25 outubro 2018

das palavras às bombas



Traduzo partes de um comentário de (NY), no Spiegel online hoje:

A América dele

As embalagens com bombas que foram enviadas aos mais importantes Democratas dos EUA são o resultado de um clima de ódio que é criado pelo homem no topo: Donald Trump.

"Era apenas uma questão de tempo", comentou James Clapper, antigo chefe dos serviços secretos americanos, a propósito das bombas ontem enviadas pelo correio. O que é que os destinatários têm em comum? São os alvos de ataque favoritos de Donald Trump no Twitter.

É este o país de Trump: os Estados "Unidos" da América estão divididos pelo ódio, pela fúria e pela violência que está a passar do plano verbal para o físico. 

É este o país de Trump.
Trump começou a sua campanha eleitoral com tiradas contra os mexicanos e os latinos.
- Oh, isto é só falar por falar.
Transformou o resto da sua campanha eleitoral numa perseguição de ódio a Hillary Clinton: "prendam-na!"
- Oh, isto é só o teatro da política.
Quando em Charlottesville mataram uma contra manifestante que se opunha a uma marcha de extrema-direita, não soube condenar a violência neonazi.
- Oh, o problema é que ele não se consegue expressar muito bem.
Usa o registo brutal da cena de wrestling, "quem me dera dar-lhe um murro", "batam a sério, ok? Eu pago-vos o advogado".
Oh, é só a brincar.
É esta a América do Trump, todos os dias, até hoje. O seu maior inimigo são os meios de comunicação social, "inimigos do Estado", "traidores do povo", "gente muito muito má".
- Oh, isso não passa de esperteza retórica.

Mas é muito mais que retórica. O que Trump diz é aceite sem discutir pelos seus seguidores, que acreditam nas suas mentiras, se riem daqueles que ele humilha e odeiam quem ele odeia.

Não é apenas a linguagem violenta. É o pensamento violento que se espalha na sociedade como um gás imperceptível. Trump promove a violência contra os seus inimigos. Numa sessão pública em Montana elogiou o republicano Greg Gianforte por ter agredido um jornalista [vejam o vídeo, é muito instrutivo: https://youtu.be/aovYhuOodyw]; pouco depois, na mesma sessão, um apoiante de Trump virava-se para Jim Acosta, repórter da CNN, e fazia-lhe com a mão o gesto de uma faca a passar pela garganta. Isto aconteceu na semana passada.

Era uma questão de tempo.

E há muito que não é apenas Trump. Muitos outros sentem-se encorajados a seguir-lhe o exemplo.
Trump, o autocrata in spe, mantém em clima explosivo as massas que o adoram: diz-lhes que só eles são bons, e que todos os outros são maus. E quem é mau tem de ser eliminado, tanto politica como - piscadela de olho - fisicamente.

Os atentados políticos não nascem do nada. Surgem num clima de ódio e divisão da sociedade, e vão ganhando cada vez mais força à medida que as pessoas se habituam. Basta folhear os livros de História dos EUA: John F. Kennedy. Robert Kennedy. Martin Luther King.

Os agressores não foram nunca os únicos culpados.

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