19 fevereiro 2026

"foi apenas um acidente" e o cinema político


O momento mais especial deste ano na Berlinale foi, para mim, a sessão especial que aconteceu hoje com o realizador Jafar Panahi, sobre o seu filme mais recente e, como dizia o programa, “The Power of Storytelling”.

O entrevistador apresentou-o e seguiu logo para a primeira pergunta, mas Jafar Panahi protestou e exigiu algum tempo para fazer uma introdução. Falou da situação no Irão e do sofrimento do povo iraniano. Contou que as pessoas vão dançar e cantar nos cemitérios em memória dos que foram mortos, e pediu uma salva de palmas em homenagem às vítimas do regime. Cito de memória o que disse nessa sessão: Começou por esclarecer que não faz cinema politicamente empenhado, faz cinema socialmente empenhado (politically engaged / socially engaged). O cinema politicamente empenhado vive da divisão entre bons e maus. E os regimes ditatoriais impõem quem são uns e outros. A diferença que Panahi encontra entre os dois tipos de cinema está bem explicada na segunda parte desta entrevista (em inglês). Respondendo à questão sobre o humor no filme “Foi apenas um acidente”: não se tratou de uma escolha dele, foi o humor que se impôs no filme. No Irão, ninguém riria, porque a vida quotidiana das pessoas é mesmo assim. O anormal tornou-se normal. O inacreditável — o irracional — tornou-se racional. Fora do Irão, parece humor. Mas não o é para os iranianos. Por exemplo, nos EUA e no Canadá o público riu imenso durante todo o filme. Na Ásia, as pessoas riram muito na cena em que levam a mulher ao hospital. O realizador não entendeu porque riam nesse momento, porque no Irão ninguém riria de cenas destas, uma vez que é algo com que todos se confrontam. Deu um exemplo: na guerra dos 12 dias (Irão–Israel, 2025), um míssil israelita deitou abaixo uma parede numa área prisional onde estavam presos políticos, e estes aproveitaram para fugir. À saída, viram que o edifício ao lado também tinha sido atingido, mas os prisioneiros não podiam fugir porque as celas estavam fechadas. Em vez de se porem imediatamente a milhas, foram ajudar os outros a fugir também. O entrevistador perguntou-lhe sobre a sua motivação para fazer um filme tão explícito, desta vez. Resposta: o realizador tem de avançar com a sociedade. Quando a sociedade muda, o cinema tem de mudar também. Por exemplo: a recusa das mulheres em cobrir a cabeça marcou um antes e um depois para o regime iraniano, e este filme tinha de reflectir isso. Outro fenómeno impensável até há pouco: mulheres a praguejar. Um filme socialmente empenhado tem de acompanhar estas mudanças na sociedade. Aquela mulher com a cabeça descoberta pode parecer um panfleto mas, de facto, é o cinema a mostrar a realidade actual. Quanto aos palavrões: há mais de quarenta anos que o regime dita às pessoas as ideias e os valores que devem ter. As pessoas estão fartas disto, e as mulheres começaram a dizer palavrões como acto de resistência. Os filmes dele têm de reflectir esse fenómeno, quer ele goste quer não goste. Nova pergunta: no final do filme, a perspectiva muda e o carrasco toma o lugar central durante mais de quinze minutos. Porquê? Resposta: durante mais de uma hora, o homem está fechado numa caixa. Falam sobre ele, mas não se vê. O cinema socialmente empenhado é sobre humanidade, sobre ver as pessoas como seres humanos. O cinema politicamente empenhado divide as pessoas em bons e maus. Os da minha ideologia são bons e os outros são todos maus. É um cinema que quer eliminar os maus. O problema é que remover esta peça, o “mau”, nos distrai do essencial: faz-nos esquecer o problema maior. Esta pessoa também tem o direito de falar — é uma questão de justiça social no cinema socialmente empenhado. Portanto, o realizador queria deixá-lo falar, ter a sua parte no filme. O problema são os detalhes, a justiça visual. Foi difícil criar um perfil do carrasco que fosse convincente. Como ele próprio só tinha estado dois ou três meses na prisão com torturadores, para conseguir mais verdade naquela cena foi pedir informações e conselhos aos seus conhecidos que tinham sido presos políticos durante muito mais tempo. De facto, muito daquele filme são coisas que aconteceram realmente a pessoas com quem ele falou. Mais adiante: Há dois tipos de realizadores no mundo: os que vão atrás da audiência e fazem o que esta quer, e os que fazem o que entendem, segundo o seu próprio gosto, confiando que a audiência irá atrás. Sem querer dizer qual é a forma correcta de ser realizador, diz apenas que cada um escolhe, e a partir daí sabe o que tem de fazer. Ele próprio, quando era estudante, fez um filme para a televisão iraniana, com uma equipa excelente e equipamento muito bom. Mas, quando estava a editar, percebeu que o filme era mau. Tudo muito bem do ponto de vista técnico, mas o filme não era “dele”. Apesar de ninguém o conhecer ainda, não queria ter o seu nome associado àquele trabalho. Um dia, foi ao laboratório e roubou os negativos. Foi nesse momento que descobriu a que grupo de realizadores pertencia. Última pergunta: vai regressar ao Irão, apesar de saber que corre o risco de ser preso? Resposta: quando soube que tinha uma sentença de prisão, a sua vontade foi voltar nesse preciso momento. Não o fez, porque está a fazer a promoção do filme, e sente que deve continuar por respeito à equipa que o fez. Mas o lugar dele é no Irão. “As a socially engaged director, I stand with my people. My work and my cinema are for the people of Iran — and I will return, true to myself and to my beliefs.”


Sem comentários: