16 outubro 2011

15O - "nada é mais poderoso que uma ideia quando chegou o seu momento"

"Ouvir a crise: para uma Europa solidária!" era o nome do encontro que o attac de Berlim organizou para o dia de ontem, 15 de Outubro, com início às 10 da manhã e terminando às 5 da tarde com uma manifestação em frente à Chancelaria. Porque - afirmavam eles - não basta manifestar-se na rua, é fundamental debater, entender o que se está a passar e delinear os passos seguintes.
O encontro decorreu no Grips Theater em Tiergarten, que estava bastante cheio, com um público incrivelmente variado: desde jovens rastas a homens de fato e gravata. Todos igualmente atentos, preocupados, participativos.

No primeiro painel, convidados da Grécia (Kyriakos Chatzistefanou e Katerina Kitidios, autores do filme Debtocracy), da Espanha (Carlos Cuesta, do Movimento 15 de Maio) e da Islândia (Einar Gudmundsson, escritor e activista político) falaram sobre o que está a acontecer nos seus países.

Alguns apontamentos dessas intervenções e do respectivo debate:

Na Grécia a polícia tem usado de uma chocante brutalidade. Mas o que mais assusta é que as pessoas se estão a desmobilizar: cada um começou a tratar da sua vida e da sua sobrevivência. A corrupção, sendo um problema grave, não é o maior. Muito mais assustador é todo um sistema legal que protege os erros do sistema e a injustiça social (não vale a pena ir para tribunal: no fim, descobre-se que tudo o que fizeram era legal), e um sistema fiscal absurdo (um exemplo - e penso que ouvi bem, mas parece-me que ouvi mal: no ano passado, os armadores gregos pagaram 12 milhões de euros de impostos, enquanto os imigrantes que queriam regularizar a sua situação na Grécia pagaram 50 milhões de euros).

O elemento mais importante do movimento espanhol é o debate: falar com todas as pessoas, dar voz a todos - e não importa que a polícia impeça o acesso a uma praça, outras há. Nota-se que há uma tentativa de dividir as pessoas - "nós não somos a Grécia" - mas, se olhamos para a Grécia, vemos as mesmas pessoas, os mesmos problemas, a mesma luta.

O escritor islandês começou com uma anedota: um antropófago estava sentado num lugar da primeira classe num avião. A hospedeira trouxe-lhe a lista, ele leu com atenção, e a seguir pediu gentilmente: "como não encontrei aqui nada que me interessasse, importava-se de me trazer a lista dos passageiros?"
Lembrou que é fundamental encontrar as palavras certas para que todos possam entender o que está a acontecer, e que a solução passa necessariamente por mais e melhor Democracia. Precisamos de uma cultura de abertura e transparência, temos de exigir transparência ao sistema financeiro. E temos de permanecer unidos: não podemos cair no erro de dizer que um país é melhor que outro, pois estamos todos a aprender uns com os outros e a lutar em conjunto.

Onde está o jornalismo de investigação? Como foi possível chegar a uma situação em que os media estão na mão dos governos ou dos interesses privados que deixaram os países chegar a esta situação crítica?

Não podemos cair na armadilha da divisão: gregos contra alemães, alemães contra gregos, países aplicados contra países preguiçosos, norte contra sul. Temos de lutar em conjunto, porque esta não é uma luta entre povos, mas uma luta dos povos contra as elites financeiras. Estamos perante uma crise do capitalismo, que começou nos anos 70 e se tornou muito evidente a partir de 2007. A esse problema junta-se o da zona Euro, uma moeda única que provoca crises na periferia e só pode funcionar bem em contexto de expansão económica.
Porquê pôr adjectivos ao capitalismo? Porquê dizer que o problema é o "casino capitalista"? O problema é o capitalismo, simplesmente.
Se nos centrarmos demasiado no problema da corrupção, perdemos a visão do conjunto: os problemas estruturais desta fase do capitalismo e da zona euro.  
Ao tentar "salvar" a Grécia, a Alemanha está a agravar o problema, porque não luta contra as elites financeiras e não está a permitir que os povos resolvam o problema de forma estrutural e solidária.

Intervalo para o almoço. No café, um grupo discutia animadamente o poder dos bancos. Um dos participantes, o mais exaltado, suspirou: "Fazem tudo o que querem. Já não nos espanta que a Angela Merkel deixe que o presidente do Deutsche Bank festeje o seu aniversário na Chancelaria!"


O segundo painel focava as causas da crise.

Harald Schumann, jornalista do Tagesspiegel, começou por revelar que é um especulador. No verão passado aplicou 18.800 euros em títulos da dívida da Grécia a um mês, e passados trinta dias tinha feito um lucro de 1.200 euros. Como é que isto é possível?, perguntava ele.
O erro fundamental do mecanismo europeu de estabilização do euro é que não se destina a salvar o povo grego, mas os credores daquele país, e obrigam os contribuintes europeus a responder pelo risco dos investidores privados que emprestaram dinheiro à Grécia. "Ajuda" não se pode confundir com resolver os problemas dos credores privados. Os Estados não devem pagar aos especuladores.
Proposta: fazer uma conferência internacional de credores, perdoar 50% da dívida dos Estados, garantindo o pagamento da outra metade. Com certeza que esta decisão pode levar muitos bancos à falência, em grande parte devido ao arrastamento da reforma bancária que se queria fazer em 2008 e não fez. Alguns desses bancos podem receber ajuda estatal, mediante certas condições: controle efectivo exercido pelo Estado; despedimento dos gestores em cujas mãos os bancos foram conduzidos a esta situação; interrupção do pagamento de dividendos aos accionários.
Esta proposta teria custos brutais, mas seriam custos que valem a pena, porque permitiriam resolver o problema estrutural, em vez da dinâmica a que temos vindo a assistir, que usa o mesmo dinheiro apenas para protelar a resolução do problema.
De momento, o Banco Central Europeu está a agir como o baluarte dos interesses bancários, contra o dos contribuintes europeus que afinal deveria servir.
Precisamos de uma Europa unida, um parlamento europeu forte, uma eleição democrática dos comissários.
A solução de eurobonds, se não for apoiada numa forte democracia europeia, transformar-se-á numa ditadura dos tecnocratas.

Nicola Liebert, jornalista do TAZ, falou sobre os mecanismos de redistribuição. Lembrou que a crise da dívida nasceu da crise financeira, e que os Estados estão a meter dinheiro no sistema mas não estão a cobrar os impostos necessários. Os bancos cresceram demasiado, até um ponto em que podem chantagear os Estados. Há demasiado dinheiro na mão de muito poucos, e é usado para especular contra os Estados, jogar no mercado de derivados e especular com matérias-primas. A probabilidade de ocorrer uma crise aumenta com a concentração da riqueza - e neste momento a riqueza está mais concentrada que antes da crise de 1929.
Propostas: expropriações, tal como foi feito a seguir à segunda guerra mundial (ir buscar o dinheiro necessário para pagar a dívida à riqueza existente e não aos rendimentos do trabalho), e criação de um imposto sobre a riqueza (apesar da dificuldade em avaliar o imobiliário e do risco das fugas de capitais para offshores).

Virginie de Romanet, do Comité para Anulação da Dívida do Terceiro Mundo, referiu o Chile de Pinochet onde se puseram em prática as teorias neoliberais, a crise profunda no Sul, o alastramento dessas políticas ao Norte, e as consequentes alterações graves no equilíbrio entre trabalho e capital. Um exemplo: hoje, um grupo de 1210 multimilionários é detentor de uma riqueza igual ao PNB de toda a América Latina - vou repetir: 1210 pessoas têm tanto como 580 milhões de pessoas (e não são as mais pobres, mas todos os habitantes da América Latina, pobres e ricos!). 

No debate que se seguiu, a questão fundamental foi a Democracia: é necessário quebrar ou pelo menos controlar o poder dos lobbies e dos bancos, para que estes não possam chantagear a Democracia; é necessário que as pessoas se dêem conta do seu próprio poder (por exemplo: que perguntem ao seu banco o que é feito com o dinheiro depositado); é fundamental que as pessoas participem, exijam dos partidos, confrontem os seus deputados. Também é preciso unir mais a Europa - isso não significa que se percam as identidades nacionais, mas todos os países terão de abrir mão de parte da soberania.


O ministro dos negócios estrangeiros do Equador, Ricardo Patiño, foi convidado para uma pequena intervenção, o que ele começou por criticar em tom bem-disposto: "então venho do Equador para falar cinco minutos?"
Grandes cinco minutos! Em linguagem muito directa e simples contou o que se passou no seu país: o governo teve a ousadia de mandar fazer uma auditoria oficial à dívida externa, e chegou à conclusão que grande parte da dívida, sendo legal, era ilegítima. Era legal, mas porque as leis tinham sido feitas para beneficiar o sistema financeiro e não o povo. O problema da dívida equatoriana começou nos anos 70, com a ditadura. Grande parte da dívida começou por ser privada, mas nos anos 80 o Estado optou por assumir a dívida de bancos e empresas irresponsáveis, estatizando-a. A partir do momento em que o Estado começou a responder por estas dívidas, os juros que eram de 2% ou 4% saltaram para 21%. A ajuda do FMI implicava cláusulas que impediam o Estado de investir na sociedade.
Em resposta, o governo decidiu parar o pagamento da dívida em 2008. Aos credores, disse que apenas 35% da dívida era legítima, e que só essa seria paga. Aqueles, surpreendentemente, concordaram sem discussão. Os contratos petroleiros foram renegociados, o investimento na educação e na saúde aumentou, o país tem agora dinheiro para construir infra-estruturas, a tão necessária refinaria e até 8 hidroeléctricas.
Terminou com um conselho para a Grécia, a Espanha e Portugal: "por amor de Deus, não façam caso do FMI!"

A seguir, as pessoas separaram-se em cinco workshops:
- Como tirar poder aos mercados financeiros
- Redistribuição e justiça fiscal
- Resistência às políticas de austeridade
- Para uma verdadeira Democracia
- Anular dívidas ilegítimas

Dividida entre o das políticas de austeridade e o da Democracia, acabei por ir para este último. Nele se falou do assalto à Democracia, de um poder político completamente dominado pelos interesses do mercado, de uma Angela Merkel que diz algo como "temos de fazer com que os deputados votem de acordo com o mercado", de um pacto para a estabilidade do euro que foi celebrado entre países e está totalmente fora da jurisdição do Parlamento Europeu. Sublinhou-se a necessidade de distinguir entre a crise actual e uma solução de longo prazo, e anunciou-se que a falência dos bancos em efeito dominó pode estar para breve, e que há que pensar num plano de emergência para essa eventualidade.

Nota: tentei fazer um relato o mais fidedigno possível, mas não posso garantir ter transcrito fielmente o que foi dito, e não tenho tempo para ir verificar ponto a ponto a veracidade destas afirmações. Contudo, parece-me interessante descrever alguns pontos deste debate ocorrido ontem em Berlim, vincando algo que me agradou muito: não é uma luta de portugueses e gregos contra alemães, mas uma luta de todos os povos contra as elites financeiras que arranjaram maneira de nos roubar legalmente.

Entretanto, a manifestação que à uma da tarde tinha saído da Alexanderplatz já estava na Chancelaria, e não queria esperar mais, pelo que não pudemos fazer um plenário, e saímos apressadamente para uma caminhada de vinte minutos ao longo do rio Spree. De repente vi-me com uma enorme tira do attac nas mãos, onde se lia "o mundo não é uma mercadoria". O que me valeu, pelo caminho, sorrisos e acenos em quantidade tal como já não me acontecia desde que atravessei a cidade numa pequena coluna de Trabis.
A meu lado, uma senhora já de certa idade comentava: "como é que a Angela Merkel conseguirá compatibilizar o que faz com a sua consciência de cristã?" e criticava os governos europeus, os políticos que se deixam enrolar pelos mercados. Depois, com os olhos muito brilhantes, lembrou a manifestação de 900.000 na Alexanderplatz, a 4 de Novembro de 1989. A manifestação mais especial de toda a sua vida.

Chegámos à Chancelaria, onde havia milhares de manifestantes. À minha volta falavam em referendo sobre a crise do euro, na necessidade de novas eleições. Um camião largava música techno, muitos dançavam. Um polícia de choque olhava para nós. Sozinho, junto ao camião techno. Onde estariam os colegas? Gostei do sintoma de normalidade da manifestação que aquele polícia sozinho representava: se nós fôssemos violentos, eles seriam muitos, e com ar feroz. Também tive pena dele, que estava ali obrigado a ouvir música ensurdecedora sem sequer poder dançar. Eu não estava obrigada, e bem queria fugir, mas não podia deixar a minha tira enorme "o mundo não é uma mercadoria" nas mãos da manifestante que levava a outra ponta.
A música parou, os discursantes começaram a falar, mas não consegui ouvir nada. Seguimos para o Reichstag, onde se fazia um teatro campal que descrevia os acontecimentos dos últimos meses. O público aplaudiu imenso quando uma tenda entrou no recinto (seria por causa de uma das campistas, que estava nua?), e vaiou os actores que faziam o ingrato papel de mercados. O ambiente era de muita abertura, de uma certa alegria e descontracção, de grande solidariedade.
A nossa tira "o mundo não é uma mercadoria" atraía as pessoas, que vinham ter connosco e pediam para traduzir (pois, aquela zona tem muitos turistas) ou falavam do attac. Um homem ficou, na conversa. Contou-nos - com os olhos a brilhar muito - que a melhor manifestação da vida dele foi a dos 900.000 na Alexanderplatz, no tempo em que ainda tinham bons motivos para morrer de medo. Depois criticou a Angela Merkel, disse que muitos conhecidos seus sentem que voltaram ao tempo do Politbüro, do partido único e da RDA. Insinuou que a Angela Merkel terá sido colaboradora da Stasi, e até podia ser o Guillaume do Kohl. Eu sorri: teorias da conspiração? O sarilho em que estamos metidos já é suficientemente grande, não precisamos de começar a descarrilar para aí.
O edifício do Parlamento estava cercado de grades, e nas escadas havia polícias de choque muito empertigados. Não gostei nada. Parecia uma provocação àquela manifestação tão pacífica e alegre. Não pago os meus impostos para que o Estado mande oficiais seus para a rua exibir-se desta maneira ameaçadora, quando eu estou apenas a exprimir o que penso. Mais tarde soube que, antes da minha chegada, um grupo de 200 manifestantes tinha saltado as grades e subido as escadas gritando "occupy Bundestag!" - bom, nesse caso: calateboca. You get what you ask for.

Depois devolvi a minha metade da tira à attac, e fui para casa, onde cheguei um pouco diferente daquela que tinha partido.

"se o povo não tem pão, pois que coma bolachas" (daqui)



(daqui)

"Nada é mais poderoso que uma ideia quando chegou o seu momento" (frase falsamente atribuída a Victor Hugo) estava escrito num dos cartazes que vi, o que mais me agradou. Havia um outro - "nós somos um povo" - que fazia uma interessante passagem do slogan das manifestações de 1989 na RDA, a favor da reunificação, para uma internacionalização da solidariedade.

12 comentários:

Paulo disse...

Gostei do ministro do Equador.

Obrigado pelo relato. E tenho pena mas não pude ir à manif de Lisboa.

Helena disse...

É, esse ministro foi um ponto muito alto do encontro. E não o vi com manias de gente importante, nem com guarda-costas.

sem-se-ver disse...

esse é o tal que é protagonista do debtocracy

helena, muitissimo obrigada por este post

(eu admiro-te tanto, sabias? desde logo, pela tua extrema generosidade, como posts destes manifestam à saciedade. tu és gente boa.)

Helena disse...

sem-se-ver,
:-)

O Kyriakos Chatzistefanou e o Harald Schumann são muito bons. Se um dia quiserem organizar em Portugal um debate semelhante, aconselho ambos vivamente!

Helena disse...

"Kyriakos Chatzistefanou" é um nome que me lembra muito aquela altura em que dizíamos "o vulcão islandês"...

A mãe que capotou disse...

Fantastico e inspirador. Obrigada Helena.

Helena disse...

Eu, por mães capotadas, faço tudo! ;-)
(obrigada!)

Anónimo disse...

Olá Gui. (estou a comentar como anónimo mas sou quem sabes - frauzenstrucken! )

Fizeste bem em escolher o painel da democracia.
Acho que o problema está mesmo aí! :)

( não na democracia, mas nos que vivem nela )

de forma sintética, o que eu acho de tudo isto é:

1 - a crise tem dois pilares - a Europa ( estados e pessoas ) gastam mais do que aquilo que ganham e; o dinheiro grosso está a fugir para outras latitudes.

2 - o problema de base não está nos "especuladores", que morreriam à fome se as economias desequilibradas não precisassem deles.
Se amanhã, por milagre, as dívidas fossem "zeradas", a maior parte dos países e das pessoas estaria na mesmíssima situação em que está actualmente - a precisar de dinheiro emprestado para comer e sem poder pagar esse empréstimo

3 - pergunta aos manifestantes qual seria, para eles, a taxa "justa" a que as economias deveriam ser financiadas, e depois pergunta-lhes se estariam dispostos a emprestar o seu próprio dinheiro à Grécia, ao dobro desse valor.
Toda a gente sabe a diferença entre emprestar e doar.

4 - pergunta-lhes se, não querendo eles próprios doar o seu dinheiro à Grécia, estão dispostos a lutar para que os "ricos" sejam obrigados a doar o dinheiro deles :)

(estou a dizer Grécia por ser o caso mais claro, mas pelo que se vê poderia dizer Espanha, frança, Itália...)

5 - vejo na base da maior parte dos discursos dos acampados um substrato daquelas pichagens "os ricos que paguem a crise" - sempre achei que quem estragava as paredes com isso não tinha coragem para, onde escrevia "os ricos" escrever "os outros"

6 - e aqui chego ( finalmente :) ) ao que acho que interessa sobre as democracias - É absolutamente impossível um programa político equilibrado e sustentável ganhar umas eleições, porque as pessoas não aceitam ouvir a verdade, e que é: os nossos direitos custam muito dinheiro e temos de ser nós a pagá-los!

7 - o que entronca no segundo pilar da crise; o dinheiro está a fugir para outros lados e a ficar escasso para pagar as nossas liberdades, direitos e modo de vida.

8 - ainda não vi nenhuma solução para isto em nenhum lado.
E acho que não vou ver tão cedo - o rei vai nú, mas enquanto pensarmos que os ricos lhe devem pagar as vestes...
Muitas vezes, quando ando por "outro tipo de países" como sabes que eu ando, me pergunto se aquelas pessoas que eu vejo nas margens da estrada não têm os mesmíssimos direitos e dignidade que eu tenho.
è óbvio que têm!
o que elas não têm ( nem os países delas ) é "especuladores" que lhes emprestem dinheiro para viverem melhor, com outras condições e com outra dignidade que merecem e ninguém lhes nega

10 - já muita gente deve ter estudado o porquê de tanta massa monetária estar a fugir para o "lado" financeiro e cada vez menos para o lado da produção.
Os acampamentos deveriam servir para as pessoas sugerirem formas de aumentar o prémio de quem produz ( porque tentar ir pela via contrária, diminuir o prémio de quem especula, é contraproducente e contra as leis da natureza, ainda para mais agora que a china começa a ter bancos e moeda credível )

11 - ( porque os mandamentos eram dez e o que eu escrevi não se lhes compara )
acho importantíssimo e fundamental as pessoas manifestarem-se, reunirem-se e procurarem caminhos de saída.
porque a participação activa e informada é a base e a força da verdadeira democracia.
porque não há vida fora da democracia. ( fala quem sabe e vive outras realidades práticas, né? )
porque a vida das elites estava efectivamente demasiado "cómoda" com o controle que os media lhes davam da sociedade.

e porque, depois de muito discutirem, talvez todos cheguem à conclusão que ninguém lhes vai pagar a saúde nem a reforma a não ser que sejam os seus filhos, e então desatem a fazer amor.

Essa sim uma receita de sucesso!

Helena disse...

Olha o Frausenstrausen aqui, que grande honra! :-)

Vamos por partes:

1. As pessoas gastam mais do que ganham, sim. Os países também, mas até tinham as coisas relativamente equilibradinhas antes de vir a crise financeira e os Estados assumirem os riscos dos agentes bancários irresponsáveis.

2. Os especuladores têm muitos e muito maquiavélicos meios para darem um jeitinho para que os Estados se endividem cada vez mais. Um deles é especular sobre a capacidade de pagamento de um Estado - e para isso nem precisam de ter dinheiro. Com as vendas a descoberto, é possível pôr um Estado de joelhos num instantinho, fazer-lhes subir as taxas de juro de forma artificial.

3. O caso da Grécia é muito complexo devido à combinação de corrupção, péssimo sistema fiscal, péssima estrutura económica, e euro. Parte disso é culpa da Grécia, parte disso é culpa da União Europeia, ou de alguns dos seus países, que também aproveitaram bem da situação. O caso mais grave é o do armamento: a UE empresta dinheiro à Grécia para esta comprar armas à França e à Alemanha para defender as fronteiras da UE...
Outra questão que não entendo: para onde foram os milhões que a UE deu à Grécia para projectos concretos? O que é que o pessoal em Bruxelas anda a fazer, que nunca investigou isso nem parou os cash flow? Porque é que Bruxelas foi conivente com esta situação? (não estou a tentar sacudir água do capote da Grécia, estou a tentar perceber até onde vai o polvo).
Em todo o caso: se houvesse uma verdadeira reforma fiscal na Grécia, se os armadores pagassem em impostos bem mais do que os imigrantes que querem regularizar a sua situação (viste o exemplo que dei? ainda não consigo acreditar!), se houvesse controlo apertado da aplicação dos fundos europeus no desenvolvimento da infra-estrutura grega, etc., eu não teria problema em emprestar o meu dinheiro à Grécia à taxa justa - nem tinha de ser o dobro.

6. É verdade, sim: os nossos direitos custam muito dinheiro, e temos de ser nós a pagá-los. Mas importa também questionar para onde vai tudo o que já pagamos, e que não é pouco. Lembro sempre uma frase de um professor meu, na faculdade. Ele tinha feito um mestrado na Inglaterra, provavelmente ainda antes do tempo da Tatcher, e dizia que lá via para onde iam os seus impostos. Em Portugal, não via, apesar de pagar praticamente o mesmo.


7. pois.

8. Nunca pensei que chegaria a este ponto ;-) mas vou citar o Bento XVI ao chegar a Angola: como é possível que um país tão rico tenha um povo tão pobre?
Angola precisaria de pedir dinheiro emprestado ao exterior para dar melhores condições de vida ao seu povo?
Outra questão são países realmente pobres. Sim, ninguém se interessa por lhes emprestar dinheiro. Mas a Grécia só recebeu tanto dinheiro emprestado porque durante muito tempo os especuladores pensaram que a Europa não deixava cair a Grécia.

9. esqueceste-te do ponto 9
:-)

10. é muito mais fácil ganhar dinheiro com especulação que com produção. A especulação é um jogo que dá pica, a produção é trabalho quotidiano. E quando 1000 pessoas têm tanto dinheiro como toda a América Latina junta, para essas perder umas centenas de milhões é peanuts.
O que é fundamental é cortar-lhes as bases legais para jogar assim. Por exemplo: proibir as vendas a descoberto (parece-me que ainda são possíveis em alguns países) - entre tantos outros mecanismos reguladores. Ou dizer aos Bancos que se acabou a festa - os Estados deixam de assumir os riscos em que eles incorreram.

Atenção: um especulador não é alguém que compra os títulos da dívida pública de um Estado, um tu ou eu. Os especuladores a quem é preciso retirar poder são os que emprestam e têm simultaneamente o poder de agir sobre o rating dos Estados.

Os acampados são uma reacção. É importande, mas não é tudo. Não espero que eles me venham dar soluções. Mas tem de haver a outros níveis - nomeadamente o governo - a preocupação de entender o que se está a passar e procurar soluções.
Depois volto com algumas sugestões que ouvi. Agora tenho de fechar o estaminé.

Helena disse...

Olá Strausenfrausen, ainda estás aí?
Queria acrescentar alguns pontos:

- Sublinhar que o problema é a tremenda concentração da riqueza e a sua deslocação da produção para a especulação - tem de haver leis novas para regular a especulação, e têm de ser leis com preocupações de justiça social e não de servir os interesses instalados. E digo-o por mero instinto de sobrevivência: ou se faz isso, ou vêm por aí conflitos sociais que vão fazer da revolução francesa uma brincadeira de crianças.

- "Os ricos que paguem a crise" é um slogan ultrapassado e pateta. "Os funcionários públicos que paguem a crise" (resposta do nosso gentil governo) é um slogan ainda mais pateta, injusto e perigoso. Que os acampados digam coisas dessas, ainda vá. Agora, os governos? O problema não são os ricos do nosso bairro, ou os funcionários públicos - são os super-ricos que têm literalmente o mundo na mão. Ainda hei-de tentar saber os números certos sobre o que um amigo americano me dizia há tempos: que a parte de leão dos apoios estatais nos EUA não é para a população (segurança social, saúde, educação) mas para as empresas. Ah, isso no país do Milton Friedman...

- Os acampados, estas manifs e até greves não apenas gerais mas globais têm uma função essencial, que Roosevelt já tinha resumido de forma lapidar dirigindo-se aos sindicatos: "eu não tenho poder para fazer isso que vocês querem - vocês têm de me obrigar a fazer isso"

- Com certeza que houve muitos excessos e abusos nas últimas décadas. Triste sintoma disso são os nossos filhos, com a cabeça cheia de marcas e sedes de consumo, convencidos que o mundo tudo lhes deve e que eles não precisam de se esforçar muito para terem um nível de vida igual ao dos seus pais. (Reconheço que no tempo em que eu entrei no mercado de trabalho havia mais ofertas de emprego que recém-licenciados, não se pode dizer que tive de lutar muito...)
Mas: foram as conquistas históricas dos sindicatos que proporcionaram uma longa época de crescimento e abundância - se a riqueza é distribuída de forma mais equitativa e se as pessoas têm mais dinheiro e tempo para o gastar, as economias ficam mais saudáveis e estáveis. E se todos têm acesso à educação e à saúde, o futuro dispõe de mais gente capaz de dar o melhor possível de si.
Neste momento os Estados estão a tirar dinheiro que é vital para a saúde de um país e da economia para o entregar aos especuladores (porque estes ameaçaram que se não lhes pagassem e se fossem à falência vinha por aí o fim do mundo) e a lançar a Europa numa terrível recessão.

- Alguns políticos alemães já ouviram a voz da rua. Sigmar Gabriel (da SPD) veio sugerir que os grandes bancos fossem divididos, para que se soubesse claramente quais são os bancos da especulação financeira e quais são os de apoio à actividade produtiva, e que se ponha à porta dos primeiros uma tabuleta bem grande: "o Estado não garante pelos pagamentos deste banco". Parece um ovo de Colombo, não é? Se aquele banco for à falência, problema dele, e dos que jogaram nele. Jogaram. Os Estados não têm de ser fiadores dos jogadores de casino.

Mas há mais: é preciso parar a especulação com o preço das matérias primas e sobretudo dos produtos alimentares.

Nan disse...

Boa! Peço licença para compartilhar este magnífico post e os respectivos comentários no FB.
Já o lá pus, para ganhar tempo... ;-)

Helena disse...

Nan,
à vontadinha do freguês!
E obrigada pelo "magnífico" :-)