31 maio 2011
então está bem, se querem um post sobre as eleições, cá vou eu de cabeça:
Vou comprar acções da Xerox, parece que vou ficar rica e infeliz.
uma agonia: penso e repenso e trepenso, e não consigo decidir qual deles escolher!
Este?
Ou este?
(não me digam que pensavam que pensavam que eu ia fazer um post sobre as eleições?!)
Ou este?
(não me digam que pensavam que pensavam que eu ia fazer um post sobre as eleições?!)
como sempre, os lisboetas são os privilegiados
Eu também queria poder votar Ferro Rodrigues!!!
(ó senhores do PS: não podiam dar um jeitinho para pensar também nos portugueses da paisagem, e nos da diáspora, sniff sniff que somos uns desgraçadinhos de insularidade, enfim, não podiam dar um jeitinho para pensar fora de Lisboa? não podiam dar um jeitinho para nacionalizar o Ferro Rodrigues?)
(ó senhores do PS: não podiam dar um jeitinho para pensar também nos portugueses da paisagem, e nos da diáspora, sniff sniff que somos uns desgraçadinhos de insularidade, enfim, não podiam dar um jeitinho para pensar fora de Lisboa? não podiam dar um jeitinho para nacionalizar o Ferro Rodrigues?)
Sussuarana
Isto é muitas delícias juntas: a canção, o sorriso iluminado da Bethânia, e o modo como aquela nossa senhora é chamada a fazer parte da história.
(encontrado na Rita M., no facebook)
(encontrado na Rita M., no facebook)
30 maio 2011
autocarro M29
Fui à Filarmonia comprar bilhetes nos bancos de pau para os concertos desta semana, descobri que os bilhetes para o concerto/bailado na Arena Treptow já estão quase todos esgotados e comprei logo uma dúzia para os amigos (amigos: quem quiser chegue-se à frente) (leitores residentes em Berlim, ou que visitem Berlim no último fim de semana de Junho: trata-se disto, com música de Rameau e a maestrina Emmanuelle Haïm, por 8 euros).
Regressei a casa toda contente, com a carteira a abarrotar de promessas de beleza.
No autocarro, fui como sempre para o andar superior. Estranho: estava muito cheio, mas havia uma fila à frente, nos chamados melhores lugares, que estava vazia. Sentei-me, e logo a seguir percebi: estava mesmo atrás de um pequeno grupo de punks em excursão. Cheiravam um bocadinho mal, bebiam cerveja e arrotavam como trombones. Ai.
Ao passar na paragem "Albergue de Juventude Resistência Alemã" uma das punks riu-se: albergue de juventude da resistência alemã, que nome engraçado!
Por acaso: a quantidade de vezes que já passei ali, e nunca me ocorreu o cómico do nome.
Decidi deixar-me ficar, que a conversa prometia. E bem: hoje fiz a mais divertida viagem de autocarro de que tenho memória. Eles não eram de Berlim, e vinham com um guia, uma espécie de assistente social disfarçado de cool, com pulseiras cheias de imagens de nossa senhora, um lápis detrás da orelha e outros adereços do género. Ao falar, abria muito os olhos, fazia uma voz toda empolgada: como quando contamos aos meninos histórias de dinossauros muuuuuuiiiiito graaaandeees e feroooooozes. O dinossauro era outro: "olhem que eu sou um especialista de III Reich", dizia ele, todo orgulhoso de si próprio.
A miúda perguntava "então onde é a tal resistência alemã, será isto aqui?" e apontava para um prédio neocoiso com a porta da entrada debruada a flores de pedra. Aqui, dizia o guia, apontando para o edifício certo, e punha voz de caso: foi aqui que mataram o Stauffenberg. Foi o comandante, fez-lhe o favor de o matar antes de ser torturado pelos SS. Olhem que eu sei muito disto, na escola fomos passados a ferro com esta matéria toda, parecia uma lavagem ao cérebro. Tive um professor que era nazi...
- Nazi?! Não és tão velho! Quando é que andaste na escola?
- Fins dos anos sessenta. Que querem: os grandes do partido foram corridos, mas os pequeninos ficaram, foram para polícias ou professores. Tiraram o uniforme castanho, não abriam a boca, mas eram nazis na mesma.
- Que nojo, diziam os punk, e arrotavam.
- Eh, pá, há um sítio muuuuiiiitooo giiiiiro no Ku'damm, tenho de vos levar lá. Fazem de conta que estão a queimar os livros...
- Que livros?
- O III Reich queimou livros dos escritores que não eram nazis. E no Ku'damm tem um sítio onde parece que estamos a caminhar sobre a fogueira. É impecááável, vamos lá. De qualquer modo, temos de fazer alguma coisa, fazemos isso.
A conversa continuava, sem parar. Pareciam meninos grandes, todos eles, e enquanto descobriam a cidade eu descobria, fascinada, aquela sua maneira simples e directa.
Depois chegou a vez da paragem deles, beberam o resto da cerveja, deram um último arroto, saíram.
O autocarro ficou normal, que pena.
Regressei a casa toda contente, com a carteira a abarrotar de promessas de beleza.
No autocarro, fui como sempre para o andar superior. Estranho: estava muito cheio, mas havia uma fila à frente, nos chamados melhores lugares, que estava vazia. Sentei-me, e logo a seguir percebi: estava mesmo atrás de um pequeno grupo de punks em excursão. Cheiravam um bocadinho mal, bebiam cerveja e arrotavam como trombones. Ai.
Ao passar na paragem "Albergue de Juventude Resistência Alemã" uma das punks riu-se: albergue de juventude da resistência alemã, que nome engraçado!
Por acaso: a quantidade de vezes que já passei ali, e nunca me ocorreu o cómico do nome.
Decidi deixar-me ficar, que a conversa prometia. E bem: hoje fiz a mais divertida viagem de autocarro de que tenho memória. Eles não eram de Berlim, e vinham com um guia, uma espécie de assistente social disfarçado de cool, com pulseiras cheias de imagens de nossa senhora, um lápis detrás da orelha e outros adereços do género. Ao falar, abria muito os olhos, fazia uma voz toda empolgada: como quando contamos aos meninos histórias de dinossauros muuuuuuiiiiito graaaandeees e feroooooozes. O dinossauro era outro: "olhem que eu sou um especialista de III Reich", dizia ele, todo orgulhoso de si próprio.
A miúda perguntava "então onde é a tal resistência alemã, será isto aqui?" e apontava para um prédio neocoiso com a porta da entrada debruada a flores de pedra. Aqui, dizia o guia, apontando para o edifício certo, e punha voz de caso: foi aqui que mataram o Stauffenberg. Foi o comandante, fez-lhe o favor de o matar antes de ser torturado pelos SS. Olhem que eu sei muito disto, na escola fomos passados a ferro com esta matéria toda, parecia uma lavagem ao cérebro. Tive um professor que era nazi...
- Nazi?! Não és tão velho! Quando é que andaste na escola?
- Fins dos anos sessenta. Que querem: os grandes do partido foram corridos, mas os pequeninos ficaram, foram para polícias ou professores. Tiraram o uniforme castanho, não abriam a boca, mas eram nazis na mesma.
- Que nojo, diziam os punk, e arrotavam.
- Eh, pá, há um sítio muuuuiiiitooo giiiiiro no Ku'damm, tenho de vos levar lá. Fazem de conta que estão a queimar os livros...
- Que livros?
- O III Reich queimou livros dos escritores que não eram nazis. E no Ku'damm tem um sítio onde parece que estamos a caminhar sobre a fogueira. É impecááável, vamos lá. De qualquer modo, temos de fazer alguma coisa, fazemos isso.
A conversa continuava, sem parar. Pareciam meninos grandes, todos eles, e enquanto descobriam a cidade eu descobria, fascinada, aquela sua maneira simples e directa.
Depois chegou a vez da paragem deles, beberam o resto da cerveja, deram um último arroto, saíram.
O autocarro ficou normal, que pena.
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29 maio 2011
plano B (2)
O Matthias tinha-me dito que o campo de futebol era ao lado do estádio de patinagem no gelo, e eu, na minha simplicidade, pensei que seria um à esquerda e o outro à direita. Ah, isso é que era bom. Ao lado do estádio de patinagem no gelo há um labirinto de piscinas, campos de atletismo, courts de ténis e, muito bem escondidos, campos de futebol. Ao fim de meia hora a andar para trás e para a frente, perguntei a um grupo de rapazes onde era o campo de futebol.
- Qual deles?
- Não sei.
- Quem está a jogar lá?
Abri um sorriso tipo "ai, agora é que me vou perder, vocês vejam lá sejam tolerantes" e respondi:
- O meu filho.
Alguma coisa estou a fazer muito mal. Outros ganham bom dinheiro para pôr as pessoas a rir daquela maneira.
***
Lutaram como uns valentes, e ganharam 4-2.
Ao ver o Matthias a fazer aqueles sprints rapidíssimos em arco, com o rosto marcado pela determinação, senti-me a mãe do Figo.
(e quem se rir disto não percebe nada de futebol)
- Qual deles?
- Não sei.
- Quem está a jogar lá?
Abri um sorriso tipo "ai, agora é que me vou perder, vocês vejam lá sejam tolerantes" e respondi:
- O meu filho.
Alguma coisa estou a fazer muito mal. Outros ganham bom dinheiro para pôr as pessoas a rir daquela maneira.
***
Lutaram como uns valentes, e ganharam 4-2.
Ao ver o Matthias a fazer aqueles sprints rapidíssimos em arco, com o rosto marcado pela determinação, senti-me a mãe do Figo.
(e quem se rir disto não percebe nada de futebol)
plano B
Tinha tantos planos para esta manhã de domingo, as coisas atrasadas e mais um projecto em que me meti e me faz sentir o Deus da primeira semana do mundo, mais concretamente a parte do "e viu que era bom", se calhar não é bom mas está-me a dar um incrível prazer.
Tinha muitos planos, sim, mas o Matthias, ao sair para o jogo de futebol, despediu-se com os olhos muito brilhantes, acho que hoje vou fazer um golo importante, mãe, não queres vir ver?
Plano B.
Tinha muitos planos, sim, mas o Matthias, ao sair para o jogo de futebol, despediu-se com os olhos muito brilhantes, acho que hoje vou fazer um golo importante, mãe, não queres vir ver?
Plano B.
Maria João e Mário Laginha no Quasimodo
Esta mulher não envelhece? Pensava que era só eu...
Continua como a vi há dez anos, nesse memorável concerto em San Francisco. A música atravessa-lhe o corpo como um instinto, o humor toca uma nota só dela - e deixa o público encantado, a rir às gargalhadas.
Ontem foi o peixe, o raio do peixe, raisparta o peixe, não partas o peixe, dá cá o peixe, o peixe é meu ou teu? - improvisava a lengalenga num ritmo impressionante, enquanto tentava desatar o nó de um colar enorme (o maldito peixe), o dava ao Laginha para guardar, o ia buscar de novo. A sala a rebentar em gargalhadas.
Ontem foi Beatriz, interpretada com beleza e sentimento tais que nos deixou desvastados, seguida da pergunta: "Bica, estás aí? Esta foi para ti". O Bica estava ali, a dois passos da minha mesa, e erguia o polegar para ela, que desatou a contar histórias de quando se conheceram (o que eu gosto destas histórias que ela conta em palco!), da sua passagem por uma aldeia no sul da Alemanha com 100 habitantes, 101 comigo, da primeira tournée na Alemanha a 50 euros por concerto, da vinda a Berlim e do pullover que comprou pelo preço de três concertos, do modo caloroso como nessa primeira vez foi recebida no Quasimodo, this is home. Depois lembrou a Aki Takase, companheira de tantos momentos musicais únicos, será que amanhã vai estar aqui?, gostava tanto de a rever!
E se eu hoje à noite voltasse lá?
Beatriz
Concerto da Maria João no Quasimodo.
Nem o longo passeio de regresso a casa, nem os palermas em bando que me cercaram no passeio
(nada de grave: falei-lhes em alemão com cara de poucos amigos, e eles, por sorte não eram grunhos, puseram-se logo em sentido)
nada disso esbateu o eco mágico desta canção.
Grande Maria João!
28 maio 2011
outra maneira de olhar para o síndroma de Down
Muito antes de a revista Brigitte se lembrar de deixar de recorrer a modelos fotográficos e passar a usar mulheres normais ("normais", dizem eles, hihihi - se aquelas são mulheres normais, nós, as outras todas, somos, deixa cá ver, autênticas fora de série...), já a Jako-o fazia todo o seu catálogo de produtos para crianças com modelos recrutados entre os filhos dos empregados.
Esta manhã encontrei num folheto publicitário deles uma miúda com síndroma de Down, e queria mostrar aqui, mas como estava com preguiça de digitalizar essa imagem fui procurar na internet, onde descobri um blogue com fotografias surpreendentes de ternura. Nasceu da ideia de uma fotógrafa que teve uma filha com esse "little extra" e, passado o primeiro choque, descobriu que a via com olhos assim:
Chama-se Conny Wenk, e mostra o seu trabalho no site kids with a little extra. Maravilhoso.
Esta manhã encontrei num folheto publicitário deles uma miúda com síndroma de Down, e queria mostrar aqui, mas como estava com preguiça de digitalizar essa imagem fui procurar na internet, onde descobri um blogue com fotografias surpreendentes de ternura. Nasceu da ideia de uma fotógrafa que teve uma filha com esse "little extra" e, passado o primeiro choque, descobriu que a via com olhos assim:
Chama-se Conny Wenk, e mostra o seu trabalho no site kids with a little extra. Maravilhoso.
27 maio 2011
a cozinheira no seu labirinto
Era quarta-feira, dia de Santo Aldi, e lá fui à minha peregrinação semanal. O Aldi tem coisas óptimas, mas é só quando calha. Na quarta tinha pato, e decidi logo ali que ao jantar ia haver pato com laranja.
Do que me havia eu de lembrar! Pensava que era uma receita simples, tipo "meta uma laranja no bucho do bicho, meta o bicho no forno, faça um molho com cenoura e sumo de laranja, pronto, já está", mas nada disso. Tive de procurar em 10 livros diferentes para encontrar uma receita. Os meus preferidos, com receitas simples, muitas fotografias e poucos ingredientes, não tinham pato com laranja.
Oh, diabo - devia ter ficado desconfiada!
Abri o grande Kiehnle, que é um livro antiquíssimo com 703 páginas, 50 fotografias (a preto e branco) e 2343 receitas, o que dá uma média de 4 linhas por receita, ingredientes incluídos. Tinha pato com laranja, apenas 3 linhas de receita. "Óptimo!", pensei eu.
Era bom, era!
A receita era assim: assar um pato (v. receita 859). Usar a gordura para fazer o molho de laranja da receita 433. Cortar o pato em bocados, regar os bocados com esse molho, decorar com rodelas de laranja.
A receita 859 já tinha 15 linhas, por isso resolvi assar o pato às três pancadas. Para o molho de laranja lá me arrisquei até à receita 433, que era muito simples, mas pedia um molho escuro (receita 414).
Cheguei à receita 414, demorava duas horas a fazer.
Nem pensar.
Mandei passear o Kiehnle, fui ver ao "la cuisine pour tous", que parece ser o Kiehnle francês. Canard à l'orange, 17 linhas, sem remeter para mais receita nenhuma.
Vive la France.
O pato já estava no forno, 20 minutos antes de servir comecei a fazer o molho. O problema é que não tinha verificado os ingredientes no dicionário. Cinco minutos antes de chegarem as visitas percebi o que era "glace de viande".
Meu reino por um bacalhau, nunca mais na vida faço outra coisa que não seja bacalhau à brás, e quem não gostar que deixe na beira do prato.
26 maio 2011
Filarmonia: terraços de vinhedo num navio que desliza sobre Bach
Há vários anos que frequento a Filarmonia de Berlim, mas só depois da visita guiada que fiz há dias comecei a entender melhor este edifício que tanto me fascina.
Antes de mais, trata-se de uma desforra genial. Proibido pelos nazis de construir edifícios públicos e de fazer a sua arquitectura orgânica, o arquitecto Hans Scharoun desenha em 1960 uma Filarmonia que se afirma como vitoriosa antítese. O pentágono e a fuga aos ângulos rectos: viva a libertação. As portas e alguns tectos baixos: recupere-se a dimensão humana. As janelas e as paredes irregulares: nunca mais o metódico quadriculado do horror. A orquestra no meio do público, os espaços interligados: cultura para uma sociedade democrática, sem separação entre artistas e público, ricos e pobres.
O edifício é concebido de dentro para fora. Começa pela sala de música, cresce para o átrio e as varandas, entendidos como espaço de comunidade e comunicação, desemboca na fachada. De simetria, apenas um eixo - concessão muito negociada do arquitecto à acústica - que atravessa a sala e se ergue, pelo avesso desta, como a proa de um navio sobre o átrio. Aqui e ali, elementos náuticos: escadas leves como pontes, janelas como escotilhas, as próprias cores dos elevadores - vermelho à esquerda-bombordo, e verde à direita-estibordo.
A orquestra fica no centro da sala, rodeada por naipes de cadeiras alinhados como terraços de vinhedo, sob um conjunto de tectos convexos que se pretendem céu estrelado.
No chão do átrio, Johann Sebastian Bach. E é bem verdade que quem não sabe é como quem não vê: a quantidade de vezes que tropecei naquela estranha mistura de cores e ritmos, e me perguntava que bicho lhes teria mordido para fazerem tal coisa. Até que a guia nos fez subir ao primeiro andar e, apontando para o conjunto, nos explicou que o artista Erich F. Reuter se inspirou em duas peças de Bach para desenhar aquele mosaico por entre a pedra negra. Não direi que vi a música, mas entendi finalmente.
Os candeeiros fascinam-me. São 72 peças pentagonais, unidas em circunferência, que me transportam automaticamente à infância: o teu pai é careca?
Ainda no átrio, um trabalho monumental de colagem de Martin Liebscher, de que se vê abaixo o segmento central, capta as atenções e suscita sorrisos: o autor fez-se fotografar mais de mil vezes em situações hilariantes fora e dentro da sala da Filarmonia, e compôs um quadro tão confuso quanto divertido. Algumas pessoas não se dão conta que é sempre o mesmo, e já houve quem fosse reclamar por a Filarmónica não aceitar mulheres entre os seus membros...
Para visita, já não estava nada mau.
Mas é sempre possível melhorar ainda mais: enquanto visitávamos a sala grande, alguns músicos preparavam-se para o concerto dessa noite, sob a direcção do Abbado, e a solista subiu ao palco, com rolos no cabelo, para largar uma voz prodigiosa pela sala quase vazia.
Um pouco mais tarde, na sala de música de câmara (pequenina, pequenina: apenas 1200 lugares), pudemos assistir a um pouco de um ensaio de Händel: orquestra, coro, solistas. E nós maravilhados.
Mas, como já disse, é sempre possível melhorar ainda mais: no fim da visita, tive a sorte de ser convidada para uma bebida no bar por trás do palco. E ali estávamos nós em conversa amena, na varanda junto ao camarim do Abbado, saboreando o ambiente quase febril que precede o concerto: o primeiro violino e um flautista tocando em dueto enquanto esperavam, e a solista a passar, já de cabelo solto, num magnífico vestido vermelho. Como uma miragem.
Para passear um pouco pelo edifício, sigam este link (em inglês).
E para fazerem uma visita guiada com uma excepcional guia portuguesa, sigam este.
Antes de mais, trata-se de uma desforra genial. Proibido pelos nazis de construir edifícios públicos e de fazer a sua arquitectura orgânica, o arquitecto Hans Scharoun desenha em 1960 uma Filarmonia que se afirma como vitoriosa antítese. O pentágono e a fuga aos ângulos rectos: viva a libertação. As portas e alguns tectos baixos: recupere-se a dimensão humana. As janelas e as paredes irregulares: nunca mais o metódico quadriculado do horror. A orquestra no meio do público, os espaços interligados: cultura para uma sociedade democrática, sem separação entre artistas e público, ricos e pobres.
O edifício é concebido de dentro para fora. Começa pela sala de música, cresce para o átrio e as varandas, entendidos como espaço de comunidade e comunicação, desemboca na fachada. De simetria, apenas um eixo - concessão muito negociada do arquitecto à acústica - que atravessa a sala e se ergue, pelo avesso desta, como a proa de um navio sobre o átrio. Aqui e ali, elementos náuticos: escadas leves como pontes, janelas como escotilhas, as próprias cores dos elevadores - vermelho à esquerda-bombordo, e verde à direita-estibordo.
A orquestra fica no centro da sala, rodeada por naipes de cadeiras alinhados como terraços de vinhedo, sob um conjunto de tectos convexos que se pretendem céu estrelado.
No chão do átrio, Johann Sebastian Bach. E é bem verdade que quem não sabe é como quem não vê: a quantidade de vezes que tropecei naquela estranha mistura de cores e ritmos, e me perguntava que bicho lhes teria mordido para fazerem tal coisa. Até que a guia nos fez subir ao primeiro andar e, apontando para o conjunto, nos explicou que o artista Erich F. Reuter se inspirou em duas peças de Bach para desenhar aquele mosaico por entre a pedra negra. Não direi que vi a música, mas entendi finalmente.
Os candeeiros fascinam-me. São 72 peças pentagonais, unidas em circunferência, que me transportam automaticamente à infância: o teu pai é careca?
Ainda no átrio, um trabalho monumental de colagem de Martin Liebscher, de que se vê abaixo o segmento central, capta as atenções e suscita sorrisos: o autor fez-se fotografar mais de mil vezes em situações hilariantes fora e dentro da sala da Filarmonia, e compôs um quadro tão confuso quanto divertido. Algumas pessoas não se dão conta que é sempre o mesmo, e já houve quem fosse reclamar por a Filarmónica não aceitar mulheres entre os seus membros...
Para visita, já não estava nada mau.
Mas é sempre possível melhorar ainda mais: enquanto visitávamos a sala grande, alguns músicos preparavam-se para o concerto dessa noite, sob a direcção do Abbado, e a solista subiu ao palco, com rolos no cabelo, para largar uma voz prodigiosa pela sala quase vazia.
Um pouco mais tarde, na sala de música de câmara (pequenina, pequenina: apenas 1200 lugares), pudemos assistir a um pouco de um ensaio de Händel: orquestra, coro, solistas. E nós maravilhados.
Mas, como já disse, é sempre possível melhorar ainda mais: no fim da visita, tive a sorte de ser convidada para uma bebida no bar por trás do palco. E ali estávamos nós em conversa amena, na varanda junto ao camarim do Abbado, saboreando o ambiente quase febril que precede o concerto: o primeiro violino e um flautista tocando em dueto enquanto esperavam, e a solista a passar, já de cabelo solto, num magnífico vestido vermelho. Como uma miragem.
Para passear um pouco pelo edifício, sigam este link (em inglês).
E para fazerem uma visita guiada com uma excepcional guia portuguesa, sigam este.
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24 maio 2011
poupar dinheiro na Dussmann
Ontem fui à Dussmann (se querem saber tudo: ontem ao fim da tarde fui ao ensaio do coro, e a seguir fui beber uma cervejinha com alguns dos cantores e o dirigente, e estivemos a falar sobre ir de comboio até ao Tibete, e como se compra o bilhete em Xangai, e que o de 1ª classe custa menos de 200 euros para um percurso que demora quatro dias, mas se se sair de Xian só demora dois, e que para ir à casa de banho é preciso levar galochas e arregaçar as calças, ou então deve-se usar a dos deficientes, cantar num coro de pessoal diplomático é nisto que dá, agarrem-me que eu vou..., e depois despedi-me deles e fui à Dussmann) porque queria comprar um CD de música clássica, e não há como a cave da Dussmann para uma pessoa encontrar o que quer e de caminho perder-se em desvarios de aaaaaaaaaah, estás aqui?
Os malandros, mal me viram passar por uma mesa enorme de CDs da Martha Argerich em promoção, todos com preços em etiquetas vermelhas e títulos sexy do género "a gravação histórica" ou "the sound of Martha Argerich", puseram a tocar o concerto nº 3 de Rachmaninov para piano. Sabem-na toda, os malandros.
Embalada naquela música e naqueles preços, em menos de nada já tinha a mão cheia de poupanças.
Na mesa ao lado, os DVDs. Ai! Como resistir a um Concerto Triplo e Fantasia Coral de Beethoven com Barenboim, Yo-Yo Ma e Perlman como solistas, a menos de 10 euros? Toca a aproveitar, que só o que ganhava no desconto dava para comprar mais dois.
Quando o pé-de-meia já se aproximava perigosamente de um salário mínimo devolvi quase tudo à proveniência (é bem verdade que os portugueses são incapazes de poupar!) e fui em busca do CD que me levara àquela ratoeira.
E agora estou aqui indecisa, sem saber se comece pelo trio para piano, violino e violoncelo de Tchaikovsky, ou se vá ouvir a Argerich a tocar Ma Mère l'Oye.
Como se não bastasse, hoje servem Schumann no lunchkonzert da Filarmonia. Estou tramada.
Os malandros, mal me viram passar por uma mesa enorme de CDs da Martha Argerich em promoção, todos com preços em etiquetas vermelhas e títulos sexy do género "a gravação histórica" ou "the sound of Martha Argerich", puseram a tocar o concerto nº 3 de Rachmaninov para piano. Sabem-na toda, os malandros.
Embalada naquela música e naqueles preços, em menos de nada já tinha a mão cheia de poupanças.
Na mesa ao lado, os DVDs. Ai! Como resistir a um Concerto Triplo e Fantasia Coral de Beethoven com Barenboim, Yo-Yo Ma e Perlman como solistas, a menos de 10 euros? Toca a aproveitar, que só o que ganhava no desconto dava para comprar mais dois.
Quando o pé-de-meia já se aproximava perigosamente de um salário mínimo devolvi quase tudo à proveniência (é bem verdade que os portugueses são incapazes de poupar!) e fui em busca do CD que me levara àquela ratoeira.
E agora estou aqui indecisa, sem saber se comece pelo trio para piano, violino e violoncelo de Tchaikovsky, ou se vá ouvir a Argerich a tocar Ma Mère l'Oye.
Como se não bastasse, hoje servem Schumann no lunchkonzert da Filarmonia. Estou tramada.
a vingança serve-se fria
O Spiegel online de hoje traz o seguinte título:
Quatro Estados alemães correm o risco de chegar a uma situação semelhante à da Grécia
(aqui, em alemão)
Trata-se de Bremen, Saarland, Schleswig-Holstein e Berlim (que nem dinheiro tem para tirar a neve das ruas - o pessoal das outras regiões da Alemanha ri-se muito, em ataques de arrogância de província), .
O Conselho de Estabilidade, que desde 2010 fiscaliza as contas dos Estados alemães, detectou nestes quatro uma situação de vulnerabilidade financeira e endividamento excessivo que tem de ser rapidamente debelada. As medidas de poupança já realizadas não são suficientes. Vai ser preciso elaborar programas de cinco anos para saneamento das contas, sujeitos a uma comissão de fiscalização. Em troca, vão receber da Federação e dos outros Estados alemães 800 milhões de euros por ano em ajudas, de 2011 até 2019.
Por seu lado, o Conselho de Estabilidade vai controlar se esta ajuda é efectivamente aplicada na redução do défice.
***
Depois deste título, ninguém pode dizer que os alemães não têm sentido de humor. É que ainda ontem eu li na mesma revista um artigo que contava como o embaixador grego em Berlim se desdobra na tarefa de Sísifo que é tentar explicar à Alemanha que os gregos não são preguiçosos. Fazia a entrevista sentado numa esplanada berlinense, e perguntava ao jornalista se gostava que um dia uma fotografia daquela esplanada cheia de alemães ilustrasse um artigo sobre eventuais dificuldades financeiras do país.
Quatro Estados alemães correm o risco de chegar a uma situação semelhante à da Grécia
(aqui, em alemão)
Trata-se de Bremen, Saarland, Schleswig-Holstein e Berlim (que nem dinheiro tem para tirar a neve das ruas - o pessoal das outras regiões da Alemanha ri-se muito, em ataques de arrogância de província), .
O Conselho de Estabilidade, que desde 2010 fiscaliza as contas dos Estados alemães, detectou nestes quatro uma situação de vulnerabilidade financeira e endividamento excessivo que tem de ser rapidamente debelada. As medidas de poupança já realizadas não são suficientes. Vai ser preciso elaborar programas de cinco anos para saneamento das contas, sujeitos a uma comissão de fiscalização. Em troca, vão receber da Federação e dos outros Estados alemães 800 milhões de euros por ano em ajudas, de 2011 até 2019.
Por seu lado, o Conselho de Estabilidade vai controlar se esta ajuda é efectivamente aplicada na redução do défice.
***
Depois deste título, ninguém pode dizer que os alemães não têm sentido de humor. É que ainda ontem eu li na mesma revista um artigo que contava como o embaixador grego em Berlim se desdobra na tarefa de Sísifo que é tentar explicar à Alemanha que os gregos não são preguiçosos. Fazia a entrevista sentado numa esplanada berlinense, e perguntava ao jornalista se gostava que um dia uma fotografia daquela esplanada cheia de alemães ilustrasse um artigo sobre eventuais dificuldades financeiras do país.
23 maio 2011
this world is crazy
Descansem, não estou a comentar a campanha eleitoral nem nada que se pareça.
É o título de uma canção que me deixa sempre bem-disposta. Provavelmente já a pus aqui há quatro anos ou assim, mas pode dar-se o caso de andarem todos com fraca memória, e além disso queria perguntar à sem-se-ver se conhece esta mocinha.
Portanto: ó sem-se-ver, conheces esta mocinha?
É o título de uma canção que me deixa sempre bem-disposta. Provavelmente já a pus aqui há quatro anos ou assim, mas pode dar-se o caso de andarem todos com fraca memória, e além disso queria perguntar à sem-se-ver se conhece esta mocinha.
Portanto: ó sem-se-ver, conheces esta mocinha?
o reverso da medalha (2)
Marta Suplicy, que foi prefeita de São Paulo, e que antes de ser prefeita era sexóloga,
(se querem saber tudo: formou-se em Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e teve um programa de televisão sobre sexualidade)
diz que o segredo para ter força interior e conquistar o que se quer em situações de conflito ou pressão é: usar lingerie vermelha.
O Spiegel não sabe de nada. Perguntassem-me a mim, e eu dava-lhes pano para mangas: a análise das relações entre sexo e poder a partir de perspectivas muito inusitadas. Quanto mais penso nestas coisas à luz das conversas de gineceu, mais me parece que a análise do Spiegel desta semana padece de meio século de anacronismo.
Pois, perguntem-me a mim: com jeitinho, até conseguia que sobrasse um pouco para a Igreja Católica, que se põe a dar cursos de Psicologia sem controlar a cor da lingerie dos estudantes, irresponsável laxismo, e depois admiram-se que o mundo esteja como está, e assim batendo na Igreja Católica vendiam mais revistas, é o que interessa.
(se querem saber tudo: formou-se em Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, e teve um programa de televisão sobre sexualidade)
diz que o segredo para ter força interior e conquistar o que se quer em situações de conflito ou pressão é: usar lingerie vermelha.
O Spiegel não sabe de nada. Perguntassem-me a mim, e eu dava-lhes pano para mangas: a análise das relações entre sexo e poder a partir de perspectivas muito inusitadas. Quanto mais penso nestas coisas à luz das conversas de gineceu, mais me parece que a análise do Spiegel desta semana padece de meio século de anacronismo.
Pois, perguntem-me a mim: com jeitinho, até conseguia que sobrasse um pouco para a Igreja Católica, que se põe a dar cursos de Psicologia sem controlar a cor da lingerie dos estudantes, irresponsável laxismo, e depois admiram-se que o mundo esteja como está, e assim batendo na Igreja Católica vendiam mais revistas, é o que interessa.
22 maio 2011
o reverso da medalha
"Sexo & Poder" é o título da capa do Spiegel desta semana.
E cá vamos nós inventar a roda outra vez, como se alguma destas coisas fosse novidade. Veremos quantos "wow!" me escaparão ao ler as fantásticas revelações.
O que eu gostava é que eles falassem do contrapoder. Por exemplo: o truque que algumas mulheres usam (eh, lá! não se ponham a tirar conclusões! sei, porque li num livro...) para reduzir as assimetrias atemorizantes no confronto com um poderoso, e que consiste em imaginar aquele homem em cuecas. Lá se vai o fato caro, a gravata, o alfinete, a armadura de poder - o que sobra, geralmente, é uma personagem ridícula, incapaz de impor respeitinho a uma mosca.
Se os homens muito importantes soubessem, coitados, a figura que fazem no reverso da medalha...
Já cá tenho o meu boletim de voto. Curiosamente, não tem um quadradinho para o FMI, o que significa que se trata apenas de um concurso para o lugar de secretária internacional. Mal por mal, acho que os vou imaginar todos em cuecas, e voto no que me parecer que faz melhor figura. Parece que para os lados do FMI se dá alguma importância a esses aspectos da questão.
E cá vamos nós inventar a roda outra vez, como se alguma destas coisas fosse novidade. Veremos quantos "wow!" me escaparão ao ler as fantásticas revelações.
O que eu gostava é que eles falassem do contrapoder. Por exemplo: o truque que algumas mulheres usam (eh, lá! não se ponham a tirar conclusões! sei, porque li num livro...) para reduzir as assimetrias atemorizantes no confronto com um poderoso, e que consiste em imaginar aquele homem em cuecas. Lá se vai o fato caro, a gravata, o alfinete, a armadura de poder - o que sobra, geralmente, é uma personagem ridícula, incapaz de impor respeitinho a uma mosca.
Se os homens muito importantes soubessem, coitados, a figura que fazem no reverso da medalha...
Já cá tenho o meu boletim de voto. Curiosamente, não tem um quadradinho para o FMI, o que significa que se trata apenas de um concurso para o lugar de secretária internacional. Mal por mal, acho que os vou imaginar todos em cuecas, e voto no que me parecer que faz melhor figura. Parece que para os lados do FMI se dá alguma importância a esses aspectos da questão.
20 maio 2011
Deus ao fundo das escadas
Entre duas cervejas, falava-se de Deus. O grupo: um católico praticante, um católico duvidante, um ateu militante (que tira todos os dias uns minutos para se reafirmar que Deus não existe), um que só se ria, e eu, especialista em falar mais depressa que o pensamento, deixando escapar que "no fundo, não é muito importante se existe ou não - se eu agir como se Deus existisse, já vale a pena", o que logo me valeu o carimbo de "esta joga pelo seguro".
Em termos de esprit d'escalier, eu sou o superlativo absoluto sintético. Só muito mais tarde me ocorreu que era isto o que queria dizer:
A minha fé não é um apostar numa conta poupança eternidade, mas uma busca de sentido e conteúdo para a vida. Não tendo a certeza se Deus existe ou não - que isso é tal e qual como nos jogos de futebol: prognósticos, só depois do apito final -, basta-me que a sua procura seja a lâmpada dos meus pés.
Como diz a Sophia com tanta leveza e graça:
Existe? Não existe? Não sei.
Sei que o Deus de Jesus Cristo existiu com toda a força da sua concreta presença nas ruas de Calcutá por onde a Madre Teresa passou, sei que esteve em Auschwitz no dia 29 de julho de 1941, quando o padre Kolbe se ofereceu para morrer em vez de outro prisioneiro. Não existe para nós como um seguro de vida eterna, mas por nós e como O soubermos inventar em actos de amor ao próximo e à nossa vida presente.
Em termos de esprit d'escalier, eu sou o superlativo absoluto sintético. Só muito mais tarde me ocorreu que era isto o que queria dizer:
A minha fé não é um apostar numa conta poupança eternidade, mas uma busca de sentido e conteúdo para a vida. Não tendo a certeza se Deus existe ou não - que isso é tal e qual como nos jogos de futebol: prognósticos, só depois do apito final -, basta-me que a sua procura seja a lâmpada dos meus pés.
Como diz a Sophia com tanta leveza e graça:
"Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra a fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco"
Existe? Não existe? Não sei.
Sei que o Deus de Jesus Cristo existiu com toda a força da sua concreta presença nas ruas de Calcutá por onde a Madre Teresa passou, sei que esteve em Auschwitz no dia 29 de julho de 1941, quando o padre Kolbe se ofereceu para morrer em vez de outro prisioneiro. Não existe para nós como um seguro de vida eterna, mas por nós e como O soubermos inventar em actos de amor ao próximo e à nossa vida presente.
19 maio 2011
eu sei que me estou a repetir outra vez, mas isto é serviço público:
Não se esqueçam de visitar frequentemente o Boas Intenções - o blogue de satisfação garantida. Esta semana, por exemplo. E na semana passada. E nas anteriores.
it's a bird... it's a plane...
Senhoras e senhores, tenho o prazer de apresentar: Joren Dawson.
Não apenas um excelente acrobata, mas também um bom palhaço.
É filho do casal mais culto e interessante que conheço na América. Com eles já fizemos passeios inesquecíveis - como a tarde pelo Golden Gate Park que me revelou a seiva doce das flores selvagens, ou o domingo de Páscoa em Tomales Bay, quando comprámos um saco de 20 kg de ostras para um piquenique, e depois caminhámos longamente pelas colinas junto à água, vendo passar em silêncio renas e veados que apareciam e desapareciam na neblina. Em casa deles, à mesa de jantar fala-se de Filosofia e História, Política e Arte. E que jantares: o pai é daqueles cozinheiros que entendem a alma dos ingredientes, de modo que o prazer da mesa começa no mercado, imaginando com ele os acepipes que nascerão dos produtos mais frescos e bonitos, e prolonga-se até à última gota de vinho escolhido com critério. Às quintas, é dia de fazer música de câmara - por aquela casa passam alguns dos melhores intérpretes de música renascentista e barroca. Quando ele tinha doze anos, os pais fizeram um ano sabático para o levarem a conhecer a cultura europeia. Os amigos da escola, meninos das famílias mais ricas da cidade, encheram-se de espanto: "como é possível dispor assim do tempo?"
O Joren, que cresceu neste ambiente cultural, chegou aos quinze anos e disse: "eu quero ser artista de circo". E os pais, sim senhor.
De tudo o que gosto e admiro neles, o que mais me inspira é esta liberdade interior na relação com o filho.
Não apenas um excelente acrobata, mas também um bom palhaço.
É filho do casal mais culto e interessante que conheço na América. Com eles já fizemos passeios inesquecíveis - como a tarde pelo Golden Gate Park que me revelou a seiva doce das flores selvagens, ou o domingo de Páscoa em Tomales Bay, quando comprámos um saco de 20 kg de ostras para um piquenique, e depois caminhámos longamente pelas colinas junto à água, vendo passar em silêncio renas e veados que apareciam e desapareciam na neblina. Em casa deles, à mesa de jantar fala-se de Filosofia e História, Política e Arte. E que jantares: o pai é daqueles cozinheiros que entendem a alma dos ingredientes, de modo que o prazer da mesa começa no mercado, imaginando com ele os acepipes que nascerão dos produtos mais frescos e bonitos, e prolonga-se até à última gota de vinho escolhido com critério. Às quintas, é dia de fazer música de câmara - por aquela casa passam alguns dos melhores intérpretes de música renascentista e barroca. Quando ele tinha doze anos, os pais fizeram um ano sabático para o levarem a conhecer a cultura europeia. Os amigos da escola, meninos das famílias mais ricas da cidade, encheram-se de espanto: "como é possível dispor assim do tempo?"
O Joren, que cresceu neste ambiente cultural, chegou aos quinze anos e disse: "eu quero ser artista de circo". E os pais, sim senhor.
De tudo o que gosto e admiro neles, o que mais me inspira é esta liberdade interior na relação com o filho.
18 maio 2011
reforma aos 67 anos - o contraditório
Pois antes que se zanguem muito com a notícia de que a Angela Merkel quer que os portugueses trabalhem mais, deixem-me contar-lhes que a notícia do dia é o relatório dos "Cinco Sábios da Economia", que conclui que a Alemanha não pode desistir dos planos de elevar a reforma para os 67 anos até 2029, e que numa fase posterior será necessário equacionar até a hipótese de reforma aos 68 anos até 2045 e aos 69 anos até 2060. Caso contrário, a manter-se a situação actual, a evolução demográfica implicará custos insuportáveis para as gerações futuras.
O relatório diz ainda que estes problemas podem ser controlados se a sociedade aceitar o desafio e agir, em vez de ficar petrificada como o coelho em frente à cobra. E lembra mais uma vez a necessidade de investir na Educação, e de captar mulheres para o mercado de trabalho (sim, as mães alemãs que tradicionalmente ficam em casa são - e têm - um problema).
Dito isto, fiquem sabendo que os outros partidos estão a fazer duras críticas ao discurso da chanceler. Que isto não é maneira de falar dos outros países, que ela está a destruir a ideia da Europa apenas para ganhar pontos na imprensa populista, e que em vez de alimentar o ressentimento anti-europeu mais valia que se empenhasse realmente numa coordenação das políticas económicas e financeiras europeias, e que os culpados da crise não são os trabalhadores e os reformados gregos mas os especuladores e os bancos que ela continua a deixar à solta, e que a solução passa mais por um governo alemão a dar tudo por tudo para controlar os mercados financeiros, verdadeiros culpados pela crise, em vez de andar a mandar bocas populistas à custa das populações dos países do Sul, que são quem menos culpa tem nesta trapalhada toda.
E assim vai a vida.
O relatório diz ainda que estes problemas podem ser controlados se a sociedade aceitar o desafio e agir, em vez de ficar petrificada como o coelho em frente à cobra. E lembra mais uma vez a necessidade de investir na Educação, e de captar mulheres para o mercado de trabalho (sim, as mães alemãs que tradicionalmente ficam em casa são - e têm - um problema).
Dito isto, fiquem sabendo que os outros partidos estão a fazer duras críticas ao discurso da chanceler. Que isto não é maneira de falar dos outros países, que ela está a destruir a ideia da Europa apenas para ganhar pontos na imprensa populista, e que em vez de alimentar o ressentimento anti-europeu mais valia que se empenhasse realmente numa coordenação das políticas económicas e financeiras europeias, e que os culpados da crise não são os trabalhadores e os reformados gregos mas os especuladores e os bancos que ela continua a deixar à solta, e que a solução passa mais por um governo alemão a dar tudo por tudo para controlar os mercados financeiros, verdadeiros culpados pela crise, em vez de andar a mandar bocas populistas à custa das populações dos países do Sul, que são quem menos culpa tem nesta trapalhada toda.
E assim vai a vida.
discoteca turca
A vantagem de morar neste cantinho da Turquia é que depois, na aula de zumba, o professor traz músicas assim e nos ensaia uma coreografia que mistura pop e dança do ventre, e nós nos fartamos de rir: com a cabeça altivamente erguida, o dedo mindinho esticado a conduzir o arabesco dos braços, e as ancas a rodar numa invenção de orientalismo muito nosso.
Espero que aquela história da Leitkultur permita misturas destas - sem elas, a Alemanha perde muita da sua graça.
Espero que aquela história da Leitkultur permita misturas destas - sem elas, a Alemanha perde muita da sua graça.
o FMI a trabalhar
Recebi esta imagem por e-mail, com o comentário "E depois ainda dizem que não somos criativos e produtivos!!!"
Criativos e produtivos, sim. Mas em termos de exactidão, estamos conversados...
Ou sou só eu que acho que falta um tracinho importante neste desenho?
Pois é: esforçam-se muito, mas esquecem os aspectos mais essenciais do trabalho do FMI, e depois admiram-se que o país não anda para a frente.
17 maio 2011
Portugal um pouco mais perto dos desgraçadinhos da diáspora!
Sim, companheiros de insularidade, aqui está ele: Bandeira de Papel, o blogue que nos traz os bonecos do José Bandeira ao desterro!
Assim de repente não me ocorre mais nada que me falte para ser quase feliz.
(estou a exagerar ligeiramente, mas é da comoção, não liguem)
Assim de repente não me ocorre mais nada que me falte para ser quase feliz.
(estou a exagerar ligeiramente, mas é da comoção, não liguem)
mais um duro golpe na produtividade dos portugueses
Ainda o Rachmaninov à solta, a fazer estragos:
Estes dois são fantásticos.
Para acabar de vez com a produtividade, vejam isto:
e isto:
e o que mais se vos atravessar pela frente.
Estes dois são fantásticos.
Para acabar de vez com a produtividade, vejam isto:
e isto:
e o que mais se vos atravessar pela frente.
16 maio 2011
pina
Se houvesse algum cinema a passar este filme como parte fixa do programa, comprava um lugar cativo para o ano inteiro.
15 maio 2011
como aumentar a produtividade dos portugueses (pelo menos a minha)
Proibir que ouçam o concerto nº2 para piano, de Rachmaninov, enquanto trabalham.
Achei que era boa ideia para me acompanhar a tradução de um texto de um russo, e não é.
Agora, em vez de traduzir, estou a ver quando chega a lua cheia, porque tenho muito para lhe uivar, e depois admiram-se que o país esteja como está.
Adenda: E com o concerto nº3 a produtividade também não melhora. Já entendo melhor as dificuldades económicas da Rússia. A culpa não deve ter sido do comunismo, desconfio que é dos compositores e da alma rrrrusssssa.
Achei que era boa ideia para me acompanhar a tradução de um texto de um russo, e não é.
Agora, em vez de traduzir, estou a ver quando chega a lua cheia, porque tenho muito para lhe uivar, e depois admiram-se que o país esteja como está.
Adenda: E com o concerto nº3 a produtividade também não melhora. Já entendo melhor as dificuldades económicas da Rússia. A culpa não deve ter sido do comunismo, desconfio que é dos compositores e da alma rrrrusssssa.
momento histórico neste blogue: Ricardo Araújo Pereira cita o Dois Dedos de Conversa
Este título é um bocadinho mentira. De facto, até é uma grande mentira, mas ando a ensaiar um nova carreira como parangonista de sucesso, e resolvi testar se um título destes me dá um pico de audiência igual a mulher nua na capa de uma revista semanal.
O respectivo contraditório está no Governo Sombra desta semana, e não digo a que minuto porque o programa todo está muito bom. Ora então: peguem lá na cana de pesca e divirtam-se. A piadas tantas o RAP fala da produtividade e da eficácia alemã, e refere a guia portuguesa. Ora bem: agora acredito que as coisas em Portugal estão realmente más. Quem já foi vítima de uma das minhas visitas guiadas sabe o que é que ele quer dizer quando encadeia na mesma frase eficácia, produtividade e Helena Araújo a fazer de guia: é uma conjugação de Atenas e Esparta, um intenso programa cultural para seleccionar os fisicamente mais aptos.
Se é este o nível de produtividade e eficácia que Portugal tem de atingir para sair da crise... ai!
Ficarei para sempre grata ao Ricardo por ter citado essa minha frase ("a Alemanha trata muito bem os seus pobres") e ter omitido muitas das outras que me poderiam ter envergonhado, por exemplo uma sobre questões demográficas dos turcos de Berlim, e mais não digo. Até comecei a desconfiar que ele no fundo, no fundo, é um cristão exemplar.
Agora, a sério:
Já contei várias vezes neste e noutros blogues como é que a Alemanha cuida dos seus pobres, e em especial dos filhos dos pobres. Se a Angela Merkel tivesse um assistente esperto (por exemplo: eu, hihihi) que a quisesse ajudar a aumentar a boa vontade dos eleitores alemães em relação aos pacotes de salvação do euro, fazia deslizar para a capa da Bildzeitung a seguinte informação: "em Portugal, o abono de família é no máximo de 35 euros por criança com mais de 1 ano; as famílias com rendimentos anuais superiores a 8500 euros não recebem abono de família".
O povo alemão, que recebe abonos de família de cerca de 200 euros por filho até este fazer 18 anos (podendo prolongar-se até que acabe a formação profissional), e acha que é pouco, ia ficar chocado.
É por aqui que o debate sobre a Europa devia começar: que Europa queremos, quem paga o preço dessa Europa, que União pode coexistir com tais assimetrias?
Da próxima vez que o Governo Sombra vier a Berlim, a ver se me lembro de lhes fazer uma pequena palestra sobre "a responsabilidade social do capital", princípio tão arreigado neste país que bem merecia uma emenda constitucional.
O respectivo contraditório está no Governo Sombra desta semana, e não digo a que minuto porque o programa todo está muito bom. Ora então: peguem lá na cana de pesca e divirtam-se. A piadas tantas o RAP fala da produtividade e da eficácia alemã, e refere a guia portuguesa. Ora bem: agora acredito que as coisas em Portugal estão realmente más. Quem já foi vítima de uma das minhas visitas guiadas sabe o que é que ele quer dizer quando encadeia na mesma frase eficácia, produtividade e Helena Araújo a fazer de guia: é uma conjugação de Atenas e Esparta, um intenso programa cultural para seleccionar os fisicamente mais aptos.
Se é este o nível de produtividade e eficácia que Portugal tem de atingir para sair da crise... ai!
Ficarei para sempre grata ao Ricardo por ter citado essa minha frase ("a Alemanha trata muito bem os seus pobres") e ter omitido muitas das outras que me poderiam ter envergonhado, por exemplo uma sobre questões demográficas dos turcos de Berlim, e mais não digo. Até comecei a desconfiar que ele no fundo, no fundo, é um cristão exemplar.
Agora, a sério:
Já contei várias vezes neste e noutros blogues como é que a Alemanha cuida dos seus pobres, e em especial dos filhos dos pobres. Se a Angela Merkel tivesse um assistente esperto (por exemplo: eu, hihihi) que a quisesse ajudar a aumentar a boa vontade dos eleitores alemães em relação aos pacotes de salvação do euro, fazia deslizar para a capa da Bildzeitung a seguinte informação: "em Portugal, o abono de família é no máximo de 35 euros por criança com mais de 1 ano; as famílias com rendimentos anuais superiores a 8500 euros não recebem abono de família".
O povo alemão, que recebe abonos de família de cerca de 200 euros por filho até este fazer 18 anos (podendo prolongar-se até que acabe a formação profissional), e acha que é pouco, ia ficar chocado.
É por aqui que o debate sobre a Europa devia começar: que Europa queremos, quem paga o preço dessa Europa, que União pode coexistir com tais assimetrias?
Da próxima vez que o Governo Sombra vier a Berlim, a ver se me lembro de lhes fazer uma pequena palestra sobre "a responsabilidade social do capital", princípio tão arreigado neste país que bem merecia uma emenda constitucional.
14 maio 2011
o que mora em mim
Entre o nascimento da Christina e o do Matthias andei a tocar o Children's Corner de Debussy. Um livro cheio de belas peças, e uma dedicatória encantadora: "„A ma chère petite Chouchou, avec les tendres excuses de son Père pour ce qui va suivre“
Comecei com o Little Shepherd, peça de grande leveza meditativa:
Segui para Doctor Gradus ad Parnassum, que gostava de inventar um pouco mais lenta que neste vídeo, imaginando pequeninas cascatas de água. Não tocava muito bem, uma amiga chegou a rir-se ("o que conta é a intenção"), mas gostava muito de a fazer brotar do piano, sempre nova.
Porque me lembro hoje disso? Porque o Matthias começou agora "Page d'Album", o meu primeiro Debussy. É estranho quando os filhos nos seguem as pisadas e depois nos ultrapassam.
Um dia destes recomeço. Nunca tocarei muito bem, e nem é esse o objectivo: basta-me sair em passeio por mim própria, ao som de cascatas de água - mesmo se trôpegas - que nascem dos meus dedos.
Comecei com o Little Shepherd, peça de grande leveza meditativa:
Segui para Doctor Gradus ad Parnassum, que gostava de inventar um pouco mais lenta que neste vídeo, imaginando pequeninas cascatas de água. Não tocava muito bem, uma amiga chegou a rir-se ("o que conta é a intenção"), mas gostava muito de a fazer brotar do piano, sempre nova.
Porque me lembro hoje disso? Porque o Matthias começou agora "Page d'Album", o meu primeiro Debussy. É estranho quando os filhos nos seguem as pisadas e depois nos ultrapassam.
Um dia destes recomeço. Nunca tocarei muito bem, e nem é esse o objectivo: basta-me sair em passeio por mim própria, ao som de cascatas de água - mesmo se trôpegas - que nascem dos meus dedos.
12 maio 2011
11 maio 2011
diário de San Francisco
Estava eu a limpar o pó aos meus ficheiros digitais, e a tentar pôr ordem naquela espécie de caixa de sapatos cheia de papéis importantes, eis que tropeço num pequeno relatório que fiz para amigos brasileiros há mais de dez anos. A vantagem dos amigos internéticos é que a gente vai de um lugar para outro, e eles vão connosco. De modo que eu, acabadinha de chegar a San Francisco, tinha uma intensa vida social (hihihi), fazendo relatórios como o que passo a seguir, porque hoje é dia de muito trabalho (podem crer, e ter pena de mim), e se não tenho tempo para escrever um post novinho em folha sempre sobram alguns minutos para fazer um pequeno plágio de mim própria.
***
Alguma coisa faço mal quando atravesso os pátios e a lavandaria para chegar à garagem, porque os vizinhos que encontro no caminho olham para mim com um olhar distraído e perscrutador, assim tipo „deixa-me ver bem quem é esta aqui, fazendo de conta que não vi nada“ e eu sorrio e digo-lhes hello ou good morning e eles desviam o olhar e de repente já não estão lá.
Será que têm medo que eu lhes vá pedir um quarter?
Fui assistir à „Bay to Breakers“, corrida de 8 milhas, praí uns 5.000 corredores e mais 95.000 malucos, entre a downtown e o Pacífico. Com a sorte que tenho, precisei de mais de uma hora para estacionar o carro, depois perdi-me no Golden Gate Park e acabei a atravessar uma grill party de gays muito assumidos: os homens vestidos de mulheres ou quase despidos, com palavras e setas pintadas nas costas
(infelizmente esqueci-me qual era a palavra e foi uma pena, porque não a conhecia e tirei pelo sentido (pelo sentido da seta, entenda-se) e estava toda contente por saber uma palavra nova. Embora tenha a sensação que não é uma palavra que eu possa usar muitas vezes… )
e as mulheres mais ou menos despidas, e a Christina a perguntar „aquele ali é homem ou mulher?“ e eu sem saber o que responder a a andar pelo meio deles com os meus dentes de teenager com arames e os dois filhos pela mão, a fazer de conta que não estava ali e não via nada e a tentar ver o mais possível com o tal olhar distraído e perscrutador (já aprendi alguma coisa) e a andar tão depressa e tão naturalmente quanto possível e a pensar „aposto que estas só me acontecem a mim!“.
Mas sempre consegui chegar à rua onde passavam os corredores, incólume e tudo (que é como quem diz: incólume, e nada), e lá ficamos 3 horas a ver passar gente louca.
Estes americanos são mesmo doidos: na sauna, andam vestidos, e depois vão correr nus para a rua (mas com sapatos e meias, era muito divertido).
Fui ver o filme mais recente do Woody Allen com o meu grupo social de esposas de investigadores da USCF.
Vamos por partes:
O filme: não sei o que me dá para ir ver filmes do Woody Allen em países cuja língua não conheço bem. Pouco depois de chegar à Alemanha, fui ver „Bullets over the Broadway“ e não percebi patavina, claro. Chego aos USA e reincido. O problema é a cervejinha depois, toda a gente a querer dissecar o filme, e eu a tentar virar o bico ao prego e a dizer com um ar muito intelectualmente seguro „não consigo entender a linguagem dos filmes do Woody Allen, acho os trocadilhos demasiado herméticos“.
A companhia: sabem como são aqueles grupos de pessoas cujo denominador comum é a qualidade de „acompanhante“? Sem dar por ela, caí num grupo assim: as esposas dos investigadores, que se juntam para cozinhar, ir ao cinema, fazer baby-sitting, ir ao parque infantil… este ano promete!
Saímos do cinema e tentámos pagar o estacionamento na caixa automática. Ao fim de 10 minutos já ali havia um grupo de gays divertidíssimos a observar a cena de 6 mulheres, algumas delas com ar de senhora, tentando meter notas de dólar na máquina. Finalmente conseguimos pagar, e fomos para a Irving beber a tal cervejinha do meu suplício. Para estacionar foi outra vez uma cena: a condutora tentou várias abordagens ao passeio, depois uma das acompanhantes saiu do carro para ajudar a fazer a manobra, e depois uma das pessoas da assistência que entretanto se formou teve dó e tirou um carro para nós termos dois lugares e podermos estacionar.
Se continuar a sair com este grupo, não sei: ou morro de riso, ou de vergonha.
A Marlyeen, a tal vizinha que adoptou os meus filhos, estava aqui quando me telefonaram e eu falei um bocadinho em português. Quando desliguei, deu-lhe um ataque de „it‘s amazing!“ e „I can‘t believe it!“ Quando, se acalmou, perguntou: „esses sons todos significam alguma coisa?“.
Eu ri-me e disse-lhe que os brasileiros também se perguntam a mesma coisa quando ouvem os portugueses falar.
Passámos pelo cemitério militar do Presidio, e ficámos impressionados com o espectáculo de tantas cruzes alinhadas. A Christina perguntou „estes soldados eram dos maus, ou eram dos nossos?“ – para pergunta feita por uma alemãzinha, não está mal…
De garage sale em garage sale (as melhores são as do Castro, onde vive a comunidade gay cá da terra) fomos parar a uma feira de antiguidades. Encontrei lá uma carteira de escola que tinha vindo de França, linda, tal e qual como a da minha escola primária (não é que eu seja muito velha, Portugal é que tem um mobiliário escolar muito conservador e cala-te boca que não tarda nada meto água…), e custava $390.
O Joachim também gostou da mesa mas, por muitas razões, todas elas perfeitamente lógicas e aceitáveis, não queria comprar a mesa nem dada. Ou seja: o dono a querer vender, o Joachim a não querer comprar, no quarto das crianças há agora uma mesa lindíssima que custou $220.
Em frente à minha casa há uma árvore soberba. Grande, com o tronco cheio de rugosidades e nós. Lembra-me sempre uma sequóia após ter sido sujeita a um tratamento de bonsai. Talqualzinha.
Por causa do dólar a dois marcos, comprámos na IKEA estantes das mais baratas (mais baratas mesmo, estantes de arrumar tralha na cave) e tentei dar-lhes um ar mais digno pintando-as com as tintas que vendem também na IKEA. Não sei se ficou digno, acho que está assim mais para o garrido, mas depois de eu ter passado uma semana a pintar estantes e a lavar pincéis, ai de quem entrar nesta casa e não desatar a dizer „noooooossa, como é liiiiiindo!“
E por falar na IKEA: conhecem aquela história do homem que foi viver para umas montanhas não sei onde e vai dando notícias, a princípio fascinado com a neve e depois desesperado com a neve? Ontem, vista do restaurante da IKEA, a baía estava linda, com a água muito verde e as montanhas ao fundo, adoçadas pela neblina. Em duas semanas já fui à IKEA 7 vezes. Já não consigo sequer ver as almôndegas, aquelas almôndegas suecas, fantásticas – quanto mais cheirá-las ou comê-las.
Alguém sabe onde posso encontrar bacalhau em San Francisco?
E vinho do Porto que não seja de Napa Valley?
Já só me falta isso, e mais ver-me livre do meu grupo de senhoras, e mais encontrar gente interessante, e mais aprender a falar um inglês decente e depois acho que terei chegado.
***
Alguma coisa faço mal quando atravesso os pátios e a lavandaria para chegar à garagem, porque os vizinhos que encontro no caminho olham para mim com um olhar distraído e perscrutador, assim tipo „deixa-me ver bem quem é esta aqui, fazendo de conta que não vi nada“ e eu sorrio e digo-lhes hello ou good morning e eles desviam o olhar e de repente já não estão lá.
Será que têm medo que eu lhes vá pedir um quarter?
Fui assistir à „Bay to Breakers“, corrida de 8 milhas, praí uns 5.000 corredores e mais 95.000 malucos, entre a downtown e o Pacífico. Com a sorte que tenho, precisei de mais de uma hora para estacionar o carro, depois perdi-me no Golden Gate Park e acabei a atravessar uma grill party de gays muito assumidos: os homens vestidos de mulheres ou quase despidos, com palavras e setas pintadas nas costas
(infelizmente esqueci-me qual era a palavra e foi uma pena, porque não a conhecia e tirei pelo sentido (pelo sentido da seta, entenda-se) e estava toda contente por saber uma palavra nova. Embora tenha a sensação que não é uma palavra que eu possa usar muitas vezes… )
e as mulheres mais ou menos despidas, e a Christina a perguntar „aquele ali é homem ou mulher?“ e eu sem saber o que responder a a andar pelo meio deles com os meus dentes de teenager com arames e os dois filhos pela mão, a fazer de conta que não estava ali e não via nada e a tentar ver o mais possível com o tal olhar distraído e perscrutador (já aprendi alguma coisa) e a andar tão depressa e tão naturalmente quanto possível e a pensar „aposto que estas só me acontecem a mim!“.
Mas sempre consegui chegar à rua onde passavam os corredores, incólume e tudo (que é como quem diz: incólume, e nada), e lá ficamos 3 horas a ver passar gente louca.
Estes americanos são mesmo doidos: na sauna, andam vestidos, e depois vão correr nus para a rua (mas com sapatos e meias, era muito divertido).
Fui ver o filme mais recente do Woody Allen com o meu grupo social de esposas de investigadores da USCF.
Vamos por partes:
O filme: não sei o que me dá para ir ver filmes do Woody Allen em países cuja língua não conheço bem. Pouco depois de chegar à Alemanha, fui ver „Bullets over the Broadway“ e não percebi patavina, claro. Chego aos USA e reincido. O problema é a cervejinha depois, toda a gente a querer dissecar o filme, e eu a tentar virar o bico ao prego e a dizer com um ar muito intelectualmente seguro „não consigo entender a linguagem dos filmes do Woody Allen, acho os trocadilhos demasiado herméticos“.
A companhia: sabem como são aqueles grupos de pessoas cujo denominador comum é a qualidade de „acompanhante“? Sem dar por ela, caí num grupo assim: as esposas dos investigadores, que se juntam para cozinhar, ir ao cinema, fazer baby-sitting, ir ao parque infantil… este ano promete!
Saímos do cinema e tentámos pagar o estacionamento na caixa automática. Ao fim de 10 minutos já ali havia um grupo de gays divertidíssimos a observar a cena de 6 mulheres, algumas delas com ar de senhora, tentando meter notas de dólar na máquina. Finalmente conseguimos pagar, e fomos para a Irving beber a tal cervejinha do meu suplício. Para estacionar foi outra vez uma cena: a condutora tentou várias abordagens ao passeio, depois uma das acompanhantes saiu do carro para ajudar a fazer a manobra, e depois uma das pessoas da assistência que entretanto se formou teve dó e tirou um carro para nós termos dois lugares e podermos estacionar.
Se continuar a sair com este grupo, não sei: ou morro de riso, ou de vergonha.
A Marlyeen, a tal vizinha que adoptou os meus filhos, estava aqui quando me telefonaram e eu falei um bocadinho em português. Quando desliguei, deu-lhe um ataque de „it‘s amazing!“ e „I can‘t believe it!“ Quando, se acalmou, perguntou: „esses sons todos significam alguma coisa?“.
Eu ri-me e disse-lhe que os brasileiros também se perguntam a mesma coisa quando ouvem os portugueses falar.
Passámos pelo cemitério militar do Presidio, e ficámos impressionados com o espectáculo de tantas cruzes alinhadas. A Christina perguntou „estes soldados eram dos maus, ou eram dos nossos?“ – para pergunta feita por uma alemãzinha, não está mal…
De garage sale em garage sale (as melhores são as do Castro, onde vive a comunidade gay cá da terra) fomos parar a uma feira de antiguidades. Encontrei lá uma carteira de escola que tinha vindo de França, linda, tal e qual como a da minha escola primária (não é que eu seja muito velha, Portugal é que tem um mobiliário escolar muito conservador e cala-te boca que não tarda nada meto água…), e custava $390.
O Joachim também gostou da mesa mas, por muitas razões, todas elas perfeitamente lógicas e aceitáveis, não queria comprar a mesa nem dada. Ou seja: o dono a querer vender, o Joachim a não querer comprar, no quarto das crianças há agora uma mesa lindíssima que custou $220.
Em frente à minha casa há uma árvore soberba. Grande, com o tronco cheio de rugosidades e nós. Lembra-me sempre uma sequóia após ter sido sujeita a um tratamento de bonsai. Talqualzinha.
Por causa do dólar a dois marcos, comprámos na IKEA estantes das mais baratas (mais baratas mesmo, estantes de arrumar tralha na cave) e tentei dar-lhes um ar mais digno pintando-as com as tintas que vendem também na IKEA. Não sei se ficou digno, acho que está assim mais para o garrido, mas depois de eu ter passado uma semana a pintar estantes e a lavar pincéis, ai de quem entrar nesta casa e não desatar a dizer „noooooossa, como é liiiiiindo!“
E por falar na IKEA: conhecem aquela história do homem que foi viver para umas montanhas não sei onde e vai dando notícias, a princípio fascinado com a neve e depois desesperado com a neve? Ontem, vista do restaurante da IKEA, a baía estava linda, com a água muito verde e as montanhas ao fundo, adoçadas pela neblina. Em duas semanas já fui à IKEA 7 vezes. Já não consigo sequer ver as almôndegas, aquelas almôndegas suecas, fantásticas – quanto mais cheirá-las ou comê-las.
Alguém sabe onde posso encontrar bacalhau em San Francisco?
E vinho do Porto que não seja de Napa Valley?
Já só me falta isso, e mais ver-me livre do meu grupo de senhoras, e mais encontrar gente interessante, e mais aprender a falar um inglês decente e depois acho que terei chegado.
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baú de recordações
10 maio 2011
continuamente vemos novidades
Já disse hoje que gosto muito de viver em Berlim?
Por muitos motivos e mais este: na aula de hidroginástica, estávamos nós a dar o litro ao som de "hands up", quando entrou um operário na piscina. Levantou as mãos e começou a dançar na direcção da professora, que fez com ele um pequeno pas de deux até o ter a jeito para o atirar à piscina. Mas não atirou: deixou-o seguir enquanto nós continuávamos a saltar cheios de riso.
Um dia que precisem de um filme publicitário para uma sociedade sem castas, podiam pegar nisto.
A seguir, no balneário, tive uma surpresa: uma mulher com idade para ser minha mãe estava com umas cuecas não vos digo nada, meias de ligas e assim. Nunca mais posso usar a expressão "cuecas de avó".
Quem diria que a própria língua dá saltos significativos no balneário do meu fitness club?
Por muitos motivos e mais este: na aula de hidroginástica, estávamos nós a dar o litro ao som de "hands up", quando entrou um operário na piscina. Levantou as mãos e começou a dançar na direcção da professora, que fez com ele um pequeno pas de deux até o ter a jeito para o atirar à piscina. Mas não atirou: deixou-o seguir enquanto nós continuávamos a saltar cheios de riso.
Um dia que precisem de um filme publicitário para uma sociedade sem castas, podiam pegar nisto.
A seguir, no balneário, tive uma surpresa: uma mulher com idade para ser minha mãe estava com umas cuecas não vos digo nada, meias de ligas e assim. Nunca mais posso usar a expressão "cuecas de avó".
Quem diria que a própria língua dá saltos significativos no balneário do meu fitness club?
09 maio 2011
vinha o lavrador da Arada...
Num dos livros da minha escola primária havia uma história em forma de verso que me impressionou tão fortemente que ainda hoje falo disso, como se vê. O lavrador da Arada ia a caminho de casa quando encontrou um pobrezinho que lhe pediu ajuda, e ele levou-o para casa, deu-lhe "do melhor manjar que havia", mandou-lhe fazer a cama "da melhor seda que tinha, por cima damasco roxo, por baixo cambraia fina", etc. No dia seguinte, em vez do pobre, o lavrador encontra um crucifixo. Era Jesus Cristo, pronto, que logo ali lhe prometeu que tinha um lugar para ele no céu, e eu cheia de pena do lavrador que era tão boa pessoa mas pelos vistos ia morrer para ir desta para melhor.
Lembrei-me disto porque ontem tive um encontro imediato de terceiro grau comigo própria a fazer de lavrador da Arada, mas sem a parte do crucifixo, por sorte.
Contando a história a partir do princípio: o Matthias perguntou-nos se podíamos ter cá em casa por dois meses um miúdo colombiano que veio para aprender alemão e está na turma dele. E nós que sim senhor, e eu arranjei o quarto das visitas o melhor que pude para o rapaz se sentir bem nestas semanas que passa longe da família. O Miguel é amoroso, muito bem-educado, sempre grato pela comida que lhe cozinho, nada complicado. Já lhe fiz uma proposta de adopção, mas ele riu-se.
Deu-me um envelope com 700 euros para pagar as despesas dos dois meses. Setecentos euros? Ele estará à espera que eu lhe sirva caviar ao pequeno-almoço? Disse-lhe que era um exagero, e que temos de fazer outras contas.
No sábado de manhã recebi uma enorme orquídea enviada da Colômbia, e um cartãozinho de feliz dia da mãe. Ontem telefonou-me o pai dele. Que o Miguel se está a sentir muito bem na nossa casa, e que ele vem cá passar um fim-de-semana para ver o filho, e que vai ficar hospedado no hotel Ritz-Carlton (o da Potsdamer Platz, o hotel onde ficam as maiores estrelas da Berlinale, entre outros VIPs), e que nos convida para jantarmos todos com ele lá (aimeudeus, vou ter de me disfarçar outra vez de senhora). Perguntou-me se o Miguel tinha mostrado fotografias da família e da casa. Não, disse eu. Ele que mostre, disse o pai. Desconfio que sei onde é que isto vai dar: vou ver pelos cenários que tenho cá alojado o filho de um magnata.
Não quero ver. Prefiro o Miguel só assim: um rapaz amoroso de catorze anos, bem educado e brincalhão.
***
O que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos é a mim que fazeis. (Mt. 25, 40)
Pois sim. Ajudar um pequenino para descobrir depois que é o pequeno lorde, ainda vá. Assim não custa nada ser cristã.
Mas que diria o lavrador da Arada se o pobrezinho lhe tivesse fugido com a melhor seda que havia, o damasco e a cambraia? A minha avó tinha um quarto no quintal, para os sem-abrigo, e passavam a vida a roubar-lhe o colchão e o cobertor.
O convite a ser cristão é também um convite a um persistente despojamento. Ainda tenho muito que andar.
Lembrei-me disto porque ontem tive um encontro imediato de terceiro grau comigo própria a fazer de lavrador da Arada, mas sem a parte do crucifixo, por sorte.
Contando a história a partir do princípio: o Matthias perguntou-nos se podíamos ter cá em casa por dois meses um miúdo colombiano que veio para aprender alemão e está na turma dele. E nós que sim senhor, e eu arranjei o quarto das visitas o melhor que pude para o rapaz se sentir bem nestas semanas que passa longe da família. O Miguel é amoroso, muito bem-educado, sempre grato pela comida que lhe cozinho, nada complicado. Já lhe fiz uma proposta de adopção, mas ele riu-se.
Deu-me um envelope com 700 euros para pagar as despesas dos dois meses. Setecentos euros? Ele estará à espera que eu lhe sirva caviar ao pequeno-almoço? Disse-lhe que era um exagero, e que temos de fazer outras contas.
No sábado de manhã recebi uma enorme orquídea enviada da Colômbia, e um cartãozinho de feliz dia da mãe. Ontem telefonou-me o pai dele. Que o Miguel se está a sentir muito bem na nossa casa, e que ele vem cá passar um fim-de-semana para ver o filho, e que vai ficar hospedado no hotel Ritz-Carlton (o da Potsdamer Platz, o hotel onde ficam as maiores estrelas da Berlinale, entre outros VIPs), e que nos convida para jantarmos todos com ele lá (aimeudeus, vou ter de me disfarçar outra vez de senhora). Perguntou-me se o Miguel tinha mostrado fotografias da família e da casa. Não, disse eu. Ele que mostre, disse o pai. Desconfio que sei onde é que isto vai dar: vou ver pelos cenários que tenho cá alojado o filho de um magnata.
Não quero ver. Prefiro o Miguel só assim: um rapaz amoroso de catorze anos, bem educado e brincalhão.
***
O que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos é a mim que fazeis. (Mt. 25, 40)
Pois sim. Ajudar um pequenino para descobrir depois que é o pequeno lorde, ainda vá. Assim não custa nada ser cristã.
Mas que diria o lavrador da Arada se o pobrezinho lhe tivesse fugido com a melhor seda que havia, o damasco e a cambraia? A minha avó tinha um quarto no quintal, para os sem-abrigo, e passavam a vida a roubar-lhe o colchão e o cobertor.
O convite a ser cristão é também um convite a um persistente despojamento. Ainda tenho muito que andar.
08 maio 2011
inquérito: desafio literário
A Teresa e a sem-se-ver querem saber o que li, leio, lerei e até o que leria se fosse para uma ilha deserta. Com quem elas se foram meter...
Bom, é domingo, dia de arejar os disparates ainda mais que de costume, cá vamos nós:
1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Todos os de Goethe, até finalmente entender. Pensando bem, os de Schiller também. E se fossem só esses... (intervalinho para ir ali chorar um bocadinho, já volto)
Agora, se estavam a falar de voltar a um livro pelo prazer de reencontrar aquela escrita, há os do Eça, os do Gabriel Garcia Marquez...
Pensando bem, que palermice de pergunta é esta? É evidente que apetece reler todos os livros que se colam por dentro de nós.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Há vários, mas assim de repente só me ocorre o "Das Obrigações em Geral", por João de Matos e Antunes Varela, que inventaram um truque secreto para me hipnotizar e pôr a dormir profundamente em menos de seis frases.
Ligeiramente mais a sério: bendito o dia em que me libertei da obrigação de ler um livro. Mas ainda guardo alguns desses para mim intragáveis na mesinha de cabeceira, para aqueles momentos em que quero adormecer o mais rapidamente possível. Como compreenderão, não revelo aqui o nome dos autores, porque hoje é o dia do Senhor e convém mantermos um certo espírito cristão.
3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Passei o verão dos meus oito anos a ler e reler a Princesa dos Sete Castelos, que era o único que levámos para dois meses e meio de campismo na praia. Por isso, bem sei que não há livro que resista a meses e meses de leituras sucessivas, quanto mais ao resto da minha vida. Mas se soubesse que ia morrer daqui a umas semanas, acho que escolhia o - ah, hoje estou tão original! - Eça. Não me queria ir embora sem me despedir dele com calma e fervor.
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Todos os que estão na estante Billy à entrada do meu quarto, em filas duplas e cheios de pó. É a estante dos comprados mas ainda não lidos. Postos lado a lado, já dá praí três metros, e eu bem gostava de saber porque é que continuo a comprar livros se já nem tenho sítio na fila de espera para os pôr!
5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
O Amor nos Tempos de Cólera:
Florentino Ariza tinha a resposta preparada há já cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com todas as suas noites.
- Toda a vida - disse.
6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Tinha, sim senhoras, e era o tipo de leitura compulsiva. Tudo o que apanhava à frente. A enciclopédia Luso-Brasileira nas estadias mais prolongadas na casa de banho. Tudo o que a Biblioteca da minha escola oferecia (sábado era dia de trocar o livro, e lá vinha eu da escola para casa a ler na rua. Se querem mais uma prova da existência de Deus, e do seu amor por mim, aqui têm: nunca fui atropelada). Tudo o que havia na Biblioteca no largo do Marquês, naquele pequeno pavilhão com enormes paredes de vidro sob as árvores (ainda lá estará? ainda terá os Asterix que eu lia?). Livros em francês logo na fase do je m'appelle Robert, je m'appelle Nicole et ça c'est notre chien Patapouf, e eu a achar que se entendia isso seria capaz de entender tudo. O Cataclismo Cósmico, de Júlio Verne, que era um dos poucos livros que havia na casa da minha avó paterna (e eu insistia em ler como "o Autoclismo Cómico") e até o Alexandrina de Balazar que havia na casa da minha avó materna, e era uma seca monumental, mas era o único que havia, pegar ou largar - isso, e a secção infantil do jornal diário que o correio trazia com dois dias de atraso. A colecção inteira da revista Fagulha no verão dos meus nove anos, que passei num solar perto de Cabeceiras de Basto sem electricidade (ler Fagulhas à luz da vela, em lençóis de linho - agarrem-me, que estou quase a dizer que dantes é que era bom). Mas pronto, eu sei que vocês não me deixam em paz enquanto eu não confessar a Enid Blyton (fazia corridas com o meu irmão mais velho aos domingos à tarde: deitados no soalho da "sala do Senhor", na casa da avó, ele um dos Cinco, eu um dos Sete, quem acaba primeiro? Era sempre ele, e alguns anos mais tarde ocorreu-me que poderia ter feito batota), a Condessa de Ségur e até, ai que vou confessar, a Odette de Saint-Maurice.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Não me lembro. Sei que houve vários, mas tenho tendência a recalcar esses momentos trágicos do meu passado.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
E depois dizem que a produtividade dos portugueses é baixa. Quantos anos me dão para responder a esta pergunta?
Atão, vá (mas só alguns, ouviram?!)
- Para manter a originalidade: os do Eça, praticamente todos.
- O Camilo, pelo português tão castiço.
- Do Gabriel Garcia Marquez, O Amor nos Tempos de Cólera entre muitos outros (especialmente a Crónica de uma Morte Anunciada, esse prodígio que resiste brilhantemente ao pior dos meus hábitos: ler o primeiro capítulo de um livro, ler o fim, decidir se vale a pena ler o entremeio)
- A Praça do Diamante, da Mercè Rodoreda, e a Cidade dos Prodígios, de Eduardo Mendoza
- Meu Coração Tão Branco, de Javier Marías (ah, e aí está um livro que quase não ia lendo, porque me irritava tropeçar em frases que me pareciam deslocadas, mas ainda bem que li até ao fim, porque nas últimas páginas todas essas frases que me tinham irritado voltaram encadeadas, e faziam sentido em revelação e sublime harmonia)
- Todos os da Amélie Nothomb, que é genialmente louca, mesmo no ponto em que eu gosto. Em especial o Stupeur et Tremblements. E Les Catilinaires. E os outros.
- A trilogia do Éric Emmanuel-Schmitt sobre as religiões monoteístas, com uma menção especial para Oscar et la Dame Rose.
- O enorme gozo que é Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, de João Ubaldo Ribeiro, e num registo completamente diferente a delícia das palavras tão bem decantadas da Lavoura Arcaica de Raduan Nassar.
- Do Vergílio Ferreira, especialmente alguns dos últimos: Até ao Fim, Na Tua Face, Em Nome da Terra.
- Os do Saramago, quando consigo abstrair daquela sua relação de amor e ódio com a Igreja Católica; os do Lobo Antunes quando ele não multiplica os delírios (e gosto muito muito das suas crónicas)
Ouçam lá, vocês não terão uma vidinha? A minha já está toda atrasada. Toca a desandar daqui.
9. Que livro estás a ler neste momento?
Neste preciso momento? Um livro muito divertido que daqui a uns meses vai sair em Portugal, e mais não digo. Antes disso, estava a ler - e hei-de lá voltar! - o Ruhm, de Daniel Kehlmann, que alguém havia de traduzir para português. E um guia para acabar com a procrastinação, que me emprestou uma famosa blogueira de Wedding, e que tem ideias geniais tais como "se você adia, é porque não está a fazer a coisa certa para si", e agora, se bem reparo em tudo o que não estou a fazer para responder a este inquérito, aqui pergunto a quem me souber responder se conhecem alguma maneira de ganhar dinheiro respondendo a inquéritos, que parece que, de tudo o que o destino me guardou para fazer hoje, é a minha vocação mais acertada.
10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
Era o que faltava. Se fosse para indicar 10 inimigos, vá que não vá, perdida por cem perdida por mil. Mas gosto muito dos meus amigos, e faço tudo para os manter de feição e benevolentes em relaçao a mim.
Bom, é domingo, dia de arejar os disparates ainda mais que de costume, cá vamos nós:
1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Todos os de Goethe, até finalmente entender. Pensando bem, os de Schiller também. E se fossem só esses... (intervalinho para ir ali chorar um bocadinho, já volto)
Agora, se estavam a falar de voltar a um livro pelo prazer de reencontrar aquela escrita, há os do Eça, os do Gabriel Garcia Marquez...
Pensando bem, que palermice de pergunta é esta? É evidente que apetece reler todos os livros que se colam por dentro de nós.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Há vários, mas assim de repente só me ocorre o "Das Obrigações em Geral", por João de Matos e Antunes Varela, que inventaram um truque secreto para me hipnotizar e pôr a dormir profundamente em menos de seis frases.
Ligeiramente mais a sério: bendito o dia em que me libertei da obrigação de ler um livro. Mas ainda guardo alguns desses para mim intragáveis na mesinha de cabeceira, para aqueles momentos em que quero adormecer o mais rapidamente possível. Como compreenderão, não revelo aqui o nome dos autores, porque hoje é o dia do Senhor e convém mantermos um certo espírito cristão.
3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Passei o verão dos meus oito anos a ler e reler a Princesa dos Sete Castelos, que era o único que levámos para dois meses e meio de campismo na praia. Por isso, bem sei que não há livro que resista a meses e meses de leituras sucessivas, quanto mais ao resto da minha vida. Mas se soubesse que ia morrer daqui a umas semanas, acho que escolhia o - ah, hoje estou tão original! - Eça. Não me queria ir embora sem me despedir dele com calma e fervor.
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Todos os que estão na estante Billy à entrada do meu quarto, em filas duplas e cheios de pó. É a estante dos comprados mas ainda não lidos. Postos lado a lado, já dá praí três metros, e eu bem gostava de saber porque é que continuo a comprar livros se já nem tenho sítio na fila de espera para os pôr!
5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
O Amor nos Tempos de Cólera:
Florentino Ariza tinha a resposta preparada há já cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com todas as suas noites.
- Toda a vida - disse.
6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Tinha, sim senhoras, e era o tipo de leitura compulsiva. Tudo o que apanhava à frente. A enciclopédia Luso-Brasileira nas estadias mais prolongadas na casa de banho. Tudo o que a Biblioteca da minha escola oferecia (sábado era dia de trocar o livro, e lá vinha eu da escola para casa a ler na rua. Se querem mais uma prova da existência de Deus, e do seu amor por mim, aqui têm: nunca fui atropelada). Tudo o que havia na Biblioteca no largo do Marquês, naquele pequeno pavilhão com enormes paredes de vidro sob as árvores (ainda lá estará? ainda terá os Asterix que eu lia?). Livros em francês logo na fase do je m'appelle Robert, je m'appelle Nicole et ça c'est notre chien Patapouf, e eu a achar que se entendia isso seria capaz de entender tudo. O Cataclismo Cósmico, de Júlio Verne, que era um dos poucos livros que havia na casa da minha avó paterna (e eu insistia em ler como "o Autoclismo Cómico") e até o Alexandrina de Balazar que havia na casa da minha avó materna, e era uma seca monumental, mas era o único que havia, pegar ou largar - isso, e a secção infantil do jornal diário que o correio trazia com dois dias de atraso. A colecção inteira da revista Fagulha no verão dos meus nove anos, que passei num solar perto de Cabeceiras de Basto sem electricidade (ler Fagulhas à luz da vela, em lençóis de linho - agarrem-me, que estou quase a dizer que dantes é que era bom). Mas pronto, eu sei que vocês não me deixam em paz enquanto eu não confessar a Enid Blyton (fazia corridas com o meu irmão mais velho aos domingos à tarde: deitados no soalho da "sala do Senhor", na casa da avó, ele um dos Cinco, eu um dos Sete, quem acaba primeiro? Era sempre ele, e alguns anos mais tarde ocorreu-me que poderia ter feito batota), a Condessa de Ségur e até, ai que vou confessar, a Odette de Saint-Maurice.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Não me lembro. Sei que houve vários, mas tenho tendência a recalcar esses momentos trágicos do meu passado.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
E depois dizem que a produtividade dos portugueses é baixa. Quantos anos me dão para responder a esta pergunta?
Atão, vá (mas só alguns, ouviram?!)
- Para manter a originalidade: os do Eça, praticamente todos.
- O Camilo, pelo português tão castiço.
- Do Gabriel Garcia Marquez, O Amor nos Tempos de Cólera entre muitos outros (especialmente a Crónica de uma Morte Anunciada, esse prodígio que resiste brilhantemente ao pior dos meus hábitos: ler o primeiro capítulo de um livro, ler o fim, decidir se vale a pena ler o entremeio)
- A Praça do Diamante, da Mercè Rodoreda, e a Cidade dos Prodígios, de Eduardo Mendoza
- Meu Coração Tão Branco, de Javier Marías (ah, e aí está um livro que quase não ia lendo, porque me irritava tropeçar em frases que me pareciam deslocadas, mas ainda bem que li até ao fim, porque nas últimas páginas todas essas frases que me tinham irritado voltaram encadeadas, e faziam sentido em revelação e sublime harmonia)
- Todos os da Amélie Nothomb, que é genialmente louca, mesmo no ponto em que eu gosto. Em especial o Stupeur et Tremblements. E Les Catilinaires. E os outros.
- A trilogia do Éric Emmanuel-Schmitt sobre as religiões monoteístas, com uma menção especial para Oscar et la Dame Rose.
- O enorme gozo que é Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, de João Ubaldo Ribeiro, e num registo completamente diferente a delícia das palavras tão bem decantadas da Lavoura Arcaica de Raduan Nassar.
- Do Vergílio Ferreira, especialmente alguns dos últimos: Até ao Fim, Na Tua Face, Em Nome da Terra.
- Os do Saramago, quando consigo abstrair daquela sua relação de amor e ódio com a Igreja Católica; os do Lobo Antunes quando ele não multiplica os delírios (e gosto muito muito das suas crónicas)
Ouçam lá, vocês não terão uma vidinha? A minha já está toda atrasada. Toca a desandar daqui.
9. Que livro estás a ler neste momento?
Neste preciso momento? Um livro muito divertido que daqui a uns meses vai sair em Portugal, e mais não digo. Antes disso, estava a ler - e hei-de lá voltar! - o Ruhm, de Daniel Kehlmann, que alguém havia de traduzir para português. E um guia para acabar com a procrastinação, que me emprestou uma famosa blogueira de Wedding, e que tem ideias geniais tais como "se você adia, é porque não está a fazer a coisa certa para si", e agora, se bem reparo em tudo o que não estou a fazer para responder a este inquérito, aqui pergunto a quem me souber responder se conhecem alguma maneira de ganhar dinheiro respondendo a inquéritos, que parece que, de tudo o que o destino me guardou para fazer hoje, é a minha vocação mais acertada.
10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
Era o que faltava. Se fosse para indicar 10 inimigos, vá que não vá, perdida por cem perdida por mil. Mas gosto muito dos meus amigos, e faço tudo para os manter de feição e benevolentes em relaçao a mim.
Filarmonia de Berlim, agora também com filmes mudos
Garanto (e até tenho uma testemunha) que só perguntei "como é que se vai para os lugares no estrado?", e nem tinha um decote até ao umbigo, nem nada, mas o senhor das informações na Filarmonia fez questão de nos levar ele próprio pelo estranho labirinto de escadas. Pelo caminho contou-me de um amigo seu, escritor alemão, que fugiu para a Espanha, vendo-se depois obrigado a seguir para Portugal porque entretanto o Franco entrou em cena, onde aprendeu facilmente português porque "é igual ao espanhol, depois de desossado". Com um truque de ventriloquia pedi à minha testemunha que fosse andando para o lugar, que não era marcado, e resisti com valentia à tentação de pedir ao homem que me contasse mais sobre a anatomia das palavras e já agora de lhe perguntar se no fim do concerto nos abria a porta para o restaurante dos músicos, que fica por trás do palco.
Se fosse o Simon Rattle, talvez tivéssemos ficado o concerto todo naqueles lugares, achando que era um bailado com música de Richard Strauss. Mas era o Christian Thielemann, que mais parece as tais palavras espanholas (tem muitos ossos para o meu gosto), o que tornou aquele ponto de vista um bocado frustrante, porque a gente via que o Thomas Hampson se esforçava, mas praticamente não lhe saía nenhum som do corpo. É que parecia mesmo um cantor em cena de filme mudo, acompanhado por uma orquestra ao vivo! De modo que no intervalo, em vez de ir para a fila do Sekt e da Bretzel, fomos à procura dos lugares do tesouro: as cadeiras vazias nos blocos da frente, que eu tinha guardado num elaboradíssimo mapa mental enquanto o Hampson se agitava em afonia pela ária Pilgers Morgenlied.
A ver se não me esqueço desta regra importante: os outros ocupantes dos bancos de pau também vêem as cadeiras vazias do outro lado do palco, e também têm as suas estratégias de felicidade, por sinal bastante semelhantes às minhas. Aprende, Heleninha: nunca graves no teu mapa secreto os lugares mais fáceis de encontrar. Quando lá chegas, já estão ocupados.
Mas encontrámos dois bons lugares, e não apareceu ninguém mesmo no fim do intervalo a reclamá-los, pelo que aplaudi com especial entusiasmo o maestro quando ele regressou à sala.
Resumindo, foi isto: ontem, na Filarmonia, tive direito a um filme mudo e a uma ária excepcional. Dois em um, que mais posso querer?
Aqui podem ver uma pequena parte do ensaio, onde Renée Fleming e Thomas Hampson cantam "Und Du wirst mein Gebieter sein", da ópera Arabella. Esta ária:
Se fosse o Simon Rattle, talvez tivéssemos ficado o concerto todo naqueles lugares, achando que era um bailado com música de Richard Strauss. Mas era o Christian Thielemann, que mais parece as tais palavras espanholas (tem muitos ossos para o meu gosto), o que tornou aquele ponto de vista um bocado frustrante, porque a gente via que o Thomas Hampson se esforçava, mas praticamente não lhe saía nenhum som do corpo. É que parecia mesmo um cantor em cena de filme mudo, acompanhado por uma orquestra ao vivo! De modo que no intervalo, em vez de ir para a fila do Sekt e da Bretzel, fomos à procura dos lugares do tesouro: as cadeiras vazias nos blocos da frente, que eu tinha guardado num elaboradíssimo mapa mental enquanto o Hampson se agitava em afonia pela ária Pilgers Morgenlied.
A ver se não me esqueço desta regra importante: os outros ocupantes dos bancos de pau também vêem as cadeiras vazias do outro lado do palco, e também têm as suas estratégias de felicidade, por sinal bastante semelhantes às minhas. Aprende, Heleninha: nunca graves no teu mapa secreto os lugares mais fáceis de encontrar. Quando lá chegas, já estão ocupados.
Mas encontrámos dois bons lugares, e não apareceu ninguém mesmo no fim do intervalo a reclamá-los, pelo que aplaudi com especial entusiasmo o maestro quando ele regressou à sala.
Resumindo, foi isto: ontem, na Filarmonia, tive direito a um filme mudo e a uma ária excepcional. Dois em um, que mais posso querer?
Aqui podem ver uma pequena parte do ensaio, onde Renée Fleming e Thomas Hampson cantam "Und Du wirst mein Gebieter sein", da ópera Arabella. Esta ária:
07 maio 2011
Berlin, Du bist so wunderbar
Um spot publicitário de uma cerveja berlinense joga com as diferenças entre os vários bairros.
Aqui (carreguem em "abspielen") podem ouvir as variações regionais. Os meus preferidos são Charlottenburg, onde moro, e Kreuzberg, ali para os lados da Turquia.
Aqui (carreguem em "abspielen") podem ouvir as variações regionais. Os meus preferidos são Charlottenburg, onde moro, e Kreuzberg, ali para os lados da Turquia.
parapsicologia mecânica
Desde que deu aquele trambolhãozinho, a minha máquina fotográfica começou a ter visões, e revela ao mundo o que mais ninguém consegue alcançar à vista desarmada.
Por exemplo, quando se fala da presença de espírito do Ricardo Araújo Pereira, é literalmente isto:
Por exemplo, quando se fala da presença de espírito do Ricardo Araújo Pereira, é literalmente isto:
"uniões homoafetivas"
Hoje encontrei no facebook brasileiros a falar das uniões homossexuais, e não diziam homossexual, mas homoafetivo. Apesar de lhe faltar um c, gostei muito.
o melhor governo dos portugueses
O Governo Sombra reuniu ontem em Berlim, e foi brilhante.
Podem ouvir aqui e aqui - e tenho pena de todos os que não puderam ver, porque a linguagem corporal daqueles quatro patuscos enriquece muito o programa. Pela minha parte, nunca mais os ouvirei com os mesmos olhos!
Como disse: brilhantes. Mas o melhor momento da noite foi quando eles se calaram, podem crer.
Porque à saída atravessei um bar cheio de tugas em estado de transbordante felicidade, e nunca tinha visto uma coisa assim: dezenas de portugueses com os olhos brilhantes e um sorriso rasgado, num ambiente de alegria contagiante.
E foi aí que me ocorreu a solução genial para Portugal: Governo Sombra ao poder!
Proposta sustentada por sólidos argumentos: é o único governo que não deixa os portugueses deprimidos, sendo só quatro já se poupam uns dinheiritos no salário dos governantes e seus motoristas, e de qualquer modo para trabalhar temos a troika (ou eles pensam que em meia dúzia de dias imaginam um país novinho em folha e depois se põem ao fresco e nos deixam com o seu fantástico plano de salvação nos braços? nã, nã: essa já se viu no Génesis, e não tem dado grande resultado).
Portanto: Governo Sombra ao poder!
Se a parte do pobrezinhos já está assegurada, façamos então por ser felizes.
06 maio 2011
felicidade é...
Por estes dias tenho andado bastante ocupada com uma visita governamental a Berlim. E mais não digo, excepto que vão fazer hoje na TSF uma comunicação ao povo português, a partir das seis da tarde.
Esta vida dupla está a dar cabo de mim: até às tantas em serviço patriótico, depois ir para casa, dormir a correr e acordar antes da madrugada em serviço à família. Hoje pedi licença por umas horas (não revelei a ninguém que era para dormir), pus a família fora de casa à hora do costume, e ia voltar para o tal lugar de onde nunca deveria ter saído às seis da manhã quando a vizinha da frente abriu a porta de casa. Ia sair para o jogging matinal. Enquanto falávamos sentou-se nas escadas a apertar os cordões, e eu sentei-me ao seu lado.
Há momentos assim: duas mulheres a conversar, sentadas num degrau de madeira. Quase-quase felicidade, e muito melhor que tentar recuperar umas horas de sono.
Esta vida dupla está a dar cabo de mim: até às tantas em serviço patriótico, depois ir para casa, dormir a correr e acordar antes da madrugada em serviço à família. Hoje pedi licença por umas horas (não revelei a ninguém que era para dormir), pus a família fora de casa à hora do costume, e ia voltar para o tal lugar de onde nunca deveria ter saído às seis da manhã quando a vizinha da frente abriu a porta de casa. Ia sair para o jogging matinal. Enquanto falávamos sentou-se nas escadas a apertar os cordões, e eu sentei-me ao seu lado.
Há momentos assim: duas mulheres a conversar, sentadas num degrau de madeira. Quase-quase felicidade, e muito melhor que tentar recuperar umas horas de sono.
05 maio 2011
Obama e o fim da al Qaeda
Um post de Juan Cole no seu blogue Informed Comment. A ler integralmente. Alguns excertos:
The US story that the Pakistanis were not given prior notice of the operation is contradicted by the Pakistani news channel Geo, which says that Pakistani troops and plainsclothesmen helped cordon off the compound in Abbotabad. CNN is pointing out that US helicopters could not have flown so far into Pakistan from Afghanistan without tripping Pakistani radar. My guess is that the US agreed to shield the government of Prime Minister Yousuf Raza Gilani and President Asaf Ali Zardari from al-Qaeda reprisals by putting out the story that the operation against Bin Laden was solely a US one. And it may be that suspect elements of the Pakistani elite, such as the Inter-Services Intelligence, were kept out the the loop because it was feared they might have ties to Bin Laden and might tip him off.
(...)
Now that Obama has eliminated the monster Usama Bin Laden and vindicated the capability of the United States to visit retribution on its dire enemies, he can do one other great good for this country abroad. He can get us out of Iraq altogether. The US military presence there is the fruit of a poisonous tree. It will always provoke Iraqi Muslim activists, whether Sunni or Shiite or secular nationalist. And it angers the whole Arab world.
The Arab Spring has demonstrated that the Arab masses yearn for liberty, not thuggish repression, for life, not death and destruction, for parliamentary democracy, not theocratic dictatorship. Bin Laden was already a dinosaur, a relic of the Cold War and the age of dictators in which a dissident such as he had no place in society and was shunted off to distant, frontier killing fields. The new generation of young Arabs in Egypt and Tunisia has a shot at a decent life. Obama has put the US on the right side of history in Tunisia, Egypt, Syria and Libya (where I see crowds for the first time in my life waving American flags). People might want a little help from a distance, but they don’t want to see Western troops deployed in fighting units on their soil.
If Obama can get us out of Iraq, and if he can use his good offices to keep the pressure on the Egyptian military to lighten up, and if he can support the likely UN declaration of a Palestinian state in September, the US will be in the most favorable position in the Arab world it has had since 1956. And he would go down in history as one of the great presidents. If he tries to stay in Iraq and he takes a stand against Palestine, he risks provoking further anti-American violence. He can be not just the president who killed Bin Laden, but the president who killed the pretexts for radical violence against the US. He can promote the waving of the American flag in major Arab cities. And that would be a defeat and humiliation for Bin Laden and Al-Qaeda more profound than any they could have dreamed.
Outro post muito informativo (embora gostasse que explicasse melhor como é que sabe com tanta certeza que o Bin Laden foi morto num movimento de auto-defesa): Top Ten Myths about Bin Laden’s Death.
The US story that the Pakistanis were not given prior notice of the operation is contradicted by the Pakistani news channel Geo, which says that Pakistani troops and plainsclothesmen helped cordon off the compound in Abbotabad. CNN is pointing out that US helicopters could not have flown so far into Pakistan from Afghanistan without tripping Pakistani radar. My guess is that the US agreed to shield the government of Prime Minister Yousuf Raza Gilani and President Asaf Ali Zardari from al-Qaeda reprisals by putting out the story that the operation against Bin Laden was solely a US one. And it may be that suspect elements of the Pakistani elite, such as the Inter-Services Intelligence, were kept out the the loop because it was feared they might have ties to Bin Laden and might tip him off.
(...)
Now that Obama has eliminated the monster Usama Bin Laden and vindicated the capability of the United States to visit retribution on its dire enemies, he can do one other great good for this country abroad. He can get us out of Iraq altogether. The US military presence there is the fruit of a poisonous tree. It will always provoke Iraqi Muslim activists, whether Sunni or Shiite or secular nationalist. And it angers the whole Arab world.
The Arab Spring has demonstrated that the Arab masses yearn for liberty, not thuggish repression, for life, not death and destruction, for parliamentary democracy, not theocratic dictatorship. Bin Laden was already a dinosaur, a relic of the Cold War and the age of dictators in which a dissident such as he had no place in society and was shunted off to distant, frontier killing fields. The new generation of young Arabs in Egypt and Tunisia has a shot at a decent life. Obama has put the US on the right side of history in Tunisia, Egypt, Syria and Libya (where I see crowds for the first time in my life waving American flags). People might want a little help from a distance, but they don’t want to see Western troops deployed in fighting units on their soil.
If Obama can get us out of Iraq, and if he can use his good offices to keep the pressure on the Egyptian military to lighten up, and if he can support the likely UN declaration of a Palestinian state in September, the US will be in the most favorable position in the Arab world it has had since 1956. And he would go down in history as one of the great presidents. If he tries to stay in Iraq and he takes a stand against Palestine, he risks provoking further anti-American violence. He can be not just the president who killed Bin Laden, but the president who killed the pretexts for radical violence against the US. He can promote the waving of the American flag in major Arab cities. And that would be a defeat and humiliation for Bin Laden and Al-Qaeda more profound than any they could have dreamed.
Outro post muito informativo (embora gostasse que explicasse melhor como é que sabe com tanta certeza que o Bin Laden foi morto num movimento de auto-defesa): Top Ten Myths about Bin Laden’s Death.
03 maio 2011
à atenção dos portugueses que moram em Berlim (2)
Estamos todos convidados para a reunião do Governo Sombra na próxima sexta-feira no Yuma Bar, sim, já se sabe. Estamos todos convidados, por causa das coisas, e também por uma questão de abertura e transparência, que andam a fazer muita falta no governo do nosso país.
Essa parte, já se sabe. Mas: alguém me pode informar se se pode rir em voz alta? Ou se só podemos gargalhar na clandestinidade, hihihi por baixo do cachecol, quem? eu?!, eu não ri nada, foi esta menina aqui ao meu lado.
E ainda: será que pensaram em levar intérprete para a Angela Merkel? Não vá dar-se o caso de ela dizer Ja Ja a tudo, só para agradar ao público (nós), que com estas manias da integração agora um político nunca sabe quantos daqueles moreninhos podem ser eleitores, e depois chega a casa e lê a tradução e muda de opinião em menos de cinco minutos, sinal de que é uma governante muito flexível e capaz de se adaptar rapidamente a situações novas.
E mais: será que o Governo Sombra discutiu no Parlamento Sombra o que vem negociar na Alemanha? Isso preocupa-me muito, porque ainda outro dia houve uma cena do género e no fim correu um bocadinho mal, e não me dava jeito depois vir o Presidente Sombra dizer que o Governo Sombra havia de fazer humor de interesse nacional, uma solução única, uma coisa assim tipo um marmanjo a jogar futebol dentro da sala e deitar abaixo a mesinha do candeeiro, toda a gente ri e ficamos muito contentes e amigos.
Essa parte, já se sabe. Mas: alguém me pode informar se se pode rir em voz alta? Ou se só podemos gargalhar na clandestinidade, hihihi por baixo do cachecol, quem? eu?!, eu não ri nada, foi esta menina aqui ao meu lado.
E ainda: será que pensaram em levar intérprete para a Angela Merkel? Não vá dar-se o caso de ela dizer Ja Ja a tudo, só para agradar ao público (nós), que com estas manias da integração agora um político nunca sabe quantos daqueles moreninhos podem ser eleitores, e depois chega a casa e lê a tradução e muda de opinião em menos de cinco minutos, sinal de que é uma governante muito flexível e capaz de se adaptar rapidamente a situações novas.
E mais: será que o Governo Sombra discutiu no Parlamento Sombra o que vem negociar na Alemanha? Isso preocupa-me muito, porque ainda outro dia houve uma cena do género e no fim correu um bocadinho mal, e não me dava jeito depois vir o Presidente Sombra dizer que o Governo Sombra havia de fazer humor de interesse nacional, uma solução única, uma coisa assim tipo um marmanjo a jogar futebol dentro da sala e deitar abaixo a mesinha do candeeiro, toda a gente ri e ficamos muito contentes e amigos.
uma pedra no caminho
A convite do Pedro Correia (esse simpático head hunter dos blogues), escrevi para o Delito de Opinião o texto que a seguir transcrevo. Não é bem um estéreo, é uma edição revista e aumentada: tem mais fotografias.
Os vizinhos do segundo andar deixaram uma carta em todas as caixas de correio do prédio, informando que, em 1942, uma mulher judia foi levada do nosso prédio para Theresientstadt e daí para Auschwitz, onde foi assassinada, e que em sua memória tinham encomendado uma Stolperstein, uma “pedra no caminho”.
Trata-se de uma iniciativa de um artista alemão, Gunter Demnig: em frente à última morada voluntária de vítimas do nazismo põe-se entre as pedras da calçada um pequeno bloco de betão com uma placa em metal, onde estão inscritos nome, ano de nascimento, data da deportação e da morte. Uma das intenções é devolver a essas pessoas o seu próprio nome – que no campo era substituído por um número – levando a que os passantes parem e por uns momentos se curvem perante a sua memória. No meu caminho para o metro há onze placas dessas em frente a uma só casa, e fazem-me sempre parar: Selma Sternfeld, aos 79 anos de idade arrancada à sua casa com destino a Theresienstadt. Clara e Minna Plessner, de 63 e 64 anos, imagino-as duas irmãs solteironas, assassinadas em Piaski (onde será Piaski?). Johanna Steuer, a caminho do campo de concentração com 75 anos, um martírio de duas semanas e meia até a matarem. Reparo nas datas da deportação, quase todas diferentes: vez após vez o mesmo terror, “por quem virão eles hoje?” ou “será que hoje há uma carta para mim?”
Também da nossa casa saiu uma mulher, levada à força para Theresienstadt, e os vizinhos do segundo andar encomendaram uma pedra para o nosso caminho. Fomos falar com eles, louvar a iniciativa, pedir para participar nos 100 euros que este pequeno memorial custa, mas em vez disso deram-nos uma lista de nomes: da nossa rua minúscula levaram mais de trinta judeus para campos de concentração. Podíamos escolher um deles, sugeriram, e encomendar mais uma pedra. Temos andado a pensar nisso: é estranho adoptar uma vítima de entre seis milhões, ou mesmo de entre trinta. A mulher de 82 anos? O rapaz de 20? A família pai-mãe-filha que foi enviada para o gueto de Varsóvia? Um deles seria a herança dos nossos filhos: a “nossa” pedra, um nome resgatado para ser levado de geração em geração, dos nossos netos aos seus bisnetos.
No dia aprazado chegou o artista, segurando reverentemente o cubo, e um ajudante que trazia as ferramentas. Descemos todos e fizemos um círculo à volta do homem que, muito rápido, tirou algumas pedras, inseriu o bloco, deitou areia e cimento. O ajudante juntou a água e varreu o chão. Depois levantaram-se, nós acendemos uma vela e pousámos rosas no passeio.
Ficámos alguns minutos em silêncio. A vizinha do segundo andar chorava desamparadamente. A vizinha do terceiro andar, que descende de uma família de judeus assimilados e é muito extrovertida, começou a segredar-me legendas para o que estava a acontecer. “Temos de lembrar”, dizia ela, e repetia-se “que ninguém esqueça”, e lamentava-se “isto foi uma coisa horrível, horrível, horrível”. E eu fazia que sim com a cabeça, e deixava-a falar apesar de não querer ouvir, e tentava não chorar como a outra vizinha, tomada de uma tristeza informe por esta mulher que talvez tenha habitado as minhas salas, e foi morrer assassinada em Auschwitz.
Os vizinhos do segundo andar deixaram uma carta em todas as caixas de correio do prédio, informando que, em 1942, uma mulher judia foi levada do nosso prédio para Theresientstadt e daí para Auschwitz, onde foi assassinada, e que em sua memória tinham encomendado uma Stolperstein, uma “pedra no caminho”.
Trata-se de uma iniciativa de um artista alemão, Gunter Demnig: em frente à última morada voluntária de vítimas do nazismo põe-se entre as pedras da calçada um pequeno bloco de betão com uma placa em metal, onde estão inscritos nome, ano de nascimento, data da deportação e da morte. Uma das intenções é devolver a essas pessoas o seu próprio nome – que no campo era substituído por um número – levando a que os passantes parem e por uns momentos se curvem perante a sua memória. No meu caminho para o metro há onze placas dessas em frente a uma só casa, e fazem-me sempre parar: Selma Sternfeld, aos 79 anos de idade arrancada à sua casa com destino a Theresienstadt. Clara e Minna Plessner, de 63 e 64 anos, imagino-as duas irmãs solteironas, assassinadas em Piaski (onde será Piaski?). Johanna Steuer, a caminho do campo de concentração com 75 anos, um martírio de duas semanas e meia até a matarem. Reparo nas datas da deportação, quase todas diferentes: vez após vez o mesmo terror, “por quem virão eles hoje?” ou “será que hoje há uma carta para mim?”
Também da nossa casa saiu uma mulher, levada à força para Theresienstadt, e os vizinhos do segundo andar encomendaram uma pedra para o nosso caminho. Fomos falar com eles, louvar a iniciativa, pedir para participar nos 100 euros que este pequeno memorial custa, mas em vez disso deram-nos uma lista de nomes: da nossa rua minúscula levaram mais de trinta judeus para campos de concentração. Podíamos escolher um deles, sugeriram, e encomendar mais uma pedra. Temos andado a pensar nisso: é estranho adoptar uma vítima de entre seis milhões, ou mesmo de entre trinta. A mulher de 82 anos? O rapaz de 20? A família pai-mãe-filha que foi enviada para o gueto de Varsóvia? Um deles seria a herança dos nossos filhos: a “nossa” pedra, um nome resgatado para ser levado de geração em geração, dos nossos netos aos seus bisnetos.
No dia aprazado chegou o artista, segurando reverentemente o cubo, e um ajudante que trazia as ferramentas. Descemos todos e fizemos um círculo à volta do homem que, muito rápido, tirou algumas pedras, inseriu o bloco, deitou areia e cimento. O ajudante juntou a água e varreu o chão. Depois levantaram-se, nós acendemos uma vela e pousámos rosas no passeio.
Ficámos alguns minutos em silêncio. A vizinha do segundo andar chorava desamparadamente. A vizinha do terceiro andar, que descende de uma família de judeus assimilados e é muito extrovertida, começou a segredar-me legendas para o que estava a acontecer. “Temos de lembrar”, dizia ela, e repetia-se “que ninguém esqueça”, e lamentava-se “isto foi uma coisa horrível, horrível, horrível”. E eu fazia que sim com a cabeça, e deixava-a falar apesar de não querer ouvir, e tentava não chorar como a outra vizinha, tomada de uma tristeza informe por esta mulher que talvez tenha habitado as minhas salas, e foi morrer assassinada em Auschwitz.
02 maio 2011
à atenção dos portugueses que moram em Berlim:
Finalmente acontece alguma coisa de jeito nesta cidade! Finalmente há um intervalinho na nossa triste insularidade, sempre tão longe da Pátria e das coisas interessantes que lá acontecem.
E mais ainda: agora é que o caldo da Angela Merkel se entornou de vez!
Pois é assim (alvíssaras! alvíssaras!): o Governo Sombra vem à Alemanha! A Berlim, mais propriamente. E nunca mais as coisas voltarão a ser como antes.
O Governo reúne na próxima sexta-feira a partir das 19 horas, no Yuma Bar, na Reuterstrasse 63, em Neuköln.
E como a Democracia é o governo do povo (li num sítio qualquer), estão todos convidados. Pobre Angela Merkel, mal ela sabe com quem se foi meter.
coincidências
No blogue Der Terrorist, José Simões nota a coincidência das datas: o assassinato de Bin Laden e o fim do regime nazi simbolizado por uma encenação no Reichstag. Curiosamente, hoje é também o dia em que conto no blogue Delito de Opinião um episódio ligado a uma mulher judia que viveu no meu prédio.
Sim: na mesma data temos o terrorismo islâmico, o sistema nazi, e os judeus - todos vistos sempre por prismas tão diferentes.
Algum dia aprenderemos que quando começamos a abrir excepções na defesa da dignidade humana, não sabemos onde isso nos pode levar?
Sim: na mesma data temos o terrorismo islâmico, o sistema nazi, e os judeus - todos vistos sempre por prismas tão diferentes.
Algum dia aprenderemos que quando começamos a abrir excepções na defesa da dignidade humana, não sabemos onde isso nos pode levar?
Osama Bin Laden 1957-2011
Vejam este filme com atenção: a lógica de Bin Laden, a lógica dos que o temem, a autofagia das teorias conspirativas. A imensa estupidez do nosso tempo, uma estupidez que a morte de Bin Laden não resolve.
Nenhuma morte deve ser motivo de alegria. Esta, nem sequer me proporciona alívio. Pelo contrário: lembro o que no primeiro século da nossa era se dizia - "sangue de mártires é semente de cristãos" -, e temo que este sangue alimente ainda mais um movimento imparável. Bin Laden está morto, mas as circunstâncias que deram força ao seu movimento continuam iguais.
O que move os terroristas? O que leva pessoas - muitas delas de famílias abastadas e bem integradas na sociedade - a escolher a violência contra inocentes?
E nós: o que nos move? Se é a plena dignidade humana, tal como esboçada na declaração universal dos direitos do Homem, então temos de procurar outras vias. Pela violência, a férrea defesa dos nossos interesses e a cega imposição da nossa lógica não chegamos lá. Aproveitemos este momento, em que o "inimigo" sofreu um forte abalo, para repensar a nossa atitude.
***
Por exemplo: o que andamos a fazer na Líbia?
01 maio 2011
análise sociológica (2)
Eis que o dia já há muito passou o seu zénite quando aqui a especialista se dá conta que passou o Primeiro de Maio a fazer posts sobre o The Royal Wedding. Ai!
E como se não bastasse: este é o dia que o Vaticano escolheu para beatificar o Papa João Paulo II.
Suspeito que já faltou mais para o fim do mundo tal como o conhecemos...
(Emboramente: imagino que a data escolhida agrade muito aos membros do Solidarność.)
E como se não bastasse: este é o dia que o Vaticano escolheu para beatificar o Papa João Paulo II.
Suspeito que já faltou mais para o fim do mundo tal como o conhecemos...
(Emboramente: imagino que a data escolhida agrade muito aos membros do Solidarność.)
em síntese, e para terminar, é isto:
(foto encontrada aqui)
Agora já sabemos que a História avança em círculos, e que Rafael passou por Londres no dia 29 de Abril de 2011, pouco antes de acrescentar este detalhe à sua famosa Madonna Sistina:
análise sociológica
(espero que o jpt não passe por aqui, e não veja este título bombástico: ainda me dá um zero honoris causa em Sociologia, e é merecido)
O grande vencedor do The Royal Wedding foi o povo inglês: produziu uma bela noiva, uma elegantíssima mãe da noiva, um digníssimo pai da noiva, um irmão da noiva que foi um excelente leitor, uma madrinha e dama-de-honor como nunca se viu (esta parte merece eco: comonuncaseviu nuncaseviu seviu sviu) (repararam naquele sensualíssimo mas discreto menear das ancas quando subiu ao altar? até a Marilyn Monroe empalideceu lá na sua sepultura). Gente que descende de mineiros, e duas ou três gerações mais tarde faz esta excepcional figura. O american dream no coração da Monarquia Britânica! Viva o povo inglês.
Já o povo sul-africano, enfim, como direi: a entrada da Chelsey Davy na igreja parecia um casting para o papel da Thénardier em Les Misérables.
***
Um bocadinho de veneno em pé de página: que cara terão feito certas pessoas que lá na terra dos Middleton se riram muito quando o príncipe acabou o namoro? E os que rebolavam de gozo ao dizer Waitie-Katie? Nas entrelinhas dos sorrisos daquela família era isto que se lia: "ri melhor quem ri no fim". Aprendam, pessoas.
O grande vencedor do The Royal Wedding foi o povo inglês: produziu uma bela noiva, uma elegantíssima mãe da noiva, um digníssimo pai da noiva, um irmão da noiva que foi um excelente leitor, uma madrinha e dama-de-honor como nunca se viu (esta parte merece eco: comonuncaseviu nuncaseviu seviu sviu) (repararam naquele sensualíssimo mas discreto menear das ancas quando subiu ao altar? até a Marilyn Monroe empalideceu lá na sua sepultura). Gente que descende de mineiros, e duas ou três gerações mais tarde faz esta excepcional figura. O american dream no coração da Monarquia Britânica! Viva o povo inglês.
Já o povo sul-africano, enfim, como direi: a entrada da Chelsey Davy na igreja parecia um casting para o papel da Thénardier em Les Misérables.
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Um bocadinho de veneno em pé de página: que cara terão feito certas pessoas que lá na terra dos Middleton se riram muito quando o príncipe acabou o namoro? E os que rebolavam de gozo ao dizer Waitie-Katie? Nas entrelinhas dos sorrisos daquela família era isto que se lia: "ri melhor quem ri no fim". Aprendam, pessoas.
(foto)
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