28 fevereiro 2010
o imperativo categórico e o seu avesso
Confesso que não entendo. O que leva as pessoas a contar abertamente que fizeram algo que não deviam ter feito? O que leva os leitores a aceitar alegremente a descrição de um acto ilícito?
O fenómeno tem pelo menos a vantagem de mostrar que a frase "os políticos são todos iguais" (ou a sua variação: "os de lá de cima são todos iguais") está incompleta.
Iguais a quem? A este povo.
O imperativo categórico de Kant propõe como norma: age de modo a que a máxima do teu agir se possa tornar lei universal.
O que vemos aqui é o contrário disso: as pessoas gabam-se de ter agido de modo errado, e recebem aplausos do coro de seguidores.
Como se o facto de falarem abertamente sobre o que fizeram tornasse lícito e banal o que não o é.
E eis como na bloga portuguesa se inventa a antítese do imperativo categórico de Kant: gaba-te de modo a que o teu agir se torne desculpa universal.
Que tipo de país é que construímos com comportamentos destes?
27 fevereiro 2010
o "dois dedos de conversa" tentando dar um empurrãozinho à economia portuguesa
Mas esqueceram-se de me dizer o nome das marcas que tanto me recomendaram.
Portantos: agradeço que me dêem agora esses nomes, o mais depressa possível.
As feiras internacionais estão a decorrer este mês, e convinha eu receber as recomendações antes da Feira de Düsseldorf.
É por uma boa causa, claro: estou a ver se me dão uma medalhinha no 10 de Junho. Ia ficar muito bem ao pé das outras, a "escola de ski de Serfaus" e a "amor de madrinha".
(Claro que este pedido só se destina à pessoa que me falou disso, e mais à Teresa.)
(Teresa, tu sabes quem és: a especialista de C-A-R-T-E-I-R-A-S.)
(Ah, e as portuguesas que moram na Alemanha também podem fazer sugestões.)
(Mas vejam lá, não me envergonhem indicando firmas que fazem porcarias e/ou não cumprem prazos.)
os meus dias são melhores que as minhas noites
(O Matthias está a aprender a valsa op.69, nº2, e já toca algumas passagens com muita delicadeza.)
26 fevereiro 2010
o colo
Margot Kässmann, presidente do Conselho da Igreja Evangélica Alemã e bispa de Hannover, demitiu-se do cargo depois de ter sido detida por estar a conduzir embriagada (se querem ler sobre isto sigam para a Helena, que eu só para aqui estou por causa de uma frase). Na sua carta de demissao em que explica porque nao sente ter condiçoes para continuar (se Portugal fosse um país civilizado, iata, iata, iata, isso também é noutro post qualquer) acaba com esta frase fantástica: "Para terminar, algo que aprendi com outras crises: nunca se cai mais fundo do que nas mãos de Deus".
Eu, que vou sendo sem Deus, chamo-lhe amigos, família, montanhas do vale do Lima, Alvaredo, às vezes até lhe chamo sentido de humor, papel e caneta. Vocês nao sei. Mas nao se devia ter de viver sem esta segurança magnífica, esta certeza redentora. Torna-se tudo tao mais fácil quando conhecemos, no meu caso na medida do possível, no dela num absoluto que nem consigo alcançar, a fronteira possível do nosso abismo.
25 fevereiro 2010
a propósito do caso Margot Kässmann

Margot Kässmann, a presidente do Conselho da Igreja Evangélica Alemã demitiu-se ontem desse cargo, e também do de bispo de Hannover, na sequência de um incidente ocorrido sábado passado, em que foi detida por estar a conduzir embriagada.
Por coincidência, no mesmo fim-de-semana, o cardeal Georg Sterzinsky fizera ler nas paróquias berlinenses uma carta pastoral (aqui, em alemão) onde referia a exigência e as expectativas dos católicos em relação à sua Igreja que, por motivos vários (e nomeava explicitamente o escândalo de pedofilia que tem chocado o país), vão dando lugar à frustração e ao afastamento. A Igreja de Deus é uma Igreja de pecadores, dizia o cardeal, e acrescentava: isto não é uma constatação, mas uma verdade da fé, que a Igreja tem conhecido nestes dois mil anos de história; ela é a comunidade para a qual o Senhor fala, e é para os pecadores que Ele fala, para que se convertam e santifiquem, sabendo contudo que eles serão sempre tentados pelo pecado.
Concluindo, um pouco adiante: "Por isso fico na Igreja. Não porque ela seja uma comunidade elitista de personalidades de elevada moral, mas porque é este "povo de pecadores". E, dado que também eu sou um pecador, é esta a minha Igreja, na qual permaneço, porque só ela me dá esperança e futuro. Igreja de pecadores para pecadores -, para se tornar Igreja de santos."
A carta toca outros aspectos, mas este interessa-me particularmente porque denota uma atitude oposta à patente na demissão de Margot Kässmann, tal como ela própria explica:
(texto original aqui, tradução do Speedy Gonzalez):
"Na noite de Sábado passado cometi um erro grave, que lamento profundamente. Mas, mesmo que o lamente e faça a mim própria todas as recriminações que se justificam numa situação como esta, não posso e não quero ignorar que feri a instituição e a minha autoridade como bispo e presidente do Conselho.
A liberdade, que até agora tive, para apontar e analisar desafios éticos e políticos, iria desaparecer no futuro. Só é possível manter-se firme perante duras críticas - como as que, por exemplo, foram suscitadas pela frase "nada está bem no Afeganistão" - se existe um reconhecimento incondicional do poder de convicção pessoal.
Um dos meus conselheiros lembrou-me ontem uma frase do Eclesiástico: "Segue o conselho do teu coração" (37,17). E o meu coração diz com clareza: falta-me a autoridade necessária para continuar este serviço. Algumas das leituras que tenho feito não são compatíveis com a dignidade deste cargo. E, para além deste cargo, também estão em causa o respeito e a consideração pela minha rectidão, que me são muito importantes.
Declaro que me demito imediatamente de todos os meus cargos eclesiais.
Durante mais de dez anos fui bispo, serviço que desempenhei de corpo e alma, e ao qual entreguei todas as minhas forças. Continuarei pastora da Igreja de Hannover. Nos 25 anos que se seguiram à minha ordenação acumulei diversas experiências que levarei com gosto para outros locais.
Lamento decepcionar tantos dos que me pediram para permanecer neste cargo, sim, dos que com confiança me escolheram para ele. Agradeço a todos os que me apoiaram e ampararam, agradeço todas as mensagens e flores que nestes dias tão bem fizeram à minha alma. Agradeço penhorada ao Conselho da Igreja Evangélica Alemã (EKD) a confiança que ontem manifestou claramente. Agradeço a ajuda de todos os colaboradores e colaboradoras da Igreja de Hannover e da EKD, funcionários e voluntários. Em especial, agradeço à minha equipa mais próxima, que em situações difíceis se manteve leal. Agradeço a todos os amigos e amigas, a todos os bons conselheiros. E agradeço às minhas quatro filhas o apoio manifesto e claro à minha decisão, e a sua presença aqui neste momento.
Para terminar, algo que aprendi com outras crises: nunca se cai mais fundo do que nas mãos de Deus.
Também hoje me sinto grata por esta confiança que me vem da fé."
Embora os seus defeitos não sejam ignorados, esta mulher é muito apreciada, e não apenas entre os evangélicos. Ainda recentemente o Presidente da República louvava as suas intervenções (embora não concorde inteiramente com tudo o que diz, acrescentava) e afirmava que pessoas como ela fazem falta na nossa sociedade.
Hoje, encontro na internet imensos comentários lamentando esta decisão. As pessoas compreendem e respeitam, mas sentem que é uma grande perda para este momento da sociedade alemã.
A Alice Schwarzer afirma que é uma decisão errada, e que "se fosse homem não teria agido assim". A televisão mostrava ontem imagens de pessoas nas igrejas, em oração para que ela não desistisse deste cargo.
E então vem a Sábado, e diz assim: "A líder religiosa encontra-se de novo na mira da imprensa. Já a sua eleição havia sido polémica, devido ao facto de ser mulher e divorciada."
É o mundo em versão Tom e Jerry.
24 fevereiro 2010
a desconstrução da desconstrução
Vão fazer muito pó?, perguntei eu, com uma réstea de esperança.
Enfim, algum já vamos fazer..., respondeu um dos rapazes - o único que arranhava um bocado de alemão(**).
Cobri os computadores e as restantes máquinas com uma folha enorme de plástico, e preparei-me para um dia sem ligação à net.
Nada como as pequenas contrariedades da vida para uma pessoa descobrir novas oportunidades, que é como quem diz onde se fecha uma porta abre-se uma janela, e há que estar sempre atento e aproveitar com sabedoria o que a vida nos oferece.
No caso: passei duas horas a arrumar a despensa, que é uma daquelas tarefas importantes mas nunca urgentes.
À hora do almoço tive um sobressalto: o que vou fazer para o jantar?
E a Elvira tão inacessível.
A vida, ainda agora o disse e já me estou a repetir, oferece sempre novas soluções criativas para ultrapassar dificuldades. Logo descobri uma embalagem de couscous que já passou o prazo de validade, e decidi ali mesmo fazer tabbouleh para o jantar.
Não tinha computador, mas tinha livros. Por acaso no entretanto cobertos por uma camada uniforme de pó.
(se eu desaparecer por uns tempos, é porque estou a limpar os livros um a um)
(mas dava-me jeito que a vida se lembrasse de uma solução mais airosa para resolver este problema)
Toca de ir buscar os livros de cozinha marroquina. Estudei atentamente três deles sem encontrar o que queria.
Meia hora mais tarde descobri que tabbouleh não é marroquino, é libanês. Nunca percebi muito de geografia.
E meia hora mais tarde os miúdos chegaram a casa e sentaram-se ao computador por baixo da folha de plástico.
(*) Quando os berlinenses pensavam que a Primavera vinha aí a passos largos, hoje houve chuva gelada e neve. Belo dia para trocar uma janela enorme!
(**) Os rapazes eram polacos. A Polónia começa a 80 km de Berlim, e o pessoal de lá é mais barato.
Eu preferia pagar um pouco mais, e ter o trabalho bem feito por alemães. Não é uma questão de xenofobia, é mesmo de formação. O sistema de educação e formação profissional da RDA era excelente, o da Alemanha Ocidental também é.
O nosso senhorio acha melhor empregar polacos. Estava com vontade de o avisar "olhe que o barato sai caro", mas algo me diz que é um bocadinho ridículo uma remediada como eu ir dar aulas de gestão a um multi-milionário como ele. Ficamos assim, portanto.
23 fevereiro 2010
"o que é que vou fazer hoje para o jantar?"
O que é que vou fazer hoje para o jantar?
22 fevereiro 2010
estava aqui a pensar com os meus botões...
Imaginando que ganha 10 euros à hora: se durante seis meses trabalhasse quarenta horas por semana, receberia 40 h x 10 € x 4 semanas x 6 meses = 9.600 €
O que seria pouco menos de metade do que o Estado pagou ao João Galamba pelo tal estudo realizado com um prazo de seis meses.
Onde é que está o escândalo?
Para mim, o escândalo está na divulgação deste montante. Ou talvez não seja um escândalo, mas uma oportunidade: se na Europa se sabe que os consultores portugueses trabalham por estes preços, pode ser que se interessem por importar esses serviços.
Por outro lado, muito eu gostava de ver publicada a declaração de rendimentos - a verdadeira, sem retoques - de alguns dos escandalizados.
***
Um não-escândalo, mais uma vez. Insinuações que só funcionam para quem não gosta de fazer contas e se deixa levar pela inveja.
Seria um escândalo se o preço estivesse acima dos padrões normais ou se a qualidade do trabalho estivesse abaixo do exigível. Mas sobre isso ninguém falou. Bando de alarves.
60ª Berlinale, 61ª Berlinale

A sexagésima chegou ao fim, triste vida.
Para a sexagésima primeira tenho de me organizar melhor:
- arranjar o programa com antecedência,
- parar tudo para o estudar a fundo,
- ir para a bilheteira logo no primeiro dia,
- comprar online e atempadamente os bilhetes para "cinema e culinária", com filmes onde a cozinha é personagem central, precedidos de um jantar assinado por alguns dos melhores cozinheiros de Berlim. Este ano o lema era "in the food of love" e entre outros oferecia, por 39 euros, o filme Tuan Yuan ("separados juntos") de Wang Quan’an (que em 2007 recebeu o Goldener Bär para o filme "Tuya’s Wedding") e um jantar do Tim Raue, inclusivamente bebidas.
Deste festival, para além do Metropolis na Arte, só vi dois filmes: Mammuth, com um Depardieu hilariante, e The Kids are All Right, que conta a história de um casal de lésbicas cujos filhos resolvem ir à procura do pai biológico.
Já lhe chamam "o primeiro filme da era Obama". Veremos.
Vi-o ontem, numa sala repleta de casais do mesmo sexo. Enquanto esperávamos pelo início, tive um leve sobressalto: "espero que ninguém se lembre de deitar aqui uma bomba". Em Berlim (até em Berlim!) há um número assustador de actos de grande violência contra homossexuais.
Por uns momentos experimentei mocassins alheios - e confesso que não são nada confortáveis.
Quanto ao filme: passámos hora e meia a rir com gosto perante aquela descrição muito descomplexada da, digamos assim, normalidade da dificuldade das famílias.
Se chegar a Portugal, não percam. Contudo, previno que tem cenas muito explícitas - por exemplo, de um vídeo pornográfico para gays. Nessas alturas, a sala rebentou em gargalhadas devido à graça do contexto - reacção que não me surpreende: será o mesmo tipo de público que não se choca ao ver um exibicionista no altar durante uma celebração. Mas como será que outras sociedades vão reagir a este filme?
Nota: por ser um aniversário especial, o cartaz desta Berlinale trazia o nome de todos os filmes que passaram por ela nestes 60 anos. Bela ideia para os hamsters de recordações.
Bios Politikos
(roubei a gracinha ao Miguel Silva)
(e acrescento: agora também com óptimos comentários)
(Rita, a propósito do que dizes sobre este post: obrigadinha, salvaste-me o amor-próprio. Andava eu convencida que sou a última lorpa da blogosfera portuguesa, por querer a todo o custo imaginar que os tais e-mails chegaram às mãos do Eduardo Dâmaso via hacker, porque qualquer outra possibilidade era praticamente inconcebível, e vens tu e dizes-me que sou um caso raro, mas positivo. Obrigadinha!)
imagem de nós
Se isto não é escrever muito direito por linhas muito tortas: eu, que nunca fui à Madeira, que me irrito com as jogadas do Alberto João Jardim, e que ainda na semana passada estaria capaz de escolher "sim" num referendo sobre a independência daquele arquipélago, ao ver aquelas imagens sinto que é a "nós" que isto está a acontecer.
Alguém pode dizer-me o número da conta bancária de um organismo sério que esteja a ajudar as vítimas?
***
Não há mês (ou talvez semana?) que não passem na televisão alemã notícias de uma catástrofe natural. Contudo, as imagens que nos chegam da Madeira têm um outro grau de dramatismo. Nos poucos segundos que a televisão alemã reserva para cada notícia, desta vez vimos estradas a aluir e massas de água a rebentar, para além dos habituais carros a boiar na água e os esforços dos bombeiros para salvar as pessoas. Comparando com o que se mostra de outras tragédias semelhantes, é um fenómeno algo inusitado: parece que há na ilha inúmeros caçadores de imagens - o que é sinal de um povo perfeitamente familiarizado com o espectáculo mediático e tecnologias da informação.
Ao ver o filme feito por alguém que anda de carro pelo meio da paisagem devastada, e chega a entrar num túnel alagado, pergunto-me onde foi parar o nosso instinto de sobrevivência: sentimo-nos tão seguros dentro de um carro e sobre uma estrada asfaltada, que não nos ocorre que a Natureza possa lembrar-se de não respeitar as fronteiras que o nosso urbanismo lhe tenta impor? Que diferença abissal entre o comportamento deste "camera man" e, por exemplo, o dos povos primitivos que pressentiram a tsunami de 2004 e fugiram rapidamente.
Contra mim falo, que não faço a menor ideia de como reagir quando à Natureza lhe dá para perverter a normalidade, e que às vezes confundo a minha câmara fotográfica com um escudo que me protege daquilo que estou a fotografar...
20 fevereiro 2010
héctica republicana
***
Nem sei porque é que me estou a rir. Até parece que me esqueci que o Carlos Santos pode ter ainda em seu poder alguns e-mails em cuja lista de destinatários também consta um dos meus heterónimos, ou, mais assustador ainda, e-mails escritos por mim.
Sabe-se lá se não serei eu a próxima vítima da sua Héctica Republicana...
19 fevereiro 2010
fujam todos que vêm aí anónimos
E agora, a revelação do ano (aproveitem, é por ser sexta-feira): eu, na verdade, não me chamo Helena Araújo. Tenho pelo menos mais cinco nomes diferentes. É um sarilho quando atendo o telefone e me perguntam quem sou. Nunca sei.
111111
(sim, o que é que uma pessoa não está disposta a maquinar, nesta nossa sociedade da exibição, para conseguir uns míseros numerozinhos de protagonismo?)
os restantes, e serão aproximadamente 22.222,22 leitores, ou leituras, é quase só gente boa.
Ando há que tempos para dizer isto, e este número ocasional é um motivo tão bom como qualquer outro: a qualidade das pessoas que visitam este blogue honra-me e faz-me muito feliz.
Muito obrigada!
em sossego no meu cantinho, a tirar conclusões sobre o carácter das pessoas
Sintético, claro, objectivo.
Em contrapartida, outras reacções têm sido deploráveis: fazendo insinuações sobre a identidade do "bufo", ou trocadilhos sobre o nome do Eduardo Dâmaso.
Não é por aí, oh pessoas.
Adenda, depois de ler um pouco mais sobre esta novela barata:
Afinal já não é preciso insinuar ou perguntar-se quem terá sido o tal "arrependido". O próprio Carlos Santos explica porque o fez, e porquê só agora (detalhes aqui e aqui, por exemplo). A palavra "arrependido" parece estar mal escolhida: ele andou aqueles meses todos ao engano, não reparou no conteúdo dos e-mails, e só agora se lembrou deles e se deu conta de ter andado em tão terríveis companhias e a fazer jogos tão sujos.
Nunca mais me queixo de ser de compreensão lenta, caramba! Em termos de lerdice há quem me ultrapasse de longe e, estranhamente, tenha sucesso na vida.
Nem sei porque gasto tempo a fazer posts sobre homens nus em igrejas berlinenses...
Nus a sério, o que se chama escabrosamente nus, é em Portugal. Uma pessoa até se pergunta se ele estará verwirrt, como o outro. Confundido.
Ou se será de regressar ao título deste post.
18 fevereiro 2010
o Obama que vá pondo as barbas de molho...
No caso do SIMplex, lamento que as pessoas façam agora conjecturas sobre a identidade do "traidor". Ironicamente, pode até não haver nenhum, já que um e-mail é tão secreto como um postal de férias enviado pelo correio - até o Cavaco Silva o sabe, ou já se esqueceram daquela famosa comunicação ao país?
Vale para os e-mails, vale para os telefonemas. Segredos, só de boca de druída para ouvido de druída. Sem qualquer espécie de suporte técnico ou material.
Por outro lado: isto é mesmo um caso de segredo? O que há de errado nesta passagem de informações (não me constou que fossem sigilosas ou mentirosas) de membros do Governo PS para um blogue pró-PS?
Em todo o caso: o Obama que se cuide. Ele anda muito no twitter e no facebook...
Um dia destes o Correio da Manhã ainda vai descobrir que o faz com dinheiros públicos, e pespegam-lhe com um impeachment exemplar.
quarta-feira de cinzas dos artistas
- 18:00: celebração ecuménica na Igreja de S.Mateus, no Kulturforum
- seguida de uma recepção na Gemäldegalerie
Fomos. Com alguma curiosidade, preparados para participar em algo que antevíamos especial.
Quando chegámos a igreja já estava cheia, pelo que tivemos de subir para a galeria lateral. Também aí já todas as cadeiras estavam ocupadas, mas havia ainda muitos degraus livres.
A celebração começou com toda a dignidade.
Música contemporânea interpretada com excelência.
Para a entrada, escolheram de uma oratória de Thomas Daniel Schlee uma peça para barítono, trompeta e órgão, inspirada no segundo capítulo do Eclesiastes.
Detesto a vida, pois vejo que a obra que se faz debaixo do sol me desagrada: tudo é vaidade e correr atrás do vento.
Procissão com o arcebispo, o bispo evangélico, pastores e padres. Cântico ecuménico. Alguns textos e orações, e de novo música contemporânea.
Sentámo-nos no degrau, em repouso e recolhimento, ouvindo a peça musical.
Repentinamente, a música foi cortada por uma voz em tom profético. Levantei-me, curiosa, e vi:
no centro do altar o pastor conversava com um homem nu que mexia com insistência no seu pénis. As calças estavam caídas sobre os pés, o casaco pousado ao seu lado.
Pensei:
estes artistas de Berlim são demais! Será uma encenação de Hans Neuenfels?
Avisei o Joachim para ver também, e corrigi o impulso de avisar o Matthias, que continuou sentado e meio zangado com aquela seca monumental de cultura e religião.
Pensei:
mas que grande ideia para Quarta-Feira de Cinzas! Que bela maneira de expressar o niilismo do momento entre o fim do Carnaval e o início da Quaresma.
Confesso que aquela manipulação genital me parecia um pouco excessiva, mas lembrei-me que estávamos em Berlim, numa celebração ecuménica de artistas.
E então o Joachim disse-me a rir:
acho que isto não estava planeado.
O pastor continuava a falar com o homem. Os músicos continuavam a interpretar o salmo 73, peça de Stefan Johannes Hanke para barítono, clarinete baixo, trombone e percussão, composta por encomenda da Fundação Guardini para uma celebração ecuménica naquela igreja em 24 de Abril de 2009.
Olhei para a assembleia. Lembrei-me de um post que apareceu no Quase em Português sobre a cara das pessoas que, numa celebração sobre "erotismo e fé", ou algo semelhante, assistiam a um bailado no corredor da nave principal. A fotografia que o Lutz mostrara tinha rostos impávidos e serenos perante a bailarina que se pretendia em exercício de erotismo.
Também ali as pessoas permaneciam impávidas. Muitas ouviam a música com os olhos fechados, sem sequer se darem conta do que estava a acontecer.
Por fim, o homem vestiu-se, desceu do altar e saiu da igreja.
Pensei:
vou escrever um post sobre o poder da palavra. Tenho de contar sobre este pastor que consegue persuadir alguém a mudar o seu comportamento, sem precisar de recorrer à violência ou à ameaça.
A celebração continuou normalmente. O Joachim contou ao Matthias que no altar tinha aparecido um homem nu, e o miúdo não acreditou. Estás a gozar comigo?, perguntou ele com cara de quem está a pensar que é um grande azar ser filho de um pai que se acha tão engraçadinho.
Sentámo-nos de novo para ouvir a homilia, feita pelo arcebispo. Sobre a arte e a fé, Deus que vibra nas mãos do artista, o artista que procura Deus, etc.
Estou a inventar, porque não ouvi praticamente nada das frases difíceis que ele dizia em tom monocórdico.
E então o homem regressou. Vinha completamente nu e descalço, percorreu o corredor central até ao altar, e o bispo evangélico foi de novo ter com ele. Avisei o Joachim, e desta vez também o Matthias, que nem queria acreditar no que via. O arcebispo continuou a homilia
- podia agora fazer umas gracinhas sobre a Igreja Católica que continua imperturbável o seu rígido discurso, independentemente das manifestações de vivência da sexualidade que a seu lado ocorrem, mas o melhor é não rir muito alto porque se eu estivesse no lugar do arcebispo também não teria sabido como reagir -
o bispo tentava convencer o homem a ir-se embora, o que, manifestamente, nem lhe passava pela cabeça. Argumentava com o arcebispo em altos brados, cortava-lhe a palavra. O arcebispo olhava para as suas folhas e tentava retomar o fio da homilia, e o homem que não, que não, que isto e que aquilo, e bracejava furibundo.
Por essa altura já praticamente toda a gente se ria.
O arcebispo fez voz grossa e disse ao homem: já todos compreendemos a sua mensagem, agora faça o favor de sair da igreja.
Isso é que era bom.
Um homem jovem, junto à porta, gritou para o altar: "Deixem-no falar! Nós ainda não compreendemos a mensagem!", e ria, ria. Artistas berlinenses...
O bispo veio ao microfone sugerir que a assembleia cantasse o cântico previsto para depois da homilia, e lá fomos nós. Há muitos anos que não via numa igreja pessoas a cantar com sorrisos tão rasgados.
Alguém da organização levou para o altar a roupa do homem, que se vestiu e abandonou finalmente a igreja. Fecharam as portas à chave, e deixaram mulheres a guardá-las.
Podia ainda contar que o resto da celebração decorreu sem qualquer imprevisto, e que a música continuou excelente, e que nunca mais vimos o homem. Desconfio, contudo, que esta parte já não interessa a ninguém. Esta sociedade da comunicação vertiginosa...
Na Gemäldegalerie, Ingo Metzmacher, director artístico e maestro da Deutsche Symphonie-Orchester de Berlim, fez o "discurso do artista", falando sobre Deus e a Música. Ou a Música e Deus, como ele corrigiu logo no início. Dava um bom par com o arcebispo. Quando começou a falar do número de vibrações por segundo que ocorrem no átomo do elemento não sei quê, desliguei, e comecei a reparar numa mulher que andava pela sala com ar de perdida, pobremente vestida e com um saco de supermercado. Seria a irmã mais nova do outro?
Depois Ingo Metzmacher acabou o seu discurso, foi muito aplaudido, o arcebispo deu-lhe um presente, e serviram-nos o copo de água. Literalmente: um copo de água. E algumas fatias de pão.
Para que não pensem que eu vos estou a enganar, como o Matthias pensou, ó pra isto:

E mais uma foto, feita à porta da Gemäldegalerie. A imagem não está muito boa, mas mostra uma descoberta que fiz ontem: a cúpula de vidro do Sony Center faz um belo eco visual do edifício da Filarmonia.

Errata: não era arcebispo, era cardeal. Não é que adiante ou atrase muito à história, mas é a verdade.
17 fevereiro 2010
dizem que é um país de políticos incompetentes e corruptos
Ia responder na mesma caixa de comentários, mas parece-me que é melhor fazer um post sobre este fenómeno do prazer de impunemente mal-dizer e destruir a reputação de quem quer que tenha um pouco mais de visibilidade.
A tradição portuguesa de mal-dizer entrou numa dinâmica de não deixar pedra sobre pedra.
Independentemente do seu carácter, se uma pessoa aceitar servir o nosso país num cargo político, imediatamente abre a época de caça contra ela. Torna-se incompetente e corrupta por definição.
E então, finalmente, ufa, já não era sem tempo, podemos discutir o carácter e a competência não dos "políticos portugueses", mas de cada um deles.
(O Thomas Morus inspira-me tanto!)
***
Anda uma pessoa toda contente a pensar que acabou de inventar a roda, no entretanto vai dar um passeio por outros blogues e descobre que já foi ultrapassada pela direita por diversos veículos rolantes. No caso, este post do Ricardo Alves, que refere este outro, do Francisco Proença de Carvalho, no 31 da Armada. Pensar que foi preciso chegar a 2010 para um post do 31 da Armada me passar à frente! Só se pode concluir deste facto que isto está mesmo muito mal para Portugal.
mudando de assunto
Para variar, portanto, aqui vai uma descrição sobre a origem da, ahem, burqa, que encontrei no livro "o Livreiro de Cabul", da jornalista norueguesa Åsne Seierstad:
A burqa só foi introduzida [no Afeganistão] durante o reinado de Habibullah, de 1901 a 1919, que obrigou as duzentas mulheres do seu harém a cobrir o rosto quando saíam do palácio, para que a sua beleza não tentasse os homens que as vissem. Estes véus, que as cobriam inteiramente, eram de seda ornamentada com ricos bordados. As princesas de Habibullah tinham até burqas bordadas a ouro. A burqa era uma peça de vestuário para a classe mais alta, com o objectivo de se proteger do olhar do povo. Na década de cinquenta já se tinha espalhado por todo o país, embora fosse usada praticamente apenas pelas mulheres das classes mais altas.
O ocultamento total também tinha adversários. Em 1959, o príncipe Daoud, primeiro-ministro, provocou escândalo ao aparecer em público, no dia do feriado nacional, com a sua esposa descoberta. O príncipe conseguira convencer o seu irmão a fazer o mesmo, e pedira aos ministros que se desfizessem das burqas nas suas famílias. Logo no dia seguinte, apareceram nas ruas de Cabul mulheres com casacos compridos, pequenos chapéus e óculos de sol. Mulheres que, até esse dia, só saíam à rua escondidas sob um véu integral. Do mesmo modo que este uso foi iniciado pelas classes mais altas, também foram estas que o aboliram primeiro. Entretanto, a burqa tornara-se um símbolo de status entre os pobres, e as serviçais das mulheres ricas começaram a usar os véus de seda que estas tinham abandonado. Um uso que os pastune detentores do poder tinham imposto às suas mulheres alastrou paulatinamente às outras etnias. Contudo, o príncipe Daoud queria banir completamente as burqas do Afeganistão. Em 1961 foi publicada uma lei que proibia o seu uso às funcionárias do Estado. Recomendava-se vestuário ocidental. Foram necessários vários anos até que esta lei começasse a ser cumprida, mas nos anos setenta em Cabul já quase só se viam professoras e funcionárias de saia e blusa, e tornou-se normal ver homens de fato. No entanto, as mulheres sem véu integral corriam o risco de ser vítimas de ataques dos fundamentalistas, que disparavam para as suas pernas ou lhes atiravam ácido ao rosto. Quando começou a guerra civil, instalou-se em Cabul um governo islâmico, e cada vez mais mulheres começaram a sair protegidas pela burqa. Mais tarde, com os taliban, desapareceram das ruas todos os rostos femininos.
(tradução minha, a la Speedy Gonzalez, a partir de uma tradução alemã)
16 fevereiro 2010
petição
(esta é mesmo a sério)
Onde se pede que ponham o Gonçalo Amaral a investigar quem é o "garganta funda" que anda a passar aos jornais material ao abrigo do segredo de Justiça.
Já estou a poupar uns euritos para comprar depois o sensacional livro: A Mentira da Verdade.
pedido de informação
15 fevereiro 2010
ainda a burqa
ia escrever um comentário ao teu post, mas rapidamente me apercebi que é melhor comentar aqui. Vou tentar - uma vez na vida - ser sintética:
A proibição da burqa em alguns locais por motivos de segurança (concretamente: pode esconder uma bomba, uma arma ou um criminoso procurado pela Polícia) acaba por resolver o problema sem ser necessário discutir. Se uma pessoa com véu integral não se pode aproximar a menos de (digamos) dez metros de um banco, uma escola ou um jardim infantil e, de um modo geral, de qualquer edifício público, se não pode andar nos transportes públicos, e se autorizamos os donos das lojas a pôr um cartaz à porta, "por motivos de segurança não se permitem burqas neste estabelecimento", então, na vida real, é praticamente impossível a essa pessoa andar na rua.
Deixando de lado esta maneira fácil de fugir ao debate, falemos da proibição total - mas apenas na Europa.
1. "É dizer que a proibição as faz menos iguais porque as torna únicas em não poderem vestir o que querem."
Na nossa sociedade, todos estão sujeitos a certos códigos de vestuário. O mais óbvio: é proibido andar nu na via pública. E na Alemanha há de facto uma lei que proíbe as pessoas de andarem com a cara tapada. O que me espanta no momento actual alemão é que abram uma excepção para as mulheres que usam burqa - como se, por uma espécie de má consciência ou medo, se recusasse às mulheres muçulmanas a igualdade perante a lei: ninguém pode esconder o rosto na via pública, mas elas podem.
Desse modo, esta excepção ao cumprimento da lei faz delas - exactamente ao contrário do que dizes - as únicas pessoas que podem vestir o que querem. A proibição põe-nas em igualdade de circunstâncias com os outros cidadãos.
Há aqui uma distinção importante a fazer: trata-se da proibição de usar uma peça de vestuário que oculta o rosto de uma pessoa, e não da proibição de exibir um símbolo.
2. Sobre o impedimento, por parte de terceiros, de saírem à rua sem burqa: "mas elas usarão todos os meios que julguem melhorar, por pouco que seja, as suas vidas"
Elas, que vivem sob prisão domiciliária imposta pelos familiares, usarão a burqa para poderem ao menos ir até ao fundo da rua. E nós aceitamos passivamente, porque acreditamos que não temos nada a ver com o processo de libertação delas...
Tenho de discordar. Se há na nossa sociedade casos de cárcere privado, há que os identificar e resolver. Até podemos permitir o uso da burqa, mas apenas como estratégia para melhor identificar os cenários do crime, e agir imediatamente.
A acção passa, penso eu, não por um polícia passar uma multa, mas por levar esta mulher a um centro especial onde será recebida por mulheres que lhe explicarão, se necessário na sua língua, os seus direitos e os apoios ao seu dispor (no âmbito de, como dizias, "programas eficazes de assistência, informação e educação para a igualdade") , iniciando simultaneamente um processo de inquérito ao seu contexto familiar.
Esta questão do cárcere privado levanta questões delicadas: queremos transformar-nos numa sociedade de bufos? Espera-se de mim que controle as pessoas da minha rua, me questione sobre os motivos de um vizinho que passa muito tempo na cave, da mulher da janela em frente, que nunca sai à rua?
No fundo, preferimos ser discretos, não nos meter na vida dos outros. Mas se sabemos que há na nossa sociedade pessoas que entendem que podem ter cárceres privados, como é que devemos agir? Até que ponto é que a rejeição da bufaria social não é também uma conivência com crimes?
3. Quanto às mulheres que usam a burqa por convicção: "A luta pela igualdade é um esforço permanente de longo prazo, mas o sucesso desse esforço fica comprometido com a hostilização das mulheres que usam a burca, e das que não usam mas apoiam as primeiras. Como é que se integram as mulheres na igualdade sem a colaboração delas? A tradição pode ser opressora mas nunca o é tanto como a tradição dos outros quando ela se impõe pela força."
Concordo inteiramente com esses argumentos.
Contudo: se eu quero proibir a burqa, não é para empurrar as mulheres para a igualdade, é porque me incomoda não ver a cara das pessoas que se cruzam comigo na rua.
As pessoas podem ter as tradições que quiserem, desde que elas não colidam com práticas fundamentais da sociedade em que vivem.
Na cultura europeia, andar na rua sem mostrar a cara é um acto anti-social.
Em nome de quê deve ser tolerado?
Penso que podemos - e devemos - equacionar abertamente e sem complexos a questão dos limites do vestuário que se pode usar no espaço público.
Quanto aos símbolos: deve a nossa sociedade permitir que alguém exiba em público símbolos que agridem os nossos valores mais importantes? Deve a sociedade impedir-se sequer de debater o uso desses símbolos, alegando que numa sociedade multicultural tudo se justifica e autoriza?
Dois comentários finais:
- Discutimos a burqa porque é um sinal visível e que nos incomoda pessoalmente, além de ser uma ameaça à segurança. Mas há muitas outras tragédias para lá da burqa: as miúdas que são proibidas de participar nas aulas de desporto, ou que desaparecem da escola porque foram casadas à força. Os rapazes que são casados à força segundo interesses familiares (pois, que nisto a tradição não faz distinções de género). Entre muitos outros.
- Uma mulher ocidental que se converteu ao Islão e decide usar a burqa é alguém que decide voluntariamente virar as costas à igualdade. Diremos que a sociedade a hostiliza, ou que é ela quem está a hostilizar a sociedade em que nasceu?
O discurso da libertação e da igualdade das mulheres não pode ser o mesmo para as que nasceram nessa tradição de subjugação feminina e as que nasceram num contexto de liberdade e igualdade mas decidiram voluntariamente entrar num esquema de profunda submissão.
eu hoje feita polícia de costumes
Paulo: nur diejenigen die deutsche Zeitungen lesen ist eine Person ganz zufrieden.
O autor quereria fazer uma gracinha para dizer "só quem lê jornais alemães é uma pessoa inteiramente feliz", mas o resultado (tentando traduzir o intraduzível) é:
Paulo: apenas aqueles os jornais alemães lêem é uma pessoa bastante satisfeita.
***
Durante alguns anos trabalhei numa equipe de tradução onde havia o hábito de, na comunicação oral, misturar português com alemão à vontade da preguiça.
Um dos colegas fazia questão de não entrar nessa dinâmica. Entendia ser aquele um péssimo hábito, porque as pessoas acabam a perder agilidade em ambos os idiomas, além do desrespeito que representa para cada um deles.
Enfiei discretamente o barrete, e tratei de mudar de vida. No fundo, era o meu brio profissional que estava em causa.
Por essa altura ficou também famoso um debate entre tradutores: devemos traduzir depressa, mal e barato, como exigem as políticas empresariais de contenção de custos daqueles que nos pagam? Devemos aceitar trair a nossa língua? Ou devemos continuar a fazer questão de traduzir o melhor possível, o que implica um preço mais alto, o que implica perder os clientes?
Esta questão continua em aberto, e é cada vez mais premente: a tradução automática, a tradução apressada e sem revisor, os jornais sem departamento de revisão, os livros publicados sabe-se lá como...
Onde foi parar o respeito pela língua?
Por isso me surpreende o paradoxo de um escritor tratar tão mal uma língua - mesmo não sendo a sua, mesmo sendo no espaço algo volátil de um blogue.
na Suíça deve haver alguém muito pateta...
A Suíça veio agora ameaçar que, se a Alemanha comprar o CD, não hesitarão em revelar o nome de políticos e outras figuras públicas que, não constando do CD, também têm as suas continhas nos cofres helvéticos.
É preciso ser muito pateta para acreditar que isto é um bom instrumento de pressão: agora é que os políticos alemães não podem recuar, sob pena de se fortalecer a ideia de que estão a proteger compadres e "estes políticos são todos iguais".
13 fevereiro 2010
poderosa

(Coitado do Freud, hoje não lhe dou sossego. O melhor é desarriscar este comentário. O vinho do jantar estava óptimo, não vos digo nada.)
Em todo o caso: esta semana tenho andado a pensar se sou poderosa e porquê. E está-me a correr mal, porque tenho filhos adolescentes. Só quem passa por isso sabe de que espécie de impotência estou a falar.
Mas hoje aconteceu-me um daqueles momentos que iluminam o dia.
Entrei no pomar dos vietnamitas aqui do bairro. Estranhei o cheiro intenso espalhado por uma vareta aromática que ardia junto a um Buda. A dona da loja estava ao telefone, e eu deixei-a falar enquanto ia aviando a minha lista de compras. Finalmente ela desligou, contou-me que tinha estado a falar com a família no Vietname porque hoje é dia de Ano Novo, e acrescentou que o ano dela ia ser muito bom porque no dia de Ano Novo eu entrei na loja dela a sorrir.
E agradeceu.
Agradeceu!
Ora bem: quando uma vietnamita te agradece porque arranjaste de o ano que lhe está agora a começar prometer vir a ser bom, isso é, tã tã tã tããããã, ser poderosa!
Por isso, cá vamos ao trabalho:
- colocar o selo - já está
- pôr o link de quem me indicou - já está, com muito prazer
- completar a frase "sou poderosa..." - falta fazer
- escrever o nome de cinco poderosas, e avisá-las - falta fazer
Ora então: sou poderosa porque do meu nervus facialis depende o futuro dos asiáticos.
(Já ouviram falar daquela borboleta que agita as asas e depois não sei quê? Sou eu.)
E as cinco poderosas, cujo sorriso (que vi com estes que a terra, e tal) é capaz de inaugurar uma nova era de anos bons, são:
- a io
- a Rita Dantas
- a Snowgaze
- a Abrunho
(afinal são só quatro. No Verão vou ver se arranjo maneira de conhecer pessoalmente mais umas quantas, e depois completo a lista.)
a Isabela e o senhor Simões
Bela saga.
Haviam de publicar aqueles posts, e o livro havia de sair com uma tira
"agentes de todo o mundo, uni-vos".
Sugiro para a próxima quinta-feira uma manifestação em frente ao Parlamento.
Com cartazes assim:
Solidariedade com o senhor Simões, já!
e
Senhor Simões, estamos contigo!
bom dia, alegria!
Mais ainda do que a maneira genial como ele se diverte com o cavaquinho, é a alegria que me fascina.
Ora aqui vai, para o fim de semana:
E apreciem esta performance:
Esta é um presente para a maior fã dos Beatles que conheço:
(aliás: o Paul McCartney deve andar a dormir, que ainda não convidou nem a Teresa nem este miúdo para lhe animarem os concertos)
12 fevereiro 2010
Metropolis

À versão recentemente descoberta na Argentina só falta um par de metros - mas oferece 25 minutos que se julgavam perdidos, e os tais conteúdos que em 1927 incomodavam a opinião pública, ou o mercado, como lhe queiramos chamar.
mais discussões sobre símbolos
O homem, que tinha contratado umas mocinhas para lhe darem ordens em alemão, andava de gatas pelo vídeo, vestido com um pijama às riscas.
Foi um escândalo.
Não digo quem foi, nem em que país, porque me choca realmente a devassa da vida privada que este episódio representa.
Contudo, o caso em si é curioso, porque pôs políticos e juristas alemães a discutir seriamente sobre o episódio. E, se bem me lembro, não se preocuparam minimamente com a ofensa à língua alemã, mas com o problema da banalização dos símbolos.
O desgraçado acabou a ter de justificar-se em público pela utilização destes símbolos de terror e subjugação na esfera mais privada que existe, a das fantasias sexuais.
E lá veio ele dizer para os jornais que para o efeito pretendido (sons autoritários) o russo também teria servido, mas não conseguiu arranjar mocinhas russas, e que as riscas do pijama eram da esquerda para a direita em vez de ser da direita para a esquerda, ou seja, não tinha nada a ver.
11 fevereiro 2010
sobre a manifestação de hoje em frente ao Parlamento
Finalmente encontrei um vídeo que, confesso, me deixou profundamente chocada.
Sim: considero inadmissível, insuportável, intolerável, uma bofetada na cara desta Europa que devia estar unida em torno de determinados pressupostos básicos:
- isso é tempo que se apresente em Fevereiro?! Heinhe?!
Ando eu aqui com botas de pneus de inverno para tentar fintar o gelo, a tiritar de frio apesar do gorro e luvas e cachecol que ainda me arrisco a ser tomada por fundamentalista islâmica, anda o serviço metereológico a ameaçar com neve ininterrupta até Domingo, e o pessoal em Portugal sem casaco e com óculos de sol?!
E como se esta clivagem profunda em relação à Europa não fosse já suficientemente grave, o Vasco Barreto não é tão bonito como o imaginava.
Esse país não tem solução, é o que vos digo.
e se...
(foto tirada daqui)
Em alemão, "KZ" é a abreviatura de "campo de concentração".
Perguntei-me que espécie de sociopata seria capaz de andar na rua a exibir uma frase destas.
Mas: também diríamos que esta t-shirt está protegida pela liberdade de expressão, e que uma pessoa adulta pode vestir-se como muito bem entender?
(Neste caso, tenho a certeza que o Estado Alemão apreendia todas as t-shirts, e mandava para tribunal o autor da gracinha. Por aqui não se brinca com a exibição de ideologias contrárias à Constituição, particularmente se tem a ver com o nazismo.)
Falta esclarecer que aquela t-shirt é americana, para o mercado gay. Admito que seja um manifesto de apoio a um líder do movimento LGTB no Kosovo, conhecido por K.Z., e que foi ameaçado de morte.
A descodificação dos símbolos, portanto.
O que nos remete para a questão inicial: qual é o significado de uma burqa numa rua europeia? Com que intenção é que uma mulher sai à rua exibindo voluntariamente um símbolo ignóbil da subjugação das mulheres no Islão? Porque é que um Estado ("a Nação politicamente organizada"), que intervém profunda e permanentemente em tantos aspectos da vida social, se deve alhear deste?
10 fevereiro 2010
véu integral: respeito pela liberdade ou indiferença e comodismo?
Não são leituras recomendáveis para os momentos antes de adormecer - vão por mim, que passei três noites seguidas com pesadelos.
De modo que, se me falam em respeitar a liberdade das mulheres que usam burqa, a única coisa que me ocorre é um riso muito amargo.
Falei antes sobre a burqa como protecção.
Resta: a burqa como imposição, como escolha livre ou como manifesto.
(1) A burqa como imposição é uma questão simples de equacionar. Sem sombra de complexos: imposição do uso de burqa ou niqab é intolerável na nossa sociedade. Também o é nas outras, mas não precisamos de ir mundo fora a missionar outras culturas, ou melhor, outras equações de poder - eles chegarão lá e, graças ao papel globalizante da internet, talvez bem mais cedo do que se pensa.
Quem impõe a uma mulher o uso de véu integral deve ser punido. Estas mulheres precisam do apoio de um Estado atento e consciente das suas responsabilidades, que as proíba de esconder o rosto, e as obrigue a frequentar aulas de informação e debate sobre princípios fundamentais da sociedade em que vivem, direitos das mulheres, apoios existentes. Se são estrangeiras, têm também de frequentar aulas obrigatórias de língua, até passarem um exame de nível médio.
E para os que acham que a proibição da burqa no espaço público é contraproducente, porque sem ela a mulher não será autorizada a sair de casa, afirme-se com toda a clareza: um homem - ou uma mulher, ou uma família, ou um clã - que proíba outra pessoa de sair à rua está a incorrer no crime de (deixa-me ir ver os nomes ao processo do Fritzl) cárcere privado, prática de escravidão e coerção.
(2) A burqa como escolha livre, fundada numa determinada noção de recato ou pudor:
Ninguém nasce com a necessidade de tapar integralmente o seu corpo no espaço público. Esta noção de recato é um dado cultural, e como tal pode ser analisado e posto em causa. Até que ponto podemos/devemos assistir indiferentes a esta espécie de automutilação? Uma mulher que anda camuflada no nosso espaço público coloca-se numa situação de profunda dependência. Como é possível estudar, fazer desporto, fazer a síntese da vitamina D e arranjar um trabalho independente sob uma burqa? Como é possível que uma sociedade que investe imenso na igualdade de oportunidades permita que determinados factores culturais soneguem às mulheres as condições básicas para essa igualdade?
Antes de se equacionar a questão como uma liberdade de escolha baseada num contexto cultural, há que questionar, por um lado, o modo como esse elemento cultural é passado à mulher e, por outro, a sua legitimidade no contexto social europeu - ou até no contexto da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Do meu ponto de vista, o uso da burqa não chega a ser tão grave como a excisão do clítoris, mas pertence à mesma família ideológica: a mutilação feminina como forma de manter a mulher pura e recatada.
Por outro lado, se queremos equacionar a questão em termos da liberdade da mulher, temos de assegurar que essa liberdade existe realmente. Não vamos nós incorrer no erro de mascarar uma mistura cínica de comodismo, indiferença e até xenofobia sob o nome de respeito por outras culturas e pela liberdade.
Há um livro, de cujo nome infelizmente não me consigo lembrar, que conta a história de uma turca que cresceu na Alemanha, apanhada entre as tradições arcaicas da família, sem a rede de uma família alargada e de um meio social que interponham um pouco de bom senso naquele exercício de poder absoluto patriarcal e, por outro lado, os professores das escolas alemãs que preferem não se meter nesses assuntos de famílias turcas, e optam por ignorar os apelos da rapariga. As passagens que me chocaram mais nesse livro são as que descrevem a demissão dos alemães testemunhas do sofrimento da jovem.
Continuando a usar o exemplo dos imigrantes turcos na Alemanha, situação que conheço melhor: muitos deles têm tradições mais retrógradas que a sua própria sociedade. Sinal disso é a edição alemã do jornal „Hürriyet“, muito mais conservadora que a edição turca, lançada numa ignóbil caça às mulheres turcas que se tentam emancipar e dão visibilidade às condições de vida que lhes são impostas pelo seu contexto cultural. Por falta de contacto com a sociedade de origem e com a sociedade alemã onde (não) se integram, por falta de comunicação e de interpelação por parte de outras perspectivas e sensibilidades, muitos turcos na Alemanha correm o risco de se tornarem fundamentalistas de uma tradição cultural cada vez mais privada, transformando as mulheres nas principais vítimas desta situação de enquistamento e autismo.
Até que ponto é que a sociedade alemã é obrigada a respeitar esta deriva cultural que resulta do afastamento de uma cultura e da recusa da integração na outra?
Mais ou menos a propósito: o Bruno Sena Martins às vezes escreve sobre este tema umas coisas muito inteligentes. Por exemplo, este post.
E depois, há o caso trágico da Hatun Sürücü (aqui, em alemão): filha de turcos, nascida na Alemanha, casada à força com um primo aos 16 anos, fugiu e encontrou refúgio num lar para jovens mães, arranjou um emprego. Foi assassinada pelos próprios irmãos, em pleno dia, numa paragem de autocarro em Berlim. Durante um debate numa escola berlinense, um aluno do oitavo ano de escolaridade comentou: "A culpa é dela. A puta andava por aí como as alemãs". Esta frase é uma síntese perfeita do problema, e da urgência de o encarar e resolver. E este comentário do Presidente da República é uma peça fundamental para a solução: "Não podemos deixar que um falso entendimento de tolerância e procura de harmonia, ou a falta de coragem, conduzam à anulação das regras básicas para a coexistência na nossa sociedade".
(3) A burqa como manifesto.
Algumas questões para um debate:
Manifesto de quê? Reacção a uma sociedade na qual não se sente bem-vinda? Manifesto de recusa dos valores de igualdade entre os géneros e de igualdade de oportunidades, de recusa global desta sociedade, de recusa de regras básicas de comunicação na nossa cultura, de recusa da atitude imoral, decadente e vergonhosa das mulheres ocidentais?
Não há limites para os manifestos?
Por exemplo, o último caso que referi: considera-se liberdade de expressão, ou é já discurso de ódio (a burqa para se demarcar das "putas europeias")?
Quanto à primeira hipótese, a da reacção, só me lembra os miúdos que desatam a bater com a cabeça na parede por se terem zangado com os pais: "é bem feito para eles se eu ficar cheio de dores". A solução é criar um espaço onde todos possam coexistir, em vez de aceitarmos que alguns se fechem sobre si próprios numa atitude que só provoca ainda mais rejeição e afastamento.
Um último apontamento, sobre uma proposta da Comissão francesa que estudou este assunto: dado que onde há um véu integral pode haver uma célula de fundamentalismo e sectarismo, a mulher "escondida" pode ser uma pista gritante para um grupo que deve posto sob observação. Belo paradoxo.
Já não se fazem sociedades secretas como antigamente...
fascinante
Até agora, achava-a lindíssima. Mas depois de ver outros exemplos, parece-me uma coisa enfim como direi? Franduleirinha.

A terceira foto foi tirada deste site. As duas primeiras são do Paulo, deste post e deste.
09 fevereiro 2010
portuguesa residente em Berlim com o corpo cheio de golpes, escoriações e nódoas negras, por negligência do Estado Alemão
Ontem escorreguei e dei um trambolhão que nem vos digo nem vos conto.
***
Aquela da negligência do Estado Alemão era só para experimentar o prazer de culpar o Estado por um azar que me acontece. Se os das falésias algarvias podem, eu também quero.
08 fevereiro 2010
a burqa ou o bruto
Vejamos: no início, a burqa foi inventada pelos homens para se protegerem de si próprios, e para preservarem a propriedade familiar, digo, o bom nome das "suas" mulheres.
Neste momento, na Europa do século XXI, algumas mulheres alegam que usam a burqa para se protegerem do olhar masculino. Haverá outros motivos, mas fiquemo-nos por este, para já. E agradeço que me expliquem: se o problema é o olhar masculino, porque é que as mulheres usam burqa, em vez de se aplicarem palas de burro aos homens que não se sabem controlar?
Aceitar o uso da burqa como protecção, equivale a aceitar a insinuação de que a simples presença de homens no espaço público representa uma ameaça para as mulheres, ou pior: aceitar que os homens podem ter no espaço público um comportamento tal que obriga as mulheres a esconder-se sob uma burqa. É isto a Europa?
Se vamos por aqui, daqui a nada vamos ter juízes a ralhar com a vítima de violação, perguntando-lhe porque é que foi passear de mini-saia para a coutada do macho latino. Vamos ter bispos a sugerir que se alargue a lei civil à sharia, para respeitar a cultura de outras comunidades que vivem no espaço europeu. E vamos ter juízas de família pouco preocupadas com um caso de violência doméstica, porque já se sabe que em certos contextos culturais esta chega a ser um dever do chefe de família (aliás: fazemos tanto barulho por causa do casamento dos homossexuais, mas não nos preocupamos com casamentos arranjados pela família para pessoas que não se conhecem?! E como é possível que a nossa sociedade permita o casamento civil a pessoas que não têm a menor intenção de respeitar princípios tão básicos como a liberdade real de escolha e a igualdade dos membros do casal?).
Não. Na Europa não se pode aceitar essa desculpa da burqa como protecção. Se há homens que são uma ameaça, eduquem-se.
E que ninguém ouse insinuar que o olhar do meu marido ou do meu filho desonra uma mulher - insultos é que não!
Já contei aqui uma vez: ia eu por uma rua de Weimar atrás de uma adolescente que levava uma super-mini-saia, tão super-mini que deixava metade das nádegas à mostra. Os homens por quem ela passava olhavam muito disfarçadamente; vi que um fez um sinal discreto a outro, que olhou também pelo canto do olho. Andei assim uns trezentos metros, e em momento algum houve um "comia-te toda" ou "kssss" que fosse.
No outro extremo está o ambiente evidenciado no desabafo de um alemão residente num bairro berlinense onde vivem muitos turcos não integrados. Dizia ele que algo está a correr muito mal nesta sociedade se a sua mulher recebe diariamente várias propostas de procriação no caminho entre a casa e o emprego.
E pronto, é isso: se os homens tornam as ruas um lugar inseguro e desagradável para as mulheres, o problema está nos homens. Aceitar a burqa como solução é um insulto inaceitável, e um precedente grave, porque dá um sinal errado sobre a evolução que se pretende para a nossa sociedade.
descubra a diferença
Ora então: descubra a diferença entre estas duas cenas.

No primeiro caso, é uma afirmação de liberdade. Um bocado pateta para o meu gosto, mas uma afirmação de liberdade. Em qualquer momento esta miúda pode dizer "agora vamos brincar a outra coisa", e aposto que a mãe solta um suspiro de alívio, em vez de mandar os filhos mais velhos matar a irmã.
Trelas há muitas. Esta é um pouco mais surpreendente por ser tão visível, mas desconfio que a personagem se sentaria roubada no seu acto provocatório se tivesse lido um artigo que apareceu há alguns anos numa revista alemã tipo "Pais e Filhos", no qual uma mulher (alemã, com curso superior) fazia a apologia da divisão de tarefas e da submissão feminina. Ao marido compete ganhar o pão da família, dizia ela, e à mulher compete cuidar dos filhos e da casa, criando um ambiente acolhedor e harmonioso. E chegava ao cúmulo (ao cúmulo, digo eu) de dizer que o sexo é muito melhor quando os papéis estão assim distribuídos, e se sabe bem quem é que manda.
Em todo o caso: a dependência e a submissão como afirmação de uma escolha livre.
No segundo caso, não sabemos.
Pode ser uma mulher que decidiu em plena liberdade cobrir completamente o seu corpo, e que em qualquer momento pode dizer "hoje não me apetece, está demasiado calor para usar burqa".
Pode ser uma mulher cujo contexto cultural a leve a aceitar a burqa como parte da ordem natural das coisas, mesmo que não goste (é isto a liberdade?).
Pode ser - desculpem a linguagem - mercadoria importada com certificado de origem e garantia de qualidade, já que "as raparigas que crescem na Europa acabam por se estragar".
"Descubra a diferença" é todo um programa. A discussão sobre o uso da burqa na Europa não pode ser separada do contexto concreto de cada uma das mulheres que usam burqa na Europa.
***
"Deus odeia as mulheres" é o título do post de onde tirei a fotografia seguinte. Quanto mais a vejo, mais me irrita. Tal como me irrita o homem da imagem anterior: não terá vergonha de ir todo fresquinho de t-shirt, enquanto a mulher passeia à torreira do sol debaixo de panos pretos?
férias
Porque, posso responder agora, os amigos do Lago Constança hasteiam uma bandeira de Portugal sempre que os visitamos; e porque só os primos da Floresta Negra se lembravam de passar a tarde a brincar em grutas construídas na neve. Em suma: o que nos faz mover são as pessoas.
Oh, que admiração.

Esta não foi a semana melhor para fazer ski. Chuva gelada, nevões, vergastadas de vento.
Andar dentro das nuvens é bem diferente daquilo que imaginamos ao voar sobre elas. É atravessar um nevoeiro denso que se nos cola à roupa em forma de água.
Mas houve dias, ou apenas momentos, em que o céu se abriu sobre as pistas de neve fresca, e descíamos em curvas suaves, como se as tais nuvens míticas da janela do avião existissem realmente, como se fosse possível deslizar sobre elas.
Queria conseguir pôr em fotografia aquela árvore junto ao corredor do lift, macieira talvez, e os seus ramos nus cobertos de neve transparente de sol contra o céu muito azul.
Não era esta, e era muito mais do que esta imagem:

E queria mostrar a pequena península no lago Schluchsee tão bela como nos apareceu na manhã de quinta-feira: o pavilhão recortado contra a névoa rente à água, e a neve tinta de sol.
Nesse dia não tive coragem para parar o carro e fazer a fotografia da minha vida, de modo que passei o resto da semana à espera de um momento semelhante.
(Primeira lição de fotografia: não hesitar.)
No último dia antes da viagem de regresso, ao fim da tarde, encontrámos a península assim:

Desta vez não hesitei. Encostei o carro à berma da estrada, e subimos para a paisagem, ou seja, começámos a andar sobre uma camada de neve mais de um metro acima do que seria passeio e parque. Avançar em neve fofa não é fácil: volta e meia uma pessoa enterra-se até ao tronco.
Não me lembro de ter rido tanto para fazer uma fotografia.
Mas nem tudo é riso. Justamente no momento em que decidimos regressar a casa, uma criança teve um acidente na pista onde tínhamos passado um óptimo dia, e que eu achava tão fácil e segura. Ficou caída na neve sem se mexer, foi levada de helicóptero para o hospital.
Entrámos no carro com um nó na garganta.





