27 outubro 2017

um conselho às raparigas portuguesas...

Lembram-se daquele conselho que o D. José Policarpo deu às raparigas portuguesas?
"Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Alá sabe onde é que acabam."

Ora, já que ultimamente está na moda citar a Bíblia, trago uma frase do Evangelho de  Mateus (Mt. 7:5): "Tira primeiro a trave do teu olho; e então verás bem para tirar o argueiro do olho do teu irmão."


Um belo exemplo de trave no olho dos portugueses, que tão bem sabem repudiar esses países onde se pratica a sharia e se dá à mulher uma posição de subalternidade, é este caso do acórdão do juiz Neto de Moura e a juíza Maria Luísa Arantes. Atente-se nos detalhes do caso (e há muito mais, mas isto é só um post, não é um compêndio): 
 

Segundo o acórdão:

14 ) No seguimento de tais factos, os arguidos X e Y provocaram na assistente A as seguintes lesões: - na cara: ferida corto - contusa com 2 cm, suturada com 5 pontos de seda na região frontal; - no pescoço: lesão abrasiva na região ântero - lateral direita numa área de 3x4 cm; - no tórax: - equimose de 5x4 cm na mama esquerda, » escoriação de 7 cm na mama direita; * equimose de 4x4 cm na omoplata esquerda; - no abdómen: equimose de 10x4 cm na região do flanco esquerdo; - no braço direito: 15 escoriações lineares na regiã o posterior do braço, a maior das quais com 8 cm de comprimento, 9 equimoses na região anterior do braço e antebraço, a maior das quais com 6x3 cm e equimose na região posterior do polegar de 6x1 cm; - no braço esquerdo: equimose de 12x11 cm na região poster ior do 1/3 médio do braço; equimose de 9x4 cm na região posterior do antebraço; 3 equimoses na região anterior do antebraço, a maior das quais com 6x4 cm; - na perna direita: equimose de 7x3 cm na nádega; - na perna esquerda: equimose de 4x2 na região posterior do joelho, equimose de 4x2 na região posterior da perna, lesões estas que determinaram 20 dias para a consolidação médico - legal, com afetação de 10 (dez) dias da capacidade de trabalho profissional e com afetação de 1 (um) dia da capacidade de trabalho geral.

Perante isto, o juiz diz:

"Este caso está longe de ter a gravidade com que, geralmente, se apresentam os casos de maus tratos no quadro da violência doméstica."Que é como quem diz: Oh pá, só cinco pontos na cara, além de uns arranhões e nódoas negras no corpo todo?! Nem traumatismo craniano nem nada?! Irra, como se atrevem a vir a tribunal com bagatelas? Não me venham incomodar por tão pouco, num país onde todos os anos a violência doméstica mata dezenas de mulheres!
Sobre o ex-namorado, que sequestrou e agrediu a vítima, e chamou o ex-marido para vir bater também, "cumpre referir que tal sucedeu devido ao facto de o arguido ter tido um  relacionamento  amoroso  com  a  ofendida,  o  qual,  na  altura,  tinha  recentemente acabado, e só se percebendo tal atitude devido a tal facto.

Por  outro  lado,  e  como    se  afirmou,  o  arguido,  aparentemente, encontra-se inserido socialmente, e não tem antecedentes criminais, e do relatório social efectuado ao mesmo, resulta que já terá ultrapassado toda esta situação."Que é como quem diz: batia porque gostava; mas como agora já não gosta, a mulher já não corre mais perigo de levar outra tareia .
 
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Nem sei se fico aliviada ou triste ao constatar que a notícia do juiz machista do Porto não chegou à imprensa alemã. No horizonte dos alemães, Portugal praticamente não existe.
Mas talvez seja melhor assim, neste caso. Sabe-se lá o que é que um partido como a AfD, que cavalgou a onda de medo da "islamização da Europa", seria capaz de fazer ao projecto europeu caso se tornasse conhecido que em Portugal o Sistema de Justiça tem algumas dificuldades em distinguir entre lei, por um lado, e religião e hábitos machistas, por outro.

E era o que mais faltava ter agora um Alexander Gauland a dizer às raparigas alemãs:
"Cautela com os amores. Pensem duas vezes em casar com um português, pensem muito seriamente, é meter-se num monte de sarilhos que nem Deus sabe onde é que acabam."


24 outubro 2017

à mercê de gente boçal



Estamos num país da União Europeia em 2017, e dois juízes usam o Antigo Testamento e leis portuguesas revogadas no séc. XIX para "acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher” (texto completo aqui)


Nada como os valores de antigamente, nos bons velhos tempos, quando a sociedade ainda não tinha sido conspurcada pelo relativismo e pelos lobbies das poucas-vergonhas.

Nada como ir aprender com os clássicos. Como neste quadro de Lucas Cranach, o velho, que está no Museu do Palácio de Weimar. O homem viveu há 500 anos, e já nessa altura estava mais avançado em termos de valores cristãos e humanistas que agora os meritíssimos Juízes daquele tribunal do Porto. Reparem bem: não é só o ar sereno e compassivo de Jesus Cristo, não é só a sua mão a segurar a mão da mulher acusada. É, sobretudo, o ar boçal, bruto, frio, torpe, maldoso de quem acusa. Cranach tinha uma fantástica capacidade para estampar a estupidez e o ódio na cara dos defensores da Lei, da Ordem e da Moral.






O que mais me impressiona nas interpretações que Cranach faz dos temas bíblicos é o retrato do mal que habita o ser humano. Como se pode ver nestas imagens, que fotografei (com péssima luz) na colecção de cenas da Via Sacra, no Jagdschloß de Grunewald em Berlim.






Nos quadros de Cranach, há sempre dois lados em confronto: a bestialidade goza sadicamente com a fragilidade dos humanos.
De que lado estamos nós?
De que lado estão os juízes desembargadores Neto de Moura e Maria Luísa Abrantes?


23 outubro 2017

somos todos contra os incêndios (3)

Um amigo meu, advogado no Minho, teve durante muitos anos um caso de um pastor que largou as suas cabras num baldio recém-arborizado. Se bem me lembro, o pastor argumentava que aquele baldio sempre tinha sido do povo e das suas cabras, e que era um abuso roubarem aquele terreno para pôr árvores. O caso estava muito complicado para o pastor, mas ele teimava nas suas razões.

Volta e meia pagava ao advogado com um cabritinho, e depois o advogado vinha com a família à nossa casa assar o cabritinho no forno de pedra da cozinha da eira. Muito cabritinho impecavelmente temperado e assado comi eu por conta daquele pleito!

Agora, depois do que aprendi com estes incêndios terríveis, fico a pensar que quem devia ter dado os cabritinhos era a sociedade toda, e ao pastor, e vivos. Houvesse mais baldios e mais cabras a limpar os terrenos!


somos todos contra os incêndios (2)

(foto)

Esta foto dava uma aula muito completa sobre os conceitos de Estado, Governo, Direito e Bom Senso.
A história vem contada (muito bem contada!) por Ricardo J. Rodrigues nesta reportagem do DN:

Há 28 anos um povo lutou contra os eucaliptos. E a terra nunca mais ardeu

Em poucas palavras: durante a era Cavaco, o ministro da agricultura Álvaro Barreto, que estava muitíssimo ligado à indústria da celulose (podem ver no seu currículo que foi presidente do Conselho de Administração dessa empresa imediatamente antes e imediatamente depois de ter sido ministro da Agricultura), defendia a implantação do eucalipto. Em Valpaços, uma subsidiária da Soporcel estava a substituir 200 hectares de oliveiras por eucaliptos, com apoios europeus a fundo perdido. A população juntou-se e avançou para a propriedade para arrancar os eucaliptos. Os 200 agentes da GNR enviados não conseguiram parar as 800 pessoas que estavam a lutar pela sua segurança e pelo seu futuro. Alguns deles, nem quiseram - como o que lhes disse «Tendes razão, por isso vamos fingir que não vemos.» Outros carregaram sobre as pessoas. Até a guarda a cavalo veio para impedir a população de arrancar os eucaliptos.
O povo lutou com ardor e teimosia. Os poucos hectares de eucaliptos que ainda sobravam, ao fim do dia, foram arrancados mais tarde pela calada da noite.
Os proprietários que se seguiram foram logo avisados que escusavam de pensar em plantar eucaliptos.
Há trinta anos que não há lá incêndios.

somos todos contra os incêndios (1)

Post de um amigo, no facebook, sobre o fogo que varreu a aldeia dele:

"ainda o fogo de fajão.
depois de ouvir 10 milhões de especialistas em combates a incêndios darem a receita ideal para terem combatido o fogo do passado fim de semana, lembro as seguintes condições existentes em fajão, de acordo com as medições feitas nas torres eólicas do alto de fajão:
vento: 56mt/seg (ou seja, 201,6 Km /hora !!!)
temperatura registada do topo das torres a 90 mt do chão: 76.C
um fogo que avança, ainda por cima de noite, com ventos de 200km hora não se apaga;
avança mais depressa que quaisquer carros de bombeiros possam tentar andar;
ataca em mais lugares simultaneamente do que efectivos os bombeiros possam ter (quase todas as aldeias de fajão estavam a arder em simultâneo, o mesmo se passando em quase todo o concelho).
não tenho propriamente soluções (sou dos poucos, dos 10 milhões, que não tem solução) mas sei um coisa:
fodemos o clima e agora o clima fode-nos a nós"

pois a quem tem, mais se lhe dará

No metro, um dos passageiros que tinha acabado de entrar meteu a mão na sua bolsa como se estivesse à procura de alguma coisa e disse:
- Senhores passageiros, sou fiscal da empresa, façam o favor de mostrar os vossos bilhetes!
Quando parecia que ia tirar da bolsa o cartão de fiscal tirou o jornal dos sem-abrigo, riu-se, e acrescentou:
- Isso é que era bom! Sou um sem-abrigo, nem dinheiro tenho para comprar o meu bilhete.

O pessoal desatou a rir. Ele continuou:

- Estou a vender o nosso jornal, que nesta edição tem artigos muito interessantes. Mas se não o quiser ler, pode comprar na mesma - serve para acender o grelhador, ou para o limpar, ou para pôr em cima da cara para se proteger do sol. Como vêem, é muito prático. E muito barato.

Por essa altura já os passageiros se riam sem parar.

O sem-abrigo disse mais uma ou duas piadas, e começou a passar pelas pessoas. Só no meu canto fez uns bons cinco euros. Depois desejou alegremente bom dia a todos, e avançou para a carruagem seguinte.

Lembrei-me daquela frase do Evangelho que sempre me intrigou: "Pois a quem tem, mais se lhe dará, e terá em abundância." 

Os sem-abrigo mais desgraçados - os doentes, com mau aspecto, deprimidos, fanhosos e chorosos - deparam com uma muralha de indiferença e arrastam-se pelo meio de passageiros que estão todos a fazer de conta que não estão ali. Sempre cenas de dolorosa desumanidade. Já um sem-abrigo com ar asseado e muito brincalhão faz o seu número de menos de um minuto e ganha dezenas de euros. 


22 outubro 2017

"quercus"

Isto vai por aqui uma confusão que nem vos digo nem vos conto.
Quer dizer, conto, conto: publico posts aqui, ponho um link no facebook, e a discussão é feita lá.
Outras vezes escrevo lá, e depois copio para aqui. Esta passagem é mais complicada, porque como o facebook tem muito mais interacção que os blogues, obriga a explicar todo o cenário. Por exemplo, para explicar os posts que escrevi hoje na Enciclopédia Ilustrada sobre a palavra do dia, que era Quercus, tenho de explicar ainda que a de ontem foi Portugal, e que as multas são pagas em minis.
Uma canseira, isto de andar a levar e a trazer entre o blogue e o facebook.
Mas pronto, aqui ficam os dois contributos que deixei hoje na Enciclopédia Ilustrada a propósito de "quercus":

I.
Como é fim-de-semana, e já almocei, e até estava bom, e estou bem-disposta, e tal, peço licença para escrever um post nada enciclopédico, apenas um apontamento sobre aquelas pessoas que querem imprecar com palavrões, mas não querem dizer palavrões, e por isso dizem
- Ai, fogo!
Ou:
- Ai o quercvus!

(Sim, é #quercus que se devia escrever. Mas elas quando dizem "ai o carvalho!" também estão a meter um V a mais.

( Também acho muita graça às pessoas que escrevem p*ta, por exemplo, para não parecer mal.)

(Ai, Portugal, que és tão engraçado, mas hoje já não és a palavra do dia, e calateboca senão ainda pago mais multas.)




II.
Já aqui falaram de um carvalho perto de Barcelos, o que me fez lembrar que sempre que passava na estrada Barcelos-Viana com os meus avós maternos eles me apontavam a árvore a que chamavam "o carvalho do rei". Contavam que quando o meu avô era novo o rei fez ali um piquenique, e o povo foi lá em romaria para ver. O meu avô viu o rei com os seus próprios olhos. Estava a comer uma coxa de frango.

Todas as vezes que ali passei com os meus avós, o rei estava a comer uma coxa de frango.

Eu olhava para aquelas árvores todas e não distinguia o carvalho do rei. Seria o #quercus palustris, ou aquele quercus petraea mais desenvolvido? Ou quiçá o quercus acutissima mais atrás? Resolvi esperar até ser maior e ter mais discernimento para perguntar outra vez, mas entretanto o meu avô morreu, e aquela floresta ardeu. Agora nem rei nem coxa de frango nem avô nem carvalho. Só lá vejo eucaliptos. 

(Também havia a curva do Zé do Telhado, mas conto no dia em que a palavra mágica for "telhado")

(Aquela parte dos quercus palustris, petraea e acutissima foi invenção, só para poder meter o #) (aijajuj, já me desgracei outra vez - pronto, diz lá: quantas minis, Cristovam?)




21 outubro 2017

sobre o uso do "je suis"

Esta manhã um homem andou em Munique a atacar pessoas com uma faca. Esfaqueava, fugia de bicicleta para outra zona, esfaqueava, fugia de novo. Atacou em seis locais diferentes, feriu cinco pessoas. Como é um alemão, daqueles loiros e tudo - enfim, aquilo a que noutros tempos se chamava "ariano" - este ataque não se presta a parangonas, a comoções e a manifestações de solidariedade.

Pergunto: se o atacante fosse um refugiado, como estariam neste momento os sites noticiosos e como estariam as redes sociais? Aposto com quem quiser: a notícia vinha no topo dos sites, e as redes sociais iam ter um sobressalto de "je suis Munique", ou algo do género. O pessoal xenófobo ia passar as notícias com comentários a gozar: "olha, outro refugiado coitadinho que precisa de tratamento psicológico".

Fica o apontamento, para uso futuro: porque é que a violência cometida pelos "nossos" não tem o mesmo destaque que a violência cometida pelos "outros"? Porque é que nós nos mostramos muito mais chocados e solidários quando o atacante é estrangeiro ou filho de estrangeiros? Porque é que um loiro que anda na rua a esfaquear pessoas é uma pessoa com problemas psíquicos (e este é, as notícias alemãs mencionam algo nessa direcção) e um gajo de pele mais trigueira que faça o mesmo é "naturalmente" um terrorista?

Mais ainda: se as ondas de "je suis" são gestos de solidariedade para com as vítimas, porque é que não há "je suis" quando o atacante é "um dos nossos"?  



20 outubro 2017

"que farei quando tudo arde?" (sim, também eu je suis Sá de Miranda)

O meu sogro contou-me que em criança, quando havia alerta de ataque aéreo e todos os vizinhos se apinhavam às escuras na cave fria, quando morria de medo ao ouvir os aviões e as bombas a rebentar nas redondezas, a mãe dele dizia no seu famoso tom peremptório "a nós não vai acontecer nada!" - e ele acreditava. Sessenta anos depois lembrava, com um sorriso, que naqueles momentos tinha a certeza absoluta que ao lado dela estava seguro, que o prédio deles não seria apanhado por uma bomba, nem seria consumido pelas chamas dos outros, nem nada.

Olho para os tempos que correm, e tenho a sensação que as nossas sociedades parecem crianças de cinco anos a acreditar, contra todas as evidências, que "a nós não acontece nada".

Provavelmente devido ao progresso técnico que nos afasta da lógica e da força bruta da natureza, devido à intervenção cada vez maior dos Estados para melhorar as condições de segurança e também, de um modo mais lato, às políticas de convergência europeia que têm evitado guerras e conflitos graves entre os países desta parte do mundo, o nosso instinto de sobrevivência está a ficar embotado, temos dificuldade em reconhecer os perigos que nos rodeiam, delegamos no Estado cada vez mais a responsabilidade de cuidar de nós e resolver os nossos problemas, e odiamos o governo quando as coisas não correm como achamos que deviam.

Todos conhecemos bons exemplos disso: pessoas que andam na rua quando um temporal está a passar com toda a violência; condutores que vão demasiado depressa para o permitido pelas condições climatéricas ou pelo tipo de estrada, e temem mais a multa que o acidente; agricultores que fazem queimadas pensando mais no risco de haver um GNR por perto que no de deitarem fogo à aldeia toda; veraneantes que se estendem junto às arribas das praias apesar de todas as placas a informar que ali correm risco de vida, e que culpam o governo por não ter betonado as arribas de modo a evitar mortes. A um outro nível, eleitores que usam referendos para votos de protesto achando que não haverá consequências negativas para eles, cidadãos que embarcam em discursos de profundo egoísmo nacionalista sem pensarem no que lhes pode acontecer se os outros países também desistirem da cooperação e do entendimento.

O mundo está perigoso e complexo, mas nós olhamos para o Estado com a atitude pueril de uma criança de cinco anos que confia nos superpoderes da sua mãe. E se este falha às nossas expectativas, pior ainda: olhamo-lo com a exigência e o repúdio de um adolescente em relação aos adultos.  


Vem isto a propósito dos incêndios em Portugal, essa autêntica crónica de uma morte anunciada. Ao longo de muitas décadas a sociedade abandonou o interior, o delicado equilíbrio entre as pessoas e a natureza foi quebrado pelo fim das actividades humanas que reduziam o risco de incêndio (baldios para pastorícia, recolha de matos e outros materiais combustíveis para a lareira e a corte do gado, por exemplo) e pela submissão aos interesses da indústria da pasta do papel. Os poucos que ficaram no interior deram consigo a viver no meio de cada vez mais matéria altamente inflamável, e todos os anos se repetem os incêndios e as imagens de populações sobressaltadas, bombeiros exaustos, chamas incontroláveis.
Sabemos isto, mas continuamos a fazer as nossas casinhas de férias no meio dos pinhais, a desprezar medidas básicas de segurança, a respeitar muito a actividade empresarial de uns e a defender a propriedade privada de outros, mesmo quando os donos nem sequer sabem o que têm e onde. A nossa relação com a natureza e os seus riscos mudou drasticamente, mas continuamos a fazer a vidinha de sempre, com a confiança pueril de que "o Estado resolve" e "a nós não vai acontecer nada".

Mas acontece, acontece todos os anos, e muitas vezes com vítimas mortais: 25 em Sintra em 1966, 14 em Armamar em 1985, 16 em Águeda em 1986, 4 em 2002, 20 em 2003, 2 em 2004, 5 em 2006, 6 em 2012, 9 em 2013, 3 em 2016. E agora, o ano negro de 2017.

Amanhã vai haver em Lisboa uma manifestação para protestar contra o governo, os incêndios, as mortes. Neste ano que tão dolorosamente nos mostrou que muito tem de mudar, seria muito positivo que essa manifestação servisse também para as pessoas anunciarem o seu apoio às medidas necessárias para mudar tudo. Os manifestantes apoiam uma lei de expropriação de  todos os terrenos que não são cuidados pelos seus proprietários? Estariam dispostos a pagar um imposto suplementar para o esforço estatal de reflorestação nacional, de limpeza das matas e de protecção das populações em aldeias isoladas? Ou preferem que se esvaziem todas as aldeias às quais os bombeiros não conseguem chegar fácil e rapidamente? Apoiam que se derrubem todas as casas isoladas que estão demasiado perto da floresta, ou, alternativamente, que se arranquem todas as árvores à volta? E, para usar uma das propostas mais populares por estes dias: qual dos manifestantes se oferece como voluntário para prender a uma árvore um desses velhos agricultores que fez uma queimada, ou um condutor que atirou a beata pela janela, e deitar-lhe fogo?

Se a manifestação for só para dizer que estão descontentes, e que o Estado tem de lhes resolver o problema, e que querem voltar a sentir-se seguros, pois então, parafraseando a revista Sábado: "boas férias". Que lhes saiba bem desistir do trabalho de ser adulto, e saborear o papel de um menino de cinco anos que quer acreditar que a sua mãe tem superpoderes. Ou voltar à pele de um adolescente frustrado por os pais não lhe conseguirem dar tudo aquilo que quer. 

Voltando à história do meu sogro: quando os bombardeamentos aumentaram de intensidade, os pais mandaram-no com os irmãos para a casa dos primos, na aldeia. Passado algum tempo, o rapazinho telefonou à mãe a chorar, cheio de saudades, pedindo para o deixar voltar para casa, e a mãe respondeu-lhe que se ele voltasse a fazer uma cena dessas ela se metia no comboio para lhe ir encher o rabo de sapatadas. A casa foi bombardeada e destruída. O pai, que tinha uma firma de instalações sanitárias, trabalhou dia e noite para a reconstruir. Os filhos voltaram para casa e passaram fome porque parte do apoio especial que o Estado dava no pós-guerra para o sustento das crianças era desviado para ajudar a pagar o salário dos empregados da empresa. Tanta terá sido a fome que, aos setenta anos, o meu sogro ainda era incapaz de deitar um bocado de pão seco ao lixo. 
 
Aquele miúdo percebeu que a mãe não tinha poderes mágicos, e que ele próprio tinha de pagar um alto preço para assegurar a sua sobrevivência, e contribuir para melhorar a situação de todos. 
Tinha dez anos quando a guerra terminou. 
Nós, muito mais velhos que ele, também seremos capazes de perceber o que se espera de nós quando tudo arde. 


perder a razão


Mais de cem mortos devido aos incêndios deste verão é muito mais do que um país consegue aguentar sem perder a razão.

De modo que, nestes dias que se seguem à tragédia e ao choque, damos com muitos portugueses de cabeça perdida a largar imprecações contra o governo, a apelar à justiça popular, à lei de Talião e à vingança, a capitalizar a comoção geral para as jogadas políticas, a criticar tudo e todos, a fazer exigências impossíveis.

Questionar e criticar o mau funcionamento dos serviços estatais de protecção civil, a incompetência e as decisões erradas e fatais e a falta de resposta adequada por parte dos governantes é legítimo e perfeitamente compreensível. O que não é legítimo nem aceitável é que alguns abusem da tragédia destas mortes para criar um clima de agitação social que derrube o governo, chegando para isso a esquecer deliberadamente condicionantes várias e a deturpar frases dos políticos.

Temos, por exemplo, a reacção ao ponto da situação que o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, fez a partir de Arouca. Em plena crise (mais de 500 incêndios em simultâneo), ele informa que no princípio da semana, por terem previsto que seriam uns dias difíceis, reforçaram as forças de combate aos incêndios com mais 1000 operacionais. Mas mesmo que tivessem cinquenta mil bombeiros, numa crise com estas dimensões continuaria a haver localidades onde não se podia chegar. Explicou que tinham meios aéreos que não puderam usar porque as colunas de fumo não o permitiam. E que, em casos destes, têm de ser as próprias comunidades a ser pró-activas, e não devem ficar à espera do auxílio dos bombeiros e dos meios aéreos.

Como é possível que algo tão óbvio tenha sido entendido como uma recusa de o Estado prestar auxílio? Como é possível que essas frases tenham dado origem a tantas imprecações e a tantas críticas contra o governo? Será que as pessoas pensam mesmo que é possível ter uma equipa de bombeiros durante todo o verão junto a cada casa no meio do monte e um agente da GNR dia e noite em cada campo, a controlar para que ninguém faça queimadas, ou em cada pinhal para impedir os pirómanos de fazer estragos?

A propósito dessa frase do secretário de Estado, uma amiga minha falava de aldeias que conhece em Trás-os-Montes, de população envelhecida e praticamente sem acessos, e perguntava se são essas aldeias e essas populações que se querem pró-activas ou ainda mais resilientes, acusando o governo - todos os governos - de desconhecerem a realidade do interior do país, que continua invisível para Lisboa. É um desabafo pertinente. Mas a sua descrição dessas aldeias semi-abandonadas, isoladas e com acessos difíceis lembrou-me imediatamente um momento negro da intervenção da troika na Grécia, quando foi proposto despovoar inteiramente as ilhas com poucos habitantes, para poupar dinheiro ao Estado. Não podemos ignorar que o governo português tem de responder não apenas perante o seu povo, mas também - infelizmente - perante os seus credores (isto admitindo que a saída da zona Euro e a impressão de notas de moeda nacional para pagar as despesas do Estado não é uma hipótese). Credores esses que não vão, obviamente, perdoar a um governo de esquerda que queira endividar-se ainda mais para fazer política social. Ou sou só eu que, ao ouvir a exigência de melhorar as acessibilidades para todas essas aldeias em extinção, vejo imediatamente a carranca do Schäuble a dizer "têm de poupar! têm de poupar!"?



Em suma: para desgraça, já basta o que basta.
Apesar da dor e do choque, temos de ser capazes de recuperar a razão.

21 anos

O Matthias faz hoje 21 anos e tirou o dia para tocar piano na sala aqui ao lado: Khatchaturian, Satie, Chopin, Buena Vista, e o mais que lhe apetecer.
Anda uma mãe a criar filhos, e é mesmo para isto. :)

--

(Raixparta o rapaz que não me deixa concentrar! Eu a querer escrever, e ele: Khatchaturian, Satie, Chopin, Buena Vista, e o mais que lhe apetece...)

(Sim, eu sei, estava a brincar.)


18 outubro 2017

o fumo de Portugal em Berlim

Esta manhã Berlim acordou estranha: um sol avermelhado rompia a custo a névoa que envolvia a cidade. A mancha de fumo dos incêndios em Portugal que desde domingo se tem movido para leste chegou à capital alemã.

Saí com o Fox por volta das nove da manhã, e tirei estas fotografias:




 

 O Berliner Morgenpost publicou esta foto da zona à volta da Igreja da Memória:

(foto: Michael Bee)


uma autêntica pérola...

Quando tudo está péssimo, há quem consiga descer um pouco mais:

"Pelo que vimos desde a primavera, tem a ministra Constança Urbano de Sousa, que não dá férias ao seu colar de pérolas, força política para concretizar isto?..."

Pergunto:
1. Qual é a função do colar de pérolas naquela frase?
2. Se falasse de um ministro, será que ocorreria a Pedro Tadeu falar da roupa dele? ("Pelo que vimos desde a primavera, tem o ministro Fulano de Tal, que não dá férias ao seu alfinete de gravata, força política para concretizar isto?...")
 

Talvez Pedro Tadeu tenha um fetiche com a roupa usada pelos governantes, e nesse caso está desculpado (coitado, podia ser pior...). Mas se não for assim, o que ele está a tentar fazer é humilhar a ministra por usar adereços femininos, sublinhando uma pretensa futilidade. A pergunta que faz no seu texto até é pertinente. Mas desautorizou-se logo no princípio, porque usou um argumento vil contra a pessoa que acusa.


16 outubro 2017

o novo normal?


Ligar o computador e ver Portugal a arder - já é a segunda vez este ano. Os mortos, o pavor dos habitantes, as casas destruídas, a floresta ardida.
Será que vamos ter de nos habituar a imagens destas?
Será que - num contexto de aquecimento global e de desertificação do interior - não se pode fazer nada?
--
Num registo completamente diferente: por aqui se vê que Portugal não está no radar do terrorismo islâmico - o daesh, que não costuma perder uma oportunidade de se apropriar de horrores alheios, nem se lembrou de vir reclamar para si a autoria desta catástrofe.
(eu a pensar devagarinho e a dar o dito por não dito): o daesh também não se lembrou de reivindicar os incêndios na Califórnia. Fui eu que, perante tamanho horror, fiz uma associação de ideias. Melhor dizendo: associação de imagens e de medos.

15 outubro 2017

mais histórias da RDA



Hoje esteve um belíssimo dia de outono em Berlim. Quase diria: melhor que o verão.
Andei na "minha quintinha", o talhão de meia dezena de metros quadrados por trás da casa, a fazer os preparativos para o tempo frio (calha bem que hoje é o dia mundial da mulher rural), depois fritei umas flores de abóbora em polme e fomos jantar com os vizinhos no terraço deles, que dá para a rua.
Acenámos à mãe do vizinho da frente, e convidámo-la para vir petiscar connosco. Ela veio, "só um minutinho", e daí a nada estava a suspirar, que vizinhos assim é que é, bem diferentes do que ela tem na pequena localidade onde mora, nos confins leste de Berlim.

"O meu vizinho deve ser uma boa peste, daqueles que dantes ouviam e viam tudo. Faça chuva ou faça sol está no jardim a controlar o que se passa na rua. Nem dá gosto ir para casa, sabendo que ele está lá feito espião. Já não estamos em tempo disso! Ui, que tempos aqueles! Sabem, o meu marido trabalhava numa fábrica enorme, e escreveu para lá uns cartazes. Eu decidi ficar caladinha e quieta, por amor ao meu filho. Se também eu começasse a fazer barulho, ainda mo levavam, para ser adoptado e educado por alguma família próxima do regime. Era o que eles faziam: metiam os pais na cadeia, e entregavam os filhos a famílias que os educavam conforme a ideologia do Estado. Os riscos que nós corríamos! Mas eu não queria fugir. Não queria que os meus pais sofressem, e sentia-me muito ligada à minha terra. Preferi ficar, e lutar para ir mudando as coisas. Mas também tinha de ter muito cuidado, para não me tirarem o meu filho.
Uma vez deram-lhe uma nota muito má em comportamento (para além das disciplinas, também davam notas de comportamento, aplicação, organização e participação), por ter faltado às comemorações do 1º de Maio. Inventámos logo uma mentira, que uma tia velhinha estava acamada e precisava de ajuda, e que tínhamos ido prestar o auxílio necessário. A tia estava cheia de saúde, mas nós é que não podíamos deixar que o rapaz fosse castigado por não andar no rebanho a cumprir ordens. Demos-lhe todo o apoio!"

- E não prenderam o seu marido?, perguntei eu.
- Não, teve sorte. O muro caiu antes de o virem buscar.

Falei de quando vivíamos em Weimar, e daquela vez em que o Matthias, de 6 anos, começou a contar à professora uma história familiar um bocadinho embaraçosa. Eu disse-lhe "Matthias, não é preciso contar tudo na escola" e a professora cortou: "ai isso é que é! à professora conta-se tudo!"
Por aquela altura a Christina ia fazer a primeira comunhão, e não pude impedir-me de imaginar como seria a nossa vida se isto se estivesse a passar 13 anos antes, num país que punia as pessoas que escolhiam permanecer na Igreja, e o Matthias se sentisse que era seu dever a contar à professora da escola primária tudo o que se passava em casa.

Ela continuou:

"Havia quatro raparigas católicas na minha sala da escola primária. Nos feriados religiosos elas podiam faltar à escola, mas no dia seguinte a professora humilhava-as em frente de todos. Eu ficava revoltada, até comentava em casa com a minha mãe. Depois da queda do muro encontrei essa professora numa estação de caminho-de-ferro. Disse-me:
- Eu conheço-te - és a Maria! Que bom ver-te!
- Eu também a conheço, e de ginjeira, respondi. Ponha-se a andar, nunca mais a quero ver!"

12 outubro 2017

fujam todos! o Robespierre hoje baixou no João Miguel Tavares, mas veio zarolho

Hoje o João Miguel Tavares acordou Robespierre. À boleia da acusação do Ministério Público a Sócrates sugere uma limpeza geral: para além dos 28 arguidos da operação Marquês, acusa todos os que apoiaram Sócrates - e até menciona os 1 568 168 portugueses que votaram nele em 2011, quando já deviam estar avisados (avisados daquilo que uma investigação com os meios da Operação Marquês levou todos estes anos para mostrar, mas adiante).  

Esperemos que amanhã acorde mais calmo. Pode ser que consiga então dar-se conta de que em política (e até na vida) as coisas não são 1 ou 0, que votar PS em 2011 (ou em 2005 ou em 2009) não é equivalente a ser groupie do Sócrates, que fazer parte de uma equipa política ou governativa de Sócrates não é sinónimo de fazer parte ou sequer ter conhecimento de algum esquema de corrupção, e que não é sério aproveitar-se do momento em que a teia manipuladora do capital sobre o poder político se torna visível para atacar apenas as pessoas à volta de Sócrates. Se é para ser Robespierre, então vá até às últimas consequências. Não vale ser um Robespierre que vê de um olho só.

E também pode ser que um dia destes, quando acordar um pouco mais calmo, possa explicar por que motivo decidiu incluir nesta sua crónica a questão do pedido de desculpas que o nosso país deve aos povos que explorou e desgraçou. É que uma pessoa com a experiência de João Miguel Tavares não pode ignorar que ao associar um dos lados de um debate - sobre algo que não tem nada a ver com o tema desta crónica - às pessoas que acusa de burrice ou desonestidade e que quer ver "cair com Sócrates" está automaticamente a desprestigiar aquela posição no debate.


***

Alguns excertos da crónica:

"Neste momento marcante da História de Portugal, em que um ex-primeiro-ministro é acusado de 31 crimes de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais e falsificação de documento, convém recordar que José Sócrates não caiu da tripeça por causa dos portugueses, que finalmente perceberam quem ele era. Caiu por causa da crise internacional, da falência do país e da vinda da troika. Sócrates obteve 36,6% dos votos em 2009 (mais de dois milhões de pessoas), já depois da revelação da licenciatura fraudulenta e das manobras para impedir a publicação de notícias; já depois da exibição do DVD do caso Freeport onde Charles Smith declarava que ele era corrupto; já depois de correr com Manuela Moura Guedes do programa de informação mais visto da TVI por não apreciar o estilo e as reportagens."

"Sócrates foi um extraordinário caso de popularidade, não só entre o povo, mas sobretudo entre as elites. E são estas elites que hoje em dia me preocupam, porque os ex-apoiantes de Sócrates continuam por aí como se nada fosse, nos blogues, nos jornais, nas empresas, no PS, no governo. Muitos dos que acham que os portugueses têm o dever moral de pedir desculpa por acontecimentos do século XVII, não vêem qualquer necessidade de pedir desculpa por acontecimentos de 2017. Não há qualquer acto de contrição por terem apoiado incansavelmente um homem que a cada três meses era suspeito de fraude, corrupção e atentado ao Estado de Direito, e que nunca, jamais, apresentou qualquer justificação decente para aquilo de que era acusado."

"É sobre Sócrates, sobre Salgado, sobre Vara, sobre Bava, sobre Bataglia, e sobre um regime construído por inúmeros ex-socratistas, que agora saem de cena na esperança de que esqueçamos o papel que desempenharem ao longo dos anos. Eu não esqueço. Aqui estarei para lembrar que Sócrates não ascendeu sozinho, não governou sozinho e, acima de tudo, não merece cair sozinho."


11 outubro 2017

lutar contra o ódio no quotidiano (3)

Dou-me conta - com alegria - de que os exemplos de pessoas que sabem desmontar os mecanismos do ódio são como as cerejas, e que uma história chama outra. Do Amos Oz ao Reuven Moskowitz.
Recupero um post que escrevi neste blogue em 2005:

Conheci o Reuven Moskowitz no ano passado, porque a minha vizinha se fartava de o louvar, muito feliz com a perspectiva de receber em sua casa este homem tão cheio de alegria e frescura, que recebeu o Aachener Friedenspreis por uma vida dedicada à construção de uma paz justa entre palestinianos e israelitas. Fomos ouvi-lo, e tivemos depois óptimas conversas bem acompanhadas de anedotas de humor habraico e vinho do Porto. Contou um pouco da sua vida na schtetl romena onde nasceu, evitou contar detalhes sobre o Holocausto, convidou-nos para ir a Israel conhecer alguns projectos e comunidades onde tem sido possível construir a paz (mas o Joachim recusou amavelmente, alegando alergia ao elevado teor de chumbo no ar).

Ontem [16.11.2005] esteve de novo em Weimar, e fui buscá-lo ao comboio. A caminho de casa, a conversa fluiu logo, como se fôssemos velhos amigos. Gracias a la vida, que tantas vezes me dá momentos destes! Contei-lhe sobre os meus primeiros tempos em Weimar e a pergunta automática que me fazia sempre que via uma pessoa de idade: "há 60 anos, de que lado estavas?". Ele riu-se, "ah! tive a mesma reacção quando vim pela primeira vez à Alemanha!", e acrescentou: "não podemos ser assim, porque esse é o tipo de mecanismo que dá mais força ao anti-semitismo."

Fiquei a pensar nesta imensa sabedoria de saber perdoar ou esquecer, para poder recomeçar o jogo com cartas não marcadas. Vê-lo assim - ele, que escapou ao Holocausto -, tão disposto a aceitar a Alemanha e os alemães, faz-me pensar no cântico dos anjos junto ao presépio: "e Paz aos homens de boa vontade".

No colóquio falou sobre os mecanismos que impedem a paz em Israel: a diabolização premeditada do inimigo, as assimetrias na distribuição de forças e nas negociações. Foi muito claro em relação aos alemães: "É um erro gravíssimo atribuir uma culpa colectiva a todo um povo - os judeus viveram dois milénios com a culpa colectiva da morte de Cristo, e agora são os alemães que vivem com a culpa colectiva do Holocausto. Isto está errado! Não se deixem amordaçar por esses que vos impõem um sentimento de culpa colectiva. Vocês têm uma palavra a dizer sobre o que se passa em Israel, e têm obrigação de se pronunciar!"

Criticou Israel com desassombro e conhecimento de causa. Que os conflitos militares foram provocados por Israel para aumentar o seu espaço territorial, que Gaza não passa de uma enorme prisão, que há uma estratégia deliberada por parte de alguns políticos israelitas de desumanizar os palestinianos para melhor permitir a sua exploração sistemática, que os palestinianos têm sido vítimas de pogroms, e que o seu ódio tem crescido devido ao estado de permanente humilhação em que vivem. E que o único caminho para a paz é desistir das tantas mentiras criados por motivos estratégicos e assumir a verdade, aceitar sentar-se à mesa com o opositor como um igual e não como um demónio (ou um "animal de duas patas", como um político israelita chamava aos palestinianos).

Um dos palestinianos presentes pediu a palavra, para falar sobre a sua cidade: 45.000 habitantes com um único check-point onde um soldado israelita de 19 anos dá livre curso ao seu sadismo, onde morrem pessoas porque a ambulância é obrigada a esperar várias horas, onde mulheres dão à luz em plena fila de espera no meio da rua. A cada nova frase o ódio tornava-se mais palpável - e compreensível. Não tenho experiência de debates assim, e senti pena do Reuven, que, ao tentar abrir caminhos para a Paz, se expõe desta maneira. As suas palavras, que ainda há pouco soavam tão libertadoras, perdiam a força e tornavam-se quase ocas, impotentes perante os horrores a que os palestinianos são sistematicamente sujeitos. Ele não se deixou intimidar pelo ódio. Falou do perigo de generalizar ("os judeus" ou "os palestianos" ou "os alemães" são conceitos que servem a lógica do ódio e da violência), e apelou para a necessidade de desarmar a região e criar uma confederação entre Israel, a Jordânia e talvez a Síria, com a possibilidade de livre movimentação para todos: qualquer palestiniano tem o direito de regressar à Palestina ("isso mesmo, apoiado!", dizia o palestiniano), qualquer judeu tem o direito de se estabelecer na Jordânia ("era o que faltava!", dizia o palestiniano).

E concluiu: temos que acreditar num futuro de paz. Olhem para mim: um judeu que escapou ao Holocausto e hoje tem alemães entre os seus melhores amigos. Isto não é um sinal de esperança?!

Para terminar, contou que no fim da guerra dos seis dias, onde foi soldado e se sentia o vencedor mais triste do mundo, estava encarregado de fazer respeitar a hora de recolha obrigatória num bairro. Algumas crianças começaram a espreitá-lo por trás de uma cerca, e ao vê-las ele percebeu o absurdo e o peso terrível das granadas, do capacete e das botas. Deu-lhes chocolates, e elas em troca ofereceram-lhe uma velha gaita-de-beiços, que ele aprendeu a tocar, em memória daquele momento.

Terminou a sessão tocando canções árabes, alemãs, e uma belíssima melodia para o seu salmo preferido:

"Qual o homem que deseja a vida e quer longevidade para ver o bem? Preserva a tua língua do mal e os teus lábios de falarem falsamente. Evita o mal e pratica o bem, procura a paz e segue-a."

--

O Reuven Moskovitz morreu a 4 de Agosto de 2017, uma semanas antes de fazer 90 anos. Estava a preparar mais uma viagem à Alemanha, onde tinha agendado várias palestras sobre a Paz.


lutar contra o ódio no quotidiano (2)

A propósito do post que escrevi com exemplos de como desmontar os mecanismos de ódio, uma amiga ofereceu-me este texto:

CONTRA O FANATISMO (conferências de 2012 - Alemanha)
AMOS OZ

Vou contar uma história em jeito de divagação: eu sou um conhecido divagador.
Um querido amigo e colega meu, o admirável romancista israelita Sammy Michael, passou uma vez pela experiência, por que todos nós passamos de vez em quando, de andar de táxi durante um bom tempo com um condutor que lhe ia dando a típica palestra sobre como é importante para nós, Judeus, matar todos os Árabes. Sammy ouvia-o e, em vez de lhe gritar. "Que homem horrível que você é! É nazi ou fascista?", decidiu ir por outro caminho e perguntou-lhe: "E quem acha que deveria matar todos os Árabes?"
O taxista disse: "O que é que quer dizer com isso? Nós! Os Judeus israelistas! Temos de o fazer! Não há escolha. Veja só o que nos fazem todos os dias!" "Mas quem, especificamente, é que deveria fazer o trabalho? A polícia? Ou o Exército, talvez? O corpo de bombeiros ou as equipas médicas? Quem deveria fazer o trabalho?" O taxista coçou a cabeça e disse: "Penso que devíamos dividi-lo em partes iguais entre cada um de nós, cada um de nós devia matar alguns."
E Sammy Michael, ainda no mesmo jogo, disse:"Pois bem, suponha que a si lhe toca um determinado bloco residencial da sua cidade natal, Haifa, e que bate às portas ou toca às campainhas, e pergunta: "Desculpe, senhor, ou desculpe senhora. Por acaso é árabe'" E se a resposta for afirmativa, você dispara. Quando acaba o seu bloco, dispõe-se a regressar a casa, mas ao fazê-lo," continua Sammy "ouve, algures no quarto andar do seu bloco, o choro de um bebé. Voltaria para matar o bebé? Sim ou não?"
Houve um momento de silêncio e, então, o taxista disse a Sammy:
"Sabe, o senhor é um homem muito cruel."

10 outubro 2017

cá por casa

Ontem o Matthias veio cá jantar e ficou para dormir. O Fox ficou feliz: estamos completos!
("O Fox", hehehehehe)

Esta manhã ouvi a Christina a protestar no quarto:

- Matthias! Não fizeste a cama! Usaste a minha toalha! Que nojo! Blablablabla!

O Matthias foi ter com ela:

- Que é que Jesus Cristo nos ensinou?

- Hã?

- "Cala a boca e não chateies, senão ainda acabas pregado a uma cruz."

(Não admira que o Fox goste tanto de os ter por cá...)


09 outubro 2017

era para ser um post tipo Hola, mas depois o texto foi noutra direcção e eu - que remédio! - fui atrás

http://www.rtp.pt/play/p2850/os-dias-da-historia




O Badinter! O marido da Badinter, a que escreveu O Amor Incerto e Um é o Outro.

Como é possível ela escrever livros que apontam para o o século XXI, enquanto ele defende medidas que tiram a França do século XIX?!

Isto é um caso flagrante de uma França a duas velocidades.

 

oportunidade

Estou aqui a pensar se aproveito esta semana para dar um arranjo aos parafusos.

(Há um congresso de psiquiatria em Berlim, tenho psiquiatras nos dois quartos airbnb.)


08 outubro 2017

puré de marmelo


Por causa de ter posto esta foto no facebook, deram-me uma receita de puré de marmelo. Só para que não digam que eu sou de sonegar informação, aqui vai ela, tal e qual como a recebi (com um grande muito obrigada à Maria José C.):

1. num alguidar com água espremer o sumo de um limão (se for pequeno cortar em quartos e deitar a casca);
2. lavar os marmelos com uma escova (eu uso o esfregão verde) para lhe tirar aquela penug
em;
3. cortar em quartos, com casca e deitar para dentro do alguidar que tem a água e o limão;
4. pôr no lume uma panela com água para ferver;
5. enquanto esperamos que a água entre em ebulição vamos retirar as sementes (podem aproveitar-se para fazer geleia) aos quartos de marmelo que colocamos na mesma água;
6. no fim de todas tiradas lavamos rapidamente e colocamos na panela;
7. juntamos uma maçã ou batata ou ambas pois irá depender da acidez dos marmelos, do tamanho, daquilo de que dispomos e do tamanho das peças, por exemplo hoje fiz com as duas que eram assim mais ou menos de um ovo tamanho xxl para 2kg, a olhómetro, de marmelos depois de arranjados.  

As receitas tradicionais falam em colocar açúcar mas como cá por casa deixou de se comer a opção encontrada foi essa para tirar a acidez;
8. juntar um dente de alho e uma pitada de sal;
9. tampar e quando levantar fervura baixar para o mínimo;
10. quando o garfo entrar sem problemas está pronto;
11. escorrer a água para o esgoto ou para uma sopa eu hoje optei por esta última pois tinha ali um restito que nem para um chegava pelo que ficou assim um caldo de beber quase tipo consommé
12. colocar natas frescas ou manteiga ou ambas e triturar com a varinha mágica ou com um garfo como por cá o leite foi banido ficamos assim mas para quem ainda o usar pode pôr em vez das natas.
13. retificar os temperos e pôr mais alguma coisa ao gosot do freguês que pode ir de açafrão, pimenta, noz-moscada...

Et voilá. Bon appétit.


PS: quando se tem muitos, que é o meu caso, utilizando a mesma técnica até ao ponto 6 só que em vez da panela é arca congeladora e vai-se fazendo o puré até à época seguinte.






07 outubro 2017

coisas do Xavier




Esta foto transforma o Xavier num furacão "fofinho", ideia também transmitida pelos comentários do 9gag onde a encontrei: "psiu, deixem as árvores dormir" e "na Alemanha até as árvores caem de maneira a não impedir os alemães de chegar pontualmente ao trabalho".

A brincar que o digam, mas a minha filha saiu à rua na altura de maior violência do vento porque tinha uma reunião com uma professora para preparar um exame. E a minha irmã, que estava na ilha dos museus, tentou ir de um museu para outro. Demorou imenso tempo, porque sempre que levantava um pé o vento a empurrava para trás.

Em Berlim morreu uma mulher que saiu do carro para desimpedir a estrada. Esta morte trágica (e houve mais seis vítimas mortais), e o susto que senti quando as minhas raparigas disseram que tinham saído à rua durante o furacão, faz-me pensar que a espécie humana está a perder o instinto de sobrevivência.

Algumas imagens do Xavier:






Perto da minha casa, foi assim:



E no Ku'damm, junto à Igreja da Memória, assim (fotos tiradas de dentro do carro, com chuva):





Num registo de humor, acrescento ainda os estragos que aconteceram aqui na minha quintinha berlinense: 40% da produção de marmelos atirada ao chão.
(A árvore deu cinco, e encontrei dois caídos no chão. Os outros três já eu os tinha tirado.)


o muro


O Spiegel tem hoje uma notícia (de onde tirei a foto) sobre Viktor Orbán ter apresentado uma conta de 400 milhões de euros à Europa, que representa metade dos custos do muro de protecção da fronteira europeia na Hungria. O artigo fala da falta de transparência nas contas apresentadas, e da suspeita de que o político tenha favorecido empresas que apoiam o seu partido, mas nem reparo.

Só vejo este muro - este muro, na fronteira da Europa! Vejo o muro, e vejo a nossa cara de hipócritas quando criticamos o muro do Trump.


bibelots

(diz-me o google que a foto é de Pedro Coimbra, no http://devaneiosaoriente.blogspot.pt/)

A propósito desta "escultura" que homenageia o fado de Coimbra, lembrei-me de um amigo que fala com desgosto da mania do presidente da Câmara de Ponte de Lima de espalhar "bibelots" pela cidade. Aquela bonecada junto ao rio Lima com os soldados romanos de um lado e o centurião do outro, aqueles bronzes meramente descritivos de um Portugal rural e de carinha lavada...

Imagino que o presidente da Câmara de Ponte de Lima tenha o menino da lágrima na sala da casa dele. E que o de Coimbra terá na sua sala os calendários que dantes se viam nas lojas dos sapateiros...

Perante este rabo que tanto revela sobre quem o fez e quem o pagou, pergunto-me como seria a escultura no Arco de Almedina se o instrumento do fado de Coimbra fosse a gaita-de-foles...

(fonte)


(Acabei de descobrir no pinterest uma colecção de escatologia à moda dos antigos. Por sorte são horas de levar o Fox à rua. Vade retro, tentação!)


05 outubro 2017

hoje em Berlim

Coisas da vida: quando estava a sair para levar o Fox ao seu passeio, chegou o Xavier. O Xavier é o temporal que está a passar pelo norte da Alemanha, e já matou uma pessoa em Hamburgo. 
O Fox está cada vez mais aflito, mas não sei que me parece levá-lo a passear no meio desta ventania. Ainda leva com não sei quê na cabeça. Ele, e eu. Estou a pensar levar um capacete de bicicleta. 

ADENDA: já fomos, já voltámos. Conseguimos passar entre as rajadas de vento...

 Mas a situação é séria - os bombeiros declararam estado de emergência. No centro da cidade há uma série de árvores caídas, a S-Bahn não anda. Daqui a bocado saio de carro para ir recolher os familiares que tenho espalhados pela cidade. E depois vamos à Filarmonia - espero que seja uma construção sólida...

Ilhas Feroé



Não sei se me apetece fazer férias numa terra que tem quarenta palavras diferentes para nevoeiro, mas gostei do anúncio.

Publicidade excelente. O filme em si, e o que vem depois: carrega-se em "saber mais", e entra-se no "Faroe Islands translator". Escreve-se uma palavra qualquer, e aparece um pequeno filme com alguém de lá a dizer a tradução. Se a palavra ou frase ainda não estiver traduzida, é enviada para alguém que traduza. Enquanto esperamos, mostram-nos imagens maravilhosas da ilha. E daí a nada aparece o filme de alguém que traduz directamente para nós. No meu caso: uma senhora muito simpática, que disse a minha frase pateta em - hã? como é que se chama a língua deles? - e me sorriu.

Experimentem. Isto é mais que bom: isto dá vontade de ir lá agradecer pessoalmente àquela gente simpática. E para mais a terra é linda de morrer. Excepto aquela parte de ter tanto nevoeiro, e tão diverso, que o designam com quarenta palavras diferentes. 


o script era bom, o elenco é que...


A culpa de o Nobel não ter ido para o Lobo Antunes é do Ivo Ferreira. Tivesse ele posto o Anthony Hopkins a fazer de António e a Emma Thompson a fazer de Maria José, e a história seria outra.

É o problema das produções nacionais: não há dinheiro para nada, e dá nisto.

(Ponho-me com estas piadinhas, e depois acho estranho se o Miguel Nunes e a Margarida Vila-Nova passarem por mim na rua e fizerem como se não me conhecessem de lado nenhum...)

(Para quem não percebeu a gracinha: eles não me conhecem de lado nenhum.)

(Espero que os meus filhos não leiam isto. Iam comentar: "ui, hoje a mãe engoliu um palhaço ao pequeno-almoço.")


se isto não é um sinal, não sei o que possa ser um sinal!

Esta noite sonhei que estava a sonhar que tinha uma vida muito boa mas havia uma ansiedade de querer ainda mais. Dentro do sonho olhei para essa que sonhava, critiquei aquele exagero de ambição, e pensei que quando acordasse escrevia uma crónica sobre esta história.

Se isto não é um sinal, não sei o que possa ser um sinal!

Se houvesse ainda dúvidas, deixava agora de haver: hoje é o dia do Lobo Antunes. O Nobel é dele.


ADENDA:
Kazuo Ishiguro?!!!!
Eles estão é mazé todos malucos!


04 outubro 2017

Nobel da Literatura 2017 - é já amanhã!

Amanhã anunciam o Nobel da literatura de 2017.
Aposto com quem quiser que desta vez vai para Portugal.


(e não, não vai ser para o - como é que se chama aquele gajo que não sei quê jornalista e produz em catadupa, quase como eu quando ando com gastroenterite?) (nem para o arquitecto) (e nem para um blogue que eu cá sei, embora me pareça que depois do teatro, do jornalismo e da música, já começava a ser tempo de darem o passo seguinte)

a culpa começou por ser da Hola

A culpa começou por ser da Hola: habituou-me a ver este Filipe de Espanha como um simpático figurante.
A culpa começou por ser da Hola, mas agora é dele.

(E nem sequer tenho opiniões firmes sobre a independência da Catalunha. Apenas tenho opiniões firmes sobre um governo que usa a força bruta contra cidadãos que querem pacificamente exprimir a sua vontade. Uma crise destas não se resolve nem com força bruta nem com um discurso tipo paizinho a falar com os filhos de três anos - e muito menos com um discurso tipo paizinho a falar com os filhos de três anos depois da força bruta.
"Eu bato-te, mas é para teu bem"?!
Mais valia ter ficado sossegadinho dentro da Hola.)




02 outubro 2017

lutar contra o ódio no quotidiano

Sob o choque do massacre em Las Vegas, e sem saber ainda o que levou aquele tresloucado a cometer tamanho crime, volto à questão primordial dos mecanismos da nossa sociedade que semeiam e alimentam o ódio no quotidiano.

Um dos meus desafios é ser capaz de encontrar as palavras certas para tirar a carga de violência a uma situação. Muito mais importante que "meter as pessoas na ordem" é conseguir escapar à lógica do ódio. É difícil, e raramente consigo. Permanece um desafio. Algumas histórias, a propósito:

I. Já contei esta várias vezes: num retiro, durante uma refeição duas pessoas começaram a conversar sobre música clássica. Às tantas, uma delas exclamou em voz demasiado alta:
- O quê?! O senhor não conhece Brahms?!
O senhor que não conhecia Brahms ficou muito enfiado, a morrer de vergonha. A sala encheu-se de um silêncio desconfortável. E então, outra pessoa disse:
- Vejo que gosta muito de Brahms. Quer-nos contar algumas coisas sobre ele? Qual é a sua sinfonia favorita?

II. Há dias a Christina contava-me que vinha de noite num autocarro e reparou que havia um passageiro de pele escura, provavelmente embriagado, que estava a dormir. Estavam a chegar ao fim da linha, e ela decidiu ficar por perto para ver o que acontecia. Viu o motorista dirigir-se ao passageiro, viu que o chamava aos gritos, e que assobiava. Quando ouviu o barulho de uma pancada forte voltou para o autocarro e pôs-se a olhar, para impedir que o motorista fosse violento. Conversámos sobre isso, e concluímos que não basta olhar. Melhor teria sido ela dizer ao motorista: "tem aqui um passageiro adormecido - deixe estar, que eu acordo-o para ele sair".
"Dar o exemplo", rematou ela.


III. No metro, reparei em duas miúdas de hijab. Uma delas tinha dois balões de hélio - um 1 e um 8. Provavelmente faria 18 anos nesse dia. A outra mexeu na bolsa, e deixou cair ao chão dois lenços de papel usados. Olhei para o lixo no chão, pensei coisas feias que não repito aqui. Ela reparou nos lenços, apanhou-os do chão e pousou-os no banco. Voltei a pensar coisas feias, e senti-me mesquinha: não sabia se a miúda ia deixar o lixo ali ou o levava com ela no fim da viagem, mas já estava a pensar o pior possível dela. E o hijab ajudava a aumentar o fosso da desconfiança: "estes estrangeiros que não respeitam os costumes do país!"
Decidi mudar de atitude. Ao sair, sorri à miúda dos lenços, expliquei que ia deitar fora um saco de papel e se quisesse podia levar também o lixo dela. Ela meteu o lixo no meu saco, e eu dei os parabéns e desejei um belíssimo dia à miúda que fazia anos, que me sorriu com um ar feliz.

IV. Há vários anos, quando ainda morava em Weimar, vi três rapazes a gritar a uma mulher. Um deu-lhe uma bofetada. Atravessei a rua furiosa, ia ralhar, mas enchi-me de medo das consequências, e lembrei-me também de como os meus filhos me gozavam quando ralhava com eles em alemão. De modo que optei por uma frase minimalista: "que é que se está a passar aqui?"
Um dos rapazes veio ter comigo e explicou o que se tinha passado. Eles estavam a conversar em frente à loja, e a mulher quis mandá-los embora, dizendo que não podiam estar ali. A discussão descambou para a bofetada que eu vira. Dei-lhe razão, ela não tinha direito de os tratar assim, mas eles também não lhe podiam bater. Deu-me razão. Daí a nada, os três foram-se embora.
Por causa de não me sentir em casa no idioma deles, em vez de ralhar fiz perguntas. Foi por acaso, mas consegui desfazer uma situação de violência.

V. No sábado, a caminho do supermercado, reparei num homem que estava a mandar vir com dois sentados numa esplanada. "A minha vontade era partir isto tudo!", gritava ele. E um dos homens, sentado, dizia-lhe com voz grossa: "desapareça daqui! Eu quero tomar o meu pequeno-almoço em paz!"
O homem afastava-se, e daí a nada voltava outra vez: "Estou com uma fúria tal que era capaz de partir tudo! Era o que vocês mereciam todos!"
E o outro: "Vá-se embora! Deixe-nos em paz!"
Ando há dois dias a pensar que devia ter ido falar com o furioso: "O senhor está mesmo zangado! Acha que se eu lhe oferecer um cappuccino se vai sentir melhor? Prefere um chá? Uma água fresca?"


massacre em Las Vegas



Trago do Bildzeitung:

Um homem fecha-se num quarto num 32º andar de um hotel, aponta para um festival onde há trinta mil pessoas, e começa a disparar. 280 tiros em 31 segundos. Alguém contou que ouviu e pensou que era fogo de artifício, até que as pessoas ao seu lado começaram a cair.

Dentro do quarto de hotel o fumo é tanto que o alarme de incêndio dispara, revelando a localização do atirador. Quando a polícia entra no quarto encontra o homem morto.

Era Stephen Craig Paddock, um branco de 64 anos, que vivia em Mesquite (uma localidade a 120 km de Las Vegas), já conhecido da polícia. Entrou no hotel na quinta-feira, tinha 10 armas consigo. Tinha licença de porte de arma e de piloto de avião.
Não se conhecem ainda os seus motivos.

O desconserto do mundo: sempre houve loucos entre nós, e sempre houve ódio - religioso ou outro.
Mas nos nossos dias a loucura e o ódio têm à sua disposição armas muito mais letais do que tinham no passado. O progresso vira-se contra o seu criador.  

Desta vez foram mais de cinquenta vítimas mortais, pessoas que estavam a saborear pacificamente um concerto em Las Vegas. Daqui a algum tempo saberemos o que levou aquele homem a cometer este massacre. Para já, penso apenas no terrível sofrimento das suas famílias e dos amigos, penso no choque dos sobreviventes.




Oh Lord, won't you buy me a Mercedes Benz?


Não tem nada a ver, mas enquanto lia este texto lembrei-me dos nossos primeiros dias nos EUA. O Matthias tinha 3 anos, ensaiava os primeiros passos no inglês, e esta era a sua canção preferida. É certo que, para ele, era um texto relativamente fácil de aprender, porque tinha algumas palavras que qualquer alemãozinho do sul da Alemanha conhece bem - mas havia nesta canção algo que lhe fazia brilhar os olhos.

Nesta, e no Master of the House, de Les Misérables. Sim, uma das primeiras coisas que fiz naquela terra foi levar os miúdos, de 3 e 5 anos, a esse musical, e depois disso andámos a ouvir o CD em repeat.

(Avisem a polícia: há uma mulher a descer a Memory Lane em pijama, agora mesmo foi lá avistada)