31 março 2009
"The Pope May Be Right"
O artigo pode ser lido aqui: The Washington Post.
Ou aqui mesmo:
The Pope May Be Right
By Edward C. Green
Sunday, March 29, 2009; Page A15
When Pope Benedict XVI commented this month that condom distribution isn't helping, and may be worsening, the spread of HIV/AIDS in Africa, he set off a firestorm of protest. Most non-Catholic commentary has been highly critical of the pope. A cartoon in the Philadelphia Inquirer, reprinted in The Post, showed the pope somewhat ghoulishly praising a throng of sick and dying Africans: "Blessed are the sick, for they have not used condoms."
Yet, in truth, current empirical evidence supports him.
We liberals who work in the fields of global HIV/AIDS and family planning take terrible professional risks if we side with the pope on a divisive topic such as this. The condom has become a symbol of freedom and -- along with contraception -- female emancipation, so those who question condom orthodoxy are accused of being against these causes. My comments are only about the question of condoms working to stem the spread of AIDS in Africa's generalized epidemics -- nowhere else.
In 2003, Norman Hearst and Sanny Chen of the University of California conducted a condom effectiveness study for the United Nations' AIDS program and found no evidence of condoms working as a primary HIV-prevention measure in Africa. UNAIDS quietly disowned the study. (The authors eventually managed to publish their findings in the quarterly Studies in Family Planning.) Since then, major articles in other peer-reviewed journals such as the Lancet, Science and BMJ have confirmed that condoms have not worked as a primary intervention in the population-wide epidemics of Africa. In a 2008 article in Science called "Reassessing HIV Prevention" 10 AIDS experts concluded that "consistent condom use has not reached a sufficiently high level, even after many years of widespread and often aggressive promotion, to produce a measurable slowing of new infections in the generalized epidemics of Sub-Saharan Africa."
Let me quickly add that condom promotion has worked in countries such as Thailand and Cambodia, where most HIV is transmitted through commercial sex and where it has been possible to enforce a 100 percent condom use policy in brothels (but not outside of them). In theory, condom promotions ought to work everywhere. And intuitively, some condom use ought to be better than no use. But that's not what the research in Africa shows.
Why not?
One reason is "risk compensation." That is, when people think they're made safe by using condoms at least some of the time, they actually engage in riskier sex.
Another factor is that people seldom use condoms in steady relationships because doing so would imply a lack of trust. (And if condom use rates go up, it's possible we are seeing an increase of casual or commercial sex.) However, it's those ongoing relationships that drive Africa's worst epidemics. In these, most HIV infections are found in general populations, not in high-risk groups such as sex workers, gay men or persons who inject drugs. And in significant proportions of African populations, people have two or more regular sex partners who overlap in time. In Botswana, which has one of the world's highest HIV rates, 43 percent of men and 17 percent of women surveyed had two or more regular sex partners in the previous year.
These ongoing multiple concurrent sex partnerships resemble a giant, invisible web of relationships through which HIV/AIDS spreads. A study in Malawi showed that even though the average number of sexual partners was only slightly over two, fully two-thirds of this population was interconnected through such networks of overlapping, ongoing relationships.
So what has worked in Africa? Strategies that break up these multiple and concurrent sexual networks -- or, in plain language, faithful mutual monogamy or at least reduction in numbers of partners, especially concurrent ones. "Closed" or faithful polygamy can work as well.
In Uganda's early, largely home-grown AIDS program, which began in 1986, the focus was on "Sticking to One Partner" or "Zero Grazing" (which meant remaining faithful within a polygamous marriage) and "Loving Faithfully." These simple messages worked. More recently, the two countries with the highest HIV infection rates, Swaziland and Botswana, have both launched campaigns that discourage people from having multiple and concurrent sexual partners.
Don't misunderstand me; I am not anti-condom. All people should have full access to condoms, and condoms should always be a backup strategy for those who will not or cannot remain in a mutually faithful relationship. This was a key point in a 2004 "consensus statement" published and endorsed by some 150 global AIDS experts, including representatives the United Nations, World Health Organization and World Bank. These experts also affirmed that for sexually active adults, the first priority should be to promote mutual fidelity. Moreover, liberals and conservatives agree that condoms cannot address challenges that remain critical in Africa such as cross-generational sex, gender inequality and an end to domestic violence, rape and sexual coercion.
Surely it's time to start providing more evidence-based AIDS prevention in Africa.
The writer is a senior research scientist at the Harvard School of Public Health
O caso Williamson ensinou-me que só devo falar na presença de uma wikipedia (pelo menos).
A entrada "Edward C. Green" traz complementos interessantes a este artigo.
Vão lá ler, para depois discutirmos uma questão interessante: a ciência, as ideologias e o politicamente correcto.
Também podemos falar sobre a reacção de alguns políticos, nomeadamente a decisão do governo espanhol de enviar, em resposta àquela entrevista, um carregamento de preservativos para África (espero que entretanto tenha lido a entrevista completa, e mande também alguns antiretrovirais para as comunidades de Santo Egídio darem às seropositivas grávidas, o que permitiria salvar a vida de algumas crianças).
Como vamos de diálogo entre os políticos e os cientistas?
****
Até ler este artigo, eu pensava que o Papa estaria a dizer que é um erro pensar que o preservativo é "a" solução na luta contra a sida, e que não podemos esquecer todos os outros elementos fundamentais para resolver este problema.
Agora, dou-me conta que ele pode ter juntado as duas afirmações na mesma frase:
- a ajuda tem de ser efectuada e vários níveis;
- a opção "preservativo" não se tem revelado eficaz.
Aquele "pelo contrário, até complicam", que eu interpretei como provocação desnecessária, pode afinal ser uma evidência científica que tem sido pouco divulgada por motivos ideológicos.
Assim sendo, isto não tinha nada a ver com moral, mas com ciência.
Ah, raposa velha, depois do caso Williamson aprendeu a pesquisar na internet melhor que nós...
30 março 2009
aimêdês quis
A Polícia veio, aimêdês quis que o autocarro estivesse em ordem, e que o condutor fosse uma condutora.
Nunca mais ninguém me diga que as mulheres não sabem conduzir. Aquela conduzia tão bem que ficámos com o seu contacto para todas as viagens futuras da escola.
O Mathematikum agradou-lhes de tal maneira, que mesmo após três horas e meia os miúdos não se queriam ir embora.
Aquilo não é matemática, é mais como descodificar magia.
Por exemplo: mostraram-nos um anel de Möbius em papel, e cortaram-no pelo meio. Pensávamos nós que íamos ficar com dois anéis de Möbius, mas ficou um...
...um quê, hã? experimentem, e depois digam.
Depois cortaram outro não pelo meio mas por uma linha que corresponderia a 1/3 da largura. Fascinante.
Na pousada de juventude havia uma instalação de karaoke. O grupo que tinha preparado a festa foi capaz de algo admirável: desistiu do seu projecto que custara dezenas de horas de trabalho, e deixou o pessoal divertir-se como mais apetecia. Karaoke com pais e filhos, e a professora a ganhar a todos em entusiasmo e animação. Foi um serão muito cheio de "quem diria" - quem diria que os meus pais sabem cantar isto, quem diria que a professora é assim descontraída, quem diria que...
Como as pessoas não se conheciam, e estavam curiosas para saber quem eram os pais de quem (disse-lhes que atentassem às distâncias: o filho de fulano seria o miúdo que se encontrasse sempre mais longe dele - mas reconheço que é um processo complicado), fizemos uma roda de apresentação: dizer o nome, o filho (ou os pais), e contar uma mentira sobre si próprio.
Rimos imenso com as invenções de cada um.
Dormi numa camarata com mais 8 mulheres, rejuvenesci uns 20 anos.
No domingo regressámos ao museu para fazer o tal passeio pela cidade com olhos de matemático, mas a nossa guia estava doente; em troca, ofereceram-se para desvendar connosco mais alguns truques de magia matemática. Bolas de sabão para explicar a construção do estádio olímpico de Munique, por exemplo.
Antes do regresso estava prevista uma ida à piscina. Alguns miúdos não queriam largar o museu. Ao fim de um total de 5 horas a brincar matemática, ainda tinham detalhes para explorar.
Acabaram por se deixar convencer, e aimêdês quis que entrassem na hora certa para apanhar dois ciclos de saltos da prancha. Adoraram o escorrega gigante, e entraram no autocarro mortos de cansaço.
O grupo encarregado de animar as viagens (6 horas para cada lado) fez um trabalho magnífico. Muita gargalhada, boa disposição - ninguém se queixou que a viagem tinha sido uma grande estopada, longe disso.
De cada vez que entrávamos no autocarro era preciso contar as pessoas. Sempre em português não tem graça, de modo que o chinês, o vietnamita e a croata tiveram oportunidade de cantar números na sua língua materna. Croata tem um som lindo. Chinês é incrivelmente rápido, o que, pensando bem, é lógico: se fosse como em alemão, einundzwanzig-zweiundzwanzig-dreiundzwanzig, nunca mais conseguiam acabar de contar a população toda.
Há uns meses, quando comecei a preparar a viagem e na turma se estava a desenvolver uma dinâmica anti-Mathematikum, fiz com eles uma aposta: quem vier e não gostar leva um presente. Na viagem de regresso falou-se disso. Eu tinha um presente para a melhor apreciação negativa e outro para quem melhor soubesse argumentar porque é que valeu a pena ir a Gießen. Choveu feed-back, e todo muito positivo.
Disseram que gostaram imenso do museu, das explicações que foram dadas sobre os objectos e a matemática, da piscina, da comida na pousada da juventude, de ver a professora a cantar karaoke, de descobrir que os pais também conseguem ter piada, da animação na viagem.
Também apreciaram a organização (era eu, hehehe, às tantas é bem verdade que os portugueses no estrangeiro trabalham de tal modo que ninguém os reconhece...), e deram-se conta que se criou na turma uma dinâmica de grupo muito positiva.
A crítica mais engraçada veio da irmã mais nova de um dos alunos:
"Gostei muito de estar em Giessen porque me senti muito orgulhosa da nossa cidade, Berlim, que é uma cidade muito bonita e cheia de espaços verdes. Contudo, não devíamos ser maldosos, porque os pobres habitantes de Giessen não têm a possibilidade de criar tantos espaços verdes na cidade."
***
Moral da estória:
27 março 2009
quem corre por gosto...

Há uns meses, fiz na turma do Matthias a proposta de irmos todos, pais e filhos, a um museu da Matemática fantástico que há em Gießen, a escassos 500 km de Berlim.
Uns aplaudiram freneticamente, outros acharam um disparate.
O resultado é que me puseram a mim a tratar de tudo, e amanhã lá vamos de autocarro, vinte e um alunos e quinze adultos, rumo a uma visita de quatro horas num museu "hands on", agarrar para perceber.
Perceber, percebo eu agora no que me meti:
Um dos pais vai enviar uma patrulha de trânsito para inspeccionar o autocarro antes da nossa saída. A professora exigiu que os pais assinassem todos uma folha a informar se o filho sabe nadar (e que grau) e a autorizar que ande a brincar numa piscina. Os alunos não querem os pais na festa de saturday night fever (disse-lhes que os pais não são tão sem graça como eles pensam, mas tenho cá uma intuição que não ficaram muito convencidos). A direcção da piscina recusa-se a delimitar uma área para este grupo poder fazer alguns jogos, e diz que só podemos ficar lá duas horas (parece que toda a gente da cidade gosta de frequentar aquela piscina).
E o melhor é nem falar no albergue de juventude, que me obrigou a enviar um plano sobre como tencionava distribuir as pessoas pelos quartos postos à nossa disposição, e queria saber a data de nascimento de toda a gente. Ele há alemães que se conseguem sublimar.
Já fui várias vezes à escola por causa deste projecto.
Primeiro, para despertar a curiosidade dos alunos, que andavam a resmungar "então temos cinco horas de matemática por semana e ainda temos de gramar com mais matemática ao sábado e ao domingo?"
Depois, dar algum apoio aos três grupos que se formaram para preparar o acontecimento (o da animação no autocarro, o da piscina, e o da festa no sábado à noite - estes disseram-me que gastaram 29 horas a escolher músicas para dançar, e até telefonaram às raparigas para lhes perguntar a opinião, é tão bonito ter 12 anos).
E ainda tenho de preparar um concurso de perguntas difíceis para a viagem, e um "rallye do museu".
De modo que agora estou assim: aimêdês, e se a Polícia não deixar sair o autocarro? aimêdês, e se a viagem for uma estopada? aimêdês, e se eles se cansarem do museu ao fim de duas horas? aimêdês, e como vai ser a festa se eles não querem lá os pais? aimêdês, e se a piscina está cheia demais? aimêdês, e se não acharem graça nenhuma à visita da cidade, guiada por alguém do museu que fará uma abordagem matemática do que se vê?
Se aimêdês quiser, lá para segunda-feira conto como sobrevivi.
(foto tirada daqui)
revista da imprensa alemã
No dia da entrevista do Papa, durante o voo para África, houve aqui um certo rebuliço. Deu-se algum relevo à crítica do preservativo como solução para combater a sida, mas falou-se também das propostas e do empenhamento da Igreja nesta luta.
No dia seguinte vários jornais diários publicaram a frase completa, e informaram que a interpretação divulgada no dia anterior se baseara numa afirmação arrancada ao seu contexto.
O Spiegel online deu durante dois dias destaque a vários artigos que criticavam a primeira versão da afirmação do Papa, mas depois retirou-os (deixando-os apenas nos arquivos) e fechou o acesso à respectiva caixa de comentários.
As edições das revistas e do semanário mais importantes (Spiegel, Stern, die Zeit) publicadas depois do início dessa viagem não trazem qualquer artigo sobre ela, ou sobre a entrevista (o escândalo! o escândalo!) inicial.
Encontrei apenas um pequeno artigo de opinião no jornal Die Zeit:
Decepção
Somos todos Papa? Não, não somos. O Papa decepcionou-nos. Por motivos que não compreendemos e, sobretudo, nunca aceitaremos, ele mostrou-se benevolente em relação a uma seita extremamente conservadora o possivelmente anti-semita. O "nosso homem" na catedral de São Pedro? Isso já foi.
Talvez seja bom que seja assim. O Papa não pertence apenas a um povo, pertence a todos, inclusivamente aos africanos que não terão tomado conhecimento do que se passa com a Congregação São Pio X mas provavelmente compreendem melhor do que nós as suas convicções e a sua visão do mundo.
E compreendem o Papa, que infelizmente já não é o nosso Papa. Eventualmente não nos compreendem a nós, e se soubessem que estamos contra o Papa deles ainda nos compreenderiam menos.
Diz-me uma jornalista que a sociedade alemã já se fartou do tema "Papa". Após o caso Williamson, profundamente chocante para esta sociedade, instalou-se uma espécie de torpor e indiferença.
***
Se não tivesse sido o Público a fazer informação séria (infelizmente isto não é um pleonasmo), eu teria tido apenas acesso a um escândalo-que-não-era-escândalo.
Ao António Marujo cabe um público agradecimento pelo modo como "acompanhou" a visita do Papa, chamando a atenção para o que nela foi realmente importante.
Nomeadamente aqui e aqui.
***
Lamento que os jornais alemães não tenham agarrado nas frases iniciais da entrevista do Papa, aquelas onde ele refere a necessidade de uma economia ética.
Faço uns biscates numa das muitas lojas que existem na Alemanha, organizadas por cristãos, para comercializar produtos provenientes do Terceiro Mundo.
Há dez anos que a minha "loja de boa consciência", mantida pelo empenhamento de mais de 20 voluntários, vende café, chocolate, açúcar, especiarias, frutos secos, vinhos e trabalhos de artesanato provenientes de iniciativas cujo objectivo mais importante é o "empowerment" das populações mais pobres deste mundo, especialmente das mulheres.
Tinha-me dado muito jeito que a imprensa alemã falasse das implicações da economia ética, e a nossa loja se enchesse de pessoas dispostas a pagar uns 30% mais pelo chá rooibos, pelo vinho (Stella Organics - um projecto admirável), pelas misturas de ervas aromáticas africanas, pelos corações em pedra-sabão que já não posso ver, etc.
Pessoas realmente preocupadas com as condições de vida dos africanos, para as quais o Papa quis chamar a atenção.
26 março 2009
"coisas de quem crê"
parece que desta vez é a mim que cabe fazer o papel de advogado do diabo. Coitado do bicho, com advogado do meu quilate não irá longe, mas quem faz o que pode...
Infelizmente não partilho o seu optimismo sobre a independência dos Estados laicos.
Se o Estado é a Nação politicamente organizada, dificilmente se poderá proteger da influência da Religião da maioria.
Estas coisas andam demasiado misturadas.
Sim, é verdade que os católicos não estão muito preocupados com o que diz o rabino. Excepto os católicos que moram em Israel. Ou, talvez, os que moram em Nova Iorque.
Aqui na Alemanha, há grande preocupação sobre o que dizem certos líderes religiosos muçulmanos, e até já se pensou em obrigar a falar alemão nas mesquitas. Não é propriamente para os muçulmanos se integrarem, mas para o Estado controlar melhor o que é que algumas pessoas dessa Religião andam a pregar, não se vá dar o caso de andarem a minar o Estado de Direito em estrangeirês...
Parece-me que, se os não-católicos exigem tanto a "modernização" da Igreja Católica Apostólica Romana, é porque esta está implantada no seio da sociedade e condiciona as escolhas do tal Estado dito laico.
Por exemplo: se os párocos dizem "a homossexualidade é um erro da natureza, e por isso os homossexuais, coitados, o Senhor tenha piedade deles, são chamados a praticar a castidade", o Governo do Estado laico terá uma acrescida dificuldade em fazer passar contra a vontade do Povo leis que protejam a dignidade dessa minoria.
Outro exemplo: algumas homilias nos domingos de eleições.
Eu, por causa das coisas, até estava capaz de sugerir que fizessem as eleições ao sábado, e que o discurso dos representantes da Igreja fosse analisado do ponto de vista do respeito pelos direitos fundamentais constitucionais.
Porque um Estado laico tem o dever de se proteger.
Voltando à questão do preservativo e da moral sexual dos católicos: não vejo problema no facto de o Papa dizer "em vez de confiar no preservativo, tratai é de viver uma vida sem pecado". Ninguém tem de se meter nessa conversa entre o pastor e o seu rebanho.
O problema é se pessoas com responsabilidades na Sociedade impõem a esta os seus valores de índole religiosa. Imagino por exemplo um ministro da Educação que recuse a instalação de distribuidores gratuitos de preservativos nas escolas, porque entende que isso é um convite à promiscuidade (isto sou eu a inventar), o director de uma empresa a escolher para determinada função uma pessoa casada em vez de um homossexual que "vive em pecado", o gerente de um banco a negar crédito a empresas produtoras de armas...
É verdade que só é católico quem quer.
Mas não será que nos países de maioria católica se acaba por impor às minorias, ou a membros delas, aquilo que o Vaticano prega?
***
Obviamente, tudo isto é muito mais complexo.
Primeiro, porque basta ver a quantidade de preservativos e anticoncepcionais que se vendem em Portugal para perceber que este famoso povo católico faz o que muito bem entende em termos de sexualidade, e não parece minimamente preocupado com os preceitos apontados pela Humanum Vitae. O poder do Vaticano está muito longe de ser ilimitado.
Segundo, porque o clero e o próprio Vaticano estão a ser pressionados por movimentos ultra-conservadores surgidos na base desta Igreja, que exigem um endurecimento das regras e uma viragem à extrema-direita. O Concílio Vaticano II já viu tempos mais animadores, e o que dá cabo de muitas ideias feitas é que esse movimento de contra-reforma venha justamente das bases. Do povo.
a realidade e a ficção
- Isabela: O caso Josef Fritzl não me choca
- Bruno Sena Martins: Elizabeth Fritzl (act.)
***
Pergunto-me o que se passaria na cabeça das pessoas daquela família.
Por exemplo: porque é que a Elisabeth Fritzl não se deixou morrer de fome mal foi encarcerada? Que teimosa esperança a levou a optar por sobreviver naquelas condições? De onde lhe vinha essa incrível força para suportar o inimaginável?
De que é que nós somos capazes quando enfrentamos as condições mais desesperadamente adversas?
E Joseph Fritzl: como é possível ser inteiramente senhor do destino de várias pessoas escondidas numa cave e não pensar no futuro que lhes vai dar? Pensaria que após a sua morte elas seriam rapidamente descobertas e libertadas? Pura e simplesmente não pensava?
E também o abuso sexual quotidiano: de onde vem essa estranha confiança dos pedófilos, que os faz agir como se soubessem que nunca serão descobertos nem punidos?
25 março 2009
realidades paralelas
Contou-me depois que todos os participantes tinham crachats onde se lia "Freiherr von...", "Gräfin von und zu...", "Prinzessin...", "Baron von...", etc.
Uma pessoa não está a contar com isto na vida real mas, pelos vistos, eles existem, e eu até já fui convidada para um pequeno-almoço da casta. Uma vez só, diga-se de passagem - desconfio que alguma coisa terá corrido mal.
Fosse-me dada uma segunda oportunidade, e juro que não arregalaria tanto os olhos, não poria mais as orelhas em riste de parabólica perante aquele mundo tão completamente outro que transparecia pelas frases e pelos modos.
No domingo levei o meu filho ao Far East de Berlim, para um torneio de xadrez em Marzahn.
Marzahn é um bairro com uma fama terrível. A maior concentração de neonazis por cm², ao que se diz. No ano passado levei lá umas amigas portuguesas, que já estavam fartas de só ver coisas boas. Não ficaram muito impressionadas: aquilo que, aos olhos dos burgueses alemães, é uma no go area, seria o sonho da classe média portuguesa. Sim, se exceptuarmos o pormenor dos neonazis e assim, a qualidade urbanística é bem superior à de... calateboca, não nomeies bairro nenhum português, não vá algum empreiteiro ou presidente da Câmara sentir-se ofendido.
Por ser Marzahn, optei por levá-lo lá de carro (50 minutos a atravessar Berlim numa madrugada de domingo - não consigo deixar de me surpreender com o tamanho desta cidade) em vez de o deixar ir de transportes públicos como habitualmente. E foi assim que pela primeira vez vi uma das salas de torneios onde ele passa tantos domingos enfiado. Às nove da manhã já só havia duas ou três moléculas de ar. O ambiente parecia-me deprimente: uma fila de mesas em cima da qual estavam os tabuleiros de xadrez e os relógios, cadeiras frente a frente. A maior parte dos participantes já tinha chegado: à excepção dos três rapazinhos da escola do meu filho, só se viam homens.
Fiquei com vontade de lhe perguntar: "isto é que te faz feliz?!"
Tenho de perder esse hábito.
Há vinte anos, recém-chegada à Alemanha, fiz a mesma pergunta a uma amiga que optara por ficar em casa a construir para a família um lar alegre, acolhedor e calmo, em vez de trabalhar ou tentar conciliar trabalho e família.
Verdade seja dita, ela não entendeu a pergunta.
E eu também não entendi quando, alguns anos mais tarde, me perguntaram porque é que eu insistia em ter filhos se o trabalho para mim era tão importante.
Esta sociedade está cheia de realidades paralelas.
24 março 2009
brevíssima aula de gramática para jornalistas
(...hoje)
A subordinação é o processo pelo qual duas orações se articulam, ficando uma (a subordinada) dependente de outra (a subordinante).
Quando uma subordinação exprime uma condição, não se pode omitir a oração condicionante e publicar a condicionada como se fosse uma afirmação independente, porque o sentido desta está dependente daquela.
Exemplo: se perguntarem a um cozinheiro famoso, o Alain Ducasse por hipótese, como equaciona a relação entre trabalho e talento para se obter sucesso na sua profissão, e ele responder
"Se não houver uma fortíssima componente de trabalho árduo e um enorme desejo de aprender, não é com talento que alguém se tornará um cozinheiro de sucesso: pelo contrário" (*)
é um erro gramatical grave cortar metade da frase e afirmar que, segundo Alain Ducasse, para se tornar um cozinheiro de sucesso não é preciso talento, e que este só atrapalha.
(*) Na realidade, a frase dele foi: "Para o sucesso é preciso 5% de talento e 95% de desejo de aprender e trabalho árduo" - Se bem me lembro, já um pintor famoso disse algo semelhante.
***
Se eu fosse o Vaticano, fazia um mega-processo contra todos os jornais que omitiram da frase do Papa a oração condicionante, e publicaram como afirmação independente apenas a condicionada. Obrigava os jornais a publicarem a frase completa, e a pagarem uma indemnização choruda - que eu, Vaticano, enviaria integralmente às comunidades católicas em África directamente envolvidas na luta contra a sida.
Rita,
Sim, eu sei que a Primavera já começou, mas esqueceram-se de transmitir essa informação ao andar superior.
O dia está escuro, cheio de vento e chuva furiosa misturada com neve.
Será que podes atrasar o teu regresso?
Eu aviso-te quando isto por aqui começar a clarear.
Adenda (às 14:30): podes voltar, o sol brilha e o céu está azul. A neve já derreteu.
Adenda (às 15:09): não venhas já, recomeçou a nevar. São três da tarde, e já acendi todas as luzes da casa.
Adenda (às 15:39): podes voltar, o sol brilha outra vez, o céu está azul, a neve já derreteu, não há vento. Apaguei todas as luzes da casa.
23 março 2009
e é que nem sequer vale a pena ir ao festival da canção 2009...
"There must be another way", cantado por duas israelitas: uma judia e uma árabe de confissão cristã.
Nem sei o que é que os outros cantores vão fazer a Moscovo...
22 março 2009
um dia da caça, outro do caçador

que não nos falte o pão
21 março 2009
a célebre entrevista
Leiam, e digam-me se havia necessidade de fazer o escândalo que se fez a partir destas frases.
Reparem especialmente como começa a frase onde se refere a palavra maldita.
Começo a perguntar-me se os jornalistas agiram de má-fé, ou se pura e simplesmente não sabem ler.
(entrevista completa aqui)
D. – Santità, tra i molti mali che travagliano l’Africa, vi è anche e in particolare quello della diffusione dell’Aids. La posizione della Chiesa cattolica sul modo di lottare contro di esso viene spesso considerata non realistica e non efficace. Lei affronterà questo tema, durante il viaggio? Très Saint Père, Vous serait-il possible de répondre en français à cette question?
R. – Io direi il contrario: penso che la realtà più efficiente, più presente sul fronte della lotta contro l’Aids sia proprio la Chiesa cattolica, con i suoi movimenti, con le sue diverse realtà. Penso alla Comunità di Sant’Egidio che fa tanto, visibilmente e anche invisibilmente, per la lotta contro l’Aids, ai Camilliani, a tante altre cose, a tutte le Suore che sono a disposizione dei malati … Direi che non si può superare questo problema dell’Aids solo con soldi e con slogan pubblicitari. Se non c’è l’anima, se gli africani non aiutano (impegnando la responsabilità personale), non si può superarlo con la distribuzione di preservativi: al contrario, aumentano il problema. La soluzione può essere solo duplice: la prima, una umanizzazione della sessualità, cioè un rinnovo spirituale e umano che porti con sé un nuovo modo di comportarsi l’uno con l’altro; la seconda, una vera amicizia anche e soprattutto per le persone sofferenti, la disponibilità, anche con sacrifici, con rinunce personali, ad essere con i sofferenti. E questi sono i fattori che aiutano e che portano visibili progressi. Perciò, direi questa nostra duplice forza di rinnovare l’uomo interiormente, di dare forza spirituale e umana per un comportamento giusto nei confronti del proprio corpo e di quello dell’altro, e questa capacità di soffrire con i sofferenti, di rimanere presente nelle situazioni di prova. Mi sembra che questa sia la giusta risposta, e la Chiesa fa questo e così offre un contributo grandissimo ed importante. Ringraziamo tutti coloro che lo fanno.
o Papa em Angola
Pintaram-se as fachadas das casas - ou as traseiras, nos casos em que era essa a parte da casa que se via da rua.
Distribuiu-se água, para o Papa não ver pelas ruas pessoas com baldes de água à cabeça.
O clero, que "é esperto, e já é esperto há muitos anos", como me contaram a rir, resolveu que a missa solene havia de ser feita num dos bairros degradados da cidade.
À luz destes acontecimentos, atrevam-se agora a dizer que a presença da Igreja Católica em África não é positiva...
ainda os preservativos dos jornalistas
Quer dizer, os dias mais recentes - que, apesar de andar um Papa metido ao barulho, ainda não será sinal do fim dos tempos.
Copio para aqui um comentário que escrevi a esse post:
Gostava de acrescentar dois pontos:
- Uma das acusações mais ridículas e ignorantes que se fazem ao Papa é a de ele ser culpado pelo alastrar da SIDA em África.
Primeiro, porque quem lhe dá ouvidos e não usa preservativo, por maioria de razão lhe dá ouvidos e não pratica sexo promíscuo (que é o nome da coisa, quando a Igreja resolve pôr nomes aos bois - e quem não concorda com esta maneira de ver as coisas, pois fique à vontade para usar o preservativo sempre que lhe apetecer, que a saúde pública agradece).
Segundo, porque na luta contra a SIDA em África, a Igreja Católica tem uma presença fundamental e admirável. Talvez por isso mesmo, este escândalo do preservativo tenha criado tantas ondas na Europa e tão poucas em África: os que se debatem diariamente com esta tragédia sabem muito bem o que é que a Igreja realmente pensa e faz. Parafraseando um comentador: os africanos saberão olhar para o que a Igreja faz e não para o que [os jornalistas dizem que] o Papa diz, e por isso não se deixam incomodar muito com estas escaramuças europeias de ideólogos de sofá.
- Ainda não percebi em que língua é que o Papa falou, e não vi em lado algum um vídeo da entrevista, ou a transcrição fiel do que foi dito. Na notícia alemã que li, ele terá dito que o problema da SIDA em África não se deixa regular com preservativos. E que isso só agrava o problema.
Interpreto (porque confio na inteligência deste Papa) que "isso" não significa "usar preservativos" mas "acreditar no preservativo como *a* solução para regular o problema da SIDA em África".
Se resistirmos ao impulso pavloviano de desatar a salivar ao ouvir a palavra "preservativo", e se aproveitarmos para ir ver o que é que a Igreja Católica tem feito em África para tentar minorar o problema, damo-nos conta que o homem pode ter razão, e que isto não tem nada a ver com Moral.
Distribuir preservativos é um detalhe. Aliás: uma das maneiras mais cómodas de se ter a sensação de ter feito alguma coisa para lutar contra a SIDA em África.
Muito mais trabalhoso e complexo é lutar contra a pobreza que obriga as mulheres a cair na prostituição, fazer educação sexual, ajudar os doentes e as suas famílias, tratar mulheres seropositivas grávidas para impedir que a doença se transmita ao filho, pressionar e investigar para que África tenha acesso aos medicamentos a um preço acessível.
É isso que a Igreja Católica faz em África.
Mas os jornalistas que publicaram a entrevista ao Papa, onde ele contrapunha à solução "preservativos" a solução bem mais complexa do "despertar humano e espiritual" e do "auxílio aos que sofrem"
(e, desculpem, vou fazer um desenho: o Papa não escolhe entre preservativo e não-preservativo, mas entre preservativo e uma solução infinitamente mais complexa),
optaram por dar todo o destaque ao "não-preservativo".
E depois queixam-se que ninguém os respeita...
***
Uma última nota: várias pessoas têm referido o problema dos casais onde um deles é seropositivo. Deve ou não deve usar preservativo?
Não era disto que o Papa estava a falar, e não sei o que responderia sobre o caso concreto.
Dentro da Igreja Católica haverá os que dizem que esse casal tem de aceitar a provação e praticar abstinência. Outros - e entre eles até alguns Bispos - dariam ao casal todos os preservativos e informações disponíveis para lhe possibilitar uma vida sexual o mais possível plena e sem risco.
E uma primeira adenda (isto promete): esta semana ouvi de um padre críticas iradas à afirmação do Papa. Depois de muita discussão (é a primeira vez que me acontece defender um Papa dos ataques de um padre - este mundo está cada vez mais mudado, e eu, pelos vistos, também...) sobrou o argumento de que, para os machistas africanos, basta a frase "o preservativo não resolve o problema" para poderem dizer às mulheres que não usam preservativo porque até o Papa diz que isso não é solução. Hehehe, há homens que a sabem toda...
Aceitando que é assim mesmo, e que o que se publica sobre o que o Papa alegadamente disse tem consequências concretas na vida das pessoas: os jornalistas têm consciência da sua responsabilidade? Sabem o que estão a fazer, quando optam por produzir escândalos em vez de praticar informação?
No caso concreto, podiam ter escolhido entre dois títulos:
- Papa diz que preservativos não são a solução para o problema da SIDA
- Papa diz que a solução do problema da SIDA exige um despertar humano e espiritual
Porque é que escolheram um em vez do outro?
20 março 2009
pausa para o café
(Gosto especialmente da cara do Obama depois da pergunta "do they throw the game?")
19 março 2009
o problema da SIDA em África não fica resolvido com a distribuição de preservativos
1.
(deste site, via Jardim de Luz)
Igreja e SIDA em África
Em 2004, a Santa Sé apresentou a Fundação “O Bom Samaritano”, uma espécie de Fundo Global da Igreja Católica que tem como objectivo ajudar economicamente os doentes mais necessitados, de modo particular os contagiados pelo HIV.
O esforço da Igreja Católica concentra-se na capacitação de profissionais da saúde, prevenção, cuidado, assistência e acompanhamento quer dos doentes quer dos seus familiares.
Dados do ONUSIDA mostram que mais de um quarto de todas as instituições ligadas ao tratamento dos doentes de SIDA são iniciativa da Igreja Católica, sobretudo nos países mais pobres.
Os religiosos e religiosas da Igreja Católica são responsáveis pelos cuidados e a assistência a 27% dos doentes de SIDA em todo o mundo, uma resposta que nem sempre é visível, obscurecida pela atenção quase exclusiva que se reservou à questão do preservativo.
Os institutos religiosos estão empenhados em várias frentes: tratamento médico, prevenção geral, prevenção da transmissão mãe-filho, cuidados dos órfãos e das famílias atingidas, assistência espiritual, educação sexual e, por fim a pesquisa, em especial para se encontrar uma vacina contra a doença.
A Igreja Católica está particularmente activa na África austral, onde a pandemia da SIDA alcançou a difusão de 30% na população entre 25 e 40 anos e onde houve uma queda da expectativa de vida de 60 para 35 anos.
Segundo a OMS, pelo menos 30% das infra-estruturas de saúde em África estão ligadas a instituições religiosas.
Um projecto: DREAM
A SIDA apresenta-se em África associada a outros problemas: a pobreza, a desnutrição, a tuberculose, a malária, o escasso nível de educação sanitária, só para citar alguns exemplos. Extirpar a infecção por HIV deste contexto, não é possível. É necessária uma maior admissão de responsabilidade: não só e não tanto em relação à doença, a SIDA, mas sobretudo, em relação ao sistema sanitário, o africano.
A luta contra a SIDA, nessa perspectiva, pode tornar-se no banco de prova de uma globalização mais responsável, mais humana, de um empenho em contracorrente em relação ao crescente desinteresse internacional para com a África.
A Comunidade católica de Santo Egídio entendeu responder elaborando e promovendo o programa DREAM (Drug Resource Enhancement against AIDS and Malnutrition), contra a SIDA e a desnutrição.
DREAM representa a realização de um sonho (significado da palavra em inglês), uma abordagem diferente à SIDA que unisse prevenção e terapia, uma abordagem diferente a todo o universo sanitário africano, sem as correntes do pessimismo e da resignação.
Este programa de luta contra o HIV/SIDA em África permitiu assistir mais de 25 mil pacientes, para além de ter oferecido tratamento preventivo a mais de 20 mil adultos e crianças.
Os 19 centros presentes em seis países africanos, incluindo Moçambique e a Guiné-Bissau oferecem antiretrovirais, educação sanitária, testes de diagnóstico, suplementos nutricionais e o controlo e cura de infecções.
Activo desde 2002, o DREAM (Drug Resource Enhancement against AIDS and Malnutrition) está também presente em no Quénia, na Tanzânia, na Nigéria, na Guiné e no Malawi. O programa, totalmente gratuito, revelou-se um dos programas mais eficazes na prevenção e tratamento do HIV/SIDA nos países da África subsaariana.
97% das crianças que nasceram de mães seropositivas que beneficiaram do programa nasceram sãs e, depois de terem iniciado a terapia antiretroviral completa proposta por DREAM, mais de 90% dos adultos vivem bem e estão em condições de recomeçarem a trabalhar e a sustentar a própria família.
800 crianças por dia
Salvar da SIDA 800 crianças por dia é o objectivo da última campanha global lançada pela Caritas, intitulada “HAART” (Highly Active Anti-Retroviral Therapy – terapia antiretroviral altamente activa), promovendo um maior acesso a testes e tratamento do HIV para os menores.
Com a campanha HAART (com um sonoridade semelhante à palavra coração - «heart» - em inglês), a organização católica para a solidariedade e a ajuda humanitária pede a governos e companhias farmacêuticas que desenvolvam tratamentos que podem salvar a vida de centenas de crianças, a cada dia que passa.
Em comunicado oficial, a Caritas recorda que as crianças nos países mais pobres não têm acesso a medicamentos pediátricos, que lhes poderiam permitir uma vida mais longa e saudável. Por outro lado, quando consegue ser testados, já é demasiado tarde, na maioria dos casos.
A organização católica lembra que muitas das crianças que morrem diariamente nem sequer teriam sido afectadas pelo HIV se as suas mães tivessem sido correctamente tratadas durante a gravidez.
A Caritas convida jovens de todo o mundo a unirem-se à campanha, pressionando os governos e companhias farmacêuticas.
Francesca Merico, delegada da “Caritas Internationalis” junto da ONU, em Genebra, diz que “sem tratamento adequado, mais de um terço das crianças nascidas com HIV irão morrer antes do seu primeiro aniversário e metade delas antes dos dois anos de idade”.
Esta responsável acusa as companhias farmacêuticas de não mostrarem interesse nos tratamentos antiretrovirais para crianças porque estes se destinam, sobretudo, “aos países pobres”.
“Como é possível que o lucro se sobreponha às pessoas? Queremos que os líderes políticos digam às crianças do mundo que promoveram e respeitaram o seu direito à saúde”, conclui Francesca Merico.
Internacional Octávio Carmo 17/03/2009 13:59 5467 Caracteres 292 Bento XVI - Angola e Camarões
2.
De um relatório da U.S. Agency for International Development, que pode ser lido aqui (link encontrado num comentário no Jugular), sobre as acções de combate à SIDA no Uganda :
(...)
6. Condom social marketing has played a key but evidently not the major role: Condom promotion was not an especially dominant element in Uganda’s earlier response to AIDS, certainly compared to several other countries in eastern and southern Africa. In Demographic Health Surveys, ever-use of condoms as reported by women increased from 1 percent in 1989, to 6 percent in 1995 and 16 percent in 2000. Male ever-use of condoms was 16 percent in 1995 and 40 percent in 2000. Nearly all of the decline in HIV incidence (and much of the decline in prevalence) had already occurred by 1995 and, furthermore, modeling suggests that very high levels of consistent condom use would be necessary to achieve significant reductions of prevalence in a generalized-level epidemic. Therefore, it seems unlikely that such levels of condom ever-use in Uganda (let alone consistent use, which was presumably much lower) could have played a major role in HIV reduction at the national level, in the earlier years. However, in more recent years, increased condom use has arguably contributed to the continuing decline in prevalence.
(...)
8. The most important determinant of the reduction in HIV incidence in Uganda appears to be a decrease in multiple sexual partnerships and networks: In general, Ugandans now have considerably fewer non-regular sex partners across all ages. Population-level sexual behavior, including the proportion of people reporting more than one sexual partner, in Kenya (1998), Zambia (1996), and Malawi (1996), for example, appear comparable to those reported in Uganda in 1988-89. In comparison with men in these countries, Ugandan males in 1995 were less likely to have ever had sex (in the 15-19-year-old range), more likely to be married and keep sex within the marriage, and less likely to have multiple partners, particularly if never married.
17 março 2009
e já que estou a falar tanto em cadeiras...
Era óbvio que ia morrer a Portugal. Não tinha força para andar, praticamente era levado em braços pelas mulheres.
Pediram se ele podia ficar ali à frente, porque o lugar deles era demasiado longe.
A hospedeira foi inflexível: comprou economy, voa economy.
Eu podia ter dado o meu lugar, mas queria tanto ver como é voar em business...
Naquela indecisão, troco ou não?, enchi-me de vergonha antecipada da figura que ia fazer, muito corada de embaraço, a dizer à hospedeira que trocava com ele, a pegar na minha bagagem de mão, a avançar pelo corredor seguida por todos os olhares.
Fiquei calada e fiz de conta que não estava ali, enquanto as duas mulheres o arrastavam pelo corredor adiante até ao fundo do avião.
Foi há quase vinte anos, e não consigo esquecer. É um dos poucos episódios da minha vida que me levam a querer poder voltar atrás no tempo para o desfazer.
"o Ministro, a Cadeira, a Jornalista e a Fumaça" (2)
(refiro-me ao verdadeiro caso da cadeira, a cadeira-o-que-se-chama-cadeira, nada de confusões com outros episódios passados, de somenos importância)
Pode ser lido, como é óbvio, no Boas Intenções, mas não resisto a copiá-lo para aqui.
dos jornalistas, dos blogues e das comitivas
Na escola de lavores, um blogue que eu até leio e de que até gosto todos os quinze dias, uma jornalista acusa o Ministro da Administraçao Interna de alguma prepotência contrária à boa educação. Nesse mesmo post, o ministro responde-lhe e várias pessoas se juntam à conversa, entre outros jornalistas, na sua maioria com histórias distintas, anónimos (esses malfeitores) e um senhor que não para de brandir o seu cartão de militante do PSD, um conhecido garante de credibilidade.
Sobre o caso ocorrem-me dizer tantas coisas que as quero separar por pontos:
1) Quando os jornalistas chegaram à blogosfera, chegaram como se o facto de serem jornalistas os tornasse bloggers de especial categoria e como se o manto de credibilidade que detêm enquanto portadores de uma carteira profissional devesse ser extensível aos mesmos jornalistas quando escrevem blogues. Ora isto não é verdade porque 1) nos blogues a legitimidade e a credibilidade estao sujeitos a outros parâmetros de validaçao, 2) o que os jornalistas escrevem nos blogues raramente são peças jornalísticas, o que evidentemente nada tem de grave ou negativo e 3) nos blogues, ao contrário do jornalismo, eles não sao obrigados a nenhum dos procedimentos que a deontologia lhes prescreve (como confirmar as fontes ou, neste caso, contactar o visado para declarações). Assim, um jornalista nao é para a blogosfera mais do que um médico ou um pedreiro. O que nao é pouco, é muito. Mas é outro jogo, com outras regras.
2) Os comentários anónimos nos blogues têm o valor que lhes atribui o bloguer que decidiu permitir a sua existência. Se eu sou da opiniao que é uma cobardia pouco credível deixar comentários anónimos, devo proibi-los no meu blogue, se acho que eles devem ser permitidos por um determinado número de razões, devo respeitá-los. Permitir uma forma de participaçao no meu blogue que depois me dou ao luxo de desprezar é que não funciona. A blogosfera é um diálogo do qual, como bloggers, controlamos as regras. Os leitores podem escolher ler-nos, comentar-nos ou ignorar-nos e até aqui controlamos as regras.Mas quando escolhem comentar-nos, iniciam um diálogo connosco. Podemos ignorá-lo, mas nao nos devíamos dar ao luxo de desprezar pessoas que nos dão a importância que, para dizer a verdade, até nem temos. Os jornalistas não estao habituados a este mundo do diálogo em pé de igualdade e não é a primeira vez que os vejo reagir em corporação, como se quem os critica num blogue fosse automaticamente equiparado a um daqueles senhores que dizem mal da "comunicação social". O problema é aqui nao há a "comunicação social". Outras regras, outro jogo.
3) Se Obama usa blogues, o Facebook e Deus sabe mais o quê, o mundo espanta-se como uma criança e desfaz-se em ovações. Um ministro escreve um comentário num blogue sobre uma coisa que directamente lhe diz respeito, levando a sério uma esfera pública que efectivamente existe, e toda a blogosfera se ri dele. Que o ministro lê blogues (ridículo!), que se importa com o que dizem sobre ele (nao terá mais nada que fazer? vai combater o crime, malandro!) e que se achar errado escreve um comentário (nao devia antes emitir um comunicado de imprensa a desmentir para nos rirmos do exagero da reacção? nao valia mais ficar lá no seu pedestal, para disso o podermos acusar? que ridicularia é esta do diálogo?).
4) O melhor de tudo: pelo post e pelas suas caixas de comentários afora, recebemos as versões da história da jornalista, do ministro, dos seus assessores e de outros jornalistas. Não há duas versões da história que batam certo, embora existam duas bastante parecidas. O ministro sentiu-se obrigado a comentar e responder, a jornalista não se sente obrigada a clarificar a situaçao de forma clara, embora dê meio dito por não dito a um leitor que, ao contrário dos outros, lhe "merece uma resposta".
Nao gostava de ser jornalista e ter um blogue sobre a actualidade sobre a qual escrevo profissionalmente, acho que nao deve ser fácil e admiro alguns casos mais bem conseguidos dessa espargata. Mas se um jornalista escreve um blogue e nesse blogue não exerce jornalismo, passa a blogger. A coisa requer uma certa humildade e não dá para, ao menor sarrabulho, deixar a plebe para se irem refugiar outra vez no altar da classe.
5) Por último, resta a evidência de que fica por provar a utilidade de as comitivas políticas viajarem com uma comitiva jornalística correspondente. Nem o jornalismo nem a política ganham alguma coisa desta convivência forçada e desta co-dependência artificial. Isto é, nem o jornalismo, nem a política, nem os blogues.
Nem a propósito, a história acaba por ser clarificada só no Público, ao qual a jornalista conta a história de repente de uma forma diferente e já mais clara e coerente.
"o Ministro, a Cadeira, a Jornalista e a Fumaça" (1)
O mais provável é eu ter vivido demasiados anos no tempo do respeitinho, provavelmente é isso mesmo, ou então deram-me a beber chá em quantidades industriais, e eu nunca mais recuperei, sim, também pode ser, porque estive aqui a pensar com os meus botões e...
...imaginemos que o Presidente da República passava por Berlim, e calhava de me convidar para um jantar, e de me sentar à sua mesa. Imaginemos. Imaginemos que no fim do jantar, no momento de servir o café, entrava na sala alguém pertencente a uma, digamos, casta protocolar superior à minha. Sei lá, o Siza Vieira ou o Manoel de Oliveira, o Embaixador da China, o - como é que se diz? - Comandante nãoseiquê maior nãoseiquê das Forças Armadas, o Papa, o dono da empresa onde trabalho, ou até o Ministro da Economia.
Se eu visse essa pessoa à espera num canto da sala, algo - talvez o respeitinho, ou o trauma do chá - me obrigaria a oferecer imediatamente o meu lugar junto do Presidente.
Se não tivesse reparado nessa pessoa, e um empregado me viesse pedir para ceder o meu lugar, corava até à raíz dos cabelos - embaraçada por não ter reparado.
Para mim, é uma questão de ter noção do lugar que ocupo - nos vários sentidos da expressão.
Sim, é isso mesmo que estou a afirmar, e podem começar a bater: numa comitiva oficial, o lugar ao lado do Primeiro Ministro é muito mais que uma simples cadeira, e a regra de ocupação desse lugar não é first come first serve.
***
Durante a visita do Presidente da República a Berlim tive várias oportunidades de apreciar a confusão em todo o seu esplendor. Desde uma vergonhosa falta de profissionalismo no modo de abordar (abordar? que digo eu? assaltar!) os políticos, passando por técnicos a fazerem uma barulheira tal que impedia as pessoas de ouvir e participar num debate importante, até jornalistas todos excitados a produzir não-notícias enquanto nem se davam conta do que corria realmente mal.
16 março 2009
a ópera mais suja da minha vida
Theseus, de Haendel.
Só visto, e por isso levam esta espécie de trailer.
O palco em lama. Lama, lama, lama. Indescritível.
Durante uns cinco minutos chove lá dentro, porque ligam o sistema de combate a incêndios. Aquilo que mais se teme num teatro (que um técnico fume um cigarrito e accione inadvertidamente o sistema de irrigação), é feito lá de propósito.
Num dos lados do palco tem um letreiro luminoso para textos. Em vez de mudarem o cenário, mudam a palavra: campo de batalha, deserto, ilha, palácio.
Jogam bastante com câmaras e projecção de imagem - tem momentos geniais.
É verdade que já se experimenta isto há vinte anos, mas, que querem?, eu sou como o interessado: sempre o último a saber. Vi ontem pela primeira vez numa ópera barroca, e fiquei fascinada.
Uma interpretação muito divertida da ópera.
Estranhamente, a música dá-se às mil maravilhas com a encenação.
No intervalo, rimos imenso a comentar os pormenores,
"e quando Clizia se separa de Arcane e lhe espeta na cabeça o quadro do calendário Pirelli?",
"e quando Medea se vinga e lhes mete em casa uma família de turcos?",
"ah, e o que eu me ri quando Arcano convida o público a cantar em karaoke a sua bela ária",
"eu comecei a cantar, mas como estava sozinho, preferi continuar calado!"
Em alemão existe uma palavra para descrever algo maçador. Langweilig.
Lang-weilig - algo como "demora muito tempo".
O seu contrário é kurzweilig.
Kurz = breve.
São três horas e meia, e passaram num instante.
Escusado será dizer que os cantores são excelentes, apesar de sujeitos a tratantadas terríveis.
Por exemplo: há um momento em que Theseus canta deitado (deitada) num sofá, com as pernas no encosto e a cabeça quase no chão. Vai uma pessoa estudar descansadamente canto lírico, e acaba no cirque du soleil...
***
A Rita já me tinha dito que se tinha fartado de rir com a encenação do Neuenfels para a Flauta Mágica.
Tenho de estar mais atenta à Komische Oper de Berlim, parece-me que andei a perder belíssimos acontecimentos!
***
Em compensação, parece que no sábado passado, na Gulbenkian, soltaram passarinhos azuis para a Criação de Haydn...
Vivam os efeitos especiais!
12 março 2009
o Ratzinger dá-me cá uma trabalheira! (com adenda)

Passo a vida a tirá-lo de uma gaveta e a metê-lo noutra.
Agora está na gaveta dos "bem-mandados".
Eu não sugeri aqui há dias que lhe arranjassem um Magalhães? Pois é: lá saiu carta para os Bispos, a dizer que aceitou os meus conselhos.
Mal ele sabe que isto é apenas o princípio das confusões.
Não é fácil ser Papa em tempos de internet.
Não há como combinar o largo fôlego da Igreja com o ritmo e a profundidade de análise do twitter.
***
Adenda: quando escrevi ontem "profundidade de análise do twitter", pensei que os leitores compreenderiam a ironia. Pelo sim pelo não, acrescento que, em minha opinião, se há coisa que no twitter não existe é profundidade de análise. Em 140 palavras não há espaço para pesar argumentos, diferenciar. O twitter é um espaço para mandar bocas - o oposto absoluto do largo fôlego.
É fundamental que a Igreja se informe; mas é igualmente fundamental que não se distraia em combates imediatistas e mediáticos na internet.
já viram como o Jardim de Luz está lindo?
Mais vale fazer já, em vez de protelar como de costume.
(ando a fazer psicanálise às escondidas, como dizia a outra)
E agora, hehehe, aqui vai a 5ª frase da página 161 de um livro que ando a ler, hehehe:
"Der Empfang seinerseits war überaus herzlich, und der Eindruck seiner Person auf mich der Art, daß ich diesen Tag zu den glücklichsten meines Lebens rechne."
No livro "Weimar, ein Reisebegleiter", de Annette Seemann (a minha amiga que festejou o 50º aniversário no sábado passado, como já contei aqui).
A passagem é uma citação de Eckermann, onde ele descreve o seu primeiro encontro com Goethe. Diz que foi um dos dias mais felizes da sua vida. Na semana seguinte deve ter mudado de ideias, porque no entretanto Goethe também mudara: em vez de o animar como poeta, queria-o para secretário.
Eckermann está sepultado no cemitério histórico de Weimar, perto do mausoléu onde estão os dois grandes poetas (Goethe e Schiller, embora no caso do segundo seja um pouco mais complicado, parece que houve por ali uma troca de ossos estranha, mas o símbolo é que conta, ora nem mais).
A sua sepultura é muito simples, com uma cruz em metal onde está escrito:
"Eckermann, amigo de Goethe".
Se eu quisesse inscrever na cruz sobre a minha campa o nome das pessoas cuja amizade prezo, mais valia que me enterrassem aos pés do Cristo-Rei, para caberem todos.
O Eckermann punha os ovinhos todos num cesto só.
***
Agora devia passar a corrente a cinco pessoas.
Combinamos assim: quem quiser aceitar o desafio, faz, e diz-me que fez. Ponho aqui o nome dos primeiros cinco.
hehehe
10 março 2009
petição da AVAAZ sobre eficiência energética
O filme com o frigorífico que fala é irritante, e não oferece mais informação que a que copiei para este post. Por mim, podiam tirar a voz a estes frigoríficos do futuro, sempre se poupava um pouco mais de energia...
***
Dear friends,
This week, European regulators will start setting efficiency standards for fridges, TVs, and other products. Strong rules could massively cut Europe's climate pollution, but industrial lobbyists are pushing to weaken the proposals.
Green technology already exists that would dramatically improve the fridges, TVs, washing machines, and other products that each of us use. Strong green standards, according to expert studies, could have a huge climate impact--greater than taking two thirds of Europe's cars off the road. And these standards would reduce our energy bills by tens of billions of Euros per year.
But the most-polluting companies want to sell dirty products cheaply, and avoid green investment. It's up to us to make sure EU negotiators hear the clear voice of thousands of citizens across Europe -- and not just the voices of the vested interests.
(...) Sign the petition -- it will be delivered to negotiators this Thursday.
With hope,
Ben, Luis, Iain, Graziela, Paula, Alice, Milena, Ricken, Brett, Pascal, Paul, Veronique, and the entire Avaaz team
FOOTNOTES
1. For more information, updates and policy briefs on the European Eco-design policy process (including the studies and draft legislation on the products covered by this policy, such as TVs, fridges, and lightbulbs), see this site by the NGO coalition ECOS, Greenpeace Europe, WWF-EPO and other leading environmental organizations:
http://www.env-ngo.eup-network.de
2. Last week, more than 100,000 Avaaz members joined the global call for a truth commission to investigate human rights abuses in Bush's war on terror. Avaaz hand-delivered the signatures to the Senate committee and spoke to key U.S. leaders. Click to see photos and a full report:
http://www.avaaz.org/blog/en/w/brett/2009/03/war_on_terror_tell_the_truth_petition_delivered.php#trackback
3. On Thursday, Avaaz members will deliver the petition in Brussels with a stunt organized by Friends of the Earth Europe and Natuur en Milieu. For more information, check http://www.avaaz.org/blog/en later this week!
09 março 2009
fazer o quê?

Um bispo que excomunga a mãe e os médicos que provocam o aborto, mas afirma que essa pena não se pode aplicar ao padrasto, que viola a criança desde que esta tinha seis anos.
Uma Igreja que dá a comunhão a um pedófilo, e a nega a um médico que salvou a vida de uma criança vítima daquele.
Esta é a Igreja dos fundamentalistas, dos que se agarram à letra da Lei e cada vez mais temem o Espírito.
Continuarei na Igreja Católica - porque também é minha, e não a vou abandonar aos usurpadores.
Recebi hoje uma corrente do Brasil, que achei muito interessante.
Repasso-a aqui, omitindo apenas as moradas dos Bispos.
Dom José Cardoso Sobrinho,
Exijo a revogação dos laços estabelecidos entre mim e a instituição pelo senhor representada, pois não posso admitir ter qualquer relação com uma igreja que, para falar em nome de deus, mas usando leis produzidas pelos próprios homens, não condena estupros nem outras tantas barbaridades para as quais, ao longo da história, fechou os olhos, chegando a negar sua existência. Não quero ter qualquer relação, ainda que esses laços tenham sido estabelecidos pelo batismo quando eu era jovem demais para opinar, com uma instituição cuja atuação nos níveis sociais e políticos colabora para os aspectos mais tacanhos de nossa legislação e trata com pouca severidade os que creem poder fazer do meu corpo parque de diversões para suas perversões. Não quero estar ligada a uma instituição para a qual vidas futuras valem mais do que vidas presentes e para a qual o simples fato de existir vale mais do que a possibilidade de existir com decência e dignidade; para quem a obediência cega aos dogmas inventados pelos homens serve para manter na mais cruel ignorância e atraso fiéis bem intencionados.
Honestamente, se deus existe, ele certamente não passa perto da porta de sua instituição.
Aliás, dom José, que boa oportunidade o senhor gerou para jogar mais fiéis nos braços da concorrência, não?
08 março 2009
cultura de salão
Os filhos, o marido e os amigos fizeram-lhe uma bela festa.
Hora e meia de canções, poemas e textos literários divertidos; um cânone falado - fantástico! -, encadeando de forma ritmada as palavras que a aniversariante repete mais frequentemente no difícil exercício de combinar as responsabilidades familiares com os ensaios que escreve à velocidade a que outros meramente lêem; uma pequena opereta inventada para a homenagear (ah, tão romântico!...).
Claro que é mais fácil quando toda a família respira cultura, e entre os amigos há pianistas profissionais, cantores, poetas.
Lembrei-me da cultura de salão da época áurea de Weimar, quando a arquiduquesa, Goethe e outros intelectuais da corte inventavam peças de teatro que eles próprios representavam, e se reuniam semanalmente para contarem das suas criações mais recentes.
Em jeito de agradecimento, a homenageada falou de um momento da correspondência entre os dois grandes de Weimar. Em resposta a um convite que Goethe lhe fizera, para poderem debater longamente novos projectos, respondeu Schiller: "Com todo o gosto o iria visitar, se me fosse concedido estar doente na sua casa."
Será talvez nisso que pensamos ao chegar aos cinquenta anos? Que a maior amizade é aquela que aceita a nossa crescente fragilidade?
***
Regressei a Berlim cheia de bons propósitos. Do género: quando for grande quero ser assim.
Em Abril, um tio do Joachim festeja 80 anos. Já ando a pensar como é que havemos de dar o máximo que podemos, em vez de desenrascar uma gracinha qualquer à pressa.
o momento mais embaraçoso do dia...
Já a conheço de outras digressões, e estava especialmente curiosa para ouvir a peça para orquestra e tambores tradicionais.
Outras famílias terão pensado que tambores é algo adequado para crianças, e que onze da manhã é um óptimo horário, porque até os seus bebés levaram para o concerto.
Nunca pensei que assistiria a estas cenas na Filarmonia de Berlim:
1. O solista de violoncelo volta ao palco depois da execução da peça de Saint-Saens para violoncelo e orquestra, e oferece um número extra-programa. Lindo. Variações sobre um tema, com pequenas pausas entre as frases. Numa dessas pausas, uma criança solta um longo suspiro que se ouve na sala toda, e várias pessoas riem-se. O jovem músico levanta-se, agarra no violoncelo e sai da sala.
2. O maestro prepara-se para iniciar a peça japonesa, quando um bebé começa a palrar. Ele faz sinal aos músicos para não começarem, e vira-se para o sítio de onde vem o som. A mãe acalma o bebé.
O maestro volta-se para os músicos, levanta os braços e... o bebé recomeça a palrar. O maestro interrompe o gesto, e fica a olhar fixamente para a mãe, até ela perceber o que se espera dela, se levantar e abandonar a sala com o bebé.
O maestro volta-se de novo para os músicos, levanta os braços e... toca um telemóvel do outro lado da sala.
Foi nesse momento que temi que o concerto acabasse ali mesmo.
Não acabou. Só passou num instante. Mono-Prism, de Maki Ishii.
Vinte e cinco minutos de encanto.
Quase deu para esquecer o embaraço que me causou aquele público descuidado.
socorro! é o dia internacional da mulher
Se hoje estivesse em Weimar, receberia de alguém uma rosa anónima.
Odeio essas rosas que dão no dia 8 de Março.
Às tantas foram plantadas, tratadas, e colhidas por outras mulheres cheias de doenças de pele e respiratórias, que é o que dá trabalhar na produção industrial de flores baratas.
...Já se notou que agora faço biscates numa loja que vende produtos biológicos e a preço justo?
Pois é: uma loja onde se vende boa consciência. Compre aqui, que está a proteger o meio-ambiente e a sua saúde, e a permitir que famílias em África, na América Latina, nas Filipinas, na Índia e etc. recebam um pagamento justo pelo seu trabalho e consigam enviar os seus filhos à escola para terem um futuro melhor.
O mais engraçado é o design do artesanato: numa aldeia qualquer nos confins da África os artesãos metem na cabeça que os europeus gostam de um determinado tipo de produto ou desenho, e desatam a produzir isso em quantidades descomunais. E os europeus de boa vontade compram coisas de que pouco gostam para ajudar os artesãos da tal aldeia.
Até parece aquele casal que passou 50 anos a comer sopa de feijão, porque cada um achava que era esse o desejo do outro.
(A minha sopa de feijão é a pedra sabão: já não posso ver mais objectos em pedra sabão. Corações em pedra sabão para o São Valentim, ovos de Páscoa em pedra sabão, presépios em pedra sabão, castiçais em pedra sabão, esculturas em pedra sabão, suportes de livros em pedra sabão, tudo com pedra sabão e pedra sabão com tudo... )
Mas pior ainda que a pedra sabão são as pirosadas que se dizem a propósito do dia internacional da mulher.
Amanhã vai ser outro dia.
06 março 2009
Neues Museum
Por enquanto o museu ainda está vazio. A exposição só abrirá depois do Verão de 2009, albergando a colecção do antigo Egipto (com Nefertiti, a sua mais famosa dama) e parte da colecção do museu da pré-história.

(Foto tirada daqui)
Chamam-lhe "museu novo", mas já tem mais de século e meio. O nome surgiu por oposição ao "museu velho", o belíssimo Altes Museum, projectado por Schinkel, que já não tinha capacidade para todo o acervo.
Durante a guerra, o Neues Museum foi severamente atingido. A RDA limitou-se a consolidar a ruína, que assim permaneceu durante várias décadas, no centro da famosa Ilha dos Museus. Depois da reunificação alemã, um ambicioso projecto de recuperação e reformulação do complexo museológico confiou a David Chipperfield a sua reconstrução.
(Foto tirada daqui, um site muito interessante, em inglês, sobre o conjunto do projecto de recuperação da Ilha dos Museus.)
Como sempre nestes casos de recuperação de um edifício histórico parcialmente destruído, uns querem uma réplica fiel do que existia (caso do palácio de Charlottenburg, por exemplo), e outros querem um corte radical com o passado (de que se pode ver um exemplo na parte inferior esquerda da primeira fotografia, projecto também de Chipperfield).
Das duas, três: o arquitecto optou por manter as formas originais, mas com materiais modernos, e por deixar expostas as feridas da História. Betão em vez de estuque, buracos de bombas cuidadosamente sublinhados em vez de retoques para alisar as paredes. Uma opção que deu muito que falar em Berlim.
O resultado poderá ser apreciado este fim de semana. Haverá com certeza longuíssimas filas de espera - é incrível esta propensão dos berlinenses para esperar horas, de pé e ao frio, à porta de um museu.
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Pessoas de idade e crianças, bem como os seus acompanhantes, não precisam de ficar na fila - têm uma entrada especial.
Combinei com a minha vizinha que este fim-de-semana vamos alugar os gémeos dela, de seis anos, a pessoas que não queiram esperar tanto tempo.
(E depois ainda há quem diga que os alemães não têm sentido de humor.)
01 março 2009
de noche, iremos de noche...
I have always felt like an alien in a strange land in both the Church and the world.
Last week I attended an Idea Party put on by an Evangelical colleague of mine in the masters program. He is quite disaffected from his tradition and is searching for a better way to live his faith and share faith with others.
A long time ago Andrew Greely, a sociologist and priest from the Chicago Archdiocese, made a distinction between the sociological side and spiritual side of faith.
More recently Richard Rohr, OFM, made a distinction between religion and relationship and that Jesus came to establish relationships not a religion.
Anyway during that idea party I was in a small group who found it difficult to understand how I could remain in the Church and be so dissatisfied with her, what I call religiosity and sociology, which seems so corrupt and far from the Holy Spirit set loose in the world by Jesus.
When I fell in love with Jesus I married the Church for better for worse as the Church married me for better for worse.
Rahner always taught the primacy of our conscience. We are obligated to go where we find truth. Though I’ve often wished I could, so far I haven’t found more truth anywhere outside the Church.