O livro Fahrenheit 451 foi recentemente publicado pela editora "Saída de Emergência", com tradução de Casimiro da Piedade.
No prefácio, Jaime Nogueira Pinto fala do autor e do contexto da obra, e aponta para a sua enorme actualidade, apenas mudando o responsável de desaprendermos a pensar: ontem era a televisão, hoje são as redes sociais.
Uma pessoa não tem viés nem preconceitos, não é assim?, mas pergunta-se logo porque será que o Jaime Nogueira Pinto é convidado a prefaciar uma obra tão importante sobre a “liberdade de expressão”.
E depois descobre coisas: a editora "Saída de Emergência" (este nome: todo um programa) apresenta-se na internet como "editora independente e 100% nacional". O editor, Luís Corte Real, escreve livros de fantasia muito interessantes. Por exemplo, a série "Reinos Bastardos", que começa com "a canção de Runa - livro 1", assim descrito: "Runa - de olhos verdes e cabelos de fogo - é uma órfã humana criada numa tribo de ogros onde impera a violência. Não devia sobreviver… mas tornou-se uma lenda." Só é pena o nome da heroína ser Runa, a antiga escrita germânica à qual os nazis foram buscar símbolos (por exemplo, os zigezagues da SS), porque viam nela um sinal da superioridade da "cultura ariana" e da "raça nórdica". Símbolos que também são muito apreciados pelos neo-nazis.
Uma Runa a lutar contra um "reino dos bastardos": já não é propriamente um caso de gato escondido com o rabo de fora - mais claro que isto é difícil.
A mesma editora publicou vários livros de Douglas Murray, um jornalista britânico muito próximo da extrema-direita, profundamente islamofóbico, divulgador de teorias da conspiração sobre a "grande substituição" e o "marxismo cultural".
Não admira, portanto, que Luís Corte Real tenha participado num abaixo assinado criticando as acções do grupo Habeas Corpus, por este andar a boicotar lançamentos de livros com conteúdos que pretendia censurar. Não é que esses livros da famosa "agenda LGBTQ+" alguma vez apareçam na editora "Saída de Emergência", mas a defesa da liberdade de expressão é uma luta instrumental para poder publicar histórias de heroínas chamadas Runa e livros com opiniões sobre o corpo das mulheres europeias ser uma ferramenta de resistência à "grande substituição", por exemplo.
Por este exemplo se vê que a liberdade de expressão, desculpem dizê-lo tão abertamente, parece a Belle de Jour - ora na casa de família, ora no bordel.
Como proteger a liberdade de expressão sem permitir que seja o cavalo de Tróia da Democracia?
Para mim, traço aqui a linha: o discurso que mostra outras perspectivas dentro de uma sociedade aberta e pluralista, mesmo que não concorde com ele, deve ser protegido. Mas o discurso que desumaniza e que exclui, o discurso que corrói as bases da sociedade democrática, deve ser alvo de escrutínio dos tribunais. Mesmo que apareçam personagens a dizer-se vítima de censura, e a lembrar o Fahrenheit 451...
Não é fácil, nunca é simples. Mas temos de estar atentos, em vez de nos socorrermos de fórmulas simplistas.
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