09 janeiro 2012

Wladimir Kaminer, um dois três

Para comemorar condignamente o fim da tradução do (pelo menos neste blogue) já famoso livro do Wladimir Kaminer, copio para aqui um texto que a Leonor publicou há algumas semanas, a propósito deste autor. Só para terem uma ideia do que por aí vem.

Aos mais curiosos, aviso que a Cavalo de Ferro já publicou dois livros dele: "Militärmusik" e "Russendisko - discoteca russa". Agora vem por aí o terceiro: já quase há material para desenvolver um vício novo.

Além disso, o filme de abertura da Berlinale 2012 é o, tã tã tã tãããã, Russendisko.
Parece que vai ser um ano muito Kaminer. Mas giro, o que se chama giro, era ele ir ao lançamento a Portugal, e depois escrever um livro assim hilariante sobre os portugueses. Já vi duas amostras do que é capaz de fazer quando fala do meu povo, e gostei. Tem uma maneira de brincar sobre as idiossincrasias alheias que não é humilhante ou ofensiva.

E agora passo a palavra à Leonor:

Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011


Estou a ler 'Meine russischen Nachbarn"


O penúltimo dia de Agosto brindou-me com chuva. Pela janela um dia cinzento. A cidade meio pálida e precocemente escura. Largo as malas e faço o que mais gosto: passear, ver, deambular com a ligeireza de quem nada tem para fazer se não deixar-se ir por entre a multidão e sentir, respirar, ver.
Subo a rua. O passo mais rápido pela chuva insistente na cidade que me surpreende sempre e nunca se esgota em cada visita.  E entro na livraria. Resisto a quase tudo menos a uma livraria recheada de títulos novos, livros baratos e o ambiente de uma religiosidade veneranda de silêncios pontilhados de virar de páginas virgens à espera de serem lidas. Um livro. Falta-me sempre um livro.
Os olhos recaem sobre o mais recente livro, à data, de Wladimir Kaminer, Meine russischen Nachbarn, e é esse que há acompanhar-me nos dias de Berlim, dias de sol e de chuva, dias de muito ver e de digerir história e gente a cada esquina. Não o acabarei, contudo. A cidade absorve-me.
Meine russichen Nachbarn, os meus vizinhos russos, conta a história de dois russos, Andrej e Sergej que convenientemente ocupam o andar por cima do de Wladimir Kaminer, lá na Schönhauser Allee, algures em Prenzlauer Berg, uma zona emergente de Berlim a viver os seus melhores dias depois da Queda do Muro em Novembro de 1989.Andrej e Sergej encetam uma nova vida nesta nova Europa que se quer livre e democrática derrubados os muros físicos que a cortavam em duas, os de lá e os de cá, Ossis e Wessis. Rondando os trinta anos,  Andrej de Leningrado, hoje São Petersburgo, e Sergej da Bielorússia provocam uma pequena revolução na vida aparentemente pacata dos habitantes do prédio de Schönhauser Alle. A porteira não gosta, os vizinhos reclamam do trompete logo pela manhã. Andrej luta com a língua alemã e apaixona-se pela professora enquanto Sergej assina exemplares d 'O Capital de Karl Marx que venderá no e-bay como relíquias do grande filósofo e ideólogo. As aventuras sucedem-se.
E ambos teriam tido uma vida anónima e tranquila, caso tivessem escolhido um outro local para viver. É que Kaminer é um observador atento da realidade, um crítico mordaz das várias vidas que já teve e escritor implacável a quem as aventuras acontecem sempre e de forma renovada. Não poderia desperdiçar esta oportunidade e fixa-os a uma narrativa de leitura muito fácil sem artifícios ou malabarismos estilísticos e despojadamente cativante. Na vida destes dois russos vemos desfilar a União Soviética a que Kaminer disse adeus em 1990 para abraçar Berlim como sua nova pátria, as cidades também são pátria. E as histórias entrelaçam-se. E os tempos. Há a União Soviética com as suas características peculiares, os russos que não riem e Kaminer explica porquê, os moscovitas, reconhecidamente rudes nos modos e a Rússia actual de novos-ricos. E há a Alemanha e Berlim, a vida na cidade, ressentimentos e singularidades. Muito portanto num pequeno livro de 222 páginas em tom humorístico e divertido.
A leitura implica um tu com que se possam trocar impressões, um interlocutor que se possa rir connosco ou opor-se ao que bebemos nos livros, um duelo de palavras e ideias. Para minha grande pena só dois livros de Kaminer estão traduzidos em Português O panorama literário alemão virou uma página acompanhando os ventos de mudança na Alemanha e na Europa. Wladimir Kaminer é um dos mais lidos escritores de língua alemã, por cá quase um desconhecido. Para quando mais um Kaminer em português, senhores editores? Até lá deixo-vos com uma pequena amostra:
"Um professor esforça-se por explicar a um pioneiro o que é o comunismo numa linguagem acessível. 'O comunismo é', diz ele, 'quando tens de comer morangos com natas todos os dias ao pequeno-almoço '. ‘Mas eu não gosto de morangos com natas’ responde o aluno. 'Não interessa', esclarece o professor,vais comê-los na mesma, quer gostes quer não".

12 comentários:

Leonor disse...

Obrigada pelo destaque e muitos parabéns pela tradução, Helena. Finalmente vou poder partilhar o kaminer com alguém que não fale alemão :)

Paulo disse...

Estamos sequiosos.

Helena disse...

Leonor, eu é que agradeço o texto!

Paulo, quando cá vieres ponho-te uma pilha de livros dele na mesinha de cabeceira.

Carla R. disse...

E quando é que vai para as livrarias, sabes ?

Anónimo disse...

Helena, um reparo: por que não, em bom Português (também fonético), Andrei e Serguei, ou então Sergei (já para não dizer mesmo André e Sérgio, como óbviamente faria qualquer Tradutor anglo-saxónico, gaulês, ou hispânico...)?

Até porque "Andrej" e "Sergej" são apenas a versão fonética teutónica dos originais em russo...


A. Castanho.

Helena disse...

Obrigada pelo reparo! É justamente uma das questões que deixei para falar durante a revisão da tradução. Estes nomes estão escritos em "alemão", e eu não sei bem como é que se escrevem em "português" de Portugal.

Agora: André e Sérgio, não acho graça nenhuma.

Anónimo disse...

Eu sei e também não acho "graça", mas é pena. Apenas frisei que seria a opção natural e incontestada (na escrita, como na oralidade) numa qualquer outra Língua culturalmente dominante, excepto a nossa. Que já de há muito vulgarizou o "Andrei" e o "Sergei" (quando não mesmo o "Andrey" e o "Sergey")...


Pois o que me preocupa é mesmo isso: a indizível vergonha que sentimos do nosso Português (e que se revela - tal como dizem de Deus - nestes pormenores...)!


A. Castanho.

Anónimo disse...

Eu também não acho "graça", mas é pena! Apenas frisei que seria a opção natural e incontestada (na escrita, como na oralidade) numa qualquer outra Língua culturalmente dominante, excepto na nossa, claro. Que já de há muito vulgarizou o "Andrei" e o "Sergei" (quando não mesmo o "Andrey" e o "Sergey")...


Pois o que me preocupa é mesmo isso: a indizível vergonha que sentimos do nosso Português (e que se revela - tal como dizem de Deus - nestes pormenores...)!


A. Castanho.

Helena disse...

Olha que não acho que seja vergonha. Seria estranho traduzir nomes de um país para outro. Além de em certos casos ser impossível (Andrej podia ser André, mas que fazes a Mascha e a Kochagin?) (e é para não falar em traduzir nomes japoneses para português), parece-me que aquelas personagens perdem parte do que os identifica como russos.

Até me lembra aquela anedota de portugueses que os brasileiros contam:
Alguém ia contar uma anedota de portugueses, mas outra pessoa protestou, dizendo que não era bonito passarem a vida a contar anedotas dos pobres dos portugueses, e portanto o primeiro recomeçou a contar a anedota: era uma vez dois japoneses, um japonês chamava-se Manuel e o outro japonês chamava-se José...

Anónimo disse...

:-))


Não, Helena, não é nada estranho traduzir nomes próprios (de pessoas, ou geográficos) de uma Língua para outra. Todas as Línguas europeias o fazem (incluindo a Macha e o Kossaguine, devidamente adaptados à fonética, claro...) e o Português também o fazia até há alguns anos. Agora é que a erosão do aculturamento anglo-saxónico está a tomar conta de tudo.


E eu não me quero adaptar a um Português onde já não caibam o Tomás Moro, o Miguel Ângelo, o Martinho Lutero, Pedro, o Grande, Napoleão Bonaparte, Simão Bolívar, Leão Tolstoi, João Sebastião Bach, Frederico Guilherme da Prússia, Francisco José da Áustria, ou a própria Raínha Isabel II, João e Maria, Cinderela, Júlio César, entre tantos e tantos outros que, nas restantes Línguas europeias, continuam a ser o que sempre foram (Cäsar, Jean Sébastien Bach, Mike Schumacher, usw!)...

A. Castanho.

Helena disse...

É mesmo uma questão de perspectiva. Eu compreendo o teu ponto de vista, mas olha que me custa dizer João Sebastião Bach, Tomás Moro, Martinho Lutero, etc.
Também não acho graça nenhuma ao Magellan. Mas já não tenho nada a obstar a Júlio César e a Jesus.
Quem me compreender... ;-)

Embora eu me compreenda: agora, que quase todos falam línguas, e o mundo se alargou imenso, estamos mais flexíveis para assumir os nomes tal e qual como nos são dados, em vez de tentarmos encontrar um equivalente na nossa língua.

O que farias tu com "Pocahontas"? E "Sitting Bull"? Fica assim, ou fica "Touro Sentado", ou Tȟatȟáŋka Íyotake?

Anónimo disse...

"Touro Sentado", claro. Foi assim que o conheci, há muitos anos...


O que eu digo é que, por este andar, um dia até nós, os portuguesitos, diremos orgulhosamente Magellan, Columbo e, até, S. Antonio da Padova, como se fôssemos por isso muito cultos...


Tony Brown.