Para que não seja este o único blogue de Portugal que não refere a entrevista que a Fernanda Câncio fez ao Pedro Arroja há mais de 10 anos, aqui vai uma história que me contaram ainda o Pedro Arroja andava pelas Américas a aprender a aplicar ovos de Colombo a quadraturas do círculo:
Naquele tempo (há cerca de vinte anos), as tinturarias do Vale do Ave tinham problemas graves com a qualidade da água. Eram obrigadas a combinar entre si que cores iam tingir em cada dia, para que a água suja com a cor das tinturarias a montante não estragasse o trabalho das tinturarias a juzante. E, devido à poluição, foram obrigadas a fazer uma estação de tratamento das águas antes de a usarem. Antes, hihihi. À entrada, hihihi.
A água do rio entrava suja, era limpa, usada, e saía suja.
Isto era necessário para todas as tinturarias, excepto a primeira.
Contaram-me como facto, não como anedota. Bem: se non è vero, è ben trovato.
Haverá melhor imagem para ilustrar o resultado de confiar na inteligência dos agentes económicos individuais?
O primeiro espertinho enriquece; os outros seguem-lhe o exemplo com resultados menos satisfatórios; e quem vier atrás que feche a porta.
O mais engraçado é que, se houvesse um Estado a obrigar as empresas a limpar o que sujam, o único que perdia era o primeiro tintureiro, que teria de criar também uma estação de tratamento das águas. Para os outros, o custo era o mesmo. Com uma diferença: a estação estaria à saída, e não à entrada da água.
E outra diferença: a água do rio estaria limpa.
Lembram-se como era o rio Ave há vinte anos? Havia zonas em que os peixes saltavam para terra porque não aguentavam o estado da água.
(Espero que tenha melhorado!)
***
O Reno também esteve assim. Até se dizia que o que a indústria alemã fazia com esse rio era violação de um morto.
O chato do estado alemão meteu-se a regular e a castigar duramente os infractores, e, milagre, no Reno já há outra vez salmões e praias fluviais.
29 setembro 2006
26 setembro 2006
Ury Avnery sobre o discurso do Papa
Aqui.
Questiona a afirmação de que Maomé queria expandir a fé no gume da espada.
As guerras do Islão seriam santas, económicas ou políticas?
Curiosamente, tenho andado a pensar nisso a propósito dos descobrimentos portugueses. Tempos houve em que era politicamente mais correcto dizer que foi a fé que nos moveu (até vem no livro de receitas da cozinha portuguesa da Maria de Lourdes Modesto, no capítulo Estremadura, se não me engano). Depois, começou-se a levantar outras hipóteses - interesses dos fidalgos, interesses da burguesia...
Será que no Islão também havia fidalgos e burgueses, ou apenas esse Deus que quer chegar a todos os povos nem que para isso seja preciso matar algumas pessoas?
PS. Para quem não conhece, convém anotar o nome: Ury Avnery.
Co-fundador do movimento Gush Shalom (coligação da Paz): www.Gush-Shalom.org
Costumo ler textos dele em alemão. De passeio pela net encontrei alguns textos em francês e inglês:
- Pourquoi j'ai changé d'avis
- Politicus interruptus ("On pourrait appeler ce phénomène " politicus interruptus ". Juste avant la consommation, Barak se retire. Je ne suis pas psychiatre et je ne suis pas qualifié pour traiter de problèmes mentaux. Mais je crois que, à chaque fois que Barak est confronté au véritable prix à payer pour la paix, il se rétracte au dernier moment. Il y avait une dissonance entre le prix de la paix (retrait des territoires occupés, évacuation des colonies, renoncement à Jérusalem Est et au Mont du Temple, retour d'un nombre symbolique de réfugiés) et l'idée qu'il s'en faisait. Il ne pouvait pas en porter la responsabilité et rompait. En même temps, il étendait les colonies à toute allure. Ajoutant le péché au crime (comme on dit en hébreu), il a masqué son échec personnel par le Gros Mensonge, ce qui a provoqué un effondrement national.")
- A Road Map to Nowhere, Or Much Ado About Nothing
- Sob risco de guerra civil
Questiona a afirmação de que Maomé queria expandir a fé no gume da espada.
As guerras do Islão seriam santas, económicas ou políticas?
Curiosamente, tenho andado a pensar nisso a propósito dos descobrimentos portugueses. Tempos houve em que era politicamente mais correcto dizer que foi a fé que nos moveu (até vem no livro de receitas da cozinha portuguesa da Maria de Lourdes Modesto, no capítulo Estremadura, se não me engano). Depois, começou-se a levantar outras hipóteses - interesses dos fidalgos, interesses da burguesia...
Será que no Islão também havia fidalgos e burgueses, ou apenas esse Deus que quer chegar a todos os povos nem que para isso seja preciso matar algumas pessoas?
PS. Para quem não conhece, convém anotar o nome: Ury Avnery.
Co-fundador do movimento Gush Shalom (coligação da Paz): www.Gush-Shalom.org
Costumo ler textos dele em alemão. De passeio pela net encontrei alguns textos em francês e inglês:
- Pourquoi j'ai changé d'avis
- Politicus interruptus ("On pourrait appeler ce phénomène " politicus interruptus ". Juste avant la consommation, Barak se retire. Je ne suis pas psychiatre et je ne suis pas qualifié pour traiter de problèmes mentaux. Mais je crois que, à chaque fois que Barak est confronté au véritable prix à payer pour la paix, il se rétracte au dernier moment. Il y avait une dissonance entre le prix de la paix (retrait des territoires occupés, évacuation des colonies, renoncement à Jérusalem Est et au Mont du Temple, retour d'un nombre symbolique de réfugiés) et l'idée qu'il s'en faisait. Il ne pouvait pas en porter la responsabilité et rompait. En même temps, il étendait les colonies à toute allure. Ajoutant le péché au crime (comme on dit en hébreu), il a masqué son échec personnel par le Gros Mensonge, ce qui a provoqué un effondrement national.")
- A Road Map to Nowhere, Or Much Ado About Nothing
- Sob risco de guerra civil
25 setembro 2006
o que antes de o ser já o era: vestido, castanha, pescada e...
terrorista
(Como se depreende do discurso de Bush a propósito do acordo sobre a possibilidade de torturar suspeitos de terrorismo: “The agreement clears the way to do what the American people expect us to do — to capture terrorists, to detain terrorists, to question terrorists, and then to try them.”)
E o que antes de deixar de o ser já não o era:
aquilo que conhecemos por Estado de Direito.
***
Começo a ficar preocupada: ontem fiz um piquenique com árabes. Se calha de um deles ser terrorista (sim, que quem vê caras não vê corações, e eu tenho um bocadinho de vergonha de, entre dois rissóis, perguntar "você por acaso é terrorista?") e se calha de eu ir de passeio aos EUA, e se o diabo estiver para aí virado, bem pode acontecer que me capturem, me detenham, me interroguem (sabe-se lá recorrendo a que métodos para me facilitar a eloquência), e depois me enviem para tribunal.
O que sobrar de mim.
(Como se depreende do discurso de Bush a propósito do acordo sobre a possibilidade de torturar suspeitos de terrorismo: “The agreement clears the way to do what the American people expect us to do — to capture terrorists, to detain terrorists, to question terrorists, and then to try them.”)
E o que antes de deixar de o ser já não o era:
aquilo que conhecemos por Estado de Direito.
***
Começo a ficar preocupada: ontem fiz um piquenique com árabes. Se calha de um deles ser terrorista (sim, que quem vê caras não vê corações, e eu tenho um bocadinho de vergonha de, entre dois rissóis, perguntar "você por acaso é terrorista?") e se calha de eu ir de passeio aos EUA, e se o diabo estiver para aí virado, bem pode acontecer que me capturem, me detenham, me interroguem (sabe-se lá recorrendo a que métodos para me facilitar a eloquência), e depois me enviem para tribunal.
O que sobrar de mim.
22 setembro 2006
pedagogias
O problema de matricular os filhos em escolas Montessori e Jenaplan é que depois, quando chegam a escolas "normais", queixam-se que os professores falam demasiado.
20 setembro 2006
e de novo a liberdade de expressão
Ia responder à Gabriela e à Céu na caixa de comentários do post anterior, mas acabou por ficar demasiado grande, e cá vai post.
1. "Muito menos, sem ler o que esta' em causa."
Nem eu nem o pessoal que anda por aí a queimar bonecos do Papa leu o que está em causa. Eles foram pelo que lhes disseram, e eu fui pela lógica, baseada em dois argumentos: (1) a que propósito é que um Bento XVI ia fazer assim uma provocação gratuita aos muçulmanos? (2) o público dessa sessão ficou muito surpreendido com as reacções de repúdio, porque ninguém tinha entendido o discurso nos termos em que foi posteriormente interpretado.
Não quis defender o discurso em si, mas - ignorando por uns momentos que o discurso foi proferido por um Papa - o direito de os universitários poderem trabalhar sem censura.
Estarei a ser elitista se afirmo que o mob não tem de meter o nariz nas coisas universitárias que não percebe?
Simultaneamente, tenho compreensão pelos muçulmanos que repudiam certas liberdades de expressão ocidentais. Embora não aceite que o façam com violência, ça va sans dire.
Também não quis dizer que Fulano, professor catedrático, tem mais direitos de se expressar e vale mais que Sicrano, arrumador de carros - antes quis deixar bem claro que um investigador deve poder pesquisar e publicar sem recear represálias de arruaceiros ofendidos. Por inerência do cargo e pelas responsabilidades da instituição, estudar e expor com liberdade é dever e direito de um investigador sério no exercício das suas funções.
Obviamente, também aqui se busca o equilíbrio: saberemos sempre distinguir entre um investigador sério e um mercenário disfarçado de cientista? A comunidade científica saberá fazer a distinção e a triagem?
Até que ponto é que um investigador universitário consegue libertar-se dos seus próprios preconceitos e ideologias?
...E eis como começo a meter os pés pelas mãos. Tenho de ir rever o que disse há meia dúzia de meses a propósito do julgamento de um revisionista do Holocausto e dos autores do relatório sobre a infiltração do lobby israelita nos EUA.
Gabriela, não me peças coerência: faço caminho ao andar.
2. Insisto na importância das intenções. Mantenho que o Papa não quis ofender, ao contrário do jornal dinamarquês que, ao encomendar os cartoons, fez um péssimo uso da liberdade de expressão. Neste caso, houve um comportamento infantil, arrogante e violento ("quem és tu para me dar ordens? já vais ver que faço o que quero e não tenho medo de ti!"), e por isso não tive a menor vontade de aderir ao "somos todos dinamarqueses".
Entre os manifestantes muçulmanos enraivecidos e um jornal prepotente que se esconde atrás do chavão liberdade de expressão, procuro uma alternativa: se o diálogo entre as culturas está extremamente difícil, temos de procurar palavras de inteligência e respeito.
Quanto ao episódio de Regensburg, parece-me que estamos outra vez a ferver em pouca água e que o Papa foi duplamente inocente: sem culpa do que o acusam, e ingénuo.
3. O comentário da Céu responde à minha pergunta sobre o Papa no papel de teólogo ou de político: um Papa não se pode dar ao luxo de brincar aos professores universitários. E tem de estar permanentemente atento ao que diz, e ao que jornalistas mal intencionados possam fazer a partir de frases descontextuadas. Aceito, mas incomoda-me muito. Preferia que os jornalistas não tivessem o direito de torcer a realidade para o lado que mais vende, para que as pessoas com mais exposição não tivessem de andar sempre de sobreaviso sobre as manipulações possíveis.
Insisto na responsabilidade da al-Jazeera e de todos os que participaram nesta manipulação.
4. Sobre a liberdade de expressão, a igualdade e a responsabilidade:
Por um lado, não somos iguais.
A diferença radica no poder do emissor (representante de um grupo, franco atirador, fazedor de opinião, etc.) e no modo - altamente subjectivo - como os receptores se relacionam com esse poder. É por aqui que equaciono a responsabilidade: que as pessoas tenham uma noção do seu poder e das ondas que as suas palavras podem levantar, e que estejam seguras das suas intenções, para melhor poderem argumentar. Para melhor poderem pedir desculpa...
A mesma citação ("Mostra-me então o que Maomé trouxe de novo, e ali só encontrarás coisas más e desumanas, como esta, de que ele determinou, que se propague através da espada a fé que ele prega") tem interpretações e reacções muito diferentes conforme apareça num trabalho de um historiador sobre o ambiente na Europa durante as invasões medievais, neste mesmo discurso proferido por um teólogo menos visível que o Papa, numa entrevista a um político ocidental assustado com as dificuldades de integração dos imigrantes muçulmanos, ou numa "conversa de táxi", passe o preconceito ("e até lhe digo mais: como bem dizia o nosso rei D.Manuel II, a única coisa que Maomé trouxe de novo...").
Por outro lado, na prática não somos livres.
Acabámos de ver o caso do sujeito Joseph Ratzinger, obrigado a uma auto-censura permanente devido ao seu papel de Papa; idem para os políticos; idem para os professores, sujeitos às directivas do empregador; e até nós próprios no quotidiano: a "mentira branca" é um sintoma de que o direito de nos exprimirmos livremente não é o critério único das nossas escolhas.
O actual conflito entre culturas também ameaça essa liberdade.
Do lado muçulmano, temos grupos facilmente manipuláveis dispostos a criticar com violência o que se diz no ocidente.
Do lado europeu, por sua vez, começa a apertar-se o cerco: está a surgir a tendência de repatriar imigrantes que se expressem em tom de desrespeito para com a cultura ocidental, ou que mostrem não ter apreendido os valores ocidentais mais importantes. Dizes "andas vestida como as putas alemãs", ou "as europeias são umas porcas que não se depilam debaixo dos braços e tresandam a suor", e arriscas-te a receber um bilhete de avião só de ida. E veremos o que acontece ao mentor de um rapaz de Berlim que ontem foi entrevistado pela televisão: "Nós não podemos aceitar uma humilhação destas", dizia o miúdo, "o Papa andou à vontade em Munique, mas ele que venha cá a Berlim e já vai ver o que lhe fazemos". "Sabes o que ele disse?", perguntou o jornalista. "Não, mas disseram-me que era intolerável".
Chegamos a um impasse: como podemos defender perante agitadores muçulmanos a liberdade para todos dizerem o que pensam, se expulsamos do nosso território quem diz o que não nos agrada?
Não defendo a liberdade de expressão para todos, sem premissas de sujeito ou intenção, como dizia a Gabriela.
Não se trata de um princípio absoluto, mas de uma busca de equilíbrio, e exige a ponderação do papel e da intenção da pessoa que emite a opinião.
Eu trocaria o conceito "liberdade de expressão" por "liberdade de argumentação".
O que merece ser defendido não é o direito de cada um dizer o que lhe apetece, mas o direito de cada um se poder explicar. Mais ainda: a exigência de se explicar, em vez de se esconder atrás do direito de se exprimir livremente.
5. Voltando ao discurso do Papa: li o texto integral (em espanhol, via Religionline) e penso que o bloco em que cita a disputa entre Manuel II Paleólogo e um persa, sobre Cristianismo e Islão, se insere perfeitamente na estrutura lógica do discurso, e que está claro que se tratava de uma imagem datada - não uma crítica aos muçulmanos de hoje. Se tivesse retirado da citação a frase que chocou o mundo muçulmano, parece-me que o resto da argumentação perderia o seu contexto: «Dios no goza con la sangre; no actuar según la razón es contrario a la naturaleza de Dios. La fe es fruto del alma, no del cuerpo. Por lo tanto, quien quiere llevar a otra persona a la fe necesita la capacidad de hablar bien y de razonar correctamente, y no recurrir a la violencia ni a las amenazas… Para convencer a un alma razonable no hay que recurrir a los músculos ni a instrumentos para golpear ni de ningún otro medio con el que se pueda amenazar a una persona de muerte…»).
À medida que o discurso avança, retrata outras épocas e outros entendimentos da teologia cristã. Infelizmente, como refere o Manuel Pinto, esquece-se de mencionar os momentos em que o Cristianismo também usou a espada.
No fim do texto, regressa a Manuel II:
El Occidente ha estado en peligro durante mucho tiempo a causa de esta aversión, en la que se basa su racionalidad, y por lo tanto sólo puede sufrir grandemente. Hace falta valentía para comprometer toda la amplitud de la razón y no la negación de su grandeza: este es el programa con el que la teología anclada en la fe bíblica ingresa en el debate de nuestro tiempo. «No actuar razonablemente (con «logos») es contrario a la naturaleza de Dios» dijo Manuel II, de acuerdo al entendimiento cristianos de Dios, en respuesta a su interlocutor persa. En el diálogo de las culturas invitamos a nuestros interlocutores a encontrar este gran «logos», esta amplitud de la razón. Es la gran tarea de la universidad redescubrirlo constantemente.»
Parece-me que o Papa não incluiu essa citação para gratuitamente agredir os muçulmanos, mas por ser uma peça importante de um estudo sobre o papel da razão no entendimento de Deus e no diálogo das culturas. Como diz o Cardeal Bertone (já na fase das desculpas):
"Quanto à apreciação sobre o imperador bizantino, Manuel II Paleólogo, por ele citada no discurso na Universidade de Regensburg o Santo Padre não tinha nem tem, absolutamente, intenção de fazê-la sua, mas somente a utilizou como ocasião para fazer, num contexto acadêmico e segundo o que resulta de uma completa e atenta leitura do texto, algumas reflexões sobre o tema da relação entre religião e violência em geral, e concluir com uma clara e radical rejeição da motivação religiosa da violência, de onde quer que venha."
1. "Muito menos, sem ler o que esta' em causa."
Nem eu nem o pessoal que anda por aí a queimar bonecos do Papa leu o que está em causa. Eles foram pelo que lhes disseram, e eu fui pela lógica, baseada em dois argumentos: (1) a que propósito é que um Bento XVI ia fazer assim uma provocação gratuita aos muçulmanos? (2) o público dessa sessão ficou muito surpreendido com as reacções de repúdio, porque ninguém tinha entendido o discurso nos termos em que foi posteriormente interpretado.
Não quis defender o discurso em si, mas - ignorando por uns momentos que o discurso foi proferido por um Papa - o direito de os universitários poderem trabalhar sem censura.
Estarei a ser elitista se afirmo que o mob não tem de meter o nariz nas coisas universitárias que não percebe?
Simultaneamente, tenho compreensão pelos muçulmanos que repudiam certas liberdades de expressão ocidentais. Embora não aceite que o façam com violência, ça va sans dire.
Também não quis dizer que Fulano, professor catedrático, tem mais direitos de se expressar e vale mais que Sicrano, arrumador de carros - antes quis deixar bem claro que um investigador deve poder pesquisar e publicar sem recear represálias de arruaceiros ofendidos. Por inerência do cargo e pelas responsabilidades da instituição, estudar e expor com liberdade é dever e direito de um investigador sério no exercício das suas funções.
Obviamente, também aqui se busca o equilíbrio: saberemos sempre distinguir entre um investigador sério e um mercenário disfarçado de cientista? A comunidade científica saberá fazer a distinção e a triagem?
Até que ponto é que um investigador universitário consegue libertar-se dos seus próprios preconceitos e ideologias?
...E eis como começo a meter os pés pelas mãos. Tenho de ir rever o que disse há meia dúzia de meses a propósito do julgamento de um revisionista do Holocausto e dos autores do relatório sobre a infiltração do lobby israelita nos EUA.
Gabriela, não me peças coerência: faço caminho ao andar.
2. Insisto na importância das intenções. Mantenho que o Papa não quis ofender, ao contrário do jornal dinamarquês que, ao encomendar os cartoons, fez um péssimo uso da liberdade de expressão. Neste caso, houve um comportamento infantil, arrogante e violento ("quem és tu para me dar ordens? já vais ver que faço o que quero e não tenho medo de ti!"), e por isso não tive a menor vontade de aderir ao "somos todos dinamarqueses".
Entre os manifestantes muçulmanos enraivecidos e um jornal prepotente que se esconde atrás do chavão liberdade de expressão, procuro uma alternativa: se o diálogo entre as culturas está extremamente difícil, temos de procurar palavras de inteligência e respeito.
Quanto ao episódio de Regensburg, parece-me que estamos outra vez a ferver em pouca água e que o Papa foi duplamente inocente: sem culpa do que o acusam, e ingénuo.
3. O comentário da Céu responde à minha pergunta sobre o Papa no papel de teólogo ou de político: um Papa não se pode dar ao luxo de brincar aos professores universitários. E tem de estar permanentemente atento ao que diz, e ao que jornalistas mal intencionados possam fazer a partir de frases descontextuadas. Aceito, mas incomoda-me muito. Preferia que os jornalistas não tivessem o direito de torcer a realidade para o lado que mais vende, para que as pessoas com mais exposição não tivessem de andar sempre de sobreaviso sobre as manipulações possíveis.
Insisto na responsabilidade da al-Jazeera e de todos os que participaram nesta manipulação.
4. Sobre a liberdade de expressão, a igualdade e a responsabilidade:
Por um lado, não somos iguais.
A diferença radica no poder do emissor (representante de um grupo, franco atirador, fazedor de opinião, etc.) e no modo - altamente subjectivo - como os receptores se relacionam com esse poder. É por aqui que equaciono a responsabilidade: que as pessoas tenham uma noção do seu poder e das ondas que as suas palavras podem levantar, e que estejam seguras das suas intenções, para melhor poderem argumentar. Para melhor poderem pedir desculpa...
A mesma citação ("Mostra-me então o que Maomé trouxe de novo, e ali só encontrarás coisas más e desumanas, como esta, de que ele determinou, que se propague através da espada a fé que ele prega") tem interpretações e reacções muito diferentes conforme apareça num trabalho de um historiador sobre o ambiente na Europa durante as invasões medievais, neste mesmo discurso proferido por um teólogo menos visível que o Papa, numa entrevista a um político ocidental assustado com as dificuldades de integração dos imigrantes muçulmanos, ou numa "conversa de táxi", passe o preconceito ("e até lhe digo mais: como bem dizia o nosso rei D.Manuel II, a única coisa que Maomé trouxe de novo...").
Por outro lado, na prática não somos livres.
Acabámos de ver o caso do sujeito Joseph Ratzinger, obrigado a uma auto-censura permanente devido ao seu papel de Papa; idem para os políticos; idem para os professores, sujeitos às directivas do empregador; e até nós próprios no quotidiano: a "mentira branca" é um sintoma de que o direito de nos exprimirmos livremente não é o critério único das nossas escolhas.
O actual conflito entre culturas também ameaça essa liberdade.
Do lado muçulmano, temos grupos facilmente manipuláveis dispostos a criticar com violência o que se diz no ocidente.
Do lado europeu, por sua vez, começa a apertar-se o cerco: está a surgir a tendência de repatriar imigrantes que se expressem em tom de desrespeito para com a cultura ocidental, ou que mostrem não ter apreendido os valores ocidentais mais importantes. Dizes "andas vestida como as putas alemãs", ou "as europeias são umas porcas que não se depilam debaixo dos braços e tresandam a suor", e arriscas-te a receber um bilhete de avião só de ida. E veremos o que acontece ao mentor de um rapaz de Berlim que ontem foi entrevistado pela televisão: "Nós não podemos aceitar uma humilhação destas", dizia o miúdo, "o Papa andou à vontade em Munique, mas ele que venha cá a Berlim e já vai ver o que lhe fazemos". "Sabes o que ele disse?", perguntou o jornalista. "Não, mas disseram-me que era intolerável".
Chegamos a um impasse: como podemos defender perante agitadores muçulmanos a liberdade para todos dizerem o que pensam, se expulsamos do nosso território quem diz o que não nos agrada?
Não defendo a liberdade de expressão para todos, sem premissas de sujeito ou intenção, como dizia a Gabriela.
Não se trata de um princípio absoluto, mas de uma busca de equilíbrio, e exige a ponderação do papel e da intenção da pessoa que emite a opinião.
Eu trocaria o conceito "liberdade de expressão" por "liberdade de argumentação".
O que merece ser defendido não é o direito de cada um dizer o que lhe apetece, mas o direito de cada um se poder explicar. Mais ainda: a exigência de se explicar, em vez de se esconder atrás do direito de se exprimir livremente.
5. Voltando ao discurso do Papa: li o texto integral (em espanhol, via Religionline) e penso que o bloco em que cita a disputa entre Manuel II Paleólogo e um persa, sobre Cristianismo e Islão, se insere perfeitamente na estrutura lógica do discurso, e que está claro que se tratava de uma imagem datada - não uma crítica aos muçulmanos de hoje. Se tivesse retirado da citação a frase que chocou o mundo muçulmano, parece-me que o resto da argumentação perderia o seu contexto: «Dios no goza con la sangre; no actuar según la razón es contrario a la naturaleza de Dios. La fe es fruto del alma, no del cuerpo. Por lo tanto, quien quiere llevar a otra persona a la fe necesita la capacidad de hablar bien y de razonar correctamente, y no recurrir a la violencia ni a las amenazas… Para convencer a un alma razonable no hay que recurrir a los músculos ni a instrumentos para golpear ni de ningún otro medio con el que se pueda amenazar a una persona de muerte…»).
À medida que o discurso avança, retrata outras épocas e outros entendimentos da teologia cristã. Infelizmente, como refere o Manuel Pinto, esquece-se de mencionar os momentos em que o Cristianismo também usou a espada.
No fim do texto, regressa a Manuel II:
El Occidente ha estado en peligro durante mucho tiempo a causa de esta aversión, en la que se basa su racionalidad, y por lo tanto sólo puede sufrir grandemente. Hace falta valentía para comprometer toda la amplitud de la razón y no la negación de su grandeza: este es el programa con el que la teología anclada en la fe bíblica ingresa en el debate de nuestro tiempo. «No actuar razonablemente (con «logos») es contrario a la naturaleza de Dios» dijo Manuel II, de acuerdo al entendimiento cristianos de Dios, en respuesta a su interlocutor persa. En el diálogo de las culturas invitamos a nuestros interlocutores a encontrar este gran «logos», esta amplitud de la razón. Es la gran tarea de la universidad redescubrirlo constantemente.»
Parece-me que o Papa não incluiu essa citação para gratuitamente agredir os muçulmanos, mas por ser uma peça importante de um estudo sobre o papel da razão no entendimento de Deus e no diálogo das culturas. Como diz o Cardeal Bertone (já na fase das desculpas):
"Quanto à apreciação sobre o imperador bizantino, Manuel II Paleólogo, por ele citada no discurso na Universidade de Regensburg o Santo Padre não tinha nem tem, absolutamente, intenção de fazê-la sua, mas somente a utilizou como ocasião para fazer, num contexto acadêmico e segundo o que resulta de uma completa e atenta leitura do texto, algumas reflexões sobre o tema da relação entre religião e violência em geral, e concluir com uma clara e radical rejeição da motivação religiosa da violência, de onde quer que venha."
pequenos intervalos
estava eu aqui a pensar numa resposta aos comentários do post anterior
[pequeno intervalo para ir ajudar o Matthias que enfiou o joelho no corrimão das escadas, cortar-lhe as calças ("eram caras, mãe?"), esfregá-lo com manteiga e óleo da cozinha, telefonar aos bombeiros, esperar que venham, ver um médico, um assistente e três bombeiros de capacete e tudo a entrar pela casa dentro, e por fim um deles a serrar o belo corrimão Arte Nova, ir na ambulância para o hospital, para um ortopedista ver a perna do rapaz, voltar para casa a pé, e acalmar o Joachim ao telefone, que já acha que o rapaz tem gangrena, pelo menos, e que os bombeiros demoliram as escadas - alguém se atreve a dizer que a vida em Weimar não é uma aventura?]
estava eu aqui a tentar continuar a resposta
[e mais outro pequeno intervalo para o Matthias me explicar com todo o pormenor porque é que chocou com a sua bicicleta contra um carro e a culpa foi do carro, e para ficar toda assustada com este rapaz que conduz bicicleta como um kamikaze, e para lhe perguntar se aprendeu alguma coisa com este acidente, e para ter direito a uma cena pré-pubertária]
voltei ao computador
[com o coração assim nas mãos, não dá para escrever posts]
[pequeno intervalo para ir ajudar o Matthias que enfiou o joelho no corrimão das escadas, cortar-lhe as calças ("eram caras, mãe?"), esfregá-lo com manteiga e óleo da cozinha, telefonar aos bombeiros, esperar que venham, ver um médico, um assistente e três bombeiros de capacete e tudo a entrar pela casa dentro, e por fim um deles a serrar o belo corrimão Arte Nova, ir na ambulância para o hospital, para um ortopedista ver a perna do rapaz, voltar para casa a pé, e acalmar o Joachim ao telefone, que já acha que o rapaz tem gangrena, pelo menos, e que os bombeiros demoliram as escadas - alguém se atreve a dizer que a vida em Weimar não é uma aventura?]
estava eu aqui a tentar continuar a resposta
[e mais outro pequeno intervalo para o Matthias me explicar com todo o pormenor porque é que chocou com a sua bicicleta contra um carro e a culpa foi do carro, e para ficar toda assustada com este rapaz que conduz bicicleta como um kamikaze, e para lhe perguntar se aprendeu alguma coisa com este acidente, e para ter direito a uma cena pré-pubertária]
voltei ao computador
[com o coração assim nas mãos, não dá para escrever posts]
18 setembro 2006
desentendimentos
Confesso que não li o discurso completo do Papa na universidade de Regensburg.
Li uma parte dos extractos feitos pela Spiegel, em alemão aqui.
Logo no princípio, quando ele cita um colega, dizendo que "na nossa universidade há algo estranho: duas faculdades que estudam o que não existe: Deus", fica evidente que aquela é uma conversa entre universitários, na melhor acepção da palavra: gente curiosa, estudiosa, e suficientemente segura da seriedade do que faz para se permitir algum sentido de humor.
Não tenho vontade de estudar o discurso para averiguar se o Papa poderia ter evitado a passagem que chocou alguns muçulmanos. Nem é bem uma questão de vontade, é mais uma questão de preguiça e de perceber à partida que é areia demais para a minha camioneta: em termos de discussão teológica, eu ando de carrinho de mão, e o Papa anda com a sua frota de camiões TIR. Pronto. Cada um é pró que nasce.
Por isso mesmo mais irritada fico com a reacção da rua. O pessoal que anda a deitar fogo a igrejas no Médio Oriente acha que pode decidir sobre o que se diz ou não numa faculdade de teologia alemã?!
Oh, amigos muçulmanos, pick your fights, que eu também picko os meus.
Parece-me bastante claro que:
- Em vez de reagirmos à turba, há que ir ver quem provocou esta crise e com que interesses:
Se é verdade que a al-Jazeera tirou a frase do contexto e a usou para, deliberadamente, tornar as coisas muito piores e muito diferentes do que eram originalmente, então merece uma grave censura. É inadmissível.
Quanto a alguns líderes religiosos: porque preferiram acirrar o pessoal para o espectáculo de rua, em vez de expressar o seu desacordo por vias civilizadas?
- Não é o mob que decide o que pode e não pode ser dito na Universidade. Aqui, temos de ser inflexíveis.
- (Este ponto é uma resposta à Abrunho:) Há uma diferença profunda entre um encontro de universitários, onde se fala sobre Deus e razão, e um jornal que resolve provocar uma minoria muçulmana, encomendando cartoons sobre Maomé. Seria capaz de me deixar matar (bem, estou a exagerar, e muito, mas é por um bom motivo: retórico) para que os teólogos de Regensburg digam o que entenderem que é profícuo à discussão, mesmo que não concorde com eles. Enquanto que não me dá vontade nenhuma de me bater pelo direito de um jornal achincalhar minorias.
Por outro lado, estou em dúvida sobre o papel de um Papa: pode dar-se ao luxo de ser por alguns momentos um teólogo em conversa com os colegas, ou tem de ser sempre o político e o diplomata?
Gostei da versão inglesa do seu pedido de desculpas: "(...)I am deeply sorry for the reactions in some countries to a few passages of my address at the University of Regensburg". "Lamento as reacções às minhas palavras", hehehe, raposa velha.
Li aqui, e vale a pena ler o post todo.
Nota mental: escrever cinquenta vezes "alguns muçulmanos". Alguns.
Isto não é o princípio da guerra entre o Oriente e o Ocidente. São algumas pessoas que manipularam outras, e outras - algumas - que se deixaram manipular.
Há até quem diga que este pessoal que queima igrejas não é muçulmano. Ao optar pela violência afasta-se da verdadeira doutrina do Islão.
E oxalá a al-Jazeera concorde com o que aqui se disse, e não faça corte e costura com este post e era uma vez uma blogueira em Weimar.
Li uma parte dos extractos feitos pela Spiegel, em alemão aqui.
Logo no princípio, quando ele cita um colega, dizendo que "na nossa universidade há algo estranho: duas faculdades que estudam o que não existe: Deus", fica evidente que aquela é uma conversa entre universitários, na melhor acepção da palavra: gente curiosa, estudiosa, e suficientemente segura da seriedade do que faz para se permitir algum sentido de humor.
Não tenho vontade de estudar o discurso para averiguar se o Papa poderia ter evitado a passagem que chocou alguns muçulmanos. Nem é bem uma questão de vontade, é mais uma questão de preguiça e de perceber à partida que é areia demais para a minha camioneta: em termos de discussão teológica, eu ando de carrinho de mão, e o Papa anda com a sua frota de camiões TIR. Pronto. Cada um é pró que nasce.
Por isso mesmo mais irritada fico com a reacção da rua. O pessoal que anda a deitar fogo a igrejas no Médio Oriente acha que pode decidir sobre o que se diz ou não numa faculdade de teologia alemã?!
Oh, amigos muçulmanos, pick your fights, que eu também picko os meus.
Parece-me bastante claro que:
- Em vez de reagirmos à turba, há que ir ver quem provocou esta crise e com que interesses:
Se é verdade que a al-Jazeera tirou a frase do contexto e a usou para, deliberadamente, tornar as coisas muito piores e muito diferentes do que eram originalmente, então merece uma grave censura. É inadmissível.
Quanto a alguns líderes religiosos: porque preferiram acirrar o pessoal para o espectáculo de rua, em vez de expressar o seu desacordo por vias civilizadas?
- Não é o mob que decide o que pode e não pode ser dito na Universidade. Aqui, temos de ser inflexíveis.
- (Este ponto é uma resposta à Abrunho:) Há uma diferença profunda entre um encontro de universitários, onde se fala sobre Deus e razão, e um jornal que resolve provocar uma minoria muçulmana, encomendando cartoons sobre Maomé. Seria capaz de me deixar matar (bem, estou a exagerar, e muito, mas é por um bom motivo: retórico) para que os teólogos de Regensburg digam o que entenderem que é profícuo à discussão, mesmo que não concorde com eles. Enquanto que não me dá vontade nenhuma de me bater pelo direito de um jornal achincalhar minorias.
Por outro lado, estou em dúvida sobre o papel de um Papa: pode dar-se ao luxo de ser por alguns momentos um teólogo em conversa com os colegas, ou tem de ser sempre o político e o diplomata?
Gostei da versão inglesa do seu pedido de desculpas: "(...)I am deeply sorry for the reactions in some countries to a few passages of my address at the University of Regensburg". "Lamento as reacções às minhas palavras", hehehe, raposa velha.
Li aqui, e vale a pena ler o post todo.
Nota mental: escrever cinquenta vezes "alguns muçulmanos". Alguns.
Isto não é o princípio da guerra entre o Oriente e o Ocidente. São algumas pessoas que manipularam outras, e outras - algumas - que se deixaram manipular.
Há até quem diga que este pessoal que queima igrejas não é muçulmano. Ao optar pela violência afasta-se da verdadeira doutrina do Islão.
E oxalá a al-Jazeera concorde com o que aqui se disse, e não faça corte e costura com este post e era uma vez uma blogueira em Weimar.
15 setembro 2006
a Justiça
Numa pequena shtetl da Roménia havia um rabino muito crédulo, a quem contaram que um mercador da cidade vizinha estava a vender Justiça.
"Justiça", pensou o rabino, "que bom seria termos Justiça na nossa shtetl!"
Juntou todas as suas poupanças, pediu aos amigos que lhe emprestassem mais algum dinheiro, e pôs-se a caminho da cidade.
O mercador não tinha nada de parvo, e ainda menos de escrupuloso. Quando o rabino lhe disse que queria comprar alguma Justiça, respondeu "muito bem, muito bem, espere um momento". Desceu à cave, arranjou um odre, encheu-o com líquido da fossa e fechou-o bem. Depois, embrulhou o odre num pano ricamente ornamentado, e vendeu-o ao rabino a preço de ouro, recomendando-lhe que o guardasse com cuidado e que não o abrisse.
O rabino voltou todo contente para casa, e escondeu o odre debaixo da cama.
Durante a noite, a satisfação não o deixava adormecer. A satisfação, e a curiosidade.
"Como será a Justiça?", interrogava-se, e dava mais uma volta na cama.
"Quem me dera saber!", acrescentava, e virava-se de novo.
De madrugada, não conseguiu resistir mais à tentação. Levantou-se, pegou no odre, abriu-o e espreitou para dentro.
No dia seguinte, reuniu as pessoas mais importantes da comunidade, e anunciou-lhes alegremente:
"Tenho uma grande novidade para a nossa shtetl: já temos Justiça!"
Um enorme "aaaaahhhh" ecoou pela sala. Alguém perguntou: "E como é ela?"
O rabino respirou fundo, e revelou em voz baixa:
"A Justiça fede."
"Justiça", pensou o rabino, "que bom seria termos Justiça na nossa shtetl!"
Juntou todas as suas poupanças, pediu aos amigos que lhe emprestassem mais algum dinheiro, e pôs-se a caminho da cidade.
O mercador não tinha nada de parvo, e ainda menos de escrupuloso. Quando o rabino lhe disse que queria comprar alguma Justiça, respondeu "muito bem, muito bem, espere um momento". Desceu à cave, arranjou um odre, encheu-o com líquido da fossa e fechou-o bem. Depois, embrulhou o odre num pano ricamente ornamentado, e vendeu-o ao rabino a preço de ouro, recomendando-lhe que o guardasse com cuidado e que não o abrisse.
O rabino voltou todo contente para casa, e escondeu o odre debaixo da cama.
Durante a noite, a satisfação não o deixava adormecer. A satisfação, e a curiosidade.
"Como será a Justiça?", interrogava-se, e dava mais uma volta na cama.
"Quem me dera saber!", acrescentava, e virava-se de novo.
De madrugada, não conseguiu resistir mais à tentação. Levantou-se, pegou no odre, abriu-o e espreitou para dentro.
No dia seguinte, reuniu as pessoas mais importantes da comunidade, e anunciou-lhes alegremente:
"Tenho uma grande novidade para a nossa shtetl: já temos Justiça!"
Um enorme "aaaaahhhh" ecoou pela sala. Alguém perguntou: "E como é ela?"
O rabino respirou fundo, e revelou em voz baixa:
"A Justiça fede."
e se os enchessemos de máquinas de costura?
A ideia não é nova: a espada ou o arado.
Desmond Tutu retoma-a, num artigo no Independent:
The world could eradicate poverty in a few generations were only a fraction of the expenditure on the war business to be spent on peace. An average of $22bn is spent on arms by countries in Asia, the Middle East, Latin America and Africa every year, according to estimates for the US Congress. This sum would have enabled those countries to put every child in school and to reduce child mortality by two-thirds by 2015, fulfilling two of the Millennium Development Goals.
Antes de começar a guerra do Iraque, um político conservador alemão, Jürgen Todenhöfer, escreveu o livro "Wer weint schon um Abdul und Tanaya?" (algo como: "alguém chora por Abdul und Tanaya?"), um manifesto contra a guerra ao terrorismo. Uma das suas afirmações: o Afeganistão precisa muito mais de máquinas que de bombas.
***
Ora bem: o problema de andar há mais de dois anos nesta vida de bloganço, é que uma pessoa se começa a repetir - e cá vou eu de novo: no contexto de ameaça terrorista global, quais são os nossos critérios para escolher entre a espada e o arado?
Agora, que o Afeganistão se tornou um impasse cada vez mais perigoso, o Iraque está a ser empurrado para a guerra civil, e o Irão está a ser encurralado numa lógica bélica, esta pergunta torna-se cada vez mais urgente:
Para além de manter saudável a indústria de armamento ("a Paz provoca desemprego"), quais são as vantagens de uma guerra?
Não seria mais lógico fazer acordos bilaterais de desarmamento e de cooperação económica?
"E se eles não quiserem?", perguntarão.
"E por é que eles não hão-de querer?", respondo eu.
Desculpem a ingenuidade: no caso particular do Irão, continuo sem saber porque é que o Ahmadinejad não pode ter a bomba atómica, e o Bush, que se fartou de mentir deliberadamente para poder fazer uma guerra que já causou centenas de milhares de mortos (alguém terá a delicadeza de os contar?), pode. Entendamo-nos: não me dá jeito nenhum que o Irão tenha a bomba; o que não sei é como lhes explicar porquê.
E desculpem o maquiavelismo: nada como a fartura para embotar raivas. De barriga cheia, e com empregozinho das nove às seis, ninguém tem muita vontade de se tornar suicida bombista. Ninguém, vírgula: ainda tenho de ir pesquisar sobre o horário de trabalho dos terroristas ingleses. E tentar perceber o que passou pela cabeça daquele rapazinho de um bairro rico da Bay Area, que em finais dos anos 90 abandonou a família e foi para o Afeganistão fazer de taliban.
Em todo o caso, hoje estou muito Deu-la-deu Martins: há que procurar caminhos novos. Há que perceber, antes de mais, que "terrorismo" é um nome demasiado vago para um fenómeno polimórfico. Cada caso é um caso (o que há de comum entre um atentado bombista no Bali e um suicida palestiniano?). Nesta guerra, o inimigo é invisível - uma "guerra ao terrorismo" é um braço de ferro com o Barbapapa.
Além disso, convém não esquecer, a "guerra ao terrorismo" tem sido um pretexto para cumprir a agenda dos neo-conservadores americanos.
Só por uns instantes acreditei que a resposta adequada ao terrorismo pudesse ser a guerra - mas tenho factores atenuantes: foi antes de começar o ataque ao Afeganistão, num tempo em que eu ainda consumia televisão e jornais americanos de má qualidade e morria de medo ao ver alguém com um saco de desporto.
O impulso das primeiras horas do 11 de setembro, que me ditava que a resposta ao terrorismo só pode ser a luta por um mundo mais justo, deu lugar a uma perspectiva mais ampla:
Não reduzamos a Justiça a uma mera reacção a um mal. Ela não é uma resposta, mas um princípio.
O trabalho por um mundo mais justo não pode depender da pressão do terrorismo. E também não se deve deixar abalar pelos que afirmam que o que move os pobres deste mundo não é a sede de Justiça mas a vontade de ter um SUV.
Um trabalho que não é fácil, como lembra a história contada por um judeu a propósito da dificuldade em encontrar uma solução para a Palestina e Israel que ambos os povos considerem justa. Vai para um post novo, porque duvido que alguém tenha tido a pachorra para ler este até ao fim...
Dirão: a Justiça, sim senhora, muito bonito. Mas e então, o terrorismo?
Já está bastante claro que este nosso novo inimigo
(digamos assim, embora não saiba do que estou a falar - felizmente temos os think tanks neo-conservadores para nos traçarem um retrato robot que dará para os gastos)
ainda é mais resilient que o Churchill. We shall never surrender, dizem, e na língua deles soa ainda mais definitivo que em inglês.
Se não vamos lá com bombas, que tal tentarmos perceber os mecanismos que, do lado de lá e do lado de cá, conduzem a uma guerra, e agir a esse nível?
Nem que isso passe por trocar os campos de ópio do Afeganistão por máquinas de costura e acordos comerciais. Por exemplo.
Desmond Tutu retoma-a, num artigo no Independent:
The world could eradicate poverty in a few generations were only a fraction of the expenditure on the war business to be spent on peace. An average of $22bn is spent on arms by countries in Asia, the Middle East, Latin America and Africa every year, according to estimates for the US Congress. This sum would have enabled those countries to put every child in school and to reduce child mortality by two-thirds by 2015, fulfilling two of the Millennium Development Goals.
Antes de começar a guerra do Iraque, um político conservador alemão, Jürgen Todenhöfer, escreveu o livro "Wer weint schon um Abdul und Tanaya?" (algo como: "alguém chora por Abdul und Tanaya?"), um manifesto contra a guerra ao terrorismo. Uma das suas afirmações: o Afeganistão precisa muito mais de máquinas que de bombas.
***
Ora bem: o problema de andar há mais de dois anos nesta vida de bloganço, é que uma pessoa se começa a repetir - e cá vou eu de novo: no contexto de ameaça terrorista global, quais são os nossos critérios para escolher entre a espada e o arado?
Agora, que o Afeganistão se tornou um impasse cada vez mais perigoso, o Iraque está a ser empurrado para a guerra civil, e o Irão está a ser encurralado numa lógica bélica, esta pergunta torna-se cada vez mais urgente:
Para além de manter saudável a indústria de armamento ("a Paz provoca desemprego"), quais são as vantagens de uma guerra?
Não seria mais lógico fazer acordos bilaterais de desarmamento e de cooperação económica?
"E se eles não quiserem?", perguntarão.
"E por é que eles não hão-de querer?", respondo eu.
Desculpem a ingenuidade: no caso particular do Irão, continuo sem saber porque é que o Ahmadinejad não pode ter a bomba atómica, e o Bush, que se fartou de mentir deliberadamente para poder fazer uma guerra que já causou centenas de milhares de mortos (alguém terá a delicadeza de os contar?), pode. Entendamo-nos: não me dá jeito nenhum que o Irão tenha a bomba; o que não sei é como lhes explicar porquê.
E desculpem o maquiavelismo: nada como a fartura para embotar raivas. De barriga cheia, e com empregozinho das nove às seis, ninguém tem muita vontade de se tornar suicida bombista. Ninguém, vírgula: ainda tenho de ir pesquisar sobre o horário de trabalho dos terroristas ingleses. E tentar perceber o que passou pela cabeça daquele rapazinho de um bairro rico da Bay Area, que em finais dos anos 90 abandonou a família e foi para o Afeganistão fazer de taliban.
Em todo o caso, hoje estou muito Deu-la-deu Martins: há que procurar caminhos novos. Há que perceber, antes de mais, que "terrorismo" é um nome demasiado vago para um fenómeno polimórfico. Cada caso é um caso (o que há de comum entre um atentado bombista no Bali e um suicida palestiniano?). Nesta guerra, o inimigo é invisível - uma "guerra ao terrorismo" é um braço de ferro com o Barbapapa.
Além disso, convém não esquecer, a "guerra ao terrorismo" tem sido um pretexto para cumprir a agenda dos neo-conservadores americanos.
Só por uns instantes acreditei que a resposta adequada ao terrorismo pudesse ser a guerra - mas tenho factores atenuantes: foi antes de começar o ataque ao Afeganistão, num tempo em que eu ainda consumia televisão e jornais americanos de má qualidade e morria de medo ao ver alguém com um saco de desporto.
O impulso das primeiras horas do 11 de setembro, que me ditava que a resposta ao terrorismo só pode ser a luta por um mundo mais justo, deu lugar a uma perspectiva mais ampla:
Não reduzamos a Justiça a uma mera reacção a um mal. Ela não é uma resposta, mas um princípio.
O trabalho por um mundo mais justo não pode depender da pressão do terrorismo. E também não se deve deixar abalar pelos que afirmam que o que move os pobres deste mundo não é a sede de Justiça mas a vontade de ter um SUV.
Um trabalho que não é fácil, como lembra a história contada por um judeu a propósito da dificuldade em encontrar uma solução para a Palestina e Israel que ambos os povos considerem justa. Vai para um post novo, porque duvido que alguém tenha tido a pachorra para ler este até ao fim...
Dirão: a Justiça, sim senhora, muito bonito. Mas e então, o terrorismo?
Já está bastante claro que este nosso novo inimigo
(digamos assim, embora não saiba do que estou a falar - felizmente temos os think tanks neo-conservadores para nos traçarem um retrato robot que dará para os gastos)
ainda é mais resilient que o Churchill. We shall never surrender, dizem, e na língua deles soa ainda mais definitivo que em inglês.
Se não vamos lá com bombas, que tal tentarmos perceber os mecanismos que, do lado de lá e do lado de cá, conduzem a uma guerra, e agir a esse nível?
Nem que isso passe por trocar os campos de ópio do Afeganistão por máquinas de costura e acordos comerciais. Por exemplo.
14 setembro 2006
o Papa na Baviera
A Baviera está em festa: o Papa "deles" voltou à terrinha, e muito bem, que está escrito na cartilha do emigrante o inalienável direito de regressar à pátria para matar saudades.
Excepto na cartilha do emigrante palestiniano, mas adiante, que não é disso que ia falar hoje.
A Baviera está em festa. O Papa tem andado feliz. O resto da Alemanha assiste (tem-se vendido muito Paracetamol para a dor de cotovelo).
São bons tempos para o país: o mundial de futebol correu muito bem, e o Papa é alemão e está-se a revelar bem mais simpático do que se pensava. Não tarda nada, a economia começa a dar sinais de ressurreição (sim, eu sei: wishful thinking. Até pareço um primeiro ministro a fazer discurso eleitoral).
Parece-me que a combinação do mundial, do Papa alemão e, convenhamos, do distanciamento histórico está a fazer com que os alemães comecem a perder aquela espécie de vergonha de serem alemães. Já não era sem tempo!
***
Assisti à missa de domingo em Munique. Pensei bastante no comentário feito por um amigo berlinense logo após a escolha do cardeal Ratzinger para Papa: "Eu estou satisfeito. Este é um alemão da geração dos meus pais, uma pessoa que eu posso entender, alguém que fala, mais que a minha língua, a minha linguagem".
A homilia ofereceu-me a resposta a algumas das minhas perguntas, com palavras que são também minhas.
Gostei especialmente da passagem em que lembrava que a Fé é um espaço de liberdade e não de constrangimento. Neste tempo em que se assiste a um endurecimento de posições religiosas, é muito positivo que o Papa chame a atenção para a liberdade e para o lugar de Deus na nossa vida: simultaneamente contexto e meta dos cristãos.
E - não disse ele, mas digo eu - se a meta é um Deus que não se confunde com a letra da Lei, então não há lugar para fundamentalismos, porque tudo se resume à pergunta feita em Auschwitz: "onde estás, Deus?"
Em suma: estou, como muitos alemães, cada vez mais reconciliada com esta escolha. Diria que "este é dos nossos", não em termos de clubismo mas de sentido de comunhão.
Contudo, tanta harmonia deixa-me desconfiada: que se passará comigo, ou que se passará com o Bento XVI, se as palavras dele nem me chocam nem me desinstalam?
Excepto na cartilha do emigrante palestiniano, mas adiante, que não é disso que ia falar hoje.
A Baviera está em festa. O Papa tem andado feliz. O resto da Alemanha assiste (tem-se vendido muito Paracetamol para a dor de cotovelo).
São bons tempos para o país: o mundial de futebol correu muito bem, e o Papa é alemão e está-se a revelar bem mais simpático do que se pensava. Não tarda nada, a economia começa a dar sinais de ressurreição (sim, eu sei: wishful thinking. Até pareço um primeiro ministro a fazer discurso eleitoral).
Parece-me que a combinação do mundial, do Papa alemão e, convenhamos, do distanciamento histórico está a fazer com que os alemães comecem a perder aquela espécie de vergonha de serem alemães. Já não era sem tempo!
***
Assisti à missa de domingo em Munique. Pensei bastante no comentário feito por um amigo berlinense logo após a escolha do cardeal Ratzinger para Papa: "Eu estou satisfeito. Este é um alemão da geração dos meus pais, uma pessoa que eu posso entender, alguém que fala, mais que a minha língua, a minha linguagem".
A homilia ofereceu-me a resposta a algumas das minhas perguntas, com palavras que são também minhas.
Gostei especialmente da passagem em que lembrava que a Fé é um espaço de liberdade e não de constrangimento. Neste tempo em que se assiste a um endurecimento de posições religiosas, é muito positivo que o Papa chame a atenção para a liberdade e para o lugar de Deus na nossa vida: simultaneamente contexto e meta dos cristãos.
E - não disse ele, mas digo eu - se a meta é um Deus que não se confunde com a letra da Lei, então não há lugar para fundamentalismos, porque tudo se resume à pergunta feita em Auschwitz: "onde estás, Deus?"
Em suma: estou, como muitos alemães, cada vez mais reconciliada com esta escolha. Diria que "este é dos nossos", não em termos de clubismo mas de sentido de comunhão.
Contudo, tanta harmonia deixa-me desconfiada: que se passará comigo, ou que se passará com o Bento XVI, se as palavras dele nem me chocam nem me desinstalam?
13 setembro 2006
contraditório
Este blog anda com um dia de atraso: o post de ontem devia ter sido no 11 de setembro, e o de hoje devia ter sido escrito ontem, quando fazia 5 anos que regressei ao escritório na baixa de San Francisco, cheia de medo de andar de metro e a desconfiar de qualquer pessoa cor-de-caramelo que carregasse sacos volumosos. Lá encontrei o Francisco, venezuelano, que viera pelo túnel de Oakland e ainda tinha mais medo que eu.
Disse-lhe a minha teoria de "o primeiro mundo tem de acabar definitivamente com este comportamento predatório e hipócrita" e ele riu-se: "Era muito fácil dividir o mundo em maus (nós) e vítimas (eles), mas do lado "deles" há uma camada de poderosos e corruptos a quem o status quo dá muito jeito".
Iconoclasta. Chato.
Também não é possível falar com ele sobre a fome de justiça social na América Latina. Ele corta logo, dizendo que o pessoal não quer justiça social, quer um SUV!
Talvez tenha razão. Lembro-me de um rapaz que conheci em Vilar de Perdizes, paupérrimo, e cujo sonho era emigrar e trabalhar muito para comprar um Porsche.
E então, Francisco, que me dizes de Oaxaca?
Disse-lhe a minha teoria de "o primeiro mundo tem de acabar definitivamente com este comportamento predatório e hipócrita" e ele riu-se: "Era muito fácil dividir o mundo em maus (nós) e vítimas (eles), mas do lado "deles" há uma camada de poderosos e corruptos a quem o status quo dá muito jeito".
Iconoclasta. Chato.
Também não é possível falar com ele sobre a fome de justiça social na América Latina. Ele corta logo, dizendo que o pessoal não quer justiça social, quer um SUV!
Talvez tenha razão. Lembro-me de um rapaz que conheci em Vilar de Perdizes, paupérrimo, e cujo sonho era emigrar e trabalhar muito para comprar um Porsche.
E então, Francisco, que me dizes de Oaxaca?
12 setembro 2006
e que tal se trocássemos o nosso 11 de setembro por este de há 100 anos?
De um boletim informativo enviado pela "Palas Athena - filosofia em ação".
Um outro 11 de setembro
Passaram-se cem anos do dia em que Gandhi implementou no espaço político transformações significativas sem recorrer à violência direta ou simbólica. Quebrou o elo que sustentava a opressão mobilizando de maneira construtiva os oprimidos. O alvo estava bem identificado: revelar as injustiças de leis que beneficiavam apenas os detentores do poder. E, ao mesmo tempo, manter com eles um diálogo permanente, com o objetivo de evidenciar o erro e sofrimento que este provocava em milhares de pessoas.
Satyagraha: compromisso com a verdade, com a transparência, com a realidade que impõe os fatos, com a exigência ética de ser honesto para consigo e os outros – único caminho que viabiliza a convivência democrática e assegura a integridade da dignidade humana.
Transcrevemos a seguir a edição de um ensaio da Dra. Savita Singh, diretora do Memorial Gandhi em Nova Delhi, Índia, onde se celebra o centenário da gestação desse instrumento sociopolítico para promover mudanças coletivas e erradicar violências estruturais. A aplicação desse instrumento nas mãos de Martin Luther King, Aung San Suu Kyi, Oscar Arias Sánchez, Nelson Mandela, Desmond Tutu, Sergio Vieira de Mello e nas de milhares de movimentos sociais vocacionados para a Paz reafirmam a eficácia da não-violência como valor e expressão do legitimamente humano.
11/9/2006 - 100 Anos de Satyagraha
Foi em 11 de setembro de 1906 que Gandhi abriu caminho para o futuro declarando seu compromisso com a Verdade e a Não-violência, um caminho que ele chamou de Satyagraha.
O nascimento desta filosofia tem suas origens no regime de apartheid da África do Sul, que procurava impor uma lei a todos os imigrantes indianos. Caso a lei entrasse em vigor, estes seriam obrigados a se cadastrar junto às autoridades, ter suas digitais impressas, e carregar consigo um documento de identificação. A ausência de tal documento poderia ser punida com prisão, multas ou deportação. Mahatma Gandhi descreve vividamente os fatos ocorridos a seu biógrafo, Louis Fischer:
Em 11 de setembro de 1906 havia quase 3.000 pessoas no Empire Theatre de Johannesburgo. O salão reverberava com as vozes falando em tamil, telugu, gujarate e hindi, os idiomas da Índia. As mulheres usavam saris, os homens, roupas européias e indianas, alguns de turbante ou barrete, outros chapéus islâmicos. Entre eles havia ricos comerciantes, mineiros, advogados, trabalhadores, garçons, condutores de riquixás, empregados domésticos e ambulantes. Muitos eram representantes dos 18.000 indianos do Transvaal, agora uma colônia britânica, e estavam todos reunidos para decidir o que fazer diante da ameaça de leis discriminatórias contra os indianos.
Mesmo antes desta assembléia de 11 de setembro Gandhi já havia decidido: “antes morrer que se submeter a uma lei assim”. Mas Gandhi aconselhou a comunidade indiana a decidir com calma sobre o que estavam prestes a fazer. Não seria fácil assumir um compromisso dessa natureza.
O propósito desse compromisso não era impressionar os outros. Este seria um compromisso pessoal e cada um deles precisava decidir se teria a força interior para honrá-lo. Eles poderiam ser aprisionados, deportados, privados de todos os seus bens e conforto. A luta poderia durar um longo tempo. “Mas”, declarou Gandhi, “tenho certeza de que enquanto houver homens leais ao seu compromisso só pode haver um desenlace para esta luta – e esse desenlace é a vitória”.
Esse era o clima que reinava naquela reunião em 11 de setembro de 1906. O presidente da mesa aconselhou serenidade e os presentes se levantaram, suas mãos se ergueram e todos juraram não obedecer à lei anti-indiana caso entrasse em vigor.
A próxima tarefa era encontrar um nome para o protesto maciço que organizavam. Ele previa que o uso de “resistência passiva” traria mal-entendidos, e pensou em contrastar o termo com “força de alma”.
Não havia qualquer traço de passividade no jovem Gandhi. Logo depois da assembléia de 11 de setembro ele lançou um concurso pedindo sugestões para um nome apropriado para o protesto não-violento. Ofereceu um prêmio para quem encontrasse um nome para esse novo modo de oposição em massa, porém individual, contra uma injustiça governamental.
Maganlal Gandhi, um primo dele, sugeriu Sadagraha, que significava“firmeza empregada em boa causa”. Gandhi o transformou em Satyagraha – satya significa verdade, que é o mesmo que amor, e agraha significa firmeza ou força. Satyagraha, portanto, significa a força da verdade ou a força do amor.
Segundo Gandhi, Satyagraha é a defesa da verdade sem infligir sofrimento ao oponente, que deve ser afastado do erro através da paciência e da simpatia; algo que exige grande autocontrole. As armas do praticante de Satyagraha estão em seu interior.
Arguto observador da natureza humana, Gandhi registrava a lenta transformação que se operava na população branca da África do Sul. Aos poucos, a nova técnica ia ganhando admiradores, embora fossem minoria. À medida que o movimento avançava, os ingleses começavam a observá-lo com interesse. Embora os jornais ingleses escrevessem a favor dos europeus e das leis discriminatórias, de bom grado publicavam artigos de indianos renomados e enviavam repórteres às suas reuniões.
Gandhi foi o primeiro a ser aprisionado, e ao longo de sua luta foi condenado e cumpriu pena muitas vezes, tornando-se o líder do movimento contra a tirania governamental, até que um acordo aceitável foi obtido em 1914.
Satyagraha é uma estratégia de força que se baseia na verdade e é conduzida pela não-violência. Ela parece similar a métodos tradicionais, mas traz novidades que produzem conseqüências muito abrangentes. O objetivo último do Satyagraha não é simplesmente chegar à vitória, mas convencer os oponentes do cunho ético e validade de seus fins. Satyagraha pode ser considerado uma ferramenta para resolver conflitos e enfrentar injustiças.
Como coloca Joan V. Bondurant: “Aquele que utiliza o Satyagraha, desencadeia um movimento novo que pode mudar a direção e até o conteúdo das forças em jogo. O praticante envolve interativamente seu oponente de modo a transformar a complexidade do relacionamento, fazendo surgir um novo padrão. As sutilezas da reação do oponente ecoam de volta para o movimento do praticante do Satyagraha, e essas pressões de parte a parte têm amplo espaço para influenciar ações subseqüentes e até modificar o conteúdo das exigências e objetivos iniciais. Assim, o conflito se resolve de modo que os dois lados ganham e nenhum perde, porque o efeito do Satyagraha é levar os dois lados em direção à verdade”.
E nas palavras de C. Rajagopalchari, Satyagraha não é apenas uma técnica para resolver conflitos, é uma “força ética”. A não-violência, elemento imprescindível do Satyagraha, não é apenas um meio para obter aquilo que antes procurávamos obter através da violência e muitas atribulações. A técnica de Gandhi mobiliza uma arma que não se pode obter no mercado, mas que remete à existência da bondade em todos os seres humanos. Por esse motivo o apelo ético da verdade alcança o coração do antagonista, assim que percebemos que também ele possui humanidade.
As experiências com o Satyagraha reforçaram a fé de Gandhi na filosofia da não-violência como método eficaz de resistência à violência, e o prepararam para a luta pela libertação da Índia, conseguida em 1947.
Um outro 11 de setembro
Passaram-se cem anos do dia em que Gandhi implementou no espaço político transformações significativas sem recorrer à violência direta ou simbólica. Quebrou o elo que sustentava a opressão mobilizando de maneira construtiva os oprimidos. O alvo estava bem identificado: revelar as injustiças de leis que beneficiavam apenas os detentores do poder. E, ao mesmo tempo, manter com eles um diálogo permanente, com o objetivo de evidenciar o erro e sofrimento que este provocava em milhares de pessoas.
Satyagraha: compromisso com a verdade, com a transparência, com a realidade que impõe os fatos, com a exigência ética de ser honesto para consigo e os outros – único caminho que viabiliza a convivência democrática e assegura a integridade da dignidade humana.
Transcrevemos a seguir a edição de um ensaio da Dra. Savita Singh, diretora do Memorial Gandhi em Nova Delhi, Índia, onde se celebra o centenário da gestação desse instrumento sociopolítico para promover mudanças coletivas e erradicar violências estruturais. A aplicação desse instrumento nas mãos de Martin Luther King, Aung San Suu Kyi, Oscar Arias Sánchez, Nelson Mandela, Desmond Tutu, Sergio Vieira de Mello e nas de milhares de movimentos sociais vocacionados para a Paz reafirmam a eficácia da não-violência como valor e expressão do legitimamente humano.
11/9/2006 - 100 Anos de Satyagraha
Foi em 11 de setembro de 1906 que Gandhi abriu caminho para o futuro declarando seu compromisso com a Verdade e a Não-violência, um caminho que ele chamou de Satyagraha.
O nascimento desta filosofia tem suas origens no regime de apartheid da África do Sul, que procurava impor uma lei a todos os imigrantes indianos. Caso a lei entrasse em vigor, estes seriam obrigados a se cadastrar junto às autoridades, ter suas digitais impressas, e carregar consigo um documento de identificação. A ausência de tal documento poderia ser punida com prisão, multas ou deportação. Mahatma Gandhi descreve vividamente os fatos ocorridos a seu biógrafo, Louis Fischer:
Em 11 de setembro de 1906 havia quase 3.000 pessoas no Empire Theatre de Johannesburgo. O salão reverberava com as vozes falando em tamil, telugu, gujarate e hindi, os idiomas da Índia. As mulheres usavam saris, os homens, roupas européias e indianas, alguns de turbante ou barrete, outros chapéus islâmicos. Entre eles havia ricos comerciantes, mineiros, advogados, trabalhadores, garçons, condutores de riquixás, empregados domésticos e ambulantes. Muitos eram representantes dos 18.000 indianos do Transvaal, agora uma colônia britânica, e estavam todos reunidos para decidir o que fazer diante da ameaça de leis discriminatórias contra os indianos.
Mesmo antes desta assembléia de 11 de setembro Gandhi já havia decidido: “antes morrer que se submeter a uma lei assim”. Mas Gandhi aconselhou a comunidade indiana a decidir com calma sobre o que estavam prestes a fazer. Não seria fácil assumir um compromisso dessa natureza.
O propósito desse compromisso não era impressionar os outros. Este seria um compromisso pessoal e cada um deles precisava decidir se teria a força interior para honrá-lo. Eles poderiam ser aprisionados, deportados, privados de todos os seus bens e conforto. A luta poderia durar um longo tempo. “Mas”, declarou Gandhi, “tenho certeza de que enquanto houver homens leais ao seu compromisso só pode haver um desenlace para esta luta – e esse desenlace é a vitória”.
Esse era o clima que reinava naquela reunião em 11 de setembro de 1906. O presidente da mesa aconselhou serenidade e os presentes se levantaram, suas mãos se ergueram e todos juraram não obedecer à lei anti-indiana caso entrasse em vigor.
A próxima tarefa era encontrar um nome para o protesto maciço que organizavam. Ele previa que o uso de “resistência passiva” traria mal-entendidos, e pensou em contrastar o termo com “força de alma”.
Não havia qualquer traço de passividade no jovem Gandhi. Logo depois da assembléia de 11 de setembro ele lançou um concurso pedindo sugestões para um nome apropriado para o protesto não-violento. Ofereceu um prêmio para quem encontrasse um nome para esse novo modo de oposição em massa, porém individual, contra uma injustiça governamental.
Maganlal Gandhi, um primo dele, sugeriu Sadagraha, que significava“firmeza empregada em boa causa”. Gandhi o transformou em Satyagraha – satya significa verdade, que é o mesmo que amor, e agraha significa firmeza ou força. Satyagraha, portanto, significa a força da verdade ou a força do amor.
Segundo Gandhi, Satyagraha é a defesa da verdade sem infligir sofrimento ao oponente, que deve ser afastado do erro através da paciência e da simpatia; algo que exige grande autocontrole. As armas do praticante de Satyagraha estão em seu interior.
Arguto observador da natureza humana, Gandhi registrava a lenta transformação que se operava na população branca da África do Sul. Aos poucos, a nova técnica ia ganhando admiradores, embora fossem minoria. À medida que o movimento avançava, os ingleses começavam a observá-lo com interesse. Embora os jornais ingleses escrevessem a favor dos europeus e das leis discriminatórias, de bom grado publicavam artigos de indianos renomados e enviavam repórteres às suas reuniões.
Gandhi foi o primeiro a ser aprisionado, e ao longo de sua luta foi condenado e cumpriu pena muitas vezes, tornando-se o líder do movimento contra a tirania governamental, até que um acordo aceitável foi obtido em 1914.
Satyagraha é uma estratégia de força que se baseia na verdade e é conduzida pela não-violência. Ela parece similar a métodos tradicionais, mas traz novidades que produzem conseqüências muito abrangentes. O objetivo último do Satyagraha não é simplesmente chegar à vitória, mas convencer os oponentes do cunho ético e validade de seus fins. Satyagraha pode ser considerado uma ferramenta para resolver conflitos e enfrentar injustiças.
Como coloca Joan V. Bondurant: “Aquele que utiliza o Satyagraha, desencadeia um movimento novo que pode mudar a direção e até o conteúdo das forças em jogo. O praticante envolve interativamente seu oponente de modo a transformar a complexidade do relacionamento, fazendo surgir um novo padrão. As sutilezas da reação do oponente ecoam de volta para o movimento do praticante do Satyagraha, e essas pressões de parte a parte têm amplo espaço para influenciar ações subseqüentes e até modificar o conteúdo das exigências e objetivos iniciais. Assim, o conflito se resolve de modo que os dois lados ganham e nenhum perde, porque o efeito do Satyagraha é levar os dois lados em direção à verdade”.
E nas palavras de C. Rajagopalchari, Satyagraha não é apenas uma técnica para resolver conflitos, é uma “força ética”. A não-violência, elemento imprescindível do Satyagraha, não é apenas um meio para obter aquilo que antes procurávamos obter através da violência e muitas atribulações. A técnica de Gandhi mobiliza uma arma que não se pode obter no mercado, mas que remete à existência da bondade em todos os seres humanos. Por esse motivo o apelo ético da verdade alcança o coração do antagonista, assim que percebemos que também ele possui humanidade.
As experiências com o Satyagraha reforçaram a fé de Gandhi na filosofia da não-violência como método eficaz de resistência à violência, e o prepararam para a luta pela libertação da Índia, conseguida em 1947.
11 setembro 2006
não esquecer
Hoje, há cinco anos, vivíamos nos EUA.
Passei o dia em frente à televisão, incrédula e embotada.
Passaram muitas vezes as mesmas imagens, sempre nesta sequência: primeiro, as pessoas que saltavam das torres em fogo; logo a seguir, um grupo de palestinianos (seriam palestinianos?) que davam grandes mostras de contentamento.
A meio da tarde, quando fui buscar os miúdos à escola, havia uma nota da directora para os pais:
"Em nome da Paz e do Futuro, contem aos vossos filhos como são as condições de vida dos palestinianos. Temos de andar nos mocassins dos outros para os poder compreender."
À noite, fomos a uma oração da igreja católica na paróquia universitária. Tinham convidado estudantes árabes para fazer as leituras.
Dois dias mais tarde, representantes das inúmeras religiões que coexistem em San Francisco juntaram-se numa cerimónia pública profundamente digna e comovedora.
Em várias cidades dos EUA ocorreram ataques - mortais, alguns deles - a árabes.
Na nossa paróquia pediram-nos que ajudássemos a formar "escudos humanos" em centros sociais árabes e nas mesquitas, para os proteger.
Não esquecer: a Paz.
Passei o dia em frente à televisão, incrédula e embotada.
Passaram muitas vezes as mesmas imagens, sempre nesta sequência: primeiro, as pessoas que saltavam das torres em fogo; logo a seguir, um grupo de palestinianos (seriam palestinianos?) que davam grandes mostras de contentamento.
A meio da tarde, quando fui buscar os miúdos à escola, havia uma nota da directora para os pais:
"Em nome da Paz e do Futuro, contem aos vossos filhos como são as condições de vida dos palestinianos. Temos de andar nos mocassins dos outros para os poder compreender."
À noite, fomos a uma oração da igreja católica na paróquia universitária. Tinham convidado estudantes árabes para fazer as leituras.
Dois dias mais tarde, representantes das inúmeras religiões que coexistem em San Francisco juntaram-se numa cerimónia pública profundamente digna e comovedora.
Em várias cidades dos EUA ocorreram ataques - mortais, alguns deles - a árabes.
Na nossa paróquia pediram-nos que ajudássemos a formar "escudos humanos" em centros sociais árabes e nas mesquitas, para os proteger.
Não esquecer: a Paz.
10 setembro 2006
os nossos sonhos
08 setembro 2006
Peter zahlt
Aviso aos residentes na Alemanha, ou aos residentes noutros países que queiram telefonar para a Alemanha: há um novo serviço na internet para telefonar gratuitamente para metade do mundo (Portugal e EUA incluídos), chamado Peter Zahlt (Peter paga).
Clica-se em Peter Zahlt, escreve-se o número de telefone alemão, com indicativo, depois escolhe-se o indicativo do outro país e escreve-se o número de telefone com indicativo também. O Peter paga o telefonema (até 30 minutos).
Única condição: é preciso deixar a janela do site aberta durante o período da chamada.
Único problema: embora tenha começado há apenas um mês, já imensa gente usa o serviço. A determinadas horas é difícil conseguir linha. Claro que estão a trabalhar nisso, para aumentar a capacidade.
Peter, esse filantropo, é um dos chefes da empresa GoYellow, uma espécie de páginas amarelas internéticas em que cada registado pode fazer links para os seus sites, o que permite aos potenciais clientes uma prospecção do sector muito mais alargada que nas páginas amarelas normais.
O responsável pelo produto é um amigo nosso (estou até em crer que Portugal foi incluído na lista do Peter Zahlt devido a tãtãtãtãããã, presunção e água benta). É das poucas pessoas que conheço que anda permanentemente feliz e entusiasmado com o que faz, e bem o compreendo: este tipo de produto destina-se a uma clientela mais jovem, ágil e criativa, de modo que a sua concepção passa por muita gargalhada. Haverá algo melhor, na vida profissional, que um trabalho muito sério feito a rir?
Há dois anos inventaram um serviço de informações de números de telefone com um programa de reconhecimento de voz. Telefonava-se para esse número, uma gravação atendia e perguntava se queríamos o número de uma empresa ou de um particular, depois perguntava o nome e a cidade, e daí a nada dizia o número desejado. O mais engraçado é que tinham contratado um imitador de vozes para fazer esta gravação. O meu preferido era o Schröder, com o seu dialecto e os seus tiques, a dizer para a mulher: "Doris, vê-me aí esse número".
E há mais: fizeram um contrato com a Endoxon para incluir a localização baseada em fotos aéreas (foi a altura em que o nosso amigo andava pelo escritório com cara de nirvana), aproveitaram esses mapas para indicar os focos de gripe das aves na Alemanha ou, durante o mundial, para informar onde havia ecrãs gigantes para transmissão dos jogos.
E depois, quando queremos ir àquele restaurante italiano que fica na esquina da Biblioteca, como é que se chamava?, e não sabemos se está aberto: abrimos o mapa de Weimar, clicamos no botão dos restaurantes para os situar no mapa da cidade, e num instante descobrimos o tal que procurávamos, abrimos o site deles para ver o menu do dia, clicamos no número de telefone para marcar a mesa. O Peter paga o telefonema, claro. A conta do restaurante, para já, pagamos nós.
***
Ah, boa ideia, vou já telefonar (via Peter zahlt) ao nosso amigo: seria um bom gag de marketing se o Peter volta e meia oferecesse o almoço a quem tenha reservado o restaurante via GoYellow. Se já tem fama de filantropo...
(É só para provocar os neo-liberais, que acham que não há almoços grátis. Hehehe.)
Clica-se em Peter Zahlt, escreve-se o número de telefone alemão, com indicativo, depois escolhe-se o indicativo do outro país e escreve-se o número de telefone com indicativo também. O Peter paga o telefonema (até 30 minutos).
Única condição: é preciso deixar a janela do site aberta durante o período da chamada.
Único problema: embora tenha começado há apenas um mês, já imensa gente usa o serviço. A determinadas horas é difícil conseguir linha. Claro que estão a trabalhar nisso, para aumentar a capacidade.
Peter, esse filantropo, é um dos chefes da empresa GoYellow, uma espécie de páginas amarelas internéticas em que cada registado pode fazer links para os seus sites, o que permite aos potenciais clientes uma prospecção do sector muito mais alargada que nas páginas amarelas normais.
O responsável pelo produto é um amigo nosso (estou até em crer que Portugal foi incluído na lista do Peter Zahlt devido a tãtãtãtãããã, presunção e água benta). É das poucas pessoas que conheço que anda permanentemente feliz e entusiasmado com o que faz, e bem o compreendo: este tipo de produto destina-se a uma clientela mais jovem, ágil e criativa, de modo que a sua concepção passa por muita gargalhada. Haverá algo melhor, na vida profissional, que um trabalho muito sério feito a rir?
Há dois anos inventaram um serviço de informações de números de telefone com um programa de reconhecimento de voz. Telefonava-se para esse número, uma gravação atendia e perguntava se queríamos o número de uma empresa ou de um particular, depois perguntava o nome e a cidade, e daí a nada dizia o número desejado. O mais engraçado é que tinham contratado um imitador de vozes para fazer esta gravação. O meu preferido era o Schröder, com o seu dialecto e os seus tiques, a dizer para a mulher: "Doris, vê-me aí esse número".
E há mais: fizeram um contrato com a Endoxon para incluir a localização baseada em fotos aéreas (foi a altura em que o nosso amigo andava pelo escritório com cara de nirvana), aproveitaram esses mapas para indicar os focos de gripe das aves na Alemanha ou, durante o mundial, para informar onde havia ecrãs gigantes para transmissão dos jogos.
E depois, quando queremos ir àquele restaurante italiano que fica na esquina da Biblioteca, como é que se chamava?, e não sabemos se está aberto: abrimos o mapa de Weimar, clicamos no botão dos restaurantes para os situar no mapa da cidade, e num instante descobrimos o tal que procurávamos, abrimos o site deles para ver o menu do dia, clicamos no número de telefone para marcar a mesa. O Peter paga o telefonema, claro. A conta do restaurante, para já, pagamos nós.
***
Ah, boa ideia, vou já telefonar (via Peter zahlt) ao nosso amigo: seria um bom gag de marketing se o Peter volta e meia oferecesse o almoço a quem tenha reservado o restaurante via GoYellow. Se já tem fama de filantropo...
(É só para provocar os neo-liberais, que acham que não há almoços grátis. Hehehe.)
07 setembro 2006
Olá, Gabriela
Ia responder nos comentários, mas o que tinha para dizer entrou-se-me em auto-gestão.
A culpa é do Lobo Antunes e das suas teorias sobre escrita (e isto aqui sou eu a pôr-me em biquinhos de pés para aparecer na foto ao lado do escritor.)
Se não queres perder o Outono alemão vais ter de te despachar: começou em meados de Agosto.
Por acaso agora está outra vez bom tempo. Talvez seja já o Indian Summer...
Pelo que entendi, estás no Colorado. Ora bem, conselho de amiga: não te esqueças de ir a Mesa Verde (apenas 5 horas de Grand Junction, 7 de Colorado Springs e 8 de Denver - uma ninharia, para o American Way of Life).
E se já estás em Mesa Verde, aproveita para dar um saltinho a Monument Valley, mas - conselho de amiga - não compres o artesanato horrível que lá vendem.
Já agora, podes ir até Moab (tem uma padaria de chorar por mais, nessa terra de pão de borracha tufada), mesmo ao lado de Arches e do Dead Horse Point - dois espantos.
A viagem entre Monument Valley e Moab é outro espanto.
Um pouco à frente (ou talvez atrás, e do outro lado da estrada) do restaurante onde a Thelma e a Louise comeram antes de se desgraçarem no Grand Canyon, tem o restaurante Cow Canyon, com comida bastante requintada e um ambiente quase francês - nada mau para uma região onde só há comida índia (quer dizer, algo que está para a comida índia como o bife e as batatas fritas estão para a Maria de Lourdes Modesto).
Além disso, vende artesanato - sobretudo navajo e hopi - realmente bom. Nada daquelas porcarias para turistas, que se vendem um pouco por todo o lado, o que me faz uma pena imensa pelo modo como perverteram um dos poucos elementos que ainda podiam sustentar o Indian Pride.
O restaurante fica em Bluff, localidade onde se organizam rafting tours no San Juan River, bem mais suaves que os do Grand Canyon. E com paragem numa aldeia índia construída há quase mil anos: casas de vários andares incrustadas numa alcova que o rio cavou na rocha. Quer dizer: uma miniatura de Mesa Verde. Tem outra paragem, para o piquenique, junto a algo que parece um local religioso, um enorme bloco de pedra como uma muralha onde, ao longo de centenas de anos, foram sendo gravados vários símbolos. Gerações e gerações de índios que escolhem com critério o que querem deixar na rocha, e depois, sinal dos nossos tristes tempos, vem um engraçadinho e desata a sprayar na rocha variações sobre o tema fuck.
Outro conselho de amiga: não vás aos rodeos para turistas, que são uma vergonha: está o cowboy montado na vaquinha muito mansa, à espera que se abra a cancela para entrarem ambos em cena, a cancela abre-se, e aí dão à vaquinha muito mansa um choque eléctrico para lhe passar a mansidão, e lá vai ela aos pinotes, e o cowboy de pacotilha aos gritos yyyyeeeeoooooo yyyyyyyyeeeeeeeeeoooo e catrapumba, cai ao chão. Meus ricos dez dólares por pessoa, que mal aproveitados.
Bem. Pode dar-se o caso de estares quase na fronteira com o Kansas, e então aí, passo.
Mas vê lá se consegues ainda organizar essa volta. Garanto que é impressionante.
(Contudo, não devolvo o dinheiro se o cliente não ficar satisfeito...)
(Contudo, informo que até agora não tive reclamações, muito antes pelo contrário.)
Caso te decidas a meter 2 semanas de férias, diz, e faço-te sugestões para a volta toda, inclusivamente Antelope Canyon (paraíso dos fotógrafos) e, claro, o Grand, North-Rim e South-Rim.
No Verão de 2001 passámos duas semanas em viagem por essa Indian Country. Duas semanas em permanente estado de êxtase.
Aaaaaaahhhhhhhhhhh e ooooooooohhhhhhhhh. E também um bocadinho aaaaiiiiiii, quando fazíamos caminhadas pelos desfiladeiros, sob um sol escaldante.
Quem me dera ser possível gozar a reforma agora, e trabalhar depois até aos oitenta, para aproveitar o tempo em que as minhas pernas ainda fazem o que eu quero, e meter-me a pé pela Monument Valley e todos os parques naturais dessa região!
***
Indian Summer, Indian country, rafting tours, etc.
Na próxima semana decorre na Caparica um congresso de tradutores, o Contrapor, onde alguém vai apresentar a seguinte comunicação:
"Let’s do the frequência before the ponte, but after the feriado: the words we don’t translate"
- aposto que vai falar de mim!
A culpa é do Lobo Antunes e das suas teorias sobre escrita (e isto aqui sou eu a pôr-me em biquinhos de pés para aparecer na foto ao lado do escritor.)
Se não queres perder o Outono alemão vais ter de te despachar: começou em meados de Agosto.
Por acaso agora está outra vez bom tempo. Talvez seja já o Indian Summer...
Pelo que entendi, estás no Colorado. Ora bem, conselho de amiga: não te esqueças de ir a Mesa Verde (apenas 5 horas de Grand Junction, 7 de Colorado Springs e 8 de Denver - uma ninharia, para o American Way of Life).
E se já estás em Mesa Verde, aproveita para dar um saltinho a Monument Valley, mas - conselho de amiga - não compres o artesanato horrível que lá vendem.
Já agora, podes ir até Moab (tem uma padaria de chorar por mais, nessa terra de pão de borracha tufada), mesmo ao lado de Arches e do Dead Horse Point - dois espantos.
A viagem entre Monument Valley e Moab é outro espanto.
Um pouco à frente (ou talvez atrás, e do outro lado da estrada) do restaurante onde a Thelma e a Louise comeram antes de se desgraçarem no Grand Canyon, tem o restaurante Cow Canyon, com comida bastante requintada e um ambiente quase francês - nada mau para uma região onde só há comida índia (quer dizer, algo que está para a comida índia como o bife e as batatas fritas estão para a Maria de Lourdes Modesto).
Além disso, vende artesanato - sobretudo navajo e hopi - realmente bom. Nada daquelas porcarias para turistas, que se vendem um pouco por todo o lado, o que me faz uma pena imensa pelo modo como perverteram um dos poucos elementos que ainda podiam sustentar o Indian Pride.
O restaurante fica em Bluff, localidade onde se organizam rafting tours no San Juan River, bem mais suaves que os do Grand Canyon. E com paragem numa aldeia índia construída há quase mil anos: casas de vários andares incrustadas numa alcova que o rio cavou na rocha. Quer dizer: uma miniatura de Mesa Verde. Tem outra paragem, para o piquenique, junto a algo que parece um local religioso, um enorme bloco de pedra como uma muralha onde, ao longo de centenas de anos, foram sendo gravados vários símbolos. Gerações e gerações de índios que escolhem com critério o que querem deixar na rocha, e depois, sinal dos nossos tristes tempos, vem um engraçadinho e desata a sprayar na rocha variações sobre o tema fuck.
Outro conselho de amiga: não vás aos rodeos para turistas, que são uma vergonha: está o cowboy montado na vaquinha muito mansa, à espera que se abra a cancela para entrarem ambos em cena, a cancela abre-se, e aí dão à vaquinha muito mansa um choque eléctrico para lhe passar a mansidão, e lá vai ela aos pinotes, e o cowboy de pacotilha aos gritos yyyyeeeeoooooo yyyyyyyyeeeeeeeeeoooo e catrapumba, cai ao chão. Meus ricos dez dólares por pessoa, que mal aproveitados.
Bem. Pode dar-se o caso de estares quase na fronteira com o Kansas, e então aí, passo.
Mas vê lá se consegues ainda organizar essa volta. Garanto que é impressionante.
(Contudo, não devolvo o dinheiro se o cliente não ficar satisfeito...)
(Contudo, informo que até agora não tive reclamações, muito antes pelo contrário.)
Caso te decidas a meter 2 semanas de férias, diz, e faço-te sugestões para a volta toda, inclusivamente Antelope Canyon (paraíso dos fotógrafos) e, claro, o Grand, North-Rim e South-Rim.
No Verão de 2001 passámos duas semanas em viagem por essa Indian Country. Duas semanas em permanente estado de êxtase.
Aaaaaaahhhhhhhhhhh e ooooooooohhhhhhhhh. E também um bocadinho aaaaiiiiiii, quando fazíamos caminhadas pelos desfiladeiros, sob um sol escaldante.
Quem me dera ser possível gozar a reforma agora, e trabalhar depois até aos oitenta, para aproveitar o tempo em que as minhas pernas ainda fazem o que eu quero, e meter-me a pé pela Monument Valley e todos os parques naturais dessa região!
***
Indian Summer, Indian country, rafting tours, etc.
Na próxima semana decorre na Caparica um congresso de tradutores, o Contrapor, onde alguém vai apresentar a seguinte comunicação:
"Let’s do the frequência before the ponte, but after the feriado: the words we don’t translate"
- aposto que vai falar de mim!
05 setembro 2006
questão de timing
Ando há anos a tentar comprar um ferro eléctrico para fazer leite creme.
Ai!, meu rico leite creme - para mais, com ingredientes fáceis de encontrar na Alemanha.
Hmmmm!, sobre o creme macio aquela camada de açúcar, os uivos do ferro quente sssssssssss na crosta, a cor dourada, a água a crescer na boca...
Em Viana do Castelo (se não aí, então onde?), decidi finalmente perguntar na secção de electrodomésticos de um hipermercado onde poderia encontrar o tal ferro.
"Já não se pode vender isso, minha senhora," foi a resposta, "porque ao queimar o acúcar liberta-se uma toxina".
Juro que foi a primeira vez na minha vida que compreendi inteiramente os fumadores.
Inteiramente.
Até mesmo aquela frase "também não preciso de viver até aos 90 anos". Tudo!
Maldito timing, Céu: agora, que finalmente te compreendo e estou solidária, é que vais deixar o vício?!
***
Encontrei o ferro numa loja em Armamar. Sempre achei que o vale do Douro é uma região de belíssimos recursos ignotos.
Hehehe.
Ai!, meu rico leite creme - para mais, com ingredientes fáceis de encontrar na Alemanha.
Hmmmm!, sobre o creme macio aquela camada de açúcar, os uivos do ferro quente sssssssssss na crosta, a cor dourada, a água a crescer na boca...
Em Viana do Castelo (se não aí, então onde?), decidi finalmente perguntar na secção de electrodomésticos de um hipermercado onde poderia encontrar o tal ferro.
"Já não se pode vender isso, minha senhora," foi a resposta, "porque ao queimar o acúcar liberta-se uma toxina".
Juro que foi a primeira vez na minha vida que compreendi inteiramente os fumadores.
Inteiramente.
Até mesmo aquela frase "também não preciso de viver até aos 90 anos". Tudo!
Maldito timing, Céu: agora, que finalmente te compreendo e estou solidária, é que vais deixar o vício?!
***
Encontrei o ferro numa loja em Armamar. Sempre achei que o vale do Douro é uma região de belíssimos recursos ignotos.
Hehehe.
continuemos, então
Há exactamente uma semana estava a entrar no avião, toda aliviada por não ter sido ainda desta que os chatos dos terroristas arranjaram maneira de me estragar o transporte de souvenirs (vinho do Porto, folhas de louro, e quejandos), que trago para a Alemanha como quem se agarra a uma tábua de salvação, que aqui o inverno é longo - e até já começou em meados de Agosto.
Deu para ver porque é que estou aqui há uma semana e ainda não escrevi post nenhum? É isso mesmo: não me sinto capaz de escrever coisa com coisa. Tenho de ter cuidado com os souvenirs, que por este andar nem ao Natal chegam.
(Refiro-me às folhas de louro, claro. O que é que pensaram?!)
É difícil voltar ao blogue depois de 6 semanas em Portugal, seguidas de aterragem numa casa cujos cantos ainda mal conheço (ou, para ser mais precisa: cujos cantos ainda estão dentro dos caixotes da mudança...).
Não que me falte o que contar, nada disso!, desengane-se quem pense que andei a fazer psicanálise às escondidas, como dizia a outra.
O que me falta é o post inicial, a ponta simbólica pela qual começo a desensarilhar a meada de tantas ideias.
***
Há exactamente uma semana e um dia, por esta hora, estava com os miúdos aos saltos no mar. As ondas estavam no ponto certo da vertigem: grandes, furiosas e aos pares. Mal recuperávamos de uma, vinha logo a parceira.
No fim de cada verão fico muito Sophia:
Quando eu morrer...
Deu para ver porque é que estou aqui há uma semana e ainda não escrevi post nenhum? É isso mesmo: não me sinto capaz de escrever coisa com coisa. Tenho de ter cuidado com os souvenirs, que por este andar nem ao Natal chegam.
(Refiro-me às folhas de louro, claro. O que é que pensaram?!)
É difícil voltar ao blogue depois de 6 semanas em Portugal, seguidas de aterragem numa casa cujos cantos ainda mal conheço (ou, para ser mais precisa: cujos cantos ainda estão dentro dos caixotes da mudança...).
Não que me falte o que contar, nada disso!, desengane-se quem pense que andei a fazer psicanálise às escondidas, como dizia a outra.
O que me falta é o post inicial, a ponta simbólica pela qual começo a desensarilhar a meada de tantas ideias.
***
Há exactamente uma semana e um dia, por esta hora, estava com os miúdos aos saltos no mar. As ondas estavam no ponto certo da vertigem: grandes, furiosas e aos pares. Mal recuperávamos de uma, vinha logo a parceira.
No fim de cada verão fico muito Sophia:
Quando eu morrer...
04 setembro 2006
Regressamos de férias
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