09 maio 2011

vinha o lavrador da Arada...

Num dos livros da minha escola primária havia uma história em forma de verso que me impressionou tão fortemente que ainda hoje falo disso, como se vê. O lavrador da Arada ia a caminho de casa quando encontrou um pobrezinho que lhe pediu ajuda, e ele levou-o para casa, deu-lhe "do melhor manjar que havia", mandou-lhe fazer a cama "da melhor seda que tinha, por cima damasco roxo, por baixo cambraia fina", etc. No dia seguinte, em vez do pobre, o lavrador encontra um crucifixo. Era Jesus Cristo, pronto, que logo ali lhe prometeu que tinha um lugar para ele no céu, e eu cheia de pena do lavrador que era tão boa pessoa mas pelos vistos ia morrer para ir desta para melhor.

Lembrei-me disto porque ontem tive um encontro imediato de terceiro grau comigo própria a fazer de lavrador da Arada, mas sem a parte do crucifixo, por sorte.
Contando a história a partir do princípio: o Matthias perguntou-nos se podíamos ter cá em casa por dois meses um miúdo colombiano que veio para aprender alemão e está na turma dele. E nós que sim senhor, e eu arranjei o quarto das visitas o melhor que pude para o rapaz se sentir bem nestas semanas que passa longe da família. O Miguel é amoroso, muito bem-educado, sempre grato pela comida que lhe cozinho, nada complicado. Já lhe fiz uma proposta de adopção, mas ele riu-se.
Deu-me um envelope com 700 euros para pagar as despesas dos dois meses. Setecentos euros? Ele estará à espera que eu lhe sirva caviar ao pequeno-almoço? Disse-lhe que era um exagero, e que temos de fazer outras contas.
No sábado de manhã recebi uma enorme orquídea enviada da Colômbia, e um cartãozinho de feliz dia da mãe. Ontem telefonou-me o pai dele. Que o Miguel se está a sentir muito bem na nossa casa, e que ele vem cá passar um fim-de-semana para ver o filho, e que vai ficar hospedado no hotel Ritz-Carlton (o da Potsdamer Platz, o hotel onde ficam as maiores estrelas da Berlinale, entre outros VIPs), e que nos convida para jantarmos todos com ele lá (aimeudeus, vou ter de me disfarçar outra vez de senhora). Perguntou-me se o Miguel tinha mostrado fotografias da família e da casa. Não, disse eu. Ele que mostre, disse o pai. Desconfio que sei onde é que isto vai dar: vou ver pelos cenários que tenho cá alojado o filho de um magnata.
Não quero ver. Prefiro o Miguel só assim: um rapaz amoroso de catorze anos, bem educado e brincalhão.

***

O que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos é a mim que fazeis. (Mt. 25, 40)
Pois sim. Ajudar um pequenino para descobrir depois que é o pequeno lorde, ainda vá. Assim não custa nada ser cristã.
Mas que diria o lavrador da Arada se o pobrezinho lhe tivesse fugido com a melhor seda que havia, o damasco e a cambraia? A minha avó tinha um quarto no quintal, para os sem-abrigo, e passavam a vida a roubar-lhe o colchão e o cobertor.

O convite a ser cristão é também um convite a um persistente despojamento. Ainda tenho muito que andar.

10 comentários:

Gi disse...

Não queiras ver nem saber, Helena. Magnata colombiano é capaz de ser barão da droga.
Digo eu, cuja caridade, cristã ou outra, anda um bocado temperada.

Helena disse...

Pode, é verdade, mas não tem de ser necessariamente. Era o que faltava eu estar a fazer juízos sobre uma pessoa que nunca vi e cuja história não conheço. A única coisa que sei dele é que tem um filho amoroso e muito bem educado.

mdsol disse...

:)))

Lucy disse...

Helena, é fantástica! Acontece-lhe cada uma que nem dá para acreditar, mas eu acredito em tudinho! Anseio pela reportagem do jantar.

Helena disse...

Lucy, pode acreditar. Eu era lá capaz de inventar uma história destas? A da minha avó também é verdade.
Lembra-se quando nos conhecemos, naquele encontro com o Tolentino? Ele estava a falar justamente de ver Jesus nos outros, eu contei a história do operário a quem servi café e bolachinhas na varanda, e que me roubou o ouro das avós. E ele: "pudesse eu ter mais para ter dar". E eu: ando com essa atravessada desde então.

Lucy disse...

maravilha...

Helena disse...

Esse encontro foi mesmo bom, não foi? Ainda agora me lembro do gozo que fizeram ao meu "comer frango de aviário na clandestinidade".

A penúltima frase no meu comentário anterior era assim:
E o Tolentino: "pudesse eu ter mais para te dar".

rosário albuquerque disse...

é uma delícia esta história. mas, convenhamos... da Colombia para estudar em Berlim não podia mesmo ser um pé de chinelo; ou podia?

sem-se-ver disse...

a rosário acima tirou-me a expressao da boca - que delícia.

e sabes, deve haver praí um adágio, daqueles religiosos, tipo 'quem o bem faz o recebe em triplicado', algo assim, que se aplique aqui.

conta tudo do jantarola.

Helena disse...

Rosário: eu não pensei. O meu filho perguntou se podíamos dar asilo ao rapaz, e nós demos.

Sem-se-ver: e vai haver jantarola também cá em casa. Depois conto tudo, fica descansada.