30 abril 2020

Digital Concert Hall - último dia de acesso gratuito

Acabou-se o que era doce: hoje, à meia-noite (onze da noite em Portugal), o Digital Concert Hall deixa de estar disponível gratuitamente.

Caso haja por aí alguém que ainda tenha um tempinho - ou será que estão como eu, com os dias cada vez mais curtos? - sugiro que ouçam o segundo concerto desta Páscoa, que é todo dedicado a Mahler e junta filmes do arquivo, interpretações actuais gravadas na Filarmonia agora deserta, e alguns comentários sobre cada peça.

Gosto muito de Mahler. Neste concerto, gostei especialmente de dois momentos: imagens do primeiro ensaio com Abbado (uma delícia) e Anna Prohaska a cantar "A Vida Terrena", depois de ter dedicado a canção a todos os colegas músicos que vão passar meses sem trabalho, e não sabem como conseguirão arranjar comida para pôr no prato dos filhos.

«Mãe, ai mãe, tenho fome,
Dá-me pão senão morro!»
«Espera um pouco, meu querido filho!
Amanhã cedo vamos ceifar!»

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Dizia eu que se acabou o que era bom, mas há sempre um "mas", e este por sorte é uma boa notícia: na próxima sexta-feira, às onze da manhã (dez da manhã em Portugal), quem não tiver telescola, nem teleconferência, nem nada que tenha de ser feito naquele momento, pode assistir também gratuitamente ao Concerto Europeu, que era para ser realizado em Telavive, e vai ser afinal com a orquestra nesta sala, em forma de orquestra de câmara e todas as medidas de protecção da saúde dos participantes.

O programa:

Arvo Pärt - Fratres
György Ligeti - Ramifications for strings
Samuel Barber - Adagio for Strings, op. 11
Gustav Mahler - Symphony No. 4 in G major (arranged for chamber ensemble by Erwin Stein)


we will always have...

Esta manhã, por causa de umas coisas e outras, não havia pão para o pequeno-almoço.
Como também não havia brioche, quem se chegou à frente foi o...

...gâteau breton!

(Helena Araújo, desde 1 de Março de 2020 a repetir a História francesa como farsa bretã.)


29 abril 2020

instrumentista de mim própria

Estou a assistir no Digital Concert Hall a um concerto que vivi ao vivo, digamos assim, naquela casa.

O som é muito bom, a realização é excelente, mas assistir a estes concertos na internet é-me quase doloroso por causa das passagens mais danzabile, eu: "deixa cá ver o maestro", o realizador: "solo da flauta, mostra aí o Pahud".

Se me deixassem mandar, realizava estes concertos com filmes paralelos no ecrã: metade para os músicos, metade para o maestro. Mas isso sou eu, habituada a assistir a estes concertos nos bancos de pau: como se estivesse na última fila da orquestra, como se o maestro se dirigisse também a mim - eu sem tirar os olhos dele, instrumentista de mim própria em alvoroço mudo.


derrotada

Esta manhã, ao sair para a peixaria do porto, encontrei a vizinha do primeiro andar, que é cozinheira. Estava a encher o carro com caixas várias, e disse-me que é na Borgonha que ganha a sua vida, e decidira fazer a viagem para tentar recomeçar a actividade profissional.

"Já não aguento este stress de estar sem trabalho", disse.

Ainda nem se tinha feito ao caminho, ainda nem tinha conseguido passar o controle do confinamento, e já parecia inteiramente derrotada.

Desejei-lhe sorte, disse-lhe que cá a esperamos quando regressar, daqui a um mês se tudo correr bem. E agradeci o pão caseiro que cozeu para nós há dias, como se quisesse agradecer a caixinha de morangos de Plougastel que o Joachim lhe tinha dado.

Na peixaria, ao escolher as santolas, pedi as mais pequenas, porque quem nos emprestava a panela para cozer as grandes vai agora a caminho da Borgonha.

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Caso queiram criticar "ah, com que então santolas?!": devido ao encerramento dos restaurantes, o marisco está baratíssimo. As santolas estavam a 6,8 €/kg. Mais ou menos o preço das ostras. Até em confinamento a vida me corre bem.


28 abril 2020

reconquista



Há dias disse a uma amiga, que mora mesmo à frente de uma bela montanha dos Alpes, que para ela devia ser horroroso morar junto à montanha onde adora fazer caminhadas, e não poder afastar-se mais do que 1 km da sua casa.

Ela riu-se: "Mas os animais andam felicíssimos! Nunca se viu tanta bicharada por lá!"

Isso, e estas imagens, lembram-me o batido poema de Brecht: "do rio que tudo arrasta..."

O que não terão sofrido estes animais quotidianamente durante todos os anos em que os humanos andaram à solta?


chocolate

Ontem, no supermercado, decidi comprar algum chocolate de leite. É que se é para a degraça, é para a desgraça. E não faz sentido nenhum estar a comer chocolate com mais de 70% de cacau (que é o que tenho em casa) cheia de complexos de culpa e nem sequer sentir o prazer associado a um chocolatezinho de leite com todos os sabores como deve ser.

Portanto: lá fui eu tratar do vício. Mas não encontrei o corredor dos chocolates. Nem sequer à segunda volta!

Ora bem: como é possível um supermercado ser tão incompetente?! O corredor dos chocolates devia ser encontrado de olhos fechados e debaixo de água!

De modo que comprei um gateau breton.
Prontos.

Agora, pequeno truque para reduzir na medida do possível os estragos de ter em casa um gateau breton à minha mercê: impor-me a regra de não comer nenhuma fatia enquanto estiver com o pijama.

(Era uma vez uma rapariga que se levantou e tomou duche às seis da manhã...)


26 abril 2020

"quiche"

A cena que vou contar passou-se em Weimar, no coração da Turíngia, uns 15 anos depois da reunificação. Nessa época, a maior parte das pessoas falava russo como segunda língua, e ia tentando fazer o seu caminho entre o sistema em que se socializara, e o sistema forasteiro que se viera impor às suas vidas.

O liceu da minha filha usava uma forte componente de francês para afirmar a sua diferença no panorama escolar da cidade, e por isso atraía muitas famílias vindas da parte ocidental da Alemanha. As reuniões de pais eram muitas vezes momentos de confronto de paradigma - que eu, portuguesa, observava como se não fosse nada comigo.

Numa dessas reuniões falava-se das propostas que vários pais tinham feito para as comidas a servir numa festa escolar. A directora de turma juntara as propostas numa lista, que íamos lendo e discutindo.

Perante a oferta de levar uma #quiche, feita por uma família de Frankfurt, uma mulher de Weimar perguntava completamente desorientada:

- Kvitxe? Que é isto?

Ela lera a palavra francesa segundo as regras do alemão: "u" a seguir a "q" lê-se como "v". E, obviamente, não fazia a menor ideia da língua original da palavra, e do seu significado.

Uns dias mais tarde a pessoa que fizera a proposta de levar uma quiche comentava comigo aquele momento. Ria-se imenso com o sucedido, especialmente porque "kvitxe" lembra "quietschen" (chiar).

A confusão tinha graça, mas eu não devia ter rido com ela. Muitas das dificuldades que existem actualmente na Alemanha nasceram de atitudes como essa, do sentimento de superioridade de alguns perante quem não conhecia algo normal na Alemanha Ocidental, sem se darem conta de que essas pessoas não eram ignorantes - simplesmente sabiam outras coisas, conheciam outros mundos.


25 abril 2020

receita para Portugal sair rapidamente da crise

Neste histórico dia ofereço uma humilde sugestão para ajudar Portugal a escapar à crise económica, alavancando as actividades produtivas por via do aumento das exportações até ao limite da produção, e é assim:

Alguém vá informar o Trump que Portugal se está a portar muitíssimo bem na crise da covid-19. Comparado com outros países (Espanha, França, Itália, etc.), os seus números são quase irrisórios.
[ Não sei se isto é bem verdade, mas também não interessa, porque esta conversa é com o Trump ]

Quando o Trump chegar à parte de great e very good job, alguém sugira que o remédio miraculoso é a manteiga com sal (sim, que é também o que toda a gente come na Bretanha, ele se tiver dúvidas que vá ver como são os números na Bretanha, taliqual como os de Portugal, e verá que os factos são realmente extraordinários).
E então o Trump vai e manda comprar toda a manteiga com sal portuguesa.

A seguir, sugira-se que não é só a manteiga. O tomate em conserva também tem dado excelentes resultados. Ele que vá ver: nas cidades alemãs onde se compra mais tomate em conserva português quase não há covid (não se esqueçam de meter essa informação previamente a circular no twitter).
E então o Trump vai e manda comprar todas as conservas de tomate portuguesas.

Acrescente-se: "o tomate sozinho não basta. É preciso acompanhar com atum e sardinhas em lata. Foi o que os portugueses desataram a comprar quando começou a pandemia, e eles lá sabiam porquê".
E então o Trump vai e manda comprar toda a produção de atum e de sardinhas em lata.

A revelação mais extraordinária fica para o fim: "Parece que o vírus não se agarra aos produtos industriais portugueses. As pessoas tossem para a manga do casaco made in Portugal, e não se infectam. Andam na rua com sapatos made in Portugal, e não se infectam. O vírus não se dá bem com o papel made in Portugal, nem com os carros made in Portugal, nem com o mobiliário português. Os cientistas mais fantásticos dizem que é por causa do sol: em Portugal há um sol forte que impregna os materiais de anticorpos", dirão depois. "Temos very great cientistas que afirmam que os baixos números de contágio também são devidos a isso".
E então o Trump vai e manda comprar tudo o que as fábricas portuguesas puderem produzir.

Antes de terminar a conversa, olha-se em volta para verificar se ninguém está a ouvir, baixa-se a voz, e revela-se o último segredo: a autêntica poção mágica, o líquido que tudo desinfecta e limpa, deixando as superfícies a brilhar e revestidas de um aroma que põe qualquer vírus a desandar. Mas esse não está à venda, porque os portugueses precisam  muito dele, indispensável, indiscutível.
E então Trump tem uma birra, larga uma dúzia de tuítes irados, e inventa um truque para conseguir  comprar a preço de ouro toda a lixívia que existe em Portugal.

(De nada, de nada. Sempre às ordens.)

24 abril 2020

defender a Democracia com arrogância e teimosia

Se não fosse tão triste até dava vontade de rir: numa época em que os políticos de vários países da União Europeia aproveitaram a crise da covid-19 para dar golpes fatais no sistema democrático (veja-se o que está a acontecer na Hungria ou na Polónia, sem que a UE esteja a ser capaz de reagir adequadamente), no momento em que se teme que a situação de estado de emergência tenha consequências graves para a vida democrática nos países, no momento em que se ergue o perigo concreto de, em nome da saúde público, o Estado poder controlar os cidadãos com apps espiões nos telemóveis, em Portugal há quem escolha criticar o Parlamento por insistir em celebrar como sempre - mas dentro dos condicionamentos estabelecidos pela DGS - a data mais simbólica da nossa Democracia.

Acusam os políticos que defendem esta medida de arrogância, teimosia, falta de respeito, o diabo a quatro. Em particular o Ferro Rodrigues, "um erro de casting", como li recentemente, "um político que não sabe lidar com os novos perigos para a Democracia".

Começo pelo final: se os políticos actuais soubessem lidar com os novos perigos para a Democracia, nem o Trump nem o Bolsonaro tinham chegado ao poder, nem o referendo do Brexit teria dado no que deu, nem a CSU alemã teria tido uma deriva populista e xenófoba tão flagrante - entre muitos outros tristes casos. Isto não há-de ser um problema apenas do Ferro Rodrigues.

E não esqueçamos nunca que, nas Democracias actuais, o verdadeiro erro de casting são políticos como o Viktor Órban e o Jarosław Kaczyński. Ou o André Ventura, num outro nível.

Nestes tempos perigosos, atacar e ridicularizar quem defende como indiscutível a decisão de dar um sinal claro de respeito pela Democracia e pela Liberdade é não saber discernir de que lado está o inimigo.

Mais: se nos damos conta de que um político democrata está a comunicar de forma insuficiente ou incorrecta, a nossa obrigação como cidadãos responsáveis é usar os meios ao nosso alcance para colmatar essa falha, em vez de fazer o jogo dos inimigos da Democracia. Temos hoje, mais do que nunca, a responsabilidade de participar solidariamente na protecção do sistema democrático.

Amanhã, às três da tarde, cantaremos o Grândola à janela da casa de cada um.
E depois continuaremos a lutar, dia após dia, para que as conquistas de Abril não se tornem uma recordação do passado.

25 de Abril sempre!

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"Ah, e tal - defender a Democracia, sim senhor, mas deviam ouvir a população que está a sofrer..."

Será que já se esqueceram porque é que a população está a sofrer? É para evitar a morte de pessoas muito concretas: o avô de Fulano, o pai de Sicrano, a filha de um deles, que sofre de asma. Isto não acontece apenas aos outros. E os políticos não nos mandaram a todos para casa para dar largas ao seu sadismo. Aliás: quem de nós queria estar na pele dos políticos actuais? Quem de nós queria tomar a decisão sobre quem e quando pode voltar à vida normal, sabendo que há o risco de sermos apanhados por uma segunda vaga?

A população sofre menos se no dia 25 de Abril o Parlamento ficar fechado? Porquê, não me dirão?

correcção fraterna

Ontem, à hora do jantar, bateram à nossa porta. Era o vizinho de baixo, a pedir para pormos uma protecção nos pés das nossas cadeiras, porque de cada vez que um de nós se mexia o barulho se ouvia no apartamento dele.
Pedimos desculpa, dissemos que íamos fazer, e ele então tirou do bolso uma embalagem de discos de feltro. Recusamos, porque já os tínhamos em casa, e só faltava mesmo pô-los nos pés dos móveis.
Depois perguntámos-lhe se havia mais alguma coisa que o incomodasse, ele disse que não, e despedimo-nos.

Fiquei a pensar na maneira pacífica como tudo decorreu. Geralmente as pessoas têm algum pudor em dizer aos vizinhos o que as está a incomodar, e esse silêncio embaraçado alimenta quotidianamente o desprezo e a raiva que envenenam as relações.

O tom pacífico do nosso vizinho lembrou-me um episódio que aconteceu há alguns anos, quando estava a entrar num parque de estacionamento de um supermercado numa ilha do mar Báltico: uma pessoa da terra veio ter comigo, pediu-me para abrir a janela do carro e disse com um sorriso encantador: "temo que esteja a entrar pelo lado errado de uma via de sentido único".
Há pessoas assim: que nos dão vontade de mudar tudo para nos tornarmos semelhantes a elas.
(Mas - infelizmente - nem sempre me lembro deste bom exemplo quando estou a corrigir erros alheios.)

No mesmo registo de comunicação não violenta, traduzo um comentário que li no mural de facebook de uma amiga, a propósito da violência doméstica em tempos de confinamento:

"Qualquer pessoa pode ajudar. Se têm a sensação de que há alguma coisa que não está a correr bem, arranjem uma desculpa para tocar à campainha desses vizinhos. É uma maneira simples de contribuir para acalmar um pouco a situação, e de dar uma oportunidade à vítima. Quando a cena se passa no espaço público, podemo-nos aproximar das pessoas em conflito e perguntar delicadamente pelas horas, ou por uma direcção. Tudo o que suspende por momentos determinada situação de conflito pode ser uma ajuda, e pode até salvar uma vida."

Este comentário resolveu-me uma dúvida que tenho há mais de quinze anos, quando vi na rua uma criança de três anos com uma mulher fora de si. A criança fazia uma birra, e a mulher gritava-lhe desalmadamente. Que devia eu ter feito? Confrontar a mulher não ajudaria nada, porque ela estava de cabeça perdida. Agora sei: devia ter-lhe perguntado onde é que havia uma boa loja de gelados, devia ter-me feito de burra para ela me levar lá, devia ter oferecido um gelado a cada uma delas. Talvez a criança parasse de chorar, talvez fosse até possível ouvir a mulher falar das suas dificuldades como educadora daquela criança.


21 abril 2020

os alemães, até quando estão distraídos têm graça

Notícias de hoje na Alemanha:

- a Oktoberfest de 2020 foi cancelada

- o aeroporto de Berlim vai ser finalmente aberto ao público em Outubro de 2020

Até parece que fizeram de propósito. O aeroporto de Berlim, que já fazia imensa falta em 2011 (primeira data anunciada para a conclusão), é terminado justamente na altura em que uma grande parte dos aviões estão parados. E a data é anunciada juntamente com a do cancelamento de uma das grandes atracções de turistas internacionais.


inveja e ressentimento

Muitas das reacções às comemorações do 25 de Abril no Parlamento que tenho encontrado por aí levam-me a concluir que a estratégia dos insidiosos - os que decidiram aproveitar o caso para criar uma profunda divisão entre os portugueses - consistiu em alimentar os sentimentos de inveja e ressentimento.

Inveja: "nós aqui fechados em casa, e eles no Parlamento em festanças e banquetes de um milhão de euros."
(Sim: alguém pôs a correr que o catering ia custar um milhão de euros - mais de 7.000 euros por bico. E houve quem tenha acreditado: hahahaha! que triste figura fazem!)

Ressentimento: "nós não podemos nada, mas eles ("aqueles deputados de m...") podem tudo. Roubam-nos a liberdade, mas eles próprios fazem o que querem. Nós nem podemos ir ao funeral dos nossos entes mais queridos, mas eles podem andar em festanças. Nós nem à Páscoa, nós nem ao aniversário da avó, mas eles..."
Sejamos sérios: o argumento "então eu não posso, mas ele pode? isto é lá exemplo que se dê?!" só pode ser invocado no dia em que virmos os nossos deputados a frequentar restaurantes que deviam estar fechados, a ir à missa a que mais ninguém pode ir, a ir a funerais para os quais não têm autorização, a ir festejar o aniversário da avó.
As comemorações do 25 de Abril são uma sessão de trabalho do Parlamento. Se queremos discutir a sua necessidade, vamos ter de discutir também a necessidade de outros trabalhos que continuam a ser realizados e não são absolutamente vitais. Querem mesmo ir por aí?

Uma pessoa lê os comentários nas redes sociais e até se sente tentada a acreditar que as comemorações do 25 de Abril este ano vão ser a melhor festa do século, uma autêntica orgia de luxo, prazer e gozo. Quem diria que os nossos deputados, que andam o ano todo com aquele ar tão sério, em chegando ao 25 de Abril revelam os maganões que na verdade são: levados da breca, doidos prá brincadeira...

Lembremos o essencial: este é um momento único na História da Humanidade, quando tantos aceitaram pacifica e solidariamente fazer grandes sacrifícios para evitar que os mais frágeis da sociedade morram vitimados pela covid-19. Pela minha parte, sinto-me profundamente grata aos governantes que estão a tentar gerir esta situação perigosíssima e inédita, a todos os que têm de ir trabalhar e o fazem cumprindo escrupulosamente as regras para evitar contágios, e a todos os que estão em casa como eu. Sinto-me pessoalmente grata, porque se a covid-19 vier parar à minha família tenho fortes motivos para acreditar que tanto eu como os meus filhos precisaremos de ajuda hospitalar. E temo que não haja capacidade para acudir a todos os que precisarem de ajuda nesse momento.

Perante este movimento de solidariedade único na História, e que nos devia encher de orgulho, pergunto: como é possível que de repente tantos de nós tenham desatado a debitar argumentos que vão beber à inveja e ao ressentimento?

Arrisco uma explicação: no ano passado o Steve Bannon anunciou que se ia dedicar mais à Europa. Nem sequer podemos dizer que não fomos avisados. Parece a anedota da loira que ao ver a casca de banana no passeio se lamenta "ai que chatice, lá vou eu escorregar outra vez":

Somos tão facilmente manipuláveis que chegaria a ser ridículo - se não fosse tão triste, se não fosse tão perigoso.


20 abril 2020

a zaragata


Olhando a toda esta distância para a zaragata da semana no espaço público português - as comemorações do 25 de Abril no Parlamento - dou comigo a entender as razões de todos:

- Os que afirmam que o Parlamento tem estado a trabalhar, e a celebração do 25 de Abril faz parte das suas honrosas competências; mais ainda: esta celebração é primordial do ponto de vista simbólico neste ano de 2020. Cito a Rita Dantas: "um ano absolutamente histórico para a democracia portuguesa porque, pela primeira vez, a sua casa maior acolhe no seu seio um representante da extrema-direita populista, a que até agora tinha resistido." O texto completo está aqui, e vale muito a pena ler.
Se forem mantidas todas as recomendações da DGS, se todos respeitarem os procedimentos e as distâncias de segurança, o que seria estranho era o  Parlamento abrir todos os dias para legislar, mas fechar no dia 25 de Abril. Tal como mencionei no post anterior, retomando o argumento da Páscoa: se durante todo o mês de Março e no princípio de Abril tivesse havido missas nas igrejas, ninguém aceitaria que as fechassem justamente na Semana Santa.
Além disso, a transmissão televisiva destas comemorações pode ter efeitos pedagógicos, por mostrar como é que as pessoas devem agir quando estão reunidas com outras em espaços públicos fechados, nomeadamente a distância que mantêm entre si, e a desinfecção repetida dos objectos que tocam (por exemplo: a estante para os discursos). Digo-o por experiência própria: vi isto há dias no Parlamento alemão, e fiquei realmente marcada por todo aquele aparato de cuidados de higiene.

- Os que são de opinião que, nesta altura em que se exige de todos que evitem ao máximo os contactos sociais, chegando ao ponto de impedir que os idosos e os doentes recebam a companhia e o conforto daqueles que amam, as celebrações no Parlamento são um péssimo exemplo e um sinal contraproducente de que já podemos deixar cair as guardas.
Além disso, pela própria natureza do acto, alguns dos convidados pertencem ao grupo etário de maior risco e é irresponsável expô-los a um perigo maior.
Finalmente: este é um tempo de fazer sacrifícios, e o Parlamento estaria muito bem se desse o exemplo.

Entendo estas razões. Apesar de ter a minha própria opinião, é-me fácil acompanhar os pontos de vista diferentes.

Mas isso sou eu. Visto à distância, o espectáculo é o de um povo a transformar um momento simbólico importante numa ferrenha disputa clubística irracional, ainda mais acesa que uma questão de bola.

Pergunto: a zaragata que por esta semana nos tem mantido excitadinhos é o efeito de terem apanhado demasiado sol na moleirinha, é o efeito do isolamento prolongado que começa a afectar até os mais pacientes, ou será o fruto de uma sábia manipulação para nos virar a todos uns contra os outros? Lembram-se de "A Zaragata", de Astérix? Estão conscientes de que as Democracias europeias estão a ser atacadas por forças que usam o debate público para construir e aprofundar trincheiras entre nós? Será que teríamos chegado tão longe nesta disputa sem as insinuações sobre "certos partidos pensarem que são os proprietários da Democracia", sobre "os deputados de m...", sobre a arrogância deste ou daquele político, sobre o carácter fascista de quem prefere que as celebrações este ano não se realizem nos moldes habituais?

Nós aqui a discutir aguerridamente uns com os outros: somos mesmo nós, ou estamos a deixar que façam de nós fantoches num jogo que nos escapa?

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A Helena Ferro de Gouveia sugere que no dia 25 de Abril os portugueses se unam a cantar o Grândola. Óptima ideia.
Acrescento um detalhe: para garantir que cantam todos ao mesmo tempo e ao mesmo ritmo, o Grândola da nossa unidade devia emanar do Parlamento, e entrar pela televisão em directo na casa de cada um. Esse seria o momento para os portugueses irem para as janelas cantar em uníssono para celebrar a Liberdade e a Democracia.

ADENDA: Por lapso dei a entender que a ideia seria uma sugestão da Helena Ferro de Gouveia, quando de facto se trata de uma proposta feita já por várias pessoas e organizações, nomeadamente o Vasco Lourenço (aqui), o PCP Madeira (aqui), a Câmara de Lisboa (aqui) e a Associação 25 de Abril (aqui).


ai, e tal, os cristãos não puderam celebrar a Páscoa mas o Parlamento pode celebrar o 25 de Abril...

Um dos argumentos mais usados por quem critica as celebrações do 25 de Abril é o da Páscoa: então os cristãos não puderam celebrar a festa maior do Cristianismo, e o Parlamento pode celebrar o 25 de Abril? Então as regras não são iguais para todos?

Facto é: o Parlamento não deixou de trabalhar. O que seria estranho era o Parlamento abrir todos os dias para legislar, mas fechar no dia 25 de Abril.

Imaginem que a Igreja Católica tinha continuado a ter missas diárias, cumprindo determinadas regras de segurança, durante todo o mês de Março e no princípio de Abril, mas na Semana Santa suspendiam tudo por causa da covid-19. Qual era a lógica disto? Nenhuma. Ninguém aceitaria fechar as igrejas justamente na Páscoa, caso tivesse havido missas nas semanas anteriores.

A mesma lógica se aplica ao Parlamento: porque é que devia fechar no dia maior da Democracia portuguesa, se tem estado a trabalhar todos os outros dias?

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Podíamos discutir os critérios para fecharem as igrejas e manterem o Parlamento aberto.
Boa questão - houve até uma paróquia berlinense que levou o caso a tribunal, alegando que o fecho das igrejas era um atentado à liberdade religiosa. O tribunal não lhe deu razão, e as igrejas permanecem fechadas.

No que diz respeito ao Parlamento, parece-me que ninguém põe em causa a sua importância: é essencial à sociedade e deve ser equiparado aos serviços fundamentais que não podem ser suspensos.

No que diz respeito à religião: por um lado, não é possível garantir que todas as pessoas das assembleias comunitárias tenham um comportamento rigoroso de prevenção de contágio (se nos supermercados já é o que se vê, quanto mais em lugares que são, por excelência, espaços de proximidade); por outro lado, pergunto se a celebração em comunidade é essencial para os cristãos sentirem a presença do Espírito Santo.

Desenvolvo um pouco mais: um padre meu amigo comentou recentemente que ouviu muitos católicos afirmarem que nunca viveram a Páscoa de modo tão profundo como em 2020. Aqueles para quem a Páscoa é realmente a festa maior do Cristianismo foram capazes de a recriar no confinamento do seu lar. A Igreja saiu dos templos, e entrou na casa das pessoas; em vez de decorrer como tradicionalmente na comunidade, este ano a celebração da Páscoa nasceu do coração e dos gestos de cada crente que a quis celebrar com verdade. Essas pessoas sentiram a presença do Espírito Santo nelas, e por isso disseram que nunca tinham vivido uma Páscoa de forma tão intensa.
 
Esta enorme crise, que tanto sofrimento tem causado, pode oferecer às Igrejas algo muito positivo: a oportunidade para os crentes se reinventarem como sujeitos da sua própria Fé e para, quando melhores tempos vierem, regressarem ao seio da comunidade revestidos de uma nova consciência de si próprios e da sua responsabilidade na casa comum.

alter ego


Lembra-me o facebook que há quatro anos estava entretida com problemas existenciais deste tipo:

Mas que grande perda de tempo! Primeiro, escondo os chocolates de mim própria. Depois, vou à procura deles. Finalmente encontro um, e quando estou prestes a comê-lo lembro-me que amanhã vou apresentar um livro e convinha-me perder 10 kg. Escondo os chocolates outra vez. Depois ocorre-me que não precisam de ser 10 kg, 8 já fica mais que bem. Vou procurar de novo os chocolates. E assim vai a vida.

Assim ia a vida, até que chegou Abril de 2020 e a questão da imagem foi reduzida à sua menoridade. O que interessa é quem somos realmente. E eu, eu... neste período de confinamento, estou a descobrir que tenho potencial para me tornar uma grande mulher.

(Assim o Alter Eco me ajude!)

19 abril 2020

Chico



Para que conste quem é amiga: aqui vos deixo uma hora trinta e nove minutos vinte e sete segundos de felicidade.

Se não tiverem tempo para tudo, podem ir - por exemplo - para 49:09. Impossível ouvir isto sem começar a dançar, sem começar a sorrir.

(só me chateia aquela lambisgóia nas teclas) (Chico! olha aqui: também toco piano!) (também tenho cabelos brancos) (que é que ela tem que eu não tenho, hã?) (e por sonhar o impossível, eu acho, sonhei que tu...)

dire merci




16 abril 2020

o Sepúlveda!

O Sepúlveda!

A primeira vez que soube da sua existência foi numa cozinha no Alentejo. O pai de uma amiga sentado num cadeirão, com um sorriso aberto e encantado, a ler-me as suas passagens favoritas de O Velho que Lia Romances de Amor.
"Olha isto, Helena, olha aqui: pode dar-se o caso..." - e ria, iluminado pelo humor do texto.

Abriu-me a porta para o mundo de Luís Sepúlveda, e entrei em vários dos seus livros como quem visita um amigo. O que li mais recentemente, as Crónicas do Sul, tem uma história deliciosa sobre um homem que anda no deserto da Patagónia à procura de um violino. Se não conhecem, espreitem. E imaginem-me a ler para vocês, com um sorriso iluminado pelo humor dele.

Não te digo adeus, Luís Sepúlveda.
Estás entrelaçado com a minha vida.

(Maldita covid.)


14 abril 2020

mineiros

Eduardo Galeano: «Al fin y al cabo, somos lo que hacemos para cambiar lo que somos.»

Gostei muito da frase mas, pensando bem, não concordo com ela.

Penso que é mais assim: somos mineiros de nós próprios.

O importante é procurar o que há de valioso em nós, em vez de nos martirizarmos a tentar ser outra pessoa.


proposta da Academia Alemã das Ciências para o regresso à normalidade

Alguns especialistas da Nationalakademie Leopoldina (a academia nacional das ciências da Alemanha) juntaram-se para oferecer ao governo alemão um conjunto de recomendações para o regresso à normalidade. Sintetizo e traduzo partes do artigo do Spiegel que revela o conteúdo do documento:

Os investigadores da Leopoldina apresentam um plano concreto

A Nationalakademie Leopoldina recomenda que o regresso à escola ocorra em breve. Segundo o documento em poder do Spiegel, as lojas e os serviços públicos também devem reabrir a pouco e pouco, e as viagens devem ser autorizadas - mas sob determinadas condições.

Artigo de Von Gerald Traufetter, publicado a 13.04.2020, 12:11

Numa conferência de imprensa na quinta-feira passada, Angela Merkel informou que conta com o trabalho da Academia Nacional das Ciências como "numa base sólida" para as decisões que têm de ser tomadas. Só isso permitirá a suspensão das limitações drásticas actuais à vida pública.

O documento de 19 páginas combina as questões médicas, económicas, constitucionais e psicológicas, e dá recomendações precisas de acção. É necessário "desenvolver critérios e estratégias para um regresso gradual à normalidade após as enormes restrições dos direitos mais básicos, como a liberdade de circulação".

Este é o resultado do trabalho de 26 cientistas reunidos por vídeo-conferência. Entre estes, encontram-se Lars Feld (presidente do grupo "Sábios da Economia"), Claudia Wiesemann (Ética), Reinhard Merkel (Filosofia do Direito), Armin Nassehi (Sociólogo). O presidente da Academia, Gerald Haug, disse ao Spiegel: ""No acalorado debate político, queríamos adoptar uma atitude calma e ponderada, oferecendo aos cidadãos uma perspectiva optimista".

A prioridade máxima é a protecção de cada pessoa contra a infecção pelo coronavírus. "Temos de evitar a todo o custo uma segunda vaga de infecções", disse Haug. "A regra básica deve continuar a ser a de observar a distância mínima e as medidas de higiene que já todos conhecem". No entanto, poder-se-ia aliviar algumas das medidas em curso, desde que se cumpra a regra: dois metros de distância e, se tal não for possível, usar máscaras de protecção.

Segundo os académicos, "a optimização dos cuidados de saúde e a rápida retoma da vida social, que actualmente se encontra em grande parte paralisada, não estão, em princípio, em tensão uma contra a outra, antes dependem uma da outra". Mesmo sem base científica sólida, as medidas drásticas tomadas no contexto de forte agitação do início da pandemia foram justificadas. Mas agora é necessário melhorar drasticamente. Recorrendo a amostras adequadas, é necessário investigar o estado de infecção e imunidade da população (ou seja: quantas pessoas estão infectadas e quantas já recuperaram) de modo a poder fazer previsões para um horizonte de uma a duas semanas. Só desse modo é possível avaliar, no caso de abrandamento da imposição de isolamento físico das pessoas, como é que os valores das infecções estão a evoluir e se é necessário reajustar as regras. Nas entrelinhas lê-se uma crítica ao facto de estes números actualmente não estarem disponíveis na internet a nível nacional.

Por esse motivo, os académicos também apelam para a utilização de apps para smartphones, à semelhança do que foi feito na Coreia do Sul: dados GPS fornecidos voluntariamente, em combinação com o rastreio de contactos - ou seja, o intercâmbio entre smartphones utilizando a tecnologia Bluetooth. Isso facilitaria a identificação das pessoas que estiveram em contacto com alguém recentemente infectado, para poderem ficar em quarentena. 

O presidente da Academia Alemã das Ciências está consciente da problemática ligada ao arquivo de dados de GPS dos cidadãos. "Por esse motivo, o uso dos apps deve ser voluntário, e os dados têm de ser apagados ao fim de quatro semanas". Os cidadãos devem ser sensibilizados para a razoabilidade da app, pois esta é a única forma de a aceitarem e ficarem motivados. Esta app é crucial para assegurar uma previsão diferenciada do curso da pandemia. A pedido do governo alemão, as empresas de software já estão a preparar uma app adequada.

Partindo do princípio de que isso será posto em prática, os académicos recomendam um regresso à normalidade o mais rapidamente possível, e identificam três áreas principais: educação, vida pública e política económica futura.

As escolas devem ser abertas o mais rapidamente possível para evitar que o ensino em casa agrave ainda mais as desigualdades sociais no acesso à formação, já de si muito grandes. Uma vez que isto se aplica sobretudo às escolas primárias, estas devem ser as primeiras a abrir, começando pelos anos mais próximos da transição para o ensino secundário. Os alunos devem usar máscaras de protecção da boca e do nariz, devem começar por ter aulas apenas de alemão e matemática, trabalhar em grupos de, no máximo, 15 crianças, e gozar o recreio em momentos diferentes das outras turmas.

13 abril 2020

mais um mês em casa

Macron dixit hoje: o isolamento continua até 11 de Maio (pelo menos).

Apesar de o primeiro mês não me ter custado muito, senti-me um pouco como se estivesse num tribunal a receber o veredicto: culpada.

Quanto ao resto: se bem percebi, a globalização começou a abrir brechas fortes. Mas gostava que a nova ordem que ele anunciou - com menos desigualdade de rendimentos e com mais solidariedade internacional - fosse algo tão certo como o aumento de poder do big brother que por aí vem.


ilusões



O arquivo do facebook lembrou-me um post que publiquei há 4 anos:

Há no South West dos EUA (haverá outro South West?) um canyon muito estreito, subterrâneo, onde ao meio-dia os raios do sol entram a pique. O guia atira areia ao ar, para os turistas fotografarem melhor aqueles raios de luz (parece uma conferência de imprensa, é quase ridículo). Ora então, minhas senhoras e meus senhores, aqui vos deixo os raios de sol do meio-dia no Antelope Canyon:




Hoje - neste estranho Abril de 2020 - vou, finalmente, revelar um segredo bem guardado: isto é muito mais bonito nas fotografias que no próprio local. No local também é bonito, não nego, mas tem demasiados turistas, além dos fotógrafos parados no meio do caminho. E tem corredores estreitos, tem partes sem interesse nenhum. Mais vale ficarem quietinhos em casa, a ver pela internet mundos maravilhosos, sem ter o desconsolo de irem ver a realidade e ganharem uma decepção suplementar...

(Isto sou eu a tentar ver aspectos positivos nesta nem sei já quantésima semana de isolamento generalizado...)



12 abril 2020

renascer

Recebi esta mensagem por whatsapp, juntamente com o pedido de partilhar o mais que possa.

A mensagem não tem muito de novo, o conteúdo está exposto de forma pouco articulada e passa ao lado de angústias existenciais que estão a atingir muitos de nós - além de ter algumas passagens que despertam o cepticismo que há em mim. Mas há um detalhe que a torna excepcional: veio de um círculo de pessoas que votam nos partidos conservadores alemães, e cuja voz se faz ouvir com força em níveis importantes da política e da religião. E é particularmente importante neste momento, quando parece que os políticos tomam decisões sobre questões cruciais para o futuro pensando que a sociedade ainda é composta maioritariamente por eleitores com o perfil dos cidadãos de há cinquenta anos.

Em suma: saber que esta mensagem circula em círculos conservadores alegra-me imenso, por ser sinal de que a vontade de reinventar uma outra maneira de estar neste planeta deixou de ser uma maluquice de alguns lunáticos de esquerda, e está a crescer cada vez mais em todos os sectores da sociedade.

(Aleluia! Aleluia!)

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Pode ser que os navios fiquem parados durante uma temporada nos portos italianos, ...mas também pode ser que os golfinhos e outros animais marinhos possam finalmente recuperar o seu habitat.
Já se vêem golfinhos nos portos italianos, e os peixes regressaram aos canais de Veneza!

Pode ser que as pessoas se sintam enclausuradas nas suas casas, ...mas também pode ser que tenham recomeçado finalmente a cantar umas com as outras, a ajudar-se mutuamente e, pela primeira vez desde há muito tempo, a sentir que pertencem a uma comunidade.
As pessoas estão a cantar umas com as outras!

Pode ser que a redução das ligações aéreas provoque em muitos uma sensação de sequestro e implique algumas limitações profissionais, ...mas também pode ser que a Terra tenha agora a possibilidade de respirar fundo, o céu ganhe cores mais fortes, e algumas crianças na China possam ver pela primeira vez a cor azul do céu.
Repara com os teus próprios olhos: como o céu está mais calmo e azul!

Pode ser que o encerramento de infantários e escolas represente um imenso desafio para os pais, ...pode também ser que muitas crianças, pela primeira vez desde há muito, tenham uma chance para desenvolver a sua própria criatividade, agir com mais autodeterminação, e desacelerar um pouco.
E os pais podem ter a chance de conhecerem aspectos dos seus filhos que até agora ignoravam.

Pode ser que a nossa economia sofra danos terríveis, ...mas também pode ser que nós finalmente sejamos rapazes de reconhecer o que é realmente importante na vida, e que o crescimento constante é uma ideia absurda da sociedade de consumo. Tornámo-nos marionetes da economia.
Já era tempo de nos darmos conta do pouco que realmente nos é necessário.

Pode ser que isto seja demasiado para ti, ...mas também pode ser que tu sintas que esta crise também oferece a oportunidade para fazer a mudança há muito necessária:
- que permite que a Terra respire,
- que oferece às crianças valores há muito esquecidos,
- que traz um enorme abrandamento no ritmo da nossa sociedade,
- que pode ser o princípio de uma maneira nova de estarmos uns com os outros,
- que, pelo menos durante algumas semanas, reduz o ritmo de crescimento da nossa montanha de lixo,
- que nos mostra até que ponto o planeta está disposto a iniciar a sua regeneração se a Humanidade tiver respeito por ele.

Recebemos um choque para acordar porque não estávamos a ser capazes de reconhecer a urgência do problema. Trata-se do nosso futuro. Trata-se do futuro dos nossos filhos.

(autor desconhecido)


11 abril 2020

nem parece Páscoa

Anteontem, quando Judas ia para dar o beijo a Jesus, os guardas levaram-no preso.

Ontem, foi isto:


E amanhã, aposto com quem quiser, vai ser assim: 



Quem me dera poder voltar ao fim de 2019 e fazer cara de má a toda a gente que fizesse piadinhas sobre estarmos a entrar nos "loucos anos vinte". É que se o primeiro da série já começa com um não-Março, seguido de uma não-Páscoa, e o mais que se teme, nem quero saber como vão ser os outros oito!

(Como dizia o Midas: be careful what you wish for...)

incompetência

Dizem que o facebook nos conhece melhor que os nossos próprios pais e talicoisa, enchem-nos de pavor do atento olhar omnisciente e omnipresente do big brother, e depois vai-se a ver e o algortimo envia-me publicidade de roupa assim:


Mas que grande incompetente, o algoritmo!
Ou incompetente, ou então está em regime de serviços mínimos por causa da covid-19.

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Hmmmm... serviços mínimos? Pessoal, toca a aproveitar para publicar o que nos apetecer - "ele" não está a olhar! ;)


concerto de Páscoa dos Filarmónicos de Berlim


Dantes...

(antes de continuar a frase, um comentário perplexo: dantes, a palavra "dantes" costumava ter muito mais distanciamento temporal e matizes dentro dela; mas neste Abril de 2020, "dantes" espreita-nos por trás de um muro sólido e preciso, construído de um dia para o outro. Como não pensar nos habitantes de Berlim naquele domingo 13 de Agosto de 1961? Adiante.)

...quando chegava a Páscoa os Filarmónicos de Berlim abalavam para os Osterfestspiele em Baden-Baden, deixando muitos berlinenses tristonhos a pensar o pior possível de quem se tinha lembrado de inventar as relações abertas.

Este ano, por causa da covid-19, tudo mudou. Os concertos de Páscoa são para todos - e gratuitos.

Hoje, por exemplo: podem assistir aqui, a partir das seis da tarde (hora de Portugal) ao terceiro concerto de Páscoa com esta orquestra. 

E por estarmos na Páscoa, recomendo que entrem nesta página, activem o voucher que lá encontram (que dá acesso gratuito a todo o arquivo durante um mês), e vejam a Paixão segundo São Mateus de J.S. Bach com encenação de Peter Sellars: esta.

Se apanharem o vício desta maneira de interpretar as Paixões de Bach (eu apanhei) podem continuar para a Paixão segundo São João. Esta, de simbolismo muito enriquecido por uma Maria Madalena grávida e com um vestido tipo Carmen.

Boa Páscoa a todos!




10 abril 2020

revisões da matéria dada



Pensava eu que já todos os portugueses (e pelo menos metade dos europeus) tinham visto o episódio do Novo Mundo Digital onde se fala do Dois Dedos de Conversa, mas parece que não. Ou então, suspeita-se que viram mas não entenderam tudo à primeira...

De modo que a RTP1, magnânima, vai passá-lo de novo amanhã, sábado, às 11 da madrugada.

(Deixa-me ver se desta vez tenho juízo, e não deixo nenhum post muito à vista a falar dos disparates do costume, como da outra vez, quando de repente apareceram aqui dois ou três curiosos, e o post que tinha no topo era um daqueles que só os clientes antigos toleram e apreciam.)

(O parêntesis anterior é um golpe de mestre em termos de estratégia comercial e fidelização dos clientes: dou a uns a impressão de que isto é um blogue sério, e aos outros a impressão de que é um blogue a brincar. Uns e outros vão ficando, iludidos. Hehehehe.) (Com tanta publicidade enganadora ainda vai sobrar para o provedor da RTP1, mas adiante.)


um teste simples e barato para o coronavírus


Na continuação do meu trabalho de campo - tão intenso quanto extenso - sobre o panorama chocolateiro em França, hoje abri um pacote de chocolate com bergamota. Bem me arrependi: foi para isto que faleceram tantos grãos de cacau?!

Para tirar o gosto decepcionante recorri ao de recheio de menta que há dois dias me ajudou com muito sucesso a chutar para canto aquela terrível vontade de me sentar numa esplanada portuguesa e pedir um café e um bolo.
Por estranho que pareça, o sabor estava completamente diferente e muito pior que há dois dias.

- Mau! Queres ver que apanhei covid-19?!, pensei eu.

É que, não sei se sabem, a perda de paladar é um sintoma.

Em desespero de causa recorri ao "Grain de Sail", primeiro amor da minha vida na Bretanha. Continua bom!

E foi assim que descobri que ainda não é desta que apanhei o vírus.
Quem quiser receber o teste: aceito encomendas.
(Só tenho de descobrir onde é que há uma loja de correios num raio de 1 km da minha casa.)


confere


o poder de dar vida


O facebook lembra-me que há 3 anos publiquei algumas fotos feitas da janela da minha cozinha em Berlim. Bem tenho tentado feitos semelhantes a partir da janela da minha cozinha em Brest, mas a palerma da lua só se mostra quando já vai bem alta, e já só se presta a "olha ali uma bola sobre tons de azul". Parva.

Agora fiquei a pensar: será que nos países das noites brancas a lua também aparece, e será que fica rasa à terra, como o sol? Noutros tempos seria capaz de pensar em planear uma viagem a um sítio desses para esclarecer a dúvida, mas agora que descobri que há vida mesmo quando os aviões ficam todos em terra, se calhar resolvia a questão com um livrinho. Ou a wikipedia, vá, que não queremos ser fundamentalistas.

O que também queria dizer: da colecção de fotos que publiquei há 3 anos, uma amiga Bebiano levou esta para a sua capa de facebook e chamou-lhe "Der Himmel über Berlin". Transformou-a: de repente esta imagem parecia-me espectacular.

Nunca serei capaz de agradecer o poder de (me) dar vida que existe nas palavras e nos gestos amigos. 


stress coronário

Por uma vez sem exemplo sinto-me contente com os exageros do Estado laico francês, que faz da Semana Santa uma semana igual a todas as outras, e não permite que esta sexta-feira seja feriado. É que - tã tã tã tãããã... - os técnicos da internet também trabalham hoje! E o que me estava destinado acabou de sair.

Habemus internetam! (ou internetum, ou internetim)

Digital Concert Hall, me aguarde!
E os outros streaming todos: também!

Chegou a minha hora de entrar no stress quotidiano deste tempo de coronavírus.
:)


09 abril 2020

"Dietrich Bonhoeffer" (4. Envolto em bons poderes, leais e calmos...)



Um dos cânticos que se ouve frequentemente nos serviços religiosos entre o Natal e o Ano Novo tem a letra de um poema que Dietrich Bonhoeffer escreveu na prisão pouco antes do Natal de 1944 - e uns meses antes de ser assassinado pelos nazis. Na imagem pode ver-se uma tradução para português que encontrei no livro "Dietrich Bonhoeffer: discípulo, testemunha, mártir - Meditações", de Harald Malschitzky". O original é bem mais belo ("Envolto em bons poderes, leais e calmos,") mas nem sei nem tenho tempo para traduzir isto como merecia.

Normalmente associa-se aqueles "bons poderes" ao poder divino. Mas há quem leia o início do poema como uma referência à sua família, que o envolve numa rede amorosa de cuidado e protecção.

Traduzo uma carta que o seu irmão mais velho escreveu aos seus próprios filhos pouco depois do fim da guerra, e que mostra bem como a família Bonhoeffer cuidou dos seus membros apanhados pela fúria nazi:

"... Gostaria de vos falar sobre tudo isto. Porquê? Porque os meus pensamentos estão lá neste momento, nas ruínas de onde não nos chegam notícias, na prisão onde visitei o tio Klaus (irmão), o condenado à morte, há apenas três meses. As prisões de Berlim! Que sabia eu sobre elas há apenas alguns anos atrás, e com que novos olhos as vejo agora! O edifício para prisões preventivas de Charlottenburg, onde a tia Christel (irmã) esteve presa durante algum tempo, a prisão militar de Tegel, onde o tio Dietrich (irmão) esteve preso durante ano e meio, a prisão militar de Moabit com o tio Hans (von Dohnanyi, casado com a irmã Christel), a prisão da SS na Prinz-Albrecht-Straße, onde o tio Dietrich foi mantido em cativeiro na cave durante meio ano, e a prisão na Lehrter Straße, onde o tio Klaus foi torturado e o tio Rüdiger (Schleicher, casado com a irmã Ursula) foi atormentado, onde ambos viveram durante dois meses após terem sido condenados à morte

Nos últimos anos, sempre que fui a Berlim esperei à frente das portas de ferro pesado de todas estas prisões. Ali acompanhei a tia Ursel e a tia Christel, a tia Emmi (de solteira Delbrück, casada com o irmão Klaus) e a Maria (von Wedemeyer, noiva do irmão Dietrich), que lá iam diariamente buscar ou trazer coisas. Muitas vezes fizeram o caminho em vão, muitas vezes se sujeitaram a ser insultadas por comissários vis, mas de vez em quando encontraram também um porteiro amigável com coração humano que transmitia uma saudação, que aceitava levar ao prisioneiro algo mesmo fora do período estabelecido, e até comida, apesar da proibição.
..... E agora! A última vez que estive em Berlim foi no final de Março; tive de regressar pouco antes do 77º aniversário do avô. O tio Klaus e o tio Rüdiger ainda estavam vivos; o tio Hans deu notícias através do médico que não pareciam totalmente desesperadas; do tio Dietrich, que tinha sido raptado de Berlim pelas SS no início de Fevereiro, não se sabia. Alguém falou com o tio Dietrich no dia 5 de Abril, na zona de Passau. De lá seria levado para o campo de concentração de Flossenbürg, perto de Weiden. Porque é que ainda não regressou? ..."

Os dois irmãos, Dietrich e Klaus, foram assassinados pelo regime nazi a 9 de Abril de 1944, menos de um mês antes do final da guerra, por ordem pessoal de Hitler. Com eles foram também assassinados os cunhados Hans von Dohnanyi e Rüdiger Schleicher. Um outro cunhado, Justus von Delbrück, seria libertado pouco antes do fim da guerra, e feito de novo prisioneiro pelo exército soviético duas semanas depois do armistício, vindo a morrer pouco depois num dos seus campos de concentração. E antes de todos eles fora já assassinado um tio da parte materna, o tenente-geral Paul von Hase, que logo após o atentado falhado a Hitler cercara a zona de ministérios de Berlim para prender os governantes.

Sobre o enorme sacrifício familiar, o pai de Dietrich Bonhoeffer escreveu a um antigo empregado em Boston:
"Pode com certeza imaginar como tudo isso nos afectou. Vivemos anos e anos com a preocupação dos que estavam presos, e dos que estavam ainda em liberdade mas em risco de serem também feitos prisioneiros. Mas como estávamos todos de acordo quanto à necessidade imperiosa de agir, e os nossos filhos sabiam o que os esperava caso o complot falhasse e estavam preparados para morrer, sentimo-nos muito tristes e ao mesmo tempo orgulhosos pela sua atitude digna. Recebemos dos nossos filhos boas recordações durante o seu tempo na prisão ... que nos comovem muito, bem como aos amigos deles ..."

O irmão mais velho, que só por milagre escapou ao radar dos nazis, viria a comentar mais tarde: "O que nos deu força foi a frente unida da família contra os nazis. Mas pagámos um preço altíssimo por isso."


"Dietrich Bonhoeffer" (3. Bonhoeffer e a Igreja Confessional)

Muito rapidamente, porque estou longe de ser especialista neste assunto: o regime nazi tentou apropriar-se das Igrejas, retirando-lhes importância e influência, e servindo-se delas para propagar a sua própria ideologia. A Igreja Confessional foi um movimento de resistência a estas políticas. Um dos seus primeiros líderes foi o pastor Martin Niemöller, que todos conhecem por causa do texto "quando vieram buscar os comunistas eu não disse nada, porque não era comunista..."

Este texto sintetiza brilhantemente o percurso algo errático da Igreja Confessional, que demorou muito tempo a entender que o seu dever de protecção se estendia a todo o povo, e não apenas a si própria. Naqueles tempos de terror e perplexidade não era fácil ver, e muito menos agir em conformidade com os valores atacados pela ideologia nazi. Pelo que a Igreja Confessional foi em simultaneamente perseguida pelo regime e frequentada por nazis e até SS. O próprio Niemöller fora desde 1924 adepto do partido de Hitler, e saudou a sua chegada ao poder em 1933.

Quando a perseguição aos judeus começou, em 1933, Dietrich Bonhoeffer e Martin Niemöller (que, sendo embora adepto do partido nazi, defendia ferozmente a independência da Igreja) fundaram uma Liga de Apoio aos Pastores de ascendência judaica, contra a nova imposição de os afastar dos púlpitos. Esta e outras iniciativas de defesa da independência eclesial viriam a evoluir para a Igreja Confessional, que se formou em Maio de 1934, com a declaração de Wuppertal-Barmen, que punha Cristo no centro da Fé da Igreja, livre de instâncias e critérios alheios, e recusava a apropriação do Evangelho para fins políticos totalitários. Era essa a matéria de discórdia entre a Igreja Confessional e os Cristãos Alemães (as Igrejas que se sujeitaram à Gleichschaltung).

Em Abril de 1935, depois de uma curta visita a Mahatma Gandhi, Bonhoeffer tornou-se professor no seminário de Finkenwalde, da Igreja Confessional. Foi aí que aprofundou a sua convicção de que a Igreja, mais do que uma comunidade de almas, é realmente o corpo de Cristo presente na terra.

Nas palavras de Wolfgang Huber (sublinhado meu): "O efeito de modelo de Bonhoeffer tem sem dúvida a ver com o facto de, no seu caso, a história de vida e a teologia estarem intimamente ligadas. No centro desta estreita ligação está o momento em que realmente descobre o Sermão da Montanha. Ainda antes da tomada do poder por Hitler, numa fase da sua vida em que a eficácia académica estava em primeiro plano, o Sermão da Montanha tocou-o de uma forma inédita. Esse encontro fez dele, como diria mais tarde em tom de autocrítica e demarcação de fases anteriores da sua vida, um verdadeiro cristão. E, ao mesmo tempo, deu à sua atitude ética a clareza que já vinha a fazer caminho dentro dele. O compromisso com a Justiça e a Paz tornou-se o motivo básico determinante, e com este a convicção de que o princípio orientador da ética cristã não é a pureza imaculada da própria consciência, mas a responsabilidade concreta pela vida e pelo futuro de outras pessoas."



o nosso presente actual

Hoje à oito da noite podemos ver em streaming o Wladimir Kaminer a ler um dos textos do seu, cito, livro ainda não escrito "A Alemanha a fumar na varanda - apontamentos do isolamento voluntário".

O problema é que à mesma hora o Macron se vai dirigir à França para dar notícias sobre o nosso futuro próximo. Pessoalmente, estava com esperança de que viesse dizer que daqui a dez dias começam a aliviar o regime de reclusão geral, mas entretanto desenganei-me por causa da trágica evolução que ontem se deu no número de infectados.

Ambos às oito da noite! Não podiam ter conversado um com o outro, para se porem de acordo quanto ao horário?

Assim, deixam-me completamente dividida: entre querer saber do meu futuro, ou aceitar os presentes que o nosso presente actual - tão diferente do nosso presente habitual! - nos dá.


"Dietrich Bonhoeffer" (2. biografia breve)

Traduzo um texto de Michael Grau, jornalista da EPD (Evangelischer Pressedienst), escrito por ocasião do centenário de #Bonhoeffer:

A sua estátua esculpida em pedra ergue-se sobre o pórtico principal da Abadia de Westminster, em Londres: entre os dez mártires do século XX aqui imortalizados, o único alemão é o teólogo e combatente da Resistência Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), assassinado pelos nazis. "Um exemplo para todos nós", foi o que lhe chamou o embaixador alemão em Londres. (...) Bonhoeffer nasceu em Breslau há 100 anos, no dia 4 de Fevereiro de 1906.

Morreu com apenas 39 anos de idade. Contudo, foi um dos teólogos evangélicos do século XX que mais profundamente influenciou a sua Igreja e a sociedade. Ruas e escolas, igrejas e centros comunitários têm o seu nome. Um filme conta a sua história. O seu protesto vigoroso contra os nazis, o seu papel activo na resistência contra Hitler, os seus livros e a sua morte como mártir são conhecidos mundialmente. O Presidente do Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha (EKD), o Bispo Wolfgang Huber, chama-lhe um modelo de fé e, neste sentido, um "santo protestante". 

Bonhoeffer era filho de um professor de Psiquiatria e cresceu com sete irmãos num bairro ocidental de Berlim. O seu percurso académico foi invulgarmente rápido: (...) aos 25 anos já era professor universitário. O seu aluno Wolf-Dieter Zimmermann, agora com 94 anos, lembra o seu carácter intelectual: "Expressava-se de uma forma clara e precisa. O seu contexto da alta burguesia marcou-o profundamente: "Só se permitia a familiaridade do tratamento por tu com pouquíssimas pessoas".

O teólogo tinha uma aparência forte e enérgica: "No ténis de mesa, ganhava-nos a todos". Quando estava tenso, fumava muitos cigarros. Durante uma estadia académica em Nova Iorque foi testemunha directa da segregação racial, quando um amigo negro se viu obrigado a ir numa carruagem de eléctrico diferente da dele. No início da década de 1930, movido pelo “sermão da montanha”, que o tocou muito, adopta ideias pacifistas.

Vê nos nazis um perigo para a Alemanha. Dois dias após a tomada de poder por Hitler, em 1933, discursa na rádio avisando que o "Führer" se pode tornar um "Verführer".
[ NT: Ah, a beleza da língua alemã! O prefixo „ver“ normalmente gera a ideia contrária da palavra central - rechnen/verrechnen é calcular/enganar-se nos cálculos; laufen/verlaufen é caminhar/perder-se no caminho. Como o „des“ português ou o „mis“ inglês. No caso, o trocadilho seria algo como “leading” e “misleading”. Mas a língua alemã faz mais que isso: Führer é o líder, o guia; Verführer - ver-Führer - também é o “sedutor”, ou aquele que alicia outros para fazerem algo. Mas não divagarei mais sobre esta curiosidade de o contrário de um líder ser um sedutor. ]
Em Abril de 1933, perante o início da perseguição aos judeus, afirma “Quando um bêbado vai ao volante, não basta pôr ligaduras à vítima sob as suas rodas, é preciso agarrar a própria roda". Mas naquela altura a sua opinião encontrou pouco eco.

Desgastado pelos conflitos na Alemanha, Bonhoeffer foi para Londres trabalhar como pastor no estrangeiro. Em 1935 regressou e assumiu um seminário de pregadores da "Igreja Confessional" na Pomerânia. O seu cunhado Hans von Dohnanyi (pai do que muitos anos mais tarde viria a ser presidente da câmara de Hamburgo, Klaus von Dohnanyi) informa-o sobre os planos de guerra de Hitler em 1938 e também sobre os planos para um golpe de Estado, que viria a acontecer em 20 de Julho de 1944.

Em 1939, Bonhoeffer dá algumas palestras nos EUA, país no qual os seus amigos tentam arranjar-lhe um cargo de professor. Mas em breve ele decide regressar à Alemanha: "Tenho que viver este período difícil da nossa história com os cristãos na Alemanha".

Para Bonhoeffer começa agora uma vida dupla plena de riscos: em 1940 deixa-se recrutar pelo serviço secreto militar alemão, onde o seu cunhado e outros trabalham secretamente para a Resistência. Oficialmente, é agora um agente da contra-espionagem. Na verdade, porém, informa pessoas de confiança nas Igrejas estrangeiras sobre os planos de golpe de Estado contra Hitler.

No início de 1943, em pleno caos da guerra, Bonhoeffer torna-se noivo de Maria von Wedemeyer, de 18 anos de idade. É detido pouco depois, a 5 de Abril. A sua noiva só o pode visitar na prisão com grandes intervalos. Na sua cela em Berlim-Tegel Bonhoeffer escreve à família e a um amigo as cartas que mais tarde se tornarão famosas sob o título "Resistência e Submissão".

O fracasso da tentativa de assassinato de Hitler, a 20 de Julho de 1944, revela toda a extensão da conspiração em que Bonhoeffer, o seu irmão Klaus e o seu cunhado von Dohnanyi estão envolvidos. Em Abril de 1945, com as tropas aliadas já a aproximarem-se, os nazis levam o pastor para o campo de concentração de Flossenbürg, perto de Regensburg. Em 9 de Abril de 1945, um tribunal sumário pronunciou uma sentença: morte por alta traição. Bonhoeffer faz uma pequena oração. Em seguida, despe-se e sobe para a forca. O médico do campo de concentração escreveu mais tarde: "Nunca vi um homem morrer em atitude tão piedosa".


"Dietrich Bonhoeffer" (1. "a origem do mundo")

Faz hoje 75 anos que o regime nazi executou Dietrich Bonhoeffer. Partilho o meu primeiro contributo de hoje para a Enciclopédia Ilustrada:

Daqui a pouco traduzo um resumo sobre a vida de #Bonhoeffer. Para já, conto uns detalhes da vida da mãe dele (a origem do mundo, como é sabido).

1. Um pequeno passeio de montanha russa pela cultura alemã: a mãe de Dietrich Bonhoeffer era neta do pintor Stanislaus Friedrich Ludwig Graf von Kalckreuth, que em 1858 foi viver para uma Weimar ainda vivamente marcada por Goethe. Nesta cidade, o pintor criou uma Escola de Artes e soube atrair alguns dos pintores mais modernos da época. Foi a partir desta escola que o movimento Bauhaus viria a nascer em Weimar em 1919.
O pintor Stanislau von Kalckreuth casou com Anna Cauer, da famosa família de escultores de Bad Kreuznach. Clara, a filha deles, teve aulas de piano com Clara Schumann e Liszt.
Esta Clara foi a avó de Bonhoeffer. Casou com um teólogo de outra família famosa, os Hase. O sogro era um professor de História da Igreja que Goethe trouxe para a universidade de Jena, e que em meados do século XIX tentava conciliar a tradição eclesial cristã com a Educação moderna. A sogra era filha de um dos mais importantes editores de Beethoven, com quem manteve uma forte troca de correspondência. Um dos cunhados de Clara era Victor Hase, a quem a Alemanha deve a conhecidíssima expressão Mein Name ist Hase, ich weiß von nichts“ (o meu nome é Hase, não sei de nada).
Devido a um conflito com o Kaiser, Clara e o marido mudaram-se para Breslau em 1894, onde criaram na sua própria casa um importante salão cultural. Tiveram seis filhos, três rapazes e três raparigas, e uma destas, Paula, professora de profissão, viria a casar com o psiquiatra e neurólogo Karl Bonhoeffer, com quem teve oito filhos.
Dietrich Bonhoeffer foi um deles.

2. Paula Bonhoeffer, que era professora, endendia que a escola da sua época deformava as crianças e atrasava o seu desenvolvimento, e por isso decidiu manter os seus filhos afastados dessa instituição, cuidando ela própria da respectiva instrução. O resultado foi uma espécie de geração ínclita: pessoas de inteligência brilhante, grande cultura, e sólidos valores.
Valores esses que custaram a vida a alguns deles, quando o regime nazi se deu conta do seu envolvimento na Resistência.


gripezinha



Os números de vítimas nos EUA. Os números de vítimas na Espanha. Os números de vítimas em França. Os números de vítimas.

Os números: o horror, da primeira vez que na Itália morreram quase mil pessoas num dia só, e o horror que é já não ficarmos chocados do mesmo modo, agora que todos os dias morrem muitas mais pessoas.

As pessoas que morrem - algumas delas com nomes que todos conhecemos, sinal de que isso não acontece "apenas aos outros".

Também eu, no princípio, pensei que seria uma "gripezinha".
A covid-19 ensina-nos a humildade a uma velocidade vertiginosa.


08 abril 2020

"Roma Armee" - uma peça de teatro sobre ciganos, feita por ciganos



Porque hoje é o Dia Internacional dos Povos Ciganos, o Teatro Gorki de Berlim tem durante 24 h em streaming a peça de teatro "Roma Armee". É em várias línguas, e tem legendas em inglês.

Uma peça absolutamente imperdível, que nos convida a abrir os olhos para a realidade - as realidades - desses que vivem entre nós, mas são mantidos à margem da nossa sociedade.

Demora quase duas horas, e ficará online até às cinco da tarde de quinta-feira, 9.4.2020.
Vão por mim: não percam.

Mais informações: https://www.gorki.de/en/roma-armee

E o filme completo (durante as próximas horas): https://www.gorki.de/en/gorki-stream


a solução russa

Como não há dois sem três (enfim, tem dias) e como aquela minha amiga que confessou o seu amor pelo Wladimir Kaminer também informou que pôs a filha dela a estudar alemão por causa destas e doutras, aqui vai a tradução de um terceiro post dele no facebook:


Na Rússia, o presidente reconheceu o perigo da pandemia, e decidiu não seguir nem o caminho asiático nem o europeu, mas o seu próprio caminho russo, e enviou toda a gente de férias a partir da próxima semana, com salário completo. As pessoas não são obrigadas a ficar em casa pasmadas em frente à televisão, podem sair para a natureza, fazer churrascos e festas. Após um modesto pedido do presidente, os empregadores de todo o país concordaram entusiasticamente em assumir os custos destas férias. Em seguida, Putin foi à clínica de doenças infecciosas de Moscovo e, num fato de protecção amarelo vivo, visitou um doente com pneumonia em estado perigosamente avançado. Para o paciente a visita foi uma surpresa, como viria a afirmar na entrevista posterior, dizendo que tinha sido informado com apenas dois minutos de antecedência. Estava prestes a despedir-se definitivamente do mundo, de repente a porta abriu-se e Putin entrou. Levanta-te e anda! disse o presidente, e desapareceu de novo. O homem sentiu-se imediatamente melhor, o teste de Corona deu negativo, e teve alta do hospital. Agora espera-se a visita do presidente em todos os lares onde há pessoas com tosse. Apesar de ter havido uma cura milagrosa, a administração da cidade de Moscovo está muito preocupada. Quase todas as celebrações colectivas foram canceladas, excepto o desfile de 9 de Maio. "Vencemos a pior epidemia do século XX, o fascismo, por isso não vamos meter o rabo entre as pernas perante um vírus qualquer", é a opinião generalizada no Ministério da Defesa. Segundo o ministro, serão tomadas todas as precauções: todos os soldados que participarem no desfile terão as mãos lavadas e a febre medida três vezes por dia. Os convidados estrangeiros que confirmaram a sua participação - Macron, Modi e O'Brien - terão de entrar em quarentena duas vezes, antes e depois. Portanto, nada pode correr mal.





passe de saída

Por causa de uma amiga que anunciou que gosta do Wladimir Kaminer mais do que gateau breton, chocolate e bica acabada de tirar, tudo junto, traduzo mais um post dele publicado no facebook:


Estamos todos no mesmo barco. Os meus compatriotas têm medo de em breve começarem a ser espiados como os chineses, com a ajuda do código QR.
Na internet já desenham alguns cenários possíveis. Como este:

Obrigado por utilizar a nossa app. O seu registo foi concluído com sucesso. Escolha entre as seguintes opções: Activar o código QR para a licença de saída
- Sim
Por que razão quer sair do apartamento: levar o lixo à rua, passear o cão, ir às compras. 
- Levar o lixo à rua.
De acordo com as nossas informações, a sua casa tem um tubo para despejar o lixo. Escolha outro motivo
- Passear o cão.
Tanto quanto sabemos, não existe nenhum cão registado no seu nome. Escolha outro motivo
- Compras
Escolha na lista de produtos de necessidades básicas aquele de que precisa
- Cigarros
Fumar é nocivo para a sua saúde. Escolha outro produto da lista de produtos de necessidades básicas
- Cerveja
O álcool é nocivo para a saúde. Escolha outro produto da lista de produtos de necessidades básicas
- Queijo fresco. Leite. Manteiga.
De acordo com as nossas informações, comprou dois litros de leite ontem. Pode fazer com eles queijo fresco e manteiga sem sair do apartamento. Atingiu o seu limite de hoje para a emissão do passe de saída com código QR. O próximo pedido pode ser feito em 47 horas e 41 minutos. Por favor, classifique a nossa app.


salsichas e papel higiénico

Nestes tempos de Covid-19 não nos podemos distrair: o que ontem era verdade será amanhã visto como errado, os temas mais importantes apagam-se de um dia para o outro. O açambarcamento de papel higiénico, por exemplo, é muito princípio de Março de 2020.
Mesmo assim, traduzi um texto - aqui, no original - de Wladimir Kaminer, de 19.3.2020.
Reli-o hoje, e continuei a achar-lhe graça.


Antes de entrarmos em isolamento voluntário ainda fui com a minha mãe às compras. Ela queria comprar farinha, não para guardar em casa, mas para fazer um bolo. Não havia farinha à venda, e papel higiénico também não. As prateleiras de conservas estavam igualmente vazias. Até a pobre paté da Silésia em frascos de vidro, que durante anos e anos ninguém quis comprar, tinha abandonado a loja até à última unidade. Alguns consumidores decepcionados faziam selfies em frente às estantes vazias. A minha mãe, nascida em 1931, olhava para estes nativos frustrados tomada de alegria e um certo prazer pelo azar alheio. Sentia-se nostálgica. O que aqui na Alemanha era um estado de excepção tinha sido no nosso país, a União Soviética, a situação habitual. A população soviética não se deixava amedrontar pela falta de papel higiénico, todos sabiam muito bem qual era o jornal mais adequado à função, desde que não se usasse a primeira página para esfregar, porque tinha títulos grandes, ou seja: muita tinta. E as salsichas soviéticas, a nossa delikatesse favorita, só raramente se viam. O mais importante é que estes dois bens de consumo nunca estavam disponíveis em simultâneo. A salsicha só vinha quando faltava o papel higiénico; se a salsicha falhava, o papel higiénico aparecia imediatamente. Esta alternância mágica de bens de consumo suscitou na população a crença dialéctica de que um era produzido a partir do outro, ou seja, que o ingrediente principal da salsicha era o papel higiénico. E foi por isso que a minha mãe atravessou o supermercado tomada de uma certa nostalgia, antes de se entregar ao isolamento voluntário em frente à televisão. 

Abanou a cabeça e sorriu - mas não se riu. Como diz um antigo ditado russo: "Quem serviu no exército não se ri no circo". O inverso também é possível. 

"zelador"

#Zelador: uma palavrinha tão boa, e eu sem internet praticamente o dia todo! Já me davam a medalhinha de Tântalo-Gold...

Queria falar das portuguesas nos prédios parisienses, esteio da casa, e dos zeladores de bloco na Alemanha nazi, pequeno esteio do regime de terror. E, dentro destes últimos, contar uma história de Berlim: a mulher de um Blockwart, que tomou conta de uma pequenita filha de judeus e a escondeu na cave até chegarem os russos. Do fundo da escuridão, a pequena nuance de humanidade.

Mas, em tempo de reclusão forçada, o desenvolvimento mais óbvio é este fenómeno de nos tornarmos todos zelador e acusador dos outros.
Eu própria, esta manhã, fiz comentários poucos simpáticos sobre os trabalhadores do estaleiro militar em frente à minha janela: remendar um barco de guerra é uma actividade tão urgente e fundamental que justifique este bando de homens em azáfama, demasiado próximos uns dos outros e sem máscara? Então o Estado francês não cumpre as suas próprias regras?
Também penso muito mal de certos vizinhos meus, que convivem alegremente com os seus amigos na entrada do prédio e no jardim.

Há despeito na minha crítica: eu que me privo de tanto, e eles que fazem o que querem.
E há medo: já tive várias vezes problemas de pulmões, não quero correr o risco de apanhar covid.
Devo ficar calada? Devo criticar abertamente? E que resposta me darão?
“Sou eu acaso o guarda do meu irmão?”, perguntava Caim cinicamente.

Seremos capazes de um esforço de solidariedade e responsabilidade liberto da armadilha do poder sobre o outro?

Estou a falar da covid, mas o que me preocupa é a verdadeira crise do nosso tempo: o aquecimento global. Seremos capazes de escolher um estilo de vida menos depredador, e ter a liberdade interior de conviver em silêncio com o comportamento depredador dos outros?

Mais: como aceitar o comportamento depredador dos outros? Será possível ser zelador do planeta sem ser simultaneamente zelador-acusador dos outros?

07 abril 2020

Boris Johnson com covid

O Boris Johnson com covid nos cuidados intensivos.

🙁
Pobre Reino Unido, tudo lhe acontece.

*** Nunca gostei do Johnson. Fiquei chocada com aquela irresponsabilidade inicial em relação à covid. Mas agora, ao ler a notícia de que está em estado gravíssimo, e a sua companheira (em estado avançado de gravidez) também tem covid, sinto-me triste. Ou seja: acabei de descobrir que não o tinha arrumado na mesma gaveta que o Trump e o Bolsonaro. *** E deslarguem-me, por favor: bem sei que é um político que fez muito mal ao seu país - desde o modo como mentiu na direcção do Brexit até à irresponsabilidade no início da crise da covid. Mas fiquei triste por ele e pelo país ao saber que estava gravemente doente. Ao contrário das opiniões, que se podem e devem discutir, os sentimentos acontecem-nos.
***
Esta passagem do Boris Johnson - um saudável cidadão de 55 anos - pelos cuidados intensivos tem ao menos uma vantagem: pode ser que cale o pessoal que anda a sugerir mais ou menos abertamente que bem podíamos continuar a nossa vidinha, porque a covid só é perigosa para pessoas com doenças graves e mais de oitenta anos, que assim como assim um dia destes tinham de morrer...