29 fevereiro 2012
vendo as coisas de lá para cá...
Na Jonasnuts encontrei hoje um vídeo que me surpreendeu. Grande truque! Vejam até ao fim, garanto que vale a pena gastar esses dois minutos.
Fiquei a pensar em qual das leituras me sinto tentada a acreditar mais facilmente. Depois conto a que resultados cheguei. Para já, uma conclusão rápida: há de tudo neste supermercado de Deus...
28 fevereiro 2012
a internet tomando sempre novas qualidades
Na Alemanha, o youtube não passa uma série de vídeos que estão protegidos por direitos de autor.
É insuportável: os amigos dizem "ouve isto!", eu vou ouvir, e dou com um écran preto. Não me importava de ter uma espécie de conta corrente no youtube para pagar os vídeos que vejo - não quero roubar nada a ninguém, só queria poder ver os vídeos de que se fala por aí.
Para contornar o problema, costumo escrever o nome do artista e o da canção no google, escolho "vídeos" e procuro nos outros sites de filmes.
Hoje tentei isso, e dei-me conta que o google já não tem "vídeos", só tem "youtube".
O google que se cuide: agora começa a ir longe demais. Se quer deixar de ser uma boa máquina de busca, pois muito bem: teremos de recorrer a outros serviços.
A propósito: por onde andará o Altavista? (olha, olha, o Altavista tem a opção "vídeos", olha, olha, via Altavista encontrei num instante o que queria!)
É insuportável: os amigos dizem "ouve isto!", eu vou ouvir, e dou com um écran preto. Não me importava de ter uma espécie de conta corrente no youtube para pagar os vídeos que vejo - não quero roubar nada a ninguém, só queria poder ver os vídeos de que se fala por aí.
Para contornar o problema, costumo escrever o nome do artista e o da canção no google, escolho "vídeos" e procuro nos outros sites de filmes.
Hoje tentei isso, e dei-me conta que o google já não tem "vídeos", só tem "youtube".
O google que se cuide: agora começa a ir longe demais. Se quer deixar de ser uma boa máquina de busca, pois muito bem: teremos de recorrer a outros serviços.
A propósito: por onde andará o Altavista? (olha, olha, o Altavista tem a opção "vídeos", olha, olha, via Altavista encontrei num instante o que queria!)
bom dia!
A minha manhã começou com um e-mail muito especial, de alguém que está a passar uma difícil fase na sua vida e tenta atravessá-la com dignidade e optimismo. "Acredito mesmo que a vida só nos impõe aquilo que conseguimos suportar", diz ela, acrescentando logo a seguir palavras de compreensão para quem não consegue, por um ou outro motivo, carregar o seu fardo. Como a compreendo! E quantas vezes já olhei para trás e me perguntei com surpresa de onde me terá vindo a força para o tanto que carreguei.
Pensando nela, e também num amigo muito querido que não desiste de procurar a água no deserto que vem atravessando há anos, aqui deixo um bocadinho de serenidade:
É a Dame Janet Baker, acompanhada ao violino por Mr. Darcy (sim, aquele violinista só pode ser o Mr. Darcy).
Morgen!
Und morgen wird die Sonne wieder scheinen
und auf dem Wege, den ich gehen werde,
wird uns, die Glücklichen sie wieder einen
inmitten dieser sonnenatmenden Erde…
und zu dem Strand, dem weiten, wogenblauen,
werden wir still und langsam niedersteigen,
stumm werden wir uns in die Augen schauen,
und auf uns sinkt des Glückes stummes Schweigen...
Uma tradução possível (tirada daqui, onde há outras)
Já há dias tinha posto aqui a mesma canção, mas por Jonas Kaufmann e Helmut Deutsch.
Pensando nela, e também num amigo muito querido que não desiste de procurar a água no deserto que vem atravessando há anos, aqui deixo um bocadinho de serenidade:
É a Dame Janet Baker, acompanhada ao violino por Mr. Darcy (sim, aquele violinista só pode ser o Mr. Darcy).
Morgen!
Und morgen wird die Sonne wieder scheinen
und auf dem Wege, den ich gehen werde,
wird uns, die Glücklichen sie wieder einen
inmitten dieser sonnenatmenden Erde…
und zu dem Strand, dem weiten, wogenblauen,
werden wir still und langsam niedersteigen,
stumm werden wir uns in die Augen schauen,
und auf uns sinkt des Glückes stummes Schweigen...
Uma tradução possível (tirada daqui, onde há outras)
- Tomorrow!
- And tomorrow the sun will shine again
- And on the way which I shall follow
- She will again unite us lucky ones
- As all around us the earth breathes in the sun
- Slowly, silently, we will climb down
- To the wide beach and the blue waves
- In silence, we will look in each other's eyes
- And the mute stillness of happiness will sink upon us
Já há dias tinha posto aqui a mesma canção, mas por Jonas Kaufmann e Helmut Deutsch.
27 fevereiro 2012
e o Óscar vai para...
Os fantásticos livros voadores do senhor Lessmore (melhor curta-metragem de animação):
25 fevereiro 2012
Digital Concert Hall
(foto daqui)
Mão amiga (ah, o que eu esperei para poder começar um post assim: "mão amiga") enviou-me uma crítica no NY Times sobre o concerto que a Filarmónica de Berlim deu no Carnegie Hall, e que nós tínhamos visto no dia 14 aqui na filarmonia.
O quê?!, pergunto-me eu, então eu não reparei que "in this context Debussy seemed the most radical of all. The barely contained eroticism of the score came seeping through the beguiling, dreamy surface in this plush, taut and boldly spacious performance"?!
Tenho de regressar a esse concerto, e agora com ouvidos de ver.
E é aqui que entra o momento de publicidade (*) ao Digital Concert Hall, que permite ver via internet (no computador ou na televisão) concertos na Filarmonia de Berlim. Fazem cerca de 30 transmissões em directo por ano, e têm um arquivo cada vez maior com excelentes concertos, documentários, entrevistas, etc.
Um passe de 48 horas, que dá direito - durante esse período, ou seja: 48 horas consecutivas - a um concerto em directo e acesso a todos os arquivos, custa 9,90 €.
Uma assinatura mensal, automaticamente renovável mas que pode ser cancelada em qualquer momento, custa 14,90€.
E a assinatura anual custa 149 €.
Ontem ao fim da tarde comecei a saborear as 48 horas de música, e já não quero outra coisa. Isto é incomparavelmente melhor do que andar a calcorrear o youtube em busca de gravações com qualidade e sem interrupções. E agora mesmo vou ouvir o Debussy, que a crer nos americanos está pejadinho de erotismo, quem diria.
Algo me diz que vou perder o amor a 14,9 € por mês.
(*) Enfim, nem sei bem se é publicidade, se é serviço público.
delirar é preciso
Apesar de um ou outro (*) devaneio, continuo parada pelo Elfenlied de Hugo Wolf (primeiro excerto que aparece neste vídeo).
Ai, este aiapopaia aiapopai...
(que em alemão se escreve eiapopeia mas, se eu escrevesse assim, depois iam ouvir o vídeo e não sabiam do que é que eu estava a falar) (isto até parece aquela discussão que anda por aí sobre ler pizza, pronunciar pisa, e eventualmente escrever em português "piteça" - puseram-se a mexer na ortografia, abriram a caixa de Pandora, e um dia destes até eu começo a ter dúvidas se devo escrever correctamente ou corretamente - que é como quem diz: irradamente...) (estava a brincar, escusam de bater)
Adiante. O que eu cá vinha dizer é que no ensaio geral deste concerto vi a Camilla Tilling a cantar com um vestido Boden igualzinho taliqual ao meu (que comprei numa daquelas incursões que faço aos descontos de 70%). Mas não coincidimos nos mocassins: ela estava de botas.
De onde se conclui que ainda me falta muito para chegar a cantora lírica.
(*) Para que este post não seja apenas um delírio pateta, aqui vai um bocadinho de serviço público:
Gravação pouco conhecida com Zeca Afonso e Fancisco Fanhais, divulgada aqui, onde se pode ler:
"República" foi gravado em Roma, em 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975, nos Estúdios das Santini Edlzioni. Álbum de solidariedade para com o jornal República e a Reforma Agrária, editado em 1975, com interpretações de Zeca e de Francisco Fanhais. Editado por iniciativa conjunta do Manifesto e das organizações Lotta Continua e Vanguardia Operaria, nunca foi distribuído em Portugal. O produto da venda dos discos destinava-se ao apoio da Comissão de Trabalhadores do Jornal "República" ou, caso o jornal fosse entretanto extinto, ao Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre.
Inclui um tema inédito, Foi no Sábado Passado, escrito a propósito de uma manifestação de solidariedade com a revolução portuguesa, realizada em Roma. Os outros temas são Para não dizer que não falei de flores, do brasileiro Geraldo Vandré, Se os teus olhos se vendessem, Canta camarada, Eu hei-de ir colher macela, O pão que sobra à riqueza, Vampiros, Senhora do Almortão, Letra para um hino e Ladaínha do Arcebispo." - Viriato Teles
(encontrado no mural do facebook de um amigo)
Ai, este aiapopaia aiapopai...
(que em alemão se escreve eiapopeia mas, se eu escrevesse assim, depois iam ouvir o vídeo e não sabiam do que é que eu estava a falar) (isto até parece aquela discussão que anda por aí sobre ler pizza, pronunciar pisa, e eventualmente escrever em português "piteça" - puseram-se a mexer na ortografia, abriram a caixa de Pandora, e um dia destes até eu começo a ter dúvidas se devo escrever correctamente ou corretamente - que é como quem diz: irradamente...) (estava a brincar, escusam de bater)
Adiante. O que eu cá vinha dizer é que no ensaio geral deste concerto vi a Camilla Tilling a cantar com um vestido Boden igualzinho taliqual ao meu (que comprei numa daquelas incursões que faço aos descontos de 70%). Mas não coincidimos nos mocassins: ela estava de botas.
De onde se conclui que ainda me falta muito para chegar a cantora lírica.
(*) Para que este post não seja apenas um delírio pateta, aqui vai um bocadinho de serviço público:
Gravação pouco conhecida com Zeca Afonso e Fancisco Fanhais, divulgada aqui, onde se pode ler:
"República" foi gravado em Roma, em 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975, nos Estúdios das Santini Edlzioni. Álbum de solidariedade para com o jornal República e a Reforma Agrária, editado em 1975, com interpretações de Zeca e de Francisco Fanhais. Editado por iniciativa conjunta do Manifesto e das organizações Lotta Continua e Vanguardia Operaria, nunca foi distribuído em Portugal. O produto da venda dos discos destinava-se ao apoio da Comissão de Trabalhadores do Jornal "República" ou, caso o jornal fosse entretanto extinto, ao Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre.
Inclui um tema inédito, Foi no Sábado Passado, escrito a propósito de uma manifestação de solidariedade com a revolução portuguesa, realizada em Roma. Os outros temas são Para não dizer que não falei de flores, do brasileiro Geraldo Vandré, Se os teus olhos se vendessem, Canta camarada, Eu hei-de ir colher macela, O pão que sobra à riqueza, Vampiros, Senhora do Almortão, Letra para um hino e Ladaínha do Arcebispo." - Viriato Teles
(encontrado no mural do facebook de um amigo)
24 fevereiro 2012
saudades
O meu amigo foi-se embora ontem, e todos cá em casa sentimos a sua falta, depois destas duas semanas de vida boa partilhada.
Eu, então: quem me fará agora um café às dez da manhã, com quem cantarei o Avé Maria com terríveis portamentos e intervalos de terceira esganiçados entremeados de gargalhadas, quem me ensinará as notas certas do princípio de ich bin der Welt abhanden gekommen? Como olharão para mim o Caspar David Friedrich e o Karl Friedrich Schinkel da Alte Nationalgalerie, se já não tenho os olhos dele para me ajudarem a ver?
E além disso Berlim ficou cinzenta, e chove.
Eu, então: quem me fará agora um café às dez da manhã, com quem cantarei o Avé Maria com terríveis portamentos e intervalos de terceira esganiçados entremeados de gargalhadas, quem me ensinará as notas certas do princípio de ich bin der Welt abhanden gekommen? Como olharão para mim o Caspar David Friedrich e o Karl Friedrich Schinkel da Alte Nationalgalerie, se já não tenho os olhos dele para me ajudarem a ver?
E além disso Berlim ficou cinzenta, e chove.
já que por aqui se tem falado na responsabilidade dos cidadãos...
Eis outro exemplo de como é possível fazer mais do que simplesmente encolher os ombros e lamentar com desprezo que "são todos iguais, este país não tem conserto..."
Eu vim para cá, pretensiosamente, propor a vocês uma revolução. No caminho, mais ao estilo brasileiro, pensei numa reforma. E numa crise de humildade que acomete os jornalistas ao sábado, quando eles não trabalham, eu quero propor mesmo é uma reflexão que talvez - quem sabe - se transforme numa mobilização mais tarde.
(são quinze minutos, mas valem a pena: este Juca Kfouri combina muito bem bom humor com seriedade)
Eu vim para cá, pretensiosamente, propor a vocês uma revolução. No caminho, mais ao estilo brasileiro, pensei numa reforma. E numa crise de humildade que acomete os jornalistas ao sábado, quando eles não trabalham, eu quero propor mesmo é uma reflexão que talvez - quem sabe - se transforme numa mobilização mais tarde.
(são quinze minutos, mas valem a pena: este Juca Kfouri combina muito bem bom humor com seriedade)
portugueses em Berlim
Ontem conheci alguns leitores deste blogue.
E é sempre a mesma sensação de vertigem: eles existem, eles são reais, aimêdês, que responsabilidade!
Um dia destes ainda passo a escrever os meus posts debaixo da cama.
***
Foi numa reunião de um grupo chamado Portugueses em Berlim, que junta pessoas com ideias para ajudar, animar e pôr em contacto os portugueses que vivem nesta cidade. A reunião de ontem foi extremamente produtiva: 2012 promete! Nestes momentos, fico sempre surpreendida com a disponibilidade e a generosidade das pessoas. Sendo tão mais fácil ficar em casa à espera que outros façam, estes dão-se ao trabalho de percorrer longas distâncias para virem a reuniões intermináveis de onde sairão comprometidos para muitas horas de trabalho.
Ontem, ao olhar para aquelas caras, vi pelo avesso o meu país sangrado de tantas pessoas inteligentes, flexíveis e dinâmicas.
E é sempre a mesma sensação de vertigem: eles existem, eles são reais, aimêdês, que responsabilidade!
Um dia destes ainda passo a escrever os meus posts debaixo da cama.
***
Foi numa reunião de um grupo chamado Portugueses em Berlim, que junta pessoas com ideias para ajudar, animar e pôr em contacto os portugueses que vivem nesta cidade. A reunião de ontem foi extremamente produtiva: 2012 promete! Nestes momentos, fico sempre surpreendida com a disponibilidade e a generosidade das pessoas. Sendo tão mais fácil ficar em casa à espera que outros façam, estes dão-se ao trabalho de percorrer longas distâncias para virem a reuniões intermináveis de onde sairão comprometidos para muitas horas de trabalho.
Ontem, ao olhar para aquelas caras, vi pelo avesso o meu país sangrado de tantas pessoas inteligentes, flexíveis e dinâmicas.
23 fevereiro 2012
Elfenlied de Hugo Wolf
No concerto do sábado passado, na Filarmonia de Berlim, ouvi pela primeira vez o Elfenlied de Hugo Wolf (do Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare), e fiquei encantada.
Acabei de descobrir (toda satisfeita) que o filme de publicidade a este concerto no Digital Concert Hall mostra uma parte desta canção (pensei que só passariam excertos da Segunda de Mahler, que foi a parte forte, fortíssima, do programa). Quem quiser ouvir: é seguir este link.
Acabei de descobrir (toda satisfeita) que o filme de publicidade a este concerto no Digital Concert Hall mostra uma parte desta canção (pensei que só passariam excertos da Segunda de Mahler, que foi a parte forte, fortíssima, do programa). Quem quiser ouvir: é seguir este link.
22 fevereiro 2012
ceteris paribus
Retomando a discussão sobre as culpas da Alemanha nos problemas brutais com os quais a Grécia está a ser confrontada, proponho um exercício de análise ceteris paribus: imaginemos que hoje a dívida era integralmente perdoada à Grécia, e que este país começava amanhã mesmo com um dracma novinho em folha, sem dívidas mas também sem a UE como fiador para as dívidas novas que eventualmente queira fazer. Numa análise ceteris paribus (*) - ou seja, não havendo qualquer alteração no funcionamento das restantes economias -, como estaria a Grécia daqui a dez anos?
E se acontecesse o mesmo a Portugal: com o nosso escudo, e sem fiadores externos para os nossos créditos, onde estaríamos daqui a dez anos?
(*) Ceteris paribus: partindo do princípio que este perdão da dívida não provocava falências em cadeia dos bancos e das seguradoras (reduzindo a zero o dinheiro existente nas contas das instituições, das empresas e dos particulares), que os seguros privados de saúde e os seguros de reforma não eram afectados, que os bancos continuavam a financiar sem problemas a actividade das empresas, que o Euro não estourava, em suma, partindo do princípio que o não pagamento destas dívidas não mergulhava as economias ocidentais numa segunda Grande Depressão.
E se acontecesse o mesmo a Portugal: com o nosso escudo, e sem fiadores externos para os nossos créditos, onde estaríamos daqui a dez anos?
(*) Ceteris paribus: partindo do princípio que este perdão da dívida não provocava falências em cadeia dos bancos e das seguradoras (reduzindo a zero o dinheiro existente nas contas das instituições, das empresas e dos particulares), que os seguros privados de saúde e os seguros de reforma não eram afectados, que os bancos continuavam a financiar sem problemas a actividade das empresas, que o Euro não estourava, em suma, partindo do princípio que o não pagamento destas dívidas não mergulhava as economias ocidentais numa segunda Grande Depressão.
21 fevereiro 2012
"tu és polícia, tu és ladrão"
Belos tempos, quando a gente sabia distinguir sem dificuldades os dois lados da sociedade.
Depois uma pessoa cresce, e perde as certezas. Por exemplo, agora mesmo. Quem explica isso tudo muito bem é a Jonasnuts, a quem eu peço desculpa por só agora aparecer a dar eco ao seu esforço.
Resumindo muito: vem por aí uma nova lei que parte do princípio que qualquer pessoa que tem um computador ou um telemóvel é um pirata, e para evitar que grave sem pagar conteúdos cujos direitos de propriedade estão protegidos, o Estado decide que o melhor é pagar à cabeça, quando compra o computador ou o telemóvel. E como se paga uma taxa fixa por unidade da capacidade instalada, quanto maior a capacidade da coisa, maior a taxa paga.
Se entendem que isto é uma ilegalidade de todo o tamanho que corre o risco de ser aprovada pelo nosso Parlamento, se querem fazer alguma coisa para que não passarmos a ser roubados de forma descarada mas legal, vão ler a petição e assinem. E façam barulho, o mais possível. Ou isso, ou daqui a uns tempos termos de ir todos a Andorra comprar os CDs para gravar as fotos e os filmes com as gracinhas dos nossos filhos.
Depois uma pessoa cresce, e perde as certezas. Por exemplo, agora mesmo. Quem explica isso tudo muito bem é a Jonasnuts, a quem eu peço desculpa por só agora aparecer a dar eco ao seu esforço.
Resumindo muito: vem por aí uma nova lei que parte do princípio que qualquer pessoa que tem um computador ou um telemóvel é um pirata, e para evitar que grave sem pagar conteúdos cujos direitos de propriedade estão protegidos, o Estado decide que o melhor é pagar à cabeça, quando compra o computador ou o telemóvel. E como se paga uma taxa fixa por unidade da capacidade instalada, quanto maior a capacidade da coisa, maior a taxa paga.
Se entendem que isto é uma ilegalidade de todo o tamanho que corre o risco de ser aprovada pelo nosso Parlamento, se querem fazer alguma coisa para que não passarmos a ser roubados de forma descarada mas legal, vão ler a petição e assinem. E façam barulho, o mais possível. Ou isso, ou daqui a uns tempos termos de ir todos a Andorra comprar os CDs para gravar as fotos e os filmes com as gracinhas dos nossos filhos.
20 fevereiro 2012
urgente: à atenção de todos os que gostam de música clássica
(daqui)
O Digital Concert Hall, onde estou registada e do qual recebo periodicamente uma newsletter a contar novas andanças da Filarmónica de Berlim, enviou-me hoje um inquérito para preencher online. Foram apenas cinco minutos, e no fim ofereceram-me 48 horas para andar a vasculhar nos arquivos da casa. Vão lá ver, é de babar a fazer concorrência às cataratas do Niágara. Estou à espera que incluam o concerto a que assisti no sábado passado, e inscrevo-me para os meus dois dias de paraíso. É que nem é bem pelo Mahler, é porque quero muito voltar a ouvir as canções do Hugo Wolf (aquele seu Elfenlied, ai, aquele seu Elfenlied!)
Para quem não está ainda inscrito, e gostava de receber este presente, talvez não seja tarde: entrem no Digital Concert Hall, registem-se, depois recebem um email para confirmar, confirmam e dizem que querem receber a newsletter. Pode ser (não sei, estou simplesmente a desejar que tudo corra pelo melhor) que recebam o tal inquérito, e vocês preenchem, e no fim recebem um código para dois dias seguidos de prazer.
("dois dias seguidos de prazer", até parece que estou a falar daquelas pastilhinhas azuis...)
um crocodilo melancólico
Depois dos dois prémios que o filme recebeu na Berlinale, já se deve ter escrito tanto e tão bem sobre ele que escuso de tentar dizer coisas inteligentes a fazer de conta que percebo muito disto. Acrescento apenas este texto da Berlinda.org, onde se fala de um encontro com a equipa do filme, e alguns comentários pessoais:
Tabu é óptimo para estes tempos de crise: três filmes num só, todos eles excelentes - uma óptima relação preço/qualidade/quantidade. Gostei muito do primeiro - um bocadinho de poesia aonde apetece voltar -, e gostei imenso do humor fino que atravessa todos os três. Fiquei a pensar no retrato do catolicismo da Pilar, e fartei-me de rir com a imagem que dão dos jovens de Taizé. Mas o que mais me impressionou foram os retratos da criada Santa e da velha Aurora: duas rectas paralelas vivendo sob o mesmo tecto, com tanto de dependência como de insuperável distância.
Hei-de regressar a este filme, porque deixou em mim inúmeros ecos que pedem um reencontro com a matéria original.
***
Ontem foi dia de Portugal e das comunidades portuguesas aqui para os lados da minha vida.
O dia começou com o Tabu no palácio da Berlinale, continuou num pequeno café lá perto a comer pastéis de nata, onde um grupo de oito portugueses em alegre animação fez uma algazarra tal que vai ser preciso rever essa ideia de que Berlim é uma cidade sossegada e silenciosa. E terminou com um pequeno concerto do Carlos Bica, num espaço muito engraçado, muito retro-RDA, e mais umas cervejinhas em português, olhando para uma das igrejas mais antigas de Berlim e, mesmo ao lado, a enorme torre da televisão.
Em português, Berlim fica ainda mais fascinante.
19 fevereiro 2012
e como te correu ontem a segunda de Mahler, Heleninha?
Correu mal. Ainda não tinha começado, e já tinham acabado comigo, por causa do Elfenlied, a partir do "sonho de uma noite de verão" de Shakespeare, do compositor Hugo Wolf. Aquela orquestra a sublinhar o belíssimo diálogo entre a soprano e o coro, três contra uma: fiquei KO.
E depois veio o Mahler. Ora bem: nunca ninguém lhes disse que não se bate em quem já está no chão?
Muito menos daquela maneira.
E o Simon Rattle sofreu ainda mais. Eu via-o de frente, os esgares impressionantes que fazia, a cara roxa. Acho que vou aprender umas técnicas de primeiros socorros, nunca se sabe.
E depois veio o Mahler. Ora bem: nunca ninguém lhes disse que não se bate em quem já está no chão?
Muito menos daquela maneira.
E o Simon Rattle sofreu ainda mais. Eu via-o de frente, os esgares impressionantes que fazia, a cara roxa. Acho que vou aprender umas técnicas de primeiros socorros, nunca se sabe.
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Jonas Kaufmann, "para mais tarde recordar"
Algumas das canções que mais me tocaram, do concerto da sexta-feira passada:
A excelência do pianista Helmut Deutsch, e o perfeito modo como se combina com a excelência do cantor na interpretação deste "Morgen".
O vídeo é fraquinho, provavelmente feito com telemóvel, mas mostra alguns momentos interessantes. Por exemplo: no fim da primeira canção, "Ach weh mir unglückhaftem Mann", Jonas Kaufmann faz um gesto com as mãos que põe o público a rir. Essa foi uma das surpresas maiores da noite: o humor, ora da parte do cantor, ora da do pianista, que nos provocou várias gargalhadas. E tem a "Freundliche Vision", a última destas quatro canções, que quero voltar a ouvir na voz dele, uma e outra vez.
O melhor é parar de cuscar no youtube, e ir acrescentar mais um CD à minha lista de um-dia-destes-perco-a-cabeça-e-cá-vai-disto na amazon:
O Paulo também contou sobre este concerto no seu blogue, e deixou lá um link para um pequeno documentário onde se apresentam algumas das peças que o Jonas Kaufmann cantou.
Ultimamente o valkirio e o 2 dedos de conversa têm um caso de estereofonia. Quem passa por aqui, deve ir também lá - vão ver que o Paulo não me deixa mentir quando falo do Kaufmann, da Georgette Dee, ou dos prodígios (este e este e este, por exemplo) que nos vão acontecendo. Agora estou muito curiosa para saber como correu a segunda de Mahler ao Paulo, que ouvimos ontem juntos.
A excelência do pianista Helmut Deutsch, e o perfeito modo como se combina com a excelência do cantor na interpretação deste "Morgen".
O vídeo é fraquinho, provavelmente feito com telemóvel, mas mostra alguns momentos interessantes. Por exemplo: no fim da primeira canção, "Ach weh mir unglückhaftem Mann", Jonas Kaufmann faz um gesto com as mãos que põe o público a rir. Essa foi uma das surpresas maiores da noite: o humor, ora da parte do cantor, ora da do pianista, que nos provocou várias gargalhadas. E tem a "Freundliche Vision", a última destas quatro canções, que quero voltar a ouvir na voz dele, uma e outra vez.
O melhor é parar de cuscar no youtube, e ir acrescentar mais um CD à minha lista de um-dia-destes-perco-a-cabeça-e-cá-vai-disto na amazon:
O Paulo também contou sobre este concerto no seu blogue, e deixou lá um link para um pequeno documentário onde se apresentam algumas das peças que o Jonas Kaufmann cantou.
Ultimamente o valkirio e o 2 dedos de conversa têm um caso de estereofonia. Quem passa por aqui, deve ir também lá - vão ver que o Paulo não me deixa mentir quando falo do Kaufmann, da Georgette Dee, ou dos prodígios (este e este e este, por exemplo) que nos vão acontecendo. Agora estou muito curiosa para saber como correu a segunda de Mahler ao Paulo, que ouvimos ontem juntos.
Gerhard Richter em Berlim
Hoje podia ter feito uma fotografia para acrescentar a estas, uma mesmo muito "Gerhard Richter em Berlim": em frente à Neue Nationalgalerie, por volta da uma da tarde, havia uma fila de centenas de pessoas. Chuva, frio (3ºC), vento. E uma fila interminável e sinuosa em frente à entrada.
Portanto, a quem interessar possa: o melhor é irem durante a semana, de manhã, e talvez porem-se na fila uma hora antes de abrir a bilheteira. Só é pena perder o efeito de cores e reflexos do anoitecer dentro daquele edifício. E vão quanto antes, porque com o passar dos dias as filas vão ficando cada vez maiores. Uma outra ideia é ir ao fim do dia, cerca de duas horas antes do fecho da exposição.
18 fevereiro 2012
sábados assim
Manhã de sábado na Filarmonia: a saborear o trabalho de Simon Rattle com a sua orquestra - o difícil ensaio de uma orquestra em que parte dos músicos estão fora da sala e não vêem o maestro, o modo como este pede aos músicos que tornem realidade aquilo que ele sonhou. A ouvir a Bernarda Fink, maravilhosa. A conversar no intervalo com os músicos, a regressar em conversa com uma das solistas ao concerto de ontem, do Jonas Kaufmann (e o mesmo encantamento, a mesma admiração - mas por parte de alguém que sabe, que também já cantou Ich atmet' einen linden Duft! e conhece as passagens difíceis, e sabe elogiar o modo como Jonas Kaufmann as resolve). A ver Simon Rattle avançar na nossa direcção com um enorme sorriso (garanto que por um momento acreditei que me ia dar um beijinho, e foi uma sorte não ter dado, que depois não sei quantos dias ia ficar sem lavar a cara). A almoçar por ali, conversando com uma amiga sobre o tempo em que ela cantava com Karajan, das diferenças de trabalhar com um Abbado ou um Rattle.
Depois fomos espreitar a Dussmann, mas antes de entrar fizemos um pacto de estabilidade financeira: combinámos que nenhum de nós comprava fosse o que fosse. Apreciámos longamente o jardim vertical do Patrick Blanc, que desde há cerca de um mês existe nessa livraria, mesmo por trás da esfinge. Fiquei hoje a saber que a esfinge da Dussmann não é um pastiche qualquer de novo rico, mas uma peça de 1475 a.C. - empréstimo do museu egípcio àquela livraria. Mais uma vez admirei esta cidade cujas instituições sabem unir esforços para se promoverem mutuamente, multiplicando-nos as surpresas e o gosto de aqui estar.
Daqui a nada sairemos para o concerto: Mahler, sinfonia nº2. Já sei o que me espera, ainda não começou e já estou feliz.
Depois fomos espreitar a Dussmann, mas antes de entrar fizemos um pacto de estabilidade financeira: combinámos que nenhum de nós comprava fosse o que fosse. Apreciámos longamente o jardim vertical do Patrick Blanc, que desde há cerca de um mês existe nessa livraria, mesmo por trás da esfinge. Fiquei hoje a saber que a esfinge da Dussmann não é um pastiche qualquer de novo rico, mas uma peça de 1475 a.C. - empréstimo do museu egípcio àquela livraria. Mais uma vez admirei esta cidade cujas instituições sabem unir esforços para se promoverem mutuamente, multiplicando-nos as surpresas e o gosto de aqui estar.
Daqui a nada sairemos para o concerto: Mahler, sinfonia nº2. Já sei o que me espera, ainda não começou e já estou feliz.
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viver em Berlim
Jonas Kaufmann
(foto do Paulo)
Ontem, na sala enorme da Filarmonia, Jonas Kaufmann e o pianista Helmut Deutsch encantaram. Verdade seja dita, já sabíamos ao que íamos. Mas de facto não, não sabíamos. Jonas Kaufmann absolutamente em forma, uma combinação perfeita com o pianista, um trabalho muito sério mas atravessado por toques de leveza e humor dos dois músicos que faziam o público aplaudir com palmas e gargalhadas.
Começou com Liszt, o que não teria sido a minha primeira escolha, mas nunca me perguntam nada e depois dá nisto (no fim diziam-me, com alguma maldade, que foi só para aquecer a voz), seguiu para Mahler. No Ich bin der Welt abhanden gekommen o coro da tuberculose galopante resolveu acompanhá-lo, e destruiu toda a beleza do momento. Estas pessoas não se tocam? Se estão prestes a largar os pulmões boca fora, porque não vão logo para o hospital? Porque não ficam no quentinho do lar a beber um chá com mel? Se eu fosse cantora lírica (hihihi) garanto que parava a meio da peça e pedia às pessoas que saíssem da sala. E adiante. Depois de Liszt e Mahler, Duparc e Strauss: excelente.
Se o concerto correspondeu às nossas altíssimas expectativas, os encore superaram-nas largamente. Quarenta e cinco minutos, uma canção e outra e outra, quase todas Strauss. A Freundliche Vision, o terceiro encore, deixou-me muda e paralisada, tal como a vizinha do lado: olhávamo-nos em silêncio, fascinadas por tanta beleza. A minha companheira de sortilégio é cantora profissional, agora já na reforma, e entre palmas comentava os pormenores técnicos - que perfeição, que bela resolução das passagens mais difíceis, que não conhece nenhum tenor que faça com tanta leveza aqueles crescendos com a voz a ressoar dentro da testa - e eu ouvia-a, deliciada. Depois do terceiro encore, já me preparava para abandonar a sala satisfeitíssima da vida, aparecem de novo o cantor com o pianista, que trazia folhas na mão. O público delirou. Mais palmas, ele canta Zueignung, mais palmas, mais um regresso ao palco, então pronto, vamos embora. E eis que o pianista regressa, e tem de novo folhas. Quinto encore?! Gritámos como adolescentes em frente ao Justin Bieber. Dein ist mein ganzes Herz, o público ri-se. Mais dois encores, sexto, sétimo, e os aplausos não paravam, o público aglomerava-se em pé à frente do palco. Jonas Kaufmann volta à sala, pede-nos para fazer silêncio, e diz: "Vocês apanharam-me desprevenido. Não contava com isto, e não sei que mais cantar. Garanto que já não tenho mesmo mais nada na manga. Vamos fazer um acordo: eu vou cantar algo que ainda não conheço bem, e por isso vou ficar junto ao pianista a ler a pauta, e vocês, em troca, param de bater palmas e vão para casa."
Gargalhada geral.
Cantou o oitavo extra da noite, nós fizemos um aplauso intenso e breve, e saímos.
Depois de alguma hesitação, acabámos em frente ao camarim do artista. Meia dúzia de pessoas apenas, uma sorte. Quando ele saiu, pudemos felicitá-lo com calma, perguntar quando vai a Lisboa, e ele "já não vou há tanto tempo, e é uma cidade tão bonita", e nós a insistir que tem de ir, e a pedir autógrafos.
Parámos a beber um espumante no bar dos artistas. Um músico da orquestra passou por nós e lançou : "depois disto, amanhã, no fim da segunda de Mahler, o Simon Rattle vai ter de dar como encore a terceira!" e alguém retorquiu a rir "não, vai repetir a segunda, até nós percebermos tudo..."
Estávamos por ali em conversa feliz, quando apareceu outro amigo, que se sentou à nossa mesa a contar histórias do tempo Karajan.
- Conte como o conheceu, pediram.
- Uiiii, isso é um longa história. Deixe cá ver... Os Osterfestspiele de Salzburg oferecem a pessoas que têm um bilhete especial um concerto suplementar, uma espécie de ensaio geral. Num desses concertos, a orquestra tocava Pini di Roma, de Respighi, uma peça onde às tantas aparece um rouxinol, tocado ou por uma flauta, ou mesmo com uma gravação. O Karajan explicou que o rouxinol tem de cantar para a fêmea que está no choco, para que ela não adormeça e não esmague os ovinhos sob o peso do seu corpo.
("Cantar para não deixar dormir o parceiro?", pensei eu. "Uma boa ressonadela também resolve o problema...")
- Eu achei aquela história estranha, continuou ele. De regresso a Berlim, escrevi ao Jardim Zoológico a perguntar se me confirmavam essa teoria. Alguns dias depois recebi uma carta de página e meia a explicar imensas coisas sobre a vida dos rouxinóis, e a informar que de facto essa história de cantar para manter a fêmea acordada não era correcta. Que havia eu de fazer? Reenviei esta carta ao Karajan: olha, aqui, este sou eu, estive lá, ouvi aquilo, pensei assim, fiz, responderam como aqui está escrito. Passadas algumas semanas, recebo uma carta, hohohohoho, uma carta com cabeçalho "Herbert von Karajan".
- Hohohoho, repetia ele, e de novo vivia a emoção que sentira naquele dia, ao abrir um envelope e ver uma folha de papel timbrado "Herbert von Karajan".
- Dizia-me ele que se divertira imenso com a minha carta, e agradecia a informação. Hohohoho. Eu tinha amigos na orquestra, contei-lhes a história, e alguns meses mais tarde, quando o maestro contou durante um ensaio o incidente do rouxinol, eles responderam que já conheciam a história, e o maestro disse "então quero conhecer esse senhor" - e convidou-me para me encontrar com ele depois de um concerto. Para me acalmarem, porque eu vinha com o coração aos saltos, os meus amigos disseram-me que seria coisa de dez minutos, e num instante passava. Quais quê! Quarenta minutos: o motorista à porta à espera, o pessoal com o casaco do maestro, os amigos... e ele ali, sentado comigo, a conversar a conversar. Até que finalmente disse "acho que agora estou a precisar de uma cama", e se foi embora.
Também nós nos fomos embora, que já era meia-noite. Não sem antes combinar ir ao ensaio geral da segunda de Mahler, que foi hoje de manhã. Mas isso já é história para outro post.
Ultimamente as coisas boas sucedem-se a uma velocidade de tal modo vertiginosa, que eu nem tenho tempo de me aperceber do que está a acontecer, quanto mais de contar...
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Bertolt Brecht e Helena Araújo (ahem... ahem...)
Morgens und abends zu lesen
Der, den ich liebe
Hat mir gesagt
Daß er mich braucht.
Darum
Gebe ich auf mich acht
Sehe auf meinen Weg und
Fürchte mich vor jedem Regentropfen
Daß er mich erschlagen könnte.
- Bertolt Brecht
Para ler de manhã e à noite
Aquele que amo
Disse-me
Que precisa de mim.
Por isso
Tomo cuidado
Vejo por onde ando e
Temo que cada gota de chuva
Me possa ser fatal.
- Bertolt Brecht
(tradução pelo irmão do Speedy Gonzalez - aquele que, além de não ter tempo, não sabe traduzir poesia)
E agora, tã tã tã tããããã... um poema de Helena Araújo, parafraseando o Mestre:
Aquele que estimo
Disse-me
Que fico muito bonita
Com as pernas por fora
Do casaco de Inverno.
Desde então
Tenho rapado um frio
Que nem vos digo
Nem vos conto.
Nem vos conto.
17 fevereiro 2012
um pequeno contributo para reescrever a História e alterar retroactivamente o Direito Internacional
Sem-se-ver,
Ia fazer um comentário no teu post, a propósito deste artigo, que é um resumo deste (em alemão), mas ficou demasiado grande, e por isso escrevo aqui.
Antes de mais: dou-me mal com chantagens. Aquela história de "se os países exigirem à Alemanha que pague reparações da segunda guerra mundial" dá vontade de voltar ao princípio e passar tudo a limpo: sim senhor, a Alemanha paga isso, mas as contas são para fazer bem feitas, e vamos ao deve e haver, com apuramento das responsabilidades de cada um (sim, se os alemães têm de pagar os erros do Hitler, porque é que os outros países se podem demarcar dos seus governos colaboracionistas e fantoches, e do modo como as populações contribuíram para a perseguição aos judeus e do que com ela lucraram?), descontando da dívida tudo o que a Alemanha já pagou nas últimas sete décadas, nomeadamente para os fundos comunitários de apoio ao desenvolvimento dos países mais pobres como a Grécia. Vá, toca a fazer tabula rasa de toda a História do último século, toca a esquecer o que aprendemos, toca a anular todos os tratados internacionais assinados nos últimos setenta anos, porque nada disso tem valor e o que interessa agora é que afinal parece que a Grécia tem direito a receber reparações e juros da segunda guerra mundial.
Se é para usar o argumento das dívidas antigas (que por acaso foram consideradas nulas em tratados assinados pelos países envolvidos, e muito gostaria de saber como é que os políticos gregos explicam este querer dar o assinado por não assinado, como se a sua palavra não valesse absolutamente nada, e - já agora - porque é que na altura assinaram), acho melhor fazê-las bem feitas e resolver o assunto de uma vez por todas, em vez deste jogo de má-consciência e chantagem, este "mais vale fazer um saneamento de luxo à Grécia, porque se eles se decidem a exigir o pagamento do que lhes devem, levam-nos até a camisa". É um daqueles momentos em que me salta a tampa, saco da carteira e pergunto: "quanto lhe devo? leve a camisa, mas encerremos este assunto definitivamente."
Também é um argumento sem memória histórica: pensava que todos sabíamos que a segunda guerra mundial foi consequência das reparações da primeira, e que os países acordaram em não exigir reparações à Alemanha para não criarem de novo uma situação perigosa que acabaria por se virar também contra eles. Pensava que a Alemanha tem andado há sessenta anos a saber ser merecedora deste avanço civilizacional no direito internacional (é verdade que ultimamente a Merkel anda a derrapar muito).
E se vamos decidir setenta ou vinte anos mais tarde algo diferente do que foi acordado e assinado na altura, aproveitamos e obrigamos também os franceses a pagar todos os estragos das invasões napoleónicas? Vamos refazer as contas todas entre todos os países e todos os povos até ao momento anterior ao pecado original? Vamos mudar as regras do jogo para todos, ou esta história é mesmo só uma questão demagógica para chatear a Alemanha e de caminho promover a paz e o entendimento entre os povos?
Já agora: se, como se tem sugerido para o caso português, um país pode fazer uma auditoria à sua dívida pública, e rejeitar parte dela por ter surgido em situações de ilegalidade (governo ditatorial ou corrupto, por exemplo), poderá do mesmo modo a Alemanha rejeitar a dívida criada pelo delírio nazi? É que a moralidade é para distribuir de modo igual por todos...
Voltando ao artigo:
Não percebi muito bem essa história de os EUA terem arcado com os custos das reparações da primeira guerra. Tanto quanto sei, vinte anos após a reunificação, a Alemanha pagou a última tranche dessa dívida, uns duzentos milhões de euros correspondentes a juros da dívida que tinham deixado de ser pagos pelos nazis. Sim, houve cortes na dívida. Mas isso foi decidido de comum acordo com os credores, e aquilo que se combinou pagar foi pago. Se bem me lembro, também se tem andado a falar em perdoar parte da dívida da Grécia.
Quanto às reparações da segunda guerra mundial: o título "A Guerra Fria cancela a dívida alemã" está errado. A Guerra Fria adiou temporariamente a discussão sobre a dívida (note-se que a Alemanha era um país ocupado e dividido: nem sequer haveria interlocutor legal para negociar esta questão) e o tratado dois+quatro, que substituiu um tratado de paz, encerrou essa discussão, com o acordo de todos os países envolvidos.
O jornalista português acrescenta que "no caso da Grécia, essa renúncia foi imposta por uma sangrenta guerra civil, ganha pelas forças pró-ocidentais já no contexto da Guerra Fria. Por muito que a Alemanha de Konrad Adenauer e Ludwig Ehrard tivesse recusado pagar indemnizações à Grécia, teria sempre à perna a reivindicação desse pagamento se não fosse por a esquerda grega ficar silenciada na sequência da guerra civil." Não encontrei nenhuma referência a isso na entrevista ao historiador, em alemão. A renúncia oficial foi assinada pela Grécia nos anos noventa, tal como por outros países ainda com governos comunistas ou socialistas.
O historiador Ritschl está a olhar de forma enviesada para a história europeia, esquecendo-se de referir o processo democrático e perfeitamente legal que levou a esta situação de não exigência de pagamento das dívidas e, mais grave ainda, dando a entender que os tratados assinados não valem absolutamente nada.
Há tempos o Helmut Schmidt falou do mesmo, mas com muito mais elegância: lembrou a enorme generosidade e solidariedade com que a Alemanha foi tratada no fim da guerra (ele tem mesmo grandeza: nem falou do parque industrial que foi levado quase por inteiro para a União Soviética, nem das violações, nem dos saques aos museus, nem nada disso) e de como isso a obriga a ser um bom vizinho na Europa.
Finalmente: parece-me que estamos a esquecer um elemento importante. Estas dívidas alemãs surgiram num terrível contexto de ditadura e guerra - uma situação de absoluta excepção. As dívidas gregas (e portuguesas) surgiram num contexto de normal funcionamento democrático. O país andou a endividar-se sem travões enquanto teve acesso a dinheiro barato, até que chegou a um ponto insustentável de endividamento sem que se visse nas suas infra-estruturas ou no seu tecido económico uma mudança estrutural que justificasse o esforço financeiro. Porque é que não travou a tempo? Porque é que nenhum dos seus governos disse em tempo útil que é impossível continuar a viver desta maneira, e que o Euro foi uma péssima opção porque está a asfixiar a economia? Porque é que não tentaram resolver o problema antes de lhes rebentar assim nas mãos? (Os alemães fazem isso: quando vêem que as coisas estão a começar a correr mal, congelam salários, reduzem contribuições sociais, põem taxas moderadoras no SNS, aumentam a idade da reforma para os 67 ou até os 69 anos, avisam as pessoas para que façam seguros privados de reforma porque o mais certo é não terem uma reforma boa quando chegarem a essa idade, etc.)
É isto que me irrita mais: a profunda desresponsabilização de cada país. A culpa é dos alemães, claro. É muito mais fácil: os alemães que paguem. Assim como assim a guerra, e o euro demasiado caro, e eles a encherem-se de dinheiro à custa dos outros, e os submarinos, e além disso no fundo no fundo continuam a ser uns grandes nazis...
Isto é pura e simplesmente imbecil. Lembra aqueles adolescentes que exigem que os (odiados) pais lhes resolvam todos os problemas.
***
E não estou a dizer que concordo com as soluções e sobretudo com a fina retórica da Angela Merkel.
Também não sei como é que este problema se pode resolver. Só sei que não é com argumentos destes que vamos longe.
Ia fazer um comentário no teu post, a propósito deste artigo, que é um resumo deste (em alemão), mas ficou demasiado grande, e por isso escrevo aqui.
Antes de mais: dou-me mal com chantagens. Aquela história de "se os países exigirem à Alemanha que pague reparações da segunda guerra mundial" dá vontade de voltar ao princípio e passar tudo a limpo: sim senhor, a Alemanha paga isso, mas as contas são para fazer bem feitas, e vamos ao deve e haver, com apuramento das responsabilidades de cada um (sim, se os alemães têm de pagar os erros do Hitler, porque é que os outros países se podem demarcar dos seus governos colaboracionistas e fantoches, e do modo como as populações contribuíram para a perseguição aos judeus e do que com ela lucraram?), descontando da dívida tudo o que a Alemanha já pagou nas últimas sete décadas, nomeadamente para os fundos comunitários de apoio ao desenvolvimento dos países mais pobres como a Grécia. Vá, toca a fazer tabula rasa de toda a História do último século, toca a esquecer o que aprendemos, toca a anular todos os tratados internacionais assinados nos últimos setenta anos, porque nada disso tem valor e o que interessa agora é que afinal parece que a Grécia tem direito a receber reparações e juros da segunda guerra mundial.
Se é para usar o argumento das dívidas antigas (que por acaso foram consideradas nulas em tratados assinados pelos países envolvidos, e muito gostaria de saber como é que os políticos gregos explicam este querer dar o assinado por não assinado, como se a sua palavra não valesse absolutamente nada, e - já agora - porque é que na altura assinaram), acho melhor fazê-las bem feitas e resolver o assunto de uma vez por todas, em vez deste jogo de má-consciência e chantagem, este "mais vale fazer um saneamento de luxo à Grécia, porque se eles se decidem a exigir o pagamento do que lhes devem, levam-nos até a camisa". É um daqueles momentos em que me salta a tampa, saco da carteira e pergunto: "quanto lhe devo? leve a camisa, mas encerremos este assunto definitivamente."
Também é um argumento sem memória histórica: pensava que todos sabíamos que a segunda guerra mundial foi consequência das reparações da primeira, e que os países acordaram em não exigir reparações à Alemanha para não criarem de novo uma situação perigosa que acabaria por se virar também contra eles. Pensava que a Alemanha tem andado há sessenta anos a saber ser merecedora deste avanço civilizacional no direito internacional (é verdade que ultimamente a Merkel anda a derrapar muito).
E se vamos decidir setenta ou vinte anos mais tarde algo diferente do que foi acordado e assinado na altura, aproveitamos e obrigamos também os franceses a pagar todos os estragos das invasões napoleónicas? Vamos refazer as contas todas entre todos os países e todos os povos até ao momento anterior ao pecado original? Vamos mudar as regras do jogo para todos, ou esta história é mesmo só uma questão demagógica para chatear a Alemanha e de caminho promover a paz e o entendimento entre os povos?
Já agora: se, como se tem sugerido para o caso português, um país pode fazer uma auditoria à sua dívida pública, e rejeitar parte dela por ter surgido em situações de ilegalidade (governo ditatorial ou corrupto, por exemplo), poderá do mesmo modo a Alemanha rejeitar a dívida criada pelo delírio nazi? É que a moralidade é para distribuir de modo igual por todos...
Voltando ao artigo:
Não percebi muito bem essa história de os EUA terem arcado com os custos das reparações da primeira guerra. Tanto quanto sei, vinte anos após a reunificação, a Alemanha pagou a última tranche dessa dívida, uns duzentos milhões de euros correspondentes a juros da dívida que tinham deixado de ser pagos pelos nazis. Sim, houve cortes na dívida. Mas isso foi decidido de comum acordo com os credores, e aquilo que se combinou pagar foi pago. Se bem me lembro, também se tem andado a falar em perdoar parte da dívida da Grécia.
Quanto às reparações da segunda guerra mundial: o título "A Guerra Fria cancela a dívida alemã" está errado. A Guerra Fria adiou temporariamente a discussão sobre a dívida (note-se que a Alemanha era um país ocupado e dividido: nem sequer haveria interlocutor legal para negociar esta questão) e o tratado dois+quatro, que substituiu um tratado de paz, encerrou essa discussão, com o acordo de todos os países envolvidos.
O jornalista português acrescenta que "no caso da Grécia, essa renúncia foi imposta por uma sangrenta guerra civil, ganha pelas forças pró-ocidentais já no contexto da Guerra Fria. Por muito que a Alemanha de Konrad Adenauer e Ludwig Ehrard tivesse recusado pagar indemnizações à Grécia, teria sempre à perna a reivindicação desse pagamento se não fosse por a esquerda grega ficar silenciada na sequência da guerra civil." Não encontrei nenhuma referência a isso na entrevista ao historiador, em alemão. A renúncia oficial foi assinada pela Grécia nos anos noventa, tal como por outros países ainda com governos comunistas ou socialistas.
O historiador Ritschl está a olhar de forma enviesada para a história europeia, esquecendo-se de referir o processo democrático e perfeitamente legal que levou a esta situação de não exigência de pagamento das dívidas e, mais grave ainda, dando a entender que os tratados assinados não valem absolutamente nada.
Há tempos o Helmut Schmidt falou do mesmo, mas com muito mais elegância: lembrou a enorme generosidade e solidariedade com que a Alemanha foi tratada no fim da guerra (ele tem mesmo grandeza: nem falou do parque industrial que foi levado quase por inteiro para a União Soviética, nem das violações, nem dos saques aos museus, nem nada disso) e de como isso a obriga a ser um bom vizinho na Europa.
Finalmente: parece-me que estamos a esquecer um elemento importante. Estas dívidas alemãs surgiram num terrível contexto de ditadura e guerra - uma situação de absoluta excepção. As dívidas gregas (e portuguesas) surgiram num contexto de normal funcionamento democrático. O país andou a endividar-se sem travões enquanto teve acesso a dinheiro barato, até que chegou a um ponto insustentável de endividamento sem que se visse nas suas infra-estruturas ou no seu tecido económico uma mudança estrutural que justificasse o esforço financeiro. Porque é que não travou a tempo? Porque é que nenhum dos seus governos disse em tempo útil que é impossível continuar a viver desta maneira, e que o Euro foi uma péssima opção porque está a asfixiar a economia? Porque é que não tentaram resolver o problema antes de lhes rebentar assim nas mãos? (Os alemães fazem isso: quando vêem que as coisas estão a começar a correr mal, congelam salários, reduzem contribuições sociais, põem taxas moderadoras no SNS, aumentam a idade da reforma para os 67 ou até os 69 anos, avisam as pessoas para que façam seguros privados de reforma porque o mais certo é não terem uma reforma boa quando chegarem a essa idade, etc.)
É isto que me irrita mais: a profunda desresponsabilização de cada país. A culpa é dos alemães, claro. É muito mais fácil: os alemães que paguem. Assim como assim a guerra, e o euro demasiado caro, e eles a encherem-se de dinheiro à custa dos outros, e os submarinos, e além disso no fundo no fundo continuam a ser uns grandes nazis...
Isto é pura e simplesmente imbecil. Lembra aqueles adolescentes que exigem que os (odiados) pais lhes resolvam todos os problemas.
***
E não estou a dizer que concordo com as soluções e sobretudo com a fina retórica da Angela Merkel.
Também não sei como é que este problema se pode resolver. Só sei que não é com argumentos destes que vamos longe.
hoje num país sério perto de si
A Rita Dantas escreveu o post que eu queria escrever hoje. E muito melhor, claro, claro, nem sei porque é que me dou ao trabalho de vir para aqui com as lapalissades do costume.
Boas Intenções: hoje num país sério perto de si
Falei disto há semanas. Se não fosse a crise do Euro, e a Angela Merkel andar aflita com questões muito maiores que ela, provavelmente o Presidente da República já tinha ido à sua vida nessa altura. Não gostei deste tempo de espera, mas gosto de ver agora estes sinais de uma Democracia a funcionar e a saber proteger-se.
Boas Intenções: hoje num país sério perto de si
Falei disto há semanas. Se não fosse a crise do Euro, e a Angela Merkel andar aflita com questões muito maiores que ela, provavelmente o Presidente da República já tinha ido à sua vida nessa altura. Não gostei deste tempo de espera, mas gosto de ver agora estes sinais de uma Democracia a funcionar e a saber proteger-se.
Helena Araújo por Gerhard Richter
Hehehehe, presunção e água benta...
Uma das coisas mais engraçadas da exposição do Richter, que abriu no domingo passado em Berlim, são as placas de vidro que desfoca a imagem das pessoas. Por causa daquelas instalações, o ambiente nas salas é de alegre experimentação.
Também tem lá um espelho grande (uma obra de 1981, chamada "espelho", quem diria, que está exposta na Kunsthalle de Düsseldorf). Como está à entrada da exposição, ou talvez por não servir efeitos desfocados, o público atreve-se menos a brincar. Nos primeiros dez minutos da exposição ainda estamos todos bem comportados. Mas pouco depois, ao fim de meia hora de Richter, a criança que há em nós (alegre, comunicativa, confiante) desata a brincar na sala.
Uma das coisas mais engraçadas da exposição do Richter, que abriu no domingo passado em Berlim, são as placas de vidro que desfoca a imagem das pessoas. Por causa daquelas instalações, o ambiente nas salas é de alegre experimentação.
Também tem lá um espelho grande (uma obra de 1981, chamada "espelho", quem diria, que está exposta na Kunsthalle de Düsseldorf). Como está à entrada da exposição, ou talvez por não servir efeitos desfocados, o público atreve-se menos a brincar. Nos primeiros dez minutos da exposição ainda estamos todos bem comportados. Mas pouco depois, ao fim de meia hora de Richter, a criança que há em nós (alegre, comunicativa, confiante) desata a brincar na sala.
16 fevereiro 2012
para quem vive em Berlim: encontro com a equipa do filme Tabu
- Sexta-feira
- 20:00 até 23:00
ENCONTRO/TREFFEN com a equipa do filme TABU
Em presença de / in Anwesenheit von:
MIGUEL GOMES - Realizador/Regisseur
LUÍS URBANO - Produtor/Produzent
RUI POÇAS - Diretor de Fotografia/Bildgestalter
MIGUEL MARTINS - Montagem de Som/Klanggestalter
IVO MÜLLER - Ator/Schauspieler
Moderation: Inês Thomas Almeida
Organization: Kulturmagazin Berlinda.org
No Bar - Cinema Tilsiter Lichstspiele (um dos cinemas mais antigos e carismáticos de Berlim, a trabalhar desde 1908).
Tilsiter Lichtspiele
Kino in Friedrichshain seit 1908
Richard-Sorge-Str. 25a
10249 Berlin
Em ambiente informal, a equipa do filme TABU responderá às perguntas que lhes forem feitas pelo público.
TABU - uma co-produção Portugal/Brasil/Alemanha/França é já um dos favoritos da Berlinale.
É também uma ocasião única de manifestar o apoio aos cineastas - contamos com a presença de todos para apoiar o sucesso desta equipa!!
DIVULGUEM, VENHAM E TRAGAM AMIGOS!!!!!
WEITERLEITEN, KOMMEN UND FREUNDE MITBRINGEN!!
e os milagres continuam...
Quando todos me diziam que o Tabu estava esgotadíssimo, arranjei seis bilhetes para domingo - e só tive de esperar três minutos na bilheteira, nem me deu tempo de ver o número do filme que ia comprar, até fiz figura de pateta a dizer à senhora o nome e a data do filme em vez de palrar disciplinadamente "4321, zwei Karten, bitte". Por essa altura estavam a enviar-me um convite para um encontro com toda a equipa do filme, amanhã à noite (para quem mora em Berlim: apareçam!). Mas acabei de saber que não vou poder ir, porque pouco depois me telefonaram a oferecer um bilhete para ir ver o Jonas Kaufmann à mesma hora, na filarmonia do costume. Há meses comprei lá um bilhete por encomenda, para um amigo, e hesitei imenso entre gastar aquela fortuna para mim, ou não gastar aquela fortuna para mim. Optei pelo evidente, porque a troikatalicoisa, e eis que agora um bilhete gratuito vem ao meu encontro. Tenho mesmo de ir ver como estavam as estrelas à hora a que eu nasci, porque isto não é normal.
filmes portugueses na Berlinale 2012
O que por aqui se tem escrito em português:
- Na Berlinda, sobre o Tabu
- No Portugal Post, sobre o Tabu
- No Portugal Post, sobre o Rafa
(e agora com licencinha, corro para a bilheteira ver se ainda consigo ir ver estes filmes, porque começo a desconfiar que vou fazer figura de urso: o Tabu e o Rafa a ganharem o Urso de Ouro, e eu sem os ter visto no festival!)
- Na Berlinda, sobre o Tabu
- No Portugal Post, sobre o Tabu
- No Portugal Post, sobre o Rafa
(e agora com licencinha, corro para a bilheteira ver se ainda consigo ir ver estes filmes, porque começo a desconfiar que vou fazer figura de urso: o Tabu e o Rafa a ganharem o Urso de Ouro, e eu sem os ter visto no festival!)
do trapézio, sem rede
Via Rui Bebiano, cheguei a um blogue que se apresenta como "poesia passada para português".
Agarrem-me, parece-me que apanhei mais um vício.
Só para terem uma ideia de como é um caso sério, copio para aqui o post mais recente:
Lição de gramática
Como se diz em ouolof a palavra fronteira, a palavra
pátria? E em soniké, como designareis o desamparo?
Se quiserdes dizer em berbere, por exemplo, "eu tive uma casa
num arrabalde de Rabat", poreis a frase nesta ordem? Como
se conjugam em bambara os verbos que conduzem ao norte,
que adjectivos se devem acrescentar à palavra mar, à palavra morte?
Se tiverdes de partir, a palavra adeus será um substantivo?
Como se pronuncia em diakhanké a palavra exílio? Há que
juntar os lábios? Doem? Que pronomes usais para aquele que espera
na praia, para o que regressa sem nada? Quando apontais para além, no sentido
de casa, que advérbio escolheis? Como se diz na vossa, na nossa língua
a palavra futuro?
Agarrem-me, parece-me que apanhei mais um vício.
Só para terem uma ideia de como é um caso sério, copio para aqui o post mais recente:
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
Berta Piñan
Como se diz em ouolof a palavra fronteira, a palavra
pátria? E em soniké, como designareis o desamparo?
Se quiserdes dizer em berbere, por exemplo, "eu tive uma casa
num arrabalde de Rabat", poreis a frase nesta ordem? Como
se conjugam em bambara os verbos que conduzem ao norte,
que adjectivos se devem acrescentar à palavra mar, à palavra morte?
Se tiverdes de partir, a palavra adeus será um substantivo?
Como se pronuncia em diakhanké a palavra exílio? Há que
juntar os lábios? Doem? Que pronomes usais para aquele que espera
na praia, para o que regressa sem nada? Quando apontais para além, no sentido
de casa, que advérbio escolheis? Como se diz na vossa, na nossa língua
a palavra futuro?
(Versão minha; o original pode ser lido algures por aqui, na p. 14. Notas: 1) A versão que apresento parte do original asturiano e fez-se sem recurso a dicionário; a proximidade do asturiano com o castelhano e com o próprio português permitiu-me correr o risco calculado de tentar a transposição para o português. 2) Ouolof (palavra de ressonâncias herbertianas), soniké, berbere, bambara e diakhanké são línguas faladas por diferentes populações ou grupos étnicos de várias regiões do continente africano (do Norte, do Centro ou da África Ocidental - por exemplo, em países como o Mali ou o Senegal...). 3) Por último, com esta versão deste poema extraordinário, desejo agradecer esta tradução de um outro poema extraordinário. E, se possível, retribuir.)
15 fevereiro 2012
agenda cheia
Se me distraio, perco o pé e já nem sei que relatar sobre estes dias tão especiais que tenho vivido com os meus turistas portugueses.
Já vamos a meio da quarta-feira, e ainda não contei do concerto de Georgette Dee na segunda-feira, no teatro do Berliner Ensemble. Eu não a conhecia, mas a minha sorte é andar rodeada de gente culta e entusiasta, que não se deixa desanimar pelo meu "bom, enfim, se quiserem..." e quase me arrastou para esse teatro. Grande, grande espectáculo. Daqueles que apetece ir ver uma e outra vez, para acumular camadas diversas de encantamento.
A gravação que se segue dá uma ideia do tipo de concerto, embora não seja uma das músicas interpretadas na segunda-feira passada.
A interpretação que Georgette Dee e o pianista Terry Truck fizeram da canção "Ich bin von Kopf bis Fuß auf Liebe eingestellt" foi fascinante - só por essa já teria valido a pena. Mas houve muitas mais. E mais haverá, que não tenciono perder o rasto a esta cantora.
Terça-feira é dia de Lunchkonzert na Filarmonia. Tinham-nos avisado que o de ontem ia ser muito especial, com o pianista José Hernán Cibils, mas nós, desavisados apesar de tudo, chegámos pouco antes do início do concerto - o que foi tarde demais. Já havia 1500 pessoas no foyer, não nos deixaram entrar. Pelo que ficámos dentro do edifício - nós e talvez mais umas cem pessoas - junto à corda que nos vedava o caminho, ouvindo ao longe magníficas interpretações de peças de Piazzolla e Cobián, com arranjos para violino, piano, clarinete, contrabaixo e bandoneón. Num canto relativamente escondido, perto de nós, dois pares femininos dançavam o tango. Era evidente que estavam a contar os passos de uma coreografia que teriam na cabeça, o que era um bocadinho irritante. Mas a música sobrepunha-se a tudo isso, com momentos de uma enorme beleza. Soubesse eu dançar tango, corresse-me ele nas veias...
No fim do concerto, deixaram-nos entrar. Enquanto as pessoas iam saindo, nós avançávamos na direcção oposta, rumo ao meu lugar preferido junto ao palco - e chegamos mesmo a tempo de um encore com o qual ninguém contava. Nós ali mesmo em frente aos músicos, e um tango interpretado com tal intensidade que por momentos cheguei a acreditar que ele afinal me corre nas veias e o sei dançar.
Nem sei porque fomos a casa, porque pouco depois já estávamos de novo dentro da sala grande, preparados para ouvir Simon Rattle a dirigir como quem nos pinta aguarelas - algumas de uma enorme serenidade (Debussy e Schönberg), outras agitadas e mesmo confusas. Esse concerto vai ser transmitido amanhã, dia 16, em directo.
Se pensam que já chega de coisas boas, estão muito bem enganados. Ainda falta aquela parte de as coisas virem ter comigo sem eu saber ler nem escrever. Pois por estes dias, estava eu calmamente em casa a tentar correr contra o atraso do costume, quando me telefonaram a perguntar se queria ir à after party do filme Tabu, o famoso filme do Miguel Gomes que este ano foi a concurso na Berlinale (mais informações aqui). Ora, isso nem se pergunta! De modo que lá fomos nós da Filarmonia para a Ballhaus, um sítio engraçadíssimo com telefones antigos junto a cada mesa, que tocavam a cada passo porque algum brincalhão do outro lado da sala resolvia meter conversa connosco. A sala estava cheia de gente bem disposta e satisfeita com a apresentação do filme, a feijoada estava uma delícia (feijoada deliciosa em Berlim! eu bem digo que por estes dias Berlim é uma cidade de prodígios), mas nós saímos pouco antes da meia-noite, não porque o carro corresse o risco de se transformar em abóbora, mas porque esta vida de dormir cerca de cinco horas por dia ainda vai acabar mal. Disseram-me que pouco depois, quando chegou a banda, a festa ficou ainda mais animada.
Hoje não fizemos nada de especial, que a vida excessivamente boa também cansa.
Já vamos a meio da quarta-feira, e ainda não contei do concerto de Georgette Dee na segunda-feira, no teatro do Berliner Ensemble. Eu não a conhecia, mas a minha sorte é andar rodeada de gente culta e entusiasta, que não se deixa desanimar pelo meu "bom, enfim, se quiserem..." e quase me arrastou para esse teatro. Grande, grande espectáculo. Daqueles que apetece ir ver uma e outra vez, para acumular camadas diversas de encantamento.
A gravação que se segue dá uma ideia do tipo de concerto, embora não seja uma das músicas interpretadas na segunda-feira passada.
A interpretação que Georgette Dee e o pianista Terry Truck fizeram da canção "Ich bin von Kopf bis Fuß auf Liebe eingestellt" foi fascinante - só por essa já teria valido a pena. Mas houve muitas mais. E mais haverá, que não tenciono perder o rasto a esta cantora.
Terça-feira é dia de Lunchkonzert na Filarmonia. Tinham-nos avisado que o de ontem ia ser muito especial, com o pianista José Hernán Cibils, mas nós, desavisados apesar de tudo, chegámos pouco antes do início do concerto - o que foi tarde demais. Já havia 1500 pessoas no foyer, não nos deixaram entrar. Pelo que ficámos dentro do edifício - nós e talvez mais umas cem pessoas - junto à corda que nos vedava o caminho, ouvindo ao longe magníficas interpretações de peças de Piazzolla e Cobián, com arranjos para violino, piano, clarinete, contrabaixo e bandoneón. Num canto relativamente escondido, perto de nós, dois pares femininos dançavam o tango. Era evidente que estavam a contar os passos de uma coreografia que teriam na cabeça, o que era um bocadinho irritante. Mas a música sobrepunha-se a tudo isso, com momentos de uma enorme beleza. Soubesse eu dançar tango, corresse-me ele nas veias...
No fim do concerto, deixaram-nos entrar. Enquanto as pessoas iam saindo, nós avançávamos na direcção oposta, rumo ao meu lugar preferido junto ao palco - e chegamos mesmo a tempo de um encore com o qual ninguém contava. Nós ali mesmo em frente aos músicos, e um tango interpretado com tal intensidade que por momentos cheguei a acreditar que ele afinal me corre nas veias e o sei dançar.
Nem sei porque fomos a casa, porque pouco depois já estávamos de novo dentro da sala grande, preparados para ouvir Simon Rattle a dirigir como quem nos pinta aguarelas - algumas de uma enorme serenidade (Debussy e Schönberg), outras agitadas e mesmo confusas. Esse concerto vai ser transmitido amanhã, dia 16, em directo.
Se pensam que já chega de coisas boas, estão muito bem enganados. Ainda falta aquela parte de as coisas virem ter comigo sem eu saber ler nem escrever. Pois por estes dias, estava eu calmamente em casa a tentar correr contra o atraso do costume, quando me telefonaram a perguntar se queria ir à after party do filme Tabu, o famoso filme do Miguel Gomes que este ano foi a concurso na Berlinale (mais informações aqui). Ora, isso nem se pergunta! De modo que lá fomos nós da Filarmonia para a Ballhaus, um sítio engraçadíssimo com telefones antigos junto a cada mesa, que tocavam a cada passo porque algum brincalhão do outro lado da sala resolvia meter conversa connosco. A sala estava cheia de gente bem disposta e satisfeita com a apresentação do filme, a feijoada estava uma delícia (feijoada deliciosa em Berlim! eu bem digo que por estes dias Berlim é uma cidade de prodígios), mas nós saímos pouco antes da meia-noite, não porque o carro corresse o risco de se transformar em abóbora, mas porque esta vida de dormir cerca de cinco horas por dia ainda vai acabar mal. Disseram-me que pouco depois, quando chegou a banda, a festa ficou ainda mais animada.
Hoje não fizemos nada de especial, que a vida excessivamente boa também cansa.
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a pequena esquizofrenia da cada dia nos dai hoje
Esta manhã, avançava eu cuidadosamente pela rua traiçoeira de gelo, quando me cruzei com a vizinha coreana que mora no rés-do-chão.
- Hoje agasalhou-se muito bonita, disse ela, e eu fiz-lhe um sorriso friorento, por causa das pernas de fora entre o casaco curto e as botas.
- E como vão as coisas na Bulgária?, perguntou. Ouvi dizer que estão mesmo mal.
- Na Bulgária, não sei. Será que se refere a Portugal? Estão mal, estão. Isto vem por aí uma crise que ainda vai arrastar também a Alemanha.
- Na Grécia, disse ela, as coisas estão de tal maneira que uma amiga me contou que já não há nada para comprar. Ninguém dá crédito às empresas, estas não podem funcionar, o mercado está a esvaziar-se. A sorte da minha amiga é que tem um terreno onde vai cultivando aquilo de que precisa para comer, eu até já lhe disse que fosse ao mercado trocar o que tem a mais por outras coisas de que precise.
- E isso no século XXI, comentei eu.
- É o fim do mundo, respondeu ela. E fez-me uma piscadela de olho.
- Hoje agasalhou-se muito bonita, disse ela, e eu fiz-lhe um sorriso friorento, por causa das pernas de fora entre o casaco curto e as botas.
- E como vão as coisas na Bulgária?, perguntou. Ouvi dizer que estão mesmo mal.
- Na Bulgária, não sei. Será que se refere a Portugal? Estão mal, estão. Isto vem por aí uma crise que ainda vai arrastar também a Alemanha.
- Na Grécia, disse ela, as coisas estão de tal maneira que uma amiga me contou que já não há nada para comprar. Ninguém dá crédito às empresas, estas não podem funcionar, o mercado está a esvaziar-se. A sorte da minha amiga é que tem um terreno onde vai cultivando aquilo de que precisa para comer, eu até já lhe disse que fosse ao mercado trocar o que tem a mais por outras coisas de que precise.
- E isso no século XXI, comentei eu.
- É o fim do mundo, respondeu ela. E fez-me uma piscadela de olho.
gente como nós
Eu, que não me ensaio nada para largar no duche a ária da Rainha da Noite (sim, se houvesse uma Liga dos Chuveiros Anónimos sei de um que se ia lá inscrever antes de todos os outros), chego a este endaaaaaiiaiwilolueisloviuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu e dou-me conta das minhas limitações.
A Whitney Houston tinha uma voz prodigiosa, ofereceu-nos momentos musicais que são puro prazer - e sofria horrores. Perante a sua morte (e a do Michael Jackson, e a da Amy Winehouse, entre tantas outras) sinto-me de algum modo em falta: pessoas que tanto nos deram morrem vencidas pelos problemas próprios desse terrível circo de onde brotam os pedaços de sublime que nós saboreamos. Eles perdidos numa imensa tempestade de show business, criatividade e génio, ilusão e desengano, e nós, alheios ao seu sofrimento, consumindo apenas.
Eu sei: ninguém os obrigou a entrar nesse torvelinho, nem todos morrem assim, etc.
Mas estas mortes interpelam-me. Mostram-me que essas estrelas eram simplesmente seres humanos como todos os outros, gente como nós, e não receberam a ajuda de que tanto precisavam. Falhámos-lhes.
13 fevereiro 2012
começo a desconfiar que estou num filme...
Não é possível acontecer tanta coisa boa todos os dias. Começo a desconfiar que escorreguei para dentro de um filme do Woody Allen, e não combinámos previamente o cachet.
Ontem, por exemplo: começámos por ir visitar uma igreja de Dahlem com uma acústica extraordinária, a Jesus-Christus-Kirche, onde Karajan gravou tantos dos seus concertos. O coro da paróquia estava a ensaiar, pelo que nos sentámos a saborear a acústica daquele espaço. De caminho pudemos ver mais uma vez como os alemães são: o maestro (mais interessante ainda: a substituta do maestro, porque este abandonou a sala por uns minutos) obrigou aquele simples coro paroquiano a repetir uma frase cinco vezes, até ter a entoação pretendida e as respirações certas. Estavam a ensaiar um Pai Nosso, e eu - tranquilamente feliz no meu banco ao fundo da igreja - só me lembrava de parafrasear: o prodígio nosso de cada dia nos dai hoje.
Estariam uns sete graus negativos, mas um belíssimo sol. Não fossem os dedos gelados que seguravam a máquina fotográfica enquanto fotografava a casa do pastor, ao lado da igreja, e quase acreditaria estarmos no sul:
O Wannsee estava gelado. Lindo. Havia pessoas a passear sobre o lago, havia até ciclistas no gelo (teriam correntes nas rodas da bicicleta?)
A ponte de Glienicke, a ponte onde se trocaram espiões, estava literalmente preparada para nova filmagem de "o espião que veio do frio":
No centro da cidade parte do rio Spree tinha também congelado, e na parte mantida navegável flutuavam ociosos blocos de gelo.
O filme que vimos ontem na Berlinale era o Metéora. Muito poético, com extraordinários momentos de animação. A fotografia do programa enganou-nos um bocadinho (íamos à espera de hora e meia de cenas assim, mas pelos vistos quando fizeram as filmagens havia muito nevoeiro, afinal não é só Berlim que às vezes nos troca as voltas ao cenário) - mas mesmo assim, um belo filme.
E fim de tarde na casa de chá do Tajiquistão, com russischer zupfkuchen, um bolo que dizem ser russo, mas os russos dizem que é alemão. Mais um caso de culinary legend para juntar ao kebab turco inventado em Berlim e ao burrito mexicano inventado em San Francisco.
Mas o melhor de tudo é andar a passear nesta cidade com amigos que se deixam maravilhar por ela. Redescobri-la pelos olhos deles, ir deixando em cada canto visitado um pequeno tag mental "já fui feliz aqui".
(o que eu gosto dessa invenção do Luís Novaes Tito!)
Ontem, por exemplo: começámos por ir visitar uma igreja de Dahlem com uma acústica extraordinária, a Jesus-Christus-Kirche, onde Karajan gravou tantos dos seus concertos. O coro da paróquia estava a ensaiar, pelo que nos sentámos a saborear a acústica daquele espaço. De caminho pudemos ver mais uma vez como os alemães são: o maestro (mais interessante ainda: a substituta do maestro, porque este abandonou a sala por uns minutos) obrigou aquele simples coro paroquiano a repetir uma frase cinco vezes, até ter a entoação pretendida e as respirações certas. Estavam a ensaiar um Pai Nosso, e eu - tranquilamente feliz no meu banco ao fundo da igreja - só me lembrava de parafrasear: o prodígio nosso de cada dia nos dai hoje.
Estariam uns sete graus negativos, mas um belíssimo sol. Não fossem os dedos gelados que seguravam a máquina fotográfica enquanto fotografava a casa do pastor, ao lado da igreja, e quase acreditaria estarmos no sul:
O Wannsee estava gelado. Lindo. Havia pessoas a passear sobre o lago, havia até ciclistas no gelo (teriam correntes nas rodas da bicicleta?)
(foto do Paulo)
(foto do Paulo)
A ponte de Glienicke, a ponte onde se trocaram espiões, estava literalmente preparada para nova filmagem de "o espião que veio do frio":
(foto do Paulo)
No centro da cidade parte do rio Spree tinha também congelado, e na parte mantida navegável flutuavam ociosos blocos de gelo.
O filme que vimos ontem na Berlinale era o Metéora. Muito poético, com extraordinários momentos de animação. A fotografia do programa enganou-nos um bocadinho (íamos à espera de hora e meia de cenas assim, mas pelos vistos quando fizeram as filmagens havia muito nevoeiro, afinal não é só Berlim que às vezes nos troca as voltas ao cenário) - mas mesmo assim, um belo filme.
E fim de tarde na casa de chá do Tajiquistão, com russischer zupfkuchen, um bolo que dizem ser russo, mas os russos dizem que é alemão. Mais um caso de culinary legend para juntar ao kebab turco inventado em Berlim e ao burrito mexicano inventado em San Francisco.
(foto do Paulo)
Mas o melhor de tudo é andar a passear nesta cidade com amigos que se deixam maravilhar por ela. Redescobri-la pelos olhos deles, ir deixando em cada canto visitado um pequeno tag mental "já fui feliz aqui".
(o que eu gosto dessa invenção do Luís Novaes Tito!)
11 fevereiro 2012
overdose de prodígios
Então foi assim: o dia começou com uma visita guiada à Filarmonia. Com tanta sorte que a visita foi feita em português. Com tanta sorte que na sala da música de câmara assistimos a um bocadinho de ensaio de um concerto, com tanta sorte que na sala grande também havia ensaio.
Quando estávamos a almoçar, o Simon Rattle passou por nós, mas não nos incomodou. Nem nós a ele, vá.
A seguir fomos à estreia de um dos filmes concorrentes da Berlinale: Cesare deve morire. Para o meu gosto tinha demasiado Shakespeare e pouca história dos prisioneiros que o representavam. Só quando o filme chegou ao fim é que me dei conta que a peça foi realmente representada por prisioneiros. O momento mais divertido foi quando os irmãos Taviani começaram a apresentar a equipa: "a música foi feita pelo meu filho", "a montagem por acaso foi feita pelo meu cunhado", "a produtora até há pouco tempo era nossa cunhada, mas depois houve um divórcio". Hehehehe.
O momento mais comovente foi quando o ex-prisioneiro que tivera o papel de Brutus entrou no palco, e com grande emoção falou do actor à sua esquerda, dizendo "este homem salvou-me a vida".
Depois do filme queríamos ir ver a Biblioteca ao lado do Palácio da Berlinale, onde Wim Wenders filmou algumas cenas de As Asas do Desejo. O guichet de informação já estava fechado, pelo que perguntei à porteira se podíamos entrar. Que não, que não tínhamos cartão da biblioteca, que já estava quase a fechar. "Não?! Nem para pessoas que adoram cinema, só cinco minutinhos?", perguntei eu. "Olhe", disse ela com um grande sorriso, "vá a correr deixar ali os casacos e despache-se, que daqui a vinte minutos fechamos". E lá fomos nós a correr, desvairados por aquele edifício enorme acima, um bocado perdidos. Até que - cinco minutos antes de fechar - uma funcionária veio ter connosco e nos disse que tinha visto o filme há pouco só para saber exactamente onde tinha sido filmado, e nos indicou os caminhos e as cenas. E ainda dizem que os alemães são antipáticos...
E se pensam que os prodígios já acabaram, estão muito bem enganados. Ó práqui:
(se não têm tempo para ver o filme todo, podem saltar para os últimos trinta segundos)
(confesso que três horas mais tarde ainda estamos de sorriso escancarado)
Quando estávamos a almoçar, o Simon Rattle passou por nós, mas não nos incomodou. Nem nós a ele, vá.
A seguir fomos à estreia de um dos filmes concorrentes da Berlinale: Cesare deve morire. Para o meu gosto tinha demasiado Shakespeare e pouca história dos prisioneiros que o representavam. Só quando o filme chegou ao fim é que me dei conta que a peça foi realmente representada por prisioneiros. O momento mais divertido foi quando os irmãos Taviani começaram a apresentar a equipa: "a música foi feita pelo meu filho", "a montagem por acaso foi feita pelo meu cunhado", "a produtora até há pouco tempo era nossa cunhada, mas depois houve um divórcio". Hehehehe.
O momento mais comovente foi quando o ex-prisioneiro que tivera o papel de Brutus entrou no palco, e com grande emoção falou do actor à sua esquerda, dizendo "este homem salvou-me a vida".
Depois do filme queríamos ir ver a Biblioteca ao lado do Palácio da Berlinale, onde Wim Wenders filmou algumas cenas de As Asas do Desejo. O guichet de informação já estava fechado, pelo que perguntei à porteira se podíamos entrar. Que não, que não tínhamos cartão da biblioteca, que já estava quase a fechar. "Não?! Nem para pessoas que adoram cinema, só cinco minutinhos?", perguntei eu. "Olhe", disse ela com um grande sorriso, "vá a correr deixar ali os casacos e despache-se, que daqui a vinte minutos fechamos". E lá fomos nós a correr, desvairados por aquele edifício enorme acima, um bocado perdidos. Até que - cinco minutos antes de fechar - uma funcionária veio ter connosco e nos disse que tinha visto o filme há pouco só para saber exactamente onde tinha sido filmado, e nos indicou os caminhos e as cenas. E ainda dizem que os alemães são antipáticos...
E se pensam que os prodígios já acabaram, estão muito bem enganados. Ó práqui:
(se não têm tempo para ver o filme todo, podem saltar para os últimos trinta segundos)
(confesso que três horas mais tarde ainda estamos de sorriso escancarado)
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