30 janeiro 2012

outra vez nozes...

As pistas estäo óptimas. O tempo está fantástico. Estou numa das regiöes de ski mais famosas do mundo (enfim, do mundo que eu conheco...) e... o que realmente me dá gosto é o momento em que tiro os pés das botas, ou o pequeno-almoco em roupa interior de ski, ou o aprés-ski com chá e bolos.
Estas nozes, estas nozes.

27 janeiro 2012

tudo coberto de neve

Anny Marii Jopek e Pat Metheny, "tudo está coberto de neve".
Era bom, era. Quando muito, geada - as ervas brancas, o chão de terra muito duro como nos natais da minha infância.
Duvido cada vez mais que este ano a neve dê um ar da sua graça em Berlim.



Bom, se a montanha não vai ao Maomé... lá vamos nós a caminho do Sul, dos Alpes, para um sítio onde a neve é certa e farta. Um vale largo e cheio de luz, entrecortado de belíssimos lagos. A ver se é desta vez que damos uma voltinha na "Ferrovia Rética", a ver se é desta vez que consigo fotografar a vista de Muottas Muragl tal como a guardo - simplesmente mágica - na memória. Até já!

 (foto)

correio das ilhas II (5)

Olá, Rita

este é o último postal das férias. Muito mais havia para dizer, mas como estou a sair de novo, ficamos assim.




Eu, que nem percebo nada de futebol, nem sei quantos jogadores há em cada equipa (disseram-me que são 11, incluindo o guarda-redes, mas depois às vezes dizem que há jogos com 10 de um lado e 12 do outro e logo ali me baralho outra vez), e nunca percebi aquela loucura dos clubes e a maluquice das claques, pois cá venho com estas fotografias a modos que agradecer um dos momentos altos daquela semana de superlativos: nos bastidores de um jogo no estádio do Benfica.
Um dia destes hei-de escrever um "ensaio sobre o sonambulismo": belas surpresas que vêm ao meu encontro, andando eu feita dorminhoca pela vida.

E gracias a la vida, pois, que ultimamente é sobretudo o que me ocorre dizer. 

correio das ilhas II (4)

Olá, Rita

eu pareço aquelas pessoas que só depois de regressarem das férias é que mandam os postais...
"Pareço", diz ela. Hehehe.

Serve a presente para passar uma mensagem que recebi via facebook na véspera de voltar para casa:

olá mãe, 
estou destruir tua cosinha
Matthias


Pois: acabaram-se os tabs da máquina de lavar a louça e o rapaz, desenrascado, pôs líquido de lavagem manual. Mas não me meti no primeiro avião para Berlim: não me apetecia nada limpar aquela trapalhada toda.

Um Ano em Telavive

À atenção dos portugueses que estarão em Berlim no próximo dia 1 de Fevereiro, repasso o convite que me enviaram:

Queria convidar-vos para o primeiro lançamento em Berlim do meu livro "Um Ano em Telavive", que terá lugar no dia 1 de Fevereiro, às 19h, na "Livraria", Torstr. 159, em Berlim-Mitte.

Luísa Coelho, leitora do Instituto Camões, irá apresentar "Um Ano em Telavive" e dirigir a entrevista, enquanto em pano de fundo passarão as minhas fotos da Israel a ocidente da linha verde. Por fim, haverá um debate com participação do público. O evento será traduzido em alemão por Niki Graça.

"Um Ano em Telavive" é um livro de literatura de viagem de estilo anglo-saxónico sobre Israel, abrangendo o território israelita a ocidente da linha verde. Tem 53 fotografias tiradas em viagem, e um glossário hebreu-português, salpicado de árabe e turco.

Lá vos espero para conversarmos.

Abraço,

Cristina Dangerfield-Vogt

26 janeiro 2012

trabalhar ao som de música assim (4)



Em repeat.
Corro o risco de fazer uma tradução de software a descair ali para os lados da poesia.

***

Às vezes aparecem frases - sobretudo nas mensagens de erro - que são prova do sentido de humor dos programadores. Hehehe, pensa a tradutora, e dá-se ao luxo de repetir a gracinha na sua língua. De facto, é mais assim: às vezes apareciam frases que. Era no tempo em que tínhamos todos vinte anos, e os maiores génios da empresa iam aos congressos em t-shirts descuidadas.

por falta de tempo

Por falta de tempo, volto a algo realmente importante e essencial.   (já votaram hoje no aventar?)   (hihihi)    (mas porque é que eu não consigo resistir a perder o tempo - que não tenho - com gracinhas patetas?)    (adiante)     (e desculpem)

Por falta de tempo para mais, copio para aqui um cartoon que encontrei no facebook graças a um amigo. Além de ser um desenho genial (ai, Quino!), não nos livramos tão facilmente desta ideia incómoda de haver por aí algo diabólico que nos ovelhiza a vida.



25 janeiro 2012

sonoplastia


 Já passei tantos sábados de inverno assim (os patos na água gelada, o trenó na neve, os miúdos animados como se o frio lhes cantasse ao sangue) mas faltava-me esta música.

Agora vejo que tenho a sonoplastia da minha vida muito atrasada...

nunca fui boa a entender estatísticas

Andei a cuscar nas votações do concurso "o melhor blogue de 2011" do Aventar, e cheguei à conclusão que está tudo maluco. Estes blogue tem mais votos que A Natureza do Mal e o Sound & Vision (o Sound & Vision, meu deus, que ainda por cima está na gaveta certa!). E está a poucos votos do 5 Dias.
Além disso, tem mais votos que 4 dos 5 blogues concorrentes na categoria "eróticos". Hehehe, estava a pensar tirar aqui umas conclusões, mas é melhor ficarmos assim.

uma informação útil para interessados em trabalhar na Alemanha

"A Federação dos Empresários Portugueses na Alemanha - VPU activou, nos inícios do corrente mês de janeiro, uma Bolsa de Emprego online. Este serviço está disponível no site da VPU em língua portuguesa e em alemão e destina-se a divulgar a procura e a oferta de trabalho, com interligação entre Portugal e a Alemanha ou com componente bilingue.

Este instrumento, estando disponível tanto para a procura como para a oferta de emprego, prestação de serviços e/ou estágios, pode ser utilizado por empresas e particulares em Portugal, na Alemanha ou internacionalmente. Os utilizadores poderão registar-se diretamente em português e/ou em alemão, sendo que a inscrição será em seguida ativada, quando confirmada pela VPU.

Convidamos todos os portugueses e todos aqueles que pretendam divulgar ofertas ou procura de emprego, a registar-se nesta bolsa e a fazer dela um instrumento vivo de divulgação."

a última crónica da Raquel Freire na Antena Relvas

(copiado do Aventar, inclusivamente o título)




24 janeiro 2012

correio das ilhas II (3)

Olá, Rita

foram cinco dias muito intensos.
Reencontrei amigos que não via há mais de vinte anos - e que maravilha regressar a essas amizades que permanecem no tempo! Continuei conversas interrompidas no fim do Verão, comecei conversas novas.
Foram dias de tal riqueza que tenho dificuldade em refazer percursos e momentos: onde estive, com quem, quem disse o quê. Desorientada, resta-me apenas esta mistura de alegria e gratidão. A vida pode ser tão boa!

Agora sei como é subir as escadas do metro do Chiado a correr, não por estar atrasada, mas por ser levantada por asas imensas que crescem dentro do peito.
As escadas em saltos leves, as asas as suas raízes bem enterradas no coração.

já ganhei

Sem eu saber ler nem escrever, este blogue passou à segunda volta no concurso do Aventar.
Entretanto foi reclassificado, e agora já não é revelação de 2011 (lá se foi o botox). Encontrei-o entre os Diários de Bordo - e gosto muito mais assim.

Fui espreitar as votações. Vem logo a seguir à Ana de Amesterdão. Ena, ena, a Ana de Amesterdão a sentir o meu sopro quente na nuca, e a tratar de correr mais depressa? Hehehe, o céu é o limite.

Andam por aí movimentações de bastidores muito divertidas. Já me ri muito pelo meio do post e dos comentários. E sorri, sobretudo. Saber que há pessoas que se dão ao trabalho de seguir um link para votar neste blogue, quando não há absolutamente nada para ganhar, é um sinal iniludível da existência de impulsos de bondade e amizade aí desse lado.
Muito obrigada - vocês fazem-me uma parte muito bonita do meu dia.

Mesmo que este blogue fique no último dos últimos lugares: eu, já ganhei.  

correio das ilhas II (2)

Olá, Rita

eu em Lisboa tu em Berlim, eu em Berlim tu em Lisboa: andamos desencontradas de arquipélago.
Mas não tem importância. Temos a amizade amarrada à mesma estrela, por ela nos guiamos nesta navegação à vista e à distância.

19 janeiro 2012

happy birthday, Simon Rattle!




Já disse que Berlim é uma cidade fantástica? Faz hoje um ano, no início da segunda parte de um concerto da Filarmónica, algumas pessoas do público (algo me diz que eram os meus companheiros dos bancos de pau) cantaram os parabéns ao maestro, que nesse dia festejava 56 anos.

correio das ilhas II (1)

Olá, Rita,

em suma, é isto: ainda agora cheguei, e já me está a saber a pouco.

No check in, a senhora perguntou-me se no voo para Lisboa queria um lugar à janela ou no corredor. Hahaha, que pergunta. O avião passou por cima da cidade, deu a volta quase sobre o mar, sobrevoou a ponte 25 de Abril... melhor que isto, só mesmo um aeroporto com nome de poeta no Rio.

À chegada, grande algazarra à saída do aeroporto. "Portugal", pensei eu. Mas não. Era mesmo comigo: uma grande surpresa. E depois, foi sempre a melhorar ainda mais.

Podes dizer ao simpático cjs que sim, à noite fui à catedral, mas fiquei na sacristia. Foi fantástico.
Antes disso fomos para a culinária da saudade numa Kneipe de benfiquistas junto ao Media Markt, comer pratinhos de polvo e orelha e um prego. Ou estava muito bom, ou eu tinha muitas saudades.

À tarde dei uma grande passeata a pé, até ao Chiado, com um amigo. Fomos à Bertrand, pegámos ambos no novo livro do Manuel António Pina, mesmo junto à caixa, e eu disse à vendedora "quero dois" e ele disse "não, eu é que quero dois", e ficamos ali a rir os três.

O Carlos Azevedo, num comentário num post anterior, cita: "Las vidas son siempre mucho más pequeñas que nuestros sueños; incluso la vida del hombre o la mujer más grandes es infinitamente más estrecha que sus deseos."
Pois bem: hoje não acordei nada assim. A minha vida é muito maior que alguma vez poderia ter sonhado. Porque estar em frente a uma vendedora da Bertrand a decidir - rindo - quem compra dois livros, ou estar a fazer a minha mala enquanto uma amiga vai pacientemente tirando os borbotos das minhas camisolas é daquelas coisas que enchem o coração de maneira a sobrar alegria para várias vidas.

17 janeiro 2012

direcció Lisboa

"Direcció Lisboa" é um curioso livro de Josep Pla, publicado em meados dos anos 70, "un llibre de viatges, pur i simple. És un llibre de viatges per la Península Ibèrica, prenent com a direcció i finalitat Lisboa, capital de Portugal."

É ele e eu. Nos próximos dias, estarei muito "direcció Lisboa".

***

O prefácio deste livro termina assim: "Tots els meus llibres són provisoris. El desig de tornar-los a veure i tornar-los a fer és permanent. Ja serà difícil. L'art és molt llarg i la vida és curta - deien a l'escola. És curtissima."

Penso imediatamente na teoria do Kundera: não acontece apenas aos livros - a nossa vida não é um esquisso que podemos depois passar a limpo, é já a obra final.

Pois sim: a vida é curtíssima, e talvez não passe de um esquisso do que seríamos capazes se soubéssemos o que saberemos mais tarde - mas é muito boa! Amanhã: direcció Lisboa.

encontros imediatos de etéreo grau



O Facebook tem um novo VIP: Nossa Senhora de Fátima.

É tão estranho, que queria muito que fosse a brincar. Maria elevada a divindade, referindo-se a si própria com maiúsculas e com um discurso que habitualmente se atribui a Deus ("Cada instante da tua existência é preparado por Mim, para Eu poder por meio de ti, manifestar-Me cada vez mais.")

Cada entrada recebe largas centenas de "gosto" e largas dezenas de partilhas. Desde o Meu Pipi que não via tal fenómeno.

Fico a pensar que aquela teoria de Portugal ser um país profundamente mariano, que li num livro do D. Manuel Clemente, deve ser mesmo verdade. Ele sabe coisas que eu ignorava completamente, ocupada que ando com o meu umbigo e o meu microcosmo. E mais uma vez concluo: não gostava nada de ser Papa de uma religião que agrega tantos mundos paralelos.

0 votos

Andei a controlar os votos no Aventar, e encontrei alguns blogues com 0 votos.

Fiquei logo com vontade - e um fundinho de ternura, confesso - de ir espreitar esses. Gente que nem se dá ao trabalho de votar em si própria: ou são ainda mais desligados que eu, ou então são pessoas mesmo muito interessantes.

16 janeiro 2012

quem é que aplicou botox a este blogue, heinhe?

Estava eu toda descansadinha da minha vida a olhar para as estatísticas do blogue como faço muito de quando em vez (aproveito para avisar quem faz links para aqui: se eu não reagir, é porque provavelmente não vi, que esqueço-me muito de controlar essas coisas - desculpem e por favor tenham paciência com a trenguinha), quando reparei que havia um número elevado de visitas vindas do Aventar.
E era de um posto chamado "blogs do ano 2011".
Ai.

Fui ver: nem constava dos de actualidade política (sim, não me admira: desde que começou a crise, tenho andado a enterrar a cabeça cada vez mais fundo noutros assuntos, de tal maneira que um dia destes ainda me vêm buscar para fazer bifes de avestruz), nem nos de auto-conhecimento e reflexão filosófica (como terão eles sabido da falta de espelhos cá em casa?), nem nos de arquitectura, artes visuais ou ciência (compreende-se), nem nos de cinema (aqui, já comecei a duvidar: então isto que eu aqui conto não dava um filme? ou até vários?), nem media, culinária ou desporto (toma, que é para aprenderes a fazer mesmo o que tencionas, aquela rubrica "às três pancadas" que querias iniciar para contar as tuas receitas favoritas, e toma, que é para ires assistir mais vezes aos jogos de futebol do teu filho), nem diários de bordo (nem diários de bordo? mas isto que eu aqui faço não é um diário de bordo?! pois se até inclui as partes de meter água e tudo!!!) (e foi então que comecei a temer o pior) (e continuei a ver a lista, caramba, eles blogues em Portugal são mais que as mães), nem direito, educação e escolas (não leram a minha série Jenaplan, é o que é), e depois chegou a vez dos eróticos, oh, não!, não me digam que foi aqui que me arrumaram?!, não, por sorte também não estava nos eróticos, ufff, que eu ainda não recuperei completamente daquela vez que me aconteceu um bilf. Também não estava no fotografia (hei-de ir esfregar-lhes no monitor o orgulho dos meus olhos, o "Monet na Prússia", que é para ver se eles têm coragem de me dizer que isto não é fotografia), ...

- Ó Heleninha, tu tem cuidado, olha que foste nomeada e estás a fazer aqui figura de mal agradecida!
- Ai! Pois é! Achas que apague tudo e recomece?
- Não, acaba lá isso depressa, que tens aquele trabalhinho para fazer.

..., nem nos geek (ah, obrigadíssima, vocês são amorosos!), ...

- Viste? Viste? Comecei a compor a coisa.
- Vá. Menos mal.

..., nem nos de História (sim, mas se houvesse uma rubrica estória, era um ror delas), nem nos de humor (de onde depreendo que quem se ri aqui por estes lados é muito meu amigo, obrigadinha, obrigadinha, voces são óptimos, e isso é o que realmente interessa) (eh, pá, com tantos e tão bons amigos, não terei já currículo para concorrer a um daqueles lugares que dão 70.000 euros por mês e só é preciso ter um telemóvel com muitos números? faço preço de amigo, quaisquer 20.000 por mês já me bastavam), nem livros, nem locais, nem moda, nem música, nem natureza, etc. etc. até que cheguei aos revelação, os surgidos em 2011, e passei à frente, e cheguei ao fim da lista, e não estava em lado nenhum. Recomecei. Também não. Pensei que tinha de haver um erro algures, e eis que de repente vejo que está na categoria "blogue revelação (nascidos em 2011)".


Ora bem. Alguém andou a deitar botox neste blogue, e não fui eu. O 2 Dedos de Conversa faz amanhã oito aninhos, mas o Aventar entendeu que tem cara de recém-nascido.

(pequeno intervalo para reflectir um bocadinho)
(aaah, eureka!)

Há alguém no Aventar que me conhece muito bem, porque, no fundo, estão cobertos de razão. Ao fazer oito anos, sinto-o como se tivesse nascido ontem, e como se tivesse toda uma vida à sua frente. Continuo a gostar muito de me encontrar aqui convosco.

Ao vizinho Aventar, um grande muito obrigada pela nomeação, e por me tirarem sete aninhos de cima (uns cavalheiros, é o que vocês são!). Infelizmente vejo no regulamento que já terminou o prazo para mudar a categoria em que o blogue se encontra. Felizmente vejo que já terminou esse prazo, porque não saberia dizer em que gaveta ficaria melhor. E, pensando bem, estou muito bem nesta: ah, o mito da eterna juventude...

(e agora a pergunta que não quer calar: quantas vezes posso votar em mim? hehehe) (e - toc toc toc, amigos hackers, está alguém em casa? - onde se arranjam aqueles programinhas de votos automáticos, mas queria um dos bons, um daqueles que ninguém repara, se faz favor, e gratuito se fosse possível)


Resumindo e concluindo: a todos os que ainda aqui estão, desejo uma boa semana!
E agora vou trabalhar, por causa das coisas.

um símbolo para os Direitos Humanos (2)

A propósito da pergunta que eu colocava num post anterior sobre a pomba da paz ser um símbolo ocidental, o Rui Bebiano escreveu um texto simultaneamente informativo e crítico sobre o uso desse símbolo associado ao trabalho do Conselho Mundial da Paz.

Para ler: Da paz podre.

(e depois digam-me lá se também imaginam essa pombinha assim: com uma venda - de pirata - sobre um olho, só conseguindo ver metade do que se passa)

15 janeiro 2012

Gewandhaus

A propósito de um post do Nuno Galopim no sound + vision, onde se fala da ligação importante de Beethoven à Gewandhausorchester, lembrei-me de um estranho incidente de que fui testemunha há alguns anos.

A Maria João Pires tocava na Gewandhaus, e entre o meu grupo de amigos organizou-se uma pequena excursão a Leipzig para a ouvir. Alguns deles, por sinal "Wessis", abandonaram o concerto no intervalo, porque já tinham aquilo que os interessava: Mozart interpretado pela Maria João Pires. Uns dias mais tarde disseram-me que não quiseram ficar para a segunda parte porque, na opinião deles, a Gewandhausorchester tocava de uma forma pesada, arrastada e escura. Soturna.

Curiosamente, a seguir à queda do muro, houve uma época áurea para essas orquestras: o mundo do lado de fora da cortina de ferro (e muito especialmente o Japão) estava muito interessado em ver como é que a música clássica alemã continuara, ou em que direcção evoluíra, fora da influência ocidental nessa segunda metade do século XX. Foram tournées gloriosas, contaram-me depois alguns músicos da Staatskapelle Weimar, com os olhos a brilhar.

Os meus amigos que saíram a meio do concerto eram da Áustria e do Sul da Alemanha, e provavelmente já não achavam graça nenhuma a essa maneira de fazer música clássica “à moda antiga”.

***

Gewandhaus significa "loja das fazendas". A célebre orquestra de Leipzig tem esse nome devido ao edifício onde se instalou em 1781: construído no sec. XV como casa de armas, em algum momento foi-lhe adicionado um segundo piso para alojar os comerciantes de panos, e por isso recebeu o nome de Gewandhaus, loja das fazendas. Quando a orquestra criada em 1743 se mudou para este espaço, passou a chamar-se Gewandhausorchester, orquestra da loja das fazendas. E quando, em séculos seguintes, mudou para outras salas de concerto, deu o antigo nome às casas novas.

No Outono de 1989 Kurt Masur abriu a casa a debates públicos sobre reformas e o futuro da RDA, fazendo da "loja das fazendas" um espaço público de discussão política, e palco para movimentos de oposição.

Interessante sequência lógica: primeiro o exército, depois o comércio, a seguir a cultura, mais tarde o debate democrático. O que nos trará este século?

manhã de domingo

Hoje pouco antes das nove da manhã o céu estava muito azul sobre Berlim, no Ku'damm os plátanos estarrecidos na luz gelada, menos um deles, na Olivaer Platz: os seus ramos vivos na poalha de ouro trazida pelo sol raso de Inverno.

O chão em frente à Filarmonia estava muito branco de geada, mas a fachada metálica da caixinha de música ria-me - mais encantada que nunca, brilhando de luz radiosa contra o céu límpido.

Porque é que insisto e insisto em sair de casa sem máquina fotográfica?

***

Comprei todos os bilhetes que queria (menos um, que me esqueci, gulp). E tive duas horinhas de rapa-frio em pé e belas conversas sobre linguística, desenvolvimento urbanístico e os restaurantes mais interessantes de Berlim. Ainda agora começou, e já ganhei o dia!


(foto daqui - isto é mais que geada, é neve, e o céu está menos azul que o meu hoje, mas é o que se arranjou)

o charme discreto do socialismo da RDA

Ouvi esta canção pela primeira vez no filme "Goodbye Lenin!"
Nessa altura vivia em Weimar, e a minha vizinha gostava imenso de cantar, pelo que eu ia ter com ela como quem telefona aos discos pedidos, e ouvia-a. Deliciada.
Gosto especialmente do modo sincopado de entoar os versos, e também das imagens que nos fazem partir em passeio por um lugar idílico:

»A nossa pátria, não é apenas cidades e aldeias. A nossa pátria, é também todas as árvores da floresta a nossa pátria, é a erva no prado o trigo no campo e os pássaros no ar, e os animais na terra, e os peixes no rio são a nossa pátria...«

Depois chega ao último verso, estraga tudo:

»E nós amamos a pátria a bela, e nós protegemo-la porque ela pertence ao povo, porque ela pertence ao nosso povo.«

Allons enfants de la patrie, às armas, às armas, vamos embora, que é para isto que cá estamos, pessoal.



Pionierlied - Unsere Heimat - MyVideo

14 janeiro 2012

um símbolo para os Direitos Humanos

[The universal human rights logo © Predrag Stakic]

Gosto do símbolo, especialmente da mão (sim: "com mãos se faz a paz se faz a guerra, com mãos tudo se faz e se desfaz"), mas pergunto-me se a pomba é considerada o símbolo da paz por todas as culturas da nossa terra. Ou seja: este é um símbolo sobretudo ocidental, ou universal?

A propósito, deixo aqui um texto da Comissão para os Direitos Humanos na ONU:


A universal emblem for human rights


What do you see when you think of human rights? This is what the Governments of Bosnia and Herze­govina, Canada, Chile, the Czech Republic, Mauritius, Senegal, Singa­pore and Uruguay, led by Germany, asked when they partnered earlier this year to launch a worldwide competition for the creation of a universally recognized human rights logo.


Some 15,000 entries from 190 countries were registered, demonstrating that people virtually everywhere are committed to the ideals enshrined in the Universal Declaration of Human Rights. This keen interest also revealed that an internationally recognized symbol for human rights was long overdue.


Predrag Stakic of Serbia, the winner of the “Logo for Human Rights” competition, said that logo design was one of his greatest passions and that love and hope motivated him to enter the contest. His design is a mix of two symbols: a bird and a hand.


“Human rights are the greatest human invention in history,” Stakic said. “As it says in the Universal Declaration of Human Rights, they are the very foundation for a future world of freedom, justice and peace. They are also the ultimate tool for building such a world and without them it’s impossible to reach such level of human evolution and development of our civilization. If we don’t understand, respect, protect and fight for human rights, we don’t deserve to be called human.”


Speaking via video message at the unveiling of Stakic’s design in New York, the UN Human Rights chief, Navil Pillay, who was part of the jury of international human rights advocates, noted that a simple image could suffice to galvanise action in favour of human rights.


“The competition organizers remarked that there was no such image visible during the Arab Spring around which protestors could unify. The success of the peaceful protests in toppling dictatorships notwithstanding, they felt such an image would be helpful,” Pillay said. “The crafting of this universal human rights logo in such a short time frame is testament to people’s creativity and their ability to produce a wealth of ideas at the blink of an eye, or a click on a computer, when their imagination is being used for a good cause.”

cento e dez euros muito mal gastos

Os cento e dez euros mais mal gastos deste Inverno: para a empresa que havia de tirar a neve do passeio em frente ao nosso terreno.
Algo me diz que essas empresas este ano fizeram o negócio da vida delas. O que até é justo, porque nos anteriores passaram um bocado mal: cobram uma taxa única pelo Inverno todo, e depois têm de ver como se arranjam para limpar quantidades anormais de neve.

Mas se fossem só esses cento e dez euros...
Há cerca de um mês começámos a pensar onde faríamos as férias de Inverno.
Por causa da nossa troika privada queríamos experimentar alguma região mais em conta, pensávamos no Allgäu, mas o mapa da neve tinha um aspecto desolado: é que nem vê-la. Então o Joachim disse que o barato sai caro, e que não faz sentido ir fazer férias de ski numa região barata para depois não ter neve. E lá marcámos nós para o sítio pré-troika, com pistas bem acima de dois mil metros, nada como jogar pelo seguro.
No entretanto, desatou a nevar no sul da Alemanha de tal maneira que quase começámos a temer não conseguir passar essa barreira para conseguir chegar ao nosso destino.

Eu não queria ser mal-agradecida, mas - se não for pedir muito, ó meu querido São Pedrinho - além de acertares o tempo às minhas necessidades, dava para me enviares um pequeno resumo do que está planeado? Ou é-me simplesmente pedido que tenha Fé, e acredite sem dúvidas nem tergivações?

13 janeiro 2012

Russendisko - o filme



Russendisko é o filme que abrirá a Berlinale deste ano.

E se fosse só isso!...
A Angelina Jolie vem cá apresentar o seu primeiro filme. A Charlotte Gainsbourg e o Jake Gyllenhaal fazem parte do júri. O François Ozon também. A Meryl Streep vai ser homenageada. Os estúdios Babelsberg festejam o seu primeiro centenário.
A ver se finalmente consigo esconder um colchão num vão de escadas da Filarmonia, que fica mesmo ao lado do Berlinale Palast. Vão ser dez dias fantásticos.

querido diário,

Isto está muito mal feito: consultórios de médicos que têm revistas fantásticas na sala de espera, mas estão tão bem organizados que uma pessoa mal tem tempo para ajeitar os óculos no nariz, quanto mais consolar-se com cultura geral da boa e da melhor.
Como hoje: entre chegar, mostrar o cartão, ir para a sala das radiografias, tirar a roupa, fazer as radiografias, vestir a roupa, ver que praia era aquela na fotografia do calendário (ah, Cannon Beach, bem me queria parecer), esperar um bocadinho e falar com o médico sobre o resultado das radiografias, não passaram nem quinze minutos.

Plano B: no próximo sábado vou para um daqueles cabeleireiros sem hora marcada, a ver se me ponho de novo a par do que tem acontecido em vários mundos paralelos ao meu.

O médico confirmou-me que ainda estou viva e para durar (eu já desconfiava que sim, mas convém sempre ouvir uma segunda opinião), e regressei a casa a pé, pelo Ku'damm, que está agora todo em saldos. Vi alguns trapitos engraçados que por causa dos vertiginosos descontos de 50% já só custam dois ou três salários mínimos. Não é que eu tenha alguma coisa contra blusas que custam dois mil euros, por acaso até tenho mais contra blusas que custam dez euros (e são as que eu compro) - só me pergunto como é ganho o dinheiro de alguém que se pode dar ao luxo de pagar dois mil euros por uma blusa.
O Valentino tinha vestidos vermelhos lindíssimos. Como é que ele fará para continuar a conseguir desenhar vestidos vermelhos tão originais, e equilibrados, e elegantes, e bonitos? Então, no capítulo "vestido vermelho", não está já tudo inventado? Parece que não. Ou então sou eu que não fui as vezes suficientes ao cabeleireiro e ao médico (mas a um com consultório mal organizado, daqueles onde se espera três horas), e pronto, lá se me escaparam duas ou três Vogues, e agora ando aqui a fazer figura de ignorante, triste vida.
Os vestidos vermelhos do Valentino custavam pouco mais de mil euros. Confesso que não estava à espera de preços tão baratos. Enfim, "tão baratos" é como quem diz, mas se penso Valentino à minha carteira dá-lhe logo um ataque de riso pânico, isto há carteiras muito preconceituosas, é o que é.
E foi então que me lembrei de um artigo que li há mais de vinte anos numa revista (talvez tenha sido daquela vez que resolvi cortar uma franja) sobre secretárias parisienses que se disponibilizavam uma ou duas vezes por mês para serviços sexuais de luxo (enfim, se seriam de luxo isso não sei, mas os clientes pagavam muito bem), para depois comprarem um trapito mais fino. Talvez um Valentino vermelho por mil euros, pensei eu hoje. 

E agora acabou-se o recreio, que tenho aí um trabalhinho simpático para terminar.
(Muito a propósito, aqui vai a descrição da vida de um tradutor, que recebi por e-mail esta manhã: em francês, em inglês. Tenho de ver se o autor me conhece, pareceu-me que sim.)

12 janeiro 2012

hysteria



Um filme muito divertido, bastante leve, assaz previsível, que vale sobretudo pelo retrato da realidade sombria e ameaçadora que o atravessa. Sorte a minha ter nascido nos anos 60 - ainda em 1952 as coisas eram bem diferentes. Caso para as mulheres dizerem em coro, com orgulho e muito alívio: o que eu andei para aqui chegar!

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser e, para abreviar, tudo muda - a começar pela semântica. Depois deste filme, o lamento "estou triste..." ganhou (pelo menos cá em casa) novos significados.

11 janeiro 2012

viajar entre línguas

O post "viajar entre línguas", da Leonor (hoje não copio) (emboramente... vontade não me faltava!) lembrou-me um comentário ouvido há quase trinta anos num comboio em Espanha. Era um jovem brasileiro a viajar de inter-rail pela Europa, que largou este quase lamento:

- Quando você viaja sozinho, não tem com quem se maravilhar.

(Quando você lê sozinho, ...)

10 janeiro 2012

quando o cliente não tem razão, e no entanto...

Todos os anos, antes do Natal, fazemos um álbum de fotografias e texto sobre mais um retalho da nossa história, e oferecemos a familiares e a alguns amigos. O deste ano pareceu-nos que não tinha a qualidade de impressão dos anteriores, pelo que eu escrevi à empresa reclamando sobre a qualidade dos exemplares em português e pedindo que fizessem o favor de averiguar o que se passava antes de imprimirem os alemães. Poucas horas depois tinha já resposta, pedindo que lhes enviasse (com porte pago por eles, mandavam a etiqueta pronta a colar no envelope) um exemplar para poderem estudar o caso. O que fiz logo. Dois dias depois telefonaram-me para explicar que a qualidade das fotografias que eu tinha enviado não permitia resultado melhor que aquele. Eu respondi "bom, o que não tem remédio..." e já me ia despedir, quando fui interrompida com uma gargalhada: "espere, não desligue já! é que eu tenho ainda alguma coisa para lhe oferecer: vamos enviar-lhe uma ferramenta de calibragem e respectivas instruções, para da próxima vez ficar mais satisfeita com o trabalho, e vamos oferecer-lhe a quantia correspondente a dois destes livros, para descontar da sua próxima encomenda".
Eu já antes gostava muito desta empresa, mas agora têm em mim uma fã incondicional.

Escolhi-os por serem os mais baratos e terem um software muito intuitivo. E vou ficar com eles para sempre, porque aqui um cliente até se sente tratado como uma pessoa!
A quem interessar possa: Fotobuch (forever!)

09 janeiro 2012

Wladimir Kaminer, um dois três

Para comemorar condignamente o fim da tradução do (pelo menos neste blogue) já famoso livro do Wladimir Kaminer, copio para aqui um texto que a Leonor publicou há algumas semanas, a propósito deste autor. Só para terem uma ideia do que por aí vem.

Aos mais curiosos, aviso que a Cavalo de Ferro já publicou dois livros dele: "Militärmusik" e "Russendisko - discoteca russa". Agora vem por aí o terceiro: já quase há material para desenvolver um vício novo.

Além disso, o filme de abertura da Berlinale 2012 é o, tã tã tã tãããã, Russendisko.
Parece que vai ser um ano muito Kaminer. Mas giro, o que se chama giro, era ele ir ao lançamento a Portugal, e depois escrever um livro assim hilariante sobre os portugueses. Já vi duas amostras do que é capaz de fazer quando fala do meu povo, e gostei. Tem uma maneira de brincar sobre as idiossincrasias alheias que não é humilhante ou ofensiva.

E agora passo a palavra à Leonor:

Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011


Estou a ler 'Meine russischen Nachbarn"


O penúltimo dia de Agosto brindou-me com chuva. Pela janela um dia cinzento. A cidade meio pálida e precocemente escura. Largo as malas e faço o que mais gosto: passear, ver, deambular com a ligeireza de quem nada tem para fazer se não deixar-se ir por entre a multidão e sentir, respirar, ver.
Subo a rua. O passo mais rápido pela chuva insistente na cidade que me surpreende sempre e nunca se esgota em cada visita.  E entro na livraria. Resisto a quase tudo menos a uma livraria recheada de títulos novos, livros baratos e o ambiente de uma religiosidade veneranda de silêncios pontilhados de virar de páginas virgens à espera de serem lidas. Um livro. Falta-me sempre um livro.
Os olhos recaem sobre o mais recente livro, à data, de Wladimir Kaminer, Meine russischen Nachbarn, e é esse que há acompanhar-me nos dias de Berlim, dias de sol e de chuva, dias de muito ver e de digerir história e gente a cada esquina. Não o acabarei, contudo. A cidade absorve-me.
Meine russichen Nachbarn, os meus vizinhos russos, conta a história de dois russos, Andrej e Sergej que convenientemente ocupam o andar por cima do de Wladimir Kaminer, lá na Schönhauser Allee, algures em Prenzlauer Berg, uma zona emergente de Berlim a viver os seus melhores dias depois da Queda do Muro em Novembro de 1989.Andrej e Sergej encetam uma nova vida nesta nova Europa que se quer livre e democrática derrubados os muros físicos que a cortavam em duas, os de lá e os de cá, Ossis e Wessis. Rondando os trinta anos,  Andrej de Leningrado, hoje São Petersburgo, e Sergej da Bielorússia provocam uma pequena revolução na vida aparentemente pacata dos habitantes do prédio de Schönhauser Alle. A porteira não gosta, os vizinhos reclamam do trompete logo pela manhã. Andrej luta com a língua alemã e apaixona-se pela professora enquanto Sergej assina exemplares d 'O Capital de Karl Marx que venderá no e-bay como relíquias do grande filósofo e ideólogo. As aventuras sucedem-se.
E ambos teriam tido uma vida anónima e tranquila, caso tivessem escolhido um outro local para viver. É que Kaminer é um observador atento da realidade, um crítico mordaz das várias vidas que já teve e escritor implacável a quem as aventuras acontecem sempre e de forma renovada. Não poderia desperdiçar esta oportunidade e fixa-os a uma narrativa de leitura muito fácil sem artifícios ou malabarismos estilísticos e despojadamente cativante. Na vida destes dois russos vemos desfilar a União Soviética a que Kaminer disse adeus em 1990 para abraçar Berlim como sua nova pátria, as cidades também são pátria. E as histórias entrelaçam-se. E os tempos. Há a União Soviética com as suas características peculiares, os russos que não riem e Kaminer explica porquê, os moscovitas, reconhecidamente rudes nos modos e a Rússia actual de novos-ricos. E há a Alemanha e Berlim, a vida na cidade, ressentimentos e singularidades. Muito portanto num pequeno livro de 222 páginas em tom humorístico e divertido.
A leitura implica um tu com que se possam trocar impressões, um interlocutor que se possa rir connosco ou opor-se ao que bebemos nos livros, um duelo de palavras e ideias. Para minha grande pena só dois livros de Kaminer estão traduzidos em Português O panorama literário alemão virou uma página acompanhando os ventos de mudança na Alemanha e na Europa. Wladimir Kaminer é um dos mais lidos escritores de língua alemã, por cá quase um desconhecido. Para quando mais um Kaminer em português, senhores editores? Até lá deixo-vos com uma pequena amostra:
"Um professor esforça-se por explicar a um pioneiro o que é o comunismo numa linguagem acessível. 'O comunismo é', diz ele, 'quando tens de comer morangos com natas todos os dias ao pequeno-almoço '. ‘Mas eu não gosto de morangos com natas’ responde o aluno. 'Não interessa', esclarece o professor,vais comê-los na mesma, quer gostes quer não".

um naco de carne

Em passeio pela cidade, parámos numa barraquinha de rua porque uma das nossas amigas estava com fome: um pão com um bom naco de porco assado, quente no ponto certo, a crosta estaladiça, um aroma divinal, perfeito. À segunda dentada naquele pedaço de tenríssima carne a escorrer gordura e gula, ela soltou uma alegre exclamação:
- Que feliz estou por não ser muçulmana!

Desatámos todos a rir. Ela é de uma família judia.

06 janeiro 2012

Laerte

Até à semana passada não sabia da existência do Laerte Coutinho. Uma amiga brasileira falou-me dele, do acidente que matou o seu filho aos 22 anos, do seu cross-dressing.

Fui à procura de mais informações, e encontrei uma série deliciosa de cartoons sobre um Deus muito parecido com o meu. Em especial aquela sequência de um Deus que não actua, mas consola - linda, e ainda mais cheia de significados se pensarmos na tragédia que rasgou a sua vida.

Numa entrevista, fala de forma desassombrada sobre a imagem que cultiva. Explicado assim fica tão simples, e mais: deixa-me a pensar no que terá sido a reacção da sociedade quando as mulheres começaram a vestir calças e a cortar o cabelo como os homens, e como isso hoje é considerado natural.










Adenda: Acrescento ainda uma frase dessa amiga que me deu a conhecer Laerte, e que me será mapa de tesouro para novas buscas: "O Laerte, com Angeli e Glauco, formou um trio muito importante dos anos sessenta, do Pasquim. O Pasquim era genial, a minha fonte de mundo na adolescência."

brevíssimo tratado sobre as religiões - tomo 3


Laerte.

(daqui)

E podia ficar por aqui o dia todo.  

Vou é procurar um "sebo" na internet que venda para a Europa, a ver se encontro estes dois livros:





Do prefácio do Frei Betto ao primeiro livro: "O que Laerte faz é um santo humor. Livra-nos daquela imagem de um Deus carrancudo, mal humorado, provedor do inferno, para nos aproximar da imagem evangélica que Jesus nos passa: Deus é amor, mais íntimo a nós do que nós a nós mesmos, como dizia Santo Agostinho. Portanto, se brincamos com tudo o que nos é íntimo, por que excluir Deus de nosso bom humor e carinho?"

brevíssimo tratado sobre as religiões - tomo 2


Laerte.

(daqui)

brevíssimo tratado sobre as religiões - tomo 1

Laerte.

(daqui)

05 janeiro 2012

Taizé em Berlim (9)

Um grupo do Porto, no S-Bahn que atravessa o centro da cidade.


E que fazem os berlinenses que vão no comboio?
Cantam também, e aplaudem.

elle s'appelait Sarah


Ontem fomos ver o filme "Elle s'appelait Sarah". Uma história muito bem contada, e muito difícil  - como todas estas histórias. A história de Sarah terá sido - em parte - inventada, mas as outras (e foram seis milhões) não o foram. Para cada um dos que morreram, quantos sobreviventes ficaram a carregar o peso insuportável das suas memórias?
Enquanto via este filme, a tenacidade da minha esperança surpreendia-me: estava sempre à espera de uma volta inesperada, acreditava sempre que algum deles ia conseguir escapar.  

À saída, quase me apetecia entrar no filme que ia começar daí a pouco:



Mas ficou para outra vez. Que "Elle s'appelait Sarah" pedia um silêncio dorido.

dia nacional do microcrédito (take 2)

Repasso um post que escrevi aqui há dias, infelizmente com um péssimo timing: porque era na altura do Natal, quando todos andavam ocupados a fazer os outros felizes e por isso não tinham tempo para perder com blogues e estas minudências do microcrédito.




(foto daqui)

É fácil, é barato, dá "uma cana de pesca" a milhões: o microcrédito.

Está em curso uma petição com o objectivo de declarar o dia 14 de Dezembro "dia nacional do microcrédito". Não nos custa nada, e permite dar um pouco mais de visibilidade a este programa. Já assinei, claro. É o mínimo que devo fazer por uma iniciativa que ajuda a levar o nosso mundo na direcção da Justiça que eu queria oferecer aos filhos dos meus filhos.


PETIÇÃO

DIA NACIONAL DO MICROCRÉDITO

Sabemos, e a experiência destes 13 anos no-lo ensinou, o quanto o microcrédito pode ser importante para pessoas que queiram mudar o rumo da sua vida, mas a quem não são dadas muitas oportunidades. Temos consciência do quanto é importante a sensibilização de toda a Sociedade e o quanto é relevante o seu envolvimento. Pretendemos que o microcrédito seja cada vez mais uma oportunidade para todas as mulheres e homens que anseiam por ser cidadãs e cidadãos de corpo inteiro a quem não seja negado o direito de participarem na criação de riqueza do seu país, região ou território.

Se estiver de acordo, assine esta petição online:
http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N18328
Subscreva a petição e divulgue-a por todos os seus contatos.

É nosso objetivo ultrapassar as cinco mil assinaturas e inscrever no calendário o Dia Nacional do Microcrédito.
Em nome dos que necessitam apenas de uma oportunidade para mudarem o rumo da sua vida, façamos desta petição um grande movimento em favor do microcrédito.

Muito obrigado.


www.facebook.com/microcreditoANDC
www.microcredito.com.pt
Associação Nacional de Direito ao Crédito
Pessoa Colectiva de Utilidade Pública sem fins lucrativos

Praça José Fontana, 4 - 5º 1050-129 LISBOA | Tel. 21 315 62 00 |808 202 922 | Fax. 21 315 62 02 |microcredito@microcredito.com.pt

PARTICIPE NESTE PROJECTO DE SOLIDARIEDADE: SEJA ASSOCIADO OU PARTICIPE COM DONATIVOS. (NIB: 0033 0000 0023 6701 6320 5 | NIF: 504496140).

04 janeiro 2012

os sete pecados dos europeus

Este artigo que encontrei no presseurop (parte 1, parte 2) já tem umas semanas, mas continua extremamente actual. Copio-o agora para aqui a propósito do caso Pingo Doce. Isto é muito maior que nós e o Alexandre Soares dos Santos.

Debate

Os sete pecados dos europeus 

14 dezembro 2011
Hamburgo
Hieronymus Bosch: "A gula". Pormenor dos "Sete pecados capitais" (óleo sobre tela, 1475-80). Madrid, Museu do Prado
Hieronymus Bosch: "A gula". Pormenor dos "Sete pecados capitais" (óleo sobre tela, 1475-80). Madrid, Museu do Prado

Os líderes políticos estão sempre dispostos a agitar a bandeira do espírito comunitário. Mas todos os países sofrem de uma fraqueza de caráter que contradiz os discursos e compromete a UE. Die Zeit traça o retrato dos nossos piores pecados.


A preguiça

Grécia – A culpa é de Angela Merkel, dizem eles. Se a Europa está em dificuldades, é por causa da insensibilidade da Alemanha. Esta é a explicação que os tabloides dão para a crise da Grécia, bem como as palavras de ordem dos manifestantes e dos líderes populistas. Para os gregos, o problema é a dívida, mas o facto de os estrangeiros os quererem meter na ordem, os pressionarem a agir e lhes darem lições. Reagem mentindo a si próprios e mentindo à Europa.
Em Atenas, somos confrontados com a autoindulgência dos gregos. Quem são os responsáveis pela atual miséria? Uma sociedade baseada na dívida. Pessoas convencidas de que a Europa será sempre suficientemente rica para ajudar a Grécia. Corporações apegadas aos seus privilégios. Ferroviários do setor público com salários mirabolantes graças a uma tabela salarial inextrincável. Famílias que recebem as pensões dos parentes que já morreram. Responsáveis políticos que dão empregos aos sobrinhos e às sobrinhas dos seus eleitores. E os ditos sobrinhos e sobrinhas, que permitem que lhes deem tais empregos. É claro que os jornais de Atenas falam de tudo isto. Mas o que faz falta, na Grécia, é uma enorme cólera catártica contra estes gregos.
Em Atenas, os populistas ganham terreno à custa de Angela Merkel, mas são clementes para com os responsáveis locais da atual situação. Preferem combater um espantalho distante em vez de varrerem a sua própria porta. É nesta fraqueza, nesta inaptidão para a autocrítica que reside a verdadeira crise grega.
Michael Thumann



A dissimulação

Suíça – As quantias em jogo são colossais. De tal modo colossais que, normalmente, fazem dilatar as pupilas dos líderes políticos europeus. Só na Suíça, os particulares – a maior parte deles europeus – detêm 1,56 biliões de euros. Têm, também, 1,4 biliões no Reino Unido, sobretudo nas ilhas anglo-normandas, 440 no Luxemburgo, 78 no Liechtenstein. Todos estes países são, assim, cúmplices de evasão fiscal. Vão buscar as riquezas nacionais do estrangeiro e vivem dos juros.
E como reage a Europa? Em vez de se indignarem a uma só voz, as capitais europeias abordam estas práticas escandalosas como antigas tradições, assuntos diplomáticos. No que diz respeito ao Liechtenstein e à Suíça, alguns países, entre os quais a Alemanha, quiseram assinar os seus próprios acordos de dupla tributação: a ideia é que uma parte da dívida fiscal seja reembolsada ao país de origem dos fundos através de um único imposto. Esta abordagem compromete o projeto da Comissão Europeia para instituir trocas automáticas de informações com o objetivo de detetar fraudes – um projeto igualmente rejeitado pelo Luxemburgo. O mesmo Luxemburgo que proclama alto e bom som a solidariedade europeia.
Peer Teuwsen



A intolerância

Alemanha – Pode existir uma Europa em que um país exporta e tem lucros enquanto os outros consomem e se endividam? Os alemães orgulham-se das suas exportações, que servem para provar o bom desempenho da sua economia. Ora, quando um país vende mais do que compra ao estrangeiro, isso acaba por trazer problemas a toda a gente. Este ano, as exportações alemãs para os países da UE permitiram arrecadar um excedente de 62 mil milhões de euros. O que significa que as mercadorias produzidas na Alemanha não foram trocadas por mercadorias estrangeiras, mas foram, por assim dizer, vendidas a crédito.
A Europa do Sul endivida-se junto da Alemanha para lhe comprar os seus produtos. Por outras palavras: a riqueza da Alemanha repousa sobre as dívidas dos seus vizinhos. Ora, quem são os primeiros a lamentar essas dívidas? Exatamente. Os alemães. Um dia destes, a falência ameaçará os devedores e os credores terão de rever as suas exigências de pagamento. Nos últimos anos, a Alemanha arrecadou perto de um bilião de euros em ativos estrangeiros – pode dizer adeus a grande parte desse dinheiro no dia em que o Sul deixar de conseguir pagar. Daí as atuais declarações da chanceler, que quer que toda a gente seja como os alemães.
Ou seja, espera-se que esses países também exportem mais do que importam. Por isso, é preciso baixar os salários, é preciso controlar o seu consumo. É mais fácil dizer do que fazer. Porque, se toda a gente se puser a vender, deixa de haver quem compre. E a economia fica a marcar passo. Se os europeus não querem inundar o resto do mundo com os seus produtos – o que o resto do mundo não deixará que aconteça – é preciso chegar a um equilíbrio dentro da própria União. Os italianos têm de apertar o cinto – e os alemães têm de gastar mais.
Mark Schieritz



A gula

Espanha – “Não esvaziarás de peixe o mar do teu vizinho”, podia ser um dos dez mandamentos europeus, logo seguido de: “Os teus agricultores não viverão à custa de uma profusão de subsídios europeus”. Para o período de 2007-2013, Bruxelas atribuiu à indústria de pesca espanhola mais de mil milhões de dólares [767 milhões de euros] – ou seja, muito mais do que a qualquer outro país da UE. Porque as águas europeias são grandes vítimas do excesso de captura, a Espanha envia as suas frotas ultra modernas para as costas do Senegal e da Mauritânia, não deixando grande coisa aos pescadores locais e ultrapassando as quotas de pesca acordadas.
É preciso processar judicialmente as empresas em causa e assinar novos acordos de pesca entre a UE e os países africanos. O governo espanhol opõe-se a estas duas propostas já de longa data. Tal como a uma nova reforma do sistema europeu de apoio ao mundo agrícola. Perto de 50 mil milhões de euros deixam, todos os anos, os cofres de Bruxelas em direção à agricultura europeia. A maior parte beneficia diretamente os agricultores de diferentes países da UE, que conseguem, assim, manter a sua competitividade num setor onde a concorrência é grande e se baseia em preços subsidiados. Entretanto, uma parte considerável da carne, dos lacticínios e dos legumes a preços reduzidos de Espanha, Itália, França e Alemanha aterram nos mercados africanos.
É bom para os pobres, argumentam os exportadores. O problema é que a produção de víveres locais de países como o Gana, os Camarões ou a Costa do Marfim, está em colapso. E que, em caso de subida dos preços dos produtos agrícolas de base, esses países deixam de poder importar o leite em pó, as aves ou os cereais da UE. No entanto, se isso desencadear uma crise de provisões, ou seja, uma crise alimentar, esses países poderão contar sempre com o apoio da Europa: a UE é o maior doador mundial de fundos em matéria de ajuda de emergência.
Andrea Böhm

Hieronymus Bosch: "A ira". Pormenor dos "Sete pecados capitais" (óleo sobre tela, 1475-80). Madrid, Museu do Prado.
Hieronymus Bosch: "A ira". Pormenor dos "Sete pecados capitais" (óleo sobre tela, 1475-80). Madrid, Museu do Prado.


O egocentrismo

Irlanda – Claro que podemos sempre aceitar a explicação do ministro irlandês da Cultura: "Somos um povo feliz”, proclamou recentemente, “e profundamente sincero. Para os investidores estrangeiros, estas coisas importam." Não haja dúvidas. Mas, olhando mais de perto, pode-se pensar que os impostos irlandeses estão entre as pequenas razões adicionais pelas quais a ilha atrai empresas internacionais como um ímã eletromagnético.
O imposto para as empresas é de apenas 12,5%, ou seja, significativamente inferior à média europeia. A maioria dos países da UE taxa os rendimentos das empresas em valores que vão até aos 30%, como acontece na Alemanha e na França. Num mercado único que deve assegurar a coerência das condições comerciais, podem fazer o favor de explicar tamanha diferença?
Antes da crise da dívida, a Irlanda atraía grandes multinacionais às dúzias: Facebook, Intel, Pfizer, Merck, SAP, IBM – todos acorreram à ilha das “céad míle fáilte” (cem mil boas-vindas). Tudo muito bonito, mas resultante de uma lógica no mínimo insular: quanto mais empresas se acotovelarem no país, mais o Estado pode desvelar-se em cuidados com elas. E se o governo irlandês está a planear aumentar alguns impostos, sobre os rendimentos das empresas não consta da lista.
Para Dublin, a Irlanda deve compensar algumas desvantagens competitivas impostas pela natureza – o facto de, por exemplo, não ter acesso por caminho de ferro. A sério! E desde quando é que isso complica setores como a informática e os seguros? Sem falar de que a Irlanda é a única ponte anglófona na Zona Euro, o que não é de menosprezar. Assim, caros irlandeses: continuem sinceros, felizes e solidários! J.B.

A arrogância

França  – Em meados de dezembro, o grupo nuclear francês Areva anunciou o seu projeto de eliminação de milhares de postos de trabalho. Mas os funcionários não precisam de se preocupar. "Não terá impacto, essa é a linha que o Estado impõe", apressou-se a dizer François Baroin, o ministro da Economia, após as primeiras fugas de informação sobre os cortes projetados.
E convocou imediatamente Luc Oursel, o diretor da Areva. "Não vai haver qualquer decisão que envolva considerar o emprego como uma variável ajustável, independentemente do impacto numa atividade económica global em abrandamento", frisou. Prioridade para postos de trabalho franceses, convém esclarecer.
Na França, estas afirmações não causam admiração. Fazem parte da razão de Estado, desde que Jean-Baptiste Colbert, ministro das Finanças de Luís XIV, começou a conduzir a economia com mão de ferro. Não importa que só 87% da Areva seja propriedade do Estado. Mesmo quando o fabricante de automóveis PSA Peugeot-Citroen, privado, já no limite, anunciou recentemente a supressão de postos de trabalho, Eric Besson, ministro da Indústria, foi rápido a prometer que todos os empregos franceses seriam preservados.
E Carlos Ghosn, o presidente da Renault, foi chamado à razão quando pretendeu deslocalizar uma pequena parcela da sua produção para a Turquia. Diga-se de passagem que as restrições colocadas pelo Estado à instalação de centros industriais em países emergentes são hoje uma das principais causas das dificuldades encontradas pelos empresários franceses.
É o que acontece quando o Estado se arvora em protetor da economia. Os custos de produção disparam, assim como os preços. Para evitar um declínio nas exportações, o governo reforça o seu protecionismo. Um círculo vicioso. Visto pela positiva, o governo francês compensa assim maus índices de rendibilidade. Visto por outro prisma, o Eliseu está a utilizar o seu poder sobre os grandes negócios como uma arma política.
Os políticos franceses tornam-se europeus convictos a partir do momento em que não conseguem já avançar sozinhos. Daí a criação da EADS, o primeiro grupo da indústria aeroespacial e defesa europeia. Daí o seu interesse em ver surgir uma aliança no campo da construção naval, seguindo o modelo aeronaval. Foi o ministro da Economia na época, Nicolas Sarkozy, agora Presidente da República, que impediu a Siemens de pôr o pé na Alstom, seu concorrente francês.
O mesmo Nicolas Sarkozy que, em 2004, tinha negociado a aquisição do grupo farmacêutico franco-alemã Aventis pela francesa Sanofi, dando assim origem ao terceiro maior interveniente mundial no setor. Foi também a seu pedido que foi riscada do Tratado de Lisboa a fórmula que preconizava um mercado interno "onde a concorrência é livre e não falseada". Quanto tempo a União Europeia vai aceitar tanta arrogância? K.F.

A ganância

Reino Unido – Será que os britânicos não se aperceberam do estouro? Como se o mundo financeiro não tivesse caído nos últimos três anos, acham que podem continuar a jogar ao “quem perde ganha” e a compensar as perdas da sua indústria especulando com o dinheiro dos outros. Incorrigíveis e teimosos, persistem na sua pretensa lógica de que os mercados são invulneráveis e que tanto a política como a sociedade se devem, pois, a prazo, submeter à sua lei.
Levado ao extremo neste universo equivocado, o liberalismo de John Stuart Mill e Adam Smith provocou o aparecimento na City de Londres de um sistema financeiro sem regulação efetiva, onde foram negociados os produtos financeiros mais sofisticados – derivados e títulos associados a ativos –, que foram, em grande medida, responsáveis pelo grande crash de 2008. Milhares de milhões de euros, provenientes de contas de poupança e fundos de pensões de particulares, esfumaram-se assim. E foram os banqueiros da City que foram indemnizados.
A crise da dívida soberana surge no momento em que os governos foram obrigados a socorrer os bancos. Ora de Londres apenas saem gritos de horror perante as propostas de vincular os investidores ao risco. Quanto ao imposto sobre transações financeiras avançado pelo governo alemão – provado que está que poderia pôr fim à especulação de curto prazo no mercado monetário –, foi enfaticamente apelidado de "bala de ouro na coração da City", por George Osborne, o ministro das Finanças britânico. Assim, aqueles que persistem em nadar contra a corrente seriam provavelmente mais avisados se procurassem outro lugar para se banharem. J.J.

cultura democrática

A propósito de um comentário do jj.amarante num post anterior, sobre uma série de escândalos em Portugal, escrevi lá - e repito sensivelmente o mesmo aqui - que, por estes dias, o presidente da República da Alemanha está prestes a ter de abandonar o seu cargo. Por causa de um antigo empréstimo privado contraído junto de um amigo empresário, passado depois para empréstimo bancário aparentemente com condições vantajosas (um político não pode aceitar vantagem de espécie alguma, nem sequer um upgrade no avião) e - muito mais grave! - um telefonema irado que fez ao director do jornal que tencionava publicar aquela matéria. O escândalo do telefonema rebentou anteontem, e penso que o presidente não se aguenta nem até ao fim desta semana. Provavelmente vai cair hoje.

Angela Merkel tem andado muito calada desde que rebentou a bomba do telefonema, mas a oposição, que até agora mantinha que não se pode mudar de presidente de dois em dois anos (o anterior, também eleito pela direita, abandonara o segundo mandato ao fim de ano e meio) começou a elevar o tom das críticas, e da própria CDU vêm comentários como "cada hora que passa com o presidente a tentar permanecer agarrado ao poder é uma degradação da cultura democrática" (Vera Lengsfeld).

Olho para o que aqui se está a passar, comparo com a casa de férias do Cavaco e a história das acções do BPN, e concluo que a diferença mais importante entre a Alemanha e Portugal não é o poder económico - é o modo como todos lutam afincadamente para garantir a credibilidade do sistema democrático.

03 janeiro 2012

licença de maternidade

Volto já.

hoje é o dia

Hoje é o dia em que o Matthias regressa dos EUA.
Passou um Natal maravilhoso num Yosemite coberto de neve, tem por aí duas famílias que gostavam muito de o adoptar, parece que captou um pouco daquela maneira leve de estar dos americanos, tornou-se fã de futebol americano, mas não se viciou em manteiga de amendoim.

Estou muito curiosa para reconhecer o meu filho no fim deste capítulo que não li da sua História.

Regressa hoje, e Berlim está em festa: o céu imaculadamente azul, o sol brilhante como se fosse Verão - no dia 3 de Janeiro.

02 janeiro 2012

Taizé em Berlim (8)



Ontem, depois de levar os nossos oito portugueses ao autocarro, corri para a Potsdamer Platz, onde me ia encontrar com o turno seguinte: um bando de miúdos acompanhados pelo padre da sua paróquia. Fiz com eles uma pequena visita àquela parte da cidade: o grande cruzamento cortado pelo muro, o teatro da Berlinale, a Filarmonia, o memorial do programa de extermínio de doentes psiquiátricos, o memorial da perseguição aos homossexuais, as "embaixadas" dos Estados alemães em Berlim, o memorial do Holocausto, a porta de Brandemburgo, o Reichstag, a chancelaria. E as histórias que as casas, as ruas e os memoriais evocam. Muito tempo, para explicar coisas que eles nem conseguem imaginar: matar pessoas porque são inúteis e caras para o sistema, um muro que separava dois mundos completamente diferentes, um país ocupado, uma revolução pacífica alimentada nas igrejas, um país que devora outro.

Miúdos engraçados: atentos, curiosos, brincalhões, pacientes - ouvindo, fazendo perguntas, tentando compreender. E um padre extraordinário: atento, orientando-os sem ser invasivo ou paternalista, com respeito pela individualidade de cada um e os ritmos do grupo. Mais uma vez fiquei desconfiada que a internet me tem andado a enganar um bocadinho: há no Portugal real gente que não passa a vida a queixar-se da crise e a dizer que o fim do mundo é para daqui a bocadinho.

Depois da visita viemos para nossa casa, para jantar. Já estavam há uns dias na Alemanha, nem precisei de os avisar que aqui se tira os sapatos à entrada - fizeram um belo estendal em frente à porta da vizinha. E fiquei muito grata por finalmente me ter visto livre dos pelmeni que tinham sobrado do dia anterior. A seguir, um pequeno concerto de piano dado por uma das jovens, alguma conversa, e num instante se fez tarde: adeus, até outra vez!

Uma bela maneira de terminar este encontro de Taizé em Berlim.

Taizé em Berlim (7)



Como habitualmente, na festa que se segue à vigília da passagem de ano é pedido aos grupos de cada país que participem com algum programa para a "festa das nações". Quando chamaram os portugueses, eles, que não tinham preparado nada, não se atrapalharam: ali mesmo, à frente do público, começaram a discutir o que iam cantar, e cantavam, e discutiam qual seria a seguinte, e cantavam e dançavam - e o público dançava também e delirava.
As saudades que eu já tinha deste povo assim!
Assim: desenrascado, compensando com alegria e espontaneidade o que falta em organização e disciplina.

As pessoas deste grupo não andavam com cara de depressão e crise. Bem sei que estavam a passar uns dias especiais entre amigos, mas não senti neles o tom pesado que vejo muitas vezes nos textos da internet. Que será que estes têm, que falta nos blogues e no facebook que leio?
Perguntei-lhes, e a resposta veio num tom decidido de esperança: "Então a Alemanha conseguiu levantar-se depois daquela terrível destruição da segunda guerra mundial, e nós não havemos de conseguir recuperar?! É andar para a frente, e fazer o melhor possível a partir daquilo que temos."

Entre eles havia também professores, que falavam da situação difícil da escola, particularmente do problema do trespasse de responsabilidades: os pais não sabem o que fazer aos filhos, ou à sua própria vida, e a escola aparece como o bom-beiro que tenta resolver os problemas e suprir as lacunas - os professores feitos educadores, psicólogos e assistentes sociais. Falavam de tudo isto como um desafio aceite com sentido de responsabilidade e alegria. Se me deixassem mandar, no próximo 10 de Junho distribuía medalhas pelos professores portugueses: porque é deste seu modo de olhar para os alunos como pessoas inteiras e concretas, e desta sua generosa entrega, apesar de todas as imensas dificuldades, que se alimenta a esperança num Portugal capaz de se reinventar.


De todas estas conversas, ficou-me a sensação que partilhámos a última semana de 2011 com uma amostra do que há de mais são em Portugal. 

***

Saí da festa pouco depois da uma da manhã, porque queria ir para casa e telefonar à família em Portugal. Percorri o Ku'damm com os seus passeios cobertos de destroços do arraial de foguetes. Tanto dinheiro, tanta poluição, tantos feridos graves por andarem a brincar com fogo e pólvora. Haverá necessidade?

Ao passar por um multibanco, entre duas lojas de luxo, vi que dois sem abrigo se tinham instalado lá dentro para dormir no chão. Junto a um deles espalhava-se um líquido - garrafa entornada? urina?
É relativamente fácil abrir as portas de casa a desconhecidos que trazem uma espécie de carta de recomendação de Taizé. Mas ainda estou longe de conseguir reconhecer Cristo num homem andrajoso que urina no próprio chão onde dorme.

receita de ano novo

(...)
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo.
Eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.



(Receita de Ano Novo, de Carlos Drummond de Andrade)


Ora então: bom Ano Novo para todos.
Porque daqui em diante vai ser diferente, e parte dessa diferença cresce na palma das nossas mãos.

01 janeiro 2012

Taizé em Berlim (5)

"Acampamento na sala", escrevia a jornalista.
Era o quarto das "filhas", e estava assim:


Os nossos rapazes ocuparam o quarto do Matthias.


Ficaram todos satisfeitos ao ver os matrecos a um canto. E ainda mais satisfeitos ficaram quando se deram conta que tinham de passar pela nossa "cave" do vinho para ir ao quarto de banho. Que já nem precisavam de sair mais de casa, que ficavam muito bem por ali mesmo. E nós ríamos, com a certeza absoluta de que o nosso vinho não corria o menor perigo.

O entrevistador da televisão perguntou-me se não era complicado receber oito pessoas em casa. Disse-lhe que não, que já tenho alguma experiência disto - mas vejo agora que me enganei. Não tinha experiência de abrir a casa a oito pessoas que não conhecia, e de receber em troca tamanha lufada de alegria, e de tão depressa se tornarem parte de nós.

Taizé em Berlim (6)

O próximo encontro europeu vai ser em Roma, e os nossos oito patuscos já quase nos convenceram a ir de avião passar o Natal a Portugal, seguindo depois no autocarro com eles para Roma. Seria bem mais fácil e barato voarmos de Berlim para Roma, mas eles - serão budistas? - dizem-nos que o mais importante é o caminho.
O Joachim deixa-se tentar, "podíamos ficar em casa do nosso amigo Enzo", pensa ele em voz alta, e à volta da mesa as mãos vão-se levantando uma a uma, "eu também" "eu também" "eu também".
Gargalhada geral. Sim, a viagem no autocarro deve ser uma festa.

Ontem, depois da oração do fim da tarde, chegámos à conclusão que o projecto de ir comer qualquer coisa a um restaurante, antes da vigília da passagem do ano, ia ser difícil de realizar. De modo que fomos ao russo comprar pelmeni (que seria de nós sem o supermercado russo?) e viemos todos para nossa casa comê-los. Dezoito pessoas ao todo. A seguir ao jantar largaram em cantoria, galhofa e dança. Se são sempre assim quando estão juntos, acredito que a viagem de autocarro seja mesmo uma festa.

Acabaram de sair. Daqui a nada irei mostrar o centro da cidade a um grupo de miúdos de Lisboa, que virão depois jantar cá a casa. Este meu segundo turno regressa amanhã, e então acaba-se "Taizé em Berlim". A cidade vai ficar um bocado estranha.

2012

O ano novo fita-me com simpatia, e eu deixo o velho 
- como os seus raios de sol e as suas nuvens - 
serenamente para trás.

Goethe