18 outubro 2011

sexo na Filarmonia

Estava eu toda aplicada a traduzir humor russo para humor helenês (e até me pagam, vejam lá a sorte que eu tenho!) quando o telefone tocou, e era um amigo que queria saber do Lunchkonzert na Filarmonia, e eu que hoje não, não vou, mas fui dar uma vistinha de olhos e quase saltava na cadeira: hoje tocava o Edicson Ruiz! Não conhecia os compositores, mas sendo o Edicson Ruiz a tocar, nem que tocasse debaixo de água, eu ia. E fui.



O Edicson Ruiz é um contrabaixista venezuelano que aos 16 anos tocava na Simón Bolivar e aos 18 já era membro da Filarmónica de Berlim. Agora (aos dezoito e meia semana, que ele não tem cara para mais...) podia dar-lhe para tiques de génio, mas não: é uma pessoa extremamente simpática, afável, simples e alegre. Um doce.

Além disso, toca contrabaixo como poucos. Aliás: minto. Ele não toca. Nem sequer interpreta. Ele é atravessado pela música. Hoje vi-o tocar de cor: "cor" de coração e de corpo - inteiro. Durante os solos da pianista fechava os olhos e sorria, o corpo agitava-se nas ondas dos acordes do piano. Depois abraçava o seu violoncelo, debruçava-se sobre ele, passava o arco certeiro e leve. Parecia sexo, e do melhor: decantado por uma imensa intimidade, entrega e confiança. Ao pensar nisso, não pude evitar um sorriso, que ficou esquecido na minha cara durante todo o concerto. O meu corpo embalado, a cabeça indecisa: ora nas seis e cinco, ora nas dez para as seis. Encantada.

Hoje tocava música do séc. XVIII de Viena, mas não se notava muito a cabeleira empoada, os frufrus da corte austríaca. Por vezes pareceu-me ver-lhe passar pelas cordas a brisa de algum pássaro colorido, um eco de cascata na selva. Uma chama latina: e o quanto aquela música saía enriquecida!

Não acreditam, ó cambada de Sãos Tomés? Pois tivessem ido ver, para crer: esteve no Centro Cultural de Belém em Abril, no Coliseu do Porto em Maio, no Auditório de Espinho em Julho. Vou ficando atenta e, se voltar a Portugal, aviso!

Para quem mora em Berlim, para anotar no calendário:

17 December 2011, Berlin, Institut Francais
Tomoko Takahashi, piano
A. Zimmermann, Concerto in D
C. D. von Dittersdorf,
Kontrabass Konzert in E-flat
H. Holliger, Preludio e Fuga

E agora toca a trabalhar: lá vou eu rir outra vez por entre as linhas do Kaminer.

6 comentários:

Carlos Azevedo disse...

Este em Espinho, pois esteve!, e eu não pude ir. Ora bolas!

Teresa disse...

Tens a certeza de que era sexo? Pela tua descrição cheirou-me bem mais a amor. :)))

http://www.youtube.com/watch?v=zS80zuVj5XE

Helena disse...

Que pena, Carlos. Ele é mesmo bom!

Teresa,
Digamos que estará no ponto em que amor e sexo se combinam para algo único.

(Essa musiquinha da Rita Lee ficou muito engraçada nesta Berlim hoje cinzenta)

Teresa disse...

A menina dobre a língua. Não é uma musiquinha. É uma grande música. :)

E ainda bem que deu cor a uma Berlim hoje cinzenta.

cjs disse...

E assim se comprova mais uma vez a utilidade dos amigos, até contribuem para aumentar o sexo na tua vida :-)

Helena disse...

sim - e até por telefone!
(que foi como tudo isto começou)