31 março 2010

detalhando: (segundo dia)

Para visitar os museus do Vaticano pode-se comprar o bilhete na internet, mas eu confiei na minha boa estrela. E fiquei sabendo que a minha boa estrela mete folga nas manhãs de sábado. Mas deixa algum substituto a prestar serviços mínimos: na fila, de uns bons trezentos metros (não percebo nada de distâncias, estava capaz de dizer que eram dois quilómetros, mas ficamos assim), só precisei de uma hora para chegar à bilheteira. A ver se contam o truque ao meu banco, que às vezes espero uma boa meia hora para que aviem três ou quatro pessoas à minha frente (talvez esteja a exagerar um pouco).

Ao longo do dia dei-me conta que tenho de comprar um guia novo de Roma. É que nestes museus passam a vida a mudar tudo, e uma pessoa não se entende. Foi um sarilho para encontrar a colecção egípcia e o museu etrusco. A Capela Sistina, quase nem dava com ela: da última vez que a vira, estava ao lado dos frescos de Rafael; agora, puseram-na ao fundo do Museu de Arte Sacra Contemporânea. E não sei para onde levaram a Biblioteca, fartei-me de procurar os seus conteúdos. Venha um novo guia!

Comprado o bilhete, fui dizer "olá" ao Laocoon errado, arrumado a um canto da entrada. É o que ainda tem o braço direito levantado, e luta destemidamente contra as serpentes. Quando a escultura foi encontrada, faltava um braço ao conjunto, que foi "reinventado" nessa posição heróica. Mais tarde descobriram o braço em falta, e encheram-se de vergonha: está torcido para trás. No momento da escultura, Laocoon já perdeu.

Depois segui para a cave das carruagens (prioridades é comigo). Encontrei uma riquíssima carruagem que devia ser puxada por cavalos em regime de autogestão, porque não tinha lugar para o cocheiro. E tinha alguns papamobil, que por sinal são muito feios. Também gostei de ver o Mercedes com um grande trono no sítio do banco traseiro.

Aproveitando não ter os filhos comigo, segui para a Pinacoteca. Só fotografei, já à saída desse museu, este esboço de anjo de Bernini, onde até bocados de palha se vêem.



Gosto da promessa de beleza que existe nesta imperfeição. Estão outra vez a falar de nós: faz-se caminho ao andar.

Respirei fundo, e juntei-me ao bando de turistas que atravessava o pátio em direcção aos highlights dos museus. No Pátio Octogonal encontrei o Laocoon vencido, o Apolo de Belvedere que já deixara Goethe fascinado (e lembrei-me das peças que ele mandou copiar para ter consigo na casa de Weimar, que nós víramos uma semana antes na tal cimeira de blogues - como tudo se aproxima e encaixa), e também o célebre Perseu (mas não ponho aqui a fotografia porque ele estava como veio ao mundo, e eu não quero envergonhar ninguém).

Embora o Torso de Belvedere estivesse no meio de uma sala, era impossível apreciá-lo: contornei-o, envolvida numa multidão que me impedia de o ver de perto. Mais à frente, a Sala Redonda, que copia a arquitectura do Panteão. Belíssima. A multidão seguiu em velocidade moderada e constante pela direita, e eu refugiei-me num beco sem saída, ao lado esquerdo, a saborear: a monumental taça em pórfiro no meio da sala, talvez proveniente da Domus Aurea; os bustos ao lado da estátua dourada de Hércules, contando a história de amor (pedofilia?) de Adriano e Antinous; o chão de antiquíssimo mosaico (e ele não se estraga, se é diariamente pisado por dezenas de milhares de pessoas?).

Reentrei na multidão, e deixei-me levar.
Algumas salas depois, quase a chegar a umas escadas sem regresso, descobri uma discreta entrada para o museu egípcio, e de novo me escapei da onda para chegar a um oásis de sossego. Tinha vários objectos tumulares, entre os quais as caixas onde guardavam os orgãos retirados ao cadáver. Na exposição que vimos em San Francisco, no Verão passado, revelavam que todos os órgãos eram guardados, excepto o cérebro - o que nos fez rir. Neste museu, afirmam que todos os órgãos, sem excepção, eram guardados. Em que ficamos? Prefiro a versão de San Francisco, dá muito mais pano para mangas.
Havia uma múmia desembrulhada. Uma mulher, morta há mais de 3.000 anos. Deitada dentro da caixa, junto à respectiva tampa ricamente decorada: pele muito castanha, caracóis colados à pele da cabeça, as mãos muito esguias esticadas lado a lado, panos no lugar dos olhos, e um ar desolado. Encheu-me de tristeza e respeito. Tinha há muito tempo a curiosidade de ver uma destas múmias, mas o que encontrei foi uma mulher despojada e à mercê do nosso voyeurismo.



Contemplei-a quase com vergonha, como se me fosse alguma coisa a mim, como se tivesse de a proteger. Mas não consegui evitar um sorriso ao ver que os pés dela estavam mais ou menos no mesmo estado que os meus...



E agora olhem para a imagem que se segue, e digam lá se isto não é uma grande malcriadice? Aqueles egípcios, com o seu ar tão aprumadinho, olhando para a frente enquanto viravam a cara para o lado - tudo muito bem, segundo os desígnios dos Deuses, e tal - e afinal... grandes maganões.



Dos egípcios para os etruscos. Mais um museu praticamente vazio (provavelmente sinal de que a minha boa estrela tinha regressado da folga).
O guia áudio explicava que esse povo respeitava muito as mulheres, e que por causa disso até arranjaram sarilhos com os romanos. Mas eu lembrei-me do que vinha no meu guia turístico desactualizado (Conselho às raparigas que viajam sozinhas: se algum rapaz vos começar a atazanar, o melhor é pedir ajuda a una mamma italiana. Se não houver nenhuma por perto, então a um polícia. Mas a autoridade da mamma é de longe superior à do polícia.) e concluí que algo da cultura etrusca terá transvasado para as culturas vizinhas e sobrepostas. Ia ouvindo enquanto avançava pelas salas com peças de ourivesaria muito belas, até que cheguei a uma galeria onde havia uma escada em caracol para três salas no piso superior. Ainda hesitei, pensando nos pés da múmia iguais aos meus, mas a curiosidade (e o facto de não ter filhos comigo) foi mais forte. Subi - e eis que na milésima ducentésima quinquagésima segunda sala, mais capela menos capela, daquele conjunto de museus, encontrei promessas em terracota semelhantes às que se vêem em qualquer capela portuguesa de santo milagroso. Não me digam que os etruscos também vieram inspirar os lusitanos? Pois haviam de ter deixado entre nós mais respeitinho pela mamma, dava-me jeito agora que sou mãe de adolescentes.

Também tinha um armário cheio de pernas e pés, mas estava numa secção de difícil acesso. Contudo, penso que esta fotografia basta para terem uma ideia das doenças que afligiam os etruscos.






Ao sair desse museu, dei-me conta que os guardas estavam a fechar o acesso à escada em caracol. Pausa para o almoço? O problema, com esta flexibilidade, é que não há guia turístico que se consiga manter actualizado mais que um par de horas!

À entrada da galeria dos mapas, um turista apontou a máquina para o ar e disparou. Às cegas. Olhei para as pinturas no tecto: tinha fotografado as cenas de pernas para o ar. Mas como em casa também não vai ver o que fez, não tem importância.

Continuei para os aposentos do Papa Júlio II, onde estão os frescos de Rafael, especialmente aquele tornado famoso pelo Bios Politikos, que se senta neste banquinho, junto às pinturas, para escrever os seus posts (tenho a certeza).


De Rafael para Arte Sacra Moderna, no apartamento do Bórgia (não contem a ninguém). O museu surgiu por iniciativa do Papa Paulo VI, ao dar-se conta que a Religião e a Arte andavam desinteressadas uma da outra. Encontram-se lá muitos pintores famosos, algumas boas esculturas, e este quadro de Alice Lok Cahana, "No Names, s.d.", oferecida pela artista a Bento XVI, e que me foi um murro no estômago.
(para ver melhor, carregar na fotografia)


E depois veio a Capela Sistina, cheia de turistas, para variar. Mas sobre ela não vou dizer nada porque já toda a gente sabe tudo.
Seguidamente, tentei encontrar as bibliotecas, mas só dei com as salas. Lindas, lindas. Essas salas mereciam bem um dia, para saborear cada uma delas e para identificar as cenas pintadas nas paredes. Como esta, contando os esforços de mover um enorme obelisco umas centenas de metros, porque o queriam exibir na praça da catedral de São Pedro.
Um obelisco que, diga-se de passagem, fora trazido do Egipto sem dificuldades de maior 1.500 anos antes...




Para mim, uma novidade: há lojas de museu nas próprias galerias. A gente tem de desviar-se dos guarda-chuvas todos pinocas e do expositor de postais para poder ver um detalhe de um fresco na parede, um canto de um quadro famoso...
Deve haver pelo menos umas dez lojas assim.
O que - ó pra mim a defender a Santa Madre de unhas e dentes - se compreende facilmente: é um serviço ao turista. Que no fim desta maratona cultural deve estar demasiado estafado para entrar numa loja onde se encontram os outros 30.000 visitantes do dia (talvez mais, talvez menos).

Saí dos museus com pena. Com a sensação que não tinha conseguido ver, realmente ver, nem um centésimo do que eles oferecem. Lá terei de regressar a Roma...

Estava na hora de ir ter com o Joachim às escadas da Praça de Espanha. Encontrei-o junto à igreja dos franceses, e fomos descansar um pouco no café instalado num terraço alto, sobre o espectáculo de vida que acontece naquelas escadas. Mas não vi nenhuma mamma etrusca a defender turistas loiras das investidas dos rapazes italianos. Depois demos uma volta para ver a gracinha do Palazzo Zuccari na Via Gregoriana, e mais um episódio do conflito Bernini/Borromini: o Palazzo della Congregazione di Propaganda Fide, com uma fachada feita por um, e outra, completamente diferente, feita pelo outro.
Como é que se diz? Estes romanos são loucos.

Seguiu-se um belíssimo jantar na casa da Norma, com um spaghetti artesanal feito só para connaisseurs e vendido em diminutas quantidades (e como se nota a diferença!). Também ficamos a saber quanto custam os sapatinhos Louboutin, mas nem às paredes confesso. E parece que são muito desconfortáveis.
Ora bem: se eu gastasse aquele dinheiro com sapatos, tinham de ser não apenas bonitos, como incrivelmente resistentes. E tinham de dar-me a sensação de andar descalça sobre nuvens.
Mas desconfio que nasci mulher com defeito de fabrico: há coisas que não entendo.

29 março 2010

detalhando: (primeiro dia)

Tencionava ir dar uma volta de bicicleta por Roma, mas os italianos da minha mesa do pequeno-almoço desataram todos a dizer "it's crâisi, it's crâisi!", e que Roma tem muitas colinas, e que os condutores de carro são loucos (por acaso, em termos de loucura os motociclistas ultrapassam os automobilistas largamente pela direita, e pelo meio, e por cima, e por onde calhar - esses sim, são mesmo crâisi, crâisi).

De modo que optei pelo plano B: um bilhete de autocarro turístico para entrar e sair onde apetecer.
Aviso já: desarrisquem. Não vale nada. Aquele percurso de Roma pode ser perfeitamente palmilhado a pé. Além disso, o guia áudio nem sempre correspondia ao que estávamos a ver, e invariavelmente ainda estava a falar quando já tínhamos de sair. Como se não fosse suficientemente mau, dizia-me que se pode ver isto e aquilo nesta e naquela igreja, mas não avisa que as igrejas têm horários esquisitíssimos. Ao fim da segunda igreja fechada, zanguei-me com o plano B. E foi mais ou menos no momento em que o Joachim me telefonou a dizer que o congresso tinha acabado, e estava livre para vir ter comigo. De modo que visitámos a pé e com toda a calma a maior parte dos lugares aonde o autocarro me teria levado.

Mas isso foi da parte da tarde. Antes, muito antes, logo ao princípio da manhã, andei por Termini (estação de arquitectura fascinante!) à procura do malfadado autocarro. Informações fiáveis? Ah, isso é que era bom. Mais parecia o "Domínio dos Deuses" do Astérix. Não é aqui, é no segundo andar. Aqui? Que ideia! Linha 1. Nã, nós só damos informações sobre os comboios - vá à linha 31. Etc.
O autocarro ficava afinal fora da estação, é já ali à frente - disseram-me. É já ali, meio quilómetro mais à frente...
E não tinham o percurso combinado com barco.

Paciência. Entrei, e saí quase a seguir, no Coliseu. Queria tentar encontrar a Domus Aurea. Da última vez que estivemos em Roma, andámos, andámos, andámos, e em vez da Domus Aurea fomos ter às termas de Caracala; desta vez, saí no Coliseu e andei, andei, andei, e finalmente encontrei a entrada - fechada para obras!

Paciência. O Moisés de Miguel Ângelo fica mesmo ao lado, lá subi a colina. A igreja (San Pietro in Vincoli) estava... - um doce a quem adivinhar - ...fechada.
Continuei a subir, passei uma rua pelas traseiras de palácios e parques, onde se viam muitos homens novos, mas nem mulheres nem turistas. Comecei a achar o ambiente estranho, mas já era demasiado tarde para esconder a máquina fotográfica e para fazer de conta que sou una mamma italiana. Felizmente não aconteceu nada. Das duas, uma: ou os italianos não são como a fama que têm, ou Deus existe. Acho a segunda hipótese mais provável.

Apanhei de novo o autocarro, saí perto da ilha Tiberina.
Atravessar uma ponte para chegar à ilha é um acto de coragem. O Tibre, belíssimo no seu verde leitoso, espalhando à sua volta uma suave luz de alabastro, não é o Tibre. Só pode ser o outro, o Lete, mítico rio do esquecimento.
E foi assim que me esqueci de todos os planos que tinha para o dia, e fui ficando por ali, entre Trastevere e a antiga Judiaria, até que o telefonema do Joachim me trouxe de volta à realidade.



Encontrámo-nos no Vaticano, mas não entrámos na basílica de São Pedro. Já sabíamos o que nos esperava: hordas de turistas a fotografar em vez de olhar, e a maior concentração geográfica do pecado da Igreja - as amantes de um Papa feitas virtude de mármore no túmulo deste, "o meu túmulo é mais majestoso que o teu", o bronze dos romanos arrancado ao Panteão e derretido para fazer as colunas do baldaquim do altar papal...
Além disso, o sol chamava por nós. Depois do longo Inverno de Berlim, parecia um milagre.






Numa esquina de Campo di Fiori fomos à padaria maravilhosa onde o Joachim costumava ser cliente quando morava junto àquela praça, e comprámos uma tarte pequena, feita de arroz doce. Uma delícia.
No meio da praça, o Giordano Bruno olhava desconsolado para a lixeira que o mercado do dia lá deixara.


Seguimos para a praça Navona, cheia de músicos e vendedores de castanhas e (adivinharam!) demasiados turistas. Deliciamo-nos mais uma vez com a belíssima forma da praça, aproveitando o traço de um antigo circo romano. Fomos verificar sob as casas da praça Tor di Sanguigna se ainda lá estavam os restos das tribunas do circo - ainda lá estão. E rimo-nos de novo com as figuras do fontanário no centro da praça, sinais da eterna disputa entre os egos de Bernini e de Borromini. Mas não entrámos na igreja de Santa Agnes (ironicamente, a igreja dedicada à padroeira da castidade foi construída no espaço anteriormente ocupado por um bordel), com um projecto de Borromini que recuperava em parte o sonho de Miguel Ângelo para a basílica de São Pedro. Da próxima vez, entraremos. Se não estiver fechada.

Em frente ao Panteão havia uma fila enorme de turistas que queriam entrar. Optámos por ir tomar um granita di caffe con panna no Tazza d'Oro, numa ruela ali perto. Depois passeámos pela Via dei Cestari para mostrar ao Joachim as lojas de prêt-a-porter eclesial, mas infelizmente tinham tirado da montra a lingerie para freiras. E eu a pensar que em Roma tudo é eterno...

Logo a seguir fica a Igreja de São Luís dos Franceses, com o amigo Caravaggio. Para iluminar os seus três quadros num altar lateral, é preciso deitar uma moedinha na máquina automática. Quando as luzes se apagam, é muito engraçado observar na semi-penumbra as reacções dos turistas: quem será o papalvo que vai pagar para todos?
Dos três, o meu preferido é a "Vocação de São Mateus": a gestão da luz, o dedo de Cristo sob a janela que desenha a cruz, cortando o espaço vazio entre os que acabaram de entrar e os sentados à mesa. E tudo tem a ver connosco e nos interpela: os ajudantes do cobrador de impostos continuam a contar o dinheirinho, alheios ao momento; a roupa rica que usam, típica da época em que o quadro foi feito, enquanto Jesus e Pedro estão descalços e com os eternos mantos e túnicas; o gesto na mão de Mateus, "quem, eu?!", que bem podia ser o meu, bem podia ser o de Moisés ("mas se eu até sou gago...") .

Regressámos ao hotel passando pela Fontana di Trevi, mas devem tê-la levado para outro lado, porque na praça habitual só conseguimos ver turistas.

E depois foi o jantar de gala do congresso, numa sala com terraço e jardim, e uma vista magnífica sobre Roma, e com uma banda musical que cedeu o lugar aos participantes: ora o professor doutor Fulano ("com mais de duzentas publicações", dizia-me o Joachim) a tocar furiosamente bateria, ora o director de um hospital de Roma a cantar uma canção composta por ele e pelo seu amigo Lennon...
Gostei de ver que as sumidades também têm uma vida interessante para além das publicações e dos jogos de poder, e gostei especialmente do à-vontade com que se expunham.

O Joachim chamou-me a atenção para os sapatos de uma amiga, que tinham a sola vermelha. "Sola vermelha? São Louboutin!", disse eu logo, percebendo finalmente para que me serve perder tempo nos blogues das fúteis. Dias mais tarde, em casa, contámos à Christina que a sua idolatrada Norma tinha sapatos com sola vermelha, e ela exclamou: "Louboutin?!" - mas como é que ela sabe, se não lê blogues das fúteis?

***

Para o caso de alguém estar a ler isto com caderninho de notas "o que fazer em Roma", aqui vai uma descrição mais adequada: gelados em Roma.

resumindo:

Roma é uma cidade fantástica, mas os turistas estragam um bocado o ambiente.

o problema de regressar aos sítios onde já se foi feliz...

...é que uma pessoa tende a repetir percursos e gestos. A mesma gelataria, a mesma praça, a mesma igreja, a mesma granita di caffé con panna no Tazza d'Oro perto do Panteão.
E que bem me soube!

Roma com outros pés

A vantagem de andar sem os filhos em Roma é que pude ir até onde os pés me levaram - e mais longe ainda.
O que significa que tenho os pés num estado lastimoso.

Para piorar, achei que em Roma não podia andar com os sapatos americanos super-confortáveis que costumo usar para estas maratonas da cultura. (Maldita mania da integração!)
Para complicar ainda mais, achei que Roma ia estar mais ou menos tão fria como Berlim. Botas de Inverno alemão numa Roma primaveril? (Maldito etnocentrismo de alemão!)
Como se não fosse já suficientemente grave: então eu não sei muito bem que o fato de turista dos alemães passa por sandálias e meias? Se ao menos os tivesse copiado nisso!
Uma pessoa tenta agradar a gregos e troianos, e só faz asneiras.

O jj.amarante já tinha desconfiado da tragédia quando me perguntou, num post anterior, se em Roma ia ser romana, ou "fiel a si própria e a uma busca dinâmica e em processo dialético da sua identidade", e agora respondo: infelizmente, ambos os dois. Tanto na parte em que resolvi ser romana como naquela em que me mantive fiel a mim própria (enfim, fiel aos hábitos de usar o calçado conforme as estações), foi um fiasco completo.

Agora com licencinha: vou ali pôr os pés de molho, e já cá volto.

(A cimeira de blogues riu-se muito com esta vingança dos deuses. Sim, porque mal me viram pelas costas, eles, abrandaram logo o ritmo. No seu último dia em Berlim, ontem, foram apenas passear até ao lago ao pé da nossa casa. Nem três ou quatro museus, nem nada...)

25 março 2010

Roma com outros olhos

Em 2003 o Joachim trabalhou uns meses em Roma, e os miúdos e eu fomos passar uma temporada com ele. A Christina tinha oito anos, e olhava as romanas de alto a baixo, impressionada com o estilo. O Matthias tinha seis, e passeava entre as ruínas do fórum romano com o seu livrinho de montagens "antes e depois", tentando recuperar das pedras o esplendor do passado.

Brincámos às escondidas em Ostia e nas Termas de Caracala.
Rimo-nos com o elefante de Bernini a irritar os dominicanos, e com o prêt-a-porter na Via de Cestari, onde se vende lingerie para freiras, lado a lado com paramentos para padres.
Conseguimos encontrar San Luigi dei Francesi aberta, e entrámos para visitar o Caravaggio.
Nas escadas da igreja Sant'Ignazio, mais uma vez perante portas fechadas, a Christina suspirou "esta cidade tem demasiadas igrejas...", mas logo se animou quando reparou que as fachadas das casas em frente pareciam cómodas barrocas. E quando finalmente conseguimos entrar, rimos a bom rir com o efeito inverso do trompe l'oeil: em vez de ficarmos no ponto onde o efeito das pinturas na abóbada é perfeito, fomos para o outro lado do altar, e observámos divertidos aquela cúpula que parecia horrivelmente inclinada para a frente. E depois comemos gelados no Giolitti.
Fomos à procura de mais trompe l'oeil na Igreja Il Gesú, e assustámo-nos com a escultura "o triunfo da Fé sobre a heresia".
Nos museus do Vaticano, assustámo-nos também com o castigo de Laocoonte que, para mais, tinha razão! Passeámos pela galeria dos mapas em busca das nossas próprias viagens; procurámos a saia da última índia de uma tribo que vivia numa ilha ao largo da Califórnia, e que a Christina conhecia de um livro que lera; rimos de novo na Capela Sistina por causa do pudor que forçou Miguel Ângelo a tapar certas partes, e da pequena vingança deste.
Na Basílica de San Clemente os miúdos pediram para ficar no pátio, porque estavam cansados e não se interessavam pelo fenómeno de três templos sobrepostos. No regresso, no metro, ouvimo-los comentar "damos os quarters ao pai, e ficamos com as outras" - que vergonha! tinham estado a pescar moedas que os turistas atiram para o fontanário do pátio...
Deixaram-nos entrar de graça no Palazzo Spada só para eu mostrar aos miúdos o corredor com uma bela ilusão de óptica, de Borromini, e disseram-nos que podíamos esperar a hora de abertura (daí a dez minutos) na galeria do palácio. Ora, a galeria tem quatro salas e 187 quadros, pelo que mal se via a parede. Perguntei a um dos guardas (e eis como me vou desgraçar outra vez com esta confissão!) quais eram os high-lights, enquanto a Christina começava a olhar extremamente concentrada para todos os lados. Pensei, cheia de orgulho, que afinal ela não se interessava apenas por moda, e como era excepcional ver uma criança de oito anos tão interessada por arte, mas daí a nada ela disse "está ali, mãe, vês? a câmara que nos está a filmar está ali!"
Na Catedral de São Pedro rimos de novo, andando em volta do baldaquino de Bernini à procura das cenas do parto da sobrinha do Papa Urbano VIII.
No Palácio Borghese apreciámos a beleza de Dafne e Apolo, e a Christina mostrou-me as pinturas do tecto dessa sala e fez-me ver como era bonito o Cupido sobre o par. Na sala seguinte sorrimos com a barriguinha da irmã de Napoleão, e com a sua pouca-vergonha: quando lhe perguntaram se não tivera problemas em posar nua, respondeu que não, que a sala estava bem aquecida.

Mas a imagem que recordo com mais ternura é esta: os meus filhos, cansadíssimos ao fim de mais um dia de Roma cultural, sentaram-se pacatamente no vão de uma janela da Pinacoteca da Villa Borghese, a jogar às cartas sob o olhar embevecido de um dos guardas. Enquanto eu ia vendo os quadros.

Daqui a uma hora saio para Roma. Eles ficam em casa, a tomar conta da cimeira de blogues (ou vice-versa). E eu sinto uma espécie de estranheza ao pensar que vou ver Roma sem ser pelos olhos deles, e sem ter de inventar histórias de suspense e riso para os cativar.

cimeira de blogues em autogestão

Levei a cimeira de blogues a Wannsee, para lhes mostrar a casa do Max Liebermann e a da Conferência de Wannsee. Deixei-os a almoçar no terraço de uma tasquinha junto ao lago e disse-lhes que, já agora, valia a pena irem a Potsdam mesmo ali ao lado.
Regressei a casa, convencida que quando chegasse já os encontraria a descansar no sofá.

Bem me enganei: chegaram a meio da noite, cansadíssimos e com bolhas nos pés. Mas contentes, pareceu-me. Tinham palmilhado Potsdam de lés-a-lés: o bairro holandês, o bairro russo, o parque dos palácios.

Disseram-me que, na minha ausência, tinham feito turnos para me substituir: ora um ora outro ia um pouco mais à frente, e volta e meia virava-se para trás e dizia: mais depressa! mais depressa! se fosse para descansar ficávamos em casa!

***

Não tenho tempo para procurar fotografias que já fiz nestes sítios, por isso vou usar algumas emprestadas:

Casas do bairro holandês, em tudo iguais às de Amesterdão, excepto na escala...
(foto tirada daqui)




Uma casa do bairro russo, presente do czar Alexandre ao seu amigo Frederico III - um coro russo, e as respectivas casas.
(foto tirada daqui):


E o parque dos palácios:

O Palácio Novo, vista lateral, vendo-se ao fundo um dos "palácios da criadagem" - casas de imponente fachada para esconder os campos que se estendiam em frente à residência imperial, que aquilo foi antes da PAC e da ruralidade como valor a preservar.
(foto - num site cheio de belas fotos de Berlim e Potsdam)



O pavilhão chinês, construído para embelezar o jardim de Frederico II, o Grande, com estátuas muito engraçadas: como é que os europeus do séc.XVIII imaginavam os chineses?



E o famoso Sanssouci (sem visita ao Caravaggio, porque a Bildgalerie - a pinacoteca do imperador - fecha no Inverno):


As duas últimas imagens foram tiradas deste site, que tem muitas outras fotos excelentes de Potsdam.

24 março 2010

cimeira de blogues em Weimar

No sábado passado levei a cimeira de blogues a Weimar.
Quem me conhece e ler isto, já deve estar a sentir bolhas psicológicas nos pés.
E quem não me conhece, que me compre:

allegro agitato

Num dia só, Berlim-Weimar com a tradicional aposta "quantos Antonov estão em Leipzig hoje?", passeio em passo de corrida por Weimar, a Eva de Rodin que se pode tocar, as pinturas murais dos estudantes da Bauhaus na escadaria da universidade (e que felizmente só foram cobertas com tinta, em vez de terem sido escavacadas pelas "belas" ideologias que por ali passaram), vá!, mais depressa!, o mausoléu da família ducal com a Maria Pawlowna ao lado do seu marido mas noutra terra e noutro templo, e mais o Goethe e mais o pseudo-Schiller, as casas dos escritores (a sorte de um e o azar do outro), a lindíssima sucessão de cores na casa de Goethe e a simplicidade da sua biblioteca apinhada de livros, almoço? uma salsicha grelhada que o tempo não dá para mais, o museu Bauhaus, comam depressa o gelado que o filme sobre o movimento Bauhaus está quase a começar!, o teatro onde foi lançada a República de Weimar, a escola Jenaplan, a Câmara Municipal e o seu carrilhão em cerâmica de Meissen, as influências italianas e o chato do Herder que não gostava da Itália, a Bastilha onde Bach esteve preso, o palácio novo com os seus belíssimos Cranach e peças de arte-sacra medieval que Goethe andou a coleccionar pelas aldeias da Turíngia (e mais a escadaria nobre de onde se avista a casa mais bonita de Weimar, e não digo a quem pertence, hehehe), a biblioteca Anna-Amalia, as invasões de Napoleão e o casamento apressado de Goethe, os bombardeamentos de puro terrorismo cultural no fim da guerra, o bairro Bauhaus na colina do outro lado do rio, o parque desenhado por Goethe e o abcesso do cemitério dos soldados russos que lá foi posto, a sala de aulas de Itten no parque, ao longe a casa do Paul Klee, mais perto a residência de Verão em forma de templo romano (mais uma obra do Goethe, aquele rapaz devia ser hiperactivo), o atelier do Feininger, andem! andem!, não adormeçam!, se era para descansar ficassem em casa!, a loja de produtos biológicos com o melhor leite que se vende na Alemanha, a casa de Franz Liszt, o hotel do Hitler.


allegro moderato

Entrámos na igreja do Herder, esta,


para ver o altar de Lucas Cranach d.ä., este,


onde os detentores do poder temporal aparecem quase tão grandes como Cristo na cruz.
Belos tempos.

Estavam a ensaiar uma cantata de Bach para o concerto do dia seguinte. Com tenor e flauta transversal.
Sentamo-nos nos bancos, estes,



e ficamos a ouvir um bocadinho.

Quatro filhos de Bach foram baptizados naquela mesma igreja. O orgão que lá está já não é o original, porque o tempo também por lá tem passado.
As bombas que naquele fatídico nove de Fevereiro de 1945 foram destinadas ao edifício acertaram-lhe em cheio. Quatro anos depois, Thomas Mann foi à cidade receber um prémio literário, e ofereceu esse dinheiro para a recuperação da igreja. Também aproveitou para perguntar o que se estava a passar "lá em cima, em Ettersberg", a floresta favorita de Goethe, onde os nazis instalaram Buchenwald e a seguir os russos o seu Campo Especial nº2. O campo especial foi imediatamente fechado, mas só depois da queda do muro foi possível responder abertamente à questão colocada pelo escritor quarenta anos antes.


largo

E Buchenwald - infelizmente em horário de inverno, com o portão aberto para o terreiro dos horrores, mas com os edifícios fechados.


lento moderato

Depois passeio e jantar em Erfurt, já em ritmo um pouco menos acelerado. Passear ao longo de ruas com casas do tempo de descoberta do Brasil. A igreja onde os pais de Bach casaram. O mosteiro onde Martinho Lutero foi monge. A ponte com casas mais longa de Europa, a bela rua medieval que se fez dentro dela. Discussão acesa: devíamos mudar para Weimar ou para Erfurt? Weimar tem uns palácios engraçados, mas aquelas casinhas de Erfurt com o terraço em cima da água...


andantino

Erfurt-Berlim. Cansados. Ambiente de regresso da romaria.
Esqueci-me de contar os Antonov em Leipzig.


adagio

Já contei que anda connosco um bebé de dez meses? Aposto que se não dissesse, não reparavam.
(Quem não me conhecer...)
Pois é: a bebé não gostou da sopa, e estava a morrer de fome. Perguntámos no restaurante se teriam uma peça de fruta, mas só tinham laranjas. E então a empregada disse "mas eu tenho uma banana que trouxe de casa, na minha carteira..." - e deu a banana à bebé.
Nunca mais ninguém se atreva a dizer à minha frente que os alemães são "todos" uns antipáticos.

(fotos tiradas daqui)

22 março 2010

change we can


A América está menos livre: a partir de hoje, já não será tão fácil morrer na valeta, sob o olhar indiferente de gente boa e simples que resolve os golpes do destino com um mero "se isso te aconteceu, alguma terás feito".
(Não é só Saramago que não percebeu o Livro de Job, na América também há alguns bons cristãos que)

Queria dar vivas pelos EUA e pelo Obama (que estava em risco de entrar para a História como o maior fala-barato de todos os presidentes), queria manifestar estranheza por só agora os EUA escolherem esta via que é tão óbvia para os europeus, queria sugerir que alguns pontos desta reforma fossem copiados pela Europa, queria exprimir preocupação pelos sinais que deste lado do Atlântico surgem no sentido de reduzir a responsabilidade do Estado social. Mas neste momento histórico só me lembro daquele pai de família em quem se descobriu um cancro, e que se deixou morrer (era diabético, e simplesmente recusou-se a tomar os medicamentos) para não deixar a família arruinada.

Ao pequeno-almoço, os meus filhos começaram a cantar isto:

17 março 2010

pedofilia e celibato

O Miguel Silva já disse tudo numa frase só, mas eu gosto de chover no molhado. E portantos...

A Igreja Católica está outra vez na berlinda. O celibato, esse maldito celibato, pai de todos os males. Eu olho para o meu passado e para as histórias que as minhas amigas contavam, e: nunca eram padres. Eram homens casados, alguns deles aproveitando-se da proximidade das amiguinhas das suas próprias filhas. Os jornais também estão cheios de casos de heterossexuais casados: como aquele, no Brasil, que engravidou a menina de nove anos, filha da sua mulher; como o Fritzl; como o homem de Sheffield que começou a violar as filhas quando estas tinham oito e dez anos, e engravidou sete vezes a mais velha e doze a mais nova. Uma lista de horrores que não tem fim.
Ainda da última vez que estive em Portugal, na romaria da Senhora da Agonia, tive oportunidade de observar um cinquentão que, mesmo ao lado da esposa, se ia aproveitando das circunstâncias para "chegar perto" das adolescentes.
Pergunto-me agora: porque é que não armei um escândalo? Porque é que não desmascarei aquele homem naquele momento? Fiquem avisados, ó apalpadores anónimos: estou em modo "cão de Pavlov", não tenciono voltar a fugir ao embaraço de uma situação dessas.

Nas últimas semanas, a sociedade alemã tem sido alertada para inúmeros casos de pedofilia, muitos deles ocorridos em internatos - da Igreja Católica, da Igreja Protestante, de uma famosa escola privada não confessional. Tem-se falado demasiado da Igreja Católica, e quase nada dos contextos familiares - onde ocorre a maior parte dos casos de abuso sexual infantil.
Finalmente a Igreja acordou, o Governo acordou, os serviços públicos de protecção à infância dão-se conta da sua responsabilidade.

Bem-vindos escândalos, e consequentes choque e debate. Bem-vinda a vergonha que nos atinge ao olhar para todos estes anos de "fazer de conta", de "assobiar para o lado", de" tentar resolver as coisas sem levantar muitas ondas". Atitudes inaceitáveis à luz dos princípios com que o nosso tempo olha para as crianças.
O sofrimento desses que agora ousam contar o que lhes aconteceu há décadas não poderá ser evitado, e duvido que possa ser minorado: não há maneira de lhes devolver a infância e um processo normal de amadurecimento. Mas é da sua coragem que está a nascer uma nova consciência na sociedade: nunca mais será tão fácil abusar de crianças.

É um facto trágico que até agora havia uma cultura generalizada de ignorar o que se passa. A criança cala, e as pessoas preferem não desconfiar. Ainda hoje há uma certa tendência para evitar o desconforto de abrir os olhos para o que está a acontecer, e de ter de tomar medidas. Como se a paz interior de uma criança valesse menos que a ilusão de que tudo está bem em determinada família ou comunidade.

Há alguns anos, uma alemã regressou à sua aldeia bávara depois de passar décadas nos EUA, para onde emigrara, e contou que fora vítima de abusos sexuais em criança. Outras mulheres revelaram que aquele homem lhes fizera o mesmo. E a aldeia? Reagiu contra a vítima: mandou-a regressar aos EUA.
Sobre a escola de Odenwald, um internato famoso que marcou uma etapa importante na pedagogia, foi recentemente revelado que o director e oito professores da escola abusavam continuadamente de alguns alunos. Em entrevista ao Spiegel (aqui, em alemão), o grande pedagogo Hartmut von Hentig, de 84 anos, nega e desvaloriza essas acusações: que não está nada provado, que nunca ouviu falar de nada - embora um dos acusados seja o seu companheiro, na época director da escola. E chega a criticar a actual directora da escola, que está a ceder depressa demais às acusações.

O escritor Bodo Kirchhoff relata neste texto (no Spiegel, em alemão) os abusos de que foi vítima, num internato protestante, por parte do director e Kantor, que era casado. Desta vez não traduzo o texto, porque a sua qualidade exige muito mais do que o Speedy Gonzalez é capaz de oferecer, e a mim falta-me o tempo. Conta que ganhou demasiado cedo a consciência de uma certa sexualidade, e no mesmo processo perdeu as palavras: cresceu mudo. E que todo o seu percurso de escritor não passa do esforço de recuperar a linguagem que perdeu de um golpe aos doze anos.
Não é um texto fácil. Ele atira as palavras com fisga, certeiras e duras.

Não é fácil abrir os olhos para este universo macabro.
Mas não há como escapar a isso. Finalmente tomam-se medidas, e é fundamental que neste debate não se confunda um arbusto exótico com a floresta: no centro não pode estar o celibato dos padres (ou a homossexualidade, que também costuma ser apontada como fonte de quase todos os males) mas uma doença grave.

16 março 2010

PÁSCOA, UMA ESPERANÇA ESTIMULANTE

Tal como a Primavera nos confirma a revitalização cíclica da natureza, a celebração anual da Páscoa reafirma a confiança na emergência da vida mais forte do que a morte.

Os recentes desastres naturais e a persistência de uma terrível crise económica, deixando milhares de famílias destroçadas pela praga do desemprego e da pobreza, lembram-nos, de forma dramática, que a paixão de Cristo assume um negro realismo nas imagens da morte e do sofrimento, regularmente actualizadas. Celebramos a Páscoa numa altura em que nos confrontamos com acontecimentos de tristeza e de desolação, sejam os que decorrem dos gritos de dor, no Haiti como na Madeira, no Chile como no Afeganistão e Turquia, sejam aqueles que corporizam os vergonhosos casos de pedofilia em instituições católicas ou que mostram o desespero dos que foram mais vitimados pela crise financeira.

Nuns casos, a destruição saiu à rua pela força dos elementos da natureza, lembrando ao homem a sua condição frágil, magnificamente retratada por Camões nestes versos de Os Lusíadas: Onde pode acolher-se um fraco humano / Onde terá segura a curta vida, / Que não se arme e se indigne o céu sereno / Contra um bicho da terra tão pequeno? Noutros casos, as forças da morte foram provocadas pela crise do sistema neo-liberal, assente numa lógica que está a sobrepor-se à própria razão do homem. O aumento das assimetrias sociais, tornando os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres, é a denúncia clara de um «progresso» que não põe a pessoa humana no centro. O messianismo secularizado, depois de ter visto as consequências desastrosas do mito da crença no progresso indefinidamente crescente, pretende agora afirmar-se através do mito do imperativo absoluto da revolução técnico-científica, ao serviço de um Estado omnipresente e das elites que o compõem e o perenizam. Este modelo de progresso, cujos benefícios de revelaram efémeros e enganadores, está agora a ser travestido na exaltação de uma tecnologia que robotiza e serializa, mostrando como a frieza da técnica está a impedir a eclosão de um mundo mais humanizado.

Felizmente que, ao lado das funestas notícias diariamente propaladas pela comunicação social, também há muitas alegrias celestes nesta terra, ainda que não detectáveis pela voracidade dos media. Um olhar atento poderá testemunhar realidades bem luminosas a acontecer diariamente. A corrente de solidariedade na sequência dos desastres ocorridos no Haiti e na Madeira revelam bem que no coração humano não está atrofiada a bondade. Muitas mais provas disso se verificam no anonimato quotidiano. O estilo de vida simples, o espírito de partilha, a capacidade de renunciar ao ter em nome da felicidade do outro e uma relação inteligentemente respeitosa com a natureza são exemplos de gestos que fazem diminuir o sofrimento e que incrementam relações humanas mais harmoniosas. Manda, por isso, o realismo que não podemos minimizar a gravidade do momento presente, acreditando ingenuamente que um mundo novo possa nascer da desordem actual. Mas também não devemos abandonar a esperança numa sociedade melhor, com a desculpa de que todas as utopias falharam. As previsões catastróficas em relação ao futuro, em vez de suscitarem alertas preventivos, vão-nos preparando psicologicamente para aceitar a inevitabilidade da desgraça. Pelo contrário, a capacidade de encarar o porvir com esperança pode transformar a presente crise numa bênção mobilizadora de energias. Todavia, as dificuldades tornam-se intransponíveis se deixarmos morrer a confiança, já que, como intuiu Picasso, a nossa maior perda não é a morte, mas aquilo que morre em nós enquanto vivemos.

Os cristãos acreditam que continua a avançar na história o sonho de Deus sobre a humanidade e sobre o cosmos. Esse sonho pareceu brutalmente interrompido na cruz, mas foi aí que se manifestou verdadeiramente a força da vida para lá da morte. Não há nada de contraditório, quando os cristãos, em nome desta esperança estimulante, se comprometem na transformação concreta da sociedade, sem caírem no logro das consolações fáceis.

cimeira de blogues portugueses

A partir de amanhã decorre em Berlim a primeira cimeira internacional de blogues portugueses.
Se este blogue fraquejar um bocadinho, é só porque estou a participar nos acalorados debates, e assim.

sem-abrigo

"Arranje-me um pobre", dizia a outra - o que me devia servir de aviso para parar de escrever aqui mesmo, mas esta minha atracção pelo abismo ainda me vai perder.

Pois é: gosto dos sem-abrigo de San Francisco. Não direi de todos, porque ainda estou muito longe de ser a Madre Teresa. Mas aprendi com alguns deles a dignidade humana para além das circunstâncias em que se vive. Nos EUA, a pobreza pode acontecer a qualquer um - hoje ele, amanhã eu. Deve ser a isso que chamam igualdade...

Havia um sem-abrigo muito simpático à entrada do nosso supermercado. Raramente lhe dava dinheiro, mas muitas vezes partilhava com ele o que acabara de comprar. Alegrei-me por ele no dia em que apareceu lavado e com a barba feita; fiz-lhe um elogio, retribuiu-me o sorriso, feliz.

E há sempre os da Market Street.
Admirava o sarcasmo do cartaz "another day in paradise" que um exibia, junto ao chapéu sempre vazio, perto do escritório onde eu trabalhava.
Conhecia alguns deles - a sua imagem, mais que as suas histórias. E eram tantos!
Por essa altura, uma amiga contava-me, aterrada, que um conhecido dela perdera o emprego e a fortuna no crash das dot-com. Era programador, a empresa fora à falência, as acções perderam o valor... já estava a viver no carro.

Num registo mais fútil, outra amiga comentou que os sem-abrigo da Market Street são especialistas de moda. Passam o dia no passeio, a ver passar as mocinhas todas apericaltadas para a downtown. E já que não têm nada a perder, permitem-se ser sinceros. Ela estava toda orgulhosa por lhe terem elogiado um chapéu.

Até que um belo dia chegou a minha vez: aquele "Wow, nice pants, lady!" que me compensou do "isso agora usa-se?" do Joachim e do "ó mãe, tu compraste isso, ou deram-te?" da Christina.
Qual quê, eles não sabem nada! Styling é com os sem-abrigo da Market Street.

Desde então há uma dúvida que não me abandona: quanto se deve deixar no chapéu de uma Anna Wintour em forma de pedinte sentado no passeio?

manual para funerais

Já estive em vários funerais na Alemanha, mas as circunstâncias deste permitiram-me notar um conjunto de diferenças em relação aos cerimoniais da morte em Portugal.

Alguns apontamentos (e prometo que passo já a outros temas):

Na Alemanha, costuma haver cerca de uma semana entre a morte e o funeral, o que permite à família escrever e enviar participações, em vez de depender de uma rede de amigos para passarem rapidamente a notícia. Enquanto ajudava a pôr selos nos envelopes, lembrava-me com gratidão do afã dos meus amigos portugueses num caso semelhante, e do carinho que acompanha esse gesto.

Nunca vi na Alemanha um velório longo e mudo. A família e os amigos não se reunem em volta do corpo - que, durante a semana de espera, fica numa câmara fria. Esta é também uma grande diferença em relação a Portugal. Dantes, achava esta semana insuportável: como é possível a vida continuar enquanto o corpo daquela pessoa está depositado algures? Ao fim de vinte anos neste país, e de alguns funerais, tive oportunidade de descobrir a vantagem deste hiato: as pessoas têm tempo para se preparar, para irem fazendo o luto, para organizar a cerimónia. Para se organizarem interiormente, para sair do choque.

Na capela funerária, antes do início das exéquias, alguém (geralmente amigos) toca um instrumento musical. Também é reservado algum tempo para elogios fúnebres.
Os melhores amigos têm um lugar central na cerimónia de despedida.

No próprio cemitério há música.
Para o funeral do meu sogro chamaram um trompetista. Havia uma grande simplicidade e poesia naquele homem sozinho, ao fundo do cemitério coberto de neve, e na música que indicava ao cortejo a direcção a seguir.
No funeral de um irmão dele houve um orquestra de jazz de New Orleans (um bocadinho estranho, mas era o seu desejo).

Alguém colocou um grande jarrão com rosas junto à campa. Também havia um balde com terra, que foi ignorado por todos - em vez de terra, deixaram flores sobre o caixão.

Algumas famílias têm a tradição de, depois do funeral, convidar todos os presentes para um restaurante. O nome desta refeição é horrível: Leichenschmauz (= festim do cadáver), que o Porto Editora muito elegantemente traduz para banquete fúnebre.
Banquete não é o nome mais certo para um menu bastante simples. A ideia, essa, é muito boa: reunir-se de novo em memória daquela pessoa, e terminar o dia rodeado de amigos e familiares num ambiente reconfortante.

Uma tradição que não conhecia, e me surpreendeu: as pessoas que vinham dar as condolências à minha sogra entregavam-lhe também um envelope com um cartão e dinheiro. Ora aí está uma óptima ideia: ajudar a família a suportar os custos do funeral!

***

Uma parte que interessa apenas aos cristãos: fazer a missa depois do funeral, e não antes. Porque não é a terra que tem a última palavra, mas a confiança na vida eterna.

15 março 2010

não perguntei

O meu sogro nasceu em 1935.
Quando a cidade onde vivia começou a ser bombardeada (e vejo agora que não perguntei em que ano), a família refugiava-se na cave, com os outros habitantes do prédio (esqueci-me de perguntar se tinham alguma luz). Lembro bem o seu sorriso ao contar que a mãe, uma mulher muito decidida, dizia com a sua voz segura, mais forte que as sirenes e o estrondo das bombas: "a nós não nos vai acontecer nada!" - e ele acreditava, com toda a confiança que um rapazinho põe na sua mãe, e atravessava aquelas noites descansado.

Morreu há uma semana. Repentinamente, ao fim de um dia perfeito, tendo ao seu lado a mulher e o melhor amigo.
Deixou, como todos, muitas histórias inacabadas: agora me vou dando conta de tudo o que não perguntei.
Deixou também muitos exemplos de como uma pessoa simples e sem poder é capaz de tornar o mundo um lugar melhor.

07 março 2010

o estado da situação

Como já contei aqui, agora temos uma janela nova no escritório. A anterior sobreviveu a 100 anos e duas guerras, mas não à nossa sovinice, que nos fartámos de pagar para aquecer directamente os outdoors do bairro. Na troca, fizeram "um bocadinho" de pó. Ando há uma semana a limpar os livros um a um, e a reorganizar as estantes, a ver-me livre de papelada e livralhada que já me acompanhou, desnecessariamente, em três ou quatro mudanças de casa (refiro-me apenas às mais recentes). Estou de péssimo humor, e a porcaria do trabalho não avança.

***

E um famoso político do PSD que se cuide. Eu sei que tenho guardada algures uma revistinha publicada por ele e pelos amigos, quando eram finalistas do curso. Com os disparates habituais de finalistas.
Na altura guardei sem ler com atenção, mas hoje, ao pensar com mais detalhe na pouca-vergonhice que por aí grassa...

;-)

(O famoso político não tem de se cuidar, pela parte que me toca. Era o que me faltava descer tão baixo.)

06 março 2010

Edward Hopper em Berlim, e uma espécie de milagre

Esta manhã Hopper pintou as ruas de Berlim: as formas das casas muito nítidas num exagero de luz fria.

E à tarde aconteceu uma espécie de milagre: céu azul, sol radioso, muita luz, e neve.
Tão inesperado, que por uns momentos imaginei que seria já o pólen das árvores.

Se nevasse no nevado, incomodava-me. É que passámos os últimos dois meses a avançar cuidadosa e vagarosamente sobre gelo - de tal modo, que uns engraçadinhos começaram a dizer que os glaciares não estão a derreter, simplesmente mudaram-se para os passeios e as ruas de Berlim.
Mas essa neve derreteu, e estamos prontos para a próxima. Digo eu, mas não fiz uma sondagem.

05 março 2010

dos extremos, e da vida entre eles

De um lado, isto:
(encontrado neste post do Segunda Língua)



Do outro lado, isto:
Em Munique existe um clube, chamado "Lord Gang Bang" que oferece sessões de sexo em grupo para uma mulher e vários homens. É a mulher que escolhe, e são os homens que pagam todas as despesas.
Resumindo partes do artigo, encontrado na edição alemã da Cosmopolitan, Janeiro 2010:
Um terço das mulheres tem fantasias eróticas de sexo com vários homens ao mesmo tempo, mas poucas se permitem tornar essa fantasia realidade, porque imaginam que a realidade ficará sempre aquém da fantasia, ou temem que um encontro desses se torne num pesadelo.
O "Lord Gang Bang" leva esse temor muito a sério, e oferece para escolha cerca de sessenta "Lords" que, para além do aspecto físico atraente, têm de ter a atitude correcta: no centro não está a realização dos seus desejos sexuais, mas a da mulher. É a mulher que escolhe com quantos homens, e concretamente com quais deles, bem como as práticas sexuais - tudo segundo o seu próprio desejo e as suas preferências.
Nancy Friday, uma das primeiras pessoas a estudar as motivações da mulher na realização de sexo em grupo, afirma que o controle é um elemento central: "a sensação de, durante o acto sexual, ser permanentemente senhora dos acontecimentos é pelo menos tão excitante como o que acontece realmente".
Por esse motivo, este clube é mais interessante para as mulheres que as festas swing. Enquanto que nestas a mulher tem de aceitar o que há, no "Lord Gang Bang" pode escolher: entre o empregado de uma editora, de 31 anos e cabelo comprido, o dentista de 32 anos, desportivo e com muito sentido de humor, ou o especialista em comunicação, de 47 anos, algumas brancas e muita experiência. É esta variedade de escolha que torna o clube tão apreciado entre as mulheres - que têm, em média, 30 anos, e desejam "orgasmos longos e sucessivos".


E pelo meio, a vida:
Uma mulher de 75 anos enviuvou após cinquenta anos de casada, e encontrou um novo companheiro. Este, estranhando que ela nunca tivesse tido um orgasmo em toda a sua vida, pediu-lhe que fosse a uma ginecologista - porque para ele é realmente muito importante que a sua namorada tenha mais prazer na relação sexual.

04 março 2010

serviço público - para a Lucy ;-)

A Rita:
(...) Tive uma vida muito boa (não me levem a mal, ó dias passados!) e hoje até nem foi um dia especialmente bom (queimei o pão e tudo), mas não me consegui lembrar de um momento, assim um único, no qual fosse mais feliz do que agora (e o agora era há cinco minutos, no sofá, às voltas com a Rosa do Mundo, mas também podia ser o momento do regresso a casa em que tiro o cachecol porque já tenho calor ou, na verdade, este exacto momento entre fechar o parêntesis e pressionar o ponto final) (aqui, portanto). (...)


A MC:
(...) Bento XVI, não se cansa de advertir contra o relativismo frente à vida humana. E tem razão. Relativismo é sempre que apelamos a um sistema moral utilitário da pessoa. E, neste caso, das pessoas que constituem um casal do mesmo sexo.
Dizer que esses casais são inférteis é, nem mais nem menos, que estar a pretender instrumentalizar as pessoas que os compõem.
O homem não é só materialidade. E a fecundidade vai muito para além da reprodução biológica.


E ainda só agora comecei a ronda dos blogues, Lucy.

delação

Descansem, não vou falar da vergonha do artigo do i sobre a verdadeira identidade do Jumento, nem da minha perplexidade sobre o modo como uma certa flexibilidade, digamos assim, é premiada. Nada disso.

O meu tema é mais diferenças culturais.

Na escola onde os meus filhos andaram, nos EUA, os miúdos não faziam asneiras.
Admito que esse fenómeno tivesse a ver com regras muito claras, atenta vigilância e reacção imediata ao primeiro sinal de comportamento indesejado.
Um exemplo: as crianças não podiam bater umas nas outras. Quando a minha filha, de cinco anos muito alemães, deu o corpo ao manifesto num desentendimento com outra criança, foi repreendida; à terceira reincidência, trouxe para casa um castigo: escrever cem vezes (tinha cinco anos, ainda nem sabia escrever) "I will use my words instead of my hands". Nós ficámos estupefactos, ela fartou-se de suar e suspirar a desenhar uma coluna de cem I, uma coluna de cem w, uma coluna de cem i, etc., mas nunca mais voltou a dar um sopapo noutra criança.
E ainda bem, porque a escola não se ensaiava nada para expulsar os alunos que não aceitassem as regras.
Em todo o caso: a existência de regras de coexistência claras, garantidas por uma autoridade forte, presente e actuante poupou aos meus filhos muitos dissabores e problemas de consciência.

Regressados à Alemanha, os miúdos voltaram a ter contacto com crianças "normais". Tropelias e mais tropelias.
O que se deve fazer quando se testemunha algo que vai contra as regras da sociedade, ou que lhe é nocivo?
Num encontro de preparação para a Primeira Comunhão, o padre da nossa paróquia afirmou peremptoriamente para a roda de crianças: "vocês não sejam denunciantes! nunca se denuncia ninguém!"
E eu - em Roma sê romano - registei, embora achasse estranho.
Uns anos mais tarde, o Matthias chegou a casa furioso, contando que a professora tinha ralhado com ele perante toda a turma, porque ele não a tinha avisado sobre algo de errado que se estava a passar. O edifício da escola tinha acabado de ser modernizado, e na casa de banho dos rapazes havia urinóis, que os miúdos se entretiveram logo a entupir com papel higiénico. O Matthias viu e disse aos outros para pararem com aquilo, mas não contou à professora que os urinóis estavam entupidos. Quando esta descobriu, ficou zangada com todos. Teve de averiguar quem tinha feito a asneira, para mandar a conta do canalizador aos respectivos pais, e o nome do meu filho veio à baila.
Telefonei à professora: ó senhora romana, então em Roma como é que é?
E ela respondeu que essa do "nunca se denuncia" é treta de adultos preguiçosos que não se querem incomodar a educar as crianças e a resolver os problemas.
Moral da história: em Roma há duas maneiras antagónicas de ser romano.

Seria conveniente referir ainda que este padre viveu grande parte da sua vida na RDA, onde as Igrejas e os crentes se tinham de proteger do Estado, ou seja, onde manter segredo era absolutamente vital. No oposto desta atitude estava uma outra professora do Matthias, também com larga experiência do sistema comunista, que lhe disse à minha frente: "à professora conta-se TUDO o que acontece em casa". Até estremeci.
A professora do caso dos urinóis entupidos, por sua vez, é uma mulher jovem e moderna, que leva a sério a sua tarefa de educar para a responsabilização e a participação cívica.

Com a idade, os problemas de consciência complicam-se: que fazer quando a colega de turma, de doze anos, diz que se tenciona embebedar até cair em coma? quando a turma combina um ataque em massa para agredir num jogo internético o colega que é vítima habitual de mobbing? quando o amigo de catorze anos começa a fumar haxixe? quando se suspeita que um professor tem tendências pedófilas?

E assim vai a vida: ninguém disse que era simples.

03 março 2010

"desfigurar as nações"

Voltando à versão original do texto do senhor tenente-coronel piloto aviador João José Brandão Ferreira (no Público, via Jugular), e ao seu medo dos imigrantes que desfiguram nações, convém lembrar que as nações já estão a ser transformadas por dentro, e que as tradições e a moral de muitos desses imigrantes estão bem mais próximas das de certos nacionais que das de outros.

Por exemplo: os valores que João José Brandão Ferreira quer ver protegidos pelo Estado (seguindo a ordem do seu texto: o reforço dos laços familiares tradicionais; o regresso da mulher ao lar no seu papel fundamental e insubstituível de esposa e mãe; a recusa da miscigenação cultural; o desprezo e a indiferença perante os desempregados, toxicodependentes, delinquentes; a atitude de condenação dos homossexuais; a defesa de símbolos religiosos nos espaços públicos) são sensivelmente os mesmos valores de muitas famílias provenientes de regiões rurais do espaço muçulmano, e bem diferentes das "modernices" de certos grupos sociais portugueses.

Afinal o que é essa cultura soberana que J.J. Brandão Ferreira quer proteger das influências dos imigrantes? A sua, ou a igualmente portuguesa cultura da modernidade, da abertura e do respeito pela individualidade?
E porque é que tem tanto medo dos imigrantes, se muitos destes partilham afinal as suas mais profundas convicções?

Até devia ficar contente. Se estes imigrantes continuarem fiéis às suas tradições, daqui a meia dúzia de anos a maioria do eleitorado será extremamente conservador e quererá o mesmo tipo de Governo que J.J. Brandão Ferreira. Pelo menos no que diz respeito à repressão dos homossexuais, ao reforço da família às custas da mulher, à insensibilidade para com os "associais". No fundo, o único elemento de discórdia é o nome que dão ao mesmo Deus.

02 março 2010

por outras palavras...

Os temas que o senhor tenente-coronel piloto aviador João José Brandão Ferreira aponta no espaço de opinião que o Público lhe disponibilizou são importantes. O modo como os apresenta é que é completamente descabido.
Pergunto-me se o Público pesou bem as consequências desta oferta de espaço para dar voz a quem, em última análise, faz um discurso que promove o ódio e a desconfiança entre diversos grupos sociais. Não podia antes ter dado voz a alguém que, tendo sensivelmente a mesma opinião, a coloque de modo a fazer avançar o debate?
Ainda sobre o Público: a frase "esta tragédia que fará o holocausto parecer uma coisa menor" é pura e simplesmente inaceitável - e um jornal que publica um disparate destes perde credibilidade.

Fazendo de conta que concordo com o que ele diz (e tenham paciência, mas a liberdade de expressão vale para todos), vou tentar traduzir as passagens mais hard core para uma linguagem mais apropriada (em itálico), que permita o debate em vez de nos provocar merecidos esguichos:


A demografia e o casamento entre géneros idênticos

A Demografia é das questões menos estudadas a nível da sociedade e aquela a que os poderes públicos e o comum dos mortais deixou de prestar a mínima atenção.

Preocupados todos, que estamos, com a crise económica; vinculados ao consumismo e à cultura do prazer; anestesiados pela segurança social; sobrevalorizados no nosso ego pelo primado do individualismo e inundados de muitos outros “ismos” com que a comunicação social nos matraqueia o coração e a cabeça, deixámo-nos possuir por perigosos mitos de fundamento néscio – mas apelativos – e somos postos à beira de precipícios cada vez mais perigosos.

Reduzida a mortalidade infantil, instituída a pílula e outros métodos contraceptivos; quebrados os laços familiares tradicionais; emancipada a mulher da distribuição tradicional de direitos e deveres sem que aos homens tenha ocorrido trocar de papéis com esta, ou ao menos dividir integralmente e a meias direitos e deveres, instituída a quase obrigatoriedade (por razões de ordem económica ou de realização pessoal) de ambos os progenitores trabalharem fora de casa, consolidada a ditadura dos direitos face aos deveres e mais uma quantidade de coisas que seria ocioso enumerar – e de que todos temos sido relapsos a reflectir nas consequências – veio a originar-se uma brutal redução no número de nascimentos. Esta redução teve especial incidência nos países da Europa Ocidental e por extensão em Portugal, países onde se verificou aquilo que é tido pelo maior (e melhor) desenvolvimento da sociedade.

Ora a redução da natalidade que a nível europeu desceu para uma média de 1,4 nascimentos por mulher (em Portugal actualmente está em 1,3) veio colocar a questão da sobrevivência destas sociedades no futuro (1). De facto sabe-se através de estudos sérios, que uma população para se renovar, cada mulher precisa de conceber 2,1 filhos, em vida e que a mesma população deixa de se poder manter em termos culturais quando esse número desce para os 1,9. Já se sabe isto há muito tempo, mas ninguém liga coisa nenhuma, como se governos e pessoas tivessem sido atacados por um desejo de suicídio colectivo.
Faltam braços para o trabalho, jovens para os Exércitos, fecham escolas e passou a haver assimetrias etárias cada vez mais assinaláveis.

O avanço da medicina tem aumentado a esperança de vida das pessoas o que faz com que a população idosa seja cada vez maior, com o aumento de custos para a Segurança Social. E tem sido por esta via – que não é a mais crítica, mas aparenta ser a mais sensível - que alguns governantes se começaram a preocupar: falta-lhes o dinheiro!

A tudo isto é necessário juntar os fluxos emigratórios e imigratórios. Isto é, por um lado os países ocidentais vêem chegar ao seu território milhões de seres de outros continentes que estão a mudar as suas nações, e vêem partir, por outro lado, os seus melhores cérebros, que procuram realizações pessoais em países mais avançados, ou de oportunidade.(2)

A demografia tem sido escamoteada com os nascimentos de filhos de emigrantes o que não é propriamente a mesma coisa que nascerem nacionais, dado que, sendo aqueles provenientes em grande parte de grupos de mais baixos recursos e com maior dificuldade no acesso ao ensino e à cultura, se cria um desequilíbrio na estrutura social: corre-se o risco de as próximas gerações apresentarem uma muito maior parcela de pessoas que não tiveram a oportunidade de aceder a um patamar mais alto de cultura e formação.

O “multiculturalismo”, entendido como a coexistência, no mesmo espaço, de sociedades paralelas e sem trocas culturais, traz consigo o risco de futuras convulsões sociais graves, como já se vê em alguns países europeus. Esta situação é preocupante em termos da preservação das justas aspirações de individualidade cultural(e soberana) (3). Acresce a isto a vontade de organizações internacionalistas em quererem acabar com as Nações... (4)

Face a estes factos novos, ou numa dimensão até agora desconhecida, na vida social e nacional, os poderes públicos eleitos justamente para cuidarem do governo da cidade, em vez de estudarem perspectivas para a resolução dos problemas, em vez de restaurarem o cimento familiar e promoverem a fecundidade, optam justamente por fazer o contrário.

Em vez de se promover a vida, aposta-se na cultura da morte, de que as leis abortivas e a eutanásia são exemplos maiores; em vez de se organizar a educação e a estrutura da sociedade para a harmonia familiar, tudo se faz para facilitar a dissolução do casal e o afastamento de ascendentes e descendentes; em vez de se apostar nos incentivos à natalidade, dá-se apoio preferencial a pessoas em situação difícil (desemprego, toxicodependência, criminalidade). Em vez de confiar na capacidade de cada família educar para uma natalidade consciente e para o desenvolvimento de uma sexualidade maturada, impõem a todos os alunos aulas de educação sexual nas escolas, de cujos conteúdos (e, sobretudo, de cuja moral) algumas famílias discordam profundamente.

(Os dois parágrafos que se seguiriam são completamente intraduzíveis e inaproveitáveis. Falta provar que nos países mais avançados haja mais deboche e mais pedofilia, mais abortos e dramas sociais do que havia dantes. Isto é comentário de quem tem a memória muito curta.
Quanto à crítica ao Parlamento Nacional, é fraquinha. Se o Parlamento Nacional tivesse de pedir opinião ao povo sobre o que é mais urgente resolver, não fazia mais nada. Eu, por exemplo, acho que neste momento o mais urgente de tudo é tirar ao Poder Autárquico o direito de abater ou podar árvores, porque tenho o Presidente da Junta lá da minha terra desesperadinho para me arrancar umas oliveiras centenárias só porque quer alargar o caminho...)




***

Pontos para discussão:

(0) Antes de mais: num planeta com sintomas graves de esgotamento, podemos defender o aumento da taxa de natalidade para proteger interesses nacionais? Não seria mais adequado reduzir a quantidade de humanos à escala global?

(1) É importante para Portugal ou para a Europa "sobreviver em termos culturais"? Teme-se que uma mistura de culturas leve ao desaparecimento da cultura portuguesa ou europeia? Acredita-se ou não que pessoas de outras culturas aqui residentes serão capazes de aproveitar e interiorizar o melhor que a cultura europeia tem para oferecer? A sobrevivência da cultura europeia passa por uma política de natalidade ou por uma política de integração e de acesso de todos à cultura e à cidadania?
Por outro lado: a Europa, e Portugal, não precisaram de ser invadidos pelos EUA para se deixarem transformar culturalmente por este país. E não há taxa de natalidade que nos ponha ao abrigo de nos transformarmos segundo referências que, mesmo se consideradas positivas e enriquecedoras, levam a uma miscigenação da nossa cultura.

(2) "os seus melhores cérebros", viram? Estava a falar de mim. Hehehe. Ahem, desculpem.
Em parte é verdade: os imigrantes que chegam à Europa têm um nível de formação escolar bastante mais baixo do que os europeus que vão para fora do continente. Mas também é verdade que os imigrantes vêm para a Europa fazer os trabalhos que os europeus não querem fazer, que - agora fala a cristã - não podemos fechar as portas da riqueza europeia e da oportunidade aos mais desfavorecidos do resto do mundo, e que o movimento de globalização dos "cérebros", aliado a excelentes meios de comunicação, pode ser uma fantástica oportunidade de desenvolvimento para o mundo inteiro.

(3) Esta questão repete e acrescenta a que é apontada em (1): como é que se preserva uma cultura? O que é a cultura "soberana"? Em alguma época da História a cultura de uma sociedade foi estanque aos costumes de alguns dos seus grupos? Porque é que não sentimos que as telenovelas brasileiras (que arrumaram com o passeio higiénico de depois do jantar - alguém se lembra ainda disso?) sejam uma agressão à soberania da nossa cultura, mas tememos que os imigrantes nos imponham alguns dos seus usos? Mais concretamente ainda: tememos que daqui a três gerações a lei europeia se inspire na sharia? Temos razões para o temer? Temos meios para o evitar - sem que isso passe por desatar a produzir cristãos, ou proibir a entrada de muçulmanos, ou até esterilizá-los? (esta da esterilização é muito forte, eu sei, mas as outras duas possibilidades provêm da mesma raíz ideológica)

(4) Óptimo tema para discussão.

desculpem lá, mas o que é que vieram cá fazer?

Sim: o que é que estão a fazer aqui, quando deviam andar pelo Contemplamento (a Abrunho excedeu-se de novo em beleza e graça), pelo Jardim de Luz (sempre, e por exemplo por este poema de Jorge Luis Borges, Ni siquiera soy polvo (...) Para que yo pueda soñar al otro / cuya verde memoria será parte / de los días del hombre, te suplico: / Mi Dios, mi soñador, sigue soñandome., ou por este vídeo da Adélia Prado) e pelo sorriso pleno de ternura da Maria N.?

01 março 2010

a vida interior das máquinas (2)

Em meados de Dezembro passado descobrimos que a partir de 1 de Janeiro o nosso carro não poderia entrar em Berlim, por ser demasiado poluente. Tínhamos quinze dias para comprar outro, e vender o velho ou arranjar algum sítio fora da cidade onde o deixar até ser vendido.
No dia 30 de Dezembro o Joachim meteu-se no comboio e foi a Frankfurt comprar um carro usado(*). No dia seguinte eu meti as nossas tralhas no carro (velho) e segui com os miúdos para o centro da Alemanha, onde íamos festejar a passagem de ano com alguns amigos. Estava combinado que o Joachim viria depois com os miúdos no carro velho até Berlim, o deixaria às portas da cidade, e eu iria a Frankfurt buscar o carro novo, já com todos os papéis tratados.
No primeiro dia do ano decidimos sair para uma caminhada numa floresta da região. Entrámos no carro, o Joachim fez inversão de marcha com uma bela pirueta na neve, e desligou o motor enquanto esperávamos pelos amigos.
Quando estes chegaram, o nosso motor recusou-se a funcionar. Nada.
Chamámos o ADAC, e entrámos de novo na casa para tomar um cafézinho enquanto esperávamos. O reboque veio, nós tirámos tudo o que tínhamos no carro, dissemos-lhe adeus com alguma tristeza, e ficámos a vê-lo desaparecer ao fundo da rua.

Pergunto-me se as máquinas terão uma vida interior secreta.
Este carro, que em oito anos nunca nos falhou, mal comprámos o substituto despediu-se com uma pirueta e uma imensa delicadeza, num sítio onde com todo o conforto pudemos esvaziá-lo, chamar o reboque e tomar café durante a espera.



(*) A quem interessar possa, por andar à procura de um carro usado: um Mercedes classe B, com 7.000 km e 15 meses, por 16.000 euros.
Em Berlim, um carro semelhante custaria 3.000 euros mais. Perguntei no stand em Frankfurt, e disseram-me que não há problema nenhum em vender para Portugal. Excepto o imposto que é preciso pagar para o carro entrar no país...

a vida interior das máquinas (1)

Quando fomos morar para a Califórnia, comprámos um carro usado que - descobrimos depois - estava num estado lastimável. Volta e meia, dava-lhe um fanico no meio da estrada, e ficava parado. E lá telefonava eu ao AAA, lá vinha o reboque, lá íamos nós para uma oficina.
Um belo dia, o carro parou no centro de San Francisco, numa zona de intensa circulação e proibição absoluta de paragem.
Saí do carro à procura de um telefone para chamar o AAA, e vi, com imenso alívio, um polícia a avançar na minha direcção.
"Vai-me ajudar", pensei eu, e fiz a minha melhor voz de galinha americana, "oooh, I'm so glad that you are..."
Cortou-me a palavra: "Minha senhora, tire imediatamente o seu carro daqui!"
"Eu bem queria, mas ele está avariado e não anda."
Como se não tivesse ouvido o que eu dissera, gritou-me:
"META-SE NESTE CARRO, E PONHA-SE A ANDAR DAQUI PARA FORA! É TERMINANTEMENTE PROIBIDO PARAR NESTE SÍTIO."
Bem, quem não ouve tem de sentir, como dizem os alemães. Para lhe mostrar o meu problema, entrei no carro, meti a chave na ignição, liguei... e o estúpido pegou e começou a andar.
Disse rapidamente ao polícia "garanto que não percebo isto" e fui-me embora.

Era um carro americano. Algo me diz que ele percebeu melhor que eu que aquele polícia não estava para brincadeiras.