31 outubro 2018

revisões da matéria dada

#diga1933

Encontrei este desabafo desesperado no facebook.
Depois de ler tantas biografias atravessadas pelo horror nazi, dou comigo a ler relatos muito semelhantes feitos em 2018. Aquela ideia de andar nos mocassins dos outros para os compreender ganha um novo significado: a História invade as nossas vidas com toda a sua crueza. Se não me bastou ler para entender, pode ser que entenda finalmente quando vejo acontecer à minha volta.
Por estes dias, assistimos ao regresso das dificuldades e dos desafios com que os alemães de 1933 se viram confrontados. E parece que estamos tão paralizados e perplexos como eles. 
 

Desabafo de um amigo/amiga brasileiro, que por razões óbvias não convém identificar:
"Considerações pós eleições:

1- não, eu não tô calmo/a e não tenho previsão de ficar calmo/a. Seria mais fácil eu estar calmo/a porque eu sou branco/a, hétero, moro na zona sul, dentre outros privilégios que acumulo hoje, mas como pensar só no meu rabo? Quem me conhece minimamente sabe disso...além do mais, infelizmente acredito(não desejo) no sofrimento generalizado da classe média pra baixo. Não pense que seu rabo está a salvo.
2- Sou humano/a! Não sou namastê good vibes! Estou com raiva de gente religiosa/espiritualizada hipócrita que votou nesse homem burro e mau se valendo do fato de ter privilégios ainda maiores que os meus, tipo: morar fora do país, ter carro blindado pra andar num país armado, morar em condomínio fechado com gorilas armados até os dentes...São meus filhos que andam desprotegidos nas ruas do Rio de Janeiro e milhares de outros filhos de outras mães...e se algo acontecer aos meus torça pra eu não cruzar com vc
3- Dói miseravelmente saber que o massacre nas áreas mais pobres vai aumentar...sim, Cinderelas, porque vc não faz ideia de que já existe um massacre e que aquele menino que morreu indo pra escola na Maré virou apenas uma leve expressão de tristeza na sua cara de pau, enquanto pra mãe dele é um buraco negro que nunca terá fim. A verdade é: vc está cagando pra gente pobre. Cagando! Embora finja até pra si mesma que não, está cagando! E agora eu sei quem vc é!
4- Peço perdão a quem me manda a florzinha da resistência de quem lutou ao meu lado e está orgulhoso por ter amigos assim e acha que é importante esse momento de afagos. Não que eu não valorize conhecer gente decente que pensa no mundo pra todos e não só pra sua bolha dourada...mas, veja, só nas primeiras 24h já foram mortes por arma de fogo em comemorações pela vitória desse maldito, vizinhos atirando pro alto(e olha que eu moro no ÚNICO bairro do RJ onde o Haddad ganhou), gente ameaçando vizinhos pela janela, Paulo Guedes tratando jornalista como lixo, professores sendo ameaçados, invasão da UNB, aquela acelerada na reforma da previdência em moldes mais macabros ainda...e eu nem tô conseguindo me lembrar de tudo...e não tô conseguindo ser fofo/a. Se vc gosta de mim tenta entender essa limitação.
4- De minha parte não haverá ciranda! Vou dedicar todo o tempo que tiver ao trabalho de base e não vou conseguir ter respeito por ativista de sofá. Desculpa. Ou é isso, ou sair do país. E eu posso sair de cabeça erguida porque desde os 17 anos aderi a um partido que sonhou e construiu uma vida melhor pro meu povo. E por seus acertos muito mais do que por seus erros, foi massacrado. Se eu quiser me “aposentar” dessa luta quero ver quem é que vai julgar! Mas vc que votou nesse traste, baixa a tua bola agora que a tua responsabilidade é mais pesada que a massa da terra...começa a assumir tua escolha! Cobre esse infeliz! Para de mostrar a beleza da primeira dama que isso só mostra o seu nível de retardo intelectual e moral. Que caralhos importa pro país se a mulher é bonita ou feia?!! Se ela é cristã ou ateia?! Se ela é baladeira ou recatada do lar?
5- Sei quem votou nele e sei quem banca o isento pra não assumir responsabilidade em nenhuma hipótese, e queria dizer que eu não terei constrangimento em constrangê-los pessoal ou virtualmente a cada inevitável cagada que rolar.
Por enquanto é só!"

sobre os brasileiros que vivem em Portugal e votaram Bolsonero, fazendo um pequeno desvio pelo caso dos turcos-alemães

"Que vão para a terra deles!", dizem em Portugal algumas pessoas, chocadas com a quantidade de imigrantes brasileiros em Portugal que escolheram Bolsonero.

Antes de mais: "que vão para a terra deles!" é retórica à maneira do Bolçário. Se os queremos criticar, não podemos ter tiques iguais.

Na Alemanha, os turcos provocam choques idênticos: entre os que votam, a maioria é a favor de Erdogan; no referendo sobre a mudança da Constituição, o número de votos "sim" na Alemanha foi superior aos da própria Turquia. A AfD aproveita para meter o seu veneno ("esta gente nunca será capaz de se integrar no nosso país"), os partidos decentes optam por um discurso bem mais cuidadoso e democrático. E o país pergunta-se o que falhou para que as famílias dos imigrantes não tenham aderido aos valores mais básicos desta sociedade. Por sua vez, muitas pessoas na Turquia criticam os turcos-alemães por viverem descansadamente em liberdade e democracia mas usarem o voto para imporem aos seus compatriotas a autocracia, a perseguição política e o caos económico.

Alguns jornais adiantaram explicações para o fenómeno que permitiram passar para além da reacção primária "não queremos cá uma 5ª coluna, vão para a vossa terra!". Em primeiro lugar, convém não esquecer algo importante: só metade dos turcos ou seus descendentes que vivem na Alemanha é que vota, e quase metade dos que votam não escolhe Erdogan. Não se pode generalizar desta parte relativamente pequena para o todo.
Quanto aos que escolhem Erdogan: muitos turcos na Alemanha vivem num contexto de indesejados e desprezados, o que pode criar neles a necessidade de terem no seu país um "homem forte" para contrabalançar as humilhações quotidianas. Além disso, o modo como na Alemanha se fala do Erdogan pode ser sentido como ofensa pelos turcos que aqui vivem - com ou sem razão, ninguém gosta que se critique assim o seu país. É natural que num país democrático se critique abertamente um governante que conduz o seu país para a ditadura, mas essa crítica ressoa de forma diferente na minoria nacional, que a sente como mais um ataque e falta de respeito, a somar a todas as outras humilhações de que são vítimas.

[ Que humilhações?, perguntarão. Uma lista pouco exaustiva vai desde o facto de um apelido turco ser um entrave para alugar casa, arranjar emprego e subir na carreira profissional, passando pelo fenómeno de as famílias de língua materna alemã evitarem pôr os seus filhos nas escolas onde há muitos filhos de turcos, até ao terrível escândalo de ter havido um bando de neonazis que durante uma década andou pelo país a matar turcos ao acaso, e a polícia alemã ter conduzido os inquéritos - a que chamou "assassinatos Dönner"! - convencida de que se tratava de meros ajustes de contas de uma qualquer máfia turca. ]    

Voltando a Portugal, e aos brasileiros que aqui vivem: quantas pessoas votaram Bolsotário? Esse número corresponde a que percentagem da população brasileira em Portugal? Provavelmente não passará de 15% do total, mas em Portugal instalou-se a ideia de que a grande maioria dos brasileiros que aqui vivem é apoiante de Bolsalário.

Igualmente importante: quantos desses votos não serão um sintoma de mal-estar por se sentirem de certo modo rejeitados pela sociedade portuguesa?

Levando esta ideia um pouco mais longe: Portugal tem feito muito para aprofundar a consciência democrática, mas - como aliás em todos os países - os valores e a prática da Democracia não estão naturalizados de forma homogénea na sociedade. Por serem estrangeiros e um grupo minoritário, os imigrantes estão expostos com mais frequência e mais virulência a episódios resultantes da falta de cultura democrática de alguns portugueses. Sendo assim, o argumento "vivem em Democracia, mas não aprenderam nada!" não colhe, porque o que os imigrantes vivem todos os dias é bem diferente da Democracia que pensamos ter.

Disso é exemplo mais recente e alarmante a frase "vai para a tua terra!", que tanto temos ouvido em Portugal por estes dias.

**

Estou a tentar não escrever o nome certo do Bostanaro para não dar esse prazer a quem faz estatísticas do número de ocorrências na net. O mais engraçado é que depois de inventar três ou quatro nomes me esqueci do nome dele. O único que me ocorre, quando pretendo acertar, é Bolsonário - mas o meu favorito é Bolsonero.

30 outubro 2018

"fake news"

Ontem, o tema na Enciclopédia Ilustrada era Fake News.

Alguém lembrou o tempo em que as #fake_news vinham por e-mail, e eu pensei logo em 2003, quando uma conhecida minha, ultraconservadora dos EUA, desatou a mandar-me mensagens a afirmar que era o Saddam Hussein quem estava por trás do 11 de Setembro. Bush aquecia os motores para a guerra do Iraque, e o pessoal enviava mensagens a tudo o que mexia dizendo "lembrem-se das pessoas a cair das torres do WTC! Lembrem-se daquele casal que caiu de mãos dadas!"

Na altura aproveitava a falta de cuidado deles, que enviavam essas mensagens com os endereços de e-mail todos visíveis, e fazia um "responder a todos" mostrando porque é que estavam enganados e apelando a algum bom senso. Pelo que os eles aperfeiçoaram a técnica, e trataram de enviar as fake news de modo a evitar a hipótese de qualquer contraditório.

Moral da história: de certo modo, a culpa de isto se ter deslocado para o WhatsApp é minha...

Agora, mais a sério: pensávamos que as redes sociais seriam o espaço por excelência da polis grega, mas rapidamente se tornaram uma latrina romana, e agora estão a ficar uma sala de chute: descarregam o veneno customizado directamente para a veia de cada um dos toxicodependentes agradecidos.

Para terminar, e a propósito destes "toxicodependentes agradecidos por estarem a receber a droga que querem", recomento muito a leitura deste artigo do El Pais: A Longa História das Notícias Falsas



29 outubro 2018

"eleitor"

Trago este post do Lutz Brückelmann, que o publicou na Enciclopédia Ilustrada no dia em que a palavra mágica era Democracia.



Muitas pessoas pensam, à esquerda e à direita, que a democracia é o valor mais alto. Por ser o governo do povo. Como pode ser errado um governo eleito pela maioria? A maioria não tem, por definição, sempre razão?
Se entendem que não tem razão - como qualquer derrotado numa eleição naturalmente faz - dirão que foi porque o #eleitor foi enganado, pelos fake-news, pela propaganda, pela exploração hábil de frustrações que até se admite como compreensíveis e indignações justificadas, mas dirigidas contra alvos errados.
Isto pode ser tudo verdade, mas ainda assim é beside the point.
Há de encarar a possibilidade muito real que a maioria que elegeu Bolsonaro sabia, queria e aceita um governo que discrimina minorias, uma polícia que atira primeiro e pergunta depois, que espanca pretos e homos e transsexuais, um governo que tira o que resta de apoio e de território aos índios da Amazónia, que facilita ainda mais a desflorestação, e que prende e tortura os opositores.
A democracia é indispensável. Mas não é o mais importante. A democracia é instrumental, não tanto para facultar ao cidadão comum a ocasião de sentir que manda, quando calhou ter votado no vencedor, mas para evitar o despotismo. Para evitar a perpetuação do governo no poder. Com outras palavras, a democracia tem antes de mais assegurar a sua própria sobrevivência. Daí tem de limitar o poder do governo, distribuir o poder por diversas instituições independentes, e assegurar as condições da oposição para poder aspirar a substituir o governo vigente. Já para isso as liberdades cívicas são indispensáveis: a liberdade de expressão, o direito à reunião, à organização política e todo o resto.
Mas essas liberdades são mais do que instrumental. Fazem parte dos direitos que săo um fim em si e que são inalienáveis: os direitos humanos. O fim de qualquer Estado decente é antes de tudo a garantia e defesa da dignidade humana. Para todos. Para cada indivíduo.
Um governo que viola os direitos humanos não é legítimo e tem de ser combatido, mesmo se tiver o apoio de 90% da população. Um governo democraticamente eleito que decidia, por exemplo, discriminar ou prender ou escravizar ou matar uma minoria de 10% ou de 1% ou de 0,001%, por ter outra cor de pele, por ter outros costumes ou outra orientação sexual, ou por qualquer outra razão, é um governo inaceitável. Como combaté-lo, é matéria para considerações práticas, mas do ponto de vista moral, o combate contra ele não é só legítimo mas um imperativo.



#diga1933


Está aqui. Onde também encontrei esta brilhante peça de retórica política:
"É só se comportar direitinho que não precisa ter medo, cidadão."
Estaline não teria dito melhor. Ulbricht idem.
O pior do século XX está de volta.

#diga1933
#erasódabocaprafora


foi há dois anos


Na semana em que começou o golpe contra a Dilma, o Joachim pintou - aqui em Berlim - com uma modelo brasileira. A sessão de pintura correu normalmente até que, pouco antes do fim, a modelo disse:
- A pose seguinte tem um nome: tenho vergonha do meu país.


28 outubro 2018

eleições na RDA

Há dias o Spiegel online tinha dois artigos sobre as eleições no tempo da RDA.

Para quem não sabe como era, aqui vai a tradução (apressada, e resumindo):

I.

Eleições na RDA: folha dobrada, boca calada

Siegfried Wittenburg conta na primeira pessoa:

A ordem de Walter Ulbricht (que instalou o estalinismo na zona da Alemanha ocupada pela URSS e construiu o muro) era: "tem de parecer democrático, mas temos de controlar tudo".

Os chefes das lojas estatais tinham a incumbência de decorar as montras com material de propaganda.
No prédio onde morava com a minha mulher, os vizinhos foram convocados pelo chefe da comunidade de vizinhos (que era ao mesmo tempo polícia e responsável pela área) para serem informados sobre as bandeiras que deviam pôr às janelas. As janelas do prédio já tinham os necessários suportes. Era desagradável receber de um polícia ordens para mostrar tanta fidelidade ao regime, mas desobedecer seria um sinal que não convinha dar.
O chefe da comunidade também sugeriu que fossem todos juntos votar às 10 da manhã desse domingo, e quase todos os vizinhos se apressaram a levantar a mão em sinal de concordância.
Na sexta-feira antes das eleições, uns minutos antes de terminarmos o trabalho o responsável perguntou a cada um dos colegas: "vais votar no domingo?" Responder com um "não" teria consequências muito desagradáveis.
Ao longo de várias décadas os resultados anunciados entusiasticamente na segunda-feira seguinte eram sempre os mesmos: a população da RDA tinha votado quase unanimemente a favor da paz
e do socialismo. Os votos a favor teriam sido superiores a 99,8%. E só não eram 100% por causa de cidadãos como o meu pai, que se recusavam a ir votar. Muitos deles eram demasiado importantes para o sistema de produção, outros eram reformados que estavam a pensar ir para a Alemanha ocidental. Ignorá-los seria uma falsificação das eleições demasiado óbvia.

As assembleias de voto abriam às 8 da manhã. A população estava educada para ir votar até ao meio-dia. À tarde, fartos de esperar pelos 0,2% de eleitores que não apareciam, os ajudantes agarravam nas urnas e iam a casa desses eleitores renitentes pedir-lhes o voto.

Também eu e a minha mulher fomos votar de manhã, embora tivéssemos evitado ir em grupo com os vizinhos. Na sala havia cinco mesas. Na primeira entregávamos a folha com a convocatória para as eleições, na segunda mostrávamos os bilhetes de identidade e o funcionário fazia uma anotação, na terceira davam-nos a folha de voto com o candidato da Frente Nacional e na quarta mesa havia um funcionário que esperava sorridente até dobrarmos a folha e a metermos na urna. Por trás da quinta mesa sentavam-se dois homens extraordinariamente discretos.
Não era possível fazer uma cruz no nosso candidato favorito. Dobrava-se o boletim de voto e deitava-se na urna. Esse era o voto a favor. Para votar contra, era preciso riscar o nome do candidato. Olhei pela sala em busca da cabine. Estava a um canto, e era óbvio que os homens da quinta mesa escreveriam o nome de todas as pessoas que se aproximassem dela.
Na segunda-feira seguinte foram anunciados os resultados previamente preparados. Algumas semanas mais tarde soube-se que um jovem tinha usado a cabine antes de deitar o seu boletim de voto na urna. Todos o conheciam, e sabiam que o único voto contra que tinha sido contado era o dele. Alguns diziam "Típico! Nele, não me admira nada!"


II.

Queda do muro 1989: imagina que há eleições, e ninguém vai votar!

27 outubro 2018

Haddad rima com liberdade



Haddad!
Porque o presidente Haddad representa um Brasil de costas direitas e cabeça levantada, olhado como um parceiro respeitado e estimado, e não como um país pária ou um país coitadinho. Porque Haddad é o candidato apreciado e respeitado pelos países que acreditam na entreajuda e cooperação internacional para tornarmos o planeta um lugar melhor tanto a nível económico como ecológico.

Haddad!
Porque a comunidade internacional está alarmada com o que acontece no Brasil, e fará do apoio a Haddad e ao Brasil uma opção estratégica para garantir a estabilidade democrática na região.

Haddad!
Porque o planeta está em colapso climático, e a defesa da Amazónia é uma peça fulcral no desafio de salvar a humanidade. 

Haddad!
Porque a dignidade humana é inviolável, e ele sabe-o.

Haddad!
Porque - apesar de todos os erros - quer levar a cabo no Brasil o que os países europeus mais ricos e com sociedades mais igualitárias andam a fazer há décadas, com os resultados de bem-estar social generalizado que são do conhecimento de todos.

Haddad!
Porque sou cristã: "Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me." (Mateus 25) e também "Vós sois meus amigos, se praticais o que eu vos mando." (João 15:14).

Haddad!
Porque temo, temo realmente, que algumas das pessoas brasileiras mais generosas, inteligentes e doces que conheçam sejam em breve perseguidas, torturadas e assassinadas. E nem quero pensar na culpa que pais e outros familiares destas pessoas vão carregar para sempre por terem ajudado - por voto ou por omissão - a eleger quem avisou abertamente que vai matar os filhos deles.

Haddad!
Porque rima com liberdade.

[ Mas se o Haddad não ganhar, provavelmente ganho eu: o Chico e o Caetano vêm para o exílio na Europa, juntamente com algumas das pessoas brasileiras mais generosas, inteligentes e doces que conheço. Esses e essas serão recebidos de braços abertos. ]

"ele não queria dizer isso que disse..."

Há muitos, muitos anos - a minha filha não tinha nem dois anos e o meu filho não tinha nem 10 cm - fizemos férias de ski com um casal amigo.

A meio dessa semana, estava eu em casa calmamente a dar o almoço à miúda, quando o nosso amigo entrou de rompante, fez a mala a correr e saiu desaustinado. Bem-educada, ofereci-lhe um prato de sopa, mas ele não tinha tempo. Estava a fugir.

Daí a bocado chegaram o Joachim e a nossa amiga. Contaram que iam a subir a encosta num daqueles elevadores com lugares duplos, e ele de repente se virou e começou a descer a montanha a toda a velocidade.

No fim da semana voltámos todos para casa, e logo a seguir a nossa amiga ligou-nos a contar, muito surpreendida, que ele saíra de casa, levara as suas coisas, e deixara uma carta de várias páginas a dizer porque é que não aguentava mais aquela relação.

Nas semanas seguintes ela continuou à espera que ele voltasse. Quando eu lhe lembrava o modo como fugiu e a carta que deixou, ela afastava os meus argumentos com um movimento de mão que sacode moscas e dizia:

- Ele não é assim. Tenho a certeza que aquilo que escreveu não é o que pensa realmente.

Uns meses mais tarde ela mudou para outra cidade, e telefonava-me todas as semanas para, como me anunciava sempre, "fazer o relatório". Eu ouvia pacientemente enquanto ela ia debitando as linhas da sua agenda uma a uma, e metia aquela hora interminável na rubrica "os amigos também são para ouvir os relatórios, quando é preciso".

Até que um dia ela telefonou, me perguntou como sempre fazia "então, como estás?" e eu dessa vez respondi "estou à rasca, o meu mundo está a desmoronar-se à minha volta", e contei. No fim, ela disse:

- Ui, que coisas horríveis! Deixa-nos falar de algo mais agradável. Na minha varanda as roseiras já estão a florir, esta semana chegaram as cadeiras de esplanada francesas que encomendei há tempos, e comprei uns pés de tomate que estão muito promissores...

E eu:
- Desculpa, mas não quero falar mais. Adeus.

Nunca mais lhe falei. Ela perguntava porque deixei de lhe atender os telefonemas, e eu respondia: "porque não quero falar contigo, apenas isso."

Outros também me perguntavam porque é que não lhe explicava o que se tinha passado, porquê essa recusa em dar satisfações.

Mas o que é que se pode explicar a pessoas que lêem "ISTO!" escrito com todas as letras, e decidem: "ah, não, ele não queria dizer isso que disse..."?

Que inteligência e racionalidade, que diálogo é possível com pessoas que ouvem "É ISTO QUE VOU FAZER!" - dito com todas as letras, com toda a clareza - e decidem: "ah, não, não acredito que ele faça isso..."?

saber escolher o certo quando tudo parece errado


Contaram-me uma vez que, antes das eleições que levaram Hitler ao poder, o comunista Ernst Thälmann terá dito "se não nos soubermos unir agora, acabaremos unidos no campo de concentração".

Quanto mais leio sobre Thälmann mais improvável me parece
esta frase ter sido dita por ele. Thälmann tinha ideias muito claras sobre o sistema político ideal, e apelava à união, sim, mas segundo as suas regras. Parece-me que era uma daquelas pessoas que têm muita dificuldade em identificar o mal menor, e não fazia concessões nem jogos de cintura. Foi um dos primeiros a ser preso e torturado como inimigo da ordem nazi que ele não soube identificar como um perigo muito mais concreto e ameaçador que os outros opositores ideológicos.
Lembro agora
Žižek, que via na possível eleição de Trump uma oportunidade de sacudir o sistema para o renovar. Vimos essa "renovação do sistema": pessoas proibidas de visitar aquele país apenas devido à sua nacionalidade, crianças separadas das famílias e metidas em jaulas, bombas enviadas pelo correio àqueles que Trump odeia, e o planeta cada vez mais próximo do colapso climático e diplomático.
Lembro o Brexit, ou mesmo o muito comezinho referendo para salvar o aeroporto Tegel em Berlim: eleitores que usam o voto para se vingarem de algo, em vez de o usar para fazer uma escolha positiva, consciente e responsável.

O voto como ferramenta de vingança é a estratégia do suicida.


Repito parte do que escrevi no facebook logo após conhecer o resultado da primeira volta das eleições no Brasil:

Estou a pensar em 1986, em Portugal: na primeira volta, o candidato da direita teve 46%, e o que ficou em segundo lugar teve 25%. Mas foi este último - Mário Soares - que acabou por vencer, com 51%. 

Na segunda volta, muitas pessoas conseguiram ignorar o ódio profundo que sentiam contra Mário Soares e votaram nele para evitar um mal maior. Ficaram célebres frases como "Se for preciso tapem a cara de Soares no boletim de voto com uma mão e votem com a outra" ou "Vamos ter de engolir um sapo".

O que aconteceu em Portugal em 1986 mostra que é possível ultrapassar as diferenças e os ressentimentos para escolher o que é realmente mais importante para a maioria da população.

Por isso acredito que o Brasil vai virar.
O seu futuro está na mão dos indecisos, dos indiferentes e dos perplexos. Esta é a hora do diálogo com os que não estão cegos e surdos pelo ódio.
Nas próximas horas, o lema é: desesperar, jamais!
--

E o Ernst Thälmann?, perguntarão.

Logo após o incêndio do Reichstag escondeu-se. Foi denunciado e levado pela política política. Quase no fim da guerra, mataram-no no campo de concentração - como mataram tantos outros políticos de vários quadrantes, tantos padres porque se recusavam a obedecer às leis desumanas do regime, tantos jovens Testemunhas de Jeová porque se recusavam a fazer serviço militar, tantos judeus e ciganos porque sim, tantos homossexuais porque eram o grão de areia na engrenagem do sistema de produção de arianos, tantos escravos do trabalho forçado apanhados na rede de um regime poderoso e sem escrúpulos.

Por erros dos políticos e de um eleitorado profundamente dividido e frustrado, a Alemanha teve de passar pelo maior dos horrores para aprender a amar a Democracia, e para se dar conta de que a defesa das liberdades democráticas é empenho e responsabilidade de cada um. Nada nos é oferecido, nada está garantido para sempre. 

Mas o Brasil não precisa de reinventar a roda do horror. Vai virar.



26 outubro 2018

porque tens os olhos tão grandes? (um post com presente)


Dudamel, Filarmónicos de Berlim, 5ª de Mahler.
Agarrem-me, que isto é mais do que uma alminha consegue aguentar.

Às vezes fechava os olhos, para ouvir a música em toda a sua perfeição. Em toda a sua sublime perfeição. Mas depois lembrava-me que estava a perder o Dudamel de vista, e abria-os outra vez. Muito, para não perder nada daquele momento.

Depois do concerto, já na rua, de novo o fascínio que aqueles edifícios me provocam.

- Porque tens os olhos tão grandes?
- Vão perguntar ao Dudamel e ao Sharoun.

--

Para não se queixarem que uns têm tudo e outros nada, aqui repasso um presente que deram na folha do Lunchkonzert desta semana: um voucher para 48 horas no Digital Concert Hall. O programa a que assisti hoje vai passar amanhã em directo às 19 horas (18 em Lisboa). Depois digam o que acharam do Divertimento de Bernstein (eu achei-o sem brilho - como se os Filarmónicos estivessem a tocar muito bem instalados numa zona de conforto) e da 5ª de Mahler (quem disser mal desta, devolva já o voucher se faz favor! ;) )

Ah, o voucher: LK1819XG
Se gostarem, e puderem, comprem um passe para um mês ou assim, que é para isso que eles o andam a oferecer. 









mulher é desdobrável

Trago do facebook esta lindíssima imagem e o texto que a acompanha:



Ligia Moreiras

Ela, candidata a vice-presidente, cansada depois de tantos meses, depois de acompanhar o show na Lapa, senta uns minutinhos, dá mamá pra filha que também tá exausta e mama quase dormindo, e ainda se lembra de dar um beijinho nesse pezinho suado do calor do Rio.
Esse é o país que eu quero ver.
Quando penso no que ela tem passado, o que eu, uma nada, passei nesses meses se torna muito pouco. E olha que deixei foi coisa pelo caminho, viu...
Eu quero que esse amor vença.
O amor das mães que não pensam somente nos seus filhos, mas ainda mais nos filhos de outras.
O amor da Bruna, que mesmo tendo perdido seu pequeno com um tiro da polícia na Maré, tem o discernimento de lutar pela democracia e dizer que se o fascismo vencer, muitos serão os filhos em sacos pretos.
O amor da Anne, que acaba de ser eleita e já foi dar seu depoimento numa comissão sobre parto.
O amor da Raquel, que passou por muita coisa até chegar aqui, e que agora é codeputada.
Eu quero ver amor de mãe solidária, pacifista, ativista, transformar arminhas feitas com a mão em abraço sincero.
Eu quero ver mais amor e menos ignorância.
Mais amor e menos individualismo.
Mais amor e menos fascismo.
E se o fascismo vencer, vou querer tudo isso ainda mais. E não vou parar.
Porque eu sou, Manuela D'Ávila é e nós somos como disse Adelia Prado:


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou".
NÓS SOMOS.

📷 Maria Eduarda José / CUCA da UNE

caramelos



No dia em que na Enciclopédia Ilustrada se falou de Beirute alguém mencionou o filme Caramel.

O primeiro a ver o filme Caramel cá em casa foi o meu filho, quando tinha uns 13 anos. Comentou comigo que "este filme é diferente, e dá que pensar". A música do filme passou a ser c
ompanhia certa nas nossas viagens de carro mais longas.
Uns anos depois, num encontro com os seus novos amigos sírios que agora moram em Berlim, o Matthias cantarolou "Mreyte Ya Mreyte", e uma das raparigas sírias desatou a chorar. Não esperava ouvir tão longe de casa um alemão a cantar esta canção. Entre lágrimas, contou ao Matthias que é amiga da cantora.
Uns meses mais tarde a minha filha começou a cantar com alguns desses jovens sírios, que são músicos e fugiram para Berlim porque na Síria chegaram a estar presos por se interessarem pela "música errada". Compôs com um deles uma canção usando esta letra.

O mundo é realmente muito pequeno. Quanto maior o tamanho dos corações, mais pequeno o mundo.


25 outubro 2018

das palavras às bombas



Traduzo partes de um comentário de (NY), no Spiegel online hoje:

A América dele

As embalagens com bombas que foram enviadas aos mais importantes Democratas dos EUA são o resultado de um clima de ódio que é criado pelo homem no topo: Donald Trump.

"Era apenas uma questão de tempo", comentou James Clapper, antigo chefe dos serviços secretos americanos, a propósito das bombas ontem enviadas pelo correio. O que é que os destinatários têm em comum? São os alvos de ataque favoritos de Donald Trump no Twitter.

É este o país de Trump: os Estados "Unidos" da América estão divididos pelo ódio, pela fúria e pela violência que está a passar do plano verbal para o físico. 

É este o país de Trump.
Trump começou a sua campanha eleitoral com tiradas contra os mexicanos e os latinos.
- Oh, isto é só falar por falar.
Transformou o resto da sua campanha eleitoral numa perseguição de ódio a Hillary Clinton: "prendam-na!"
- Oh, isto é só o teatro da política.
Quando em Charlottesville mataram uma contra manifestante que se opunha a uma marcha de extrema-direita, não soube condenar a violência neonazi.
- Oh, o problema é que ele não se consegue expressar muito bem.
Usa o registo brutal da cena de wrestling, "quem me dera dar-lhe um murro", "batam a sério, ok? Eu pago-vos o advogado".
Oh, é só a brincar.
É esta a América do Trump, todos os dias, até hoje. O seu maior inimigo são os meios de comunicação social, "inimigos do Estado", "traidores do povo", "gente muito muito má".
- Oh, isso não passa de esperteza retórica.

Mas é muito mais que retórica. O que Trump diz é aceite sem discutir pelos seus seguidores, que acreditam nas suas mentiras, se riem daqueles que ele humilha e odeiam quem ele odeia.

Não é apenas a linguagem violenta. É o pensamento violento que se espalha na sociedade como um gás imperceptível. Trump promove a violência contra os seus inimigos. Numa sessão pública em Montana elogiou o republicano Greg Gianforte por ter agredido um jornalista [vejam o vídeo, é muito instrutivo: https://youtu.be/aovYhuOodyw]; pouco depois, na mesma sessão, um apoiante de Trump virava-se para Jim Acosta, repórter da CNN, e fazia-lhe com a mão o gesto de uma faca a passar pela garganta. Isto aconteceu na semana passada.

Era uma questão de tempo.

E há muito que não é apenas Trump. Muitos outros sentem-se encorajados a seguir-lhe o exemplo.
Trump, o autocrata in spe, mantém em clima explosivo as massas que o adoram: diz-lhes que só eles são bons, e que todos os outros são maus. E quem é mau tem de ser eliminado, tanto politica como - piscadela de olho - fisicamente.

Os atentados políticos não nascem do nada. Surgem num clima de ódio e divisão da sociedade, e vão ganhando cada vez mais força à medida que as pessoas se habituam. Basta folhear os livros de História dos EUA: John F. Kennedy. Robert Kennedy. Martin Luther King.

Os agressores não foram nunca os únicos culpados.

"Calma, sua tia não é fascista. Ela está sendo manipulada pelas redes sociais."

Para quem, como eu, se afunda na perplexidade de não entender como é que o Brasil está a caminhar voluntariamente para uma ditadura apesar de Bolsonaro o anunciar abertamente, este filme explica de forma clara o que está a acontecer aos brasileiros.



esta é a pessoa que vai salvar o Brasil?



Jair Bolsonaro a dizer ele próprio o que pensa: que é a favor da tortura, que só não foge mais aos impostos porque não pode, que se fosse presidente da República "daria o golpe no mesmo dia" e fecharia o Congresso Nacional, e que o Brasil só consegue melhorar se tiver uma guerra civil e conseguir matar "esses" - começando pelo FHC ("Não deixar ir pra fora não! Matando!" e a seguir: "Se vai morrer algum inocente? Tudo bem! Em todas as guerras morrem inocentes").

É esta pessoa que os brasileiros estão prestes a escolher para ganhar ao Hadad e ao PT.


24 outubro 2018

Bolsonaro é diferente de Hitler - um exemplo prático



Hitler foi nomeado chanceler a 30 de Janeiro de 1933. Alguns dias depois, a 26 de Fevereiro, o Reichstag estava a arder. Hitler aproveitou-se do facto para espalhar a ideia de que a Alemanha estava a ser atacada pelos comunistas, e decretou o estado de emergência. Nessa mesma noite Göring mandou prender os deputados federais e regionais dos partidos de esquerda. Nas eleições seguintes, a 5 de Março de 1933, a oposição estava bastante dizimada, mas conseguiu ainda eleger um número importante de deputados. A 9 de Março o Partido Comunista Alemão foi declarado ilegal, e os seus representantes foram feitos prisioneiros. Com os deputados da oposição na prisão, Hitler conseguiu facilmente fazer passar a lei que lhe permitia governar sem necessitar da aprovação do parlamento.

O que se seguiu é do conhecimento público (embora alguns insistam em não reparar nos 60 ou talvez até 80 milhões de mortos, na tentativa de aniquilar o povo judeu e os povos ciganos, nas cidades destruídas, os milhões de pessoas em fuga, em suma: na hecatombe que se abateu sobre vários continentes - e prefiram elogiar as auto-estradas, as casas e os carros para todos, o apoio às mães e às famílias, e, claro, o esforço de lutar contra o perigo vermelho que crescia e se afirmava na sociedade alemã).

Há diferenças entre o que aconteceu na Alemanha em Fevereiro de 1933 e o que está a acontecer no Brasil hoje?

Há. Esta, por exemplo: nem é preciso haver um "incêndio do Reichstag" para Bolsonaro ameaçar meter na cadeia "todos esses vermelhos". Nem sequer se dá ao trabalho de um mínimo de legalidade democrática para levar a cabo a sua agenda totalitária.

23 outubro 2018

o que há num sorriso



A miúda disse-me que fala muito bem alemão e inglês (e também árabe, francês e maltês porque viveu dois anos em Malta). Depois tirou o papel do bolso, e anunciou: "a minha família". Sorria, com olhos cheios de confiança.
A minha amiga Rita segredou-me: "a mãe e a irmã morreram".

Lembrei-me dos três miúdos, irmãos entre os 3 e os 8 anos, da naturalidade com que contaram à professora de música no centro de refugiados: "sabes? nós perdemo-nos da nossa mãe na Grécia, e viemos sozinhos até à Alemanha. Foi aqui que ela nos encontrou."

Lembrei-me do sorriso dos jovens sírios amigos dos meus filhos a comentar, depois de os ajudarem a fazer uma mudança, que a parte desse dia em que tinham viajado no compartimento da carga da carrinha "foi muito desagradável".

Não basta dar-lhes casa, pão, segurança. Há que entender por trás do sorriso. Pode ser a sua única defesa para não se deixarem dilacerar pelo horror.

[Roubei a foto à Rita. A miúda não lhe deu o desenho - só o queria mostrar.]


22 outubro 2018

como é possível


Muitas vezes me perguntei como foi possível um país com o grau de desenvolvimento da Alemanha ter eleito Hitler. Nunca pensei que iria assistir ao vivo a um processo semelhante: um povo a caminhar para a tragédia, e a impossibilidade de o parar.


Maria Leonardo








A Maria Leonardo faz hoje anos. Fui ao mural dela para lhe dar os parabéns, mas de caminho perdi-me pelas suas fotos.
As fotos da Maria Leonardo!

Vi em Berlim uma exposição dela sobre as estações fantasma do tempo do muro. Se me deixassem mandar, essa série teria ficado num museu de Berlim, ou ao menos numa colecção.
(não me deixam mandar, não sabem o que perdem)

Como ia dizendo: fui ao mural da Maria Leonardo, e vi que ela tem um site onde mostra as fotos que tem à venda.
(era uma de cada, se faz favor)


Parabéns,
Maria. Pelo aniversário, e por encheres o mundo de beleza.
Obrigada.

12 outubro 2018

nos transportes públicos de Berlim

1. De cada vez que vou sentada nos transportes públicos e tenho o impulso de oferecer o meu lugar a uma pessoa mais velha, penso duas vezes: corro o risco de estar a oferecer o lugar a alguém mais novo que eu. É que a imagem que tenho de mim estacionou ali para os 25 anos, talvez 30, mas quem vê caras não vê auto-imagens. Um dia destes alguém ainda vai levar a mal.

2. Entrei para uma carruagem de metro que ia bastante cheia, e fiquei à porta, juntamente com uma jovem alemã que ocupou o espaço a que sentia ter direito sem reparar no pobre rapaz ao lado dela. Este, encurralado entre as costas do banco atrás dele e a mulher à sua frente, começou a fazer um exercício de implosão. Sabem como é, um corpo humano a tentar ficar o mais plano possível? Nem respirava, coitado do rapaz. A rapariga estava muito descontraída a pensar em coisas suas, inteiramente alheia ao esforço dele para que os corpos não se tocassem. Saí na estação seguinte, e sorri para o rapaz um daqueles sorrisos de compreensão, solidariedade e agradecimento pelo respeito demonstrado.
Suspeito que era refugiado. Um desses "refugiados que vêm para cá violar as nossas mulheres"...

3. Ontem Berlim exibiu-se no seu melhor rosto outonal. Encostei o telemóvel ao vidro da S-Bahn e comecei a fotografar às cegas. Do outro lado do corredor, um alemão meteu conversa. Se estava a filmar contra o sol. Não, estou a fotografar. E fotografias tiradas contra o sol ficam bem? Olhe estas aqui. Ena, ficaram óptimas, não imaginava! Pois é, às vezes corre bem. Você é da Escandinávia? Não, sou portuguesa.
E então (até vou mudar de linha), ele disse isto: Ah, Portugal! Como é que anda o vosso, como é que ele se chama?, o vosso rei? O... vosso presidente, o... o vosso chefe? O... ah, já sei! O Ronaldo! Como anda ele? É um jogador de classe, mas aquilo que ele fez não se faz. Vai ter de pagar por isso. Vai ter de pedir desculpa. Vai ter de pedir desculpa.








09 outubro 2018

manejar o medo como arma



Noah Trevor a explicar a técnica de Trump de manipular o estatuto de vítima, deslocando-o da vítima para os detentores do poder, de modo a incutir neles o sentimento de medo que lhes permitirá reagir e lutar para continuar a deter esse poder. Vale a pena ouvir tudo com muita atenção.

Em traços largos (mas vejam o vídeo, que é mesmo bom):

- A ferramenta mais poderosa de Trump é a sua perícia no manejo do estatuto de vítima.
- Trump afirma que estes são tempos muito difíceis para os homens, porque em qualquer momento podem ser vítimas de uma acusação falsa e a sua vida é destruída.
- Fica-se com a ideia de que o movimento #metoo está a descarrilar.
- Mas o que significa isso, concretamente? Quantas pessoas foram acusadas até agora? Talvez cento e tal pessoas? Pelo modo como colocam a questão, até parece que "todos os homens" foram acusados. Mas são apenas cento e tal homens que foram realmente atingidos pelo movimento #metoo.
- Cria-se o sentimento de que os homens, todos os homens, estão a ser vítimas de um ataque que pode acontecer a qualquer um deles, e que têm de se unir para se proteger. Os homens sentem-se vítimas, e nesse processo unem-se para lutar contra um movimento que pretendia proteger as verdadeiras vítimas (que são as mulheres).
- Quantos homens foram acusados injustamente? Melhor: quantos homens nesta sala foram acusados de abuso sexual? E quantas mulheres nesta sala foram vítimas de abuso sexual? Suspeito que não haja aqui um único homem que tenha sido acusado, mas que haja muitas mulheres que foram vítimas.
- Trump consegue fazer esta manipulação com tudo: com o #metoo, com os emigrantes na fronteira do México (as vítimas não são as crianças enjauladas, são os cidadãos dos EUA que estão a ser vítimas de invasão), com os refugiados sírios (as verdadeiras vítimas são os cidadãos dos EUA que vão ser mortos por uma bomba terrorista).
- O mais irónico é que pessoas que estão mais próximas de ser as vítimas vão tentar demarcar-se da sua própria realidade para aderir ao discurso do poder. "Sim, apalparam-me o rabo. Mas não tem mal! Não sou uma vítima! Há que andar para a frente!" - fazendo de conta que nada daquilo está a acontecer.
- Trump tem o perigoso dom da manipulação. Por causa de Trump, as pessoas sentiram que estavam a perder o seu país. E o que se sente pode ser muito mais poderoso do que a realidade.


massa crítica

Na semana passada aconteceu-me uma cena muito desconfortável. Encontrei-me com alguns amigos berlinenses para falar de um livro de um teólogo que cresceu na RDA e que defende a necessidade imperiosa de ouvir os apoiantes da AfD. O autor, Frank Richter, defende que "Democracia significa debate".

Na primeira volta da conversa eu anunciei, muito orgulhosa, que Portugal é um caso raro, porque nem a terrível crise do euro fez surgir um partido nacionalista e a xenófobo, e saboreei com gosto todos aqueles olhares de admiração de repente virados para mim por tabela do meu maravilhoso país.

Mas na segunda volta as pessoas começaram a dizer quais são os argumentos dos apoiantes da AfD, e eu tinha muito para comentar porque leio todos os dias frases dessas no facebook, e tenho imensa experiência do que acontece quando se tenta rebater. De facto, até podia explicar - por experiência própria - a falácia daquele "Democracia significa debate".

Tinha muito para comentar, mas fiquei quieta e calada, porque se falasse tinha de dar o dito por não dito. Afinal, Portugal não é o país excepcional que eu anunciara no início da conversa. É um país onde nos cruzamos frequentemente com potenciais adeptos de um partido tipo AfD.

A nossa sorte, até agora, foi ainda ninguém se ter lembrado de criar esse partido. Temo que já haja massa crítica para o apoiar.

05 outubro 2018

insultar o Ronaldo é que não!

Um dos mais curiosos argumentos que ouvi em Portugal para desacreditar a mulher que acusou Ronaldo de a ter violado é este: "se foi ao quarto dele, já sabia ao que ia".

Antes de mais, que fique bem claro: parece-me mal que andem por aí a insinuar essas coisas contra o Ronaldo! Quem diz que ela não devia ter ido ao quarto dele porque já sabia o que podia acontecer está implicitamente a afirmar que o Ronaldo é homem para violar qualquer mulher que lhe entre no quarto. Tenham paciência, mas: insultos ao Ronaldo é que não!

É que insultam e condenam o Ronaldo ainda antes de os juizes terem começado a olhar para o caso, e dão cabo da minha auto-estima: é muito triste chegar a esta idade sem ter percebido que todos os homens que me convidam para os seus aposentos me querem e podem violar.

(Tenho andado tão enganadinha!)

De caminho também fiquei a suspeitar que talvez não seja uma mulher santa, porque "santas não aceitam convites para entrar no quarto de hotel de um homem" (mesmo que o convite seja dirigido a um grupo, como foi o caso naquela fatídica noite em 2009). Pelas críticas que fazem a Kathryn Mayorga depreendo que tenho andado a recusar sempre pelos motivos errados - porque não me apetece ou porque tenho mais que fazer. Pelos vistos o único motivo certo para recusar ir aos aposentos de um homem é partir do princípio que ele me quer violar.

(Não serei santa, mas sou uma santinha: incapaz de ver maldade nos outros até prova em contrário)



Outra das estratégias da defesa do Ronaldo explora o currículo da mulher que o acusa: "se fazia aquele trabalho, não se pode queixar". Não sei o que é "aquele trabalho", mas sei que a dignidade humana está acima de qualquer vínculo laboral. Um trabalho que implique tamanha suspensão dos direitos da personalidade não é um trabalho - é escravatura.

(Talvez fosse conveniente as pessoas que recorrem à prostituição e a serviços de escort informarem-se um pouco mais sobre a legislação em vigor, não vá de hoje para amanhã alguém resolver instaurar-lhes um processo criminal. Que isto os tempos estão maus, já não se pode fazer descansadamente o que sempre foi costume...)

Em suma: na gritaria provocada pela acusação contra Ronaldo descubro que em Portugal o machismo e a falta de respeito pelas mulheres são ainda mais generalizados do que pensava.

(O que me inspira para uma ideia peregrina: a Europa podia resolver o problema da integração de refugiados de forma bastante simples. Em vez de tentar mudá-los e adaptá-los às regras da sociedade que os acolhe, dividia-os por países em função da mentalidade. Para Portugal iriam os refugiados que vêm de regiões onde se entende que a mulher tem de se dar ao respeito, tem de cobrir o corpo para não provocar os homens, deve evitar o contacto com homens que conhece mal porque "já se sabe o que é que os homens querem", e é culpada do que lhe possa acontecer se entrar na "toca do lobo". Esses refugiados seriam recebidos de braços abertos pelos muitos portugueses que ainda pensam como eles, e estariam desde logo bem integrados na sociedade de acolhimento...)

(Estava a brincar, claro. Era só o que faltava deixar vir os de fora para tratar mal as nossas mulheres! Como é óbvio, essa tarefa é um direito exclusivo do macho ibérico, a quem pertence a coutada. Humpf!)

O que me custa mais nisto tudo, mais ainda do que ver o nosso querido Ronaldo envolvido numa história sórdida - e agora estou a falar muito a sério: o modo como se tem atacado esta mulher para defender o Ronaldo representa um ataque generalizado às mulheres vítimas de violência sexual (são umas levianas e calculistas), aos homens (coitadinhos, não passam de uns brutos dominados pela testosterona) e àquilo que se pensava ser a sociedade portuguesa no século XXI (imbuída de valores democráticos, moderna, igualitária).

04 outubro 2018

"honra"



A palavra de ontem na Enciclopédia Ilustrada era "honra".
Copio para aqui a participação do Lutz Brückelmann - lembram-se? O autor do saudoso blogue "Quase em Português".
(Já uma vez fiz uma greve de fome para conseguir que o Lutz reabrisse o blogue. Ao ler textos como este penso que valia bem a pena fazer segunda tentativa.) (E fazia, se soubesse que o Lutz cederia ainda antes da hora do jantar.)


"Quanto mais alguém me fala de #honra, mais de pé atrás fico. Basta olhar ao que a Google devolve em imagens para a palava „Ehre“, honra em alemão, para perceber porquê.

Honra é um conceito atávico, proveniente e indissociável de formas de convívio humano incompatíveis com a liberdade. É um conceito tribal, anti-racional e anti-democrático. Não é por acaso que ela é o valor supremo dos Nazis, das organizações de crime, como a máfia, todas as máfias. E, reconhece-se, também na instituição militar. Tem o seu lugar natural onde imperam a violência e o poder autoritário, onde partilha este com o valor da lealdade.

É um logro achar que honra é uma qualidade individual. É uma exigência externa interiorizada. Isto nota-se na honra familiar. A honra da mulher, por exemplo, reside na sua castidade que uma vez perdida, é irrecuperável. A sua castidade não pertence a ela, ela não é sua dona e por consequência não é dona do seu corpo, é propriedade da família. E „protegida“, controlada pelos homens que nela mandam. Por isso, os familiares masculinos, os guardiões - de facto proprietários - no extremo, podem restabelecer a honra da família matando a mulher.

Demorei algum tempo até compreender e aceitar que honra é mesmo algo universalmente mau. Pois tal como quase todos nós fui socializado na noção de honra como um valor positivo, mais, dos mais importantes. Tantas histórias e filmes com os seus heróis, antigos e novos, apresentam-nos este valor como indispensavel, ingrediente natural para que qualquer protagonista nos possa merecer respeito.
E muitos valores positivos parecem estar ligados ou mesmo a decorrer dela: a coragem face a adversidade, a capacidade de sacrifício, a auto-disciplina, a não cedência a tentações, a generosidade...
Mas estes valores na verdade não dependem dela e não lhe devem nada. A honra, segundo Schopenhauer, "objetivamente, a opinião dos outros acerca do nosso valor, e, subjetivamente, o nosso medo dessa opinião", nunca descola verdadeiramente da mera reputação. (Daí, honra pode ser preservada, desde que se consegue esconder a violação do código.)

Uma pessoa autónoma, livre, não precisa de honra. Tem uma consciência. Uma honra que se emancipou da expetativa exterior. E os valores acima referidos no contexto da honra, vivem, tal como a dignidade, o auto-respeito, a responsabilidade e a cidadania, todos e muito melhor."


02 outubro 2018

passarinhos

Os pássaros nascem na ponta das árvores, dizia Ruy Belo, mas no meu jardim nascem dentro das flores. Basta largar os olhos nos girassóis ou nas roseiras e lá aparecem eles de restolhada. Volteiam alvoroçados, e depois desaparecem por trás da sebe e mergulham no outono de um jardim vizinho. 

Ontem fui à cozinha do meu airbnb conhecer as novas hóspedes, que chegaram durante a noite, e dar-lhes algo que me tinham pedido. Bati à porta, ouvi uma enorme agitação, disseram-me para entrar. Eram três: pequeninas, franzinas, delicadas. Volteavam alvoroçadas na cozinha, desfaziam-se em sorrisos e "hello" e "thank you".

Esta semana tenho passarinhos no meu airbnb.