20 fevereiro 2011

a acompanhar

Um blogue a acompanhar: protesto da geração à rasca.

Este post, por exemplo:

“É mais fácil lutar contra a ditadura do que contra a ditamole”

por Ana – Sábado, 19 de Fevereiro de 2011

É inacreditável o ódio que escorre pelas caixas de comentários das notícias relativas à manifestação marcada para dia 12 de Março, ódio pelas pessoas que querem continuar a lutar por este país. E é inacreditável o “tom” do especial informação da SIC – que é recorrentemente mencionado nestes comentários – “Geração à rasca” – que tenta passar a ideia de que os precários são todos uns meninos que querem é carros e telemóveis de última geração: “vícios de quem quer ser moderno e nem pensa na velhice” – como se o sistema de transportes públicos que temos permitisse a todos chegar ao emprego, e como se abdicando do telemóvel se resolvesse o problema do desemprego – deveríamos todos virar mórmones para fazer face à crise? Se passarmos a dormir numa tenda à porta do emprego e usamos pombos correio para comunicar, tudo ficará bem. Os recém-licenciados desempregados entrevistados vivem todos em casa de familiares. Gostava que tivessem procurado os licenciados que saíram de casa dos pais e que estão a trabalhar precariamente e a partilhar apartamentos com mais 5 ou 6 pessoas. Nem todos podem ficar em casa dos pais, mas ninguém se lembra desses.

O jornalista pergunta ao pai de um licenciado em cinema há 7 meses, que vive em casa dos pais: “Então? Não está farto deste filme? Pagaram os estudos ao menino e agora têm o menino a viver cá em casa” – coitado do “menino”, neste país não lhe valeu estar licenciado há apenas 7 meses e já ter um prémio de realização português e um sérvio… devia era ir lavar sarjetas, para saber o que é a vida, em vez de contar com a ajuda dos pais mais 2 ou 3 anos, até um dia o ICAM se lembrar que há mais talento em Portugal para além da lista de 15 ou 20 nomes que vão todos os anos buscar para atribuir financiamentos… Segue-se uma comparação das vantagens de se ser mais velho e as desvantagens de se ser mais novo: reformas, saúde, acesso ao crédito. Esta história de tentar virar os pais contra os filhos e os filhos contra os pais mete mesmo nojo. Os vampiros não são os filhos, nem são os pais. São as empresas sem princípios, os abusos e a ganância generalizada.

Parece emergir a ideia de que estes jovens – que estão muito desiludidos porque as licenciaturas não lhes valeram um posto de trabalho – teriam feito uma aposta melhor se não tivessem procurado o ensino superior. Felizmente aparece o Reitor da Universidade de Coimbra, João Gabriel Silva, que lembra que “o desemprego é mais significativo entre os não licenciados”. – Pois é. Se os licenciados estão mal, os não licenciados estão bem na m… parece ser necessário lembrar também que a formação superior não serve só para ter um emprego, serve para a formação pessoal e para elevar o nível intelectual de um país. Como ficamos face ao resto do mundo? E falando em resto do mundo, sugere-se aos jovens recém-licenciados que vão para fora. Como se ir para fora não implique liquidez financeira, e esteja ao alcance de qualquer um.

Por fim aparece a crítica aos jovens “que não querem “sacrificar o sonho pelo possível” – querem mesmo convencer-nos que “isto” é o possível. E o “isto” não se esgota nos licenciados que não conseguem um emprego digno – nas áreas para as quais estudaram, ou noutras – “isto” chegou ao ponto a que chegou porque a maior parte do tecido empresarial português acha que a competitividade se consegue pagando o mínimo possível, escravizando pessoas com ordenados próximos ou por vezes abaixo dos ordenados mínimos. O que está mal é ser normal as empresas recorrerem a falsos recibos verdes e a estágios não remunerados para manter lucros obscenos e os ordenados e privilégios dos quadros superiores muito acima da média europeia. O que está mal é a corrupção e a exploração selvagem. Se não há trabalho na área para a qual os jovens estudaram, há-de haver noutra área qualquer, mas convém que paguem o trabalho, ou não? A competitividade consegue-se com um produto de qualidade, e isso não se consegue com empregados deprimidos que lutam para comprar comida no supermercado, nem com comboios de “estagiários” que se substituem uns aos outros sucessivamente, nunca ficando tempo suficiente para fazer o melhor pela empresa para a qual querem trabalhar. A verdade é que não os deixam trabalhar e os tratam abaixo de cão, porque há sempre outro estagiário que pode ficar com o lugar. O trabalho não será tão bom, mas serve para “tapar o buraco”. Não os deixam crescer como profissionais, e depois queixam-se da “falta de competitividade”.

Sou licenciada, estou nos quadros de uma empresa, e faço o que sempre quis fazer. Sou uma excepção. Mas não tenho a ilusão pretensiosa de que foi única e exclusivamente por lutar muito que consegui. Lutei muito, e sou boa no que faço, mas acima de tudo tive sorte. Antes disso fui muitos anos precária, e conheço profundamente a realidade. Aceitei trabalhos fora da área que me iam comprometendo para sempre o meu projecto de vida. Por isso, porque quero um futuro melhor para os meus filhos, e porque este é o meu País: vou à Manif. E tu?

3 comentários:

A. Castanho disse...

Ter "uma Licenciatura" não é nem nunca foi condição necessária nem sequer suficiente para se ter um emprego estável, bem pago e na área que o licenciado mais goste. Isso só foi (e ainda é quase) assim num número muito restrito de formações académicas de nível superior (as antigas Licenciaturas, agora Mestrados).


Quem vai a esta "manif" está a malhar "em ferro frio". Querer empregos de "doutor" só por que se é licenciado é querer viver numa Sociedade de pleno emprego por decreto.


Só há uma maneira de haver mais e melhor emprego em Portugal: é procurar menos empregos estáveis e criar mais negócios e empresas prósperas! Essa é que é a "manif" a fazer (dá mais trabalho, pois é...)! O resto é musiquinha de embalar os crédulos, tipo-fiéis da IURD...

Helena disse...

Vou citar, do post:
"O que está mal é ser normal as empresas recorrerem a falsos recibos verdes e a estágios não remunerados para manter lucros obscenos e os ordenados e privilégios dos quadros superiores muito acima da média europeia. O que está mal é a corrupção e a exploração selvagem. Se não há trabalho na área para a qual os jovens estudaram, há-de haver noutra área qualquer, mas convém que paguem o trabalho, ou não? "

Afinal, como é a realidade?
- Jovens licenciados mimados, que ou arranjam o emprego de sonho com o salário de sonho, ou não trabalham e vão para a rua protestar para que lhes ofereçam de mão beijada empregos de sonho e salários de sonho? Ou jovens licenciados fartos de fazer um estágio atrás do outro, sem nunca conseguirem um emprego estável porque quando se fartarem daquelas condições de trabalho outros haverá para fazerem o mesmo de graça ou por pouco dinheiro?
- Empresas que se aproveitam do sistema de estágios e recibos verdes para terem o trabalho feito com um mínimo de custos? Estas empresas vão à falência se pagarem um preço justo pelo trabalho?

E ainda niguém começou a falar disto, mas vai ser um problema: se as pessoas deste grupo etário com formação académica não arranjam um emprego decente, com impostos e descontos decentes, quem vai pagar a nossa reforma?

O melhor é não cuspirmos para o ar, porque este fenómeno vai-nos arrastar a todos para o fundo. Muitos dos melhores estão a sair do país, e desta vez não tencionarão mandar as benditas remessas de emigrantes.
A quem é que o país vai poder recorrer para se reinventar?

O que vai acontecer à taxa de natalidade (= quem paga a tua reforma?) se este grupo etário não pode ter filhos porque não tem condições para os criar?

A. Castanho disse...

Há um pouco de tudo e também muita confusão - alguma propositada - nesta discussão.


Os jovens de hoje devem saber bem o que querem, antes de quererem começar a demolir o que as gerações anteriores construíram.


Os bons empregos não nascem nas árvores, é bom que alguém os informe disso. Claro que existem demasiadas situações de bons empregos que nasceram em "arbustos", o que inquina bastante a discussão (refiro-me aos abusos, alguns intoleráveis, sobretudo os que decorrem do nepotismo e da corrupção - mas disso há a todos os níveis sociais!), mas não se pode decretar o pleno emprego. Pode-se e deve-se é tornar a Economia mais sã.


Eu estou convencido de que a solução terá de passar por três vectores de mudança:


1º) Refrear (gradualmente, claro) as expectativas dos pensionistas e olhar mais pelos que estão no limiar da vida activa (à procura de primeiro emprego, de casa e de constituír família);

2º) Moderar os efeitos de uma excessiva internacionalização e desregulação da Economia, possibilitando a criação de Empresas e negócios rentáveis e estáveis aos níveis local (urbano e rural), regional e até nacional, o que realmente é cada vez mais difícil;

3º) Incentivar uma maior cultura de empreendedorismo e de menor "emprego-dependência", à semelhança do que acontecia no tempo dos nossos Pais e Avós.


Sem isso, partir montras de Bancos pode até libertar adrenalina, mas não resolverá nada de nada. Os jovens Deolindos e Deolindas que reflictam bem nisto. Senão, é melhor começarem desde já a preparar-se para o pior: é que a próxima geração pode não ser tão parva e, quando esta chegar à reforma, vai ser apontada como a culpada de todos os seus males de então! Fatal, como o Destino...