30 novembro 2010

revista da imprensa alemã (2)

Traduzo agora alguns extractos de artigos publicados no site da ARD:

(um dia destes ainda faço um apelo como o chefe da Wikipedia, a ver se me pagam estes trabalhinhos)


"Arma de destruição maciça contra a confiança"

Os comentadores dos jornais alemães vêem, antes de mais, danos na política internacional americana devido à publicação de milhares de documentos diplomáticos. Mas também wikileaks é criticado: os motivos para as revelações são pouco transparentes. Além disso, destrói-se confiança.

"Süddeutschen Zeitung": "Após a publicação dos documentos roubados - despachos, análises, instruções e comentários - levanta-se a questão de quanto tempo ainda os USA poderão utilizar os seus serviços diplomáticos. Os despojos provenientes do roubo de dados divulgado pela organização internética wikileaks destrói o tecido que permite a comunicação entre Estados: a confiança. Sem confiança não há informação, não há dar e receber. Sem informação também não há conhecimento, capacidade de julgar e tomar as decisões correctas. Wikileaks mostrou ser a arma de destruição maciça do último resto de confiança que havia."

"Estas revelações têm pouco de sensacional", opina o jornal "Mitteldeutsche Zeitung": "Tanto mais que é tarefa básica de cada serviço diplomático fornecer ao seu governo informações pertinentes e claras sobre os países onde se encontram. Contudo, todos os envolvidos foram postos a descoberto. E isso, mal-grado todas as afirmações em sentido contrário, vai ter consequências sobre as relações futuras. Os EUA perderam a face, porque quebraram o primeiro mandamento do trabalho diplomático: discrição. Recuperar esta confiança vai ser um trabalho árduo. Por este motivo, e ao contrário do que aconteceu previamente com as revelações do wikileaks sobre crimes de guerra ou tortura, estas revelações não servem a ninguém."

"Acender o rastilho"

"Não são os conteúdos que constituem uma vergonha gigantesca para a diplomacia americana", vinca o jornal "Neue Westfälische", "mas o facto de ter sido possível publicá-los. Quanta confiança pueril é preciso ter para acreditar que respeito pelas regras, comportamento correcto e técnicas de criptografia serão suficientes para manter secretos dados transmitidos via internet? É preciso acreditar que o State Department é tão ingénuo? É preciso, sim, e é justamente aí que reside o escândalo."

O "Landeszeitung" de Lüneburg diz algo semelhante: "Para a mentalidade ocidental, o que se viu dos bastidores atrás da fachada da diplomacia americana é praticamente inócuo. O que é embaraçoso é o modo como nos EUA se trabalha com esses dados. Se centenas de milhares de funcionários têm acesso a esses dados em redes internas, o que nos surpreende é que não haja mais fugas. No entanto, perdemos a vontade de rir sobre estas revelações da wikileaks no momento em que se publicam afirmações de diplomatas americanos, segundo as quais alguns governantes árabes não se opõem a uma intervenção militar dos EUA para destruição do programa atómico iraniano. É uma negligência que acende o rastilho ligado ao barril de pólvora que é o Médio Oriente."

"A confiança é destruída"

O "Die Welt" critica: "O que wikileaks agora destruiu foi a liberdade das conversações diplomáticas confidenciais. Pois o que é válido para pessoas privadas, é também válido para a comunicação entre Estados: a abertura nas relações bilaterais só é possível se se tiver a certeza que o que foi dito não vai ser lido amanhã em todo o mundo. E outra coisa devia também fazer-nos pensar: até agora, as fugas do wikileaks referem-se quase só a estados democráticos, que já têm um nível relativamente alto de transparência. Até agora, o wikileaks ainda não proporcionou qualquer revelação sobre o que se passa no interior dos verdadeiros buracos negros deste planeta - ditaduras como a Coreia do Norte ou o Irão. Contudo, são estes inimigos da liberdade quem vai estudar com mais cuidado os 250.000 despachos americanos, e quem deles maior proveito vai tirar.

Também o "Weser-Kurier" tem dificuldade em ver o interesse destas revelações: "As motivações de Julian Assange e dos seus colegas não têm a transparência pela qual eles dizem lutar. É evidente que eles utilizam os seus impressionantes talentos para fragilizar os EUA. Não é que tenhamos de ter compaixão para com uma superpotência que se torna frágil por sua própria incompetência. Mas pode-se perguntar a quem serve um governo americano assim exposto e fragilizado - e se, no fim, isso não nos atinge também."

"Pouco original"

"Porquê tanta excitação?", pergunta o "Frankfurter Allgemeine Zeitung" em relação à política alemã, e continua: "O que wikileaks tirou de arquivos americanos para pôr na internet é em Berlim, no que diz respeito à política deste país, o segredo da abelha. A descrição de políticos alemães nesses alegados relatórios da Embaixada é pouco original - o que contribui para provar a sua autenticidade. "Mãezinha" avessa ao risco, Westerwelle sem dotes para os negócios estrangeiros: este tipo de diagnóstico, até com outros complementos, já foi ouvido da boca de pessoas com altos cargos. A diplomacia americana não é a única a escrever assim sobre dirigentes alemães - é também nestes termos que os dirigentes alemães pensam e falam uns dos outros."

"É maravilhoso podermos ler estes dossiers", entusiasma-se o "Frankfurter Rundschau". "Mostram-nos como até na diplomacia as coisas se passam de forma humana - demasiado humana. Este homem da SPD, por exemplo, que está sentado à mesa de negociações da coligação e passa a sua acta directamente à Embaixada dos EUA - tem algo enternecedor. Mas não quero ouvir dele que o wikileaks é um bando de ladrões. Se o wikileaks continua a fazer coisas destas, vai tornar mais difícil não apenas governar, mas também ser governado. Nós, os cidadãos, vamos poder dar cada vez menos a desculpa de não termos sabido. Vamos saber com todos os detalhes, e vamos ter de nos envolver muito mais naquilo que tem de ser feito. A vida vai-se tornar mais desconfortável. Vamos ter de nos empenhar com mais frequência. De novo vale o lema: ousar mais Democracia!"


revista da imprensa alemã (1)

O diário berlinense que costumo ler, o Tagesspiegel, tem hoje vários artigos sobre o wikileaks.

Traduzo alguns extractos (os links são para o artigo completo, em alemão):
(a tradução é, como habitualmente, do Speedy Gonzalez Araújo)

Hans Monath: "As análises críticas de alguns funcionários da embaixada americana sobre políticos alemães não passam de coscuvilhices sem importância, em comparação com possíveis consequências na política mundial, diz Westerwelle. Ele próprio foi descrito como vaidoso e incompetente. As relações entre a Alemanha e os USA não vão sofrer devido a isto. Mais importante é que estas revelações possam pôr em risco a segurança e a vida de pessoas que vivem em regimes ditatoriais, inclusivamente alemães - ainda segundo Westerwelle, que não mencionou qualquer nome ou país."

Christoph von Marschall: "Cada pessoa pode fazer a comparação: como seria a minha própria vida, se vizinhos, amigos e colegas de trabalho pudessem ler o que em bons e maus momentos pensei sobre eles, mas não disse? Como seria se todos soubessem também o que o meu chefe, o pessoal da empresa ou até os meus vizinhos pensam de mim? E como seria ainda se todos soubessem coisas de mim que eu preferia manter privadas? O ambiente ficaria envenenado. Como é possível continuar a coexistir, nesta situação? Muitos abandonariam o emprego e a cidade para recomeçar a partir do zero noutro sítio.
Este é um recurso de que a política mundial não dispõe.
Tem de continuar a exister neste ambiente envenenado. Não vai com certeza haver uma onda de despedimentos (...) apenas porque qualquer um pode ler o que os políticos mais importantes pensam uns dos outros. Também não vão começar imediatamente guerras (...). Mas em regiões do mundo onde ainda hoje se defende com sangue a honra pessoal e nacional, é possível imaginar que haja atentados. Será que o primeiro ministro do Líbano, Saad Hariri, vai escapar com vida a esta revelação das duras palavras que proferiu sobre o Irão e a Síria? Em 2005, o pai dele foi vítima de um complot sírio.
Estas consequências têm um peso enorme na consideração do argumento de transparência com que wikileaks e os jornais que com eles cooperaram tentam justificar a publicação. É certo que os documentos põem a nu mentiras governamentais, mas menos nos EUA e de um modo geral no Ocidente, onde a imprensa livre dá um grande contributo para o controle, e já tinha noticiado atempadamente muitas destas "revelações". Estes conteúdos são uma ameaça para os regimes ditatoriais: por exemplo, o alcance da corrupção das elites afegãs, com nomes e números; as críticas desdenhosas que os chefes árabes fazem uns sobre os outros, e a prova de que pressionam os EUA - ainda mais que Israel - para atacar o Irão, enquanto mantêm um discurso oficial de solidariedade islâmica e acusam os EUA e Israel de serem os belicosos. Nos seus países os media não têm grandes condições para colocar questões críticas. Apenas a internet permite algum acesso à esfera pública.
Para já, o mundo está de cabeça para baixo: a América envergonhada, e Israel em júbilo, para variar. O jogo duplo de muitas ditaduras foi desmascarado. Vai demorar muito tempo até se criar uma nova estabilidade."

Martin Gehlen e outros: "Para alguns, estas revelações não passam de maledicências. Outros temem que os conteúdos se possam tornar perigosos para muitas pessoas. Uma coisa é certa: a imagem dos diplomatas americanos sofreu graves danos. Para alguns governantes, os despachos desses diplomatas são, no mínimo, embaraçosos. Para os regimes do Próximo e Médio Oriente são particularmente desagradáveis. (...) Washington parece ter um interesse especial nos delegados da ONU. Hillary Clinton pediu aos diplomatas que juntassem informações sobre os altos funcionários dessa organização, desde o secretário-geral, Ban Ki Moon, passando pela directora geral da OMS, Margaret Chan, até aos chefes das missões de Capacetes Azuis. Os diplomatas americanos deviam também espionar os seus colegas das outras nações que têm direito a veto no Conselho de Segurança: Rússia, China, Grã-Bretanha e França. O governo americano pediu senhas para sistemas de comunicação, dados biométricos e números de cartões crédito. Washington também queria saber se Ban conseguia desempenhar bem as suas funções de gestor.
As reacções oficiais a estas revelações foram relativamente reservadas. "Nós conhecemos esses relatórios", disse Farhan Haq, substituto do porta-voz de Ban. Um delegado da ONU que preferiu ficar anónimo comentou que as revelações não eram propriamente uma surpresa. Juntar informações faz parte do trabalho normal de muitos diplomatas. Também os outros Estados usam os seus diplomatas como posto de escuta. É normal haver agentes do MI6 britânico nas respectivas embaixadas. Do mesmo modo, as embaixadas russas são consideradas bureau de ligação para o serviço de informações em Moscovo.
Estas acções secretas para recolha de informações sobre a ONU desrespeitam acordos internacionais, como a Convenção sobre os Privilégios e Imunidades das Nações Unidas, de 1946. Contudo, os EUA reclamam para si um status especial na relação com a ONU. Certos diplomatas americanos dão a entender que, como membro fundador e pagador mais importante, país anfitrião da sede e com poder de veto no Conselho de Segurança, os EUA se reservam alguns privilégios. Além disso, os americanos olham para a ONU com um certo cepticismo. Alguns políticos temem que essa organização ameace a soberania do país. "Nós criámos a ONU, mas isso não significa automaticamente que gostemos dela", disse um representante de Washington."

E ainda nem cheguei à página três - que é, por inteiro, sobre o wikileaks. Não vou traduzir. O resumo é: "Eles pensavam que estavam a criar um instrumento importante. Um instrumento para revelar secretíssimas informações. Mas o sucesso dividiu os cinco fundadores. Hoje, wikileaks desrespeita os seus próprios princípios de transparência e abertura."
Dá uma ideia de como nasceu e cresceu e como se zangaram todos, dá uma péssima imagem de Assange, que, entre outras coisas, não se preocupou em proteger Manning (o informador), a despeito dos valores fundadores do wikileaks.

Como seria noticiada hoje em Portugal a história do Capuchinho Vermelho…

Recebido hoje por e-mail, de autor desconhecido. Aqui vai, para começarem o dia a rir, tal como eu.

(O mais irónico da coisa é que a notícia está completamente errada. O lobo comeu a avó! Hihihi, e mais não digo.)

Na TV portuguesa:
 
 
telejornal - rtp1
"Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem... mas a actuação de um caçador evitou uma tragédia"
 
 
JORNAL DA NOITE – SIC
"Vamos agora dar-lhe conta de uma notícia de última hora. Uma menina foi literalmente engolida por um lobo quando se dirigia para casa da sua avó! Esta é uma história aterradora mas com um final feliz... o Sr. telespectador não vai acreditar mas, esta linda criança foi retirada viva da barriga do lobo! Simplesmente genial!"

JORNAL NACIONAL – TVI
  "... onde vamos parar, onde estão as autoridades deste país?! A menina ia sozinha para a casa da avó a pé! Não existe transporte público naquela zona? Onde está a família desta menina? E a Comissão de Protecção de Menores? Tragicamente esta criança foi devorada viva por um lobo. Em épocas de crise, até os lobos, animais em vias de extinção, resolvem aparecer?? Isto é uma lambada na cara da actual governação portuguesa."
  
Na imprensa portuguesa:
 
CORREIO DA MANHÃ
"Governo envolvido no escândalo do Lobo"
 
 JORNAL DE NOTICIAS
"Como chegar à casa da avozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho"
 
 Revista MARIA
"Dez maneiras de levar um lobo à loucura na cama"
 
 LUX
"Na cama com o lobo e a avó"
 
 EXPRESSO
 
 Legenda da foto: "Capuchinho, à direita, aperta a mão do seu salvador".
Na reportagem, caixa com um zoólogo explicando os hábitos alimentares dos lobos e um imenso infográfico mostrando como Capuchinho foi devorada e depois salva pelo lenhador.
 
PÚBLICO
"Lobo que devorou Capuchinho Vermelho seria filiado no PS"
 
 O PRIMEIRO DE JANEIRO
"Sangue e tragédia na casa da avozinha"
 

CARAS
Ensaio fotográfico com Capuchinho na semana seguinte:
Na banheira de hidromassagem, Capuchinho fala à CARAS: "Até ser devorada, eu não dava valor à vida. Hoje sou outra pessoa."
 
 
MAXMEN
Ensaio fotográfico no mês seguinte:
"Veja o que só o lobo viu"
 
 
SOL
"Gravações revelam que lobo foi assessor político de grande influência"

29 novembro 2010

"quem me dera ser mosca"?

O wikileaks, com a sua acção mais recente, faz-me lembrar a expressão "quem me dera ser mosca". É disso que o wikileaks vive.
Moscas - não o esqueçamos - são bichinhos enervantes que se dão bem na merda.

Sinto-me invadida: não tenho o menor interesse em saber o que andaram os diplomatas americanos a dizer - não quero saber - não quero participar em violação de correspondência privada - não quero ser mosca.

Nas notícias alemãs, um dos pontos mais focados é o que o embaixador americano disse dos políticos cá da terra. Não foi simpático, como ninguém o é quando, para efeitos de negociações em curso, está a prestar informações muito confidenciais sobre pessoas que detêm cargos chave.

A respeito da descrição - muito desagradável - de Westerwelle, o ministro dos negócios estrangeiros, que os americanos aparentemente obtiveram de um jovem quadro do seu próprio partido, o chefe dos Verdes foi peremptório: "Reparem: nós opomo-nos fortemente ao Westerwelle, e fazemos-lhe duras críticas, como todos sabem. Mas quando governos preparam dossiers sobre outros governos, ou sobre ministros de outros governos, trata-se de matérias que não devem ser do domínio público. Parece-me que se está a desrespeitar um limite, e que isto, no seu conjunto, não é bom para a nossa Democracia."

Fala-se em perda de confiança, e que será difícil continuar a negociar e construir alguma coisa em conjunto com pessoas que dizem essas enormidades nas nossas costas. O que me dá vontade de rir: seremos todos anjinhos? Esse é o papel dos diplomatas. Não são pagos para elaborar relatórios secretos de bajulação e louvor dos políticos estrangeiros.

Além disso, toda a gente diz enormidades sobre toda a gente. Sentindo-se em segurança, qualquer um de nós será capaz de dizer mal de qualquer outro. Com jeitinho, até sobre a Madre Teresa se arranja algum comentário menos elogioso. E nem precisam de nos pagar para isso.

Se os governos dos outros países se sentem magoados, agredidos, sei lá, só têm de folhear os relatórios que os seus próprios embaixadores lhes enviam, para perceberem que andamos todos ao mesmo. Não se armem em virgens ofendidas, pá.

Muito mais grave é o que se revela sobre países em situação política mais explosiva. Que terá passado pela cabeça dos responsáveis do wikileaks para publicarem matéria que pode pôr o Médio Oriente ainda mais a ferro e fogo do que já está?

Nem sei porque lhes chamo responsáveis. Isto é de irresponsáveis, acéfalos e amorais.
Moscas.

***

E agora fico, curiosa, à espera do que o nosso embaixador dirá sobre esta crise.

Adenda, em 30.11: pronto, "o nosso embaixador" já disse uma ou duas coisas sobre isto.

27 novembro 2010

a culpa é do governo


Onde andam os inventores, que nunca estão a jeito quando são precisos? Agora mesmo, por exemplo, precisava que inventassem uma máquina que me pusesse em Lisboa antes das cinco da tarde.
- Mas, ó Heleninha, essa máquina já existe, chama-se avião.
- Aaaaah, tem graça, como é que não me ocorreu? Mas eu queria uma que me pusesse em Lisboa antes das cinco da tarde por pouco dinheiro. E essa ainda não inventaram.
- Não, essa ainda não inventaram.
- A culpa é do governo, que desvia os fundos para projectos menos prioritários.
- Tens razão: a investir assim em estradas e comboios, é óbvio que não lhe interessa financiar investigação em métodos alternativos de transporte, mais rápidos e mais baratos.
- Nem mais! Se deixassem a J.K.Rowling chegar a ministra, tudo mudava. No mundo dela, basta atirar uns pozinhos para uma lareira, e zimbas, já se está onde se queria.
- Isso é que era: com a J.K.Rowling no governo, tudo seria diferente. Este Sócrates, tsss tsss, só faz asneiras, nem sequer sabe escolher os seus ministros.

Conversas à parte, é assim: (por culpa do governo) não posso estar na FNAC do Vasco da Gama para o lançamento do livro "O Fio à Meada". Azar o meu (incompetente o governo). E que vontade tinha de ler hoje ainda o que os outros escreveram! Ainda por cima, ouvi dizer que alguns dos autores vão dar beijinhos ao público.
Em suma: eleições antecipadas, já. J.K.Rowling ao poder.

***

Caros companheiros de livro: se daqui a bocadinho o Sócrates aparecer no lançamento, dêem-lhe alguns beijinhos meus (os fins justificam os meios, e eu sou assim: quando o poder se passeia pelo comércio não sei que me dá, fico muito beijoqueira), e façam-lhe essa sugestão de incluir a Rowling na equipa ministerial. Às tantas, ainda há esperança para este governo!

***

E por falar em J.K.Rowling: porque é que ninguém se lembrou de escrever um diálogo com ela? Aquela fase da sua vida em que foi casada com um gajo do Porto dava pano para muitas mangas.

uma visão para o Jardim Botânico

A minha visão começa no Parque Mayer. Faz-se lá um "Portugal dos Grandes", espaço combinado de diversão e informação, onde se passeia dentro de uma caixa de multibanco gigante ou uma caixinha Via Verde, se dão aulas para aprender a usar o astrolábio, e num lago central se fazem corridas de caravelas (construídas em workshops numas oficinas junto ao lago), enquanto ventiladores gigantes imitam os ventos alísios e o que mais for geograficamente preciso para levar as caravelas de Lisboa aos confins do lago. Mais adiante, o espaço verde do Botânico é transformado em parque de recreio e diversão. Espaços para piqueniques rodeados por barraquinhas de comes e bebes, instalações para escalar árvores e até deslizar entre os seus cumes. Porque é importante que os lisboetas desfrutem deste espaço e aproveitem a natureza para exercitarem o corpo. Mens sana in corpore sano - é um lema que não perdeu a actualidade. No meio instala-se uma roda gigante, que, ocupando pouco espaço do solo, é uma importante mais-valia para aquele espaço de lazer. E, porque não?, uma montanha russa com pouca inclinação, para que as pessoas possam andar com toda a comodidade entre as árvores mais especiais (convém pôr letreiros com letras grandes, para se verem bem à distância). O investimento poderia ser em parte financiado pela venda da cerca pombalina a coleccionadores. Já a estou a imaginar, em volta da piscina do Hearst Castle, e que bonita ficará: de um lado o templo grego, do outro a cerca pombalina.

Gostaram? Não se preocupem: lá chegaremos.
Não gostaram? Então, vá:

Petição em defesa da Missão do Jardim Botânico e da sua sustentabilidade ambiental, social e económica a longo prazo. Revisão imediata do Plano de Pormenor do Parque Mayer, Jardim Botânico, Edifícios da Politécnica e Zona Envolvente.


(aqui)

Para mais informações, sugiro que leiam este post dos Amigos do Botânico.

26 novembro 2010

amigos do Botânico

O blogue amigos do Botânico tem vindo a explicar ao longo de muitos posts os riscos que aquele jardim corre. Não sei que me parece ter de ser a sociedade civil a alertar para proteger um património destes. Pensava que o Estado, por meio do PDM mais as plantas de ordenamento e de condicionantes, já cuidava disso com todo o esmero. Mas, pelos vistos, parece que alguém tem andado a dormir perante valor€$ mai$ alto$ que $€ al€vantam.
Há uma petição em curso para que o Jardim Botânico de Lisboa seja convenientemente protegido. Aqui.

E agora deixem-me contar de Carmel, uma cidade da costa californiana, onde é proibido arrancar árvores. Se a árvore cresce no meio da rua, os carros que se desviem. Se as raízes estragam o passeio, o passeio que se desvie. Cidadezinha simpática.

Também podia contar de Berlim, mas é melhor não. Deixem lá, deixem lá.

enquanto isso, em Berlim...


Desta vez parece que é a sério: estão a preparar um ataque em grande à Alemanha. O plano: fazer no Reichstag o que fizeram em Bombaim. Com turistas como reféns, um banho de sangue, tudo em grande.
A notícia foi dada pelo Spiegel (aqui, em alemão; a fotografia é desse site) e o Ministro do Interior criticou a revista duramente, por andar a brincar com a segurança e os medos dos cidadãos. Mas não desmentiu. Mandou fechar a cúpula do Reichstag, encheu a cidade de polícias. As residências dos políticos mais importantes já não são guardadas por simpáticos polícias, mas por agentes armados com metralhadoras. A estação central quase tem mais agentes de segurança que passageiros (ahem, estou a exagerar um bocadinho). A segurança das escolas judaicas e americanas foi reforçada, e numa escola americana são os próprios pais que se revezam para fazer piquetes de apoio.
O ambiente está estranho. Nos transportes públicos já se vêem pessoas com as mesmas reacções a que assisti na San Francisco do pós 11 de Setembro: o olhar desconfiado para os outros passageiros, e para o que transportam.
Ontem fui ao centro da cidade, e não fui descansada. A própria escolha dos transportes públicos deixou de ser feita em termos do tempo que demora, mas do "estrelato" das estações que vou usar. Na estação central, tratei de me esgueirar rapidamente.
Embora a probabilidade de ser atropelada por um automóvel seja bem maior, convenhamos.

25 novembro 2010

um povo pacato e triste

Quando a crise grega se tornou conhecida, os meios de comunicação social alemães encheram-se de imagens e textos sobre a corrupção e irresponsabilidade generalizadas, e a revolta violenta nas ruas. De um lado pessoas a deitar fogo a carros e lojas, do outro histórias de bairros de luxo onde aparentemente ninguém ganhava o suficiente para pagar impostos, ou pessoas com menos de quarenta anos que iam para a reforma de modo perfeitamente legal, ministros que só trabalhavam da parte da manhã, vergonhas assim.

Ontem, o noticiário que vi à noite falava da Irlanda e de Portugal. O filme sobre os irlandeses (aqui, em alemão) começava de forma desagradável: entrevistavam pessoas que se insurgiam contra a Alemanha, e o modo como se quer intrometer na política de um país soberano.
O comentário do alemão médio é, obviamente: "só querem o nosso rico dinheirinho, não é?"

O filme sobre os portugueses (aqui, em alemão) mostra um povo triste e pacato. A greve terá sido um sucesso, e os protestos das pessoas são perfeitamente legítimos, mas não há solução: um país com estrutura produtiva arcaica e pouco competitiva, um sistema de ensino "fraco", com bancos estáveis mas com contas estatais desgovernadas. Os anos de despesismo e falsa abundância, o preço a pagar agora: ninguém tem dinheiro para comprar nada, a classe média não tem como pagar as suas dívidas, o desemprego aumenta. A depressão económica que se avizinha.

Vendo-a deste lado, fiquei contente com a reportagem: um país em dificuldades graves e um povo que reage de forma digna. Para o caso de ser preciso pedir ajuda à Europa (enfim, à Alemanha), os portugueses vêm com boas cartas. Talvez até fosse boa ideia começarem a pensar em aproveitar e pedir ajuda para dar uma volta completa à economia.
Volto à pergunta que fiz há semanas: pelos vistos, os meios do FEDER não estão a ser suficientes para tornar o país mais competitivo. Será que é preciso repensar toda a ajuda que se dá aos países mais pobres da Europa, para quebrar realmente o ciclo de - relativo - subdesenvolvimento?

Um último apontamento: muitas coisas estão a correr mal em Portugal, é certo. Mas ainda não temos jovens nas ruas a incendiar tudo o que lhes aparece à frente e a pegar-se com a Polícia, nem grupos de neonazis cada vez mais fortes. Alguma coisa se está a fazer bem feita, para não ter esses problemas sociais gravíssimos, que afligem os franceses, os gregos e os alemães, entre outros.

24 novembro 2010

o inverno começou hoje, às sete e meia da manhã...

...quando o Matthias, que ia a caminho da escola, telefonou todo entusiasmado a avisar que nevava, "finalmente há neve, que bom!"
Ouvi, registei, esqueci. Saí de casa como ultimamente tenho saído. Brrr, que frio!
Para esta noite prevêem temperaturas entre os 3 e os 6 graus negativos.
Lá vou eu à procura das camisolas de lã de gola alta.

(e continuo à espera que inventem pijamas com carapuço)

notícias da Alemanha profunda

1. Em Biberach, uma cidadezinha perdida para lá da Floresta Negra, um grupo de jovens músicos que toca em bandas criou uma escola de música para crianças. Guitarra, bateria, piano. As salas têm paredes de vidro, para que todos possam ver o que se passa lá dentro, e os pais são muito bem-vindos nas aulas. Todos os anos há concerto: matulões e crianças de seis anos, juntos e ao vivo, a tocar modernices. E os pais a morrer de riso e baba.
Uma mãe contava-me que é óptimo poder assistir às aulas, porque aprende também e sabe depois como ajudar o seu filho em casa. O pai dizia que os miúdos adoram os professores. Pudera: são as stars lá da terra!

2. Nas aldeias da Renânia-Palatinado há muitas quintas de viticultores que reconverteram alguns edifícios para restaurante e pensão. Uma ideia simples: as pessoas vêm comer uma sopinha ou um prato regional, provam o vinho, acabam por comprar várias caixas. Ou: provam demasiado vinho, e passam lá a noite. Tudo com boa qualidade e a preços muito razoáveis. Por exemplo: já se encontram vinhos honestos a 3 euros a garrafa (muito gostava eu de perceber como é que alemães conseguem vender vinho a este preço) (um dos truques, sei eu: rolhas de plástico ou de rosca) (é hoje que me tiram a nacionalidade portuguesa).
No viticultor onde estivemos havia um restaurante que servia pratos regionais entre os 4 e os 7,5 euros. A dormida com pequeno almoço custa 22 euros por pessoa. Por trás do restaurante tinha um parque infantil que fez as delícias dos miúdos: enquanto nós provávamos os vinhos (5 euros por pessoa, prova de 8 variedades, inclusivamente um vinho doce feito com uvas colhidas a temperaturas negativas), eles andavam felizes no slide gigante, nos baloiços, nos escorregas...


Gosto desta maneira alemã de apostar numa discreta qualidade. Um esforço continuado, sem euforias nem preços superlativos. Um modo de vida.

Hauptstrasse em Dierbach

A quem interessar possa:

- O viticultor: Familienweingut Geiger, Hauptstrasse 21, 76889 Dierbach (site)

- Um bom restaurante, com B&B: Gasthof zum Lam, Winzergasse 37, 76889 Gleiszellen (site)

surpresa

Na sexta-feira passada, depois das aulas dos miúdos - que é como quem diz ao anoitecer, que aqui agora começa por volta das quatro da tarde -, saímos para uma viagenzita de quase 700 quilómetros até à Renânia-Palatinado.
É muito estranho entrar na autoestrada ao fundo da Ku'damm e sair do outro lado num sítio assim:




a fotógrafa acidental

Não me perguntem como é que fiz esta foto:



...desta lua:



(digamos que tudo está bem quando acaba bem, nada mais perguntemos)

23 novembro 2010

parece que o Papa disse não sei quê sobre preservativos...

E eu com isso?
Se ele quiser, pois que use. Se não quiser, pois que decida em consciência e responsabilidade.

Não entendo, garanto que não entendo, este burburinho em volta daquelas afirmações. É que me passa tão ao lado do essencial, é tão absurdamente ridículo, que até me faz impressão ver pessoas adultas a perder tempo com isto.

you better watch out




Santa Claus is coming to town, e desta vez é já no próximo sábado, dia 27, às cinco da tarde, na FNAC do Vasco da Gama em Lisboa. O Natal vem cada vez mais cedo, essa é que é essa, um dia destes desata a começar em pleno Verão, como no Brasil.

Caso não estejam a entender nada, aqui vão os detalhes por ordem cronológica: há duas ou três eternidades convidaram-me para participar num livro de diálogos com gente famosa. Toda entusiasmada (a parte da baba ficará para referir noutro dia) imaginei Keynes e Salazar a conversar sobre soluções de política económica para Portugal. E era uma conversa tão óbvia, era tão tão a única conversa a fazer num livro destes, que temi que todos os outros tivessem a mesma ideia. Por sorte, não: ele há conversas com Sísifo, com Vinicius, com O'Neill, e muitos outros. Quem diria que há tanta gente famosa neste mundo!

Como disse, isso foi há várias eternidades, no tempo em que tudo era possível, desde vários aeroportos em Lisboa para agradar a todas as clientelas, até um TGV para os madrilenos virem a baños - escrever aquele texto foi sobretudo uma diversão. Mas depois veio o PEC II e o OE, os abonos de família foram reduzidos, e aí passou-me completamente a vontade de rir.

Por sorte tem lá imortais como Hamlet e Sísifo, e gente com vistas largas, como o Nostradamus, para nos ajudar a perceber que tudo passa, excepto o futuro.

A apresentação do livro é no próximo sábado, na FNAC do Vasco da Gama.
Gostava muito de estar lá com os outros, de caneta em riste e tudo, mas os subsídios da insularidade - estranhamente - não abrangem os portugueses que moram em Berlim.

De modo que proponho o seguinte: vocês vão, compram o livro, trocam algumas palavrinhas com os excelentes autores que lá estarão, vão para casa, lêem, e se gostarem digam-me, para eu vos mandar o meu autógrafo por e-mail.

Eu, no entretanto, vou treinando uma assinatura ilegível. E frases simpáticas (parece que as pessoas gostam).



19 novembro 2010

eu ia fazer hoje um post muito importante e inesquecível...

...mas fui atropelada pela minha vida real, e ainda por cima gostei.
De modo que só me sobra tempo para desejar um bom fim-de-semana a todos.

18 novembro 2010

o terrorismo em tempo de paz

Dizem-nos que aumentou o risco de a Alemanha sofrer um ataque terrorista. Um adolescente berlinense conta-me que descobriram algures um pacote que pode ter uma bomba, e comenta: "pode ser que seja apenas uma histeria".

Enquanto houver este saudável distanciamento, bem vamos.

17 novembro 2010

humor britânico do melhor



Este filme devia entrar para os anais da história das monarquias europeias.
(Se me deixassem mandar, entrava.)

É que nem se preocupam em disfarçar que obedecem ao Palácio.
Assim: preto no branco. Lindo.
Nem o Mr. Bean conseguia fazer melhor. Ou os Monty Python.

16 novembro 2010

um conselho aos polícias portugueses


Os gajos do black bloc adoram polícias duros. É para isso que atravessam a Europa: para medir forças.
A polícia alemã, que já teve oportunidade para perceber isso ao longo de vários primeiros de Maio, mudou a táctica: deixa os manifestantes bem longe do centro dos acontecimentos - de preferência, põe-lhes o acampamento tão tão longe, que eles já chegam cansados ao local de combate, perdão, manifestação. E manda mulheres polícia bonitinhas, muito bem penteadas e arranjadas, para falar com eles.
Durante a cimeira da NATO em Estrasburgo/Baden-Baden os alemães fizeram tudo isso (e mais 15.000 polícias em Baden-Baden, diga-se de passagem) e correu tudo bem. Não sei o que é que fizeram os polícias franceses, mas do lado de lá da fronteira houve alguns problemas, como um hotel em chamas e assim. Portanto: se é para seguir exemplos, talvez valesse a pena olhar para este saber alemão, de experiência feito.

Não é que seja uma especialista em métodos policiais de repressão de manifestações - leio é muito Spiegel Online. E vi-os na televisão: em frente a um magote de malucos vestidos de preto, um grupo de mulheres polícia calmas e perfeitamente senhoras da situação. Uma delas falava para eles, de megafone, e até parecia divertida.
O que me lembra um pouco as touradas: aquela parte em que o touro sai da arena rodeado por pacatas vaquinhas.

parece que vão fazer um livro sobre mim...

Parece que vão fazer um livro sobre mim.
Quer dizer: enorme exagero. Vão fazer outra coisa, mas apetece-me sonhar um bocadinho e por isso aqui minto que parece que vão fazer um livro sobre mim, e imagino que depois virá o filme, e agora pergunto aos meus leitores: quando fizerem o filme, quem deviam convidar para actriz principal?


(Ó Heleninha, não tens mais nada que fazer? Anda, muoça, vai à tua vida, que estás a atrasar tudo.)
(Há vinte anos, o Joachim achava que devia ser a Binoche. O amor é lindo.)

15 novembro 2010

dardejar é preciso


Mais dardos na direcção deste blogue, desta vez da Barbearia do Senhor Luís e do Imagens com Texto.
(Que vos terei feito eu, ó alminhas, para merecer tal honra?)

Aqui fica um "obrigada, igualmente" - não!, que digo eu?, aqui fica um "obrigada, reverentemente" ou até um "obrigada, e pudesse eu retribuir com dez dardos para cada um, todos eles merecidos".

Devia agora referir dez blogues, mas não. É que tenho em manga uns que dão muito trabalho, e por isso:
- sobre outras maneiras de ver a economia e as políticas governamentais: Ladrões de Bicicletas e A Areia dos Dias
- sobre o espaço exigente em que a fé e a vida se tocam: Religionline
- sobre tudo e nada, um blogue escrito num permanente registo de elegância e inteligência: duas ou três coisas

"O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web".

muitas maneiras de ver

Perspectivas completamente diferentes na maneira de ver o fenómeno "senhor do adeus":

O jpt, aqui:
(...) Num contexto onde os pobres (populares) e loucos são sempre “homem” e reduzidos ao nome próprio, a forma como este pobre velho demente rico é elevado a “Senhor” (“do Adeus”) e lhe respeitam excepcionalmente o direito ao apelido, é cruamente denotativa de uma pequenez preconceituosa lisboeta. Como abaixo me referem tudo isto habita bem no âmago (facebookesco, bloguístico, jornalístico) da esquerda que ri – não só, mas também. Afinal tão tão tão reaccionariazinha nestas pequenas coisas. Apalhaçada sem humor.

A Pipoca (sim, vão lá depressa ver se a torre de Pisa se endireitou, mas é que, olhem, tanto eu como a Pipoca: tem dias...), aqui:
Estive mais de uma hora na rua a dizer adeus. Encontrei amigos, encontrei pessoas conhecidas e achei que toda a gente estava feliz e bem disposta. Muita gente apareceu na despedida ao Senhor do Adeus. Muito mais do aquilo que eu estava à espera. Sempre que passava no Saldanha apitava e dizia-lhe adeus. Sempre que o via nos cinemas do Corte Inglés dizia "olá, senhor João". E sempre que alguém lhe chamava maluco eu tinha pena. Porque foi preciso estar lá esta noite, a dizer adeus, para perceber a alegria que é acenar um adeus e a alegria que é receber um adeus de volta. O senhor João alegrou as noites a muita gente. Pelo menos a mim. E de uma forma tão simples. Alguém dizia que aquilo fazia melhor do que estar uma hora no psicólogo, e é verdade. Se corre a fama que de loucos todos temos um pouco, então mais vale que tenhamos também o proveito.

E o senhor barbeiro, aqui:
(...)
3- Abrir um concurso, junto das faculdades de Lisboa, para apresentação de trabalhos sobre comportamentos urbanos (incidência na figura do Senhor do adeus).

Gosto muito da proposta do Luís. Pela diferença nas reacções, parece-me que há aqui matéria interessante de estudo para entendermos melhor o que somos como comunidade urbana.

path to freedom

Um amigo meu está na Palestina, a trabalhar como observador internacional.
Descobri hoje o seu blogue, Vandringsvei - Path to Freedom, onde conta histórias do quotidiano daquele povo sacrificado.


Every day J., like many other farmers, throughout the Occupied Territories, at early dawn, has to cross such gate to access his land. He went through a long process to get a magnetic card and then a permit from the Israeli authorities, the administration of which falls upon the military. Then each day, during a period of time fixed by these same "authorities" he is able to cross a gate where this magnetic card and permit are checked and his fingerprints taken. The gate opens three times in the day, if he and every other farmer in the West Bank is "lucky" enough. His work schedule is subject to this "authority".

By these agricultural gates you find only those few who have got permits, those "lucky" few who besides owning their land, which they all do, have the permit to go through.

Here i sit, every other day, at dawn, during these three months trying to say, by my presence, we care, you're not forgotten. Oddly enough though, these men and women, some well into their 60s are the ones that through their welcome, their smiles, their presence give me the hope that i wish i could convey to them...

You are probably wondering: "why is he there? What does he expect to accomplish with his presence?"
These questions are dangerous. They reveal a tiredness with this subject, due to excessive media coverage, a fatalistic approach that i cannot have. I am tempted at times to have it, to let it go. And i am then confronted with the kindness of a people with whom i have no kinship and with whom my only resemblance is my long beard, my loud laughter and a shared humanity.

Drawing strength from their empathy, their will to resist, their courage none of which seem to portray the long years of waiting, the forgetfullness of the International Community and its lack of backbone, i am here and i have a task to accomplish.

"Pour que l'Homme ne soit plus l'esclave de l'homme. So that Man shall never again be the slave of man."

these were also the questions my colleague and i were asked today by two very young Israeli Army soldiers (Israeli Defense Forces). They seemed puzzled, confused, bored by our presence, so after accomplishing their duty at the gate they came, their gear imposing a certain respect, to ask us who we are and why we're here. Some words came to my mind, a certain reply instantly vibrates within my chest, but some sense of duty and a reflected reply comes instead: " We are from the World Council of Churches and we're here to see that everyone is doing fine!" Still a bit of my "wise nature" reveals itself in the nature of my reply.

I would rather have said:" Why are you here?"

13 novembro 2010

Genscher, de novo

Lembram-se de quando nos jogos olímpicos de Munique um grupo de terroristas palestinianos raptou nove membros da delegação israelita? Hans-Dietrich Genscher era na altura o ministro do interior, e propôs aos terroristas uma troca: ele próprio contra os reféns israelitas.

Uns anos mais tarde, em 1977, quando o avião Landshut foi capturado por terroristas, o chanceler Helmut Schmidt combinou com a sua mulher que não haveria qualquer cedência no caso de um deles ser raptado.

Não sei se se pode pedir a um político que esteja disposto a arriscar a própria vida para servir o seu país. Mas gosto muito destes exemplos.

12 novembro 2010

Hans-Dietrich Genscher


(A foto foi tirada desta notícia, em alemão)

Ontem ligámos a televisão para ver o noticiário das dez, mas estava atrasado por causa da cerimónia do Bambi. Sorte a nossa: o último premiado da noite, com o Millennium-Bambi, era Hans-Dietrich Genscher, o ministro dos negócios estrangeiros alemão na altura da queda do muro.
A laudatio foi feita pelo actual MNE, Westerwelle. Muito elogiosa, como se previa.

Depois veio Genscher, que começou por gracejar que um bom elogio fúnebre não vale nada em comparação com meia dúzia de palavras simpáticas em vida, e continuou com um discurso formidável sobre o que se passou nesta região há mais de vinte anos, lembrando que:
- Os refugiados na embaixada de Praga à espera da autorização para virem para a Alemanha Ocidental estavam acompanhados pelas populações dos países da área de influência da URSS, unidos por um profundo sentimento de solidariedade, pois sabiam que também a sua História poderia mudar;
- Nenhum povo teria sido capaz de conseguir esta mudança sozinho - veja-se a RDA em 1953, a Hungria em 56, a Checoslováquia em 68, ou a Polónia nos anos 80. "Nunca, na sua História, estiveram os europeus tão unidos na sua esperança, nos seus desejos, na sua ânsia, como naquelas extraordinárias semanas de 1989. Não podemos esquecer isto."
- O muro caiu porque foi empurrado pelas pessoas que estavam do lado de lá;
- Há pouco mais de vinte anos havia dos dois lados da Alemanha armas apontadas contra o outro lado, enquanto que hoje se conversa com a Rússia sobre um sistema de defesa comum. Se não fosse por mais nada, este simples facto já teria bastado para dizer que o esforço de construir a Europa valeu inteiramente a pena.

No final, afirmou ainda:
- Não se esqueçam nunca: a Europa é o futuro de todos nós, e não temos outro!

***

A sala aplaudiu com entusiasmo, e eu pensava na sorte que é ter ainda entre nós pessoas que fizeram alguns dos momentos mais brilhantes da História do séc. XX.

Depois o Genscher saiu do palco, e a Sarah Jessica Parker, a apresentadora, veio encerrar a festa. Foi um contraste muito estranho.

...e as crianças?



The kids are all right.
Vi-o na Berlinale 2010, onde foi muito aplaudido. Uma história divertida e complexa com um casal de lésbicas, os seus dois filhos e o pai destes.
Para mim, um momento de viragem do cinema(*): quando já não é necessário fazer apologia de nada, e se saem com um filme muito engraçado sobre "a vida tal como ela é".

(*) acrescento: do pouco que eu sei sobre cinema

11 novembro 2010

"Dos Homens e dos Deuses"



Via Religionline soube que este filme está a chegar a Portugal. E agora, conselho de amiga: vão ver.
Um relato dos percursos interiores de vários homens perante a questão de permanecer ou partir para não correr risco de vida.
(Isto é tudo sabedoria de ouvido, porque ainda não o vi. Mas fizeram-lhe elogios tão grandes, que estou ansiosamente à espera que cá chegue. E até ando à procura dos textos que eles escreveram durante essa fase difícil de decisão e espera.)

Adenda: existe aqui mais informação sobre o prior, Christian de Chergé, a sua atitude no diálogo inter-religioso, e os textos de que me falaram, já publicados (L'Invincible Espérance, L'autre que nous attendons : Homélies de Père Christian de Chergé (1970-1996), Dieu pour tout jour)

10 novembro 2010

"querida Repartição de Finanças,"

Um dos motivos que me faz tremer perante a ideia de ir viver para Portugal é justamente o modo como as pessoas são tratadas nas Repartições de Finanças. Podia contar milhentas histórias, algumas delas trágicas, mas hoje dou a palavra à Ana Cristina Leonardo. Olhem para isto.
Bem sei que os amigos, e o humor português, e o mar, e os pastéis de Belém, e tal, tudo isso, mas quando chega aquela cartinha das Finanças, e a gente vai lá, e: - então, mas? - ai olhe, são as regras, pague agora e proteste depois.

(o melhor é não contar daquela vez que eu pus uma cruzinha errada e a funcionária das Finanças se deu ao trabalho de levar o caso ao informático da casa para ele fazer a correcção nas profundezas do sistema, só para me poupar muitas horas de trabalho estúpido, e daquela vez que o contabilista se esqueceu de uma factura de 500 euros que reverteria a nosso favor e o funcionário que nos calcula os impostos - cujo telefone directo consta de toda a correspondência das Finanças - me disse para a levar lá, que ele refazia as contas, e da outra repartição que aceitou esquecer parte da dívida de um defunto para não atrapalhar demasiado a vida aos herdeiros, que eram idosos e com poucos meios) (assim de repente são os exemplos que me ocorrem) (um doce a quem adivinhar de que país estou a falar)

Pouco antes da queda do muro atravessei a RDA de carro para ir a Berlim. Nas duas travessias fomos parados pela Polícia, para pagar uma multa por irmos em excesso de velocidade. Descarada mentira deles. Cuidado com esse momento em que um cidadão percebe que não tem direitos, e que o polícia é o ladrão.

09 novembro 2010

que farei quando tudo darde?


Pois é, dardou para este lado: a Joana Lopes, do seu excelente Entre as Brumas da Memória, passou-me o prémio Dardos, e eu que me arranje. Que farei agora, com a falsa modéstia e a incumbência de escolher outros a quem o dardar?
Os leitores deste blogue sabem quem são os meus dardos de estimação, que digo eu?, de grande admiração: Amor e Outros Desastres, Boas Intenções ( e esta nomeação tem riscos, caramba, porque hoje é o blogue oficial do meu clube de fãs, ainda vou ser acusada de nepotismo e assim), Segunda Língua, Valkirio. E tem mais alguns, oh, e são tantos! (Grande sorte a minha)
Mas eu queria acabar este post ainda hoje, e por isso me fico por aqueles.

«O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.... que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.»

('bora lá fazer um dardos para o Facebook? Queria poder mandá-lo ao Ricardo Espírito Santo.)

para que serve uma gripe em estado de nem passa nem chega propriamente a vias de facto?

Serve para começar a fazer uma cópia de segurança do meu blogue. À mão, que é a única maneira que conheço: passo os meses um a um para uma folha word, e depois copio os comentários post a post.

Faço esta descrição tão detalhada na esperança que alguém me venha dizer "ó Helena, parece impossível, isso é um método da idade da pedra".

(Foi assim que cheguei à minha nova vassoura-esfregadeira para limpar o chão da cozinha, com a minha empregada, que na vida anterior tinha sido professora de literatura russa na Ucrânia - nem queiram saber a vergonha que eu sentia ao passar-lhe as vassouras para a mão, a minha casa de banho limpa por uma mulher que tinha lido Dostoyevsky no original, e eu que nem lhe sei soletrar o nome! - enfim, com a minha empregada a olhar para o meu pano de limpar o chão e a dizer-me "ó Helena, isto é um método da idade da pedra!")

Adiante. Dá trabalho, isso dá, mas já me fartei de rir com alguns comentários, e até posts.
Por exemplo, esta frase:

Fizemos um iglô. Foi crescendo, crescendo, e como não sabíamos como o fechar, dissemos que era a Torre de Babel e fomos-nos embora.

malditas SS, raisparta o Hitler

Malditas SS, raisparta o Hitler, que por causa deles é que hoje não é feriado na Alemanha. E dava muito jeito, porque é quarta-feira, enquanto que o 3 de Outubro este ano calhou num domingo, ora muito obrigada.

Nove de Novembro. Os alemães, povo muito organizado, arranjaram maneira de fazer tudo neste dia: proclamação da República em 1918, tentativa de golpe do Hitler em 1923, queda do muro em 1989. E - malditas SS, raisparta o Hitler - a Reichspogromnacht: o ataque organizado às sinagogas e lojas de judeus em 1938 (no ano passado traduzi um depoimento pessoal sobre isso, que podem ler aqui).

Por causa da queda do muro hoje devia ser o feriado nacional, mas por causa do miserável 1938 não pode ser.

Ficou o 3 de Outubro, data da assinatura do tratado da reunificação. Queriam que fosse o 9 de Outubro, data da manifestação de Leipzig que mudou tudo (podem ler aqui uma versão muito inesperada nestes tempos que correm). Mas o 9 de Outubro vem, infelizmente, dois dias depois do 7 de Outubro, data da fundação da RDA, e ninguém (enfim, quase ninguém...) lhe queria conceder mais um aninho de vida. Ficou com quarenta anos, em vez de quarenta e um, e também por aí se vê a capacidade de organização dos alemães, que arrumam uma ditadura num número redondo. Enquanto que em Portugal, como de costume, ninguém organiza nada: se podiam ter feito o 25 de Abril uns mesitos mais tarde, ficava a ditadura com cinquenta anos. O que é muito mais fácil para fazer as contas. Mas não: é sempre aquela ânsia de fazer quando apetece, aquela mania de desenrascar, e é no que dá.

08 novembro 2010

brandos costumes

A minha filha, que anda no 11ºano, está hoje a fazer um teste sobre "Terror e Miséria do Terceiro Reich", de Bertolt Brecht. Ontem contou-me que Brecht fugiu da Alemanha no dia seguinte ao incêndio do Reichstag (dois meses antes de ver os seus livros queimados, embora já fosse "famoso" desde 1923: ocupava o quinto lugar na lista negra dos nazis) e que, em Paris, foi recolhendo material para escrever um conjunto de cenas sobre o quotidiano na Alemanha de Hitler, tentando equacionar tanto a perspectiva dos encurralados como a dos agentes do sistema.
No 10º ano estudou "A Visita da Velha Senhora", de Dürrenmatt, e no 9º "Nathan, o sábio".
No primeiro ano do secundário já tinha lido "Quando Hitler Roubou o Coelhinho Cor-de-rosa".

E eu, com a idade dela? Viagens na Minha Terra, Os Lusíadas, um Auto de Gil Vicente, Os Maias. Excelentes peças de Literatura, sem dúvida. Mas muito longe deste confronto com as questões mais existenciais da História de um povo.

(Sim, Os Lusíadas, eu sei. Pena que a minha professora não soubesse. Sim, é possível despir os Lusíadas até só lhes restar a regularidade métrica e a rima. Idem para a peça de Gil Vicente, de que só recordo algumas personagens divertidas falando um português difícil de entender, sem qualquer ponte para a minha realidade.)

notícias do bacalhau de bicicleta

Já chegou ao México:

"Já passei algumas dezenas de fronteiras, mas nenhuma tão vincadamente distinta como esta. Tijuana e San Diego são duas galáxias distintas, claro. As casas, as cores, os cheiros, o ritmo, a ordem e a desordem, o trânsito, os carros. Mas fundamentalmente os olhares...aqui sentem-se os olhares, curiosos, perscrutadores, serenos, directos…
O Passeo de Los Heroes, a rua principal de Tijuana, sábado à tarde, parece-me a entrada perfeita no México. Cada edifício, seu tamanho; cada fachada sua cor e “arquitectura”; cada porta, seu negócio; cada passeio, um magote de gente palradora; cada tienda um mar de cores; cada esquina uma teia de fios pendurados. Os cheiros de comida misturam-se com os dos escapes automóveis; famílias inteiras entram ou saem devagar de cada porta."

Para continuar a seguir aqui.

05 novembro 2010

para os que se queixam que eu ando a escrever pouco

A explicação é relativamente simples. Primeiro, estou a lutar contra uma constipação daquelas. Segundo, ando a fazer contas e planos de cabeça para comprar uma casa. Melhor dizendo: um terreno minúsculo (o que podemos comprar) junto a um lago lindo (o que não ajuda ao preço do terreno), junto a uma floresta mas mesmo assim muito central (sim, em Berlim há disto), para construírmos uma casa fantástica de arquitecto português (e tão bem planeada que permita depois dividir-se em dois apartamentos, quando os miúdos saírem de casa).
Pois.
Deve-se portanto este post ao facto de uma amiga ter reclamado que eu ando muito calada (leva logo com três de seguida, da próxima vez pense melhor antes de reclamar, ;-) para ela) e também a um texto que acabei de ler no Boas Intenções. O que a Rita conta não é caso único, não senhor. Ainda esta semana me aconteceu a mim: a empresa que está a vender os terrenos deu-me o número de telefone directo da funcionária responsável pelo planeamento urbano desta área. Em caso de dúvida sobre o tipo de casa e a área de construção permitidas, é só telefonar à senhora.

Se querem saber, o lago é este:




E o terreno é este:



Caso queiram saber também o preço: a 520 €/m2 (os terrenos do lado da barreira de protecção de ruído).
Mas acho que não vamos comprar. A culpa é da senhora e dos regulamentos, que não nos deixam construir uma casa com o tamanho que nos dava jeito (para isso teríamos de comprar mais meio lotezito).

(Olha, parece que hoje os parêntesis estavam em saldo)
(Mais valia porem os tais terrenos em saldo, isso sim, é que me dava jeito)

outro passatempo

Foi a Rita quem primeiro me falou disto. Cá em casa experimentámos as possibilidades mais óbvias (ponham "óbvio" nisso, que nós temos aqui dois adolescentes...), antes de passarmos ao happening internético seguinte. Quase já tinha esquecido, quando hoje voltei a receber um e-mail com o mesmo filme.
Aqui vai ele, para quem não conhece: