Se não fosse da Deutsche Welle, ia pensar que são Fake News. E das de
pior qualidade: coisas tão palermas que ninguém consegue acreditar.
Mas é da
Deutsche Welle. Copio para aqui, para memória futura deste momento em que somos testemunhas impotentes da catástrofe.
Coluna Cartas do Rio
No Brasil, está na moda um anti-intelectualismo que
lembra a Inquisição. Seus representantes preferem Silas Malafaia a
Immanuel Kant. Os ataques miram o próprio esclarecimento, escreve o
colunista Philipp Lichterbeck.
Partidários de Bolsonaro comemoram vitória eleitoral no fim de outubro, Rio de Janeiro
É sabido que viajar educa o indivíduo, fazendo com que alguém
contemple algo de perspectivas diferentes. Quem deixa o Brasil nos dias
de hoje deve se preocupar. O país está caminhando rumo ao passado.
No
Brasil, pode ser que isso seja algo menos perceptível, porque as
pessoas estão expostas ao moinho cotidiano de informações. Mas, de fora,
estas formam um mosaico assustador. Atualmente, estou em viagem pelo
Caribe – e o Brasil que se vê a partir daqui é de dar medo.
Na história, já houve momentos frequentes de regresso. Jared Diamond os descreve bem em seu livro
Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso.
Motivos que contribuem para o fracasso são, entre outros, destruição do
meio ambiente, negação de fatos, fanatismo religioso. Assim como nos
tempos da Inquisição, quando o conhecimento em si já era suficiente para
tornar alguém suspeito de blasfêmia.
No Brasil atual, não se
grita "herege!", mas "comunismo!". É a acusação com a qual se demoniza a
ciência e o progresso social. A emancipação de minorias e grupos menos
favorecidos: comunismo! A liberdade artística: comunismo! Direitos
humanos: comunismo! Justiça social: comunismo! Educação sexual:
comunismo! O pensamento crítico em si: comunismo!
Tudo isso são conquistas que não são questionadas em sociedades progressistas. O Brasil de hoje não as quer mais.
Porém,
a própria acusação de comunismo é um anacronismo. Como se hoje houvesse
um forte movimento comunista no Brasil. Mas não se trata disso. O novo
brasileiro não deve mais questionar, ele precisa obedecer: "Brasil acima
de tudo, Deus acima de todos".
Está na moda um
anti-intelectualismo horrendo, "alimentado pela falsa noção de que a
democracia significa que a minha ignorância é tão boa quanto o seu
conhecimento", segundo dizia o escritor Isaac Asimov. Ouvi uma anedota
de um pai brasileiro que tirou o filho da escola porque não queria que
ele aprendesse sobre o cubismo. O pai alegou que o filho não precisa
saber nada sobre Cuba, que isso era doutrinação marxista. Não sei se a
historia é verdade. O pior é que bem que poderia ser.
A essência
da ciência é o discernimento. Mas os novos inquisidores amam vídeos com
títulos como "Feliciano destrói argumentos e bancada LGBT". Destruir,
acabar, detonar, desmoralizar – são seus conceitos fundamentais. E, para
que ninguém se engane, o ataque vale para o próprio esclarecimento.
Os
inquisidores não querem mais Immanuel Kant, querem Silas Malafaia. Não
querem mais Paulo Freire, querem Alexandre Frota. Não querem mais
Jean-Jacques Rousseau, querem Olavo de Carvalho. Não querem Chico
Mendes, querem a "musa do veneno" (imagino que seja para ingerir ainda
mais agrotóxicos).
Dá para imaginar para onde vai uma sociedade
que tem esse tipo de fanático como exemplo: para o nada. Os sinais de
alerta estão acesos em toda parte.
O desmatamento da Floresta
Amazônica teve neste ano o seu maior aumento em uma década: 8 mil
quilômetros quadrados foram destruídos entre 2017 e 2018. Mas consórcios
de mineradoras e o agronegócio pressionam por uma maior abertura da
floresta.
Jair Bolsonaro quer realizar seus desejos. O próximo
presidente não acredita que a seca crescente no Sudeste do Brasil
poderia ter algo a ver com a ausência de formação de nuvens sobre as
áreas desmatadas. E ele não acredita nas mudanças climáticas. Para ele,
ambientalistas são subversivos.
Existe um consenso entre os
cientistas conhecedores do assunto no mundo inteiro: dizem que a Terra
está se aquecendo drasticamente por causa das emissões de dióxido de
carbono do ser humano e que isso terá consequências catastróficas. Mas
Bolsonaro, igual a Trump, prefere não ouvi-los. Prefere ignorar o
problema.
Para o próximo ministro brasileiro do Exterior, Ernesto
Araújo, o aquecimento global é até um complô marxista internacional.
Ele age como se tivesse alguma noção de pesquisas sobre o clima. É
exatamente esse o problema: a ignorância no Brasil de hoje conta mais do
que o conhecimento. O Brasil prefere acreditar num diplomata de
terceira categoria do que no Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o
Impacto Climático, que estuda seriamente o tema há trinta anos.
Araújo,
aliás, também diz que o sexo entre heterossexuais ou comer carne
vermelha são comportamentos que estão sendo "criminalizados". Ele fala
sério. Ao mesmo tempo, o Tinder bomba no Brasil. E, segundo o IBGE, há
220 milhões de cabeças de gado nos pastos do país. Mas não importa. O
extremista Araújo não se interessa por fatos, mas pela disseminação de
crenças. Para Jared Diamond, isso é um comportamento caraterístico de
sociedades que fracassam.
Obviamente, está claríssimo que a
restrição do pensamento começa na escola. Por isso, os novos
inquisidores se concentram especialmente nela. A "Escola Sem Partido"
tenta fazer exatamente isso. Leandro Karnal, uma das cabeças mais
inteligentes do Brasil, com razão descreve a ideia como "asneira sem
tamanho".
A Escola Sem Partido foi idealizada por pessoas sem
noção de pedagogia, formação e educação. Eles querem reprimir o
conhecimento e a discussão.
Karl Marx é ensinado em qualquer
faculdade de economia séria do mundo, porque ele foi um dos primeiros a
descrever o funcionamento do capitalismo. E o fez de uma forma genial.
Mas os novos inquisidores do Brasil não querem Marx. Acham que o contato
com a obra dele transformaria qualquer estudante em marxista convicto.
Acreditam que o próprio saber é nocivo – igual aos inquisidores. E, como
bons inquisidores, exortam à denúncia de mestres e professores. A obra
1984, de George Orwell, está se tornando realidade no Brasil em 2018.
É
possível estender longamente a lista com exemplos do regresso do país: a
influência cada vez maior das igrejas evangélicas, que fazem negócios
com a credulidade e a esperança de pessoas pobres. A demonização das
artes (exposições nunca abrem por medo dos extremistas, e artistas como
Wagner Schwartz são ameaçados de morte por uma performance que foi um
sucesso na Europa). Há uma negação paranoica de modelos alternativos de
família. Existe a tentativa de reescrever a história e transformar
torturadores em heróis. Há a tentativa de introduzir o criacionismo.
Tomás de Torquemada em vez de Charles Darwin.
E, como se fosse
uma sátira, no Brasil de 2018 há a homenagem a um pseudocientista na
Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, que defende a teoria de
que a Terra seria plana, ou "convexa", e não redonda. A moção de
congratulação concedida ao pesquisador foi proposta pelo presidente da
AL e aprovada por unanimidade pelos parlamentares.
Brasil, um país do passado.
Philipp
Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou
de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens
sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel
(Berlim), Wochenzeitung
(Zurique) e Wiener Zeitung
. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.
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