31 agosto 2011
um símbolo para os direitos humanos
E que tal ajudarmos a escolher um logotipo para "direitos humanos"?
Para votar: human rights logo
Eu gosto deste:
à atenção dos moradores de Berlim, e dos seus turistas ocasionais:
Novidades da Musikfest Berlin 2011 para pobretas:
- Amanhã, 1 de Setembro, às oito da noite, há um concerto gratuito na famosa sala da Filarmonia. Programa em inglês.
- No dia 15 de Setembro, às seis e meia da tarde, há uma sessão de variações de temas da sinfonia nº8 de Mahler, feitas por jovens músicos. Estão a oferecer os bilhetes na caixa da Filarmonia. Programa em inglês. Deram-me 15 bilhetes - os primeiros oito interessados que se chegarem à frente...
E, já que estou com a mão na massa, aqui vão alguns concertos gratuitos ou a preços muito acessíveis (máximo: 8 euros):
- No dia 3 de Dezembro, às quatro da tarde, há concerto para famílias com os "12 Cellisten". Eu gosto destes concertos para famílias: são leves, muito divertidos, e com óptima qualidade. Nos restantes concertos para famílias vão tocar as quatro estações de Vivaldi. Já estou um bocado farta dessa, mas muito curiosa para ver o modo como a vão encenar.
- A 16 de Dezembro, às seis e meia da tarde, músicos da Filarmónica vão interpretar as peças vencedoras do concurso nacional para jovens compositores.
- 22.02.2012, 10:30 (marquem esta data a vermelho nos calendários!): encontro das orquestras escolares. Ver Simon Rattle a trabalhar com jovens músicos excelentes. E este ano também estará presente uma orquestra juvenil de Istambul. Os bilhetes são gratuitos, têm de ser levantados previamente na caixa.
- 13.05.2012 - Workshop na área do "diálogo cultural": introdução às estruturas rítmicas e melódicas da música indiana. É necessário fazer a inscrição para o workshop.
- 25 e 26 de maio de 2012, às sete e meia da tarde: MusicTANZ. Com a Carmen-Suite de Rodion Schtschedrin, coreografia de Sasha Waltz & Guests, Simon Rattle, a Filarmónica, e dança de miúdos das escolas berlinenses. Marquem esta data a vermelho nos calendários!
- Amanhã, 1 de Setembro, às oito da noite, há um concerto gratuito na famosa sala da Filarmonia. Programa em inglês.
- No dia 15 de Setembro, às seis e meia da tarde, há uma sessão de variações de temas da sinfonia nº8 de Mahler, feitas por jovens músicos. Estão a oferecer os bilhetes na caixa da Filarmonia. Programa em inglês. Deram-me 15 bilhetes - os primeiros oito interessados que se chegarem à frente...
E, já que estou com a mão na massa, aqui vão alguns concertos gratuitos ou a preços muito acessíveis (máximo: 8 euros):
- No dia 3 de Dezembro, às quatro da tarde, há concerto para famílias com os "12 Cellisten". Eu gosto destes concertos para famílias: são leves, muito divertidos, e com óptima qualidade. Nos restantes concertos para famílias vão tocar as quatro estações de Vivaldi. Já estou um bocado farta dessa, mas muito curiosa para ver o modo como a vão encenar.
- A 16 de Dezembro, às seis e meia da tarde, músicos da Filarmónica vão interpretar as peças vencedoras do concurso nacional para jovens compositores.
- 22.02.2012, 10:30 (marquem esta data a vermelho nos calendários!): encontro das orquestras escolares. Ver Simon Rattle a trabalhar com jovens músicos excelentes. E este ano também estará presente uma orquestra juvenil de Istambul. Os bilhetes são gratuitos, têm de ser levantados previamente na caixa.
- 13.05.2012 - Workshop na área do "diálogo cultural": introdução às estruturas rítmicas e melódicas da música indiana. É necessário fazer a inscrição para o workshop.
- 25 e 26 de maio de 2012, às sete e meia da tarde: MusicTANZ. Com a Carmen-Suite de Rodion Schtschedrin, coreografia de Sasha Waltz & Guests, Simon Rattle, a Filarmónica, e dança de miúdos das escolas berlinenses. Marquem esta data a vermelho nos calendários!
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30 agosto 2011
como abordar o escritor mais famoso de Berlim
Será que já contei? Estou a traduzir um livro muito divertido de Wladimir Kaminer, um russo que mora em Berlim e escreve em alemão histórias completamente loucas - ele diz que é tudo verdade, e que às vezes a realidade é tão mais estranha que ele nem se dá ao trabalho de a escrever porque ninguém ia acreditar (ahem, se calhar não foi bem isto o que ele disse, desarrisquem esta parte) - histórias completamente loucas, dizia eu, sobre as peripécias dos russos da perestroika no mundo em geral, e no microcosmo de Berlim em particular.
Gosto do humor dele, muito compatível com o meu. Aliás, em português acho que nem se vai notar a diferença... (ai! espero que os grandes chefes não estejam a ler isto). Há muito que me interessava conhecê-lo pessoalmente, e um dia destes ainda hei-de ir ao café berlinense que ele transforma em discoteca russa uma vez por mês.
Ora bem: às vezes desconfio que uma espécie de inteligência superior dirige o Universo e gosta muito de mim. Podem crer. Por exemplo: no fim-de-semana passado fui para a tal ilha no Báltico com alguma pena de não ficar em Berlim, porque no sábado o Kaminer ia ser outra vez o DJ da discoteca russa. Eis senão quando, ao passear pela rua principal de uma cidadezinha a meia dúzia de metros do fim do mundo, vejo num cartaz que ele ia estar no teatro local a ler passagens do seu livro mais recente.
Impressionante: os bilhetes custavam 17 euros, e o teatro, com mais de duzentos lugares, estava completamente lotado. Isto deve ser mesmo um povo de poetas e pensadores: gente disposta a pagar o equivalente a três bilhetes de cinema para ouvir um homem ler umas coisitas que escreveu. Embora ele seja bem mais que um escritor - ele é uma máquina de fazer rir as pessoas. Há momentos em que tenho pena dos meus amigos que não entendem alemão, e aquele serão foi um deles, porque o Kaminer, em palco, faz Kabarett do melhor.
Ao entrar no teatro pedi se podia falar com o escritor. E (milagres da província!) chamaram logo a organizadora da sessão, que era também a jornalista da terra. Quando soube que eu estava a traduzir um livro dele, levou-me para o seu camarim. Caí-lhe em cima do jantar - estava a comer uma banana -, engoliu rapidamente um bocado para me fazer um sorriso e combinámos um encontro em Berlim. No intervalo deu-me um CD com música da sua discoteca russa, no princípio da segunda parte contou ao público que estava ali presente "a minha tradutora portuguesa", e no final a jornalista fez fotografias para adornar a notícia no jornal local. Eu ainda me lembrei de uma pose fantástica como vi uma vez ao Saramago com a sua tradutora de alemão, mas ele queria era meter-se no carro e voltar para Berlim, a quase três horas de caminho, de modo que pôs a sua cara de frete nº 3, e pronto. Clic, clic, adeus.
Adeus, quais quê! Até breve. Amanhã vamos tomar um café para falar do trabalho.
E agora estou a ler algumas das suas entrevistas, já vi que dizem que é parecido com o George Clooney (hehehe, olhem a minha sorte: dois em um!).
O próximo projecto é aprender a dançar aquelas músicas muito tipocomodirei do CD que me deu. A ver se o youtube me ajuda a encontrar aulas de folclore do Cáucaso, algo me diz que é para ir por aí.
Gosto do humor dele, muito compatível com o meu. Aliás, em português acho que nem se vai notar a diferença... (ai! espero que os grandes chefes não estejam a ler isto). Há muito que me interessava conhecê-lo pessoalmente, e um dia destes ainda hei-de ir ao café berlinense que ele transforma em discoteca russa uma vez por mês.
Ora bem: às vezes desconfio que uma espécie de inteligência superior dirige o Universo e gosta muito de mim. Podem crer. Por exemplo: no fim-de-semana passado fui para a tal ilha no Báltico com alguma pena de não ficar em Berlim, porque no sábado o Kaminer ia ser outra vez o DJ da discoteca russa. Eis senão quando, ao passear pela rua principal de uma cidadezinha a meia dúzia de metros do fim do mundo, vejo num cartaz que ele ia estar no teatro local a ler passagens do seu livro mais recente.
Impressionante: os bilhetes custavam 17 euros, e o teatro, com mais de duzentos lugares, estava completamente lotado. Isto deve ser mesmo um povo de poetas e pensadores: gente disposta a pagar o equivalente a três bilhetes de cinema para ouvir um homem ler umas coisitas que escreveu. Embora ele seja bem mais que um escritor - ele é uma máquina de fazer rir as pessoas. Há momentos em que tenho pena dos meus amigos que não entendem alemão, e aquele serão foi um deles, porque o Kaminer, em palco, faz Kabarett do melhor.
Ao entrar no teatro pedi se podia falar com o escritor. E (milagres da província!) chamaram logo a organizadora da sessão, que era também a jornalista da terra. Quando soube que eu estava a traduzir um livro dele, levou-me para o seu camarim. Caí-lhe em cima do jantar - estava a comer uma banana -, engoliu rapidamente um bocado para me fazer um sorriso e combinámos um encontro em Berlim. No intervalo deu-me um CD com música da sua discoteca russa, no princípio da segunda parte contou ao público que estava ali presente "a minha tradutora portuguesa", e no final a jornalista fez fotografias para adornar a notícia no jornal local. Eu ainda me lembrei de uma pose fantástica como vi uma vez ao Saramago com a sua tradutora de alemão, mas ele queria era meter-se no carro e voltar para Berlim, a quase três horas de caminho, de modo que pôs a sua cara de frete nº 3, e pronto. Clic, clic, adeus.
Adeus, quais quê! Até breve. Amanhã vamos tomar um café para falar do trabalho.
E agora estou a ler algumas das suas entrevistas, já vi que dizem que é parecido com o George Clooney (hehehe, olhem a minha sorte: dois em um!).
O próximo projecto é aprender a dançar aquelas músicas muito tipocomodirei do CD que me deu. A ver se o youtube me ajuda a encontrar aulas de folclore do Cáucaso, algo me diz que é para ir por aí.
preciso de um novo dicionário, porque nos que tenho faltam palavras suficientemente fortes para exprimir o nojo que isto me faz
Isto:
Publicada por Pedro Arroja
Nem sei o que me causa mais asco: se a aleivosia desta insinuação, se os argumentos da defesa na caixa de comentários, do género: "olhe que ele não é bem judeu".
Mas é um óptimo exemplo para se debater a liberdade de expressão e os seus limites.
Outro dia o farei - hoje não vou por aí, apetece-me antes delirar um bocadinho: onde estaria a cultura portuguesa se dela retirássemos todos os contributos culturais dos judeus? Imagine-se por exemplo a nossa literatura sem Camilo Castelo Branco, Fernando Pessoa, Herberto Helder.
- Ah, mas esses não são bem judeus...
O Pedro Arroja mandou mais uma vez a bola à trave. Pois ele não percebeu ainda que a verdadeira ameaça à nossa excelente cultura imensamente católica são os protestantes? Sim, esses que rejeitam o culto dos santos e o marianismo. Sim, esses herdeiros ideológicos dos terroristas que andaram a deitar fogo às igrejas onde se guardavam tesouros de arte medieval insubstituíveis. Estamos cercados, é o que vos digo, mas resistiremos. Assim nos ajude e por nós vele Santa Maria, mãe de Deus.
Para já, para já, e para cortar todos os riscos pela raíz, avisem a troika, a Merkel (ai! é protestante! estamos perdidos...), ou lá quem manda no país: na Secretaria de Estado da Cultura só queremos padres, e de preferência dos mais ortodoxos. Que isto é um país cristão e imensamente católico, e há que velar pela imutabilidade das ideias que o Pedro Arroja acha que são as nossas. Valha-lhe a minha Nossa Senhora.
29 Agosto 2011
fantástico
Portugal é um país fantástico e a cultura católica uma cultura extraordinariamente aberta. País de cultura católica por excelência, à frente da Secretaria de Estado da Cultura (ex-Ministério da Cultura) tem agora um judeu.
Um judeu a definir a política cultural de um país cristão e imensamente católico ... só se fôr para a destruir.
Nem sei o que me causa mais asco: se a aleivosia desta insinuação, se os argumentos da defesa na caixa de comentários, do género: "olhe que ele não é bem judeu".
Mas é um óptimo exemplo para se debater a liberdade de expressão e os seus limites.
Outro dia o farei - hoje não vou por aí, apetece-me antes delirar um bocadinho: onde estaria a cultura portuguesa se dela retirássemos todos os contributos culturais dos judeus? Imagine-se por exemplo a nossa literatura sem Camilo Castelo Branco, Fernando Pessoa, Herberto Helder.
- Ah, mas esses não são bem judeus...
O Pedro Arroja mandou mais uma vez a bola à trave. Pois ele não percebeu ainda que a verdadeira ameaça à nossa excelente cultura imensamente católica são os protestantes? Sim, esses que rejeitam o culto dos santos e o marianismo. Sim, esses herdeiros ideológicos dos terroristas que andaram a deitar fogo às igrejas onde se guardavam tesouros de arte medieval insubstituíveis. Estamos cercados, é o que vos digo, mas resistiremos. Assim nos ajude e por nós vele Santa Maria, mãe de Deus.
Para já, para já, e para cortar todos os riscos pela raíz, avisem a troika, a Merkel (ai! é protestante! estamos perdidos...), ou lá quem manda no país: na Secretaria de Estado da Cultura só queremos padres, e de preferência dos mais ortodoxos. Que isto é um país cristão e imensamente católico, e há que velar pela imutabilidade das ideias que o Pedro Arroja acha que são as nossas. Valha-lhe a minha Nossa Senhora.
29 agosto 2011
e por falar em dia dos prodígios...
Esta manhã entraram-me dois simpáticos rapazes casa adentro. Andam a atravessar a Europa à boleia, e para a etapa de Berlim lembraram-se de nós. Ora essa, não custa nada, é um prazer.
Entraram, deixaram as coisas, saíram de novo. Disse-lhes que voltassem depois das oito, que antes disso eu tinha coro.
Por volta das seis da tarde, indo eu de carro a caminho da cantoria das segundas, apanhei um daqueles semáforos quase a ficar vermelhos, e parei. De facto podia ter forçado um bocadito, mas decidi ser mesmo cumpridora (já disse que moro há mais de 20 anos na Alemanha?) e fui imediatamente recompensada: havia dois simpáticos e lindos rapazes que estavam à espera de atravessar a rua. Ah, espera aí, eu acho que já vi estas caras algures... eram eles. Apitei, esbracejei de tal modo que toda a gente que estava a atravessar a rua achou que eu os queria levar de carro, mas só trouxe esses dois. Iam a caminho do memorial do Holocausto, disseram, e iam na direcção completamente errada.
Levei-os ao memorial, segui para o coro, depois eles regressaram a pé para casa (foram mais de cinco quilómetros, valentes!, ah, redimiram todos os portugueses que se queixam amargamente dos duzentos ou trezentos metros que os faço andar nesta cidade), jantaram, fizeram uns joguinhos de xadrez com o Matthias mas não digo quem ganhou, e depois pegaram nas guitarras da Christina e deram aqui um belíssimo concerto. O Joachim já disse que lhes empresta um chapéu, com o que ganharem nas praças do nosso bairro vão poder voltar para casa de avião.
O prodígio (para além daquela coincidência incrível de eles não terem sido atropelados por mim no tal semáforo) é que uma pessoa diz que sim a um amigo que pediu alojamento por uns dias para o filho em viagem, e lhe entram na vida duas pessoas que são uma enorme presente.
Entraram, deixaram as coisas, saíram de novo. Disse-lhes que voltassem depois das oito, que antes disso eu tinha coro.
Por volta das seis da tarde, indo eu de carro a caminho da cantoria das segundas, apanhei um daqueles semáforos quase a ficar vermelhos, e parei. De facto podia ter forçado um bocadito, mas decidi ser mesmo cumpridora (já disse que moro há mais de 20 anos na Alemanha?) e fui imediatamente recompensada: havia dois simpáticos e lindos rapazes que estavam à espera de atravessar a rua. Ah, espera aí, eu acho que já vi estas caras algures... eram eles. Apitei, esbracejei de tal modo que toda a gente que estava a atravessar a rua achou que eu os queria levar de carro, mas só trouxe esses dois. Iam a caminho do memorial do Holocausto, disseram, e iam na direcção completamente errada.
Levei-os ao memorial, segui para o coro, depois eles regressaram a pé para casa (foram mais de cinco quilómetros, valentes!, ah, redimiram todos os portugueses que se queixam amargamente dos duzentos ou trezentos metros que os faço andar nesta cidade), jantaram, fizeram uns joguinhos de xadrez com o Matthias mas não digo quem ganhou, e depois pegaram nas guitarras da Christina e deram aqui um belíssimo concerto. O Joachim já disse que lhes empresta um chapéu, com o que ganharem nas praças do nosso bairro vão poder voltar para casa de avião.
O prodígio (para além daquela coincidência incrível de eles não terem sido atropelados por mim no tal semáforo) é que uma pessoa diz que sim a um amigo que pediu alojamento por uns dias para o filho em viagem, e lhe entram na vida duas pessoas que são uma enorme presente.
eu não vou boicotar o Sol, mas em compensação o sol...
Isto até parece a História: repete-se, repete-se, repete-se.
Impressionante como o cenário desta fotografia é igualzinho ao do ano passado, até a mancha de sol ao fundo da praia é no mesmo sítio. Parece que a troika também andou a cortar os fundos do serviço de turismo de Usedom, já nem conseguem pagar cenários novos nem nada. Tsss tsss tsss.
Com nuvens assim baixas, começo a intuir de onde vem a expressão "o tecto do mundo": por cima do Pólo Norte as nuvens formam uma espécie de guarda-chuva sobre a terra. Quanto mais a sul se está, mais altas elas se apresentam.
(não, não disse nada)
As perigosas ondas do mar Báltico continuam iguais a si próprias:
Impressionante como o cenário desta fotografia é igualzinho ao do ano passado, até a mancha de sol ao fundo da praia é no mesmo sítio. Parece que a troika também andou a cortar os fundos do serviço de turismo de Usedom, já nem conseguem pagar cenários novos nem nada. Tsss tsss tsss.
Com nuvens assim baixas, começo a intuir de onde vem a expressão "o tecto do mundo": por cima do Pólo Norte as nuvens formam uma espécie de guarda-chuva sobre a terra. Quanto mais a sul se está, mais altas elas se apresentam.
(não, não disse nada)
As perigosas ondas do mar Báltico continuam iguais a si próprias:
Um mar assim convida à aventura: lançámo-nos a nado em busca do caminho marítimo para São Petersburgo. Sempre em frente, quando se vir terra é lá.
Na praia ficou uma mulher a observar os intrépidos nadadores. Parecia um poema épico. Mas depois começaram a juntar-se nuvens de chuva, e resolvemos dar meia volta para chegar ao albergue a horas do almoço.
Resumindo numa frase só: foi um belo fim-de-semana.
Apesar da falta de sol, da chuva, do ventinho, da comida assim mais-ou-menos: o mais importante é o que acontece entre as pessoas, e não é todos os dias que um grupo de maduros se atira ao mar de 17º quando cá fora estão apenas 21º. E se farta de rir com isso.
e então a formiguinha olhou para trás e disse ao elefante: "ena, estamos a levantar muita poeira!"
Só para dizer que o Lei Seca voltou de férias, e pelos lidos desconfio que foram muito boas.
(aposto que estavam todos à espera que eu desse a novidade, porque sem a minha ajuda ninguém reparava...)
***
E também para dizer que no dia em que um filho do meu bloguista preferido
(desculpem todos os outros, mas não há amor como o primeiro) (nem como o segundo)
me entra pela casa dentro, descubro que outra senhora desses bons velhos tempos resolveu dar um ar da sua graça. Isto parece o dia dos prodígios, vamos ver como continua.
(aposto que estavam todos à espera que eu desse a novidade, porque sem a minha ajuda ninguém reparava...)
***
E também para dizer que no dia em que um filho do meu bloguista preferido
(desculpem todos os outros, mas não há amor como o primeiro) (nem como o segundo)
me entra pela casa dentro, descubro que outra senhora desses bons velhos tempos resolveu dar um ar da sua graça. Isto parece o dia dos prodígios, vamos ver como continua.
26 agosto 2011
indo eu, indo eu, a caminho de Usedom...
...que é uma ilha no mar Báltico. Dois dias sem internet (mas com sol, espera-se!)
Bom fim-de-semana!
Bom fim-de-semana!
prodígios vários
Ontem vi a Rita a andar sobre a água. E os peixinhos vermelhos vinham ao seu encontro, foi muito bonito.
***
Foi na festa de inauguração do Hotel Pestana de Berlim. Eu olho para a sua localização e pergunto-me porque é que foi preciso virem uns portugueses a Berlim para perceberem que aquele era o local perfeito para um hotel. Se os alemães não têm olhos na cara? Não, parece que não. Parece que ovos de Colombo é especialidade só da Ibéria.
À entrada do hotel há uma instalação de vídeo interactiva: as pessoas caminham sobre imagens de água, e sob os seus passos nascem pequenas ondas. Foi aí que vi a Rita, e passados alguns momentos a cena mais engraçada da noite: alguns dos convidados de honra (de fatos impecáveis, meias impecáveis, sapatos impecáveis, tudo como se espera numa recepção desta importância) arregaçaram as calças e desataram a saltitar sobre a imagem, muito divertidos, como rapazinhos. É sempre uma delícia quando um VIP se dá ao gosto de ser humano.
***
Foi na festa de inauguração do Hotel Pestana de Berlim. Eu olho para a sua localização e pergunto-me porque é que foi preciso virem uns portugueses a Berlim para perceberem que aquele era o local perfeito para um hotel. Se os alemães não têm olhos na cara? Não, parece que não. Parece que ovos de Colombo é especialidade só da Ibéria.
À entrada do hotel há uma instalação de vídeo interactiva: as pessoas caminham sobre imagens de água, e sob os seus passos nascem pequenas ondas. Foi aí que vi a Rita, e passados alguns momentos a cena mais engraçada da noite: alguns dos convidados de honra (de fatos impecáveis, meias impecáveis, sapatos impecáveis, tudo como se espera numa recepção desta importância) arregaçaram as calças e desataram a saltitar sobre a imagem, muito divertidos, como rapazinhos. É sempre uma delícia quando um VIP se dá ao gosto de ser humano.
troque o seu psicanalista por uma bicicleta
O título do meu post é uma piadinha, mas o texto que o inspirou é muito bom. Do Luís Januário, no blogue A Natureza do Mal.
Um texto tão bom, que o vou copiar para aqui, para memória futura:
publicada por Luís às 10:22 AM 
Um texto tão bom, que o vou copiar para aqui, para memória futura:
24 Agosto 2011
Bicicleta
O episódio é contado por Julian Barnes num dos seus livros recentes, "Nada a Temer", na tradução portuguesa. Bertrand Russell descreve assim o fim do seu primeiro casamento: "Uma tarde fui andar de bicicleta, e de repente, quando passava por uma estrada no meio do campo, percebi que já não amava Alys. Até esse momento, não fazia sequer ideia de que o meu amor por ela estivesse a diminuir." Barnes conclui exclamando: "Afastem os filósofos das bicicletas."
Bertrand Russell não foi apenas um grande filósofo, sobretudo na área da lógica. Foi igualmente um matemático, um activista social e um publicista que tornou acessíveis a públicos alargados descobertas relevantes do seu tempo. Russell nasceu em 1872, na aristocracia inglesa, e por morte dos pais foi entregue à avó, com o objectivo falhado de evitar que se cumprisse a última vontade do progenitor: a de o pequeno Bertrand ser educado no agnosticismo.
O passeio de bicicleta em que Russell teve a epifania do desamor a Alys aconteceu em 1901. Nesse ano, Bertrand Russell ensinava no Trinity College e levava sete anos de casamento com Alys P. Smith. A bicicleta era o meio habitual de transporte, nesse início do século XX.
Na biografia romanceada de H. G. Wells, David Lodge conta que foi igualmente num passeio de bicicleta nos campos do Surrey, por volta de 1900, que o romancista percebeu que acabara o seu tempo de fidelidade conjugal e se passou a ver, sem vergonha, como um corredor de mulheres, um anjo do "amor livre". O romance de ficção que celebrizou Wells foi "A Máquina do Tempo", editado em 1895, traduzido para quase todas as línguas, repetidas vezes adaptado à rádio e ao cinema. Quando em "A Man of Parts" (assim se chama a ficção de David Lodge) Wells discorre sobre a máquina do tempo, percebe que a imaginou como uma bicicleta. E aceita essa evidência sem desagrado.
"Era a idade da bicicleta", diz ele "E era poético, quase mágico."
A "Autobiografia" de Bertrand Russell tem quatro volumes e mais de mil páginas. A primeira é quase comovente, particularmente quando ele declara que perseguiu durante toda a vida uma ideia "do amor, o conhecimento e a piedade pelo sofrimento da Humanidade". Mas, naquilo que já é chamado o "plebiscito googliano", é provavelmente a passagem da bicicleta que aparecerá mais citada.
Detenhamo-nos então um momento no passeio de bicicleta. Por volta dos anos 50, a mulher que viria a ser minha mãe era professora primária numa aldeia da Beira Interior, à época rodeada de castanheiros. Ao fim-de-semana, o meu pai viajava de comboio até à estação da vila mais próxima, onde o chefe lhe guardava uma bicicleta. Seguia-se uma hora e meia de caminho de serra. Imagino que nessas viagens solitárias tomou várias decisões, viu com alguma claridade aspectos da sua vida cujas dimensões desconhecia. Aconteceu o mesmo a milhões de homens e mulheres, a caminho das fábricas, dos empregos, dos campos. Para quase todos era um dos poucos momentos que, verdadeiramente, lhes pertenciam. Um bem privado, um momento filosófico. Alguns anos depois reencontrei, num sótão, a bicicleta. Era uma pasteleira Champion, com travões de alavanca, que depois foi restaurada e pintada por um mecânico do Terreiro da Erva. Andei nela por caminhos de terra vermelha descritos por Carlos de Oliveira num dos textos que compõem o estranho livro chamado "O Aprendiz de Feiticeiro". Desde essa data que sei o que é um cérebro que se solta quando o esforço físico se intensifica e as pernas libertam o veneno láctico. Sei do que ele é capaz. De como as imagens dos que nos são próximos passam por um crivo estreito, um líquido revelador, um escrutínio que não convocámos, nem desejámos. E como, no final de um passeio, nos sentimos outros, tão distantes do ser ingénuo que iniciou a pedalada.
Bem-aventurados os que são feitos de uma só peça, uma só fé, uma certeza durável. Mas, por precaução, mantenham-nos afastados das bicicletas.
(publicado no jornal i, a 10.08.2011. Hoje, na mesma coluna do i, Babi Yar.)
Bertrand Russell não foi apenas um grande filósofo, sobretudo na área da lógica. Foi igualmente um matemático, um activista social e um publicista que tornou acessíveis a públicos alargados descobertas relevantes do seu tempo. Russell nasceu em 1872, na aristocracia inglesa, e por morte dos pais foi entregue à avó, com o objectivo falhado de evitar que se cumprisse a última vontade do progenitor: a de o pequeno Bertrand ser educado no agnosticismo.
O passeio de bicicleta em que Russell teve a epifania do desamor a Alys aconteceu em 1901. Nesse ano, Bertrand Russell ensinava no Trinity College e levava sete anos de casamento com Alys P. Smith. A bicicleta era o meio habitual de transporte, nesse início do século XX.
Na biografia romanceada de H. G. Wells, David Lodge conta que foi igualmente num passeio de bicicleta nos campos do Surrey, por volta de 1900, que o romancista percebeu que acabara o seu tempo de fidelidade conjugal e se passou a ver, sem vergonha, como um corredor de mulheres, um anjo do "amor livre". O romance de ficção que celebrizou Wells foi "A Máquina do Tempo", editado em 1895, traduzido para quase todas as línguas, repetidas vezes adaptado à rádio e ao cinema. Quando em "A Man of Parts" (assim se chama a ficção de David Lodge) Wells discorre sobre a máquina do tempo, percebe que a imaginou como uma bicicleta. E aceita essa evidência sem desagrado.
"Era a idade da bicicleta", diz ele "E era poético, quase mágico."
A "Autobiografia" de Bertrand Russell tem quatro volumes e mais de mil páginas. A primeira é quase comovente, particularmente quando ele declara que perseguiu durante toda a vida uma ideia "do amor, o conhecimento e a piedade pelo sofrimento da Humanidade". Mas, naquilo que já é chamado o "plebiscito googliano", é provavelmente a passagem da bicicleta que aparecerá mais citada.
Detenhamo-nos então um momento no passeio de bicicleta. Por volta dos anos 50, a mulher que viria a ser minha mãe era professora primária numa aldeia da Beira Interior, à época rodeada de castanheiros. Ao fim-de-semana, o meu pai viajava de comboio até à estação da vila mais próxima, onde o chefe lhe guardava uma bicicleta. Seguia-se uma hora e meia de caminho de serra. Imagino que nessas viagens solitárias tomou várias decisões, viu com alguma claridade aspectos da sua vida cujas dimensões desconhecia. Aconteceu o mesmo a milhões de homens e mulheres, a caminho das fábricas, dos empregos, dos campos. Para quase todos era um dos poucos momentos que, verdadeiramente, lhes pertenciam. Um bem privado, um momento filosófico. Alguns anos depois reencontrei, num sótão, a bicicleta. Era uma pasteleira Champion, com travões de alavanca, que depois foi restaurada e pintada por um mecânico do Terreiro da Erva. Andei nela por caminhos de terra vermelha descritos por Carlos de Oliveira num dos textos que compõem o estranho livro chamado "O Aprendiz de Feiticeiro". Desde essa data que sei o que é um cérebro que se solta quando o esforço físico se intensifica e as pernas libertam o veneno láctico. Sei do que ele é capaz. De como as imagens dos que nos são próximos passam por um crivo estreito, um líquido revelador, um escrutínio que não convocámos, nem desejámos. E como, no final de um passeio, nos sentimos outros, tão distantes do ser ingénuo que iniciou a pedalada.
Bem-aventurados os que são feitos de uma só peça, uma só fé, uma certeza durável. Mas, por precaução, mantenham-nos afastados das bicicletas.
(publicado no jornal i, a 10.08.2011. Hoje, na mesma coluna do i, Babi Yar.)
Etiquetas: A bicicleta de Russel
25 agosto 2011
a dívida americana em perspectiva
Um post muito bom do António P.: a dívida americana em perspectiva.
(em bonecos, queria ele dizer - vão lá, está em estrangeiro mas os bonecos percebem-se muito bem)
(em bonecos, queria ele dizer - vão lá, está em estrangeiro mas os bonecos percebem-se muito bem)
eu não vou boicotar o semanário Sol
Recebi no facebook um convite para boicotar o semanário Sol devido a este texto de José António Saraiva.
Não o vou fazer, por duas razões:
- nunca comprei o semanário Sol, pelo que dizer agora que o vou boicotar era uma grande piada para a insider que há em mim;
- a liberdade de expressão existe para promover o debate de ideias - e é o debate que nos faz avançar.
Ora então, por partes:
1. À data em que este artigo de opinião foi escrito, o casamento de pessoas do mesmo sexo já era permitido na Holanda há dez anos, na Bélgica há oito, em Massachusetts (EUA) há sete, na Espanha e no Canadá há seis. Nos últimos cinco anos, muitos outros estados se juntaram a essa lista. Em Portugal, a respectiva lei foi aprovada há mais de um ano - e após um intenso debate.
Ou seja: hoje em dia, qualquer pessoa minimamente informada que leia sobre um casal em que ambos os cônjuges têm nomes masculinos, não precisa de ler segunda vez para verificar se leu bem. Pode concluir logo à primeira leitura que se trata de um casal de pessoas do mesmo sexo.
2. "Separado? Mas os gays, que travaram uma luta tão grande, tão longa e tão dura para poderem casar-se, separam-se afinal com a mesma facilidade dos outros casais? Não seria normal que, pelo menos nos primeiros tempos de vigência da nova lei, procurassem ser exemplares, até para provarem aos opositores que as suas convicções eram fortes e sua luta era justa?"
Sim, os gays separam-se afinal com a mesma facilidade dos outros casais. O que está em causa é a igualdade: o direito de casar, e o direito de se separar com a mesma facilidade dos outros casais.
(nesta frase, gosto especialmente da palavra "facilidade" - não fazia ideia que os casais heterossexuais se separavam com facilidade, o que pressupõe uma certa leviandade na decisão de casar - e eu a pensar que os heterossexuais levavam essa instituição muito a sério!)
E não, não seria normal que, pelo menos nos primeiros tempos de vigência da nova lei, procurassem ser exemplares. Um casamento não é uma bandeira, é um acto fundado no amor. Se a relação não funciona e não se lhe vê futuro, o mais normal é que se desfaça o casamento: por respeito a si próprio, ao outro membro do casal e até à própria instituição.
Surpreende-me que alguém sequer imagine que se possa prolongar o vínculo do casamento por motivos exteriores à relação, mascarando e pervertendo a sua verdade.
3. "Acresce que um dos membros do ‘casal’, Jorge Nuno de Sá, na altura deputado, pessoa com alguma notoriedade social, ao assumir o risco de tornar pública a sua homossexualidade e o seu amor por um homem, parecia querer dizer a todos que a decisão de se casar fora devidamente amadurecida. Ora, depois disso, qual o sentido de se separar ao fim de meia dúzia de meses?"
Acontece nas melhores famílias. Alguém precisa de exemplos?
4. "Mas a leitura de mais pormenores sobre o ‘casal’ ajuda a lançar alguma luz sobre a história. O ainda marido (ou mulher?) de Nuno de Sá é um massagista de nacionalidade venezuelana, de nome Carlos Eduardo Yanez Marcano (e não Maceno como dizia o DN), com menos 10 anos do que ele. Perante este bilhete de identidade, compreendem-se melhor as zangas, as agressões – e finalmente a lavagem de roupa suja na praça pública."
Depois do conselho às raparigas portuguesas para pensarem duas vezes antes de casar com muçulmanos, vem o conselho aos rapazes portugueses para que pensem duas vezes antes de casar com estrangeiros 10 anos mais novos e com profissões mal remuneradas. Atentem no aviso que vos é feito: podem meter-se num monte de sarilhos!
Caramba, está cada vez mais difícil escolher a pessoa certa e infalível para casar.
Agora, a sério: não caia na tentação de generalizar, José António Saraiva. Não venha com insinuações sobre os sul-americanos de baixos rendimentos que são mais novos que o parceiro. Olhe que o Ben Kingsley pode não achar muita graça.
5. Que nome dar a um dos elementos de um casal de homens: marido ou mulher? É uma questão complicada, reconheço, porque nos habituámos a dizer casamento-marido-mulher, e agora é preciso construir novos troços nas auto-estradas dos neurónios. Boas notícias para todos: consta que essas obras nas auto-estradas cerebrais são um óptimo exercício para prevenir o Alzheimer.
Quanto ao mais, esclareça-se que um marido é um cônjuge do sexo masculino. Não há que hesitar.
Porquê chamar-lhe mulher? Um homem não é uma mulher (sim, eu sei: foi a lapalissade do dia). Pese embora a polissemia do termo "mulher", parece-me que dizer que um homem é a mulher de outro comporta o seu quê de chacota e humilhação premeditadas, atitudes que convinha evitar nos discursos que se pretendem construtivos, respeitadores e pacíficos.
Porque (cá vamos nós fazer uma pequena revisão da matéria dada) a Democracia defende a liberdade de expressão não para que cada um diga tudo o que lhe apetece, mas para que as suas ideias possam enriquecer o debate público e alargar os horizontes da sociedade. Esse direito pressupõe a aceitação dos princípios básicos da mesma Democracia, nomeadamente o respeito pela dignidade do ser humano.
6. "As palavras que usamos têm um significado que o tempo e o uso foram consolidando – e ‘casamento’ na nossa civilização quer dizer a união entre um homem e uma mulher, ou seja, o acto fundador de uma família. Querer que a palavra tenha outros significados é uma aberração que põe em causa as próprias referências do meio em que vivemos."
O significado das palavras não é imutável. O tempo e o uso tanto consolidam como transformam. Na nossa civilização (atenção: já vamos na segunda década do séc.XXI) o casamento está cada vez mais assente no aspecto afectivo.
Olhemos para a História, observemos como foi evoluindo o modo como a sociedade entende esta instituição. Porquê parar algures em meados do século passado, porquê recusar à sociedade o direito de se continuar a transformar? Concretamente: se nos nossos dias o elemento fundador do casamento é o amor, porquê recusá-lo aos casais do mesmo sexo?
Olhemos também para as contradições do nosso presente: o casamento (heterossexual) é muitas vezes usado para fins diferentes daqueles que se diz serem a sua essência, o que põe em causa as referências do meio em que vivemos. Pensemos no casamento tipo golpe do baú, no casamento entre o estudante de vinte anos e a velhota que lhe subaluga o quarto, no casamento para sair finalmente da casa dos pais, ...
7. "(...) não é necessário pôr em causa as nossas referências nem baralhar os nossos pobres espíritos.
Nem – já agora – complicar a vida aos pobres jornalistas, pondo-os a pensar se estará certo dizer ‘o ex-marido de Jorge Nuno de Sá’."
"baralhar os nossos pobres espíritos" e "complicar a vida aos pobres jornalistas, pondo-os a pensar"
Homem, porque não avisou logo no princípio? Poupava-me o trabalho de o levar a sério!
Não o vou fazer, por duas razões:
- nunca comprei o semanário Sol, pelo que dizer agora que o vou boicotar era uma grande piada para a insider que há em mim;
- a liberdade de expressão existe para promover o debate de ideias - e é o debate que nos faz avançar.
Ora então, por partes:
1. À data em que este artigo de opinião foi escrito, o casamento de pessoas do mesmo sexo já era permitido na Holanda há dez anos, na Bélgica há oito, em Massachusetts (EUA) há sete, na Espanha e no Canadá há seis. Nos últimos cinco anos, muitos outros estados se juntaram a essa lista. Em Portugal, a respectiva lei foi aprovada há mais de um ano - e após um intenso debate.
Ou seja: hoje em dia, qualquer pessoa minimamente informada que leia sobre um casal em que ambos os cônjuges têm nomes masculinos, não precisa de ler segunda vez para verificar se leu bem. Pode concluir logo à primeira leitura que se trata de um casal de pessoas do mesmo sexo.
2. "Separado? Mas os gays, que travaram uma luta tão grande, tão longa e tão dura para poderem casar-se, separam-se afinal com a mesma facilidade dos outros casais? Não seria normal que, pelo menos nos primeiros tempos de vigência da nova lei, procurassem ser exemplares, até para provarem aos opositores que as suas convicções eram fortes e sua luta era justa?"
Sim, os gays separam-se afinal com a mesma facilidade dos outros casais. O que está em causa é a igualdade: o direito de casar, e o direito de se separar com a mesma facilidade dos outros casais.
(nesta frase, gosto especialmente da palavra "facilidade" - não fazia ideia que os casais heterossexuais se separavam com facilidade, o que pressupõe uma certa leviandade na decisão de casar - e eu a pensar que os heterossexuais levavam essa instituição muito a sério!)
E não, não seria normal que, pelo menos nos primeiros tempos de vigência da nova lei, procurassem ser exemplares. Um casamento não é uma bandeira, é um acto fundado no amor. Se a relação não funciona e não se lhe vê futuro, o mais normal é que se desfaça o casamento: por respeito a si próprio, ao outro membro do casal e até à própria instituição.
Surpreende-me que alguém sequer imagine que se possa prolongar o vínculo do casamento por motivos exteriores à relação, mascarando e pervertendo a sua verdade.
3. "Acresce que um dos membros do ‘casal’, Jorge Nuno de Sá, na altura deputado, pessoa com alguma notoriedade social, ao assumir o risco de tornar pública a sua homossexualidade e o seu amor por um homem, parecia querer dizer a todos que a decisão de se casar fora devidamente amadurecida. Ora, depois disso, qual o sentido de se separar ao fim de meia dúzia de meses?"
Acontece nas melhores famílias. Alguém precisa de exemplos?
4. "Mas a leitura de mais pormenores sobre o ‘casal’ ajuda a lançar alguma luz sobre a história. O ainda marido (ou mulher?) de Nuno de Sá é um massagista de nacionalidade venezuelana, de nome Carlos Eduardo Yanez Marcano (e não Maceno como dizia o DN), com menos 10 anos do que ele. Perante este bilhete de identidade, compreendem-se melhor as zangas, as agressões – e finalmente a lavagem de roupa suja na praça pública."
Depois do conselho às raparigas portuguesas para pensarem duas vezes antes de casar com muçulmanos, vem o conselho aos rapazes portugueses para que pensem duas vezes antes de casar com estrangeiros 10 anos mais novos e com profissões mal remuneradas. Atentem no aviso que vos é feito: podem meter-se num monte de sarilhos!
Caramba, está cada vez mais difícil escolher a pessoa certa e infalível para casar.
Agora, a sério: não caia na tentação de generalizar, José António Saraiva. Não venha com insinuações sobre os sul-americanos de baixos rendimentos que são mais novos que o parceiro. Olhe que o Ben Kingsley pode não achar muita graça.
5. Que nome dar a um dos elementos de um casal de homens: marido ou mulher? É uma questão complicada, reconheço, porque nos habituámos a dizer casamento-marido-mulher, e agora é preciso construir novos troços nas auto-estradas dos neurónios. Boas notícias para todos: consta que essas obras nas auto-estradas cerebrais são um óptimo exercício para prevenir o Alzheimer.
Quanto ao mais, esclareça-se que um marido é um cônjuge do sexo masculino. Não há que hesitar.
Porquê chamar-lhe mulher? Um homem não é uma mulher (sim, eu sei: foi a lapalissade do dia). Pese embora a polissemia do termo "mulher", parece-me que dizer que um homem é a mulher de outro comporta o seu quê de chacota e humilhação premeditadas, atitudes que convinha evitar nos discursos que se pretendem construtivos, respeitadores e pacíficos.
Porque (cá vamos nós fazer uma pequena revisão da matéria dada) a Democracia defende a liberdade de expressão não para que cada um diga tudo o que lhe apetece, mas para que as suas ideias possam enriquecer o debate público e alargar os horizontes da sociedade. Esse direito pressupõe a aceitação dos princípios básicos da mesma Democracia, nomeadamente o respeito pela dignidade do ser humano.
6. "As palavras que usamos têm um significado que o tempo e o uso foram consolidando – e ‘casamento’ na nossa civilização quer dizer a união entre um homem e uma mulher, ou seja, o acto fundador de uma família. Querer que a palavra tenha outros significados é uma aberração que põe em causa as próprias referências do meio em que vivemos."
O significado das palavras não é imutável. O tempo e o uso tanto consolidam como transformam. Na nossa civilização (atenção: já vamos na segunda década do séc.XXI) o casamento está cada vez mais assente no aspecto afectivo.
Olhemos para a História, observemos como foi evoluindo o modo como a sociedade entende esta instituição. Porquê parar algures em meados do século passado, porquê recusar à sociedade o direito de se continuar a transformar? Concretamente: se nos nossos dias o elemento fundador do casamento é o amor, porquê recusá-lo aos casais do mesmo sexo?
Olhemos também para as contradições do nosso presente: o casamento (heterossexual) é muitas vezes usado para fins diferentes daqueles que se diz serem a sua essência, o que põe em causa as referências do meio em que vivemos. Pensemos no casamento tipo golpe do baú, no casamento entre o estudante de vinte anos e a velhota que lhe subaluga o quarto, no casamento para sair finalmente da casa dos pais, ...
7. "(...) não é necessário pôr em causa as nossas referências nem baralhar os nossos pobres espíritos.
Nem – já agora – complicar a vida aos pobres jornalistas, pondo-os a pensar se estará certo dizer ‘o ex-marido de Jorge Nuno de Sá’."
"baralhar os nossos pobres espíritos" e "complicar a vida aos pobres jornalistas, pondo-os a pensar"
Homem, porque não avisou logo no princípio? Poupava-me o trabalho de o levar a sério!
24 agosto 2011
o regresso de um mito
Lembram-se daquele post "bela e sensual no seu vestido vermelho" que valeu centenas de visitas novas a este blogue? (desde já peço desculpa pelo desapontamento que sofreram quando aqui chegaram)
Bom: era só para dizer que encontrei o vestido vermelho, e mais a garrafa de vinho (estava bom, obrigada), e amanhã por via de um pedido irrecusável lá o levarei de passeio à inauguração do Hotel Pestana em Berlim. Ouvi dizer que vai estar cheio de jornalistas portugueses da tv e assim, e nem posso esperar pelo momento em que me apontarão um microfone à cabeça e dispararão "o que está a sentir?"
De modo que é isso: se virem na tv uma mulher dentro de um vestido vermelho a gaguejar para um microfone, sou eu.
E se virem que as outras pessoas estão todas a olhar na mesma direcção, é a Rita Dantas. Que voltou de Corfu linda como nem queiram saber.
Bom: era só para dizer que encontrei o vestido vermelho, e mais a garrafa de vinho (estava bom, obrigada), e amanhã por via de um pedido irrecusável lá o levarei de passeio à inauguração do Hotel Pestana em Berlim. Ouvi dizer que vai estar cheio de jornalistas portugueses da tv e assim, e nem posso esperar pelo momento em que me apontarão um microfone à cabeça e dispararão "o que está a sentir?"
De modo que é isso: se virem na tv uma mulher dentro de um vestido vermelho a gaguejar para um microfone, sou eu.
E se virem que as outras pessoas estão todas a olhar na mesma direcção, é a Rita Dantas. Que voltou de Corfu linda como nem queiram saber.
amizades internéticas
I.
Nas férias passadas tive o gosto de conhecer ao vivo duas pessoas que conheço há anos dos blogues: as autoras do Jonasnuts e do Segunda Língua.
Nem sei se vos diga se vos conte... que se eu dissesse tudo o que me ocorre sobre essas duas, cada uma à sua maneira, ainda ia ser preciso abrir dois clubes de fãs para gerir os "eu também queeeero!"
II.
Ontem pus um vídeo no facebook, com o texto original em sueco. Menos de uma hora depois já estava a receber a tradução feita por um "amigo facebookiano". Uma pessoa que conheço por ser amiga de amigos que também só conheço da internet. Anda-se a discutir o uso da palavra "amigo" nestes contextos, diz-se que "amizades" da internet são outra coisa. São, são. Convinha lembrar que também são isto: um semi-desconhecido que vê que eu preciso de ajuda, e gasta uma hora do seu tempo para me ajudar.
Claro que na internet também há os outros, os infelizes, os frustrados, os doentes, os que têm más intenções.
Mas: aqui para os meus lados a internet está cheia de gente boa! Gracias a la vida, etc.
Nas férias passadas tive o gosto de conhecer ao vivo duas pessoas que conheço há anos dos blogues: as autoras do Jonasnuts e do Segunda Língua.
Nem sei se vos diga se vos conte... que se eu dissesse tudo o que me ocorre sobre essas duas, cada uma à sua maneira, ainda ia ser preciso abrir dois clubes de fãs para gerir os "eu também queeeero!"
II.
Ontem pus um vídeo no facebook, com o texto original em sueco. Menos de uma hora depois já estava a receber a tradução feita por um "amigo facebookiano". Uma pessoa que conheço por ser amiga de amigos que também só conheço da internet. Anda-se a discutir o uso da palavra "amigo" nestes contextos, diz-se que "amizades" da internet são outra coisa. São, são. Convinha lembrar que também são isto: um semi-desconhecido que vê que eu preciso de ajuda, e gasta uma hora do seu tempo para me ajudar.
Claro que na internet também há os outros, os infelizes, os frustrados, os doentes, os que têm más intenções.
Mas: aqui para os meus lados a internet está cheia de gente boa! Gracias a la vida, etc.
23 agosto 2011
cenas tristes de uma campanha eleitoral
Daqui a nada há eleições em Berlim, e as ruas estão cheias dos cartazes do costume.
Do costume? Não. O NPD, partido de extrema direita, conseguiu ultrapassar o próprio mau-gosto pela direita, com um cartaz onde se vê o candidato em cima de uma motorizada e se lê "Gas geben" (literalmente: "dar gás").
É um trocadilho, claro (e eles podem dizer que só pensaram no outro significado de "Gas geben", que é "carregar no acelerador"). Mas não terá sido por acaso que alguns desses cartazes foram colocados em frente ao Museu Judaico e à Casa da Conferência de Wannsee.
As pessoas estão chocadas, o Estado pouco pode fazer. Liberdade de expressão, dizem.
"Ai ele é isso?", perguntaram os de "O Partido", uns iconoclastas que aproveitam as campanhas para meter as suas colheradas satíricas. "Então está bem", acrescentaram, e deitaram mãos à obra. Fizeram um cartaz semelhante, onde em vez do candidato na motorizada se vê uma fotografia do Haider e do carro destruído em que morreu, mantendo a frase "Gas geben".
E colaram esses cartazes por cima dos originais do NPD.
Arriscam-se a ir a tribunal por andarem a danificar cartazes eleitorais alheios. E eles todos contentes: pois se o Estado de Direito está bastante manietado nesta questão, deste modo haverá uma oportunidade de a debater, dizem.
Ideias não lhes faltam, justiça lhes seja feita. Como este cartaz, em que se troca "Gas" por "Gras" (erva) e se aconselha a fumar apenas a erva produzida por agricultores alemães felizes:
Estas reacções dão-me vontade de rir, mas é um riso com um fim de boca amargo e falso.
Sinto-me perplexa e impotente perante os sinais de abuso da liberdade de expressão para provocar e para envenenar o ambiente social.
Do costume? Não. O NPD, partido de extrema direita, conseguiu ultrapassar o próprio mau-gosto pela direita, com um cartaz onde se vê o candidato em cima de uma motorizada e se lê "Gas geben" (literalmente: "dar gás").
É um trocadilho, claro (e eles podem dizer que só pensaram no outro significado de "Gas geben", que é "carregar no acelerador"). Mas não terá sido por acaso que alguns desses cartazes foram colocados em frente ao Museu Judaico e à Casa da Conferência de Wannsee.
As pessoas estão chocadas, o Estado pouco pode fazer. Liberdade de expressão, dizem.
"Ai ele é isso?", perguntaram os de "O Partido", uns iconoclastas que aproveitam as campanhas para meter as suas colheradas satíricas. "Então está bem", acrescentaram, e deitaram mãos à obra. Fizeram um cartaz semelhante, onde em vez do candidato na motorizada se vê uma fotografia do Haider e do carro destruído em que morreu, mantendo a frase "Gas geben".
E colaram esses cartazes por cima dos originais do NPD.
Arriscam-se a ir a tribunal por andarem a danificar cartazes eleitorais alheios. E eles todos contentes: pois se o Estado de Direito está bastante manietado nesta questão, deste modo haverá uma oportunidade de a debater, dizem.
Ideias não lhes faltam, justiça lhes seja feita. Como este cartaz, em que se troca "Gas" por "Gras" (erva) e se aconselha a fumar apenas a erva produzida por agricultores alemães felizes:
Estas reacções dão-me vontade de rir, mas é um riso com um fim de boca amargo e falso.
Sinto-me perplexa e impotente perante os sinais de abuso da liberdade de expressão para provocar e para envenenar o ambiente social.
uma oportunidade perdida
Pensando na cerimónia de 21.08.2011 em Oslo, em memória das vítimas do terrorista norueguês, e observando a dignidade e a riqueza de conteúdos bem patentes nos três vídeos dos posts anteriores (I, II, III), pergunto-me porque é que isso não passou em directo nas televisões de todos os países da Europa.
Se os canais públicos tiram dias inteiros para passar casamentos reais, e várias horas para funerais de estrelas do show business, porque não lhes ocorreu transmitir esta cerimónia?
Transmitir, e mais: traduzir os discursos, contar a história por trás das músicas escolhidas. Aproveitar o momento para fazer um debate sobre a Europa e a xenofobia, o terrorismo, a defesa da Democracia.
Porque isto não lhes aconteceu a eles, à Noruega, mas a um dos nossos. Porque por estes dias os noruegueses nos têm dado grandes lições de Democracia. E porque estes temas estão no centro dos problemas com que a Europa se debate.
***
Para isto já vamos tarde. Mas que nos sirva de lição: se é para construir uma ideia sólida da Europa, muito para lá das questões financeiras e politiqueiras, é preciso criar nos espaços de informação nacional um palco comum para informação e debate sobre momentos importantes de cada um dos países da UE.
Se os canais públicos tiram dias inteiros para passar casamentos reais, e várias horas para funerais de estrelas do show business, porque não lhes ocorreu transmitir esta cerimónia?
Transmitir, e mais: traduzir os discursos, contar a história por trás das músicas escolhidas. Aproveitar o momento para fazer um debate sobre a Europa e a xenofobia, o terrorismo, a defesa da Democracia.
Porque isto não lhes aconteceu a eles, à Noruega, mas a um dos nossos. Porque por estes dias os noruegueses nos têm dado grandes lições de Democracia. E porque estes temas estão no centro dos problemas com que a Europa se debate.
***
Para isto já vamos tarde. Mas que nos sirva de lição: se é para construir uma ideia sólida da Europa, muito para lá das questões financeiras e politiqueiras, é preciso criar nos espaços de informação nacional um palco comum para informação e debate sobre momentos importantes de cada um dos países da UE.
Melissa Horn, na cerimónia de Oslo em memória das 77 vítimas do terrorista norueguês
Vejo as luzes que se acendem no porto de Kungsholmen
Vejo rapazes a chorar e raparigas de mãos dadas com eles
Vejo o homem na varanda que guarda um minuto de silêncio para si próprio
Não se pode nunca desfazer o que aconteceu naquela noite
És um dos que lá estavam quando aconteceu
Ou tens saudades de alguém que nem sabias que conhecias?
És um dos que choram quando não está ninguém a ver?
És um dos que ainda estão afectados?
Vejo-me ao espelho, os olhos vermelhos de chorar
Penso no que aconteceu, no que os levou àquilo
O meu irmão sai de casa e nunca sabemos onde vai
E eu fico com medo ao pensar que podia ter sido ele ou eu
Nunca mais jovem nem nunca mais livre
Quando é de crianças que se trata, temos o direito de tomar o partido de alguém
Mas tu sabes como é que uma pessoa se sente quando os olhos vermelhos vêem tudo negro
E penso naqueles que não conseguem hoje dormir
Quem quiser, dedique um momento do seu tempo a reflectir
Quando fizermos da dor coragem e tivermos de começar a agir
Agora, limpam-se as ruas e desaparecem todos os indícios
E continuamos a crescer, embora ele continue a ter dezasseis anos
(A tradução é uma gentileza do Vítor Santos Lucas Lindegaard, que me viu no facebook à nora com o tradutor do google e se deu ao trabalho de me ajudar. Omito aqui uma pequena ressalva que ele fez sobre a tradução de uma palavra que não se entende bem. Foi também o Vítor quem me esclareceu sobre a tragédia que está na origem desta canção - pode-se ler aqui, em inglês.)
22 agosto 2011
"para os jovens"
Poema de Nordahl Grieg escrito em 1936, inspirado pela guerra civil espanhola.
Música de Otto Mortensen.
Cantada na cerimónia de homenagem às vítimas do monstro norueguês, que decorreu ontem em Oslo.
Segue-se uma tradução literal, para inglês. (wikipedia, em inglês)
For the Youth
Surrounded by enemies,
go into your time!
Within a bloody storm -
devote yourself to fight!
Maybe you ask in fear,
uncovered, open:
with what shall I fight
what is my weapon?
Here is your defense against violence
here is your sword:
the belief in our life,
the worth of mankind.
For all our future's sake,
seek it and cultivate it,
die if you must - but:
increase it and strengthen it!
Silently rolls the grenades'
conveyor belts
Stop their drift towards death
Stop them with spirit!
War is contempt for life.
Peace is to create.
Throw your strength into it:
Death shall lose!
Love and enrich with dreams
all that was great!
Go towards the unknown
wring answers out of it.
Unbuilt powerplants,
unknown stars.
Create them, with spared lives'
bold minds!
Noble is mankind,
the earth is rich!
If there is need and hunger
it is by deceit.
Crush it! In the name of life
injustice shall fall.
Sunshine and bread and mind
belongs to all.
Then the weapons sink
powerless to the ground!
By creating human worth
we create peace.
Those who with their right arm
carry a burden,
precious and inalienable,
cannot murder.
This is our promise
from brother to brother:
We will be good to
humanity's earth.
We will take care of
the beauty, the warmth
as if we carried a child
carefully in our arms!
20 agosto 2011
dúvida existencial
Neste ano lectivo queremos mandar o Matthias para os EUA durante uns meses: para ele aprender inglês, claro, e sobretudo para abrir um pouco mais os horizontes. E, já agora, para lhe dar umas fériazinhas dos pais, que se tornaram muito difíceis desde que lhe começou a adolescência.
Finalmente encontrámos uma escola que faz o favor de o aceitar (mas nem às paredes confessarei quanto é que esse favor nos vai custar mensalmente).
(o que levanta outra questão: se o dinheiro do Estado americano não vai nem para um SNS como deve ser nem para escolas públicas, de onde lhes vem o défice monumental?)
(adiante)
Ontem estive a tentar inscrevê-lo. Mas parei completamente indecisa na pergunta: caucasian ou hispanic/latino? É que o rapaz tem passaporte alemão e cara de português. E quem diz português bem podia dizer brasileiro, ou seja, hispanic/latino.
Já agora: porque é que eles não têm um quadradinho para "ariano"?
Não é que me ajudasse muito, porque o rapaz é produto de um casamento misto (o que eu gosto destas expressões da ideologia nazi...), mas se começamos a falar destas coisas acho bem que levemos a lista até às últimas consequências. Sempre fica mais claro de que é que podemos estar a falar.
Depois li melhor, e vi que não era uma questão de aspecto físico, mas de ethnic origin. Acho que vou assinalar: "outros" - product of Europe.
Seja lá o que isso for.
A gente olha, pensa duas vezes, e dá-se conta de que estas distinções - African American, Asian / Asian American / Pacific Islander, Caucasian, etc. - estão a perder completamente o seu significado.
Por estas e por outras é que às vezes gosto muito do futuro.
Finalmente encontrámos uma escola que faz o favor de o aceitar (mas nem às paredes confessarei quanto é que esse favor nos vai custar mensalmente).
(o que levanta outra questão: se o dinheiro do Estado americano não vai nem para um SNS como deve ser nem para escolas públicas, de onde lhes vem o défice monumental?)
(adiante)
Ontem estive a tentar inscrevê-lo. Mas parei completamente indecisa na pergunta: caucasian ou hispanic/latino? É que o rapaz tem passaporte alemão e cara de português. E quem diz português bem podia dizer brasileiro, ou seja, hispanic/latino.
Já agora: porque é que eles não têm um quadradinho para "ariano"?
Não é que me ajudasse muito, porque o rapaz é produto de um casamento misto (o que eu gosto destas expressões da ideologia nazi...), mas se começamos a falar destas coisas acho bem que levemos a lista até às últimas consequências. Sempre fica mais claro de que é que podemos estar a falar.
Depois li melhor, e vi que não era uma questão de aspecto físico, mas de ethnic origin. Acho que vou assinalar: "outros" - product of Europe.
Seja lá o que isso for.
A gente olha, pensa duas vezes, e dá-se conta de que estas distinções - African American, Asian / Asian American / Pacific Islander, Caucasian, etc. - estão a perder completamente o seu significado.
Por estas e por outras é que às vezes gosto muito do futuro.
19 agosto 2011
sobre espécies em vias de extinção
(foto da internet)
Este post da Rita F. lembrou-me os meus dias de Weimar, nomeadamente uma das minhas típicas tentativas desesperadas de aguentar o mundo pelas pontas (e debalde).
No caso, tratava-se da livraria fundada em 1710, onde Goethe já fora cliente. Pois, só que desde os tempos em que Goethe lá comprava os seus livros e revistas (as revistas daquele tempo eram muito engraçadas, então as do Bertuch - o inventor do conceito Burda - eram uma gracinha) (outro dia conto o que Goethe fez ao Bertuch quando este estava a regressar da viagem de núpcias) (não comentem com ninguém, senão ainda arranjo problemas para me naturalizar alemã, mas esse Goethe era levadinho da breca), como ia dizendo, desde o tempo de Goethe, aconteceram duas ou três peripécias naquela região. Ou, mais propriamente, não aconteceram. Como, por exemplo: durante o período comunista, nenhum encarregado de loja alguma frequentou cursos de marketing e assim, enquanto a oeste a concorrência não dormia. O resultado, dez anos após a queda do muro, era desolador: algumas lojas dos locais eram sítios onde uma pessoa até perdia a pulsão de consumismo que a levara lá. E ficavam mesmo ao lado de lojas de cadeias ocidentais onde uma pessoa entrava só para ver e acabava a desgraçar-se para o mês todo.
Assim era com a livraria Hoffmann, fundada em 1710, fornecedora de Goethe. Um sítio escuro, poeirento e sem graça, mesmo ao lado da Thalia, livraria enorme de uma cadeia da Alemanha ocidental, sempre cheia de novidades, alegre e sedutora.
E que fazia eu? Ia à Thalia procurar lenha com que queimar o orçamento do mês, e depois ia à livraria ao lado, à Hoffmann, encomendar a minha perdição. Os livros chegavam no dia seguinte, eu ia buscá-los toda contentinha, sentindo que de algum modo contribuía para preservar a memória cultural de Weimar. Tipo: eu e o Goethe.
Era um caso de três em um: apoiava a economia local, ajudava a preservar a herança cultural da cidade, e palmilhava uns quilómetrozitos extra, que faz muito bem à saúde.
Mas agora, à distância que a idade me permite, questiono se isto fazia algum sentido. Porque é que as livrarias hão-de sobreviver por conta da boa vontade, direi mesmo pior, da caridade dos clientes? Porque é que não se lembram de sacudir o pó acumulado e reinventar uma maneira de existir que as torne um prazer e um vício bom? Será que o único elemento determinante do comportamento do público é o preço dos livros? (agarrem-me, que já estou a ter muitas ideias impecáveis) (agarrem a Rita Dantas, que quando eu tenho ideias impecáveis arruma logo com elas em duas penadas)
Há um pormenor no filme "you've got e-mail" que tenho dificuldade em aceitar: como é que uma livraria que era um lugar mágico para crianças, e um muito agradável ponto de encontro para as pessoas do bairro, alguma vez poderia perder para um mega mercado de livros? Não: aquela parte da história está muito mal contada.
Nos casos que observei em Weimar, era ainda mais complexo: o pessoal do leste queixava-se que era vítima da invasão dos valores capitalistas, o que era bem verdade, mas esqueciam-se de dizer que estavam a ser traídos pelos próprios antigos camaradas, esses que preferiam ir às lojas ocidentais em vez de serem mal servidos nas que tinham sobrado do período comunista. Os compradores "ocidentalizaram-se" mais depressa que os vendedores, e estes reagiam com auto vitimização e lamúrias de ó tempo volta pra trás.
18 agosto 2011
"o senhor é doutor, engenheiro, ou não é nada?"
Há muitos, muitos anos, quando eu trabalhava num organismo do Estado português, ria-me - um pouco embaraçada - desta pergunta que a telefonista fazia para saber como anunciar a pessoa: "o senhor é doutor, engenheiro, ou não é nada?"
É bem verdade que a História avança em círculos cada vez mais anedóticos.
É bem verdade que a História avança em círculos cada vez mais anedóticos.
17 agosto 2011
alto, loiro e espadaúdo
Perguntam-me por altos, loiros e espadaúdos, imaginam que os haja muito em Berlim, e só me apetece rir: com quem se foram eles meter!
Eu (se me fossem permitidas ilusões platónicas) (tenho de acrescentar isto porque o meu marido lê estes posts) seria mais fenícios baixinhos de longos cabelos esculpidos em caracóis, barba de três dias e calças largas metidas dentro das meias, como o Tintim. A baloiçar o corpo musculado numa delicada dança do ventre, do ventre e dos ombros em ritmos vertiginosos, da cabeça que parece que se soltou do corpo, das mãos em gestos de elegantíssima beleza.
Sim, voltei ao zumba.
Eu (se me fossem permitidas ilusões platónicas) (tenho de acrescentar isto porque o meu marido lê estes posts) seria mais fenícios baixinhos de longos cabelos esculpidos em caracóis, barba de três dias e calças largas metidas dentro das meias, como o Tintim. A baloiçar o corpo musculado numa delicada dança do ventre, do ventre e dos ombros em ritmos vertiginosos, da cabeça que parece que se soltou do corpo, das mãos em gestos de elegantíssima beleza.
Sim, voltei ao zumba.
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dois instantâneos
Esta manhã saí de casa com o atraso do costume, corre corre (um dia destes hei-de perceber porque é que me faço sempre isto) corre corre, e ao atravessar a rua perto da S-Bahn ouvi uma buzinadela alegre. Era uma moreninha engraçada num carro parado no semáforo, que tinha reconhecido uma amiga na loirinha engraçada que caminhava ao meu lado, e desataram a acenar uma para a outra, com sorrisos enormes, como se não existisse mais ninguém à volta delas. O que eu gosto desses momentos!
Vi chegar o comboio, desatei a correr para o apanhar, e ouvi atrás de mim tchac tchac, era a loirinha que corria também nas suas chinelas de Verão, corri ainda mais depressa, fiquei à porta para não a deixar fechar em frente ao nariz da loirinha, e ela entrou com um salto, disse obrigada, e ainda tinha a cara aberta pelos sorrisos na rua. O que eu gosto desses momentos!
Vi chegar o comboio, desatei a correr para o apanhar, e ouvi atrás de mim tchac tchac, era a loirinha que corria também nas suas chinelas de Verão, corri ainda mais depressa, fiquei à porta para não a deixar fechar em frente ao nariz da loirinha, e ela entrou com um salto, disse obrigada, e ainda tinha a cara aberta pelos sorrisos na rua. O que eu gosto desses momentos!
16 agosto 2011
como se fosse um Requiem
As Cordas de Amália from Terra Líquida Filmes on Vimeo.
(Cabe ainda uma grande "muito obrigada!" ao Ricardo Espírito Santo, que tão bem soube revelar estas facetas únicas do mestre Fontes Rocha, e o faz presente em nós muito para lá da sua morte)
15 agosto 2011
13.08.1961 - 13.08.2011 (18)
Bailado "Between the bricks" (filme amador)
No final, uma jovem coreana lembra o muro que ainda divide o seu país.
No final, uma jovem coreana lembra o muro que ainda divide o seu país.
13.08.1961 - 13.08.2011 (17)
Há ainda o projecto de alargar este memorial, para lembrar que o muro de Berlim não é o único que envergonha a humanidade. Na foto, o modelo de uma proposta - pretende-se trazer para este local segmentos originais desses muros.
Muros que não podemos esquecer nem ignorar:
- entre o campo de concentração e a liberdade
- entre a África e a Europa
- na Coreia
- em Berlim
- entre o México e os USA
- entre a Palestina e Israel
Muros que não podemos esquecer nem ignorar:
- entre o campo de concentração e a liberdade
- entre a África e a Europa
- na Coreia
- em Berlim
- entre o México e os USA
- entre a Palestina e Israel
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13.08.1961 - 13.08.2011 (16)
Esta placa, que encontrei numa rua perto da antiga fronteira, levanta-me uma questão: será que vão espalhar pelos passeios placas a assinalar cada uma das vítimas do muro? Não encontrei ainda uma resposta, mas mais uma vez se confirma que as ruas de Berlim estão literalmente pejadas de História.
Na placa lê-se que Horst Walter K. tentou fugir a 13.9.1966 e foi feito prisioneiro.
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13.08.1961 - 13.08.2011 (15)
Na parte da faixa da morte que atravessava um cemitério foi construído um muro em metal, aberto em pequenas janelas com placas de vidro onde gravaram fotografias das vítimas do muro.
Chamam-lhe "janela da memória".
Chamam-lhe "janela da memória".
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13.08.1961 - 13.08.2011 (14)
Do meio da multidão sobressaía o portador de um cartaz contra o aborto. De um lado lia-se:
e do outro lado:
Incomodava muito, pois está claro que incomodava muito. A maior parte dos assistentes fez de conta que não via, ignorava o homem ostensivamente. Alguns tentaram falar com ele:
Uma pessoa gritou: "O senhor está a incomodar todos. Não é o lugar nem a hora para tematizar esse assunto. Leve o seu cartaz para outra rua."
Em vão. Ele retorquiu que neste país há liberdade de expressão, e continuou a avançar em direcção ao palco, onde começou a fazer uma pequena palestra justamente à hora de começar a conversa com testemunhas da construção do muro.
Muitos desviaram o olhar. Alguns começaram a vaiá-lo. E eu com eles, claro - Buuuuh! Buuuuuh! -, no que fui secundada pelas pessoas à minha volta.
Sentia-me invadida. Sentia-me profundamente agredida pelo sarcasmo daquelas aspas: "pobres vítimas do muro". Não queria ouvir o que aquele homem fazia questão de me dizer. E por isso gritava bem alto:
- Buuuh! Buuuuh!
Ele acabou por se ir embora. Uma rapariga, com a cara desfigurada de raiva e escárnio, ainda lhe atirou pelas costas: "Já cá faltava a hipocrisia da nossa sociedade!"
Eu fiquei, um pouco envergonhada: não teria sido mais civilizado ignorá-lo ostensivamente enquanto falava? Talvez olhar para trás, conversar com a pessoa ao lado? Com o meu Buuuh!, que se ateou aos alemães que estavam perto de mim, contribuí para o avanço e amadurecimento da Democracia, ou para um pequeno retrocesso?
Que isto de civil courage e tal é muito bonito, mas o verdadeiro desafio é corrigir situações que consideramos incorrectas sem humilhar ou interpelar agressivamente o antagonista.
"Pobres vítimas do muro"
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Psst: dos 1000 que todos os dias
são mortos antes de nascer
- ao abrigo da lei -
não se fala aqui!
são mortos antes de nascer
- ao abrigo da lei -
não se fala aqui!
e do outro lado:
Porque é que os políticos
não exemplificam aqui os "joguinhos"
que querem recomendar às crianças
no âmbito da "Educação Sexual"?
Incomodava muito, pois está claro que incomodava muito. A maior parte dos assistentes fez de conta que não via, ignorava o homem ostensivamente. Alguns tentaram falar com ele:
Uma pessoa gritou: "O senhor está a incomodar todos. Não é o lugar nem a hora para tematizar esse assunto. Leve o seu cartaz para outra rua."
Em vão. Ele retorquiu que neste país há liberdade de expressão, e continuou a avançar em direcção ao palco, onde começou a fazer uma pequena palestra justamente à hora de começar a conversa com testemunhas da construção do muro.
Muitos desviaram o olhar. Alguns começaram a vaiá-lo. E eu com eles, claro - Buuuuh! Buuuuuh! -, no que fui secundada pelas pessoas à minha volta.
Sentia-me invadida. Sentia-me profundamente agredida pelo sarcasmo daquelas aspas: "pobres vítimas do muro". Não queria ouvir o que aquele homem fazia questão de me dizer. E por isso gritava bem alto:
- Buuuh! Buuuuh!
Ele acabou por se ir embora. Uma rapariga, com a cara desfigurada de raiva e escárnio, ainda lhe atirou pelas costas: "Já cá faltava a hipocrisia da nossa sociedade!"
Eu fiquei, um pouco envergonhada: não teria sido mais civilizado ignorá-lo ostensivamente enquanto falava? Talvez olhar para trás, conversar com a pessoa ao lado? Com o meu Buuuh!, que se ateou aos alemães que estavam perto de mim, contribuí para o avanço e amadurecimento da Democracia, ou para um pequeno retrocesso?
Que isto de civil courage e tal é muito bonito, mas o verdadeiro desafio é corrigir situações que consideramos incorrectas sem humilhar ou interpelar agressivamente o antagonista.
13.08.1961 - 13.08.2011 (13)
O centro de documentação tem uma torre com miradouro que permite ver a o segmento da faixa da morte que não foi destruído. Imagino que tenha sido um desafio para os arquitectos: uma torre de vigia para observar outra torre de vigia...
Olhando para a área ocupada pelo memorial, sinto uma grande admiração pela cidade de Berlim, que se dá ao luxo de "desperdiçar" tanto terreno que poderia render inúmeros milhões se fosse vendido para construção.
Nesta fotografia pode ver-se bem um detalhe da perfeição do sistema: na faixa da morte a terra era arada frequentemente, de modo a que as pegadas dos fugitivos ficassem marcadas.
Olhando para a área ocupada pelo memorial, sinto uma grande admiração pela cidade de Berlim, que se dá ao luxo de "desperdiçar" tanto terreno que poderia render inúmeros milhões se fosse vendido para construção.
Nesta fotografia pode ver-se bem um detalhe da perfeição do sistema: na faixa da morte a terra era arada frequentemente, de modo a que as pegadas dos fugitivos ficassem marcadas.
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13.08.1961 - 13.08.2011 (12)
O partido "die Linke" deixou uma coroa de flores onde se lia simplesmente "in memoriam". Alguém deixou junto à faixa um papel assinado onde estava escrito:
"...dos soldados da fronteira que foram mortos?
E as vítimas?"
Sim, neste dia também se lembraram as vítimas entre os soldados da fronteira. Oito no total, mortos por fugitivos ou os seus ajudantes, por friendly fire ou até por soldados do lado ocidental (como Peter Göring, atingido por um tiro inimigo quando disparava para matar um rapaz de 14 anos que fugia a nado).
Aqui encontra-se informação detalhada (em alemão) sobre cada um deles.
Dias como estes são uma provocação para o partido "die Linke", porque não se sabe de que lado do muro está realmente. Terem escolhido um mero "in memoriam" para juntar ao seu ramo de flores é bastante significativo da sua posição ambígua.
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13.08.1961 - 13.08.2011 (11)
Os mais altos representantes políticos do país deixaram flores junto à inscrição do memorial:
A alguns metros dali, ao longo do muro original, outros deixaram também flores: partidos, associações, quem quisesse.
A alguns metros dali, ao longo do muro original, outros deixaram também flores: partidos, associações, quem quisesse.
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14 agosto 2011
13.08.1961 - 13.08.2011 (10)
Na Bernauer Straße havia também uma igreja evangélica, que servia as populações de Mitte (Berlim leste) e Wedding (Berlim ocidental). Era a Versöhnungskirche, a Igreja da Reconciliação. Quando o muro foi construído, a população de Wedding, em Berlim ocidental, deixou de a poder frequentar. Em 1985 a igreja foi simplesmente destruída, em nome "do asseio e da visibilidade". Para fazer uma faixa da morte limpinha e escorreita, compreende-se...
Depois da queda do muro, a antiga comunidade recebeu o terreno de volta e construiu uma capela, a muitos títulos simbólica: recuperando o nome "da Reconciliação", faz-se ponte entre o passado e o futuro em plena faixa da morte, mistura elementos modernos com peças antigas que sobreviveram da igreja inicial, reflecte as preocupações ecológicas do início deste século - o núcleo interior, fechado, tem grossas paredes em barro ao qual se misturaram restos da antiga igreja, inclui um sistema colector de água da chuva e renuncia a sistema de aquecimento -, enquanto o seu espaço circundante, em forma igualmente elíptica, é delimitado por uma vedação em lamelas verticais de madeira, ficando semi-aberto ao exterior.
A propósito da escolha de paredes em barro, disseram-me que os berlinenses estavam fartos de pedras - mesmo que não seja verdade, acho graça à ideia.
Depois da queda do muro, a antiga comunidade recebeu o terreno de volta e construiu uma capela, a muitos títulos simbólica: recuperando o nome "da Reconciliação", faz-se ponte entre o passado e o futuro em plena faixa da morte, mistura elementos modernos com peças antigas que sobreviveram da igreja inicial, reflecte as preocupações ecológicas do início deste século - o núcleo interior, fechado, tem grossas paredes em barro ao qual se misturaram restos da antiga igreja, inclui um sistema colector de água da chuva e renuncia a sistema de aquecimento -, enquanto o seu espaço circundante, em forma igualmente elíptica, é delimitado por uma vedação em lamelas verticais de madeira, ficando semi-aberto ao exterior.
A propósito da escolha de paredes em barro, disseram-me que os berlinenses estavam fartos de pedras - mesmo que não seja verdade, acho graça à ideia.
(foto daqui)
(foto daqui)
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13.08.1961 - 13.08.2011 (9)
Teria sido possível escapar a um certo toque de reality TV neste ano da graça de 2011? Suspeito que não.
O ponto alto do entertainment ocorreu quando fizeram subir ao palco dois homens que não se conheciam ainda, mas apareciam juntos numa fotografia famosa que agora faz parte do memorial, exibida na parede de uma das casas que o enquadram.
E a conversa pateta:
- Então, agora que finalmente se conhecem, o que vão fazer?
- Olhe, com a idade que tínhamos na fotografia não podíamos beber álcool, de modo que agora vamos tratar de recuperar os copos perdidos...
Berlinenses, hehehe.
O ponto alto do entertainment ocorreu quando fizeram subir ao palco dois homens que não se conheciam ainda, mas apareciam juntos numa fotografia famosa que agora faz parte do memorial, exibida na parede de uma das casas que o enquadram.
E a conversa pateta:
- Então, agora que finalmente se conhecem, o que vão fazer?
- Olhe, com a idade que tínhamos na fotografia não podíamos beber álcool, de modo que agora vamos tratar de recuperar os copos perdidos...
Berlinenses, hehehe.
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13.08.1961 - 13.08.2011 (8)
Um dos elementos centrais deste cinquentenário, na Bernauer Straße, foi a conversa com testemunhas da época. Na primeira dessas conversas juntaram um habitante de Berlim ocidental, uma pessoa que ficou em Berlim leste e duas que fugiram.
O de Berlim ocidental contou como a sua rua, directamente na fronteira, se tornou cada vez mais silenciosa - o fim do mundo.
Um dos que fugiu contou a aventura desse dia: a 13 de Agosto de 1961 tinha 17 anos, durante várias horas procurou com a mãe um ponto por onde escapar, e foram visitar um pastor protestante, a quem a mãe queria pedir opinião. Este sentiu-se muito desconfortável com a questão, e desconversou, "que não se preocupe, que as coisas vão melhorar". A mãe agradeceu, e mal se apanhou na rua decidiu: "hoje, ou nunca!" Esperaram pela noite no sotão de uma casa contígua ao cemitério que ficava na fronteira. Quando tentaram fugir, deram-se conta de que havia um desnível de mais de cinco metros. Por sorte havia uma ruína de guerra sobre a qual puderam avançar, na direcção de uma árvore que lhes permitiu a descida. No cemitério não havia soldados ("o regime respeitou bastante os espaços da Igreja", comentou ele, e lembrei-me de episódios semelhantes, por exemplo quando nas manifestações de 1989 em Leipzig as pessoas se refugiavam em casas da Igreja para fugir à Polícia) e eles foram avançando às escuras, até que avistaram ao longe um cartaz publicitário e concluíram que iam na direcção certa. No fim da conversa, ofereceram-lhe uma cópia desse cartaz feito bússola.
O que não fugiu contou as dificuldades diárias: tudo aquilo que era elemento central da sua vida de rapazinho (a escola, os amigos, o cinema do bairro) ficou inacessível, do lado de lá do muro. A princípio não levaram isso muito a sério - era a terceira vez que os acessos a Berlim ocidental eram vedados. E como viviam na Bernauer Straße, o acesso à casa fazia-se pela parte ocidental da cidade, na zona de ocupação francesa. Mostrando os documentos de moradores, os polícias deixavam-nos sair do leste para poderem entrar na sua casa (que ficava também no leste). Maior foi o choque quando descobriram que o muro viera para ficar, e para lhes mudar irreversivelmente a vida.
A segunda fugitiva apontou para a fotografia atrás de si, e contou: olhem, esta sou eu, tinha 16 anos. Ao almoço os meus pais disseram que fugiríamos daí a duas horas, e que durante esse tempo devíamos embalar tudo aquilo que nos fosse suficientemente importante para levar. Quando estávamos prontos, o meu pai começou a passar-nos as coisas pela janela, e nós corríamos de um lado para o outro da rua, para pôr tudo a salvo. Dois homens que passavam de bicicleta começaram a ajudar-nos. O meu pai estava de cabeça perdida: chegou a trazer à janela um prato de vidro cheio de fruta. A minha mãe ralhou, "para que precisamos nós disso?" e ele levou o prato para a cozinha. Trouxemos muitas coisas, até o meu porquinho da Índia e o periquito. Foi o único pássaro que fugiu para a liberdade dentro de uma gaiola.
O público, que ouvia atento e consternado, desatou a rir.
Mais tarde, vê-la-ia de novo falando com outras pessoas, sobre as fundações de uma das casas derrubadas, com a célebre fotografia na mão.
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