28 outubro 2009
mais um motivo para acreditar que esta coisa dos blogues vale a pena:
A Rita Dantas a falar sobre a Rita Rato. Aqui.
Sartre revisited
O Joachim e eu tínhamos há meses combinado um fim de semana prolongado só para os dois, e avisámos os miúdos que tinham de arranjar poiso para esses quatro dias. Devido a peripécias várias, entre outras adolescência galopante deles e dos amigos, dei-me conta pouco antes da viagem que não tinham combinado nada com ninguém.
Em menos de dez minutos foi possível resolver o problema: uma amiga em casa de quem o Matthias podia ficar, outra amiga disposta a vir dormir a nossa casa, de maneira a que a Christina não estivesse aqui completamente sozinha.
O inferno são os outros?
Talvez. Mas também podem ser o céu.
Em menos de dez minutos foi possível resolver o problema: uma amiga em casa de quem o Matthias podia ficar, outra amiga disposta a vir dormir a nossa casa, de maneira a que a Christina não estivesse aqui completamente sozinha.
O inferno são os outros?
Talvez. Mas também podem ser o céu.
27 outubro 2009
Darwin revisited
No Museu de História Natural de Berlim está a decorrer uma exposição sobre Darwin.
Admito que não seja bem a que passou na Gulbenkian, e que foi tão falada, mas achei-a engraçada na mesma.
Dois textos em especial chamaram-me a atenção:
- Ao passar pela Terra do Fogo, Darwin observa os seus habitantes e fala com um miúdo que lhe explica porque é que, quando o Inverno aperta com rigor, comem as mulheres em vez de comerem os cães: "Cães caçam lontras. Mulheres não servem para nada. Homens têm fome."
- Já em Inglaterra, depois da famosa viagem no Beagle, Darwin tem de tomar uma decisão importante para a sua vida. Metódico e racional, escreve numa folha os dois cenários: "Casar" e "Não casar". Muito engraçado.
(Li a folha com toda a atenção. Em momento nenhum referia a hipótese de ter fome no Inverno. De onde se conclui que o clima inglês é mais suave que o da Terra do Fogo.)
***
Recentemente a Christina teve um problema com um professora.
Há muito que os miúdos se queixavam em casa, mas os pais iam reagindo como de costume: é a vida, vai-te habituando, não sejas tão sensível. Na sequência do incidente entre a minha filha e a professora, pedimos a alguns alunos que fizessem um curto relatório sobre o que tinham testemunhado na sala de aula. Quando os recebemos, ficamos chocados. Os relatórios, escritos individualmente, descreviam de forma congruente uma situação de catástrofe pedagógica: uma professora que ameaça dar zeros a quem fizer perguntas sobre a matéria, que parece tirar prazer em humilhar um aluno perante a turma, que faz perguntas que ninguém percebe, e distribui uma rodada geral de más notas porque as respostas estão erradas, sem se aperceber que quando todos os alunos têm más notas o mais provável é haver um problema do lado do professor; alunos que entram na sala cheios de medo, e saem aliviados por terem sobrevivido, que sobretudo não querem que a professora se dê conta de que eles existem; etc.
Nota mental: da próxima vez que os meus filhos se queixarem de um professor, tenho de dar mais atenção.
E lá fui eu falar com a professora e a directora da escola. A professora estava muito incomodada por a Christina, de cabeça perdida, lhe ter dito "vá para o inferno e deixe-me em paz". Eu estava muito incomodada por ela ter levado a Christina àquele ponto. Por lhe ter dito "se nem sequer és capaz de tirar uma informação de um livro, mais te valia ficar em casa", quando afinal nem sequer sabia se essa informação existia no livro. Por a ter repreendido quando ela estava a explicar a uma colega uma parte da matéria que a própria professora se recusou a ensinar.
Hora e meia a discutir, e não foi bonito. Eu a insistir que o problema não está na Christina, mas naquelas aulas. A sugerir que passem a ser assistidas por alguém que dê apoio pedagógico à professora. A recusar-me a pedir desculpa pelo que a Christina tinha dito enquanto a professora não pedisse desculpa perante a turma pelo que tinha dito à minha filha. A perguntar que tipo de valores são transmitidos naquela escola católica.
E a usar a pior arma que existe para arrumar com alemães: quando quiseram criticar a desobediência da Christina, por ajudar a colega em vez de fazer o seu trabalho de pesquisa em silêncio, perguntei-lhes se é isso que queremos ensinar aos nossos jovens: obedecer cegamente, contra a sua consciência, perante situações que consideram erradas e injustas.
Isto não é atingir um calcanhar de Aquiles, isto é escarafunchar numa ferida gangrenada.
De modo que é preciso rever Darwin: até pode ser que o Homem descenda do macaco; mas a Mãe, essa, descende com toda a certeza da leoa.
Admito que não seja bem a que passou na Gulbenkian, e que foi tão falada, mas achei-a engraçada na mesma.
Dois textos em especial chamaram-me a atenção:
- Ao passar pela Terra do Fogo, Darwin observa os seus habitantes e fala com um miúdo que lhe explica porque é que, quando o Inverno aperta com rigor, comem as mulheres em vez de comerem os cães: "Cães caçam lontras. Mulheres não servem para nada. Homens têm fome."
- Já em Inglaterra, depois da famosa viagem no Beagle, Darwin tem de tomar uma decisão importante para a sua vida. Metódico e racional, escreve numa folha os dois cenários: "Casar" e "Não casar". Muito engraçado.
(Li a folha com toda a atenção. Em momento nenhum referia a hipótese de ter fome no Inverno. De onde se conclui que o clima inglês é mais suave que o da Terra do Fogo.)
***
Recentemente a Christina teve um problema com um professora.
Há muito que os miúdos se queixavam em casa, mas os pais iam reagindo como de costume: é a vida, vai-te habituando, não sejas tão sensível. Na sequência do incidente entre a minha filha e a professora, pedimos a alguns alunos que fizessem um curto relatório sobre o que tinham testemunhado na sala de aula. Quando os recebemos, ficamos chocados. Os relatórios, escritos individualmente, descreviam de forma congruente uma situação de catástrofe pedagógica: uma professora que ameaça dar zeros a quem fizer perguntas sobre a matéria, que parece tirar prazer em humilhar um aluno perante a turma, que faz perguntas que ninguém percebe, e distribui uma rodada geral de más notas porque as respostas estão erradas, sem se aperceber que quando todos os alunos têm más notas o mais provável é haver um problema do lado do professor; alunos que entram na sala cheios de medo, e saem aliviados por terem sobrevivido, que sobretudo não querem que a professora se dê conta de que eles existem; etc.
Nota mental: da próxima vez que os meus filhos se queixarem de um professor, tenho de dar mais atenção.
E lá fui eu falar com a professora e a directora da escola. A professora estava muito incomodada por a Christina, de cabeça perdida, lhe ter dito "vá para o inferno e deixe-me em paz". Eu estava muito incomodada por ela ter levado a Christina àquele ponto. Por lhe ter dito "se nem sequer és capaz de tirar uma informação de um livro, mais te valia ficar em casa", quando afinal nem sequer sabia se essa informação existia no livro. Por a ter repreendido quando ela estava a explicar a uma colega uma parte da matéria que a própria professora se recusou a ensinar.
Hora e meia a discutir, e não foi bonito. Eu a insistir que o problema não está na Christina, mas naquelas aulas. A sugerir que passem a ser assistidas por alguém que dê apoio pedagógico à professora. A recusar-me a pedir desculpa pelo que a Christina tinha dito enquanto a professora não pedisse desculpa perante a turma pelo que tinha dito à minha filha. A perguntar que tipo de valores são transmitidos naquela escola católica.
E a usar a pior arma que existe para arrumar com alemães: quando quiseram criticar a desobediência da Christina, por ajudar a colega em vez de fazer o seu trabalho de pesquisa em silêncio, perguntei-lhes se é isso que queremos ensinar aos nossos jovens: obedecer cegamente, contra a sua consciência, perante situações que consideram erradas e injustas.
Isto não é atingir um calcanhar de Aquiles, isto é escarafunchar numa ferida gangrenada.
De modo que é preciso rever Darwin: até pode ser que o Homem descenda do macaco; mas a Mãe, essa, descende com toda a certeza da leoa.
23 outubro 2009
afinal vão ser vinte
Hoje de manhã telefonaram os primos da Holanda. Que afinal conseguiram resolver tudo muito mais depressa do que pensavam, que afinal também podem vir. Se há espaço para eles na nossa casa?
Com certeza - para quem ocupa um lugar tão grande no nosso coração arranja-se sempre espaço. Além disso, não são esquisitos: dormem em dois colchões no chão do escritório, e os miúdos juntam-se aos outros lá no acampamento do quarto do Matthias.
A minha sogra não quer acreditar que isto está a acontecer e que eu não fico à beira de um ataque de nervos. Confesso que um ataque de nervos agora, com a casa a encher-se desta maneira, não era grande ideia.
É obviamente um caso de diferenças culturais. Os alemães - e não leiam o mínimo vestígio de crítica no que vou dizer! - preparam-se para uma coisa, planeiam com todo o detalhe, e não admitem variações ao inicialmente previsto. Para um português, isto é estranho. Nem me passaria pela cabeça dizer àqueles primos "tenham paciência, mas só me preparei para 16 pessoas, por isso não podem ser 20". Em contrapartida, a minha sogra - e muitos alemães como ela - acha que é uma grande malcriadice telefonar no próprio dia a perguntar se também podem vir. Ora isso é que seria, para mim, escandaloso: poderem vir, e não ousarem perguntar, por uma questão de delicadeza!
Ando aqui há vinte anos, e ainda me conseguem surpreender.
Às tantas, sou mais um daqueles famosos casos de estrangeiros que não se integram...
Com certeza - para quem ocupa um lugar tão grande no nosso coração arranja-se sempre espaço. Além disso, não são esquisitos: dormem em dois colchões no chão do escritório, e os miúdos juntam-se aos outros lá no acampamento do quarto do Matthias.
A minha sogra não quer acreditar que isto está a acontecer e que eu não fico à beira de um ataque de nervos. Confesso que um ataque de nervos agora, com a casa a encher-se desta maneira, não era grande ideia.
É obviamente um caso de diferenças culturais. Os alemães - e não leiam o mínimo vestígio de crítica no que vou dizer! - preparam-se para uma coisa, planeiam com todo o detalhe, e não admitem variações ao inicialmente previsto. Para um português, isto é estranho. Nem me passaria pela cabeça dizer àqueles primos "tenham paciência, mas só me preparei para 16 pessoas, por isso não podem ser 20". Em contrapartida, a minha sogra - e muitos alemães como ela - acha que é uma grande malcriadice telefonar no próprio dia a perguntar se também podem vir. Ora isso é que seria, para mim, escandaloso: poderem vir, e não ousarem perguntar, por uma questão de delicadeza!
Ando aqui há vinte anos, e ainda me conseguem surpreender.
Às tantas, sou mais um daqueles famosos casos de estrangeiros que não se integram...
Pastoral da internet
O texto referido no post anterior deixou-me a delirar: entrar em espaços como o second life, criar avatares para provocar situações que interpelem os outros avatares e dêem início a diálogos.
Um sem-abrigo que mete conversa com os que passam, adolescentes que provocam e agridem um passageiro no comboio (na Alemanha tem havido casos desses, gravíssimos, onde o mais chocante é a passividade dos outros presentes), uma mulher que não sabe se deve abortar...
Se as pessoas não vão à Igreja, a Igreja vai encontrar-se com elas nos locais por onde elas andam.
Mas depois imagino o pessoal da Cientologia a oferecer no second life os seus testes-armadilha sobre o stress e tal...
Um sem-abrigo que mete conversa com os que passam, adolescentes que provocam e agridem um passageiro no comboio (na Alemanha tem havido casos desses, gravíssimos, onde o mais chocante é a passividade dos outros presentes), uma mulher que não sabe se deve abortar...
Se as pessoas não vão à Igreja, a Igreja vai encontrar-se com elas nos locais por onde elas andam.
Mas depois imagino o pessoal da Cientologia a oferecer no second life os seus testes-armadilha sobre o stress e tal...
21 outubro 2009
second life
A meio do passeio habitual pelos blogues, dou-me conta de algo tão evidente que precisei de anos para perceber: há sítios muito agradáveis na internet. Lugares cheios de sol e de pessoas fascinantes. Gente de quem nem o nome verdadeiro conheço, é verdade, mas cuja riqueza interior, revelada em posts ou frases simples pelas caixas de comentários, aumenta a qualidade da minha vida.
E eis como dou comigo a saborear intensamente esta espécie de second life, e a misturar planos: alguns dos meus melhores amigos de hoje começaram por ser meros nomes, ou até menos que isso, nesse mundo a que chamam virtual.
A partir de amanhã, contudo, vou ser levemente atropelada pela vida real: encontro anual da família aqui em casa. Dezasseis pessoas durante vários dias. E a minha sogra a perguntar porque é que tenho um blogue, e para que é que isso serve, e em que mundo estranho me movo, e assim e assado.
Pois bem, desta vez a Igreja Católica veio em meu auxílio. Com aquele seu ar semi-desligado de sabedoria milenar, ultrapassa-nos a todos pela direita. Já começa a perceber quão real e concreto é esse mundo virtual, e como se pode interagir com avatares. Para quando uma Pastoral da Internet?
Leiam o artigo da Agência Ecclesia, é muito interessante.
(E quando a minha sogra me perguntar o que ando a fazer por estes lados, digo que só cá venho por causa da Catequese. Hehehe.)
E eis como dou comigo a saborear intensamente esta espécie de second life, e a misturar planos: alguns dos meus melhores amigos de hoje começaram por ser meros nomes, ou até menos que isso, nesse mundo a que chamam virtual.
A partir de amanhã, contudo, vou ser levemente atropelada pela vida real: encontro anual da família aqui em casa. Dezasseis pessoas durante vários dias. E a minha sogra a perguntar porque é que tenho um blogue, e para que é que isso serve, e em que mundo estranho me movo, e assim e assado.
Pois bem, desta vez a Igreja Católica veio em meu auxílio. Com aquele seu ar semi-desligado de sabedoria milenar, ultrapassa-nos a todos pela direita. Já começa a perceber quão real e concreto é esse mundo virtual, e como se pode interagir com avatares. Para quando uma Pastoral da Internet?
Leiam o artigo da Agência Ecclesia, é muito interessante.
(E quando a minha sogra me perguntar o que ando a fazer por estes lados, digo que só cá venho por causa da Catequese. Hehehe.)
19 outubro 2009
à terceira é de vez
Ao ver este vídeo, o Matthias deu uma gargalhada: "Ele é tão mau!"
Pois, ele é tão mau, e ela é excelente. Nem sequer é o cantar - é aquela alegria, exuberância e simplicidade. Neste mesmo programa ("Wetten dass" = "Aposto que") já a vi a fazer caretas muito divertidas enquanto tentava tocar um instrumento de sopro, já não me lembro qual, no meio de uma banda de música. Tinha perdido a aposta...
Ontem cantava na Filarmonia. Queria ir vê-la, mas não comprei o bilhete com a antecedência necessária. Pensei que teria sorte à porta, mas não tive. E já é a segunda vez que isto me acontece com a Cecilia Bartoli. Ora bem: há que tirar conclusões, porque isto não me pode acontecer três vezes!
Tiro - portanto - a conclusão que, da próxima vez, de certeza que um anjo descerá dos céus cinco minutos antes do concerto começar para me dar um bilhetinho num lugar fantástico a um preço acessível. Ou de graça, até. Já que estão a fazer milagres...
16 outubro 2009
somos todos alemães
Pela boca morre o peixe...
Um caso que tem dado aqui que falar é o de Sarrazin (mas que nome haviam de lhe ter arranjado), um ex-"ministro das Finanças" de Berlim, que gosta de dizer as coisas de modo provocador. Nesta cidade tornou-se extremamente impopular por ter, entre outros tristes episódios, feito contas de cabeça sobre a vida dos mais pobres, dizendo como é que se podem alimentar com menos de quatro euros por dia. Para quem tinha 46 outros tachitos, não está mal...
Afastado desse cargo em fins de Abril de 2009, recebeu um lugar no conselho de administração do Bundesbank (o banco central alemão).
Recentemente, deu uma entrevista onde falava dos árabes e muçulmanos como muito bem lhe apeteceu: "Não tenho de reconhecer ninguém que vive do Estado, mas repudia este Estado; que não cuida adequadamente da Educação para os filhos e produz constantemente novas meninas com lenços na cabeça. Em Berlim, isto é válido para 70% da população turca e 90% da população árabe". Além disso, "há ainda o problema de 40% dos nascimentos ocorrerem apenas nas classes sociais mais baixas". E toca de dizer que é preciso fechar as fronteiras a pessoal que não tenha altíssimas qualificações.
O Banco não o pode despedir, mas retirou-lhe poderes.
A discussão alastrou - e bem. Há os que dizem que é uma vergonha, e os que dizem que o tom foi inadequado mas que é importante falarmos sobre os problemas apontados. Os jornais foram averiguar como é mesmo essa história dos 70% e dos 90%, e aproveitaram para informar que, em caso de concorrerem ao mesmo emprego apresentando qualificações semelhantes, o filho do imigrante é preterido em favor do filho de alemães.
Pelo seu lado, os organismos competentes estão a debater se as afirmações de Sarrazin entram já na área de xenofobia e ódio. É que, como muito bem diz o ditado, gato goebbelslizado da água fria tem medo.
E de repente, dias depois, cai-me uma ficha: e como são os alemães no estrangeiro?
Misturam-se com a população? Integram-se? Respeitam os costumes locais?
Muitos deles põem os filhos na escola alemã, não cuidam de respeitar as tradições do país que os recebe (lembram-se do filme "A Beleza do Pecado"? Jugoslavo, meados dos anos 80, sobre uma aldeia de nudistas e os problemas morais que isso colocava aos autóctones) (mas também podia contar a história do meu marido, há vinte anos, a fazer questão de escolher ele próprio a fruta na mercearia, em vez de aceitar o que lhe metiam no saco), transformam à medida dos seus sonhos e do seu conforto os sítios onde se instalam. E nem sempre se coíbem de dizer mal do povo que os acolheu e do país onde ganham - na maior parte dos casos - bom dinheiro.
Nós é que não reparamos logo porque não somos tão diferentes que chegue para reacção alérgica à primeira vista.
E, além disso, há uma certa predisposição para ser mais tolerante com os ricos que com os pobres.
Mas, no fundo, no fundo, não são só os turcos e os árabes: somos todos alemães, é o que é.
E depois vem a Abrunho, que agora mora em Zurique, e conta isto:
Os turcos da Suíça
Os turcos da Suíça são os alemães. Um dia destes hei-de ler mais um daqueles títulos "Há alemães a mais?" e rir-me como a cobra do Pinóquio até ficar sufocada em Schadenfreude. Queixam-se uns de que os outros não se sabem comportar, mal-educados, com a mania que o mundo é deles. Queixam-se os outros de serem tratados com rudeza. Li no jornal, que se apanha grátis na estação, que vai começar um novo jornal para os alemães na diáspora (diáspora a uma hora de distância!!!): para os ajudar a integrar!! Eu vou morrer a rir-me neste país.
***
Em suma: somos todos diferentes e todos temos resistências a todos. Não nos ficaria mal olhar para o espelho antes de começar a falar dos outros.
Um caso que tem dado aqui que falar é o de Sarrazin (mas que nome haviam de lhe ter arranjado), um ex-"ministro das Finanças" de Berlim, que gosta de dizer as coisas de modo provocador. Nesta cidade tornou-se extremamente impopular por ter, entre outros tristes episódios, feito contas de cabeça sobre a vida dos mais pobres, dizendo como é que se podem alimentar com menos de quatro euros por dia. Para quem tinha 46 outros tachitos, não está mal...
Afastado desse cargo em fins de Abril de 2009, recebeu um lugar no conselho de administração do Bundesbank (o banco central alemão).
Recentemente, deu uma entrevista onde falava dos árabes e muçulmanos como muito bem lhe apeteceu: "Não tenho de reconhecer ninguém que vive do Estado, mas repudia este Estado; que não cuida adequadamente da Educação para os filhos e produz constantemente novas meninas com lenços na cabeça. Em Berlim, isto é válido para 70% da população turca e 90% da população árabe". Além disso, "há ainda o problema de 40% dos nascimentos ocorrerem apenas nas classes sociais mais baixas". E toca de dizer que é preciso fechar as fronteiras a pessoal que não tenha altíssimas qualificações.
O Banco não o pode despedir, mas retirou-lhe poderes.
A discussão alastrou - e bem. Há os que dizem que é uma vergonha, e os que dizem que o tom foi inadequado mas que é importante falarmos sobre os problemas apontados. Os jornais foram averiguar como é mesmo essa história dos 70% e dos 90%, e aproveitaram para informar que, em caso de concorrerem ao mesmo emprego apresentando qualificações semelhantes, o filho do imigrante é preterido em favor do filho de alemães.
Pelo seu lado, os organismos competentes estão a debater se as afirmações de Sarrazin entram já na área de xenofobia e ódio. É que, como muito bem diz o ditado, gato goebbelslizado da água fria tem medo.
E de repente, dias depois, cai-me uma ficha: e como são os alemães no estrangeiro?
Misturam-se com a população? Integram-se? Respeitam os costumes locais?
Muitos deles põem os filhos na escola alemã, não cuidam de respeitar as tradições do país que os recebe (lembram-se do filme "A Beleza do Pecado"? Jugoslavo, meados dos anos 80, sobre uma aldeia de nudistas e os problemas morais que isso colocava aos autóctones) (mas também podia contar a história do meu marido, há vinte anos, a fazer questão de escolher ele próprio a fruta na mercearia, em vez de aceitar o que lhe metiam no saco), transformam à medida dos seus sonhos e do seu conforto os sítios onde se instalam. E nem sempre se coíbem de dizer mal do povo que os acolheu e do país onde ganham - na maior parte dos casos - bom dinheiro.
Nós é que não reparamos logo porque não somos tão diferentes que chegue para reacção alérgica à primeira vista.
E, além disso, há uma certa predisposição para ser mais tolerante com os ricos que com os pobres.
Mas, no fundo, no fundo, não são só os turcos e os árabes: somos todos alemães, é o que é.
E depois vem a Abrunho, que agora mora em Zurique, e conta isto:
Os turcos da Suíça
Os turcos da Suíça são os alemães. Um dia destes hei-de ler mais um daqueles títulos "Há alemães a mais?" e rir-me como a cobra do Pinóquio até ficar sufocada em Schadenfreude. Queixam-se uns de que os outros não se sabem comportar, mal-educados, com a mania que o mundo é deles. Queixam-se os outros de serem tratados com rudeza. Li no jornal, que se apanha grátis na estação, que vai começar um novo jornal para os alemães na diáspora (diáspora a uma hora de distância!!!): para os ajudar a integrar!! Eu vou morrer a rir-me neste país.
***
Em suma: somos todos diferentes e todos temos resistências a todos. Não nos ficaria mal olhar para o espelho antes de começar a falar dos outros.
Pois. Que nós cá não contamos anedotas sobre os outros povos, nem temos preconceitos, nem clichés, nem nada. Somos mais tipo brandos costumes.
Um inglês, um português, um chinês e um judeu estavam num café.
Cada um pediu uma bica. *
O empregado trouxe os cafés, e curiosamente em cada um havia uma mosca.
O inglês, todo enojado, devolveu o seu café.
O português, disfarçadamente, tirou a mosca e bebeu o café. **
O chinês, comeu a mosca.
E o judeu vendeu a sua mosca ao chinês. ***
* (ou cimbalino, ou vica - como os do norte acham que os do sul dizem) (bolas, não consigo contar uma anedota sem fazer, vou citar, uma elipse) ( ;-) para duas certas pessoas)
** era antes do tempo da ASAE
*** por causa desta frase, esta anedota não pode ser contada na Alemanha. Não convém, pelo menos.
Cada um pediu uma bica. *
O empregado trouxe os cafés, e curiosamente em cada um havia uma mosca.
O inglês, todo enojado, devolveu o seu café.
O português, disfarçadamente, tirou a mosca e bebeu o café. **
O chinês, comeu a mosca.
E o judeu vendeu a sua mosca ao chinês. ***
* (ou cimbalino, ou vica - como os do norte acham que os do sul dizem) (bolas, não consigo contar uma anedota sem fazer, vou citar, uma elipse) ( ;-) para duas certas pessoas)
** era antes do tempo da ASAE
*** por causa desta frase, esta anedota não pode ser contada na Alemanha. Não convém, pelo menos.
anedotas de português
I.
Qual é a diferença entre um computador brasileiro e um computador português?
O computador brasileiro tem memória; o português tem uma "vaga lembrança".
(imaginem um brasileiro a dizer "vágue lmbrnss" tentando imitar um emigrante, digamos: Valadares, o Portuga - é o mais engraçado da piada)
II.
No Brasil, em resposta a uma onda de protesto contra as anedotas de portugueses, resolveram começar a contar anedotas de japoneses. Uma delas começava assim: "era uma vez dois japoneses, um chamava-se Manuel e o outro Joaquim..."
III.
O Manuel tinha uma gata que amava mais do que quase tudo no mundo. Infelizmente teve de ir passar uns meses a Portugal e não podia levar a gata. Pediu à família que cuidasse o melhor possível do bichinho, e partiu. Passadas umas semanas, recebeu um telegrama: "Manuel, a tua gata morreu". Ia morrendo ele também, caiu em coma, tudo. Quando finalmente se conseguiu restabelecer, escreveu à família a protestar contra a falta de sensibilidade. Que deviam ter mandado a notícia de modo faseado, "Manuel, a tua gata subiu ao telhado", "Manuel, a tua gata caiu do telhado", "Manuel, a tua gata está ferida" e, finalmente, "Manuel, trágicas notícias:"
Os irmãos pediram desculpa, tudo se compôs, e passados uns tempos o Manuel recebeu novo telegrama: "Manuel, a mãe subiu ao telhado".
IV.
Uma actriz brasileira foi a Portugal fazer um filmezinho parvo para um programa de TV parvo. No fim do programa, as participantes riem-se muito da parvoíce da actriz, porque receberam no Brasil um e-mail dela a dizer "não estou conseguindo enviar e-mails para o Brasil".
Quatro anos mais tarde, os portugueses dão-se conta da existência daquele filme e armam escândalo.
- Se isto não é um caso de "vaga lembrança"...
***
Houve uma altura em que a equipa com a qual inventei o famoso "português neutro" recebeu reforços do Brasil. Entre outros, veio um rapaz bastante jovem, que na véspera da partida tinha tido um acidente de automóvel e parecia ter partido o nariz. Ao fim de uns dias de muitas dores e fungadelas levei-o ao hospital, ajudei-o com o hospitalês (que é um pouco diferente de alemão) e esperei até lhe darem um nariz novo. Na viagem de regresso, ele confidenciou-me:
- Nossa, Helena, não imaginava que os portugueses fossem tão legais!
Ao que lhe respondi:
- Tens andado a ouvir muitas anedotas de português!
Ao que ele, que era mesmo muito novo, respondeu:
- Pois é! Na festa de despedida até me disseram que quando for trabalhar com vocês tenho de ter cuidado para não as contar!
***
De visões brasileiras sobre os portugueses anda este universo cheio. Já leram o livro "o Português que nos Pariu"? É um bom exemplo de como nos podemos desentender.
Se vamos fazer abaixo-assinados e escândalos por cada palermice que dizem sobre nós, não fazemos mais nada.
E depois, há a questão que não quer calar: são só os outros? cadê nós próprios?
Para quando os abaixo-assinados contra as anedotas de alentejanos, o Estiêbes (sim, esse insulto ao puôbo da gluriuosa inbicta!) e o Inimigo Público?
Qual é a diferença entre um computador brasileiro e um computador português?
O computador brasileiro tem memória; o português tem uma "vaga lembrança".
(imaginem um brasileiro a dizer "vágue lmbrnss" tentando imitar um emigrante, digamos: Valadares, o Portuga - é o mais engraçado da piada)
II.
No Brasil, em resposta a uma onda de protesto contra as anedotas de portugueses, resolveram começar a contar anedotas de japoneses. Uma delas começava assim: "era uma vez dois japoneses, um chamava-se Manuel e o outro Joaquim..."
III.
O Manuel tinha uma gata que amava mais do que quase tudo no mundo. Infelizmente teve de ir passar uns meses a Portugal e não podia levar a gata. Pediu à família que cuidasse o melhor possível do bichinho, e partiu. Passadas umas semanas, recebeu um telegrama: "Manuel, a tua gata morreu". Ia morrendo ele também, caiu em coma, tudo. Quando finalmente se conseguiu restabelecer, escreveu à família a protestar contra a falta de sensibilidade. Que deviam ter mandado a notícia de modo faseado, "Manuel, a tua gata subiu ao telhado", "Manuel, a tua gata caiu do telhado", "Manuel, a tua gata está ferida" e, finalmente, "Manuel, trágicas notícias:"
Os irmãos pediram desculpa, tudo se compôs, e passados uns tempos o Manuel recebeu novo telegrama: "Manuel, a mãe subiu ao telhado".
IV.
Uma actriz brasileira foi a Portugal fazer um filmezinho parvo para um programa de TV parvo. No fim do programa, as participantes riem-se muito da parvoíce da actriz, porque receberam no Brasil um e-mail dela a dizer "não estou conseguindo enviar e-mails para o Brasil".
Quatro anos mais tarde, os portugueses dão-se conta da existência daquele filme e armam escândalo.
- Se isto não é um caso de "vaga lembrança"...
***
Houve uma altura em que a equipa com a qual inventei o famoso "português neutro" recebeu reforços do Brasil. Entre outros, veio um rapaz bastante jovem, que na véspera da partida tinha tido um acidente de automóvel e parecia ter partido o nariz. Ao fim de uns dias de muitas dores e fungadelas levei-o ao hospital, ajudei-o com o hospitalês (que é um pouco diferente de alemão) e esperei até lhe darem um nariz novo. Na viagem de regresso, ele confidenciou-me:
- Nossa, Helena, não imaginava que os portugueses fossem tão legais!
Ao que lhe respondi:
- Tens andado a ouvir muitas anedotas de português!
Ao que ele, que era mesmo muito novo, respondeu:
- Pois é! Na festa de despedida até me disseram que quando for trabalhar com vocês tenho de ter cuidado para não as contar!
***
De visões brasileiras sobre os portugueses anda este universo cheio. Já leram o livro "o Português que nos Pariu"? É um bom exemplo de como nos podemos desentender.
Se vamos fazer abaixo-assinados e escândalos por cada palermice que dizem sobre nós, não fazemos mais nada.
E depois, há a questão que não quer calar: são só os outros? cadê nós próprios?
Para quando os abaixo-assinados contra as anedotas de alentejanos, o Estiêbes (sim, esse insulto ao puôbo da gluriuosa inbicta!) e o Inimigo Público?
15 outubro 2009
serviço público (3)
O segunda língua também esteve mês e meio calado. Hoje voltou.
Copio para aqui o post, porque me ocorreu que seria um óptimo final para o Eleições 2009, mas - já sabem - este blog é para ser lido inteiro e devagar. Não há como escolher um post em prejuízo dos outros.
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
múmias
Movia a ossatura, mumificado pela comitiva de bandeiras e algumas câmaras de TV, transbordando dos passeios para a rua incomodando o trânsito. O mesmo sorriso da adolescência, agora um pouco mais cínico, o mesmo corte de meia malga, agora com menos cabelo, o rosto excessivamente envelhecido, talvez, quiçá, do sol de Lisboa em demasia. Nunca pensei que desse em político, distracção minha - a política também funciona por dinastias.
Os políticos que a província embarca para a capital descem, por um dia, dos placards à calçada. Desembrulham-se na rua entre bandeiras e slogans parolos, apertando todas as mãos, beijando rostos estupefactos de mulheres encostadas nas soleiras das portas. Fazem todos os sacrifícios. Deixam as velhas lamberem-lhes a cara. Elas sabem que eles não gostam. Riem-se umas com as outras trocando detalhes do seu prazer maléfico, comparando cheiros de colónias e sabores de after-shave. Coleccionam lambidelas e no dia do voto decidem pela memória do nariz e da língua. Eles repõem no corpo camadas de linho encharcadas em resina, a toda a velocidade em direcção ao sul.
Copio para aqui o post, porque me ocorreu que seria um óptimo final para o Eleições 2009, mas - já sabem - este blog é para ser lido inteiro e devagar. Não há como escolher um post em prejuízo dos outros.
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
múmias
Movia a ossatura, mumificado pela comitiva de bandeiras e algumas câmaras de TV, transbordando dos passeios para a rua incomodando o trânsito. O mesmo sorriso da adolescência, agora um pouco mais cínico, o mesmo corte de meia malga, agora com menos cabelo, o rosto excessivamente envelhecido, talvez, quiçá, do sol de Lisboa em demasia. Nunca pensei que desse em político, distracção minha - a política também funciona por dinastias.
Os políticos que a província embarca para a capital descem, por um dia, dos placards à calçada. Desembrulham-se na rua entre bandeiras e slogans parolos, apertando todas as mãos, beijando rostos estupefactos de mulheres encostadas nas soleiras das portas. Fazem todos os sacrifícios. Deixam as velhas lamberem-lhes a cara. Elas sabem que eles não gostam. Riem-se umas com as outras trocando detalhes do seu prazer maléfico, comparando cheiros de colónias e sabores de after-shave. Coleccionam lambidelas e no dia do voto decidem pela memória do nariz e da língua. Eles repõem no corpo camadas de linho encharcadas em resina, a toda a velocidade em direcção ao sul.
serviço público (2)
O Miguel Silva, outro intermitente, também vai reaparecendo. Por exemplo:
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Causa - efeito
Não deixa de ser curiosa esta forma de pretender desvalorizar alguém recorrendo ao nu. Não apenas pelo que revela das representações sobre o corpo, sobre a mulher e sobre a sexualidade, mas também porque, como parece ser evidente, neste caso concreto, não produzirá necessariamente o efeito desejado.
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
Causa - efeito
Não deixa de ser curiosa esta forma de pretender desvalorizar alguém recorrendo ao nu. Não apenas pelo que revela das representações sobre o corpo, sobre a mulher e sobre a sexualidade, mas também porque, como parece ser evidente, neste caso concreto, não produzirá necessariamente o efeito desejado.
14 outubro 2009
serviço público
O Quase em Português voltou.
(Nem me atrevo a dizer isto muito alto, não vá o rapaz desaparecer de novo por umas semanas.)
(Nem me atrevo a dizer isto muito alto, não vá o rapaz desaparecer de novo por umas semanas.)
"mudar de Karl Rove"
O Eduardo Pitta ainda mais certeiro que habitualmente:
"Desde que foi eleito secretário-geral do Partido Socialista, em 24 de Setembro de 2004, José Sócrates tem sido acusado de tudo. Isso não o impediu de ganhar as legislativas de 2005 com maioria absoluta e as de 2009 com maioria relativa. Sublinhar que a vitória de há quinze dias foi obtida contra uma coligação negativa de sete corporações: sindicatos, magistrados, jornalistas, professores, médicos, farmacêuticos e militares. Anteontem, o PS ganhou as autárquicas, obtendo mais votos, mais mandatos e mais presidências de câmara do que nas autárquicas de 2005. Contra os 22,95% do PSD, o PS obteve 37,66%.
Lembrar aos distraídos que 28 câmaras do PSD foram conquistadas pelo PS: Leiria, Figueira da Foz, Trofa, Ourém, Castelo de Paiva, Barcelos, Terras de Bouro, Vieira do Minho, Alfândega da Fé, Miranda do Douro, Oliveira do Hospital, Penacova, Tavira, Vila do Bispo, Manteigas, Mêda, Mesão Frio, Castro Daire, Mangualde, Moimenta da Beira, Tabuaço, Vila Nova de Paiva, Valença, Povoação, St.ª Cruz da Graciosa, Velas, Vila Franca do Campo e Lajes do Pico (as últimas quatro nos Açores). E outras seis conquistadas ao PCP: Beja, Viana do Alentejo, Vila Viçosa, Marinha Grande, Monforte e Aljustrel.
Imaginem o que seria sem a rua em brasa, desemprego, Freeport, férias dos juízes, ASAE, novo aeroporto de Lisboa, avaliação de professores, affaire Independente, IVG, Cova da Beira, Estatuto dos Açores, leis fracturantes, TVI, projectos de maisons, pré-dissidência de Manuel Alegre, reforma da Segurança Social, Código do Trabalho contra a esquerda, processos a jornalistas, Belémgate, crise económica internacional, endividamento da população, Quimondas, fronda anti-TGV, axfixia democrática, etc. Ou muito me engano, ou o PSD vai ter de substituir os seus Karl Rove."
"Desde que foi eleito secretário-geral do Partido Socialista, em 24 de Setembro de 2004, José Sócrates tem sido acusado de tudo. Isso não o impediu de ganhar as legislativas de 2005 com maioria absoluta e as de 2009 com maioria relativa. Sublinhar que a vitória de há quinze dias foi obtida contra uma coligação negativa de sete corporações: sindicatos, magistrados, jornalistas, professores, médicos, farmacêuticos e militares. Anteontem, o PS ganhou as autárquicas, obtendo mais votos, mais mandatos e mais presidências de câmara do que nas autárquicas de 2005. Contra os 22,95% do PSD, o PS obteve 37,66%.
Lembrar aos distraídos que 28 câmaras do PSD foram conquistadas pelo PS: Leiria, Figueira da Foz, Trofa, Ourém, Castelo de Paiva, Barcelos, Terras de Bouro, Vieira do Minho, Alfândega da Fé, Miranda do Douro, Oliveira do Hospital, Penacova, Tavira, Vila do Bispo, Manteigas, Mêda, Mesão Frio, Castro Daire, Mangualde, Moimenta da Beira, Tabuaço, Vila Nova de Paiva, Valença, Povoação, St.ª Cruz da Graciosa, Velas, Vila Franca do Campo e Lajes do Pico (as últimas quatro nos Açores). E outras seis conquistadas ao PCP: Beja, Viana do Alentejo, Vila Viçosa, Marinha Grande, Monforte e Aljustrel.
Imaginem o que seria sem a rua em brasa, desemprego, Freeport, férias dos juízes, ASAE, novo aeroporto de Lisboa, avaliação de professores, affaire Independente, IVG, Cova da Beira, Estatuto dos Açores, leis fracturantes, TVI, projectos de maisons, pré-dissidência de Manuel Alegre, reforma da Segurança Social, Código do Trabalho contra a esquerda, processos a jornalistas, Belémgate, crise económica internacional, endividamento da população, Quimondas, fronda anti-TGV, axfixia democrática, etc. Ou muito me engano, ou o PSD vai ter de substituir os seus Karl Rove."
13 outubro 2009
agora, ou então daqui a um ano
Dizem que já chegou o Inverno.
Um pouco mais para o norte até houve um desastre aparatoso: por causa da neve, choques em cadeia na autoestrada. "Por causa da neve"? Socorro.
Dizem que já chegou o Inverno, mas eu não reparei. O céu sobre mim está retalhado em nuvens compactas, daquelas lindíssimas em todos os tons de chumbo. O sol, já mais raso, corta caminho como pode, e ilumina por dentro as árvores tingidas de todas as cores de Outono.
Quem quiser ver uma Berlim em glorioso cenário, venha agora.
Um pouco mais para o norte até houve um desastre aparatoso: por causa da neve, choques em cadeia na autoestrada. "Por causa da neve"? Socorro.
Dizem que já chegou o Inverno, mas eu não reparei. O céu sobre mim está retalhado em nuvens compactas, daquelas lindíssimas em todos os tons de chumbo. O sol, já mais raso, corta caminho como pode, e ilumina por dentro as árvores tingidas de todas as cores de Outono.
Quem quiser ver uma Berlim em glorioso cenário, venha agora.
e depois das eleições...
...o eleições 2009 (blogue colectivo do Público para acompanhar este ano eleitoral) chega ao fim.
Copio para aqui o post que lá deixei hoje:
“porque parou? parou porquê?”
É óbvio que um blog chamado “Eleições 2009″ tinha o fim marcado.Mas há que continuar o debate político – agora mais do que nunca, porque mais livre dos condicionamentos de lógicas eleitorais.
Agradeço ao Paulo Querido e ao Público a ousadia desta iniciativa, e peço que a continuem, para continuarmos a discutir políticas e ideias.
Ainda há muita pedra para partir sobre o futuro que gostaríamos de construir para Portugal e para/com a Europa.
Que tal um blogue chamado “Governo Sombra” (espero que ainda não exista nenhum com esse nome), ou então “Democracia Nossa”, ou “Casa Nossa” (hehehe) ou, sei lá, “a falar é que a gente inventa o futuro”?
E, já que falo para o Público, mais um repto: não conheço jornal nenhum onde haja a rubrica “Europa” – passa-se de “nacional” para “internacional”, esquecendo que o nível intermédio, um pouco mais que nacional, mas de modo algum externo a nós, já é uma realidade. Para quando uma rubrica específica para dar notícia da Comissão e do Parlamento, das iniciativas dos partidos europeus e dos cidadãos, das dificuldades e realizações na construção deste espaço?
Um abraço, e até sempre!
***
Num comentário a esse post já apareceu uma informação importante: a euronews tem uma editoria Europa. Óptimo!
***
E lá se vai a minha apresentação naquele blogue, que tanto trabalho me deu a inventar (hehehe, se não me conhecessem, se calhar até eram capazes de cair nesta...), para sei lá que nuvem sobre sei lá que país. Fique então registada nestas nuvens mais próximas:
sobre o autor
Helena Araujo Economista, tradutora, residente em Berlim, com raízes no Porto, no Minho e na Autêntica Fábrica de Pastéis de Belém. E-mail: zelecm@gmail.com
Copio para aqui o post que lá deixei hoje:
“porque parou? parou porquê?”
É óbvio que um blog chamado “Eleições 2009″ tinha o fim marcado.Mas há que continuar o debate político – agora mais do que nunca, porque mais livre dos condicionamentos de lógicas eleitorais.
Agradeço ao Paulo Querido e ao Público a ousadia desta iniciativa, e peço que a continuem, para continuarmos a discutir políticas e ideias.
Ainda há muita pedra para partir sobre o futuro que gostaríamos de construir para Portugal e para/com a Europa.
Que tal um blogue chamado “Governo Sombra” (espero que ainda não exista nenhum com esse nome), ou então “Democracia Nossa”, ou “Casa Nossa” (hehehe) ou, sei lá, “a falar é que a gente inventa o futuro”?
E, já que falo para o Público, mais um repto: não conheço jornal nenhum onde haja a rubrica “Europa” – passa-se de “nacional” para “internacional”, esquecendo que o nível intermédio, um pouco mais que nacional, mas de modo algum externo a nós, já é uma realidade. Para quando uma rubrica específica para dar notícia da Comissão e do Parlamento, das iniciativas dos partidos europeus e dos cidadãos, das dificuldades e realizações na construção deste espaço?
Um abraço, e até sempre!
***
Num comentário a esse post já apareceu uma informação importante: a euronews tem uma editoria Europa. Óptimo!
***
E lá se vai a minha apresentação naquele blogue, que tanto trabalho me deu a inventar (hehehe, se não me conhecessem, se calhar até eram capazes de cair nesta...), para sei lá que nuvem sobre sei lá que país. Fique então registada nestas nuvens mais próximas:
sobre o autor
12 outubro 2009
a gente sujeita-se a cada humilhação...
No aeroporto Sá Carneiro (quem se terá lembrado de dar a um aeroporto o nome de alguém que morreu num desastre de avião?!), quase deserto às seis da manhã, havia entre o controle do bilhete e o controle da bagagem três longos corredores formados por separadores móveis.
O casal de velhinhos à minha frente fez contas às desnecessárias voltas que teria de dar, e hesitou. Eu, não. Toda lampeira, soltei a fita do separador móvel para eles atalharem caminho.
Daí a nada estava o fiscal dos bilhetes a ralhar comigo, "Aqui só mexem os responsáveis de segurança do aeroporto!", disse com voz grossa. E eu "Tem razão, mas..." - e ia falar dos velhinhos, e perguntar por que razão nos obrigam a andar às voltas num labirinto artificial e de momento desnecessário porque há apenas meia dúzia de passageiros, mas ele atalhou-me: "Pois claro que tenho razão!"
E lá fui eu com a minha malinha: até ao fundo, e volta, e de novo até ao fundo, por corredores vazios.
Uma pessoa sujeita-se a estas coisas em nome de quê?
E que espécie de sadismo faz com que o pessoal do aeroporto obrigue os passageiros a fazerem esta figura de acéfalos submissos?
O casal de velhinhos à minha frente fez contas às desnecessárias voltas que teria de dar, e hesitou. Eu, não. Toda lampeira, soltei a fita do separador móvel para eles atalharem caminho.
Daí a nada estava o fiscal dos bilhetes a ralhar comigo, "Aqui só mexem os responsáveis de segurança do aeroporto!", disse com voz grossa. E eu "Tem razão, mas..." - e ia falar dos velhinhos, e perguntar por que razão nos obrigam a andar às voltas num labirinto artificial e de momento desnecessário porque há apenas meia dúzia de passageiros, mas ele atalhou-me: "Pois claro que tenho razão!"
E lá fui eu com a minha malinha: até ao fundo, e volta, e de novo até ao fundo, por corredores vazios.
Uma pessoa sujeita-se a estas coisas em nome de quê?
E que espécie de sadismo faz com que o pessoal do aeroporto obrigue os passageiros a fazerem esta figura de acéfalos submissos?
10 outubro 2009
9 outubro 1989
Este texto foi publicado há cerca de uma semana numa revista das igrejas evangélicas alemãs que é distribuída gratuitamente em alguns jornais diários. Achei-o interessante, porque lança um olhar inesperado sobre a História que conhecemos, e queria tê-lo traduzido para publicar ontem, mas como terão reparado, fui ultrapassada pelos acontecimentos.
Vai com um dia de atraso, paciência.

O original pode ser lido aqui: chrismon
Aconteceu a 9 de Outubro de 1989. "Não à violência!", gritavam dezenas de milhares de pessoas nas ruas de Leipzig e de outras cidades da RDA. Na época, Christian Führer era pastor na Nikolaikirche. É ele quem conta como uma oração para a Paz se transformou em movimento e culminou na Revolução Pacífica.
Christian Führer, nascido a 1943 em Leipzig, foi o iniciador das "Orações para a Paz" em Leipzig. O texto que se segue resume um artigo publicado no livro "Da Oração à Manifestação", Edition Chrismon.
Não à violência. Esta é, para mim, a síntese mais curta do sermão da montanha. No dia 9 de Outubro de 1989, dezenas de milhares de pessoas não apenas gritaram esta frase, como também praticaram nas ruas o mandamento da não-violência - em Leipzig como noutras cidades da RDA. Pessoas, que enquanto criança nos infantários brincavam com tanques de guerra, educadas nas escolas para a luta militar de classes, ouviram a mensagem de Jesus. Não à violência. Por meio dela, tornaram possível a Revolução Pacífica, a primeira revolução com êxito na História da Alemanha. Para mim, isto é um milagre com dimensão bíblica. Como dizia o profeta Zacarias: "Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito" (Zacarias, 4,6). E assim aconteceu, com início na Nikolaikirche de Leipzig e em muitas outras igrejas do país.
Esta revolução feliz começou pequenina - pequena como uma semente de mostarda que cai no chão. Na Nikolaikirche começou tudo com as orações para a Paz, propostas por um grupo de jovens em 1982. As celebrações que se realizavam todos os anos eram para eles insuficientes - queriam orações em ritmo semanal. Talvez tenha sido esta a decisão mais importante dos membros do Conselho da Nikolaikirche: apoiar estes jovens, dando início às orações semanais para a Paz. A partir de 20 de Setembro de 1982, às segundas-feiras, às cinco da tarde, na Nikolaikirche, com excepção dos dois meses de férias grandes na RDA. Ainda hoje as pessoas se reúnem nessa oração, coisa que, no início, ninguém teria podido imaginar. Quando, em 1983 e 1984, se intensificou a corrida ao armamento no Leste e no Ocidente, cresceu também a resignação. O número de participantes nestas orações desceu para menos de uma dezena. Houve um dia em que éramos apenas seis. Sentámo-nos junto à grade do altar, o superintendente leu um salmo. Uma mulher disse-me: "Espero que não acabe com este espaço de oração. Se desistirmos, a Esperança morre. Ficará apenas a resignação". Concordei com ela. Reconheci que este espaço de oração teria de permanecer aberto. Como cristãos, estamos obrigados à Esperança. Jesus disse "onde dois ou três se reúnem em meu nome, eu estarei entre eles" (Mat. 18,20). Nós já éramos seis, ou seja, o dobro desse número. Por isso, tínhamos de continuar.
Outro sinal da resignação era o número crescente de pessoas que queriam sair da RDA. Nos anos 80, centenas de milhares de cidadãos, por variados motivos, tinham apenas um objectivo: sair dali. Em muitas paróquias sentiam-se excluídas; algumas foram mesmo deliberadamente afastadas. Na Nikolaikirche havia espaço para elas. No entanto, houve conflitos com os membros dos grupos de base - comparativamente bem mais pequenos. Por esse motivo, sugeri fazer uma palestra, caso as pessoas interessadas em abandonar o país estivessem dispostas a reconsiderar, e que decorreu em 19 de Fevereiro de 1988, com 600 participantes. Escolhi uma passagem do Evangelho de João, onde Jesus pergunta aos seus discípulos, quando estes se dão conta de que os outros se afastam deles: "para onde quereis ir?" (Jo. 6, 67). Na igreja fez-se silêncio. As pessoas reflectiam: "Se fores agora para o Ocidente, não fazes ideia do que isso significa. Os teus amigos e parentes ficam aqui, não sabes se terás de esperar até à reforma para os voltares a ver. Que é que te fizeram aqui, na RDA, que te levou a este beco sem saída?" Disse-lhes: Não podemos sair daqui neste estado de espírito. O ambiente não está nada bom. Talvez possamos ver o que os salmos nos dizem, por exemplo o salmo 65. Nele encontramos uma frase importante para todos nós: "Tu, Senhor, fazes felizes os que vivem no Oriente e no Ocidente" (Salmo 65, 9).
Desataram a rir. O ambiente melhorou imediatamente. Pensavam que talvez Deus erguesse sobre eles a sua mão protectora. No fim, alguns vieram ter comigo, dizendo que não pertenciam à comunidade mas gostariam de participar nas orações para a Paz. Respondi-lhes com o lema da Nikolaikirche: "aberta para todos". A partir desse dia, o número de participantes nas orações das segundas-feiras não parou de crescer.
Uma das orações mais importantes do Outono de 1989 decorreu a 4 de Setembro, que foi a primeira após as férias de Verão. Dado que na mesma altura decorria a Feira de Leipzig, e os jornalistas das televisões ocidentais tinham autorização para filmar em toda a cidade, a direcção da SED estava muito nervosa. O Conselho da Nikolaikirche foi chamado à Câmara de Leipzig antes do dia 4. Durante duas horas, tentaram convencer-nos por todos os meios a começar as orações para a Paz uma semana mais tarde. Respondemos que o nosso trabalho pastoral é definido por nós, e que esta oração teria início como todos os anos naquela semana. E então aconteceu aquilo que os camaradas temiam. Não permiti a entrada dos jornalistas na igreja. O que temos a dizer ao nosso Estado, dizemos-lhe na cara, e não via jornalistas da ARD, ZDF e Deutschlandfunk. No fim da oração, saímos da igreja. A praça estava repleta de câmaras, organizadas em semicírculo. Todos os jornalistas autorizados estavam ali presentes.
Só uns segundos depois percebi como era importante a presença daqueles jornalistas. Foi no momento em que participantes do nosso grupo de base desenrolaram um pano, um lençol onde tinham escrito: "Por um país aberto com pessoas livres". A sua exibição não terá durado mais do que 15 segundos. Membros da Stasi retiraram-no, e atiraram os manifestantes para o chão. Tudo em frente às câmaras ocidentais. As imagens passaram pouco depois na ARD. Hans Joachim Friedrichs informou que aquilo se passara na Nikolaikirche, após a Oração para a Paz. As pessoas no Ocidente viram o que aqui se passara. Tal como as pessoas no Leste. À excepção da região de Dresden, era possível ver a televisão da Alemanha Ocidental em toda a RDA. Os meios de comunicação de que dispunhamos eram muito rudimentares. Nas secretarias paroquiais havia telefones de contacto, mais nada. Com um único golpe, as nossas Orações para a Paz tornaram-se conhecidas em toda a RDA. Em todo o país, pessoas pensaram "também quero fazer esta experiência". É isto, justamente, que não podemos esquecer: no Outono de 1989, pessoas de todo o país visitaram a Nikolaikirche, e desse modo deram um importante impulso à Revolução Pacífica.
Nestas semanas e nestes meses o medo era o nosso companheiro constante. Todos tínhamos em mente as palavras de louvor de Egon Krenz a propósito da repressão violenta do movimento de estudantes na praça da Paz Celestial em Pequim: "o partido comunista na China salvou o socialismo". Já na semana seguinte ao episódio de 4 de Setembro o regime da RDA mostrou a sua dureza em Leipzig. Ao entardecer, após a Oração para a Paz, a Polícia avançou brutalmente para as pessoas que estavam na praça da igreja. Batia nas pessoas e prendia-as. Ao chegar à casa paroquial, abri com fúria a janela e gritei-lhes: "Não pensem que ficam sem castigo! Lembrar-nos-emos das vossas caras!". Uma reacção muito emocional. Lembro-me que um dos que batia nos manifestantes se voltou para mim, dizendo que se estava nas tintas para aquilo de que nos conseguiríamos lembrar. E continuou a bater com o seu bastão. Os manifestantes correram para as escadas da nossa casa. Por sorte, era grande - degraus largos, e vários andares. Declarei à Polícia que aquelas pessoas iam ficar ali. Os polícias retiraram-se sem entrar naquela casa nem na igreja. Tenho de sublinhar isto: o espaço da igreja foi sempre respeitado.
Também no dia 9 de Outubro dominava o medo. Dois dias antes, a 7 de Outubro, quando se comemoravam 40 anos da fundação da RDA, a Polícia de Leipzig tinha espancado e prendido em condições indignas centenas de manifestantes. No dia seguinte, havia um número especialmente elevado de médicos no serviço dominical, que no final me contaram sobre os inúmeros feridos com problemas no ombro e na clavícula. Vítimas de bastonadas. Também revelaram que tinham recebido ordens para prepararem camas nos hospitais para receber pessoas com feridas de balas. Foi essa a preparação para a segunda-feira. Além disso, no jornal local de Leipzig foi publicado um artigo onde se afirmava que era preciso acabar com a contra-revolução, se necessário pela força das armas. Lembro-me que na manhã desse dia preparei para a oração com os funcionários da comunidade este texto da Epístola aos Gálatas: "Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo" (Gal. 6,2). Nessa altura, ainda não sabíamos que carga esse dia poria sobre os nossos ombros. Sabíamos apenas que seria uma carga especialmente pesada.
Logo de manhã começaram os telefonemas: muitas ameaças, mas na maioria eram expressão de medo ou serviam a informação. Também recebemos, curiosamente, um telefonema de uma caserna de Leipzig, informando que Erich Honecker tinha dado indicações para "fechar" a Nikolaikirche - tudo isto sem ordens escritas. Ao meio-dia fecharam as escolas, à tarde as lojas. Cada vez chegavam mais avisos. A notícia mais importante para mim foi a da reunião de 1000 membros da SED na Câmara e na Universidade. Pretendiam ocupar a Nikolaikirche, tal como Erich Loest mais tarde descreveu no seu romance. Às duas e meia da tarde, o sacristão veio dizer-me que a igreja já estava cheia. Estavam lá os muitos membros do partido, que não sabiam que eu sabia quem eles eram. Contudo, nenhum deles estava muito animado, porque não ignoravam que, se naquele dia houvesse disparos, as balas atingiriam indiscriminadamente cristãos e camaradas.
Tentei ocupar o tempo com uma visita guiada à igreja, mas acabei por decidir informá-los de que sabia quem eram eles e ao que vinham. Disse-lhes: "Bem-vindos à Nikolaikirche. Só me surpreende que já estejam aqui. Os trabalhadores do proletariado só podem vir depois do fim do turno, às quatro da tarde. Compreenderão que mantenha as portas para o coro fechadas, mas tenho de reservar algum espaço para os outros participantes da oração para a Paz". Alguns deles não conseguiram evitar uma gargalhada. E depois, foi assombroso: nenhum deles perturbou a oração. Foram até integrados de forma especial. No dia seguinte, três deles telefonaram-me para agradecer aquela oração. Que mudança! Tinham-lhes dito que o pastor da Nikolaikirche incitava as pessoas a lutar nas ruas, que lhes dizia para levarem pedras e bastões para atacar os polícias. E agora, que tinham eles próprios assistido a uma dessas orações, tinham-se dado conta de que tudo isso era mentira, e que o partido os tinha enganado. Isto lembra-me a história de José no Velho Testamento, quando diz aos seus irmãos: "Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem" (Gen.50,20). Penso que enviar os camaradas à igreja foi um gesto muito divertido de Deus. Não teríamos maneira de os convencer - eles tinham de ver com os seus próprios olhos.
A oração para a Paz do dia 9 de Outubro decorreu com grande concentração. A par dessa, na Nikolaikirche, decorreram outras orações nas igrejas do centro da cidade. Enquanto rezávamos, dentro da igreja, ouvíamos os manifestantes na rua. "Juntai-vos a nós, juntai-vos a nós", gritavam eles aos polícias. Em determinado momento, alguém bateu à porta da igreja e deu-nos
o manifesto do grupo de Kurt Masur, que eu deixei ler. Quando, no final, abrimos as portas para sair, encontrámos a praça repleta de pessoas. Os movimentos ameaçadores da direcção da SED tinham tido o efeito contrário ao pretendido: quando ninguém deveria ousar aproximar-se da Nikolaikirche, a quantidade de pessoas crescera exponencialmente. Um dia mais tarde, soubemos pelos media ocidentais que tinham sido 70.000. Parecia óbvio que a ameaça do uso de violência tornou claro para todos que era agora ou nunca. E também sabiam que o Estado teria tantos mais escrúpulos em recorrer à violência das armas quanto maior fosse o número de pessoas presentes.
Ao ver todos aqueles rostos, só fui capaz de dizer: "Por favor, afastem-se um pouco. Nós queremos juntar-nos a vós". As pessoas abriram espaço para nós e esperaram pacientemente até todos termos saído da igreja. Só aí foi dado o sinal para começar a andar. Nunca esquecerei este momento: as pessoas tinham velas nas mãos, protegiam a chama do vento. Para isso, são necessárias as duas mãos, pelo que a opção de levar uma vela equivale à opção pela não-violência. Se os manifestantes se tivessem chocado com a Polícia, teria sido uma revolução como todas as outras. Mas foi exactamente isso que não sucedeu. Milhares de pessoas avançavam lentamente. Apesar de um resto de medo, a oração na igreja trouxera-lhes Esperança. A atitude "não à violência" foi praticada na rua!
Metro a metro, 70.000 pessoas deram a volta ao anel de Leipzig e regressaram à Gewandhaus, comungando dois sentimentos: um enorme alívio por não ter havido tiros, e a sensação de que a RDA nunca mais voltaria a ser a mesma depois desta noite. Porque nunca tinha acontecido nada semelhante: nós ocupámos todo o centro da cidade, e as forças estatais, sabe-se lá por que motivo, não nos atacaram.
Depois, tudo aconteceu muito depressa: Erich Honecker saiu a 18 de Outubro, o Politbüro no início de Novembro, a 4 de Novembro a grande demonstração em Berlim e finalmente, a 9 de Novembro, a abertura do muro devido ao famoso erro de Günter Schabowski. Que me faz sempre lembrar uma linha dos Actos dos Apóstolos: "mas entendes o que lês?"
O dia 9 de Outubro tornou-se o "dia da decisão". Não apenas para Leipzig, mas para toda a Alemanha. Este dia de recusa da violência marcou a abertura para a Revolução Pacífica, que nasceu nas igrejas e transbordou para as ruas. Na História alemã, este é um momento único. Podemo-nos orgulhar disso, embora haja que lembrar que não o fizemos sozinhos. Olhando para os acontecimentos horrorosos do século XX, podemos e devemos dizer que Deus colocou sobre nós a sua protecção e bênção. A Revolução Pacífica foi um presente de Deus para a Nikolaikirche e as outras igrejas do país, para a cidade de Leipzig e as outras cidades e aldeias. Não devemos nunca esquecer a existência desta grande força divina que permite a mudança sem derramamento de sangue. Também uma revolução na qual não houve montras partidas, ninguém foi humilhado e ninguém perdeu a vida.
Há uma ideia que se me tornou especialmente importante: no decorrer da Revolução Pacífica aprendemos que a igreja e a rua são parte integrante da dimensão de Jesus como caminhante e pregador. Há uma interdependência. A Igreja tem de sair à rua, tem de se misturar, tem de ser o sal da terra do qual Jesus fala. E as pessoas têm de ter e possibilidade de encontrar um lugar na Igreja. Jesus nunca se escondeu no templo. Encontrávamo-lo nos locais onde as pessoas sofriam. Estava entre eles. Do mesmo modo, temos de ir ao encontro das pessoas e, simultaneamente, criar para elas nas nossas igrejas espaços de acolhimento e de apoio, para que possam superar os seus medos. Esta é a nossa tarefa. E foi isso que pudemos aprender de forma especial no Outono de 1989. Esta experiência tornou-se uma parte essencial da minha vida.
(Síntese feita por Niels Beintker)
Vai com um dia de atraso, paciência.

O original pode ser lido aqui: chrismon
Aconteceu a 9 de Outubro de 1989. "Não à violência!", gritavam dezenas de milhares de pessoas nas ruas de Leipzig e de outras cidades da RDA. Na época, Christian Führer era pastor na Nikolaikirche. É ele quem conta como uma oração para a Paz se transformou em movimento e culminou na Revolução Pacífica.
Christian Führer, nascido a 1943 em Leipzig, foi o iniciador das "Orações para a Paz" em Leipzig. O texto que se segue resume um artigo publicado no livro "Da Oração à Manifestação", Edition Chrismon.
Não à violência. Esta é, para mim, a síntese mais curta do sermão da montanha. No dia 9 de Outubro de 1989, dezenas de milhares de pessoas não apenas gritaram esta frase, como também praticaram nas ruas o mandamento da não-violência - em Leipzig como noutras cidades da RDA. Pessoas, que enquanto criança nos infantários brincavam com tanques de guerra, educadas nas escolas para a luta militar de classes, ouviram a mensagem de Jesus. Não à violência. Por meio dela, tornaram possível a Revolução Pacífica, a primeira revolução com êxito na História da Alemanha. Para mim, isto é um milagre com dimensão bíblica. Como dizia o profeta Zacarias: "Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito" (Zacarias, 4,6). E assim aconteceu, com início na Nikolaikirche de Leipzig e em muitas outras igrejas do país.
Esta revolução feliz começou pequenina - pequena como uma semente de mostarda que cai no chão. Na Nikolaikirche começou tudo com as orações para a Paz, propostas por um grupo de jovens em 1982. As celebrações que se realizavam todos os anos eram para eles insuficientes - queriam orações em ritmo semanal. Talvez tenha sido esta a decisão mais importante dos membros do Conselho da Nikolaikirche: apoiar estes jovens, dando início às orações semanais para a Paz. A partir de 20 de Setembro de 1982, às segundas-feiras, às cinco da tarde, na Nikolaikirche, com excepção dos dois meses de férias grandes na RDA. Ainda hoje as pessoas se reúnem nessa oração, coisa que, no início, ninguém teria podido imaginar. Quando, em 1983 e 1984, se intensificou a corrida ao armamento no Leste e no Ocidente, cresceu também a resignação. O número de participantes nestas orações desceu para menos de uma dezena. Houve um dia em que éramos apenas seis. Sentámo-nos junto à grade do altar, o superintendente leu um salmo. Uma mulher disse-me: "Espero que não acabe com este espaço de oração. Se desistirmos, a Esperança morre. Ficará apenas a resignação". Concordei com ela. Reconheci que este espaço de oração teria de permanecer aberto. Como cristãos, estamos obrigados à Esperança. Jesus disse "onde dois ou três se reúnem em meu nome, eu estarei entre eles" (Mat. 18,20). Nós já éramos seis, ou seja, o dobro desse número. Por isso, tínhamos de continuar.
Outro sinal da resignação era o número crescente de pessoas que queriam sair da RDA. Nos anos 80, centenas de milhares de cidadãos, por variados motivos, tinham apenas um objectivo: sair dali. Em muitas paróquias sentiam-se excluídas; algumas foram mesmo deliberadamente afastadas. Na Nikolaikirche havia espaço para elas. No entanto, houve conflitos com os membros dos grupos de base - comparativamente bem mais pequenos. Por esse motivo, sugeri fazer uma palestra, caso as pessoas interessadas em abandonar o país estivessem dispostas a reconsiderar, e que decorreu em 19 de Fevereiro de 1988, com 600 participantes. Escolhi uma passagem do Evangelho de João, onde Jesus pergunta aos seus discípulos, quando estes se dão conta de que os outros se afastam deles: "para onde quereis ir?" (Jo. 6, 67). Na igreja fez-se silêncio. As pessoas reflectiam: "Se fores agora para o Ocidente, não fazes ideia do que isso significa. Os teus amigos e parentes ficam aqui, não sabes se terás de esperar até à reforma para os voltares a ver. Que é que te fizeram aqui, na RDA, que te levou a este beco sem saída?" Disse-lhes: Não podemos sair daqui neste estado de espírito. O ambiente não está nada bom. Talvez possamos ver o que os salmos nos dizem, por exemplo o salmo 65. Nele encontramos uma frase importante para todos nós: "Tu, Senhor, fazes felizes os que vivem no Oriente e no Ocidente" (Salmo 65, 9).
Desataram a rir. O ambiente melhorou imediatamente. Pensavam que talvez Deus erguesse sobre eles a sua mão protectora. No fim, alguns vieram ter comigo, dizendo que não pertenciam à comunidade mas gostariam de participar nas orações para a Paz. Respondi-lhes com o lema da Nikolaikirche: "aberta para todos". A partir desse dia, o número de participantes nas orações das segundas-feiras não parou de crescer.
Uma das orações mais importantes do Outono de 1989 decorreu a 4 de Setembro, que foi a primeira após as férias de Verão. Dado que na mesma altura decorria a Feira de Leipzig, e os jornalistas das televisões ocidentais tinham autorização para filmar em toda a cidade, a direcção da SED estava muito nervosa. O Conselho da Nikolaikirche foi chamado à Câmara de Leipzig antes do dia 4. Durante duas horas, tentaram convencer-nos por todos os meios a começar as orações para a Paz uma semana mais tarde. Respondemos que o nosso trabalho pastoral é definido por nós, e que esta oração teria início como todos os anos naquela semana. E então aconteceu aquilo que os camaradas temiam. Não permiti a entrada dos jornalistas na igreja. O que temos a dizer ao nosso Estado, dizemos-lhe na cara, e não via jornalistas da ARD, ZDF e Deutschlandfunk. No fim da oração, saímos da igreja. A praça estava repleta de câmaras, organizadas em semicírculo. Todos os jornalistas autorizados estavam ali presentes.
Só uns segundos depois percebi como era importante a presença daqueles jornalistas. Foi no momento em que participantes do nosso grupo de base desenrolaram um pano, um lençol onde tinham escrito: "Por um país aberto com pessoas livres". A sua exibição não terá durado mais do que 15 segundos. Membros da Stasi retiraram-no, e atiraram os manifestantes para o chão. Tudo em frente às câmaras ocidentais. As imagens passaram pouco depois na ARD. Hans Joachim Friedrichs informou que aquilo se passara na Nikolaikirche, após a Oração para a Paz. As pessoas no Ocidente viram o que aqui se passara. Tal como as pessoas no Leste. À excepção da região de Dresden, era possível ver a televisão da Alemanha Ocidental em toda a RDA. Os meios de comunicação de que dispunhamos eram muito rudimentares. Nas secretarias paroquiais havia telefones de contacto, mais nada. Com um único golpe, as nossas Orações para a Paz tornaram-se conhecidas em toda a RDA. Em todo o país, pessoas pensaram "também quero fazer esta experiência". É isto, justamente, que não podemos esquecer: no Outono de 1989, pessoas de todo o país visitaram a Nikolaikirche, e desse modo deram um importante impulso à Revolução Pacífica.
Nestas semanas e nestes meses o medo era o nosso companheiro constante. Todos tínhamos em mente as palavras de louvor de Egon Krenz a propósito da repressão violenta do movimento de estudantes na praça da Paz Celestial em Pequim: "o partido comunista na China salvou o socialismo". Já na semana seguinte ao episódio de 4 de Setembro o regime da RDA mostrou a sua dureza em Leipzig. Ao entardecer, após a Oração para a Paz, a Polícia avançou brutalmente para as pessoas que estavam na praça da igreja. Batia nas pessoas e prendia-as. Ao chegar à casa paroquial, abri com fúria a janela e gritei-lhes: "Não pensem que ficam sem castigo! Lembrar-nos-emos das vossas caras!". Uma reacção muito emocional. Lembro-me que um dos que batia nos manifestantes se voltou para mim, dizendo que se estava nas tintas para aquilo de que nos conseguiríamos lembrar. E continuou a bater com o seu bastão. Os manifestantes correram para as escadas da nossa casa. Por sorte, era grande - degraus largos, e vários andares. Declarei à Polícia que aquelas pessoas iam ficar ali. Os polícias retiraram-se sem entrar naquela casa nem na igreja. Tenho de sublinhar isto: o espaço da igreja foi sempre respeitado.
Também no dia 9 de Outubro dominava o medo. Dois dias antes, a 7 de Outubro, quando se comemoravam 40 anos da fundação da RDA, a Polícia de Leipzig tinha espancado e prendido em condições indignas centenas de manifestantes. No dia seguinte, havia um número especialmente elevado de médicos no serviço dominical, que no final me contaram sobre os inúmeros feridos com problemas no ombro e na clavícula. Vítimas de bastonadas. Também revelaram que tinham recebido ordens para prepararem camas nos hospitais para receber pessoas com feridas de balas. Foi essa a preparação para a segunda-feira. Além disso, no jornal local de Leipzig foi publicado um artigo onde se afirmava que era preciso acabar com a contra-revolução, se necessário pela força das armas. Lembro-me que na manhã desse dia preparei para a oração com os funcionários da comunidade este texto da Epístola aos Gálatas: "Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo" (Gal. 6,2). Nessa altura, ainda não sabíamos que carga esse dia poria sobre os nossos ombros. Sabíamos apenas que seria uma carga especialmente pesada.
Logo de manhã começaram os telefonemas: muitas ameaças, mas na maioria eram expressão de medo ou serviam a informação. Também recebemos, curiosamente, um telefonema de uma caserna de Leipzig, informando que Erich Honecker tinha dado indicações para "fechar" a Nikolaikirche - tudo isto sem ordens escritas. Ao meio-dia fecharam as escolas, à tarde as lojas. Cada vez chegavam mais avisos. A notícia mais importante para mim foi a da reunião de 1000 membros da SED na Câmara e na Universidade. Pretendiam ocupar a Nikolaikirche, tal como Erich Loest mais tarde descreveu no seu romance. Às duas e meia da tarde, o sacristão veio dizer-me que a igreja já estava cheia. Estavam lá os muitos membros do partido, que não sabiam que eu sabia quem eles eram. Contudo, nenhum deles estava muito animado, porque não ignoravam que, se naquele dia houvesse disparos, as balas atingiriam indiscriminadamente cristãos e camaradas.
Tentei ocupar o tempo com uma visita guiada à igreja, mas acabei por decidir informá-los de que sabia quem eram eles e ao que vinham. Disse-lhes: "Bem-vindos à Nikolaikirche. Só me surpreende que já estejam aqui. Os trabalhadores do proletariado só podem vir depois do fim do turno, às quatro da tarde. Compreenderão que mantenha as portas para o coro fechadas, mas tenho de reservar algum espaço para os outros participantes da oração para a Paz". Alguns deles não conseguiram evitar uma gargalhada. E depois, foi assombroso: nenhum deles perturbou a oração. Foram até integrados de forma especial. No dia seguinte, três deles telefonaram-me para agradecer aquela oração. Que mudança! Tinham-lhes dito que o pastor da Nikolaikirche incitava as pessoas a lutar nas ruas, que lhes dizia para levarem pedras e bastões para atacar os polícias. E agora, que tinham eles próprios assistido a uma dessas orações, tinham-se dado conta de que tudo isso era mentira, e que o partido os tinha enganado. Isto lembra-me a história de José no Velho Testamento, quando diz aos seus irmãos: "Vós bem intentastes mal contra mim; porém Deus o intentou para bem" (Gen.50,20). Penso que enviar os camaradas à igreja foi um gesto muito divertido de Deus. Não teríamos maneira de os convencer - eles tinham de ver com os seus próprios olhos.
A oração para a Paz do dia 9 de Outubro decorreu com grande concentração. A par dessa, na Nikolaikirche, decorreram outras orações nas igrejas do centro da cidade. Enquanto rezávamos, dentro da igreja, ouvíamos os manifestantes na rua. "Juntai-vos a nós, juntai-vos a nós", gritavam eles aos polícias. Em determinado momento, alguém bateu à porta da igreja e deu-nos
o manifesto do grupo de Kurt Masur, que eu deixei ler. Quando, no final, abrimos as portas para sair, encontrámos a praça repleta de pessoas. Os movimentos ameaçadores da direcção da SED tinham tido o efeito contrário ao pretendido: quando ninguém deveria ousar aproximar-se da Nikolaikirche, a quantidade de pessoas crescera exponencialmente. Um dia mais tarde, soubemos pelos media ocidentais que tinham sido 70.000. Parecia óbvio que a ameaça do uso de violência tornou claro para todos que era agora ou nunca. E também sabiam que o Estado teria tantos mais escrúpulos em recorrer à violência das armas quanto maior fosse o número de pessoas presentes.
Ao ver todos aqueles rostos, só fui capaz de dizer: "Por favor, afastem-se um pouco. Nós queremos juntar-nos a vós". As pessoas abriram espaço para nós e esperaram pacientemente até todos termos saído da igreja. Só aí foi dado o sinal para começar a andar. Nunca esquecerei este momento: as pessoas tinham velas nas mãos, protegiam a chama do vento. Para isso, são necessárias as duas mãos, pelo que a opção de levar uma vela equivale à opção pela não-violência. Se os manifestantes se tivessem chocado com a Polícia, teria sido uma revolução como todas as outras. Mas foi exactamente isso que não sucedeu. Milhares de pessoas avançavam lentamente. Apesar de um resto de medo, a oração na igreja trouxera-lhes Esperança. A atitude "não à violência" foi praticada na rua!
Metro a metro, 70.000 pessoas deram a volta ao anel de Leipzig e regressaram à Gewandhaus, comungando dois sentimentos: um enorme alívio por não ter havido tiros, e a sensação de que a RDA nunca mais voltaria a ser a mesma depois desta noite. Porque nunca tinha acontecido nada semelhante: nós ocupámos todo o centro da cidade, e as forças estatais, sabe-se lá por que motivo, não nos atacaram.
Depois, tudo aconteceu muito depressa: Erich Honecker saiu a 18 de Outubro, o Politbüro no início de Novembro, a 4 de Novembro a grande demonstração em Berlim e finalmente, a 9 de Novembro, a abertura do muro devido ao famoso erro de Günter Schabowski. Que me faz sempre lembrar uma linha dos Actos dos Apóstolos: "mas entendes o que lês?"
O dia 9 de Outubro tornou-se o "dia da decisão". Não apenas para Leipzig, mas para toda a Alemanha. Este dia de recusa da violência marcou a abertura para a Revolução Pacífica, que nasceu nas igrejas e transbordou para as ruas. Na História alemã, este é um momento único. Podemo-nos orgulhar disso, embora haja que lembrar que não o fizemos sozinhos. Olhando para os acontecimentos horrorosos do século XX, podemos e devemos dizer que Deus colocou sobre nós a sua protecção e bênção. A Revolução Pacífica foi um presente de Deus para a Nikolaikirche e as outras igrejas do país, para a cidade de Leipzig e as outras cidades e aldeias. Não devemos nunca esquecer a existência desta grande força divina que permite a mudança sem derramamento de sangue. Também uma revolução na qual não houve montras partidas, ninguém foi humilhado e ninguém perdeu a vida.
Há uma ideia que se me tornou especialmente importante: no decorrer da Revolução Pacífica aprendemos que a igreja e a rua são parte integrante da dimensão de Jesus como caminhante e pregador. Há uma interdependência. A Igreja tem de sair à rua, tem de se misturar, tem de ser o sal da terra do qual Jesus fala. E as pessoas têm de ter e possibilidade de encontrar um lugar na Igreja. Jesus nunca se escondeu no templo. Encontrávamo-lo nos locais onde as pessoas sofriam. Estava entre eles. Do mesmo modo, temos de ir ao encontro das pessoas e, simultaneamente, criar para elas nas nossas igrejas espaços de acolhimento e de apoio, para que possam superar os seus medos. Esta é a nossa tarefa. E foi isso que pudemos aprender de forma especial no Outono de 1989. Esta experiência tornou-se uma parte essencial da minha vida.
(Síntese feita por Niels Beintker)
09 outubro 2009
Herta Müller, de Berlim

Escuso de me armar em especialista: até ontem à noite não sabia nada sobre esta mulher, nem sequer sabia que na Roménia há uma minoria, os "suábios do Danúbio", que fala alemão.Mas entre o noticiário de ontem e o Spiegel online de hoje (está muito bom!) desvenda-se-me um novo mundo.
Alguns apontamentos:
"Sabes que o Nobel da Literatura veio para Berlim?" é uma frase que encerra o essencial. O Nobel não vem para a Alemanha, mas para a cidade onde mora uma escritora cuja única pátria é a língua alemã (onde é que já ouvi algo semelhante?) - para mais um alemão algo diferente, um enclave da língua.
A escritora nasceu na Roménia, no seio de uma minoria perseguida. Essa experiência atravessa a sua obra e confere-lhe uma relevância especial no nosso tempo - algo que talvez tenha pesado bastante na decisão de lhe atribuir este prémio.
Resumidamente (esta parte vem da Wikipedia alemã): no princípio do séc. XVIII, e após a retirada turca, a região do Banato, bastante despovoada, foi objecto de um enorme esforço de colonização por parte dos austro-húngaros, para o que foram atraídas pessoas provenientes sobretudo do sul da Alemanha. Em 1920, o Tratado do Trianon desloca a região da Transilvânia, da qual o Banato faz parte (claro que não podia omitir esta importantíssima informação!), da Hungria para a Roménia. Esta mudança teve, de início, repercussões muito positivas para a reanimação da cultura alemã daquele grupo, já que pôs fim ao esforço húngaro de assimilação de todas as minorias étnicas. O despertar de um certo nacionalismo evoluiu naturalmente para uma posição de simpatia em relação aos projectos de Hitler - tal como, aliás, aconteceu com outras minorias alemãs do Leste da Europa. Quando, em Agosto de 1944, a Roménia trocou o Terceiro Reich pelos Aliados, os alemães do Banato passaram a ser vistos, de um dia para o outro, como inimigos. E a situação piorou com a chegada do Exército Vermelho. Em Janeiro de 1945, grande parte da população foi enviada para trabalhos forçados na União Soviética, de que resultaram vários milhares de mortos. Os que puderam ficar no Banato foram expropriados, e muitos foram transferidos à força para outras regiões da Roménia. A partir de 1955 a situação deste grupo melhorou sensivelmente (regresso à região e recuperação dos direitos que lhes tinham sido retirados no fim da guerra), para se degradar de novo na época de Ceausescu, devido à sua política de combate às minorias étnicas.
É neste mundo que Herta Müller nasce a 17 de Agosto de 1953, e é dele que foge quando, em 1987, vai morar para Berlim.
O Spiegel, e particularmente este comentário de Ulrich Baron, descreve uma quase-apátrida, emocional e crítica, profundamente marcada pelo seu passado. Uma mulher que luta contra o esquecimento e a condescendência em relação aos crimes do comunismo. Uma escritora que inventa expressões novas quando a realidade excede as palavras disponíveis: "época de pele e osso", "envenenamento de luz", "anjo da fome", "baloiço da respiração" e "pá do coração". Uma figura frágil, tímida perante as câmaras fotográficas, dizendo com um sorriso: "não sou eu - são os livros!". E remata: este prémio refoca o olhar sobre uma Europa de identidades baseadas não na nacionalidade, mas nas ligações culturais.
Não conheço os livros, mas gosto de alguns nomes que escolheu. Especialmente este: "Hoje preferia não me ter cruzado comigo". Outro, "Hunger und Seide", dará um belo trocadilho em português: "Fome e seda".
E não me sai da cabeça esta imagem: em cima da sua mesa de trabalho há uma caixa cheia de palavras.
Uma caixa cheia de palavras.
good news
A Abrunho voltou com o seu "contentamento". Melhor que nunca.
Enfim, melhor que nunca é um pequeno exagero.
Digamos que voltou completamente em forma.
Vão lá ver.
(e eu, com tanta distracção, não consigo acabar o post sério que prometi há 3 horas)
(como dizia o outro: "deixem-me trabalhar!")
Enfim, melhor que nunca é um pequeno exagero.
Digamos que voltou completamente em forma.
Vão lá ver.
(e eu, com tanta distracção, não consigo acabar o post sério que prometi há 3 horas)
(como dizia o outro: "deixem-me trabalhar!")
isto não é um post, é um e-mail privado
E então, José?
Já acendeste hoje uma velinha em frente à tal fotografia do novo prémio Nobel da Paz?
(emboramente tenha a sensação que as coisas lhe estão a acontecer depressa demais)
(se agora mete água no Iraque, no Afeganistão ou no Irão, vai ser um sarilho)
(mas vou ler melhor a justificação para a atribuição do prémio)
***
Adenda - a justificação:
"The Norwegian Nobel Committee has decided that the Nobel Peace Prize for 2009 is to be awarded to President Barack Obama for his extraordinary efforts to strengthen international diplomacy and cooperation between peoples. The Committee has attached special importance to Obama's vision of and work for a world without nuclear weapons.
Obama has as President created a new climate in international politics. Multilateral diplomacy has regained a central position, with emphasis on the role that the United Nations and other international institutions can play. Dialogue and negotiations are preferred as instruments for resolving even the most difficult international conflicts. The vision of a world free from nuclear arms has powerfully stimulated disarmament and arms control negotiations. Thanks to Obama's initiative, the USA is now playing a more constructive role in meeting the great climatic challenges the world is confronting. Democracy and human rights are to be strengthened.
Only very rarely has a person to the same extent as Obama captured the world's attention and given its people hope for a better future. His diplomacy is founded in the concept that those who are to lead the world must do so on the basis of values and attitudes that are shared by the majority of the world's population.
For 108 years, the Norwegian Nobel Committee has sought to stimulate precisely that international policy and those attitudes for which Obama is now the world's leading spokesman. The Committee endorses Obama's appeal that 'Now is the time for all of us to take our share of responsibility for a global response to global challenges.'"
Sendo assim, parece-me bem.
Já acendeste hoje uma velinha em frente à tal fotografia do novo prémio Nobel da Paz?
(emboramente tenha a sensação que as coisas lhe estão a acontecer depressa demais)
(se agora mete água no Iraque, no Afeganistão ou no Irão, vai ser um sarilho)
(mas vou ler melhor a justificação para a atribuição do prémio)
***
Adenda - a justificação:
"The Norwegian Nobel Committee has decided that the Nobel Peace Prize for 2009 is to be awarded to President Barack Obama for his extraordinary efforts to strengthen international diplomacy and cooperation between peoples. The Committee has attached special importance to Obama's vision of and work for a world without nuclear weapons.
Obama has as President created a new climate in international politics. Multilateral diplomacy has regained a central position, with emphasis on the role that the United Nations and other international institutions can play. Dialogue and negotiations are preferred as instruments for resolving even the most difficult international conflicts. The vision of a world free from nuclear arms has powerfully stimulated disarmament and arms control negotiations. Thanks to Obama's initiative, the USA is now playing a more constructive role in meeting the great climatic challenges the world is confronting. Democracy and human rights are to be strengthened.
Only very rarely has a person to the same extent as Obama captured the world's attention and given its people hope for a better future. His diplomacy is founded in the concept that those who are to lead the world must do so on the basis of values and attitudes that are shared by the majority of the world's population.
For 108 years, the Norwegian Nobel Committee has sought to stimulate precisely that international policy and those attitudes for which Obama is now the world's leading spokesman. The Committee endorses Obama's appeal that 'Now is the time for all of us to take our share of responsibility for a global response to global challenges.'"
Sendo assim, parece-me bem.
a Herta Müller e eu...

(Hehehe, ó pra mim aqui em biquinhos de pés encostada à outra berlinense)
A Herta Müller e eu temos algo muito fundamental em comum: somos ambas vítimas de cabeleireiras palermas que insistem em nos fazer um corte de cabelo tipo anos vinte à frente e anos loucos atrás. Eu, que já quase consegui emancipar-me, se um dia destes a encontrar no café dou-lhe uma forcinha. Talvez até a leve à barbearia do senhor Luís, que tem muita fama.
Confesso que ontem me fez muita impressão ver a figura dela nas entrevistas. Aquele cabelo! Aquele cabelo! Senti-me tão próxima dela na tragédia, nem imaginam.
***
Pronto, agora que já desvairei um bocadinho, posso passar a temas sérios no post que se segue.
e por falar em prisões...

Vai-se realizar uma conferência intitulada: "Da Utopia à Realidade: as APAC - as Cadeias sem Guardas".
Esta Conferência decorrerá na Universidade Católica do Porto, no próximo dia 17 de Outubro.
Estão abertas inscrições através do email: conferenciavaldeci*gmail.com
(trocar * por @)
Para mais informações sobre este tema, vale a pena ver este vídeo (sobretudo a primeira parte, sobre a experiência APAC no Brasil).
08 outubro 2009
le peuple c'est moi
Por estes dias, há vinte anos, a RDA estava em efervescência.
O regime festejava oficialmente 40 anos mas, na rua, o povo protestava e exigia liberdade e mais democracia. As prisões enchiam-se de manifestantes, nos hospitais faltava capacidade para atender a tantos feridos.
Ao discurso paternalista e ditatorial "nós é que sabemos o que é bom para o Povo" a rua respondeu "o Povo somos nós!"
Por estes dias, as televisões e os jornais lembram o que aconteceu e vão contando pequenos episódios reveladores da coragem e da ousadia daquele povo.
Por exemplo, o noticiário Heute, da ZDF, contava ontem como em Dresden, no dia 7 de Outubro de 1989, aniversário da proclamação da RDA, decorre a première da ópera Fidelio, de Beethoven, com produção de Christine Mielitz. A acção decorre no pátio de uma prisão da Stasi. Um informador da Semperoper escreve um relatório onde avisa para o perigo de o público poder tirar conclusões. Christine Mielitz recebe uma convocação para se explicar. Questionada sobre as suas escolhas, faz-se de inocente e começa a descrever as cenas: "pátio de uma prisão, os prisioneiros passam a roupa a ferro..." - a censura deixa passar.
O regime festejava oficialmente 40 anos mas, na rua, o povo protestava e exigia liberdade e mais democracia. As prisões enchiam-se de manifestantes, nos hospitais faltava capacidade para atender a tantos feridos.
Ao discurso paternalista e ditatorial "nós é que sabemos o que é bom para o Povo" a rua respondeu "o Povo somos nós!"
Por estes dias, as televisões e os jornais lembram o que aconteceu e vão contando pequenos episódios reveladores da coragem e da ousadia daquele povo.
Por exemplo, o noticiário Heute, da ZDF, contava ontem como em Dresden, no dia 7 de Outubro de 1989, aniversário da proclamação da RDA, decorre a première da ópera Fidelio, de Beethoven, com produção de Christine Mielitz. A acção decorre no pátio de uma prisão da Stasi. Um informador da Semperoper escreve um relatório onde avisa para o perigo de o público poder tirar conclusões. Christine Mielitz recebe uma convocação para se explicar. Questionada sobre as suas escolhas, faz-se de inocente e começa a descrever as cenas: "pátio de uma prisão, os prisioneiros passam a roupa a ferro..." - a censura deixa passar.

O filme, de 3 minutos, mostra sequências emocionantes: a polícia que cerca o teatro, o coro de prisioneiros que, contra a opressão e a violência, canta "Oh, liberdade, regressa para nós!", e depois, no dia seguinte, o momento em que pela primeira vez manifestantes, membros do partido único e polícias conseguem dialogar, enquanto dentro do teatro se canta "louvado seja este dia, louvada esta hora".

Para quem sabe alemão, o filme pode ser visto aqui: die Oper Fidelio als DDR-Regimekritik.
E, pelo que li neste site (de onde tirei as fotos aqui mostradas), vão repetir esta encenação no mesmo local em 2010 - 20, 23 e 25 de Abril: curiosa coincidência!
Parece-me que é um daqueles momentos a não perder - para quem visitar Dresden nessa altura.
***
Ao ver filmes como este, sinto uma certa vergonha do modo como os "Wessis" falam dos "Ossis".
Os preconceitos, os rancores e as piadinhas não fazem justiça à coragem de um povo que afrontou tal ditadura.
As coisas não estão a correr muito bem: vinte anos depois, um em cada oito alemães ocidentais queria ter o muro de novo, um em cada dez alemães orientais. A SED, agora em tons de Die Linke, volta ao palco político. Para as assembleias já foram eleitos deputados cujo passado como colaborador da Stasi não está muito bem esclarecido.
06 outubro 2009
carregar a cruz
Na preguiça matinal de Domingo, chegam-me da rua bocados da conversa de duas mulheres que regressam da missa:
"Todos temos uma cruz para carregar - e a tua é bem pesada!"
Fiquei a pensar na simplicidade desta imitação de Cristo.
Mas será que todos carregamos uma cruz? A vida é uma Sexta-Feira Santa?
A minha está mais para Natal.
Se tenho uma cruz, não a carrego: vai levitando ao meu lado.
Ou então, talvez ande escondida por trás de tantos e tão bons amigos. Sim: depois de dez dias a ser feliz com os amigos portugueses, após tanta festa e alegria, tanto riso e também conversas muito enriquecedoras, não percebo nada dessas histórias de cruzes.
Canhoto.
Gracias a la vida - e à Paula, à Dina, à Ana, e aos tantos outros cujo nome não vou escrever aqui.
"Todos temos uma cruz para carregar - e a tua é bem pesada!"
Fiquei a pensar na simplicidade desta imitação de Cristo.
Mas será que todos carregamos uma cruz? A vida é uma Sexta-Feira Santa?
A minha está mais para Natal.
Se tenho uma cruz, não a carrego: vai levitando ao meu lado.
Ou então, talvez ande escondida por trás de tantos e tão bons amigos. Sim: depois de dez dias a ser feliz com os amigos portugueses, após tanta festa e alegria, tanto riso e também conversas muito enriquecedoras, não percebo nada dessas histórias de cruzes.
Canhoto.
Gracias a la vida - e à Paula, à Dina, à Ana, e aos tantos outros cujo nome não vou escrever aqui.
05 outubro 2009
de regresso
diospiros, figos, maçãs e limões do meu quintal, nozes e melão dos amigos alentejanos, chouriço de Portalegre, paio de Barrancos, lombo fumado, paio de Garvão, salpicão e pão de trigo de Ponte de Lima, pão de milho, castanhas, queijo Monte da Vinha (não digo quantos), queijo de Azeitão, pastéis de nata e de coco do Natário, tartes de Azeitão, doces de ovos moles
- o que me há-de desgraçar as costas são as saudades.
- o que me há-de desgraçar as costas são as saudades.
pequena aula de navajo para os homens do Presidente
Tal como o francês, a língua navajo tem-se visto obrigada a inventar nomes para novas realidades tais como televisão e computador.
"Computador" diz-se: "combinação de televisão e máquina de escrever"
"Televisão" diz-se: "imagens sucessivas que chegam pelo ar"
Moral da história, para os homens da informática: é evidente que uma combinação entre máquina de escrever e televisão só pode resultar em graves problemas de segurança. Avisem o Presidente que deve a todo o custo evitar a parte televisiva dos computadores.
"Computador" diz-se: "combinação de televisão e máquina de escrever"
"Televisão" diz-se: "imagens sucessivas que chegam pelo ar"
Moral da história, para os homens da informática: é evidente que uma combinação entre máquina de escrever e televisão só pode resultar em graves problemas de segurança. Avisem o Presidente que deve a todo o custo evitar a parte televisiva dos computadores.
02 outubro 2009
os homens do Presidente
Para resolver os lamentáveis problemas de segurança de que se queixou recentemente
(eu sei que este post não vem propriamente em cima do acontecimento, mas aqui no Portugal profundo onde me encontro não há televisão e falta tempo para ler os jornais - isto a vida no campo é um stress que nem vos digo nem vos conto)
Cavaco Silva poderia demitir o pessoal da informática de Belém, e recorrer a índios navajo.
Já desenvolvo, mas antes disso deixem-me dizer o mais importante:
VIVA O PODER LOCAL! VIVA A REGIONALIZAÇÃO!
É que estou a escrever no computador da Junta de Freguesia, com acesso gratuito à internet. O que usei anteontem era muito lento, parecia puxado a carro de bois. O de hoje é muito barulhento, parece um aspirador americano. De modo que eu sou a favor de mais poder local e mais regionalização, que isto já está bastante bem mas podia melhorar substancialmente. No dia em que estas salas se encherem de computadores apple topo de gama, Portugal terá atingido o cume do auge da vivência democrática. Nem mais.
Como ia dizendo, Cavaco Silva poderia recorrer a índios navajo. Na segunda guerra mundial prestaram serviços inestimáveis aos USA, porque transmitiam as informações secretas no seu idioma que mais ninguém percebe, muito menos o inimigo. Até eles se darem conta do que estava a acontecer, já a guerra tinha terminado.
Mas se preferir recorrer a soluções nacionais, pode tentar com os mirandeses. Eles em começando a falar muito depressa, não há quem os entenda.
Uma outra hipótese, mais rebuscada, seria a estratégia "com a verdade me enganas". Contando com a colaboração de Alberto João Jardim para assuntos nacionais e a de Berlusconi para os internacionais, poderiam até enviar mensagens secretas em cartões postais (que, como toda a gente sabe, menos Cavaco Silva, são como e-mails, mas em suporte de papel), tendo apenas o cuidado de falar desbragadamente. Os espiões-escuta liam aquilo, pensavam "isto não pode ser verdade!", e tentavam decifrar a mensagem escondida sob aquelas palavras tão claras. Nunca mais faziam mais nada.
Contudo, melhor solução ainda seria uma presidência aberta. Se o presidente se visse obrigado a usar um computador de uma junta de freguesia, como eu, seria avisado de dois em dois minutos que os elementos que recebe ou envia podem ser redireccionados para terceiros. Não dura nem uma meia horita até uma pessoa começar a acreditar que a internet não é um lugar seguro. Este poder local é uma pedagogia, podem crer!
E depois, há o óbvio: ler os jornais. Ainda outro dia andavam a falar de o governo alemão querer possibilitar aos investigadores criminais a entrada nos computadores privados - o know-how existe, e de que maneira, o que falta é base legal.
E agora com licencinha, que a funcionária da junta tem de ir almoçar.
(eu sei que este post não vem propriamente em cima do acontecimento, mas aqui no Portugal profundo onde me encontro não há televisão e falta tempo para ler os jornais - isto a vida no campo é um stress que nem vos digo nem vos conto)
Cavaco Silva poderia demitir o pessoal da informática de Belém, e recorrer a índios navajo.
Já desenvolvo, mas antes disso deixem-me dizer o mais importante:
VIVA O PODER LOCAL! VIVA A REGIONALIZAÇÃO!
É que estou a escrever no computador da Junta de Freguesia, com acesso gratuito à internet. O que usei anteontem era muito lento, parecia puxado a carro de bois. O de hoje é muito barulhento, parece um aspirador americano. De modo que eu sou a favor de mais poder local e mais regionalização, que isto já está bastante bem mas podia melhorar substancialmente. No dia em que estas salas se encherem de computadores apple topo de gama, Portugal terá atingido o cume do auge da vivência democrática. Nem mais.
Como ia dizendo, Cavaco Silva poderia recorrer a índios navajo. Na segunda guerra mundial prestaram serviços inestimáveis aos USA, porque transmitiam as informações secretas no seu idioma que mais ninguém percebe, muito menos o inimigo. Até eles se darem conta do que estava a acontecer, já a guerra tinha terminado.
Mas se preferir recorrer a soluções nacionais, pode tentar com os mirandeses. Eles em começando a falar muito depressa, não há quem os entenda.
Uma outra hipótese, mais rebuscada, seria a estratégia "com a verdade me enganas". Contando com a colaboração de Alberto João Jardim para assuntos nacionais e a de Berlusconi para os internacionais, poderiam até enviar mensagens secretas em cartões postais (que, como toda a gente sabe, menos Cavaco Silva, são como e-mails, mas em suporte de papel), tendo apenas o cuidado de falar desbragadamente. Os espiões-escuta liam aquilo, pensavam "isto não pode ser verdade!", e tentavam decifrar a mensagem escondida sob aquelas palavras tão claras. Nunca mais faziam mais nada.
Contudo, melhor solução ainda seria uma presidência aberta. Se o presidente se visse obrigado a usar um computador de uma junta de freguesia, como eu, seria avisado de dois em dois minutos que os elementos que recebe ou envia podem ser redireccionados para terceiros. Não dura nem uma meia horita até uma pessoa começar a acreditar que a internet não é um lugar seguro. Este poder local é uma pedagogia, podem crer!
E depois, há o óbvio: ler os jornais. Ainda outro dia andavam a falar de o governo alemão querer possibilitar aos investigadores criminais a entrada nos computadores privados - o know-how existe, e de que maneira, o que falta é base legal.
E agora com licencinha, que a funcionária da junta tem de ir almoçar.
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