29 janeiro 2009

vou ali e já volto



Depois conto.

(tipo daqui a dez dias, mais ou menos)


Foto roubada de uma página qualquer algures por aqui. Tirada de um sítio chamado Muottas Muragl: um nome impossível e uma paisagem de sonho.

excomungar os revisionistas

Estava eu a pensar que sou uma fundamentalista porque, desprezando o mais elementar direito de liberdade de expressão, entendo que o lugar de um revisionista é na cadeia (a ler, a informar-se, a esclarecer todas as dúvidas), mas afinal sou ultrapassada pela direita por gente que acha que o lugar dos revisionistas é no inferno, pelo menos.

Estou a falar da reabilitação do bispo Williamson, claro, e do coro de escandaleira que se lhe seguiu, por gente que gosta mais de gritar do que de se informar.

Os factos são estes: o homem foi excomungado há vinte anos pelo Papa João Paulo II, juntamente com o Lefebvre e outros três bispos nomeados por este. Essa excomunhão não tem nada a ver com a negação das câmaras de gás, mas com um episódio da Igreja Católica dos anos oitenta do século passado, ligado à não-aceitação da autoridade papal.
Bento XVI decidiu fazer um gesto de abertura, e revogou aquela excomunhão.
Simultaneamente, deixou bem claro que a Igreja Católica sabe o horror que foi o Holocausto.

É bastante simples.
Pelos vistos, a Alemanha já está a preparar um processo devido às declarações do bispo sobre o Holocausto, e está bem assim. A César o que é de César.
Não se confundam.

O que deveria fazer Bento XVI? Retirar-lhe o poder de exercer o sacerdócio (sem excomunhão)?
Eu, por acaso, acho que sim.
Mas duvido que haja por aí muita gente que entenda que a mesma regra se deve aplicar a todos os revisionistas: não apenas um processo jurídico, mas o despedimento imediato.

28 janeiro 2009

vítimas

Há algumas semanas, um miúdo da turma do Matthias começou a provocar os colegas numa aula de Artes. Os outros responderam com indiferença ou troça. O Matthias disse uma piadinha, logo a seguir pediu desculpa, voltou a concentrar-se no seu trabalho e, quando menos esperava, levou tal pancada na cabeça que andou com dores durante uma semana.
Enquanto esperavam que as respectivas mães os viessem buscar, o outro desatou a queixar-se "há mais de dois anos que sou vítima de mobbing nesta turma" e a ameaçar "se contares mentiras em casa não perdes pela demora, vais ver o que te faço". Quando eu cheguei, esse miúdo estava com a cabeça escondida nos braços, a chorar desconsoladamente sobre a mesa; mas quando me fui embora, esqueceu-se de soluçar enquanto levantava a cabeça para me observar. Teatro do mau.

Há dois anos que ele enerva os outros com a sua hiperactividade e agressividade incontroláveis. Ninguém gosta dele. Uns evitam-no, outros reagem com troça às suas provocações, ou tomam a iniciativa de o provocar. É o emplastro da turma, e também o bode expiatório.
Esta não é a primeira reunião que se faz por causa do seu excesso de violência. Todos os alunos mais fracos que ele têm uma história para contar: a miúda que foi socada seis vezes, o que quase ia tendo um pé partido, o que levou um murro no estômago, o que levou com uma bola de neve no olho, etc.

Até agora, os pais do rapaz arranjaram sempre maneira de passar a culpa para a turma. O filho deles é um perseguido e uma vítima. Se uma família protesta por causa de um pontapé aplicado com raiva, a questão é "e o seu filho, não fez nada?"; se outra família se queixa das ameaças de morte que faz aos colegas (nós não nos queixámos mas o Matthias ouve aqueles "eu vou-te matar, seu grande filho da puta" e lembra-se logo do massacre de Erfurt), os pais dele perguntam se isso é mesmo verdade. E lembram que, quando são os outros a fazer asneiras, ninguém se incomoda.

Alguns pais querem pressionar fortemente a escola para que ele seja transferido. Já ouvi um aluno dizer "ele que vá para uma escola onde andam os da sua laia" - claro que aprendeu em casa, e claro que não é dignificante. Mas esses pais estão cada vez mais preocupados com a questão: que mais irá acontecer? Como vai ser quando estiverem numa aula de Química, e se o rapaz perde a cabeça justamente quando tem uma garrafinha de ácido na mão? Na aula de Trabalhos Manuais, a trabalhar com uma faca?

De modo que ontem, a propósito deste incidente, fez-se uma reunião com o director, os professores da turma, os delegados de turma, os dois alunos envolvidos e os respectivos pais.
A carta em que pedimos que se realizasse esta reunião era clara: há aqui um problema estrutural de violência para o qual se tem de encontrar uma solução antes que haja consequências mais graves; a turma não tem condições para resolver o problema sozinha.

Ao fim de alguns minutos o outro miúdo já se estava a queixar que pediu desculpa e tem tentado aproximações várias ao Matthias, mas ele continua a ignorá-lo e não aceita fazer as pazes. A sala toda virou-se para o Matthias, e alguém perguntou: "o que queres que o teu colega faça para tu esqueceres esta história?"

E foi nesse momento que me pregaram três rasteiras simultâneas: o Joachim a telefonar-me para saber onde estávamos e eu a ter de sair da sala para lhe responder, aquela maldita vozinha a repetir dentro da minha cabeça "dar a outra face, dar a outra face", e a incapacidade de formular imediatamente uma resposta incisiva perante aquela assembleia de pacificadores à força da má consciência.

De modo que, se não o disse ontem lá, digo-o hoje aqui (eu, em versão padeira de Aljubarrota, seria assim: debaixo da cama, a escrever livros de receitas de "tarte de espanhol"):

Uma pessoa que dá uma pancada brutal noutra, e a seguir se arma em vítima e ainda oferece mais tareia, tem de perceber que há pontos de não-retorno para quem vai demasiado longe.

Pronto, está dito.

Estou profundamente frustrada, e sinto que falhei no apoio que devia ter dado ao meu filho.
Já estou cheia de pena do próximo aluno que levar com esta vítima pela proa.

Além disso, aquele maldito "dar a outra face" está-me a incomodar. Acho que vou mudar de religião.

inveja

A Rita põe-se a falar sobre a inveja, e de repente lembro-me da história de um miúdo que aos dois anos recebeu uma boneca, o Peterle, que acabou por se tornar o grande companheiro daquela infância.
Quatro anos mais tarde, o Peterle, que era feito de pano, já estava como havia de ir, todo remendado e cerzido, irremediavelmente encardido e quase careca.
Foi por essa altura que a turma do miúdo combinou uma noitada na escola.
Quando o viu juntar o Peterle ao pijama e à escova de dentes, a mãe ficou preocupada com a troça a que a aparição daquele monte de trapos poderia dar origem, e perguntou: "Achas boa ideia levar o Peterle?"
O miúdo pensou um bocadinho e depois respondeu:
"Tens razão, é melhor deixá-lo em casa - os outros podiam ficar com inveja."

27 janeiro 2009

revisionismo histórico

Child 44 é muito mais assustador e brutal que Fatherland...


***

Andava há meses com vontade de ler o Child 44. Comprei-o na semana passada. Ao chegar a casa, comentei a compra com a minha vizinha, que me disse que já o tinha e mo emprestava. Fui à livraria devolver o livro. Em frente à caixa, uma colecção com a série Holocausto (lembram-se? eu tinha aí uns quinze anos, passei uns tempos a dormir mal) atravessou-se-me no caminho. Troquei um pelo outro.
Não sei como é que arranjo sempre de me acontecer um quotidiano tão carregado de simbolismos.

26 janeiro 2009

sentir-se responsável

Eu a falar de leitõezinhos brincalhões e felizes (v. post anterior), e a Susana a falar das vacas tristes.

Anda por aí um filme chamado Food, Inc. feito de variações sobre este tema.

E eu, daqui a nada, a sair para as férias mais caras do ano. Se não as fizesse, sobrava-me dinheiro para comprar sempre e apenas carne de animais criados em condições dignas.

Grüne Woche

"Um rapaz da minha turma contou que estão a vender testículos de canguru no stand da Austrália", disse o Matthias.
Ao que eu retorqui: "acredito e não me admiro, que no Alentejo também se comem coisas do género".
E lá fomos nós para a Grüne Woche. Para provar a tal especialidade australiana, e porque em Berlim inteira se fala dessa feira de produtos alimentares e de jardinagem.

Começámos por nos perder na parte dos jardins, onde deambulámos só pelo gosto de sonhar o que podia ser: podia ser uma casinha com sauna no pátio das traseiras da nossa casa de Weimar, um pequeno tanque de jacuzzi, ou talvez um pavilhão redondo, todo em vidro, formado por dois módulos semicirculares que rodam um sobre o outro, mudando a posição das paredes e abrindo ou fechando conforme o tempo, o vento, o sol.
Também as camas de água, ah, claro que experimentámos as camas de água! (abstraindo do peso e da quantidade de água que tem de ser aquecida, uma pessoa até sonha que aquela cama daria o melhor de todos os sonos).
E as estufas com tabuleiros de terra sobre suportes de altura regulável, porque não há razão nenhuma para trabalhar vergado quando se pode fazer horticultura e jardinagem sentado e de costas direitas, e - entretanto, já não é segredo para ninguém - a população está a envelhecer e a terceira idade quer conforto e paga-o bem.

No pavilhão "alimentação saudável" deram-nos a beber leite de égua (aguado e doce - dizem que é o mais próximo do leite humano), para comparar com o de cabra e o de vaca.
Ficámos a saber que a Polónia começou a vender pacotes de cenouras pequenas descascadas, óptimas para os miúdos levarem para o pequeno-almoço na escola, e a um preço bem mais acessível que as importadas dos EUA.
E também nos informaram que, para o nosso corpo "queimar" um prato de batatas fritas, temos de passar meia hora a rachar lenha. Haverá em algum país lenha em quantidade suficiente para queimar todas as batatas fritas que comemos?!
Depois mostraram-nos colheres de plástico feitas com material biodegradável - celulose. Estavam tão orgulhosos do progresso que optei por não lhes perguntar se faziam alguma ideia de como eram produzidas as árvores que dão origem a esse material biodegradável.

Demos a volta ao mundo: banana frita do Gana, matjes e poffertjes holandeses, maultaschen da Suábia, batido de manga e iogurte turco, compotas de frutos noruegueses que nem sabíamos que existiam, combinações de ervas para misturar com crème fraîche e servir com peixe (especialidade sueca), bagos de groselhas envoltos em chocolate (bombons da Estónia), e até maçãs do futuro.

No stand do Gana havia festa: uma das clientes começou a dançar ao som da música que vinha dos lados da Geórgia, lá perto, e os vendedores da banana frita entraram na brincadeira e dançavam também, enquanto iam servindo a comida.

Os russos surpreenderam-nos pela elegância da estética culinária: belíssimos pães com paisagens ou motivos decorativos esculpidos na massa, enchidos apresentados como petits-fours, e até uma galinha fumada, vestida e sentada em pose no meio de salsichas várias.

No stand do maior produtor de avestruzes alemão, onde nem queria provar, acabei a comprar "pâté de foie" e carne fumada - deliciosas!

Os produtores de queijos austríacos estão cada vez mais inventivos: depois do queijo com cenoura (laranja) e com pesto (verde), chegou a vez do queijo com piri-piri. Já não bastava piri-piri e pimenta no chocolate, agora até ao queijo chegou? A ver quantos anos dura esta moda.



O nosso stand preferido foi o da península Yamal (o que significa, na língua nativa, "fim do mundo" - e fica para os lados da Sibéria). O que primeiro nos atraiu foi uma exposição de tendas e artefactos da população nómada, os Nenet (podem ver mais fotografias aqui).
Depois, começámos a provar as especialidades que tinham trazido: carne fumada de rena, caviar de cavala, vários peixes fumados, e fígado de Quappe ("Lota lota" é o nome científico, como fiquei depois a saber, e também que é um peixe em vias de extinção na Alemanha e "ressuscitado" por cientistas na Inglaterra - será que em Yamal existe em abundância, ou o que falta são leis que protejam estas espécies?...)

As vendedoras russas eram mais eficientes que vendedores de seguros americanos. Incrível! - tenho de rever todos os meus preconceitos.
Tentaram impingir-me todo o stand - o caviar de cavala, o fígado da lota lota, o gulasch de carne de rena "é muito fácil, abre a lata, junta um pouco de água e aquece, serve aos seus filhos, vai ver que eles comem e choram por mais!" - e quando eu disse que deixava algumas coisas para comprar no próximo ano vieram-me logo com a ameaça da crise financeira, "sabemos lá nós se no próximo ano estaremos aqui..."

No pavilhão dos animais havia um picadeiro onde pudemos ver um belo grupo de volteio, um número de dressage, e um húngaro a cavalgar de pé simultaneamente dois cavalos. Tudo muito bem feito, e óptimo para descansar um bocadinho.
Mas o melhor momento do dia foi quando soltaram na arena uma porca com os seus leitões. O que aqueles bichinhos corriam e brincavam! Cheios de energia, muito alegres, pareceram-me ainda mais divertidos que cachorros. Olhando para eles no meio de centenas de pessoas que se riam das suas cabriolas, dei-me conta que nunca vi leitões em liberdade. Até agora, só os conhecia de currais minúsculos e geralmente escuros, bichos semi-depressivos agarrados às tetas da mãe. Em que é que estamos a transformar o nosso mundo?

Finalmente encontrámos o stand australiano. Deram-nos a provar salami de carne de canguru, mas não era isso o que o Matthias queria. Cheio de esperança, perguntou à vendedora: "Tem testículos de canguru?"
"O quê?!", perguntou ela, convencida que tinha entendido mal.
"Um amigo meu disse-me que aqui têm testículos de canguru..."
"Que disparate!", foi o comentário, num tom muito ofendido, e foi aí que me dei conta de toda a carga embaraçosa da cena.
A culpa é minha, claro, que não lhes devia ter dito que podia muito bem ser, porque em Portugal talicoisa.
O problema dos meus filhos é que a mãe deles vem de um país onde tudo é possível (em todas as acepções da expressão), de modo que eles ficam com menos propensão a desconfiar.

mais um conselho às jovens portuguesas:

Pensem duas vezes antes de casar com um homem do povo Nenet.
Nem queiram saber os sarilhos em que se metem. Por exemplo: se pisarem uma determinada linha imaginária, pode acontecer algo de mal a alguém da vossa família.
Li neste site, onde encontrei também a foto.

23 janeiro 2009

this land is my land

O correio transatlântico anda muito activo nestes dias. Até parece que estamos todos na mesma onda...

De Los Angeles chega-me um trocadilho fantástico:
"We've gone from an ABOMINATION to an Obama Nation."




A amiga que me enviou este link teve o cuidado de avisar que lá pelo minuto 3:28 aparece o Obama.

De destacar também alguns dos comentários ao vídeo:

* Wow! I've heard Pete Seeger sing on the steps of the Lincoln Memorial before, but always in protest. What a joy to hear him sing on THIS day in celebration! thanks so much for posting this.

* Maybe my most favorite video of all time. From Guthrie to Seeger to Springsteen ... the torch is passed. Think of the history of all the speeches and songs at the Lincoln Memorial - the torch is passed.And to us American, ALL of us ... the torch is passed. Democracy isn't just voting, it's working to make a just, equitable, shared society. Maybe this is a decade we will get it right.God bless you, Pete. Live long and prosper! You have done so much for us.

* Thanks for this comment. It sums up my feelings upon seeing this video also. This is a special moment in history. What better place to sing Woody's song than the Lincoln Memorial. And what better person to lead than the patriarch of progressive American folk music, Pete Seeger, who has inspired generations around the world to work for peace and justice for all. May we all carry the torch forward. Thank you and the person who posted this clip.

* Pete Seeger is a uniter, not a divider. We need more uniters in this wicked world.

* It is so, so fitting that Pete was there yesterday. He was deep in the trenches during the civil rights movement. What happens tomorrow will fulfill what he fought so much for 40 years ago. God bless him.

* Pete Seeger is as much of a part of the struggle for equality as M L King, and all the other greats that paved for the way for this great event. I am happy that he has lived to see this. He should be allowed front and center for the occasion. I have been waiting for over forty years for a President that I could truly trust, and support once again. That day has come. I guess it just goes to show you, that sometimes the good guys do win!

* This is what the fucking USA is all about!!! George Bush could never understand patriotism like this.

* You know, I notice Free Republic sticking to their predictable fascism in response to this performance. They seem to think it's so much more crucial that people know they consider Pete and Bruce communists, than that they're aware these two love the freedom that this country stands for sooooooo much that they're singing this particular "I love America" song, and right before "America the Beautiful" no less! Amen.

* This is one of the most moving and deeply beautiful moments I have ever seen in the history of music. Those same steps, where Marian Anderson sang in 1939 because the Daughters of the "American" Revolution wouldn't let her sing in their facility because she was black; those same steps where, in 1963, Martin spoke those deathless words about the real American dream, where "We Shall Overcome" was sung; and now, with half a million singing along, the song that ought to be our national anthem. USA!

* A true American Hero. Pete was imprisoned by the HUAAC, for refusing to testify. he was a2nd class citizen in his own country. This appearance on Sunday is another sign that things are changing for the better in America this week.

* I never thought I would ever see Pete Seeger singing the most viciously omitted verses of what should be our official national anthem to close the inauguration of a black president...and I'm only 23.This broadcast, with woody's damn near sacred words, was broadcast over those same hated corporations that cause the poverty which Woody wrote about. I think we cana ctually work with President Obama...

* One cant help but smile when one remembers that Pete Seeger went up before the House of Un American activities,was black listed ..and 50 years later they're all dead, and he's playing Woody Guthrie songs in front of the Lincoln Memorial for an African American president.

um conselho às jovens portuguesas:

Pensem muito bem antes de casar com um norueguês, porque eles são todos malucos.
Pelo menos os deste vídeo, são.

http://vimeo.com/moogaloop.swf?clip_id=1778399&server=vimeo.com&show_title=1

(por acaso agora fiquei a pensar: se acontecesse um azar e o rapaz morresse, a viúva teria direito ao seguro de vida? isso seria acidente ou suicídio?)

22 janeiro 2009

Je n'y arrive pas

- J'y arriverai jamais, m'sieur.
- Tu dis ?
- J'y arriverai jamais !
- Où tu veux aller ?
- Nulle part! Je veux aller nulle part !
- Alors pourquoi as-tu peur de ne pas y arriver ?
- C'est pas ce que je veux dire !
- Qu'est-ce que tu veux dire ?
- Que j'y arriverais jamais, c'est tout !
- Écris-nous ça au tableau: Je n'y arriverai jamais.
Je ni ariverai jamais.
- Tu t'es trompé de n'y. Celui-ci est une conjonction négative, je t'expliquerai plus tard. Corrige. N'y, ici, s'écrit n apostrophe, y. Et arriver prend deux r.
Je n'y arriverai jamais.
- Bon. Qu'est-ce que c'est que ce "y", d'après toi?
- Je sais pas.
- Qu'est-ce qu'il veut dire?
- Je sais pas.
- Eh bien il faut absolument qu'on trouve ce qu'il veut dire, parce que c'est lui qui te fait peur, ce "y".
- J'ai pas peur.
- Tu n'as pas peur ?
- Non.
- Tu n'as pas peur de ne pas y arriver ?
- Non, je m'en branle.
- Pardon ?
- Ça m'est égal, quoi, je m'en moque !
- Tu te moques de ne pas y arriver ?
- Je m'en moque, c'est tout.
- Et ça, tu peux l'écrire au tableau ?
- Quoi, que je m'en moque ?
- Oui.
Je mens moque.
- M apostrophe en. Là tu as écrit le verbe mentir à la première persone du présent.
Je m'en moque.
- Bon, et ce "en" justement, qu'est-ce que c'est que ce "en" ?
- ...
- Ce "en", qu'est-ce que c'est ?
- Je sais pas, moi... C'est tout ça !
- Tout ça quoi ?
- Tout ce qui me gonfle !

(...)

- J'y arriverai jamais, je vous dis. L'école c'est pas fait pour moi, m'sieur !

(Débat national, mon petit gars, et bientôt séculaire. Savoir si l'école est faite pour toi ou toi pour l'école, tu n'imagines pas comme on s'étripe à ce propos dans l'olympe éducatif.)


Daniel Pennac, Chagrin d'école, 2007, Gallimard


(desde há um ano que este livro é famoso - que é que a editorial Caminho está a fazer, que ainda não o tem à venda em Portugal? Ou desistiu do Pennac? Nesse caso, avise - que traduzo e publico eu, é desta que fico rica.)

Vem este excerto a propósito de uma frase de Alice Vieira numa entrevista ao Público, e da reacção de Rui Bebiano, uma dor boa, sabem?

Naquele livro, Pennac conta sobre o tempo em que ele próprio era le cancre da turma. O seu trabalho angustiado, os bloqueios inultrapassáveis. Uma dor terrível, que quase o levou ao suicídio.
Foca ainda o seu papel de professor, a escola onde os alunos se perdem por labirintos de frustrações consecutivas, o prazer deles ao descobrirem que afinal são capazes de y arriver, e o papel dos pais e da sociedade em que os nossos filhos crescem.
Um livro que oferece mais questões que respostas.

A começar pela pergunta: como agarrar um aluno? Como salvar um aluno da descrença de si mesmo?

Admito que a Alice Vieira tenha razão - que haja uma certa tendência em transformar a escola numa disneylândia do saber.
Mas será que o contrário de uma escola divertida é uma escola que dá trabalho, que faz doer?
E como é que se ensina a trilhar os caminhos dessa dor que vale a pena?

Eu sou mais "quem corre por gosto não cansa".

Permitam-me uma comparação: subir ao cume do Evereste. Não será um guia disfarçado de palhaço que me fará chegar lá, nem alguém que me obrigue a subir ao ritmo de terceiros.
Só o meu entusiasmo, a vontade de responder a esse desafio, uma boa auto-avaliação das minhas capacidades e um profundo respeito por mim própria me permitirão caminhar com segurança.

Já falei disso aqui: uma escola que procura despertar e alimentar nos alunos o gosto de conquistar o saber. Em vez de ter um professor a debitar a matéria, e os alunos todos a aprender esforçadamente ao mesmo ritmo (lembram-se do aluno Einstein, que os professores consideravam inapto?), criar uma escola onde os alunos aprendem a aprender em sintonia consigo próprios.
Ou, como dizem no documentário referido nesse post:

A escola alemã tem-se especializado mais no acto de ensinar que no de aprender.
Pouco se fala da aprendizagem como uma alegria antecipada das crianças em relação às suas próprias capacidades.
Consequentemente, em poucos anos os alunos começam a ir para a escola como quem vai ao dentista.

***

Na semana passada a minha filha de 14 anos (parte da Primária feita numa Montessori americana; outra parte feita numa Jenaplan alemã) fez na escola uma palestra sobre terramotos. Foi à Biblioteca buscar uma meia dúzia de livros, aprendeu quase sozinha a trabalhar com power point, e pediu-me para assistir ao seu ensaio geral. Ao vê-la com um cartão numa mão e uma folha de papel na outra, a explicar como é que uma zona de subducção funciona, pensei: abençoada a escola que ensinou a minha filha a inventar maneiras de compreender o que ouve!

21 janeiro 2009

deixem-me ficar um bocadinho nesta onda

Prometo que amanhã volto a cair na real.


a melhor frase do ano

Em versão carioca:


YES, WEEKEND!

Ainda ontem o Obama foi empossado...



...e já hoje começaram os milagres:

A Lida Insana voltou.

Amanhã será a vez do Quase em Português, e, depois de amanhã, do Bios Politikos.
Eu sabia que este homem veio para melhorar o nosso mundo!

(Foto roubada à MC)

dog...

We’re trading a dogmatic president for one who’s shopping for a dog. It feels good.

Aqui, via Vida Breve.

(Nota completamente a despropósito: o Luis M. Jorge terá ideia da dificuldade que o nome do seu blogue representa para alguém do Porto? bidabrebe, vidavreve, e combinações aleatórias de b e v, tristebida.)

20 janeiro 2009

como se fosse a primavera

Dizem que ao morrer a nossa vida passa como num filme, e eu quero morrer devagar, e parar um bocadinho naquele dia em que havia sol e o Chico Buarque cantava como se fosse a primavera. Como se fosse a alegria, com três ovos fiz malabarismos para os meus filhos mudos de suspense e surpresa, e só parti um. Quero ficar um pouco mais nos seus olhos cheios de riso, de que calada maneira você chega assim sorrindo como se fosse a primavera...


19 janeiro 2009

no dia em que a al-Qaeda se dirige à Alemanha...

Ontem, a meio do noticiário da noite da ZDF, no momento em que passaram um vídeo proveniente dos circuitos de distribuição do Bin Laden, comecei a fazer contas de cabeça: esta notícia foi dada depois dos cerca de quinze minutos dedicados às eleições em Hessen, a que se seguiram pelo menos cinco minutos sobre a guerra em Gaza, e mais alguns para o conflito do gás que "une" a Rússia e a Ucrânia, e mais umas imagens do avião a ser içado do rio Hudson.

No dia em que a al-Qaeda emite um vídeo de ameaça à Alemanha, a notícia toma talvez três minutos do tempo de antena (para passar o filme, e para entrevistar um especialista de segurança interna, que identifica o embuçado e reconhece que esta ameaça é para levar a sério), imediatamente antes do desporto, do boletim metereológico e de algumas imagens de uma Washington em festa para receber Obama.

Com jornalismo assim, a al-Qaeda vai ter de se levantar mais cedo para conseguir criar um clima de pânico na Alemanha.

17 janeiro 2009

mission accomplished

Por estes dias - não sei qual - o Dois Dedos de Conversa faz cinco anos.

Começou assim:
O José Maria disse que começava a ficar cansado de cortar dos meus e-mails as partes mais privadas, para os enviar depois a vários amigos, e que mais valia fazer um blogue.
Eu respondi que sim, que era bom termos um sítio para dar dois dedos de conversa.
A Céu agarrou imediatamente na ideia, e daí a nada estava a anunciar o dito e feito.
Eu tive primeiro de aprender o que é um blogue (enfim, ainda cá ando nesse exercício) e, passado um mês, aventurei-me.
O Manuel António entrou pouco depois.

Aos amigos com quem esta aventura começou:
Muito obrigada! Vocês estão cada vez mais remetidos ao papel de fiel leitor (sim, este é o único blogue, dos que conheço, que regista na coluna da direita os leitores que asseguram o quorum, hehehe), e está bem assim, se é assim que querem. Gosto de ler o vosso nome ali ao lado - sinto-me acompanhada.

Cinco anos.

Que me permitiram: permanecer perto de muitos amigos "reais", conhecer gente muito boa, enriquecer a minha vida com mais alguns amigos excelentes, discutir com seriedade e alguma profundidade imensos temas que me interessam.
Cinco anos que, sobretudo, me trouxeram a surpresa de um espaço profundamente gratificante: a caixa de comentários deste blogue é do melhor que há. Lugar de inteligência, humor e calor humano, sem cacarejos de "mitú". Não é qualquer um que se pode gabar de ter comentadores com a qualidade dos que por aqui passam!

De modo que digo agora, ao fim de cinco anos, o que me anda atravessado quase desde os primórdios:

o maior orgulho desta casa é a qualidade dos clientes que a frequentam!


E aproveito a proximidade do dia 20 para anunciar: mission accomplished!
Que significa, em bom português, e como todos sabemos: continua tudo na mesma - agora que estou metida nisto não tenho outra solução senão tentar fazer o melhor possível.

15 janeiro 2009

já todos sabemos como é que um cardeal não pode falar...

Já li imensos posts onde as palavras do cardeal foram muito criticadas.
Não vi ninguém a saber distinguir entre o registo e o conteúdo.
Também não vi ninguém a explicar o contexto real da frase. Fazia parte do texto preparado para dar início à tertúlia, ou terá sido resposta a alguma pergunta do público, num momento mais informal, mais tipo off the record?
Num ponto estamos plenamente de acordo: o cardeal não devia ter falado assim.
O tom foi demasiado descuidado, e apelava - mesmo que involuntariamente - à xenofobia.
Mas falta debater o mais importante: como é que devia ter falado sobre este tema?
Digam-me lá, ó valentes com tanta facilidade para escrever posts a criticar as palavras dos outros, como é que cada um de vocês (e isto é um repto também para os jornalistas) fala dos problemas concretos que podem ocorrer em casamentos entre culturas tão diferentes?

Mostrem o que valem e escrevam um post que comece assim:

"Uma miúda da minha família disse-me que está a pensar casar com um muçulmano (ou um árabe, ou um turco dos confins da Anatólia, ou um cristão de uma zona rural libanesa, ou um...) , e eu dei-lhe a seguinte resposta: "

A ver se os blogues servem para um debate realmente construtivo.

14 janeiro 2009

o manancial inesgotável está quase a acabar

A partir do dia 20 a nossa vida vai mudar.
Onde será que encontraremos outro manancial inesgotável para fazer piadinhas?

13 janeiro 2009

da alegria



Lembram-se da "geração talidomida"?

Thomas Quasthoff foi uma das vítimas desse medicamento.
Os pais optaram por não fazer dele um coitadinho, e deram-lhe uma infância o mais normal possível.
Quando perceberam que o filho tinha um dom especial para a música, tentaram inscrevê-lo no Conservatório, onde não foi aceite porque não podia tocar piano...
Não desistiram, e hoje Thomas Quasthoff é também conhecido por "the voice".

Assisti ao ensaio deste concerto, e posso dizer com propriedade: Thomas Quasthoff é muito mais que "the voice" - é "the joy", a alegria contagiante. Um homem espantoso.
Nunca vi tanta boa disposição num ensaio. Sir Simon Rattle a tapar a boca do solista para o impedir de cantar, o solista a rir e a abanar as mãos como um pato a tentar levantar voo...

Ouçam estas canções de Aaron Copland - a minha favorita começa no fim do quarto minuto, "I bought me a cat". A mímica do cantor é impagável.

12 janeiro 2009

informação à última da hora



(Paul Klee, Hauptwege und Nebenwege, foto tirada foto tirada daqui)

Para quem vive em Berlim ou vier a esta cidade até ao dia 8 de Fevereiro de 2009:

Na Neue National Galerie está uma exposição muito boa sobre o mundo de Paul Klee.
Dividida em temas - dos que me lembro: infância, eros, guerra, música, escrita, arquitectura, plantas, animais, morte - apresenta mais de 250 das suas obras.

Vale a pena alugar um aparelho áudio (é oferecido em várias línguas).

em primeira mão

Há um blogue feito por dois homens que vivem a cerca de 25 km de distância um do outro, em mundos completamente diferentes.
Um escreve a partir de um campo de refugiados em Gaza, e o outro a partir de Sderot, cidade que é alvo habitual do Hamas.
Gaza e Sderot: diálogo, solidariedade, a mesma sede de Paz.

Para tirar os palestinianos e os israelitas das gavetas onde os metemos descuidadamente, para começar a acreditar que é possível mudar aquele mundo, e para se informar em primeira mão sobre as angústias e os medos de pessoas concretas: ler aqui.

iludidos

O Spiegel Online (notícia de 10.01.09) informava sobre a desinformação que nos chega de Gaza (aqui, em alemão).
Como não sei se em Portugal se tem falado disso, aqui vai, sinteticamente:

Israel não deixa os jornalistas estrangeiros entrar em Gaza.
Os jornalistas palestinianos que lá trabalham estão sujeitos a uma forte censura do Hamas. Já houve, recentemente, algumas execuções de pessoas por suspeita de colaboracionismo. Um jornalista palestiniano arrisca a própria vida se pesquisar ou noticiar algo contra os interesses do Hamas. Até fazer perguntas sobre o actual estado de censura generalizada lhe pode trazer grandes dificuldades.
O Hamas proíbe que se façam fotografias sobre militantes seus em combate, e, por outro lado, chega a juntar cadáveres de crianças para compor fotografias mais apelativas.
Os próprios jornalistas palestinianos desejam a entrada de colegas estrangeiros para, finalmente, se poder dar uma imagem mais fiel do que está a acontecer em Gaza.

De modo que estou pré-socratiana: nem sequer sei o que não sei do que sei.

09 janeiro 2009

das Badeschiff



O Badeschiff fica na parte leste da cidade, no rio Spree.
É um lugar mágico, sobretudo depois do anoitecer - ou seja: a partir das quatro da tarde, no Inverno.
Consiste em três casulos sobre barcaças ligadas entre si. No primeiro tem um bar; no segundo, saunas; o terceiro é uma piscina aquecida, aberta nas extremidades para o rio e a cidade.
Para ver mais fotografias: aqui, site em alemão.

Não traduzo os horários, porque aquela lista refere-se apenas à temporada até Março de 2009.

Preços:
Adultos: 12 euros para 3 horas, 2 euros por hora suplementar
Crianças até 14 anos: 8 euros para 3 horas, 1,5 euros por hora suplementar
Madrugadores: 8 euros para três horas, se entrarem antes das três da tarde
Noctívagos: às sextas e aos sábados, 8 euros para 3 horas se entrarem depois das onze da noite.

É possível alugar roupão, toalhas e chinelos - o conjunto custa 7 euros.
(Ou seja: é possível andar a passear pela cidade, e decidir de repente: "E que tal se fôssemos ao Badeschiff agora?" "Boa ideia, vamos lá!")

No Verão desfazem os casulos e retiram as casas de banho, transformando as três barcaças numa piscina ao ar livre.



Endereço:
arena Berlin Kulturarena Veranstaltungs GmbH
Eichenstraße 4
12435 Berlin
Telefone 030.5332030
Fax 030.5337142
info@arena-berlin.de
www.arena-berlin.de

Acessos:

- linhas de autocarro: 104, 147, 167, 265, paragem na esquina Eichenstrasse/Puschkinallee
- S-Bahn: S8, S41, S42, S85, paragem em Treptower Park



A entrada é pelo ponto 9; contorna-se a pé o edifício 1, por trás do qual se encontra um pré-fabricado de dois andares onde ficam a bilheteira e os vestiários.
O momento mais difícil do dia é quando se atravessa do vestiário até ao barco em roupão e chinelos, mas a partir daí é sempre a melhorar.
Convém também levar algum dinheiro para pagar no bar (que pratica preços muito acessíveis) - onde se recebe a chave de um pequeno cacifo para guardar a carteira.

***

Chegados aqui, a questão que se levanta é: e que tal se em Lisboa ou no Porto (ou até em Vila Nova de Gaia...) fizessem uma coisa destas?




"dear John Doe"

Uma firma contratada pelo exército americano enviou 7000 cartas a familiares de soldados mortos no Iraque e no Afeganistão, mas esqueceu-se de mudar o nome do destinatário no texto da carta.

Perante uma gaffe destas, fico sem saber de quem ter mais pena: se do pateta que fez o erro, se das famílias que perderam um filho e se sentem profundamente mal-tratadas.

***

Sete mil? Já vai em sete mil?!!!

08 janeiro 2009

o céu sobre Berlim

Berlim é uma cidade bastante plana.
Aqui e ali encontra-se alguma elevação, mas ainda tenho de averiguar quantas delas são montes artificiais, feitos com os escombros da guerra.

Quatro possibilidades para olhar por cima da cidade:



1. O monte de Kreuzberg




A fotografia foi tirada deste site, onde se podem ver muitas outras do mesmo local.
Um parque agradável para passear, com belas vistas sobre a cidade e um Biergarten típico, junto ao campo de futebol. Aos fins de semana acontecem por lá umas festas de adoração do pôr-do-sol, ou algo semelhante, que deixam os relvados num estado lastimoso - como se pode ver na fotografia.

No sopé, junto ao Mehringdamm, há vários restaurantes famosos:
- Café do Brasil, um restaurante simples com comida brasileira a preços muito acessíveis (Mehringdamm 72, 030 78006887)
- Osteria numero 1, um dos italianos mais famosos de Kreuzberg (experimentar, por exemplo, as flores de courgette recheadas com queijo) (Kreuzbergstr. 71, 030 7869162)
- curry 36, um imbiss aberto até à meia-noite, onde se serve a salsicha mais típica de Berlim, a Curry Wurst (Mehringdamm 36)


2. Reichstag



A visita à cúpula do Reichstag, onde funciona o parlamento federal, é um must para todos os visitantes de Berlim. Não apenas a admirável arquitectura de Norman Foster, mas também a exposição sobre o Reichstag (vale a pena demorar um pouco nas fotografias dos deputados: compare-se a expressão nos rostos dos deputados da República de Weimar e nos dos do partido nazi) e as vistas a partir do coração da cidade.

Na fotografia vê-se bem a coluna central feita de espelhos para projectar a luz para a sala do parlamento, e a pala gigante suspensa, que roda à volta da coluna consoante a direcção do sol.

Para visitar a cúpula:

- Aberto das oito da manhã à meia-noite; a entrada fecha às dez da noite.
- Entrada gratuita.
- Às vezes a cúpula está fechada ao público, mas de um modo geral o terraço continua acessível.
- Crianças com menos de nove anos, e os seus acompanhantes, bem como idosos e pessoas doentes, não precisam de esperar - podem usar uma entrada especial, à direita da entrada principal.
- Pode-se marcar antecipadamente uma visita guiada para grupos (gratuita, e em vários idiomas) escrevendo para besucherdienst@bundestag.de
- Junto à fila de espera há um carrinho de informações onde se pode perguntar se nesse dia vai haver alguma visita em grupo ao qual outras pessoas se possam juntar. Os grupos em alemão costumam estar cheios, mas pode haver alguma visita em inglês, francês, polaco ou até português onde haja ainda vagas. Estes grupos têm várias vantagens:
-- acesso não apenas à cúpula mas também ao interior do parlamento,
-- guia,
-- palestra de 45 minutos sobre política,
-- hora de entrada marcada.

- No terraço há um restaurante (Käfer) com uma vista formidável sobre a parte oriental de Berlim. Pode-se reservar um lugar (telefone: (0 30) 22629933; e-mail: kaeferreservierung.berlin@feinkost-kaefer.de) e entrar directamente no edifício sem passar pela longa fila de espera, usando uma porta que fica à direita da entrada principal, por trás da rampa de acesso. Não sei como é a cozinha, mas os preços são bastante altos. Contudo, ninguém é obrigado a tomar lá a refeição completa. Pode ser um pequeno-almoço, ou um mero café.


3. Panoramapunkt Potsdamer Platz



Com o elevador mais rápido da Europa, em 20 segundos até ao terraço a 100 m de altura.
Potsdamer Platz 1.
Aberto das onze da manhã às oito da noite; preço: 3,5 euros por pessoa.
Mais informações, aqui, em inglês.
Na fotografia, é o edifício da direita, em tons acastanhados. A entrada é pela rua que se vê no centro.


4. Fernsehturm (torre da televisão)



O orgulhoso símbolo de Berlim Leste, na época do muro vítima da chacota dos cristãos de Berlim Ocidental: nos dias de sol, forma-se uma cruz enorme e luminosa na superfície da esfera. A vingança de São Pedro...

Convém reservar um lugar no restaurante (sobre uma plataforma giratória, o que permite ver toda a cidade entre a sopa e a sobremesa) com bastante antecedência, bem como comprar os bilhetes para o elevador. Li algures que se pode comprar bilhetes com hora marcada, mas não sei muito bem como funciona e quanto custa.
O problema das reservas antecipadas é que a torre é realmente muito alta, e uma pessoa arrisca-se a ver não Berlim, mas as nuvens sobre a cidade.
Mais informações: aqui, em inglês.

frio

Ontem, o noticiário abriu a falar do tempo. Em algumas localidades da Alemanha já se chegou aos 30 graus negativos.
E logo a seguir, lembraram o evidente: é nestes momentos que nos damos conta de como este é um país rico. Há uns acidentes nas estradas, uns canos rebentados, mas a vida continua normalmente.

***

Apesar de termos os aquecedores no máximo, pode bem ser que no fim do ano a conta do gás seja mais baixa que a dos anos anteriores. É que o preço do petróleo está a baixar, e o do gás está-lhe acoplado.
Sempre desconfiei que a lei da oferta e da procura era uma grande patranha para iludir simplórios.

***

Recebemos um e-mail de um amigo na Bulgária. Pura e simplesmente não têm aquecimento. Morrem de frio dentro de casa.

***

Será que em Portugal também passam o noticiário russo, onde o Putin e o presidente da Gasprom discutem perante as câmaras de televisão como devem actuar perante a "crise" da Ucrânia?
Mas que grande palhaçada.
Fico a pensar se os telespectadores russos também acreditam na lei da oferta e da procura...

07 janeiro 2009

Sir Simon Rattle e orquestra filarmónica de Berlim



Ontem, por mero acaso, arranjei bilhetes a 8 euros para a orquestra filarmónica de Berlim com Sir Simon Rattle.
Ficámos sentados no estrado por trás da orquestra, com Sir Simon bem à nossa frente.

Nunca mais quero outros bilhetes. É verdade que fico com metade da orquestra pelas costas, mas ver aquele maestro a actuar vale bem perder todos os outros músicos.
É que ele não dirige a orquestra: mima a música.
Esquece-se da batuta, que fica parada no ar enquanto os dedos da mão esquerda chamam uma a uma as notas dos violinos. Às vezes apenas os olhos marcam o ritmo de uma passagem. Outras vezes é o corpo todo que antecipa uma explosão dos timbales.
Ou aqueles momentos de êxtase, em que fica parado com os braços abertos no ar, olhos fechados e um sorriso, como se quisesse abraçar a música.

Vamos frequentemente à Filarmonia, mas geralmente é para ouvir outras orquestras, que nos deixam cada vez mais decepcionados.
Um bocadinho como assistir ao Cirque du Soleil, e depois ir a um circo itinerante qualquer.

De modo que ontem ficou assim decidido: doravante, tentaremos arranjar lugares no estrado por trás da orquestra filarmónica, em vez de gastar o nosso tempo com as outras orquestras.

***

Ontem eu tinha um bilhete a mais e, enquanto tentava vendê-lo, assisti a mais um típico momento berlinense: um homem com ar muito simpático que perguntava às pessoas se alguém lhe podia oferecer um bilhete. Imagino que seria um daqueles músicos de Leste que costumam tocar acordeão e balalaica nas ruas de acesso à Filarmonia, na esperança que os melómanos deixem cair uma ou outra moeda. Ou talvez fosse um desempregado, ou um postdoc de música (engraçado meter estas duas categorias na mesma frase).
Estavam 12 graus negativos e não havia comprador nenhum - com aquele frio, só sai de casa quem tem a certeza que sabe ao que vai. Um homem friorento e cansado de esperar pelo negócio ofereceu-lhe dois bilhetes.

***

Para quem visita Berlim:

Os bilhetes a preço mais acessível costumam esgotar meses antes. Se tencionam assistir a um concerto, convém comprar com muita antecedência. Às vezes tem-se sorte, e conseguem-se lugares no estrado ("podium") ou bilhetes a 15 euros para menores de 28 anos. Se o concerto não tem coro, e todos os outros bilhetes já foram vendidos, três dias antes do concerto põem à venda os bilhetes no estrado, bem mais baratos. Ou seja: para conseguir estes, é preciso ter muita sorte.
Antes dos concertos há sempre pessoas a oferecer bilhetes à entrada. Os vendedores pertencem a dois grupos: os que por algum motivo não podem assistir ao concerto, e uma autêntica máfia que compra bilhetes com antecedência para fazer negócio quando o concerto já está esgotado, ou compra por uma ninharia e com muito maus modos aos do primeiro grupo, para os vender a seguir bem mais caros.
Para comprar à porta, convém ir pelo menos meia hora antes, levar um pequeno cartaz onde esteja escrito "suche 1 Karte zum Originalpreis" (= procuro um bilhete ao preço original) (plural de Karte: Karten), e ficar do lado de fora da entrada principal a exibir o papel.

- Site da Orquestra Filarmónica em inglês
- Número de telefone das bilheteiras (diariamente das 9:00 às 18:00 - o que em Portugal significa: das 8:00 às 17:00)
-- a partir de Portugal: 0049 30 25488999
-- em Berlim: 25488999

(imagem tirada daqui)

visitar Berlim

Há meia eternidade prometi iniciar uma série de apontamentos sobre Berlim para turistas.
Como é obra de vasta dimensão, tenho vindo a adiar. É que olho de relance para tudo o que há para dizer, e só me apetece pôr na lapela um crachat a dizer "Sísifo".

No entretanto, dei-me conta que passo a vida a escrever sobre Berlim.
Por isso, plano B: continuo a falar de Berlim, acrescento algumas informações para turistas, e ponho um marcador "visitar Berlim".

A ver vamos.


ADENDA: Estes posts irão sendo alterados à medida que me ocorram ou me cheguem novas informações sobre o tema.

06 janeiro 2009

boletim metereológico



Estava a tentar não falar do tempo (sim, que apesar de este blogue já ir em cinco anos, sempre se vão arranjando outros temas...), mas quando vi no Spiegel online esta fotografia, não resisti a copiá-la para aqui.
Provavelmente não estou a contar nenhuma novidade: ontem nevou, e a noite foi terrivelmente fria.
O nosso apartamento tem janelas duplas, à maneira antiga. Esta manhã a janela exterior tinha uma boa camada de gelo na parte de dentro.

A fotografia acima mostra o Tiergarten em Berlim, que era a coutada do Kaiser.
A cidade estava organizada assim: o Kaiser saía do seu palácio, descia a avenida Unter den Linden, atravessava a Porta de Brandemburgo, e já ali tinha a coutada à espera. Por vezes deitaria até um olhar de desprezo ao Reichstag, o parlamento construído à direita da coutada, já fora de portas - "no lugar certo", terá ele um dia comentado com o príncipe.

Na Alemanha, o Inverno de 1946/47 foi extremamente violento - um dos mais frios do século XX.
As botijas de água quente, que as pessoas levavam para a cama, congelavam a meio da noite. Quem podia, vestia o casaco de peles para ir dormir.
Num desespero de sobreviver, a população de uma Berlim em ruínas, vivendo em casas sem vidros nas janelas e numa situação de abastecimento caótico, avançou para o Tiergarten e cortou as árvores centenárias.
O parque foi reflorestado posteriormente.

Olho para o meu papagaio brasileiro transido de frio, e não consigo evitar um arrepio ao pensar no que terá sido a vida desses berlinenses.



atão, vá!

Agora que me ponho a pensar nisso, Abrunho:
aqui ajuda-se muito, mas, pensando bem, geralmente sou eu. E os meus filhos.
Somos nós quem vai ter com as pessoas que estão paradas na rua com ar perdido, ou ajudamos velhinhas a levar os sacos das compras para casa, miudezas assim.

Atão, vá, ó Fernão Mendes: toca a tentar melhorar a Alemanha com a nossa portugalidade.

***

Ainda agora começou o dia e já estou a mentir. É claro que estes meus vinte anos na Alemanha estão cheios de episódios de gente simpática que me ajuda. Desde funcionários públicos (até nas Finanças, pasmai e morrei de inveja!!!), até pessoas na rua, atentas e solidárias. Berlim, então, é um espanto: por todos os lados acontece uma palavra agradável, como se as pessoas reparassem que os outros também existem.

05 janeiro 2009

impotência

Na semana passada assisti na Ku'damm, por mero acaso, a duas manifestações de palestinianos.

Na primeira vez parei atordoada pelos cartazes ("Gaza é uma prisão com milhão e meio de prisioneiros" e "parem de matar civis!") e pelo tom das frases que gritavam. Seria árabe, e terminava com a palavra Israel. Fazia medo.

Na segunda vez, caminhavam na minha direcção. Avançavam ladeados por centenas de polícias - um dos quais filmava discretamente os participantes.
Um ambiente tenso, onde tragédia e ódio se misturavam.

À frente do grupo vinham algumas crianças. Traziam bonecas vestidas com as cores da bandeira palestiniana, e exibiam-nas com uma mistura de orgulho e inocência.
Caminhavam lentamente, lado a lado: crianças mudas, tristes, com olhos enormes.

Continuei em direcção a casa, presa dessa enorme tristeza que me toma quase sempre que contacto com palestinianos.


Como naquele jantar, há cerca de um ano, em que me contaram cenas do dia a dia na terra deles. A enorme dificuldade em chegar ao olival do outro lado da rua, por exemplo, ou o modo como a polícia israelita os finta e desrespeita - como se não fossem seres humanos.
Um deles mostrou-me o poema que a namorada, brasileira, escrevera na semana em que ficou retida na fronteira israelita, sem autorização para entrar nem para sair do país, sem acesso a advogado, sem informações sobre quanto tempo ainda ia durar aquele purgatório, nada. Reti do poema esta frase: "Deus, me agarra!"
A meio do serão chegaram mais alguns palestinianos, e um deles, ao dar-se conta do tema da conversa, desatou a contar anedotas com ar esgazeado. Um desespero.
Passámos o resto da noite a rir de piadas velhas e mal contadas, tentando ajudá-lo a fugir para o mais longe possível de tanto horror.

cabeças

Dieter Althaus, o ministro-presidente da Turíngia, teve um brutal acidente de ski, no qual só não perdeu a vida porque levava a cabeça protegida por um capacete. A mulher com quem ele chocou morreu a caminho do hospital.

Pelos vistos, não há um único berlinense que não leia jornais e internet, porque, quando fui à loja tratar desse meu seguro de vida, os encontrei todos lá, e os capacetes de ski já se tinham praticamente esgotado.

Consegui experimentar um, tamanho S, que me ficava muito solto.

E foi assim que eu, que recentemente me dei conta, com surpresa e gratidão, que há quem pense que tenho uma grande cabeça, fui logo ali cruelmente desenganada por um vendedor do Karstadt Sports junto ao Zoo de Berlim: o meu crânio é afinal bastante delgado.
(E agora faxavor nada de piadinhas sobre ideias estreitas.)


Tanta conversa, e é para para chegar mais ou menos aqui: agradeço, penhorada, a quem deitou alguma coisa na bebida do Eduardo Pitta, no dia em que ele escreveu aquele post. Muito amável.

E ao blogue Da Literatura os meus parabéns, e um grande muito obrigada, por estes quatro anos que têm sido para mim e para muitos outros um prazer e uma ilustração.
Uma alegria, também: é um sinal muito positivo sobre a sociedade portuguesa que um blogue como o Da Literatura tenha tantos leitores.

04 janeiro 2009

2008, 2009

De 2008 não direi que é um ano para esquecer, porque tudo faz parte da vida.
2009, esse, já entrou a oferecer pancada.

No dealbar deste novo ano, eis o que me desejo: que se mantenha essa rede de bem-querer que me ampara e dá força - família e amigos, gente tão boa.

E venham as vagas!

***

Para todos os que por aqui passam, a mesma sorte desejo: que atravessem o ano assim reconfortados no calor das relações que escoram e encorajam para novos desafios.

E para aqueles que a mim se confiam: possa eu ser-lhes porto seguro ou barca.