31 dezembro 2018

projecto para 2019





2019 vai ser o ano do centenário da Bauhaus na Alemanha.

Hoje à noite, quando estiverem a fazer planos para o próximo ano e a comer as passas e a tomar decisões e a sim, pensem também na hipótese de fazerem uma visitinha às cidades que comemoram esse centenário: Weimar, Dessau e Berlim. Ou duas semanas, claro, ou mais ainda.


Pela minha parte, ou muito me engano, ou um dos meus projectos mais interessantes em 2019 vai ser a organização de visitas guiadas para portugueses: um roteiro do movimento Bauhaus nas suas três cidades. E por causa da melhor característica da internet - a generosidade de partilhar informações com todos -, talvez  até o publique aqui quando estiver pronto.

Stay tuned, como diz o outro e:

-- BOM ANO PARA TODOS OS SIMPÁTICOS CLIENTES DESTA CASA! --

Que sejamos capazes de fazer o melhor possível deste 2019 que temos pela frente.


30 dezembro 2018

colheita do dia


Os amigos vinham para o tradicional "Kaffee und Kuchen" (café e bolos), mas no momento em que ia tirar o primeiro café reparei nas cores do entardecer e sugeri irmos antes passear até ao lago.

Em boa hora.

(Pedi-lhes que voltassem sempre que os dias estiverem assim bonitos) (Sim, adivinharam: o Fox já não mora cá outra vez) (Nem quer morar: sempre que vêm cá de visita, deita-se em cima do casaco do Matthias para ter a certeza de que não ficará aqui esquecido) (Lá terei de ir passear pelos lagos sem ele...)

  
 

24 dezembro 2018

Natal 2018


Este ano combinámos que não há presentes. O Fox achou que o pinheirinho precisava de ficar mais composto, e tratou do assunto.


No mais: a travessia de meia Alemanha correu bem. 
A Turíngia continua lindíssima. Hoje já tivemos neve, sol, chuva e contrastes de luz fascinantes. Tirei as fotos possíveis quando se vai num carro a 160 à hora. Excepto a última: devagar, junto ao Reno. 
E agora: com licencinha. 
  



  



tranquilidade e recolhimento



Quando os miúdos eram pequeninos, era tradição nossa ir passear com eles antes da Consoada - na floresta, ou ao longo de um riacho sinuoso que passava junto à nossa casa. Antes do alvoroço dos festejos, queríamos respirar longamente o sossego da natureza adormecida pelo inverno e saborear a tranquilidade do momento.

Foi nisso que pensei ao ler este texto do Tolentino sobre o Natal. E sonho já com a tarde de amanhã: antes da Consoada passearemos com os cães ao longo do Reno. Saboreando a tranquilidade - e também a alegria de encontros feitos de bem querer.

A todos os que aqui passam, desejo alguns momentos de tranquilidade e recolhimento neste tempo de Natal.

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O texto do Tolentino no Expresso:

Uma das mais belas correspondências de Natal que conheço é a que o poeta Rainer Maria Rilke manteve com a mãe, ao longo de vinte e cinco anos. Claramente as cartas de ambos deveriam ser escritas e recebidas antes da festa. A mãe, Sophia Rilke, residia estavelmente em Praga, mas Rainer Maria era uma espécie de apátrida espiritual, girovagando por refúgios de empréstimo. A distância geográfica ou as dificuldades de comunicação não os impediram, porém, de manter, por longo tempo, um ritual preciso, cheio de ressonâncias: às dezoito horas em ponto de cada dia 24 de Dezembro, quando as mil luzes natalícias brilham mais ainda como que intensificadas pela chegada do último crepúsculo antes da grande festividade, eles finalmente abriam, com viva e lentíssima emoção, a respetiva carta natalícia. O traço porventura mais surpreendente desta correspondência é que ela constitui um ensaio sobre aquela solidão que experimentamos no Natal, e que exploramos tão pouco. Há uma desaceleração interior que sentimos e que, por desconfortável que possa ser, constitui uma oportunidade para entrarmos dentro do nosso próprio coração. E o coração, mesmo no seu quebrantado pulsar, mesmo no seu doloroso esvaziamento, é, como escreve Rainer Maria Rilke, “uma ilha de Deus, uma filial do céu”. A solidão própria do Natal vem, por isso, descrita como uma irrevogável chamada ao recolhimento. É bom sentir que tudo em nosso redor, e que nós próprios, de repente, nos aquietamos. E que as horas se tornam entreabertas e misteriosas num modo que nos é inabitual, para não dizer desconhecido, porque “o infinito nos quer assim surpreender”. É bom sentir que o vazio que se sobrepõe a todos os embrulhos que trocamos, que o silêncio interno que fala mais alto que o vozear querido que nos circunda, tem, sem compreendermos como, a forma de um dom. Esse vazio, que resiste à avalanche de consolações que recebemos, é, de facto, o verdadeiro dom: a possibilidade não de desejar isto ou aquilo, mas de provar a explosão de um desejo em estado puro, em grau tal que só o podemos abandonar nas mãos de Deus. O resto, sim, são as nossas circunstâncias externas, provisórias e passageiras. O poeta insiste, e bem, em falar-nos das vantagens desse máximo recolhimento perante “o antigo, o santo esplendor da soleníssima vigília”. E escreve: “devemos permanecer silenciosos e solitários e pacientes para acolher em nós a graça de uma hora que a muitos não chega a revelar-se, porque neles há demasiado rumor... Tudo depende, afinal, de aprender a ligar-se àquilo que é grande, àquilo que vivemos apenas no coração e que nada pode turbar. Se nestes momentos de grande recolhimento e elevação compreendemos que a vida está naquilo que, palpitante e solene, se move em nós e nos deslumbra com lágrimas que brotam do profundo mais luminoso, então a modesta confusão que nos circunda ainda, o ordinário e o turbulento que corre não poderão já fazer-nos desanimar”. Talvez precisemos de aprender a abraçar a solidão de que facilmente fugimos, pois nela, e de uma maneira carregada de prodígio, acontece o Natal.


22 dezembro 2018

eterno retorno (2)


Então pronto, vou falar do tempo. Esta semana tivemos amanheceres como o desta imagem (os tais que fotografei em camisa de dormir, com os pés descalços no chão gelado).

Aliás, os amanheceres nas últimas semanas têm andado assim:


 



Ontem choveu o dia todo com desespero. O que é uma boa notícia, para compor os estragos da seca deste ano. Tive de sair para levar umas coisas a uma amiga, e no regresso fotografei as ruas, fascinada com os efeitos da luz dos carros nos passeios molhados. Esqueci-me que estava a fotografar com o flash, o que deve ter causado alguma irritação a alguns condutores, mas nenhum parou o carro para me exigir que parasse com aquilo, ufff. O flash involuntário deu imagens muito engraçadas, por iluminar os pingos grossos da chuva.

(Agora é só torcer para que o meu telemóvel não apanhe reumatismo por causa da humidade)




 

eterno retorno



O facebook trouxe-me hoje esta foto de volta, aqui publicada há 3 anos.

Logo agora: o amanhecer na nossa cozinha tem sido assim esta semana.

(o que não é assim tão maravilhoso: eu em camisa de dormir e descalça, a fotografar no terraço gelado) (podia ser uma metáfora qualquer, que metáforas dão sempre jeito, mas se calhar é mesmo só patetice)

a seriedade do Spiegel


Por estes dias tenho pena de todas as pessoas que não entendem alemão. É que o modo como a revista Spiegel está a reagir ao caso do jornalista que forjava as suas histórias é fascinante: em nome da transparência, e tentando recuperar a confiança das pessoas, estão a contar tudo e a penitenciar-se largamente em público. Ontem li no próprio Spiegel online a queixa do jornalista que descobriu o que se estava a passar, dizendo que foi extremamente difícil conseguir que lhe dessem ouvidos dentro da empresa, e que o pressionaram imenso para desistir de fazer acusações ao colega (este era de tal modo apreciado por todos, e tão perfeito manipulador, que a direcção do Spiegel acreditou que a acusação seria fruto da inveja). Hoje li no mesmo site cartas dos leitores - desde "nunca mais, Spiegel!" até "vou continuar a acreditar na vossa revista", passando por "cambada de arrogantes! em vez de acusarem o vosso jornalista deviam olhar-se ao espelho e pensar melhor na pressão que impõem aos jornalistas para eles apresentarem histórias cada vez melhores".

Este esforço de autenticidade e transparência vai para além de todos os limites. Por exemplo, um dos chefes da Redacção contava na newsletter de ontem que está (estão) a viver um momento terrível, e que dá consigo a pensar "tivesses ido antes para piloto da Marinha, como era teu desejo de criança!" - um apontamento tão pessoal como nunca pensei ler a um alemão com o estatuto deste.

O Spiegel orgulha-se de ter uma equipa de "fact checker" cujo lema é: "não acredites em nada". Serão talvez esses os mais chocados com o que aconteceu. Mas a verdade é que o repórter mentiroso chegou ao ponto de falsificar e-mails para rebater as acusações do colega que desconfiava da seriedade do seu trabalho. E quem se lembraria de alargar o lema "não acredites em nada" até ao carácter dos colegas, de todos os colegas, mesmo dos mais premiados internacionalmente?

É um escândalo e um choque terrível, mas estamos na Alemanha: a empresa já tem vários grupos a trabalhar na identificação dos pontos fracos do sistema, e na identificação das falsidades nas reportagens publicadas. Estou convencida que vai sair desta crise em breve, e com o seu capital de confiança reforçado.

(Por mim, continuo cliente. Agora mais que nunca: casa arrombada, trancas à porta. Os cuidados, que já eram muitos, vão redobrar. E a acusação sobre a pressão exercida sobre os jornalistas vai com certeza dar que pensar e levará a algumas mudanças para melhor.)


muji



O prémio "melhor embrulho de Natal" vai para a loja Muji do Hackesche Markt (se calhar as outras também fazem o mesmo, mas eu tento falar só do que vi com estes talicoisos): dão-nos um saco de papel pardo grosseiro para nós carimbarmos com os nossos motivos preferidos (e tem dezenas deles). Depois escolhemos o cartão dobrado (a dobra mais pequena tem espaço para escrever o nome) e depois a senhora mete o produto comprado no saco e fecha-o cosendo tudo numa máquina com fio branco grosso.

Uma pessoa anda a tentar reduzir ao máximo as compras de Natal, e depois aparece-lhe uma loja assim pela frente! Não há condições.

Para o caso de alguns dos meus leitores serem de Lisboa e se estarem agora a lamentar por não terem uma Muji, olhem: amanhã (sábado) é dia de Venda de Natal na Tinta da China. Talvez não tenham máquina de coser, mas têm bolinhos e autores a autografar o respectivo livro (e às tantas até os dos colegas, sabe-se lá) (pedindo com jeitinho...).


21 dezembro 2018

quem precisa de fake news quando os media fazem o trabalho do Bannon?


 (foto: Paul Zinken/dpa)
Escrevi o post "aviso aos navegantes: estão a marcar uma revolução para amanhã" há algumas semanas, comentando um vídeo que andava no youtube para convocar a revolução dos coletes amarelos na Alemanha.
(Será que se pode dizer "revolução" quando a agenda é retrógrada?)
Só vi esta convocação na internet. Os meios de comunicação social alemães que frequento ignoraram ostensivamente. E uma amiga portuguesa criticou-me por contribuir para dar visibilidade à convocação - no que estava muito certa.
No dia marcado não estava na Alemanha. Li nos media alemães online pequenos apontamentos do ridículo, do género: três homens com coletes amarelos parados numa passagem de peões a interromper o trânsito, o pessoal a perguntar "isso é que é a revolução?" e a polícia a multar os três gatos-pingados por estarem a provocar desordem na via pública. 
Se bem entendi, os meios de comunicação social portugueses fizeram a escolha de divulgar ao máximo a convocação para uma iniciativa semelhante em Portugal: sabotagens aleatórias ao serviço de exigências populistas. Preparo-me agora para um dia de notícias construídas numa lógica de autojustificação ("vêem como tínhamos razão para alertar o país para este perigo?").
O Bannon deve estar a morrer de riso. Ou então, chateado como os humoristas desde que o Trump chegou ao poder: "oh pá! façam o vosso trabalho e deixem-me fazer o meu! porque se fazem o meu, fico desempregado!"

20 dezembro 2018

um belo pequeno filme



A secção de filmes para crianças da Berlinale é uma perdição. Chego a ter ganas de ficar o dia inteiro na Haus der Kulturen der Welt, e esquecer o resto. Em 2018 tive a sorte de ver este "Lost & Found", que agora foi nomeado para o Óscar de melhor curta-metragem de animação.

Um belo pequeno filme --- e não apenas para o Natal.

(Mais material para ver: Vimeo)

(Claro que, se me deixassem mandar, nomeavam também o "Between the Lines", da Maria Koneva. Puro prazer da imagem, da música e da criatividade.)


19 dezembro 2018

ao anoitecer, uma pequena tradução para fazer um gostinho ao orgulho português

Da Newsletter "Die Lage", do Spiegel, de Dirk Kurbjuweit:


Perdedor do dia


DPA

Vejo, com alegria, que o Manchester United despediu o seu treinador José Mourinho. Ele é um dos treinadores mais desagradáveis do mundo, agressivo, vaidoso, invejoso, infame, brutal. Agora dir-me-ão que Schadenfreude também não é um traço de carácter muito elegante. Mas a verdade é que fiquei mesmo contente. Mourinho é o único treinador que tem condições para pôr ordem no FC Bayern, no meu Bayern, enquanto o clube estiver dominado por Hoeneß e Rummenigge. E agora está disponível para nós.

"Xerxes" (3)





7. Post de Lutz Brückelmann:

A maioria de nós deve conhecer Xerxes das aulas da história. Era o imperador persa que foi derrotado pelos gregos nas batalhas de Salamina, 480 a.C. e Plateia, 479 a.C.
Se os gregos não tivessem ganho essas batalhas, hoje o mundo estaria muito diferente. Não havia ciência, filosofia, democracia. Ainda viviamos na obscuridade do despotismo oriental. Aliás, isto quase é uma tripla tautologia: obscuridade, despotismo e oriental. Tal como os seus opostos: luz, liberdade e ocidente. É essa a nossa ideia comum que estou a caricaturar, mas só um bocadinho.
O mito de que a liberdade e a democracia foram salvos pelos heróis da batalha de Salamina, tem a sua origem na própria Atenas desta época e atravessou os tempos, tendo encontrado promotores entusiastas nos inteletuais e artistas amantes da época clássica até aos nossos dias. Mas os factos históricos hoje disponíveis mostram-nos que não é bem assim. É mesmo um mito.
É verdade que às Guerras Persas (a primeira houve em 479, quando Atenas em Maratona resistiu a uma expedição punitiva do antecessor de Xerxes, Dário) se segue a época áurea da cultura grega, da sua democracia, da construção do Acrópole, de Péricles e Sófocles, Sócrates e Platão, até ela se afundou na guerra civil, entre Atenas e Esparta, seguido pelo vendaval que era Alexandre, e da ocupação romana. Mas tal como a cultura grega continuava a dar frutos quando já tinha sucumbido ao império romano, tal a cultura grega já antes da invasão de Xerxes floria, e muitos dos seus protagonistas viviam no império persa, e as suas grandes descobertas foram feitas em cidades gregas sob a sua administração. Era o caso, por exemplo, com Tales de Mileto, 624-548a.C., Anaxímandro de Mileto, 610-547a.C., Pitágoras de Samos, 570-510a.C., e Heraklito de Éfeso, 520-460a.C.
Como era possível tanta ciênca e cultura sob o despotismo oriental? Pois bem. É certo que a Pérsia era um império cuja existência, como de todos os impérios, dependia da subjugação e exploração dos territórios subjugados. Mas para um império do seu tempo, a Pérsia e de Xerxes era extraordinariamente moderno, culto, tolerante e bem-gerido. Havia o poder central, com a capital Persepolis, uma cidade fundada para o efeito e que estava repleta de arquitetura monumental, com a sua burocracia empenhada em administrar de forma racional e de preferência pacífica um território em que viviam 44% da população mundial, e havia os povos subjugados, que eram governados por „Sátrapas“, governadores aos quais cabia a cobrança dos impostos e, em caso de guerra, a mobilização de homens para as tropas. Quando for considerado oportuno, estes sátrapas podiam ser tiranos, como foi o caso em Mileto. Mas na maior parte, deixava-se às províncias bastante autonomia, incluindo a religiosa. Impostos foram cobrados com moderação, pois a administração estava ciente de que era preciso não matar a galinha que punha os ovos. Aconteceu que nas cidades da Iónia, ou seja nas ricas cidades portuárias gregas na costa oeste da Ásia Menor, as galinhas achavam que deviam ficar elas próprias com os seus ovos, apostando na ajuda dos seus primos na Grécia europeia. Isto Xerxes entendeu não poder tolerar. Como é sabido, a invasão lhe correu mal. Felizmente para nós. Provavelmente. Ou não. Uma coisa é certa. De bárbaro e obscuro, o império persa tinha muito menos do que aquele que o derrubou 150 anos mais tarde. Que era o grego de Alexandre.

Adenda:
Não fiquei completamente a vontade com o que escrevi ontem. É sempre problemático condensar em 500 palavras uma apreciação dum acontecimento histórico de relevância mundial. Mais ainda quando se acrescenta ao arrojo, como no meu caso, uma falta grande de conhecimento consolidado da matéria e de tempo de estudo e reflexão. Mas, costumo desculpar-me: a EI não é nem pode ser um lugar de rigor científico, nem sequer tem os mecanismos de controlo de qualidade - falíveis - da Wikipédia. Sé uma entrada serve para enunciar um aspeto ou uma ideia e assim convida o leitor para uma investigação mais aprofundada, já acho que alcançou ou que se pode esperar dela.
Assim, o que quero acrescentar neste post scriptum não vai sanar as fragilidades do post em cima, é antes um reconhecimento das mesmas, ao que contudo quero acrescentar umas palavras sobre o que nele me intriga mais:
Se Xerxes teria ganho a campanha de 479 e subjugado a Grécia europeia, o que teria sido o destino da civilização humana? - A resposta é fácil e impõe-se: Não sabemos!
Mas não negando isso, ocorreram-me algumas ideias muito especulativas: Quase de certeza não teríamos tido a época áurea da cultura grega, A vida de Sócrates teria sido tão diferente, o que Platão teria escrito não seria a obra que lhe conhecemos, se teria escrito de todo, o mesmo vale para Aristóteles e, de seguida, o que teria escrito S. Paulo, Agostinho, Aquino, Roger Bacon, Descartes, Kant, Montesquieu, Jefferson etc. ou seja, toda a historia da filosofia ocidental teria sido outra. Ou seja, ficamos sem cristianismo (pelo menos sem como o conhecemos: um derivado do judaísmo fertilizado pelo pensamento grego), sem humanismo, sem iluminismo, sem ciência moderna. Alto aí. Admitir que todas as grandes figuras do pensamento ocidental certamente não teriam tido ocasião de pensar e escrever o que pensaram e escreveram, não é a mesma coisa como dizer que nada comparável teria sido pensado e escrito por estes ou outros.
Como a história das ideias durante o reino persa comprova, este não tinha como caraterística de asfixiar qualquer pensamento e progresso intelectual. Assim, também não seria de presumir que no futuro teria tido na Grécia ocupada. E é de notar que o pensamento humanista e democrático sobreviveu muitos regimes e impérios posteriores ao persa, mais repressivos e obscurantistas. A ideia da democracia data pelo menos do tempo de Solon, de 600a.C., ou seja muito antes da época áurea do século V, e mesmo se não teria havido no tempo mais próximo sob a ocupação persa possibilidade de a experimentar na prática, ela não teria desaparecido por isso.
Aliás, parece-me redutor imaginar a história de ideias assim: Em determinada altura um génio tem uma ideia, e depois esta faz o seu caminho atravessando os tempos, se não ela ou todos os seu portadores forem extintos pela força.
É consensual que não era por acaso que essa ideia nasceu num ambiente de cidades de mercadores, num universo propício para facultar experiências ausentes noutras circunstâncias mais constrangedoras: o confronto com modos de vida e e pensar diferentes, a necessidade de negociação, ou seja de mediação de interesses, e a prosperidade, que faculta tempo a pessoas de se ocupar com questões que ultrapassam as questões de sobrevivência e da consolidação do poder.
Este ambiente cultural estava existente na Grécia antiga, e mesmo se este tivesse extinguido definitivamente pela ocupação persa - não é para mim nada óbvio que isso teria mesmo acontecido porque não teria estado no seu interesse (económico, pelo menos), é um ambiente que volta a surgir onde há comercio e cidades que com eles prosperam. Historicamente, isto aconteceu com resultados „democratizantes“ quer nas cidades da Hansa, na norte da Europa medieval, e mais acentuadamente nas cidades da norte da Itália, no Renascimento.


"Xerxes" (2)

3. Post de Eduardo Tavares:




Em 480 AC, no decurso da 2ª Guerra Médica, a Ática fora invadida pelos persas, e Atenas fora saqueada. Parecia estar pronta a vitória completa de #Xerxes, que vingaria a derrota de seu pai Dario I, 10 anos antes, na batalha de Maratona. Foi porém, no mar, no estreito de Salamina, uma ilha junto à península Ática, que, aproveitando a pouca largura do estreito, Temístocles liderou a pequena frota de 200 triremes atenienses contra os 1207 da coligação aquemênida.
A frota invasora tinha, além dos persas, elementos aliados e de zonas dominadas pelos persas, como fenícios, egípcios e até gregos de outras cidades.
A vitória ateniense será completa e reequilibrou o resultado desta segunda invasão persa, enviando de volta para Susa um cabisbaixo Xerxes.
Nessa mesma batalha participou um tal de Ésquilo, que virá um dia a ser conhecido pelas suas tragédias. Entre elas, uma muito especial, chamada Os Persas, caso único de uma tragédia cujo tema era não lendário ou mitológico, mas de um acontecimento contemporâneo à época.
Em 472 AC, então, foi apresentada ao público a tragédia, que ganhará o 1º prémio da respetiva Dionisíaca. O Corego (uma espécie de mordomo, incumbido pelo pagamento de parte das despesas) responsável pela peça foi não outro que Péricles...
A peça conta a história vista pelo lado dos Persas. A Raínha, mãe de Xerxes, que presentira que tudo correria mal, aguardava no seu palácio por notícias, e as notícias virão pelo "Mensageiro", personagem da tragédia que vem contar o que se passou. Logo conta que tudo correu mal em Salamina. Que os persas foram levados a pensar que os atenienses iriam aproveitar a noite para fugirem, cada um para seu lado, perante a enorme força naval. Mas não foi o que aconteceu. Pela manhã os atenienses lançam o seu ataque. Assim conta o Mensageiro, num texto fabuloso de evocação:
«Mas quando o galope dos brancos cavalos do dia enche a terra da sua fulgurante claridade, logo se ouve estrondear do lado dos Gregos um clamor que se assemelha a um canto e que é repercutido pela ilha rochosa.
O medo apodera-se então de todos os bárbaros, cuja espera se frustrou, pois não era para fugir que os Gregos entoavam aquele solene cântico, mas para se lançarem ao ataque, cheios de coragem e de audácia, e o estrépito da trombeta inflamava o seu exército.
Imediatamente, abatendo em conjunto os remos ruidosos, os Gregos ferem em cadência a água profunda; vemo-los avançar a toda a velocidade, crescendo ante os nossos olhos. A ala direita adiantava-se em boa ordem e atrás vinha toda a frota; ao mesmo tempo podia-se ouvir um grande grito: «Vamos, filhos dos Gregos, libertai a vossa pátria, libertai os vossos filhos e as vossas mulheres, os santuários dos deuses de vossos pais e os túmulos dos vossos avós; lutais hoje por todos os vossos bens.»
Do nosso lado, respondem brados. em língua persa; não é momento para demoras; e logo os navios se entrechocam, as rodas de bronze dá proa embatem umas nas outras. O primeiro ataque parte de uma nave grega, que despedaça inteiramente a armadura da proa de uma embarcação fenícia; depois cada qual ruma ao adversário que escolhe.
De início a torrente do exército persa resistiu; mas como a multidão dos nossos barcos se aglomerava num espaço estreito e não podiam assim socorrer-se mutuamente, antes se rasgando uns aos outros com os esporões de bronze, não tardou que ficassem sem remos, quebrados estes nesses constantes choques.
Então os barcos gregos, insinuando-se habilmente em volta deles, atingem-nos; voltam-se os cascos dos navios, e o mar desaparece sob uma infinidade de destroços e cadáveres sangrentos; os rochedos da costa estão cheios de mortos, e toda a frota dos Bárbaros foge em desordem à força de remos, enquanto os Gregos os espancam como aos atuns ou aos outros peixes apanhados na rede e lhes partem os rins com pedaços de remos quebrados e restos de tábuas.
Os gemidos e os soluços mesclados ouvem-se longe no mar, até à hora em que a sombria face da noite os furta ao vencedor. Mas é tal a imensidade das nossas perdas que nem que eu levasse dez dias a enumerá-las conseguiria chegar ao fim. Jamais, bem posso dizer-to, tal quantidade de homens morreu num só dia.»
O que levou a tal desastre, naturalmente, como em todas as tragédias, foi a Húbris... Dario aparece na peça como fantasma, a "Sombra de Dario" afirmando:
«Montes de cadáveres, até à terceira geração, falarão na sua linguagem muda aos olhos dos homens e dir-lhes-ão que um mortal não deve alimentar pensamentos acima da sua condição: porque a violência, desenvolvendo-se, produz uma espiga de desgraça que só fornece uma colheita de lágrimas».
As imagens são um esquema da batalha e uma estátua de Ésquilo, o tragiógrafo que combateu Xerxes...


4. Post de Joaquim Carreira:

Numa tradução de Urbano Tavares Rodrigues, eis como se apresenta Xerxes, no final da tragédia Os Persas de Ésquilo, numa patética lamentação fúnebre:

Xerxes
"Ah, que desgraçado sou por ter caído sob um fado tão terrível e imprevisível! Com que crueldade o destino se abateu sobre a raça dos persas! Miserável, que vou eu ser? Sinto a força dos meus membros enfraquecer à vista dos velhos da minha cidade. Ah, por que razão, oh Zeus, o destino não me mergulhou também na morte, com os guerreiros que já não são deste mundo?"
O Coro acusa o jovem rei persa do seu hediondo e caprichoso crime e do seu despotismo como causa da catástrofe em Salamina:
O Coro
"Esta terra geme pela juventude nascida no seu solo e morta por Xerxes, abastecedor de Hades, que ele encheu de persas. Descendo à mansão de Hades, morreram em massa compacta miríades de homens, flor deste país, archeiros triunfantes. Choremos, choremos, os nossos valorosos defensores."
In Clássicos Inquérito, Editorial Inquérito, Lisboa


5. Post de Elisa Costa Pinto:

‘LÁGRIMAS DE XERXES’, conto de MACHADO DE ASSIS, 1899
"Cousas duras. Heródoto conta que Xerxes um dia chorou; mas não conta mais nada. Os ventos é que me disseram o resto...", diz Frei Lourenço a Romeu, num conto de Machado de Assis.
Pois é, todos os homens choram, mesmo os mais poderosos ou temíveis. Neste conto, construído integralmente em diálogo, o mestre do Realismo brasileiro coloca em cena as personagens da mais chorona das tragédias de Shakespeare para criticar não Shakespeare, mas o Romantismo. Um dos pontos altos da conversa entre Romeu e Frei Lourenço tem como assunto, imagine-se, as lágrimas de Xerxes que, segundo Heródoto, um dia caíram no rosto do terrível persa. Preciosas lágrimas que, de raras, mereceriam ser guardadas para sempre. Como? Para quê? O diálogo é bem interessante.


6. Post de José Praça:

Xerxes, com todo o seu poder, precisou da ajuda de um traidor grego, Efialte de seu nome, para contornar a resistência de um punhado de espartanos na Batalha das Termópilas. A resistência dos gregos foi tão denodada, que Xerxes violou a ética do combate e ordenou que fosse degolado o corpo do rei espartano Leónidas, morto na batalha, e a sua cabeça empalada num poste.
Quanto a Efialtes, o seu nome é ainda hoje associado na Grécia a traidor, ao mesmo nível de Judas. Sendo recorrente na História o triunfo da traição, não espanta que Konstantinos Kaváfis tenha escrito estes versos, agradecidos mas desesperançados.

Termópilas (1903)
Honra a todos aqueles que na vida
Termópilas fixaram para guardar,
que do seu dever nunca se desviam
e justos são na acção e sempre rectos,
mas nunca perdem pena e compaixão;
se ricos, generosos, e se pobres
ainda generosos com seu pouco.
Que acodem sempre a todos quantos podem;
e, que à verdade sempre são fiéis,
mas não guardam rancor aos que são falsos.
E honra ainda maior lhes é devida,
se já prevêem (são tantos os que o fazem),
que no fim há-de vir um Efialte,
e os Persas no final irão passar.
Konstantinos Kaváfis - 145 Poemas
(traduzido do grego por Manuel Resende)


"Xerxes"

Dia de "Xerxes" na Enciclopédia Ilustrada. Começo pelo meu habitual "dar água sem caneco", e nos posts seguintes partilho também algumas publicações dos colegas enciclopedistas.

1.
Se ainda ninguém falou da famosíssima ária "Ombra mai fù", da ópera Xerxes de Händel, aqui está ela, pela voz de Philippe Jaroussky.



A ópera começa com esta ária. No seu jardim, Xerxes contempla embevecido a sombra de um plátano. Deve ser um platano de mau olhado, porque dali para a frente só faz asneiras: decide casar com Romilda, que tem um caso de amor correspondido com o irmão de Xerxes; esta distracção sentimental provoca a tristeza e a fúria de Amastre, prometida do rei. Depois de muitas confusões, Romilda acaba a casar quase por engano com o homem que ama, e então a Xerxes dá-lhe um amok e vai conquistar a Grécia (mas esta parte já não vem no libretto da ópera).
Pensava eu que este "Ombra mai fù" tinha o início mais sublime de todas as árias, mas isso foi até ouvir o início de "Alto Giove" da ópera "Polifemo" de Nicola Porpora, cujo início dá 10 a 1 ao da ária de Händel.



Voltando à ópera: vi-a numa encenação da Komische Oper que recuperava o imaginário barroco com muita graça. O problema é que a Komische Oper volta e meia vende os fatos e adereços das óperas, de modo que passei o tempo todo dividida entre a música e a passerelle...




2.
Xerxes há muitos, para além do de Händel. Os arménios, por exemplo, tiveram um rei Xerxes (228-212 a.C.) cuja vida daria bem uma ópera barroca.
Este Xerxes dos arménios seria provavelmente filho do rei Abdissar, da dinastia dos Orôntidas, que - espertinho! - se teria tentado esquivar ao poder dos Selêucidas e deixar de lhes pagar tributo. Ora, Antíoco III não gostou, e foi cercar a cidade de Arsamosata, onde estava Xerxes. Este, ao ver aqueles soldados todos a aproximar-se, pôs-se ao fresco. Mas depois caiu em si: "oh caraças! se deixo estes okupas entrar na minha casa fico sem ela!" - elementar, diria o Sherlock Holmes. De modo que mandou emissários a Antíoco III, oferecendo a possibilidade de estabelecerem conversações. Os conselheiros de Antíoco III sugeriram-lhe que afastasse Xerxes, e desse o lugar deste ao seu próprio sobrinho. Mas Antíoco preferiu um acordo com Xerxes: este manteria o trono se se subjugasse de novo ao selêucida, sublinhando essa intenção com a disponibilização de 1000 cavalos e 1000 mulas, enquanto Antíoco III, por sua vez, lhe perdoava a dívida do pai. Simultaneamente, Xerxes casava-se com Antióquide, a irmã do rei selêucida.
Esta Antióquide devia ter um feitio como o nome dela, porque arranjou de lhe matarem o marido antes de festejarem o primeiro aniversário do casamento, para entregar o seu trono ao irmão. Só que este andava muito ocupado em campanhas militares, e passou o trono a Abdissares, filho (ou talvez irmão) de Xerxes.
As minhas fontes são omissas no que diz respeito às relações entre madrasta (ou cunhada) e enteado (ou cunhado).
Agora, digam lá se Händel não tinha aqui matéria para uma bela ópera?

PS. Deste Abdissares pouco se sabe. Excepto que o seu perfil cunhado numa moeda é tal e qual o do nosso colega enciclopedista Joaquim C.
Agora, digam lá se o Woody Allen não podia fazer um belo filme com este rapaz que chega ao trono quase por acaso numa das regiões politicamente mais instáveis do mundo, e 2.200 anos depois leva uma pacata existência em Lisboa?


fecha-se uma porta abre-se uma janela



Que estranho: nunca tinha reparado na beleza dos joelhos deste David. Obrigadinha, tumblr!

(a segunda fotografia é só para despistar, na esperança de que ninguém se lembre de perguntar em que é que eu reparava antes de porem calções ao rapaz) (reparava no equilíbrio das proporções do conjunto, ora essa!)


bem conservados



Este homem deve andar muito bem conservado em álcool.

E nós: andamos conservados em quê? Como é possível aceitarmos ter à frente da Comissão Europeia alguém que já por várias vezes deu sinais de estar embriagado no trabalho (1) (2) (etc.)?

Não nos levamos a sério?


18 dezembro 2018

o regresso do cartesianismo


Alguém se deu ao trabalho de criar esta imagem com alguns dos sites de fake news que servem (digamos assim) o mercado português.

Pela segunda vez nas últimas semanas dei-me ao trabalho de ir verificar no facebook se por acaso teria caído em alguma dessas armadilhas. Por sorte não era seguidora de nenhum dos sites, mas encontrei por lá muitas caras que conheço do facebook. Curiosamente, algumas das que seguem vários desses sites são pessoas que têm uma presença tão desagradável nas redes sociais que me dá vontade de as pôr à distância. Mas vou deixando ficar, para a minha bolha não ficar demasiado confortável (a cada um os seus cilícios).

Tivesse eu tempo, e fazia uma lista do número de sites de fake news que seguem. Sempre arranjava uma maneira mais pedagógica de terminar as discussões irracionais: "ó amigo, consigo não é possível falar, você anda a ler demasiadas fake news!"


Da primeira vez que fiz esta pesquisa de armadilhas, avisaram-me: é um exercício quase em vão, porque estas listas não são exaustivas. Temos de estar permanentemente alerta, e desconfiar de tudo o que nos servem na internet. Temos de verificar sempre a veracidade dos factos, ou, pelo menos, as fontes.


(Mas a triste realidade é esta: se o Cepticismo Cartesiano fosse uma empresa cotada na Bolsa, provavelmente este era o tempo de vender, e não o de comprar as suas acções.)



17 dezembro 2018

girl crazy



Esta mulher - Barbara Hannigan - é inacreditável.
Vi-a de perto a dirigir e cantar esta peça de Gershwin no concerto surpresa que os filarmónicos de Berlim fizeram para se despedirem do Simon Rattle. E estou em crer que nesse dia o fez com mais fogo ainda que nesta gravação.

Por obra do acaso e da sorte assisti ao concerto na primeira fila do bloco A. Mais perto dela, só mesmo se fosse o primeiro violino. Também por obra do ocaso e da sorte os meus olhos não se esbugalharam a ponto de me saltarem da cara. Mas foi por pouco.

(Infelizmente este concerto de despedida não está no Digital Concert Hall. É pena, porque foi dos momentos mais tocantes e humanos que vivi naquele palco. Também teve passagens sublimes, é certo, mas o mais belo daquela noite foi um palco cheio de pessoas em intenso acto de sentir, a despedir-se de um amigo e de uma época.) (Um palco, disse eu? A sala inteira!) (Aquela humidade toda não deve fazer nenhum bem aos instrumentos.)


16 dezembro 2018

"Reacções aos ataques em Estrasburgo: só o terror é total"

Gostei tanto de um texto de opinião de Arno Frank no Spiegel, a propósito do ataque de Estrasburgo, que faço aqui uma meia síntese:

(texto completo em alemão: aqui)

Reacções aos ataques em Estrasburgo: Só o terror é total

Quem afirma que o francês Chérif Chekatt atacou "o nosso estilo de vida" dá demasiada importância a este criminoso - e contribui para promover a indignação nos media e o racismo.

Sexta-feira, 14.12.2018

O próprio "Estado Islâmico", sempre tão célere a declarar os ataques como iniciativa de um dos seus homens, demorou muito tempo a tomar uma posição sobre o ataque de Estrasburgo. Talvez esse atraso se deva ao facto de a milícia ter de momento outras preocupações, ou talvez até eles próprios estejam fartos dos criminosos que no último momento gritam "Allahu akbar" para dar aos seus actos um toque de choque civilizacional.

O francês Chérif Chekatt tinha no seu currículo 27 condenações em tribunal, e era conhecido pela sua enorme cobiça sem escrúpulos. Quem deu a um criminoso destes o mandato para "atacar o nosso estilo de vida"? E será que o seu acto de violência, apesar de tão brutal e sem sentido, põe realmente "um país inteiro em luto"?  

As actuais demonstrações dos "Coletes Amarelos" em França já provocaram seis mortes. Aparentemente, estas mortas são vistas pela sociedade como danos colaterais da agitação social, infelizmente impossíveis de evitar.

Porquê, então, esta consagração de Chérif Chekatt? Porque é que aceitamos dar à violência grosseira o significado mais "prestigiante" que o criminoso quis emprestar ao acto (e a si mesmo)?

Os media - e não apenas os franceses - pareceram reagir com uma espécie de alívio à notícia de que se trataria de um jihadista. Desse modo, pode-se dar um nome ao que não tem sentido: terror islâmico. Para os media, "Terror!" é um convite à indignação que podem oferecer ao seu público. Para o Estado, "Allahu akbar!" é uma provocação à qual pode responder com força executiva e gravidade simbólica, ao contrário do que é lhe é permitido perante um grupo de cidadãs e cidadãos com coletes amarelos que se identificam com Asterix e Obelix. Além disso, também entre nós há pessoas que só a contragosto ocultam o seu racismo ("o homem tinha raízes no norte de África!").

Um antigo correspondente da ARD foi atingido por uma shitstorm por ter mencionado o absurdo da percepção de risco na opinião pública, usando o exemplo das inúmeras vítimas mortais de infecções hospitalares por microrganismos multirresistentes. Pior do que isto, só mesmo se tivesse falado das vítimas de violência doméstica ou dos acidentes de viação. Foi acusado de "relativizar o terror". A verdade é que neste mundo tudo é relativo, excepto o terror - esse deve ser absoluto e, se dermos ouvidos à extrema-direita, deve ser combatido com métodos totalitários. Quem "relativiza" limita o valor de uma coisa, fragiliza o seu significado.

Pois é isso mesmo que tem de ser feito. Por respeito às vítimas e às suas famílias, e também por respeito à "nossa maneira de viver".

Mas só se a razão tiver ainda alguma palavra a dizer sobre
o caso.

15 dezembro 2018

quando a vida te dá um piano avariado...



Senhoras e senhores, tenho o prazer de apresentar: Eliane Rodrigues!
Quem não vir o vídeo, não vai saber nunca o que está a perder.

(que estranho, o La Palisse hoje levantou-se cedo...)

resistência


Esta manhã ouvi uma entrevista a uma senhora de Estrasburgo, que dizia que mal o mercado de Natal reabriu ela fez questão de o visitar. Com algum medo, acrescentou. Mas se evitasse o mercado de Natal estaria a oferecer uma vitória ao terrorismo.
Ouvi-a com um nó na garganta e um enorme respeito pela sua determinação. Viva a resistência!

Há bocadinho, e por mero acaso, estive com amigos no mercado de Natal de Berlim onde um tresloucado matou 12 pessoas. Mostrei-lhes o memorial desse atentado, e as velas que as pessoas continuam a deixar nas escadas da igreja em ruínas. Depois comemos salsichas com couve e bebemos vinho quente, no meio de centenas de berlinenses e turistas descontraídos e alegres.

A vida continua. E enquanto continuarmos a viver com alegria, ignorando o risco do terrorismo, este continuará a ser o que de facto é: um dos perigos que menos vítimas mortais causa nas nossas sociedades. Na Europa morrem muitas mais pessoas por culpa de condutores embriagados, ou por violência doméstica, que por acção de terroristas.


13 dezembro 2018

perdi o autocarro (2)

 
Recapitulando: perdi o autocarro por me ter posto a tirar fotografias, aproveitei a espera forçada para mais uns cliques às escuras e sem óculos, apanhei o autocarro seguinte, parei no Ku'damm para comprar óculos, perdi mais um autocarro, apanhei outro, e no caminho para o ensaio do coro fotografei ainda o arquivo da Bauhaus, que está fechado para obras. O projecto de alargamento é extraordinário, mas, infelizmente, não vai estar pronto em 2019 para o centenário da Bauhaus. Se for como o aeroporto de Berlim, às tantas nem para o bicentenário...

No regresso a casa não perdi mais nenhum autocarro. Aliás: apanhei o melhor de todos, porque ao meu lado sentaram-se algumas americanas bem-dispostas, e às tantas uma pôs-se a ler um poema para o grupo. Era de E.B. White, "Song of a bee" (escrito em 1945, uma paródia à informação dada pelo Ministério da Agricultura sobre a inseminação artificial das rainhas das abelhas ser difícil porque elas copulam no ar com qualquer zangão que lhes aparece à frente).

Esta cidade é um mimo.



 

 

E depois, mais para o fim do Ku'damm, vi que a loja de penhores para carros de colecção (que aluga os carros entregues como penhor) tinha um bólide realmente interessante. Mas um descapotável no inverno é má ideia, e além disso não deve ter pneus para a neve, e provavelmente estão verdes, não prestam, só os cães as podem tragar.


perdi o autocarro



Por causa desta foto, e de mais algumas como esta, perdi o autocarro.
Fazer o quê?
Aproveitei a espera para tirar mais algumas fotografias. Às escuras, e sem óculos (eu bem digo que nesta cidade se pode fotografar de olhos fechados).


















a mui incrível e sempre desejada Venda de Natal Tinta-da-china


Aviso urgente: este ano o natal foi antecipado para o dia 22 de Dezembro (e eu aqui na insularidade, snif snif snif) (isto de "snif snif snif" é choraminguice, não pensem que estou a snifar cola para esquecer a tristeza)

Ora bem: todo o catálogo Tinta-da-china (com descontos até 40%), os autores a dar autógrafos e embrulhos personalizados, café, chá e bolos. No sábado, dia 22.

(a língua portuguesa é muito traiçoeira: pergunto-me se os autores é que dão os embrulhos personalizados e os bolos) (ai, se eles vendessem também livros do Chico Buarque, ai, agarrem-me que... ) (quem lhe dava o embrulho personalizado era eu)

(descansem, já fechei o frasco da cola)

(espero que até os mais incautos percebam que estou a brincar com tudo, excepto com o mais importante: a Venda de Natal da Tinta da China é no sábado, dia 22)


12 dezembro 2018

o oportunista


Segundo ouvi hoje nos noticiários alemães, o suspeito do tiroteio em Estrasburgo já tem na sua história pessoal quase 30 delitos, e cinco anos de prisão, cumpridos uns em França e outros na Alemanha. Ter-se-á radicalizado na passagem pela prisão francesa. A polícia considerava-o um perigo potencial para a segurança, mas não tinha indicações de que estaria a preparar algo concreto.

Ontem, a polícia foi buscá-lo a casa por suspeita de estar envolvido numa tentativa de homicídio, não o encontrou, e à tarde ele desatou aos tiros no mercado de Natal de Estrasburgo, gritando em árabe que Deus é grande.

Ainda não se sabe se foi um acto de terrorismo.
Para mim, esta fuga para a frente tentando iludir o seu passado de delinquente com um acto de terror é outra coisa: oportunismo. 

O que mais me dá que pensar é este facto que já conhecemos de outros atentados: jovens delinquentes que se radicalizam na prisão. As prisões como escolas do crime e do terrorismo. Alguma coisa estamos a fazer muito mal. 


"Jesus é tão poderoso que conseguiu subir no pé de goiaba sem cair!"



Tempos difíceis, estes, quando ouvimos a escolhida por Bolsonaro para ficar à frente do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos a falar de momentos trágicos na sua infância, e só nos dá vontade de rir.

[Procurei em vários sites, e o nome é sempre o mesmo: Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Se Jesus se deixasse de subir às goiabeiras e viesse dar um jeitinho na gramática, isso é que era "proporcionar às crianças experiências extraordinárias" com ele! Já agora, podia dar uma mãozinha também em Portugal, onde há tanto um Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior como um Ministério do Planeamento e das Infraestruturas. A culpa deve ser do acordo ortográfico, que nos deixa fazer tudo de ouvido. Ou então, é o Jesus português que tem andado muito entretido a dar experiências extraordinárias às crianças em cima dos marmeleiros, e não trata do resto.]



até parece Natal



Esta manhã li o artigo do António Marujo no Religionline sobre o esforço de algumas Igrejas holandesas, que estão a manter uma celebração religiosa ininterruptamente há seis semanas para impedir que uma família arménia seja deportada (está aqui - vão lá ler o poema do miúdo), e agora este anúncio de uma cadeia de supermercados, que termina com "O Natal não precisa de muita coisa - basta o amor". 
Assim não há condições para o cinismo.

11 dezembro 2018

ainda faço aqui uma filial da ONU


Diz-me o airbnb que desde 2015 já recebi em minha casa 567 pessoas, provenientes de 36 países diferentes. E parece que a maior parte deles gostou muito, de tal modo que já nem sei há quantos trimestres seguidos continuo a manter o selo de superhost.

E diz-me este mapa que já cá tive alguns japoneses.
Japoneses?! Não me lembro nada. Será que vieram disfarçados de americanos? É que também não me lembro nada de ter tido tantos americanos.

Não desfazendo, o que eu gostava era de ter quase só mães de família do sul da Alemanha. Deixam tudo impecável, até puxam o lustro às torneiras da casa de banho e tudo. Uma delas deu uma volta ao armário da cozinha - e ficou tudo tão bem arrumado que adoptei o método dela. Tenho andado a pensar convidá-la para ficar gratuitamente um mês inteiro, para arrumar os restantes armários da casa.

Também não me importava de ter mais daqueles - ai! esqueci de que país! talvez fosse a Malásia, talvez fosse o Paquistão - dois homens jovens que não me deixaram limpar o quarto nem mudar a roupa da cama. Disseram que estava tudo impecável. Só depois de insistir consegui mudar as fronhas de almofada. Penso que já falei deles aqui, mas repito-me porque continuo muito impressionada com aquele exemplo.

É óbvio que mudo sempre as roupas de cama antes da chegada de novos hóspedes, embora às vezes, quando estou a fazer todas aquelas máquinas de roupa, me pergunte o que os nossos tiques de primeiro mundo andam a fazer ao meio ambiente. Mas depois lembro-me do risco da sarna, da boa educação, da ASAE e coisas assim, e decido poupar o meio ambiente de outras maneiras.

Trinta e seis países, dizem-me. Já devia ter aqui muita matéria para firmar conceitos e preconceitos, mas não: não me tem sido possível fazer uma estatística sobre hábitos, vantagens e desvantagens dos nacionais de cada país. Nestes três anos só me têm acontecido pessoas, em vez de nacionais.


08 dezembro 2018

Berlin by night

 
 

Em Berlim, no segundo fim-de-semana de Advento têm lugar dois dos meus mercados de Natal favoritos.

Embora - talvez - não seja boa ideia voltar aos lugares onde se foi feliz com neve, quando o inverno berlinense mal consegue fazer chover quanto mais nevar, hoje estive no mercado do Jagdschloss Grunewald. Pareceu-me ter menos graça - ou então sou eu que estou mal habituada.

Mas não se perdeu tudo: entrei no palacete para rever os quadros do Cranach, e arrepiei-me com a turista que na sala onde estão todas as cenas da Paixão olhou distraidamente para um dos quadros e disse "acho que este é Jesus". Voltei a arrepiar-me com as cenas de caça no rés-do-chão (aquilo é que eram umas belas tradições! nem sei porque é que acabaram com elas...).

E depois fotografei a floresta, o palácio e o lago de Grunewald no meio da escuridão. Berlin by night.