se dizendo que só agora se deu conta de como estava sobrecarregado de trabalho (como político, académico e jovem pai de família) e que obviamente isso se reflectiu na qualidade do texto. Assumiu que cometeu erros, garantiu que não o fez propositadamente, pediu desculpa. Avisou um deputado que insistia em usar a palavra "plágio" que isso pode representar um acto de difamação, e consequente processo jurídico. Aguentou valentemente o gozo dos deputados que faziam questão de o tratar por "dr.", manteve todo o tempo uma atitude de pacífica humildade. A sessão recomeçou há pouco, veremos no que vai resultar.
Será que escapa?
Espero que não, apesar de simpatizar muito com ele. Espero que não, por esta razão muito simples: se começámos a aceitar desculpas do género "estava sobrecarregado, não reparei", escancaramos as portas à palhaçada. Deixa de haver responsabilidade e imputabilidade.
Melhor seria que ele se afastasse da política por uns tempos. Se ficar, todo o país paga um altíssimo preço. O mais irónico: este era o político que vinha redimir todos os políticos, o homem sério, de uma independência e verticalidade a toda a prova...
A Universidade lembra que só a ela compete conceder e retirar títulos académicos, e afirma que vai analisar o trabalho com toda a calma e sem se sujeitar a qualquer espécie de pressão. Tarefa ingrata: por um lado, não podem criar um precedente. Por outro lado, dava muito jeito a muitos poderosos, e a 70% do povo em geral (segundo uma sondagem recente), que a Universidade não encontrasse motivos para o acusar de plágio. Contudo, nos tempos da internet a margem de manobra da Universidade reduz-se imenso. Como dizer que esta barra, permanentemente actualizada no site GuttenPlag Wiki, não é significativa?
( Legenda: Azul - páginas não verificadas. Branco - páginas onde não foram encontradas passagens citadas sem referência da fonte. Preto - páginas onde foram encontradas essas passagens. Vermelho - páginas onde foram encontradas essas passagens, mas provenientes de mais que uma fonte.)
A oposição exige que ele se demita. A Angela Merkel diz que ao Governo pouco interessa o seu título académico, e que um ministro tão bom como ele faz muita falta, sobretudo nesta fase em que está a fazer reformas fundamentais na área da Defesa. As pessoas do seu partido também o apoiam, bem como o povo (70%). Os meios de comunicação social é que estão a estragar tudo: e que não pode ser, e que se este político subiu de forma tão meteórica foi justamente por encarnar o ideal de honestidade e transparência, e que não pode agora começar a tentar separar as áreas em que é honesto (política) daquelas em que se permite erros graves (académica). Que uma pessoa ou é honesta ou não é, e que a defesa da Democracia e do Estado de Direito exige que se trate este caso de forma exemplar.
Chegados a este ponto, lembro Willy Brandt, que foi para a rua quando se descobriu que o seu secretário era um espião da RDA - e que culpa tinha ele? E quanta falta não fazia ao país?
Lembro Margot Kässmann, que foi apanhada a conduzir embriagada e se demitiu dois ou três mais tarde, apesar de ter o apoio da sua Igreja e haver por toda a Alemanha grupos de cristãos que rezavam para que ela continuasse a ocupar o seu posto (contei parcialmente aqui).
Guttenberg prestou declarações no Parlamento esta manhã, e desculpou-se dizendo que só agora se deu conta de como estava sobrecarregado de trabalho (como político, académico e jovem pai de família) e que obviamente isso se reflectiu na qualidade do texto. Assumiu que cometeu erros, garantiu que não o fez propositadamente, pediu desculpa. Avisou um deputado que insistia em usar a palavra "plágio" que isso pode representar um acto de difamação, e consequente processo jurídico. Aguentou valentemente o gozo dos deputados que faziam questão de o tratar por "dr.", manteve todo o tempo uma atitude de pacífica humildade. A sessão recomeçou há pouco, veremos no que vai resultar.
Será que escapa?
Espero que não, apesar de simpatizar muito com ele. Espero que não, por esta razão muito simples: se começámos a aceitar desculpas do género "estava sobrecarregado, não reparei", escancaramos as portas à palhaçada. Deixa de haver responsabilidade e imputabilidade.
Melhor seria que ele se afastasse da política por uns tempos. Se ficar, todo o país paga um altíssimo preço. O mais irónico: este era o político que vinha redimir todos os políticos, o homem sério, de uma independência e verticalidade a toda a prova...
acompanhamento
Acompanhamento para uma tradução chata.
(de tantos "Konverter" que já li, ainda me arrisco a deixar escapar um "convertor" - ai, é desta que me tiram o passaporte português)
Em baixo contínuo, o povo da Líbia.
Imagina... imagina...
***
PS: eu aqui a traduzir "convertores", e o pobre do Speedy Gonzalez que tem tanto para vos contar!
22 fevereiro 2011
Rita Maria desmonta as reacções parvas à geração Deolinda
Se fizessem uma antologia do fenómeno "geração parva", deviam incluir este texto da Rita Dantas (a quem roubei o boneco):
É para ler o texto todo, sem esquecer os links que lá vêm.
Passo algumas passagens, só para terem uma ideia:
Genericamente, julgo que a economia narrativa "vai trabalhar, malandro" resume bem tudo o que se tem vindo a dizer contra os jovens portugueses nas últimas semanas. Esta narrativa vive de três figuras chave: um jovem que se esforçou muito e conseguiu o que queria (o american dream), um jovem que não conseguiu o queria mas limpa escadas e nunca pediu nada ao Estado nem aos pais e conquista assim a sua dignidade (o pobrezinhos mas honrados) e o estróina que tirou um curso inútil, tem a mania que é artista e que ainda queria o rabinho lavado com água de rosas (a esmagadora maioria).
(...) Perceberam bem? Eu volto a explicar - os nossos pais que deixem de lutar pelas suas reformas elevadíssimas e por salários dignos ou pelas suas férias, porque a luta deles pelos direitos adquiridos está a impedir que nós tenhamos alguns direitos também. De cada vez que a geração anterior luta contra a precariedade no trabalho, os jovens são mais precários. Porquê? Parece que foi feita uma quantidade de dinheiro limitada que só dá para alguns direitos.
(...) os jovens, completamente idiotas, pensam que isto foi feito de propósito para os chatear a eles, especificamente. Vou citar porque este argumentário é tão imbecil que vocês podem não acreditar que é verdade: "Só falta imaginarem que os recibos verdes e os contratos a termo foram criados especificamente para os escravizar, e não resultam do caos económico com que as empresas se debatem e de leis de trabalho que se viraram contra os trabalhadores". Aqui, o papel do destino é entregue a duas coisas daquelas completamente imutáveis e que não têm rigorosamente nada a ver com política: o caos económico, gerado per se, e as leis do trabalho, entidades independentes, que se viraram contra os trabalhadores. Por isso é completamente ridículo que os jovens organizem um protesto político contra esta situação: primeiro, porque o protesto seria contra circunstâncias inamovíveis, mais valia fazer uma manifestação contra o clima; depois porque o mal não é só deles e toda a gente sabe que só faz sentido protestar se se tratar de uma situação que é injusta para um grupo específico e restrito. Existe uma uma regra da vivência apolítica que dita que, se estivermos todos no mesmo barco, é bom calar e comer, que é sinal que não há outro barco, nem outro rumo nem outra forma de organizarmos a nossa existência.
A terceira parte do texto é sobre este post da Rititi, e passo aqui o início, mas aconselho que leiam tudo, porque o modo como a Rita desmonta aquele discurso é das coisas melhores que vi ultimamente na blogosfera.
A última estratégia é a menos original, mas parece-me importante mencioná-la pelo que tem de desesperado. É a conhecida estratégia do Biafra, a ultrapassagem pela catástrofe: há sempre alguém pior do que nós. (...)
Um apontamento final: o post tem um ou outro erro gramatical, sinal de que a Rita escreveu isto de rajada. É o que mais me surpreende: a velocidade com que ela encadeia os elementos da sua análise.
(Um dia destes ainda crio uma empresa para vender autógrafos da Rita, é desta que vou enriquecer)
21 fevereiro 2011
se eu fosse o Ministério da Educação também proibia este cartaz...
...por causa daquela frase:
Sabe mais sobre o Projecto Inclusão em www.rea.pt/inclusao
ou contacta-nos (...)"
"Sabe mais sobre o Projecto"?!
Informa-te sobre o Projecto...
Lê mais sobre o Projecto...
Para mais informações sobre o Projecto Inclusão, consulta...
"Sabe mais" parece tradução automática do inglês para o português. Um nível inaceitável nas escolas. E depois há aquele c do Projecto: o Acordo Ortográfico ainda não foi imposto nas escolas?
***
Já o debate, esse, parece-me fundamental. Ou pelo menos a passagem desta informação simples:
Há pessoas assim e pessoas assado. E há pessoas que ainda não sabem bem se são assim ou assado.
Na nossa escola queremos respeitar cada qual como é.
Muitas vezes é a insegurança em relação à minha própria identidade sexual que me leva a humilhar os outros.
Sabe mais sobre o Projecto Inclusão em www.rea.pt/inclusao
ou contacta-nos (...)"
"Sabe mais sobre o Projecto"?!
Informa-te sobre o Projecto...
Lê mais sobre o Projecto...
Para mais informações sobre o Projecto Inclusão, consulta...
"Sabe mais" parece tradução automática do inglês para o português. Um nível inaceitável nas escolas. E depois há aquele c do Projecto: o Acordo Ortográfico ainda não foi imposto nas escolas?
***
Já o debate, esse, parece-me fundamental. Ou pelo menos a passagem desta informação simples:
Há pessoas assim e pessoas assado. E há pessoas que ainda não sabem bem se são assim ou assado.
Na nossa escola queremos respeitar cada qual como é.
Muitas vezes é a insegurança em relação à minha própria identidade sexual que me leva a humilhar os outros.
20 fevereiro 2011
a acompanhar
Um blogue a acompanhar: protesto da geração à rasca.
Este post, por exemplo:
Este post, por exemplo:
“É mais fácil lutar contra a ditadura do que contra a ditamole”
por Ana – Sábado, 19 de Fevereiro de 2011
É inacreditável o ódio que escorre pelas caixas de comentários das notícias relativas à manifestação marcada para dia 12 de Março, ódio pelas pessoas que querem continuar a lutar por este país. E é inacreditável o “tom” do especial informação da SIC – que é recorrentemente mencionado nestes comentários – “Geração à rasca” – que tenta passar a ideia de que os precários são todos uns meninos que querem é carros e telemóveis de última geração: “vícios de quem quer ser moderno e nem pensa na velhice” – como se o sistema de transportes públicos que temos permitisse a todos chegar ao emprego, e como se abdicando do telemóvel se resolvesse o problema do desemprego – deveríamos todos virar mórmones para fazer face à crise? Se passarmos a dormir numa tenda à porta do emprego e usamos pombos correio para comunicar, tudo ficará bem. Os recém-licenciados desempregados entrevistados vivem todos em casa de familiares. Gostava que tivessem procurado os licenciados que saíram de casa dos pais e que estão a trabalhar precariamente e a partilhar apartamentos com mais 5 ou 6 pessoas. Nem todos podem ficar em casa dos pais, mas ninguém se lembra desses.
O jornalista pergunta ao pai de um licenciado em cinema há 7 meses, que vive em casa dos pais: “Então? Não está farto deste filme? Pagaram os estudos ao menino e agora têm o menino a viver cá em casa” – coitado do “menino”, neste país não lhe valeu estar licenciado há apenas 7 meses e já ter um prémio de realização português e um sérvio… devia era ir lavar sarjetas, para saber o que é a vida, em vez de contar com a ajuda dos pais mais 2 ou 3 anos, até um dia o ICAM se lembrar que há mais talento em Portugal para além da lista de 15 ou 20 nomes que vão todos os anos buscar para atribuir financiamentos… Segue-se uma comparação das vantagens de se ser mais velho e as desvantagens de se ser mais novo: reformas, saúde, acesso ao crédito. Esta história de tentar virar os pais contra os filhos e os filhos contra os pais mete mesmo nojo. Os vampiros não são os filhos, nem são os pais. São as empresas sem princípios, os abusos e a ganância generalizada.
Parece emergir a ideia de que estes jovens – que estão muito desiludidos porque as licenciaturas não lhes valeram um posto de trabalho – teriam feito uma aposta melhor se não tivessem procurado o ensino superior. Felizmente aparece o Reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, que lembra que “o desemprego é mais significativo entre os não licenciados”. – Pois é. Se os licenciados estão mal, os não licenciados estão bem na m… parece ser necessário lembrar também que a formação superior não serve só para ter um emprego, serve para a formação pessoal e para elevar o nível intelectual de um país. Como ficamos face ao resto do mundo? E falando em resto do mundo, sugere-se aos jovens recém-licenciados que vão para fora. Como se ir para fora não implique liquidez financeira, e esteja ao alcance de qualquer um.
Por fim aparece a crítica aos jovens “que não querem “sacrificar o sonho pelo possível” – querem mesmo convencer-nos que “isto” é o possível. E o “isto” não se esgota nos licenciados que não conseguem um emprego digno – nas áreas para as quais estudaram, ou noutras – “isto” chegou ao ponto a que chegou porque a maior parte do tecido empresarial português acha que a competitividade se consegue pagando o mínimo possível, escravizando pessoas com ordenados próximos ou por vezes abaixo dos ordenados mínimos. O que está mal é ser normal as empresas recorrerem a falsos recibos verdes e a estágios não remunerados para manter lucros obscenos e os ordenados e privilégios dos quadros superiores muito acima da média europeia. O que está mal é a corrupção e a exploração selvagem. Se não há trabalho na área para a qual os jovens estudaram, há-de haver noutra área qualquer, mas convém que paguem o trabalho, ou não? A competitividade consegue-se com um produto de qualidade, e isso não se consegue com empregados deprimidos que lutam para comprar comida no supermercado, nem com comboios de “estagiários” que se substituem uns aos outros sucessivamente, nunca ficando tempo suficiente para fazer o melhor pela empresa para a qual querem trabalhar. A verdade é que não os deixam trabalhar e os tratam abaixo de cão, porque há sempre outro estagiário que pode ficar com o lugar. O trabalho não será tão bom, mas serve para “tapar o buraco”. Não os deixam crescer como profissionais, e depois queixam-se da “falta de competitividade”.
Sou licenciada, estou nos quadros de uma empresa, e faço o que sempre quis fazer. Sou uma excepção. Mas não tenho a ilusão pretensiosa de que foi única e exclusivamente por lutar muito que consegui. Lutei muito, e sou boa no que faço, mas acima de tudo tive sorte. Antes disso fui muitos anos precária, e conheço profundamente a realidade. Aceitei trabalhos fora da área que me iam comprometendo para sempre o meu projecto de vida. Por isso, porque quero um futuro melhor para os meus filhos, e porque este é o meu País: vou à Manif. E tu?
O jornalista pergunta ao pai de um licenciado em cinema há 7 meses, que vive em casa dos pais: “Então? Não está farto deste filme? Pagaram os estudos ao menino e agora têm o menino a viver cá em casa” – coitado do “menino”, neste país não lhe valeu estar licenciado há apenas 7 meses e já ter um prémio de realização português e um sérvio… devia era ir lavar sarjetas, para saber o que é a vida, em vez de contar com a ajuda dos pais mais 2 ou 3 anos, até um dia o ICAM se lembrar que há mais talento em Portugal para além da lista de 15 ou 20 nomes que vão todos os anos buscar para atribuir financiamentos… Segue-se uma comparação das vantagens de se ser mais velho e as desvantagens de se ser mais novo: reformas, saúde, acesso ao crédito. Esta história de tentar virar os pais contra os filhos e os filhos contra os pais mete mesmo nojo. Os vampiros não são os filhos, nem são os pais. São as empresas sem princípios, os abusos e a ganância generalizada.
Parece emergir a ideia de que estes jovens – que estão muito desiludidos porque as licenciaturas não lhes valeram um posto de trabalho – teriam feito uma aposta melhor se não tivessem procurado o ensino superior. Felizmente aparece o Reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, que lembra que “o desemprego é mais significativo entre os não licenciados”. – Pois é. Se os licenciados estão mal, os não licenciados estão bem na m… parece ser necessário lembrar também que a formação superior não serve só para ter um emprego, serve para a formação pessoal e para elevar o nível intelectual de um país. Como ficamos face ao resto do mundo? E falando em resto do mundo, sugere-se aos jovens recém-licenciados que vão para fora. Como se ir para fora não implique liquidez financeira, e esteja ao alcance de qualquer um.
Por fim aparece a crítica aos jovens “que não querem “sacrificar o sonho pelo possível” – querem mesmo convencer-nos que “isto” é o possível. E o “isto” não se esgota nos licenciados que não conseguem um emprego digno – nas áreas para as quais estudaram, ou noutras – “isto” chegou ao ponto a que chegou porque a maior parte do tecido empresarial português acha que a competitividade se consegue pagando o mínimo possível, escravizando pessoas com ordenados próximos ou por vezes abaixo dos ordenados mínimos. O que está mal é ser normal as empresas recorrerem a falsos recibos verdes e a estágios não remunerados para manter lucros obscenos e os ordenados e privilégios dos quadros superiores muito acima da média europeia. O que está mal é a corrupção e a exploração selvagem. Se não há trabalho na área para a qual os jovens estudaram, há-de haver noutra área qualquer, mas convém que paguem o trabalho, ou não? A competitividade consegue-se com um produto de qualidade, e isso não se consegue com empregados deprimidos que lutam para comprar comida no supermercado, nem com comboios de “estagiários” que se substituem uns aos outros sucessivamente, nunca ficando tempo suficiente para fazer o melhor pela empresa para a qual querem trabalhar. A verdade é que não os deixam trabalhar e os tratam abaixo de cão, porque há sempre outro estagiário que pode ficar com o lugar. O trabalho não será tão bom, mas serve para “tapar o buraco”. Não os deixam crescer como profissionais, e depois queixam-se da “falta de competitividade”.
Sou licenciada, estou nos quadros de uma empresa, e faço o que sempre quis fazer. Sou uma excepção. Mas não tenho a ilusão pretensiosa de que foi única e exclusivamente por lutar muito que consegui. Lutei muito, e sou boa no que faço, mas acima de tudo tive sorte. Antes disso fui muitos anos precária, e conheço profundamente a realidade. Aceitei trabalhos fora da área que me iam comprometendo para sempre o meu projecto de vida. Por isso, porque quero um futuro melhor para os meus filhos, e porque este é o meu País: vou à Manif. E tu?
19 fevereiro 2011
Toast
Até agora, o filme mais fraquinho que vi nesta Berlinale.
Imaginei-o uma ode à culinária. Saiu-me um filme com ambientes impecavelmente criados à boa maneira da BBC, óptimos actores, alguns momentos de humor, mas ainda assim um mero filme de televisão.
Bom para um domingo de chuva em casa.
Para aliviar a decepção valeu-nos o Monsieur Vuong, que não é muito longe do cinema Cubix.
Para os turistas em Berlim: uma região a explorar - em dez minutos de passeio a pé passa-se de um horroroso exemplo de urbanismo comunista para uma das zonas mais interessantes da Berlim Leste pós queda do muro. Lojas pequenas de designers mais ou menos desconhecidos, algumas lojas de marca, restaurantes e bares agradáveis, público jovem.
Na Alte Schönhauser Straße havia várias lojas com os vidros rachados. Na primeira ainda pensámos que seria decoração ("ena, ena, estes berlinenses lembram-se de cada coisa!...") mas ao fim de seis ou sete no mesmo estado decidimos entrar e perguntar o que era aquilo. "Foram os okupas ", contou a dona. "Como reacção de protesto por terem sido desalojados de uma casa. Passaram por aí, e partiram as montras de 30 lojas da rua".
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haka barrosã
(provavelmente já todos conhecem, mas passo na mesma - o "há presunto presunto presunto" tornou-se o ear worm do dia, cá em casa)
(e eis como num sábado de manhã assim de repente me sinto cheia de saudades de Portugal)
isto da "natureza biológica" é só vícios...
Lembra-me uma das histórias engraçadas do Emílio, da Astrid Lindgren, quando ele deu às galinhas restos das cerejas que a mãe usara para fazer aguardente.
E se já estou a falar disso: porque é que os livros do Emílio deixaram de ser vendidos em Portugal?
Não há em Portugal uma editora que trate de se especializar em literatura infantil sueca? Vão por mim: é um dos poucos casos em que a qualidade é um nicho de mercado muito rentável.
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18 fevereiro 2011
Tomboy
(na janela do vídeo há um botão, no canto inferior direito, para mudar a língua de alemão para francês)
Tomboy foi o filme que vi ontem, numa sala cheia de turmas do ensino primário e secundário. Uma história simultaneamente leve e densa, contada como a água que corre e às vezes acelera em rápidos inevitáveis, com um grupo de excelentes actores entre os 5 e os 12 anos. Em traços breves: uma menina que gosta de brincar com os rapazes e vestir como eles muda com a família para uma casa nova e escolhe dizer aos amigos novos que é um rapaz. A mentira vai-se aguentando ao longo do filme, e a menina vai-se enterrando cada vez mais na história que inventou. No fim, acontece o que tinha de acontecer: descobre-se tudo.
Pareceu-me ser mais uma história sobre a mentira que uma história sobre identidade sexual. Não se sabe de onde vem essa vontade de se dizer rapaz, não se sabe como vai evoluir, mas o que o filme mostra com clareza é a ameaça latente de ser descoberta, e o modo como outra menina se torna refém desta mentira.
Ao vê-lo lembrei-me muito de um outro, um documentário dinamarquês que vi há dez anos (já não me lembro do nome), sobre um rapaz que gostava de viver como uma rapariga. O filme mostra o rapaz a maquilhar-se com outras miúdas, a ir com elas às compras e a experimentar vestidos: um miúdo que assume a sua verdade com enorme naturalidade, e que é aceite por todos.
No fim do filme a produtora subiu ao palco para conversar com o público.
Duas miúdas, aí dos seus 10 anos, começaram a fazer perguntas. A princípio envergonhadas - começa tu, não, começa tu! -, lá foram disparando:
- Porque é que o filme se chama Tomboy?
- Porque esse é o nome que em inglês se dá a raparigas que querem ser como os rapazes.
- O que faz uma produtora?
- Uiii... (e toca de explicar)
E uma delas, aos risinhos:
- A Lisa e a Laure beijaram-se mesmo na boca?
- Sim. Mas explicámos-lhes que estavam a contar uma história, que aquilo não era uma coisa da vida delas mas um papel que estavam a interpretar.
Nesse momento, uma mulher do público levantou-se e gritou para a sala:
- Mas atenção: há raparigas que beijam raparigas e rapazes que beijam rapazes! Não se esqueçam disso!
Os miúdos continuaram o interrogatório:
- Os actores já se conheciam? Sim, a Laure (a personagem principal) trouxe os seus amigos rapazes, porque não havia tempo para criar uma boa dinâmica de grupo entre crianças que se desconheciam.
- E a irmã mais nova, e a Lisa? Essas não conheciam a Laure.
- Quanto tempo duraram as filmagens? Vinte dias.
- Como é que descobriram estas crianças? (pergunta seguida com muita atenção por muitos na sala, obviamente: quem pensa fazer carreira no mundo do cinema...) Foi uma "caça-talentos" que os procura no supermercado, no parque infantil, na rua. A Laure tinha cabelos compridos, mas gosta muito de jogar futebol e de facto tem uma maneira de andar um pouco masculina.
Aí, entrou de novo a mulher que já tinha interrompido por causa dos beijos:
- No filme há uma definição muito clara de géneros: as raparigas são muito raparigas, os rapazes são muito rapazes. Porque é que os fizeram assim a preto e branco?
A sala foi percorrida por um eco de impaciência. A produtora respondeu uma coisa qualquer.
A outra voltou à carga:
- A reacção da mãe foi muito violenta. Havia necessidade? No filme "Ma vie en rose" a situação é resolvida com muita mais alegria e leveza.
(E eu a pensar: ó mulher, se queres missionar, faz o teu próprio filme! Não imponhas aos outros que filme é que eles têm de fazer para passarem a tua mensagem.)
As pessoas começaram a abandonar a sala.
A produtora respondeu ainda que estavam simplesmente a contar uma história, que "Ma vie en rose" também tem situações de muita violência, e que a reacção da mãe é a de alguém que confronta a filha com a sua realidade, a partir da qual ela terá de se construir alguma coisa.
E mais palmas, e fomos todos embora.
No foyer do cinema tinha vários cartazes de filmes da Berlinale para crianças e jovens, e eram bastante apelativos. No próximo ano, já sei o que vou fazer melhor: ler com atenção também esta parte do programa. Tanto mais que os bilhetes são bem mais baratos: 3 euros.
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a queda de um anjo
Como o Público conta, uma das grandes estrelas do actual governo alemão está a ser acusado de ter cometido vários plágios no seu trabalho de doutoramento. O Público diz que "grande parte da sua tese de doutoramento foi copiada", o que é um manifesto exagero. Aqui podem ver que se trata de um punhado de frases, num trabalho de mais de quatrocentas páginas. Entretanto, já existe um grupo de voluntários internéticos que está a passar o trabalho a pente fino. Parece que já chegaram a 78 passagens de plágio ou "próximo do plágio". Uns 16% do conjunto, ainda não verificados pela Universidade que está a tratar do caso.
Esta Universidade tem um papel ingrato: considerar que em 1200 pés de página é normal que se esqueçam 10 ou 20 (ou seja: deixar passar um ministro muito estimado no país), ou considerar que o plágio é grave, e retirar-lhe o título - uma decisão movida também por importantes motivos pedagógicos, para que nenhum outro doutorando se lembre de fazer algo semelhante, mas que arrumaria com a carreira política deste ministro.
E que ministro! Um fenómeno: nobre, rico, proveniente de uma família que resistiu ao nazismo, parecia ser um daqueles políticos que representa o melhor da Alemanha e não precisa de fazer joguinhos à custa do país para encher os bolsos. Um homem independente, uma pessoa de carácter, uma figura carismática. Já visto por muitos como um futuro chanceler.
E agora isto.
A ver vamos como é que o caso evolui.
Para já, alguns políticos da oposição aproveitam para o atacar, alguns do seu próprio partido tentam deitar água na fervura.
A penúltima palavra será dada pela Universidade. Veremos como zu Guttenberg vai rematar.
Depois conto.
Adenda (a 02.03.2011): este post tem algumas informações erradas, para além de padecer da confusão entre "página" e "frase". Menos de duas semanas mais tarde, os dados sobre o plágio são muito mais concretos: http://gut.greasingwheels.org/
Esta Universidade tem um papel ingrato: considerar que em 1200 pés de página é normal que se esqueçam 10 ou 20 (ou seja: deixar passar um ministro muito estimado no país), ou considerar que o plágio é grave, e retirar-lhe o título - uma decisão movida também por importantes motivos pedagógicos, para que nenhum outro doutorando se lembre de fazer algo semelhante, mas que arrumaria com a carreira política deste ministro.
E que ministro! Um fenómeno: nobre, rico, proveniente de uma família que resistiu ao nazismo, parecia ser um daqueles políticos que representa o melhor da Alemanha e não precisa de fazer joguinhos à custa do país para encher os bolsos. Um homem independente, uma pessoa de carácter, uma figura carismática. Já visto por muitos como um futuro chanceler.
E agora isto.
A ver vamos como é que o caso evolui.
Para já, alguns políticos da oposição aproveitam para o atacar, alguns do seu próprio partido tentam deitar água na fervura.
A penúltima palavra será dada pela Universidade. Veremos como zu Guttenberg vai rematar.
Depois conto.
Adenda (a 02.03.2011): este post tem algumas informações erradas, para além de padecer da confusão entre "página" e "frase". Menos de duas semanas mais tarde, os dados sobre o plágio são muito mais concretos: http://gut.greasingwheels.org/
17 fevereiro 2011
"a culpa dos gay"
Aprender até morrer:
"A culpa, ao contrário, do que por aí se advoga, não advém dos valores e da moral da sociedade, que muitos atribuem à raiz religiosa. A culpa dos gay resulta de estarem em rota de colisão com a sua natureza biológica. E como nada podem fazer contra isso, pensam que se interferirem nas 'regras' sociais da sexualidade relativizam a natureza (regras biológicas), superando-a, e assim a culpa desaparecerá. Pura ilusão."
Publicado por Maria Teixeira Alves no Corta-Fitas.
Ora vejam-me aqui estas caras de rota de colisão com a natureza biológica (reparem bem no ar desconsolado que eles fazem, cheios de sentimentos de culpa, ai, uma aflição):
Aprender até morrer. Também se aprende muito com este filme:
Mas gasta-se algum tempo. São 52 minutos no total. Quase uma hora, para ficar a saber que afinal a Natureza ainda não percebeu que aquelas coisinhas é só para preservar a espécie.
Quem tem uma hora para perder a informar-se? Mais vale não ver, e usar o tempo poupado para disparar à queima-roupa contra os gay e as suas manigâncias para relativizar a natureza.
Sim, que ele há horas complicadas. Como esta, que nos revela que o "santo nome" da Natureza tem sido invocado em falso. Por esses que a observam de muito longe, filtrada pelos binóculos da moral, e assim a conseguem relativizar, gerindo-a como marioneta de um discurso pré-concebido. Para impor aos gay uma culpa que na Natureza não existe.
Em suma, e voltando aos leões do primeiro filme: a sorte deles é não terem uma leoa por perto a dizer que aquilo é pecado, e a resmungar "olhem-me só para este comportamento contra-natura! com estes gajos a portar-se como humanos, onde é que vamos parar?"
(Um dia destes ainda aparece aí um lobby de animais a queixar-se dos maus exemplos que os gay dão, que estão a perverter todas as espécies) (às tantas, os culpados daquela pouca vergonha dos leões foram os marinheiros portugueses dos descobrimentos: foram dar maus exemplos para a savana, e desde então nunca mais houve moralidade entre os bichos)
"A culpa, ao contrário, do que por aí se advoga, não advém dos valores e da moral da sociedade, que muitos atribuem à raiz religiosa. A culpa dos gay resulta de estarem em rota de colisão com a sua natureza biológica. E como nada podem fazer contra isso, pensam que se interferirem nas 'regras' sociais da sexualidade relativizam a natureza (regras biológicas), superando-a, e assim a culpa desaparecerá. Pura ilusão."
Publicado por Maria Teixeira Alves no Corta-Fitas.
Ora vejam-me aqui estas caras de rota de colisão com a natureza biológica (reparem bem no ar desconsolado que eles fazem, cheios de sentimentos de culpa, ai, uma aflição):
Aprender até morrer. Também se aprende muito com este filme:
Mas gasta-se algum tempo. São 52 minutos no total. Quase uma hora, para ficar a saber que afinal a Natureza ainda não percebeu que aquelas coisinhas é só para preservar a espécie.
Quem tem uma hora para perder a informar-se? Mais vale não ver, e usar o tempo poupado para disparar à queima-roupa contra os gay e as suas manigâncias para relativizar a natureza.
Sim, que ele há horas complicadas. Como esta, que nos revela que o "santo nome" da Natureza tem sido invocado em falso. Por esses que a observam de muito longe, filtrada pelos binóculos da moral, e assim a conseguem relativizar, gerindo-a como marioneta de um discurso pré-concebido. Para impor aos gay uma culpa que na Natureza não existe.
Em suma, e voltando aos leões do primeiro filme: a sorte deles é não terem uma leoa por perto a dizer que aquilo é pecado, e a resmungar "olhem-me só para este comportamento contra-natura! com estes gajos a portar-se como humanos, onde é que vamos parar?"
(Um dia destes ainda aparece aí um lobby de animais a queixar-se dos maus exemplos que os gay dão, que estão a perverter todas as espécies) (às tantas, os culpados daquela pouca vergonha dos leões foram os marinheiros portugueses dos descobrimentos: foram dar maus exemplos para a savana, e desde então nunca mais houve moralidade entre os bichos)
arte
(via Educação Irracional)
Alguns descontos:
- Ninguém espera encontrar uma gracinha destas numa exposição daquelas.
- Em frente à câmara toda a gente quer fazer boa figura, ou: como não se espera uma gracinha destas naquele sítio, ninguém ousa dizer "isto parece um borrão feito por crianças" - se o quadro está num sítio daqueles só pode ser por um motivo muito forte e, num contexto desses, dizer que aquilo parece uma criancice é correr o risco de passar por muito ignorante em frente à câmara.
- Quando Freud falha, Marx explica: é aquela história da validação do mercado. As coisas têm o valor que o mercado lhes dá. Se um quadro conseguiu ser exposto numa exposição com a fama daquela, é porque tem muito valor. E escusam de se rir: quem não tem uma única peça de marca em cima do corpinho, atire a primeira pedra. Ou: quem não tem notas na carteira (sim: qual é o valor real de uma nota de 50 Euros? 3 cêntimos? mas a gente usa-a como se valesse 50 Euros, porque a sociedade combinou atribuir-lhe esse valor - com os quadros de Picasso é a mesma coisa).
Talvez alguma da arte contemporânea seja uma brincadeira de crianças. Eu é que não sei dizer, porque não percebo nada de arte contemporânea, e tinha de saber muito para poder ir ao fundo da obra e voltar dizendo, com um superior encolher dos ombros vergados de saber: "não pensou mais do que aquele chimpazé pintor".
16 fevereiro 2011
isto é tão absurdo que tem de haver uma explicação - e muito gostava eu de saber qual é
Isto, encontrado no Blasfémias, via A Terceira Noite:
O texto continua, e vale a pena ler tudo. Aqui: European Dignity Watch.
É curioso que sejam representantes de países comummente associados a uma forte implantação da Igreja Católica quem apoia esta decisão de retirar a referência aos cristãos de um documento que supostamente pretendia criticar os ataques a cristãos. Se acrescentarmos o episódio daquela agenda europeia de dias religiosos que marcava os dias importantes de todas as religiões excepto os dos cristãos, pergunta-se que espécie de complexo é esse que está a castrar a Europa.
EU Foreign Ministers: condemnation of violence against Christians is politically incorrect
«At their recent meeting in Brussels on January 31st, the EU Foreign Ministers rejected a draft resolution condemning the atrocities against Christian minorities in Egypt and Iraq. Although preceded by an unequivocal resolution of the European Parliament (EP) on January 20th and an equally explicit recommendation by the Council of Europe (CoE) on January 27th condemning emphatically the increase of attacks on Christian minorities in the Middle East, Africa and Asia, the Council of Ministers could not agree on the mention of the word ‘Christian’ in their draft statement about the same issue.
Despite the fact that the majority of acts of religious violence in recent years are perpetrated against Christians, EU High Representative Lady Catherine Ashton claimed that it would be politically incorrect to explicitly name one religion. Her refusal to make reference to Christians in a document that was supposed to condemn persecution and violence against Christians following the clear statements of the EP and the CoE was endorsed and supported five Foreign Ministers: Luís Amado (Portugal), Trinidad Jiménez (Spain), Jean Asselborn(Luxemburg), Brian Cowen (Ireland) and Markos Kyprianou (Cyprus)».
O texto continua, e vale a pena ler tudo. Aqui: European Dignity Watch.
É curioso que sejam representantes de países comummente associados a uma forte implantação da Igreja Católica quem apoia esta decisão de retirar a referência aos cristãos de um documento que supostamente pretendia criticar os ataques a cristãos. Se acrescentarmos o episódio daquela agenda europeia de dias religiosos que marcava os dias importantes de todas as religiões excepto os dos cristãos, pergunta-se que espécie de complexo é esse que está a castrar a Europa.
Stimmwerck
Escreve-me um amigo:
You might be interested in the ensemble Stimmwerck. They're -- plainly stated -- the best of the best. Their CD of Leonhard Paminger is sublime, and their "Gyri Gyri Gaga' is high entertainment.
E lá vou eu para a amazon.de (para quem quiser ouvir alguns exemplos: carregar no botão "Alles anhören").
Já tenho música para esta manhã - e algo me diz que hoje as traduções me vão acontecer graciosas. Tradução de software com influência renascentista... hehehe.
(Curioso: ao tentar imaginar uma tradução de software alemão para português renascentista, só me ocorreu brasileiro.) (Não, eu não disse nada! Não vamos recomeçar a falar do acordo ortográfico, e que afinal somos mesmo uma só língua, e coisas assim.)
15 fevereiro 2011
life in a day
Este filme é uma delícia: a não perder. Para rir, para chorar, para sair do cinema sentindo uma espécie de amor maternal por toda a humanidade.
Vi-no no Friedrichtstadtpalast, uma sala enorme e com cadeiras terrivelmente desconfortáveis, mas nem reparei nisso. O filme cativa desde o primeiro minuto. Tão bom, que quando chegou ao fim as pessoas não queriam aplaudir, para não quebrar a magia. Mas aplaudiram, longamente. Tem grandes hipóteses de receber o Prémio do Público da Berlinale.
Foi montado a partir de milhares de filmes enviados por pessoas de todo o mundo, mas gravados num único dia: 24 de Julho de 2010. Nota-se a preponderância de um certo olhar ocidental, ou ocidentalizado - resultante talvez do facto de ter sido feito por pessoas com acesso ao youtube e com dinheiro suficiente para terem uma câmara de filmar. Mas nem isso lhe retira uma impressionante pluralidade de experiências e culturas, de dor e devaneio pessoal.
No final da sessão a que assisti apareceram alguns dos seus autores em palco: os autores do projecto, a família cuja mãe tinha cancro, e o cameraman que filmou um ciclista coreano que anda a dar a volta ao mundo. Claro que a mãe de família chorou, claro que a sala aplaudiu outra vez, encantada: onde o cinema se mistura com a realidade.
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el premio
(foto tirada daqui)
El Premio é um dos filmes da secção competitiva da Berlinale deste ano, uma co-produção de meio mundo (México, Alemanha, Polónia, França - pelo menos) (mais valia ser feito logo pelas Nações Unidas, sempre teria um genérico inicial mais curto) (mais valia ter sido financiado pelo Instituto do Cinema Argentino, como lhe competia, mas não, parece que continua a ser muito complicado olhar para trás) (talvez fosse boa ideia acabar os parêntesis e começar uma frase nova). Vá:
Conta a história de uma menina que vive escondida com a mãe numa cabana quase em ruínas, numa praia desesperada da Argentina. O pai foi feito prisioneiro político, a mãe e a filha vão-se arrastando por ali, e o filme arrasta-se também num registo de cor e luz tão estranhas que nos dá a impressão de ter sido feito a cinzento.
Na escola, a menina faz rapidamente amigos, e a vida parece normal - tão normal quanto é possível numa casa fria e demasiado próxima do mar - até ao dia em que um soldado visita a escola e pede aos alunos que façam uma redacção sobre o exército argentino. E mais não conto.
Este é o primeiro trabalho de Paula Markovitch, em parte autobiográfico, e foi muito aplaudido. É um filme tenso, que consegue mostrar com toda a crueza um momento da História da Argentina a partir do olhar puro e despido de uma criança.
Tive a sorte de ver a estreia, com todo o arraial subjacente: as actrizes nos seus belos vestidos (a morrer de frio, garanto que não entendo como é que elas fazem quase todas questão de mostrar as costas e os braços nus com temperaturas negativas e um vento terrível), a Paula Markovitch no seu sobretudo e gorro de cossaco que não tirou nem para subir ao palco, as meninas nos seus vestidinhos de princesa...
(foto tirada daqui)
Como aqui se conta, são feitas fotografias dos actores e realizadores de todos os filmes da competição. Antes da estreia, os cartazes são afixados à entrada da sala de cinema no Berlinale Palast, e autografados. O público já está na sala à espera que o filme comece, no écran aparecem imagens do que se passa lá fora. Foi muito engraçado ver o Dieter Kosslick a pegar na actriz principal, a pequenita vestida de princesa rica (a única que teve a inteligência de levar um casaquinho de pele, ou de pêlo, e luvas), para ela escrever o seu nome, muito aplicada, em cima da fotografia.
No fim da sessão, mal os actores e o realizador viram costas e abandonam o Berlinale Palast, os posters são levados para um andar superior, para dar lugar às estrelas do filme que se segue.
Oh, fama! - fugaz amiga.
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14 fevereiro 2011
offside
O primeiro filme que vi nesta Berlinale foi Offside, em homenagem ao seu realizador, que está preso numa cadeia iraniana. Para quem ainda não viu: uma delícia - e uma profunda declaração de amor ao povo iraniano.
O pessoal do cinema vinha vestido de verde, ou com uma tira verde-revolução ao pescoço, de onde pendia um retrato de Jafar Panahi. Assim:
(foto tirada daqui)
A Doris Dörrie apareceu com uma camisola verde de desporto, da Nike (ou seria Puma?). Não era bem o verde revolução iraniana, mas o que conta é a intenção e além disso foi muito engraçado ver essa famosa realizadora alemã de camisola de desporto no tapete vermelho do Berlinale Palast. Acho que só mesmo em Berlim...
Ao público ofereceram um pin de metal com o ursinho da Berlinale pintado de verde-revolução.
Não me serve para nada mas parece-me que é algo único, histórico, etc. - e agora não sei se o dê a algum amigo muito especial e para quem o pin tenha imenso significado, se o venda na e-bay, se o guarde numa das minhas caixas de tralha com imenso valor afectivo.
O filme já era conhecido deste público - recebeu o urso de prata em 2006. Mesmo assim, a sala estava à pinha. E como a sorte insiste em vir ter comigo, estava sentada na fila imediatamente atrás da zona dos actores e realizadores. Todos ali à minha frente, a conversar uns com os outros nas suas fatiotas de festa, e eu a perguntar ao vizinho do lado quem era este quem era aquele. O meu vizinho tinha trabalhado no Ministério da Cultura durante muitos anos, conhecia-os quase todos de quando lhe iam pedir subsídios.
À saída havia um poster que podíamos assinar para enviar mais tarde ao realizador. Assinei, tão nervosa por estar a participar num acto simbólico, que fiz uma assinatura toda escangalhada. Um dia destes aquele cartaz vai parar a um museu qualquer, e eu ali com aquela assinatura irreconhecível!
Triste vida.
A mensagem subliminar deste post, caso não tenham percebido, é esta: se não conhecem o filme Offside, não sabem o que estão a perder. Procurem no youtube, anda por lá.
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Berlinale x Cannes
Tradução da parte final de um texto de Eric Hansen:
Mais tarde, quando finalmente pude ir a Cannes, ao serviço do "The Hollywood Reporter", encontrei tudo tal e qual como tinha imaginado: as estrelas, a areia, o sol, as festas... estava tudo lá.
E mais ninguém.
Passados uns dias perguntei a um colega com mais experiência: "Onde estão os franceses?"
Resposta dele: "Mas os franceses podem entrar?"
Cannes é tão elitista como o rei-sol. Não há público: apenas profissionais e jornalistas.
É isso que Berlim tem, e Cannes não: os berlinenses.
***
Pequena nota à margem: a Berlinale vende cerca de 250.000 bilhetes.
Mais tarde, quando finalmente pude ir a Cannes, ao serviço do "The Hollywood Reporter", encontrei tudo tal e qual como tinha imaginado: as estrelas, a areia, o sol, as festas... estava tudo lá.
E mais ninguém.
Passados uns dias perguntei a um colega com mais experiência: "Onde estão os franceses?"
Resposta dele: "Mas os franceses podem entrar?"
Cannes é tão elitista como o rei-sol. Não há público: apenas profissionais e jornalistas.
É isso que Berlim tem, e Cannes não: os berlinenses.
***
Pequena nota à margem: a Berlinale vende cerca de 250.000 bilhetes.
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encontro de orquestras juvenis
Mais uma iniciativa da Filarmonia de Berlim na área do trabalho com a juventude: o décimo encontro de orquestras juvenis desta cidade. Foi ontem de manhã, e eu consegui duas dúzias de bilhetes gratuitos que distribuí pelos amigos. De modo que o meu domingo já começou bem: com um belo grupo de gente de quem gosto.
No início, apanhei um grande susto: anunciaram que Sir Simon Rattle não podia dirigir, porque estava doente com uma terrível gastroenterite (e eu a pensar: olha que estranho, os deuses também têm disso?!) e as primeiras duas orquestras tocaram como, enfim, orquestras escolares (e eu a pensar: ai!, que fiz eu aos meus amigos, que se levantaram mais cedo num domingo de manhã por recomendação minha, e afinal? depois disto nunca mais ninguém gosta de mim, vou acabar a morrer sozinha, nem as Finanças hão-de querer saber).
O meu destino foi salvo por Taner Akyol, compositor, cantor e músico turco que vive na Alemanha, que cantou "Göçmen" (expatriados) acompanhado pelo seu alaúde e pela orquestra. Uma combinação excelente e muito bem interpretada, mostrando bem como as diferenças culturais podem resultar num enriquecimento para todos, em vez de constituírem uma ameaça.
A partir daí, foi sempre a melhorar. A incrível qualidade da execução e da interpretação faria inveja a algumas orquestras profissionais, de tal modo que simplesmente me esqueci que estava a assistir a orquestras de teenagers que fazem música como hobby.
Na primeira parte do programa passaram pelo palco sete orquestras, a última das quais tocou uma peça composta pelo próprio grupo, a partir da suite para orquestra The Planets, de Gustav Holst. Tratava-se do projecto "orquestra criativa", que reuniu duas dúzias de instrumentalistas de várias escolas para, no decorrer de vários workshops de composição e improvisação, compor uma peça nova baseada no tema de uma existente.
Na segunda parte do programa uma orquestra de quase duzentos músicos interpretou magistralmente o Jupiter, the Bringer of Jollity, de The Planets. E, entre eles, esta ternura: um rapazinho que talvez nem tivesse dez anos, com uma cabeleira despenteada como Beethoven, dançando com o seu violoncelo a música que tocava.
Saímos da Filarmonia encantados, e ninguém sentiu a falta de Sir Simon Rattle.
No próximo ano há mais. Mais um ponto a acrescentar ao meu calendário berlinense.
***
Não sei se conte da vergonha que passámos por ter mudado de lugar no intervalo, convencidos que a sala ia ficar vazia já que o Simon Rattle não estava. Malandros! Ninguém se foi embora. Pouco antes de começar a segunda parte quiserem vir reocupar os seus lugares, e nós ali sentados com cara de "o quê? ainda cá está? porque é que não se foi embora?") - e isto nos lugares mais expostos da Filarmonia. Da próxima vez vou de burka, para ninguém reparar em mim.
No início, apanhei um grande susto: anunciaram que Sir Simon Rattle não podia dirigir, porque estava doente com uma terrível gastroenterite (e eu a pensar: olha que estranho, os deuses também têm disso?!) e as primeiras duas orquestras tocaram como, enfim, orquestras escolares (e eu a pensar: ai!, que fiz eu aos meus amigos, que se levantaram mais cedo num domingo de manhã por recomendação minha, e afinal? depois disto nunca mais ninguém gosta de mim, vou acabar a morrer sozinha, nem as Finanças hão-de querer saber).
O meu destino foi salvo por Taner Akyol, compositor, cantor e músico turco que vive na Alemanha, que cantou "Göçmen" (expatriados) acompanhado pelo seu alaúde e pela orquestra. Uma combinação excelente e muito bem interpretada, mostrando bem como as diferenças culturais podem resultar num enriquecimento para todos, em vez de constituírem uma ameaça.
A partir daí, foi sempre a melhorar. A incrível qualidade da execução e da interpretação faria inveja a algumas orquestras profissionais, de tal modo que simplesmente me esqueci que estava a assistir a orquestras de teenagers que fazem música como hobby.
Na primeira parte do programa passaram pelo palco sete orquestras, a última das quais tocou uma peça composta pelo próprio grupo, a partir da suite para orquestra The Planets, de Gustav Holst. Tratava-se do projecto "orquestra criativa", que reuniu duas dúzias de instrumentalistas de várias escolas para, no decorrer de vários workshops de composição e improvisação, compor uma peça nova baseada no tema de uma existente.
Na segunda parte do programa uma orquestra de quase duzentos músicos interpretou magistralmente o Jupiter, the Bringer of Jollity, de The Planets. E, entre eles, esta ternura: um rapazinho que talvez nem tivesse dez anos, com uma cabeleira despenteada como Beethoven, dançando com o seu violoncelo a música que tocava.
Saímos da Filarmonia encantados, e ninguém sentiu a falta de Sir Simon Rattle.
No próximo ano há mais. Mais um ponto a acrescentar ao meu calendário berlinense.
***
Não sei se conte da vergonha que passámos por ter mudado de lugar no intervalo, convencidos que a sala ia ficar vazia já que o Simon Rattle não estava. Malandros! Ninguém se foi embora. Pouco antes de começar a segunda parte quiserem vir reocupar os seus lugares, e nós ali sentados com cara de "o quê? ainda cá está? porque é que não se foi embora?") - e isto nos lugares mais expostos da Filarmonia. Da próxima vez vou de burka, para ninguém reparar em mim.
13 fevereiro 2011
nos dias 13 de Fevereiro sinto-me sempre muito feliz por não morar nos EUA
Véspera de São Valentim: fica tudo maluco.
13 de Fevereiro era o dia em que os meus filhos tinham de fazer cada um 30 cartões de São Valentim, e nem podiam recusar-se a escrever para aqueles de quem não gostavam, coitados!
Este Valentim saiu-me um santo muito promíscuo.
E estes americanos desvalorizam tudo: ele é um vê se te avias de oh great, oh gorgeous pelas coisas mais comezinhas, ele é um good job por insignificâncias, ele é um "I love you" obrigatório para 30 colegas da escola. Que inflação dos afectos! Quando gostarem mesmo, vão dizer o quê?
12 fevereiro 2011
na abertura da Berlinale 2011
Neste site podem ver um pouco da cerimónia de abertura da Berlinale deste ano, que se centra no realizador iraniano, Jafar Panihi, que está preso por seis anos e proibido de filmar por vinte.
Isto é Berlim: uma festa internacional com tanto glamour e improviso como uma festa paroquial...
O director da Berlinale, Dieter Kosslick, nem se preocupa em falar inglês - quanto mais bom inglês. Ontem ouvi-o dizer duas ou três frases, com os "th" todos ditos à maneira alemã, "z"... Ele próprio informou que os alemães o entendem perfeitamente quando fala inglês. A sala riu-se - por estes dias, andamos muito bem dispostos.
Mas o que conta é o espírito da festa - muito caloroso! - e a intenção. Ontem, na abertura, Isabella Rossellini leu uma carta aberta de Jafar Panahi. Tiveram a gentileza de ligar a Panahi, no Irão, para que ele pudesse ouvir a leitura e os aplausos que se seguiram. Antes da leitura, Dieter Kosslick referiu os riscos envolvidos nesta decisão, e pediu desculpa aos "amigos americanos". É para todos claro que depois disto não há qualquer esperança de conseguir que Panahi seja libertado para participar como júri nesta Berlinale. Nem nas da próxima década.
Aqui está o texto, em inglês:
The world of a filmmaker is marked by the interplay between reality and dreams. The filmmaker uses reality as his inspiration, paints it with the color of his imagination, and creates a film that is a projection of his hopes and dreams.
The reality is I have been kept from making films for the past five years and am now officially sentenced to be deprived of this right for another twenty years. But I know I will keep on turning my dreams into films in my imagination. I admit as a socially conscious filmmaker that I won’t be able to portray the daily problems and concerns of my people, but I won’t deny myself dreaming that after twenty years all the problems will be gone and I’ll be making films about the peace and prosperity in my country when I get a chance to do so again.
The reality is they have deprived me of thinking and writing for twenty years, but they can not keep me from dreaming that in twenty years inquisition and intimidation will be replaced by freedom and free thinking.
They have deprived me of seeing the world for twenty years. I hope that when I am free, I will be able to travel in a world without any geographic, ethnic, and ideological barriers, where people live together freely and peacefully regardless of their beliefs and convictions.
They have condemned me to twenty years of silence. Yet in my dreams, I scream for a time when we can tolerate each other, respect each other’s opinions, and live for each other.
Ultimately, the reality of my verdict is that I must spend six years in jail. I’ll live for the next six years hoping that my dreams will become reality. I wish my fellow filmmakers in every corner of the world would create such great films that by the time I leave the prison I will be inspired to continue to live in the world they have dreamed of in their films.
So from now on, and for the next twenty years, I’m forced to be silent. I’m forced not to be able to see, I’m forced not to be able to think, I’m forced not to be able to make films.
I submit to the reality of the captivity and the captors. I will look for the manifestation of my dreams in your films, hoping to find in them what I have been deprived of.
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11 fevereiro 2011
mais achegas para o coro dos escravos
Dizem-me que no ensino secundário em Portugal se está a substituir o francês pelo espanhol. Alemão, nem pensar. Latim e grego: para quê?
Admitindo que posso estar a ser injusta e a dar mostras de imensa ignorância, pergunto: o que é que a escolha de uma língua diz sobre a pessoa - e, já agora, sobre uma geração? Se eu fosse empregador, e tivesse dois candidatos com currículo semelhante - um que escolheu espanhol como segunda língua estrangeira, e outro que escolheu latim -, qual preferia?
Para conseguir um bom emprego, não basta estudar. E o caminho da escravatura é bem mais largo para aqueles que se especializam na lei do menor esforço.
Confesso que às vezes me pergunto se é normal e desejável que um rapaz de doze anos escolha uma escola a trinta quilómetros de casa para poder aprender latim e grego (três horas do dia gastas em transportes públicos) e estude violino às seis da manhã porque depois da escola não tem tempo. Se é normal e desejável que um rapaz de treze anos considere que participar em torneios de xadrez, tocar piano desde os cinco anos e escolher chinês como terceira língua estrangeira são pontos fundamentais do seu currículo, como prova de um perfil de disciplina, persistência, capacidade de concentração e prazer de aceitar desafios. Mas porque sei que há jovens assim - e não são poucos - espanta-me e lamento que em Portugal cada vez mais alunos prefiram o espanhol a uma língua que dá mais trabalho.
Os trabalhadores freelance (não estou a falar de recibos verdes, mas dos verdadeiros independentes, por exemplo: tradutores e intérpretes) costumam dizer "a concorrência não dorme". Este lema é um autêntico Abre-te Sésamo para a porta da escravatura: dado que a concorrência não dorme, todos aceitam trabalhos urgentíssimos que os obrigam a trabalhar aos fins-de-semana, trabalhos extensíssimos que os obrigam a trabalhar quase sem pausa para comer ou dormir. Todos esses sacrifícios para que o cliente não se lembre de ir pedir a outro, e de acabar por preferir o outro para trabalhos futuros.
A concorrência não dorme: bem me lembro do descontentamento de uma mãe russa que achava que a escola primária alemã estava a fazer definhar o cérebro da sua filha de seis anos. "Completamente subaproveitado!", queixava-se ela, "As minhas sobrinhas, na Rússia, não andam na escola a perder tempo desta maneira!". E os chineses da turma do meu filho: pequenos génios, todos eles. Ainda hoje ouvi na rádio que a percentagem de frequência do ensino superior é muito mais alta entre os filhos dos asiáticos residentes na Alemanha que entre os filhos dos alemães.
E não me venham com histórias de diferenças genéticas. Isto é simplesmente cultura de esforço, trabalho e disciplina.
Claro que agora podemos falar do fenómeno de suicídio infantil no Japão. E dos programas de alfabetização para crianças que ainda não nasceram. Mas Portugal ainda não chegou a esse ponto, parece-me. E não corre grande risco de chegar lá nos próximos anos.
Admitindo que posso estar a ser injusta e a dar mostras de imensa ignorância, pergunto: o que é que a escolha de uma língua diz sobre a pessoa - e, já agora, sobre uma geração? Se eu fosse empregador, e tivesse dois candidatos com currículo semelhante - um que escolheu espanhol como segunda língua estrangeira, e outro que escolheu latim -, qual preferia?
Para conseguir um bom emprego, não basta estudar. E o caminho da escravatura é bem mais largo para aqueles que se especializam na lei do menor esforço.
Confesso que às vezes me pergunto se é normal e desejável que um rapaz de doze anos escolha uma escola a trinta quilómetros de casa para poder aprender latim e grego (três horas do dia gastas em transportes públicos) e estude violino às seis da manhã porque depois da escola não tem tempo. Se é normal e desejável que um rapaz de treze anos considere que participar em torneios de xadrez, tocar piano desde os cinco anos e escolher chinês como terceira língua estrangeira são pontos fundamentais do seu currículo, como prova de um perfil de disciplina, persistência, capacidade de concentração e prazer de aceitar desafios. Mas porque sei que há jovens assim - e não são poucos - espanta-me e lamento que em Portugal cada vez mais alunos prefiram o espanhol a uma língua que dá mais trabalho.
Os trabalhadores freelance (não estou a falar de recibos verdes, mas dos verdadeiros independentes, por exemplo: tradutores e intérpretes) costumam dizer "a concorrência não dorme". Este lema é um autêntico Abre-te Sésamo para a porta da escravatura: dado que a concorrência não dorme, todos aceitam trabalhos urgentíssimos que os obrigam a trabalhar aos fins-de-semana, trabalhos extensíssimos que os obrigam a trabalhar quase sem pausa para comer ou dormir. Todos esses sacrifícios para que o cliente não se lembre de ir pedir a outro, e de acabar por preferir o outro para trabalhos futuros.
A concorrência não dorme: bem me lembro do descontentamento de uma mãe russa que achava que a escola primária alemã estava a fazer definhar o cérebro da sua filha de seis anos. "Completamente subaproveitado!", queixava-se ela, "As minhas sobrinhas, na Rússia, não andam na escola a perder tempo desta maneira!". E os chineses da turma do meu filho: pequenos génios, todos eles. Ainda hoje ouvi na rádio que a percentagem de frequência do ensino superior é muito mais alta entre os filhos dos asiáticos residentes na Alemanha que entre os filhos dos alemães.
E não me venham com histórias de diferenças genéticas. Isto é simplesmente cultura de esforço, trabalho e disciplina.
Claro que agora podemos falar do fenómeno de suicídio infantil no Japão. E dos programas de alfabetização para crianças que ainda não nasceram. Mas Portugal ainda não chegou a esse ponto, parece-me. E não corre grande risco de chegar lá nos próximos anos.
felizmente são apenas 10 dias por ano...
Ontem estive a combinar com o Joachim os filmes que vamos ver na próxima semana. Dois ou três, que também é preciso trabalhar nos intervalos, pronto, assunto encerrado, não se fala mais nisso.
Mas hoje vi este post do sound + vision, chamando "magnífico" ao Tomboy - que estava na minha lista, mas do qual desistira, porque entre quatrocentos...
E lá vou eu outra vez.
Socorro! A minha vida não é isto!
Mas hoje vi este post do sound + vision, chamando "magnífico" ao Tomboy - que estava na minha lista, mas do qual desistira, porque entre quatrocentos...
E lá vou eu outra vez.
Socorro! A minha vida não é isto!
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10 fevereiro 2011
esta Berlim é uma cidade de malucos, mas as pessoas parece que não se importam
De erro em erro, vou aprendendo: só se pode comprar bilhetes para filmes da Berlinale com três dias de antecedência (quatro, se forem repetições dos filmes que vão a concurso). Com excepções: todos os filmes que passam no Friedrichstadtpalast e os das secções "cinema e culinária" e "Berlinale goes Kiez" podem ser comprados logo no primeiro dia.
Estão a ver isto? De um modo geral, se quiser ir ao cinema no sábado tenho de ir para a fila na quarta de manhã (as bilheteiras abrem às 10 horas); e se também quiser ir no domingo, tenho de voltar para a fila na quinta de manhã; e se quiser ir na segunda, etc. e assim sucessivamente. Se isto não é uma cidade de malucos! Quantos milhares de berlinenses perderão três ou quatro horas das suas manhãs durante a época deste festival, só para comprar os bilhetes?
Na minha estreia nas bilheteiras cheguei um pouco antes da hora de abertura, e já tinha centenas de pessoas à minha frente. Mas consegui ainda assim comprar bilhetes para a primeira exibição de Offside, que vai ser provavelmente um dos acontecimentos políticos mais importantes da Berlinale deste ano, porque o seu realizador, o iraniano Panahi, está preso por seis anos e proibido de filmar por vinte. Tenho a certeza que a Isabella Rossellini vai fazer um discurso a apelar aos governantes iranianos para que reconsiderem essa decisão. Panahi é um dos membros do júri desta Berlinale, e a sua cadeira ficará ostensivamente vazia.
Também consegui bilhetes para uma première na sexta, El Premio (um filme argentino que me promete), e para sábado comprei um que a Christina queria muito ver: Life in a Day. O que significa que vou fazer gazeta ao Swans do Hugo Vieira da Silva, por favor não contem a ninguém senão ainda me tiram o passaporte português.
Os bilhetes para "Cinema e Culinária", esses, já tinham esgotado nos primeiros minutos do primeiro dia de vendas. Que pena! Queria tanto ir ver o Jiro Dreams of Sushi, sobre o famoso mestre de sushi, Jiro Ono (famoso para mim desde o fim-de-semana passado, quando vi o nome dele no programa da Berlinale...), e comer a seguir os petiscos do Tim Raue. Ou o Toast, ou o También la Lluvia, ou o El Camino del Vino. De facto, queria ir a todos. Não admira que estes bilhetes esgotem logo nos primeiros minutos.
Hoje voltei ao suplício. Como queria comprar bilhetes para a première de Pina, do Wim Wenders, fui especialmente cedo - tipo: uma hora antes de abrir a bilheteira. Para deparar com centenas de pessoas à minha frente. Como se não bastasse, informaram-me que só podia comprar dois bilhetes para cada filme. No ano passado houve casos de açambarcadores que foram depois vender os bilhetes por 2000 euros na ebay, e por isso, para reduzir o risco de abuso, só vendem dois bilhetes a cada pessoa. Ora eu tinha andado a oferecer-me para comprar bilhetes para os amigos - sempre torna menos ridículo o tempo que perco naquela espera - e tinha encomendas para quatro. E só podia comprar dois.
Mas ainda faltava uma hora para começar a venda, ainda tinha uma hora para fazer networking naquela fila. A princípio foi difícil: todos de cara fechada, a mulher à minha frente estava com ar de "não me incomodem, não vêem que estou a ler o meu jornal?" e a atrás de mim fazia de conta que não estava ali. Valeu-me um idoso que queria comprar três bilhetes para o Pina, e não percebia nada daquilo. Fui-lhe explicando, tendo a sorte de dizer asneiras que obrigavam os outros a entrar na conversa para me corrigir, e a pouco e pouco o gelo foi derretendo. As pessoas guardaram os respectivos jornais e começaram a fazer gracinhas umas com as outras, a ser prestáveis, a combinar quem comprava bilhetes do Pina para quem. Quando começaram a passar os primeiros felizardos com bilhetes, quisemos saber a que horas tinham vindo para a fila. "Cinco da manhã", disse uma, "esperei na rua até à abertura do edifício, às sete". Se isto não é uma cidade de malucos! "Pior que na Filarmonia", comentei eu - e logo começou uma animada conversa sobre ruídos nos concertos da Filarmonia e o humor de Haydn na música. Sim: o idoso que não percebia nada de bilhetes da Berlinale sabia imenso de músicos e de música erudita. Por essa altura, já não estávamos em fila, mas em animada roda.
Fomos interrompidos por um dos funcionários que passou para dar algumas informações, e contou que a máquina do cartão bancário estava a fraquejar. "Óptimo!", disse eu, "isso aumenta as nossas hipóteses de conseguir um bilhete para o Pina, porque podemos pagar em dinheiro" - e desatámos todos a rir de Schadenfreude. Mas guardámos o lugar a uma velhinha enquanto ela ia levantar dinheiro a um banco. E guardámos a lugar a outra, espertalhona, que estava sentada no chão com um portátil aberto. Dissemos-lhe que se fosse sentar confortavelmente noutro sítio, e despedimo-nos até daí a uma hora. Ela foi, e voltou daí a pouco a contar que o Pina estava a esgotar.
Desatámos todos a preparar planos B, cada um com o nariz muito enfiado no programa.
Estão a ver isto? De um modo geral, se quiser ir ao cinema no sábado tenho de ir para a fila na quarta de manhã (as bilheteiras abrem às 10 horas); e se também quiser ir no domingo, tenho de voltar para a fila na quinta de manhã; e se quiser ir na segunda, etc. e assim sucessivamente. Se isto não é uma cidade de malucos! Quantos milhares de berlinenses perderão três ou quatro horas das suas manhãs durante a época deste festival, só para comprar os bilhetes?
Na minha estreia nas bilheteiras cheguei um pouco antes da hora de abertura, e já tinha centenas de pessoas à minha frente. Mas consegui ainda assim comprar bilhetes para a primeira exibição de Offside, que vai ser provavelmente um dos acontecimentos políticos mais importantes da Berlinale deste ano, porque o seu realizador, o iraniano Panahi, está preso por seis anos e proibido de filmar por vinte. Tenho a certeza que a Isabella Rossellini vai fazer um discurso a apelar aos governantes iranianos para que reconsiderem essa decisão. Panahi é um dos membros do júri desta Berlinale, e a sua cadeira ficará ostensivamente vazia.
Também consegui bilhetes para uma première na sexta, El Premio (um filme argentino que me promete), e para sábado comprei um que a Christina queria muito ver: Life in a Day. O que significa que vou fazer gazeta ao Swans do Hugo Vieira da Silva, por favor não contem a ninguém senão ainda me tiram o passaporte português.
Os bilhetes para "Cinema e Culinária", esses, já tinham esgotado nos primeiros minutos do primeiro dia de vendas. Que pena! Queria tanto ir ver o Jiro Dreams of Sushi, sobre o famoso mestre de sushi, Jiro Ono (famoso para mim desde o fim-de-semana passado, quando vi o nome dele no programa da Berlinale...), e comer a seguir os petiscos do Tim Raue. Ou o Toast, ou o También la Lluvia, ou o El Camino del Vino. De facto, queria ir a todos. Não admira que estes bilhetes esgotem logo nos primeiros minutos.
Hoje voltei ao suplício. Como queria comprar bilhetes para a première de Pina, do Wim Wenders, fui especialmente cedo - tipo: uma hora antes de abrir a bilheteira. Para deparar com centenas de pessoas à minha frente. Como se não bastasse, informaram-me que só podia comprar dois bilhetes para cada filme. No ano passado houve casos de açambarcadores que foram depois vender os bilhetes por 2000 euros na ebay, e por isso, para reduzir o risco de abuso, só vendem dois bilhetes a cada pessoa. Ora eu tinha andado a oferecer-me para comprar bilhetes para os amigos - sempre torna menos ridículo o tempo que perco naquela espera - e tinha encomendas para quatro. E só podia comprar dois.
Mas ainda faltava uma hora para começar a venda, ainda tinha uma hora para fazer networking naquela fila. A princípio foi difícil: todos de cara fechada, a mulher à minha frente estava com ar de "não me incomodem, não vêem que estou a ler o meu jornal?" e a atrás de mim fazia de conta que não estava ali. Valeu-me um idoso que queria comprar três bilhetes para o Pina, e não percebia nada daquilo. Fui-lhe explicando, tendo a sorte de dizer asneiras que obrigavam os outros a entrar na conversa para me corrigir, e a pouco e pouco o gelo foi derretendo. As pessoas guardaram os respectivos jornais e começaram a fazer gracinhas umas com as outras, a ser prestáveis, a combinar quem comprava bilhetes do Pina para quem. Quando começaram a passar os primeiros felizardos com bilhetes, quisemos saber a que horas tinham vindo para a fila. "Cinco da manhã", disse uma, "esperei na rua até à abertura do edifício, às sete". Se isto não é uma cidade de malucos! "Pior que na Filarmonia", comentei eu - e logo começou uma animada conversa sobre ruídos nos concertos da Filarmonia e o humor de Haydn na música. Sim: o idoso que não percebia nada de bilhetes da Berlinale sabia imenso de músicos e de música erudita. Por essa altura, já não estávamos em fila, mas em animada roda.
Fomos interrompidos por um dos funcionários que passou para dar algumas informações, e contou que a máquina do cartão bancário estava a fraquejar. "Óptimo!", disse eu, "isso aumenta as nossas hipóteses de conseguir um bilhete para o Pina, porque podemos pagar em dinheiro" - e desatámos todos a rir de Schadenfreude. Mas guardámos o lugar a uma velhinha enquanto ela ia levantar dinheiro a um banco. E guardámos a lugar a outra, espertalhona, que estava sentada no chão com um portátil aberto. Dissemos-lhe que se fosse sentar confortavelmente noutro sítio, e despedimo-nos até daí a uma hora. Ela foi, e voltou daí a pouco a contar que o Pina estava a esgotar.
Desatámos todos a preparar planos B, cada um com o nariz muito enfiado no programa.
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