30 novembro 2009

uma outra forma de viver o Natal




Que faremos do nosso Natal neste ano da graça de 2009?





emancipação masculina

O Matthias resolveu mudar de professor de piano. Não se entendia bem com o que tinha, e cada vez sentia menos prazer em fazer música com ele.
Encontrou esta lista na internet, e passámos uma boa hora a imaginar como serão aqueles professores. Ambos achámos graça à primeira professora da lista, aquela coreana bonita, mas tinha algumas fotografias onde não aparecia tão bem (isto sim, são critérios...). Depois de muito comparar encontrámos a pessoa que nos pareceu mais adequada. Quando eu me dispunha a telefonar, ele (que ainda agora fez 13 anos) disse que dava péssima impressão ser eu a fazer isso em sua vez.
De modo que ligou, apresentou-se, perguntou se estava a incomodar, explicou ao que vinha, combinou tudo.

Eu assisto, encantada: o meu filho a crescer.

(Eu sei, eu sei: o título está errado. O que lá deveria estar é "fujam todos, vem aí baba!")

29 novembro 2009

sobre referendos

Pedro Marques Lopes, sobre os referendos. Muito bom.

Quanto ao referendo que querem fazer, sugiro que a pergunta seja esta:
"Concorda que casais que não podem ter filhos de forma natural não podem casar?"

- ou variações dela, por exemplo: "Concorda que casais que não podem ou não querem ter filhos não podem casar?"

25 novembro 2009

tratar de modo diferente o que é diferente

Tenho andado a evitar falar deste assunto, porque é impossível tratar em post um tema que dava vários compêndios. Para mais, quando é um assunto que não oferece respostas únicas.
Contudo, tendo em conta a qualidade dos leitores deste blogue, acho que vale a pena deixar uns apontamentos e levantar algumas questões. Ou me engano muito, ou a parte melhor deste post vai ser a caixa de comentários.

O Presidente da República vetou (e muito bem) a nova lei das uniões de facto, alegando (e muito bem) que era necessário fazer um debate prévio sobre a figura do casamento e a da união de facto.
Das partes do debate a que assisti, nenhuma me respondeu a algumas questões essenciais:


1. Que o casamento civil foi instituído há apenas 150 anos, demarcando-se e simultaneamente decalcando-se do casamento religioso, e que já foi alvo de modificações importantes para reduzir as assimetrias de carácter patriarcal, já sabemos. Ora, tendo sido já objecto de mudanças tão substanciais, porque é que nos custa tanto alargá-lo aos homossexuais?

2. Uma das minhas perplexidades perante esta discussão é a confusão do "casamento como é" com o "casamento como deve ser".
Diz-se que o casamento é o acto fundador de uma família. E é isto uma família tal como pode actualmente ser fundada pelo casamento civil: o homem poderoso que casa repetidamente com noivas cuja idade é sempre a mesma; o idoso com a moça nova ou a idosa com o jovem; os dois septagenários que se conheceram no lar de terceira idade; o "golpe do baú", as múltiplas conveniências; o doente às portas da morte; o homossexual que se quer iludir a si próprio e à sua envolvente social.
Também há os complementos aberrantes, como a surpresa de uma segunda e até uma terceira família paralelas, que se tornam conhecidas no funeral do pai de todos, as mães que escondem ao marido que não é ele o pai biológico da criança (parece que são uns 3,7% na Europa), ou o negócio-à-prova-de-crise da prostituição...
A sociedade convive pacatamente com tudo isto mas, na hora de alargar o casamento a pessoas do mesmo sexo, é um escândalo, e que nos estão a dar cabo do simbolismo, e que o casamento afinal é algo muito sério e indissoluvelmente ligado à ideia da família como lugar de procriação.
Na prática, a realidade do contrato de casamento é esta: basta que um seja homem e o outro mulher, e ambos aptos para a realização desse contrato. Ninguém pergunta nem controla porque casam, para que casam, nada. E está muito bem assim - ou não, conforme a livre opinião de cada um. O que está mal é que se venha alegar que o casamento é algo bem diferente da sua prática actual.

3. Afinal o que é o casamento? Que instituição tão carregada de simbolismo e dignidade é essa, que é recusada aos homossexuais mas permitida a qualquer par de adultos desde que um seja homem e outro mulher?
Pois se é para moralizar, faça-se uma limpeza geral. Não são só os homossexuais que - alegadamente! - podem destruir esse valiosíssimo símbolo.
Dirão: atenta bem no que dizem as Ciências Sociais! E eu pergunto: o que mexe primeiro, a Ciência Social ou a sociedade? São as Ciências Sociais que impõem à sociedade o que pode e o que não pode ser?
Dirão: a Psicanálise, o Masculino e o Feminino! Disto sei pouco, confesso. E fiquei a saber menos desde a semana passada, quando vi esses autênticos esteios da masculinidade, os homens da equipa nacional de futebol alemã, a chorar como umas criançinhas no meio de um estádio... (não estou a criticar, apenas a notar que também aí há muitos tons entre o branco e o preto)
Brincadeiras à parte: as categorias Masculino e Feminino estão radicadas nos orgãos sexuais? E serão razão suficiente para dizer a um casal concreto que o seu amor vale menos, e que não pode aspirar ao reconhecimento social do seu projecto de comunhão de vida como qualquer outro casal?

4. Qual é a diferença entre casamento e união de facto? Se a união de facto se equipara ao casamento, porque é que as pessoas não casam simplesmente? Quais são os motivos que levam à necessidade da existência de duas figuras na prática iguais mas com nomes diferentes?
Se me disserem que a união de facto é importante para os homossexuais, porque não podem procriar, pergunto então porque é que deixam casar pessoas que não podem procriar e, por outro lado, porque é que deixam aceder à união de facto pessoas que podem procriar e, portanto, casar.
Provocação: criem-se três figuras diferentes - casamento, união de facto (para os casais incapazes de procriar mas que fazem questão de celebrar um contrato em tudo semelhante ao do casamento, excepto na procriação), ajuntamento (para os que querem viver juntos sem qualquer tipo de contrato).
E outra provocação: sugiro que todos os pares que queiram (e possam) casar comecem por celebrar uma união de facto, automaticamente transformável em casamento após (e só após) o nascimento do primeiro filho.

5. Como é que o legislador define os conteúdos do contrato de casamento?
Concretamente: é movido pelo desejo de moldar a sociedade, ou de criar um quadro legal para a realidade social do nosso tempo?
Um exemplo, à luz da realidade actual: se o objectivo principal do casamento civil é criar um enquadramento desejável para a procriação, não está o próprio legislador a criar um estigma para os filhos existentes fora do casamento? Se houvesse hoje realmente uma intenção de proteger as crianças, não deveria o legislador recorrer a outras formas?
A este propósito, o Miguel Silva oferece algumas sugestões sérias.

Acrescento dois desvarios, só para provocar outra vez:
- O interesse das crianças passaria pela autorização da poligamia, que é em - infelizmente - variadíssimos casos a única maneira de permitir que as crianças vivam sob o mesmo tecto com o pai e a mãe. Não sei é se o ambiente familiar seria muito estável...
- Imponham-se mais deveres ao pai: por exemplo, diga-se que é o pai o responsável pelo acompanhamento da criança doente; sempre que a mãe faltar ao trabalho devido a doença da criança, desconte-se um dia do salário do pai - mas pague-se integralmente se for ele a faltar ao trabalho. Isto sim, era um progresso!

6. As garantias dadas por um contrato de casamento têm implicações para terceiros. Não apenas as questões patrimoniais, mas também os serviços de Segurança Social, os contratos de arrendamento, etc.
Eu aceito que um casal que está a tentar ter ou já tem filhos seja objecto de um certo apoio por parte da sociedade. Não entendo é porque é que eu, terceira indirectamente implicada no quadro de apoios estatais e de solidariedade social, devo contribuir para estes apoios no caso de um casal heterossexual sem filhos. Ou melhor: porque é que o simples facto de ser um casal heterossexual permite aceder a quadros de apoio que são negados aos casais homossexuais?
Um exemplo simples: uma estrangeira pode facilmente casar com o namorado e receber direito de residência no país deste; um estrangeiro não pode casar com o namorado. Ao primeiro casal ninguém exige que haja amor ou que tenha filhos - basta que um seja homem e o outro mulher.
Outro exemplo: se, no decurso de um doença prolongada e fatal, o idoso decidir casar com a empregada doméstica que ao longo das décadas o serviu com todo o desvelo, a sociedade comove-se e aplaude. Mas se em vez de um idoso for uma idosa, a empregada que se arranje como puder.
Se isto não é uma injustiça!

cenas da vida familiar

Os miúdos (abençoados sejam!) queixaram-se que as nossas festas de Natal são muito chatas. Dizem que a comida é sempre a mesma coisa, e que parece que estamos a prolongar o jantar para aumentar o suspense do momento de dar as prendas, e que as canções acompanhadas pelo piano são uma estopada (a culpa não é das canções, é dos meus dedos, que demoram muito a passar de um tom para o seguinte, e eles, coitados, a cantar aos sobressaltos, "será que já posso avançar, ou prolongo um pouco mais esta nota?")


Encontrei um hotel no mar Báltico, três dias com pequeno-almoço e jantares de festa, 1500 m² de spa, piscina grande, tudo, por um preço que não é muito mais caro que ficar em casa (se descontarmos o pinheiro, mais a comida melhorada, mais as idas à piscina aqui em Berlim, e assim). Desato a sonhar: quase quatro dias sem ter de pensar no que vou cozinhar para o almoço e no que vou cozinhar para o jantar, aaaaaahhhhh, sem ter de arrumar a cozinha, aaaaahhh, quatro dias de passeios na praia, e saunas várias, e nadar na piscina, e chegar ao restaurante e ter tudo pronto, aaaahhhh. Imagino já uma tradição futura, Natal no Báltico, pronto. E nós a passear na praia, e nós na maisonette com vista para o Bodden (que é o nome que se dá àquela imensa ria) a jogar às cartas com os miúdos ou a ver um filme...

E vai o Joachim e pergunta: e nessa cidade tem missa?
Triste vida. Se calhar não tem, que aquilo era RDA.


***


Tem, tem. Apesar desse desmancha-prazeres que foi o Martinho Lutero e do outro desmancha-prazeres que foi o comunismo (isto é tudo efeito plano inclinado, desde Adão e Eva que tem sido sempre a descer), graças aos russos e à nova geopolítica surgida da segunda guerra mundial, aquela região encheu-se de refugiados alemães vindos do Leste, muitos deles católicos.
Nunca mais ninguém diga mal do Exército Vermelho à minha frente!
Só o Joachim é que tem um bocadinho de pena, porque no ano passado foi comprar o pinheiro de Natal no dia 24 à hora a que o mercado fecha, e arranjou um Nordmanntanne de três metros por apenas vinte euros, porque de qualquer modo já não contavam vendê-lo. De modo que ele alimentava o sonho de criar uma nova tradição familiar de Natal: ir com o Matthias à última da hora tentar comprar um pinheiro fantástico ao preço da chuva. Adrenalina.





(a foto foi tirada daqui - vão ver, que o site está cheio de imagens de sonho)

"investigue-se!"

O intermitente escreveu outra vez um daqueles posts que fazem dele um bloguista muito especial na nossa praça.

Só para terem uma ideia:
"Acho natural que haja quem não gosta de Sócrates, não gosta da sua política, não gosta da pessoa, até quem tenha dúvidas acerca do seu carácter. Acho natural e legítimo que haja quem se empenhe em remover o actual Primerio Ministro do seu cargo quanto antes. O que me indigna profundamente é que em Portugal haja tanta gente, mesmo pessoas com grandes responsabilidades políticas e cívicas que não olham aos meios como fazem.Sei que corro o risco de ser arrumado, só por dizer isto, no lado dos socráticos. Também isso faz parte da cultura que me indigna. O único debate possível em Portugal é entre as trincheiras, quem tenta intervir estando em campo aberto, é logo empurrado para dentro delas."

Vale a pena ler todo o post, que é uma lufada de ar fresco e distanciamento no marasmo do nosso "este país" em processo de suicídio lento. Os comentários também estão muito bons, especialmente o do João Viegas.

***

E pelo meio do texto, esta delícia: "Queirando quer não".
O Lutz a deixar o Mia Couto verde de inveja.

24 novembro 2009

dupla moral é isto:

Um país cujas ruas estão cheias de prostitutas, mas que se choca muito com a promiscuidade dos homossexuais.

e por falar em andar com a cabeça no ar...

Hoje entrei numa daquelas lojas de bugigangas para o lar, peguei num cesto de plástico vermelho, meti lá dentro quatro velas grandes para a nossa coroa de Natal, dei uma volta pelos corredores, saí. Só quatro lojas mais tarde me dei conta que tinha ainda o cesto no braço, e mais as quatro velas.
Escusado será dizer que ninguém me chamou a atenção para aquele insólito cesto. A empregada da loja de bugigangas desatou-se a rir quando lhe contei.

23 novembro 2009

e por falar em professor astronauta...

E por falar em professor astronauta (ver post anterior), hoje mandaram-me esta gracinha:

"Porque é que os que andam no mar são Marujos e os do ar não são Araújos?"

com este comentário:

Claro que é estúpido: eu conheço uma Araújo que anda mesmo no ar!

(devem estar a falar de alguém da minha família, mas confesso que não sei quem será)

admirável mundo novo

Publicidade dos sistemas CISCO







E tem muitos outros. Por exemplo, o de um novo sistema de ensino.
A princípio pensei: que disparate, um professor astronauta. Mas depois lembrei-me de outras possibilidades. O professor que está em casa de quarentena por causa da gripe A, ou uma visita de estudo a algum lugar onde só pode entrar uma pessoa...

se soubesses que ias morrer amanhã, o que farias?

Há muitos anos li a história de um menino que estava a brincar no chão do quarto, a quem perguntaram: "se soubesses que ias morrer amanhã, o que farias?", e que respondeu: "continuava a brincar". Que é como quem diz: continuava a fazer aquilo que dá mais sentido à minha vida.

O Jorge Ferreira, que conheci um pouco no blogue Eleições 2009, e que faleceu no sábado passado, deixou-nos uma grande lição: mesmo sabendo que a morte podia estar próxima, continuou a fazer o que lhe era importante - sem desistir, sem sucumbir.

Em jeito de homenagem, aqui deixo um dos últimos posts que publicou naquele blogue:


Notas de regime

de Jorge Ferreira 2 de Outubro de 2009

1. O maior partido português tem actualmente 3.678.536 militantes e é incapaz de gerar uma solução de Governo. É o Partido da Abstenção. Portugal será, assim, governado pelo segundo maior partido, o PS, que representa actualmente 21,75% dos eleitores recenseados. Este resultado significa, deveriam todos os partidos e instituições políticas da República assumirem-no, uma pesada derrota da democracia. Duvido que o façam. O Partido da Abstenção não tem porta-voz nem vai à televisão. Muito menos é susceptível de ser convidado para a novíssima liturgia dos Gato Fedorento. Não existe, portanto. Cá vamos, pois, votando e rindo.

2. Finalmente Cavaco Silva falou ao país. O Presidente não se dá nada bem com as comunicações das 20 horas para os telejornais. Já com o problema dos Açores, tendo razão na substância, não acertou no método. Voltou a acontecer. O que mais enerva em Cavaco Silva é que se fica sempre com a sensação de que ele não diz tudo o que tem para dizer. Se não pode dizer tudo o que tem para dizer é porque está refém de alguma coisa. Do que será? O certo é que quanto mais fala mais permite a José Sócrates fazer figura de estadista. Suprema ironia.

3. Quanto à questão de fundo, o que há a dizer é que nenhuma democracia saudável pode viver em estado de suspeição permanente sobre a segurança e a privacidade das comunicações, sejam elas electrónicas, telefónicas ou postais. Mas é nesse estado que vivemos, aparentemente para sossego das esquerdas, outrora tão reactivas a tudo quanto fosse suspeita de violação de direitos fundamentais dos cidadãos e hoje tão domesticadas. E este estado de suspeição não se resolve com mezinhas nem com jogos de sombras. Ele resulta de um sistema que está em vigor e que foi construído pelo PS, pelo PSD e pelo CDS, relativamente ao modelo de serviços de informações, sua orgânica e funcionamento. Nunca, como desde que José Sócrates chegou ao poder este tema tem estado tão presente na agenda política… por que será? Ah, sim, as campanhas negras, claro…

4. Soube-se também esta semana que o Ministério Público decidiu fazer buscas a quatro escritórios de advogados, ao que se diz, à procura de um contrato do … Estado! Três anos depois, o Ministério Público decidiu que é importante ler um contrato do Estado de compra de submarinos. Três anos. E decide procurar esse contrato nos escritórios dos advogados? É estranho. É suposto haver arquivos nos ministérios. Terá procurado no Estado e o contrato desapareceu das prateleiras do Estado? Alguém o levou para casa (não era a primeira vez que desapareciam documentos de Estado dos ministérios para casa de ministros…)? Se não fosse grave seria cómico. Por vezes temos a sensação que alguém anda a brincar com assuntos sérios. A brincar demais. Simultaneamente, a Associação Sindical dos Juízes declarou publicamente a sua perda de confiança no Conselho Superior de Magistratura. Na Justiça, isto é mais ou menos a mesma coisa que o conflito aberto entre Cavaco e Sócrates. Mas a Justiça no fundo reflecte o estado de degradação geral em que as instituições se encontram.

5. Não admira, por tudo, que o Partido vencedor das eleições tenha crescido tanto.

(publicado na edição de hoje do Semanário)

21 novembro 2009

um livro por semana

Na tarefa hercúlea de reduzir o tamanho da estante "livros que ainda quero ler", cheguei ao "Cemitério de Pianos" de José Luís Peixoto. Que já estava na sala de espera para atendimento imediato, aquele metro cúbico empilhado na minha mesinha de cabeceira.
Um livro por semana, isso é que era bom. Como é que conseguirei passar ao seguinte, enquanto não destrinçar o mistério de um Francisco que era avô de si próprio?

Ou então: aconteceu-se-me outra vez um curto-circuito na cabeça enquanto lia. É o que dá ler na cama antes de adormecer. Já o Lobo Antunes se queixava há mais de vinte anos que é uma frustração um escritor desunhar-se assim e para quê? para o pessoal ler umas frasezinhas antes de adormecer. E mal ele sabia dos curto-circuitos que me acontecem.

***

Curto-circuito. O que me lembra da altura em que andei a ler o, deixa-me lá ver como é que se chamava aquela futilidade em forma de parvoíce, ah, já sei: o "Sei Lá", e estava capaz de jurar que a autora meteu um dia extra entre um sábado e um domingo. Mas não fui ver de novo, que já lá diz o povinho: "não se deve voltar aos lugares onde fomos infelizes".
Foi um livro que me deixou muito inquieta, porque uns homens usavam cachecol Lacoste e outros Chanel (se calhar eram outras marcas), e eu lia aquilo e ficava com a sensação que me estava a escapar completamente o simbolismo da coisa.

***

Marcas. O que me lembra que outro dia fui a um dos restaurantes mais luxuosos de Berlim. Daqueles restaurantes onde, se uma pessoa se descuida, lá se vai um salário mínimo num almocinho para dois (confesso que tenho alguma dificuldade em gerir estas disparidades). Ora bem: fui, e levei um casaco de que gosto muito, mas que comprei no C&A. Quando a empregada pegou nele para o ir arrumar no guarda-roupa, eu vi que ela viu a marca do casaco (mas disfarçou bem o choque). Da próxima vez, hei-de ver que roupa levo, e conforme o caso, trato de a dégriffer previamente.
Aquele casaquinho C&A, por exemplo, sem a griffe valia à vontade uns 100 euritos mais.

***

Valer mais do que custa. Hoje fui comprar umas flores às turcas do mercado de sábado, na praça aqui perto. São muito simpáticas. Perguntaram-me pela família, e pelas dificuldades na educação dos filhos adolescentes (trocamos sempre condolências sobre esse assunto), enquanto me faziam um ramo lindo-lindo-lindo, por dez euros. Ao pagar, disse-lhes "este ramo está com cara de valer vinte" - mas guardei o troco bem guardado.
O que me lembra daquela vez que fui ao restaurante tailandês da minha rua encomendar arroz de sushi já feito, para uma festa de anos da Christina. Perguntei o preço, e a tailandesa respondeu: "cinco eulos". E eu, que sei o que o arroz custa, e quanto custa prepará-lo, perguntei "mas por esse preço ainda ganha algum dinheiro?" e ela disse "então está bem, quatlo eulos". E eu pensei "calateboca, que se me explico melhor ela ainda vai achar que tem de me pagar para eu trazer o arroz".

***

Podia continuar este jogo do "isto faz-me lembrar de..." durante horas, mas tenho que ir ler um livro qualquer, que esta semana já está a acabar, e eu até agora nem uma página, porque andei noutros stress culturais. Com licencinha, e bom fim de semana!

(Será que o plural de stress é stresses?)

20 novembro 2009

a adopção não é um direito



A propósito do casamento dos homossexuais tem-se falado muito no "direito à adopção". Pior ainda: há quem diga abertamente, ou dê a entender, que no mercado de adopção de bebés - para lhe dar o nome mais próximo da realidade - a procura é maior que a oferta, e que os homossexuais entrarão como concorrência num mercado onde impera a escassez.

A adopção não é um direito. É um serviço que se presta a uma criança em estado de necessidade.
Quem quer adoptar quer ajudar uma criança.

Se me deixassem mandar
(segurem-me, que estou num daqueles dias)
só entregava bebés para adopção a quem já tivesse adoptado previamente uma criança bem mais velha ou com problemas de saúde. Por um ataque de magnanimidade, até estaria capaz de aceitar que não fosse adopção propriamente dita, mas a prestação de um serviço: acolhimento temporário, família de fim-de-semana, acompanhamento regular e responsável de uma criança institucionalizada.
Os bebés iriam para aqueles que deram provas claras de quererem resolver os problemas das crianças, e não os seus.

Dirão: pois, mas os casais que não conseguem ter filhos? É uma injustiça!
Concordo inteiramente: é uma injustiça, uma tragédia, um problema terrível. E, infelizmente, está com tendência para aumentar.

Contudo, essa tragédia não pode ser motivo para perverter a base fundamental da adopção: no seu centro não está uma pessoa sem filhos, está uma criança sem pais. É o adulto que serve a criança, não é a criança que serve para suprir uma necessidade do adulto.

(foto daqui)

19 novembro 2009

será que também vai ter carrossel?


Quando a Disneyland chega às igrejas, a curiosidade parte à desfilada: em vez de cavalos, elefantes e motas, vão ter anjos e arcanjos no carrossel? será que têm um bungee jumping escondido dentro da torre de 100 metros?
O padre usará um nariz de palhaço, ou um boné de capitão?
Confesso: perante este Restelo tão prafrentex, descubro-me irremediavelmente velha.
E depois, outras perguntas: que visão do espaço de sacralidade têm as pessoas que desenharam e as que aceitaram este projecto? que maneira de viver a Fé corresponde a esta encenação?
(foto tirada da notícia no link)
Adenda 1: aquelas ondas vão dar óptimas pistas de skate. Aqueles caracolinhos vão dar óptimos cenários para fotos de "jovens". É isso. Uma igreja para atrair os jovens. Bora de patins até ao altar.
Adenda 2, a pergunta que não quer calar: depois de construída, quando for preciso dinheiro para a demolir, como é que vão fazer? Talvez fosse boa ideia inscrever desde já a sua demolição no programa Polis.

eureka!

Finalmente - depois de ler o post "a mulher e o casamento" no Da Literatura - percebi porque é que os homossexuais só agora começaram a reivindicar o direito a casar. É que dantes nenhum dos dois, ou das duas, queria ficar com o papel da mulher.

18 novembro 2009

quais tamiflu, quais quê!

Chá de carqueja do Gerês. Com mel.
A firma Roche que se cuide, que eu vou-lhe fazer concorrência.

Primeiro a Christina (talvez), agora o Matthias (bastante certo). E eu com a sensação que no meu corpo se está a decidir se é desta que.

Por aqui, já nem se dão ao trabalho de testar. Assim como assim, esta gripe é menos perigosa que a habitual, a que anualmente dá conta de uma média de 15.000 alminhas.

E passa com chá de carqueja e mel. Podem crer.

preciso urgentemente de um desbloqueador

Tenho vários posts para escrever, mas não consigo decidir-me por qual começar.
Preciso urgentemente de um desbloqueador de posts.
Ou então de um pouco de tempo.

Volto já.

16 novembro 2009

Institute for Indian Mother & Child - Dr.Sujit em Portugal

The Institute for Indian Mother & Child (IIMC) is a non governmental voluntary organization, committed to promote child & maternal health, literacy and to accelerate International solidarity & Peace.
IIMC was initiated by Dr. Sujit Kumar Brahmochary and was set up in 1989, with the mission to give support to the medical needs of the poorest and most backward people of West Bengal, India; people who have no access to basic healthcare and medicinal facilities. Today, IIMC has expanded its activities to include Medical Program, Health Education & Health Promotion Program, Network Program, Education & Sponsorhip Program, and integrated rural developmental projects including women economical empowerment though Micro Finance Banking Program and agricultural program.

Mais informações no site do IIMC.

A amiga que me passou esta informação, e que trabalhou durante uns meses neste projecto, dizia: "vale a pena ouvir e aprender deste senhor."

Programa da sua visita a Portugal:


Segunda feira
16.11.2009

18:20 Chegada a Lisboa
20:00 Jantar Portela
Encontro Jovens Sem Fronteiras aberto à Comunidade
Igreja Cristo Rei da Portela – Jardim de Inverno


Terça feira
17.11.2009

21:30 Encontro CUPAV - Estrada Torre nr.26, 1769-014, Lisboa


Quarta feira
18.11.2009

10:09 Comboio Coimbra
14:30 Encontro Faculdade de Psicologia (Sala 4.8 ou 4.9)
17:30 Encontro Faculdade de Medicina - Auditótio do IPJ


Quinta feira
19.11.2009

10:00 Encontro Colégio do Rosário – Porto
19:45 Jantar Grupo de Voluntários - Encontro Universidade Católica - Bar das Artes da Universidade Católica, Campus da Foz


Sexta feira
20.11.2009

10:30 Encontro Colégio da Paz
15:00 Encontro Faculdade de Medicina
21:30 Universidade Lusófona - Anfiteatro


Sábado
21.11.2009

14:00 Encontro IST
GASTagus - Lisboa

13 novembro 2009

ponte aérea

A pedra que se vê no meio desta fotografia (já mostrada num post anterior) lembra o período do bloqueio, um dos momentos mais dramáticos da Berlim pós-guerra. Em 1948 os Aliados ocidentais decidiram criar uma nova moeda na parte da Alemanha por eles controlada. A URSS não achou graça a essa medida unilateral, e criou uma outra moeda para a sua parte da Alemanha. Quando, na parte "ocidental" de Berlim, o marco ocidental foi introduzido, os soviéticos reagiram com um bloqueio total. Essa parte da cidade tinha mais de 2 milhões de habitantes, víveres para cerca de um mês e carvão para mês e meio.
Por meio de uma ponte aérea com três corredores (daí os três arcos que se vêem no monumento), a cidade foi abastecida durante mais de um ano.



Relato do diário de Ruth Andreas-Friedrich:

(nota: vou traduzir o texto com a rapidez do costume. Isso significa que não gastarei tempo à procura da tradução exacta de edifícios ou cargos, nem a explicar pormenores como a diferença entre um presidente da Câmara de Berlim e outros presidentes da Câmara. O que me interessa é dar uma ideia do ambiente naqueles dias. )

Quarta-feira, 23 de Junho de 1948
(...) Às três da tarde, a Heike e eu pomo-nos a caminho da Câmara. À medida que nos aproximamos, damo-nos conta de como as ruas se tornam assustadoramente cheias. Camiões, ciclistas, peões. Como se todos os adeptos da SED tivessem recebido ordem para comparecer. Bandeiras vermelhas adejam ao vento. Sobre as cabeças, vêem-se cartazes: "queremos uma moeda única!" - perto da Câmara, a concentração torna-se perigosa. Alguém grita: "abaixo os divisionistas!" Um outro responde: "malditos sovietes!" Os que estão à volta gritam. Os rostos contraem-se como em espasmos. Uma onda impele-nos para a frente. Pisa, fura, empurra como uma corrente de lava. Ali! Um encontrão, uma pancada, uma pressão transbordante. "Vão invadir a Câmara", guincha uma mulher. A corrente leva-nos com ela. "Já arrombaram as portas!", ouço alguém dizer. "Estão a ocupar a sala de reuniões." - Bastilha! penso eu, assustada. Agora é tudo ou nada. - Chegamos à Câmara. Largas ondas humanas espalham-se por escadas e corredores. O social-democrata Suhr tenta, em vão, falar com as pessoas. "Não vamos iniciar a reunião enquanto os lugares na tribuna não estiverem vazios", anuncia ele à multidão. Em resposta, gritos: "Dêem-lhe um murro no olho... queremos ver os divisionistas!" Começam a usar megafones. "Comecem... comecem..." Nesse momento, aparece Louise Schröder, a Vice-Presidente da Câmara. "Sejam razoáveis. Vão para casa, e ouçam o debate hoje à noite na RIAS". Gargalhadas trocistas ribombam sobre as suas palavras. Ela apela, pede, implora. Debalde. Passam duas horas. Os indesejados não arredam pé. Finalmente, Chwalek, da SED, aproxima-se da tribuna. "Camaradas", chama ele. "Esperai lá fora. A nossa fracção manter-vos-á permanentemente ao corrente da situação." As suas palavras acalmam os espíritos agitados. Quem está habituado à disciplina partidária obedece às palavras do chefe. Durante uns cinco minutos, o fiel da balança oscila ainda entre tumulto e ordem, até que esta ganha. A "invasão da Bastilha" acabou. Os demonstrantes abandonam a sala cantando a Internacional.
"Em França não teriam desistido", diz a Heike, quando nos encontramos de novo cá fora, amarrotadas e ofegantes. "Até para fazer uma revolução é necessário talento." Uma sorte que não o tenhamos, penso eu, enquanto esfrego a minha canela dorida. Ou devia ser um azar?

Quinta-feira, 24 de Junho de 1948
Começam as represálias. Na língua dos diplomatas chama-se "sanção", o que soa mais fino, menos brutal. Os sovietes cortaram o fornecimento de energia eléctrica aos sectores ocidentais desde esta manhã. Não temos rádio, nem luz, nem electricidade para cozinhar, ou seja - como já aconteceu tantas outras vezes - sem qualquer possibilidade de ferver sequer um pouco de água para fazer café. O fogareiro de tijolos de 1945 já foi desmontado. A Heike prepara um pequeno-almoço com pão e ameixas secas demolhadas. Até logo à noite temos de arranjar algumas velas. Mas como que é que se pagam as velas? Como que é que se pode pagar seja o que for, sem se incorrer em crime?
(...)

Sexta-feira, 25 de Junho de 1948
(...)
As lojas estão vazias, e não parece que se vão encher de um dia para o outro com mercadorias fantásticas como nos sectores ocidentais. Para poder oferecer mercadorias, é preciso que elas existam. Mas a SMA deu ordens para cortar imediatamente todos os fornecimentos de mercadorias da região oriental à ocidental. Desde ontem, não deixam passar mais comboios de mercadorias ocidentais pela zona oriental. O governo militar russo lamenta: "devido a um problema técnico na linha ferroviária, a Administração dos Transportes vê-se obrigada a interromper os transportes de mercadorias, como já aconteceu com os de passageiros. Estamos a tomar todas as medidas para reiniciar os transportes o mais depressa possível." Quem não acredita, é problema dele. Enquanto não houver ninguém disposto a protestar seriamente, é indiferente se acreditamos ou não.
Nos mais altos círculos americanos fala-se da maior crise entre os aliados ocidentais e a União Soviética desde o fim da guerra. Nós somos o palco desta crise. O seu objecto, o seu sujeito, o seu herói a contragosto. E é a isto que se chama reforma monetária. Não temos luz, não temos rádio. E podemos reflectir ociosamente à luz das velas sobre como nos havemos de arranjar com esta celebridade duvidosa.

Domingo, 27 de Junho de 1948
Duas horas de electricidade por dia. Aos domingos, apenas uma. Para distribuir com justiça, dividiram a população em grupos. Assim, cada um tem a possibilidade de aceder à sua quota de energia a horas úteis. O nosso turno é entre a meia-noite e as duas da manhã. Tudo o que está antes e depois acontece sem energia, sem luz, sem rádio. Recentemente começaram a circular pelos sectores ocidentais veículos da RIAS para substituir o serviço noticiário. É fastidioso estar no centro dos acontecimentos mundiais e só se poder informar sobre eles entre a meia-noite e as duas da manhã. Por isso, quando o carro da RIAS vem, nós corremos para ele. Dá notícia do mais recente e do mais importante: "A ponte aérea foi reforçada mais uma vez, conta agora com 100 aviões diários. É proibido tomar banho nos lagos e rios porque, devido à falta de energia, se teme que as águas sejam contaminadas por esgotos. Continuam a prender pessoas no sector oriental por serem detentoras de marcos ocidentais. Câmbio da "moeda de papel de parede": 30:1 a favor do marco ocidental." - O carro da RIAS afasta-se, deixando-nos consternadas: não parece que as coisas vão melhorar em breve.

10 novembro 2009

um relato estórico

Às cinco em ponto entrámos - o Giordano Bruno, a mulher dele, e eu - na Pariser Platz (que é a praça por trás da Porta de Brandemburgo, com a embaixada americana de um lado e a francesa do outro) e arranjámos um lugarzinho jeitoso para ver a orquestra. Daí a quinze minutos começou a chover. Saímos da praça para ir comprar um guarda-chuva. Regressámos. A praça estava mais cheia, o que tornava difícil a passagem dos "protestantes" que aproveitavam a hora para exibir o seu descontentamento (o melhor trocadilho num cartaz: "Deutschland Deutschland übel alles"*). Uma hora depois continuava a chover, e cada vez mais. Demo-nos conta de que aquele sítio não era muito bom, e resolvemos procurar outro.
Ao sair da praça, vimos um coro de jovens que cantava "we shall overcome". Juntámo-nos a eles, o Giordano Bruno improvisava uma quinta voz cheio de emoção - lembrando-se do tempo em que, juntamente com outros estudantes, cantou esta canção inúmeras vezes para recusar a guerra do Vietname. Eu nem queria acreditar que aqueles miúdos estavam a cantar por uma pauta. "We shall overcome" com texto e notas?! Primeira estrofe, segunda estrofe, terceira estrofe?! Mas esta canção faz parte do imaginário colectivo mundial, é uma das poucas que sabemos todos cantar de cor e coração!
(Bem... estou a ficar velha)
Contornámos a embaixada britânica e, para fugir à multidão atravessámos o memorial do Holocausto - o que foi difícil, porque o guarda-chuva era mais largo que o corredor. Isto dava um aproveitamento simbólico qualquer, mas de momento ficamos assim. Chegámos finalmente à linha de pedras de dominó que ia da Porta de Brandemburgo para a Potsdamer Platz. Parecia o estaleiro da Torre de Babel: cada magote de espectadores falava uma língua diferente, quase não se ouvia alemão. Chovia cada vez mais.
Do lado de lá do "muro" passou um grande cortejo com bandeiras do Solidarnocz.
Quando, às sete, Daniel Barenboim arrancou com a orquestra, não conseguíamos ouvir nada. E também não víamos as imagens no ecran gigante, devido a todos os guarda-chuvas que havia à nossa frente. Tive pena dos que estavam atrás de mim, e fechei o guarda-chuva. Quando apareceu a primeira surpresa da noite, Placido Domingo a cantar o hino não-oficial da cidade, "Berliner Luft", o pessoal à nossa volta não sabia em que momento devia fazer os assobios. Foi aí que decidimos ir para casa. Não é que a chuva, os guarda-chuvas e o mau som incomodassem muito. Mas estar ali no meio de não-berlinenses, ai isso!

(Podem ver neste vídeo, com a Filarmonia de Berlim na Waldbühne, como é que os Berliner acompanham esta marcha; e aqui, como foi ontem - uma cópia barata, foi o que foi)

Fomos para casa, portanto. Completamente ensopados, e com alguma frustração. A poucos metros da minha rua, o telemóvel tocou. Era a Christina, feliz da vida, a dizer que estava num terraço da Potsdamer Platz, e que conseguia ver tudo nitidamente. "E também ouves?", perguntei eu, tentando aliviar a inveja. "Sim, com pouca nitidez, mas ouço!" O nosso vizinho trabalha naquele prédio, e levou-a.
Passados cinco minutos também nós estávamos a ver tudo, e a ouvir nitidamente, na televisão e em directo.

(Estou aqui desconfiada que os organizadores desta festa andaram e ler o Dois Dedos de Conversa. É que no programa só se falava do Durão Barroso, mas quando chegou ao momento de empurrar o dominó estavam lá os dois presidentes da nossa Europa, o da Comissão e o do Parlamento. Tanto melhor.)

Gostei de ver que deram a palavra não apenas aos grandes políticos, mas também a alguns dos que tiveram a coragem de afirmar "nós somos o Povo!". Por exemplo, a uma das mulheres que em Setembro de 1989 exibiu perante os jornalistas ocidentais um cartaz onde se lia "Por um país aberto com pessoas livres" (já contei esta história aqui) - sabendo perfeitamente que logo a seguir iria parar a uma das temidas prisões da Stasi. Emocionei-me com o Gorbatchev, gostei do "muito obrigado" que lhe disseram - nunca seremos capazes de agradecer o suficiente. Ri-me com o modo como vários políticos não respondiam às perguntas que lhes faziam, dizendo "sim!" como plataforma de lançamento das frases que traziam preparadas de casa. E achei curioso terem dado a Thomas Gotschalk (um brincalhão) a responsabilidade de moderar esta festa. Porque terão escolhido um entertainer, quando podiam recorrer a pessoas com uma outra imagem de seriedade (o Günther Jauch, por exemplo)? Suponho que quereriam cativar o público mais jovem, os tais do "que chatice, lá estão eles outra vez a falar do muro".

Agora estou a pensar que será que vão inventar para os 25 ou os 30 anos da queda do muro. Já sei que devo ir bem mais cedo, com banquinho (se permitirem) e piquenique, para o lado de fora da Porta de Brandemburgo.

E deixo aqui um apelo importante:

Povos oprimidos de todo o mundo!
Organizai-vos de modo a que as vossas revoluções ocorram numa estação mais amena!
O público das comemorações agradece!
******
* "Deutschland Deutschland übel alles" é um trocadilho a partir da estrofe proibida do hino ("Deutschland Deutschland über alles").
Trocou-se o "über" (= sobre) por "übel", que significa algo como "mal relativo".
******
Adenda: não há dúvida que saber ler é uma vantagem. Só depois de escrever este post me apercebi que desde o princípio estava previsto que um dos extremos do dominó seria empurrado pelos dois presidentes europeus, o da Comissão e o do Parlamento.
*suspiro*

09 novembro 2009

noves de novembro

1938

Erich Kästner, jornalista e escritor, gostava de trabalhar num café no Ku'damm, bastante perto do sítio onde moro. Foi nesta rua que testemunhou os acontecimentos da noite de 9 para 10 de Novembro de 1938:
Naquela noite apanhei um táxi para regressar a casa, que me levou pela Taeuntzien e pelo Kurfürstendamm. Dos dois lados da rua havia homens que batiam com barras de metal nas montras das lojas. Por todos os lados o vidro quebrava e espalhava-se em estilhaços. Eram homens da SS, com calças de montar pretas e botas de cano alto, mas com chapéu e casaco à paisana. Faziam o seu trabalho calma e sistematicamente. Dava a impressão que cada um estava encarregado de quatro ou cinco casas. Levantavam a barra de ferro, batiam várias vezes e avançavam depois para a montra seguinte. Não se viam outras pessoas na rua. Só mais tarde, contaram-me no dia seguinte, terão aparecido serventes de bar, empregados de mesa nocturnos e prostitutas, para saquear as lojas.
Três vezes fiz parar o táxi. Três vezes quis sair do carro. Três vezes surgiram de trás de uma árvore agentes da polícia que me deram ordens peremptórias de voltar a entrar no táxi e continuar a viagem. Três vezes lhes retorqui que ainda posso sair de um carro quando me apetece, e particularmente num momento como este, quando em público se praticam - passe o eufemismo - actos impróprios. Três vezes disseram com maus modos "polícia judiciária!". Três vezes bateram a porta do carro. Quando quis parar pela quarta vez, o condutor recusou-se. "Não adianta", disse ele, "e além disso está a resistir à autoridade do Estado!" Só parou quando chegámos à minha casa.


1989
Já contei esta história aqui, mas não a consigo encontrar, de modo que repito, sinteticamente:
Numa conversa de café com algumas mulheres que conheci em Weimar, às tantas começaram a falar da queda do muro. Dois relatos:

- Naquela noite, estava num restaurante com a minha família. Era o jantar de despedida do meu irmão, que tinha conseguido um visto para abandonar o país. Estávamos todos muito tristes, porque não tínhamos a menor ideia do que seria a vida dele na Alemanha Ocidental e quando nos poderíamos voltar a encontrar. Às tantas, um empregado chegou à nossa mesa dizendo "abriram a fronteira!" e nós respondemos-lhe que a última coisa de que precisávamos era de gracinhas de mau gosto.

- Não me dei conta de nada nessa noite. No dia seguinte, na universidade, alguém contou que tinha andado a passear no Ku'damm. Eu ouvia a história, à espera do momento em que viria a frase "e estendi a mão e bati na mesinha de cabeceira", mas nunca mais vinha. Até que me dei conta que era verdade. Corri para uma rua que me tinham indicado, reparei pela primeira vez que nessa parte do muro havia uma porta, e que desta vez estava aberta. Juntei-me ao grupo enorme dos que queriam passar. Eram tantos, que os meus pés quase não tocavam o chão. Os guardas já nem se davam ao trabalho de olhar para os passaportes. Mas o tempo todo eu temia que fechassem a porta mesmo à minha frente. Algo tão fantástico não poderia tornar-se verdade. Finalmente consegui atravessar a fronteira, e passei o resto do dia a entrar em lojas de florista para cheirar todas aquelas flores que não conhecia.

2009
Hoje, no Spiegel Online, há vários comentários a um artigo sobre a queda do muro que são variações sobre este tema: "que chatice, o muro, o muro - já estamos fartos de ouvir falar nessa chatice desse muro".

dominós é com ele

Hoje à noite, às oito e um quarto, na Potsdamer Platz, Durão Barroso empurrará a primeira pedra da ponta de um dominó gigante. Espera-se que as pedras caiam em cadeia, indo encontrar-se em frente à Porta de Brandemburgo com as pedras que vêm do outro extremo, empurradas por Lech Walesa.

Numa perspectiva simbólica, faz sentido que o actual Presidente da Comissão Europeia esteja numa das pontas deste dominó.

Mas há algo de muito perverso no facto de ser justamente este homem quem vai lançar o efeito dominó democrático. Já o fez uma vez, para nossa vergonha.

(Porque é que não me perguntam a opinião antes de tomar as decisões? Melhor seria ter num dos lados do dominó democrático o Presidente do Parlamento Europeu. À parte a abstenção (!..), sempre é um orgão eleito democraticamente.)

(A não ser, claro claro, que haja entre os visionários desta comemoração alguém com uma mente muito complexa, que terá posto propositadamente naquele lugar Durão Barroso, mais que o "Presidente da Comissão", para simbolizar o nosso tempo. De um lado Lech Walesa, revolução popular movida pela sede de Liberdade e Democracia, e do outro lado Durão Barroso, contra-revolução escolham-vocês-o-adjectivo-mais-adequado...)

08 novembro 2009

os olhos cheios de água







Há vinte anos caía o muro, e Berlim comemora.
Dizem que anda por aí um milhão de turistas, mas eu sei mais que eles: um milhão e dois, que são o nosso Giordano Bruno e a esposa. Tenho andado num stress cultural que nem queiram saber.

Ao longo da antiga linha do muro, entre a Potsdamer Platz e o lado de lá do rio, junto ao Reichstag, fizeram um dominó com mil blocos pintados. Estes foram enviados para todo o mundo, para receber as diversas interpretações deste acontecimento. Tem blocos pintados por habitantes de países ainda hoje divididos, blocos pintados por artistas, blocos pintados por miúdos das escolas primárias. Há um feito pela família do Nelson Mandela, outro feito em conjunto por crianças israelitas e palestinianas.

Já estão expostos, preparados para o grande acontecimento de amanhã: a Festa da Liberdade, Fest der Freiheit.
Por volta das 8 da noite, Lech Walesa empurrará a primeira pedra, que empurrará a seguinte, que empurrará a terceira... até à Porta de Brandemburgo. No outro extremo, Durão Barroso (melhor dizendo: o Presidente da Comissão Europeia) empurrará também uma pedra, que empurrará a seguinte... até à Porta de Brandemburgo. Um dominó democrático muito carregado de simbolismo.
Pelo meio muita música, discursos, as figuras políticas que há vinte anos tornaram este milagre possível, fogo de artifício.
(Desconfia-se até que as nuvens se abrirão para deixar passar o espírito de Reagan, mas ainda não é certo)

Lá estaremos, claro. Já estou a tirar o pó aos fatos de ski, para tentar sobreviver a umas 4 ou 5 horas de pé ao frio. O que a gente não faz só para poder ser parte do momento...

Ontem passeámos ao longo dos blocos, apreciando a criatividade e o grito de Esperança que sai de cada um deles. Lindos. Mas, mais belo ainda, era ver as pessoas que avançavam lentamente ao longo da linha de blocos: com os olhos cheios de água.

06 novembro 2009

faz hoje vinte anos

Faz hoje vinte anos que vim morar para a Alemanha.
Três dias depois caiu o muro de Berlim.
De modo que ando há vinte anos a dizer a gracinha que, pensando bem, nunca teve muita piada: "mas não foi por minha culpa!". Falta de visão, é o que é. Tivesse andado nas últimas duas décadas a repetir "fui eu! fui eu!", o mais provável era entretanto já toda a gente acreditar nisso (o Goebbels jurava a pés juntos que o estratagema funciona). Além disso, tendo em conta que os russos acham que foi o Gorbatchev e os americanos acham que foi o Reagan, gerou-se aqui uma espécie de terra de ninguém que bem podia ser ocupada por mim.

Em todo o caso, foi há vinte anos. Daqui a nada terei passado mais tempo da minha vida na Alemanha que em Portugal. É uma sensação estranha olhar para este antes e depois, sem saber como é que o antes teria evoluído se não tivesse havido esta - como é que dizia aquela psicóloga a propósito da mãe da Maddie? Ah, já sei: - clivagem.

Há dias uma amiga, estrangeirada como eu, perguntava-me se eu gostaria de regressar a Portugal. Não sei. Sinto falta dos amigos, do mar e de algumas comidas. Mas, em Portugal, sei que sentiria a falta de muito do que aqui constitui o meu quotidiano.
(E depois há aquela psicóloga, a da clivagem. Morro de medo de um dia a PSP desconfiar de mim e aparecer logo uma psicóloga na tv a falar das minhas clivagens.)

E assim vai a vida: portuguesa na Alemanha, "alemoa" em Portugal.
Nem sempre é fácil.
Mas tenho tido também momentos magníficos. E fiz meu aquele lema: "copo meio cheio? copo meio vazio? não importa: saboreio com gosto cada trago."

05 novembro 2009

ópramim, fartinha de aparecer na tv

No concerto dos U2 em frente à Brandenburger Tor, há bocadinho. Eu sou a que tem um gorro branco. Ou, para ser mais fácil de reconhecer: sou a única pessoa que não está a fazer fotografias.
A Christina também se vê bem: é a de gorro azul. Ou, para ser mais fácil de reconhecer: a que salta mais.
O Joachim e o Matthias é que não se vêem, coitados. Como o Joachim estava de cadeira de rodas (foi operado ao joelho há 3 semanas, maldito futebol, correu tudo bem, obrigados), estavam no espaço reservado a deficientes, sob a arcada do lado esquerdo do palco. Havia mais duas pessoas em cadeira de rodas. Uma delas era uma tetraplégica fã incondicional daquela banda, que veio de propósito de Munique para os ver. Tiveram muito azar: péssimo som porque estavam por trás das colunas, e não puderam ver os efeitos de iluminação da Brandenburger Tor.

O concerto (concertinho: gratuito mas breve) foi óptimo. Gostei especialmente das projecções sobre o monumento que lhes servia de cenário. Lá pela terceira canção olhei em volta da praça: o pessoal da embaixada francesa dançava, os do banco feito pelo Frank Gehry estavam nas varandas mas ainda deviam ter a cabeça na sala de reuniões (aquele peixe enorme no meio do edifício, eu gosto de imaginar que é um tubarão e que as cadeiras dos directores estão no lugar dos dentes), dizia eu, o pessoal do banco ainda devia estar a pensar nas reuniões porque ninguém dançava, idem para os que estavam na varanda da Akademie der Künste (estariam ainda a pensar na última reunião? se calhar estavam era com receio de não conseguir encontrar o caminho de saída pelo meio daquelas escadarias suspensas lançadas para lado nenhum e mais os planos inclinados de que o edifício é feito). E os da embaixada americana? A trabalhar, coitados. O American Way of Life já não é o que era, coitados.

Já na semana passada houve uma festa semelhante. Por volta das duas da tarde um amigo do Matthias telefonou-lhe, "queres ir a um concerto gratuito do Robbie Williams?", "quero", e lá foram os dois de metro, seguidos de perto pela Christina e pelas amigas que ela conseguiu avisar.

Por estas e por outras é que gosto muito de viver em Berlim.
Pelos concertos surpresa, e por se poder ir de metro.
Ou de bicicleta vermelha, como uma famosa bloguista que eu conheço.

***

O som deste filme está péssimo, mas mostra um pormenor interessante: agora dança-se muito menos nos concertos - as pessoas estão muito quietinhas a gravar tudo.
(Parecem uns turistas que vi na catedral de Santiago de Compostela: em vez de apreenderem aquele espaço com todos os sentidos, aplicavam-se a recolher para levar para casa dentro da câmara de filmar)

cartoons sobre a RDA e a reunificação alemã

O Spiegel Online de hoje (até parece que não leio mais nada...) tem uma interessante selecção de cartoons que Barbara Henniger fez sobre a situação na RDA, a queda do muro e a reunificação.
Curiosamente, Barbara Henniger nasceu a 9 de Novembro de 1938, a "Reichskristallnacht".
E fazia 51 anos a 9 de Novembro de 1989, data em que caiu o muro.


Passo aqui alguns exemplos:




"Acabou-se o carvão, chefe!"

(alusão às situação económica da RDA - cartoon que me faz lembrar esta gracinha)


(Ja = Sim; Warum? = Porquê?)
Este cartoon pode parecer demasiado leve - mas só para quem ignorar o peso da censura e da polícia política.

Duas peças sobre os receios que se seguiram à queda do muro e à reunificação:


Título: sopa da união.

Por fim, a dura realidade actual:



Aqui existiu um muro terrível que separava as pessoas!

os olhos do faraó

Há tempos, jj.amarante fez um post sobre os padrões fixos na pintura egípcia. Como habitualmente, o texto levantava questões que nos faziam pensar, nomeadamente o modo de pintar os olhos.
Escrevia ele: "na pintura ocidental este tipo de representação, em que duas vistas de perspectivas diferentes são apresentadas numa mesma imagem, só voltou a aparecer nas figuras cubistas de Picasso."

No esforço hercúleo (melhor seria: sísifico) que iniciei recentemente de reduzir o tamanho da estante "livros que ainda vou ler", peguei num livro de B. Rachewiltz e V. Gómez, "Os Olhos do Faraó". Não é uma leitura, digamos, excessivamente agradável (tanto mais que parece ter faltado revisão da tradução - confesso que da D. Quixote não esperava um texto assim), mas tem uma parte que parece ter sido escrita propositadamente para o jj.amarante. Aqui vai a transcrição:

- Antes de falar da arte, falemos dos artistas. Quem é o escultor? O próprio nome no-lo diz: - sankh, aquele que "faz viver", que "anima". Nós animamos a matéria inerte. Repetimos portanto a mesma acção criadora divina. Se observardes o traçado nas quadrículas notareis as proporções entre as partes, seja na figura humana como na relação que esta tem com toda a composição.
- Mas isto limita a liberdade do artista - disse Beba - porque os gestos e as posições estão subordinadas a regras e não derivam de uma liberdade escolhida pelo próprio artista. O artista não pode reproduzir a realidade como ele próprio a vê.
- Aquilo de que falais, jovem dama, é uma arte pessoal, individual, a que pertencem os esboços que também nós fazemos com prazer. Outra coisa é a arte que deriva das regras divinas da deusa Maat, onde tudo está subordinado ao cálculo, às regras matemáticas das proporções, as mesmas empregadas pelos deuses criadores como Ptah e Khnum, por exemplo. Olhai esta figura - e Pepiseneb mostrou aquela que apenas esboçara. Os seus outros colaboradores estavam a esculpir a parede seguindo os traçados análogos feitos anteriormente pelo Escultor-chefe. Este aproximou-se de um deles e indicou-lhe algumas correções a fazer. - Tendo por base as regras da magia - prosseguiu Pepiseneb - tudo o que é essencial deve ser reproduzido, de outro modo, se por acaso algum elemento faltasse, uma vez animada a representação, e recordo-vos mais uma vez que s-ankh quere dizer "animador", esta no plano do ka resultaria com falta dos elementos que não tinham sido indicados. Uma criatura monstruosa que poderia causar graves danos.
Toth interveio, pois se tratava de um argumento muito seu conhecido.
- As mesmas regras - disse o Escriba-mor - estão na base do martelamento dos sinais hieroglíficos que representam animais nocivos ou perigosos, uma vez também eles serem animados pelo kheri-heb, o sacerdote leitor.
- Sim - interrompeu o rei - lembro-me ainda de quando nos ensinavas essas coisas há muitos anos. O teu exemplo, parece-me, foi o da letra "F", a víbora cornuda.
O Escultor-chefe continuou as suas explicações:
- Por todos estes motivos a figura humana representada nos baixos relevos ou em pintura tem de conter todos os elementos essenciais: cabeça representada de perfil, os ombros e a metade superior do torso vistos de frente com ambos os braços representados, enquanto a parte inferior do torso e os membros inferiores são representados de perfil. Deste modo abraçamos no mesmo momento e e muitos lados a imagem total do homem. Observai o olho. Ainda que a cabeça seja representada de perfil, o olho é visto de frente, ou seja na sua totalidade, pois que o olho é um orgão essencial de natureza, por si mesma, mágica.

04 novembro 2009

Giordano Bruno

O Giordano Bruno resolveu vir a Berlim para a comemoração dos vinte anos da queda do muro.
O que me deixa feliz: prevejo belas passeatas, e magníficos serões que nos levarão em conversa por cantos vários da cultura, da política e da alma.

Fica até ao dia 20: prevejo uma ligeira redução na minha produtividade bloguística até essa data.
Mas pode ser que os meus leitores fiquem a ganhar. Não conheço muitas pessoas com a cultura geral deste Giordano Bruno, e com a capacidade de a transmitir de modo tão entusiasmante. Sim, pode ser que a qualidade deste blogue melhore um pouco.

"Giordano Bruno" é o nome que ele usa para fazer recensões na amazon.com.
Podem ler aqui, é um prazer de cultura e ironia. Tanto quando escreve críticas a livros, como quando fala de música (é especialista em música clássica, especialmente do Renascimento e do Barroco), ou até de produtos alimentares (é um cozinheiro excepcional, daqueles que não precisam de livros de receitas porque têm o saber na ponta dos dedos).
Contou-me que há um alemão em Tóquio que já se lhe queixou que aquelas recensões sobre CDs de música clássica ainda o vão levar (ao alemão) à ruína.
De modo que vão ler ali, se quiserem, mas antes guardem o cartão crédito a sete chaves, e atirem as chaves pela janela. Nunca se sabe.

03 novembro 2009

e por falar em traduzir escritores...

Há dias mostraram-me um livro, em alemão, e pediram-me que traduzisse para português um texto que lá estava, do José Cardoso Pires.
Agarrei no livro, cheia de confiança e boas intenções, li a primeira frase, abri a boca para a tradução e...
...comecei a gaguejar.

É que uma coisa é traduzir um texto alemão para português, e outra coisa para josécardosopirês.

manual de maus costumes

Eu sei que o assunto não é propriamente actual, e até pensava que ia passar por ele em silêncio, mas a expressão "manual de maus costumes" continua a incomodar-me.

Para já, deixem-me explicar que as afirmações do Saramago não me ofendem como católica, mas como ardorosa crente na infalibilidade dos prémios Nobel. É que fica mal, caramba, fica-lhe mesmo mal dizer as coisas assim. É um prémio Nobel da Literatura, não é o adolescente que venceu o concurso de cartazes lá da escola dele.

Quem é que se lembraria de afirmar que a Bíblia é um manual? Um manual?!
Se fosse um ultra-fundamentalista, talvez compreendesse - são desvios, enfim, é lamentável mas temos de ter alguma paciência.
Agora, uma pessoa com a cultura e a experiência literária do Saramago?!
É uma desilusão, pronto.

A Bíblia não é um manual. É o registo, com vasto recurso ao poético e ao simbólico, de uma intuição sobre Deus, uma busca de sentido. Uma intuição que se vai formando no seio de determinados ambientes históricos e culturais. Para a saber interpretar, é preciso conhecer o meio e procurar a intenção.

Um post divertido que o José Bandeira escreveu há tempos (enfim, chamar divertidos aos posts do Bandeira ao Vento é um pleonasmo, desculpem) serve bem como exemplo do que se pode ler na Bíblia:

Um Deus omnisciente não perguntaria “Adão, onde estás?”, ele diria “Adão, tens dois segundos”.

Num registo sério, o que interessa neste episódio não é a omnisciência de Deus, mas a afirmação da liberdade do Homem. "Onde estás?", essa frase tão recorrente nas conversas dos antigos amantes quando os caminhos começam a separar-se:
Onde estás tu agora? Que lugar tenho eu na tua vida?

O leitor, crente ou não, pode olhar para esta passagem como uma pista que abre horizontes. Mas também pode optar por se prender ao literal e aproveitar para tirar conclusões sobre a Bíblia ser uma trapalhada incongruente, quod erat demonstrandum, ou então para fazer uma boa piada.

***

Mas eu não desisto assim facilmente do Saramago. Imagino que o que ele queria dizer era isto: "Sendo tomada à letra, a Bíblia é um manual de maus costumes".

(Isto sou eu a tentar conseguir um lugar de tradutora das entrevistas de Saramago para português...)

Ah, assim sendo, estamos entendidos, e do mesmo lado da barricada. O Saramago, eu, e mais alguns cristãos que se irritam com o modo como a Bíblia é treslida para apoiar estratégias de domínio das consciências.

Outono



No fim de semana passado, o Outono teve um ataque de exibicionismo na região de Isère.



















Muito mais que uma janela, o quarto tinha toda uma parede em vidro. Deixámos as cortinas abertas para não perder a paisagem.

Quem quer dormir quando o luar ilumina o vale adoçado pela névoa, quando a meio da noite as estrelas nos entram quarto adentro, deslumbrantes?
Por uma vez, lamentei não sofrer de insónia.

"uma resposta em três tomos para gente com paciência"

A Rita Dantas atacou de novo, com inteligência e pontaria.
À atenção de quem está a morrer de medo do futuro.
(Depois de ler isto, estou capaz de acreditar que o futuro já foi pior.)

As Redes Sociais, Pacheco Pereira e o TDACHSR I (aqui)

As Redes Sociais, Pacheco Pereira e o TDACHSR II (aqui)

As Redes Sociais, Pacheco Pereira e o TDACHSR III (aqui)

02 novembro 2009

ecce homo

Um dia que me dê uma coisa muito má, mesmo muito má, queria ter a sorte de ser ajudada por este homem.
E que me dê a cortisona embrulhada em palavrões, se for preciso. Não importa.
Quero ser ajudada por uma pessoa inteira, mais que um correctíssimo técnico da saúde.

Ontem, um amigo comentava que o nosso mundo tem cada vez mais agitações sentimentais, mas falta-lhe coração.
Ora aí está algo que não falta a este homem.

Ecce homo:

Um boi

Temos de conversar mas é difícil porque só eu desejo essa conversa.
Tu não.
Tu, que o amas - ou não queres, apenas, que ele morra, mas acho que o amas e não queres que ele morra (amor cego e iterativo, na presente conjuntura) - não queres falar. Melhor dizendo, não queres que eu fale. Eu quero, tu não.
Fácil é chamar-te burra. Não és. Não queres, simplesmente, ouvir-me.
Fácil é chamar-te tonta. Não és. Não queres dizer o que eu penso que já sabes mas, repara, parece-me que sabes: o que se passa é que, se concordares comigo, assim chorando, é como estarmos os dois a assinar um pacto de "sabença" dele quando ele está de costas. E mais: ele nem chora. Ele anda ali.
Falamos aqui, ela, eu e os senhores, dum homem que tem um feitio difícil, uma mentação teimosa e uma ignorância granítica. Um discurso rude de duriense amável. Não sabeis o que é? Não vos explico.
Perante um cancro espalhado, um Ganges lento dentro dele - lento até ver -, nem ela (que o ama, que se ama e que, sentindo-os bem, se lhe recusa em parte), nem ele (que tem da doença uma noção complexa e difusa, como só os teimosos e os amblíopes do pensamento conseguem ter de tudo), nem eu (que acabo por nem saber como lhes dizer, nem o que lhes dizer, aliás, que sei eu também desta merda senão o que me parece?), nenhum de nós parece estar aqui muito seguro de estar a navegar em águas calmas, embora o rio siga ainda quase liso.
Sei isto: ele vai morrer e não sei quando, mas sinto que se abrevia; sei do quê: sei do que vai morrer, se antes não se acidentar. Quando é que não sei. Sinto que não demorará. Sentir é vão. Vão então para o caralho.
Sei isto: nem ele nem ela vão ser-me fáceis no declive dele, independentemente da demora.
Sei ainda isto: pagam-me para esta merda mas isto é fodido vezes demais e peço desculpa por vos deixar na dúvida sobre o facto de "se te pagassem dez vezes mais que o que te pagam era menos fodido, era, ó besugo de merda?", mas a verdade é que não, não era, era igual, era fodido na mesma.
"Era fodido - e é - mas é para ele e para ela, ó boi!" - poderão atirar-me esta pedra, aos guinchos.
Levo com ela. Em cheio no focinho, onde quiserem acertar-me.
Já não sei responder muito bem a muitas das perguntas que me fazem, quanto mais às que me faço eu, um boi destinado à lapidação.