29 janeiro 2010

férias de Inverno

A Alemanha está coberta de branco. Para onde quer que se olhe: branco.

Então pergunto-me: se a neve torna o país todo tão igual, porque me dou ao trabalho de ir até ao lago Constança e à Floresta Negra?...

Bem: vou, vejo, e se chegar a alguma conclusão, depois conto.

28 janeiro 2010

a lição da Conferência de Wannsee

Quando se comemoram 65 anos da libertação de Auschwitz, quero contar um pouco do que aprendi numa visita guiada para um grupo, no palacete da Conferência de Wannsee.
Tratava-se de guardas prisionais. O monitor ajustou o relato às características do grupo, focando especialmente a questão da responsabilidade individual e da consciência.

Numa das primeiras salas, com documentos sobre a fase em que os judeus eram assassinados a tiro, em frente às valas comuns, contou que os soldados que se recusavam a matar essas pessoas não chegavam a ser vítimas de alguma retaliação. Obviamente não diziam "eu isso não faço!", era mais "eu não consigo fazer isso". Seguiam-se pressões fortes por parte dos superiores e dos outros soldados. Se eles insistissem na sua incapacidade para atirar sobre civis, mulheres, crianças, velhos, nem eram presos, nem mandados para algum "comando suicida" na Frente Leste, nem nada. Punham-nos simplesmente a guardar os acessos ao local da chacina.

Na sala seguinte falou sobre a relativa independência do Exército, contando o exemplo do oficial Albert Battel, que se opôs abertamente à SS quando esta decidiu evacuar um gueto, chegando a momentos de tensão em que "armas alemãs se viraram contra armas alemãs". O caso subiu até Himmler, que ficou furioso, mas não pôde fazer nada. Limitou-se a anotar que no fim da guerra aquele oficial seria feito prisioneiro.

Um pouco mais tarde, na sala maior, com janelas enormes para o parque e o lago, os guardas prisionais sentaram-se em cadeiras ao longo das paredes, e o monitor começou a falar da conferência:
- Porquê um convite para uma reunião num lugar paradisíaco, seguida de uma refeição, em vez de uma convocação para uma reunião num ministério no centro de Berlim? Porque era preciso conquistar a boa vontade dos serviços envolvidos na "solução final". Não bastava dar ordens, porque o poder da máquina nazi não chegava a tanto. Era preciso convencer os outros elementos do aparelho estatal da necessidade do empreendimento, e fazê-los sentir-se parte natural da máquina e responsáveis pelo seu absoluto sucesso. O Ministério dos Negócios Estrangeiros, por exemplo, teria de estar firmemente disposto a não iniciar qualquer processo de autorização de saída para judeu algum - sem excepção.

E continuava:
- Várias folhas da acta da reunião tratam da questão dos mestiços de segundo e terceiro grau. Que fazer com aqueles que têm apenas um progenitor ou um avô/avó judeu? Começaram por sugerir que se fizesse depender a vida ou a morte do seu aspecto físico - se tivesse aspecto de judeu, era morto; caso contrário, era poupado. Mas isso levantava uma dificuldade: o que é aspecto de judeu? Como decidir algo tão subjectivo? Por exemplo, eu, polícia, olho aqui para este senhor (e apontou para o homem à sua frente) e não lhe vejo nada de especial. Mas o meu colega, que está a sair para tomar café, diz de passagem: "esse? está na cara que é judeu!"

Nesse momento aconteceu algo muito desagradável: alguns colegas do outro lado da sala fizeram um comentário do género "já tínhamos desconfiado" e desataram a rir, e o "judeu" lançou-lhes um olhar carregado de ódio. Um ódio completamente desproporcionado.

- Como esse método se mostrava demasiado difícil, continuou o monitor, sugeriu-se uma solução mais simples: esterilização forçada de todos os mestiços de segundo e terceiro grau. Nos campos de concentração começaram a fazer testes com produtos químicos cuja ingestão provocasse esterilidade.


[ Apetecia-me abrir aqui um espaço para três minutos de silêncio - o que é um pouco despropositado: porquê aqui, e não para os judeus de Przemysl que Albert Battle não conseguiu salvar? A verdade é que se fizéssemos três minutos de silêncio por cada sinal de desumanidade no sistema nazi, e por cada vítima, ficaríamos mudos para o resto da vida, e tínhamos de viver muitos anos. ]


- Aqui está a parte mais importante da acta, as frases que nos mostram porque é tão importante não esquecer nunca esta conferência:

No âmbito da Solução Final, e sob direcção adequada, os judeus devem ser usados no Leste como força de trabalho. Em grandes grupos, com separação de sexos, os judeus aptos para o trabalho serão utilizados nessas regiões para construção de estradas, processo durante o qual indubitavelmente um grande número deles morrerá naturalmente.
Quanto aos restantes, os que conseguirem sobreviver a tudo isto, mostrando fazer parte, sem margem para dúvidas, do grupo mais resistente, devem ser tratados de forma adequada, uma vez que representam uma selecção natural, ou seja, células que, uma vez libertadas, vão originar nova germinação do povo judeu (v. a experiência da História).


"A experiência da História": a História mostrou que sempre que houve complacência com os judeus, sempre que se abriram excepções, eles "germinaram" de novo a partir das "células" que puderam escapar. Esta reunião decorre já na fase em que há uma disposição muito firme de resolver o "problema" de uma vez por todas. Sem excepções, sem dar a este povo qualquer hipótese de renascimento na Europa.
Mesmo que custe imenso a cada um dos agentes, mesmo que pareça desumano e cruel, o mais importante é não esquecer nunca que há um valor mais alto que todos os outros, e que nos exige todos os sacrifícios: resolver definitivamente o "problema dos judeus", chegar à "solução final".


É esta a lição da Conferência de Wannsee: cuidado com os valores mais altos que sobre a nossa consciência se alevantam!

***

Nota à margem: em busca de uma boa tradução da acta, encontrei um site em português onde se rebatem alguns dos argumentos dos revisionistas. Para os curiosos, está aqui ( Nizkor Project ).

27 janeiro 2010

tenho uma cara que me protege (2)

Muito gostava eu de saber porque é que pago para ser torturada...

Para mais, reincidente: quase todos os dias vou à aula de ginástica aquática, quase todos os dias me pergunto o que é que estou a fazer ali, puxa a água toda para a frente, puxa a água toda para trás, salta, mostra o umbigo, agora sem tocar no chão, salta, mostra o umbigo, levanta a perna bem esticada, quero ver o pé, agora puxa a perna esticada com toda a força para trás, mais depressa, e nove, e oito, e sete, e seis...

E eu faço caretas, e protesto, e suspiro para a esquerda e para a direita, trocando olhares de auto comiseração com as outras vítimas, e bufo. E ela "não se esqueçam de respirar" e eu "o quê?! ainda mais isso?! já está a pedir muito!"

Hoje, quando ia a sair da piscina, a professora disse-me: "você tem um ar tão radiante, é um gosto vê-la aqui. Venha sempre!"


Tenho uma cara que me protege: eu a pensar o piorio da vida, e que hei-de escrever um post a queixar-me, e tudo, e as pessoas à volta a acharem que só estou bem-disposta.

Melhor assim.

agradecer



No Spiegel Online encontrei hoje a notícia de um gesto simples de humanidade: na capela da universidade de Rostock, estudantes do terceiro semestre de medicina fazem um pequeno concerto para os familiares das pessoas que ofereceram o seu corpo para as aulas da Anatomia.


As fotografias foram tiradas do mesmo artigo, "como agradecer a um cadáver".

O concerto começa com uma canção escrita para este efeito por dois estudantes, "Para Sempre", e pode incluir temas pedidos pelos familiares, como por exemplo o "My Way" de Frank Sinatra.
Seguidamente, os estudantes fazem pequenos discursos. Uma aluna conta o que sentiu quando viu pela primeira vez um daqueles corpos: o primeiro pensamento foi para aqueles que perderam alguém que amavam. Depois pensou no que poderia ter sido a história daquela pessoa, e no enorme presente que fizera com o seu próprio corpo.
Outra aluna chama a atenção para a importância desta dádiva na formação dos estudantes de Medicina. Para se tornar um bom médico, o estudante precisa de conhecer o corpo humano e saber preservar a sua humanidade.
Dois alunos lêem o nome das pessoas que ofereceram o seu corpo, e acendem uma vela para cada um.
O artigo fala ainda dos familiares que secam as lágrimas à luz bruxuleante.

E eu acrescento que gosto do futuro iluminado por estas velas.

26 janeiro 2010

tenho uma cara que me protege

Outro dia ia eu de carro toda descansadinha pelo centro de Berlim quando vi ao longe pedintes romenos disfarçados de lavadores de vidros de carros. Ainda tentei o truque da minha amiga de São Paulo, parar o carro longe, ou ir muito devagarinho para estar outra vez verde quando eu chegasse ao semáforo, mas era impossível. Fiquei parada a três carros do sinal vermelho, vi-os a avançar muito prazenteiros na minha direcção.
Pus cara de maus amigos, de muito mas mesmo muito maus amigos, com um olhar de ferro fiz-lhes sinal que não, e aconteceu um milagre: eles passaram logo para o carro seguinte, e nem sequer se atreveram a desenhar no meu pára-brisas um coração com a água ensaboada.

Muito mais haveria para dizer sobre estes pobres que aqui se instalam, mas fica para outro post.

Hoje ia sentada no autocarro, quando a senhora sentada à minha frente pediu a uma adolescente que ia em pé se podia pôr o cabelo para outro lado, porque estava sempre a dar-lhe na cara. A miúda (que tinha um cabelo lindo, muito comprido, mas um bocado esvoaçante por cima do carapuço) para espairecer o embaraço contou o incidente aos dois rapazes com quem ia. Então um dos rapazes agarrou no cabelo dela e começou a atirá-lo de propósito na direcção da outra passageira.
Pus logo a minha cara de muito maus amigos. Mas o rapaz não devia ser lavador de vidros, porque não se deixou intimidar. Daí a nada saíram, e eu comentei com a senhora "atrevem-se a tudo!" - mas ela não respondeu nada porque estava quase a chorar.

O que é que eu podia ter feito?
Há tempos, um cunhado meu afrontou uns palermas que estavam a urinar no metro, e levou uma carga de pancada - perante dezenas de testemunhas. Outro dia, um pai de família tentou proteger uns miúdos que estavam a ser assediados por uns rapazolas no comboio, e foi morto a pontapé na plataforma da gare.
Enfrentar rapazes não é muito boa ideia, porque nunca se sabe como é que a situação pode escalar, mas confesso que a primeira coisa que me ocorreu foi desancá-los verbalmente.

Esprit d'escalier é a minha especialidade: teria sido tão mais simples se me tivesse levantado como quem quer sair do autocarro, e me tivesse posto com cara de só vim cá ver a bola entre os cabelos da miúda e cara da senhora.

***

Há aqui um fenómeno muito preocupante: nesta sociedade os jovens permitem-se cada vez mais comportamentos bárbaros - perseguição dos mais fracos só pelo prazer de chatear, vandalização do espaço público, total falta de civismo - e poucos adultos ousam sequer chamar-lhes a atenção.
A polis feita por estes jovens é tudo menos aprazível.

24 janeiro 2010

ontem fui à Sibéria ver um terreno para comprar...

O José Bandeira põe-se com estas gracinhas


e se calhar nem sabe como está coberto de razão: o nosso apartamento não é bem uma casa, é mais parecido com um coador. Para tentar aquecer um pouco as divisões, aquecemos também metade do bairro. E os vizinhos são umas ingratas criaturas que ainda não nos começaram a enviar cartinhas de agradecimento.

De modo que ontem metemo-nos no carro, ligámos a chauffage ao máximo, e fomos muito quentinhos até ao centro da cidade, onde fica a Sibéria: doze graus negativos, a meio do dia, e apesar do sol fantástico.
No nosso bairro está bem mais quente - um doce ao leitor que conseguir adivinhar graças a quem...
(suspiro e ranger de dentes, perdão, bater de dentes)


Na Sibéria estivemos a ver um terreno junto a um rio, onde vão fazer algumas casas. O arquitecto, um valente com um boné sem protecção para as orelhas, ia explicando o projecto, e as palavras saíam-lhe da boca e gelavam antes de chegar a nós. Mas deu para perceber alguns estilhaços de sílaba e o resto fomos tirando pelo sentido. Pelo sonho é que vamos, melhor dizendo: parece que seria possível ter uma casa no meio de um grande jardim comum, com um cais privado para prender o barquinho - no centro de Berlim. O problema é outra vez o tal zero a mais - e depois dizem que é feio pensar mal dos árabes, mas, digam lá, quem foi que inventou o zero, quem foi? Heinhe?

A Sibéria, quem diria, tem imenso para oferecer. No mesmo sítio onde vão construir as casas estão também a arranjar um prédio. Com eficiência energética 40: parece que é uma coisa formidável que quase nem é preciso ligar os aquecedores nem nada. E com esta vista. Para alugar por um preço inferior em 1/3 ao que nos custa o nosso coador actual. E na mesma com cais privado para o barquinho.





Mas eu agora não digo os preços, porque a malta de Munique mudava-se toda para cá.
E eu, de Munique, só queria uma. Os outros podem ficar lá todos.
E desconfio que os de Lisboa também mudavam. Ah, mas os de Lisboa (os que eu conheço) podem vir.



Adenda, antes que comecem a chover os comentários de correcção: sei muito bem que não foram os árabes que inventaram o zero. Foram os portugueses (esta parte ainda é segredo de justiça, por isso não espalhem muito por aí).
Bem, mais ou menos a sério: uns dizem que foram os hindus, outros dizem que foram os maias da Mesoamérica, e ainda só googleei meio minuto.
Mas se eu me ativesse aos factos, perdia a piadinha dos árabes, que são o pau para toda a colher do nosso tempo. Afinal de contas, quem é que diz mal dos hindus?
Ai, esta minha vida de engraçadinha: é só decisões difíceis!

21 janeiro 2010

famílias

Miguel,
Ia escrever um comentário a este teu post, mas parece-me melhor fazê-lo aqui:

Não li o artigo no Público.
Mesmo assim, não gosto do argumento de os padres não poderem falar sobre certos temas por não perceberem nada disso. É a velha estratégia de matar o mensageiro.

Quanto à mensagem: «Por que razão se há-de impor dogmaticamente que o casamento se estabelece entre duas pessoas?! Por que não entre três?» é uma pergunta perfeitamente legítima. A partir do momento em que se mexe no casamento, também se pode pensar noutras alterações.

Há pessoas que preferem deixar tudo como está, por medo do tal plano inclinado - e afirmo-o sem a menor intenção crítica.
Há outros que se riem dessa angústia do plano inclinado, e argumentam que é só uma mudançazinha de nada (quem pensam eles que enganam?).
E há pessoas que ousam olhar, questionar, procurar sentidos e motivos para outras evoluções. Sim, bem perguntado: porque se recusa a poligamia? e, já agora, o incesto entre adultos?

Claro que são questões muito difíceis e incómodas. Mas uma sociedade torna-se adulta ao saber discutir abertamente estas questões, em vez de viver acriticamente entre tabus e pretensas leis naturais. O "plano inclinado" por exemplo - o que é pior: que a lei acompanhe a evolução social, ou que a lei defenda cegamente e a todo o custo um status quo anterior, provocando um afastamento entre o legal e a prática social?

Voltando à questão colocada pelo padre, poder-se-ia responder que, no caso do casamento gay, a partir do momento em que a sociedade aceita casamentos em cujo centro não está a procriação (pessoas de idade, por exemplo), e em que o fundamento do vínculo se deslocou da procriação para a afectividade, é uma necessidade imperiosa de justiça que seja alargado às pessoas do mesmo sexo. Por outro lado, ele tem razão ao dizer que permitir uma alteração no edifício do casamento abre a porta a outros tipos de alteração, como a poligamia. Mas: e porque não?
É uma questão muito interessante, sobretudo se vista a partir do tão apregoado superior interesse da criança. "Poligamias de facto" não são propriamente novidade na sociedade portuguesa: um homem casado que tem uma família paralela. Pode ser que um ano destes se comece a falar disso, e haveria muito material para discutir.
E não estou a dizer que sou a favor da poligamia, ou da poliandria, ou de ambas. Simplesmente, não tenho medo de discutir isso.

Errado seria impedir o casamento gay por temer que essa decisão abra a porta à discussão sobre a poligamia, ou outras. Se na sociedade há correntes que impelem a uma determinada evolução, faça-se o debate alargado. Sem medo, e com abertura para tentar entender as opiniões contrárias. Sem gavetas de "ateus", "pervertidos" e "padrecas".

20 janeiro 2010

agora o projecto até já está a meter água...

Busca aqui, busca ali, cheguei (eu, que andava à procura de um sotão velho) ao capítulo berlinense das townhouses.

O muro de Berlim deixou uma herança urbanística muito curiosa: naquilo que hoje é o centro da cidade há ainda imenso espaço vazio, resultante do tempo em que ao longo do lado oriental do muro havia um corredor de segurança (para proteger o povo do capitalismo) e do lado oriental sobravam ruínas abandonadas naquela espécie de fim do mundo.
Com o fim do muro, e a decisão de fazer de Berlim a capital da nova Alemanha, aqueles terrenos tornaram-se repentinamente muito interessantes.
Em vez de encher tudo de comércio e serviços, os planeadores da cidade optaram por trazer famílias para o centro, e para isso estão a destinar alguns desses terrenos à construção de townhouses - que são casas geralmente unifamiliares, de construção em banda, com quatro ou cinco andares, e um terraço no topo. Como estas, por exemplo:


(foto copiada daqui)


ou estas, ao lado do Regierungsviertel:






(foto copiada daqui)

Enfim, pergunto-me que famílias poderão pagar os 800.000 euros que uma casinha daquelas custa, mas também sei que 800.000 euros é o que se paga no centro de Londres por um apartamento de duas divisões, e vai barato.

De projecto em projecto, aconteceu um milagre: carreguei neste link, e encontrei townhouses para artistas (o que significa que têm uma sala atelier, com pé direito duplo) numa península pequenina entre o rio Spree e uma espécie de lago, perto de um parque lindo cheio de plátanos antiquíssimos. Custa 430.000 euros (220 m², jardim, e terraço no topo, com vista para o rio).

Casa com vista para a água, e só meio zero mais caro do que me dava jeito?!

Eu conto onde é que o nosso porco torce o rabo: a península, Stralau, fica a uma hora ou, na melhor das hipóteses, a 40 minutos das escolas dos miúdos. Triste vida.

Mas para quem não tem filhos em escolas no extremo ocidental da cidade, aqui fica o aviso: estão a vender casas fantásticas ali para os lados da Treptower Arena, do Badeschiff, do Club der Visionäre, e do Bonjour Tristesse do Siza Vieira.

projecto de vento em popa...

O Joachim queixa-se que um dos meus maiores problemas é que saio para comprar um triciclo e regresso com um Porsche.
Eu digo-lhe que não é um problema, é uma vantagem: flexibilidade e sentido de oportunidade.


Saio para comprar um triciclo, e dou-me conta que estão a vender uma bicicleta praticamente pelo mesmo preço. Mas se der um pouquinho mais, posso comprar uma motorizada. Daí ao carro económico, é um saltinho. Etc. etc., até que aparece aquele Porsche fantástico em segunda mão e...


...e foi assim que eu, que andava à procura de um sotão velho e barato, encontrei isto:



Mesmo ao lado das escolas dos miúdos vão fazer apartamentos em dois edifícios históricos, duas torres circulares bicentenárias, que eram depósitos de água.
Admito que por estar completamente nas lonas, a cidade não aproveitou para transformar as duas torres em museus tipo Guggenheim de Nova Iorque (também é verdade que numa cidade onde já há mais de 150 museus, não faz propriamente muita falta criar mais dois). E pelo mesmo motivo, até aceitou que sejam abertas janelas nas torres e - cúmulo dos cúmulos! os vereadores dos partidos de esquerda não acharam graça nenhuma à ideia! - sejam construídas duas torres ao lado, com elevador, escadas, varandas e galerias de 10 m para acesso aos apartamentos.



De modo que aí está o meu Porsche em segunda mão.
De facto, um apartamento destes já pagava um terço do Bugatti que estão a mostrar na Friedrichstraße.
Mas quem precisa de um terço de um Bugatti, se tem uma planta assim pateta, com aquela fixação em ângulos rectos?
(será que recto agora se escreve reto? ai a língua portuguesa...)

Em suma: não vamos comprar porque está cheia de defeitos - a varanda virada a Norte, demasiado espaço perdido com corredores, demasiados zeros no preço, e além do mais estão muito verdes.
Só os cães as podem tragar.

19 janeiro 2010

projecto para 2010

Comprar um sotão mais ou menos assim:



e transformá-lo num apartamento mais ou menos assim:



Este apartamento já existe e está à venda por menos de 400.000 euros. Com 260 m², elevador, e num dos bairros mais caros de Berlim.

E então, Heleninha, porque não compras?
Porque,
- primeiro, o preço tem meio zero a mais,
- segundo, tem uma localização a que em imobiliarês se chamaria "excelentes acessibilidades": na esquina entre um dos eixos rodoviários mais importantes de Berlim e uma auto-estrada.

De modo que o nosso projecto para 2010 também podia ser encontrar o Santo Graal - desconfio que teria uma probabilidade de êxito ligeiramente mais alta.

18 janeiro 2010

grande surpresa: a minha biografia já saiu em livro

No meu ginásio há uma máquina automática de aluguer de filmes. É fantástico: vou fazer de conta que faço desporto, depois poupo afincadamente água e energia em casa porque tomo lá duche, e a seguir trago para casa uns filmezinhos para me sentar a descansar do esforço sobre-humano.
(Acho que é melhor não contar dos chocolates e assim que como mal chego a casa, para repor as calorias perdidas) (olha, agora que falei nisso... a embalagem familiar de Mon Chéri está a acabar) (saber de experiência feito: o problema de comer Mon Chéri de manhã é que uma pessoa fica com hálito etílico ainda antes da hora do almoço) (e se for logo ao pequeno-almoço ainda pior: vai uma pessoa a caminho do trabalho, às 8 da madrugada, e vem o polícia, olhe, não se importa de soprar aqui para o balãozinho, e uma pessoa, claro que não, qual deles?) (adiante, que esta conversa já está a descarrilar, e juro que foram só dois)

Na sexta-feira passada trouxe dois filmes: "Last Radio Show" e "Je vous trouve trés beau". Para devolver até quinta-feira.

Ai o stress: ainda faltam três dias, mas não sei quando vou arranjar uma abertinha para os ver. Enfim, uma abertinha para ver nem seria muito difícil, mas o que eu queria mesmo era tempo para saborear.

Sabem aquele livro, "Em Busca do Tempo Perdido"?
Sou eu.

Só pode ser a minha biografia.

16 janeiro 2010

sinais do nosso mundo na caixa de comentários

A propósito dos sinais do nosso mundo, a Rita escreveu uns comentários que merecem mais visibilidade.
Previno que faltam algumas vírgulas e até palavras (desconfio que ela pensa muito mais depressa do que consegue escrever, por muito ágil que seja no teclado) mas era pena deixar isto esquecido numa mera caixa de comentários.
Ei-la, pois:


Eu tenho bastante alergia ao laicismo forçado e à proibiçao de práticas culturais na esfera pública. Acho que as ruas podiam encher-se de árvores de Natal, candelabros de Hannuka e que era bom que todos soubéssemos só de andar pelas ruas que chegou o Ramadão. Acho que os professores devem poder andar de crucifixo, os colectores de impostos de turbante e a padeira de lenço na cabeça e acho que a solução ideal para os feriados religiosos era a integração de mais um ou dois de outras religiões. Depois podíamos gastá-los a aprender mais uns sobre os outros e, se escolhessemos só os mais importantes de duas ou três mais, nao acabaríamos sequer em Berlim com tantos feriados como na Baviera. No meu mundo ideal os sinos também tocam e os senhores cantam dos minaretes. E as Fernandas Câncios manifestam-se com o apoio de emigrantes giras, manifestação para a qual vão de autocarro ateu.

O problema com a igreja católica é que ela não é apenas uma religião, foi religião dominante na Europa ao longo de séculos e séculos (na verdade, acaba por ser um problema muito semelhante ao da muçulmana, uma vez que o medo se prende com o supostamente sentido perigo da hegemonia). Ser dominante tem vantagens e desvantagens para a Igreja Católica, e uma vantagem muito clara é que, durante séculos, foi parte integrante do tecido social, tornou-se figura legitimadora dos seus rituais e deixou a sua marca nas suas estruturas. Isto é uma vantagem enorme em comparação.

Mas tem, claro, uma desvantagem: depois, a Igreja tem de saber aceitar que a sociedade à qual deu esses rituais, práticas e valores faça com eles o que bem entender e que, em período pós-hegemónico, os mude, descaracterize e adapte. Ela nao tem de aceitar isto de forma indiferente, pode reagir, puxar para si o que é seu e vivê-lo com aquilo que são os seus na forma que julga adequada. Pode até encontrar aqui possibilidades de uma vivência muito mais poderosa da religiosidade.

Mas não pode pedir a todos que o façam, assim da maneira certa, ou abdiquem de viver aquilo que são rituais também seus porque entretecidos (era interwoven) no tecido social. Vai ter de aceitar que haja presépios de renas, lombos de sexta-feira santa, gays que se unem sobre a alçada de uma palavra que ela cunhou e, um dia, baptismos civis de quem quer apresentar o filho mas nao quer filiá-lo na igreja mais próxima.

14 Janeiro, 2010 15:02

PS: Abrunho, não acho nada estranho que o cardeal patriarca tenha 15 minutos na televisão no Natal. O que escolhe fazer com eles não me parece supimpa de esperto, mas isso é outra questão. Porque o que é estranho não é que eu tenha de levar com a mensagem de Natal do representante oficial da religião que convocou aquela festa, mas que todos os outros representantes oficiais do nosso país laico também tenham mensagens oficiais. É como a Festa do Avante: não acho nada esquisito que haja no fim um comício com o Jerónimo de Sousa e os meus amigos que iam só pela festa também não achavam. Iam à festa daquele partido, falava um senhor daquele partido. Mas se a seguir tivéssemos de ouvir Manuela Ferreira Leite, José Sócrates, o Cardeal Patriarca e o Pinto da Costa, íamos todos achar esquisito.

14 Janeiro, 2010 15:07



Já que a Rita falou em "interwoven", repesco também um comentário meu, com um exemplo prático:

A propósito de usar o nome e reinventar o conteúdo: os cristãos alemães têm uma espécie de "ritos de iniciação para a juventude" por volta dos 15 ou 16 anos: Firmung para os católicos, Konfirmation para os protestantes. A cerimónia é antecedida de uma preparação extremamente cuidada: durante seis meses têm encontros semanais para discutir questões éticas, o sentido da vida, o "quem sou, de onde venho, para onde vou" e o "quem somos, de onde vimos, para onde vamos". Inclui trabalho voluntário numa instituição de serviço social (geralmente lares de terceira idade, infantários, centros de apoio a deficientes, etc.)

No século XIX um movimento de protesto saído das Igrejas tentou criar algo alternativo. Mais tarde os movimentos dos operários apropriaram-se da ideia e na RDA, onde se tentou por todos os meios acabar com a religião, generalizou-se essa Jugendweihe, (poderia traduzir-se como "Festa da Juventude", mas é curioso que a palavra "Weihe" tenha uma conotação sobretudo religiosa: sagração, consagração, benção...)

Aos 13 anos a minha filha foi convidada para a Jugendweihe das amigas de Weimar. E foi assim: recepção na Câmara Municipal de Weimar, onde o Presidente lhes deu os parabéns por já serem adultos, almoçarada com a família e os amigos, e depois os pais espetaram com os miúdos na rua, com umas caixas de cerveja, e ordens para regressarem a casa por volta das dez da noite.
Brilhante.

Contudo, não percamos a esperança: pode ser que daqui a 2000 anos comecem a saber fazer bem as coisas...
(estou a brincar, mas também é a sério: estas coisas precisam de muito tempo para afinarem forma e conteúdo)

15 Janeiro, 2010 07:35

14 janeiro 2010

sinais do nosso mundo num chat de culinária

E por falar em cumprir preceitos religiosos e se tornar pesado para os outros:

Andava na internet à procura de uma receita (em alemão) para carne assada, e encontrei esta frase: "na Sexta-feira Santa vou fazer um jantar para cinco ou seis pessoas; estava a pensar num bom lombo de porco assado..."
Era um chat. As pessoas foram dando sugestões.
Só ao fim de dez ou quinze participantes apareceu alguém a dizer "Sexta-feira Santa é o dia menos apropriado para um lombo de porco assado. Talvez fosse boa ideia averiguar se os convidados se sentirão bem com essa escolha."

Uns dias mais tarde, a pessoa que ia dar o jantar rematou: "gostaram imenso!"


Ora aqui estamos nós: no coração do Ocidente Cristão, num país onde o descanso dominical ainda é levado muitíssimo a sério, aparecem-nos estas pessoas que não respeitam os mínimos...
Para mais, carne de porco - desta vez não posso deitar a culpa para os fundamentalistas islâmicos, que "andam a infiltrar" a nossa cultura.

Isto não é uma queixa, é uma constatação. Tal como no caso do matrimónio, as tradições e os conteúdos actuais do Ocidente Cristão estão a ser transformados a partir do seu próprio interior. O perigo - se se pode falar em perigo - não vem dos "outros".

E cosi la barca va - reinventando mapas e rumos, remos e remadores.


(andava uma pessoa na internet descansadamente à procura de uma receita para carne assada...)

sinais do nosso mundo num shuttle do aeroporto

O aeroporto de Frankfurt estava coberto de neve. A intervalos regulares era preciso parar tudo para limpar as pistas. Antes da partida, era preciso tirar o gelo de cada avião.
Em suma: condições catastróficas.

Não admira, pois, que o nosso avião para Berlim tenha sido cancelado. O nosso e mais uns cem. Milhares de pessoas tiveram de ser alojadas em hotéis da região.

Em frente aos guichets de atendimento havia já caixas com bebidas e pacotes de bolachas. Entre o momento em que soubemos que o nosso avião fora cancelado e a entrada no táxi colectivo que nos levaria ao hotel não demorou mais de uma hora.

Éramos os últimos passageiros naquele táxi. Acomodámo-nos como pudemos entre a nossa tralha e os outros passageiros. Eu com o meu saco de limões e kiwis apanhados horas antes num Portugal cheio de luz, a vizinha da frente, espanhola, levando no regaço o quadro enorme que um irmão meu nos tinha oferecido.
Começámos a contar as peripécias do dia.
A senhora que vinha da Silésia e não pudera ir a dormir a Düsseldorf porque o aeroporto estava pura e simplesmente encerrado pediu desculpa ao passageiro do lado: "olhe que se chego demasiado perto é só porque tenho a minha mala entre as pernas". Olhámos todos: tinha a sua perna colada à dele, e não se podia mexer.

O Joachim comentou: "Bem, se é para ter azar com o tempo, mais vale ser passageiro da Lufthansa - aqui vamos nós a caminho do hotel, com um voucher para jantar, e um kit para passar a noite. Podia ser bem pior!"
A senhora da Silésia concordou, e disse com toda a convicção: "Dêmos graças a Deus!"
Fez-se um silêncio profundo no shuttle.

No dia seguinte, às seis e meia da manhã, de novo no shuttle a caminho do aeroporto.
Atrás de nós duas pessoas de idade conversavam em francês.
- Esqueci-me completamente de tomar os medicamentos, dizia ele.
- Eu não me esqueci, respondia ela, mas não tinha água e por isso não tomei.
- Mas no quarto havia uma garrafa com água!
- Pois havia, mas eu não gosto de mexer no que não é meu.
- Bof, era apenas uma garrafa de água.
O Joachim e eu fazíamos de conta que não percebíamos, e abafávamos a vontade de rir.
Daí a nada começaram a falar da família:
- Um primo meu tornou-se religioso, é muito desagradável. Leva tudo muito a sério, ficou pesado.
- A minha filha respeita os preceitos. O meu filho não. Nada de ir à sinagoga. Ao sábado, se lhe apetece, telefona. Mas quando vem a nossa casa também não se põe com esquisitices com a comida. É adorável.

Fiquei a pensar na surpresa de ouvir alguém falar em sinagogas - é verdade, na Alemanha não há muito contacto com judeus. E como podia haver? O Holocausto deixou um vazio como herança.
E pensei também na familiaridade do tema. Como lidar com pessoas que respeitam cuidadosamente as regras religiosas, como elas se tornam pesadas para os outros.

13 janeiro 2010

Zilda Arns


Zilda Arns
25 de agosto de 1934 — 12 de janeiro de 2010

Uma das vítimas do terramoto do Haiti.
Uma cristã que foi capaz de ouvir, entender e entregar-se.
Um exemplo para continuar e multiplicar no nosso mundo.
Da Globo: O arcebispo emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, disse na manhã desta quarta-feira (13) que sua irmã, Zilda Arns Neumann, “está no coração de Deus”, segundo a secretária pessoal do arcebispo, irmã Devanir. (...) Segundo a irmã Devanir, dom Paulo afirmou que Zilda teve uma vida maravilhosa e morreu ao lado dos mais necessitados. "Ele disse que é uma morte que surpreende, mas é uma morte bonita porque ela morre no cumprimento de uma causa que sempre acreditou".
Da Wikipédia: Compreendendo que a educação revelou-se a melhor forma de combater a maior parte das doenças de fácil prevenção e a marginalidade das crianças, para otimizar a sua ação, desenvolveu uma metodologia própria de multiplicação do conhecimento e da solidariedade entre as famílias mais pobres, baseando-se no milagre bíblico da multiplicação dos dois peixes e cinco pães que saciaram cinco mil pessoas, como narra o Evangelho de São João (Jo 6:1-15).
Podem ler aqui um pouco da sua voz, e informações sobre a Pastoral da Criança e a Pastoral da Pessoa Idosa, por ela criadas.
"A experiência da Pastoral da Criança parte da idéia de que a solução dos problemas sociais necessita da solidariedade humana, organizada e animada em rede, com objetivos definidos, e que o principal agente de transformação são as lideranças das comunidades pobres e miseráveis, especialmente a mulher, que transforma a sua família e a comunidade. Por isso, mais de 90% dos agentes na Pastoral da Criança são mulheres.
A experiência demonstra que a solução dos problemas sociais depende da transformação do tecido social e de políticas públicas voltadas para os mais necessitados. É uma tarefa que deve ser compartilhada entre governo, empresários e sociedade civil. Por isso, as parcerias entre eles são de fundamental importância na busca da realização de um trabalho eficaz que realmente chegue às famílias e comunidades, envolvendo-as no protagonismo de sua própria transformação social.
Fazendo a união entre a fé e o compromisso social, a Pastoral da Criança organiza as comunidades em torno de um trabalho de promoção humana no combate à mortalidade infantil, à desnutrição e à marginalidade social. Além disso, ajuda eficazmente na educação para uma cultura de paz e na melhoria da qualidade de vida de mais de um milhão de famílias acompanhadas. O trabalho essencial é a organização da comunidade e a capacitação dos líderes voluntários que ali vivem e assumem a tarefa de orientar e acompanhar as famílias vizinhas, para que elas se tornem sujeitos de sua própria transformação pessoal e social
. "

relatório à antiga portuguesa

("à antiga portugesa" significa: com três dias de atraso...)
(ainda nem bem comecei, e já estou a patinar)

No domingo passado preparei um brunch com tantas empadas de galinha, tantos pastéis de queijo e cebolinha, tantos sconnes, que até parecia um livro da Enid Blyton. Convidei a rapariga que parte costelas de porco with her bare hands, porque convém sempre a gente dar-se bem com os poderosos.
Ela não veio. Estava entretida a escrever estes posts formidáveis sobre a sua geração.

(Façam agora um intervalinho para ir ler)
(Já leram? Gostaram? Não é bem para gostar, é mais para arrepiar! OK, continuemos)

Depois do brunch fomos dar uma volta. O lago que fica mais perto da nossa casa (é preciso dizer assim, porque o que não falta em Berlim é lagos) estava gelado.



Havia imensa gente com pás e vassouras no meio do lago, a varrer a neve para fazer pistas de patinagem e de hóquei. Outros deslizavam em trenós pelas margens inclinadas.

A Christina olhou em volta e comentou: "Que bonito ver tantas famílias felizes".






Fizemos um iglô. Foi crescendo, crescendo, e como não sabíamos como o fechar, dissemos que era a Torre de Babel e fomos-nos embora.

12 janeiro 2010

pequeno presente para a Abrunho se regalar

Olá Abrunho,
(faz de conta que fazes hoje anos)

aqui tens a Cristina Pluhar, tua descoberta recente, com o Philippe Jaroussky, que esteve em Berlim e eu me esqueci de ir ver (sem comentários...).


Monteverdi: Ohimè ch'io cado



Anonymous: Ciaccona di Paradiso e dell'Inferno

postal da resistência

(foto daqui)



Como as coisas são: Emil Nolde, um dos mais importantes pintores do expressionismo alemão, defensor da superioridade da "arte alemã", simpatizante do nazismo e com tendências anti-semitas, nem queria acreditar quando viu quadros seus com lugar de relevo na célebre exposição "Arte Degenerada", em 1937. As suas obras (milhares!) foram retiradas dos museus alemães. Alguns dos quadros "degenerados" (não apenas de Nolde, mas também de uma longa lista de autores que incluía Otto Dix, Kokoschka, Paul Klee, Franz Mark, Käthe Kollwitz, Paula Modersohn-Becker, etc.) foram vendidos no estrangeiro, outros foram parar às colecções particulares de Goebbels e Göring (e de novo: como as coisas são...), Hitler aproveitou para trocar alguns deles por obras de "melhor arte", a dos autores antigos.

Em Berlim, no dia 20 de Março de 1939, foram queimadas numa fogueira contra a "decadência da arte" quase cinco mil obras de artistas variados, entre as quais várias centenas de Nolde.

Em 1941, numa fase de grande ímpeto criador, foi-lhe imposta a proibição de pintar, o que o levou a refugiar-se em Seebüll, a sua casa-atelier, onde continuou a pintar em segredo, fazendo mais de 1300 aguarelas sobre papel japonês. Pinturas a óleo estavam fora de causa, porque podia ser traído pelo cheiro intenso das tintas. A esse conjunto de aguarelas deu o nome de "quadros não pintados"

- como dizer "ungemalte Bilder", "unpainted paintings", em português? qual a palavra certa para os dois significados: por um lado, os quadros que ele gostaria de ter podido realizar a partir dos motivos das aguarelas, por outro a condição de clandestinidade, de inexistente, de "não pintada" daquela colecção? -

e depois da guerra passou algumas das imagens para óleo.
A exposição que está agora em Berlim (até 17 de Janeiro) apresenta centenas de "não pintadas" e ainda grandes quadros, a óleo, ao lado das aguarelas de diminuto formato que lhes estão na origem.

A figura escolhida para o cartaz é muito curiosa: mostra um rei - coroa dourada e manto púrpura - e uma figura mais pequena, ligados por evidente cumplicidade e agrado.

Nolde, o pintor que se sentia profundamente incompreendido e injustiçado, escreveu um apontamento sobre esta aguarela, que cito de memória: "se o artista está satisfeito com a sua obra, pode o imperador ou o rei ou quem quer que seja criticá-la, que isso não lhe importará."

E eis como o simpático rei daquela aguarela traduz afinal uma profunda e teimosa resistência interior.

11 janeiro 2010

acudam, que eles estão a destruir o casamento!

Um trabalho de Sofia Leite sobre "A união de facto em Portugal - 2003", Instituto Nacional de Estatística, mostra que, muito antes do terrível ataque do dia 8 de Janeiro de 2010, o casamento em Portugal já não estava a ser o que noutros tempos terá sido.

Para piorar, parece que este fenómeno de "já não ser o que soía" não é de hoje:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.


(Este país, que tragédia crónica, há 500 anos que não arranja maneira de se endireitar!...)


A seguir podem ler alguns excertos. Também podem ler aqui o trabalho completo.

Alguns apontamentos à margem:
Se na sociedade portuguesa se assiste, "de facto, a uma alteração dos valores e das representações em torno do casamento e das suas finalidades", então:
- a prática dos casais heterossexuais (concretamente: colocando no centro o casal e o amor, em detrimento da procriação) está a alterar o conteúdo da conjugalidade num sentido que torna natural e lógico o acesso de pessoas do mesmo sexo ao casamento;
- a resistência, por parte de alguns grupos e indivíduos, a esta alteração legal, pode ser resultado não de simples homofobia, mas da tentativa de preservar uma ordem tradicional que está em declínio;
- quando Manuela Ferreira Leite ou a rainha de Espanha afirmam que "o casamento é para ter filhos" estão simplesmente a inscrever-se nesse grupo de resistentes à mudança (repito: à mudança operada por casais heterossexuais) - e a sua opinião (tal como a dos que entendem o casamento como algo fundado no amor e dele dependente), numa sociedade livre e aberta, devia ser respeitada como legítima, em vez de ser alvo de chacota;
- (Esta é para ti, Lutz) não é preciso ser católico conservador e interessado na manutenção do poder da Igreja Católica na sociedade portuguesa para se "colar" à posição oficial da Igreja. De facto, basta ser conservador, ou sentir algo entre a perplexidade e a impotência perante tantas mudanças. Pensar nestas coisas dá muito trabalho e provoca alguma insegurança, pelo que para alguns será mais fácil deixarem a "Santa Madre" pensar por eles. Mas isso não quer dizer que se tenha interesse numa sociedade gerida com mão forte pela Igreja. E muito menos quer dizer que a prática dos casais (mesmo a de muitos dos que se afirmam concordantes com a doutrina oficial da Igreja) seja sempre conforme a essa doutrina.

***

Excertos do trabalho referido, publicado pelo INE:

"Assistimos, nas últimas décadas, a importantes mutações nos padrões de nupcialidade e conjugalidade em Portugal. Entre elas, destacam-se o aumento do casamento civil em detrimento do religioso, a acentuada subida dos valores do divórcio, a queda das taxas de nupcialidade e o aumento significativo dos nascimentos fora do casamento, para além de outros indicadores. Por outro lado, tendem a difundir-se outras formas de conjugalidade, tais como a união de facto, quer como uma fase experimental, quer como uma alternativa ao casamento.
Para além das mudanças já referidas, tende a alterar-se também o modo como os casais vivem a relação conjugal. A conjugalidade é, hoje em dia, vivida e encarada de forma diferente de há uns anos atrás. Mantida sobretudo por razões de sobrevivência, linhagem e transmissão do património, com claras desigualdades de papéis sexuais e sob fortes pressões e constrangimentos familiares no passado, a conjugalidade é hoje partilhada com o ser escolhido e amado e é sinónimo de afecto e intimidade, um lugar de refúgio contra o mundo exterior.
Apesar de a união de facto não ser uma situação conjugal recente em Portugal, ela tem aumentado consideravelmente nos últimos anos, quer em número, quer em visibilidade. A união de facto já não é, hoje, uma situação específica de um dado grupo social ou de uma determinada região do País, mas começa a generalizar-se como uma situação alternativa ao casamento legal. A novidade está, pois, no significado que ela pode assumir actualmente para os seus protagonistas e no modo como é encarada pelos outros indivíduos.
(...)
Em todos os países da Europa Ocidental e da América do Norte, verifica-se o envelhecimento da população, o recuo do casamento legal, a queda da taxa de nupcialidade e os aumentos do número de divórcios, de celibatários, das famílias monoparentais e das famílias recompostas. A união de facto tem vindo a ganhar terreno e é, hoje em dia, responsável pela percentagem elevada de nascimentos fora do casamento. Observa-se, ainda, a diminuição do número de filhos por casal, sendo o limite à volta de 1,5 filhos por mulher, não se assegurando a substituição das gerações em muitos países. O ciclo de vida familiar perde o seu caracter de previsibilidade: a constituição de uma família e a procriação dentro do casamento, por exemplo, deixam de ser etapas obrigatórias.
Portugal não é excepção, e ao longo das últimas décadas verificaram-se importantes mutações nos comportamentos familiares. A análise dos principais indicadores demográficos (Quadro 1), desde 1960 até à actualidade, permite confirmar essas mutações.
(...)
Assiste-se, desde 1960 e, mais concretamente, desde 1970, até ao presente, a fenómenos, tais como:
· a queda da taxa de nupcialidade (atingindo o valor de 5,7 por mil em 2001),
· aumento progressivo dos casamentos civis (tomando a proporção de 37,5% em 2001),
· aumento dos nascimentos fora do casamento (representando 23,8% em 2001),
· a subida da idade média ao primeiro casamento para ambos os sexos (actualmente é de 27,8 para os homens e 26,1 para as mulheres),
· aumento lento mas contínuo dos divórcios (1,8 divórcios por cada mil habitantes em 2001),
· a queda acentuada da fecundidade com a consequente não substituição das gerações (43,2 nados-vivos por mil mulheres em 2001),
· a subida significativa dos indivíduos a viver em união de facto (de 2,0% em 1991 para 3,7% em 2001 em relação ao total da população residente e de 3,9% para 6,9%, nos mesmos anos, em relação ao total da população casada).
Para além destes indicadores, há a destacar a elevada escolarização feminina e o forte aumento da actividade profissional das mulheres casadas e com filhos, nos últimos anos.
Se, aparentemente, o quadro anterior poderia ser sinónimo da desvalorização e perda do valor das relações familiares, correspondendo ao que alguns autores consideram ser a “crise” ou o “fim da família”, a observação mais atenta por parte de muitos sociólogos da família revelou que a ideia de transformação ou mudança na família não significa necessariamente a sua desagregação ou mesmo o seu fim (Almeida e Wall, 1995, p.34; Fernandes, 1994, pp. 1153-1154; Kaufmann, 1993, p. 32; Roussel, 1992a, p.116; Roussel, 1992b, p. 169; Shorter, 1995, p.296; Torres, 1996b, p.13).
O que está em causa é o conceito de família tradicional anteriormente considerado e não o conceito de família em si 1. Outros modelos ou tipos de família, com outras lógicas, passaram a estar presentes. A título de exemplo, a queda do número de casamentos celebrados tem sido interpretada por muitos como um sinónimo de “crise da família”. No entanto, sociólogos e demógrafos têm-na interpretado como um sinal conjuntural, do adiamento da idade de entrada no casamento, por um lado, e estrutural, por outro lado, do desenvolvimento da união de facto.
Nas décadas de 60 e de 70, vigorava um modelo da família criado a partir de um casamento monogâmico, com base na relação estável do casal, onde os papéis sexuais eram rigorosamente repartidos entre os cônjuges. Caracterizava-se ainda por uma idade elevada ao casamento e por uma forte taxa de celibato. Pensava-se, então, que este modelo constituía a forma acabada da instituição, que era o produto da industrialização e que, em breve, iria difundir-se entre as outras civilizações do mundo, à medida que estas se fossem modernizando. A ocidentalização deveria passar pela adopção do modelo da família nuclear e dos valores da liberdade e de individualismo que estão na sua base.
Os anos 70 marcaram porém uma ruptura nessa evolução. O alcance da autonomia das mulheres, devido à sua entrada em grande número no mercado de trabalho e a contracepção, que permitiu o controle da fecundidade com bastante segurança, são factores que contribuíram para esta ruptura.
A “família ocidental”, tal como anteriormente caracterizada, já não existe. O divórcio, a união de facto e as recomposições familiares abalaram o “modelo da família ocidental”.
O casal sofreu uma profunda transformação. Passa a basear-se no ideal romântico do amor, livre dos interesses económicos que pesavam sobre a formação das uniões, tornando-se um símbolo da liberdade individual de que gozam as sociedades ocidentais. A coabitação - mas também o casamento, uma vez que o divórcio encontra-se tão difundido - instala o casal durante um tempo precário. Em vez de um casamento “até que a morte os separe”, os indivíduos instalam-se ou casam-se por um período ao longo do qual cada um poderá realizar o seu projecto individual (Burguière, 1999, p. 31).
Este grupo doméstico instável tem uma descendência de dimensões reduzidas relativamente aos seus homólogos camponeses, operários ou burgueses de há cem anos atrás, não indo além de um ou dois filhos. A limitação da fecundidade não é a recusa de ter um filho, mas o casal “programa-o”; o centro familiar desloca-se da criança para os pais (1999, p. 31). Por outro lado, a família enquanto instituição de união entre as gerações é sólida. A coabitação juvenil, o divórcio, os nascimentos fora do casamento já não constituem um desvio, sendo antes integrados nos processos de relações familiares (1999, p. 32).
(...)
A diversidade de concepções do casamento, dos valores que actualmente lhe estão na base e o desenvolvimento de novas formas de conjugalidade significam, para muitos, que o casal se encontra em crise.
Assim como o brusco aumento do número de divórcios, de famílias monoparentais, de nascimentos fora do casamento, de pessoas que vivem sós, parecia corresponder aquilo que se denominou por “crise da família”, até que ponto a diminuição das taxas de nupcialidade nas últimas décadas, pode ser entendida como sinónimo de “crise do casal”? Será o casal que se encontra em crise ou o conteúdo conceptual do próprio casamento? Que factores podem ter contribuído para esta possível ”crise”?
(...)
Se a entrada na vida conjugal se continua a fazer maioritariamente pela mesma via tradicional, assiste-se, de facto, a uma alteração dos valores e das representações em torno do casamento e das suas finalidades 2.
Para muitos, o casamento deixou de ser vivido como um sacramento; salienta-se uma visão mais laica, mais privada, do casamento, associada a maior liberdade individual; o profano sobrepôs-se ao sagrado, o bem estar pessoal e o desejo de persistência do amor tomam o lugar do dever de continuidade do casamento; na falta de amor, quebra-se o compromisso (Torres, 1996b, p. 2).
Trata-se de uma visão mais modernizante e desinstitucionalizada do casamento, associada a uma matriz relacional e afectiva da conjugalidade, em detrimento de uma representação mais tradicionalista e conservadora do casamento, com base numa matriz institucional (Vasconcelos, 1998, p. 326).
(...)
Hoje em dia, coexistem diferentes formas de conjugalidade, que privilegiam determinados aspectos presentes na relação - “dimensão amorosa, dimensão institucional, dimensão parental, dimensão patrimonial” (Torres, 1996b, p. 21). A pluralidade e diversidade destes modelos vão desde os casais casados legalmente aos que vivem em união de facto temporária ou definitiva, desde os solteiros vivendo em casal cada um em sua casa (“living apart together”) até aos lares com um único chefe de família que educa sozinho ou com um companheiro, os filhos.
(...)
Tende-se pois, nas sociedades contemporâneas e, também em Portugal, a “dessacralizar o casamento”, ou seja, assistimos à contínua desvalorização dos aspectos sagrados e institucionais do casamento 6. O que antes era um empreendimento de regulação religiosa e colectiva, passa a ser hoje entendido como um assunto que só diz unicamente respeito ao foro terreno e pessoal; o que era uma prática restrita a alguns sectores laicos da sociedade portuguesa alarga-se a muitos outros sectores. Continua de certo a haver indivíduos que encaram o casamento de uma forma tradicionalista e conformista ou que sejam fortemente espiritualistas e convictos nas suas opções matrimoniais de caracter religioso. No entanto, tendem a constituir um grupo cada vez mais restrito (Torres, 1996b, pp. 53-54)."

muito gostava eu de saber como é que se diz "hate speech" em português...

Do Abrupto:

"A ilusão de que o acesso ao casamento quebra uma barreira simbólica que ajuda a terminar com a homofobia efectivamente existente, o argumento mais hábil de Vale de Almeida, repousa numa ambiguidade e numa hipocrisia. Porque Vale de Almeida sabe perfeitamente que ele e muitos outros a última coisa que pretendem é casar-se, ou sequer imaginam no casamento qualquer virtude especial. Eles sabem bem que o casamento é algo dos "outros", não por causa da lei que os exclui, mas porque o que vem virtualmente no pacote do casamento, a instituição familiar convencional, os "deveres conjugais", não correspondem ao mesmo mundo cultural e emocional do seu entendimento da "causa" dos homossexuais e lésbicas. Para eles o que conta é a "causa", não o mérito da instituição a cujas portas pretendem aceder e por isso a questão é outra, bem longe da luta por um direito, é um ataque a uma determinada forma de viver em sociedade, que abominam e desprezam e tem pouco a ver com a sua cultura e a sua mundovisão. Sabem que ao romper na lei a relação do casamento com a família nuclear, que implica possibilidade real da procriação, erodem para outros um valor que não desejam."


E agora vou fazer um desenho:


Para eles (por exemplo: os filhos dos imigrantes, que querem ter acesso de pleno direito à participação política) o que conta é a "causa", não o mérito da instituição a cujas portas pretendem aceder e por isso a questão é outra, bem longe da luta por um direito, é um ataque a uma determinada forma de viver em sociedade, que abominam e desprezam e tem pouco a ver com a sua cultura e a sua mundovisão.

Para eles (por exemplo: as muçulmanas que querem poder dar aulas no ensino público mantendo a cabeça coberta) o que conta é a "causa", não o mérito da instituição a cujas portas pretendem aceder e por isso a questão é outra, bem longe da luta por um direito, é um ataque a uma determinada forma de viver em sociedade, que abominam e desprezam e tem pouco a ver com a sua cultura e a sua mundovisão.

Para eles (por exemplo: as sufragistas) o que conta é a "causa", não o mérito da instituição a cujas portas pretendem aceder e por isso a questão é outra, bem longe da luta por um direito, é um ataque a uma determinada forma de viver em sociedade, que abominam e desprezam e tem pouco a ver com a sua cultura e a sua mundovisão.

Para eles (por exemplo: os árabes que exigem a criação de um Estado Palestiniano) o que conta é a "causa", não o mérito da instituição a cujas portas pretendem aceder e por isso a questão é outra, bem longe da luta por um direito, é um ataque a uma determinada forma de viver em sociedade, que abominam e desprezam e tem pouco a ver com a sua cultura e a sua mundovisão.

Para eles (por exemplo: os judeus, durante o processo da "emancipação judaica") o que conta é a "causa", não o mérito da instituição a cujas portas pretendem aceder e por isso a questão é outra, bem longe da luta por um direito, é um ataque a uma determinada forma de viver em sociedade, que abominam e desprezam e tem pouco a ver com a sua cultura e a sua mundovisão.

***

A pergunta que não quer calar é esta: como é que Pacheco Pereira pode estar tão seguro de saber que "ele e muitos outros a última coisa que pretendem é casar-se, ou sequer imaginam no casamento qualquer virtude especial", e que "o que vem virtualmente no pacote do casamento, a instituição familiar convencional, os "deveres conjugais", não correspondem ao mesmo mundo cultural e emocional do seu entendimento da "causa" dos homossexuais e lésbicas"?

Desde quando é que os homossexuais são todos iguais, e o pior possível?

***

E depois - para quem teve o cuidado de ler o post de Pacheco Pereira até ao último parágrafo -, não é preciso recorrer a uma bola de cristal para adivinhar o futuro. Já há estatísticas. O primeiro link da minha lista no google é este: http://gaymarriage.lifetips.com/cat/64319/gay-marriage-facts-statistics/

09 janeiro 2010

amor perfeito, entre outros

No aeroporto Francisco Sá Carneiro
(quem se terá lembrado de dar a um aeroporto o nome de alguém que morreu num desastre de avião?...)
(pensando bem, também há o Saint-Exupéry em Lyon - parece que o pessoal que atribui nomes sofre de uma espécie de atracção pelo abismo)
(desconfio que se fizerem um aeroporto em Viana do Castelo lhe vão chamar "Campo da Agonia")

como ia dizendo: no aeroporto Francisco Sá Carneiro tentei comprar o perfume "Amor Perfeito" do Tenente.

"Ai, essa marca não comercializamos...", disse-me a vendedora, compungida.
"Não têm essa marca?! Mas se é justamente aquela que não podia faltar num aeroporto português!"
Perante a minha indignação, encolheu os ombros.
De modo que aqui deixo a reclamação a quem interessar possa, nomeadamente ao Sócrates (sim, bem visto: porque é que anda a perder tempo com palermices como o casamento dos heterossexuais e assim, esquecendo os verdadeiros problemas fundamentais do país?) (espero que percebam que estou a brincar com coisas que sei muito sérias) (e aproveito para passar o link para o seu discurso na Assembleia da República - não está nada mal, mas faltam alguns elementos importantes).

É que, "vejemos", nem é preciso inventar a roda (digo eu, voltando à loja do aeroporto - este post está-me a sair como quem vai de Lisboa a Sacavém passando pelo Algarve), já está inventada: as longas esperas no aeroporto de Madrid passo-as a apreciar a loja "España" (ou será outro o nome?), que apresenta produtos onde a tradição e os clichés são elegantemente combinados com a modernidade espanhola. E claro que as lojas de perfumes desse aeroporto estão cheias de marcas nacionais.

É muita falta de visão não aproveitar os aeroportos para mostrar e vender o melhor que Portugal tem para oferecer a um público cosmopolita. Querem melhores feiras internacionais que aqueles espaços onde todos os dias milhares de estrangeiros são obrigados a esperar pelo menos meia hora?
Portugal é mais que Descobrimentos, enchidos, pastéis de Tentúgal e vinho do Porto. É escritores muito bons (se há imensos livros já traduzidos, porque é que essas traduções não se encontram disponíveis em pequenas bancas nos aeroportos?), produtos excepcionais de design, boa moda, sapatos excelentes - e Amor Perfeito, entre outros.

08 janeiro 2010

como uma bíblia aberta

Ia eu toda descansadinha no eléctrico quando entraram dois estrangeiros
(ainda agora comecei e já estou a dizer asneiras: uma portuguesa num eléctrico alemão a falar de "estrangeiros"...)
e se sentaram num banco ao meu lado.
O mais franzininho começou a contar vantagens ao outro enquanto olhava para mim de esguelha: que tem cinco mulheres, e que cada uma lhe deu cinco filhos rapazes, e por aí fora.

Uma pessoa olha concentradamente pela janela com ar distraído e pergunta-se como é que ele alimenta vinte e cinco filhos, ou se eventualmente se terá enganado nas casas decimais. Tipo meia mulher (a meias com alguém?) e dois filhos e meio (o "meio" seria uma filha, imagino, que ele há culturas para tudo).

Mas depois ocorre-me que pode ser que ele esteja a contar uma coisa quando quer dizer outra completamente diferente:
um homem a falar como uma bíblia aberta!

06 janeiro 2010

primeira caminhada do ano

No centro da Alemanha, a floresta de Giessen, com restos de Outono e réstias de um sol baixo.





ilha Rügen às escuras

Queríamos ir ver as célebres falésias pintadas por Caspar David Friedrich, mas infelizmente já não existem.

Ao que o Estado alemão chegou, que nem sequer se lembra de betonar falésias, e as deixa em derrocada ao Deus dará...

Plano B, então: caminhada de 3 km até à costa, atravessando um bosque de antigas faias e pântanos gelados...








...e passeio ao longo das falésias brancas.

Uma enorme surpresa: contradizendo o frio, a neve e a falta de sol, junto à praia o mar tinha cor de esmeralda!
(Deve ser resultado do aquecimento global: as Seychelles estão a chegar ao norte da Alemanha...)








Sellin - uma cidadezinha balneária famosa no tempo do Kaiser - às cinco da tarde:




Esta imagem é da Wilhelmstrasse, a rua principal, que vai do lago, num dos lados da cidade, para o promontório sobre a praia. Ladeada de casas brancas com fachadas de madeira muito trabalhadas. Fiz a fotografia de propósito para o blogue Sintra, acerca - para mostrar que não é só em Portugal que os jardineiros municipais têm tiques de castrador.

Fim de uma tarde de inverno em Rügen: passear pela Wilhelmstrasse, descer para a praia, tomar uma bebida quente no café Arte Nova do pavilhão sobre o mar.

Sonhar: ao longe, passam barcos com destino a São Petersburgo.




entender as paisagens da pintura flamenga...


Costa do Mar Báltico no inverno: o sol, if any, atravessa o dia rente ao horizonte.
Esta foto foi feita por volta da uma da tarde. Às quatro da tarde já é noite.
E assim se percebe porque é que as paisagens da pintura flamenga são tão sombrias, e se entende a sede que guiou tantos pintores para o sul da França.



Natal em Zingst




O nome daquela terra parece um destrava línguas.
Passar lá o Natal foi mais tipo:

"destrava a preguiça"

(destrava, e lá foi ela a 200 à hora - há muito tempo que não passava assim quatro dias a sair da cama para continuar a dormir na espreguiçadeira da sauna) e


"destrava o deslumbramento".


Comer bem, não fazer nada e dormir demais deve fazer mal ao cérebro, porque a única coisa que me ocorre dizer sobre estas curtas férias é isto: neve na praia.











O Joachim sentiu a falta do ambiente de Natal tradicional. O presépio minimalista na mesinha de cabeceira soube-lhe a pouco.



De modo que - digo baixinho, porque eles ainda não sabem - foi decidido por unanimidade que o próximo Natal será em Portugal, com três meias dúzias de primos, presépio e pinheiro.



05 janeiro 2010

Nova caixinha de comentários

Foi alterado o sistema de comentários deste Blogue.
Agradeço a paciência de quem acompanhou o processo.
Fica uma péssima experiência no contacto com as pessoas do Haloscan que em nada ajudaram, embora digam o contrário na sua publicidade. Será para vencer pelo cansaço e levar à compra do seu novo sistema de comentários?

Vamos lá ver se dá resultado a minha "técnica de tentativa/erro".

Votos de um Belíssimo Ano 2010!