Que seria da actualidade mundial sem o facebook?
Foi lá que encontrei um vídeo, falsamente atribuído ao Egipto, onde uma cantora tunisina canta a capella numa demonstração em homenagem às vítimas.
Nous sommes des hommes libres qui n'ont pas peur
Nous sommes des secrets qui ne meurent pas
Nous sommes la voix de ceux qui ont résisté
Dans le chaos nous sommes le sens
Nous sommes le droit des opprimés....
O vídeo da Tunísia:
e a mesma canção, cantada também por Amel Mathlouthi, na Praça da Bastilha:
(cá para nós: bem mais bonita que aquela estopada da Gaivota que nós cantávamos emocionados lá por meados dos anos 70...)
31 janeiro 2011
novo inquérito sociológico: fitness studio
Os meus comentadores não se entendem, e eu fico sem saber o que fazer: devo continuar a frequentar o fitness studio, ou simplesmente caminhar bastante, andar de bicicleta e limpar a casa com movimentos enérgicos?
Outra questão: um médico receitou-me há tempos "fazer exercício de modo a suar, pelo menos uma vez por semana", para activar as defesas do organismo. Acham que isso de "suar" também inclui ... ahem, esqueçam, deixem lá, prefiro não perguntar.
Outra questão: um médico receitou-me há tempos "fazer exercício de modo a suar, pelo menos uma vez por semana", para activar as defesas do organismo. Acham que isso de "suar" também inclui ... ahem, esqueçam, deixem lá, prefiro não perguntar.
a Canção da Terra
O fim-de-semana terminou em belo, na Filarmonia: Simon Rattle e Magdalena Kožená, Mahler: das Lied von der Erde.
Deixem-me despachar rapidamente a parte "gaja": ela vinha com uma espécie de gabardine de tafetá sobre a saia comprida de brilhantes, e sapatos de saltos impossíveis. Como será que consegue cantar com tanta segurança, apesar de alcandorada sobre tão finas andas? Talvez estivesse a fazer playback - que isto nos dias de hoje, tudo é possível só para corresponder aos apelos da Vogue.
Pronto, já está, já posso ficar normal outra vez.
Um encantamento: mesmo depois de Simon Rattle baixar as mãos, as pessoas não queriam aplaudir. Como se ninguém quisesse ser o primeiro a quebrar o prodígio. E mesmo os longos e entusiásticos aplausos não conseguiram quebrar o mantra final, para sempre... para sempre... para sempre. Nem o habitual russo da balalaica, no parque de estacionamento, conseguiu sobrepor-se à melodia final, para sempre... para sempre... para sempre... e à serena nostalgia que ecoava ainda em nós.
O que se segue é a canção final do concerto, na voz de Janet Baker. Gostei mais da interpretação de Magdalena Kožená: tem um timbre de madeira e chocolate (podem verificar aqui), muito mais terra. Apesar daqueles sapatos de impossível periclitância.
Deixem-me despachar rapidamente a parte "gaja": ela vinha com uma espécie de gabardine de tafetá sobre a saia comprida de brilhantes, e sapatos de saltos impossíveis. Como será que consegue cantar com tanta segurança, apesar de alcandorada sobre tão finas andas? Talvez estivesse a fazer playback - que isto nos dias de hoje, tudo é possível só para corresponder aos apelos da Vogue.
Pronto, já está, já posso ficar normal outra vez.
Um encantamento: mesmo depois de Simon Rattle baixar as mãos, as pessoas não queriam aplaudir. Como se ninguém quisesse ser o primeiro a quebrar o prodígio. E mesmo os longos e entusiásticos aplausos não conseguiram quebrar o mantra final, para sempre... para sempre... para sempre. Nem o habitual russo da balalaica, no parque de estacionamento, conseguiu sobrepor-se à melodia final, para sempre... para sempre... para sempre... e à serena nostalgia que ecoava ainda em nós.
O que se segue é a canção final do concerto, na voz de Janet Baker. Gostei mais da interpretação de Magdalena Kožená: tem um timbre de madeira e chocolate (podem verificar aqui), muito mais terra. Apesar daqueles sapatos de impossível periclitância.
29 janeiro 2011
Wynton Marsalis com as escolas e a Filarmónica de Berlim
Penso que já falei aqui deste projecto da Filarmónica, mas hoje estive a ver o concerto inteiro e achei-o tão bonito que venho cá passar o link.
Explicando um pouco: a Filarmónica tem uma área de actividades a que chama "Futuro @ Filarmónica" (Zukunft@BPhil), dirigido a crianças e jovens. Um dos seus projectos, em que alunos de diversas escolas secundárias preparam uma coreografia para ser apresentada ao som da orquestra, deu origem a um filme engraçado, Rhythm is it!
Todos os anos se faz esse concerto com dança, na Arena Treptow, com bilhetes a 8 euros. O do ano passado pode ser visto aqui. Foi em pleno mundial do futebol, pelo que a dança conta também histórias sobre esse momento - a começar pela "vuvuzela" do início. No mesmo site há também uma conversa com Wynton Marsalis e Simon Rattle que recomendo: belo par!
Explicando um pouco: a Filarmónica tem uma área de actividades a que chama "Futuro @ Filarmónica" (Zukunft@BPhil), dirigido a crianças e jovens. Um dos seus projectos, em que alunos de diversas escolas secundárias preparam uma coreografia para ser apresentada ao som da orquestra, deu origem a um filme engraçado, Rhythm is it!
Todos os anos se faz esse concerto com dança, na Arena Treptow, com bilhetes a 8 euros. O do ano passado pode ser visto aqui. Foi em pleno mundial do futebol, pelo que a dança conta também histórias sobre esse momento - a começar pela "vuvuzela" do início. No mesmo site há também uma conversa com Wynton Marsalis e Simon Rattle que recomendo: belo par!
coisas da minha vida
Ultimamente tenho tido dores de joelhos ao fazer zumba.
Ainda agora comecei, e já estou a correr o risco de ser mal entendida. Antes que os mais brejeiros comecem a mandar bocas: zumba é uma espécie de aeróbica com música da América Latina, que também pode incluir dança do ventre e flamenco - no fundo, tudo o que nos fizer suar e rir.
O extraordinário fenício que nos põe a dançar está cada vez melhor, e nós, o mulherio, também não fazemos má figura. Quando chega a vez da dança do ventre já nem nos preocupamos em imitar os seus movimentos. Aplaudimos, gritamos wow! e huuu!, e ele finge cara de zangado e diz "pouco barulho" e continua a agitar as ancas no seu fato de basquetebolista. É tudo muito engraçado.
Mas ultimamente tenho tido dores num joelho, e resolvi atacar em cheio pela hidroginástica, para fortalecer os músculos. E fui, na terça-feira passada. Na quarta tinha uma dor lancinante (ahem, digamos, forte) na anca. Nem conseguia andar em casa, quanto mais ir dançar zumba. Na quinta-feira percebi que não era lumbago nem ciática, porque a dor deslocou-se para a caixa torácica. A familória riu-se, fizeram apostas sobre uma enxaqueca para sexta. São uns insensíveis, porque eu estou como se tivesse uma costela partida: rir ou tossir provoca-me dores, como já disse, lancinantes.
"Faz desporto, vais ver que te sentes melhor dentro do teu corpo", foi o que me disseram, e eu inscrevi-me neste ginásio. Ainda agora estou a tentar descobrir o que é que percebi mal.
Ainda agora comecei, e já estou a correr o risco de ser mal entendida. Antes que os mais brejeiros comecem a mandar bocas: zumba é uma espécie de aeróbica com música da América Latina, que também pode incluir dança do ventre e flamenco - no fundo, tudo o que nos fizer suar e rir.
O extraordinário fenício que nos põe a dançar está cada vez melhor, e nós, o mulherio, também não fazemos má figura. Quando chega a vez da dança do ventre já nem nos preocupamos em imitar os seus movimentos. Aplaudimos, gritamos wow! e huuu!, e ele finge cara de zangado e diz "pouco barulho" e continua a agitar as ancas no seu fato de basquetebolista. É tudo muito engraçado.
Mas ultimamente tenho tido dores num joelho, e resolvi atacar em cheio pela hidroginástica, para fortalecer os músculos. E fui, na terça-feira passada. Na quarta tinha uma dor lancinante (ahem, digamos, forte) na anca. Nem conseguia andar em casa, quanto mais ir dançar zumba. Na quinta-feira percebi que não era lumbago nem ciática, porque a dor deslocou-se para a caixa torácica. A familória riu-se, fizeram apostas sobre uma enxaqueca para sexta. São uns insensíveis, porque eu estou como se tivesse uma costela partida: rir ou tossir provoca-me dores, como já disse, lancinantes.
"Faz desporto, vais ver que te sentes melhor dentro do teu corpo", foi o que me disseram, e eu inscrevi-me neste ginásio. Ainda agora estou a tentar descobrir o que é que percebi mal.
28 janeiro 2011
cloaca a céu aberto (2)
Para os que ficaram indignados com o que contei neste post, aqui vão notícias frescas:
- Encontrei na internet um trabalho de uma aluna do secundário que andou a investigar o caso, fez o seu julgamento, e combinou com os outros alunos da sua escola uma maneira de tirar força à página: encheram-na de frases curtas copiadas da wikipedia, de modo que quem lá ia à procura de maldades só encontrava coisas sem nexo. Nem sei como exprimir a minha admiração por eles.
- Ontem o site deixou de existir.
- Quando se escreve esse endereço, é-se redireccionado para um blogue com o mesmo nome, onde o autor, até agora ele próprio anónimo e dizendo-se residente na Nova Zelândia, aparece identificado: Aaron Goldberg, 24 anos, Berlim. Os leitores são avisados que têm de ter cuidado com o que escrevem, porque se acabou o anonimato.
O site tinha apenas duas ou três semanas.
Será que já disse isto hoje? Dá gosto viver num país assim.
- Encontrei na internet um trabalho de uma aluna do secundário que andou a investigar o caso, fez o seu julgamento, e combinou com os outros alunos da sua escola uma maneira de tirar força à página: encheram-na de frases curtas copiadas da wikipedia, de modo que quem lá ia à procura de maldades só encontrava coisas sem nexo. Nem sei como exprimir a minha admiração por eles.
- Ontem o site deixou de existir.
- Quando se escreve esse endereço, é-se redireccionado para um blogue com o mesmo nome, onde o autor, até agora ele próprio anónimo e dizendo-se residente na Nova Zelândia, aparece identificado: Aaron Goldberg, 24 anos, Berlim. Os leitores são avisados que têm de ter cuidado com o que escrevem, porque se acabou o anonimato.
O site tinha apenas duas ou três semanas.
Será que já disse isto hoje? Dá gosto viver num país assim.
cyber mobbing
Depois de passar horas a ler textos sobre cyber mobbing e cyber bullying, chego à conclusão que muitos problemas se evitavam se os anónimos da internet soubessem que haverá sempre uma maneira de os identificar e de serem confrontados abertamente pela sociedade.
Se me deixassem mandar (agarrem-me, que...) criava uma regra mundial para a internet, de modo a tornar identificáveis todos os seus utilizadores.
Mas depois lembro-me das revoluções dos nossos dias, que têm nascido e crescido graças à internet, e penso que nada disso seria possível se as pessoas temessem que o tirano do seu país pudesse saber quem elas são.
Tudo seria tão mais fácil se em cada país houvesse um saudável Estado de Direito...
***
No meio da minha pesquisa encontrei uma passagem muito interessante da wikipedia alemã sobre sites onde alunos criticam os professores (que o Speedy Gonzalez passa a traduzir - aquele moço parece que não tem mais nada que fazer) (aquele moço devia ter frequentado um curso de Direito, em momentos como este fazia jeito para encontrar as palavras certas):
"Contudo, se a intenção do discurso não é a difamação ou o descrédito de uma pessoa, mas a classificação de características suas que se reflectem na vida escolar, aplica-se neste caso o princípio da liberdade de expressão. (...) Além disso, o direito constitucional da liberdade de expressão protege a opinião emitida, independentemente de esta ser racional ou emocional, baseada ou não em argumentos, e considerada por outros útil ou prejudicial, com ou sem valor. Mesmo uma formulação polémica ou ofensiva está ao abrigo da Constituição. Os direitos da personalidade não são abrangentes a ponto de conferir ao seu detentor o poder de só permitir a sua representação no espaço público como ele se vê a si próprio ou como gostaria que os outros o vissem."
O tribunal referiu também o uso de pseudónimo: "É indiscutível que a expressão de ideias ao abrigo de um pseudónimo pode ser vantajosa para a opinião pública. Esse é um recurso válido quando alguém se veja impedido de fazer uma contribuição legítima para a opinião pública por temer represálias injustas caso se conheça a sua verdadeira identidade. Caso se trate de um insulto, o direito da personalidade é mais forte que o da liberdade de expressão. É considerada crítica insultuosa aquela que não se refere aos factos, mas que, passando mesmo os limites da polémica e do exagero, se centra na diminuição da pessoa em causa."
Se me deixassem mandar (agarrem-me, que...) criava uma regra mundial para a internet, de modo a tornar identificáveis todos os seus utilizadores.
Mas depois lembro-me das revoluções dos nossos dias, que têm nascido e crescido graças à internet, e penso que nada disso seria possível se as pessoas temessem que o tirano do seu país pudesse saber quem elas são.
Tudo seria tão mais fácil se em cada país houvesse um saudável Estado de Direito...
***
No meio da minha pesquisa encontrei uma passagem muito interessante da wikipedia alemã sobre sites onde alunos criticam os professores (que o Speedy Gonzalez passa a traduzir - aquele moço parece que não tem mais nada que fazer) (aquele moço devia ter frequentado um curso de Direito, em momentos como este fazia jeito para encontrar as palavras certas):
"Contudo, se a intenção do discurso não é a difamação ou o descrédito de uma pessoa, mas a classificação de características suas que se reflectem na vida escolar, aplica-se neste caso o princípio da liberdade de expressão. (...) Além disso, o direito constitucional da liberdade de expressão protege a opinião emitida, independentemente de esta ser racional ou emocional, baseada ou não em argumentos, e considerada por outros útil ou prejudicial, com ou sem valor. Mesmo uma formulação polémica ou ofensiva está ao abrigo da Constituição. Os direitos da personalidade não são abrangentes a ponto de conferir ao seu detentor o poder de só permitir a sua representação no espaço público como ele se vê a si próprio ou como gostaria que os outros o vissem."
O tribunal referiu também o uso de pseudónimo: "É indiscutível que a expressão de ideias ao abrigo de um pseudónimo pode ser vantajosa para a opinião pública. Esse é um recurso válido quando alguém se veja impedido de fazer uma contribuição legítima para a opinião pública por temer represálias injustas caso se conheça a sua verdadeira identidade. Caso se trate de um insulto, o direito da personalidade é mais forte que o da liberdade de expressão. É considerada crítica insultuosa aquela que não se refere aos factos, mas que, passando mesmo os limites da polémica e do exagero, se centra na diminuição da pessoa em causa."
27 janeiro 2011
in memoriam
(foto daqui)
27 de Janeiro: libertação de Auschwitz.
Hoje foi pela primeira vez convidado um representante de uma etnia cigana para falar no Parlamento Alemão a propósito desta data. Aqui podem ver o vídeo que passou no noticiário da TV. A música que ali se ouve é uma peça composta em memória dos sinti e roma assassinados: in memoriam.
A cerimónia foi iniciada pelo presidente do Parlamento, Norbert Lammert, dizendo que "nós, os descendentes, prometemos e continuamos a garantir que não esqueceremos os horrores da História, que manteremos a Memória, e saberemos usar no futuro as lições do passado. (...) As vítimas obrigam-nos a desprezar todas as formas de discriminação e intolerância, e a tomar atitudes claras contra qualquer tipo de ódio e estigmatização". Lembrou ainda que, mesmo na Alemanha, ainda há muitos sinti e roma que se sentem discriminados e estigmatizados. A ignorância sobre a cultura e o quotidiano destes povos dá lugar a preconceitos e clichés generalizados.
Zoni Weisz, holandês, sobrevivente do Holocausto e representante dos sinti e roma, tomou a palavra. Contou como em criança assistiu à deportação da sua família (Naquele momento vi partir o comboio. O meu pai gritou com desespero, de dentro da carruagem para gado: "Muzla, cuida bem do meu filho!" - foram as últimas palavras que lhe ouvi.) e exigiu mais direitos para a sua etnia: "É inaceitável que um povo que ao longo dos séculos foi vítima de discriminação e perseguição, hoje - no século XXI - ainda seja mantido à margem da sociedade e de qualquer possibilidade de ter um futuro melhor". O genocídio dos sinti e roma é um "Holocausto esquecido". Meio milhão de pessoas destes povos foram assassinados pelos nazis. "A sociedade não aprendeu nada, ou quase nada, com isso - caso contrário, tratar-nos-ia hoje com mais responsabilidade", queixa-se Weisz, e continua, dizendo que hoje em dia vivem na Europa cerca de 12 milhões de pessoas destas etnias, constituindo a maior minoria do continente. "A maior parte deles não tem qualquer oportunidade de conseguir um trabalho, acesso ao ensino e à saúde". São quotidianamente vítimas de discriminação, estigmatização e exclusão. O modo como ainda hoje sinti e roma são tratados, especialmente em países como a Roménia e a Bulgária, mas também a Itália e a França, é indigno. Lembrando placas na Hungria, onde se lê "proibido a ciganos", afirma que "a História se repete". A UE tem de falar sobre esses problemas com os países onde eles ocorrem.
(tradução Speedy Gonzalez, deste site)
cloaca a céu aberto
O Matthias contou-me ontem que estão com um problema na escola: no site isharegossip.com alguém escreveu que Fulano (um aluno conhecido, de uma turma do ano dele) é homossexual; outro escreveu que a acusação foi feita por alguém da turma do meu filho, e agora anda toda a gente a querer saber quem terá sido.
isharegossip é uma página organizada por escolas, onde cada um pode escrever - a coberto de um anonimato assegurado - tudo o que lhe apetecer sobre qualquer outra pessoa dessa escola.
Na primeira página lê-se:
"Nunca gravámos os IPs, e nunca o faremos.
Por isso, nunca estaremos em condições de os fornecer seja a quem for, e nem respondemos aos pedidos que nos fazem nesse sentido - quer venham da Polícia, de um advogado ou de um director escolar.
Vocês estão 100% anónimos.
QUEM AFIRMAR O CONTRÁRIO É UM MENTIROSO E SÓ VOS QUER FAZER MEDO.
Porque é que as pessoas afirmam isso? Porque não sabem o que fazer.
Esta página também não pode ser bloqueada ou apagada porque é 100% legal segundo o direito dos EUA.
O resultado são momentos de pura vergonha. Por exemplo (mudei os nomes, que naquela página correspondem a alunos perfeitamente identificados):
24.01.2011 21:31:59 : ouvi dizer que o Otto é gay?
24.01.2011 21:32:07 : o Siegfried também!
24.01.2011 21:32:14 : o dele é pequeno
24.01.2011 21:32:22 : quem?
24.01.2011 21:32:27 : os dois!!!
24.01.2011 21:37:40 : os dois são gay
(Seguem-se vários comentários de alunos que querem defender a honra dos dois miúdos, afirmando que não são nada gay, e que até têm namorada. E outros que os acusam de vestir assim e pentear assado, por isso só podem ser gay.)
Ou:
„A Anna S. perdeu a virgindade anal.“
Alguns comentários:
21.01.2011 14:57:05 : siim, de facto é verdade..
21.01.2011 15:04:26 : hahahahah - foi o Wolfgang .:D
21.01.2011 15:48:44 : haha sim, mas isso já todos sabem..
(…)
22.01.2011 20:10:43 : o Otto também..
22.01.2011 21:29:40 : o Otto também perdeu a virgindade anal :O ?
22.01.2011 21:37:59 : Normal..
22.01.2011 22:30:40 : Haaaahahaha fantástico (isso do Otto^^)
Não traduzo mais. Aquela página enoja-me, e assim como assim já têm aqui material para vários estudos de sociologia.
***
Escrevi à representante dos pais, que me veio com um blablabla sobre o que fazer quando se é vítima de mobbing cibernético, e que havemos de falar disso na próxima reunião de pais.
Telefonei ao director da escola, e fiquei a saber que: os directores da área já se reuniram para falar do assunto, e chegaram à conclusão que estão de mãos atadas. De facto, nem sequer podem pedir o IP dos comentadores. Também não têm meios para ajudar as vítimas - quando muito, o psicólogo escolar daquela área. E eu penso nos pobres "Ottos" com muita tristeza: como se estarão a sentir neste momento? Como estarão a conseguir aguentar esta terrível pressão?
Pedi que ao menos enviem um e-mail a todos os pais, para os informar sobre o que se está a passar. Aquilo é um campo de batalha onde, a coberto do anonimato, se escrevem coisas horrorosas sobre pessoas concretas, e pode acontecer que alguns alunos estejam a ter imensa dificuldade em lidar com essas difamações ou revelações, e não tenham coragem para contar em casa.
Depois escrevi à Procuradoria a pedir que tomem medidas, e ao Spiegel a pedir que investiguem e façam uma notícia.
A ver vamos.
***
Os miúdos não querem que os adultos se metam nesta questão. Têm andado num debate intenso nas suas redes, criticando aquele site. Na própria página da escola do meu filho há imensas críticas, e até uma entrada do representante dos alunos a dizer que estão a ir longe de mais. Pobres miúdos: enchem as críticas de smileys e frases contemporizadoras, porque não querem perder a coolness tão importante naquela idade.
A questão fica em aberto: como manter a internet dentro dos limites de uma sociedade civilizada?
isharegossip é uma página organizada por escolas, onde cada um pode escrever - a coberto de um anonimato assegurado - tudo o que lhe apetecer sobre qualquer outra pessoa dessa escola.
Na primeira página lê-se:
"Nunca gravámos os IPs, e nunca o faremos.
Por isso, nunca estaremos em condições de os fornecer seja a quem for, e nem respondemos aos pedidos que nos fazem nesse sentido - quer venham da Polícia, de um advogado ou de um director escolar.
Vocês estão 100% anónimos.
QUEM AFIRMAR O CONTRÁRIO É UM MENTIROSO E SÓ VOS QUER FAZER MEDO.
Porque é que as pessoas afirmam isso? Porque não sabem o que fazer.
Esta página também não pode ser bloqueada ou apagada porque é 100% legal segundo o direito dos EUA.
O resultado são momentos de pura vergonha. Por exemplo (mudei os nomes, que naquela página correspondem a alunos perfeitamente identificados):
„O Siegfried faz broches ao Otto no intervalo grande, depois de ter andado a escarafunchar na mãe dele.“
Comentários: 24.01.2011 21:31:59 : ouvi dizer que o Otto é gay?
24.01.2011 21:32:07 : o Siegfried também!
24.01.2011 21:32:14 : o dele é pequeno
24.01.2011 21:32:22 : quem?
24.01.2011 21:32:27 : os dois!!!
24.01.2011 21:37:40 : os dois são gay
(Seguem-se vários comentários de alunos que querem defender a honra dos dois miúdos, afirmando que não são nada gay, e que até têm namorada. E outros que os acusam de vestir assim e pentear assado, por isso só podem ser gay.)
Ou:
„A Anna S. perdeu a virgindade anal.“
Alguns comentários:
21.01.2011 14:57:05 : siim, de facto é verdade..
21.01.2011 15:04:26 : hahahahah - foi o Wolfgang .:D
21.01.2011 15:48:44 : haha sim, mas isso já todos sabem..
(…)
22.01.2011 20:10:43 : o Otto também..
22.01.2011 21:29:40 : o Otto também perdeu a virgindade anal :O ?
22.01.2011 21:37:59 : Normal..
22.01.2011 22:30:40 : Haaaahahaha fantástico (isso do Otto^^)
Não traduzo mais. Aquela página enoja-me, e assim como assim já têm aqui material para vários estudos de sociologia.
***
Escrevi à representante dos pais, que me veio com um blablabla sobre o que fazer quando se é vítima de mobbing cibernético, e que havemos de falar disso na próxima reunião de pais.
Telefonei ao director da escola, e fiquei a saber que: os directores da área já se reuniram para falar do assunto, e chegaram à conclusão que estão de mãos atadas. De facto, nem sequer podem pedir o IP dos comentadores. Também não têm meios para ajudar as vítimas - quando muito, o psicólogo escolar daquela área. E eu penso nos pobres "Ottos" com muita tristeza: como se estarão a sentir neste momento? Como estarão a conseguir aguentar esta terrível pressão?
Pedi que ao menos enviem um e-mail a todos os pais, para os informar sobre o que se está a passar. Aquilo é um campo de batalha onde, a coberto do anonimato, se escrevem coisas horrorosas sobre pessoas concretas, e pode acontecer que alguns alunos estejam a ter imensa dificuldade em lidar com essas difamações ou revelações, e não tenham coragem para contar em casa.
Depois escrevi à Procuradoria a pedir que tomem medidas, e ao Spiegel a pedir que investiguem e façam uma notícia.
A ver vamos.
***
Os miúdos não querem que os adultos se metam nesta questão. Têm andado num debate intenso nas suas redes, criticando aquele site. Na própria página da escola do meu filho há imensas críticas, e até uma entrada do representante dos alunos a dizer que estão a ir longe de mais. Pobres miúdos: enchem as críticas de smileys e frases contemporizadoras, porque não querem perder a coolness tão importante naquela idade.
A questão fica em aberto: como manter a internet dentro dos limites de uma sociedade civilizada?
26 janeiro 2011
the state of the onion...
Li hoje no Facebook esta notícia do The Onion:
PARIS—At a press conference Tuesday, the World Heritage Committee officially recognized the Gap Between Rich and Poor as the "Eighth Wonder of the World," describing the global wealth divide as the "most colossal and enduring of mankind's creations."
Aqueles criadores são mesmo muito bons.
Ainda me lembro de quando o descobri o The Onion, meia dúzia de dias após o 11 de Setembro. Mostravam a fotografia de uma americana que tinha feito um bolo com o desenho da bandeira nacional para tentar encontrar algum conforto. O texto era - como sempre - de uma perfeição hilariante.
PARIS—At a press conference Tuesday, the World Heritage Committee officially recognized the Gap Between Rich and Poor as the "Eighth Wonder of the World," describing the global wealth divide as the "most colossal and enduring of mankind's creations."
Aqueles criadores são mesmo muito bons.
Ainda me lembro de quando o descobri o The Onion, meia dúzia de dias após o 11 de Setembro. Mostravam a fotografia de uma americana que tinha feito um bolo com o desenho da bandeira nacional para tentar encontrar algum conforto. O texto era - como sempre - de uma perfeição hilariante.
a primeira vez
O Lutz, em grande forma:
(roubado do seu blogue, aqui)
Fez dezoito anos em Setembro. Recensiou-se como eleitor. Com a elevação de quem assume, pela primeira vez, a sua qualidade de cidadão pleno, dirigiu-se ontem ao local do voto, a Escola Primária 101. Num gesto bonito e muito apropriado à dignidade da ocasião, as pessoas na mesa do voto deram-lhe os parabéns.
Na cabine, descobriu que faltava a esferográfica. Depois de solicitar e receber uma nova, voltou e votou em branco.
(história não ficcional)
(roubado do seu blogue, aqui)
Fez dezoito anos em Setembro. Recensiou-se como eleitor. Com a elevação de quem assume, pela primeira vez, a sua qualidade de cidadão pleno, dirigiu-se ontem ao local do voto, a Escola Primária 101. Num gesto bonito e muito apropriado à dignidade da ocasião, as pessoas na mesa do voto deram-lhe os parabéns.
Na cabine, descobriu que faltava a esferográfica. Depois de solicitar e receber uma nova, voltou e votou em branco.
(história não ficcional)
25 janeiro 2011
o abstencionismo dos emigrantes
(publicado também aqui)
Para as eleições do Presidente da República os emigrantes podem votar, sendo obrigados ao voto presencial.
Se bem se lembram, há alguns anos fecharam uma série de consulados para poupar dinheiro.
Isso significa que há agora ainda mais portugueses obrigados a fazer centenas de quilómetros para poderem votar. Antes de vir morar para Berlim, no meu caso eram quase 600 km.
Da última vez que ouvi debater esta questão, exigia-se o voto presencial por medo das "chapeladas". Ora, esta situação é que é uma grave "chapelada" na Democracia!
Mas conseguimos fazer pior, como relata uma portuguesa residente em Munique:
"(...) não votei, se bem que tenha a atenuante de nem as pessoas do Cons ulado terem sido capazes de me explicar como é que isso funciona. Só faltou dizerem "ó menina, mas quer votar para quê, deixe-se lá dessas modernices".
(...) Aqui temos um consulado que "funciona" um dia por semana, que é visitado pelo cônsul um dia por mês (...) e estas coisas são processadas em Estugarda - é que nem me garantiram que podia votar aqui, parece que os novos recenseados têm que votar em Estugarda, que é bué longe... ponho-me mais depressa em Lisboa que em Estugarda."
E continua, com uma pergunta que nos deveria dar muito que pensar:
"E o mais inacreditável é que não há desculpa. Se os alemães podem votar por carta ou noutro local de voto, se os suecos podem votar por SMS, porque é que nós, que em tantas coisas estamos tão mais avançados (dois exemplos: sistema bancário (MB) e telecomunicações, em particular as móveis), porque é que nisto, tão simples e tão importante, não podemos avançar um bocadinho?"
Outro elemento que falha redondamente é a informação. Se os candidatos se dão ao trabalho de correr o país de Norte a Sul para "vender o seu peixe", porque é que ninguém se lembrou sequer de avisar os emigrantes de que havia eleições, e de informar sobre os candidatos e respectivo programa? Podem responder-me que é dever do eleitor informar-se - e é verdade. Mas parece-me que os emigrantes, pelo simples facto de viverem no estrangeiro, e de terem mais dificuldade em acompanhar no dia-a-dia o que se passa no seu país, mereciam um cuidado especial, em vez desta incrível indiferença. Ou então, assumam com frontalidade que os emigrantes são cidadãos portugueses de segunda classe, sem aptidão para participar nos actos eleitorais.
Se bem se lembram, há alguns anos fecharam uma série de consulados para poupar dinheiro.
Isso significa que há agora ainda mais portugueses obrigados a fazer centenas de quilómetros para poderem votar. Antes de vir morar para Berlim, no meu caso eram quase 600 km.
Da última vez que ouvi debater esta questão, exigia-se o voto presencial por medo das "chapeladas". Ora, esta situação é que é uma grave "chapelada" na Democracia!
Mas conseguimos fazer pior, como relata uma portuguesa residente em Munique:
"(...) não votei, se bem que tenha a atenuante de nem as pessoas do Cons ulado terem sido capazes de me explicar como é que isso funciona. Só faltou dizerem "ó menina, mas quer votar para quê, deixe-se lá dessas modernices".
(...) Aqui temos um consulado que "funciona" um dia por semana, que é visitado pelo cônsul um dia por mês (...) e estas coisas são processadas em Estugarda - é que nem me garantiram que podia votar aqui, parece que os novos recenseados têm que votar em Estugarda, que é bué longe... ponho-me mais depressa em Lisboa que em Estugarda."
E continua, com uma pergunta que nos deveria dar muito que pensar:
"E o mais inacreditável é que não há desculpa. Se os alemães podem votar por carta ou noutro local de voto, se os suecos podem votar por SMS, porque é que nós, que em tantas coisas estamos tão mais avançados (dois exemplos: sistema bancário (MB) e telecomunicações, em particular as móveis), porque é que nisto, tão simples e tão importante, não podemos avançar um bocadinho?"
Outro elemento que falha redondamente é a informação. Se os candidatos se dão ao trabalho de correr o país de Norte a Sul para "vender o seu peixe", porque é que ninguém se lembrou sequer de avisar os emigrantes de que havia eleições, e de informar sobre os candidatos e respectivo programa? Podem responder-me que é dever do eleitor informar-se - e é verdade. Mas parece-me que os emigrantes, pelo simples facto de viverem no estrangeiro, e de terem mais dificuldade em acompanhar no dia-a-dia o que se passa no seu país, mereciam um cuidado especial, em vez desta incrível indiferença. Ou então, assumam com frontalidade que os emigrantes são cidadãos portugueses de segunda classe, sem aptidão para participar nos actos eleitorais.
(vocês desculpem o desabafo, mas às vezes até eu tenho vontade de mandar certos machos à tesourinha...)
Feito o desabafo, voltemos à civilização: ler o texto, assinar.
Passar palavra, para que outros assinem.
Dear friends,
Millicent Gaika was bound, strangled, tortured and raped for five hours by a man who crowed that he was ‘curing’ her of her lesbianism.
She barely survived, but she is not alone -- this vicious crime is recurrent in South Africa, where lesbians live in terror of attack. But no one has ever been convicted of 'corrective rape'.
Amazingly, from a tiny Cape Town safehouse a few brave activists are risking their lives to ensure that Millicent’s case sparks change. Their appeal to the Minister of Justice has exploded to over 140,000 signatures, forcing him to respond on national television. But the Minister has not yet answered their demands for action.
Let's shine a light on this horror from all corners of the world -- if enough of us join in to amplify and escalate this campaign, we can reach President Zuma, who is ultimately responsible to uphold constitutional rights. Let’s call on Zuma and the Minister of Justice to publicly condemn ‘corrective rape’, criminalise hate crimes, and ensure immediate enforcement, public education and protection for survivors. Sign the petition now and share it with everyone -- we’ll deliver it to the South African government with our partners in Cape Town:
https://secure.avaaz.org/en/stop_corrective_rape/?vl
South Africa, often called the Rainbow Nation, is revered globally for its post-apartheid efforts to protect against discrimination. It was the first country to constitutionally protect citizens from discrimination based on sexuality. But in Cape Town alone, the local organization Luleki Sizwe has recorded more than one 'corrective rape' per day, and impunity reigns.
'Corrective rape' is based on the outrageous and utterly false notion that a lesbian woman can be raped to 'make her straight', but this heinous act is not even classified as a hate crime in South Africa. The victims are often black, poor, lesbian women, and profoundly marginalised. But even the 2008 gang rape and murder of Eudy Simelane, the national hero and former star of the South Africa women's national football team, did not turn the tide. And just last week Minister Radebe insisted that motive is irrelevant in crimes like 'corrective rape.'
South Africa is the rape capital of the world. A South African girl born today is more likely to be raped than she is to learn to read. Astoundingly, one quarter of South African girls are raped before turning 16. This has many roots: masculine entitlement (62 per cent of boys over 11 believe that forcing someone to have sex is not an act of violence), poverty, crammed settlements, unemployed and disenfranchised men, community acceptance -- and, for the few cases that are courageously reported to authorities, a dismal police response and lax sentencing.
This is a human catastrophe. But Luleki Sizwe and partners at Change.org have opened a small window of hope in the fight against it. If the whole world weighs in now, we could get justice for Millicent and national action to end 'corrective rape':
https://secure.avaaz.org/en/stop_corrective_rape/?vl
This is ultimately a battle with poverty, patriarchy, and homophobia. Ending the tide of rape will require bold leadership and concerted action to spearhead transformative change in South Africa and across the continent. President Zuma is a a Zulu traditionalist, who has himself stood trial for rape. But he condemned the arrest of a gay couple in Malawi last year, and, after massive national and international civic pressure, South Africa finally approved a UN resolution opposing extra-judicial killing in relation to sexual orientation.
If enough of us join this global call for action, we could push Zuma to speak out, drive much-needed government action, and begin a national conversation that could fundamentally shift public attitudes toward rape and homophobia in South Africa. Sign on now and spread the word:
https://secure.avaaz.org/en/stop_corrective_rape/?vl
A case like Millicent’s makes it easy to lose hope. But when citizens come together with one voice, we can succeed in shifting fundamentally unjust, but deeply ingrained practices and norms. Last year, in Uganda, we succeeded in building such a massive wave of public pressure that the government was forced to shelve legislation that would have sentenced gay Ugandans to death. And it was global pressure in support of bold national activists that pushed South African leaders to address the AIDS crisis that was engulfing their country. Let’s join together now and speak out for a world where each and every human being can live without fear of abuse.
With hope and determination,
Alice, Ricken, Maria Paz, David and the rest of the Avaaz team
SOURCES:
Blog of Luleki Sizwe, South African organization leading the call to their government to stop 'corrective rape', and provides support to victims
http://lulekisizwe.wordpress.com
Minister of Justice Radebe’s nationally televised interview (South African Broadcasting Corporation)
http://www.youtube.com/watch?v=lkx-PYqHM0U
Protest against ‘corrective rape’ (The Sowetan)
http://www.sowetanlive.co.za/news/2011/01/06/protest-against-corrective-rape
Petition launched on Change.org by activists from Luleki Sizwe
http://humanrights.change.org/petitions/view/south_africa_declare_corrective_rape_a_hate-crime
"South Africa's shame: the rise of child rape" (The Independent)
http://www.independent.co.uk/news/world/africa/south-africas-shame-the-rise-of-child-rape-1974578.html
"Exploring homophobic victimisation in Gauteng, South Africa: issues, impacts, and responses" (Centre for Applied Psychology, University of South Africa)
http://www.avaaz.org/out_ucap_gauteng_study
"We have a major problem in South Africa" (The Guardian)
http://www.guardian.co.uk/lifeandstyle/2010/nov/18/south-africa-murder-rape
"South Africa: Rape Facts" (Channel 4)
http://www.channel4.com/programmes/dispatches/articles/south-africa-rape-facts
"Understanding men’s health and use of violence: interface of rape and HIV in South Africa" (Medical Research Council)
http://gender.care2share.wikispaces.net/file/view/MRC+SA+men+and+rape+ex+summary+june2009.pdf
"Preventing Rape and Violence in South Africa" (Medical Research Council)
http://www.mrc.ac.za/gender/prev_rapedd041209.pdf
Passar palavra, para que outros assinem.
Dear friends,
‘Corrective rape’, the vicious practice of raping lesbians to ‘cure’ their sexuality, is becoming a crisis in South Africa. But brave activists are calling on the world to help stop these heinous Hate Crimes -- and finally the government is beginning to respond. Let's support them. Sign the petition and send it to friends! |
Millicent Gaika was bound, strangled, tortured and raped for five hours by a man who crowed that he was ‘curing’ her of her lesbianism.
She barely survived, but she is not alone -- this vicious crime is recurrent in South Africa, where lesbians live in terror of attack. But no one has ever been convicted of 'corrective rape'.
Amazingly, from a tiny Cape Town safehouse a few brave activists are risking their lives to ensure that Millicent’s case sparks change. Their appeal to the Minister of Justice has exploded to over 140,000 signatures, forcing him to respond on national television. But the Minister has not yet answered their demands for action.
Let's shine a light on this horror from all corners of the world -- if enough of us join in to amplify and escalate this campaign, we can reach President Zuma, who is ultimately responsible to uphold constitutional rights. Let’s call on Zuma and the Minister of Justice to publicly condemn ‘corrective rape’, criminalise hate crimes, and ensure immediate enforcement, public education and protection for survivors. Sign the petition now and share it with everyone -- we’ll deliver it to the South African government with our partners in Cape Town:
https://secure.avaaz.org/en/stop_corrective_rape/?vl
South Africa, often called the Rainbow Nation, is revered globally for its post-apartheid efforts to protect against discrimination. It was the first country to constitutionally protect citizens from discrimination based on sexuality. But in Cape Town alone, the local organization Luleki Sizwe has recorded more than one 'corrective rape' per day, and impunity reigns.
'Corrective rape' is based on the outrageous and utterly false notion that a lesbian woman can be raped to 'make her straight', but this heinous act is not even classified as a hate crime in South Africa. The victims are often black, poor, lesbian women, and profoundly marginalised. But even the 2008 gang rape and murder of Eudy Simelane, the national hero and former star of the South Africa women's national football team, did not turn the tide. And just last week Minister Radebe insisted that motive is irrelevant in crimes like 'corrective rape.'
South Africa is the rape capital of the world. A South African girl born today is more likely to be raped than she is to learn to read. Astoundingly, one quarter of South African girls are raped before turning 16. This has many roots: masculine entitlement (62 per cent of boys over 11 believe that forcing someone to have sex is not an act of violence), poverty, crammed settlements, unemployed and disenfranchised men, community acceptance -- and, for the few cases that are courageously reported to authorities, a dismal police response and lax sentencing.
This is a human catastrophe. But Luleki Sizwe and partners at Change.org have opened a small window of hope in the fight against it. If the whole world weighs in now, we could get justice for Millicent and national action to end 'corrective rape':
https://secure.avaaz.org/en/stop_corrective_rape/?vl
This is ultimately a battle with poverty, patriarchy, and homophobia. Ending the tide of rape will require bold leadership and concerted action to spearhead transformative change in South Africa and across the continent. President Zuma is a a Zulu traditionalist, who has himself stood trial for rape. But he condemned the arrest of a gay couple in Malawi last year, and, after massive national and international civic pressure, South Africa finally approved a UN resolution opposing extra-judicial killing in relation to sexual orientation.
If enough of us join this global call for action, we could push Zuma to speak out, drive much-needed government action, and begin a national conversation that could fundamentally shift public attitudes toward rape and homophobia in South Africa. Sign on now and spread the word:
https://secure.avaaz.org/en/stop_corrective_rape/?vl
A case like Millicent’s makes it easy to lose hope. But when citizens come together with one voice, we can succeed in shifting fundamentally unjust, but deeply ingrained practices and norms. Last year, in Uganda, we succeeded in building such a massive wave of public pressure that the government was forced to shelve legislation that would have sentenced gay Ugandans to death. And it was global pressure in support of bold national activists that pushed South African leaders to address the AIDS crisis that was engulfing their country. Let’s join together now and speak out for a world where each and every human being can live without fear of abuse.
With hope and determination,
Alice, Ricken, Maria Paz, David and the rest of the Avaaz team
SOURCES:
Blog of Luleki Sizwe, South African organization leading the call to their government to stop 'corrective rape', and provides support to victims
http://lulekisizwe.wordpress.com
Minister of Justice Radebe’s nationally televised interview (South African Broadcasting Corporation)
http://www.youtube.com/watch?v=lkx-PYqHM0U
Protest against ‘corrective rape’ (The Sowetan)
http://www.sowetanlive.co.za/news/2011/01/06/protest-against-corrective-rape
Petition launched on Change.org by activists from Luleki Sizwe
http://humanrights.change.org/petitions/view/south_africa_declare_corrective_rape_a_hate-crime
"South Africa's shame: the rise of child rape" (The Independent)
http://www.independent.co.uk/news/world/africa/south-africas-shame-the-rise-of-child-rape-1974578.html
"Exploring homophobic victimisation in Gauteng, South Africa: issues, impacts, and responses" (Centre for Applied Psychology, University of South Africa)
http://www.avaaz.org/out_ucap_gauteng_study
"We have a major problem in South Africa" (The Guardian)
http://www.guardian.co.uk/lifeandstyle/2010/nov/18/south-africa-murder-rape
"South Africa: Rape Facts" (Channel 4)
http://www.channel4.com/programmes/dispatches/articles/south-africa-rape-facts
"Understanding men’s health and use of violence: interface of rape and HIV in South Africa" (Medical Research Council)
http://gender.care2share.wikispaces.net/file/view/MRC+SA+men+and+rape+ex+summary+june2009.pdf
"Preventing Rape and Violence in South Africa" (Medical Research Council)
http://www.mrc.ac.za/gender/prev_rapedd041209.pdf
24 janeiro 2011
o melhor é rir...
- O Pipoco mais Salgado, série de posts a acompanhar a noite das eleições:
Das Eleições (são demasiados links. Entrem no blogue, e vejam os posts do dia 23 de Janeiro.)
Das Eleições (são demasiados links. Entrem no blogue, e vejam os posts do dia 23 de Janeiro.)
tristeza
(publicado também aqui)
Sonhei para Portugal um presidente capaz de acreditar no melhor do seu país, com visão para apontar um rumo muito para além dos interesses partidários e do ruído dos dias, e com a grandeza de saber reconciliar um povo consigo próprio.
O povo escolheu, e os discursos - o de Cavaco na hora da vitória e o de Alegre na hora da derrota - marcam iniludivelmente a diferença entre o que Portugal vai ter nos próximos cinco anos e o que poderia ter tido.
Meu país, que desconsolo.
O povo escolheu, e os discursos - o de Cavaco na hora da vitória e o de Alegre na hora da derrota - marcam iniludivelmente a diferença entre o que Portugal vai ter nos próximos cinco anos e o que poderia ter tido.
Meu país, que desconsolo.
23 janeiro 2011
e agora já se pode falar de política?
Então, é assim:
Estou aqui a pensar que o melhor é ir dormir, e acordar daqui a cinco anos.
Estou aqui a pensar que o melhor é ir dormir, e acordar daqui a cinco anos.
hoje já se pode falar sobre política, ou é para continuar a falar do tempo e assim?
(foto daqui)
Vejo-as depois na rua, desequilibradas em cima dos cilícios, tentando fugir às irregularidades do passeio sem deixar cair a carteira e os sacos de compras do supermercado, às vezes ainda com miúdos pela mão, e não entendo.
Vejo-as a chegar a casa, a tirar os sapatos com um enorme suspiro de alívio, e - adivinharam! - não entendo.
Gosto do estilo Angela Merkel: roupa de trabalho. Quando vai a um concerto põe um vestidinho e até ousa um decote, mas quando está a trabalhar usa roupa de trabalho. Como os seus colegas homens, afinal.
E penso na história da Sereiazinha, de Hans-Christian Andersen, essa que queria a todo o custo dançar com o seu príncipe, e para isso trocou a cauda de sereia por pernas que lhe provocavam dores lancinantes. Reparem no pormenor muito significativo: para ganhar as pernas, perdeu a voz - aquele Andersen sabia muito.
Que príncipe é o destas mulheres, que fantástica miragem é essa pela qual elas estão dispostas a passar o dia inteiro a sofrer dores e desconforto, sorrindo e tentando fazer a melhor das figuras?
mais um motivo para gostar de viver em Berlim
Depois dos bilhetes gratuitos para ver o Lang Lang a dar aulas públicas de piano, depois dos bilhetes gratuitos para ver o András Schiff a tocar as Variações Goldberg, chegou a vez dos bilhetes gratuitos para ver Sir Simon Rattle a trabalhar com orquestras juvenis. Vai ser no domingo, dia 13 de Fevereiro, às 10:30. Estão a oferecer bilhetes na caixa da Filarmonia.
Bem sei que em termos de execução musical não vai ser excelente, mas já tenho os olhos a salivar só de imaginar Simon Rattle e um grupo de miúdos a experimentar o milagre da criação.
E no dia 8 há uma sessão especial com o pianista Alfred Brendel, que vai falar sobre humor na música.
E etc. - esta cidade não pára de me cativar.
Bem sei que em termos de execução musical não vai ser excelente, mas já tenho os olhos a salivar só de imaginar Simon Rattle e um grupo de miúdos a experimentar o milagre da criação.
E no dia 8 há uma sessão especial com o pianista Alfred Brendel, que vai falar sobre humor na música.
E etc. - esta cidade não pára de me cativar.
Anne-Sophie Mutter, bis
Uma amiga mandou-me esta foto do momento em que Anne-Sophie Mutter voltou à sala para nos oferecer um belíssimo solo. Para que vejam que não menti quando falei do seu vestido...
(eu ponho-me a falar de vestidos a propósito de um concerto destes e depois admiro-me que a Teresa, da Gota de Rantanplan, diga que se lembrou muito de mim, quando no blogue dela tem um post chamado Wannabes...) (muitos ;-) ;-) ;-) para a Teresa)
22 janeiro 2011
Anne-Sophie Mutter e Sir Simon Rattle
Fui "ouvê-los" ontem. Nem sei o que é melhor: vê-los ou ouvi-los.
Ele dança e mima a música como ninguém. E ela, ao violino... como uma tempestade, toda a força da natureza.
Tínhamos lugares por trás da orquestra - ainda ninguém contou à administração da Filarmónica que esses são os melhores, e muito eu gostava de saber porque é que há quem pague 150 euros para ver o Rattle de costas, e perder isto:
- atenção, agora vai começar o derrapanço feminino, ai jesus que lá vou eeeeeeeu... -
A Anne-Sophie Mutter vinha num vestido fenomenal, em brocado cinzento, sem alças e com corte sereia. Por trás, à altura dos joelhos, tinha um enorme laço, sob o qual se formava a cauda. Daquele lugar quase nunca lhe via o rosto, mas podia apreciar todo o jogo dos músculos nos ombros e nas costas, enquanto ela fazia brotar do seu violino (da última vez que perguntei, era um Stradivarius - Stradivari, dizem eles por cá) uma impressionante cascata de música.
- atenção, agora vai começar o derrapanço masculino, ai jesus que lá vou eeeeeu... -
O vestido sublinhava um corpo magnífico. Nos intervalos, a mão direita segurava arco e violino, e a esquerda fazia arpejos no ar, por trás das costas. Antes de recomeçar, esfregava a mão esquerda sobre a nádega, para limpar o suor. Nunca me tinha ocorrido que músicos pudessem ter este tipo de liberdades corporais mais próprias dos courts de ténis.
- atenção, agora vou tentar salvar este post em extremis -
Gostei imenso da primeira peça do programa (sem a violinista, claro):
Fauré, Pelléas et Mélisande - Orchestersuite op. 80
No fim do concerto, o Simon Rattle cumprimentou quase metade dos músicos da sua orquestra. Até me lembrou o Mourinho, quase me comovia.
(já disse hoje que adoro viver em Berlim?)
Ele dança e mima a música como ninguém. E ela, ao violino... como uma tempestade, toda a força da natureza.
Tínhamos lugares por trás da orquestra - ainda ninguém contou à administração da Filarmónica que esses são os melhores, e muito eu gostava de saber porque é que há quem pague 150 euros para ver o Rattle de costas, e perder isto:
- atenção, agora vai começar o derrapanço feminino, ai jesus que lá vou eeeeeeeu... -
A Anne-Sophie Mutter vinha num vestido fenomenal, em brocado cinzento, sem alças e com corte sereia. Por trás, à altura dos joelhos, tinha um enorme laço, sob o qual se formava a cauda. Daquele lugar quase nunca lhe via o rosto, mas podia apreciar todo o jogo dos músculos nos ombros e nas costas, enquanto ela fazia brotar do seu violino (da última vez que perguntei, era um Stradivarius - Stradivari, dizem eles por cá) uma impressionante cascata de música.
- atenção, agora vai começar o derrapanço masculino, ai jesus que lá vou eeeeeu... -
O vestido sublinhava um corpo magnífico. Nos intervalos, a mão direita segurava arco e violino, e a esquerda fazia arpejos no ar, por trás das costas. Antes de recomeçar, esfregava a mão esquerda sobre a nádega, para limpar o suor. Nunca me tinha ocorrido que músicos pudessem ter este tipo de liberdades corporais mais próprias dos courts de ténis.
- atenção, agora vou tentar salvar este post em extremis -
Gostei imenso da primeira peça do programa (sem a violinista, claro):
Fauré, Pelléas et Mélisande - Orchestersuite op. 80
No fim do concerto, o Simon Rattle cumprimentou quase metade dos músicos da sua orquestra. Até me lembrou o Mourinho, quase me comovia.
(já disse hoje que adoro viver em Berlim?)
decididamente: até na publicidade sou lenta de entendimento
Não tenho pachorra para maquilhagens, cremezinhos, não-sei-quê-cabelos, não-sei-quê-unhas.
A minha filha diz "máscara" e eu penso numa cara coberta de rodelas de pepino, quando afinal se trata de uma escovinha não-sei-quê-pestanas. Ela olha-me com um ar muito decepcionado, mas parece que continua a gostar de mim apesar de.
Por eu ser tal-qual como sou, sem disfarces nem paliativos, outro dia fizeram-me uma fotografia para aparecer na capa de um livro. Quanto mais penso nisso mais vontade de rir me dá: sem sequer me lembrar de perguntar "que livro?", fiz o meu melhor sorriso para a câmara, esmerei-me o mais que pude, e no fim só puseram um bocadinho, aquela parte que mostra as rugas junto aos olhos e uma ou outra mancha acastanhada. Era um trabalho científico sobre envelhecimento da pele. Se os Monty Python soubessem de mim, compravam o meu diário e já não precisavam de ter mais trabalho a inventar cenas hilariantes.
Gosto de ver rostos de idosos com rugas - rugas que contam uma vida. Gosto especialmente das marcas dos sorrisos e do olhar atento aos outros. Ficaria muito contente se na minha cara se fosse desenhando um mapa de emoções boas.
Não sei de nada mais ridiculamente triste que ver na mesma mulher uns quarenta anos de diferença entre a pele da cara e a das mãos e do pescoço (a propósito, conselho a quem se preocupa com isso: usem para as mãos o mesmo creme que usam para a face). Para não falar dos rostos encharcados em botox, sem história nem expressão. Para não falar do embaraço que sinto ao ouvir comentários dos amigos especialistas sobre as operações de recauchutagem a que se terão submetido mulheres com quem nos cruzamos na rua: "olha, esta usa botox, olha, aquela deu um arranjo nos lábios, olha, quantidades industriais de silicone". Incomoda-me que seja tão evidente: é como se me apanhassem de cabeleira postiça por cima dos cabelos mal arranjados.
Ao ver este filme, que encontrei no anotações de uma viagem, dei-me conta que sou incólume à publicidade que influencia a percepção que as mulheres têm de si próprias. Nada como ser lenta de entendimento. Aliás, está escrito: "felizes os pobres de espírito".
(hihihi)
A minha filha diz "máscara" e eu penso numa cara coberta de rodelas de pepino, quando afinal se trata de uma escovinha não-sei-quê-pestanas. Ela olha-me com um ar muito decepcionado, mas parece que continua a gostar de mim apesar de.
Por eu ser tal-qual como sou, sem disfarces nem paliativos, outro dia fizeram-me uma fotografia para aparecer na capa de um livro. Quanto mais penso nisso mais vontade de rir me dá: sem sequer me lembrar de perguntar "que livro?", fiz o meu melhor sorriso para a câmara, esmerei-me o mais que pude, e no fim só puseram um bocadinho, aquela parte que mostra as rugas junto aos olhos e uma ou outra mancha acastanhada. Era um trabalho científico sobre envelhecimento da pele. Se os Monty Python soubessem de mim, compravam o meu diário e já não precisavam de ter mais trabalho a inventar cenas hilariantes.
Gosto de ver rostos de idosos com rugas - rugas que contam uma vida. Gosto especialmente das marcas dos sorrisos e do olhar atento aos outros. Ficaria muito contente se na minha cara se fosse desenhando um mapa de emoções boas.
Não sei de nada mais ridiculamente triste que ver na mesma mulher uns quarenta anos de diferença entre a pele da cara e a das mãos e do pescoço (a propósito, conselho a quem se preocupa com isso: usem para as mãos o mesmo creme que usam para a face). Para não falar dos rostos encharcados em botox, sem história nem expressão. Para não falar do embaraço que sinto ao ouvir comentários dos amigos especialistas sobre as operações de recauchutagem a que se terão submetido mulheres com quem nos cruzamos na rua: "olha, esta usa botox, olha, aquela deu um arranjo nos lábios, olha, quantidades industriais de silicone". Incomoda-me que seja tão evidente: é como se me apanhassem de cabeleira postiça por cima dos cabelos mal arranjados.
Ao ver este filme, que encontrei no anotações de uma viagem, dei-me conta que sou incólume à publicidade que influencia a percepção que as mulheres têm de si próprias. Nada como ser lenta de entendimento. Aliás, está escrito: "felizes os pobres de espírito".
(hihihi)
já que hoje não se pode falar de política, vou baixar o nível e falar de coisas porcas...
Ao ver esta imagem no lugares comuns, mais propriamente neste post,
lembrei-me de um conhecido meu que estava num café no Japão, foi à casa de banho, e quando chegou o momento de usar o autoclismo deparou-se com um computador destes, mas sem desenhos nem inglês. Inúmeros botõezinhos todos em japonês. Carregou num qualquer, e saiu-lhe um repuxo. Carregou noutro, para tentar parar esse, e a água começou a jorrar com mais força. Foi carregando a eito, e nada, quer dizer: e tudo, tudo, tudo. Um horror. Saiu a toda a pressa, pagou rapidamente e abandonou o local - no momento em que a água já escorria por baixo da porta em direcção às mesas.
lembrei-me de um conhecido meu que estava num café no Japão, foi à casa de banho, e quando chegou o momento de usar o autoclismo deparou-se com um computador destes, mas sem desenhos nem inglês. Inúmeros botõezinhos todos em japonês. Carregou num qualquer, e saiu-lhe um repuxo. Carregou noutro, para tentar parar esse, e a água começou a jorrar com mais força. Foi carregando a eito, e nada, quer dizer: e tudo, tudo, tudo. Um horror. Saiu a toda a pressa, pagou rapidamente e abandonou o local - no momento em que a água já escorria por baixo da porta em direcção às mesas.
21 janeiro 2011
a lagoa azul...
PARE BELO MONTE: NÃO À MEGA USINA NA AMAZÔNIA
Belo Monte seria maior que o Canal do Panamá, inundando pelo menos 400.000 hectares de floresta, expulsando 40.000 indígenas e populações locais e destruindo o habitat precioso de inúmeras espécies -- tudo isto para criar energia que poderia ser facilmente gerada com maiores investimentos em eficiência energética.
A pressão sobre a Presidente Dilma está aumentando: o Presidente do IBAMA acabou de renunciar, se recusando a emitir a licença ambiental de Belo Monte e expondo a pressão política para levar este projeto devastador adiante. Especialistas, lideranças indígenas e a sociedade civil concordam que Belo Monte é um desastre ambiental no coração da Amazônia.
As obras poderão começar logo. Vamos aumentar a pressão para Dilma parar Belo Monte! Assine a petição, antes que as escavadeiras comecem a trabalhar -- ela será entregue em Brasília.
Para assinar a petição: avaaz.org
ainda sobre as pessoas que acham que dantes é que se estava bem
Um post do João Pinto e Castro: pelos vistos as pessoas não chegam a achar - limitam-se a repetir o que ouviram alguém dizer.
(E eu, toca a repetir uma perplexidade antiga: como é que os portugueses se queixam permanentemente que estão mal, e eu só vejo restaurantes cheios, carros novos e bons, tanta a gente a viajar, telemóveis topo de gama, maquinetas, roupa de marca?) (bom, não sei como vai ser agora, com o pacote de austeridade, mas até ao Verão passado tinha a impressão que em Portugal havia uma certa desfocagem no modo de ver o próprio viver)
(E eu, toca a repetir uma perplexidade antiga: como é que os portugueses se queixam permanentemente que estão mal, e eu só vejo restaurantes cheios, carros novos e bons, tanta a gente a viajar, telemóveis topo de gama, maquinetas, roupa de marca?) (bom, não sei como vai ser agora, com o pacote de austeridade, mas até ao Verão passado tinha a impressão que em Portugal havia uma certa desfocagem no modo de ver o próprio viver)
20 janeiro 2011
este blogue acabou de fazer sete anos
...e eu nem reparei!
Gracias a la vida - ao olhar para trás, é o que me apetece cantar.
E obrigada aos amigos com quem comecei, em especial à Céu que devia receber uma medalha dos bombeiros voluntários.
Eu sei que chega a esta altura e começo a repetir-me. Mas que hei-de eu fazer? Continua a ser um grande prazer encontrar-me aqui com tanta gente boa.
Gracias a la vida - ao olhar para trás, é o que me apetece cantar.
E obrigada aos amigos com quem comecei, em especial à Céu que devia receber uma medalha dos bombeiros voluntários.
Eu sei que chega a esta altura e começo a repetir-me. Mas que hei-de eu fazer? Continua a ser um grande prazer encontrar-me aqui com tanta gente boa.
"isto só vai lá com uma revolução"
(Publicado também no Alegro Pianissimo)
"Isto só vai lá com uma revolução" ou, mais desconsoladamente, "isto só à bomba!" são frases que ouço com cada vez mais frequência.
Revolução? Já tivemos. Chama-se 25 de Abril, e até é feriado.
Agora, a única solução que nos resta é trabalhar. Arregaçar as mangas e começar a trabalhar. Ir votar. Participar num partido. Inventar outro. Escrever cartas abertas aos deputados e aos ministros e ao presidente, exigir, pressionar, tudo o que quiserem - dentro dos limites democráticos.
Ou até criar um serviço de acompanhamento dos escândalos, ter sempre um ponto da situação actualizado. Porque - já repararam? - nós vamos vivendo de escândalo em escândalo, com a sensação que tudo fica em águas de bacalhau.
Há muito para fazer.
Mas a revolução, essa, já fizemos. Agora há que trabalhar, e muito, e sem descanso, para uma Democracia mais saudável.
Começando por isto: ir votar no próximo domingo.
Em vez de sonhar com revoluções e sebastiões.
"Isto só vai lá com uma revolução" ou, mais desconsoladamente, "isto só à bomba!" são frases que ouço com cada vez mais frequência.
Revolução? Já tivemos. Chama-se 25 de Abril, e até é feriado.
Agora, a única solução que nos resta é trabalhar. Arregaçar as mangas e começar a trabalhar. Ir votar. Participar num partido. Inventar outro. Escrever cartas abertas aos deputados e aos ministros e ao presidente, exigir, pressionar, tudo o que quiserem - dentro dos limites democráticos.
Ou até criar um serviço de acompanhamento dos escândalos, ter sempre um ponto da situação actualizado. Porque - já repararam? - nós vamos vivendo de escândalo em escândalo, com a sensação que tudo fica em águas de bacalhau.
Há muito para fazer.
Mas a revolução, essa, já fizemos. Agora há que trabalhar, e muito, e sem descanso, para uma Democracia mais saudável.
Começando por isto: ir votar no próximo domingo.
Em vez de sonhar com revoluções e sebastiões.
quem me ajuda?
Ontem fiz dim sum cozido a vapor naquelas caixas de bambu, e colaram-se um bocadinho às varetas.
Pensei: hei-de ver na internet como é que se faz para que o dim sum não cole.
Já viram coisa mais prodigiosa que isto? No nosso mundo há milhões de pessoas que todos os dias gastam imenso tempo a ajudar desconhecidos. Gratuitamente, e sem esperar qualquer espécie de recompensa. E há milhões de pessoas que contam com essa ajuda como se fosse a coisa mais natural e certa. E nem falo dos que criam o Linux, nem dos co-autores e co-editores da wikipedia. Por acaso desta vez só estava a pensar nos que me hão-de dizer como é que faço para o dim sum não colar.
Que diria Rousseau sobre isto?
(Diria: "Pourquoi dim sum, madame? Restez dans la bonne cuisine française, ça n'attache pas")
***
Adenda, em resposta a algumas perguntas que recebi em privado: comprei o dim sum congelado, pus um pouco de água no wok e as caixinhas de bambu sobrepostas, com os dim sum congelados dentro e uma tampa de bambu em cima. Deixei cozer no vapor durante cinco minutos. Pronto. Comemos com molho de soja.
Ou pensavam que me ia dar ao trabalho de fazer rissóis chineses à mão? Nem os portugueses, quanto mais...
Contei o caminho das pedrinhas, mas não sei se volto a fazer o mesmo. Pareceu-me que aquilo estava cheio de químicos para dar mais sabor.
Pensei: hei-de ver na internet como é que se faz para que o dim sum não cole.
Já viram coisa mais prodigiosa que isto? No nosso mundo há milhões de pessoas que todos os dias gastam imenso tempo a ajudar desconhecidos. Gratuitamente, e sem esperar qualquer espécie de recompensa. E há milhões de pessoas que contam com essa ajuda como se fosse a coisa mais natural e certa. E nem falo dos que criam o Linux, nem dos co-autores e co-editores da wikipedia. Por acaso desta vez só estava a pensar nos que me hão-de dizer como é que faço para o dim sum não colar.
Que diria Rousseau sobre isto?
(Diria: "Pourquoi dim sum, madame? Restez dans la bonne cuisine française, ça n'attache pas")
***
Adenda, em resposta a algumas perguntas que recebi em privado: comprei o dim sum congelado, pus um pouco de água no wok e as caixinhas de bambu sobrepostas, com os dim sum congelados dentro e uma tampa de bambu em cima. Deixei cozer no vapor durante cinco minutos. Pronto. Comemos com molho de soja.
Ou pensavam que me ia dar ao trabalho de fazer rissóis chineses à mão? Nem os portugueses, quanto mais...
Contei o caminho das pedrinhas, mas não sei se volto a fazer o mesmo. Pareceu-me que aquilo estava cheio de químicos para dar mais sabor.
19 janeiro 2011
ó tempo volta pra trás
A minha avó tinha uma vizinha com treze filhos. Na realidade teve mais que treze, mas alguns morreram. Era no tempo do "isto morre muito", da notícia que se espalhava célere entre a miudagem: "na casa dos Fulanos há um anjinho!" - e lá íamos nós em bando, atraídos pelo espectáculo da morte, das velas e das flores à volta da caixa de madeira sobre uma mesa. Treze filhos: chegava e sobrava para uma equipa de futebol, havia sempre alguém com quem jogar à macaca ou à bandeirinha na rua. A rua não era perigosa: era tão má tão má, que os condutores se viam obrigados a fazê-la em passo de caracol. Que belos dias passávamos por ali na brincadeira, apesar das interrupções ora porque o bebé chorava ora porque era preciso ir lavar a roupa no tanque comunitário ora porque eram horas de fazer o almoço. Naquela ranchada de filhos só havia duas raparigas. Na época em que brincávamos todos na rua elas deviam andar entre os 6 e os 12 anos, e asseguravam todo o trabalho doméstico enquanto a mãe andava na lavoura. Dos rapazes, só os mais pequenos brincavam connosco - no intervalo de segar erva para a vaca, catar folhas de couve para as galinhas, o que fosse preciso. Os mais novos, digo, porque os mais velhos, esses, em chegando aos 10 anos iam trabalhar. A minha avó zangava-se se nós comíamos na casa deles. A princípio pensei que o que lhe desagradava era a cozinha de chão de terra batida, a casa escura e suja. Mas um dia vi três irmãos a disputar uma cabeça de sardinha, e percebi.
Do outro lado da rua havia uma família que tinha também duas filhas, mas apenas uma muda de roupa e de sapatos. Uma ia à escola de manhã, a outra à tarde. Isto foi por volta do 25 de Abril, no tempo em que ir de Braga ao Porto levava duas ou três horas, e para a viagem Porto-Lisboa era preciso contar um dia.
A minha avó era uma das pessoas mais ricas da freguesia. Medido em "bens ao luar", entenda-se. Dava aos jornaleiros uma mesa digna - e até relativamente farta. Quando matava o porco, distribuía peças pela vizinhança, embrulhadas em panos de linho. Mas não nos deixava ler na cama, à noite, porque a lâmpada gastava muito. Tinha uma televisão, presente do tio da América, que não podíamos usar. Excepto, por muito favor, uma vez por semana, para ver a Pipi das Meias Altas. Ela via o Mundo Rural.
Nós próprios, filhos da classe média, usávamos roupa cheia de remendos, cotoveleiras e joelheiras. Tínhamos duas, três mudas de roupa, e uma pecinha mais domingueira. Roupa e sapatos passavam para os irmãos mais novos. As mangas dos casacos eram acrescentadas por mil artifícios, desde a barra de crochet à de imitação de veludo no mesmo tom.
Também tínhamos empregada doméstica, claro. Durante anos tivemos uma serviçal muito fiel, uma mulher vítima de violência doméstica, que tinha três filhos espalhados por irmãos e amas. Por volta dos 3 anos aquelas crianças aprendiam a tratar os filhos dos amos por "os meninos".
Depois da morte do meu pai, soube por um antigo amigo dele, um daqueles padres "difíceis", que a PIDE o andou a espiar por causa de uma iniciativa de ambos para promoção do desenvolvimento sociocultural dos minhotos. O padre via a tragédia das famílias dos emigrantes - os homens que saíam para Paris e Hamburgo, e se enchiam de desgosto em relação à própria família e às suas condições de vida - e achou que a única solução era melhorar o nível dessas pessoas. Ensinar as mulheres a tratar melhor da casa, a não deitar os restos da comida para o chão, a pôr cortinas nas janelas, a cuidar da sua aparência física... A PIDE desconfiou: parecia coisa de comunistas e agitadores.
Bom, também há aquela história do princípio dos anos 60, quando o meu pai organizou uma excursão a Lourdes com jovens agricultores da JAC, e alguns deles aproveitaram para dar o salto. Foi uma sorte o juiz ser um transmontano dos melhores - caso contrário, o meu irmão mais velho teria de ir à prisão para conhecer o pai. E sabe-se lá se eu nascia...
Era assim. Como é que as pessoas se esqueceram tão depressa disto?
***
Adenda: a Maria N. escreveu um post muito bom a propósito disto, que termina assim:
Ninguém esqueceu coisa nenhuma, mas a memória é selectiva, depende de quem pergunta e das intenções que quem responde julga ser as de quem pergunta.
Do outro lado da rua havia uma família que tinha também duas filhas, mas apenas uma muda de roupa e de sapatos. Uma ia à escola de manhã, a outra à tarde. Isto foi por volta do 25 de Abril, no tempo em que ir de Braga ao Porto levava duas ou três horas, e para a viagem Porto-Lisboa era preciso contar um dia.
A minha avó era uma das pessoas mais ricas da freguesia. Medido em "bens ao luar", entenda-se. Dava aos jornaleiros uma mesa digna - e até relativamente farta. Quando matava o porco, distribuía peças pela vizinhança, embrulhadas em panos de linho. Mas não nos deixava ler na cama, à noite, porque a lâmpada gastava muito. Tinha uma televisão, presente do tio da América, que não podíamos usar. Excepto, por muito favor, uma vez por semana, para ver a Pipi das Meias Altas. Ela via o Mundo Rural.
Nós próprios, filhos da classe média, usávamos roupa cheia de remendos, cotoveleiras e joelheiras. Tínhamos duas, três mudas de roupa, e uma pecinha mais domingueira. Roupa e sapatos passavam para os irmãos mais novos. As mangas dos casacos eram acrescentadas por mil artifícios, desde a barra de crochet à de imitação de veludo no mesmo tom.
Também tínhamos empregada doméstica, claro. Durante anos tivemos uma serviçal muito fiel, uma mulher vítima de violência doméstica, que tinha três filhos espalhados por irmãos e amas. Por volta dos 3 anos aquelas crianças aprendiam a tratar os filhos dos amos por "os meninos".
Depois da morte do meu pai, soube por um antigo amigo dele, um daqueles padres "difíceis", que a PIDE o andou a espiar por causa de uma iniciativa de ambos para promoção do desenvolvimento sociocultural dos minhotos. O padre via a tragédia das famílias dos emigrantes - os homens que saíam para Paris e Hamburgo, e se enchiam de desgosto em relação à própria família e às suas condições de vida - e achou que a única solução era melhorar o nível dessas pessoas. Ensinar as mulheres a tratar melhor da casa, a não deitar os restos da comida para o chão, a pôr cortinas nas janelas, a cuidar da sua aparência física... A PIDE desconfiou: parecia coisa de comunistas e agitadores.
Bom, também há aquela história do princípio dos anos 60, quando o meu pai organizou uma excursão a Lourdes com jovens agricultores da JAC, e alguns deles aproveitaram para dar o salto. Foi uma sorte o juiz ser um transmontano dos melhores - caso contrário, o meu irmão mais velho teria de ir à prisão para conhecer o pai. E sabe-se lá se eu nascia...
Era assim. Como é que as pessoas se esqueceram tão depressa disto?
***
Adenda: a Maria N. escreveu um post muito bom a propósito disto, que termina assim:
Ninguém esqueceu coisa nenhuma, mas a memória é selectiva, depende de quem pergunta e das intenções que quem responde julga ser as de quem pergunta.
18 janeiro 2011
do coração de Berlim
O meu post anterior, sobre o 3 de Outubro na Alemanha, destinava-se a preparar o texto que escrevi (finalmente) no Alegro Pianissimo.
Assim:
Eu sei que há poucas coisas mais irritantes que os emigrantes que se põem a dizer “cá neste meu país estrangeiro é tudo melhor”. E sei que de momento os portugueses gostam pouco das mensagens que recebem de Berlim... Mas tenho de contar este episódio: no dia 3 de Outubro de 2010 assisti com uma jovem portuguesa aos festejos berlinenses do 20º aniversário do Tratado da Reunificação Alemã. A cidade de Berlim comemorou esse momento histórico com uma festa sem exageros de discursos políticos (a Chanceler e o Presidente da República estavam presentes mas não discursaram), e um show com uma mensagem simples: gratidão e orgulho, conjugação harmoniosa das diferenças, aposta nos jovens, nas pessoas das regiões do Leste da Alemanha, nos que se entregam de corpo e alma a um sonho, e numa Europa como futuro e continuação lógica da reunificação. Estávamos ambas encantadas com aquela festa, mas ela tinha o coração em Portugal e nas comemorações do Centenário da República, e lamentava-se antecipadamente, certa de que “em Portugal vão estragar tudo”. Não sei se a festa em Portugal foi boa ou não: no dia 6 de Outubro de 2010 só ouvi falar do escândalo dos ausentes das cerimónias.
É isto que andamos a fazer ao nosso país: destruímos cínica e compulsivamente tudo o que possa ser oportunidade para ganhar uma consciência nacional positiva, tudo o que nos possa unir, tudo o que possa cimentar a nossa Democracia. E chegámos a um ponto em que as pessoas não querem ir votar, porque nenhum candidato lhes presta. E em que uma miúda de vinte anos sofre por antecipação, por partir do princípio que o seu país, podendo fazer boa figura, acaba por fazer da pior maneira possível.
Voltemos à Alemanha: em Bremen, onde decorreu a cerimónia oficial de comemoração, o Presidente da República lembrou o esforço de muitos países, pessoas e organizações, sem o qual a queda do muro não teria sido possível, falou do difícil processo de reunificação, louvou a acção de todos e os resultados já alcançados, e alargou a célebre frase “nós somos um povo” para nela caberem os estrangeiros que vivem neste país, dizendo que a Alemanha é um país de cristãos, de judeus e também de muçulmanos. Este Presidente não é propriamente um Obama, e o seu discurso não era uma obra-prima da retórica. Mas focou com firmeza e optimismo questões existenciais para esta sociedade, e deu uma orientação fundamental ao debate sobre a integração, que tinha descarrilado completamente com o episódio Sarrazin.
É para isto que um Presidente serve: para acreditar no melhor de um país, para lhe apontar um rumo muito para além dos interesses partidários e do ruído dos dias, para saber reconciliar um povo consigo próprio. E é de um Presidente assim que Portugal precisa urgentemente.
Do meu ponto de vista, Cavaco não serve estes desígnios. Se dúvidas houvesse, o seu mandato resolveu-as. O episódio Saramago, o “dia da raça” (vê-se bem que não lê jornais desde 1945), a aprovação de leis a contragosto quando o que o país precisava era de afirmações claras de princípios, tantos outros incidentes de cinzentismo...
Sobre os outros candidatos, decida cada um por si. E vá votar - em consciência, esperança e exigência. Não nos podemos demitir da responsabilidade de inventar um país novo. Não temos o direito de ficar em casa e deixar que outros decidam por nós, porque “assim como assim eles estragam tudo”. “Eles” somos nós, e “este país” é o único que temos para dar aos nossos filhos. Acredito que um Portugal melhor é possível. Um Portugal do qual nos possamos orgulhar. Sou uma sonhadora? Talvez. É que moro num país que entre 1933 e 1945 desceu muito mais baixo do que alguma vez Portugal conseguiria descer, e que nos últimos vinte anos tem trabalhado para unir dois povos - um dos quais foi sujeito durante quase meio século a uma poderosíssima máquina ditatorial e ideológica.
Se eles conseguiram, porque é que nós queremos desistir, e nem nos damos ao trabalho de ir votar? Ouçamos as palavras de Bärbel Boley, activista da RDA: “Nada nos era tão grande que não pudéssemos enfrentar, nada nos era tão pequeno que não valesse a pena cuidar.”
É por aí.
Assim:
Eu sei que há poucas coisas mais irritantes que os emigrantes que se põem a dizer “cá neste meu país estrangeiro é tudo melhor”. E sei que de momento os portugueses gostam pouco das mensagens que recebem de Berlim... Mas tenho de contar este episódio: no dia 3 de Outubro de 2010 assisti com uma jovem portuguesa aos festejos berlinenses do 20º aniversário do Tratado da Reunificação Alemã. A cidade de Berlim comemorou esse momento histórico com uma festa sem exageros de discursos políticos (a Chanceler e o Presidente da República estavam presentes mas não discursaram), e um show com uma mensagem simples: gratidão e orgulho, conjugação harmoniosa das diferenças, aposta nos jovens, nas pessoas das regiões do Leste da Alemanha, nos que se entregam de corpo e alma a um sonho, e numa Europa como futuro e continuação lógica da reunificação. Estávamos ambas encantadas com aquela festa, mas ela tinha o coração em Portugal e nas comemorações do Centenário da República, e lamentava-se antecipadamente, certa de que “em Portugal vão estragar tudo”. Não sei se a festa em Portugal foi boa ou não: no dia 6 de Outubro de 2010 só ouvi falar do escândalo dos ausentes das cerimónias.
É isto que andamos a fazer ao nosso país: destruímos cínica e compulsivamente tudo o que possa ser oportunidade para ganhar uma consciência nacional positiva, tudo o que nos possa unir, tudo o que possa cimentar a nossa Democracia. E chegámos a um ponto em que as pessoas não querem ir votar, porque nenhum candidato lhes presta. E em que uma miúda de vinte anos sofre por antecipação, por partir do princípio que o seu país, podendo fazer boa figura, acaba por fazer da pior maneira possível.
Voltemos à Alemanha: em Bremen, onde decorreu a cerimónia oficial de comemoração, o Presidente da República lembrou o esforço de muitos países, pessoas e organizações, sem o qual a queda do muro não teria sido possível, falou do difícil processo de reunificação, louvou a acção de todos e os resultados já alcançados, e alargou a célebre frase “nós somos um povo” para nela caberem os estrangeiros que vivem neste país, dizendo que a Alemanha é um país de cristãos, de judeus e também de muçulmanos. Este Presidente não é propriamente um Obama, e o seu discurso não era uma obra-prima da retórica. Mas focou com firmeza e optimismo questões existenciais para esta sociedade, e deu uma orientação fundamental ao debate sobre a integração, que tinha descarrilado completamente com o episódio Sarrazin.
É para isto que um Presidente serve: para acreditar no melhor de um país, para lhe apontar um rumo muito para além dos interesses partidários e do ruído dos dias, para saber reconciliar um povo consigo próprio. E é de um Presidente assim que Portugal precisa urgentemente.
Do meu ponto de vista, Cavaco não serve estes desígnios. Se dúvidas houvesse, o seu mandato resolveu-as. O episódio Saramago, o “dia da raça” (vê-se bem que não lê jornais desde 1945), a aprovação de leis a contragosto quando o que o país precisava era de afirmações claras de princípios, tantos outros incidentes de cinzentismo...
Sobre os outros candidatos, decida cada um por si. E vá votar - em consciência, esperança e exigência. Não nos podemos demitir da responsabilidade de inventar um país novo. Não temos o direito de ficar em casa e deixar que outros decidam por nós, porque “assim como assim eles estragam tudo”. “Eles” somos nós, e “este país” é o único que temos para dar aos nossos filhos. Acredito que um Portugal melhor é possível. Um Portugal do qual nos possamos orgulhar. Sou uma sonhadora? Talvez. É que moro num país que entre 1933 e 1945 desceu muito mais baixo do que alguma vez Portugal conseguiria descer, e que nos últimos vinte anos tem trabalhado para unir dois povos - um dos quais foi sujeito durante quase meio século a uma poderosíssima máquina ditatorial e ideológica.
Se eles conseguiram, porque é que nós queremos desistir, e nem nos damos ao trabalho de ir votar? Ouçamos as palavras de Bärbel Boley, activista da RDA: “Nada nos era tão grande que não pudéssemos enfrentar, nada nos era tão pequeno que não valesse a pena cuidar.”
É por aí.
se isto fosse assim tão fácil...
Se isto fosse assim tão fácil como o Rui Tavares diz no seu post Wikileaks 1 - NATO 0, passávamos a resolver os problemas de uma maneira muito simples: em vez de mandar exércitos para os países, os EUA só tinham que publicar alguns telegramas dos embaixadores.
Os EUA não terão um embaixador em Cuba? Ele não terá uns relatórios de conversitas que possa publicar?
A Yoani Sánchez ficava toda contente.
***
É que nem é preciso publicar telegramas. Basta "leakar" a informação para a comunidade internética do país em causa. Sei lá, um The Huffington Post das Arábias, por exemplo.
Os EUA não terão um embaixador em Cuba? Ele não terá uns relatórios de conversitas que possa publicar?
A Yoani Sánchez ficava toda contente.
***
É que nem é preciso publicar telegramas. Basta "leakar" a informação para a comunidade internética do país em causa. Sei lá, um The Huffington Post das Arábias, por exemplo.
3 de Outubro de 2010
No dia 3 de Outubro de 2010 a Alemanha comemorou a reunificação, cujo tratado fora assinado vinte anos antes, e eu tive a sorte de participar na festa de Berlim, em frente ao Reichstag.
Enquanto esperávamos, víamos em ecrãs gigantes imagens da história recente da Alemanha: o fim da guerra, a construção do muro, as pessoas que se acenavam em pranto de um e do outro lado, as tentativas de fuga, a abertura da Hungria, o anúncio de Genscher na embaixada de Praga, a queda do muro e a alegria que se seguiu.
A festa começou com uma homenagem a Helmut Kohl, convidado de honra e presente apesar da doença. A câmara foi gentil, saiu-lhe do rosto antes de ele começar a chorar.
Alguns pára-quedistas continuaram o espectáculo: traziam maquinetas que lançavam fumo nas cores da bandeira nacional. Um deles desfraldou uma enorme bandeira e foi entusiasticamente aplaudido por um povo que já não se envergonha dos seus símbolos.
A seguir, um coro juvenil cantou uma velhíssima canção revolucionária, "o pensamento é livre", com arranjos melódicos modernos. Uma orquestra amadora da Turíngia juntou acordes clássicos à música de um jovem cantor e da sua banda - ou vice-versa: estavam muito bem combinados.
A Escola de Ballet de Berlim (famosa desde os tempos de Berlim Leste) fez uma dança surpreendente e de impecável coreografia: um sapateado executado quase sempre em pontas, ao som de música que me pareceu magrebina.
Finalmente, um discurso de cinco minutos feito pelo presidente do Parlamento Alemão. Lembrou o esforço da população da RDA, repetindo uma frase importante "o muro caiu porque o empurraram do lado oriental", e afirmou que podemos olhar com gratidão e orgulho para o que já fomos capazes de construir nestes vinte anos. Depois falou dos princípios fundamentais - unidade, direito, liberdade - que são a base da felicidade deste país, terminando com uma citação do hino: cresce à luz desta felicidade. A orquestra arrancou, sublinhando estas palavras com a respectiva melodia num arranjo moderno, que se resolveu com graça para retomar a música de Haydn, acompanhada em uníssono pela multidão emocionada.
Seguiu-se fogo-de-artifício ao som do hino europeu, enquanto projectavam sobre a fachada do Reichstag imagens históricas da reunificação.
Espertos, os alemães: em vez de terminarem abruptamente a festa, continuaram a projectar fotos da história recente, para que aqueles milhares de pessoas não abandonassem o local todos ao mesmo tempo.
Quando me vim embora, ainda havia muitos alemães que continuavam a olhar para o edifício do Parlamento, com um grande sorriso. Gente feliz com lágrimas, um povo reconciliado consigo próprio.
Em suma: uma festa conseguida, sem exageros de discursos políticos (a Chanceler e o Presidente da República estavam presentes mas não discursaram), e com uma mensagem simples: gratidão e orgulho, conjugação harmónica das diferenças, aposta nos jovens, nas pessoas do Leste, nos que se entregam de corpo e alma a um sonho. E a Europa como futuro e continuação lógica da reunificação.
***
Comigo estava uma jovem portuguesa, que saboreava tudo com fascínio e alguma zanga. Volta e meia, lamentava-se: "estou mesmo a ver que as comemorações do centenário da República não vão ser nada assim, estou mesmo a ver que vão estragar tudo..."
Passados três dias, lemos nos jornais e blogues a confirmação dos seus receios: das comemorações do centenário sobrou a discussão sobre quem não tinha estado presente. Mais um episódio de um país tornado caricatura de si próprio.
Enquanto esperávamos, víamos em ecrãs gigantes imagens da história recente da Alemanha: o fim da guerra, a construção do muro, as pessoas que se acenavam em pranto de um e do outro lado, as tentativas de fuga, a abertura da Hungria, o anúncio de Genscher na embaixada de Praga, a queda do muro e a alegria que se seguiu.
A festa começou com uma homenagem a Helmut Kohl, convidado de honra e presente apesar da doença. A câmara foi gentil, saiu-lhe do rosto antes de ele começar a chorar.
Alguns pára-quedistas continuaram o espectáculo: traziam maquinetas que lançavam fumo nas cores da bandeira nacional. Um deles desfraldou uma enorme bandeira e foi entusiasticamente aplaudido por um povo que já não se envergonha dos seus símbolos.
A seguir, um coro juvenil cantou uma velhíssima canção revolucionária, "o pensamento é livre", com arranjos melódicos modernos. Uma orquestra amadora da Turíngia juntou acordes clássicos à música de um jovem cantor e da sua banda - ou vice-versa: estavam muito bem combinados.
A Escola de Ballet de Berlim (famosa desde os tempos de Berlim Leste) fez uma dança surpreendente e de impecável coreografia: um sapateado executado quase sempre em pontas, ao som de música que me pareceu magrebina.
Finalmente, um discurso de cinco minutos feito pelo presidente do Parlamento Alemão. Lembrou o esforço da população da RDA, repetindo uma frase importante "o muro caiu porque o empurraram do lado oriental", e afirmou que podemos olhar com gratidão e orgulho para o que já fomos capazes de construir nestes vinte anos. Depois falou dos princípios fundamentais - unidade, direito, liberdade - que são a base da felicidade deste país, terminando com uma citação do hino: cresce à luz desta felicidade. A orquestra arrancou, sublinhando estas palavras com a respectiva melodia num arranjo moderno, que se resolveu com graça para retomar a música de Haydn, acompanhada em uníssono pela multidão emocionada.
Seguiu-se fogo-de-artifício ao som do hino europeu, enquanto projectavam sobre a fachada do Reichstag imagens históricas da reunificação.
Espertos, os alemães: em vez de terminarem abruptamente a festa, continuaram a projectar fotos da história recente, para que aqueles milhares de pessoas não abandonassem o local todos ao mesmo tempo.
Quando me vim embora, ainda havia muitos alemães que continuavam a olhar para o edifício do Parlamento, com um grande sorriso. Gente feliz com lágrimas, um povo reconciliado consigo próprio.
Em suma: uma festa conseguida, sem exageros de discursos políticos (a Chanceler e o Presidente da República estavam presentes mas não discursaram), e com uma mensagem simples: gratidão e orgulho, conjugação harmónica das diferenças, aposta nos jovens, nas pessoas do Leste, nos que se entregam de corpo e alma a um sonho. E a Europa como futuro e continuação lógica da reunificação.
***
Comigo estava uma jovem portuguesa, que saboreava tudo com fascínio e alguma zanga. Volta e meia, lamentava-se: "estou mesmo a ver que as comemorações do centenário da República não vão ser nada assim, estou mesmo a ver que vão estragar tudo..."
Passados três dias, lemos nos jornais e blogues a confirmação dos seus receios: das comemorações do centenário sobrou a discussão sobre quem não tinha estado presente. Mais um episódio de um país tornado caricatura de si próprio.
atlântico-sul
Via Bandeira ao Vento via Irmão Lúcia, uma boa notícia: no Brasil, a Alexandra Lucas Coelho está a escrever um blogue: atlântico-sul.
Ai o vício.
Ai o vício.
17 janeiro 2011
imaginar a alegria
Gostei muito deste post no alegro pianissimo.
Vale a pena ler todo o texto, que termina assim:
E ao fim dos cinco minutos de sonho a que me concedi percebi uma coisa que me estava a escapar: eu não votarei num candidato apenas por aquilo que ele é. Ninguém é sozinho. Todos somos em relação. Votarei em Manuel Alegre por aquilo que antevejo que poderemos vir a ser, com ele, nos próximos cinco anos. Porque nos próximos cinco anos vamos ter de nos superar.
Vale a pena ler todo o texto, que termina assim:
E ao fim dos cinco minutos de sonho a que me concedi percebi uma coisa que me estava a escapar: eu não votarei num candidato apenas por aquilo que ele é. Ninguém é sozinho. Todos somos em relação. Votarei em Manuel Alegre por aquilo que antevejo que poderemos vir a ser, com ele, nos próximos cinco anos. Porque nos próximos cinco anos vamos ter de nos superar.
a voz do emigrante na campanha alegre
Esta "voz de Berlim" que vos escreve foi convidada para o Alegro Pianissimo.
Ai, e agora?, pensei eu. Já não é fácil decidir em quem votar, quanto mais escrever num blogue que apoia a candidatura do Manuel Alegre?
Não pensei muito - será que já contei que odeio xadrez? - antes de decidir. E aceitei:
- Primeiro, porque me convidaram apesar do que aqui tenho escrito sobre esta campanha - se isto não é um enorme respeito pela liberdade!
- Segundo, porque é muito mais fácil ficar de fora a dizer mal de tudo, que participar e empenhar-se por alguma coisa - e já sabem como eu gosto de me complicar a vida em vez de ir pela via mais fácil...
Pois então, a partir de hoje, escrevo no Alegro Pianissimo. E tenciono emprestar a minha voz aos emigrantes que quiserem, à semelhança do que já tentei no Eleições 2009. Traduzindo por letra grande:
Ai, e agora?, pensei eu. Já não é fácil decidir em quem votar, quanto mais escrever num blogue que apoia a candidatura do Manuel Alegre?
Não pensei muito - será que já contei que odeio xadrez? - antes de decidir. E aceitei:
- Primeiro, porque me convidaram apesar do que aqui tenho escrito sobre esta campanha - se isto não é um enorme respeito pela liberdade!
- Segundo, porque é muito mais fácil ficar de fora a dizer mal de tudo, que participar e empenhar-se por alguma coisa - e já sabem como eu gosto de me complicar a vida em vez de ir pela via mais fácil...
Pois então, a partir de hoje, escrevo no Alegro Pianissimo. E tenciono emprestar a minha voz aos emigrantes que quiserem, à semelhança do que já tentei no Eleições 2009. Traduzindo por letra grande:
Ó gentes portuguesas que viveis fora de Portugal:
quem quiser dizer de sua justiça, só tem de me mandar um e-mail para
zelecm*gmail.com
(já sabem que o * está no lugar de @),
e eu faço chegar a carta ao Garcia.
"a net não é nem deve ser um território de impunidade"
"A net não é nem deve ser um território de impunidade; a ideia de uma protecção especial para os internautas, como se de inimputáveis se tratasse, é até insultuosa. Ser livre é também saber que a liberdade implica riscos. Quem não os quer ou não sabe correr, melhor ficar quieto."
A Fernanda Câncio em grande forma.
***
Ainda sobre o caso ensitel/Jonasnuts: parece-me que o grande sucesso que teve na internet se deveu a ter tocado um nervo sensível dos clientes daquela empresa - ou talvez de todas as do ramo.
Boas práticas, senhoras empresas, invistam nas boas práticas. Sem isso, não há publicidade que vos valha nem tribunal que vos salve.
A Fernanda Câncio em grande forma.
***
Ainda sobre o caso ensitel/Jonasnuts: parece-me que o grande sucesso que teve na internet se deveu a ter tocado um nervo sensível dos clientes daquela empresa - ou talvez de todas as do ramo.
Boas práticas, senhoras empresas, invistam nas boas práticas. Sem isso, não há publicidade que vos valha nem tribunal que vos salve.
16 janeiro 2011
tensões
Gostei do vídeo, e estava tentada a concordar com todos os comentários que lá escreveram. Mas no entretanto voltei a um livro que tenho andado a ler, traduzido do inglês para o brasileiro, e ocorreu-me que certas alterações na língua não advêm da alegria de experimentar, digamos assim, mas da preguiça ou ignorância.
- Chamai-me pedante, e ainda hadeis (plural de hades) todos de ver como elas mordem.
Acrescento ainda: num tempo em que (felizmente!) todos têm acesso à escrita, e não apenas uma elite, a língua é exposta a muitas tensões. Não sei se aplaudo ou critico, mas é algo com que teremos de aprender a conviver.
presentinho para a sem-se-ver
Olá, invisível,
Como estava combinado, aqui vai uma descoberta da geração mais nova - já conheces? Estamos a fazer apostas se isto foi filmado assim mesmo, ou se é montagem.
Como estava combinado, aqui vai uma descoberta da geração mais nova - já conheces? Estamos a fazer apostas se isto foi filmado assim mesmo, ou se é montagem.
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