Um ponto assente na nossa agenda anual: quatro dias num mosteiro perdido numa encosta do Outono, com amigos muito queridos. Vou meter na mala os sapatos certos para longas passeatas na orla da floresta.
Até quarta-feira!
28 outubro 2011
FIB em Berlim
Ontem estive no skype com um amigo português. Escolhemos em conjunto o avião dele para Berlim, depois fomos para as homepages das óperas e das orquestras berlinenses, e sonhámos um bocadinho o que queremos ver. Quase demos um passou-bem chegando ambos a mão direita perto da câmara. Da próxima vez trago uma cervejinha para a mesa do computador. A ver se ele traz os tremoços.
Garanto-vos que a Felicidade Interna Bruta de Berlim vai dar um salto brutal (para cima) no próximo mês de Fevereiro. Só por conta de um amigo que vem cá saborear a cidade connosco - e talvez venha também um segundo, esse simpático que diz sempre que sim, que com certeza, que vai comprar o bilhete no sábado seguinte...
( ;-) para o simpático, confirmando que este post é o que parece: uma indirecta descarada para ele )
ADENDA: mas porque é que eu me lembrei de chamar "simpático" àquele amigo que está sempre para comprar o bilhete no sábado seguinte? Os outros simpáticos começaram a chegar à frente, convencidos que a indirecta era para eles. Pelo que, segundo me parece, em Fevereiro vamos ter aqui uma troika portuguesa. Para se vingarem da que a Alemanha mandou para aí.
E o FIB berlinense vai dar um estouro em fogo de artifício.
Garanto-vos que a Felicidade Interna Bruta de Berlim vai dar um salto brutal (para cima) no próximo mês de Fevereiro. Só por conta de um amigo que vem cá saborear a cidade connosco - e talvez venha também um segundo, esse simpático que diz sempre que sim, que com certeza, que vai comprar o bilhete no sábado seguinte...
( ;-) para o simpático, confirmando que este post é o que parece: uma indirecta descarada para ele )
ADENDA: mas porque é que eu me lembrei de chamar "simpático" àquele amigo que está sempre para comprar o bilhete no sábado seguinte? Os outros simpáticos começaram a chegar à frente, convencidos que a indirecta era para eles. Pelo que, segundo me parece, em Fevereiro vamos ter aqui uma troika portuguesa. Para se vingarem da que a Alemanha mandou para aí.
E o FIB berlinense vai dar um estouro em fogo de artifício.
ursinhos de peluche e quejandos
Esta semana foi notícia que a chanceler Merkel deu ao presidente Sarkozy um ursinho de peluche de lembrança para a bebé Giulia. Gostei de saber. Nada como um jornalismo atento e pertinente, sempre em cima dos acontecimentos mais carregados de significados simbólicos e políticos, etc.
Mas: já se sabe como é o jornalismo - falam, falam, e acabam por omitir as coisas mais importantes.
Pois o que eu queria mesmo saber, e quase nem durmo só de pensar nisso, é: ofereceu um ursinho da famosa marca Steiff? Estes são os mais tradicionais, e muito simbólicos como presente para uma menina, já que a fundadora da empresa, a Margarethe Steiff, era uma mulher com uma vontade indómita, que conseguiu realizar o seu sonho apesar da doença que a entrevou desde criança, apesar da pobreza, apesar de viver num pequeno fim do mundo da Floresta Negra. Uma grande mulher, um exemplo.
Ou terá sido um ursinho Sigikid?
A Sigikid faz ursinhos mais doces, divertidos e modernos. Mais do nosso tempo.
Este, por exemplo, tem uma caixinha de música para embalar o sono da criança. E que canção escolher? Talvez o "Guten Abend, Gute Nacht", de Brahms. Talvez uma popular, "Weißt Du wieviel Sternlein stehen": "sabes quantas estrelas há no firmamento azul? / (...) Deus contou-as todas / Para que nenhuma lhe falte / naquele número imenso". O papá da pequena Giulia podia acrescentar uma nova estrofe: "Sabes quantos euros há no pacote de estabilização? / Deus contou-os todos, etc."
Para a menina dormir descansada um soninho dos anjos.
Ou será um Käthe Kruse, boa mistura entre os dois anteriores? Esta firma é mais conhecida pelas suas bonecas. Contudo, em algum momento decidiu diversificar a produção, e em boa hora, porque faz coisas lindas para bebés.
A Käthe Kruse tinha sete filhos. Max Kruse, o pai dos mesmos, recusava-se a comprar bonecas para as filhas, porque as achava todas horríveis. "Façam-nas vocês", dizia ele e, como tantas vezes acontece, Deus quer, o homem sonha, a obra nasce das mãos das mulheres.
A Käthe Kruse começou a fazer bonecas para as filhas, depois para a vizinhança, e quando deu por ela já estava a receber encomendas da América. Isto em princípios do séc. XX.
Ainda hoje se fazem essas bonecas, com carinhas lindas, muito tranquilas, mas demasiado passivas e perdidas num mundo só delas.
Uma boneca que já não serve às crianças dos nossos dias, porque lhe faltam pontos de contacto e identificação.
Durante alguns anos a Sylvia Natterer fez bonecas lindíssimas, a preços quase acessíveis, para a firma Götz. Eram as minhas preferidas, porque sabiam escutar:
Por algum motivo que não entendi (provavelmente o motivo do costume...) as bonecas da Sylvia Natterer começaram a ser produzidas na China. Uma pena: os olhos das bonecas, pintados à mão, deixaram de contar histórias. A Steiff também tentou a sua sorte na China, e deu-se mal: depois de ensinarem os empregados, durante meses e meses, para que estes conseguissem atingir o standard de qualidade que a Steiff se exige, eles iam para outro emprego. A empresa queixava-se da moral de trabalho das pessoas, mas algo me diz que as pessoas teriam alguma razão de queixa da moral de pagamentos da empresa.
Só quando a minha filha já tinha atingido um patamar etário que me inviabilizava os alibis é que a Sigikid se lembrou de inventar uma boneca com uma cara mais à maneira das crianças do nosso tempo. Uma boneca simpática, mas senhora do seu nariz, capaz de dar uma resposta torta se a irritarem. Ao mesmo tempo: atenta, capaz de partilhar todos os estados de espírito da criança. Reparem bem naquele rosto: se estou triste, sinto-me compreendida e recebo consolo. Se estou contente, ela está contente.
Eu, se fosse à Angela Merkel, era esta boneca que teria dado à pequena Giulia. Que a vida da filha do Sarkozy no meio de tantas crises nacionais e internacionais não deve ser fácil, e ela bem precisa de um amigo especial que lhe compreenda e aceite todos os estados de alma, e que a ajude a encarar os problemas com um olhar positivo.
Mas, como sempre, ninguém me pergunta nada, e depois fazem asneira. Ou, pelo menos, fazem não tão bem como podiam ter feito.
Mas: já se sabe como é o jornalismo - falam, falam, e acabam por omitir as coisas mais importantes.
Pois o que eu queria mesmo saber, e quase nem durmo só de pensar nisso, é: ofereceu um ursinho da famosa marca Steiff? Estes são os mais tradicionais, e muito simbólicos como presente para uma menina, já que a fundadora da empresa, a Margarethe Steiff, era uma mulher com uma vontade indómita, que conseguiu realizar o seu sonho apesar da doença que a entrevou desde criança, apesar da pobreza, apesar de viver num pequeno fim do mundo da Floresta Negra. Uma grande mulher, um exemplo.
Ou terá sido um ursinho Sigikid?
A Sigikid faz ursinhos mais doces, divertidos e modernos. Mais do nosso tempo.
Este, por exemplo, tem uma caixinha de música para embalar o sono da criança. E que canção escolher? Talvez o "Guten Abend, Gute Nacht", de Brahms. Talvez uma popular, "Weißt Du wieviel Sternlein stehen": "sabes quantas estrelas há no firmamento azul? / (...) Deus contou-as todas / Para que nenhuma lhe falte / naquele número imenso". O papá da pequena Giulia podia acrescentar uma nova estrofe: "Sabes quantos euros há no pacote de estabilização? / Deus contou-os todos, etc."
Para a menina dormir descansada um soninho dos anjos.
Ou será um Käthe Kruse, boa mistura entre os dois anteriores? Esta firma é mais conhecida pelas suas bonecas. Contudo, em algum momento decidiu diversificar a produção, e em boa hora, porque faz coisas lindas para bebés.
A Käthe Kruse tinha sete filhos. Max Kruse, o pai dos mesmos, recusava-se a comprar bonecas para as filhas, porque as achava todas horríveis. "Façam-nas vocês", dizia ele e, como tantas vezes acontece, Deus quer, o homem sonha, a obra nasce das mãos das mulheres.
A Käthe Kruse começou a fazer bonecas para as filhas, depois para a vizinhança, e quando deu por ela já estava a receber encomendas da América. Isto em princípios do séc. XX.
Ainda hoje se fazem essas bonecas, com carinhas lindas, muito tranquilas, mas demasiado passivas e perdidas num mundo só delas.
Uma boneca que já não serve às crianças dos nossos dias, porque lhe faltam pontos de contacto e identificação.
Durante alguns anos a Sylvia Natterer fez bonecas lindíssimas, a preços quase acessíveis, para a firma Götz. Eram as minhas preferidas, porque sabiam escutar:
Por algum motivo que não entendi (provavelmente o motivo do costume...) as bonecas da Sylvia Natterer começaram a ser produzidas na China. Uma pena: os olhos das bonecas, pintados à mão, deixaram de contar histórias. A Steiff também tentou a sua sorte na China, e deu-se mal: depois de ensinarem os empregados, durante meses e meses, para que estes conseguissem atingir o standard de qualidade que a Steiff se exige, eles iam para outro emprego. A empresa queixava-se da moral de trabalho das pessoas, mas algo me diz que as pessoas teriam alguma razão de queixa da moral de pagamentos da empresa.
Só quando a minha filha já tinha atingido um patamar etário que me inviabilizava os alibis é que a Sigikid se lembrou de inventar uma boneca com uma cara mais à maneira das crianças do nosso tempo. Uma boneca simpática, mas senhora do seu nariz, capaz de dar uma resposta torta se a irritarem. Ao mesmo tempo: atenta, capaz de partilhar todos os estados de espírito da criança. Reparem bem naquele rosto: se estou triste, sinto-me compreendida e recebo consolo. Se estou contente, ela está contente.
Eu, se fosse à Angela Merkel, era esta boneca que teria dado à pequena Giulia. Que a vida da filha do Sarkozy no meio de tantas crises nacionais e internacionais não deve ser fácil, e ela bem precisa de um amigo especial que lhe compreenda e aceite todos os estados de alma, e que a ajude a encarar os problemas com um olhar positivo.
Mas, como sempre, ninguém me pergunta nada, e depois fazem asneira. Ou, pelo menos, fazem não tão bem como podiam ter feito.
27 outubro 2011
à atensão dos purtugezes rezidentes em Berlim
Carus amigus,
escrevu-vus segundu as minhas próprias regras de nova urtugrafia. Bem sei que anda pur aí um acordo, mas eu axo que ele peca por defeito. Se é para simplificar, vamos até ao fim. Até às últimas consecuênsias.
Por ezemplo: acabar com o ç - o que soa ç escreve-se com s, e o que soa z escreve-se com z.
Para us mais acumudados, contudu, organizaram uma sesão de esclaresimento no prósimo fim-de-semana. Um "tudo o que sempre quis saber sobre o acordu ortugráfico e não teve curajem de perguntar".
Aqi:
***
Uma vez dada a informação, repesco um texto que escrevi há vários anos a propósito deste acordo. Quando ainda era possível aproveitar o meu saber de experiência feita (sim: sou pioneira no uso destas regras, ainda vocês nem sabiam o que isto era já eu gemia e chorava e rangia os dentes no seu uso quotidiano, já lá vão quase vinte anos) para arrepiar caminho. Será que agora é tarde? Eu continuo, teimosa, a escrever como dantes. Na esperança de sei lá o quê, um qualquer milagre que nos salve.
passei oito anos da minha vida a inventar uma língua chamada português neutro, numa empresa que queria uma tradução única para utilizar em Portugal e no Brasil.
E eu, acabada de nascer, tão ignorante como bem-intencionada, achei que, com jeitinho, era possível.
Pensava que bastaria usar o acordo ortográfico de 1990 (sim, senhores: o mesmo que agora se discute), e tudo acabaria em bem.
Hoje, do alto da minha experiência, vos digo: não funciona.
O problema não é o modo como se escrevem as palavras, mas o seu significado.
Sem pensar muito, ocorrem-me logo vários exemplos em que tropecei nessa época negra da minha linguística:
- Um armazém, em Portugal, é uma área onde se guarda mercadoria; no Brasil, é uma mercearia de portugueses. Que palavra usar então para a área onde se guarda mercadorias? Almoxarifado? Depósito? A partir do momento em que tentamos soluções de mínimo denominador comum, a língua transforma-se numa construção artificial alheia à realidade de cada país.
- O célebre file inglês é um ficheiro em Portugal e um arquivo no Brasil. Não tem solução.
- O time brasileiro (team) e a equipa portuguesa (equipa nem aparece no Aurélio, só existe equipe). Forma-se um grupo?
- Outras armadilhas de palavras heterossemânticas: bilião, fazenda, cadastrado, adeus, constipação, miúdos, terno. E muitas mais. Fazendo uma pequena incursão nas brejeirices: a palavra bicha já desapareceu dos meios de comunicação social portugueses, mas vamos também evitar trepar, pinto e grelo?
[Adenda (em 8.05) aos exemplos: por muito que unifiquem a ortografia, nunca será possível escrever um livro de culinária para ser usado simultaneamente no Brasil e em Portugal. Alguém sabe o que é um limão, no Brasil? E um limão galego? Eu ainda não consegui entender.]
O acordo ortográfico vai simplificar um pouco? Talvez, mas também complica:
Preciso de me concentrar para não ler afeto e respeto como afêto e respêto. (Ora aí está o alentejano promovido a português neutro.)
Ação pede a pronúncia de cação, receção parece recessão.
E porque é que o h cai da humidade, mas se mantém nos seres humanos e nos homens? (quer dizer: espero que se mantenha...)
Não adianta unificar a ortografia das palavras para termos a sensação que se trata de uma língua única. Mesmo que estejam escritas da mesma maneira, será sempre necessário conhecer e saber descodificar as palavras usadas pelos outros. Por isso, penso que a única solução é informar-se sobre as diferenças. Aprender mais sobre a nossa língua e sobre a língua portuguesa falada nos outros países. Assumir, por muito que custe aos heróis do mar nobre povo, que não há um português universal, mas um "portugalês" e um "brasileiro" (do português falado nos outros países não falo, porque não sei).
Fazer um acordo ortográfico que suprime alguns acentos e consoantes mudas, tira aqui hífens para os acrescentar ali, e pensar que essas alterações confusas de cosmética são um passo importante para unificar a língua, é de uma ingenuidade que se poderia dizer ridícula se não tivesse tantos custos.
Vão por mim: só nos faz bem aprender mais e exercitar permanentemente o cérebro. Aprender os falsos cognatos, manter as nossas consoantes mudas e os acentos de todos, inclusivamente o belíssimo trema brasileiro (eqüidade, que equilíbrio de palavra!), a eterna dúvida entre o ç, o ss e o s, tudo isso são bons exercícios para fintar o Alzheimer. Isto nem é só uma questão de ortografia, é até um caso de saúde pública...
Também não concordo com simplificações da ortografia para facilitar a aprendizagem. Isso equivale a, desculpem a ofensa, fazer uma hortografia: ortografia para nabos.
Tudo isto para dizer que sim, também assinei o manifesto em defesa da língua portuguesa. Embora por razões diferentes das que estão lá escritas.
***
Na altura em que eu inventava um português neutro, assistia a discussões dos tradutores para espanhol. Pelo que entendi, a Real Academia Española, sedeada em Madrid, decide a evolução do espanhol no mundo inteiro. Os sul-americanos protestavam, mas manda quem pode...
De onde se conclui que a culpada dos nossos problemas linguísticos é a República e o seu pai de todos os males, o regicídio... ;-)
Que um dia ainda se chamará rejissídio. ;-)
escrevu-vus segundu as minhas próprias regras de nova urtugrafia. Bem sei que anda pur aí um acordo, mas eu axo que ele peca por defeito. Se é para simplificar, vamos até ao fim. Até às últimas consecuênsias.
Por ezemplo: acabar com o ç - o que soa ç escreve-se com s, e o que soa z escreve-se com z.
Para us mais acumudados, contudu, organizaram uma sesão de esclaresimento no prósimo fim-de-semana. Um "tudo o que sempre quis saber sobre o acordu ortugráfico e não teve curajem de perguntar".
Aqi:
A Embaixada de Portugal e o Instituto Camões têm o prazer de convidar para a Inauguração da Biblioteca da Embaixada de Portugal em Berlim, que terá lugar no dia 31 de Outubro, pelas 15:30 horas.
Nesta ocasião, o Embaixador José Caetano da Costa Pereira tem muito gosto em convidar para um Porto d’ Honra.
No âmbito da inauguração da Biblioteca será levado a cabo um workshop subordinado ao tema “Escrever de acordo com o Novo Acordo não custa nada, ou muito pouco: das novas regras ortográficas e sua aplicação”. Com o apoio da Fundação “Alexander von Humboldt‐Stiftung”, o workshop será orientado pelo Prof. Dr. Henrique Barroso da Universidade do Minho e inclui duas sessões:
(1) dia 31 de Outubro, às 14:00 horas, na nova Biblioteca da Embaixada de Portugal (nas instalações da Secção Consular, no piso 1 do nº 56 da Zimmerstrasse)
(2) dia 1 de Novembro, às 16 horas, no Instituto de Românicas da Universidade Humboldt (Dorotheenstrasse 65, sala 4.45).
As inscrições para o workshop devem ser remetidas para o seguinte endereço: cepe.alemanha@instituto-camoes.pt***
Uma vez dada a informação, repesco um texto que escrevi há vários anos a propósito deste acordo. Quando ainda era possível aproveitar o meu saber de experiência feita (sim: sou pioneira no uso destas regras, ainda vocês nem sabiam o que isto era já eu gemia e chorava e rangia os dentes no seu uso quotidiano, já lá vão quase vinte anos) para arrepiar caminho. Será que agora é tarde? Eu continuo, teimosa, a escrever como dantes. Na esperança de sei lá o quê, um qualquer milagre que nos salve.
06 Maio 2008
português neutro
Eu, pecadora, me confesso:passei oito anos da minha vida a inventar uma língua chamada português neutro, numa empresa que queria uma tradução única para utilizar em Portugal e no Brasil.
E eu, acabada de nascer, tão ignorante como bem-intencionada, achei que, com jeitinho, era possível.
Pensava que bastaria usar o acordo ortográfico de 1990 (sim, senhores: o mesmo que agora se discute), e tudo acabaria em bem.
Hoje, do alto da minha experiência, vos digo: não funciona.
O problema não é o modo como se escrevem as palavras, mas o seu significado.
Sem pensar muito, ocorrem-me logo vários exemplos em que tropecei nessa época negra da minha linguística:
- Um armazém, em Portugal, é uma área onde se guarda mercadoria; no Brasil, é uma mercearia de portugueses. Que palavra usar então para a área onde se guarda mercadorias? Almoxarifado? Depósito? A partir do momento em que tentamos soluções de mínimo denominador comum, a língua transforma-se numa construção artificial alheia à realidade de cada país.
- O célebre file inglês é um ficheiro em Portugal e um arquivo no Brasil. Não tem solução.
- O time brasileiro (team) e a equipa portuguesa (equipa nem aparece no Aurélio, só existe equipe). Forma-se um grupo?
- Outras armadilhas de palavras heterossemânticas: bilião, fazenda, cadastrado, adeus, constipação, miúdos, terno. E muitas mais. Fazendo uma pequena incursão nas brejeirices: a palavra bicha já desapareceu dos meios de comunicação social portugueses, mas vamos também evitar trepar, pinto e grelo?
[Adenda (em 8.05) aos exemplos: por muito que unifiquem a ortografia, nunca será possível escrever um livro de culinária para ser usado simultaneamente no Brasil e em Portugal. Alguém sabe o que é um limão, no Brasil? E um limão galego? Eu ainda não consegui entender.]
O acordo ortográfico vai simplificar um pouco? Talvez, mas também complica:
Preciso de me concentrar para não ler afeto e respeto como afêto e respêto. (Ora aí está o alentejano promovido a português neutro.)
Ação pede a pronúncia de cação, receção parece recessão.
E porque é que o h cai da humidade, mas se mantém nos seres humanos e nos homens? (quer dizer: espero que se mantenha...)
Não adianta unificar a ortografia das palavras para termos a sensação que se trata de uma língua única. Mesmo que estejam escritas da mesma maneira, será sempre necessário conhecer e saber descodificar as palavras usadas pelos outros. Por isso, penso que a única solução é informar-se sobre as diferenças. Aprender mais sobre a nossa língua e sobre a língua portuguesa falada nos outros países. Assumir, por muito que custe aos heróis do mar nobre povo, que não há um português universal, mas um "portugalês" e um "brasileiro" (do português falado nos outros países não falo, porque não sei).
Fazer um acordo ortográfico que suprime alguns acentos e consoantes mudas, tira aqui hífens para os acrescentar ali, e pensar que essas alterações confusas de cosmética são um passo importante para unificar a língua, é de uma ingenuidade que se poderia dizer ridícula se não tivesse tantos custos.
Vão por mim: só nos faz bem aprender mais e exercitar permanentemente o cérebro. Aprender os falsos cognatos, manter as nossas consoantes mudas e os acentos de todos, inclusivamente o belíssimo trema brasileiro (eqüidade, que equilíbrio de palavra!), a eterna dúvida entre o ç, o ss e o s, tudo isso são bons exercícios para fintar o Alzheimer. Isto nem é só uma questão de ortografia, é até um caso de saúde pública...
Também não concordo com simplificações da ortografia para facilitar a aprendizagem. Isso equivale a, desculpem a ofensa, fazer uma hortografia: ortografia para nabos.
Tudo isto para dizer que sim, também assinei o manifesto em defesa da língua portuguesa. Embora por razões diferentes das que estão lá escritas.
***
Na altura em que eu inventava um português neutro, assistia a discussões dos tradutores para espanhol. Pelo que entendi, a Real Academia Española, sedeada em Madrid, decide a evolução do espanhol no mundo inteiro. Os sul-americanos protestavam, mas manda quem pode...
De onde se conclui que a culpada dos nossos problemas linguísticos é a República e o seu pai de todos os males, o regicídio... ;-)
Que um dia ainda se chamará rejissídio. ;-)
entre cá e lá
Ontem falei com o Matthias no skype.
- Hoje tive muitas saudades tuas!
- Porquê? Estiveste a limpar a casa?!
- Como é que adivinhaste, ó! malcriado! Nem imaginas como pensei em ti, a morrer de saudades, quando levei o lixo à rua.
Riu-se.
- Aqui trabalho mais do que aí. Sou responsável pela louça.
- O quê?! Para isso podias ter ficado cá em casa, sempre nos saía mais barato e eu ficava a ganhar...
Rimos os dois.
Peguei na câmara móvel que uso para o skype, e mostrei-lhe o escritório: a minha mesa arrumada ("não arrumaste a minha?" "não, rapaz, fica aqui intocada à tua espera"), o tapete à volta da cadeira sem papéis empilhados em diversos montes, o sofá sem várias demãos de livros, revistas e jornais.
- Está muito bem, sim senhora. Temos convidados hoje à noite?
O problema dos filhos é que ainda antes de nascer já conhecem as mães por dentro...
Contou coisas de lá: que é impossível ir para a escola de autocarro (não há) ou bicicleta, que os pais organizam carpooling para levar os miúdos à escola (usa a palavra como verbo: "vou ver se o Ed me pode carpoolar amanhã"), que é difícil encontrar-se com os amigos depois da escola por morarem todos muito longe uns dos outros. Que ia ter um encontro com outros alunos estrangeiros da cidade, com (fez uma voz de importante) soda and pizza for free. Rimos outra vez. Dei-lhe alguns números de telefone para ele tratar de organizar o Natal dele - provavelmente será com outros amigos, em Yosemite, numa casa construída por um aluno do Frank Lloyd Wright (linda, essa casa!).
Yosemite no Inverno - há gente com sorte.
A câmara dele não funcionava bem, eu só via a luz do candeeiro. À despedida, anunciou: "estou a dizer-te adeus" - vi a mão dele, acenando à contraluz.
três concertos e uma lição de vida
1. Anotem este nome: Pablo Heras-Casado. O Simon Rattle que se cuide, porque este maestro, nascido em 1977, além de ser inacreditavelmente versátil, dança e mima a música de uma maneira que quase corro o risco de começar a ser infiel ao meu único e grande amor. Ai!
Portanto, anotem também: se for o Pablo Heras-Casado, é para comprar bilhetes nos blocos por trás ou ao lado da orquestra.
O concerto a que assisti na sexta-feira passada parecia uma máquina do tempo avariada: Felix Mendelssohn, Karol Szymanowski, Luciano Berio, Felix Mendelssohn. Maestro e orquestra aguentaram-se com bravura e arte em todos estes sacões no tempo, e fizeram-no tão bem que até parecia fácil.
Sacões também na História: a estreia da sinfonia nº 4 de Szymanowski em Berlim decorreu com enormes dificuldades. O compositor e pianista hesitou muito antes de aceitar o convite, em 1934, por considerar inadequado visitar a capital alemã após o surgimento das leis raciais de Nuremberga. Mas acabou por ir, devido às suas enormes dificuldades financeiras. Chegado a Berlim, deparou-se com uma Filarmónica sem maestro, porque Furtwängler tinha acabado de se demitir devido à proibição de apresentar a música "degenerada" de Hindemith, e com uma população deprimida e chocada com os primeiros ataques aos judeus. O concerto acabaria por se realizar em 1935, sob a batuta de Hermann Stange, um maestro de qualidade duvidosa e membro do NSDAP.
Sacões no tempo e na História, saltos geográficos: a Escócia de Mendelssohn, com a Abertura "as Hébridas" (o texto que acompanha este vídeo no youtube é muito interessante). A Polónia moderna de Szymanowski. As Quatre Dedicaces que, sob o nome escolhido por Pierre Boulez, junta peças escritas para a orquestra sinfónica de Roma da RAI, a orquestra sinfónica de San Francisco, a orquestra sinfónica de Dallas e a orquestra filarmónica de Roterdão. Para terminar, regresso à Escócia de Mendelssohn: "Esta madrugada fomos ao palácio onde a rainha Maria viveu e amou. Existe lá um aposento pequeno com uma escada em caracol junto à porta. Foi por onde subiram, e encontraram Rizzio, arrastaram-no para fora e, três quartos à frente, mataram-no num canto sinistro. Ao lado há uma capela à qual falta o telhado, a erva e as heras crescem livremente, e no altar partido coroaram Maria como rainha da Escócia. Tudo ali está quebrado, apodrecido, iluminado por um céu límpido. Penso que hoje encontrei nesse lugar o início da minha Sinfonia Escocesa." (de uma carta sua à família em Berlim, como vinha no programa do concerto). Esta sinfonia foi tocada sem pausas "assassinas da atmosfera" (cito Mendelssohn) entre os andamentos - pobre público da Filarmonia, que tanto gosta de as usar de forma criativa, introduzindo nas peças pequenos intermezzos de tosse con brio.
2. Concerto para as famílias no domingo à tarde. Na primeira parte apresentaram "canções de Istambul" com instrumentos tradicionais infelizmente abafados pela orquestra, dois cantores tipo orientalismo e uma narradora que se esqueceu de fechar o vestido nas costas e estava muito nervosa: lia demasiado depressa e contorcia-se como se não tivesse reparado que havia crianças na sala. No intervalo, a Christina criticou-me "acho muito bem que apresentem outras culturas, e tu devias mostrar mais abertura para o desconhecido". Para o desconhecido, está bem. Agora para "aquele querido mês de Agosto", só que em turco, e com arpejos intermináveis tipo "ó mãe, dói-me tanto a barriga"?!
O foyer estava cheio de crianças a experimentar instrumentos. Tive pena de não ter gravado em fotografia a imagem de um rapazinho de quatro anos a tentar tocar num violino maior que ele.
Na segunda parte estava o Otto Waalkes, um dos mais famosos comediantes alemães. Narrou com graça a história de Pedro e o Lobo, fazendo caretas extraordinariamente expressivas e engraçadas, e na cena dos caçadores apontou uma espingarda imaginária ao maestro, que se encolheu todo (o que os miúdos riram!). Ao ver a aflição no seu rosto simpático, no momento em que o lobo entra em cena, ao ver como o medo e o suspense ecoaram pela sala, pensei que só um excelente artista, um artista de corpo inteiro, pode entrar em tamanha sintonia com um público infantil. E lembrei uma passagem que li no livro do Hape Kerkeling "Ich bin dann mal weg" (sobre a sua caminhada até Santiago de Compostela): contava a extrema generosidade e simplicidade com que um Otto famoso acolheu um rapazinho Hape em início de carreira. Pareceu-me estar a ver naquele palco um homem bom. As crianças desciam das cadeiras e iam ao seu encontro. Foram-se juntando, encostadas ao murete do palco, como se o Otto fosse o flautista de Hamelin. Primeiro as meninas, mais afoitas: e que bela fotografia dava aquele friso de pequenitas nas suas roupas garridas, com os caracóis loiros, a orquestra ao fundo.
Quando parecia que o concerto tinha acabado, Otto regressou. Para três rábulas musicais que fizeram rebentar a sala em gargalhadas (entre elas, este Yesterday - a segunda parte, a partir de 2:20, em alemão muito mal traduzido, é hilariante), e para dirigir a orquestra mais ou menos assim:
3. Simon Rattle e a Bundesjugendorchester no domingo à noite. Eu sentada no sítio certo, na primeira fila do bloco por trás da orquestra, para fazer um gostinho aos olhos. Preciso urgentemente de binóculos para levar aos concertos. Já sugeri isso para o meu aniversário, que está aí ao virar da esquina. E aquele quadro lindíssimo que vimos em Kreuzberg, não?, pergunta o Joachim. Ahem, não, respondo eu. Entre um quadro de mulheres nuas e o meu Simon Rattle vestido, não há dúvidas.
A Bundesjugendorchester junta os melhores músicos alemães entre os 15 e os 19 anos, que se reúnem durante três semanas, três vezes por ano, para preparar peças exigentes com maestros famosos. Desta vez era a sinfonia nº 9 de Bruckner, com um Finale inédito, resultado do trabalho de um grupo de compositores, maestros e musicólogos que de 1983 a 2011 juntaram esforços de detective e arqueólogo para encontrar a verdadeira intenção de Bruckner, servindo-se dos inúmeros rascunhos, fragmentos e textos que deixou.
A determinado momento os olhos escorregaram-me do maestro para a orquestra (em minha defesa acrescento que foi já no último andamento). E reparei, espantada, que um dos jovens músicos tocava trompa com o pé. Quando necessário, virava as folhas com dois dedos do pé, com uma impressionante destreza. Em casa, fui procurá-lo na internet, e descobri que é um músico premiado, muito prometedor, e que se ri da sua falta de braços: "posso fazer tudo, excepto o pino".
Ele nasceu sem braços, e ri-se.
Faz-me sentir insignificante. Não é que as dificuldades dos outros me sirvam de consolo, ou sequer de relativização. É muito mais que isso: pessoas assim mostram-me que é possível dar a volta muito por cima, mesmo que se venha de muito baixo.
Portanto, anotem também: se for o Pablo Heras-Casado, é para comprar bilhetes nos blocos por trás ou ao lado da orquestra.
O concerto a que assisti na sexta-feira passada parecia uma máquina do tempo avariada: Felix Mendelssohn, Karol Szymanowski, Luciano Berio, Felix Mendelssohn. Maestro e orquestra aguentaram-se com bravura e arte em todos estes sacões no tempo, e fizeram-no tão bem que até parecia fácil.
Sacões também na História: a estreia da sinfonia nº 4 de Szymanowski em Berlim decorreu com enormes dificuldades. O compositor e pianista hesitou muito antes de aceitar o convite, em 1934, por considerar inadequado visitar a capital alemã após o surgimento das leis raciais de Nuremberga. Mas acabou por ir, devido às suas enormes dificuldades financeiras. Chegado a Berlim, deparou-se com uma Filarmónica sem maestro, porque Furtwängler tinha acabado de se demitir devido à proibição de apresentar a música "degenerada" de Hindemith, e com uma população deprimida e chocada com os primeiros ataques aos judeus. O concerto acabaria por se realizar em 1935, sob a batuta de Hermann Stange, um maestro de qualidade duvidosa e membro do NSDAP.
Sacões no tempo e na História, saltos geográficos: a Escócia de Mendelssohn, com a Abertura "as Hébridas" (o texto que acompanha este vídeo no youtube é muito interessante). A Polónia moderna de Szymanowski. As Quatre Dedicaces que, sob o nome escolhido por Pierre Boulez, junta peças escritas para a orquestra sinfónica de Roma da RAI, a orquestra sinfónica de San Francisco, a orquestra sinfónica de Dallas e a orquestra filarmónica de Roterdão. Para terminar, regresso à Escócia de Mendelssohn: "Esta madrugada fomos ao palácio onde a rainha Maria viveu e amou. Existe lá um aposento pequeno com uma escada em caracol junto à porta. Foi por onde subiram, e encontraram Rizzio, arrastaram-no para fora e, três quartos à frente, mataram-no num canto sinistro. Ao lado há uma capela à qual falta o telhado, a erva e as heras crescem livremente, e no altar partido coroaram Maria como rainha da Escócia. Tudo ali está quebrado, apodrecido, iluminado por um céu límpido. Penso que hoje encontrei nesse lugar o início da minha Sinfonia Escocesa." (de uma carta sua à família em Berlim, como vinha no programa do concerto). Esta sinfonia foi tocada sem pausas "assassinas da atmosfera" (cito Mendelssohn) entre os andamentos - pobre público da Filarmonia, que tanto gosta de as usar de forma criativa, introduzindo nas peças pequenos intermezzos de tosse con brio.
2. Concerto para as famílias no domingo à tarde. Na primeira parte apresentaram "canções de Istambul" com instrumentos tradicionais infelizmente abafados pela orquestra, dois cantores tipo orientalismo e uma narradora que se esqueceu de fechar o vestido nas costas e estava muito nervosa: lia demasiado depressa e contorcia-se como se não tivesse reparado que havia crianças na sala. No intervalo, a Christina criticou-me "acho muito bem que apresentem outras culturas, e tu devias mostrar mais abertura para o desconhecido". Para o desconhecido, está bem. Agora para "aquele querido mês de Agosto", só que em turco, e com arpejos intermináveis tipo "ó mãe, dói-me tanto a barriga"?!
O foyer estava cheio de crianças a experimentar instrumentos. Tive pena de não ter gravado em fotografia a imagem de um rapazinho de quatro anos a tentar tocar num violino maior que ele.
Na segunda parte estava o Otto Waalkes, um dos mais famosos comediantes alemães. Narrou com graça a história de Pedro e o Lobo, fazendo caretas extraordinariamente expressivas e engraçadas, e na cena dos caçadores apontou uma espingarda imaginária ao maestro, que se encolheu todo (o que os miúdos riram!). Ao ver a aflição no seu rosto simpático, no momento em que o lobo entra em cena, ao ver como o medo e o suspense ecoaram pela sala, pensei que só um excelente artista, um artista de corpo inteiro, pode entrar em tamanha sintonia com um público infantil. E lembrei uma passagem que li no livro do Hape Kerkeling "Ich bin dann mal weg" (sobre a sua caminhada até Santiago de Compostela): contava a extrema generosidade e simplicidade com que um Otto famoso acolheu um rapazinho Hape em início de carreira. Pareceu-me estar a ver naquele palco um homem bom. As crianças desciam das cadeiras e iam ao seu encontro. Foram-se juntando, encostadas ao murete do palco, como se o Otto fosse o flautista de Hamelin. Primeiro as meninas, mais afoitas: e que bela fotografia dava aquele friso de pequenitas nas suas roupas garridas, com os caracóis loiros, a orquestra ao fundo.
Quando parecia que o concerto tinha acabado, Otto regressou. Para três rábulas musicais que fizeram rebentar a sala em gargalhadas (entre elas, este Yesterday - a segunda parte, a partir de 2:20, em alemão muito mal traduzido, é hilariante), e para dirigir a orquestra mais ou menos assim:
3. Simon Rattle e a Bundesjugendorchester no domingo à noite. Eu sentada no sítio certo, na primeira fila do bloco por trás da orquestra, para fazer um gostinho aos olhos. Preciso urgentemente de binóculos para levar aos concertos. Já sugeri isso para o meu aniversário, que está aí ao virar da esquina. E aquele quadro lindíssimo que vimos em Kreuzberg, não?, pergunta o Joachim. Ahem, não, respondo eu. Entre um quadro de mulheres nuas e o meu Simon Rattle vestido, não há dúvidas.
A Bundesjugendorchester junta os melhores músicos alemães entre os 15 e os 19 anos, que se reúnem durante três semanas, três vezes por ano, para preparar peças exigentes com maestros famosos. Desta vez era a sinfonia nº 9 de Bruckner, com um Finale inédito, resultado do trabalho de um grupo de compositores, maestros e musicólogos que de 1983 a 2011 juntaram esforços de detective e arqueólogo para encontrar a verdadeira intenção de Bruckner, servindo-se dos inúmeros rascunhos, fragmentos e textos que deixou.
A determinado momento os olhos escorregaram-me do maestro para a orquestra (em minha defesa acrescento que foi já no último andamento). E reparei, espantada, que um dos jovens músicos tocava trompa com o pé. Quando necessário, virava as folhas com dois dedos do pé, com uma impressionante destreza. Em casa, fui procurá-lo na internet, e descobri que é um músico premiado, muito prometedor, e que se ri da sua falta de braços: "posso fazer tudo, excepto o pino".
(daqui - texto em alemão)
Ele nasceu sem braços, e ri-se.
Faz-me sentir insignificante. Não é que as dificuldades dos outros me sirvam de consolo, ou sequer de relativização. É muito mais que isso: pessoas assim mostram-me que é possível dar a volta muito por cima, mesmo que se venha de muito baixo.
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26 outubro 2011
Queyras - agora no suplemento Caras
(daqui)
Já se sabe que Jean-Guihen Queyras é um músico fantástico. Talvez por isso mesmo ele surpreenda tanto: elegante e bonito, move-se entre os outros músicos com segurança mas sem peneiras. Simples, afável, muito simpático. No fim de cada peça troca sorrisos calorosos com os outros músicos, beijinhos, vê-se que tem uma óptima onda com os seus pares. Será que ainda ninguém lhe disse que é um dos melhores violoncelistas do nosso tempo?
Os músicos da Akademie für Alte Musik Berlin combinavam na roupa o preto com tons de Outono - vermelho e laranja. Compunham um belo palco, excepto os cabelos das senhoras. Algumas parecia que tinham saído do duche sem sequer se lembrar de pentear o cabelo, outras parecia que precisavam de o ir lavar em breve. Berlim! Depois espantam-se que o público, como eu, apareça lá em calças de ganga? Berlim...
Excepto a Rita, claro, que apareceu tão tão chique que eu até tratei de ir dois passos atrás dela, para não a envergonhar. Tão chique que imaginei que teria ido ao correio levar outra candidatura para um doutoramento, a Rita quando vai ao correio entregar candidaturas põe-se gira que é uma coisa que não se acredita.
Bem, quando vai comer um gelado a Kreuzberg também, mas de outra maneira.
Podia ficar aqui horas a falar da roupa na Filarmonia e assim, mas não posso, porque tenho coisas mais importantes para fazer. Por exemplo: pensar no que vou dizer sobre o ursinho de peluche que a Angela Merkel deu ao Sarkozy, pelo que tenho lido fiquei com a sensação que é um assunto importantíssimo no momento actual, e além disso tenho de preparar uma palestra para logo à noite sobre a crise do Euro, o que quer dizer que daqui até logo à noite vou estar lendo os Ladrões de Bicicletas desde que nasceram até agora.
***
Ao escolher os marcadores, imaginei criar um novo, "disparates", mas não o fiz. Ia ter de o pôr em praticamente todos os posts...
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Queyras
Ontem, na Sala de Música de Câmara da Filarmonia.
Música como se estivesse escrito que só podia ser assim. Como se compositor, intérprete e instrumento fossem um só: compositorintérpretinstrumento.Queria passar aqui o Largo do concerto em sol maior RV 812 e o Largghetto do concerto em fá maior RV 412, de Vivaldi, tocados por Queyras. Dois momentos muito especiais do concerto de ontem. Mas não encontrei na internet (alguém no youtube anda a dormir muito). Deixo-vos, em troca, este Bach:
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25 outubro 2011
coração de mãe
(daqui)
(daqui)
Abro a caixa do correio, e encontro este livro, com um cartão amoroso:
Um menino de 4 anos a quem a mãe leu este livro ao deitar, na manhã seguinte perguntou: "oh mãe, o fiozinho chega até à escola?"
Para a Helena cujo fiozinho chega além dos oceanos...
Era preciso fazer um outro livro, variação deste tema: o coração dos amigos.
Sobre estes fiozinhos preciosos que nos unem a tanta gente, e nos fazem avançar pela vida com passos alegres.
Muito obrigada, ó coração grande e especial, aí nessa tua ponta do nosso fiozinho!
vejo, com satisfação, que não estou sozinha na minha perplexidade...
O Nuno Serra também se pergunta, no Ladrões de Bicicletas, porque é que os Bancos podem subir as taxas de juro de certos países com base nos ratings, mas exigem dos Estados que sejam solidários e não deixem nenhum deles entrar em incumprimento. Ou é um empréstimo de risco (o que justificaria os juros altos, porque se corre o risco de não receber o dinheiro de volta) ou então não é (e não se justificam os juros altos).
Vejo, com satisfação, diz ela.
Satisfação...
Está tudo maluco. Só é trágico que os bilhetes para este show sejam a um preço tão alto, e sejam pagos pelos que menos têm.
Vejo, com satisfação, diz ela.
Satisfação...
Está tudo maluco. Só é trágico que os bilhetes para este show sejam a um preço tão alto, e sejam pagos pelos que menos têm.
lunchkonzert - 25.10.11
A primeira peça era de Kodály: Serenade für zwei Violinen und Viola.
Não vou dizer nada, porque há aqui gente que percebe de música e eu não me quero envergonhar. Mas valeu a pena, porque a segunda peça era de Brahms, o quinteto para clarinete, op.115, e foi uma delícia.
Ao clarinete, Ib Hausmann. Li no programa que está a trabalhar neste momento numa nova versão dos Kindertotenlieder, com o pianista de jazz Michael Wollny. Já estou curiosa.
Também participou no CD da Anne Sofie von Otter, Terezin, com música do campo de concentração de Theresienstadt. Um CD que me confunde: como é que músicos que nunca passaram fome nem frio, que nunca foram despojados de toda a sua dignidade de seres humanos, poderão interpretar aquela música em toda a sua terrível verdade? Já o disse aqui várias vezes: depois de ter ouvido um sobrevivente de Buchenwald cantar "Oh Buchenwald wie kann ich dich vergessen", nenhuma interpretação de canções destas me será suficiente. Pensei nisso por uns momentos, mas o clarinete de Ib Hausmann chamou-me para Brahms, e lá fiquei.
Não vou dizer nada, porque há aqui gente que percebe de música e eu não me quero envergonhar. Mas valeu a pena, porque a segunda peça era de Brahms, o quinteto para clarinete, op.115, e foi uma delícia.
Ao clarinete, Ib Hausmann. Li no programa que está a trabalhar neste momento numa nova versão dos Kindertotenlieder, com o pianista de jazz Michael Wollny. Já estou curiosa.
Também participou no CD da Anne Sofie von Otter, Terezin, com música do campo de concentração de Theresienstadt. Um CD que me confunde: como é que músicos que nunca passaram fome nem frio, que nunca foram despojados de toda a sua dignidade de seres humanos, poderão interpretar aquela música em toda a sua terrível verdade? Já o disse aqui várias vezes: depois de ter ouvido um sobrevivente de Buchenwald cantar "Oh Buchenwald wie kann ich dich vergessen", nenhuma interpretação de canções destas me será suficiente. Pensei nisso por uns momentos, mas o clarinete de Ib Hausmann chamou-me para Brahms, e lá fiquei.
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pobre Europa
Uma troca de sorrisos que daria matéria para vários estudos sobre o que está a acontecer à nossa Europa.
Bem sei que sorrir é humano, e que o Berlusconi anda há anos a moer a paciência a todos, mas custa-me assistir a esta degradação das relações entre os políticos europeus.
(Por outro lado, diziam ontem no noticiário alemão, estes sorrisos acordaram a Itália: o governo começou finalmente a trabalhar a sério na resolução do problema do seu défice gigantesco - tão grande, que deixa os da Grécia e de Portugal parecerem uma brincadeira de crianças.)
24 outubro 2011
este post é apenas para residentes em Berlim, ou pessoas que tencionem estar em Berlim em fins de Novembro de 2011
A quem interessar possa:
* Alguém quer um bilhete para o concerto do Qeyras, amanhã (25.10), por 10 euros?
* 26 e 27 de Novembro, "Shakespeares Sonette" by Robert Wilson and Rufus Wainwright, Berliner Ensemble
* 30 de Novembro, Philippe Jaroussky, Freiburger Barockorchester, Petra Müllejans, árias e peças instrumentais de Händel
Amanhã vou comprar os bilhetes para este concerto. E desta vez, nem que chova, compro-os de frente.
Para te ouvir melhor, como dizia o outro.
Para te ver melhor, como dizia também - hehehehe, eu bem me entendo.
(Os lugares mais perto do palco já estão esgotados. Isto parece que eu não sou a única com olhos grandes, nesta cidade)
* Alguém quer um bilhete para o concerto do Qeyras, amanhã (25.10), por 10 euros?
* 26 e 27 de Novembro, "Shakespeares Sonette" by Robert Wilson and Rufus Wainwright, Berliner Ensemble
* 30 de Novembro, Philippe Jaroussky, Freiburger Barockorchester, Petra Müllejans, árias e peças instrumentais de Händel
Amanhã vou comprar os bilhetes para este concerto. E desta vez, nem que chova, compro-os de frente.
Para te ouvir melhor, como dizia o outro.
Para te ver melhor, como dizia também - hehehehe, eu bem me entendo.
(Os lugares mais perto do palco já estão esgotados. Isto parece que eu não sou a única com olhos grandes, nesta cidade)
regressar
Por causa de umas músicas de Manos Hadjidakis que encontrei no facebook (esta e esta), lembrei-me dos Esquirols, cujas músicas cantava de cor há trinta anos.
Belos tempos. Belas canções: com optimismo e divertida crítica social, alimentavam em mim, e nos amigos com quem as cantava, a vontade de fazer um mundo melhor. Mais: faziam-nos crer que esse mundo em que acreditávamos era não apenas possível, mas uma verdade incontornável.
Quanto do que sou criou raízes ao fazer a segunda voz do Fent Cami?
Hoje regressei a essas canções: vou ao meu encontro.
Fent camí per la vida
ens tocarà menjar la pols,
ficar-me al mig del fang
com han fet molts.
Compartir el poc aliment
que porto al meu sarró,
tant si m'omple la joia
com si em buida la tristor.
Vindran dies d'angoixa,
vindran dies d'il·lusió-
Com la terra és incerta,
així sóc jo.
Dubtaré del compromís
i, a voltes, diré no.
I em mancarà quan calgui
decisió.
Però lluny, a l'horitzó (amb la llum resplendent, la força del vent m'empeny endavant)
Ja lliure de l'engany (són els homes)
en veure milers, com jo,
que van venvent la por (que van vencent la por)
Alleugeriré el pas (és la joia i l'esperit, la força del crit)
duent amb mi el sarró (que em guia davant)
i avivaré amb el cant (tan lleuger com el pas dels meus companys)
el pas dels meus companys
endavant
Belos tempos. Belas canções: com optimismo e divertida crítica social, alimentavam em mim, e nos amigos com quem as cantava, a vontade de fazer um mundo melhor. Mais: faziam-nos crer que esse mundo em que acreditávamos era não apenas possível, mas uma verdade incontornável.
Quanto do que sou criou raízes ao fazer a segunda voz do Fent Cami?
Hoje regressei a essas canções: vou ao meu encontro.
Fent camí per la vida
ens tocarà menjar la pols,
ficar-me al mig del fang
com han fet molts.
Compartir el poc aliment
que porto al meu sarró,
tant si m'omple la joia
com si em buida la tristor.
Vindran dies d'angoixa,
vindran dies d'il·lusió-
Com la terra és incerta,
així sóc jo.
Dubtaré del compromís
i, a voltes, diré no.
I em mancarà quan calgui
decisió.
Però lluny, a l'horitzó (amb la llum resplendent, la força del vent m'empeny endavant)
Ja lliure de l'engany (són els homes)
en veure milers, com jo,
que van venvent la por (que van vencent la por)
Alleugeriré el pas (és la joia i l'esperit, la força del crit)
duent amb mi el sarró (que em guia davant)
i avivaré amb el cant (tan lleuger com el pas dels meus companys)
el pas dels meus companys
endavant
sim, está bem, têm razão...
Pois lá terei de dar razão aos que criticam a onda geral de comoção que correu a internet quando o Steve Jobs morreu (aqui têm um post que é um óptimo três em um sobre este assunto). Mas - que querem? - fiquei cheia de pena de mim própria: por causa das coisas que ele já não vai inventar e que com certeza me iam fazer muita falta.
***
Mais ou menos a propósito, uma bela crónica do Ricardo Araújo Pereira na Visão:
São Steve Jobs
A vida de Steve Jobs mudou o mundo, mas a sua morte mudou-o ainda mais. Os zingarelhos que inventou são bonitos, divertidos, e alguns chegam mesmo a ser úteis. Mas nenhum deles causou um impacto tão profundo como o desaparecimento do seu autor. Antes da morte de Steve Jobs, vivíamos no mundo antigo; agora, vivemos no futuro. Sabemos que se trata do futuro porque é absolutamente inesperado: ninguém, nem a ficção científica mais imaginativa, o conseguiu prever. Quando eu nasci quase não havia informáticos. Depois passou a haver, mas ninguém os queria para líderes espirituais. Agora, quando um informático morre, o mundo chora. Nenhuma espécie evoluiu mais depressa que a dos informáticos: em pouco mais de 30 anos, passaram de programadores a profetas.
Sempre achei que o filme Matrix não era especialmente fantasioso no enredo. Matrix era ficção científica porque nenhum daqueles informáticos era totó. Neo, Trinity e Morpheus eram três especialistas em computadores, e no entanto nenhum deles tinha borbulhas ou usava óculos. Era um primeiro sinal de que o mundo estava a mudar. Matrix não era um aviso de que o mundo do futuro ia ser dominado por máquinas, era um aviso de que o mundo do futuro ia ser dominado por informáticos. Era uma previsão ainda mais inquietante, porque nenhum de nós, no liceu, escarneceu de uma máquina. Mas que atire a primeira pedra quem nunca fez pouco do colega que gostava de falar sobre cobol.
Confirmou-se: hoje, tudo o que tem pinta e é perigoso é feito por informáticos. Se um jovem quer ser milionário, fará bem em estudar informática, como Bill Gates. Se quer que a sua vida dê um filme, fará bem em estudar informática, como Mark Zuckerberg. Se quer ser pirata, fará bem em estudar informática, como os hackers. E se quer fundar uma semi-religião, fará bem em estudar informática, como Steve Jobs.
Quando, há dias, se soube que o Papa tinha usado o seu iPad para publicar um tweet, percebemos duas coisas. Primeiro, que é possível publicar tweets no Tweeter com um iPad, enquanto se ressalva: "Sim, mas isso do preservativo são modernices." Segundo, que a religião secular criada por Steve Jobs era olhada com benevolência pela outra, o que também era surpreendente por duas razões. Uma: porque neste tipo de negócio a concorrência não costuma ser apreciada. Duas: porque Deus costuma ficar mesmo muito irritado quando vê uma maçã trincada. A Apple tem de ser mesmo muito encantadora, para seduzir o Vaticano.
23 outubro 2011
die Gorillas - teatro de improviso
A minha vizinha perguntou se queríamos ir a um teatro de improviso em Kreuzberg, e eu: que é isso? e ela: o público chega, diz o que quer ver, e eles inventam na hora e fazem. Sim, claro que vamos!
Duas horas fantásticas, foi o que foi. O público pedia, eles manipulavam um bocadinho
(o momento mais evidente foi este: que tema querem agora? universo! e dentro do universo, o quê? buracos negros! frigoríficos! o universo que nos rodeia... algo que está sempre à nossa volta... anjos? Sim, vamos fazer uma peça com anjos no universo)
representavam, e o público no fim gritava pepino (fraquinho) ou banana (bom).
"Pepino ou banana" - Gurke oder Banane - é o nome do show.
Tiveram momentos fantásticos: a peça em que uma mulher andava a recolher garrafas de vidro para vender, um homem que fazia inquéritos metia conversa com ela, e era o público que gritava o que queria ver no passo seguinte (zanga! sentimento de culpa! amor! prazer sexual! asco! desprezo! compaixão!).
Ou as canções criadas na hora segundo o mote dado pelo público (de que há um exemplo no filme que se segue).
Ou a peça em que não podiam dizer a letra m. Maravilha! (Ooops, já perdi)
E ainda uma improvisação a partir de um objecto entregue pelo público, um anel, que os levou para o Japão dos shogun, mãe e filha a discutir o valor simbólico daquele anel de gueixa, com uma variação hilariante: o actor que estava a imaginar a peça e a dar indicações sobre a sua evolução decidiu que sempre que batesse as palmas elas passavam de alemão para japonês e vice-versa - era de morrer a rir quando elas retomavam a frase em alemão, sem qualquer pausa a seguir à melopeia japonesa.
Tudo isto acompanhado por música improvisada na hora, segundo as necessidades do momento.
Morrer a rir: isso mesmo. A sala rebentava de riso, olhávamos uns para os outros e ríamos gargalhadas com o corpo todo, numa intensa cumplicidade. À nossa frente, no palco, um bocadinho dessa Berlim mítica: inteligente, culta, genial, descontraída, com uma enorme presença de espírito, de resposta pronta, muito divertida.
Mais uma vez pensei nos amigos portugueses, e na pena que tenho por não falarem alemão e não poderem saborear coisa tão única. Para os outros, os que entendem alemão, aqui fica um conselho: não percam! Para mais informações, vejam aqui.
22 outubro 2011
Liszt em Weimar - um post cheio de presentes de aniversário
200º aniversário - parabéns, senhor Liszt!
No domingo passado recriaram na Filarmonia o salão de Liszt, numa Weimar por volta de 1848. Ouvimos alguma da sua música e da dos amigos que passaram pelo pequeno ducado: Wagner, Berlioz. Ouvimos passagens deliciosas de correspondência: Berlioz invejando-lhe a carreira de pianista, tão mais fácil que a de um compositor, "tu só precisas de um piano e uma sala, e logo tens toda a cidade a teus pés; eu, em contrapartida, se caio na asneira de querer executar uma composição minha, tenho de lutar contra o cepticismo de músicos de péssima qualidade e ainda pior humor - ah, quem me dera ter a tua vida" (cito de memória, ou seja, invento com quantos dedos tenho a bater no teclado) a que se seguiu um desabafo de Liszt "Estou farto farto farto desta vida de pianista, hoje aqui amanhã acolá! Quero parar, quero começar a compor!"
E parou: aceitou finalmente um antigo convite para ir residir em Weimar.
A história começa muito antes, como é costume: com a chegada da irmã do czar, a famosa Maria Pawlowna, que tentou manter o espírito de Weimar, pelo qual a cultura e a tolerância tentavam, de mãos dadas, elevar o nível da população. Para criar um novo período áureo para a cidade, semelhante ao da época de Goethe e Schiller, mas desta vez com música, começou por chamar Johann Nepomuk Hummel, um aluno de Mozart. Após a morte deste, chamou Liszt. Mas Liszt ainda não estava farto de dar concertos e ter todas as cidades europeias aos seus pés, pelo que foi adiando adiando, até que se meteu em sarilhos com uma mulher casada, a Carolyne von Sayn-Wittgenstein, e acreditou na palavra da irmã do czar, que disse que ia dar uma ajudinha para o divórcio.
No que o pobre Liszt se foi meter! A orquestra às suas ordens tinha músicos maus e muito mal pagos e frustrados. Como é que estômagos a rosnar podem produzir arte? E o czar acabou por ordenar à sua irmã que evitasse todo o contacto com a Carolyne von Sayn-Wittgenstein. A corte de Weimar, que bem conhecia a voz do dono, seguiu-lhe o exemplo. Só um punhado de damas, como a escritora Henriette von Schorn, continuaram a frequentar a sua casa, esse palacete de Altenburg fora de muros, na encosta nascente da cidade.
Para calar as más-línguas, Liszt residia oficialmente num hotel do centro, onde a sua correspondência era entregue, enquanto os seus vários pianos de cauda e outros instrumentos musicais residiam na Altenburg, juntamente com a sua amada - e era nessa casa que ele desenvolvia a sua vida social, trabalhava, recebia amigos (como Wagner, que escondeu em 1849, quando este ia a fugir para a Suíça).
Perdido nos desafios da sua revolução de costumes privada, e nas resistências que encontrou na orquestra e na corte, Liszt acabou por ficar de fora dos movimentos revolucionários de 1848. E não venham agora criticar, que enquanto não se meteu em políticas tratou de compor uma dúzia de poemas sinfónicos e outras delícias assim. Praticamente amarrado à cadeira pela sua namorada, que se queixava que, não lhe faltando génio, tinha um grave problema de fundilhos: era pouco amigo de se sentar a trabalhar.
Génio não lhe faltava, é certo: tanto musical, como intelectual. Propôs ao grão-duque que criasse uma Fundação Goethe, para promover a literatura e a música alemãs, propôs também que criasse um teatro Wagner para as obras deste compositor, especialmente para o Anel dos Nibelungos. O grão-duque dizia que sim a tudo, mas tudo ficou em águas de bacalhau. Bayreuth aplaudiu.
Que lhe restava? Um grupo de intelectuais incompreendidos pelo seu tempo, com quem partilhava os salões da Altenburg: a primeira feminista alemã, Fanny Lewald, com o seu companheiro, Adolf Stahr; Bettine von Arnim, Peter Cornelius, entre outros. E também o dissidente político Hoffmann von Fallersleben (o poeta que escreveu o hino nacional alemão), que após cair em desgraça em Dresden foi ajudado por Liszt em Weimar. É de Fallersleben a ideia de criar o "clube nova Weimar", uma instituição que, com Liszt, Fallersleben e Berlioz à sua frente, declara guerra ao conservadorismo da cidade.
Ora, dessa é que Goethe não se tinha lembrado! Quando se começou a sentir sufocado pelo provincianismo da sociedade de Weimar, pediu licença aos pés e pôs-se a andar para Itália. Ao fim de uns tempos regressou, contagiou os amigos com o vírus do sul, levou-os lá, sacudiu mais um pouco o pó da corte, mas nem assim conseguiu mudar muito a cidade. Liszt fugiu apenas para a Altenburg, na encosta da saída para Jena, onde se encontrava com amigos da nova Weimar, onde recusava a entrada aos da velha. Uma luta sem tréguas, que acabou por perder. Como perdeu outra: a sua Carolyne, que entretanto conseguira do Papa a anulação do casamento, abandonou-o na véspera do casamento, e Liszt foi para padre.
Mas tudo isso aconteceu muitos anos depois deste 1848, muito longe deste salão filarmónico onde um actor lê uma carta da Carolyne apaixonada, e ela diz que beija os pés do seu querido amante, varre com os cabelos o chão que ele pisa. O público aplaude, encantado, eu não - era o que faltava aplaudir um amor assim!
A pianista e o violoncelista começam a tocar Liebestraum, sonho de amor - música que eu já não ouvia desde os meus quinze anos. Estas melodias que nos surgem do esquecimento de muitos anos têm algo de mágico: oferecem um salto no tempo, por acordarem em nós aquilo que éramos na época em que as ouvíamos. Por uns minutos fui de novo adolescente, arrebatada pela beleza daquela música tranquila numa sala cheia de sol, na casa da minha avó.
Liebestraum, uma das peças mais famosas de Liszt, foi originalmente composta para um poema: "oh, ama enquanto puderes amar! / Oh, ama enquanto quiseres amar! / chegará a hora, chegará a hora / em que chorarás junto à campa".
Aqui estão duas versões da mesma peça:
- com Gundula Janowitz a cantar:
- com Evgeny Kissin ao piano:
Fora eu moradora de Weimar nessa época, ter-me-ia juntado ao grupo "Neues Weimar". Por todos os motivos, e também por cálculo, não escondo. Para poder sentar-me num canto do salão, ao lado da Henriette von Schorn, a ouvir esta música composta para um conjunto inesperado de instrumentos: violoncelo, piano, harmónio e harpa.
Para terminar, três presentes de 200º aniversário:
- A orquestra sinfónica de Viena, tocando "Les Préludes", sob a batuta do maestro Valery Gergiev.
- A Rapsódia Húngara nº2, tocada por Alfred Brendel e por Georges Cziffra (no dizer do jornal The Epoch Times, onde fui buscar alguns destes links, "o pianista húngaro foi aos nove anos de idade aluno de um aluno de Liszt, e toca esta peça de forma arrebatadora e selvagem. Liszt deve ter sido uma força da natureza assim.")
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Weimar
sendo legal, não é justo
(daqui)
Esta semana mais me valia pôr um colchão num cantinho qualquer da Filarmonia: sete concertos em dez dias: 1 2 3 4 5 6 7 (sobre o salão filarmónico e o Pablo Heras-Casado hei-de contar aqui, assim me ajudem engenho e arte e sobretudo tempo, que isto de viver para contar não é para todos, e eu, por azar, sou mais a escrita ou a vida)
Às vezes penso que Deus reservou um nogueiral inteiro só para mim, e se esqueceu que sou alérgica a nozes. Então, e os outros, os que têm dentes e fome?
Vou a alguns destes concertos com bilhetes que compro, outros vêm ter comigo. Garanto que tudo isto que me acontece é legal. Mas não é justo, convenhamos. Sempre que me sento numa cadeira daquela sala dói-me mais aguda a ausência de tantos amigos portugueses: de bom grado lhes cederia o meu lugar, ou arranjaria também bilhetes para eles.
21 outubro 2011
o Kadafi e nós
Ao ver por aí as fotografias dos apertos de mão entre os senhores do mundo ocidental e o Kadafi, ao ler as críticas a esses senhores - consta que capazes de vender a própria avó por uns barris de petróleo e um cordão de segurança que proteja a Europa da África -, só me ocorre isto:
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
Aqueles apertos de mão eram dados para defender os nossos interesses: para termos gasolina para os nossos passeios alegres, para não termos as ruas cheias de africanos pobres, para as nossas empresas terem oportunidades de negócio.
Se não gostam de tocar a mão de quem mata as galinhas, não as comam.
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
Aqueles apertos de mão eram dados para defender os nossos interesses: para termos gasolina para os nossos passeios alegres, para não termos as ruas cheias de africanos pobres, para as nossas empresas terem oportunidades de negócio.
Se não gostam de tocar a mão de quem mata as galinhas, não as comam.
20 outubro 2011
trabalhar ao som de música assim (2)
Adenda importante: mudei a versão desta "Pavane pour une infante défunte" para uma mais lenta, como uma excelente comentadora sugeriu, na caixa de comentários.
Será que já disse hoje que o maior orgulho deste blogue são os seus comentadores?
cenários
A Christina nasceu duas semanas depois da data prevista. Durante esses dias de espera (se disser "de ansiosa espera", é um eufemismo descarado) ia várias vezes por hora ao cenário que tinha preparado para ela: controlar se o cobertor no bercinho continuava fofo, olhar as roupinhas minúsculas e o ursinho que a esperavam.
Quase dezoito anos mais tarde, vivo a mesma cena pelo avesso: vou ao quarto do Matthias procurá-lo no cenário que ele próprio construiu.
Descubro, com uma enorme gargalhada, que deixou vários post-it com recados para o Miguel* (o miúdo colombiano que decidiu regressar por dois meses à nossa casa, e a quem o Matthias ofereceu o seu quarto desocupado, por ser melhor que o das visitas):
- Na porta do armário: "esta parte do armário é para ti"
- Nos patins de gelo: "caso queiras ir patinar"
- Nas bandeiras do Hertha BSC: "para agitar com força no Olympia Stadion!"
O Matthias faz hoje 15 anos. Do outro lado do mundo. Os avós emprestados vão-lhe fazer um bolo de chocolate, como é tradição nos nossos aniversários. Ontem, ele próprio queria fazer um bolo para levar para a escola, mas disseram-lhe que lá isso não é costume. Não é? Podia começar a ser - para isso é que os jovens se entregam à árdua tarefa de fazer pontes entre as culturas.
***
* O Miguel, pois. O nosso Miguelito. Vai ficar cá em Novembro e Dezembro. A família convidou o Matthias para fazer férias com eles no fim do ano: Colômbia, Cancún, Miami - todas as despesas incluídas, até os voos. O rapaz, depois de pensar seriamente, agradeceu muito mas declinou o convite: tem outros planos.
(Gostei de ver: não é deslumbradinho)
Quase dezoito anos mais tarde, vivo a mesma cena pelo avesso: vou ao quarto do Matthias procurá-lo no cenário que ele próprio construiu.
Descubro, com uma enorme gargalhada, que deixou vários post-it com recados para o Miguel* (o miúdo colombiano que decidiu regressar por dois meses à nossa casa, e a quem o Matthias ofereceu o seu quarto desocupado, por ser melhor que o das visitas):
- Na porta do armário: "esta parte do armário é para ti"
- Nos patins de gelo: "caso queiras ir patinar"
- Nas bandeiras do Hertha BSC: "para agitar com força no Olympia Stadion!"
O Matthias faz hoje 15 anos. Do outro lado do mundo. Os avós emprestados vão-lhe fazer um bolo de chocolate, como é tradição nos nossos aniversários. Ontem, ele próprio queria fazer um bolo para levar para a escola, mas disseram-lhe que lá isso não é costume. Não é? Podia começar a ser - para isso é que os jovens se entregam à árdua tarefa de fazer pontes entre as culturas.
***
* O Miguel, pois. O nosso Miguelito. Vai ficar cá em Novembro e Dezembro. A família convidou o Matthias para fazer férias com eles no fim do ano: Colômbia, Cancún, Miami - todas as despesas incluídas, até os voos. O rapaz, depois de pensar seriamente, agradeceu muito mas declinou o convite: tem outros planos.
(Gostei de ver: não é deslumbradinho)
19 outubro 2011
18 outubro 2011
sexo na Filarmonia
Estava eu toda aplicada a traduzir humor russo para humor helenês (e até me pagam, vejam lá a sorte que eu tenho!) quando o telefone tocou, e era um amigo que queria saber do Lunchkonzert na Filarmonia, e eu que hoje não, não vou, mas fui dar uma vistinha de olhos e quase saltava na cadeira: hoje tocava o Edicson Ruiz! Não conhecia os compositores, mas sendo o Edicson Ruiz a tocar, nem que tocasse debaixo de água, eu ia. E fui.
O Edicson Ruiz é um contrabaixista venezuelano que aos 16 anos tocava na Simón Bolivar e aos 18 já era membro da Filarmónica de Berlim. Agora (aos dezoito e meia semana, que ele não tem cara para mais...) podia dar-lhe para tiques de génio, mas não: é uma pessoa extremamente simpática, afável, simples e alegre. Um doce.
Além disso, toca contrabaixo como poucos. Aliás: minto. Ele não toca. Nem sequer interpreta. Ele é atravessado pela música. Hoje vi-o tocar de cor: "cor" de coração e de corpo - inteiro. Durante os solos da pianista fechava os olhos e sorria, o corpo agitava-se nas ondas dos acordes do piano. Depois abraçava o seu violoncelo, debruçava-se sobre ele, passava o arco certeiro e leve. Parecia sexo, e do melhor: decantado por uma imensa intimidade, entrega e confiança. Ao pensar nisso, não pude evitar um sorriso, que ficou esquecido na minha cara durante todo o concerto. O meu corpo embalado, a cabeça indecisa: ora nas seis e cinco, ora nas dez para as seis. Encantada.
Hoje tocava música do séc. XVIII de Viena, mas não se notava muito a cabeleira empoada, os frufrus da corte austríaca. Por vezes pareceu-me ver-lhe passar pelas cordas a brisa de algum pássaro colorido, um eco de cascata na selva. Uma chama latina: e o quanto aquela música saía enriquecida!
Não acreditam, ó cambada de Sãos Tomés? Pois tivessem ido ver, para crer: esteve no Centro Cultural de Belém em Abril, no Coliseu do Porto em Maio, no Auditório de Espinho em Julho. Vou ficando atenta e, se voltar a Portugal, aviso!
Para quem mora em Berlim, para anotar no calendário:
17 December 2011, Berlin, Institut Francais
Tomoko Takahashi, piano
A. Zimmermann, Concerto in D
C. D. von Dittersdorf,
Kontrabass Konzert in E-flat
H. Holliger, Preludio e Fuga
E agora toca a trabalhar: lá vou eu rir outra vez por entre as linhas do Kaminer.
O Edicson Ruiz é um contrabaixista venezuelano que aos 16 anos tocava na Simón Bolivar e aos 18 já era membro da Filarmónica de Berlim. Agora (aos dezoito e meia semana, que ele não tem cara para mais...) podia dar-lhe para tiques de génio, mas não: é uma pessoa extremamente simpática, afável, simples e alegre. Um doce.
Além disso, toca contrabaixo como poucos. Aliás: minto. Ele não toca. Nem sequer interpreta. Ele é atravessado pela música. Hoje vi-o tocar de cor: "cor" de coração e de corpo - inteiro. Durante os solos da pianista fechava os olhos e sorria, o corpo agitava-se nas ondas dos acordes do piano. Depois abraçava o seu violoncelo, debruçava-se sobre ele, passava o arco certeiro e leve. Parecia sexo, e do melhor: decantado por uma imensa intimidade, entrega e confiança. Ao pensar nisso, não pude evitar um sorriso, que ficou esquecido na minha cara durante todo o concerto. O meu corpo embalado, a cabeça indecisa: ora nas seis e cinco, ora nas dez para as seis. Encantada.
Hoje tocava música do séc. XVIII de Viena, mas não se notava muito a cabeleira empoada, os frufrus da corte austríaca. Por vezes pareceu-me ver-lhe passar pelas cordas a brisa de algum pássaro colorido, um eco de cascata na selva. Uma chama latina: e o quanto aquela música saía enriquecida!
Não acreditam, ó cambada de Sãos Tomés? Pois tivessem ido ver, para crer: esteve no Centro Cultural de Belém em Abril, no Coliseu do Porto em Maio, no Auditório de Espinho em Julho. Vou ficando atenta e, se voltar a Portugal, aviso!
Para quem mora em Berlim, para anotar no calendário:
17 December 2011, Berlin, Institut Francais
Tomoko Takahashi, piano
A. Zimmermann, Concerto in D
C. D. von Dittersdorf,
Kontrabass Konzert in E-flat
H. Holliger, Preludio e Fuga
E agora toca a trabalhar: lá vou eu rir outra vez por entre as linhas do Kaminer.
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trabalhar ao som de música assim
(se fosse sempre com música assim, quase nem me importava de trabalhar mais 30 minutos por dia) (quase!) (não, esqueçam, eu não disse nada...)
17 outubro 2011
a coragem de mudar a História
(aqui)
Na manifestação de sábado passado fiquei especialmente comovida com os olhos brilhantes de alguns manifestantes da antiga RDA, quando se referiam ao 4 de Novembro de 1989. Falaram em quase um milhão de pessoas em Berlim leste, apesar de um regime totalitário, apesar da Stasi. Apesar de haver motivos muito sérios para temer retaliações graves, as pessoas foram para a rua!
Essa gente teve a coragem de mudar a História, em condições bem mais adversas que as que nós temos hoje.
16 outubro 2011
15O - "nada é mais poderoso que uma ideia quando chegou o seu momento"
"Ouvir a crise: para uma Europa solidária!" era o nome do encontro que o attac de Berlim organizou para o dia de ontem, 15 de Outubro, com início às 10 da manhã e terminando às 5 da tarde com uma manifestação em frente à Chancelaria. Porque - afirmavam eles - não basta manifestar-se na rua, é fundamental debater, entender o que se está a passar e delinear os passos seguintes.
O encontro decorreu no Grips Theater em Tiergarten, que estava bastante cheio, com um público incrivelmente variado: desde jovens rastas a homens de fato e gravata. Todos igualmente atentos, preocupados, participativos.
No primeiro painel, convidados da Grécia (Kyriakos Chatzistefanou e Katerina Kitidios, autores do filme Debtocracy), da Espanha (Carlos Cuesta, do Movimento 15 de Maio) e da Islândia (Einar Gudmundsson, escritor e activista político) falaram sobre o que está a acontecer nos seus países.
Alguns apontamentos dessas intervenções e do respectivo debate:
Na Grécia a polícia tem usado de uma chocante brutalidade. Mas o que mais assusta é que as pessoas se estão a desmobilizar: cada um começou a tratar da sua vida e da sua sobrevivência. A corrupção, sendo um problema grave, não é o maior. Muito mais assustador é todo um sistema legal que protege os erros do sistema e a injustiça social (não vale a pena ir para tribunal: no fim, descobre-se que tudo o que fizeram era legal), e um sistema fiscal absurdo (um exemplo - e penso que ouvi bem, mas parece-me que ouvi mal: no ano passado, os armadores gregos pagaram 12 milhões de euros de impostos, enquanto os imigrantes que queriam regularizar a sua situação na Grécia pagaram 50 milhões de euros).
O elemento mais importante do movimento espanhol é o debate: falar com todas as pessoas, dar voz a todos - e não importa que a polícia impeça o acesso a uma praça, outras há. Nota-se que há uma tentativa de dividir as pessoas - "nós não somos a Grécia" - mas, se olhamos para a Grécia, vemos as mesmas pessoas, os mesmos problemas, a mesma luta.
O escritor islandês começou com uma anedota: um antropófago estava sentado num lugar da primeira classe num avião. A hospedeira trouxe-lhe a lista, ele leu com atenção, e a seguir pediu gentilmente: "como não encontrei aqui nada que me interessasse, importava-se de me trazer a lista dos passageiros?"
Lembrou que é fundamental encontrar as palavras certas para que todos possam entender o que está a acontecer, e que a solução passa necessariamente por mais e melhor Democracia. Precisamos de uma cultura de abertura e transparência, temos de exigir transparência ao sistema financeiro. E temos de permanecer unidos: não podemos cair no erro de dizer que um país é melhor que outro, pois estamos todos a aprender uns com os outros e a lutar em conjunto.
Onde está o jornalismo de investigação? Como foi possível chegar a uma situação em que os media estão na mão dos governos ou dos interesses privados que deixaram os países chegar a esta situação crítica?
Não podemos cair na armadilha da divisão: gregos contra alemães, alemães contra gregos, países aplicados contra países preguiçosos, norte contra sul. Temos de lutar em conjunto, porque esta não é uma luta entre povos, mas uma luta dos povos contra as elites financeiras. Estamos perante uma crise do capitalismo, que começou nos anos 70 e se tornou muito evidente a partir de 2007. A esse problema junta-se o da zona Euro, uma moeda única que provoca crises na periferia e só pode funcionar bem em contexto de expansão económica.
Porquê pôr adjectivos ao capitalismo? Porquê dizer que o problema é o "casino capitalista"? O problema é o capitalismo, simplesmente.
Se nos centrarmos demasiado no problema da corrupção, perdemos a visão do conjunto: os problemas estruturais desta fase do capitalismo e da zona euro.
Ao tentar "salvar" a Grécia, a Alemanha está a agravar o problema, porque não luta contra as elites financeiras e não está a permitir que os povos resolvam o problema de forma estrutural e solidária.
Intervalo para o almoço. No café, um grupo discutia animadamente o poder dos bancos. Um dos participantes, o mais exaltado, suspirou: "Fazem tudo o que querem. Já não nos espanta que a Angela Merkel deixe que o presidente do Deutsche Bank festeje o seu aniversário na Chancelaria!"
O segundo painel focava as causas da crise.
Harald Schumann, jornalista do Tagesspiegel, começou por revelar que é um especulador. No verão passado aplicou 18.800 euros em títulos da dívida da Grécia a um mês, e passados trinta dias tinha feito um lucro de 1.200 euros. Como é que isto é possível?, perguntava ele.
O erro fundamental do mecanismo europeu de estabilização do euro é que não se destina a salvar o povo grego, mas os credores daquele país, e obrigam os contribuintes europeus a responder pelo risco dos investidores privados que emprestaram dinheiro à Grécia. "Ajuda" não se pode confundir com resolver os problemas dos credores privados. Os Estados não devem pagar aos especuladores.
Proposta: fazer uma conferência internacional de credores, perdoar 50% da dívida dos Estados, garantindo o pagamento da outra metade. Com certeza que esta decisão pode levar muitos bancos à falência, em grande parte devido ao arrastamento da reforma bancária que se queria fazer em 2008 e não fez. Alguns desses bancos podem receber ajuda estatal, mediante certas condições: controle efectivo exercido pelo Estado; despedimento dos gestores em cujas mãos os bancos foram conduzidos a esta situação; interrupção do pagamento de dividendos aos accionários.
Esta proposta teria custos brutais, mas seriam custos que valem a pena, porque permitiriam resolver o problema estrutural, em vez da dinâmica a que temos vindo a assistir, que usa o mesmo dinheiro apenas para protelar a resolução do problema.
De momento, o Banco Central Europeu está a agir como o baluarte dos interesses bancários, contra o dos contribuintes europeus que afinal deveria servir.
Precisamos de uma Europa unida, um parlamento europeu forte, uma eleição democrática dos comissários.
A solução de eurobonds, se não for apoiada numa forte democracia europeia, transformar-se-á numa ditadura dos tecnocratas.
Nicola Liebert, jornalista do TAZ, falou sobre os mecanismos de redistribuição. Lembrou que a crise da dívida nasceu da crise financeira, e que os Estados estão a meter dinheiro no sistema mas não estão a cobrar os impostos necessários. Os bancos cresceram demasiado, até um ponto em que podem chantagear os Estados. Há demasiado dinheiro na mão de muito poucos, e é usado para especular contra os Estados, jogar no mercado de derivados e especular com matérias-primas. A probabilidade de ocorrer uma crise aumenta com a concentração da riqueza - e neste momento a riqueza está mais concentrada que antes da crise de 1929.
Propostas: expropriações, tal como foi feito a seguir à segunda guerra mundial (ir buscar o dinheiro necessário para pagar a dívida à riqueza existente e não aos rendimentos do trabalho), e criação de um imposto sobre a riqueza (apesar da dificuldade em avaliar o imobiliário e do risco das fugas de capitais para offshores).
Virginie de Romanet, do Comité para Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, referiu o Chile de Pinochet onde se puseram em prática as teorias neoliberais, a crise profunda no Sul, o alastramento dessas políticas ao Norte, e as consequentes alterações graves no equilíbrio entre trabalho e capital. Um exemplo: hoje, um grupo de 1210 multimilionários é detentor de uma riqueza igual ao PNB de toda a América Latina - vou repetir: 1210 pessoas têm tanto como 580 milhões de pessoas (e não são as mais pobres, mas todos os habitantes da América Latina, pobres e ricos!).
No debate que se seguiu, a questão fundamental foi a Democracia: é necessário quebrar ou pelo menos controlar o poder dos lobbies e dos bancos, para que estes não possam chantagear a Democracia; é necessário que as pessoas se dêem conta do seu próprio poder (por exemplo: que perguntem ao seu banco o que é feito com o dinheiro depositado); é fundamental que as pessoas participem, exijam dos partidos, confrontem os seus deputados. Também é preciso unir mais a Europa - isso não significa que se percam as identidades nacionais, mas todos os países terão de abrir mão de parte da soberania.
O ministro dos negócios estrangeiros do Equador, Ricardo Patiño, foi convidado para uma pequena intervenção, o que ele começou por criticar em tom bem-disposto: "então venho do Equador para falar cinco minutos?"
Grandes cinco minutos! Em linguagem muito directa e simples contou o que se passou no seu país: o governo teve a ousadia de mandar fazer uma auditoria oficial à dívida externa, e chegou à conclusão que grande parte da dívida, sendo legal, era ilegítima. Era legal, mas porque as leis tinham sido feitas para beneficiar o sistema financeiro e não o povo. O problema da dívida equatoriana começou nos anos 70, com a ditadura. Grande parte da dívida começou por ser privada, mas nos anos 80 o Estado optou por assumir a dívida de bancos e empresas irresponsáveis, estatizando-a. A partir do momento em que o Estado começou a responder por estas dívidas, os juros que eram de 2% ou 4% saltaram para 21%. A ajuda do FMI implicava cláusulas que impediam o Estado de investir na sociedade.
Em resposta, o governo decidiu parar o pagamento da dívida em 2008. Aos credores, disse que apenas 35% da dívida era legítima, e que só essa seria paga. Aqueles, surpreendentemente, concordaram sem discussão. Os contratos petroleiros foram renegociados, o investimento na educação e na saúde aumentou, o país tem agora dinheiro para construir infra-estruturas, a tão necessária refinaria e até 8 hidroeléctricas.
Terminou com um conselho para a Grécia, a Espanha e Portugal: "por amor de Deus, não façam caso do FMI!"
A seguir, as pessoas separaram-se em cinco workshops:
- Como tirar poder aos mercados financeiros
- Redistribuição e justiça fiscal
- Resistência às políticas de austeridade
- Para uma verdadeira Democracia
- Anular dívidas ilegítimas
Dividida entre o das políticas de austeridade e o da Democracia, acabei por ir para este último. Nele se falou do assalto à Democracia, de um poder político completamente dominado pelos interesses do mercado, de uma Angela Merkel que diz algo como "temos de fazer com que os deputados votem de acordo com o mercado", de um pacto para a estabilidade do euro que foi celebrado entre países e está totalmente fora da jurisdição do Parlamento Europeu. Sublinhou-se a necessidade de distinguir entre a crise actual e uma solução de longo prazo, e anunciou-se que a falência dos bancos em efeito dominó pode estar para breve, e que há que pensar num plano de emergência para essa eventualidade.
Nota: tentei fazer um relato o mais fidedigno possível, mas não posso garantir ter transcrito fielmente o que foi dito, e não tenho tempo para ir verificar ponto a ponto a veracidade destas afirmações. Contudo, parece-me interessante descrever alguns pontos deste debate ocorrido ontem em Berlim, vincando algo que me agradou muito: não é uma luta de portugueses e gregos contra alemães, mas uma luta de todos os povos contra as elites financeiras que arranjaram maneira de nos roubar legalmente.
Entretanto, a manifestação que à uma da tarde tinha saído da Alexanderplatz já estava na Chancelaria, e não queria esperar mais, pelo que não pudemos fazer um plenário, e saímos apressadamente para uma caminhada de vinte minutos ao longo do rio Spree. De repente vi-me com uma enorme tira do attac nas mãos, onde se lia "o mundo não é uma mercadoria". O que me valeu, pelo caminho, sorrisos e acenos em quantidade tal como já não me acontecia desde que atravessei a cidade numa pequena coluna de Trabis.
A meu lado, uma senhora já de certa idade comentava: "como é que a Angela Merkel conseguirá compatibilizar o que faz com a sua consciência de cristã?" e criticava os governos europeus, os políticos que se deixam enrolar pelos mercados. Depois, com os olhos muito brilhantes, lembrou a manifestação de 900.000 na Alexanderplatz, a 4 de Novembro de 1989. A manifestação mais especial de toda a sua vida.
Chegámos à Chancelaria, onde havia milhares de manifestantes. À minha volta falavam em referendo sobre a crise do euro, na necessidade de novas eleições. Um camião largava música techno, muitos dançavam. Um polícia de choque olhava para nós. Sozinho, junto ao camião techno. Onde estariam os colegas? Gostei do sintoma de normalidade da manifestação que aquele polícia sozinho representava: se nós fôssemos violentos, eles seriam muitos, e com ar feroz. Também tive pena dele, que estava ali obrigado a ouvir música ensurdecedora sem sequer poder dançar. Eu não estava obrigada, e bem queria fugir, mas não podia deixar a minha tira enorme "o mundo não é uma mercadoria" nas mãos da manifestante que levava a outra ponta.
A música parou, os discursantes começaram a falar, mas não consegui ouvir nada. Seguimos para o Reichstag, onde se fazia um teatro campal que descrevia os acontecimentos dos últimos meses. O público aplaudiu imenso quando uma tenda entrou no recinto (seria por causa de uma das campistas, que estava nua?), e vaiou os actores que faziam o ingrato papel de mercados. O ambiente era de muita abertura, de uma certa alegria e descontracção, de grande solidariedade.
A nossa tira "o mundo não é uma mercadoria" atraía as pessoas, que vinham ter connosco e pediam para traduzir (pois, aquela zona tem muitos turistas) ou falavam do attac. Um homem ficou, na conversa. Contou-nos - com os olhos a brilhar muito - que a melhor manifestação da vida dele foi a dos 900.000 na Alexanderplatz, no tempo em que ainda tinham bons motivos para morrer de medo. Depois criticou a Angela Merkel, disse que muitos conhecidos seus sentem que voltaram ao tempo do Politbüro, do partido único e da RDA. Insinuou que a Angela Merkel terá sido colaboradora da Stasi, e até podia ser o Guillaume do Kohl. Eu sorri: teorias da conspiração? O sarilho em que estamos metidos já é suficientemente grande, não precisamos de começar a descarrilar para aí.
O edifício do Parlamento estava cercado de grades, e nas escadas havia polícias de choque muito empertigados. Não gostei nada. Parecia uma provocação àquela manifestação tão pacífica e alegre. Não pago os meus impostos para que o Estado mande oficiais seus para a rua exibir-se desta maneira ameaçadora, quando eu estou apenas a exprimir o que penso. Mais tarde soube que, antes da minha chegada, um grupo de 200 manifestantes tinha saltado as grades e subido as escadas gritando "occupy Bundestag!" - bom, nesse caso: calateboca. You get what you ask for.
Depois devolvi a minha metade da tira à attac, e fui para casa, onde cheguei um pouco diferente daquela que tinha partido.
O encontro decorreu no Grips Theater em Tiergarten, que estava bastante cheio, com um público incrivelmente variado: desde jovens rastas a homens de fato e gravata. Todos igualmente atentos, preocupados, participativos.
No primeiro painel, convidados da Grécia (Kyriakos Chatzistefanou e Katerina Kitidios, autores do filme Debtocracy), da Espanha (Carlos Cuesta, do Movimento 15 de Maio) e da Islândia (Einar Gudmundsson, escritor e activista político) falaram sobre o que está a acontecer nos seus países.
Alguns apontamentos dessas intervenções e do respectivo debate:
Na Grécia a polícia tem usado de uma chocante brutalidade. Mas o que mais assusta é que as pessoas se estão a desmobilizar: cada um começou a tratar da sua vida e da sua sobrevivência. A corrupção, sendo um problema grave, não é o maior. Muito mais assustador é todo um sistema legal que protege os erros do sistema e a injustiça social (não vale a pena ir para tribunal: no fim, descobre-se que tudo o que fizeram era legal), e um sistema fiscal absurdo (um exemplo - e penso que ouvi bem, mas parece-me que ouvi mal: no ano passado, os armadores gregos pagaram 12 milhões de euros de impostos, enquanto os imigrantes que queriam regularizar a sua situação na Grécia pagaram 50 milhões de euros).
O elemento mais importante do movimento espanhol é o debate: falar com todas as pessoas, dar voz a todos - e não importa que a polícia impeça o acesso a uma praça, outras há. Nota-se que há uma tentativa de dividir as pessoas - "nós não somos a Grécia" - mas, se olhamos para a Grécia, vemos as mesmas pessoas, os mesmos problemas, a mesma luta.
O escritor islandês começou com uma anedota: um antropófago estava sentado num lugar da primeira classe num avião. A hospedeira trouxe-lhe a lista, ele leu com atenção, e a seguir pediu gentilmente: "como não encontrei aqui nada que me interessasse, importava-se de me trazer a lista dos passageiros?"
Lembrou que é fundamental encontrar as palavras certas para que todos possam entender o que está a acontecer, e que a solução passa necessariamente por mais e melhor Democracia. Precisamos de uma cultura de abertura e transparência, temos de exigir transparência ao sistema financeiro. E temos de permanecer unidos: não podemos cair no erro de dizer que um país é melhor que outro, pois estamos todos a aprender uns com os outros e a lutar em conjunto.
Onde está o jornalismo de investigação? Como foi possível chegar a uma situação em que os media estão na mão dos governos ou dos interesses privados que deixaram os países chegar a esta situação crítica?
Não podemos cair na armadilha da divisão: gregos contra alemães, alemães contra gregos, países aplicados contra países preguiçosos, norte contra sul. Temos de lutar em conjunto, porque esta não é uma luta entre povos, mas uma luta dos povos contra as elites financeiras. Estamos perante uma crise do capitalismo, que começou nos anos 70 e se tornou muito evidente a partir de 2007. A esse problema junta-se o da zona Euro, uma moeda única que provoca crises na periferia e só pode funcionar bem em contexto de expansão económica.
Porquê pôr adjectivos ao capitalismo? Porquê dizer que o problema é o "casino capitalista"? O problema é o capitalismo, simplesmente.
Se nos centrarmos demasiado no problema da corrupção, perdemos a visão do conjunto: os problemas estruturais desta fase do capitalismo e da zona euro.
Ao tentar "salvar" a Grécia, a Alemanha está a agravar o problema, porque não luta contra as elites financeiras e não está a permitir que os povos resolvam o problema de forma estrutural e solidária.
Intervalo para o almoço. No café, um grupo discutia animadamente o poder dos bancos. Um dos participantes, o mais exaltado, suspirou: "Fazem tudo o que querem. Já não nos espanta que a Angela Merkel deixe que o presidente do Deutsche Bank festeje o seu aniversário na Chancelaria!"
O segundo painel focava as causas da crise.
Harald Schumann, jornalista do Tagesspiegel, começou por revelar que é um especulador. No verão passado aplicou 18.800 euros em títulos da dívida da Grécia a um mês, e passados trinta dias tinha feito um lucro de 1.200 euros. Como é que isto é possível?, perguntava ele.
O erro fundamental do mecanismo europeu de estabilização do euro é que não se destina a salvar o povo grego, mas os credores daquele país, e obrigam os contribuintes europeus a responder pelo risco dos investidores privados que emprestaram dinheiro à Grécia. "Ajuda" não se pode confundir com resolver os problemas dos credores privados. Os Estados não devem pagar aos especuladores.
Proposta: fazer uma conferência internacional de credores, perdoar 50% da dívida dos Estados, garantindo o pagamento da outra metade. Com certeza que esta decisão pode levar muitos bancos à falência, em grande parte devido ao arrastamento da reforma bancária que se queria fazer em 2008 e não fez. Alguns desses bancos podem receber ajuda estatal, mediante certas condições: controle efectivo exercido pelo Estado; despedimento dos gestores em cujas mãos os bancos foram conduzidos a esta situação; interrupção do pagamento de dividendos aos accionários.
Esta proposta teria custos brutais, mas seriam custos que valem a pena, porque permitiriam resolver o problema estrutural, em vez da dinâmica a que temos vindo a assistir, que usa o mesmo dinheiro apenas para protelar a resolução do problema.
De momento, o Banco Central Europeu está a agir como o baluarte dos interesses bancários, contra o dos contribuintes europeus que afinal deveria servir.
Precisamos de uma Europa unida, um parlamento europeu forte, uma eleição democrática dos comissários.
A solução de eurobonds, se não for apoiada numa forte democracia europeia, transformar-se-á numa ditadura dos tecnocratas.
Nicola Liebert, jornalista do TAZ, falou sobre os mecanismos de redistribuição. Lembrou que a crise da dívida nasceu da crise financeira, e que os Estados estão a meter dinheiro no sistema mas não estão a cobrar os impostos necessários. Os bancos cresceram demasiado, até um ponto em que podem chantagear os Estados. Há demasiado dinheiro na mão de muito poucos, e é usado para especular contra os Estados, jogar no mercado de derivados e especular com matérias-primas. A probabilidade de ocorrer uma crise aumenta com a concentração da riqueza - e neste momento a riqueza está mais concentrada que antes da crise de 1929.
Propostas: expropriações, tal como foi feito a seguir à segunda guerra mundial (ir buscar o dinheiro necessário para pagar a dívida à riqueza existente e não aos rendimentos do trabalho), e criação de um imposto sobre a riqueza (apesar da dificuldade em avaliar o imobiliário e do risco das fugas de capitais para offshores).
Virginie de Romanet, do Comité para Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, referiu o Chile de Pinochet onde se puseram em prática as teorias neoliberais, a crise profunda no Sul, o alastramento dessas políticas ao Norte, e as consequentes alterações graves no equilíbrio entre trabalho e capital. Um exemplo: hoje, um grupo de 1210 multimilionários é detentor de uma riqueza igual ao PNB de toda a América Latina - vou repetir: 1210 pessoas têm tanto como 580 milhões de pessoas (e não são as mais pobres, mas todos os habitantes da América Latina, pobres e ricos!).
No debate que se seguiu, a questão fundamental foi a Democracia: é necessário quebrar ou pelo menos controlar o poder dos lobbies e dos bancos, para que estes não possam chantagear a Democracia; é necessário que as pessoas se dêem conta do seu próprio poder (por exemplo: que perguntem ao seu banco o que é feito com o dinheiro depositado); é fundamental que as pessoas participem, exijam dos partidos, confrontem os seus deputados. Também é preciso unir mais a Europa - isso não significa que se percam as identidades nacionais, mas todos os países terão de abrir mão de parte da soberania.
O ministro dos negócios estrangeiros do Equador, Ricardo Patiño, foi convidado para uma pequena intervenção, o que ele começou por criticar em tom bem-disposto: "então venho do Equador para falar cinco minutos?"
Grandes cinco minutos! Em linguagem muito directa e simples contou o que se passou no seu país: o governo teve a ousadia de mandar fazer uma auditoria oficial à dívida externa, e chegou à conclusão que grande parte da dívida, sendo legal, era ilegítima. Era legal, mas porque as leis tinham sido feitas para beneficiar o sistema financeiro e não o povo. O problema da dívida equatoriana começou nos anos 70, com a ditadura. Grande parte da dívida começou por ser privada, mas nos anos 80 o Estado optou por assumir a dívida de bancos e empresas irresponsáveis, estatizando-a. A partir do momento em que o Estado começou a responder por estas dívidas, os juros que eram de 2% ou 4% saltaram para 21%. A ajuda do FMI implicava cláusulas que impediam o Estado de investir na sociedade.
Em resposta, o governo decidiu parar o pagamento da dívida em 2008. Aos credores, disse que apenas 35% da dívida era legítima, e que só essa seria paga. Aqueles, surpreendentemente, concordaram sem discussão. Os contratos petroleiros foram renegociados, o investimento na educação e na saúde aumentou, o país tem agora dinheiro para construir infra-estruturas, a tão necessária refinaria e até 8 hidroeléctricas.
Terminou com um conselho para a Grécia, a Espanha e Portugal: "por amor de Deus, não façam caso do FMI!"
A seguir, as pessoas separaram-se em cinco workshops:
- Como tirar poder aos mercados financeiros
- Redistribuição e justiça fiscal
- Resistência às políticas de austeridade
- Para uma verdadeira Democracia
- Anular dívidas ilegítimas
Dividida entre o das políticas de austeridade e o da Democracia, acabei por ir para este último. Nele se falou do assalto à Democracia, de um poder político completamente dominado pelos interesses do mercado, de uma Angela Merkel que diz algo como "temos de fazer com que os deputados votem de acordo com o mercado", de um pacto para a estabilidade do euro que foi celebrado entre países e está totalmente fora da jurisdição do Parlamento Europeu. Sublinhou-se a necessidade de distinguir entre a crise actual e uma solução de longo prazo, e anunciou-se que a falência dos bancos em efeito dominó pode estar para breve, e que há que pensar num plano de emergência para essa eventualidade.
Nota: tentei fazer um relato o mais fidedigno possível, mas não posso garantir ter transcrito fielmente o que foi dito, e não tenho tempo para ir verificar ponto a ponto a veracidade destas afirmações. Contudo, parece-me interessante descrever alguns pontos deste debate ocorrido ontem em Berlim, vincando algo que me agradou muito: não é uma luta de portugueses e gregos contra alemães, mas uma luta de todos os povos contra as elites financeiras que arranjaram maneira de nos roubar legalmente.
Entretanto, a manifestação que à uma da tarde tinha saído da Alexanderplatz já estava na Chancelaria, e não queria esperar mais, pelo que não pudemos fazer um plenário, e saímos apressadamente para uma caminhada de vinte minutos ao longo do rio Spree. De repente vi-me com uma enorme tira do attac nas mãos, onde se lia "o mundo não é uma mercadoria". O que me valeu, pelo caminho, sorrisos e acenos em quantidade tal como já não me acontecia desde que atravessei a cidade numa pequena coluna de Trabis.
A meu lado, uma senhora já de certa idade comentava: "como é que a Angela Merkel conseguirá compatibilizar o que faz com a sua consciência de cristã?" e criticava os governos europeus, os políticos que se deixam enrolar pelos mercados. Depois, com os olhos muito brilhantes, lembrou a manifestação de 900.000 na Alexanderplatz, a 4 de Novembro de 1989. A manifestação mais especial de toda a sua vida.
Chegámos à Chancelaria, onde havia milhares de manifestantes. À minha volta falavam em referendo sobre a crise do euro, na necessidade de novas eleições. Um camião largava música techno, muitos dançavam. Um polícia de choque olhava para nós. Sozinho, junto ao camião techno. Onde estariam os colegas? Gostei do sintoma de normalidade da manifestação que aquele polícia sozinho representava: se nós fôssemos violentos, eles seriam muitos, e com ar feroz. Também tive pena dele, que estava ali obrigado a ouvir música ensurdecedora sem sequer poder dançar. Eu não estava obrigada, e bem queria fugir, mas não podia deixar a minha tira enorme "o mundo não é uma mercadoria" nas mãos da manifestante que levava a outra ponta.
A música parou, os discursantes começaram a falar, mas não consegui ouvir nada. Seguimos para o Reichstag, onde se fazia um teatro campal que descrevia os acontecimentos dos últimos meses. O público aplaudiu imenso quando uma tenda entrou no recinto (seria por causa de uma das campistas, que estava nua?), e vaiou os actores que faziam o ingrato papel de mercados. O ambiente era de muita abertura, de uma certa alegria e descontracção, de grande solidariedade.
A nossa tira "o mundo não é uma mercadoria" atraía as pessoas, que vinham ter connosco e pediam para traduzir (pois, aquela zona tem muitos turistas) ou falavam do attac. Um homem ficou, na conversa. Contou-nos - com os olhos a brilhar muito - que a melhor manifestação da vida dele foi a dos 900.000 na Alexanderplatz, no tempo em que ainda tinham bons motivos para morrer de medo. Depois criticou a Angela Merkel, disse que muitos conhecidos seus sentem que voltaram ao tempo do Politbüro, do partido único e da RDA. Insinuou que a Angela Merkel terá sido colaboradora da Stasi, e até podia ser o Guillaume do Kohl. Eu sorri: teorias da conspiração? O sarilho em que estamos metidos já é suficientemente grande, não precisamos de começar a descarrilar para aí.
O edifício do Parlamento estava cercado de grades, e nas escadas havia polícias de choque muito empertigados. Não gostei nada. Parecia uma provocação àquela manifestação tão pacífica e alegre. Não pago os meus impostos para que o Estado mande oficiais seus para a rua exibir-se desta maneira ameaçadora, quando eu estou apenas a exprimir o que penso. Mais tarde soube que, antes da minha chegada, um grupo de 200 manifestantes tinha saltado as grades e subido as escadas gritando "occupy Bundestag!" - bom, nesse caso: calateboca. You get what you ask for.
Depois devolvi a minha metade da tira à attac, e fui para casa, onde cheguei um pouco diferente daquela que tinha partido.
"se o povo não tem pão, pois que coma bolachas" (daqui)
(daqui)
"Nada é mais poderoso que uma ideia quando chegou o seu momento" (frase falsamente atribuída a Victor Hugo) estava escrito num dos cartazes que vi, o que mais me agradou. Havia um outro - "nós somos um povo" - que fazia uma interessante passagem do slogan das manifestações de 1989 na RDA, a favor da reunificação, para uma internacionalização da solidariedade.
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viver em Berlim
14 outubro 2011
coisas que não mudam, felizmente
(De uma carta que escrevi para amigos, há mais de dez anos:)
Estou a ouvir o concerto para piano nº2 de Rachmaninov, tocado por Ashkenazy no ano em que nasci.
Adenda: o vídeo que se segue é um presentinho da sem-se-ver (se me deixassem mandar - hehehe - mudava um nome neste blogue: de comentadores para benfeitores!) (Sim: aqui, as caixas de comentários andam cheias de gente boa.)
Estou a ouvir o concerto para piano nº2 de Rachmaninov, tocado por Ashkenazy no ano em que nasci.
Quando ouço esta música fico fora de mim, ou talvez bem dentro dessa que me desconheço, com vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo, sem razão. E uma espécie de gratidão por nem sei o quê.
Talvez seja assim que os vidros se sentem quando começam a vibrar e quebram.
Beijo,
Helena
(com um grande sorriso e os olhos cheios de lágrimas)
No youtube há um Ashkenazy, talvez seja o do meu CD, mas na Alemanha não o posso ver, e por isso, jogando pelo seguro, escolhi esta sublime Hélène Grimaud.
No youtube há um Ashkenazy, talvez seja o do meu CD, mas na Alemanha não o posso ver, e por isso, jogando pelo seguro, escolhi esta sublime Hélène Grimaud.
Adenda: o vídeo que se segue é um presentinho da sem-se-ver (se me deixassem mandar - hehehe - mudava um nome neste blogue: de comentadores para benfeitores!) (Sim: aqui, as caixas de comentários andam cheias de gente boa.)
o "fim do mundo" numa acepção berlinense
Wladimir Kaminer conta, no livro que estou a traduzir, que foi vender jornais no fim do mundo, em Charlottenburg. Parece simples, mas...
Kaminer é um russo que aproveitou a perestroika para fugir de Moscovo, e encontrou abrigo em Berlim leste, mais concretamente em Marzahn. Charlottenburg é um bairro de Berlim ocidental. A história que conta no livro passou-se pouco depois da queda do muro, quando a cidade estava ainda dividida em dois blocos visceralmente diferentes. Ninguém ia de Charlottenburg a Marzahn (nem vai, mesmo vinte anos depois da queda do muro) e ninguém ia de Marzahn a Charlottenburg (nem vai, excepto quando os neonazis decidem desfilar no Ku'damm...) (hiiiiii, há que anos que não escrevia uma boca tão foleira).
Ir de Marzahn vender jornais a Charlottenburg é mais que ir ao fim do mundo: é ir para um outro mundo.
Como explicar isto ao público que não conhece Berlim, sem nota de tradução (que odeio) nem duas frases suplementares?
***
E eis como, encostando-me descaradamente aos concursos de inutilidades dos blogues de gajas, inicio aqui um concurso. De tradução.
A frase, traduzida literalmente, é:
Pelo que nos separámos, e eu pus-me a caminho do fim do mundo, para vender a minha pilha de jornais “Berliner Express” na Sophie-Charlotte-Platz.
Quem quer dar ideias?
O prémio?, perguntam. Ah, o melhor de todos: a satisfação de uma tradução bem feita.
Kaminer é um russo que aproveitou a perestroika para fugir de Moscovo, e encontrou abrigo em Berlim leste, mais concretamente em Marzahn. Charlottenburg é um bairro de Berlim ocidental. A história que conta no livro passou-se pouco depois da queda do muro, quando a cidade estava ainda dividida em dois blocos visceralmente diferentes. Ninguém ia de Charlottenburg a Marzahn (nem vai, mesmo vinte anos depois da queda do muro) e ninguém ia de Marzahn a Charlottenburg (nem vai, excepto quando os neonazis decidem desfilar no Ku'damm...) (hiiiiii, há que anos que não escrevia uma boca tão foleira).
Ir de Marzahn vender jornais a Charlottenburg é mais que ir ao fim do mundo: é ir para um outro mundo.
Como explicar isto ao público que não conhece Berlim, sem nota de tradução (que odeio) nem duas frases suplementares?
***
E eis como, encostando-me descaradamente aos concursos de inutilidades dos blogues de gajas, inicio aqui um concurso. De tradução.
A frase, traduzida literalmente, é:
Pelo que nos separámos, e eu pus-me a caminho do fim do mundo, para vender a minha pilha de jornais “Berliner Express” na Sophie-Charlotte-Platz.
Quem quer dar ideias?
O prémio?, perguntam. Ah, o melhor de todos: a satisfação de uma tradução bem feita.
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estas difíceis traduções,
russendisko
"no espaço vazio à contra-luz"
Às quatro e meia da manhã, a caminho do aeroporto, passeámos o rádio pela Metropol FM (em turco a partir de Berlim) e pela Russkij Berlin (adivinhem), para o Matthias se despedir da capital alemã. Mas ele preferia a sua querida Fritz, e eu (que tenho tentado - como ele diz a rir - aproveitar estes últimos momentos para lhe deixar uma boa impressão) concedi e até estive tentada a achar que afinal aquela música tinha o seu interesse.
No aeroporto foram óptimos, atenderam-nos no balcão da primeira classe, fizeram vista grossa ao excesso de peso e deixaram-me ir até à porta do avião. O assistente que o veio buscar disparou "já fizeram as despedidas?" e tinha um ar tão convencido que nós tratamos de lhe frustrar as expectativas, adeus!, adeus e boa viagem e até daqui a bocadinho no skype. Não houve dilúvio, afinal.
A Christina em Weimar, o Matthias a caminho do outro lado do mundo: esta casa de repente ficou com dois mil metros quadrados a mais.
(A minha sorte é ter tanto trabalho: vou trabalhar para esquecer)
No aeroporto foram óptimos, atenderam-nos no balcão da primeira classe, fizeram vista grossa ao excesso de peso e deixaram-me ir até à porta do avião. O assistente que o veio buscar disparou "já fizeram as despedidas?" e tinha um ar tão convencido que nós tratamos de lhe frustrar as expectativas, adeus!, adeus e boa viagem e até daqui a bocadinho no skype. Não houve dilúvio, afinal.
A Christina em Weimar, o Matthias a caminho do outro lado do mundo: esta casa de repente ficou com dois mil metros quadrados a mais.
(A minha sorte é ter tanto trabalho: vou trabalhar para esquecer)
13 outubro 2011
então o futebol é um desporto muito interessante, e ninguém me tinha avisado?
Ontem ao fim da tarde o Joachim telefonou, que estava a caminho de casa mas podia ser que Fulano chegasse antes dele.
- Fulano, quem?
- Aquele jogador famoso do Hertha BSC.
- Aaaah. Ele vem para jantar?
- Não sei, logo se vê.
O Matthias ficou em pulgas, "o Fulano, na nossa casa?!", e foi logo pôr a máquina fotográfica a jeito, nunca se sabe.
O Joachim chegou primeiro, a estrela chegou depois e já tinha jantado (ufff! que o jantar ontem era ainda mais normal que de costume - esparguete com salmão fumado e espinafres frescos, iogurte turco com pólen de abelha) (OK, aqui vai toda a verdade: esparguete com um niquinho de salmão fumado e espinafres frescos mas que ficaram cinco minutos a mais no tacho; o pólen de abelha estava duro, nunca mais compro daquela marca mas já não me lembro em que aldeia de Brandemburgo comprei uma vez um que era delicioso).
Não vou dizer o nome dele (por um lado, porque não o fixei - esta minha mente prodigiosa ainda há-de ir acabar num frasquinho de formol do museu de História da Medicina; por outro lado, porque de qualquer modo não diria) mas é um rapaz muito simpático, e conversa como uma pessoa normal, falámos de política e da vida pessoal, o Matthias contou que amanhã vai para os EUA e eu contei que amanhã vai haver uma inundação no Tegel e ele contou que a mãe dele é igualzinha.
Tinha um perfil glorioso, e umas pestanas grandes e redondas como nunca vi.
Acho que me vou começar a interessar por futebol.
- Fulano, quem?
- Aquele jogador famoso do Hertha BSC.
- Aaaah. Ele vem para jantar?
- Não sei, logo se vê.
O Matthias ficou em pulgas, "o Fulano, na nossa casa?!", e foi logo pôr a máquina fotográfica a jeito, nunca se sabe.
O Joachim chegou primeiro, a estrela chegou depois e já tinha jantado (ufff! que o jantar ontem era ainda mais normal que de costume - esparguete com salmão fumado e espinafres frescos, iogurte turco com pólen de abelha) (OK, aqui vai toda a verdade: esparguete com um niquinho de salmão fumado e espinafres frescos mas que ficaram cinco minutos a mais no tacho; o pólen de abelha estava duro, nunca mais compro daquela marca mas já não me lembro em que aldeia de Brandemburgo comprei uma vez um que era delicioso).
Não vou dizer o nome dele (por um lado, porque não o fixei - esta minha mente prodigiosa ainda há-de ir acabar num frasquinho de formol do museu de História da Medicina; por outro lado, porque de qualquer modo não diria) mas é um rapaz muito simpático, e conversa como uma pessoa normal, falámos de política e da vida pessoal, o Matthias contou que amanhã vai para os EUA e eu contei que amanhã vai haver uma inundação no Tegel e ele contou que a mãe dele é igualzinha.
Tinha um perfil glorioso, e umas pestanas grandes e redondas como nunca vi.
Acho que me vou começar a interessar por futebol.
há palavras que nos beijam
Há palavras que nos Beijam: belo nome para um workshop - "Uma boa oportunidade para o público em geral e os amantes da poesia em particular, bem como actores, diseurs, animadores, locutores, professores, formadores e outros, aprenderem técnicas que lhes permitam uma abordagem mais profunda à palavra poética."
La donna e mobile: bela definição para esta que hoje acordou com vontade de se mudar para o Porto...
La donna e mobile: bela definição para esta que hoje acordou com vontade de se mudar para o Porto...
12 outubro 2011
gente muito gira
Não sei quem faz o Diário de Lisboa / The Lisbon Diary, nem como é feito, mas é assim que me chega: contando pelo meio das fotografias histórias de um Portugal moderno, desempoeirado, alegre. É um prazer passear por esse blogue, e perceber por ele que em Portugal alguma coisa está a mexer, e muda para melhor. Imagens positivas de um país, apesar de tudo o que corre mal.
Claro que, como de costume, ninguém me vai dar ouvidos, mas eu estava capaz de sugerir que no próximo 10 de Junho saísse uma medalhazinha para o/a/os/as autor/a/es/as deste blogue.
Adenda (por conta de um comentário): e saia também uma medalhazinha para O Alfaiate Lisboeta!
notícias frescas
O passaporte do Matthias chegou, e tem o desejado visto! Ufff, que alívio: já posso dormir descansada, sem pensar mais nas trapalhadas que escrevi no I-20, por ter assinado no sítio do nome, e ter assinado de forma diferente a seguir, e ter feito caber o meu nome de quilómetro nos dois centímetros previstos, etc. (esta burocracia americana rouba-me a autoconfiança de três reencarnações seguidas).
Já comprei o bilhete. Vai na próxima sexta-feira de madrugada.
A Christina também está de saída, para Weimar, onde vai passar uns dias para reencontrar as amigas. Agora estão na cozinha, em conversas e risos de despedida. Eu ouço-os, e fico com ânsias de ir comprar todo o stock de lenços de papel do supermercado ao lado. Parece-me que vou precisar.
Já comprei o bilhete. Vai na próxima sexta-feira de madrugada.
A Christina também está de saída, para Weimar, onde vai passar uns dias para reencontrar as amigas. Agora estão na cozinha, em conversas e risos de despedida. Eu ouço-os, e fico com ânsias de ir comprar todo o stock de lenços de papel do supermercado ao lado. Parece-me que vou precisar.
regresso ao verão
Ontem chovia em Berlim, estava um dia cinzento e triste. Mas esta cidade tem antídotos: às terças é dia de Lunchkonzert na Filarmonia, e ontem tocavam a Summer Music de Barber. O verão voltou na brisa delicada do quinteto de sopro da Filarmónica: dias de puro lazer, zangões nas flores, lagartixas ao sol. Estorninhos dançando rumo ao outono. A peça termina com um sorriso - que me importa a chuva?
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filarmonia de Berlim,
viver em Berlim
crise às rodelas de limão
O roubo do dia vem do Fim de Semana Alucinante, com este post assim taliqual:
Crise às rodelas (de limão)
Crise às rodelas (de limão)
Sinal de crise económica não é cobrarem as rodelas de limão da Coca-Cola.
Sinal de crise económica é uma rodela de limão valer mais do que uma acção do BCP.
(Obrigada, António P. - soltei uma gargalhada, mas veio com um eco amargo - é o que dá quando a crise vem em rodelas de limão)
11 outubro 2011
Hokusai - mil nomes para um talento
1. Uma exposição berlinense começa sempre por um prologado contacto com o seu público...
Devido às enormes filas de espera que se criam, as grandes exposições berlinenses são sempre interessante matéria de estudos antropológicos, e a retrospectiva de Hokusai, no Martin-Gropius-Bau, não frustrou as minhas expectativas: à entrada, três filas – duas para a caixa, uma para os aparelhos áudio. Uma das filas da caixa era interminável, a outra estava vazia. Fui para a segunda, comprei os bilhetes em menos de um minuto, voltei à primeira para informar sobre o prodígio, mas só consegui convencer um casal de velhinhos, que avançou um pouco renitente para o espaço vazio em frente à segunda caixa. Todos os outros ficaram onde estavam - quem os saberá entender?
Nestes momentos questiono-me sempre sobre as diferentes maneiras de ser dos povos. O que faz com que os portugueses, de um modo geral, sejam tão mais atentos e desenrascados?
Havia ainda uma quarta fila, e era a pior: já de posse do bilhete, esperámos três quartos de hora para entrar na exposição. À minha frente, uma mulher jovem lia o seu livro, alheada de tudo. Atrás de mim, uma sexagenária tentava familiarizar-se com o seu aparelho áudio, e atrás dela uma rapariga dava beijos no namorado japonês como se fosse um amuleto. Revelei à senhora alguns segredos do aparelho. Avisei dois casais com bebés que não precisavam de esperar na fila, porque é habitual dar prioridade a pessoas com crianças pequeninas. Hesitei se havia de dizer o mesmo à mulher em avançada fase de gravidez, mas não disse, por uma espécie de embaraço perante este meu impulso de querer salvar o mundo todo. Ainda corria o risco de os outros se porem a fazer estudos antropológicos a respeito das portuguesas...
Aproveitei o tempo para ir adiantando trabalho: pus-me a ouvir a descrição dos quadros no aparelho áudio. O 1 era a introdução, não havia 2 nem 3 nem 4 nem 10. Tentei o 100, era um quadro. E o 101 e o 102. Facilmente descobri que às salas era atribuído o dígito das centenas, e em cada uma delas havia duas ou três descrições no áudio. Já ia na sétima sala quando finalmente pude entrar na exposição.
2. ...mas a longa espera costuma valer a pena
Rapidamente me apercebi que fora um erro grave ter-me esquecido dos óculos para ler. Muitas das obras são em tamanho diminuto, mas com grande profusão de detalhes. Além disso, para não as danificar, as salas estão escassamente iluminadas. Por isso, aqui deixo um aviso a quem interessar possa: levem muito tempo, óculos - e até uma lupa.
A exposição está organizada de forma cronológica, atravessando as várias fases do artista, a que correspondem nomes diferentes. Dois elementos sobressaem deste o princípio: o humor e uma grande empatia pelos retratados. O estilo vai mudando, os temas também, o talento revela-se com traços e cores cada vez mais seguros e, pelo meio de tudo isso, notas humorísticas e plenas de ternura que nos fazem sorrir. Olhando algumas das peças, imaginei Hokusai a rir bem-disposto em pleno trabalho de criação, abrindo no próprio rosto as expressões - ora sonhadoras ora zangadas ora melancólicas ora prazenteiras - das figuras que desenhava. De nome em nome, de fase em fase, chego a uma das suas obras mais conhecidas: “A Grande Onda de Kanagawa” que, segundo dizem, inspirou Claude Debussy na composição do poema sinfónico “La Mer”. Informam-me que os japoneses vêem os quadros da direita para a esquerda. Experimento: a onda torna-se muito mais dramática e ameaçadora.
Sigo. Perco-me nos milhentos livros que fez: livros de manga (que significa “desenho sem propósito concreto”), ensaios pedagógicos para ensinar a desenhar. Cada página, todo um mundo. Avanço para outra fase, outro nome. Delicio-me com as gravuras, demoro-me nas pinturas, surpreendo-me com as diferenças de estilo e a sua versatilidade – do mais delicado traço às pinceladas rápidas e grossas, e sempre a vida a pulsar no papel. Mil artistas num só. Um artista de mil nomes.
Só no fim da exposição, quando me deleito com algumas obras pintadas por um octogenário que aos 73 anos mudara o seu nome para Gakyo-rojin, “homem velho obcecado pela pintura”, é que o meu aparelho áudio revela que Hokusai também era poeta. Procurei os seus escritos pela internet, mas só encontrei o poema que escreveu para a sua própria morte:
Hitodama de
yuku kisan ja
natsa no hara
Agora como espírito
devo atravessar
os campos de verão.
O folheto da exposição cita uma frase do artista, da introdução ao livro “Cem vistas do monte Fuji”: “Desde que fiz seis anos pinto o que vejo à minha volta. A partir dos cinquenta anos, publiquei trabalhos uns atrás dos outros. Mas, até aos setenta, a minha obra não tinha grande valor. Só aos setenta e três anos compreendi um pouco da anatomia dos animais e da vida das plantas. Se me esforçar, aos oitenta continuarei a fazer progressos e aos noventa conseguirei desvendar os últimos segredos. E quando chegar enfim aos cem, as linhas e os pontos isolados vão de per si encher-se de vida. Queira o Deus da longa vida cuidar para que estas minhas convicções não sejam meras palavras vazias.
Quase chegou lá. Na última sala, há um tigre a sorrir para a lua: em paz, de bem com a vida – pintado por um homem de quase noventa anos. A seu lado, um dragão surpreende-nos: a sua nítida essência revela-se a partir de traços em grossas pinceladas – falta apenas enrolar a longa folha, e mandar para o quinto dia da Criação: Deus, ó Deus, não te esqueças de incluir este, está perfeito e faz-nos falta.
Podia agora falar das paisagens belíssimas, das perspectivas (por exemplo, dos homens minúsculos numa pequena parte de um templo, mostrando desse modo a grandiosidade do edifício; ou do tanoeiro dentro dos aros do tonel que está a fazer, no centro de um círculo através do qual se vê o monte Fuji), da extrema riqueza de expressões nos rostos dos humanos e dos espíritos, dos precisos detalhes na representação da fauna e da flora, da elegância dos traços minimalistas. Podia falar das imagens suspensas em pura beleza. Podia até elogiar a modernidade deste artista que nasceu apenas quatro anos depois de Mozart, referir que o impressionismo francês lhe deve muito – e quem diria que um pintor de num longínquo país, praticamente fechado ao exterior, teria este impacto na cultura europeia?
Mas não me vou prolongar por aí. Antes informo que a exposição ainda fica em Berlim até 31 de Outubro, está aberta das 10 às 20 todos os dias excepto às terças, e não se sabe se (e quando) será possível voltar a ver fora do Japão um conjunto tão diverso e completo da obra de Hokusai.
Site da exposição: em alemão / em inglês
(publicado também na berlinda.org)
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Berlinda.org,
viagens,
visitar Berlim,
viver em Berlim
a magia de Berlim
Um filme feito com 50.000 fotografias, que capta muito bem alguma da magia de Berlim.
Nele, gosto especialmente das cenas ao anoitecer.
Ah, esta cidade!
Berlin Dynamic from Matthias Makarinus on Vimeo.
Dynamic Berlin - Timelapse project with over 50.000 photos and thousands of people. Dynamic light, clouds, street life, movement and much more. Shot from May 2010 - September 2011 with Canon 5D Mark II and many lenses. And Yes I Like the Canon 15mm Fisheye :). Many details can be seen only at the second or third visit, have fun while watching. Making of comes later. Thanks to all the people in my film.
Website: http://www.PictureReport.net
Mail: Kontakt@PictureReport.net
FaceBook: http://www.FaceBook.com/PictureReport
Music:
1. Les Enfants à Points - Something / http://www.starquakerecords.weebly.com
2. NK - That Guy / http://www.ideology.de
3. The Crossfaders – Move On / http://www.starquakerecords.weebly.com
Nele, gosto especialmente das cenas ao anoitecer.
Ah, esta cidade!
Berlin Dynamic from Matthias Makarinus on Vimeo.
Dynamic Berlin - Timelapse project with over 50.000 photos and thousands of people. Dynamic light, clouds, street life, movement and much more. Shot from May 2010 - September 2011 with Canon 5D Mark II and many lenses. And Yes I Like the Canon 15mm Fisheye :). Many details can be seen only at the second or third visit, have fun while watching. Making of comes later. Thanks to all the people in my film.
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1. Les Enfants à Points - Something / http://www.starquakerecords.weebly.com
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